domingo, março 01, 2015

Respirei fundo

Como a água estava fria, usávamos os pés para nos movimentarmos, assim não só mantínhamos nossos corpos aquecidos, mas também flutuávamos entre as ondas. Ele, mais do que eu, era ágil com as mãos, queria a todo custo tocar meu corpo. Mas o que me provocou quentura mesmo foi um afago diferente que ele me fez. Nunca havia percebido que alguém, apenas num ligeiro deslizar de mãos, pudesse me provocar um orgasmo enquanto tentávamos escapar da arrebentação.

Tudo começou uma hora antes. Eu andava no calçadão, na altura da Rainha Elizabeth. Queria um quiosque para tomar água de coco. Mas não sei o que me deu. Ao olhar as bebidas expostas, vi uma garrafa de vodca, e aquela marca não era comum nos quiosques.

O senhor faz uma caipivodca para mim com aquela vodca ali?

É pra agora, o empregado não pestanejou.

Eu vestia meu biquíni vermelho, não é tão pequeno mas deixa os homens loucos; uma camiseta justa me cobria até o umbigo. Trazia no ombro a bolsa. Pronta a bebida, comecei a mordiscá-la.  Descobri então um homem que me admirava, e já devia estar ali fazia tempo. Dei uma ajeitada na pose, tomei o copo nas mãos e fui até uma cadeira vaga, numa das mesas que me permitia olhar quem andava no calçadão. Ele se aproximou.

Posso sentar aqui?, quase não há lugar.

Ok, fiz ar displicente.

No começo, fingiu não querer nada comigo. Olhou a paisagem, as pessoas, o empregado do quiosque.

Essa bebida é ótima, não?

É, falei e continuei indiferente.

Deixa a gente a mil.

Poucas palavras as suas, mas suficientes para me calar. Lembrei uma amiga que sempre diz que caipirinha é bom porque sobe pelas pernas em questão de minutos.

Respirei fundo. Ele prestou atenção.

Essa sensação passa, mas só depois de meia-hora, a não ser que se encontre um grande amor, falou.

Não aguentei, tive de rir. Um tempinho depois contei o que minha amiga me dissera.

Ainda dentro d’água. Ele já conseguia me segurar pela cintura, puxou meu corpo para junto dele. Não ofereci resistência. O mar nos levava para cima e para baixo. Às vezes, espumas nos invadiam. Ele beijou minha boca. Deixei que sua língua me ultrapassasse os lábios. Deslizou várias vezes as duas mãos pelas minhas costas, me aprumou rente a ele, ventre contra ventre.

Você não teme o mar?, perguntou.

Só quando há correnteza.

A correnteza hoje são as minhas mãos, os meus braços, os meus lábios; tacou-me mais um beijo.

Nadamos um pouco mais adiante, flutuamos atrás da arrebentação.

Calma, falei, assim você me deixa nua.

Ele havia puxado o meu biquíni, descera até as coxas, um pouco acima dos joelhos.

Você é muito gostosa.

Vamos fazer uma coisa, falei, namoramos como duas pessoas decentes, depois você me leva para onde quiser e lá...

Tudo bem.

Foi assim que aconteceu. Acabei no apartamento dele, ali na Djalma Ulrich. Fiquei até pouco depois de meia noite. E ainda estava de biquíni. Antes de partir, porém:

Você não tem uma camiseta comprida para me emprestar?, pedi.

Tenho, mas só aceito se for uma troca, ainda que temporária.

Troca?, fiz cara de que não entendi.

Ele olhou para o meu biquíni.

Jura que você quer?, perguntei.

Brincadeirinha.

Ele foi ao quarto pegar a camiseta. Enquanto isso entrei no banheiro, tirei o biquíni e o dependurei na torneira do chuveiro. Ele me passou a camiseta pelo vão da porta. Vesti e me olhei no espelho. Caiu bem, era como se eu usasse um minivestido.

