quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Ainda bem que existe a Margarida

"Você gosta de sair sozinha à noite, vai vestida, recatada, todos os acessórios, mas ao chegar a C., entra no Shopping e, num dos toaletes começa a se preparar. A saia comprida, bem enrolada, é colocada na bolsa, a blusa transforma-se num vestido curto, justo e colado ao corpo. A seguir, a maquiagem na textura exata, um pouco de exagero apenas no batom. Para não chamar a atenção, coloca uma manta, que disfarça a falta de pano do vestidinho. Enfim, você sai à caça."

O trecho acima ouvi de um namorado. Como descobriu?, pensei assustadíssima. Teria de mudar meus planos, meu segredo ia quase água abaixo. Mas suas palavras foram ditas na hora do amor, naquele momento de paroxismo, em que perdemos a cabeça. Dois ou três dias depois, ao escapar para mais uma das minhas investidas noturnas, preocupei-me em observar se alguém me seguia. Mudei de condução, de ruas e avenidas, mas não percebi pessoa alguma no meu encalço. Suspirei aliviada. Minhas amigas vieram-me à cabeça. Apenas uma delas têm necessidade de escapar noite a dentro, escorregar por ruas escuras, correr certo perigo, procurar a aproximação de alguém do sexo masculino. Chama-se Margarida. Até hoje não descobri o que me leva a isso. Ela também não sabe explicar. O que diz é, assim como os homens, as mulheres também têm suas taras, acrescenta: acima de tudo, precisamos viver todo esse prazer.

Gosto, também, de uma boa conversa, de alguém que tenha lido um livro e que saiba falar sobre ele, alguém que entenda de filosofia, rico em ideias e em pensamentos. Parecem polos opostos, não?, de um lado o corpo, de outro o espírito. Sinto, no entanto, que se complementam. E como me arrepiam. O namorado, que pensei ter descoberto meu segredo, é de grande imaginação, às vezes quase chega ao cerne do meu modo de vida, daria um bom escritor. Será que penetra nos meus pensamentos? Certa vez sugeri a ele escrever um livro. Mas disse que o mundo prático lhe é mais importante.

Outro dia trouxe-me mais um presente, uma roupa nova, roupa mínima, que as pessoas chamam de macaquinho. Uma peça inteiriça, que termina como um short, deixando as pernas de fora. Vesti para ele. Ficou excitadíssimo, apenas o tal macaquinho sobre minha pele, lisa que só, e sua mão a deslizar sobre a lividez do meu corpo. Não demorou eu estava nua, a pequenina peça abandonada sobre o estofado da sala. Namoramos até duas da madrugada. Quando saiu, senti ligeiro arrepio, o macaquinho olhava para mim. Tomei-o nas mãos e o vesti. Fui ao espelho e admirei-me dentro do pouco pano. Joguei uma capa sobre o corpo e investi no que restava da madrugada. Não é preciso dizer que a capa, um tecido negro que cobria o macaquinho, deixava certa transparência. Aonde ir depois das duas, faltando pouco para o amanhecer? Entrei num táxi e pedi que me deixasse na porta do hotel mais chique da zona sul. O motorista olhou-me um tanto desconfiado. Na certa se trata de uma acompanhante de luxo, deve ter suspeitado. Não me molestou, deixou-me no local depois de vinte minutos. Na porta do hotel, o funcionário de plantão abriu a porta do táxi para eu sair. Cumprimentou e encaminhou-me ao hall, como se tudo estivesse combinado. Premeu o número 18 num dos elevadores e disse que alguém me esperava logo que a porta se abrisse. Há um engano, pensei, mas fiquei quieta, a situação me favorecia. Sempre preferi locais abertos, onde teoricamente tenho mais espaço de manobra, mas, num hotel famoso como aquele, achei que não me fariam mal.

