terça-feira, agosto 23, 2016

A calcinha ficou no bolso dele!

Ele sempre me pedia para eu vir com o vestido curto, coladinho ao corpo. Eu não podia sair lá da Baixada, onde moro, tomar o trem vestida, ou melhor, nua daquele jeito, os homens querendo-me despir com seus corpos, beliscando minhas coxas e outras coisas mais. Iam me chamar de piranha, vadia, vagabunda. Eu estaria a serviço de quem pagasse mais. Por isso o vestidinho veio na bolsa, e eu de macaquinho, as pernas de fora, mas comportadas. À tarde, encontrei com o namorado. Fomos a um hotel. Bonito o lugar, pode-se dizer requintado. Ele gosta de conversar, de me abraçar, beijar, de ficar agarrado comigo, quase inocente. Olhei o cardápio e telefonei pedindo um lanche. Continuamos nosso papo e nossos toques. O lanche não demorou. Comi com gosto. Ele apenas ficou olhando para mim, me apreciando. Quando acabei, ainda esperei um pouco, sorri, fui até a janela e olhei lá embaixo. Depois voltei e disse que ia ao banheiro. Demorei uns dez minutos. Tomei um banho, escovei os dentes e vesti o vestidinho. Abri a porta e disse:

“Surpresa.”

Ele ficou realmente excitado. O vestido curtinho, coladinho, subia quando eu dava alguns passos. Ao chegar perto dele, não deixei que viesse logo me agarrar, não queria que colocasse as mãos por baixo do pano. Pelo menos naquele momento. Fiquei um pouquinho distante. Desfilei. Só depois fui chegando a ele, me encostando. O namorado me pegou pela cintura, me levantou.

“Não vou tirar o teu vestido, não, mas a calcinha.”

Me colocou no chão, deslizou as mãos pelas minhas coxas e trouxe a pequena peça enroladinha, puxou até os joelhos, depois desceu aos tornozelos, ultrapassou o calcanhar e a calcinha nas mãos dele. Guardou em um dos bolsos. Tal ação me provocou arrepios. Há homens que adoram nos deixar sem a calcinha não apenas no momento do sexo, mas também gostam de guardá-la com eles. ‘Depois compro outras pra você’, dizem. Já tive namorados assim.

Mas este não ia roubar minha calcinha. Ele adorava meter em mim seu grande pênis. Primeiro pediu que eu o chupasse. Quando me dei por satisfeita, levantei a cabeça, deitei, ele veio me penetrar. No meio do caminho, falou:

“Vamos fazer coisa melhor.”

Sentou numa cadeira, pediu que eu me aproximasse, que abrisse as pernas, o vestidinho sobre o corpo, e que descesse e subisse várias vezes sobre o sexo dele. Eu é que devia regular os movimentos, o nível da penetração.

Uau, que delícia.

Não posso nem pensar. Deixei mesmo que ele gozasse dentro de mim. Estava tão gostoso que não tive coragem de tirar. Ele cuidou para que não sujasse o vestidinho.

“Você passeia comigo com o vestidinho?”

“Como pego o trem depois?, vão me agarrar”, retruquei.

“Fazemos assim, passeamos, depois vai ao banheiro do Mc Donalds e troca pelo macaquinho.”

Concordei. Fomos ao passeio. Era fácil perceber todos os homens a me acompanhar com os olhos. Não é só no trem que há tarados.

Anoiteceu, tomamos um suco no café da Cultura.

“Então, vamos”, pedi.

“Ao Mc Donald, que não serve só hamburguês”, ele completou.

Ri. No banheiro, ao vestir o macaquinho foi que lembrei: onde a calcinha?

Na saída, nada falei, sorri, beijei-o e parti.

Quando cheguei a casa, lembrei: a calcinha ficou no bolso dele!