Ao sair, beijei meu recente namorado mais uma vez. Ele insistiu querendo-me levar em casa.  Eu disse que não era necessário. Tomei o elevador e desci.

Desejava andar pelas ruas de Copa, apenas a camisa curta prestes a revelar minha nudez, ou lhe deixara o biquíni como um mimo? Nada disso, o ardil tinha outra intenção. Que ele me procurasse na manhã seguinte.

domingo, fevereiro 22, 2015

Ele adora me ver sem sutiã

Ele adora me ver sem sutiã. Apenas a calcinha, e bem pequena, entrando toda no bumbum. Mas um dia desses aconteceu um problema. Não digo que seja ele o culpado, eu também andava gostando da brincadeira. Nossa cidade não é grande, mais cedo ou mais tarde todos acabam se conhecendo. Há pessoas de famílias tradicionais, que vivem aqui desde uma época que já se perdeu no tempo; há outras que vieram há duas ou três décadas para trabalhar na industrialização que começava. Minha família é desta época. Há também empregados que ficam na cidade apenas nos dias de semana, sexta à noite voltam para os seus lugares de origem. Isso tudo para contar o que me aconteceu de anormal, vejam só. Meu namorado, com tais gostos extravagantes, passou a pedir que eu saísse sem sutiã. No princípio, não aceitei; depois, fiquei na dúvida. Até que, num dia desses, resolvi arriscar. Para muitas mulheres, andar por aí sem sutiã é a coisa mais normal do mundo. Para mim não foi tão fácil. Na primeira vez me senti nua, e olha que costumo ir à praia com um biquíni mínimo. O dia em que saí apenas com uma blusinha de verão por cima da pele foi para ir a um restaurante. E meu namorado me prometeu que seria à meia luz. Promessa cumprida. Fiquei achando, porém, que todos estava olhando para mim e descobrindo meus seios. Na vez seguinte, fui sem sutiã a uma discoteca. Estava uma loucura. Nem houve tempo para eu pensar que os homens me adivinhavam nua. Mas um dia na praia, quando ficamos num bar bebendo e comendo uma besteirinha, reparei um homem que me olhava com insistência. Ele estava em outra mesa. Apesar de eu ter estado de top durante o tempo em que fiquei na praia, ao irmos ao bar meu namorado pediu que eu fosse ao carro e que voltasse apenas de camiseta. Dois dias depois dei com o mesmo homem na condução, enquanto eu ia para o trabalho. Achei que fosse coincidência. Três dias depois, quando voltava a um dos restaurantes com o namorado, o homem estava lá de novo. Concluí que estava me seguindo. Comecei então a ficar preocupada, mas nada falei ao meu namorado. Na semana seguinte fomos à praia, era de tardinha. O tempo estava fresco. Logo ao entrar na água, meu namorado começou a me abraçar, a me beijar, a passar as mãos por todo o meu corpo. Não demorou a pedir que eu tirasse o top. Pode aparecer alguém, alertei. Não aparece não, falou, a praia está quase vazia. Fiz a vontade dele. Ele pegou meu top e levou lá para a areia, onde estavam as nossas coisas, como a cadeira de praia, minha bolsa e uma toalha. Fiquei com os peitos nus, debaixo d’água. Meu namorado, ao menos naquele momento, teve razão. Ninguém à vista. Três dias depois fui à praia sozinha. Fazia um calor intenso. O namorado disse que, caso resolvesse o problema de uma construção sobre a qual era o responsável, viria à orla mais tarde encontrar comigo. Para minha surpresa, logo que mergulhei, após ter permanecido meia hora sob o sol, dei de cara com o tal homem que me seguia. Aproximou-se e perguntou como eu estava passando. Nada respondi. Tentei me afastar. Ele falou outro dia vi que você tomava banho sem o top, seu namorado gosta da brincadeira, não é mesmo? Fiquei desconcertada. Mas mantive a pose enquanto voltava à areia. O homem não me abandonou, Afastou-se, porém permaneceu nas proximidades. Reparei que continuava de olho em mim. Naquele dia, meu namorado não apareceu. Às duas horas, voltei para casa. Andamos por bares e restaurantes, festas e algumas boates, eu sempre sem sutiã e usando roupas de acordo com o desejo do meu namorado. O homem que me seguia desapareceu durante alguns dias, mas não desistiu. Confesso que comecei a gostar de estar sendo admirada por dois homens, muito másculos por sinal. Três semanas depois voltei sozinha à praia. O homem, quase como um fantasma, apareceu ao meu lado, na areia. Oi, gata, quanto tempo, que saudade, ele disse. Tive de rir. O que ele encarou como sinal de vitória. Conversamos um pouco. Entramos na água. e acabei nos braços dele. A cidade não é grande, sussurrei, logo aparece uma conhecida. Deixa comigo, ele retrucou. Ficamos abraçados, bem longe da areia, eu de costa para aquele pequeno mundo. Dali fomos direto a um motel, numa cidade vizinha. Cheguei em casa quase à noite, ainda vestindo o biquíni. Ou sem ele!, o homem me deixou louca. Passei a namorar os dois, mas morta de medo de ser descoberta. O segundo, que eu chamo de namorado fugidio, sempre me tranquiliza. Deixa que eu resolvo, afirma com toda a segurança do mundo. E resolve mesmo: exige muito mais de mim do que andar sem sutiã.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Chá de cadeira

