quarta-feira, julho 16, 2014

Descoberta nua

Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade. Sim, porque em estado de graça se era muito feliz. Carlos, o marido, a estimulara à primeira vez. Vá, sim, no começo vais sentir um friozinho no estômago, mas com o passar do tempo te acabarás acostumando, depois desejarás sempre mais, é a verdadeira sensação de liberdade. E ele tinha razão. Na primeira vez, ao sair na noite escura de Glicério, o céu e as estrelas sobre sua cabeça, o vento morno do verão já maduro a roçar-lhe o corpo como amante atrevido, ela parou durante alguns instantes e pensou em desistir, em correr de volta para dentro da casa. Mas o rio, que corria logo atrás do quintal, a saudava com uma  espécie de voz suave, música sibilante ao saltar um obstáculo ou de tom mais grave ao dedilhar o limo das rochas milenares que lhe aparavam o caminho. Suas águas eram sempre as mesmas, pois sempre voltavam com as chuvas. Ela respirou fundo e se pôs avante, passou por entre as plantas dos fundos da casa, alisou um tronco e se viu à beira do rio. Você precisa saber, moro num lugar que tem um rio que passa bem atrás da casa, durmo ouvindo as águas correrem, ela dissera a um amigo quando descera a M. O amigo sorrira, um dia vou até lá para conferir, quero conhecer o seu rio, ele retrucara, como se quisesse beijá-la. Ela, porém, era casada, gostava do marido, não pretendia desapontá-lo. Ele, apesar de preguiçoso, descansado, isso era certo, tratava-a com intenso carinho. Enfim, gostava do afeto que ele lhe transmitia. Oh, Carlos, tomar banho nua no rio, mesmo à noite, não sei, acho que já passei da idade de cometer essas loucuras. O que há de mal nisso?, ele replicara, quando voltares para dentro de casa, teu corpo estará mais quente, propício ao amor prolongado. Vamos juntos, então, ela lhe sugerira. Uma mulher nua é bonito, mas um homem nu, tanto mais banhando-se num rio, não há de ser tão agradável assim, ele lhe respondera. Não é agradável a você, mas a mim, e a todas as outras mulheres, não há de haver nada melhor. Ele sorrira. Ela, no entanto, saiu sozinha da casa. Ao tocar as águas que corriam, sentiu, de repente, certa friagem. Não calculava que a água estivesse tão gelada. E se adoecesse? Ninguém adoecia no verão, mesmo nua à noite. O ar estava quente, o pulmão respirava uma aragem confortável e pura, apenas a pele é que se arrepiava com a temperatura baixa da água. E sabia que, logo, quando estivesse com o corpo todo dentro d’água, acostumar-se-ia. Seu corpo sempre fora quente, capaz de transmitir certo calor a quem estivesse próximo, até mesmo certo desejo. Por isso não lhe era difícil arranjar namorados. Se quisesse, poderia ter vários, todos loucos por deixá-la nua. Mas Carlos a queria nua a céu aberto. E lá estava ela agora, despira-se pelas próprias mãos, acatara o conselho do marido de sair nua de casa, de caminhar até a beira do rio e de banhar-se nele. Ele dissera-lhe que ela descobriria novas sensações. Mas, será que apareceria alguém? Nunca ouvira sons humanos nos arredores da casa. Apenas o coaxar de algum sapo, o uivo de um cão distante, ruídos de animais de nomes desconhecidos a ela. Agachada dentro d’água, o corpo já quente, vencera a temperatura fria da água corrente. Começou a sentir intenso prazer, o prazer que o marido lhe anunciara. Quem sabe, com o auxílio das mãos... não, não era partidária de gozar tocando-se, do amor autossuficiente, naquele momento não precisava das mãos, o gozo vinha natural. Será que estava traindo Carlos. Não era possível. E fora ele que sugerira a boa nova. Ao voltar a casa ele estaria esperando por ela, estaria ansioso para que ela descrevesse todas as sensações. E eram muitas. Acometia-lhe uma espécie de gozo, um prazer interminável, que a fazia demorar-se mais e mais, a não querer deixar as águas. Mais tarde, quando deixou a margem próxima aos fundos de sua casa ela, instintivamente, cobriu os seios com o braço direito, reparou as gotículas sobre a pele, sobre os poucos pelos do mesmo braço. A outra mão lhe ia também pregada ao corpo, mais precisamente à altura do umbigo, ou entre o umbigo e o púbis. Chegou à porta e torceu a maçaneta. Temeu encontrá-la trancada. O que faria se não conseguisse abrir a porta? Talvez o marido quisesse lhe pregar uma peça e a deixasse pelada do lado de fora, ou mesmo a fizesse aguardar por algum tempo até ele vir abrir para, a seguir, abraçá-la. Talvez tivesse de voltar ao rio, ocultar-se até o pescoço dentro d’água. Mas haveria o amanhecer. E alguém a descobrir uma cabeça nua com o corpo vestido pelas águas que corriam ligeiras, fugidias... Mas torceu a maçaneta e a porta abriu. Tudo dentro de casa estava silencioso, silencioso e escuro. Não sabia quanto tempo passara desde o momento em que saíra para ir ao rio e aquele momento em que estava de volta. Não encontrou o marido, a princípio. Sentou-se numa das poltronas e cruzou as pernas. Passou a fazer parte das sombras da noite. Depois de quinze minutos foi ao quarto. O marido estava deitado, dormia, dormia o sono dos justos. Pois trabalhara o dia inteiro, trabalhara duro. Não pôde esperar por ela. Não havia problema. Deixaria o amor com Carlos para o dia seguinte. Caminhou até o banheiro e tirou a terra dos pés com uma toalha de banho. Verificou se estava toda limpa, incólume. Deitou, então, ao lado dele, ainda nua. Esperaria. Que descansasse em paz. Esperaria o dia seguinte, e mais o outro dia, e mais outro além. Estava casada com o marido, é certo, fazia alguns anos, acostumara-se a ele, quase não ousava olhar homem desconhecido algum. Mas já não desprezaria as carícias das céleres águas do rio. Quem foi que disse que não se pode banhar duas vezes no mesmo rio? Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: poderia habituar-se à felicidade. E, habituar-se à felicidade, torná-la-ia mais egoísta. 

