quarta-feira, novembro 26, 2014

Respingos

Eu o conduzi por um caminho que ele não conhecia.  Atravessamos a ponte, só que por baixo dela, equilibramo-nos sobre as pedras. A partir de determinada distância, era possível apreciar a torrente de água que escorria de cima da montanha. No ponto onde estávamos, a água passava por sobre as nossas cabeças, apenas alguns respingos nos atingiam. Quero uma frase especial para este momento, disse a ele. O ar quente de sua expiração aquecia o topo da minha cabeça. Sorriu. Uma frase?, chegou a repetir. Isso, continuei, uma frase que impressionasse, assim como os escritores; você sabe que alguns chegam a roubar frases de outros autores para colocar nas próprias histórias?, lógico que não roubam as mais famosas, ia dar na pinta, mas as medianas, aquelas que dificilmente alguém vai perceber que outro é o autor. Não sabia que você conhecia assim a literatura, contrapôs. Mas que aqui é bonito não resta dúvida, não é mesmo?, inclinei a cabeça um pouco para cima com a boca lhe pedir um beijo. Ele me abraçou, me beijou e falou a melhor frase é você com toda essa sua beleza. Ao terminar, me beijou outra vez. Você conhece este lugar faz muito tempo?, quis ele saber. Sim, vinha muito aqui quando tinha dezessete ou dezoito anos. Hum, vinha com o namorado, não? Apenas sorri. Ele entendeu. Puxei-o por um dos braços e atravessamos toda a ponte, ficamos ao lado esquerdo da cachoeira. Pena não ser possível tomar banho, falou. Quem sabe, interferi, caso esteja bastante quente... Mas é proibido, alertou. Sempre houve proibições, e sempre houve quem as transgredisses, retruquei. Daí em diante permanecemos em silêncio durante algum tempo. Acendi um cigarro, dei duas tragadas seguidas e soltei a fumaça com a cabeça voltada para cima, reparei quando ela se perdeu na escuridão. Caminhamos de volta, sob a ponte. Na outra extremidade voltamos a ter a sensação de que a água passava por sobre as nossas cabeças, sem nos molhar. Olhamos para cima, tentávamos apreender aquele momento em sua totalidade. Você vinha aqui, então, quando tinha dezoito anos, ele voltou ao tema. Vinha, afirmei, e ficava pelada. Olhou os meus olhos, uma faca de ponta, estava surpreso. Como?, quis saber. Não liga, não, brincadeirinha, esquece. Não posso esquecer, sei que você não ia brincar com uma coisa dessas, insistiu. Você gosta de mim, não?, lembra aquela verão em em Copacabana?, perguntei para ver se ele esquecia o assunto, você pediu que eu saísse de casa com o vestidinho que usava para ir à praia, mas sem nada por baixo; era uma saidinha de praia para usar sobre o biquíni, mas fiz a sua vontade, não?, acrescentei. Verdade, confirmou. Então, faço tudo que você pede, dou o maior prazer, está bem assim, não?, eu queria colocar um ponto final. Ele nada mais falou, mas parecia não estar convencido. Tomei de novo um de seus braços e seguimos o caminho acima, que nos deixou na rua de entrada da floresta. Ao longe, estava o restaurante. Quero tomar uma dose de vodca, falei. Dei-lhe um beijo numa das bochechas. Caminhamos na direção do estacionamento. À direita ficava a entrada do restaurante. Quando já estávamos sentados a uma das mesas e o garçom já fora buscar nossas bebidas, ele voltou ao assunto. Você gosta de ficar pelada, não é mesmo?. Eu?, acho que toda mulher. A minha mãe não gosta, tentou contra-argumentar. Como você pode ter certeza disso?, outro dia descobri uma senhora de oitenta e cinco anos que me contou que quando está sozinha fica nua, dentro de casa, sua mãe é muito mais jovem, deve gostar também. Você ficaria nua de novo, lá debaixo da ponte, sob as águas da cachoeira?, afoito, perguntou. Ah, agora essa, não sei, quem sabe depois da dose de vodca?, sorri ao dar a solução, reparei que o garçom chegava com as nossas bebidas.

quinta-feira, novembro 20, 2014

Sonata para piano

Ela havia sentido uma ponta de prazer. E o pior é que ele notara. Na certa, não a perdoaria...

