quinta-feira, setembro 25, 2014

A princesinha

Este conto tem como autora minha amiga de Glicério, Nuance Lewada. Ela volta ao blog com toda a força e promete muito  mais. Para ler suas contribuições anteriores clique aqui.                        

Christina vem lutando para melhorar o sistema de ensino em sua cidade. Ela acredita que esta é a melhor ação para que o povo aproveite as oportunidades de emprego. Sua amiga Francisca, mais conhecida como Pezinho, há muito tempo saiu de lá para tentar ser deputada  federal e conseguiu se eleger.

Lá em Brasília, Francisca saiu do sério: conheceu pessoas de vários estados, mas a que mais se identificou foi Mariano, um mendigo que no começo tentou ajudar, mas se apaixonou por ele, porque o cidadão lhe apresentava as melhores propostas de posições para fazer sexo. Um dia, Mariano propôs a Pezinho se deliciar sexualmente em todas as asas de Brasília. Pezinho ficou encantada com as diversas chances de ir ao delírio.

Christina ficava sabendo da felicidade de Pezinho. Trabalhando para a própria campanha, as conquistas na saúde avançam. Capacita mais de 4 mil alunos para o mercado de trabalho. E Christina fala, nas entrevistas: “O desenvolvimento continua em nossas mãos”. Em seus pensamentos, vem à tona a vida que a amiga, Pezinho, leva em Brasília.

À noite, mesmo com o corpo cansado, a candidata pensa: “Hoje vi nas ruas um mendigo ainda novo que pode dar um bom caldo”. Pegou o carro e rondou a cidade a procura da caça. Todos os mendigos já dormiam em seus colchonetes e cobertores, nessa época do ano é muito frio por lá, mas o Chico, um rapaz alto, cabelos lisos, olhos esverdeados, ainda vagava.

Christina parou perto dele e ofereceu passeio. Mesmo sem entender nada do que estava acontecendo, Chico entrou no carro. A candidata não foi reconhecida, pois estava de gorro. Christina levou Chico pra um motel fora da cidade. Chegando lá pôde ver melhor a pessoa de rua que ela havia pescado. Encheu a banheira com água morna, meio vidro de sabonete líquido e uma porção máxima de álcool. Pediu pra ele tirar os molambos que vestia e entrasse na banheira.

Chico concordou. Tomou um banho de príncipe. Conversou muito com ele embrulhado nas toalhas do motel. Ele havia vindo do Nordeste tentar a sorte na cidade e não tinha conseguido nada até agora.

Encheu a banheira novamente com sais de sua preferência e disse ter que tomar também um banho. Tirou as roupas aos olhos de Chico, mostrando seus enormes e rechonchudos seios, além de uma vagina espumando de vontades. Beijou o parceiro e o convidou a entrar na banheira.

Os dois se divertindo e conversando muito, Christina se declarou excitada com a presença e o perfume dele. Chico também, que estava a seco por vários meses, se emaranhou com Christina nas águas espumosas daquela banheira. Com um som romântico que ela havia colocado antes da ideia do seu banho, Chico deslizou com o seu pênis duro feito uma rocha no corpo de violão de Christina. Quando ele ia  penetrar na vagina, Christina se lembrou de uma camisinha que mantinha em sua bolsa, que por sinal estava na borda da banheira. Acarinhou o pênis de Chico com sua boca, o que fez o companheiro ir ao delírio, colocando a camisinha em seguida. Fez penetrar o pênis do Chico na vala entre suas pernas e gozou até não poder mais.

Prometeu no outro dia levar roupas limpas para ele e marcar outros encontros, até decidir como ajudar o Chico.

Chico e Christina pareciam viver um conto de fadas. Todos os dias eles se encontravam no mesmo motel. Christina passou a manter a alimentação de Chico, e assim viveram ainda por muito tempo. A eleição chegou e Christina conseguiu ser eleita. Levou Chico pra Brasília, e lá ele não foi mais de rua, e sim o marido de Christina, seu  assessor sexual e importante na Câmara dos Deputados. Como a vida tem seus mistérios! 

quinta-feira, setembro 18, 2014

Que conquista, a minha

Antes eu procurava frases de efeitos para começar um conto. Sempre achei importante e imprescindível ter estilo. E as tais frases, como me davam prazer. Hoje já me sinto senhora de mim, isto é, do meu texto. Não mais necessito copiar literatura alheia. Durante a noite penso no que vivi no dia findo, coloco então certa ordem no caos. Quando acordo, vou direto ao computador. Não tenho dificuldades para transformar a brancura da folha numa obra de imaginação. Já depois de duas ou três frases, voo hábil, como a boa cozinheira que sou acrescento o tempero certo, nem mais nem menos, sutil apenas, nada que faça desandar o almoço, ou a janta, quem sabe.