terça-feira, julho 08, 2014

Margarida, a verdadeira

A história que eu transcrevera em minhas próprias palavras era igual a que ele contara. Não que eu quisesse plagiá-lo, mas, na verdade, tudo era devido a esse furioso vício que (ao menos no meu caso) é escrever. Ele narrara, em livro, que um mágico fizera aparecer notas de dólar no picadeiro e as distribuíra ao público. Todos avançaram e encheram as mãos e os bolsos tanto quanto puderam, uma algazarra surpreendente. Depois subiram as mulheres (não que algumas já não tivessem também escondido dinheiro dentro das roupas), que se adiantaram ante o magnânimo oferecimento de roupas de grife. Aliás, grifes francesas e italianas. As beldades entravam numa pequena cabine, deixavam para trás as roupas com as quais chegaram e vestiam as novíssimas, oferecidas pelo mágico.

A história do famoso escritor russo era um pouco diferente da minha, tinha um fundo moral e criticava o governo. No meu caso, como todos sabem, a intenção é o puro divertimento. Nem pretensões literárias tenho. Caso pensasse assim, já teria publicado um livro, ou contratado um agente.

Na minha história, havia também um mágico, só que ele não possuía tanto poder. Fazer aparecer dinheiro não é difícil, o que não se consegue é fazer que a chuva de notas dure quase todo o espetáculo, como no dito livro. Transformar a mesma quantidade de notas em rótulos adesivos horas depois, talvez exija o conhecimento e o cuidadoso manuseio de vários produtos químicos. Quanto fazer aparecer e, sobretudo, desaparecer vestidos, saias, calças e blusas, a coisa já se torna mais fácil e, digamos, muito sensual. Além de não se criar problemas com a receita federal.