Ou melhor, queria contar essa história em terceira pessoa, mas a mulher era eu e, de verdade, já me havia aberto demais; ele, grudado às minhas costas; eu sem me poder mexer.

Ia num ônibus repleto, um fim de tarde. Todos sabem como é a condução nos arredores das grandes cidades. Em BH, então, nem se fala. Voltava do trabalho. Vestia jeans, uma blusa branca de mangas curtas, curtinhas mesmo, fazia calor, na cintura o tecido era larguinho, disfarçava qualquer ameaça de barriguinha. Estava em pé, as pessoas passavam rente às minhas costas. Observei algumas. Uma menina com a mãe, provavelmente voltava da escola; um rapaz carregando uma mochila; uma mulher jovem, de óculos, com aspecto de secretária; depois passou um homem negro, achei sua altura exagerada, vestia calça azul e camiseta marrom, sem gola, vinha de cara fechada. Daí em diante me perdi em pensamentos, preocupações diárias, uma lembrança ou outra que nos assalta quando reparamos algo na rua, um portão, o letreiro de uma loja, o cheiro de pão que vem de uma padaria. Ao saltar do ônibus, reparei que meu celular não estava na bolsa. Fiquei desconfiada do homem negro, grandalhão. Não sei por quê, mas sempre achamos que os ladrões têm cara de ladrões. Às vezes isso é um ledo engano. Mas cismei. Apesar de sempre dizer não ao preconceito, cismei que o negro roubara-me o telefone.

Passaram-se duas semanas e ia eu na mesma linha de ônibus. Quase as mesmas pessoas, o empurra-empurra de sempre. Assustei-me ao descobrir, entre os passageiros, o mesmo grandalhão suspeito. Agarrei a bolsa e tentei olhar um ponto neutro na paisagem. Não mais procurei o homem, não mais olhei pessoa alguma. Depois de saltar, reparei que faltavam vinte reais, apenas uma nota, eu a levava no bolso de trás da calça.

Nas semanas que se seguiram, viajei no mesmo itinerário, mas ele não apareceu. Eu olhava os passageiros em detalhes, procurava observar neles algo que revelasse suas personalidades. Não me queria preconceituosa de só achar o ladrão no corpo e na fisionomia do negro. Avistei uma senhora gorda, estava sentada num dos bancos além da metade do coletivo. Apesar de aparentar idade – entrava pelos quarenta, ou mesmo pelos cinquenta – seu rosto emanava felicidade, mantinha a aparência de adolescente, quase infantil, trazia sobre o colo duas bolsas de papel. Tentei em vão descobrir o motivo de toda aquela felicidade.

Duas semanas adiante, quando já não pensava no homem, avistei-o de novo. Num primeiro momento senti o corpo todo arrepiado. Não sei se de medo ou se por outro motivo. Lembrei que trazia uma nota de dez num dos bolsos da calça, mas dessa vez no dianteiro. Ainda pensei em, num movimento rápido, esconder o dinheiro na palma da mão. Assim fazemos na infância, quando sob as ordens de algum adulto vamos ao armazém da esquina comprar o ingrediente que falta para completar o prato do almoço. Mas acabei deixando o dinheiro no bolso, intocado. Senti o homem passar suave às minhas costas. Esforçava-se para não me espremer na barra do banco transversal, talvez tivesse certo pudor ao me esbarrar. Não o senti a me tocar o bolso em momento algum. Quando saltei, no entanto, a nota de dez me faltava.

“Era uma época em que eu não conseguia escrever e me sentia atormentada por aquela espécie inaudível de barulho.” A frase, copiei-a de um livro. Às vezes descubro uma frase que gostaria de ter escrito. Espero, então, o momento certo de usá-la. Mas emprego-a de modo disfarçado. Troco alguma palavra ou aplico-lhe um desvio, porém de modo que não lhe roube a graça original. Ela, a frase, representou exatamente o que eu sentia nos dias posteriores a que vira o tal homem, ou o tal ladrão, melhor dizer assim. Aquela espécie inaudível de barulho era a face sorrateira do homem que eu cismava encontrar no rosto de outros negros que me cruzavam o caminho. Os dias se demoravam. Eram tardes intermináveis. Eu sentava na poltrona da sala com um livro nas mãos. As listras de sol, que atravessavam a janela, avançavam com lentidão sobre o assoalho. Quando me atingiam os pés, eu já não encontrava nesse sol o calor necessário para aquecer meu espírito. O crepúsculo trazia o vento frio, que eu queria de um mar impossível.

