domingo, abril 20, 2014

Senti o arrepio

Todos olhavam para mim e se surpreendiam. Eu fingia não entender. Aquela praia já fora mais avançada em relação ao comportamento das pessoas. Fazia alguns anos que eu estivera ali e as mulheres daquele tempo usavam biquínis menores, e muitas dispensavam até mesmo o top. Mas no momento, apesar de algumas ainda usarem biquínis mínimos, não havia ninguém de seios à mostra. Caminhei pela beira d’água e continuei em meus pensamentos. Um homem sorriu para mim. Retribuí-lhe com outro sorriso. Um rapaz olhou-me e disfarçou; um casal de idosos fez um ar a princípio sorridente, mas depois a mulher demonstrou, através de ligeiro franzir de cenho, traços de reprovação; um senhor muito gordo, sentado numa larga cadeira, também abriu-se num sorriso exagerado, como se lhe acontecesse a coisa mais formidável do mundo.

Voltei ao meu lugar e fiquei observando o mar. Por trás dos óculos escuros mantive-me oculta e mesmo anônima a todos. Vez ou outra alguém cruzava a minha frente para, com o canto dos olhos, me lançar um olhar surpreso.

Quando resolvi tomar banho de mar, um homem veio conversar comigo. Um dos primeiros que me olharam naquela manhã.

“A água está fria, não?”, tentou dar início a um diálogo.

“Gosto de água fria”, repliquei.

“É mesmo? As pessoas que conheço dizem que sentem tanto frio.”

“Não sinto, não. Aliás, acho que as mulheres preferem água fria, principalmente se for a água do mar.”

“Sério?”

“Sério, tenho uma amiga que uma vez...”, interrompi minha fala, lembrei que não poderia contar aquela história a um desconhecido.

“Uma vez...”, tentou fazer que eu continuasse.

“Uma vez...?” Fiz cara de boba.

“Não vai continuar?”

“Não sei. Era sobre algo que aconteceu a ela, coisa de mulher. Acho que não devo contar, falei sem pensar.”

“Ela gostava também de andar pela praia sem sutiã?”, insinuou com um risinho bobo.

“Não, sem sutiã, não, sem a calcinha”, acabei revelando.

“Sem a calcinha? Bem, agora que você já começou a contar...”

“Conto até o fim”, emendei e sorri. “Minha amiga gostava de mergulhar de uma pedra, na praia do Flamengo. Era muito jovem, morava perto. Um dia a água estava tão fria que, ao penetrar na água logo após o mergulho, sentiu aquilo que toda mulher sente na hora do amor.”

“Especial essa sua amiga.”

“Sim, ela é muito especial. Mas a coisa não ficou por aí. Ela passou sempre a repetir o salto na água fria, queria experimentar a mesma sensação daquele mergulho.

“E ela conseguiu?”

“Passou, então, a tirar o biquíni após entrar na água. Tirava e o enrolava num dos pulsos, como uma pulseira.”

“E nunca ninguém percebeu?”, perguntou com interesse.

“Essa foi a pergunta que fiz a ela. Acho que é a pergunta que todos fazem. Respondeu que não, jamais alguém percebeu que ela tomava banho de mar sem a parte de baixo do biquíni. Vez ou outra conversava com algum homem, mas nunca nenhum deles notou o que lhe faltava. Mais uma coisa: apesar de todas essas invenções, jamais conseguiu a mesma sensação que experimentou no primeiro mergulho.”

O homem olhou nos meus olhos, depois foi baixando a vista para a água, bem na direção do meu baixo ventre, das minhas coxas. Tentava vencer a semi-transparência da água do mar. Então, procurou os meus pulsos.

Senti o arrepio. Quem sabe, a mesma sensação fundadora experimentada por minha amiga.

domingo, abril 13, 2014

Mais interessante do que a vida real

Algumas histórias são inventadas, mas de modo tão inteligente que são mais interessantes do que a vida real. Prefiro que meus leitores acreditem que minhas narrativas sejam apenas invenções. Na maioria delas, sempre acabo nua.

Outro dia andava pela praia. Os verões são propícios a caminhadas e banhos de mar ao amanhecer. Nessas horas ainda vão poucas pessoas pela orla, apenas esportistas e um ou outro jovem mais adiantado. Estava eu nas proximidades do posto 5 quando um homem mais jovem do que eu me olhou continuamente. Olhei também para ele, e durante uns bons dez segundos. Foi o suficiente para ele me seguir. Quando o percebi às minhas costas, pensei, como saio dessa? Mas será que eu queria sair mesmo? Ele começou com aquela conversa de sempre.

Você é muito elegante, tem um corpo maravilhoso...

Para desfazer a mística em que ele me envolvia, perguntei:

Você contou direitinho quantos traços tenho no rosto?

Você é linda!