Então, ele, o mágico, chamou ao palco aquelas que desejavam vestir-se à moda francesa ou italiana. E foram quinze ao todo. Entraram na cabine e... Atenção! Abriu-se a porta. De lá saíram vestidas com modelos estonteantes. Brilhavam, espelhavam várias cores, reflexos dourados ou prateados. Mas, após passaram atrás de uma tela branca, apareceram nuas em pelo na outra extremidade do palco. Onde os vestidos de grife? Onde as roupas com as quais saíram de casa? Muitas gostaram da brincadeira, enquanto outras...

Uma delas, que me contou a história e estava furiosa, tentei acalmá-la. Disse que já realizara tantas fantasias de namorados, que perdi a conta de quantas vezes saí nua de casa, também eu não sabia calcular quantas vezes regressara nua. Ela, porém, continuou furiosa, disse que o mágico lhe prometera um Versace e não cumprira a promessa, ou a cumprira apenas momentaneamente. Não era mal terminar a noite nua, nem voltar pelada pra casa, isso estava longe de ser um problema, o que desejava mesmo era o vestido que, por seu próprio esforço, jamais ostentaria sobre o corpo. Você precisa entender que quando se vai a um espetáculo desses não se pode exigir mais do que o preço do ingresso, retruquei. Ela fechou a cara e foi embora insatisfeita. A certa distância, vi um admirador lhe oferecer o casaco, embora de fazenda leve e curto. Ela não esmoreceu, preferiu continuar nua.

Voltamos a dialogar, eu e o mágico. Lembrei-lhe dos vestidos que ficaram na cabine, as mulheres poderiam processá-lo por furto, ou algo parecido. Respondeu que não, elas não vão fazer isso, foram selecionadas a dedo, e se foram embora nuas era porque tinham em mente objetivos maiores para as suas carreiras, enfim, para as suas vidas. Lembrei-lhe sobre o escritor russo, que descrevera mágica semelhante, e sobre mim, que estava sendo acusada de plagiá-lo. O mágico riu e acrescentou Margarida, quando você me sugeriu este número eu já tinha lido o livro, só não me viera à mente como torná-lo atrativo a um circo brasileiro; depois, quando tive a ideia dos Versaces, percebi que seria o chamarisco, faltava saber como conseguir que as candidatas à modelo ficassem misturadas à plateia; mas acabei descobrindo uma solução; um ilusionista tem sempre uma carta na manga; desde que seja rápido no artifício, ninguém há de reparar...

Tudo saiu conforme planejou. Ganhou notoriedade, apesar de, na sua profissão, tudo ser muito fugaz.

Quanto a mim, usei como argumento o fato de sempre andar nua, tanto em casa como na rua, portanto, poderiam me processar por tudo, menos por plágio. E, afinal, a outra Margarida, a que aparece na história do escritor russo, é apenas uma personagem de ficção. Eu, como podem testemunhar os meus leitores, sou uma mulher de verdade.

Não deixem de ler “O mestre e Margarida”, de Mikhail Bulgakov, editora Alfaguara. Vocês vão se divertir muito.