Como avisara, um homem me esperava à porta do elevador. Tomou-me pela mão, sorriu e me conduziu ao um dos apartamentos. Uma mulher inteiramente nua abriu a porta. “Esta noite, mandaram duas, querem me agradar, uma espécie de cortesia”, o homem disse para ela, ainda sorrindo. A mulher nua despiu-me, levou meu macaquinho e minha capa para uma espécie de armário, ao fundo do quarto. Como não estou acostumada ao sexo coletivo, fiquei meio sem graça. Ela logo notou e perguntou você não é profissional? Nada respondi. O homem foi quem me deixou mais à vontade. Beijou-me um dos seios, abraçou-me e viu que eu fechava os olhos. Ela aproximou-se por trás e abraçou-me. Ficamos os três a sentir o volume de nossos corpos. Podem começar, ele ordenou. Ela virou-me devagar, abraçou-me de frente e deu os primeiros passos, uma espécie de dança. Acompanhei-a. Era um pouco mais baixa que eu, mas bastante hábil. Desceu uma das mãos pelas minhas costas e acariciou-me o bumbum. Depois me virou e pressionou-me por trás. O homem empunhou um pênis de borracha e sinalizou que eu abrisse as pernas. Assustei-me a princípio, mas tive de representar. Minhas pernas portaram-se obedientes, enquanto aos poucos ele o introduzia. Fez que eu agachasse e que minha companheira viesse por baixo. Agora, ela era o meu homem.

Não consigo precisar quanto tempo ficamos naquele jogo. Foram muitas as posições. O homem, sempre nos olhando, admirava nossa performance. Precisamos de muito preparo físico para satisfazermos seus caprichos. Apenas no final, veio trepar com uma de nós. A que sobrava devia acariciar qualquer parte do seu corpo, mesmo com a boca, com beijos e lambidas. Quando estava prestes a gozar, mudava de mulher. Após o prazer, adormeceu. A mulher, então, perguntou quem eu era. Você não é profissional, ela reparou. Como descobriu?, retruquei. Fácil, as amadoras trepam com paixão. Qual o problema de eu não ser profissional?, eu quis saber. O hotel não aceita amadoras, é melhor você ir, caso o chefe descubra aqui uma mulher fora do seu controle, tanto você quanto eu vamos ter problemas, vá embora, não demore. Quando acabou de falar, ouvimos duas pancadas fortes à porta. Minha companheira correu e foi abrir. Não deixou que eu escutasse a conversa. Do lado de fora, ainda nua, entabulou uma conversa rápida. Escutei apenas o rastro de uma voz masculina. Quando voltou, disse que jurou ao homem que no quarto só havia ela, e que nosso parceiro ia ficar bravo caso se sentisse incomodado. Vá embora, mesmo que nua, você corre perigo.  Nua?, assustei-me. Ela foi ao armário e jogou o macaquinho sobre o meu corpo. Vista lá fora, disse, pegue a bolsa e os sapatos, desça pelas escadas. Rápida, saí do apartamento. Vesti a pequena peça entre um andar e outro, ajeitei-me e consegui me ver na rua após descer 18 andares. Só então percebi que me faltava a capa de renda, que servira para disfarçar minhas pernas grossas, agora de fora. Ainda bem, um táxi.

O motorista, ao reparar minha nudez, me cantou o tempo todo. Disse que eu era linda, que nunca vira uma mulher tão assim... assim... charmosa, afirmou que eu não precisava pagar a corrida se o levasse ao meu apartamento. Preferi descer longe de casa, duas quadras. Ele me deixou, não sem demonstrar imensa insatisfação. Para contentá-lo, pedi seu cartão, afirmei que, numa outra hora, ligaria.

