terça-feira, julho 26, 2016

E já houve quem me roubasse outras coisas

Não sei por que cargas d’água reapareceu-me um ex-namorado lá dos anos 1990, e já deitava eu na cama com ele. Pelas tantas da madrugada, foi ele quem começou a conversa.

Já consegues dormir nua?

Se não me engano, desde sempre, retorqui.

Quando vivemos juntos eras muito pudica, dizias não conseguir pegar no sono caso estivesses sem roupa, sobretudo as roupas de baixo.

Acho que agora sou outra pessoa.

Da cama era possível ver através da janela ampla e aberta os prédios do outro lado da rua. A maioria não tinha sequer uma luz acesa. Caso alguém nos olhasse de lá, veria apenas a janela escura. Apesar de verão, um ar brando penetrava o ambiente e nos refrescava.

Se te comportasses assim naquele tempo, acho que ainda estaríamos juntos, disse ele.

Assim, como?

Deitar a dormir nua, assim como fazes hoje.

De lá pra cá, passaram-se muitos verões, e com eles muito se aprende.

E o que mais aprendeste?

Muitas coisas. Mas se queres saber mesmo de roupas, eis. Não se pode ter muitos namorados e querer mantê-las sobre o corpo, há sempre um que no-las rouba.

Roubaram a roupa de ti?

Isso. Levam as de baixo como troféu, ou como lembrança, lá sei.

E o que de melhor também aprendeste a fazer?, estava ele curioso.

Alguns tapam-me o nariz e a boca na hora do gozo, não me querem a respirar.

Aprendeste mergulho sem respirador?

Sempre fui boa de fôlego. Brincam com a possibilidade de matar a mulher, querem o fio da navalha, ou mesmo o do equilibrista.

Sério?

Mais do que sério.

E como te saíste?

Aprendi a gozar mais, tanto maior a falta do ar.

Ah, isso sei eu, queres sempre cavalgar no gozo, se possível toda a noite.

Sentou-se na cama e tomou um gole d’água do copo que ficava à cabeceira.

Ainda tens o costume de beber água à noite? Logo, não mudaste tanto.

Não, sou o mesmo.

Então, sei que estás a remoer-te de curiosidade. Conto mais. Os homens não querem só trepar, desejam a fantasia. E já houve quem me roubasse outras coisas.

O que trazias a mais?

Um cordão, algum dinheiro, um maço de cigarrilhas. O dinheiro e o ouro acho que queria para comprar alguma droga, ou pagar uma dívida, quem sabe.

E te meteste com gente assim?

Como saber? O homem é bonito, dá a bisca numa boate, paga um jantar, depois quer o cordão. E entenda uma coisa dessas.

Deste parte à polícia?

Nada quero com polícias, nem com porteiros de hotel.

Repousou o copo na mesinha, aproximou-se e tocou-me o cabelo.

E o que há de mais?, ardia o homem.

Houve um que me deixou apenas a sandália e a bolsa. Partiu antes de mim, e não estava eu onde moro, mas num quarto de hotel.

E o que fizeste?

Liguei à recepção e pedi um mensageiro.

E eles?

Mandaram o rapaz. Dei-lhe dinheiro e disse, vai a uma loja de esportes e compra a camisa do Porto. Mas do Porto?, rebateu, ainda era um garoto, aqui todos torcem pelo Benfica.

Não importa. Encontra uma do Porto.

Ele foi e voltou com a camisa. Dei o que prometi: aliás, entendes-me, dei duas coisas, entre elas uma boa gorjeta. Deixei o boy eufórico. Vesti-me e parti. A bolsa no ombro, a sandália nos pés e apenas camisa do Porto.

Fizeste maior sucesso, então?

Na terra de benfiquistas, ser Porto é gozar com o olhar galanteador de todos os homens.

Tornaste esperta. Acho que vou me apaixonar novamente por ti.

Não faças isso. Já estou na paixão de todos os homens. Do Porto e de Lisboa!

terça-feira, julho 19, 2016

Cortei um dobrado para convencê-lo que eu precisava vestir pelo menos um camisão

Outro dia encontrei um ex-namorado, fazia dez anos que não o via. Muito tempo, não? Nem sei como o reconheci. Aliás, no caso, sei sim. Não pude deixar de dizer, após algum tempo de conversa:

Você era fogo, viu.