terça-feira, julho 01, 2014

Nua em Copacabana

Trata-se de uma situação simples, um fato a contar e esquecer. Uma dessas festas noturnas numa cobertura em que há piscina. Há também o bar, garçons e garçonetes a nos servirem muitas bebidas e comidinhas. Formando pequenos grupos, em volta da piscina, ora dançando ora conversando, estamos nós, convidadas e convidados. Todos muito bonitos. Não sei se nos convidam por causa da beleza que cada um ou cada uma de nós possui, ou se, nesse tipo de festa, nos tornamos bonitas e bonitos como num passe de mágica. É preciso dizer mais uma coisa (que se mantenha o segredo), todas nós, mulheres, ficamos nuas.  Para não dizer que vamos peladas, usamos sandálias, ou salto alto, e carregamos bolsas. Uma ou outra tem o corpo pintado, algumas tatuadas, outras dependuram cordões, gargantilhas ou pulseiras, e só. O importante é nos mantermos tranquilas, agindo como se vestíssemos as roupas mais sóbrias do mundo. Os homens sorriem, esbanjam alegria. E muito bem vestidos, por sinal. De repente uma das mulheres salta na piscina, após deixar o sapato ou a pequena bolsa nas mãos de alguém. E a festa transcorre, todos num quase estado de êxtase. A música colabora para a emoção se intensificar. Permitem-se fotos, mas que se mantenha a discrição em relação às mulheres nuas. Não queremos publicidade na grande imprensa. Alguém posta uma foto ou outra numa rede social, mas nada fala da festa, ou se comenta algo não diz o endereço. Os rapazes nos namoram. Com os olhos e com os braços. É possível beijar quase todas e se manterem abraçados a nós. O que se evita, ou mesmo se proíbe, com a pena de não mais se poder frequentar tais festas, é a relação sexual. Com tantos lugares para ir depois que a festa termina, por que se precipitar ali? O que surpreendeu na última vez foi uma garçonete, que apareceu também nua. Não é costume as garçonetes tirarem a roupa nessas festas, mas uma delas se entusiasmou e ficou nua. Cumpriu, porém, seu trabalho com perfeição, não deixando de atender pedido algum. O que torna nós, mulheres, e os homens também, tão alegres nessas festas? Não digam que é porque rola alguma droga. Estou pronta a desmentir. Não digam que é a nossa nudez (já andamos nuas demais por essa cidade). Não sei dizer bem, mas acho que tanta alegria tem origem em uma série de fatores, e o principal deles é que toda festa é irmã gêmea da alegria. Lá pelas tantas, acho que duas e meia da madrugada, salto na piscina. Alguém me fotografa em pleno salto: o tórax ereto, as pernas dobradas, um salto em que estou quase que sentada no ar, só faltaram as pernas cruzadas, mas estão dobradas em paralelo, num ângulo de noventa graus. Não aparece meu rosto, ainda bem. Mas o meu corpo esbanja intenso vigor por todos os poros. E assim são as nossas festas. Sei que muitos perguntam como obter convites, outros querem saber como fazemos para ir embora. Ser convidado é um pouco difícil, mas como fazemos para ir embora explico. É muito simples. Saímos do edifício, entramos num carro e partimos. O carro às vezes pertence a um dos rapazes, mas há madrugadas em que vamos embora de táxi. É lógico que não vamos nuas (acho que vem daqui a curiosidade, não?). Aliás, não é permitido às mulheres saírem nuas do apartamento onde acontece a festa. Isso pode comprometer o futuro do grupo, gerar problemas com a administração do edifício e, quem sabe, intervenção da polícia. Mas é possível vestir vestidinhos, sainhas, shortinhos que nos deixam ainda mais nuas. Há mulheres que se deleitam cobrindo o corpo apenas com uma translúcida canga, como se tivessem a caminho da praia. Às vezes é o modelo que uso para chegar e para sair de nossas festas. Caso repita o modelo, vou a cada festa com uma canga de estampa diferente. Gosto de andar nua, como vocês, já há muito, sabem. Certa vez, quando alugamos o terraço de um hotel para uma das festas, um vento quente roubou-me a canga, que pairou boa parte da madrugada sobre Copacabana. Um cavalheiro, porém, sempre tem a solução. Ao amanhecer, fui embora vestindo sua camiseta!

segunda-feira, junho 23, 2014

Dentro de mim ou a moral das histórias

Faz algum tempo, eu queria tirar a moral das histórias; hoje, acho que o importante é contar uma boa história, apenas isso. Foi então que ele veio com a ideia do celular. Eu nua e ele falando que fez uma coisa engraçada com o celular da ex-namorada. Como, uma coisa engraçada?, eu quis saber. Ela estava nua, assim como você agora, e com o celular na mão, ele se pôs a contar...