Ah, deixa pra lá. O importante e que tudo foi muito bom. E o vestidinho pronto para entrar em ação de novo.

terça-feira, agosto 16, 2016

Trinta minutos

Olha, Sirlene, o homem é bonito. Ela ria, três copos de cerveja, ria desbragada. Olha, Sirlene, vamos manter a compostura, modos, podemos desejar, mas discrição acima de tudo. Cruzou as pernas para o outro lado, a esquerda agora sobre a direita. Nas paredes, fotos de cantores, a música paga, jukebox. Quer ouvir de novo, Sirlene? Quanto a ficha? A mesma música mais uma vez, emoção. O homem de costas para o balcão olhava em linha reta. Não sei se a mim ou a ela. Sei que olhava, tenho certeza. Às duas? Talvez. Não, não, às duas não. Sirlene ria, olhou pra mim. Você gostou, hein?, eu disse, na verdade gosta de todos, cada semana um, ou todos ao mesmo tempo, não sei. Ela suspirou duas ou três palavras; quero pagar pra ver. Quatro palavras, afinal. Deixe que ele venha, não precisa avançar tanto, Sirlene, com dificuldade eles gostam mais, traçam planos, estratégias. Lembra a Emengarda? Sei que já está entrada em anos, Emengarda e o vestidão, mas eles não desistem, o que conta é o sorriso enigmático, eles não sabem se avançam ou esperam, se ela sorri pra eles ou pra dentro. Verdade, Sirlene, há mulheres que sorriem pra dentro, tudo pra dentro, isso mesmo, querem tudo ao avesso, não apenas o sorriso, o homem também, o homem pra dentro delas, o prazer assim é maior, o jogo demorado, às vezes a noite inteira, e Emengarda nua às quatro e trinta da madrugada, só tenho meia hora ela diz aos homens, tenho compromisso, eles fazem de conta que não entendem, mas ela goza, e como, lógico que eles também, mas ela não deixa que eles gozem primeiro, sabichona a velha, ou melhor, nem tão velha, madura, ou no ponto, sei lá. Não acredita, Sirlene?, por que então a mulher fica num bar até as quatro e trinta com um copo de guaraná?, além do gozo, a mulher não bebe, juro, nem uma gota, deixa pro gozo, sem bebida é mais intenso. Como sei disso? Lógico que não foi ela quem me contou. As paredes têm ouvido, Sirlene, aliás, têm olhos também. Não se trata de fofoca, mulher, não me dou com fofoqueiras. Sei que a ladeira é cheia delas, mas não me dou com fofoqueira alguma. Verdade, amiga, quem me conta, jura, e não brinca, é pessoa séria. Emengarda tem um segredo. Relato da mesma pessoa, pessoa séria, posso afirmar. Modos, mulher, faz como a Emengarda, pernas fechadas, discrição, no final quando sobra ela e o homem, às quatro e trinta, ela diz só tenho trinta minutos, tenho compromisso. Mas enquanto bebe o guaraná, nada fala, nada de expansões vazias, o homem tem de sofrer, se for fácil, vai embora logo, eles ficam, esperam a hora que ela vai. E só às quatro e trinta, apenas meia hora. Sirlene, calma, ele não vai agora. Está olhando pra mim? É porque sou mais difícil, mulher, não estou me abrindo pra ele, não mostro as pernas num bar, nada de vestido curto, nada de calcinha na bolsa, eles se interessam, depois vem falar ao meu ouvido. Não sei, vou responder espero o namorado. Eles morrem de raiva e de tesão quando ouvem que a mulher espera outro homem. Pagam pra ver, ficam até ela ir embora. Ele não veio, tenho enfim de dizer, me deu bolo. É a única vez que sorrio. Não sabem se é de disfarçada desilusão ou porque fiz que esperassem até quatro e trinta da madrugada, a noite quase perdida. Como Emengarda. Nenhuma de nós dá nada por ela, e sempre trepa mais do que a gente. E de vestidão. Eles não desconfiam que ela se insinua com vestidões. A mulher tem ardil, acaba a noite sempre com um homem, nada de noite perdida, e cada um mais bonito do que o outro. E querem voltar, se deixar querem até morar com ela. Emengarda se transforma quando tira o vestidão. Certa vez deixou um deles tão louco que ele lhe levou o vestidão. Mas ela não ligou, tinha outro em casa. Sirlene, você não escutou o que ele me falou, sei, o jukebox, a música, o volume alto. Você espera por mim? São quatro e trinta, tenho compromisso, apenas trinta minutos, viu, apenas trinta minutos.