Ah, meu patrão, como é encantador. Quando o conheci logo pensei vou conquistá-lo, não posso deixar que escape. Passava junto dele, quase a lhe roçar a pele, olhava-o de soslaio. Ele concentrado na leitura, na escrita, no trabalho. Essa vida de escritor é de arrepiar, o homem não pensa em outra coisa, lê e escreve o dia inteiro. Fui contratada como sua secretária. Vocês sabem como isso funciona. Faço de tudo, até mesmo o serviço doméstico. Visto uma bermuda de lycra, uma camisa de malha e mergulho no mar de tarefas que me espera. Sei que ele me olha de rabo de olho quando entro no seu escritório. Já o surpreendi uma ou duas vezes, ele bem sabe, mas o homem tem o poder do disfarce, consegue manter-se frio, distante. No começo pensei se ele me agarra?, grito ou corro? Um homem de seu quilate, porém, não vai partir para um expediente tão baixo, adivinho. Lógico que minhas manifestações de possível desespero também se encaixavam nas gavetas da representação, puro teatro. E demorou até acontecer alguma coisa entre nós. Há aquele toque de mãos, quando fingimos esquecer que estamos pele a pele. A mesma pele do ventre, das coxas, dos seios etc. Escorregamos durante alguns segundos no corpo alheio. Eu mesma afasto as mãos. Tenho a preocupação de não deixá-lo constrangido. Passam-se vários dias sem nos prestarmos a toques mais íntimos, apenas o trabalho, sorrisos e algum meneio meu de cabeça.

A iniciativa tem de ser minha, afirmaria a meus botões caso me fosse tal a roupa. Se deixar ao encargo dele, jamais teremos uma relação além da profissional. Passo a refletir sobre o que fazer, sobre como uma mulher pode conquistar um homem sem se mostrar ridícula. O amor? Não sei, amor como as pessoas o entendem parece enredo de telenovela, e meu patrão não é chegado a elas. Coloco-me em prontidão, descubro a possível trilha a seguir, observar-lhe as leituras. Qual o tipo de livro lê ele, qual o autor, qual o tipo de personagem feminina o interessa? Tem às mãos na maior parte do tempo os livros de Machado de Assis. Mas as mulheres de Machado são superiores aos homens, vencem na inteligência, na astúcia; quando não podem vencê-los abertamente se calam, reflito; com o tempo, percebe-se que ostentam o troféu da vitória. Portanto, não me posso colocar como uma das personagens machadianas, para tal empreitada precisaria de muita leitura, e isso levaria tempo. Descubro, entretanto, outra coisa, um possível caminho para as minhas intenções. Não se pode viver de tanta virtude, eis a verdade, quero dizer, não se pode viver de tanta seriedade. Entre numerosas personagens complexas, muitas virtuosas e outras nem tanto, encontro a vulgaridade. Não se trata de livro de Machado, mas obra traduzida do francês (oh, sempre os franceses), se não me engano um livro que logo depois de publicado foi levado às telas. Tomo o exemplar nas mãos e o folheio. Não passa muito tempo para eu descobrir que se trata de um caso de amor, ou seja, de relação sexual, melhor dizer assim. Um homem procura apartamento e, em meio à visita a um deles, encontra ao acaso uma mulher, que também busca onde morar. Não trocam palavras, apenas ligeiros gestos de cumprimento e de tolerância um com outro. Ambos partem, mas voltam duas ou três vezes, nos dias seguintes. Numa dessas visitas, acabam transando. Tudo acontece com naturalidade. São corpos que se atraem por si sós, ambos necessitam do calor recíproco. Na última visita, no entanto, há um pequeno pacote de manteiga. Acho que trazido pelo homem. Não preciso dizer a que a manteiga se presta. A mulher goza intensamente.