Acredito, ironizei.

Não estou mentindo, assegurou.

Jura?, eu queria certeza.

Paramos num dos bancos do calçadão. Ele trazia uma sacola. Sempre curiosa, perguntei o que ia ali dentro.

Um livro, respondeu, quer dar uma olhada?

Sem que eu respondesse, tirou da bolsa um livro de Isaac Bashevis Singer.

Você é judeu?, mostrei interesse.

Não, mas admiro o escritor, você já leu?

Respondi aquele livro não, mas li um de contos, do mesmo autor.

Gostou?, quis ele saber.

Gostei, principalmente do jeito como conta as histórias, sempre com um... com um... faltava-me a palavra.

Com um sabor todo especial, talvez amor e perplexidade, acrescentou.

Isso mesmo, todo autor precisa sentir perplexidade para contar uma história, é como se jamais houvesse outra semelhante.

Isso mesmo.

Ficamos em silêncio durante alguns segundos.

Você vive de quê?, perguntei.

Você é incisava, não?

Você acha?

Pelo jeito que você falou, sim. Mas vejamos, silenciou, fez como se precisasse respirar um pouco mais fundo; vivo de leitura, continuou.

De leitura? Como alguém pode viver de leitura?

Pode sim, é perfeitamente possível, não vou dizer agora, mas uma hora dessas conto.

Uma hora dessas?, será que vamos nos encontrar de novo?

Claro que vamos, assegurou o homem, ainda com o livro nas mãos.

E como você pode ter certeza disso?

Tenho certeza absoluta, e o que me diz isso é a literatura.

Como você pode saber?, eu insistia.

Sei, porque você também é uma leitora, sei por causa da literatura.

Literatura?, o que pode a literatura?, olhei para ele sem desviar os olhos, senti que eu fazia uma pergunta crucial.

Na verdade, ponderou, a literatura nada pode, isso é verdade. Mas é possível perceber quando duas pessoas vão passar a se encontrar daqui pra frente, concluiu.

Continuamos a andar pela praia. O sol ia mais forte. Despedi-me dele com um beijo no rosto. Entregou-me um pedacinho de papel com o número do seu telefone.

Não vou atrapalhar sua leitura caso telefone?, ainda acrescentei. Vai, mas não faz mal. Você parece ser uma pessoa especial.

Dois dias depois telefonei para ele. Marcamos encontro num café, na Rainha Elizabeth. Quando cheguei, ele já se sentara numa mesa de canto, sobre o passeio. Nada pedira, esperava por mim. Trazia o mesmo livro que carregava na praia no dia em que nos conhecemos. Beijamo-nos. Sentei de frente para ele. A garçonete se aproximou. Fizemos-lhe os pedidos.

Já avançou muito na leitura?, perguntei.

Umas cinquenta páginas. Tirei parte dos dias para escrever, sorriu meio sem graça após a última palavra.

Você também é escritor?, eu, como sempre curiosa.

Um escritor amador.

Você vive apenas para ler e escrever?

Não, também passeio, lembra que segui você na praia?

Lembro, mas também levava um livro.

Sempre levo um livro, isso é verdade, mas não quer dizer que não goste de outras coisas.

Que tipo de histórias você gosta?, olhei diretamente seus olhos.

De todas, caso sejam bem escritas.

Você não tem namorada?

Por que a pergunta? Por acaso você quer me namorar?

Rimos.

Às vezes tenho, sim. Mas acho melhor a amizade.

Amizade? Com homens ou mulheres? Minha face devia estar transmitindo certo ar de suspeição.

Mulheres são melhores para se ter amizades.

Mas você não sente necessidade de namorar?

Namorar?, falou e voltou os olhos castanhos para mim. Namoro.

Sei muitas histórias engraçadas e interessantes sobre namoradas. Você que gosta, poderia escrever um conto ou mesmo uma novela.

Por que você mesma não escreve? Às vezes prefiro histórias sobre filosofia.

Filosofia? Não seria mais divertido uma narrativa sobre namorados? E olhe o tanto de filosofia que há nisso.

Depende.

Como? Acaso você é paulista?

Por que está me perguntando isso?, mostrou-se indignado.

Os paulistas apelidaram esta cidade de balneário, acham e que cultura não pode nascer à beira mar.

Não, não sou paulista.

Escrevo também, falei.

Sobre o quê?, quis ele saber.

Sobre várias coisas. Algumas pessoas podem achar fútil o que escrevo, mas acredito que há filosofia nas minhas histórias divertidas.

Você escreve sobre filósofos.

Claro que não. Escrevo contos ambientados aqui nas proximidades.

Contos de que tipo?, ele ainda segurava a xícara e tomava talvez o último gole.

Histórias de amor, histórias noturnas, às vezes algum sexo.

Sexo? Arregalou os olhos.

