quarta-feira, agosto 26, 2015

Tempestade

Senti na alma uma espécie de calor que só me tomava em ocasiões especiais. O pátio ainda estava úmido do orvalho da madrugada. Olavo, do portão, continuava a me olhar.

“Por que você não veio mais cedo? Ou mesmo ontem à noite?”, perguntei enquanto levantava a trava do portão, mas sem demonstrar que ia em brasas por causa dele.

“Eu bem que tentei, mas as estradas estão intransitáveis, a tempestade... Não foi por mal.”

“Sei dos estragos, vi na TV, os prejuízos são grandes, há muitos desalojados, parece que foram levados para as escolas. Dizem que duas pessoas morreram.”

“É o que estão comentando na estação de trens.”

“Foi bom você ter vindo, mesmo a essa hora, as crianças estão dormindo.”

“Então, é melhor eu não entrar, não quero incomodar”, ele fez de conta que partiria.

Não, por favor, entre, você não incomoda. Eu queria receber você em grande estilo, sozinha em casa, ter uma noite inteira para nós dois. Separei uma garrafa de vinho. Quando percebi que você não chegaria, peguei as crianças na casa da Vânia.”

“Então vamos beber o vinho agora”, falou e sorriu.

“Entre, por favor.”

Passamos pela porta de vidro, atravessamos a sala e fomos para a cozinha. Olavo sentou numa cadeira que havia na copa, mais adiante ficava a área de serviço.

“Não está gelado, aí?”, perguntei.

“Não. Para quem veio lá de fora, está uma maravilha”, ele esticou os braços e cerrou os olhos, um gesto de quem se descontraía..

“Você não prefere café, no lugar do vinho?”

“Não. O vinho, por favor.”

Depois que servi duas taças, um pouco de queijo e umas rodelas de pão, perguntei sobre seu trabalho.

“E a composição?, uma sonata, não?”

“Ah, está caminhando. Nesses dias conturbados não foi possível ir adiante. Mas assim que as coisas estiverem nos devidos lugares acho que conseguirei terminar.”

“Que bom”, sorri, “sempre adorei sua música.”

“Você é minha musa inspiradora”, ele deu dois passos até onde eu estava, me beijou e voltou para a cadeira.

“Musa, eu? Com quase quarenta anos, dois filhos pré-adolescentes?”

“Isso não a impede de ser minha musa.”

Ri de novo. Que bom você pensar assim. Espero que seja verdade.

“Está a duvidar de mim?”

“Não sei. Aprendi a desconfiar dos homens.”

“Depois vou ao piano e você canta aquela ária da Tosca? Pra mim, você sempre foi a melhor nisso”, ele demonstrou certa ansiedade no final da pergunta.

“A área da Tosca?”, é muito triste. Para eu cantar o trecho, preciso de inspiração, fechei os olhos e fingi que me compenetrava.”

“Espere, vamos beber primeiro”, Olavo alertou.

“Sei, não vou cantar agora, na verdade nem sei se consigo cantar em meio à catástrofe.”

“Catástrofes sempre vão ocorrer. Eu estava pensando quando saltei na estação: daqui a cinquenta anos mais da metade das pessoa vivas hoje estarão mortas; mais cem anos e ainda haverá pessoas caminhando por essas ruas, mas o restante das que vivem hoje também estarão mortas, inclusive nós.”

“Que conversa interessante”, ironizei. “Você se tornou um filósofo existencialista depois do nosso último encontro?”

“Não. O que digo, porém, é verdade”, sentenciou.

“Quer uma história engraçada para animar o  ambiente, enquanto terminamos o vinho?”

“Engraçada?”

“Isso mesmo, e põe engraçada nisso; vamos nos divertir um pouco. Sábado passado, a vizinha aqui do lado chegou pelada em casa.”

“Verdade?”

“Claro, por que eu mentiria?”, olhei para Olavo e levei minha taça à boca.

“O que aconteceu?”

“Não sei, e ela não estava triste. Saiu do carro, abriu o portão e correu para a porta de casa. Ainda mandou um beijo para quem lhe deu carona.”

“Seria uma aposta?”, Olavo insinuou.

“Não sei. O que percebo é que se trata de uma pessoa muito atirada.”

“Então foi isso, ela atirou as roupas fora.”

“Quem sabe? Certa vez ouvi falar de uma mulher que gostava de ser deixada nua na estrada. Seu namorado dava umas voltas e depois voltava para buscá-la. Acontecia sempre à noite.”

“Vai ver o namorado não voltou. E ela teve de recorrer a outra pessoa. Talvez a um estranho.”

“Mas e o beijo? Ela lançou um beijo ao homem, toda animada.”

“É, então há um enigma”, Olavo falou enquanto tomava o último gole de vinho.

“Vamos esperar as crianças acordarem, aí você senta ao piano e eu canto a ária.”

“Ok. Que tal mais uma taça?”, Olavo levantou a garrafa e encheu a sua, depois derramou mais vinho na minha.

“E então?", queria ainda saber sobre a vizinha.

“Não sei, não a vi mais. Mas é lógico que não vou ter coragem de perguntar sobre isso.”

“Fique a espreita, quem sabe acontece outra vez?”

“Não, nada disso, não gosto de tomar conta da vida dos outros. Eu a vi por mero acidente. E ela nem deu pela minha presença. Vamos deixar a mulher andar nua o tanto que quiser!”

Brindamos a última taça. Sentei no colo de Olavo.

“A boa arte é sempre séria”, acrescentei, “por isso esse seu pensamento existencialista, enquanto caminhava pela estação. Quem sabe você aproveita e compõe uma de suas músicas, será bastante trágica”, sorri.