Estava na cafeteria, na Rainha Elizabeth, havia pedido um expresso e um croissant, quando apareceu a Hellen.

"Oi, que bom encontrar você, posso sentar aqui?", perguntou e sentou antes de eu responder.

"Oi, tudo bem?, que bom te ver", tentei ser simpática.

“Quer dizer que ele te deu um tremendo chá de cadeira?”, perguntou, ardilosa.

“Chá de cadeira?”, fiz de conta que não entendi.

“É porque ele é muito assediado. Você precisa ver, todas as mulheres vão atrás dele.”

Engoli a seco e comecei a pensar no perigo que eu corria.

O namorado quase me caíra do céu. Tinha um escritório no mesmo prédio onde trabalho com moda. Sempre me cumprimenta e faz olhos compridos às roupas que uso.

“Você tem bom gosto”, óbvia, a opinião dele.

Como Helen soube do chá de cadeira?, pensei.

“Ele usa uma pasta larga, não é mesmo?”, ela continuou. “Não sei o que leva lá dentro, mas é grande para um advogado.”

Gelei. Será que ela sabia? Como?

“Oi, meu amor, que bom você ter vindo, tenho um tempinho”, ele levantara e viera me beijar. O escritório de um bom gosto incrível. E há um divã.

“Pra que o divã?”, cheguei a perguntar à primeira vez.

Ele apenas sorriu. Não demorei a entender.

“Dizem que ele dá muitos presentes a todas as namoradas”, Helen afirmou eufórica.

“Você já o namorou?”, demonstrei ciúme e curiosidade.

“Quem dera, nunca tive tamanha sorte”, suas palavras revelavam certo ar de frustração.

Ao dizer que tinha um tempinho, eu já entendia o que ele desejava. Me levantava, girava meu corpo no ar e depois me deitava no divã. Num desses dias de namoro fez a proposta.

“Você espera por mim?, não demoro. Assim, quando estiver de volta faço mais carinho em você.”

“Espero na minha sala”, sugeri.

“Não, por favor, fique esperando aqui.”

“Tenho também de trabalhar.”

“Você trabalha pelo telefone, pois ligue daqui.”

“Ok”, acabei cedendo.

“Quero ter certeza de que você não vai embora”, acrescentou.

“Não vou, prometo.”

“Levo seu vestido. Assim você não vai poder sair.”

“Meu vestido?”, chegue a suar ao ouvir a proposta. “Quer dizer que vou ficar pelada, aqui?”

“Isso, o que há de mais?”

“E se você não volta?”