O que tem isso? Nunca leu um conto erótico?

Ah, sim, erótico, já li. Mas não acho muita graça nesse tipo de literatura.

Então me fale agora sobre o que você escreve.

É difícil definir, silenciou e esperou que eu me manifestasse.

Permaneci também em silêncio.

Já passava das seis, mas a cafeteria continuava movimentada. Era a hora do rush. O trânsito fluía barulhento pela Rainha Elizabeth. Vez ou outra precisávamos aumentar o volume de nossas vozes. Tentei ouvir o que se conversava nas outras mesas. Os assuntos pareciam versar sobre situações corriqueiras, como compras num shopping, a perspectiva de uma viagem, ou um filme concorrente ao Oscar. De repente, meu interlocutor voltou ao diálogo.

Escrevo uma espécie de autobiografia misturada com ideias filosóficas; coloco em cena algum personagem baseado num amigo ou numa amiga, geralmente reflexões relacionadas a alguma conversa que travamos.

Já sei que vou virar personagem de suas histórias.

Será?, ele indicou hesitação.

Não mereço?, franzi o cenho.

Não é que não mereça. Acho que é o contrário disso. Talvez seja difícil colocar no papel o que estamos conversando.

Não é difícil, não, adiantei, tudo que se fala ou que se pensa é possível de ser colocado em palavras, afinal, os pensamentos não existiriam sem as palavras, ou sem o idioma, quero dizer.

Você concorda que há obras sem conteúdo?, ele parecia aflito com a questão.

Nada é sem conteúdo, afirmei.

Mas caso contemos apenas um fato acontecido, com isenção, apenas a ação?

Toda ação para ser compreendida precisa de um embasamento. Ao contar simplesmente um fato acontecido nessa esquina ou ouvido em algumas dessas mesas você precisa que seu interlocutor tenha um repertório para compreender. É isso que revelará a capacidade de passar o fato adiante.

Não falo nesse nível. Caso eu conte um atropelamento e ponto final. Terá esse relato alguma graça?

Graça, não sei, mas terá um sentido e, dependendo como você conte, revelará um dado da modernidade. Ela tornou os seres humanos extremamente frágeis.

Os seres humanos sempre foram frágeis, insistiu.

Sempre foram. Uma carroça sempre foi mais forte do que um humano; pode-se dizer o mesmo sobre a força de um cavalo. Mas cavalo e carroça nunca correram tanto e jamais foram tantos como esses automóveis. A industrialização criou a repetição, a multiplicação, e isso, na maioria das vezes, gera o massacre.

Massacre?, repetiu parecendo não entender minhas palavras.

Lembra as guerras do passado, quando não havia arma de fogo?, insisti.

Isso vem ao caso?

Matar ou morrer era um ato entre uma pessoa e outra. Com a modernidade, veio a bomba. Uma explosão é morte em massa, a morte em escala industrial. Você é ou não um filósofo?

Ufa, falou e sorriu. Um sorriso triste.

Você quer ir embora?

Vamos andar um pouco, convidou.

Vamos, andemos pela orla.

Pagamos a despesa e fomos para a beira da praia.

Logo que começamos a caminhar pelo calçadão, falou:

Naquele nosso primeiro encontro, você vestia um biquíni que era uma coisinha à toa.

Você gostou.

Ora, claro. Entusiasmou-se.

Você vai me ver de biquíni mais vezes. Sabia que já tomei banho de mar nua, nessa praia?

Verdade?, arregalou os olhos.

Verdade. Caso você ande por aqui em torno das cinco e meia ou seis horas da manhã, vai encontrar pessoas tomando banho de mar nuas. Não é que elas o façam de propósito. É que estão por aqui andando, de repente sentem vontade de mergulhar. Como não há quase ninguém na praia, é fácil tirar a roupa por alguns minutos e mergulhar. Já fiz isso muitas vezes.

Jura?

Pra que jurar? Você não acredita em mim?

Acredito, falou.

Às vezes venho caminhar e resolvo dar um mergulho. Olho para um lado, para o outro, tiro a roupa e entro. Se vejo alguém se aproximar, não tardo, volto, visto o short e vou na direção oposta.

Você é mesmo muito engraçada. O rapaz demonstrava entusiasmo.

Já aconteceu de grupos inteiros entrarem na água sem roupa, num fim de madrugada. Mas isso já chama atenção. Acho melhor sozinha, e quando não há ninguém perto. Quem sabe, você possa contar um episódio desses em suas histórias.

Não vai ficar bom. O que as pessoas vão pensar de mim? Quero escrever coisas sérias.

Você pode escrever coisas sérias, aproveitei suas palavras. Coloque esse episódio como algo adjacente, as pessoas vão prestar atenção na seriedade da história e também irão admirar o episódio.

Mas isso é possível?