“Nada de mulher pelada dentro da noite. nem conversas comezinhas à beira do fogão”, acrescentou.

Rimos os dois e nos beijamos.

quarta-feira, agosto 19, 2015

Wimereux

Estive numa praia no norte da França, Wimereux, na cidade de Boulogne-sur-Mer. Que lugar lindo! Apesar do verão europeu, a temperatura estava amena, acho que vinte e um graus. As pessoas divertiam-se. A praia tinha cabines sobre o calçadão, pertenciam aos moradores que vivem no local. Todos têm sua casa e, junto à praia, uma cabine para trocarem de roupa ou guardarem os apetrechos de praia. Aqueles que não moram ali, podem usar as cabines dos hotéis. As areias eram compridas, o mar distante, vez ou outra via-se alguma piscina natural entre a parte baixa da praia e a longínqua maré. As pessoas praticavam esportes, ou sentavam ao sol, conversavam, e havia aquelas que andavam de um lado a outro. Em algum momento, vi uma mulher de biquíni, mas usava um casaco. Engraçada a silhueta, o casaco a cobria até a cintura e, como prolongamento, o biquíni e as coxas nuas. Eu não podia perder aquele momento. Aluguei uma cabine num hotel próximo e troquei de roupa. Saí dali apenas de biquíni. Mas senti um pouquinho de frio, cheguei a cruzar os braços sob os seios. As pessoas, de início, não reparam nada demais em mim, mas percebi que, pouco a pouco, alguns homens levantavam os olhos quando cruzavam comigo. Desci à areia e me pus a caminhar à beira d’água, mas junto à primeira orla, porque a maré mesmo estava muito distante. Após andar uns quinhentos metros, ouvi duas jovens me chamarem.

Ei, venha até nós, fique com a gente; se você sente frio temos uma pequena barraca, pode descansar lá dentro, apontaram areia acima.

Eram duas francesas, e falavam como se eu fosse uma delas. Respondi que sim, ficaria com elas. Perguntaram de onde eu era. Disse que de Paris. Como estudo francês desde criança, consegui fazê-las acreditar. Eram estudantes, mas não moravam em Paris, apenas estudavam na capital.

Você usa um biquíni muito curto, onde comprou?, perguntou Céline, a mais loura.

Comprei em Roma, respondi.

Elas se entreolharam admiradas, chegaram a repetir:

Em Roma, e depois, tre joli, e sorriram.

Você gosta de namorar?, perguntou a outra, que disse chamar-se Ceci.

Gosto, respondi com um largo sorriso.

Virão alguns rapazes, quem sabe?, acrescentou.

Ficamos as três a olhar o mar. As duas não tinham a mesma sensualidade de nós, brasileiras, eram um pouco desajeitadas e brancas de dar dó.

Você é morena, Céline alisou-me a pele.

Uma delas apontou o outro lado do Canal da Mancha:

Veja, a Inglaterra.

Podia-se perceber ao longe a parte sul de uma grande ilha.

Fica a cinquenta quilômetros daqui, acrescentou.

Chegaram os rapazes. Elas os beijaram e fizeram as apresentações. Ele estavam viajando de férias, por toda a França, gostaram de me conhecer. Estabeleceu-se uma conversa vaga.

Eles tinham uma bola de futebol e ficaram jogando durante algum tempo. Nós, mulheres, observamos seus passes, embaixadas e cabeçadas. Depois, o mais alto segurou a bola e os três voltaram-se para nós. Pareciam não ter muito assunto. Um deles tirou o maço de cigarros, ofereceu-nos. Apenas eu aceitei, e tive muita dificuldade para acendê-lo, porque o vento era intenso.

Depois de um quarto de hora, Céline caminhou à barraca. Um dos rapazes a seguiu. A seguir, foi a vez de Ceci. O outro pôs-se a caminhar atrás dela. Sobrou um, que tinha de ser meu. Puxa, nem tive escolha. Mas não levantei, como fizeram as duas, permaneci onde estava, sentada sobre um pano, abraçada às próprias pernas. Ele então sentou ao meu lado e me abraçou. Pelo menos isso, não preciso tomar a iniciativa. Começou a me acariciar. Após um ou dois minutos estirei-me sobre a areia, ele ficou a me bordear o corpo. Que sorte, pensei, saio de minha casa, não conheço ninguém nesse lugar e agora estou nas mãos de um homem bonito e jovem. Ele aproximou-se e me beijou, um longo beijo na boca. Depois soltou o meu top. Continuei deitada, com os seios apontando ao céu, sorria e esperava por ele. Uma das moças veio correndo da barraca, enrolada numa toalha, percebia-se que ela já se despira do biquíni. Falou a mim, atabalhoada.

Venha com a gente, você não pode ficar nua aqui, o pessoal é muito conservador.

Fomos os três à barraca. Ela, à frente, com sua toalha desajeitada a lhe ocultar parte do corpo e eu de peito de fora, atrás dela, ao meu lado vinha o namorado. Foi uma tarde de muito amor. Já fazia tempo que eu não trepava cercada por outras pessoas que também trepavam. Mas foi muito divertido. Quando tudo terminou, a mais loura perguntou onde eu estava hospedada e quantos dias eu ficaria na praia. Respondi a ela.

Vamos buscar você, falou, enquanto estiver aqui vamos sair as três juntas.