Ele me encarou sorridente e retrucou:

Ainda sou.

Eu vestia um camisão, por baixo o top e calça legging. Ele olhou minha roupa com certa inveja.

Sabe, outro dia deixei uma namorada só de blusa, ele disse.

Imagino. E como ela fez?, perguntei fingindo falso interesse.

Ah, as mulheres sempre dão um jeito, dissimulou.


Ele era fogo mesmo. Como poderia esquecer? Viajei à cidade dele, o homem fez uma festa. Como gostou de me ter nos seus braços. E me queria nua o tempo todo.

Trouxe um livro, você permita que eu o leia um pouquinho?, perguntei.

Permito, mais sente nua ali no sofá, cruze as pernas e leia o livro.

Vou fazer um café para nós, falei à tardinha.

Ótimo, mas vai à cozinha assim como você está, nuinha.

Passei o dia e a noite sem vestir roupa alguma. Ainda bem que na cidade dele fazia calor.

À noite, convidou-me para passear. Quando abri a mala para escolher um vestido levinho, ou uma saia curta, ele contrapôs:

Nada disso, você vai nua.

Jura?, ainda perguntei.

Vai sim, aqui não tem problema.

Amor, não vai ficar bem eu sair nua por aí.

Cortei um dobrado para convencê-lo que eu precisava vestir pelo menos um camisão.

Apenas, ele definiu com esta pequena palavra.


Entramos no café e continuamos a lembrar o passado.

Que bom que nos reencontramos, afirmou, o que você veio fazer na minha cidade?

Ah, estou de férias, e faz tanto tempo que não venho.

Desde quando estivemos juntos?

Não, vim duas vezes. Agora aqui mudou muito, está melhor, inauguraram dois ou três museus, vim visitar.

Quer dizer que você gosta de museus, ele suspirou.

Adoro, estudei produção cultural, não sei se cheguei a falar, museus são a minha especialidade.

Acabamos de tomar o café, cruzei uma das pernas, o camisão revelou uma parte de minhas coxas. Embora coberta pela calça, exibia o volume das minhas coxas. Um desconhecido, à mesa ao lado, sorriu farsesco.

Você não quer passear? Vamos aproveitar. Tem algum compromisso?, ele olhou pra mim com certa ânsia.

Pra falar a verdade, tenho, marquei com uma amiga.

Chama a amiga para passear conosco.

Jura?

Juro.

Chamo. Mas você vai querer apenas uma ou duas mulheres nuas no seu carro?

Ele riu. Lembrou minha viagem de outrora ao Rio. Num momento do passeio roubou meu camisão. Tive de voltar nua pra casa dele.

Saímos do café e fomos ao estacionamento.

Você me leva ao hotel primeiro?, pedi.

Levo, e espero por você.

Se quiser pode subir, dei a moeda a ele. Meu olhar devia estar brilhante, podia refletir todo um céu. Ele é tão bonito, foi minha vez de suspirar.

Na suíte, nua nos braços do homem, ele perguntou:

E sua amiga?

Ah, ela espera.