Corri para casa. Não encontrei conhecido algum na rua, ainda bem. Ao abrir a porta do apartamento, descobri o namorado que me presenteara com o macaquinho. Ele resolvera voltar e não me achara. Onde você estava?, perguntou preocupado. Na casa da Margarida, respondi. Franziu a testa como se não acreditasse. Ela estava em apuros e me telefonou, afirmei. Em apuros?, repetiu. É uma longa história, deixa eu descansar que depois conto, concluí. Tirei a roupa e deitei, ele veio mais uma vez sobre mim. Ainda bem que há a Margarida, pensei. Vez ou outra, eu contava a ele algumas aventuras de minha amiga.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Le Match

Paul foi um namoradinho ousado. É o que eu sempre acho quando penso nele. Outro dia, ao dirigir pela península de Ashby e fazer o retorno, parei diante do Le Match, um antigo bar que hoje mantém apenas a arquitetura de quinze anos atrás e serve agora de galpão.  Paul pedira para sairmos aquela noite de primavera, queria que eu dirigisse devagar pela orla de Tom e depois parasse diante do antigo bar. Se fosse apenas essa a sugestão, nada demais. O namoradinho, no entanto, me queria de biquíni à noite. Perguntei se eu não morreria de frio, pois apesar da primavera a temperatura resistia a subir.

“Você vai de casaco e de biquíni”, insistiu.

Acabei por lhe fazer a vontade, e o biquíni que vesti era dos menores, de laçarotes, que entrava todo atrás. Joguei o casaco sobre o corpo, descia até parte das pernas, e nos aventuramos ao exterior.

“Você não me permite ao menos um par de meias?, dessas que sobem acima dos joelhos”, pedi.

Ele moveu a cabeça, concordando. Fomos então passear, de carro, uma espécie de furgão. Eu de casaco, biquíni, as meias e um par de botas.

“Você esta charmosa”, soprou sorridente, soltou o ar quente pela boca.

Demos várias voltas pela orla de Tom, depois pelo cais de Ashby e, enfim, fizemos o retorno. Paramos diante do Le Match, onde havia àquela hora poucas pessoas. Eram dez da noite. Parecia que os jovens estavam em alguma das boates que ficavam depois de Ashby. Pedimos duas bebidas, a minha de morango e vodca. Ele tomou um Scotch e comeu amendoins. Ficamos em silêncio durante algum tempo ouvindo a música abafada que vinha dos autofalantes do bar. Uns homens jogavam sinuca no andar de cima. Após a segunda dose, Paul sugeriu que saíssemos e caminhássemos até as dunas, a quinhentos metros dali.

Do lado de fora, apesar da baixa temperatura, o céu estava claro.

“Por que as dunas?”, perguntei.

“Nada demais, apenas um passeio.”

Quando atingimos o ponto mais alto, pudemos apreciar toda a orla das praias da península. Apesar da noite, o contorno do litoral se delineava claramente.

“Então, você atendeu o meu pedido”, ele disse, “veio de biquíni.”

“O que há de mal nisso?”, cheguei a perguntar.

“Que tal você tirar toda a roupa?”, insinuou.

“Acho que não posso, vou adoecer”, falei.

“Então tire o biquíni”, sugeriu mais uma vez.

Dei de ombros. Com as mãos sob agasalho, desfiz os laços. Ele sorriu quando viu o biquíni nas minhas mãos. Entreguei a ele, que o guardou num dos bolsos.

“Você está gostando”, suspirou.

“Quem sabe”, devolvi.

Veio me abraçar. Suas mãos frias percorreram minha pele branca e gelada, dentro do casaco.

“É melhor voltarmos para casa”, eu disse.

“Vamos ao Le Match, quero mais uma dose”, ele rebateu.

Descemos as dunas e entramos mais uma vez no bar. Naquele momento havia mais pessoas. Avistei, entre três rapazes, Diana, uma velha amiga. Ela logo me viu e se aproximou.

“Que casaco bonito, deixa eu vestir um pouquinho”, foi logo dizendo.

“Não posso”, afirmei.

“Como não pode?”

“Depois te conto”, acrescentei.

Ela deslizou as mãos sobre minhas costas e sorriu.

“Depois tenho também uma coisa pra te contar”, disse e me beijou, voltando pro meio dos rapazes.