Em algumas noites andamos pelas ruas internas de Wimereux, pudemos então apreciar as construções típicas do local, casas elegantes, centenárias, que se enfileiram, todas altas, com dois ou três andares, arcadas, floreiras, tudo muito peculiar. Ceci, a mais interessada na arquitetura do lugar, explicava as características de cada construção e até mesmo sabia a história de algumas casas. Contou sobre o tempo da ocupação nazista, quando os invasores intimaram os moradores a abandonarem o local em duas horas levando consigo o que pudessem, pois não permitiriam que retornassem. Enquanto durou a guerra, os oficiais alemães que ficaram naquela região residiram nas melhores casas. E não é preciso dizer que também as dilapidaram. A moça narrou também a história de uma antiga moradora que viveu a infância em uma delas: quando voltou, muito tempo depois, bateu à porta e pediu para entrar, queria rever os cômodos e o pátio onde vivera seus primeiros anos. Em uma das construções havia a inscrição “Esperanto”, esclareceu-nos que se trata de uma língua, em 1905 ocorreu na cidade o primeiro congresso mundial do idioma; na casa, alguns participantes do evento hospedaram-se. Quando saíamos à noite por aquelas ruas, sempre encontrávamos algum bar onde parávamos para bebermos um refresco, ou mesmo saborear algum coquetel.

Ficamos quinze dias naquela praia, namoramos muito. No dia de ir embora, Céline pediu meu biquíni de presente. Como estávamos na praia, soltei os laços e o entreguei a ela.

S'il vous plaît, vous ne pouvez pas être nue ici!

Rimos muito todas as três.

No dia seguinte, nos despedimos na estação de trens. Eu voltava a Paris; elas, à cidade de origem.

Há ainda um fato interessante, que me lembrei agora. Aconteceu numa das minhas primeiras noites em Wimereux, antes de conhecer as duas mulheres e os rapazes. Queria encontrar o caminho de volta ao meu hotel e não conseguia. Reparei que andava em círculos e acabava sempre numa mesma rua. Resolvi então bater à porta de uma casa e pedir ajuda. Um homem veio atender. Ele tinha uns trinta e poucos anos. Após me ouvir, disse que me levaria ao endereço descrito. Pediu, no entanto, que entrasse e esperasse um pouquinho. Ele fervia água para fazer café. Reparei sobre a mesa um exemplar de Austerlitz, de Sebald, em francês. O homem notou meu interesse pelo livro e perguntou se o havia lido. Disse que sim, e que gostara muito. Ele o estava lendo, afirmou que concordava com Sebald quando este demonstrava certo desgosto pela Bélgica. Sorri. Continuou falando enquanto terminava de fazer o café. “Foram as fortificações que fizeram Sebald virar as costas para o país, foram muitas as guerras, muitos infortúnios, elas transmitem certo ar lúgubre.” No final, trouxe a xícara e ofereceu-me. Bebemos o café em silêncio. Antes de me ensinar o caminho de volta, ele disse que dali a alguns dias precisaria ir à Bélgica, e confessou que o seu sentimento sobre o país era o mesmo de Sebald. Dei a ele o meu endereço de Paris e sugeri "concordo com você, o que importa é que Austerlitz é um grande livro. Quem sabe depois da Bélgica você possa ir a Paris, então conversaremos mais e ainda nos divertiremos." Ele moveu a cabeça como se aceitasse o convite e pousou o meu cartão ao lado do livro.

quarta-feira, agosto 12, 2015

Fogo

A moça respirava modesta, calma. Já esperava que tal surpresa não tardaria. Arriscava-se com frequência e, ultimamente, vinha até mesmo exagerando. Por isso teve tempo de pensar, de examinar suas possibilidades, e a respiração era o que havia de mais importante, seria ela que lhe daria o prumo, a altivez, um sorriso ainda que distante e frio, um nada de mais à nudez às duas da manhã junto ao portão de entrada da própria casa. O homem, na verdade, foi quem demonstrou maior surpresa, uma espécie de susto e êxtase; a princípio, nada conseguiu dizer. Ela sentiu que viria uma pergunta, talvez quisesse saber se ela precisava de ajuda. A resposta, já pronta, seria o silêncio. Ninguém pede ajuda em silêncio. Talvez o pior fosse o correr dos segundos e dos minutos, porque depois do torpor inicial, depois daquela espécie de breve congelamento, o tal sujeito, antes estupefato, perderia pouco a pouco a rigidez e começaria a pensar. Aí então a ponta do iceberg, isto é, do perigo. Não se deve temer as atitudes das pessoas tomadas pela surpresa, mas das pessoas quando pensam. E quando derretesse o cascalho de gelo que cobria o homem, ela já não teria domínio sobre os acontecimentos. Era necessário que tudo se resolvesse em frações de segundos, caso não fosse possível, em meio minuto, daí em diante estaria nas mãos dele. Uma pasta escura a lhe lambuzar o corpo. Não tinha nada pra dizer e sabia que não devia desculpas, pois nada fizera de mal que exigisse tal pedido. O homem, porém, era um homem, da espécie mais masculina, um macho como um cavalo ou mesmo um touro, e para essas espécies as palavras não servem. Talvez ele achasse que teve sorte, que algo caiu do céu a seu favor, era um bem aventurado. E isso tudo sem formulação alguma, nada de conceitos, apenas a pele como entendimento. Despejaria sua macheza assim como despeja as fezes ou a urina, assim como almoça e não precisa saber o nome do prato. Ela era uma estátua que esperava o movimento da casa, mas a casa era escura, quase inabitada e, quem sabe, ela poderia ser tomada por uma ladra que age sem deixar rastros, sem precisar de roupas que soltem fios de algodão e lhe revelem. Virou de frente, encarou o desconhecido. Ele chegou mais perto, cobriu a luz que vinha da rua com seu corpo imenso. A sombra dele subiu pelo ventre de Aparecida. O que houve, moça?, ele não falou mas ela podia ouvir, era o torpor que ainda o cobria. Não merecia resposta. Impávida, as mãos estendidas lateralmente e a expressão de que o nu era ele. Olhe sempre numa direção indefinida, assim nada será presente, ela lembrou um ensinamento básico. O que houve, moça?, repetia a voz inexistente. Ante o silêncio da casa, ante os ruídos longínquos da estrada, ela diria não estamos sós. A resposta o desarmaria por trinta segundos intermináveis, ela tinha certeza. O que tem estar ou não a sós?, ele desejaria saber. Ela moveria os ombros, como se dissesse nada, não tem nada. Você vem comigo, ele sugeriu numa meia ordem, estou lhe oferecendo ajuda. Tirou o paletó e o estendeu diante dela, ocultando a si o corpo da mulher. Mas ela meneou a cabeça em negativa, não precisava de paletós, assim como ele nada podia ofertar a ela, nenhuma ajuda, ninguém na verdade precisa de ajuda, ela chegou a dizer. Ele a empurrou em direção ao pequeno muro. Ela não teve como contrapor, apenas a parede gelada a lhe apalpar as nádegas. Aparecida não queria perder o carteado. Vamos, ligeiro, enquanto há sombra, ela acrescentou. Sempre há uma saída. O homem ocupou todo o espaço, não queria deixar a noite em aberto. E ela sabia dos riscos desde o começo, sabia também que a altivez era um modo de resistência, não podia recuar. Aparecida mostrou os olhos grandes pela primeira vez, encarou o homem com olhos enormes, assustou-o. Venha cá, não fuja, não sou louca. Ele tremeu ante a palavra louca, chegou a retroceder dois passos. Volte aqui, era ela agora quem ordenava. Ou você se abre ou se deixa queimar, tanto é o fogo, disse a si mesma. Reparou, então, que estava só.