quarta-feira, agosto 10, 2016

Você quer que eu fique nua pra você?

Você quer que eu fique nua pra você?, tudo bem, mas vamos a um hotel, não gosto de namorar dentro de carro nem lá embaixo na areia da praia, eu disse.

Eu o conhecera já fazia duas ou três semanas, ele viera trabalhar na cidade, na verdade um lugarejo, mas que tinha instalações para exploração de petróleo em alto mar. Passamos a nos encontrar quase todos os dias, frequentamos o principal restaurante, que ficava na orla marítima. Ele atendeu ao meu pedido. Ensinei o caminho e fomos a um hotel na cidade vizinha.

Durante o tempo em que ele permaneceu na minha cidade, ficamos juntos. Levei-o uma ou duas vezes pra casa. Mas não quis que virasse costume. Como nesse tipo de lugar quase todos se conhecem, logo começa o falatório, e eu não estava a fim de ouvir bobagens. Sabia que ele não ficaria pra sempre, o trabalho dele não permitia, eu tinha consciência também de que quando ele partisse seria muito difícil encontrá-lo de novo. Nos seus últimos dias, resolvi fazer algo marcante, algo que me tornaria inesquecível a ele.

Tenho uma fantasia, falei. Fantasia?, ele me olhou curioso, sorriu e esperou a explicação. Nada de carnaval, lembra quando saímos nas primeiras vezes?, você queria tirar minha roupa dentro do carro, pedi então pra irmos a um hotel; aqui há um pequeno morro, de lá dá pra ver a cidade inteira, embora a escalada seja um pouco cansativa; minha fantasia é tirar a roupa lá no topo; não podia pedir isso a você naquele dia; vamos hoje? Ele concordou, achou a ideia muito boa e engraçada. Ensinei o caminho. Guiou até as proximidades. Deixamos o carro bem protegido, num trecho da estada que pouca gente conhece. Começamos a subida.

Sabia que não encontraríamos pessoa alguma naquelas bandas, mas mesmo assim preferi tomar o caminho mais difícil, afastado da possibilidade de um encontro casual com qualquer habitante da cidade. Algumas vezes tínhamos de andar no meio do mato; outras, aparecia um tipo de trilha, que nos ajudava. Faltando cem metros para atingirmos o topo, encontramos uma espécie de caverna. Como eu já conhecia o local, entrei e o chamei. Ali dentro o abracei, beijei-o na boca e ficamos agarrados um ao outro por um longo tempo. Você não me quer nua?, incentivei. Ele fez que sim com a cabeça. Tirei então toda a roupa, enrolei a blusa, a calcinha e o sutiã e os coloquei dentro da calça comprida, enrolei a calça e a escondi num dos cantos da gruta. Quem cavou isso aqui?, ele perguntou. Não sei, esse lugar já existe faz tempo. Você não tem medo que alguém more nesse lugar, algum desconhecido?, você vai deixar suas roupas aqui?, ele duvidava. Não vem ninguém não, vamos subir. Peguei o namorado pelo braço e continuamos a escalada. Após um tempinho, atingimos a parte mais alta. Sempre à frente, mostrei os quatro cantos da cidade. Foi engraçado, eu nua puxando o homem de um lado a outro pra mostrar a paisagem. Ninguém ainda teve essa mesma ideia, de vir aqui pra namorar?, ele estava preocupado. Acho que não, falei, a cidade tem lugares mais fáceis de se chegar, onde se pode namorar sem ser incomodado.