“Você acha que vou abandonar meu escritório?”, ele riu, como se fosse algo mais absurdo do mundo. “Trata-se apenas de um jogo.”

“Não sei, isso parece brincadeira de criança”, retruquei.

“É bom ser criança em alguns momentos, não?”

“Não sei. Lutei tanto para amadurecer.”

“Ok, então vá a sua sala. Foi apenas uma proposta indecente. Ah, lembra a pulseira?, encontrei o ourives. Encomendei uma pra você”, sorriu no fim da frase e veio me beijar.

“Ok, doutor”, falei com ironia, “pode levar meu vestido. Eu espero.”

Ele se foi todo feliz. Resolvi tudo que tinha de resolver, pelo telefone. Meus clientes jamais saberão que, apesar de trabalhar com moda, liguei para eles inteiramente nua. Meu namorado? Demorou quase três horas para voltar. Me deu um tremendo chá de cadeira! Mas a pulseirinha, que linda...

Veio a garçonete com o meu expresso e o croissant; perguntou a Hellen o que desejava. Mas ela estava interessada na minha vida mais do que eu. Oh, pensei, por que nada pode ser perfeito?

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Ainda bem que existe o carnaval

Sempre fui tímida. Arranjar namorado, nem se fala. Caso alguém venha falar comigo, fico desarmada. Não tenho palavras para sustentar um diálogo nem por dois minutos. Ainda bem que existe o carnaval, a festa que nos faz virar a cabeça. No meu primeiro carnaval, quando já me sentia um pouco mais madura, fantasiei-me de colombina. Levei, porém, uma máscara. Não estava preparada para brincar de rosto descoberto. Outro ponto que combinei comigo mesma naquele ano, não me divertiria perto de casa. Escolhi um bairro distante e lá fui eu. Não sabia que seria tão fácil dançar, e até arranjar namorado. No começo, deixei-me levar pela música, pelos tambores e, depois, pelas mãos dos rapazes. Como não era conhecida no lugar, não havia nada de mais me divertir, permitir até mesmo que me beijassem. Já naquela época, pelo menos nas primeiras horas de diversão, sempre achei melhor fugir dos rapazes que me queriam exclusiva. Misturava-me à multidão e aparecia na outra ponta do cordão, ou mesmo algumas ruas à frente, quando, furtiva, podia apreciar outra música, outro ritmo, outros homens e deixar, pouco a pouco, que escorregassem seus braços pelos meus ombros e cintura. Com o passar do tempo, tornei-me desinibida. Já não usava máscara, e não fugia assustada dos primeiros foliões que me queriam abraçar. Apenas os recusava polidamente e marchava adiante, sempre no ritmo da música. Outro ponto, oferta que a passagem dos anos me proporcionou, foi o despojamento da fantasia. De carnaval a carnaval, preparava uma roupa mais confortável e, não posso deixar de salientar, menor. Os homens são tarados por mulheres nuas. Além de fazê-los enlouquecer, sentimos um gozo todo especial ao andarmos nuas pela cidade. Portanto, minhas sainhas da fantasia subiam cada vez mais, ou mesmo desapareciam. Ora usava short, ora biquíni. Algumas pessoas devem desejar saber como é possível estar fantasiada vestindo apenas biquíni. É plenamente possível. Pode-se ressaltar a época que se deseja representar. Como era o biquíni nos anos 1950? Como nos 70? Como nos 90, ou mesmo nos nossos dias? Por isso, a cada dia de carnaval, é possível espelhar uma época. Claro que o observador deverá ter conhecimento desses períodos para compreender a fantasia. Mas aí o problema já não é meu. Outro ponto: como, ao usarmos um minúsculo biquíni, podemos transmitir a ideia de que não convidamos os homens a nos deixarem nuas ou a não transarem conosco? Será preciso, então, demonstrar que o nosso objetivo é dançar, pular carnaval, e que braços e mãos daqueles que nos admiram devem ficar distantes. Mas para isso precisamos ter muita energia. É necessário dançarmos sem parar. Assim, deixaremos exausto qualquer um dos rapazes. Acompanhar toda a nossa alegria tornar-se-á para eles impossível. Ficarão para trás. Como ter tanta energia? Mas sobre isso nada falamos, é o nosso segredo. Outra fantasia, já antiga, que arrasta uma fileira de homens atrás da gente – pude constatar faz três anos – é a saia de franjinhas. Aquele tipo de minifantasia que obriga os homens a torcerem o pescoço ao cruzarem conosco. Eles têm razões para querem certificar se usamos calcinha ou se vamos nuas. Trata-se de uma das minhas fantasias preferidas. Mas no carnaval que estou vivendo agora, optei por um tipo de canga especial, de renda, como um vestido de noiva, com apliques aqui e ali, evitam, desse modo, a total transparência. O tecido fino cobre e, ao mesmo tempo, desnuda o meu corpo. Desperta também a curiosidade dos homens: há algo sob a fina teia? Ao mesmo tempo, posso amarrar a renda do jeito que desejar. Ora como um tomara que caia, ora cruzando o pescoço e deixando entrever um pedaço de seio (será que vai solto ou há algum suporte invisível?, pois se mantém tão rijo). Mais um segredinho, sempre prefiro os espaços descampados, as ruas largas, o ar por sobre a minha cabeça, ou mesmo a água a molhar-me o corpo caso venha a chuva. Nada de me divertir encurralada em camarotes estreitos dos bailes de carnaval. Nada de estar nas mãos de homens destemperados. Ou melhor, não quero pano algum meu segredado pelas mãos deles. Basta-me o arrepio da rua, basta-me o perigo aparente do folião imprevisto, meu suposto algoz. Apenas suposto, porque na hora agá gozo. Apesar da timidez, tenho o poder de perceber no lampejo dos seus olhos a virtude de esperar primeiro a satisfação das mulheres. E continuo na folia. Diálogos? Lembram lá em cima? Jamais sustentei. Nem por dois minutos. Nem para pedir de empréstimo a camisa caso, no fim da folia, surpreenda-me o raiar da quarta-feira.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Ela mostrou o bumbum