quarta-feira, julho 13, 2016

Tive de escondê-lo

Um pinto faiscou um segundo em meus olhos, e me transformou toda em arrepio. Foi na praia, mês que antecedia o verão, o tempo ainda fresco e as águas do mar geladas de dar dó. O pinto, naquele momento, era supremo. É tudo o que posso afirmar. E veio a preencher a solidão que eu sentia em meio a guarda-sóis afastados, caminhantes longínquos e mulheres que tomavam sol. Como vou falar do pinto sem ser chula? Vejamos, uma história primeiro. Certa vez tive um namorado dez anos mais jovem que eu, mas era homem maduro. Nem sei porque terminamos, coisa do destino, talvez. Levava-me a passear, trazia-me à praia. Vivíamos o embate de dois polos antagônicos: a noite profunda e o dia com toda a sua luz. Foi numa noite profunda. Íamos de automóvel, ele a dirigir, e eu relaxada no banco do carona. Então, a surpresa invadiu-me os olhos, uma mulher de calcinha, na rua, gritei e me virei a ele. Mulher?, repetiu, nada disso, parece mulher mas não é, sentenciou. Foi numa parte suspeita do centro da cidade. E continuamos mergulhados na noite, queríamos ainda a madrugada. Os homens não sofrem de celulite, afirmei, caso se tornem mulheres, ou fingem sê-las, não sei bem, suas pernas são lisas de dar inveja. Sério?, pareceu duvidar. Sério, falei com convicção. Como você sabe, já viu um exemplo desses de perto?, suas palavras e seu olhar incisivo enquanto segurava o volante pareceram desafiar-me. Sim, afirmei, como se não quisesse revelar um grande segredo. Onde aconteceu?, quis ele saber, esperou, a respiração um tanto opressa, como se minha resposta fosse transformar tudo que nos viria pela frente. Num desfile de modas, acrescentei  Ah, bom, ele replicou aliviado. Mas a historinha não foi bem assim. Certa vez viajamos, quatro mulheres. Que bagunça, não é mesmo? Fomos a um hotel, desses que dão para a praia, no Nordeste. Lá, aproximou-se de nós alguém que pensamos a princípio ser uma mulher. Fazia bem o papel, demoramos a descobrir o que realmente era. Quando de fato aconteceu, não fizemos alarde, agimos com a maior discrição. Na noite anterior ao dia em que regressaríamos, saímos as quatro e mais a fingida mulher. Bebemos mais do que podíamos. No hotel, um fio de tesão começou a correr em cada uma de nós, em consequência inventamos uma brincadeira; saíamos nuas do quarto para bater no quarto das outras, já que ficamos hospedadas em duplas. Após muitas risadas, decidimos ir ao quarto de nossa amiga / amigo. Ela assustou-se com o mulheril. Dissemos faça como nós, vamos desfilar. Ela, ou ele, não sei como dizer, enrubesceu. Mas uma das mulheres conseguiu despi-la. Pudemos ver, então, um pênis mediano. Algumas começaram a agarrá-lo e ele começou a crescer. Ela disse não sinto tesão por mulher, mas quem sabe vocês possam me dar prazer e, ao mesmo tempo, obter a diversão que desejam. Cada uma de nós a exercitou um pouco, mas o pênis não enrijecia como desejávamos. Há um jeito de eu sentir tesão, ela falou, mas vocês precisam me dar de presente suas calcinhas. Calcinhas?, mas viemos nuas. Não faz mal, rebateu, busquem-nas, era culta a mulher. Lorena voltou aos nossos quartos e pegou tantas calcinhas quantas conseguiu carregar. Trepamos então com a travesti durante boa parte da noite, seu pênis endureceu tanto como o de um verdadeiro macho. Jamais consegui entender a relação entre nossas calcinhas e ereção. Como esse tipo de gênero não ejacula com facilidade, pudemos aproveitar bastante. Só que, no final, ela não devolveu nossas pequeninas peças, considerou-as como pagamento. Levamos, porém, tudo na esportiva, e rimos muito no avião de volta.

Um pinto faiscou em meus olhos e me transformou toda em arrepio. Alguém sorriu pra mim. Não estava nu, ou nua, não sei bem explicar. Na verdade, era eu a nua, e não queria deixar a coisa entre sorrisos. Gostei do arrepio, que já não me abandonava. Daqui em diante, vai depender do pinto, disse a mim mesma. Como o da amiga / amigo lá das férias no hotel. Com alguma lábia e com o tempero do gozo, mantém-me a mil e, quem sabe, leva-me também a calcinha!, completei. Se sabemos conduzir, as coisas acontecem como a gente deseja. Entramos na água. Quem sabe a fantasia não era um meio de conquistar as mulheres. Como já conhecia o truque, vesti-o com o meu biquíni. Lindo o biquíni, afirmou solene. Seu pinto logo virou frangote e pulou porta afora. Tive, então, de escondê-lo. Que se tornasse enorme galo, mas que cantasse dentro de mim.

terça-feira, julho 05, 2016

Simpatia

“Como é que é?”, perguntou Lana, muito surpresa, enquanto Janete lhe trazia uma xícara de chá.

“Você não entendeu?, é uma maneira de surpreender os homens, eles ficam curiosíssimos, e acabam querendo nos namorar.

Lana segurou a xícara, suas mãos chegaram a tremer. Ambas estavam sentadas à mesa, frente a frente, costumavam visitar-se mutuamente para tomar chá, e nesta quinta, a vez de receber era de Janete.

“Janete, você não tem medo de que pode acontecer o pior?”

“Pior?, não se trata de uma coisa que envolva vida ou morte, é apenas uma brincadeira.”