E realmente foi assim, namoramos bastante e não apareceu ninguém enquanto estivemos ali. Mas o namorado se mostrou um pouco intranquilo. Você não precisa ficar preocupado, relaxe, eu dizia, quem está nua sou eu. Abracei-o mais uma vez e trouxe o seu sexo de novo para o meio das minhas pernas. É bom a gente gozar com essa paisagem bonita em volta, debaixo desse céu salpicado de estrelas, veja como brilham, falei O céu estava sem nuvens e sem lua, dava para ver até mesmo a via láctea. Quando ele pensou em descer, resolvi pregar uma peça. Contei uma história.

Você deve estar pensando que trago aqui todos os namorados, ou todos os homens que conheço, mas não é isso não; confesso que já vim, fiquei nua, mas apenas com dois deles; e o mais engraçado foi o que aconteceu uma das vezes. Alguém surpreendeu vocês, e como você estava nua..., ele insinuou. Não, não foi bem assim, sabe a caverna?, fiz como agora, deixei minhas roupas lá, mas quando voltamos elas tinham desaparecido. Jura?, ele fez cara de surpresa. Juro, procurei tudo, mas não encontrei, o rapaz ficou como você, mais apavorado do que eu. Não posso voltar nua pra casa, disse a ele, mas temos um jeito, me empresta tua camisa, pedi. Ele vestia uma blusa de mangas compridas de tecido aflanedado, pois era outono e ele parecia sentir frio à toa. Sem a blusa vou ficar doente, mas tenho outra solução, vou descer sozinho e volto com uma roupa pra você, ele assegurou. Acreditei no homem e fiquei esperando, agora me pergunte se ele voltou?, eu disse finalizando o relato. E como você fez? Ah, isso não posso contar, morro de vergonha. Você voltou pelada pra casa?, perguntou ansioso. Não posso dizer que não, mas também não posso dizer que sim. Agarrei o homem, tirei seu sexo para fora da calça e trepamos mais uma vez. Descemos calados, já alta a madrugada. Entramos no carro e ele me deixou em casa. Antes de ir embora, ainda o beijei pela última vez. Você ficou me devendo, ele acrescentou. Eu?, o quê?, retorqui. O fim da história. Ah, não liga não, brincadeirinha, sabe como é a vida numa cidade pequena, sorri e acenei um adeusinho. Fiquei olhando o carro até desaparecer no final da rua.

Ah, meu namoradinho que me deixou nua, tomara que um dia desses você apareça de novo por aqui.

terça-feira, agosto 02, 2016

Calça legging

Estou no centro da cidade, acabo de sair de uma reunião de trabalho. Como meu universo é o das artes, ando sempre muito à vontade. Gosto mesmo é de vestir calça legging e um camisão, por baixo o top. Não há homem que deixe de me olhar, principalmente depois que passo. Às vezes tenho vontade de me virar para surpreendê-los reparando minha bunda. Já sei até o que imaginam, minhas nádegas volumosas, a marca da calcinha e, quem sabe, a camisa comprida levantada! Encontro, de repente, um amigo. Já não o vejo faz tempo. Ele se curva pra me beijar. Sou baixinha mas, como revanche, quem já trepou comigo sabe o tanto que sou gostosa. E nesse dia eu estou ardendo. Por que tanta excitação? Sou sincera, não sei dizer o motivo. Talvez a calça apertada, a calcinha entrando que dá gosto, tudo contribuindo pra elevar minha temperatura. Ele pergunta o que eu estou fazendo. Assunto de trabalho, respondo, mas já está resolvido. Vamos tomar um café? Prefiro um chope, respondo. Não consigo reparar, mas aposto que meu amigo ficou arrepiado. Os homens adoram mulheres que surpreendem. Seguimos a um bar na Cinelândia. Ele me olha, sorri, e toca num dos meus braços durante a conversa. Sorrio que só, sou feliz. Também é feliz a tarde de quinta-feira.