Claro. Tudo depende da mão, quero dizer, não pode ser muito, apenas sugestões. Já escrevi uma história com um fato excitante como algo que pudesse ter acontecido ao acaso.

E como foi?

Você é escritor, não me devia fazer tais perguntas.

Você parece ser uma escritora mais capaz do que eu. Conte, por favor.

Foi uma história mais ou menos assim. Um senhor (já passava dos sessenta) paquerava uma mulher um pouquinho mais nova do que ele. Moravam no mesmo prédio. Tarde da noite, ele começou a ir até às proximidades do apartamento dela para espioná-la. Queria descobrir o que a mulher fazia, como vivia etc. Numa dessas fugidas, deu com outra mulher batendo à porta da tal senhora, só que a visitante estava nua. Ele teve tempo de se esconder, num desses vãos de escada e observar. Seu coração batia tão forte, que parecia querer saltar pela boca. Pôde perceber a senhora abrir a porta e acolher a namorada nos braços, como um homem o faria. No final, descobriu que a mulher que ele admirava tanto era lésbica. Acabou achando interessante a brincadeira das duas. Tentou descobrir a mesma cena outras vezes. Mas não teve a mesma sorte.

E o que ele fez da vida?

Nada. Continuou vivendo sua vida de solidão. Sempre saía para passear no final da tarde.

Você tem razão, disse meu interlocutor, trata-se de uma história séria. Uma história sobre a solidão.

Então, entendeu agora? Todos nós somos muito sós, às vezes resolvemos nos divertir, assim a vida passa a ter algum sentido. Você não acha que Shakespeare quis se divertir com todas aquelas histórias que escreveu?

Nunca tinha pensado nisso, mas agora começo a compreender.

Vamos, então, disse a ele, venha me pegar? Corri pela areia na direção do mar. Ao chegar à beira, fingi  que iria mergulhar, mas apenas gritei: venha, estou esperando por você!

Ele então me abraçou.

domingo, abril 06, 2014

Será que ele volta?

Recebo um telefonema às três da madrugada. É um namoradinho de ocasião. Está acostumada a me convidar com investidas surpreendentes.

Está muito tarde, respondo.

Ou muito cedo, quem sabe, ele insiste.

Onde pretende me levar?

Adivinha?

Concordo que venha me buscar à porta de casa.

Está frio, falo quando chega.

Entro no carro e fecho a porta. Dou-lhe um beijo molhado.

Aonde vamos?, pergunto.

Ele dá a partida. Num primeiro momento, nada responde. Dirige dentro da madrugada silenciosa.

Vamos a um lugar bem escuro, quero você nua.

Não seria melhor dentro de casa, no calor do quarto?

Não, nada disso, prefiro o sabor da aventura.

Damos algumas voltas pela cidade. Na orla, a avenida principal está clara, ainda é possível encontrar os últimos empregados dos restaurantes. Olhamos o mar, que desliza com ondas uniformes sobre as areias da praia. No final, meu namorado dobra à direita e seguimos para a rodovia.

Tire a roupa, ele pede.

Mas assim?

Você já prometeu que ia ficar nua dentro do carro, lembra? Então, hoje é a oportunidade.

Mas está frio.

Fica apenas de casaco.

Tiro toda a roupa e a coloco no banco traseiro, menos o casaco. Visto-o novamente depois de tirar a blusa. Começo a sentir excitação. Ele, ainda dirigindo, me acaricia o ventre.

Sai da rodovia, entra por uma avenida lateral e segue até a rodovia estadual. Quando começa a trafegar nela, tudo está muito escuro, apenas os faróis do automóvel exploram o caminho por algumas dezenas de metros. Nas laterais, a vegetação e, vez ou outra, alguma névoa. Depois de guiar por um quarto de hora, para no acostamento e me abraça, me beija e pergunta:

Você teria coragem de descer?

Nua?, completo.

Isso.

Faço que sim com a cabeça. Sorrio. Contenta-me a aventura noturna.

Vamos fazer assim, diz, dou a partida, dirijo por mais dois ou três quilômetros, depois faço o retorno e volto pra pegar você, quando estiver na direção contrária venho com o alerta ligado. É o sinal de que me aproximo.

Faço de novo que sim com a cabeça, deixo que ele me dê um longo beijo na boca. Desço do carro, sempre tentando manter a elegância.

Será que ele volta?