Deixo o livro de lado e continuo o meu serviço. Na manhã seguinte vou ao mercado. Entre as compras trago a manteiga, a mais cara, a mais bonita, a de nome atrativo, que dá asas à imaginação. Meu patrão olha o objeto sobre a mesa e, creio eu, não faz a ligação imediata com o assunto do livro encontrado por mim entre seus papéis. Come o lanche matinal e, apenas no final, olha para mim e sorri. Nesse sorriso, encontro uma ponta de malícia. Digo então... E curvo a cabeça. Começo a desfazer a mesa do café.

Duas horas depois, ao entrar no escritório para lhe levar um café puro, como sempre costumo fazer, ele pede a manteiga. O senhor quer também torradas?, pergunto sem malícia. Não, por favor, apenas a manteiga.

Não preciso dizer mais, confio na inteligência dos meus leitores.

sábado, setembro 13, 2014

Dentro da noite

A gente sempre é capaz de se surpreender.

Trabalhei em outra cidade durante um ano, mas todo final de semana voltava para casa. Como a passagem era cara, procurei saber se havia alguém que pudesse me dar uma carona. Assim, além de sair mais barata a viagem, voltaríamos conversando. O tempo passaria mais rápido e chegaríamos mais depressa em casa. Não é que quisesse apenas economizar dinheiro, pagaria o pedágio, ou mesmo ajudaria na gasolina. Falando a verdade, uniria o útil ao agradável. E não é que aconteceu? Soube de um homem que partia do Rio a tal cidade à mesma hora que eu. E também voltava. Combinamos.

No primeiro dia, esperei por ele num posto de gasolina próximo ao trajeto que fazia, queria facilitar as coisas e não ser taxada de comodista. Escondi meu mau humor matinal por trás das lentes escuras dos óculos. Sabia que, ao mesmo tempo, criaria um ar de mistério. Vestida para matar?, quem sabe. Partimos. Ele apenas sorriu. Silencioso durante toda a viagem, apenas um ligeiro sorriso e os cumprimentos convencionais. Como falo muito, cuidei para não soltar a matraca. Policiei a voz e meus modos. Não soube se o homem era solteiro ou casado. Também, o que me importava? Queria eu alguém para casar?

Chegou o dia de voltar. A mesma atitude. Tanto por parte dele quanto por mim. Já que se tratava de pessoa discreta, diminuí o repertório. No meio da viagem, que durava em torno de três horas, cheguei a lembrar de um rapaz com quem saía quando morei em BH. Jamais foi meu namorado, mas nos encontrávamos para transar.

Na semana seguinte, nova carona, mais duas viagens. Ida e volta. Será que nada vou saber sobre ele? No trabalho, cheguei a perguntar. Mas dele ninguém nunca soube coisa alguma, apenas que era um homem divertido.

Assim passamos a fazer parte um da vida do outro. Toda semana ida e volta juntos. Acabei deixando escapar alguns segredos meus, profissionais e pessoais. Quando falei sobre meus gostos, chegou a entortar a cabeça e a mover a ponta de um dos lábios. Uma vez que dirigia, não lançava olhar frontal a mim.

Comecei a achar que o homem era perigoso. Não praticaria nenhum mal contra mim, mas o perigo é que qualquer mulher cairia apaixonada por ele. Era alguém pleno de mistério.

Às vezes eu perguntava sobre alguma possível atitude dele num momento de trabalho. É preciso pensar, refletir, ele dizia. E sua voz soava plena, como se através do pensamento ou da reflexão conseguisse realmente o sucesso.

Certa vez, na volta, pedi que parasse, precisava fazer um lanche. Assentiu. Parou o carro num restaurante famoso, desses em que param os ônibus de luxo. Indicou-me o restaurante, onde os garçons esperavam pelos clientes. Não, quero apenas um lanche. Mas o seu olhar foi tão generoso, que aceitei o convite.

Vamos tomar uma cerveja?, minha a pergunta.

Concordou. Depois, eu mesma alertei, mas você está dirigindo.

Tomou água mineral. Bebi a cerveja.

Acho que ri mais do que me era permitido. Não estava acostumada a uma garrafa inteira, e das grandes.

No caminho, pedi pare, por favor, preciso fazer xixi, alertei.

Apontou que dali a quinze quilômetros havia um bar com banheiros limpos.

Não, por favor, pare em qualquer lugar, não aguento.

Será que eu já ia rubra?

Parou no acostamento de uma longa reta. Saí, fechei a porta e agachei bem junto ao carro.

Quando voltei, não digo que estava morta de vergonha.

Vamos ficar aqui mais um pouco, não preciso chegar em casa cedo, hoje, falei.