Conheço aquele amigo faz uns quatro ou cinco anos. Também assunto de trabalho. E faz uns três anos que não o vejo. Ele lançou um livro e me convidou, saímos alguns dias depois. No momento em que tomamos o chope me pergunto, será que trepei com ele? Sei lá, tantos namorados.

Fica bem essa roupa em você, ele diz. Você acha?, às vezes penso que me torna extravagante. Que nada, continua, as mulheres devem usar o que lhes cai melhor, essas calças colantes sempre chamam a atenção dos homens, e o que há melhor no mundo do que as mulheres? Meu amigo tem boa conversa, melhor, boa cantada, e eu já vou quase nadando nas águas dele, águas cada vez mais quentes. Bebemos um, dois, três chopes. Ele pergunta se como alguma coisa. Não, nada de comida, respondo. Ele ri, já sei, a elegância, acrescenta. Abro-me num sorriso que convida. Ele sente a carícia. Que tal mais um?, sugiro. O garçom volta com dois copos grandes. No final, estamos soltinhos. Mas meu amigo não me convida pra sair, apenas diz que está feliz por ter me encontrado, não esperava coisa melhor para aquela tarde. Penso o que lhe impede de me convidar a um hotel, e ali em volta tem tantos. Meu amigo é um homem elegante. Precisamos marcar um dia desses um encontro, com mais tempo, ressalta. Então, percebo que tem um compromisso, talvez um compromisso mais importante do que levar uma mulher bonita a um hotel, alguém que ele não vê faz tempo. Você não quer casar comigo?, ele pergunta, é o homem mais natural do mundo. Por essa eu não esperava, casar?, jura? Ele jura. Vou deixar meu número com você, falo, você me pegou desprevenida, quem sabe seja a calça legging, tiro a calça e tudo se acaba... Meus olhos ficam úmidos. Ele nota. Talvez seu objetivo seja emocionar uma mulher. Há homens que sentem mais prazer nisso do que numa boa trepada. Pra me vingar digo, ainda com os olhos úmidos, sabe, tive um namorado que me roubou as calças leggings, juro, me deixou só de camisão, e eu pensando que ele queria casar comigo! Ambos caímos numa gargalhada gostosa. Juro que não vou roubar suas calças, não é do meu feitio, acrescenta. Seu negócio é casamento!, exclamo. Isso, casamento, e você é tão bonita. Jura que não foi o chope?, pergunto. Você acha que três ou quatro chopes vão fazer um homem querer casar?, ele. Sei lá, há gente pra tudo. Até pra roubar calças leggings, completa, me telefona, tenho de ir agora, mas me telefona, olha que não é todo dia que aparece alguém pedindo pra casar.

Meu amigo se vai. Fico a passar o que ele quer comigo.

Ligo três dias depois. Você tem uma cantada, hein, todas as mulheres vão querer teus braços.

Vamos a um motel, no centro da cidade. Mas não visto, naquela tarde, calça legging. Casamento? Melhor sermos amantes, sussurro no seu ouvido, sai mais caro mas é melhor. E tem mais uma coisa, você sempre vai querer roubar minhas calças.

terça-feira, julho 26, 2016

E já houve quem me roubasse outras coisas

Não sei por que cargas d’água reapareceu-me um ex-namorado lá dos anos 1990, e já deitava eu na cama com ele. Pelas tantas da madrugada, foi ele quem começou a conversa.

Já consegues dormir nua?

Se não me engano, desde sempre, retorqui.

Quando vivemos juntos eras muito pudica, dizias não conseguir pegar no sono caso estivesses sem roupa, sobretudo as roupas de baixo.

Acho que agora sou outra pessoa.