quarta-feira, agosto 05, 2015

O melhor de todos

Outro dia, andava eu pela Av. Rio Branco quando ouvi uma voz de mulher às minhas costas: “não sei como essas garotas têm coragem de usar esse tipo de roupa, tão curta para andar pelo centro da cidade.” Depois de vinte segundos, olhei para trás e pude reparar que a mulher falara a um homem jovem. Ambos caminhavam juntos, e a garota do assunto deles era eu. Mal sabem que a garota aqui já beira os quarenta. Continuei o meu caminho e não mais os vi. Depois de atravessar a avenida, reparei que outro homem me olhava. Lembrei-me então de uma amiga de tempos atrás. Ela sempre me falava:

“Não consigo usar roupas tão curtas como você, me sinto nua."

Eu brincava:

"Roupas, que roupas?"

"Essas, como as tuas."

Eu então retrucava:

“No começo isso acontece, mas depois a gente acostuma.”

“Não sei”, ela de novo, “sempre acho arriscado roupa muito curta, quem sabe eu não encontre meu shortinho depois de fazer amor?”

Eu ria.

“Tereza, isso só vai acontecer se você quiser voltar nua pra casa. Nunca vi um short desaparecer.”

“Acontece, sim. Há homens que são tarados. São doidos por deixar a gente pelada.”

“O problema então é outro, Teresa”, continuei, “é preciso saber com quem você está saindo.”

“Mas você mesma diz que às vezes topa sair com um homem no momento que o conhece...”

“Verdade, mas faço isso muito raramente.”

Voltando ao meu passeio pelo centro, senti um frisson. Não sei por quê. Talvez pelas palavras da senhora, talvez pelo olhar dos homens. Fazer amor no primeiro encontro, quem sabe? Lembrei-me de outro fato.

Havia um hotel na Senador Dantas, nem sei se ainda existe. Certa vez fui lá com um namorado. Não se tratava de sexo no primeiro encontro, já estávamos junto fazia um ou dois meses. Ele tirou toda a minha roupa. Era verão, e eu usava também um shortinho. Na época, estava na moda a miniblusa. Eu, quase nua. Almoçamos no apartamento. Ainda ganhamos uma garrafinha de espumante. Acho que meio litro. Era dezembro, época de festas, de ofertas. Sei que a bebida me deixou num fogo... Transamos duas ou três vezes, e o meu fogo não abrandava.

“Estou em brasas”, repeti ao namorado.

“O que você deseja que eu faça?”

“Que comece de novo.”

“Ok”, falava ele e recomeçava.

Em determinado momento, alertou:

“Temos de ir embora, vai acabar o período e não tenho mais dinheiro.”

“Paga com o meu short”, sussurrei no seu ouvido.

“Será que eles aceitam?”, brincou.

“Não sei, mas podemos tentar.”

“E se não aceitarem?”, olhou para mim ansioso.

“Não vamos pensar nisso agora, vem, vem mais uma vez.”

Ele veio. E transamos de novo. Ainda bem que esse namorado tinha uma saúde e tanto.

Quando pedimos a conta, ele olhou pra mim e disse:

“E agora?”

Coloquei as mãos dentro do short e comecei a esticá-lo de um lado e de outro, fazia como se fosse descê-lo.

O namorado chegou a dizer:

“Não, por favor.”

“Não é nada disso”, sorri debochada.

Tirei então uma nota de cinquenta e coloquei na mão dele.

“É pra ajudar a pagar.”

Saímos do hotel e ele me levou pra casa.

Nos dias seguintes fui ao Centro, sozinha. Entrei numa livraria. Fiquei mais de uma hora olhando e folheando alguns livros. No final, percebi um paquera. Ele veio até onde eu estava. O que será que vai falar?, pensei.