Já na primavera, resolvi sair. Era setembro. Embarquei num ônibus em busca de uma biblioteca pública. Não demorei a chegar ao centro da cidade. As pessoas mergulhadas nos livros, o som inconfundível das bibliotecas, o mundo do silêncio. Na volta, mesmo de pé, agarrada a uma as vigas, vinha lendo o livro que apanhara de empréstimo. Foi então que ele apareceu. Entrou imenso, percorreu grande parte do corredor e parou bem atrás de mim. O ônibus, como sempre, pleno de pessoas. O homem estacado às minhas costas, bem seguro, bem posicionado. Lembrei que desta vez não trazia dinheiro no bolso. Melhor, nem bolsos tinha, viera de vestido, justo, que me deixava as pernas de fora. A primavera já incendiava boa parte das mulheres. O que ele me roubaria? Numa das mãos eu segurava uma pequena carteira. Dentro, duas notas de vinte, uma de cinco e duas moedas. Trazia também o cartão do banco e a identidade. Fechei o livro e sustentei sob o braço esquerdo todo o peso daquela história. Pensei em abrir a carteira e lhe entregar o dinheiro. Que me deixasse em paz, de volta à leitura. Mas fiquei apenas no pensamento. Depois, comecei a sentir certo calor. Não tenho vergonha de confessar. Enfim, descobri o que ele me queria roubar. Logo, ali, dentro do ônibus, em meio à multidão de sessenta passageiros, que escândalo... Suas mãos tatearem-me as coxas. Eu as sentia. Não tinha a mesma habilidade de quando praticava seus furtos. Cheguei a pensar em gritar, alertar quem estava à minha volta, quem me poderia ajudar? Mas nada fiz. Depois acabei achando melhor assim. Levava o seu objeto de desejo e eu mudava de bairro, ou de cidade. E não o encontraria mais. Apesar de ser atirada, nunca vivera tal experiência. Vinha com mescla de medo e mais de alguma coisa que, dias depois, descobrir ser prazer. No momento pensei, faço de conta quer sonho. E nos sonhos tudo é permitido... Ele avançava. Que não me levasse o vestido, que não me deixasse toda nua. Surpreendi-me quando o vi sobre passeio, acabado de descer. Ainda a multidão a me espremer, ainda suas mãos desajeitadas a tentar uma sonata por baixo do meu vestidinho.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Pezinho

Eu sabia que Newton gostava de circular de carro pelas madrugadas de M. à cata de mendigas que dormiam pelas calçadas. O homem tinha tara por mendigas. Elas, apesar de escoladas no perigo das ruas, não conseguiam escapar. Ele as segurava com força, amarrava-as caso necessário e as colocava na mala do carro. De início pensavam que seriam mortas. Mas quando percebiam que o mesmo homem desatava os nós que lhes prendiam braços e pernas, dentro de uma suíte de motel, tranquilizavam-se. Ainda desconfiadas não se mexiam quando o desconhecido, com toda delicadeza do mundo, as banhava em água quente. Já na cama, tudo mudava de figura. Newton proporcionava enorme prazer a todas.

Aos poucos as mendigas da cidade passaram a arrepiar-se ao ver o automóvel do amante aproximar-se. Já não resistiam. A única exigência que ele fazia é que haviam de ir dentro da mala. Uma vez que ainda exalavam o odor fedorento das ruas, não poderiam ser transportadas no banco do carona. Algumas, em má matemática, contavam nos dedos os dias que haviam passado desde a última trepada com o magnífico amante. Newton as tratava como rainhas muito desejadas. Ninguém, no entanto, falava sobre isso na cidade.

As mulheres sempre são ardilosas. Eu, mais ainda. O segredo chegou, enfim, aos meus ouvidos. Primeiro achei que fosse invenção. No entanto, logo descobri a verdade. Bastou-me um dia seguir Newton em uma de suas saídas. Embora sempre apaixonada por ele, jamais consegui sua atenção. A partir do que pude observar, resolvi tornar-me uma das mendigas, na cidade. Ao menos durante algumas horas na semana.