Da cama era possível ver através da janela ampla e aberta os prédios do outro lado da rua. A maioria não tinha sequer uma luz acesa. Caso alguém nos olhasse de lá, veria apenas a janela escura. Apesar de verão, um ar brando penetrava o ambiente e nos refrescava.

Se te comportasses assim naquele tempo, acho que ainda estaríamos juntos, disse ele.

Assim, como?

Deitar a dormir nua, assim como fazes hoje.

De lá pra cá, passaram-se muitos verões, e com eles muito se aprende.

E o que mais aprendeste?

Muitas coisas. Mas se queres saber mesmo de roupas, eis. Não se pode ter muitos namorados e querer mantê-las sobre o corpo, há sempre um que no-las rouba.

Roubaram a roupa de ti?

Isso. Levam as de baixo como troféu, ou como lembrança, lá sei.

E o que de melhor também aprendeste a fazer?, estava ele curioso.

Alguns tapam-me o nariz e a boca na hora do gozo, não me querem a respirar.

Aprendeste mergulho sem respirador?

Sempre fui boa de fôlego. Brincam com a possibilidade de matar a mulher, querem o fio da navalha, ou mesmo o do equilibrista.

Sério?

Mais do que sério.

E como te saíste?

Aprendi a gozar mais, tanto maior a falta do ar.

Ah, isso sei eu, queres sempre cavalgar no gozo, se possível toda a noite.

Sentou-se na cama e tomou um gole d’água do copo que ficava à cabeceira.

Ainda tens o costume de beber água à noite? Logo, não mudaste tanto.

Não, sou o mesmo.

Então, sei que estás a remoer-te de curiosidade. Conto mais. Os homens não querem só trepar, desejam a fantasia. E já houve quem me roubasse outras coisas.

O que trazias a mais?

Um cordão, algum dinheiro, um maço de cigarrilhas. O dinheiro e o ouro acho que queria para comprar alguma droga, ou pagar uma dívida, quem sabe.

E te meteste com gente assim?

Como saber? O homem é bonito, dá a bisca numa boate, paga um jantar, depois quer o cordão. E entenda uma coisa dessas.

Deste parte à polícia?

Nada quero com polícias, nem com porteiros de hotel.

Repousou o copo na mesinha, aproximou-se e tocou-me o cabelo.

E o que há de mais?, ardia o homem.

Houve um que me deixou apenas a sandália e a bolsa. Partiu antes de mim, e não estava eu onde moro, mas num quarto de hotel.

E o que fizeste?

Liguei à recepção e pedi um mensageiro.

E eles?

Mandaram o rapaz. Dei-lhe dinheiro e disse, vai a uma loja de esportes e compra a camisa do Porto. Mas do Porto?, rebateu, ainda era um garoto, aqui todos torcem pelo Benfica.

Não importa. Encontra uma do Porto.

Ele foi e voltou com a camisa. Dei o que prometi: aliás, entendes-me, dei duas coisas, entre elas uma boa gorjeta. Deixei o boy eufórico. Vesti-me e parti. A bolsa no ombro, a sandália nos pés e apenas camisa do Porto.

Fizeste maior sucesso, então?

Na terra de benfiquistas, ser Porto é gozar com o olhar galanteador de todos os homens.

Tornaste esperta. Acho que vou me apaixonar novamente por ti.

Não faças isso. Já estou na paixão de todos os homens. Do Porto e de Lisboa!

terça-feira, julho 19, 2016

Cortei um dobrado para convencê-lo que eu precisava vestir pelo menos um camisão

Outro dia encontrei um ex-namorado, fazia dez anos que não o via. Muito tempo, não? Nem sei como o reconheci. Aliás, no caso, sei sim. Não pude deixar de dizer, após algum tempo de conversa:

Você era fogo, viu.

Ele me encarou sorridente e retrucou:

Ainda sou.

Eu vestia um camisão, por baixo o top e calça legging. Ele olhou minha roupa com certa inveja.

Sabe, outro dia deixei uma namorada só de blusa, ele disse.