Eles estavam alegres, espelhavam muito vigor.

“Seria bom se ficássemos com eles”, disse a Paul.

Ele deu de ombros, pediu mais uma dose e sentou num dos bancos. Diana ria muito, logo abraçou o que estava à sua direita e, de lá, deu uma piscadela para mim.

Não sei como aquela noite terminou. Acho que voltamos ao carro e ficamos nos agarrando antes de eu dirigir de volta. Pode ser também que eu tenha dirigido de volta para casa, nua, pois fizera isso algumas vezes para agradá-lo.

O bar ficou na minha memória, o letreiro ainda é o mesmo, mas o fim que a construção passou a ter de uns anos para cá não é mais o de reunir jovens ávidos por bebidas, músicas e aventuras com as mulheres.

terça-feira, janeiro 26, 2016

Uma viagem inesquecível

O ônibus deu a partida e Lucilene já estava acomodada em seu lugar. As bagagens no bagageiro. De repente um rapaz, na casa dos vinte anos, pediu licença, sentou ao lado dela e começou a conversar. Lucilene vive só e nåo tem com quem falar uma só palavra. Ele se chamava Pedro, passou a contar passagens tristes de sua vida. Disse que nåo queria mais conhecer ninguém pra namorar e diminuía muito as mulheres. Narrou sua vida junto à família e afirmou que também não queria voltar às raízes. Lucilene, pessoa  vivida, deu vários conselhos a Pedro. Sugeriu que voltasse a estudar e que levasse a vida com memos rancores no coraçåo. Ela já tivera experiências com diversos homens, mas também achou que jamais fora feliz. Ronaldo gostava de homens. Justino, um cabra safado de muitas mulheres, quando estava com ela parecia exausto. Estevão era idoso e só servia pra manter o luxo dela. Depois de ouvir muito Pedro, começou também a se lamuriar. Contou sua vida. Ele, que era tåo jovem, disse: posso ser uma pessoa diferente na sua vida. Mas você acabou de dizer que não quer mais ninguém pra namorar..., ela interpôs. No teu caso é diferente, ouça, ele retomou a palavra, divide o dinheiro do Estevåo comigo e me torno teu namorado, você vai sentir o que jamais sentiu, tenho uma pica de quase 25 cm, prometo te penetrar bem devagar, fazer carinhos em todo o teu corpo, você vai se deliciar com um gozo que ainda não sentiu. Lucilene pediu pra ele falar baixo, estavam num ônibus. Ele passou a lhe sussurrar ao pé do ouvido. Na primeira parada para o lanche, os dois, que só carregavam cada um uma mochila, procuraram repouso em uma pousada perto da lanchonete. O motorista, antes de partir, perguntou pelos dois passageiros desaparecidos a quem sentava nas proximidades. Um senhor idoso, da poltrona atrás de onde estivera o casal, pediu que ele se aproximasse e lhe cochichou poucas palavras. O motorista sorriu com o canto dos lábios, retornou a condução do ônibus e seguiu sem o casal. O destino dos dois estava traçado. A noite foi plena de gemidos. E Lucilene nem se preocupou com os outros hóspedes. Quase todos caminhoneiros que, nos quartos próximos, tentavam repousar da dura vida nas estradas.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Clariciana?

Precisar é sempre o momento supremo. E eu senti que ele precisava. Desde o começo, quando me olhara com extrema acuidade – um olhar capaz de grandes descobertas –, percebi que ele precisava. E eu tão nua.

"Por que a nudez sob a saia?", ele quis saber.

"Nunca ninguém reparou", afirmei.

"Jura?"

"Claro, e por que jurar?, já ando assim faz tempo, caso pudesse andaria nua, mas teria de resolver dois problemas, o primeiro na ordem do sentido: quando se esconde algo, cria-se certa curiosidade; o segundo, é que sair nua levar-me-ia na certa à prisão; portanto, ficaríamos longe um do outro."