Fazer-se de mendiga não é tarefa fácil. A rua é um lugar perigoso. Há homens que não livram a cara de mulher alguma, nem da mendiga mais maltrapilha. Tive de fugir deles várias vezes. Nem sempre consegui. Numa ocasião, depois de intensa resistência, tive de me largar nas mãos de um desconhecido. Temi contrair doença maligna. E o homem, no final, não me deixou vestida. Tive de rebolar para conseguir chegar nua em casa. Como meu objetivo era Newton, aceitei privações e perigos.

Passaram-se algumas semanas desde que me deitara ao relento num colchonete, pela primeira vez. O local, mais tranquilo do que os outros, era uma esquina no setor azul, da cidade. Sabia que Newton tinha bom faro. Vi o seu automóvel rondar várias vezes o bairro. Fiz de conta que me escondia. Afinal, numa noite sem lua, caí nas mãos do homem. Fingindo, esbocei grande resistência. Ele amarrou-me os punhos e me jogou na mala do carro, como costumava fazer com as outras. Bati-me, fiz barulho. Tudo em vão. Como eu desejava, descobri-me no motel, assim como as outras.

Newton é um político influente na região, foi eleito duas vezes prefeito e exerce o segundo mandato de deputado estadual. Eu fora secretária de educação num dos seus mandatos de prefeito. Disfarcei-me ao máximo para não ser desmascarada. Ele jamais vira mendiga tão enegrecida, tão fedida como eu.

Já cheirosa e envolta em seda, trepei com ele. O homem levou-me ao delírio.

Dali em diante, preparei-me para que o encontro se repetisse outras vezes. Mas Newton demorou a voltar. Vivi com mendiga durante várias semanas, atravessei várias madrugadas sob o sereno do outono e tive de escapar tantas outras vezes de homens inescrupulosos. Deparei novamente com o desconhecido que me despira, sobre quem já falei.

Na segunda vez que Newton me tirou da rua, numa noite fria, consegui conversar com ele. Dizia não gostar de assunto com as mendigas, nada tinham a acrescentar, apenas as fodia. Representei o estereótipo da mulher rude, mas com alguma inteligência.

“Você seria capaz de casar com uma mendiga?”, perguntei.

Ele disse que não. “As esposas são muito limpas”, falou e caiu na gargalhada.

“Você não gostaria de levar uma mendiga com você, quando vai à capital como deputado?”

“Só se for uma mulher muito especial, na capital há também mendigas interessantes.”

Minha esperança foi por água abaixo. Trepei com ele uma segunda e terceira vez. Quando me deixou na rua, no final da madrugada, prometi a mim que não mais representaria aquele papel.

Passaram-se dois meses. Reparei cartazes nos muros da cidade com o desenho do rosto que era o meu quando me transformava em mendiga.

Já que não mais apareci, Newton procurava por mim. Havia um telefone abaixo do desenho, na verdade um retrato falado. Liguei ao número indicado. Um homem atendeu. Sou a mendiga que o deputado procura.

Não esperei doze horas. Um motorista particular me veio buscar no local que indiquei. Quando encontrei Newton, ele disse que se apaixonara por mim. Tive de rir.

“Não vai dizer que você quer casar com uma mendiga?”

“Casar, não”, afirmou categórico, “mas quero levar você ao Rio de Janeiro.”

No Rio, essas coisas acontecem em outro patamar. Trata-se de uma cidade perigosa. E o perigo excitava Newton. Ele constantemente me pedia para contar como fiz para me livrar dos homens que me assediavam. Eu inventava histórias. Ora dizia que escapara de todos, ora que um deles me deixara nua a madrugada inteira e me comera de modo exemplar. Contava como eu gozara. Depois Newton pedia que eu fizesse com ele da mesma forma. Certa vez contei do homem que, em M., me fizera voltar nua pra casa. Não calculava que tal assunto excitaria tanto a Newton. Pediu para fazer comigo do mesmo jeito.

“Mas o quê?, vamos trepar na rua?”, assustei-me.

Ele não quis saber. Trepamos na rua. Ele, um homem tão importante. Depois, deixou-me, do mesmo modo como o outro fizera.

"Ei, volte aqui."

Mas ele não voltou. Ou melhor, atirou-me algum dinheiro, três notas de cem. Eu, nua, com o dinheiro numa das mãos. Onde enfiaria as notas?

A cada encontro o homem oferecia-me uma quantidade maior de notas. Sou uma pessoa normal, gosto de dinheiro, portanto, a situação passou e me agradar. Logo arranjei um jeito de manter as notas e escapar ilesa, embora nua. Mulheres bonitas atraem sorte.