Logo que entro ele reclina o banco do carona e vem por cima de mim. Abro as pernas. Meu corpo ainda traz o frio que faz do lado de fora. Há muito estou toda molhada. Não sei se de nervoso ou tesão. Ele me percorre o pescoço com a língua, me beija com ardor, seu pênis procura o meu sexo, o encontro é instintivo. Enquanto me penetra, grito de prazer, grito pelo encontro fortuito, grito por estar nua nos seus braços, ou numa rodovia, não sei; clamo pelo prazer do risco que corro, chamo seu nome como se procurasse por ele, como se não tivesse voltado e me deixado nua à beira da rodovia. Seu sexo agita-se dentro de mim, mergulha cada vez mais fundo, lateja, eleva-me às estrelas que ainda vejo através do para-brisa quando abro os olhos. Quero o momento eterno, momento de prazer máximo. Aperta meus peitos, sussurro, aperta. Ele obedece. Você adivinhou o meu desejo, falo ao mesmo tempo que procuro sua boca com meus lábios grossos, a boca úmida. Você sabe que eu quero sempre trepar, que quero ficar nua pra você... Arfo. O gozo se aproxima, mas não quero perdê-lo. Desejo que dure, que permaneça horas a fio, que vença os dias, que jamais acabe. Meu corpo todo treme. O ardor me sacode com impetuosidade. Quero sentir seu sexo no mais fundo do meu corpo, da minha alma. Vai, me esporra, me esporra agora, vai, grito, gemo, choro. Desejo-me nua por mais tempo, desejo que se vá de novo, que volte e tudo comece outra vez. Não quero o tempo a passar. Não quero o sol. Ardo para que a madrugada dure. Que dure a sombra, que a rosa permaneça em botão, que perdure a névoa e que eu goze mais uma, duas, três vezes, cada vez mais, e que ele me deixe pelada, que desapareça, que volte de novo e que tudo se repita até não mais pudermos, até que já não nos equilibremos sobre o fio tênue da razão...

E o frio, e eu pelada.

Será que ele volta?

quarta-feira, março 26, 2014

Gosta de ver mulher nua?

Ainda bem que não foi como das outras vezes, quando um arrepio me percorre o corpo e um friozinho toca fundo o meu estômago. Bastou que eu pedisse ei, menino, pega aquela blusa ali pra mim. Ele me olhou, pareceu intimidado com a ordem, como se eu fosse ralhar com ele ou lhe fazer algum mal, fechou a cara, correu e voltou com a blusa. Obrigada, completei, agora pode ir brincar. Mas ele ficou a me olhar, desconfiado, sabia que tinha alguma coisa a mais. Nunca viu uma mulher nua, não?, sorri para ele, só não conte a ninguém. Mostrei meu corpo, de frente e de lado, ri mais uma vez. Ele olhou espantado, porém não arredou o pé. Ficou a me admirar. Depois, já dentro da roupa que ele trouxera, dei um adeusinho e corri para o carro.

Manuel é fogo, adora situações arriscadas. Sempre me telefona Márcia, vamos sair, venha vestida assim ou assado. Mas, Manuel, replico, não posso andar nua pela cidade. Você não vai vir nua, lembre-se que vestirá uma blusa sobre o corpo, sobre essa tua pele branquinha e apetitosa, diz. Obedeço. Venho exatamente como ele pede. É lógico que venho de carro. Desta vez, quis que eu subisse a serra. É uma cachoeira linda, afirmou, você vai se deliciar. E lá fui eu, apenas a blusa a roçar-me a pele, o mapa nas mãos e dirigindo o carro um ponto zero, que demora nas subidas. Mas encontrei a cachoeira. Manuel não tardou. Tive de trabalhar antes, falou depois de me beijar e conferir se eu vestia conforme o seu desejo.

Nada sei da vida de Manuel. Evito perguntas. Não sou sua mulher, muito menos namorada. Conheci-o numa festa. Fui levada por uma amiga. Há cada homem bonito, falou. Estava certa, havia homens bonitos e agradáveis. Melhor assim, homens apenas para os momentos de felicidade. Não é necessário saber coisa alguma a respeito deles, basta que sejam solícitos e... vigorosos, ponto imprescindível. Assim está bom. Minha amiga de vinte e seis anos sempre diz saio com Fulano de Tal, mas não é meu namorado. Sair quer dizer o que mesmo? Todos sabem, não preciso traduzir. Assim surgiu Manuel. Resolvi acompanhar suas loucuras. Quando estamos juntos, dedica-se inteiramente a mim, não fala de mais ninguém. Como ia dizendo, acompanho suas loucuras. Porque a marca registrada de Manuel é que ele adora mulher nua. Ou melhor, adora me ver nua. Quer que eu vá nua ao seu encontro, me quer saindo nua do carro, me quer nua o tempo todo. E como a transa é boa com ele...