Após tomar um gole do chá e repousar a xícara sobe o pires, Lana continuou:

“Brincadeira?, mas pode sair caro, e tanto mais nesta cidade onde quase todos se conhecem e falam demais. Seria melhor você arranjar namorado pelas vias normais.”

“Vias normais?”, pestanejou Janete.

“Já que você costuma ir à praia, por que você não deixa que eles se aproximem, que paquerem você como todos os homens costumam fazer?”

“Mas assim não posso escolher?”

“Ah, você quer o filé mignon.”

“Adivinhou, Lana, nada desses bugres que ficam à espreita. Entro n’água, escolho o mais bonito e ponho meu plano em ação.”

“Esse negócio de deixar o biquíni nas mãos de um desconhecido me deixa trêmula, e estou apenas imaginando. Você sabe que quando eu morei na serra, tive um caso com um jovem de lá. A gente namorava no escuro da estrada, dentro e fora do carro, na madrugada. Estava tudo bem até que o sujeitinho resolveu roubar minha calcinha. Fiquei furiosa, nem falei mais com ele. Agora, você com essa ideia, o biquíni nas mãos de um desconhecido. Fala sério, Janete, isso não pode ser verdade.”

“Claro que é, por que eu iria mentir pra você?”

“Me conta como você faz, vai. Ainda não entendi essa história direito.”

“Falei sim, você é que não prestou atenção. Mas, tudo bem, conto de novo. É assim: você chega à praia, com aquele charme todo, vestindo um biquíni mínimo. Dá uma olhada em volta, mas tudo muito bem dissimulado. Arma o guarda-sol, abre a cadeira e senta um pouco. É bom estar de óculos escuros. Então você continua olhando, reparando os homens, os rapazes, vendo se há alguém que vale a pena. Caso isso aconteça, você fica atenta se ele paquera você. Se ele não tiver reparado, espere um pouco, até ver o homem mergulhando. Quando isso acontecer, você vai atrás. Mas não precisa grudar nele. Espere um pouco até a hora de atacar.”

“Atacar, como assim?”

“Aí, entra a história do biquíni. Você tira, transforma em uma bolinha de pano, aproxima-se do cara e pergunta: ‘você pode me fazer um favorzinho?’ Lógico que ele vai dizer que sim. ‘Segura isso pra mim um instante?’ Você entrega o biquíni a ele e mergulha, volta alguns segundos depois e pede de volta, veste e sorri para o homem. É lógico que quando você der a ele a bolinha e pano, ele não vai imaginar que é o seu biquíni. Esse é o enigma. E se você não demorar a voltar, ele não vai descobrir, porque não terá tempo pra pensar. Só depois que você estiver fazendo o movimento pra vestir a calcinha é que, talvez, ele repare."

“E depois, o que isso vai resultar?”

“Lana, dá um resultado ótimo. O homem vai sorrir, e você vai dizer: é uma simpatia, sabe, ajuda a desencalhar’. Ele vai se interessar, e está no papo. Consegue-se namorar, pelo menos para o dia, o homem mais bonito da praia. Mas é lógico que tudo tem de ser feito com a maior discrição.”

“Janete, você é louca. E amanhã, quando você for à praia de novo? Os homens não vão estar todos sabendo dessa história?”

“Nada disso, é só não vulgarizar, e não escolher os caras daqui, você os conhece, não? Como aquele que roubou tua calcinha.”

“Janete, sabe do que eu gosto mesmo? Gosto de uma trepada bem dada, bem funda, que arranca suspiros e faz a gente gozar pra valer.”

“Eu também gosto. Mas você precisa sentir a sensação que desperta na gente quando o biquíni está nas mãos do desconhecido e a gente não sabe o que vai acontecer. Vale muito, só não vale essa trepada funda. Mas quem sabe mais tarde, a agente tem o cara para a tal trepada. A Lúcia transava na praia mesmo.”

“A Lúcia?, do Osório?”

“Ela.”

“Janete, já sei, virou moda, todas as mulheres que você conhece estão praticando o que você contou. Apenas eu estou sendo ingênua.”

“Não, todas não, apenas eu e a Lúcia, agora você, contar pra mais gente vai dar problema.”