Um dia ele resolveu levar-me a Brasília.

“Newton, lá há mendigas à vontade, você não precisa me levar”, alertei.

Mas o homem me deu vestidos novos, maquiagem, tudo que eu precisava. E lá fui com ele. Sempre mudando o rosto. Sempre temendo ser desmascarada. Transamos no final da Asa Sul, sobre um gramado comprido. Ele deixou-me nua com dez notas de cem. Nunca pensei que a vida na capital federal fosse tão fácil.

Após certo tempo, Newton passou a se interessar pelas mendigas de Brasília. E não duvidei ao perceber no rosto de uma delas algum disfarce.

Na última vez em que me vesti de mendiga no Planalto Central, acercou-me um automóvel. Não era Newton. Mesmo assim não demorei a reconhecer o motorista. Era Mariano, marido de Pezinho, a deputada federal mais votada de M. Antes de casar com ela, ele fora um mendigo de verdade. Mesmo assim o homem não deixou de me reconhecer.

"Quero comer você, Elinete, a secretária de educação do prefeito Newton."

"Me coma à vontade, respondi convidativa, mas seja cavalheiro, a mendiga aqui quer uma trepada bem dada numa cama de hotel."

quinta-feira, novembro 06, 2014

Do mesmo modo como me havia encontrado

Será que todas as pessoas que conhecemos têm alguma função na nossa vida? Quando já morriam minhas últimas esperanças – eram quase cinco da manhã –, ele chegou. Difícil usar o pronome “ele”, porque eu não sabia e nem cheguei a saber quem era. Mas como pude observar de pouco em pouco, tratava-se de alguém muito educado. Parou o automóvel e perguntou se eu precisava de algo. Não me feriu com os olhos, manteve a suavidade das pessoas de bom coração. Nem desconfiou que fosse uma armadilha. Não sirvo de isca, sei bem disso. Entre os inúmeros papéis que sei representar o de isca é o mais temerário. Acreditou na minha sinceridade. Entrei e sentei no banco ao seu lado. O homem deu a partida e manteve-se em silêncio por um bom tempo. Quando já seguíamos a estrada, talvez dois ou três quilômetros à frente, foi que perguntou onde eu desejava ficar. Você acha que devo ficar em algum lugar?, falei e cruzei as pernas, a direita sobre a esquerda. Sempre se tem um destino, respondeu. Continuou seguindo; a estrada, ainda escura, os faróis delineando a madrugada que já não custava a se abrir à claridade da manhã. E então?, onde você mora?, ele quis saber. Disse o endereço. Mas não me leve agora, guie mais um pouco, cinco ou dez minutos, vou ligar a uma amiga. Ele assentiu ao meu pedido. Fiz a ligação. Mayra não demorou a atender. Contei em poucas frases a minha situação. Ela sugeriu que eu subisse para Lumiar. Mas não falei logo ao meu afável recém-conhecido. Ele teria de forçar o carro, desviar-se do caminho. Respondi apenas com um ok e desliguei. Tudo bem, disse a ele com a voz baixa, você já entendeu, acrescentei. Sim, sorriu e continuou olhando à estrada. Sabe em Casimiro, a entrada para o Sana?, perguntei. Sei, sorriu de novo. Você não vai precisar me levar até lá, alertei, logo na entrada está bom, depois me viro. Tem certeza?, interpôs. Bem, caso você queira subir um pouquinho... Mas não é para ir ao Sana, e também não é para lá que vou. Sua amiga mora na estrada?, sua voz soou sonora, ao longe já se via o céu avermelhar-se. Lumiar, foi a minha vez de sorrir, talvez um sorriso branquinho. É um pouquinho antes, ele assegurou. Isso, às vezes passo um fim de semana ou outro com ela, eu mostro onde me deixar, ela vem me pegar. O homem guiou até o local. Demoramos trinta minutos. Quando parou, já clareava. Tudo bem?, eu disse antes de abrir a porta. Ele olhou-me como alguém de bom caráter, no entanto uma ponta de decepção escorria de seus olhos, acho que gostou de mim. Como qualquer homem, não queria perder a oportunidade. Tudo, respondeu acentuando o sorriso. Beijei-o, peguei uma de suas mãos e a coloquei sobre minha coxa direita. Ele compreendeu o que eu quis dizer. Minha amiga ainda demoraria vinte ou trinta minutos, então?, insisti. Então, completou. Daí, aconteceu. Mas mantivemo-nos discretos. Só não conseguimos o beijo. No final, quando saí do carro, perguntou tenho uma camiseta na mala, que tal? Não precisa, minha amiga já vem, lancei-lhe um beijo de despedida, pode ir, não precisa se atrasar por minha causa. Ligou o carro, deu um adeusinho e se foi. Deixou-me, do mesmo modo como me havia encontrado. 