Ele me pegou pelo braço:

“Vamos, você chegou cedo hoje.”

Fiz de conta que o conhecia. Saímos da livraria. Namoramos naquela mesma tarde. Nada falamos. Apenas gemidos de ambas as partes.

Foi o melhor de todos.

Você quer o meu shortinho?, pensei mas nada disse.

Ele entendeu.

quinta-feira, julho 30, 2015

Conto de carnaval

Eu era uma deusa consagrada pelas duas da tarde. Uma deusa de máscara.

Ele, surpreso, olhou para mim. Tentava entender o jogo.

“Nunca viu uma mulher de rosto coberto?”, minha voz soou distorcida através do pequeno orifício.

“Já, mas não de máscara e nua por inteiro.”

“Aí é que está a graça”, sorri para ele, que não podia adivinhar o meu sorriso.

“Você gosta de fantasia”, afirmou.

“Claro, não sou prostituta nem estou apaixonada.”

Percebi que minha resposta chegou a ele um tanto enigmática.


A brincadeira começou quando uma amiga pediu para tomar conta da pequena casa. Era por volta do mês de novembro. Toda vez que eu descia à cidade, verificava se tudo andava bem. Aproveitava para descansar, principalmente quando o dia estava quente. Como sempre gostei de me fantasiar, imaginei a tal brincadeira. Arranjaria vários namorados e os levaria àquela casa. Mas para que tudo desse certo, havia dois pontos: que não fossem homens violentos, e que não vissem o meu rosto. Assim, caso dessem comigo na rua não me reconheceriam nem sairiam comentando aos amigos. Contatei uma amiga. Perguntei se gostava de máscaras e de Carnaval.

“Adoro”, foi sua breve resposta.

Ela agenciaria os encontros para mim. Eles, assim, não conheceriam o meu rosto.

“E se um deles lhe arrancar a máscara?”, pareceu preocupada.

“Pode acontecer”, respondi, “mas é o risco que a gente corre para sentir prazer. Talvez isso faça o prazer maior.”

Saímos as duas a campo. Ela também queria experimentar.

“Ninguém pode saber”, adverti, caso contrário estaremos em maus lençóis; quero dizer, sem lençol algum; e nuas! Além disso, a casa não é minha, a proprietária confia em mim.”

“Por que não arranjamos namorado como duas pessoas normais?”

“Você consegue?”, repliquei. “Caso diga que sim, seja feliz.”

Minha amiga riu e entendeu.


Ela começou a andar lá pelos lados da rodoviária, sempre ao amanhecer. Sentava num banco e fingia esperar o ônibus. Quase sempre um homem se aproximava e vinha puxar conversa. Esperava também o seu ônibus. A conversa começava com alguns entraves. Ela não abriria logo o jogo. O primeiro trabalhava como mergulhador nas plataformas de petróleo. Ela se assustou.

“Nossa, que profissão perigosa!”

“Nem tanto”, ele retrucou. “É só o começo, depois não há o que temer.”

Contou também que vinha de longe. Ficava quinze dias no mar. Depois voltava para casa. Naquela manhã estava voltando. Deixou o telefone. Dali a quinze dias esperaria por ela.

Ela me trouxe o número dele.

“Quem sabe, talvez ele seja teu.”

“Como vou fazer?”

“Faça de conta que foi você que conversou com ele na rodoviária. E depois, há a máscara, ele não vai ver o teu rosto.”

“Certo, vou ligar então.”

Ele veio. Aproveitei. E muito. Não era tão dotado nem tão hábil, mas foi uma boa aventura. Além de me comer, chupou a minha buceta.

Minha amiga continuou suas ações. Como acordava cedo, andava pela rodoviária fingindo estar prestes a embarcar. Marcava com os homens. Eles vinham para mim, sem que percebessem o ardil. Depois do mergulhador, veio um operador de guindaste. E que guindaste o homem tinha. Gozei várias vezes. Depois dele, veio um domador de cavalos. Vixe, suspirei, vai que o homem queira me domar. Enganei-me. o homem sabia trepar. E que delicadeza.

Nessas idas e vindas de namorados, chegou o Carnaval.

Será que no carnaval eu precisaria de máscara? Fiz três fantasias. Uma odalisca, uma colombina e, por último, uma baianinha. Todas um amor. Pintei bem o rosto, modifiquei o cabelo e saí me misturando na folia. Não é preciso dizer que as sainhas de todas as fantasias eram minis. Os homens vinham atrás, me seguiam, me queriam abraçar. Mas polidamente eu desconversava. Meu negócio era dançar. Pela manhã, eu ia à praia. Para me enfeitar, arranjei uma rendinha, tipo um vestido de noiva, mas sem forro; por baixo, o biquíni. Toda vez que surgia um bloco na orla, eu acompanhava o ritmo. Num desses momentos de euforia, encontrei a amiga que arranjava os namorados.

“Oi”, ela falou, estava mascarada.

“Por que a máscara?”, perguntei.

“Porque é carnaval.”

“Mas você não tira?”

“Não quero ser reconhecida”, respondeu, “e, além disso, resolvi fazer como você.”

“Hoje, não faço não”, disse convicta, “quero dançar, quero o carnaval.”

Ela escapou em meio ao bloco, um homem a levou pelo braço.

À noite me vesti de baianinha. Entrei num enorme cordão, no centro da cidade. Duas horas depois corri para orla. Outro bloco. Batucada, samba, vozes a cantar, corpos a transpirar sensualidade.