Imagino. E como ela fez?, perguntei fingindo falso interesse.

Ah, as mulheres sempre dão um jeito, dissimulou.


Ele era fogo mesmo. Como poderia esquecer? Viajei à cidade dele, o homem fez uma festa. Como gostou de me ter nos seus braços. E me queria nua o tempo todo.

Trouxe um livro, você permita que eu o leia um pouquinho?, perguntei.

Permito, mais sente nua ali no sofá, cruze as pernas e leia o livro.

Vou fazer um café para nós, falei à tardinha.

Ótimo, mas vai à cozinha assim como você está, nuinha.

Passei o dia e a noite sem vestir roupa alguma. Ainda bem que na cidade dele fazia calor.

À noite, convidou-me para passear. Quando abri a mala para escolher um vestido levinho, ou uma saia curta, ele contrapôs:

Nada disso, você vai nua.

Jura?, ainda perguntei.

Vai sim, aqui não tem problema.

Amor, não vai ficar bem eu sair nua por aí.

Cortei um dobrado para convencê-lo que eu precisava vestir pelo menos um camisão.

Apenas, ele definiu com esta pequena palavra.


Entramos no café e continuamos a lembrar o passado.

Que bom que nos reencontramos, afirmou, o que você veio fazer na minha cidade?

Ah, estou de férias, e faz tanto tempo que não venho.

Desde quando estivemos juntos?

Não, vim duas vezes. Agora aqui mudou muito, está melhor, inauguraram dois ou três museus, vim visitar.

Quer dizer que você gosta de museus, ele suspirou.

Adoro, estudei produção cultural, não sei se cheguei a falar, museus são a minha especialidade.

Acabamos de tomar o café, cruzei uma das pernas, o camisão revelou uma parte de minhas coxas. Embora coberta pela calça, exibia o volume das minhas coxas. Um desconhecido, à mesa ao lado, sorriu farsesco.

Você não quer passear? Vamos aproveitar. Tem algum compromisso?, ele olhou pra mim com certa ânsia.

Pra falar a verdade, tenho, marquei com uma amiga.

Chama a amiga para passear conosco.

Jura?

Juro.

Chamo. Mas você vai querer apenas uma ou duas mulheres nuas no seu carro?

Ele riu. Lembrou minha viagem de outrora ao Rio. Num momento do passeio roubou meu camisão. Tive de voltar nua pra casa dele.

Saímos do café e fomos ao estacionamento.

Você me leva ao hotel primeiro?, pedi.

Levo, e espero por você.

Se quiser pode subir, dei a moeda a ele. Meu olhar devia estar brilhante, podia refletir todo um céu. Ele é tão bonito, foi minha vez de suspirar.

Na suíte, nua nos braços do homem, ele perguntou:

E sua amiga?

Ah, ela espera.