quinta-feira, outubro 30, 2014

Sobreviver no Rio de Janeiro

Eu tinha visto um filme sobre um escritor que vai à França para lançar um romance. E lá ele conhece a mulher de sua vida. Quem desejar mais detalhes poderá encontrar o filme com certa facilidade. Não lembro o nome. O que quero dizer é o seguinte. Fato semelhante aconteceu comigo. Passeava pelo Rio e, ao acaso, conheci um homem. Não sei se o de minha vida, mas alguém interessante. Tudo aconteceu quando faltavam três horas para eu deixar a cidade.

Sou de Curitiba, estava no Rio pela primeira vez, para passar um fim de semana e mais a segunda-feira, quando embarcaria para Congonhas. Restava-me ainda três dias em São Paulo antes de retornar à minha cidade.

Andava na Visconde de Pirajá em busca de um supermercado. Como não sabia onde ficava, perguntei à primeira pessoa que passou.

Um mercado?, repetiu a palavra e se pôs a pensar. Ah, sim, já lembrei, vou passar na porta, levo você até lá.

E fomos nós. Acabamos conversando um pouco. Falei sobre a cidade, disse que os cariocas são muito receptivos.

Receptivos?, perguntou, acho que são muito dados, acrescentou.

Sorri.

É preciso saber sobreviver nesta cidade, ele falou e também sorriu.

Sobreviver?

Isso. Sobreviver no Rio de Janeiro. Dá um conto, não?

Um conto, concordei, muito interessante. Você é escritor?

Quem sabe?, sorriu.

Ao chegarmos à porta do mercado, ele estava fechado. Era dia do comércio. Suspirei sem esperanças. O homem tentava encontrar uma solução.

O que você deseja comprar?

Respondi que compraria uma garrafa de vinho. Queria levá-la a São Paulo.

Vamos mais à frente, acho que há uma pequena loja, uma espécie de Delicatessen, como funciona também como cafeteria pode ser que esteja aberta, sugeriu.

Andamos mais duas ou três quadras, a loja estava aberta.

Entrei e perguntei se vendiam vinho. A vendedora disse sim. Escolhi o vinho. A mulher o colocou numa bolsa de papelão, a garrafa envolta em papel fino.

Antes de me despedir do homem, ainda lhe perguntei sobre a frase que dissera. Sobreviver no Rio de Janeiro.

Não repare, acho que falei bobagem, é porque nos últimos anos a cidade tem fama de violenta.

Ah, deixei escapar e sorri. Onde fiquei não vi nada disso.

Então, você encontrou o seu paraíso. Não quer tomar um café?, convidou,

Como ainda estava cedo, aceitei. Sentamos. A garçonete veio nos atender.

O homem se chamava Ronaldo. Começou a tecer uma história sobre um escritor argentino que residiu durante muito tempo em Paris. Tenho um amigo que diz que se deixamos alguém falar não podemos prever o que pode nos acontecer. Ronaldo era mesmo envolvente. Contou a história com tamanha paixão, que sua simpatia enredou-me.

Eu viera ao Rio sozinha, estava hospedada na casa de uma amiga. Ela teve de trabalhar todos os dias enquanto estive na cidade. No último momento, aparece alguém simpático, mas a pouco para eu partir. Não posso deixar isso se perder, pensei.

Acabamos o café. Era tão bonitinho o lugar.

Você mora aqui perto, indaguei.

Um pouquinho mais adiante.

Você acha que as pessoas são sozinhas?, perguntei. Não repare é uma dúvida, fruto de uma longa história.

Ele a princípio não respondeu.

Quero dizer, os seres humanos são incomunicáveis, acrescentei.

De certa forma, sim. Estamos conversando aqui, neste momento, mas não conseguimos nos comunicar como gostaríamos, não é mesmo?, ele disse.

E se tentamos, podemos estragar tudo, completei.

Isso, arrematou, nesse caso é melhor deixar faltar do que estragar por excesso.