A dona da casa sorriu e bebeu o último gole de chá.

terça-feira, junho 28, 2016

Caixa de surpresas

Oi, Mara, tudo bem? Ah, está surpresa com meu telefonema. É porque sei que você gosta de dormir tarde. Você fica lendo, vendo filmes, escrevendo. Pelo menos é o que sempre me fala. Sabe o que é, quero contar uma história boa e engraçada. Na verdade, é sobre a caixa de surpresas. Lembra, foi você quem deu a ideia, depois aperfeiçoamos juntas. Não é que deu o melhor dos resultados? Bem que você falou. Sabe, Mara, o homem adorou. Na verdade, enlouqueceu. Disse que nunca viu uma mulher com tanta criatividade. Enquanto as outras ficam no feijão com arroz, no papai mamãe, você me arremessa a outro planeta, um planeta totalmente desconhecido. Juro, são as palavras que ele pronunciou. E tudo com a maior elegância. Logo que cheguei eu disse por favor, você tem de ser um bom espectador. A princípio, ele não entendeu. Não passou muito tempo, porém, pra entrar no jogo. Poxa, conheci você há uma semana e você me faz essa surpresa toda, confessou. Fica sentadinho aí, vou fazer as apresentações, avisei antes de abrir a caixa, mas precisa ser no escurinho, viu. Ele acendeu o abajur lateral. O palco era o meio da sala, dois metros por um e meio. Mas pra mim estava ótimo. Saí de cena rapidinho e voltei como o primeiro número, o vestidinho preto, coladinho e curtinho, nenhuma marca de rouba de baixo, apenas o tecido. Liguei o celular, uma musiquinha, e comecei a dançar pra ele. O vestidinho subia, subia. E o homem quase subindo pelas paredes. Saí de cena. Coloquei uma música de praia, de verão, e apareci com o biquininho. O biquininho de bolinhas, tão estreito, os peitos só cobertos os mamilos, a calcinha, bem, a calcinha você conhece. Novamente escapei às mãos do homem. Espere, por favor, pedi, você não pode me agarrar agora, não tem graça. O terceiro traje foi o de fadinha, rendinha e varinha, nada de calcinha, mas vesti a faixa branca como top. O homem tirou a roupa, passou a assistir nu ao espetáculo. Ai, não estou aguentando, ele disse. Calma, vamos devagar, tenho outros números, no final você me agarra, disse eu e sorri. Fiz uma mágica com a varinha, uma espécie de encanto, e apareci sem a faixa branca. No quarto número apareço apenas de camiseta regata. Lembra, Mara, foi você quem escolheu. Estico a camiseta na frente, atrás quando dou as costas, tudo seguido da musiquinha do meu telefone. Mas a cena que fez o homem explodir foi a do chocolate, coreografia criada por nós duas, Mara. Fiz uma espécie de maiô com a renda preta, como você ensinou. Dividi o tecido ao meio e passei cada metade por trás do pescoço, desci cobrindo os seios e continuei até passar por baixo da minha periquita, subi em tira única o bumbum cruzei  as duas pontas da renda, cada uma prum lado, trouxe para frente cobrindo a tira vertical e dei um laço no lado esquerdo da cintura. Foi então que peguei a barra de chocolate, a maior de todas, dançava e retirava o papel, depois puxei devagarinho o laminado, enfim mordi o primeiro pedaço. Fui comendo e umedecendo os lábios com a língua, engolindo pedaço a pedaço. O homem queria sair da poltrona, o pênis ereto, correu na minha direção. Por favor, ainda não, espere mais um pouquinho, não estrague o teatrinho, alertei. Jura que já acaba?, perguntou. Juro, só falta essa. Ele puxou uma cadeira e ficou a um metro e meio do palquinho. Quando engoli o último pedaço, Mara, o homem explodiu. Não sabe o que é um homem explodir, amiga? Explico. O homem gozou. E foram dois ou três jorros. Todos saltaram a distância de um metro e meio, atingiram minhas coxas. Mas fingi que nada acontecia, continuei o número, no final desfiz o laço. Ele correu pra mim e me agarrou. O pênis continuou durinho e o homem gozou mais uma vez. Uma loucura. E quase não consigo colocar a camisinha, foi por um triz. Quando acabamos, ele ainda estava a mil, o coração descompassado. Descansa um pouco, aconselhei, você está muito excitado. Ele deitou e fechou os olhos, muito feliz. Continuei com a música e pude ainda reparar o arfar dos seus pulmões. Coloquei todas as surpresas na caixa, guardei com muito cuidado. Peguei a caixa, o sapato e saí em silêncio. Ele parecia dormir. Bati a porta. Agora, apenas uma coisinha. Sabe o vestidinho com o qual cheguei? Aquele de apliques prateados. Pensei tê-lo colocado na caixa, queria me vestir no corredor. Você sabe, caso ele acordasse ia querer mais um espetáculo, e eu já estou cansada, já tenho minha recompensa. Mas, do lado de fora, reparei que esqueci o vestidinho lá dentro. E agora, o que faço?, perguntei a mim mesma, neste tardar da noite. Ah, a solução, pensei, telefono pra Mara... O quê?, você está sem o carro. Voltar com um dos modelos da caixa de surpresa? Mara, é tudo tão curtinho, vão me agarrar lá fora, e vai sair de graça. Arranja um jeitinho, vai, Mara, meu amorzinho. Confesso que esta situação está me deixando arrepiada, mas não posso voltar nua pra casa, daqui a pouco vai amanhecer. Tá bom, Mara, vou bater, ele vai abrir e me encontrar peladinha, acho que vai perder de vez a cabeça. Vai querer mais teatrinho. Bem, isso é, melhor mais um teatrinho do que nua no bairro do Visconde!