"Você achou melhor facilitar as coisas", ele tentou interpretar.

"Nem tanto", interrompi, "lógico que a leveza de determinados tecidos e alguma possível transparência contribuíram, mas o que me leva à nudez sob as saias ou vestidos é uma certa alergia."

"Alergia?", surpreendeu-se.

"Isto mesmo", revirei os olhos, "e o conselho foi de minha médica: 'abandone as calcinhas por um bom período', assim o fiz."

"Nunca ninguém notou?", a pergunta de todos os homens.

"Não, jamais, apenas você. Ah, meu amor, as coisas são muito delicadas", tive de dizer.

Ele mostrou-se meticuloso.

"Delicadas", repetiu e enfatizou, "e você se acostumou", interessado, ele.

"Acostumei-me. No início me senti nua, preocupada, mas depois me acostumei, e até gostei. Enfim, lingerie apenas para os momentos de grande exaltação."

Ele comprou-me a lingerie para os momentos de grande exaltação.

"Lembre-se, amor, só posso vestir essas roupas por quinze minutos, a alergia", eu alertava.

"Oh, sim, não vou esquecer", sua fazenda nobre me dava garantias.

Alguns minutos a mais, ou a menos, e lá ia eu sem o tecido provocante.

Os homens respiram o fetiche. E a mulher anda nua. Talvez o calor. Ou, quem sabe, o desejo, sempre o desejo. E eles querem o momento supremo.

"Caso um dia nos separemos você vai continuar saindo assim?", respirou esbaforido.

"Assim?", fiz que não entendi.

"Assim, tão assim...", não conseguiu completar.

"Já sei", retruquei, "assim tão sem..."

"Isso, você definiu bem, tão sem", abraçou-me.

"Sabe", quis incendiar-lhe, "tive um namorado que me dava bombons na hora do amor, pedia-me para engolir o chocolate recheado no momento supremo do gozo."

"E você assim o fez", sua voz procurava o equilíbrio, mas vi suor em seus poros.

"Fiz, e quis mais, mais e mais", afirmei solícita.

"E não lhe fez mal, a alergia..."

"Gozar nunca é mal", assegurei, "e a alergia é apenas a calcinhas."

Dias de depois, trouxe-me um líquido que estranhei a princípio. Mas logo deduzi do que se tratava.

"Gosto", meus dentes brancos mergulharam num sorriso longo, "gosto muito."

E já sem as saias e blusas, nunca a roupa debaixo, me veio com o líquido na hora do gozo. Ele o deixara no copo, próximo à cabeceira; quando anunciei o supremo momento, entornou-me à boca a substância.

"A essência do ser... Só se conhece a coisa quando a gente se torna a própria coisa", sentenciou."

"Também sou clariciana", borbulhei, os olhos fechados.

Mais tarde, antes de dormir, voltei ao líquido, tomei mais dois grandes goles: banana com aveia!

"Clariciana?", quis ele saber.

"Lispector", endossei.

terça-feira, dezembro 22, 2015

Mulher Maravilha

“Mas você veio nua!”

“Vamos, essa hora sou invisível.”

“Invisível?”

“Isso mesmo, depois te conto.”

Caminhamos pela 312 Norte, passamos dois blocos de comércio. Entre dois restaurante, o Maranello e outro de nome também italiano, havia quatro apartamentos, Marcos tentou a fechadura do 308.

“Encontrei antes tua irmã”, falou.

“Irmã?”

“Uma moça muito parecida contigo, chamei por ela como se chamasse você.”

“Ah, a Mayara, é muito parecida comigo.”

“Isso. Ela disse não, não sou a Maristela, todos fazem confusão entre nós duas.”

“Acredita que já saímos uma trocada pela outra?” 

“Como assim?”

“Vê se primeiro consegue abrir a porta, depois conto, lembre que temos pouco tempo.”

“Já vou conseguir, falta testar apenas mais duas chaves.” 

“O homem não te explicou sobre qual delas?”