Acho que consegui me comunicar com você, eu disse e sorri.

Nem tanto, talvez apenas um lampejo, acrescentou,

Ronaldo deu de ombros. Achei nele uma ponta de malícia.

Bem, tenho de ir.

Você tem certeza de que precisa ir a São Paulo?, insistiu.

Não é que eu precise ir a São Paulo. É um complemento da minha viagem.

E onde você vai ficar?, quis ele saber.

Falei o local.

Quem sabe apareço, aí a gente continua a conversa.

Será?, demonstrei satisfação, mas ficou o sinal de dúvida.

Nunca se sabe, afirmou meio solene. E você, não pensa na possibilidade de desistir de partir?

Não respondi, apenas fiz um gesto de desalento.

Despedimo-nos.

Não esqueça a garrafa de vinho, alertou.

Segurei a pequena bolsa e acenei a Ronaldo mais uma vez. Na calçada as pessoas iam de um lado para outro, e eram bonitas. Na rua os carros e ônibus trafegavam com algum despeito.

Fiquei com o número dele e ele com o meu. Quanto ao futuro, quem sabe.

quinta-feira, outubro 23, 2014

Sentadas no sofá

Apesar do meu corpo ter começado a dar ares de agitação, fiquei quieta em casa. Era hora de ele sair. Gostava de encontrá-lo, dizer boa tarde, sorrir. Mas achei melhor não exagerar. Olharia apenas pelo olho mágico da porta de entrada do meu apartamento, tomaria cuidado para que meus pés não dessem sombra ao lado de fora. Como não ouvia ruído algum, resolvi esperar mais um pouco. Vi no portal direito uma marquinha, ligeiro descascado, alguém poderia tê-la feito com a unha ou poderia ser ação do tempo. Lembrei uma tarde quando ainda era menina, fiz uma marca semelhante na porta do banheiro, queria deixar meu sinal naquela tarde chuvosa. Minha mãe saíra e eu me sentia muito só. Apenas a empregada, que estava entretida com o serviço da cozinha. A marca se foi, o apartamento ficou no tempo, mas a lembrança permaneceu, talvez um modo de acentuar o momento de tristeza e solidão. Agora aquele outro traço no portal de entrada e eu sem saber como aparecera. Será que eu mesma fora a autora, numa atitude de impaciência enquanto aguardava alguém que teimava em não chegar? Não sabia responder. Vestia apenas uma camiseta de malha, descia até um tantinho abaixo do bumbum, acho que deixava as beiradinhas de fora. Caso estivesse na rua, tal vestimenta só seria concebível para ir à praia. Escutei alguém se mover no corredor do andar. Aproximei-me e olhei pelo buraquinho da porta. Um entregador de pizza. Alguém abriu e recebeu a encomenda. Voltou alguns segundos depois e despachou o rapaz. Ninguém recebe uma pizza, tanto mais daquele tamanho, para comer sozinho. Seria eu a convidada? Voltei à sala e sentei na poltrona que fica a alguns passos da janela. No prédio em frente um garoto apareceu de relance na janela, seu andar era o sétimo, um acima do meu. Pensei em observar o que ele fazia, mas logo desapareceu. O céu estava claro, faltava pouco para o anoitecer. De repente escutei ruídos no lado de fora do apartamento. Corri e olhei de novo pelo olho mágico. Duas moças, acho que ainda adolescentes, batiam à porta dele. Usavam vestidinhos curtos, coladinhos ao corpo. Morri de inveja e fiquei furiosa. Meu corpo ardeu, começou dar mais sinais de inquietação. Não que eu morresse de amor pelo homem, mas o fato de ter estado em seus braços duas vezes e agora me sentir descartada tocava os meus brios. Corri até a janela e fechei a cortina. O apartamento mergulhou num anoitecer antecipado. Tirei a camiseta e deitei nua no chão, bem no meio da sala. Segurei os seios com ambas as mãos. Tocaram a minha campainha. Quem seria?, pensei preocupada, não recebi nenhum aviso da portaria. Levantei-me com cuidado, quis procurar a blusa, mas já não sabia onde estava. A porta se tornara transparente, revelava com mais intensidade a minha nudez. Senti-me despojada das roupas e da bagagem, num quarto de hotel, abandonada pelo amante. Corri à porta e olhei ao lado de fora. Era ele. Vestia uma camisa de gola e calça jeans. Estava bem calçado. Seus sapatos sempre me causaram admiração. Ele aguardava com certa ansiedade. Movi o trinco e abri a porta, devagar. Oi, cheguei a dizer. Oi, revidou, quero chamar você pra comer uma pizza. Uma pizza?, oh, estou gorda, suspirei. Um pedacinho apenas, insistiu. Ok, respondi. Saí do apartamento e o beijei. Ele me abraçou, vamos, então. O homem sabia que junto a mim sempre se surpreenderia. O que foi?, perguntei enquanto ele se mantinha enfeitiçado pelo meu corpo, não vamos mais?, completei. Vamos, vamos, sim, depois explico às minhas amigas que você é maluca mesmo. Beijou-me outra vez e colocou um dos braços sobre o meu ombro. Sabe que já fiz o síndico do prédio onde morei se masturbar por uma semana?, eu havia falado a ele na última vez em que nos encontramos. Como?, tentava ele entender. O homem sempre me olhava de rabo de olho quando eu passava, por isso num certo dia fui ao corredor nua, só pra ele me ter no monitor de seu computador. E neste edifício aqui?, perguntou com sinais de preocupação. Aqui, respondi, ainda não instalaram câmeras. As meninas nos esperavam, as duas sentadas no sofá que há na sala.