Mostrou adiante um local melhor, um esconderijo. Quem passasse pela rodovia não seria capaz de nos perceber. Dirigiu por uma estrada transversal à rodovia e parou num local que parecia perfeito para estacionar.

Você não quer voltar para casa hoje?, perguntou.

Dei os ombros. Demorei a responder.

Sabe o que é? Quando morei em BH saía com um cara parecido com você. Eu não era namorada dele, mas a gente saía. Você entende, não?

Ele entendeu, e até muito bem. Já estava escuro. O céu apresentava as primeiras estrelas. O silêncio era comprido, como a reta lá de cima, onde se viam apenas os faróis dos automóveis a cortar a noite recente.

Sabe, já saltei nua numa estrada, e já também tomei banho nua numa cachoeira.

Jura?

Claro, juro.

Então, você vai la fora nua?, apontou a noite fechada.

Nua, nua?, fiz cara de inocente.

Sim.

Transamos duas vezes naquela noite. Uma antes de eu sair do carro e outra depois. Ainda pedi que ele dirigisse um pouco à frente e me deixasse esperando.

Por que você gosta assim?, quis ele saber.

Não respondi. Mas quando ele deu a partida, confesso que fiquei arrepiadíssima. Tudo meu dentro do carro e eu pelada do lado de fora...

Continuamos indo e vindo juntos. Vez ou outra, sempre na volta, parávamos no mesmo lugar, quase à mesma hora. E, para não perder o costume, eu sempre saía nua do carro. Ele gostava de admirar o prazer que eu sentia nisso.

Um ano depois me transferi para o Rio. Apenas comuniquei a ele. Não demonstramos tristeza, nem deixamos transparecer que estávamos perdendo alguma coisa.

Nada se perde, pensei. Ganhamos momentos de prazer, sobretudo porque gozávamos juntos, gozávamos também com as primeiras estrelas, com a estrada comprida, com os faróis dos automóveis que mergulhavam na noite como se sempre estivessem prestes a entrar num longo túnel.

Mas que besteira, pensei. Nada se perde? No final das contas, havia a minha casa. Telefonei então para ele.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Você gosta de me telefonar, não é mesmo?