Célia, neste bairro acontece cada coisa impressionante. Sempre digo, Copacabana é um celeiro de todo tipo de história, você que gosta de escrever, ouça, de repente, quem sabe, surge mais um conto.

Clara, você também é uma ótima narradora.

Sei que sou, mas estou mais para a oralidade, para as fofocas. Está rindo, Célia? Verdade. Então escute. Um amigo, o Sérgio, estava andando pela praia num dia desses ao entardecer, uma dessas caminhadas que as pessoas exercitam para dizer que estão cuidando da saúde. Você entende, não? Ia ele ali pelo posto quatro quando reparou uma moça de miniblusa e saia branca curtinha. Ela era alta, do tamanho dele, também caminhava. Sérgio olhou as pernas dela e ficou impressionado com a lisura e a beleza. Mas o que lhe chamou a atenção mesmo foi o comprimento da saia. Pensou, bem, ela deve estar de biquíni. Ele continuou a marcha. Diz que sempre sai do posto seis e vai até o Windsor, depois retorna ao ponto de partida. Foi assim que fez. Na volta, no final da caminhada, parou no último quiosque e pediu um coco. Tomou a água enquanto olhava para o mar, que estava plácido, bonito, os últimos raios de sol refletindo sobre a superfície, um espelho, segundo ele. Quando voltou o rosto para o calçadão, reparou a moça de saia curta. Ela também terminava a caminhada e vinha na sua direção. Parou no quiosque e pediu uma garrafinha d’água. Ao levá-la à boca, sorriu para o Sérgio. Ele gostou do sorriso, e começou a pensar como faria para conversar com ela.

Isto é fácil, Clara, bastava comentar sobre o tempo, sobre a placidez do mar, a beleza do dia...