... Achei engraçado ela atender a ligação e dar uma desculpa esfarrapada para o homem que estava do outro lado da linha, quem sabe se tratava do marido dela. Como você já percebeu, não pergunto sobre esses assuntos. A postura da mulher era de algum charme: em pé, de costas para mim, uma das mãos com o celular no ouvido, a outra na cintura. Depois que desligou, dei a ideia, vamos colocar o seu celular num saquinho plástico. Para quê?, ela perguntou como num rápido reflexo, não vai dizer que você vai querer... As reticências foram dela. Isso mesmo, respondi, você adivinhou. Não trocáramos palavra alguma sobre o que ela pensara nem sobre o que eu iria sugerir, mas a nossa língua era a mesma. Sentou na cama e entregou o aparelho a mim. Só não quero que, caso ele toque, você atenda, advertiu. Não, não vou atender, melhor, não vamos atender, assegurei. Levei o telefone e voltei com ele dentro do saquinho plástico. Adivinhe o que fizemos? Não, não precisa responder nem ficar tão assustada. Enfiei o celular no saquinho. Quando acabei, ela já estava deitada. Abriu as pernas e falou pronto, agora é com você. Num tempo em que reina a tecnologia, trepei com ela de celular enfiado na vagina. O pior de tudo, ou o melhor, não sei dizer, é que o telefone tocou. Ela gritou deixa tocar, deixa, deve ser ele, vamos gozar primeiro. E gozamos. O telefone tocando e vibrando junto com o meu piru dentro dela.

Ele acabou de contar e olhou do modo frontal para mim. Gelei. Será que pretendia fazer o mesmo comigo? Ainda nua movi-me um tantinho na cadeira, balancei um dos pés; de pernas cruzadas, puxei a coxa direita um pouco mais para cima. Sorri, enfim. Ele, para não alongar o constrangimento, disse longe de pensar que vou pedir para você fazer isso. Ainda bem, respondi, mas acho que a mulher fica muito desvalorizada quando os homens propõem situações desse gênero, acrescentei. Mas ela é uma mulher de outro nível, ele tentou se salvar, e no fundo a proposta foi dela, também acrescentou.

Ele ligou o som. Encerramos o assunto e ouvimos a música. Era uma canção americana, quase um folk. Ele tem bom gosto para essas coisas. Depois, fomos para cama.

Após me levar em casa (esqueci de dizer que estávamos na casa dele), já sozinha, tentei enfiar o telefone na minha vagina, a mesma atitude que ele fizera à ex-namorada. Aqui entra a questão que escrevi lá no começo, a minha antiga necessidade de tirar a moral das histórias.  Eu dissera que as mulheres saem diminuídas com tais atitudes, e era eu mesma que, naquele momento, introduzia o celular em mim. Fui, então, ao telefone da casa e liguei para o meu número. Confesso que me arrepiei quando ouvi o som da campainha; afinal, eu emitia um som distante. Era como se o telefone soasse em algum lugar da casa e eu não soubesse onde ele estava. Mas aconteceu algo ainda melhor, a vibração do aparelho me trouxe de volta ao meu corpo. Senti intenso prazer.

Nos dias que se seguiram, toda vez que meu namorado telefonou demorei a atender. Até que ele perguntou a razão de tanta demora.

Você deve imaginar onde estava o meu celular, respondi.

Ele entendeu. Riu muito. Achou que eu contava uma anedota.