No domingo, passei o dia vestida de odalisca. As pernas de fora. Homens querendo-me beliscar. Ai, nada de manchas vermelhas sobre a pele, eu fingia dizer. Lá pelas tantas, acho que passava das três da tarde, um jovem se pôs a me seguir. Como ele dançava bem, conhecia todos os passos. Eu era a estrela principal de uma escola de samba. Pelo menos era assim que eu me sentia. Houve até um turista americano que, de câmera na mão, não nos abandonou. À noite, enquanto tomava um refresco, ainda na orla da praia, encontrei minha amiga mascarada.

“Oi”, falou, “já aproveitei com três.”

“Aproveitou?”, fingi não entender.

“Fiz o que você faz mascarada durante o ano.”

Respondi “oh, parabéns”, enquanto ela escapava nos braços de dois negros fortes. Está dando tudo que não deu há anos, pensei.

Senti um toque nas costas. Era o jovem dançarino. Deslizamos de novo pela avenida principal. Um bloco se aproximava, com todos os tambores.

Na segunda, saí às duas da tarde, vestida de baianinha. A roupa branca, branquinha mesmo, e eu cheia de colares. Logo um soprou no meu ouvido.

“Fofinha, quero levar você pra casa, deixar só os colares sobre essa pele branquinha.”

Tive de rir. E ele dançou comigo. Mas na hora principal, escapei. O homem estava doido para me comer. E lá vinha o dançarino do dia anterior. Gostei dele porque sua vontade era apenas dançar, e demonstrava um enorme entusiasmo. Mais uma vez encantamos corações, arrebanhamos aplausos, e uma legião de fotógrafos atrás de nós.

Não é preciso dizer que, naquela noite, enquanto eu me refrescava com um suco, num quiosque, encontrei a amiga mascarada.

“Você não tira a máscara?”, perguntei.

“Não posso ser reconhecida”, respondeu solene.

“Por quê?”

“Ora, porque já trepei com cinco foliões. E olha que lhe conto um segredo”, acrescentou, “o último tem um pau enorme, quero ficar com ele até o fim do carnaval, nunca vi homem tão bem dotado. Repare de perfil, é aquele ali de copo de cerveja na mão, está com um amigo. Não é bem avantajado?”

Reparei o homem. Era verdade. Parecia que tinha um peru dos grandes. Pela primeira vez naqueles dias e noites de carnaval senti uma fisgada bem no fundo do útero. Era vontade de trepar. Até ali o meu negócio fora apenas a festa. Mas nada falei à minha amiga.

“E onde vocês transam?”, eu, curiosa que só.

“Numa barraca no Pecado. Foi ideia minha. Quando arranjo um, levo pra lá, mas agora só quero com ele.”

Surgiu o rufar de alguns tambores. Alguém me tomou um dos braços e mergulhamos na folia. Minha amiga se perdeu na multidão.

Foi uma noite encantadora. Como não gosto de bebidas alcoólicas, brinquei lúcida e com toda a energia até quatro da manhã. Dancei com muitas pessoas, entrei também num cordão só de mulheres. Bem no meio, uma jovem dançava inteiramente nua!

No último dia, aproveitei para sair num bloco que estava marcado para as dez da manhã. Uma festa muito animada, com bebidas para os integrantes que vestiam o abadá. Fiz da minha um vestidinho muito sexy. Dancei sensualíssima, beijei na boca dois ou três homens. Mas nada de sexo com eles. Às três da tarde, fui procurar a barraca da minha amiga mascarada. Não foi difícil de chegar até lá. Ela estava deitada, descansando. Estava só, sem a máscara e inteiramente nua.

“O que houve com você?”, perguntei. “Não está na folia?”

“Vou daqui a pouco, estou descansando.”

“E a máscara? Você está nua...”

“Lembra o meu paquera avantajado? Emprestei a ele. Disse que ia brincar num bloco onde os homens saem vestidos de mulher. Ele volta daqui a pouco. Quanto à máscara, acabei não resistindo e mostrei o rosto. Agora estou nua duas vezes!”, parecia feliz por ter se revelado.

“Quer dizer que ele foi brincar num bloco vestido de mulher?”, repeti o que ela dissera logo após ter uma brilhante ideia. Lógico que nada comentei a ela. “Isa, e se ele não volta?”, acrescentei.

“Claro que volta. O homem está apaixonado.”

Despedi-me, deixei o Pecado para trás e me enfiei de novo na avenida. Não foi difícil encontrar o bloco de homens desfilando vestidos de mulher. Iam pela altura da Glória. Iam desengonçados dentro de vestidos e roupas de banho femininas. Quando chegavam à Cancela, avistei o namorado de minha amiga. Era um dos mais animados. A roupa de mulher até que lhe caíra bem. Ele batucava um tamborim. Engracei-me ao seu lado, fazendo volteios e sorrindo. Ele se aproximou e passou a batucar cada vez com mais vigor o seu instrumento. Eu dançava como uma passista. Rebolava, descia, subia, mexia o bumbum novamente. O homem ia ao delírio, enlouquecia. Quando a bateria encerrou o desfile, ele me ofereceu uma cerveja. Bebi com ele um ou dois copos. Seus amigos se dispersaram dizendo que voltariam à orla, havia mais dois blocos e a bebida seria grátis. Puxei-o então pelo braço e falei.

“Tenho uma surpresa pra você.”

Ele me acompanhou. Não queria levá-lo para a tal casa que eu tinha a chave, mas não havia outro lugar. Ao chegarmos, tirei toda a roupa e me entreguei a ele. Minha amiga tinha razão, mostrou-se ótimo amante. Ele tinha um peru imenso, parecia um cavalo. E como demorava a gozar. Jamais um homem me proporcionou tamanha satisfação.