É fácil, sim, Célia, mas meu amigo é uma pessoa sofisticada, gosta de impressionar. Ouça. Ele não precisou falar nada. Ela é que iniciou o assunto. Bom está pra o stand up, ela lançou o tema. Stand up é aquela prancha em que a pessoa vai em pé. Ele arregalou os olhos e respondeu alguma coisa do tipo, pratica você este esporte? A moça fez que sim e começou a desfiar uma história. Para não me alongar. Ele acabou convidando-a para a prancha naquele momento. Alugariam duas, uma para cada. Agora não posso, ela falou, vai você, fico apreciando. Ele disse que então era melhor ficar com ela, os dois a conversarem. Desceram até a praia e olharam mais de perto as pessoas que praticavam o tal esporte. No final, ele arremessou sua saia é tão bonitinha. Você quer dizer curtinha, ela rebateu. Ambos sorriram. Tenho ainda uma surpresa, ela acrescentou. Surpresa?, ele quis saber. Embaixo da saia, a moça completou. No início, ele achou que ela se portou de modo vulgar ao dizer isso. Mas, a seguir, ficou curioso. Debaixo da saia?, o que você quer dizer com isso? Ela respondeu nadinha. Nadinha?, ele repetiu surpreso. Quer se certificar?, ousou a moça. Ela caminhou dois passos à frente e deu uma levantadinha na parte de trás da saia, mostrou o bumbum. Ele sentiu um solavanco no peito.

E depois, Clara, o que aconteceu?

Sérgio quis levá-la imediatamente ao seu apartamento. Mas a moça desconversou, disse que marcaria outro dia. Ele ainda perguntou como você pode agir assim?, vem à praia, mostra a um homem que está nua, provoca-o e depois quer fugir. Brincadeirinha, ela revidou, vai dizer que não gostou? E ficaram os dois nisso mesmo. Ou melhor, houve um abraço bem apertado, um beijo na boca, e a sainha dela nas mãos do meu amigo. Ao olhá-la nua diante dele após soltá-la do abraço, apaixonou-se. Você tem certeza que não quer ir comigo hoje?, a voz de Sérgio saiu meio embargada. Prometo ir outro dia. Grave então meu endereço, ele tentou modular o tom, apareça amanhã ou depois. Vou sim, foi a vez dela. Dois dias depois, à noite, escutou o interfone. Era ela. Não esquecera o endereço. Vestia uma sainha do mesmo comprimento. Beijou-o ao entrar, trazia no rosto intensa alegria. Namoraram boa parte da noite. Quando estava para ir embora, já madrugada, acrescentou não vá me fazer voltar pelada de novo pra casa. E sorriu safadinha. Até agora ele não me contou se ainda arde a paixão.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Cavaleiro Negro

– Parece que estou num forno – gemeu a jovem, dilatando as narinas porejadas de suor. Se soubesse teria inventado uma fantasia mais leve.

– Mais leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu vinha com a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica.* 

– Você devia deixar o Raimundo pra lá. Fantasia leve pra mim seria uma minissaia de baiana e bustiê, sem calcinha.

–Verdade, no carnaval ninguém é de ninguém. 

A amiga de Tatisa frequentou os bailes de carnaval nos clubes mais famosos do Rio de Janeiro, onde tudo era liberado. Existia troca de pares para dançar e até mesmo para fazer outras coisas. Ela lembrou-se de um fato que lhe aconteceu anos atrás. Será que nesta noite iria se repetir, mesmo se tratando de um baile no interior?

Ela conheceu um Cavaleiro Negro, por quem logo se apaixonou. Fingiu ir ao banheiro e se escondeu atrás de uma pilastra larga, que se alcançava passando por fora do salão. Ninguém imaginaria que alguém com tanta vontade de fazer sexo ao som das marchinhas pudesse ir tão longe para se deliciar com as taras de um homem misteriosamente fantasiado. Quando o Cavaleiro a viu sair também se esquivou, sabia que daquela fuga lhe renderiam os prazeres da ancuda fantasiada de baiana.