terça-feira, junho 17, 2014

Cada dia com um homem diferente

Carol, você não imagina, minha mãe me mata de vergonha. Outro dia, aqui mesmo na praia, ela veio com um biquíni menor do que o meu. E olha que ela já vai fazer cinquenta anos. Sei que é bonita, e sei também que quando eu tiver a idade dela talvez não seja tão elegante quanto ela é agora. Mas não precisava vir com um biquíni tão minúsculo. O pior foi o top, Carol. Os seios são pequenos, mas o top era mínimo. Não estava deselegante, aliás, nela nada fica deselegante, mas os homens a olhavam de um jeito tão sedutor, que pensei que seria agarrada aqui mesmo na praia. Se minha mãe pudesse, estaria nua. Quero dizer, se fosse permitido ela andava nua por aí. Não consigo usar as roupas que ela veste. Me sinto nua. Sério, é verdade. Ela, não; além de andar nua, se comporta como se fosse a pessoa mais vestida do mundo. Você já conhece a história, Carol. Desde que me entendo por gente, ela já era separada do meu pai. E o que não lhe falta é namorado. Chove homem em cima dela o tempo todo. Muitas mulheres reclamam que não há homens suficientes nos dias de hoje, ou mesmo que eles nada querem com as mulheres. Mas, para minha mãe, há homens demais. Acho que, se ela quiser, todo dia sai com um diferente. Você deve achar que estou exagerando. Mas é verdade. Já a vi com três namorados na mesma semana. Lógico que há alguns que ficam com ela mais tempo. Houve um que a namorou durante um ano. Dele, ela gostou. Ou chegou a se apaixonar. Mas acabou acontecendo um problema entre eles. Não se passaram quinze dias pra ela estar nos braços de outro. Alguns ela leva lá para casa, quando já os conhece melhor. Mas, na maioria das vezes, vai para o apartamento deles. Você compreende, Carol, ela é do tipo que sai logo de primeira quando sente atração por um homem. Eu, que sou quase trinta anos mais jovem, tenho o maior cuidado, espero uma, duas semanas. Ela, não, gostou, trepou. Acho perigosíssima essa atitude. Tenho certeza que vez ou outra ela perde a cabeça e transa sem camisinha. Carol, você já reparou, tem sempre alguém olhando para nós, nos admirando, nos paquerando. Mas, na maioria das vezes, não vale a pena. Ela não pensa assim. Sorriu para ela, ela gostou, pronto. Nós geralmente não damos muita conversa caso algum deles se aproxime, não é mesmo? Ela, nem pensar, já vai pedindo o número do celular, ou ela mesma vai dando o seu. Depois fica aquela montanha de homens telefonando e ela nem mais sabe quem é quem, nem consegue imaginar a fisionomia do cara que está do outro lado da linha. Certa vez lhe aconteceu uma coisa muito engraçada. Engraçada, não, trágica. Mas vamos considerar engraçada, porque acabei rindo um pouco. Caso eu estivesse na pele dela, iria me tremer toda. Mas eu não chegaria àquele ponto. A história é seguinte. Aconteceu há uns seis meses. Eu estava dormindo, eram três da manhã, de repente o telefone toca, é ela: Carina, por favor, você precisa vir até aqui. Disse o endereço. Me traga a canga, está no armário onde guardo os biquínis de praia, por favor, pediu. Mas, mãe, você me telefona a essa hora da madrugada para eu ir não sei onde levar uma canga, você vai à praia agora?, perguntei. Não, não vou à praia coisa alguma, mas preciso da canga, venha e não faça perguntas, preciso sair daqui antes que amanheça, disse ela. E pra que a canga, mãe?, insisti. Já pedi pra não fazer perguntas, depois explico, venha logo, é urgente. E lá saí eu, às três e meia, morta de sono, achei que ainda estivesse dormindo e que aquilo fosse um sonho. Mas não era. Tirei o carro da garagem, assustei o vigia, mas tirei o carro e dirigi até lá. Entreguei a canga a ela e, adivinha, Carol. Ela estava inteiramente nua. Enrolou o pano no corpo e desceu comigo. Eu trouxe minha mãe no carro. Nua! Quer saber o que aconteceu, Carol? Nem eu sei. Ela entrou muda e saiu calada do carro. Ao chegarmos em casa disse vamos dormir, estamos ambas cansadas, muito cansadas. Quando acordei, naquele mesmo dia, ela já havia saído. Agora imagine, Carol, o que deve ter acontecido. Minha mãe acha bom não se prender a homem algum. Eu já não penso assim. Acho perigoso ficar mudando de namorado todo dia. E também acho que já somos demasiadamente sós para cultivarmos um relacionamento em que não exista nenhum compromisso. Gosto de ter alguém que goste de mim. Prefiro o casamento. Não o casamento tradicional, mas algum tipo de união onde se possa viver um para o outro. Carol, sei que você não é parecida com a minha mãe, pare de olhar para aqueles caras que estão perto da rede de vôlei, não demora e eles vão se encostar aqui. Não, Carol, por favor, se você der bola a eles, vão pensar que eu também estou a fim. E viemos juntas à praia. Caso você queira ficar com um deles, tudo bem, mas me deixe de fora. Sei que você não era, e não é, de dar mole logo de primeira. Quanto à minha mãe, tenho certeza, ela dá logo de primeira. Mas ela não é exemplo para nós. É, ao contrário, motivo de preocupação. Ela diz que sou muito nova, que quando tiver a idade dela vou pensar da mesma forma que ela pensa agora. Diz que até lá vou ter tempo suficiente para me decepcionar com os homens. Carol, durma com um barulho desse. Ou melhor, não durma, esteja pronta para socorrê-la caso os homens a deixem nua por aí. Mas, amiga, você não, por favor, não vá com algum daqueles caras, e não adianta me deixar de sobreaviso, não vou poder fazer nada. Já tenho problemas demais.