terça-feira, junho 21, 2016

Nós, mulheres, sempre queremos mais um pouquinho

Usar esses vestidinhos colados ao corpo, curtinhos, é um problema ou, quem sabe, é a solução, depende do que cada uma de nós deseja. Sou alta, 1,80, magra, a perna um tantinho grossa. Quando uso um deles é uma atração à parte. É melhor à noite, entra-se no automóvel e salta-se no local da festa, ou na porta do restaurante combinado. Tenho um namorado que me adora de pernas de fora, e o vestidinho ajuda.

Outro dia fomos a uma festa no Jóquei Club. Não preciso dizer que minha presença causou quase um escândalo. Escândalo no sentido positivo. Não houve homem que não olhasse pra mim. Mesmo aqueles que estavam acompanhados das mulheres mais lindas. Quando fui ao toalete, muitas me olharam com inveja. Sempre há uma engraçadinha, não é mesmo? E ela pediu se podia vestir meu vestido por alguns instantes, queria ver se ficava bom nela. Não posso voltar nua, eu disse assustada. É só um pouquinho, e juro que não saio do banheiro, deixo saia e blusa com você. Tudo bem, falei, como somos todas conhecidas... Tirei o vestidinho e permiti que ela o experimentasse. Foi presente do namorado, sabe, falei, na verdade eu devia perguntar a ele se posso deixar outra mulher vesti-lo. Ah, ele ia adorar, duas mulheres nuas pra ele, e com o mesmo vestidinho, disse a engraçadinha desfilando e dando várias voltinhas. Saí do toalete e me misturei aos outros convidados, encontrei o namorado. Ainda bem que não mais a vi, nem voltei ao toalete.

O que serve de fetiche aos homens quando estou com esse tipo de roupa é que eles desejam saber se uso calcinha. Sabe que já até saí sem calcinha, mas é melhor vir completa, de calcinha e top. Mas eles sonham que o vestido vai subir e eles vão ver minha xereca. Não gosto do nome, não é nada literário, mas não encontro outro. Continuando no fetiche, há também aqueles que desejam subir as mãos por baixo do tecido e tocar minhas coxas até atingir o meio das pernas. Tenho amigas que querem ficar logo peladas, são ousadas, dizem que estão molhadinhas de tesão. Mas acho que é da boca pra fora. A mulher pra ficar excitada precisa de algum estímulo, não basta estar nua. Há ainda aquelas que ficam anos sem namorado, sem transar, a velha história de que o sexo da mulher é para dentro, por isso conseguem se segurar.

Há algumas coisas que me excitam, não sei explicar por quê. Uma delas é namorar dentro do carro. Não em qualquer lugar, mas em lugares especiais, onde existem árvores, silêncio e um céu cheio de estrelas. Há um lugar assim na Cosa Verde, onde predomina a mata de um lado e o mar de outro, é bom parar o carro numa das estradinhas laterais, deixá-lo estacionado em meio às árvores e namorar. É possível fazer sexo dentro do carro; se a temperatura estiver alta, pode-se mesmo fazer fora. Foi dentro de um carro que tirei o vestidinho pela primeira vez num lugar público. Estendi-o no banco de trás e deixei o namorado vir com todo ardor. Num outro dia, fizemos uma brincadeira. Saí correndo do automóvel, nua, e ele tinha de me pegar. Como estava escuro, me escondi. Foi um ótimo meio de nos excitarmos. Quando me encontrou, não aguentamos, trepamos encostados num tronco de árvore. O local estava como gosto, silencioso, o cheiro de mato, o céu cheio de estrelas, e lá longe, na pista, viam-se os faróis dos veículos.