Chegando ao local, o mascarado avistou a moça já se enroscando na pilastra. Parecia estar subindo pelas paredes. Ele se aproximou de mansinho e a abraçou pela frente. Sentiu as cochas suadas da mulher. Em toda aquela esfregação notou que não havia empecilho para que seu honroso pênis penetrasse as entranhas da buceta da baianinha. Os dois se deliciaram a ponto do orgasmo ter escorrido pelas pernas dela.

Quando voltaram pro salão, Tatisa estava entediada, não tinha aparecido nada de exorbitante para ela, somente uns bobões querendo dançar em forma de trenzinho. Ela comentou:

– Você sumiu pra onde? Está com uma cara de felicidade. Estou achando esse baile uma merda. Amanhã você me conta o que houve.

Às quatro da manhã o baile terminou e as duas foram pra casa. Antes de dormir Tatisa insistiu no assunto, e quando a amiga contou o que lhe tinha acontecido ela enlouqueceu. Queria vestir a fantasia de baiana e voltar lá pra também tirar uma casquinha. Mas já era dia. Elas então se prometeram trocar de personagens no dia seguinte só pra Tatisa poder tirar o seu pé da lama.

É lógico que a amiga fará esse sacrifício para deixar Tatisa saborear o cavalo negro, mas ela mesma não ficará no abandono. É muito criativa e sedutora.

* As duas primeiras falas deste texto pertencem ao conto "Antes do baile verde", de Lígia Fagundes Teles.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

Rigolleto é sempre Rigollerto

Certa feita, uma linda mulher comentara com suas amigas sobre as taras do seu amante, Rigolleto: “Ele é o máximo. Todas as vezes que me pega, me leva ao delírio. Já trepei com muitos homens, mas todos muito sem sal. Rigolleto sempre está com o pau duro quando chega perto de mim. O volume de suas virilhas é notado através de sua calça. O zíper quase se abre quando me abraça.” A linda mulher ao relatar seus prazeres diante de várias mulheres sexys mantinha um semblante de tesuda. Acrescentou que uma vez conheceu uma teúda e manteúda que esbanjava elogios sobre certo macho dela com o nome de Rigollerto. A linda mulher no momento ficou com a pulga atrás da orelha. "Será o meu Rigolleto?” A teúda e manteúda relatava momentos de amor parecidos com os que a linda mulher gozava com seu parceiro, que nunca falhava em suas investidas de amor. Tudo o que Rigolleto fazia tinha sentido para a linda mulher. Ele a banhava em caldas de cerejas e lambia até as entranhas de sua buceta. Todas as vezes que inventava algo, era ousado e estimulante. No mês de janeiro fazia um calor intenso, Rigolleto então pegava um saco de gelo e banhava o corpo da linda mulher. Mesmo com o calor do seu sexo misturado ao calor do ambiente tudo continuava perfeito. As amigas desejavam saborear Rigolleto. Todas murmuravam ao ouvir as aventuras que a linda mulher narrava. Num passeio de férias, quando viajaram para o exterior e se encontravam num restaurante, a linda mulher avistou sua conhecida, a teúda e manteúda, antes de Rigolleto. A mesa reservada a eles era num cantinho bem discreto e a linda mulher observava o comportamento da teúda e manteúda sem que ela percebesse. Momentos antes de pedir a conta, Rigolleto se ausentou para ir ao banheiro, tinha esbanjado no champanhe. A linda mulher não percebeu que Rigolleto também havia visto a teúda e manteúda. E como já se conheciam, conseguiram dar um chá de cadeira na linda mulher. Saíram de fininho e foram se esbaldar num motel de luxo. Com o nome diferente por aumentar um “r”, Rigollerto fez das boas trocando sua linda mulher pela teúda e manteúda. Rigolleto ou Rigollerto, sendo a mesma pessoa, não permitia coincidências nos comentários da linda mulher e da teúda e manteúda. Será que a linda mulher ao elogiar seu parceiro às amigas perdera Rigolleto somente para a teúda e manteúda?