A água da cachoeira estava muito gelada. Mas logo acostumei. Quando Manuel entrou, já nadava nua. Ele fez a festa. Mergulhou sob o meu corpo, me beliscou à vontade, me tocou, acariciou os locais que mais me excitam. E a gente vai crescendo no gosto e no tesão. Mas Manuel adora outras brincadeiras. Há momentos em que parece um garoto travesso. Então se esconde, esconde minha blusa, me deixa nua. Sempre fala há uma maneira de você ficar invisível. Eu, invisível?, me surpreendo. Isso mesmo, continua, caso alguém apareça e você esteja nua há um modo de se manter oculta aos olhos alheios. Olhos alheios?, repito. Isto, basta treinar o olhar, a sensibilidade, como num sonho, diz. Curiosa, desejo logo aprender. Há um jeito de se portar, algo oriental, um tipo de meditação que nos distancia das outras pessoas, daí você pode ficar nua à vontade que ninguém vai perceber, não é concentração, concentração atrapalha, trata-se de um tipo de entrega, ele conclui.

Transamos. A pedra forrada com a minha blusa, ou com a camisa de Manuel. Gozos e mais gozos. O corpo ardendo de tesão e de sol. Manuel é imbatível, quer sempre mais. No final? O banho, a água fria a correr rápida pelo corpo, a compensar o calor do sol, o calor do sexo. A cachoeira dá uma sombra boa, próxima de onde vem a queda d’água, e ali nem concentração nem entrega são necessárias, apenas o ato de me largar na água. Mas, cadê Manuel? Escondido Manuel, invisível Manuel. E o garoto de repente... De onde veio o garoto? Menino, por favor, apanhe ali aquela blusa pra mim? O que está olhando? Gostou? Mulher nua é sempre agradável de ver. Menino, por favor, deixe de ser sapeca, viu, volte aqui, não fuja com a minha blusa! As crianças, sempre as crianças. Diante delas, não é possível ficar invisível. Ei, garoto, não vá me deixar pelada!

domingo, março 16, 2014

Na casca do ovo

Eles adoram nos fotografar. E nós adoramos fazer pose. Na última vez, pediram que tirássemos toda a roupa. De início fizemos charminho, mas como adoramos andar nuas... Escolhemos uma praia, um local pouco frequentado, e entramos na água. Tiramos os biquínis e entregamos a eles. Começaram, então, a fazer as fotos. Primeiro sugeriram que ficássemos em pé, com o mar na altura das nossas coxas. Assim sairíamos nuas por inteiro, sem que a água nos cobrisse. Depois demos as costas para que nos clicassem, os bumbuns à mostra. Em seguida pediram que caminhássemos um pouco adiante, queriam-nos apenas com os seios de fora. Quando acabaram, pedimos ainda dentro d'água os nossos biquínis. Mas eles não nos devolveram.

“Faz parte do nosso trabalho, enquadraremos vocês de longe. Queremos reações espontâneas. Fiquem de molho um pouquinho”, disse um deles.

“Vocês são loucos?”, repliquei, “logo vai aparecer alguém, vai ser o maior escândalo.”

Não é que eles foram lá pra longe, afastaram-se tanto que não fomos mais capazes de vê-los.

“Esses rapazes são fogos, vai ver que não voltam”, falei.

“Acho que eles querem é nos namorar”, disse Olívia.

“Você acredita?”

“Claro. Ainda não disseram porque estão envergonhados.”

“Nós é que estamos nuas e são eles que ficam envergonhados?”, arrisquei.

“Lembre-se que temos seios, o corpo bem torneado, intensa feminilidade, mas há algo mais que os deixa nervosos. Ih, veja lá”, alertou, “vem dois homens na nossa direção, e não são eles, acho que nossos namorados serão outros.”

“Olívia, estou gelada, tudo meu está flutuando, no fundo é uma sensação ótima, mas estou morrendo de medo.”

“Medo de quê?, querida, vamos relaxar, não temos nada a perder.”

“Olívia, duas mulheres nuas é ótimo, mas no nosso caso será que eles vão gostar? Não temos como nos esconder.”

“Querida, nos dias de hoje não precisamos esconder coisa alguma. Somos mais lindas mesmo com tudo de fora. Além disso, o que você tenta em vão esconder é o que mais desejam.”

“Ai, Olívia, morro de vergonha! Já pensou se dá no jornal, nós duas peladinhas?”

“Não se preocupe, não vai dar em jornal nenhum. Nós é que vamos dar.”

“Mas, Olívia, eu preferia que fosse num bom hotel...”

“Querida, assim já é pedir demais!”

terça-feira, março 04, 2014

O que é do homem o bicho não come

Preparei duas fantasias sensuais para o Carnaval.  A primeira, um tomara que caia negro de rendas, transparente, sem forro, deixando entrever a calcinha e o top. Nos pés, sapato plataforma também preto.  A segunda: apenas um conjunto de biquíni e top, coberto o biquíni por uma sainha de renda bem leve, curta e transparente. Caso precisasse, também tinha meias arrastão dentro da bolsa. Quem sabe, um complemento para os dois minúsculos conjuntos.