“Explicou”, falou e olhou para mim num átimo de segundo, logo enfiou mais uma das chaves na porta e escutamos a fechadura girar.

“Ainda bem”, falei.

Entramos.

“Quer dizer que você e a Mayara trocam de identidade?”

“Só aconteceu uma vez.”

Terminamos de subir os dois lances de escada. A porta do apartamento foi aberta com mais facilidade do que a da entrada do prédio.

“Veja, há até um sofá”, deixei escapar minha surpresa.

“Ele me falou sobre isso, o morador anterior deixou o sofá, quem vem aqui pode usá-lo. Mas espere.”

Tirou um lenço do bolso, foi até o banheiro e voltou com ele molhado, passou sobre o vinil.

“Agora pode sentar, está limpo.”

“Obrigada.”

“Mayara nada me falou sobre isso, e já conheço ela faz um tempinho”, afirmou.

“Coisa de namorados e paqueras, o cara ficou em cima de mim o tempo todo, até que falei a ela quer sair com um carinha?, ele até é bonitinho. Jura? Foi a resposta dela, sempre em forma de pergunta, a Mayara adora efeitos de linguagem. Quando ele telefonou passei a ela, então marcaram e saíram. Disse cuidado, Mayara, essa noite você se chama Maristela. E ela foi, adorou, encontrou o cara mais duas vezes, depois não sei mais o que aconteceu."

“Será que não casou com ele?”

“Não, caso isso acontecesse teria me convidado.”

Deitei no pequeno estofado. Marcos começou a me fazer carinho.

“Você é bonita, sabe?”

“Sei.”

Puxei seu pescoço e o beijei no rosto.

“Venha, suba sobre mim, já te falei que temos pouco tempo, e estamos nos perdendo em conversas paralelas.”

“Conversas paralelas?”, riu.


Antes de sairmos, perguntou:

“Você não tem vergonha?”

“Vergonha de quê?”

“Muitas morrem de vergonha quando acabam.”

Quando acabam?

Depois que gozam.

“Ah, entendi. Não, não tenho vergonha.”

“Mulher corajosa, e veio nua...”

“Lembra que sou a Mulher Maravilha? Gosto de aventuras, apenas isso.”

“Temos ainda quantos minutos?”

“Ah! Nossa, um minuto, isto é, cinqüenta segundos, vamos”, gritei.

“Espere.”

“Sou invisível por apenas mais trinta, tenho que chegar ao carro, tchau.”

Despenquei escada abaixo, e ele embaralhado nas chaves.