Você gosta de me telefonar, não é mesmo? Sabe que já me casei, mas mesmo assim insiste, e ainda pergunta pelo meu marido. Ele está na rádio, você já sabe sobre isso; desde que se mudou pra minha casa, aqui na serra, se enfiou na rádio e quase não sai de lá, não recebe um centavo, mas não sai de lá. A rádio é comunitária, ele diz que está ajudando. O que vou fazer?, deixo que ele vá. E você aproveita para me telefonar. Outro dia, me lembro bem da tua pergunta, você quis saber se tomo banho nua no rio que passa aqui atrás, quase dentro do quintal. Não, não tomo não, a água está poluída, quando passa por aqui já beirou várias vilas aqui de cima, portanto não pretendo contrair uma doença. Mas vou dizer um segredo. Escute. Quando o telefone tocou, eu estava saindo do banho, corri até a sala e peguei nas mãos o aparelho. Adivinha. Estou nua, isso mesmo, nua, pelada, acho que você deve estar adorando me ouvir contar isso. Não fiz de propósito. Como ia adivinhar que era você? Mas coincidiu. Como sei que gosta de me ver nua, ou de imaginar que estou nua, digo a verdade, sentei pelada na poltrona, cruzei as pernas e estou falando com você. Não, ele não vai chegar agora, é quase certo; se chegar, o que tem?, a desculpa vai ser a mesma, estava saindo do banho etc. e tal. Outra coisa, ele nada pode falar, atualmente sou eu que pago as contas, o que ele ganha é muito pouco, e ainda se mete em trabalhos voluntários. O quê? Ah, sim, lembro. Você não esquece isso, não é mesmo? Acho que adorou. Lembro muito bem. Foram duas vezes. A primeira foi na estrada. Era de madrugada e você me pediu que tirasse toda a roupa. Saí do carro apenas de casaco, um casaco grosso mas curto. Se você não volta eu estava perdida, com tudo de fora, o primeiro que passasse ia querer me comer. Bom que a brincadeira acabou bem. Você foi dar apenas uma voltinha e não demorou. Ou, sei lá, na hora me pareceu uma eternidade, mas acho que não passou de vinte minutos. Isso mesmo, quando entrei no carro, vestindo apenas o agasalho, disse a você que estava molhadinha, e não era devido ao casaco, estava molhada em baixo, bem entre as pernas. Está gostando de me ouvir falar sacanagem? Acha que porque me casei eu não ia mais contar nada picante? O quê? Ah, sim, pode ser, acho que você tem razão, já estou me sentindo mais aliviada das dores nas costas, acho que quando tenho tesão, ou quando trepo, as dores diminuem. Vai ver que eu devia andar sempre nua por aqui, assim ficava molhada e aliviada das dores, acho que tesão e uma boa trepada resolvem tudo. Mas escute, já que você tocou no assunto, outro dia li um daqueles livros que você sugeriu, da mulher que viaja para outro país e arranja um namorado casado, gostei da história, é boa, ela frequenta um bar com ele, acho que em Tel Aviv, ou era em Jerusalém?, não lembro ao certo. Sei que a mulher veio da Rússia e logo arranjou um namorado, um árabe. Ela estava certa. A irmã é que foi uma idiota, casou-se com um mecânico que a traía e aceitou viver naquele fim de mundo, na Rússia. As coisas não são muito diferentes por aqui. Em Glicério, também está cheio de gente querendo arranjar problemas. Ainda há outra história em relação a nós dois, lembra? Na praia, lá em Rio das Ostras. Você fez que eu tirasse o biquíni dentro d’água e o entregasse nas suas você. E o que aconteceu depois? Você levou o biquíni lá pra areia e o guardou dentro da minha bolsa. Me deixou nua na praia. Sabe que também fiquei morrendo de tesão. E a menina, minha ex-aluna, quando me viu veio me beijar, e nem notou que me faltava a parte de baixo. Ainda bem que tudo acabou de modo satisfatório. Ou não? Na minha memória sei que não voltei nua pra casa. Sabe, contei essa história pra uma amiga. Não disse que aconteceu comigo, mas com uma pessoa próxima. Você sabe que existe uma porção de gente que faz essas coisas por aqui, e mesmo em Macaé? Aqui na serra, quando as mulheres namoram saindo de carro, elas acabam sempre nuas, dizem que adoram namorar ao ar livre, sob a luz da lua. Há uma delas que conhece um cara que contou que a namorada gosta de sair nua de casa e ir até o portão. Você lembra que eu também já fiz isso? Desci as escadas pelada e encontrei uma mulher lá embaixo, bem junto ao portão, ainda bem que ela não me viu, cheguei a pensar que era Lídia. Você gostou..., adorou, e os apartamentos do segundo andar estavam com inquilinos. Olha, acho que nem vou precisar tomar remédio hoje, só o fato de estar aqui nua conversando com você já me aliviou muito, me deu o maior ânimo, estou melhor. Não, não venha, não quero trair o meu marido, e logo aqui, tão perto de casa, nada disso. Vamos fazer diferente. Um dia desses eu vou aí e a gente arranja um lugar pra você me deixar nua. Hoje acho que vou gozar sozinha, vou também pensar nas nossas histórias, acho que até hoje você goza pensando em mim, não? Goza, sim; e acho que vou gozar também, já mudei até a posição das pernas, sério, estou toda molhada...