No sábado, entrei na multidão no desfile do Cordão do Bola Preta. Muitos foliões aproximaram-se, abraçaram-me e quiseram beijar-me a boca. Permiti o beijo apenas a alguns. Mas dancei com quase todos. Adoro corpos quentes, sentir a empolgação no ponto de fervura. Ela transborda nos desfiles de blocos.

No Carnaval, há vários tipos de homens. Há em primeiro lugar aqueles que desejam uma mulher fácil. Outros querem aproveitar o momento, beijos e carícias nas mulheres são seus prazeres preferidos. Pode ser que se encontre aquele que nos queira namorar por quatro dias. E, por fim, ainda há quem acredite que achará o amor de sua vida nos agitados dias de Carnaval.

Encontrei um homem de mais ou menos quarenta anos que se apaixonou por mim. Não sei dizer que tipo de homem era. Mas me tratou com muito chamego. No final, falou: “fadinha, mesmo que você desapareça, a gente se encontra de novo; o Carnaval é curto, assim como esse mundo.”

Aproveitei o desfile de sábado de manhã. Queria mesmo era dançar e pular. Não estava preocupada com eventuais namorados. Mas o que me chamou de Fadinha...

À noite eu e a Lúcia, uma amiga dos tempos de faculdade, fomos a um bloco, no Leblon. Apesar de ter menos gente do que o Bola, o ambiente foi bem mais pesado. Todos os rapazes queriam nos beijar. E tínhamos de ter cuidado, porque, com nossas fantasias curtas, frágeis e provocantes dávamos a entender que queríamos nos arranjar. O mais importante para nós, no entanto, era a festa. E lá pelas tantas, já madrugada de domingo, ouço: “oi, Fadinha, que bom, você sempre perto de mim”. E fomos escapando pelas ruas, no meio do bloco, próximos mas soltos, sem que cada um atrapalhasse a dança e o desfile do outro. Minha amiga perguntou: “você não quer ir ao um baile, no Humaitá?” Escapamos as duas, num táxi. Um táxi para Humaitá. Meu amor de Carnaval? Ah, como disse ele, é pequeno esse nosso mundo.

No baile, a coisa estava quente. Logo que entramos fomos arrastadas por uma avalanche de homens em constante delírio. Por ser quase duas da madrugada, a maioria já havia bebido muito, por isso a excitação.

“Cuidado, Lúcia, segura a saia”, alertei, embora sôfrega, à minha amiga.

Com nossa experiência de outros anos, sabíamos que aquele turbilhão de gente não demoraria a nos deixar nuas. Mas conseguimos um cantinho para dançar e alguns rapazes para nos proteger.

“Você é a Kátia, do Leblon”, disse um deles, “conheço você lá do Jobi.”

“Isso mesmo, e essa é minha amiga Lúcia”, completei.

Nosso pequeno grupo permaneceu no baile até quase quatro da manhã. Então, chamei minha amiga e apontei uma passagem entre as pessoas. Alguns já haviam partido a outras aventuras, e eu não queria muitos amores naquelas horas. Sabia que os meninos iam querem ficar com a gente, exigiriam pelo menos um agrado.

Saímos de fininho. E tivemos sorte com outro táxi, parado bem adiante.

No domingo apareci em torno das duas da tarde na Garcia D’Ávila. Ainda não havia me recuperado do primeiro dia, mas não podia perder o desfile do “Que Merda é essa?”, um bloco muito animado. Os integrantes vestem uma camiseta distribuída pelo próprio bloco, e saem desfilando de um bar que fica na esquina da Garcia com uma transversal, a duas quadras da Lagoa.

Eu enlouquecia os homens quando um deles me ofereceu uma camiseta, enfim, estava ali por causa do Carnaval e, vestidinha, suas mulheres não ficariam com inveja.  Segui em frente no meio do bloco. O desfile só terminou às cinco da tarde. Dançamos até a Delfim Moreira e voltamos por uma rua paralela à Garcia.

“A noite é do Flamengo”, soprou-me Lúcia.

“Será que aguentamos?”, perguntei quando saíamos de casa, depois de meia-noite, já madrugada de segunda.

“Os homens é que não vão aguentar, estamos nuas!”, sorriu minha amiga.

“Nua nua não, mas acho que vou ficar, acho que pelada vou o nascer do sol apreciar”, brinquei   como se cantasse uma marchinha dos velhos tempos.