quarta-feira, outubro 15, 2014

Gosto mesmo é de poesia

Você está me convidando para sair logo assim de primeira...

Foi você quem olhou pra mim e sorriu, correspondeu ao meu aceno.

Sim, mas acho que cometi um erro, peço desculpas, me dê licença.

Eu falava com um homem, no calçadão, em Ipanema. Saíra de casa para deixar um pouco os livros, respirar o ar do entardecer, beber água de coco num quiosque da orla. Um homem, no entanto, passou por mim. Sei que as mulheres devem andar com os olhos baixos, não é bom encarar os homens. Mas naquele momento acabei por espiá-lo de soslaio, não me controlei e sorri. Ele veio atrás. Eu devia ter desconversado rapidamente, cruzado a avenida e partido. Continuei, porém, minha caminhada com ele ao meu lado. Andamos como dois velhos amigos. Depois de alguns minutos, já entrara eu na conversa dele. Todos sabem que há homens terríveis, basta escutá-los por pouco que seja e já nos conquistam.

Você gosta de ler, não?, perguntou antes que eu atravessasse a rua.

Como descobriu?, respondi desarmada.

Intuição.

Aceitei a explicação de forma simpática. Ele, então, listou uma quantidade enorme de autores, principalmente de romancistas.

Como sabe que leio romances?

Intuição, continuou. Mas você lê romances inteligentes, tenho certeza.

Adivinhou de novo. E como faço para descobrir esses livros?, queria testá-lo.

Você frequenta as boas livrarias.

Isso mesmo. Você é bom em adivinhações, falei.

Pronto, o caminho estava aberto. Continuamos andando, seguíamos na direção do Jardim de Alá.

Por aqui há uma livraria; como já entardeceu, que tal?, propôs.

Ah, sim, na Visconde de Pirajá, conheço.

Acabamos os dois juntinhos dentro da livraria. Ele me apontava os títulos. Parecia conhecer todos os livros.

Como você sabe sobre tantos autores?

Segredo, respondeu.

Você é crítico literário?

Segredo.

Se for não tem graça, falei, todo crítico é suspeito.

Sou médico.

Médico, que legal!, cheguei a exclamar. Duas pessoas olharam na nossa direção.

Caminhamos para o centro da loja.

Mas gosto mesmo é de poesia, ele falou.

Você é um médico que gosta de poesia. Que legal, fiquei eufórica.

O que há de mal nisso? Os médicos além de serem grandes leitores, também muitas vezes são escritores.

Já pensou que maravilha, frequentar um médico que antes da consulta converse sobre literatura?

Então, essa é a chave, demonstração de bom gosto e de cultura.

Ah, exclamei e sorri para ele, estou precisando tanto de uma consulta assim.

Ele riu, continuou olhando os livros. Comprou dois e me presenteou.

Foi assim que, dois dias após conhecer o homem, fui parar no seu apartamento.

E lá pelas dez da noite, morta de vergonha, pedi: vamos hoje ficar apenas na conversa, ok?

Tudo bem, respondeu, é o que estamos fazendo dede o começo...