quarta-feira, setembro 03, 2014

Caso do vestido

Todas temos um caso do vestido. Não se trata de amor furtivo, ou mesmo de romance às escondidas com homem casado. Mas caso de vestido mesmo, comprido ou curto, no corpo ou fora dele. Até Drummond teve o seu. No caso de nosso poeta maior, fato narrado por ele em poema. Mas o meu caso de vestido é mais simples, e ocorreu às custas de um admirador que veio de longe à minha cidade só para me namorar. Foi num sábado à noite, inverno em BH, apesar de final de junho nem tão frio. O namoradinho me pediu que saísse de vestido. Apenas isso? Claro que não. Ele queria algo mais, ou algo de menos. Todos compreenderam, não? Na verdade o seu desejo era apenas o vestido a me roçar a pele. Vesti então um de tecido grosso, abotoado à frente. Os botões, dourados e convidativos ao despropósito, envolviam-me numa nebulosa de sensualidade. E lá fui eu e o rapaz a passear pela noite, a parar em um ou dois bares e beber uma taça de vinho, ou mesmo uma cerveja, não lembro ao certo. Depois de deixarmos o último bar, voltávamos ao meu apartamento. Uma praça, no entanto, interpôs-se a nosso caminho. Duvida cruel: atravessá-la ou contorná-la? Acabamos escolhendo a primeira opção. Caminhamos entre árvores, canteiros, parquinho infantil e bancos. De repente, o namoradinho parou e abraçou-me. Confesso que o abraço provocou-me, ligeiro arrepio percorreu-me o tronco. E, quando menos eu esperava, ele pôs-se a desabotoar-me. Será que não vês que é inverno, posso contrair uma doença, afirmei lícita. Mas era tal a artimanha do namorado e tal a minha sensação de gozo que acabei por permitir. Não passou muito tempo para eu estar nua à meia-noite e meia na tal praça, ao ar livre e sob o calor de tantas mãos que disputavam todas as partes do meu corpo. Não pude sentir frio. Temos um apartamento aconchegante, alertei, não é possível que queiras fazer sexo comigo em meio à noite aberta. Mas o jovem mostrava-se impetuoso. Disse que não havia problema, pois seu apetite era suficiente para dois jantares, um ali, o outro no meu apartamento. Confesso que foi boa a refrega. Entreguei-me a um homem pela primeira vez em meio a uma praça, em BH. Nem mesmo em minha cidade de origem, quando ainda namorava às escondidas, despi-me entre árvores. Portanto, ia eu nua, em plena capital de Minas. No final, quando já nos preparávamos para abandonar a praça que nos servira tão bem ao amor, confessei, queria que encontrássemos um buraco. Um buraco?, assustou-se. Isso mesmo, assegurei, um buraco. Mas não te foi suficiente a praça? Foi, mas preferia um vão, uma abertura entre dois galpões, ou mesmo um nicho entre sobrados, estaria mais exposta; tanto maior o perigo, pleno o gozo. Pleno o gozo?, ele repetiu. Isso mesmo, eu disse. Não queria te dizer, mas ainda estás nua, não reparaste?, ele apontou o meu corpo. Eu, nua?, fingi surpreender-me, e agora, o que faremos?, acrescentei.  Não sei, foi a resposta dele, a cidade é tua, conheces todos os vãos e desvãos, deves conhecer um que nos leve ao teu vestido! Só então reparei que ele falava sério. Meu vestido?, onde? Ora, o teu vestido, repetiu mais uma vez, onde? Estava num galho de árvores, mas qual? são tantos... Recordei, para acalmar o namorado (ele parecia mais alarmado do que eu) uma amiga também mineirinha, mas de Muriaé. Ela é maluquinha, adora sair de madrugada, quando perde o sono, a dirigir pelada. Não tiveste medo de que te acontecesse algum imprevisto, perguntei-lhe, um pneu furado, ou outro qualquer enguiço, quem sabe o surgimento inesperado de um policial? Imprevistos podem acontecer, e não digo que tenha me livrado de todos, respondeu-me, um deles me foi até bom, e tão gostoso... Minha amiga mineirinha adora os homens, quer gozar com todos. Ela é que está certa. Amanhã te compro outra roupa, cortou-me a narrativa o namorado. Amanhã?, retorqui, precisas comprar hoje, como subo dezoito andares nua? Ainda é noite e, apesar de curto, empresto-te o casaco, ofereceu-me. Não, nada de casaco, toca-me mais uma vez, vai, faze aqui mesmo a tua segunda janta, vem que já faço a minha terceira, depois tomamos uma decisão; conto-te um segredo, tenho a sorte da mineirinha.