Gosto de ter muitos namorados, não todos ao mesmo tempo, mas é bom experimentar os mais diversos tipos de homem. É importante também fazer papel de mulher séria, nada de piranhice.  Os homens ficam caidinhos pelo meu encanto, pelo meu jeito angelical, pelas minhas pernas longas e nuas. Houve um que me pediu que eu fosse no banco do carona sem o vestidinho, ainda que por alguns minutos. Como ele era muito atraente, simpático e de uma família rica, concordei. Acabei que não vesti mais a roupa. Ele parou à porta de minha casa e disse está escuro, você está só em casa, devolvo teu vestidinho amanhã, assim durmo com o teu cheirinho. Jura que devolve?, perguntei, gosto tanto dessa roupa, afirmei. Juro, respondeu solene. Ele esperou eu abrir a porta e entrar. Eu, apenas de sandália e com a bolsa a tiracolo dei um adeusinho. Ele voltou no dia seguinte. Trepamos que foi uma beleza. E o vestidinho voltou passado e muito cheiroso. A nós, mulheres, no momento do sexo sempre parece que falta alguma coisa, queremos mais um pouquinho. Os homens não são capazes de nos satisfazer. Mas esse namorado me completou. Ou, não sei, foi o que chegou quase lá!

quarta-feira, junho 15, 2016

Foi o paraíso

O ex-namoradinho, muito engraçado, gostava de histórias picantes. Telefonou pra perguntar como estou passando. No final, antes de se despedir, disse que qualquer dia desses vem aqui à minha cidade me roubar a calcinha. Até que namorar com ele foi bom, mas não sei por que terminamos; o motivo, acho eu, foi o excesso de trabalho. Isso mesmo, quando se trabalha demais não se tem tempo pra mais nada, a não ser descansar, dormir, acordar tarde nos dias de folga. A habilidade do homem em me roubar calcinhas era verdadeira, me surrupiou até mesmo um biquíni, e eu estava na praia da Joana. No entanto, não demorava a me encher de presentes, tantas coisas, pequenos quadros, enfeites para mesa de centro, azulejos pintados, pratos comemorativos (vejam que gosto!), cordões, pulseiras e, é lógico, calcinhas. Eu, safada que só, adorava o homem. Que ele venha um dia desses, tudo bem, a aventura será estimulante.

Duas ruas além de onde moro, há um senhor que vive sozinho. Faz pouco tempo, porém, descobri que ele é casado, a esposa não mora aqui na cidade, mas com a filha em Rio das Ostras. Toda vez que passo diante da casa dele, sinto seus olhos espichados a me acompanhar os passos. Outro dia o tal senhor me chamou. Como nossa cidade não é das maiores, é um lugar onde as pessoas costumam se cumprimentar, parei e esperei que ele desse o recado. Veio com uma história exótica, mas não demorei a perceber que era uma cantada, e muito original. Quando dei por mim, estava enredada nas suas palavras. Com uma fisionomia séria, ele contou sobre sua vida sexual. Eu deveria ficar surpresa, pois o homem apenas me cumprimentava e, de repente, me para na rua para falar de suas trepadas. Teve alguma sutileza, mas foi completamente compreensível que ele me convidava.
“Tenho namorado”, afirmei falsamente.

“Não faz mal”, contrapôs, “quem tem um pode ter dois, e vai lucrar mais.”

Aqui entra a parte dele.

“Você vai ganhar muitos presentes, caso aceite a minha companhia. Esta não será todos os dias, prometo, uma ou duas vezes na semana. E lhe asseguro que ninguém saberá.”

Pelas palavras, o homem parecia um erudito. Fez um recurso sobre a razão naturalista, pode-se dizer assim. Seu discurso não levava em consideração razões morais.

Com educação, escutei suas palavras. O homem prometia dinheiro, vantagens, presentes. Caso eu assim o desejasse, poderia aproveitar.