quarta-feira, julho 13, 2016

Tive de escondê-lo

Um pinto faiscou um segundo em meus olhos, e me transformou toda em arrepio. Foi na praia, mês que antecedia o verão, o tempo ainda fresco e as águas do mar geladas de dar dó. O pinto, naquele momento, era supremo. É tudo o que posso afirmar. E veio a preencher a solidão que eu sentia em meio a guarda-sóis afastados, caminhantes longínquos e mulheres que tomavam sol. Como vou falar do pinto sem ser chula? Vejamos, uma história primeiro. Certa vez tive um namorado dez anos mais jovem que eu, mas era homem maduro. Nem sei porque terminamos, coisa do destino, talvez. Levava-me a passear, trazia-me à praia. Vivíamos o embate de dois polos antagônicos: a noite profunda e o dia com toda a sua luz. Foi numa noite profunda. Íamos de automóvel, ele a dirigir, e eu relaxada no banco do carona. Então, a surpresa invadiu-me os olhos, uma mulher de calcinha, na rua, gritei e me virei a ele. Mulher?, repetiu, nada disso, parece mulher mas não é, sentenciou. Foi numa parte suspeita do centro da cidade. E continuamos mergulhados na noite, queríamos ainda a madrugada. Os homens não sofrem de celulite, afirmei, caso se tornem mulheres, ou fingem sê-las, não sei bem, suas pernas são lisas de dar inveja. Sério?, pareceu duvidar. Sério, falei com convicção. Como você sabe, já viu um exemplo desses de perto?, suas palavras e seu olhar incisivo enquanto segurava o volante pareceram desafiar-me. Sim, afirmei, como se não quisesse revelar um grande segredo. Onde aconteceu?, quis ele saber, esperou, a respiração um tanto opressa, como se minha resposta fosse transformar tudo que nos viria pela frente. Num desfile de modas, acrescentei  Ah, bom, ele replicou aliviado. Mas a historinha não foi bem assim. Certa vez viajamos, quatro mulheres. Que bagunça, não é mesmo? Fomos a um hotel, desses que dão para a praia, no Nordeste. Lá, aproximou-se de nós alguém que pensamos a princípio ser uma mulher. Fazia bem o papel, demoramos a descobrir o que realmente era. Quando de fato aconteceu, não fizemos alarde, agimos com a maior discrição. Na noite anterior ao dia em que regressaríamos, saímos as quatro e mais a fingida mulher. Bebemos mais do que podíamos. No hotel, um fio de tesão começou a correr em cada uma de nós, em consequência inventamos uma brincadeira; saíamos nuas do quarto para bater no quarto das outras, já que ficamos hospedadas em duplas. Após muitas risadas, decidimos ir ao quarto de nossa amiga / amigo. Ela assustou-se com o mulheril. Dissemos faça como nós, vamos desfilar. Ela, ou ele, não sei como dizer, enrubesceu. Mas uma das mulheres conseguiu despi-la. Pudemos ver, então, um pênis mediano. Algumas começaram a agarrá-lo e ele começou a crescer. Ela disse não sinto tesão por mulher, mas quem sabe vocês possam me dar prazer e, ao mesmo tempo, obter a diversão que desejam. Cada uma de nós a exercitou um pouco, mas o pênis não enrijecia como desejávamos. Há um jeito de eu sentir tesão, ela falou, mas vocês precisam me dar de presente suas calcinhas. Calcinhas?, mas viemos nuas. Não faz mal, rebateu, busquem-nas, era culta a mulher. Lorena voltou aos nossos quartos e pegou tantas calcinhas quantas conseguiu carregar. Trepamos então com a travesti durante boa parte da noite, seu pênis endureceu tanto como o de um verdadeiro macho. Jamais consegui entender a relação entre nossas calcinhas e ereção. Como esse tipo de gênero não ejacula com facilidade, pudemos aproveitar bastante. Só que, no final, ela não devolveu nossas pequeninas peças, considerou-as como pagamento. Levamos, porém, tudo na esportiva, e rimos muito no avião de volta.

Um pinto faiscou em meus olhos e me transformou toda em arrepio. Alguém sorriu pra mim. Não estava nu, ou nua, não sei bem explicar. Na verdade, era eu a nua, e não queria deixar a coisa entre sorrisos. Gostei do arrepio, que já não me abandonava. Daqui em diante, vai depender do pinto, disse a mim mesma. Como o da amiga / amigo lá das férias no hotel. Com alguma lábia e com o tempero do gozo, mantém-me a mil e, quem sabe, leva-me também a calcinha!, completei. Se sabemos conduzir, as coisas acontecem como a gente deseja. Entramos na água. Quem sabe a fantasia não era um meio de conquistar as mulheres. Como já conhecia o truque, vesti-o com o meu biquíni. Lindo o biquíni, afirmou solene. Seu pinto logo virou frangote e pulou porta afora. Tive, então, de escondê-lo. Que se tornasse enorme galo, mas que cantasse dentro de mim.