quarta-feira, agosto 27, 2014

Arlete perdeu a renda arrastão

A vida fora de casa é completamente outra. Foi isso que Arlete pensou às duas da madrugada, numa estradinha lateral, que margeava o quarteirão onde ficava a casa do homem com quem estava saindo. Dentro de casa há o aconchego, chegou a refletir, há a privacidade. Pode-se, sim, sentir o arrepio entre quatro paredes, a pele lisa, o sopro quente do verão vindo de uma das janelas aberta, mas ao lado fora... Ela olhou o relógio. Sim, usava um relógio. Apesar de tudo, tinha o pulso coberto. Trazia também a bolsa a tiracolo, e ia sobre uma sandália baixa. Isso era outra coisa que a preocupava. Por que não saíra de casa com uma das tantas sandálias de salto? Sempre gostava de mostrar-se elegante e, naquele momento, saltos altos ajudariam muito. Dentro de casa houvera uma brincadeira. Do mesmo modo que se portava na esquina de duas ruas desertas, também estacara numa posição sedutora, na confluência de duas paredes da sala. Mas estivera entre paredes, apenas o seu homem a se encantar. Aliás, ela também encantara-se consigo, e acontecera aquela sensação incontrolável. Lembrou-se das amigas e das festas. Eles, os homens, adoram uma brincadeira depois que bebem, elas comentavam. Eles dizem uma mulher nua é adorável, e vocês encantam, apesar de tudo. Apesar de quê?, ela agora se perguntava, pois não era mulher como as outras, como as atrizes dos filmes, da TV? Uma mulher bonita jamais fica em dificuldades, sempre haverá quem lhe estenda um manto bem cortado, um vestido de desfile, e gostará de vê-la passear destemida. Arlete sabia que não é bom mostrar-se por inteira. Existe um jeito de disfarçar algo que poderia tornar-se demais. Ereta, a bolsa, a sandália, tudo em harmonia. E já eram duas e quinze da madrugada. Quem iria levá-la? Não se preocupe, dissera ele, tudo está combinado em todos os detalhes. Mas não existe chance de algo dar errado?, ela perguntara. Você quer que algo dê errado?, respondera ele com outra pergunta. Não sei se a pessoa que vai parar e se aproximar será a do combinado, ela temia. Não é sua função levantar essas questões, você ganhou para isso, está lucrando, portanto cumpra o seu papel, a voz do homem soara uma ordem. Ela nada mais dissera. O homem a conduzira de automóvel até a confluência das duas ruas e a fizera saltar. Já passavam vinte minutos. Maria Rita. Ela, Arlete, lembrou-se de Maria Rita. Maria Rita nada temia, gostava mesmo era de dinheiro. Caso o depósito estivesse na conta, cumpria aquilo para que fora contratada. E boca fechada. Existe um jeitinho, um disfarce, algo que é do seu próprio corpo, ela, Maria Rita, afirmara, ninguém nota, e as mulheres adoram andar nuas, ainda acrescentara. Nunca nada de mal lhe acontecera, nem no dia que fora descoberta com aquele tecido vazado, que se usa em meias arrastão, tecido que lhe contornava o corpo inteiro, pernas, tronco, braços e pescoço, tudo traçado pela renda preta transparente. Maria Rita nada comentou, apenas contabilizou o ganho e dormiu tranquila, sabia que tudo se resolveria. Mas Arlete não era Maria Rita, e alguma preocupação não lhe deixava sossegada. Até que veio o táxi, parou e piscou os faróis. Por que não se aproximava?, bastaria abrir a porta e entrar. Ter que caminhar mais vinte metros... Ou o motorista queria vê-la desfilar. Isso, devia gostar de ver uma mulher desfilando. E tanto mais nua! Será que tinha certeza de que ela era uma mulher mesmo? Há muitas pessoas fofoqueiras por aí. De vestido, diria que apontava, o corte, uma inovação. Mas só a pele e tudo por um triz, ainda tendo de fazer movimentos... Ah, outra coisa, não podia transpirar. A transpiração colocaria tudo a perder. O líquido que serve como adesivo é do próprio corpo, um segredo que Maria Rita lhe revelara. Mas o líquido não pode entrar em conflito com outras secreções. Ainda havia aquela história do namorado que esfregou um creme ao redor das duas coxas de Arlete. Esse creme vai lhe provocar, e muito. E provocou, provocou uma... Não, isso não, mas neutralizou o adesivo por boas doze horas. Amanhã tenho um desfile, Arlete pensou, nada de cremes, tenho que estar perfeita, as impropriedades bem escondidas, ou disfarçadas, como sempre. Por que os homens gostam de nos colocar em perigo?, falou a si quando percebeu cintilâncias. Estrelas também tremeluzem abaixo das nuvens. Correu e entrou no táxi. Após sentar-se, sentiu umidade no acento. O creme? Arlete suspirou pela renda arrastão de Maria Rita.

sábado, agosto 23, 2014

E que incêndio!