terça-feira, dezembro 15, 2015

Suas mãos beliscavam o meu bumbum

Oh como era bom estar de volta, realmente de volta, sorri satisfeita. Eram quinze para as cinco da manhã, o ar fresco, o céu ainda escuro. Sentei numa das poltronas e cruzei as pernas. Minha aventura fora demorada, um tanto precipitada, sentia-me, porém, reconfortada. Há momentos em que a gente vê tudo prestes a ruir. Mas a madrugada acabava bem. Ao menos para mim. Faltava-me apenas o descanso, o sono ligeiro, mais repousante, no meu caso sempre ao amanhecer. Fechei os olhos e me veio à mente Marina. Gostava de encontrar o amante à hora do almoço, sempre no mesmo hotel. Ela entrava primeiro. A recepcionista, já de longa data, a conhecia. Marina subia alguns degraus, bom dia, o sorriso discreto. A empregada entregava-lhe a chave, o mesmo apartamento. Voltava alguns passos e entrava no elevador. Saía no sexto andar. O homem chegava um quarto de hora depois, sempre pronto a lhe dar muitos beijos. Ele podia ficar apenas duas ou três horas; ela permanecia mais um pouco, adormecia sozinha. Gostava de adormecer sozinha num quarto de hotel, ia embora ao entardecer. Certa vez, depois do amor, antes que o homem partisse, resolveu pregar-lhe uma peça. Pegou a própria roupa, bem enrolada, e a enfiou na pasta dele, uma valise para transportar algum livro e papéis. Você é louca?, ele lhe diria horas depois, pensou que eu poderia não ter voltado?, você nua neste centro de cidade grande. Marina apenas sorriu e o abraçou. Fizeram amor mais uma vez. A partir daquele dia, antes de sair, ele olhava dentro da valise, depois a beijava. Oh como é bom estar de volta, realmente de volta, sorri satisfeita voltando à poltrona onde eu sentava. Descruzei as pernas e inverti a posição, a direita agora sobre a esquerda. A chave do carro ainda estava ao meu lado, dei-me conta de que saíra sem documento algum. E que ainda precisaria pedir que buscassem o carro. Dirigira dentro da noite, incógnita, ninguém a poder provar minha identidade. Poderia eu fazer acreditar outra pessoa quem sou? O passeio durante a madrugada, ou a perspectiva dele, sempre me excitava, mesmo antes de começar a praticá-lo. Sair com o carro da garagem e dar umas voltas pelos quarteirões, quadras de filme americano. Às vezes vou mais longe, tomo confiança com a distância. Até a rodovia estadual. Mas lá, vez ou outra, mesmo durante a madrugada, vê-se um automóvel, um caminhão. A placa a revelar o meu condado, talvez a minha identidade. Por que o temor?, alguém perguntaria. Não se trata de temor, um meio de resguardar a individualidade, a privacidade, coisas assim. Pode-se fazer qualquer coisa incógnita dentro de casa, mas não pelas ruas da cidade. Sempre há alguém conhecido, sempre alguém a levantar véus, a nos desnudar. E por falar em véus, no princípio queria ir sem eles, em pele, mas o tremor. Isso mesmo, o tremor impedia-me de pisar os pedais, e era preciso dirigir, ir e voltar. Depois de algumas semanas, a primeira experiência; a seguir outra e mais outra. Até que foi possível sair de casa apenas o automóvel, sua lataria, vestido discreto, cor de prata envolto na noite. Quem dirá não? Por que uma mulher não pode usar como vestido a carroceria de seu automóvel ? Não me fure um dos pneus! Tão novos, seguros. O tanque, sempre cheio. Mas há a bomba de gasolina. Por que fora falhar logo naquele dia? Na verdade, o acaso pode trazer surpresas agradáveis. O combustível não passava, e eu a duas milhas da minha poltrona. Então, o garoto, dezoito ou dezenove anos. Um militar. Você vai para as forças armadas?, minha pergunta, já abrigada no seu carro. Ainda bem que vinha sozinho. Vou, é minha última noite. Ainda bem, pensei, ele não terá tempo de contar pra ninguém. E a senhora?, ele quis saber. Senhora?, quase ri. Onde foram parar suas roupas? Ali, apontei o carro. Por que não veste?, ele. Por que é muito pesada, respondi. Quer entrar?, perguntei quando parou seu automóvel junto ao meu jardim. Acompanhou-me à porta, beliscou-me o bumbum. Trepamos na garagem. Ali há um colchonete. Ele se lavou na torneira que há do lado de fora. Depois se despediu. Desejei que tivesse sucesso nas forças armadas. Onde? Primeiro o treinamento, disse, depois alguma base. Que não seja no Afeganistão, falei temerosa. Mas ele era o homem mais corajoso do mundo. Venha mais uma vez, nunca se sabe o amanhã. Preciso ir, está quase na hora, passei a noite acordado porque sei que não conseguiria dormir, mas volto, prometo, falou com dignidade e com muita segurança. Quem sabe, pensei. Quis lhe falar que também não dormira. Meu motivo era outro. Mas não consegui. Oh como era bom estar de volta, realmente de volta, sorri satisfeita. Quanto ao soldado, nunca se sabe. Eu volto, prometo, sua voz ressoava na minha cabeça, suas mãos beliscavam o meu bumbum.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Chá e biscoitos

“Você não comeu nada”, disse Ana, ofendida, ao reparar os biscoitos intactos.