“Não vá embora”, falei. “Vamos trepar mais uma vez.”

E assim fizemos. Durante toda a noite. Pela manhã ele se foi. Como o carnaval já terminara, saiu apenas de bermuda. As roupas de Isa, que ele vestira para o tal  bloco, acabaram ficando comigo, mas eu não podia levá-las a ela. Descobriria que eu estivera com seu homem.

Duas semanas depois, a dona da casa veio morar em M. Devolvi-lhe então a chave. A brincadeira das máscaras terminava. Quando encontrei minha amiga, totalmente ao acaso e mais ou menos um mês depois do carnaval, eu disse:

“Que carnaval inesquecível, hein?”

“Nem fala, riu um  tanto envergonhada.”

“E o namorado?”, perguntei fazendo de conta que nada sabia.

“Voltou assim que você se foi. Trepamos a noite inteira. O problema foi que o bandido não me devolveu a fantasia!”, finalizou.

Ainda bem, pensei, Isa sabe mentir. E que bom humor!

quinta-feira, julho 23, 2015

Todas gostamos

Sentada na poltrona, vestida de calça jeans colante, sandália de meio salto,  espero por ele. Falta alguma peça sobre o meu corpo ou esqueço de escrever sobre a blusa? Falta a blusa, sim. Mas é proposital. Tenho o torso nu, uma das mãos e o antebraço a proteger os seios, jogo inocente e, ao mesmo tempo, sedutor. Gosto da nudez, aliás, todas gostamos. Hoje, quero fazer uma surpresa a ele que não demora. Tudo começou numa dessas madrugadas quentes, depois de uma festa na Gávea. Saímos juntos, ele ofereceu-me uma carona. Insistiu para eu ir à sua casa. Quis me fazer difícil, hoje não, quem sabe amanhã? Amanhã é domingo, retrucou. É um dia como outro qualquer, acrescentei. Acabou concordando. Como combinado, o encontro aconteceu, e foi agradável. Comemos uma pizza e tomamos duas taças de vinho. Aliás, uma pizza fina, porque sou elegante. Depois, rumamos à sua casa Assim começou nosso enlevo. Lembro que naquela noite eu vestia um vestido soltinho, o comprimento acima dos joelhos vez ou outra deixava entrever, como um relâmpago a durar meio segundo, uma lasca das minhas pernas. A partir do tal domingo, o namoro foi crescendo. Para não esfriar, sempre ouso, por isso hoje o caso dos seios nus. Ele vai adorar, tenho certeza, quem sabe enlouquecer. Fecho os olhos, ponho-me a imaginar. Corro à beira da praia após ter saído de uma festa às três e trinta da manhã, um  alvoroço, mulheres a gargalhar, alguns rapazes, de repente junto à parede, uma espécie de falésia que separa a praia do calçadão, avisto uma moça, ela tenta esconder-se, permanecer anônima, está nua, os seios sobretudo à mostra, percebo que se assusta com a turba da qual faço parte, não desejo comprometê-la ante o grupo barulhento que me segue, aponto a borda do mar, conduzo todos à direção oposta, deixo-a intacta a nossos olhares, anônima, como antes de chegarmos. Sinto, porém, uma ponta de inveja, melhor fosse eu a nua, e não ligo se me roubam o véu. Abro lentamente os olhos, o abajur lança reflexos suaves sobre a parede. Quero levantar-me, deixar a poltrona, ir à cozinha buscar um copo com água. Adoro a água bem gelada descendo por minha garganta e percorrendo-me as entranhas, chego a sentir um fio frio, cortante, arrepio. Seguro os seios com uma das mãos e deixo que minhas pernas conduzam-me ao objetivo, um copo fino, de cristal. Volto com a água quase a transbordar, o copo suado, minhas mãos trêmulas de excitação. Tomo o primeiro gole. Sinto o gelo até nos bicos dos seios, quase um espasmo. Vou de gole em gole, torno-me úmida, fria e quente ao mesmo tempo, beiro o paroxismo. Repouso o copo sobre a mesinha lateral, as mãos tilintam o cristal, o prazer... Fecho-me de novo sobre a poltrona, os olhos semicerrados, as pernas cruzadas e uma das mãos a segurar o seio esquerdo. O meu homem há de chegar? Luzes da Visconde de Pirajá, as lojas abrem à noite, pairo sobre o bairro, pouso sobre uma das calçadas, voo noturno em pausa, percebo que vou sem a blusa, os seios com os bicos rijos, será que me espreitam?, pouco a pouco me percebo invisível às pessoas, ligeiras passeantes, não dão pela minha presença, o vento morno acaricia-me a pele lisa, uma vitrine de bolsas, loja aberta que me convida, não há viva alma, entro e toco no couro cru, quero a bolsa, saio da loja, percorro outras vitrinas, a bolsa tão leve... serei ladra nua?, ouço um apito, não descubro de onde vem, será a polícia?, as pessoas correm sobre o passeio, um carro freia, já não há a placidez dos primeiros momentos, alguém me esbarra o torso, toca-me a história da moça que atravessou nua a principal avenida de sua cidade, prometeram-lhe dois mil reais pelo desfile, por que a lembrança?, nada ganho e vou tão nua quanto ela. Ah, o arrepio, a poltrona, os seios soltos, cubro-os com as mãos mínimas, como se ainda estivesse na rua; os bicos ainda rijos apontam ao namorado que não chega. Tenho o número dele. Suspiro. Quem sabe ligo? Meu sonho a tornar-se neblina e a ameaça do sol vindouro. Perco-o como uma criança perde o brinquedo impossível, como a moça perde a inocência. Quando era mais nova eu estudava tanto... O sonho, os olhos fechados, um assovio. Quem a chamar? O vizinho de frente? Eu sempre a frequentar seus sonhos. Mas não sou a mulher que lhe proporciona ereções múltiplas. Apesar de minha a face, de meu o corpo, a criação é sua. Descruzo as pernas, levanto-me preguiçosa, são seis passos até a porta da rua, a madeira de três centímetros a separar-me do mundo, a impedir que me descubram nua. Abro a porta e sinto o cheiro do mar, a praia a duzentos metros, os saltos da minha sandália a enfiarem-se na areia, o bico dos meus seios a apontar o navio fundeado em alto mar. Toda mulher deseja uma armada, deseja que a noite dure, deseja que o vento lhe seja morno, deseja que o gozo lhe vá mais à frente...