É bom saber pensar e brigar. Não se pode ficar apenas no pensamento e no desejo. Ganhar cinco mil reais me vai ajudar muito a resolver alguns problemas. Se o que preciso comprar se pode chamar de problemas. Vi, na praia, a garota. Devia ter entre os vinte e vinte e cinco anos, quem sabe mais um pouquinho. Ela vinha com a mochila às costas e... de biquíni. Não caminhava na areia, rente à beira-mar, mas no calçadão. Ou na rua, não sei bem. Acho que era domingo e ela andava na rua. Um meio certo de arranjar namorado, caminhar de biquíni na rua. Mas será que era isso o que ela desejava? Não sei, pode ser que não. Tenho certeza de que ela ia de biquíni, calçava tênis, e a mochila às costas. Isso me deu uma tremenda ideia. Sempre há aqueles que querem sensações mais intensas, e eu conheci um desses. Um senhor agradável, simpático e generoso. Gostou de mim à primeira vista. Foi num dia desses, de céu nublado, quando se sai à tardinha em busca da última nesga de claridade e do sopro fresco que vem do mar. Parei num quiosque, na orla de Copacabana. Queria água mineral. Ele já estava lá, vestia calça comprida, uma camisa com a bandeirinha da França no peito e sorria. À mesa, um coco; já havia terminado de saborear a água. Sente aqui. O convite, dele. Aceitei, sentei e tomei toda a garrafinha de água mineral. Conversamos. Uma conversa vazia, dessas que se estabelecem entre duas pessoas recém-conhecidas. Depois que fui embora, esqueci-me do homem. Mas já no dia seguinte o encontrei de novo. Dessa vez, de bermuda, mais informal. E o encontrei também no domingo. Foi nesse dia que vi a moça de biquíni e mochila às costas. Ele me convidou ao cinema. Vamos ver um filme logo mais, pode ser um besteirol, apenas para espairecer. E lá fomos. Gentil o homem, pagou o cinema, o lanche. O filme? Não importa. Como ele dissera, um besteirol. Ficou com o meu número. Não custou a me convidar para jantar. À noite as coisas são mais sérias. Não sei de quem a frase. Mas o homem seguiu-a à risca. Levou-me a uma cantina, ali na Fernando Mendes. Boa a comida. Tomamos vinho. Escolhido por ele. Tudo sob medida. Depois de tanto, o que me restava? Acabei no seu apartamento. Bonito, o homem, para quem já passa dos sessenta; um bom amante, apesar dos sessenta. Nada comentamos sobre nossas diferenças, incluindo aí a idade. No final, o homem perguntou se eu tinha conta em algum banco. Sabe como é, vivo sozinho, não se sabe o dia de amanhã. Sorri. Voltei a casa, enlevada. Ganhara eu na loteria? Seria verdade o que eu ouvira, ou ele mentia? Na semana seguinte, deixei por escrito o número de uma conta de poupança que havia muito esquecida. Até fora ao banco para saber se ainda existia. Sim. Existia. E o banco estava pronto para acolher a parte do seu lucro. O homem depositou. Numa primeira vez, um dinheirinho. Passaram-se alguns dias, dobrou (ou triplicou?) a quantia. Apareceram dois mil. Não sou mercenária. Não arranjo namorado para ganhar dinheiro. Mas já que surgiu, aproveitemos... E o homem é um conquistador nato. Fala como se sonhasse, e logo o sonho torna-se realidade. Outro dia contou sobre umas fantasias, coisas que a princípio pensei que viu no cinema. Depois, porém, achei que ele mesmo pudesse ter inventado. Então, como sou sempre presenteada, não posso deixar escapar o homem. E acho que agora até mesmo o amo. Não há quem não ame uma bolsa plena de notas de cem acompanhada de um sorriso lisonjeiro. Não é minha a frase, mas de uma diarista, e acho que não falou com essas palavras. Mas a ideia é a mesma. E volto às fantasias do homem. Primeiro, amarrou-me nua a uma cadeira. Amarrada e com a boca lacrada por um largo esparadrapo. No dia que se seguiu, dois e quinhentos a mais na minha conta. E muitos beijos, carícias, e nada de ejaculação precoce (ele sabe namorar). Hoje, talvez mais do que amarrada, ou muito solta, não sei bem, eis-me nua, a bater à sua porta. A condição para ganhar os cinco mil: preciso estar nua por inteiro, batendo à sua porta. Não só vir e bater. Tenho de partir também nua. Então, o plano. A tal moça de biquíni com a mochila às costas. Eu, nua, com a mochila às costas. Agora, falta-me o desfecho. Escondê-la, a mochila. Nua, entro; nua, amo-o; nua, vou-me. E a mochila... Ah, a caixa de incêndio. E que incêndio!