quinta-feira, junho 12, 2014

Você costuma dar presentes?

Lá ia a manhã entrando pelas onze. Eu estava no metrô a caminho de Copacabana. Minha intenção era ir à praia. Quando a composição parou na estação São Francisco Xavier, entrou um homem que sentou no banco oposto a mim. Passaram-se alguns segundos, reparei que ele me olhava. Por trás dos óculos escuros, também comecei a apreciá-lo. A princípio, foi difícil precisar-lhe a idade. Poderia ter entre trinta e poucos e cinquenta anos. Sua aparência era jovial. Usava bermuda longa e uma camiseta verde, calçava um sapato de lona, muito elegante por sinal. Continuou a olhar na minha direção. Virei a cabeça um pouco à esquerda, pois temia que ele descobrisse minha espreita. Começou a descer os olhos. Da cabeça, escorregou ao meu pescoço; depois, descansou sobre meus seios; escorregou de novo e foi cair na cintura; daí mergulhou nas minhas coxas; a seguir, nas pernas; e, finalmente, atingiu meus pés. Quando terminou, eu estava nuinha. O homem me roubara a camiseta branca, o sutiã de praia que ia por baixo, o short jeans e o biquíni. Restou-me a sandalinha, com detalhe em flor nos entrededos. Eu continuava de pernas cruzadas com um dos braços fazendo a vez de faixa em meia diagonal sobre os seios.

As estações se sucederam. Pessoas entravam, pessoas saíam, e o homem continuava a me olhar. Vários pensamentos inundaram a minha mente. O primeiro deles foi que o suposto admirador poderia me seguir sem perdão algum, e, num local onde não houvesse muita gente, me abordar e dizer que lhe passasse os poucos objetos que eu carregava. Apesar de pouco dinheiro na carteira, estava com o cartão do banco e a identidade. Será que ele me deixaria sem? Outro pensamento: o homem me seguiria até a praia, ficaria a distância; depois se aproximaria, diria que gostou de mim, que tal poder permanecer ao meu lado? Daí o amor... Outro possível desfecho: ele mora sozinho em Copacabana, insistiria para que eu o acompanhasse até seu apartamento. Lógico que esse convite se daria na praia, após me ter seguido e esperado uma ou duas horas enquanto eu tomava sol e vez ou outra entrava na água. Apesar de magra, reconheço meus pontos fracos. Tenho pouco tempero. Mas mesmo assim ele me abordaria: “você é uma graça”. Ficaríamos conversando um pouco. Ele compraria algumas cervejas. Beberíamos. Eu, já excitada por causa do álcool, aceitaria o convite. Não demoraria e lá estava eu nua, dentro do apartamento do recém-enamorado. Mas se o homem fosse tarado? Se me machucasse ou me colocasse nua porta a fora?

Quando o trem ia por Botafogo, sentou uma moça ao meu lado. Devia ter uns 17 ou 18 anos. Trazia um tablet. E manipulava o aparelho com destreza. Minha atenção se desviou para o tal objeto. Fazia tempo que eu desejava um desses, mas ainda não tivera dinheiro para comprá-lo. Mirei de novo o homem que me apreciava e perguntei a mim mesma: será que ele costuma dar presentes?

Saí do metrô na estação Cantagalo. Subi pela escada rolante. Não olhei para trás, mas estava curiosíssima. Será que ele me seguia? Perdi-me pelos corredores compridos da estação, até que deparei com a saída, na Xavier da Silveira. Fui atravessando todas as ruas em direção à praia de Copacabana. Só olhei para trás quando pisei no calçadão da avenida Atlântica. Onde ele? Aparentemente, ficara no trem.