“Namoro por sentimento”, disse eu secamente.

“O sentimento está na beleza, na riqueza, na oportunidade de aproveitar a vida, pense nisso, não precisa me responder hoje”, agradeceu minha atenção.

“A senhorita é muito afável”, disse antes de eu ir embora.

Naquela semana evitei a rua onde morava todas as vezes que tive de sair e meu caminho era aquela direção. Preferia seguir por uma transversal e dobrar a terceira, uma rua depois da dele. Contei o assunto pra um amigo com quem eu saía vez ou outra. Eu e esse amigo transávamos, mas não éramos namorados nem tínhamos pretensões futuras, apenas aproveitávamos o momento. Ele achou a história engraçada.

“Na certa é um homem carente, que procura comprar uma mulher com dinheiro, caso você dê margem de manobra ele não vai desistir”, chegou a me falar. Ri e rolamos na cama, no último momento eu ia por cima.

O senhor mandou um presente. Não queria aceitá-lo, mas achei que não deveria recusar, não gosto de ser indelicada. Abri e me assustei. Uma pulseira dourada. Corri a uma loja de joias pra me certificar. O joalheiro me assegurou: é ouro, e dos bons. Aceitar o presente seria concordar com o convite e com as propostas do homem. Fui à sua casa, bati à porta que antecedia o jardim. Ele veio atender. Agradeceu minha visita e insistiu que eu entrasse.

“Tenho pouco tempo”, aleguei, “uma consulta médica.”

Mesmo assim aceitei. Entrei. Ele me trouxe um café.

“O senhor já sabe o motivo da minha visita, não é mesmo?”

“Oh, imagino”, ele sorriu. “Tenho mais uma coisa pra você.”

Levantou-se e correu a um cômodo além da sala. Voltou em alguns segundos trazendo numa das mãos uma caixinha de camurça.

“Veja, é o complemento da pulseira, estava esperando você para completar o presente.”

Ele deixou que o cordão se desenrolasse e trouxe até junto de mim.

“Mas...”, tentei dizer.

“É ouro verdadeiro, não é daqui do nosso país.”

Era um cordão comprido, a corrente, grossa, devia valer uma fortuna, ainda havia uma medalha que não consegui distinguir o motivo, de tão nervosa que estava.

“Não posso aceitar”, falei um tanto desolada.

“Não diga isso”, sorri, um sorriso triste e compreensivo, “no começo as pessoas se surpreendem, é assim mesmo.”

“O senhor já presenteou outras pessoas?”, curiosa, olhei com ar de desafio.

“Sim, é comum eu oferecer presentes, e, assim como você não são todas que aceitam”, acrescentou.

Deixei a pulseira com ele e não aceitei o cordão. O homem não insistiu, pareceu compreender minha vontade.

Parti com um pouco de remorso. Meu coração bateu um pouquinho mas forte. Quem sabe eu já estava criando um sentimento por ele. Além disso, eu estava precisando de dinheiro e aqueles presentes resolveriam todos os meus problemas. Mas existe uma coisa chamada liberdade, e ela eu não queria perdê-la. Se eu pudesse receber os presentes e continuar livre... Mas pra frente, talvez, a gente poderia conversar.


Eu vestia tênis, calça legging, um camisão que descia até as coxas, por baixo uma faixa de lycra que me segurava os seios (na verdade um top), meu cabelo pintado todo de preto balançava ao sabor do vento. Era noite e eu estava na ponta da praia. Olhei o relógio e me perguntei se ele viria. Passavam, vagaroso, os veículos. Os bares e restaurantes estavam cheios.

Um automóvel trafegava lento. De repente, parou ao meu lado. O vidro desceu e alguém me chamou lá de dentro. Era quem eu esperava. Abriu a porta e me convidou a entrar. Assim que entrei e fechei a porta, o barulho externo tornou-se distante, uma fantasmagoria. Ele aproximou o corpo e me beijou.

“Não falei que viria?”, sorriu e me beijou mais uma vez, "vim roubar sua calcinha", brincou, quem sabe.

Abracei com força seu corpo.

“Vamos, pode fazer de mim o que quiser”, estava eu eufórica. “Trouxe um biquíni que é uma coisinha à toa”, acrescentei em tom divertido.

Ele deu a partida. Dali em diante, foi o paraíso.