quinta-feira, julho 16, 2015

Até o fim

Esperei duas semanas, até que não mais suportei, telefonei então pra ele. Ao ouvir sua voz, gelei. Sempre sentimos ligeiro arrependimento ao perceber que estamos numa posição inferior. Por que não deixei o homem de lado? Bastaria esquecê-lo e sair por aí a bater pernas, não demoraria a aparece outro, e talvez mais galante. Mas ele já estava na linha, e pareceu gostar de ouvir minha voz. Deu um risinho. Achei que estava de deboche. Ameacei colocar o fone no gancho. Mas logo ouvi hei, onde você está? Eu quis ficar em silêncio, deixar que ele imaginasse, porém o silêncio contínuo poderia fazê-lo pensar que a ligação caiu. Ligar duas vezes já seria demais. Oi, devolvi. E você como, está?, ele. Bem. Que bom, retomou o diálogo. Eu ia dizer uma bobagem, mas preferi silenciar, quem sabe ele continuava. Respirei fundo, tapei o telefone para que ele não ouvisse o arfar de meus pulmões. Que tal um encontro?, sugeriu. Eu não poderia aceitar de primeira, principalmente depois do que aconteceu. Nada falei, apenas repeti em tom de interrogação, um encontro? É melhor não, falei. Foi uma tentativa de reconquistar o terreno perdido, já que fora eu a autora da ligação. Ele retrucou por que então o telefonema? E agora, o que eu diria. Esperei um pouquinho. Não sei, apenas senti vontade de conversar, afirmei. Que bom!, pelo menos isso, ele aceitou minha réplica com alegria. Você é bonita, acrescentou, caso queira vir, não falemos no que passou, vamos conversar outros assuntos, tudo fora de nós dois, completou. Como vamos agir assim?, perguntei a mim mesma, em silêncio, enquanto esperava que ele acrescentasse algo. Ele, no entanto, permaneceu à minha espera. Esperei também. E tudo se tornou muito demorado, o tempo não passava, ou se arrastava, eram duas pessoas segurando dois telefones pesadíssimos. Hoje quase não se telefona, quebrou o gelo, manda-se mensagem, pelo zap. Ah, o zap, repeti, é mesmo, talvez haja mais silêncio daqui pra frente, ousei continuar. Não vamos estragar tudo, ele interferiu, estava também com saudades, ia ligar. Por que não ligou?, eu quis saber. Estava esperando as coisas esfriarem, respondeu. As coisas esfriarem, expressão interessante, pensei comigo, então quer dizer que alguma coisa estava queimando as mãos dele, e fora eu a vítima, talvez estivesse sentindo-se arrependido. Sei que não foi nada demais, acrescentou, mas você ficou uma fera. Não foi nada demais, não consegui ficar em silêncio, você acha que não foi nada demais? Não sei, foi uma brincadeira, ele. Brincadeira?, tive mil problemas depois do que você me causou, tive de dizer. Mil problemas, não exagere, ele chegou a rir depois das palavras, e achei que estava de novo a achar engraçado a situação em que ele me colocara. Nada repliquei, apenas esperei que continuasse. Você quer que eu peça desculpas?, perguntou numa pretensa gentileza. Não, não precisa, tudo o que aconteceu teve minha concordância, retruquei, sou tão culpada quanto você. Afinal de contas ninguém morreu, ele queria concluir a questão. Como não morreu?, cheguei a repetir suas palavras, quero dizer, ninguém morreu fisicamente, mas algo se perdeu, além de tudo, dizíamos que não conversaríamos sobre o passado, viu, por isso não dá pra encontrar você. É, acho justo, você tem razão, ele acrescentou. Ok, vamos então desligar. Ok, ele concordou, vamos, talvez num dia melhor, quem sabe. Isso mesmo, num dia melhor, ainda estou muito ferida, nem eu mesma sabia disso. Ok, então um beijo, ligo daqui a um tempo, falou. Tchau, desliguei. Sentei na poltrona e me pus a imaginar a noite em que brigamos. Uma brincadeira besta, uma brincadeira que eu concordara, e depois a confusão toda. Passaram-se cinco minutos, me levantei e peguei o livro que repousava sobre a mesinha lateral, um livro em francês. Tentei continuar a leitura que começara antes de dar o telefonema. Mas não consegui me concentrar. O diálogo recém-encerrado deixara rastros de sobressalto em meu espírito. Então fui ao quarto, abri a porta do armário e me olhei no espelho. Sorri, um sorriso de início acolhedor, a seguir mais envolvente, depois com uma ponta de volúpia. Naquele momento, me tornei a mulher mais feliz do mundo. Enfim, voltei ao livro. Dali em diante consegui ir até o fim.