“É que estou surpresa”, repliquei.

“Surpresa?”

“Sim”, falei ainda olhando a foto. “Se ele mostra a alguém?”

“E o que os outros têm a ver comigo?”, respondeu sorridente, apanhando um dos biscoitos e mordiscando.

“Não sei, mas poderia causar algum prejuízo a você.”

“Nada disso, não preciso de ninguém, tenho meu próprio negócio e isso jamais me prejudicaria.”

Devolvi-lhe a foto. Ela a pousou sobre a mesa, ao lado do pratinho de biscoitos. Pegou sua xícara e tomou um pouco do chá.

Imaginei a situação em relação a mim. Jamais teria coragem de me deixar fotografar naquela pose. Ana estava de pé, na foto, num gramado, ao lado do tronco de uma pequena árvore. Vestia apenas o top, as mãos cruzadas abaixo do umbigo cobriam seu sexo. Andei durante muito tempo à procura de um namorado, não acho que com aquela atitude facilitaria as coisas. Minha amiga, no entanto, era espevitada. Tudo para ela era motivo de alegria.

“E como estão vocês agora?”, eu quis saber.

“Estamos ótimos.”

“Tomara que vocês nunca briguem.”

“E se brigarmos, o que tem?”, ela me olhou com o rosto desafiador.

“Ele pode chantagear você.”

“Bobagem”, acrescentou tranquila, “hoje as mulheres estão cansadas de andar nuas por aí.”

Suspirei e fiquei quieta no meu canto. Segurei a xícara e bebi um gole de chá, comi um dos biscoitos.

“Não quer ir com a gente, no Carnaval?”, sugeriu com ar de expectativa.

“Aonde?”

“Angra dos Reis.”

“Só se você deixar ele tirar uma foto minha, assim como essa que você mostrou?”, falei com ar de pilhéria.

“Jura?, ela arregalou os olhos. “Deixo, caso você permita que posemos junto.”

“Brincadeira, Ana, e quanto ao meu trabalho? Se o juiz me vir nua é capaz de me transferir.”

“Mas aposto que antes ele te convida para um hotel.”

“Você acha mesmo, Ana? Ele é tão bonito.”

“Claro que sim. Se eu fosse você, não perderia tempo. E o que é que tem trabalhar em outra seção?”

“Vou com vocês. Mas no pictures”, acrescentei.

“Ok.” Seus olhos grandes sempre me contagiavam. Senti uma coceirinha. Eu acabaria também tirando a roupa? Ela comeu mais um biscoito.

“Tem mais uma coisa, Ana, vou sair esta noite com o namorado que fez a foto”, ela disse.

“O que tem de mais nisso?”, olhei enquanto segurava a xícara.

“É que vou nua.”

“Nua?”, assustei-me.

“Nua, pelada, sem roupa alguma.”

“Mas, Ana, logo você uma mulher tão elegante...”

“É que ele afirmou um dia desses que poucas são as mulheres bonitas quando se mostram nuas por inteiro, e eu sou uma delas”, interrompeu.

“Você já não sabia disso?”

“Claro, mas nas palavras dele é outra coisa.”

“E como você vai fazer?”

“Surpresa!”, sorriu.

“E se alguém encontra você, Ana?”

Não encontra, não, Vera, e a cidade é pequena; as estradas, escuras. Quem sabe como um cachorro quente na Serra?, sorriu de novo após a sugestão.

“Você é louca.”

“Nada disso, prefiro que você diga que eu sei aproveitar a vida.”

“Talvez, mas eu não aceitaria sair nua por aí. Ele sabe ou é surpresa?”

“Sabe, foi ele quem pediu”.

“Cuidado, Ana. Se ele te larga pelada por aí?”

“Se isso acontecer, é ele quem sai perdendo”, ela deu uma imensa gargalhada e comeu o último biscoito.