Aluguei uma cadeira e um guarda sol. Escondi, num canto, a pequena bolsa. Chamei um ambulante e comprei uma garrafa de água mineral. Ao tomar o último gole, levei um tremendo susto. Meu admirador do metrô estava a dois metros, atrás de mim. No fim, sorri. Talvez a senha. Ele se aproximou, sorriu também, mas parecia não ter palavras.

Então, iniciei a conversa:

Você costuma dar presentes?

quinta-feira, junho 05, 2014

Cá estou eu, a esperar por ele

Havia pedido que eu usasse o vestido justo e curto. “Esconder o que se é, é fingir o que não somos.” Assim, a função da roupa que uso não é a de me cobrir, mas de salientar o meu corpo, as minhas curvas plenas de volúpia. Palavras dele.

“Você é fogo, viu, fiquei morrendo de vergonha, ir daqui de Copa até Mesquita de trem com esse vestidinho apenas, os homens todos a me olhar, até achei que algum deles ia me agarrar”, sussurrei no seu ouvido enquanto ele fazia carinho nos meus seios.

Mas preciso explicar. Sou secretária desse senhor. Faço todo o serviço doméstico e de rua. Acabei me deixando seduzir. No começo, por causa do bom salário; depois, porque passei a gostar dele. E o homem adora que eu vista roupa curta, no escritório e na rua, sozinha ou ao lado dele.

“Com essa roupa, estou chamando muito a atenção; assim, acho que alguém vai me roubar de você.”

“Não vai, não”, retruca, “o que é do homem o bicho não come.”

“Não come? Não tenha tanta certeza disso. Minhas amigas trocam de namorado como trocam de calcinha.”

Ele ri.

“Mas você não vai agir assim.”

“Não acha melhor que eu me mostre nua só pra você?”

Ele, porém, apenas manifesta um ligeiro movimento de cabeça, a princípio parece concordar.

“Quando você vem com esse vestidinho de malha, colado ao corpo, nem fala, morro de tesão. Acho engraçado você ficar o tempo inteiro esticando a barra do vestido.”

“Foi você quem me deu de presente. E mais uma coisa, a partir de agora vou deixar o vestido subir.”

Adoro quando estou trabalhando sozinha e ele chega de repente. Me abraça e me beija, aperta o seu tórax contra o meu, passeia as mãos pelas minhas costas, vai descendo, até que para sobre o meu bumbum. Então, faz uma massagem muito gostosa ali. Caso eu esteja de vestido, não demora a enfiar as mãos por baixo do pano.

“Estou em horário de trabalho”, finjo-me aborrecida.

“Trabalho?”, repete.

“Isso mesmo”, reafirmo. “Você sabe que adoro trabalhar.”

“Pago a você o dobro para me namorar.”

“Nada disso”, replico, “Você sabe que só namoro por amor.”

Esse meu namoradinho... Se fosse outra tiraria todo o dinheiro dele, mas não tenho coragem.

“Vamos fazer assim”, sugiro, “trabalho durante o dia, amor durante a noite,” tento colocar ordem no caos.

Mas sei que ele não vai aguentar, quero dizer, nem eu. Sinto um calor. E lá vem ele a levantar a minha saia. E lá vou eu a fingir que não estou a fim. Mas não demoro a entregar o ouro. Assim, não há trabalho que renda.

Agora estou aqui esperando por ele. Disse que voltaria logo. Querem saber mesmo aonde ele foi? Numa loja linda que há aqui embaixo. Quer me dar um vestidinho novo de presente.

“É melhor você me dar o dinheiro, prefiro eu ir, assim experimento.”

Mas ele não aceita, quer ter o prazer de me trazer a roupa.

“Como você vai saber se cabe em mim?”, ainda faço a última investida.

Olha então pro meu corpo.

“Levo este que você está usando como modelo, cai tão bem no seu corpo.”

E lá foi ele, o meu vestidinho numa bolsa. E cá estou eu, peladinha, a esperar por ele!