Todos sabem como é o baile do Flamengo. Tem de se ter coragem. É preciso ter amigos. Um empurra-empurra alegre, às vezes passando um pouco dos limites. Mas vale a pena. Oh, como me acabei. A banda tocava, eu saltava. Acho que apareci na TV. E nem precisei tirar o top. Quem bom, os homens me deixaram sambar, rebolar! Nada de agarramento. Apreciem-me, isso, olhem para mim, depois quem sabe dou a vocês alguma esperança. Mas agora quero é sambar. O suor me escorria de todo o corpo. Toda hora uma garrafa de água mineral. Não sei de onde me trouxeram tanta água. E lá pelas tantas, ouço de novo: “oi, fadinha, você tão fofinha!”, o meu admirador do primeiro dia. E pelas mãos dele lá fui eu salão adentro, fui como se fosse pra jamais voltar... Naquela madrugada me perdi de Lúcia, naquela madrugada não sei como cheguei ao meu apartamento. Quando acordei segunda à tarde, surpresa. Estava ainda de fadinha...

Vamos hoje para o Centro, falou Lúcia às sete da noite, pelo telefone. Vamos sair num bloco de enredo. Arranjei as fantasias.

A cidade corria em plena volúpia. Homens, mulheres, gente de todo tipo. Todos se entreolhavam procurando o prazer.

Na concentração do primeiro bloco, eu e Lúcia encontramos nossos pares. Tivemos de ficar só de biquíni, e o meu nem era de praia. Pintaram o meu corpo, pintaram também o de Lúcia. Transformaram-nos em duas sereias.

Sussurrei à minha amiga: “será essa a fantasia?”

Ela apenas riu.

“Vocês têm os seios rijos, precisamos de mulheres assim para ganhar o carnaval”, falou o chefe do bloco.

“E as outras mulheres, não vão ficar enciumadas?”, me preocupei.

“Não, todas querem ser campeãs, não importa como.

Desfilamos. O delírio foi geral. Tanta luz sobre nossos corpos. Forte a pulsação, mais forte ainda a bateria. Quase vibrou no lugar dos nossos corações.

No final, beijos e abraços.

“Venham conosco, vamos comemorar”, pediu o chefe.

“Ainda temos outro compromisso”, disse Lúcia.

“É”, afirmei, “há gente nos esperando”, falei enquanto cobria os seios, esperávamos por nossas roupas.

“Fiquem mais um pouquinho”, insistiu o homem.

“Um pouquinho”, sorri. Olhei em volta pra ver se já chegava a sainha e o top que eu vestia antes do desfile.

O homem nos levou com ele, juntaram-se a nós outras pessoas, e nós duas ainda tão nuas...

Acabamos numa roda de samba, até o amanhecer. O chefe do bloco, ainda muito solícito, nos colocou num táxi. Ai, cadê minha sainha?

Terça-feira, último dia de Carnaval, a Banda de Ipanema e um baile famosíssimo no Leblon!

Depois do divertimento e do rolo da segunda, acordei quase quatro da tarde no apartamento de Lúcia.

“Kátia, está na hora, vamos?”

“Na hora?”, repeti.

“Isso mesmo, na hora da Banda de Ipanema. Não podemos perder?”

“E minha fantasia?”, perguntei ansiosa.

“Você agora tem apenas a de fadinha, lembra?”

“Ah, sim”, respondi ainda nublada.

“Há algo aqui para tomarmos e sairmos a mil de casa. Segure, é energizante.”

Eu nem quis sabe que tipo de bebida se tratava, bebi, vesti-me e saímos.

Ah, bastou-me ouvir os primeiros acordes para que eu despertasse totalmente. Minha pele arrepiou-se sob a fantasia transparente. Comecei a dançar.

A banda partiu da General Osório. A multidão, enlouquecida, ia atrás. E qual não foi minha surpresa encontrar tanta gente amiga, gente que eu não achava havia tempos. E minhas amigas tão nuas. Algumas só de camiseta; outras, fantasiadas, transparentes como eu. Não é possível descrever um desfile da Banda de Ipanema em toda sua plenitude. É preciso estar um dia ali, desfilar sem cronômetro e sem compromisso, aceitar os copos de gim e de vodca oferecidos pelos rapazes. Além disso, não deixar que se percam os seus beijos longe de nossas bocas. Nada de namoro, quero apenas beijos na boca. E mais música, dança, desfile, encanto...

“Kátia, vamos ao Leblon, um baile fechado”, Lúcia gritou no meu ouvido quando a Banda voltava ao ponto de partida, os foliões embriagados de alegria.

“Não é melhor ficarmos aqui? Já fomos a um baile no sábado, se não me engano.”

“Mas agora é coisa fina, você nunca viu nada igual.”

“O que tem lá de tão especial.”

“Só vendo, Kátia, só vendo., Tenho certeza que será inesquecível.”

“Mas estou acabada, suada, nem sei se me resta a fantasia”, dei com a vista pelo próprio corpo.

“Resta, sim, e bem elegante. Passemos lá em casa e damos um jeitinho em nossas aparências."

Eu não podia deixar passar o último dia. Carnaval é sempre Carnaval. Saímos de casa meia-noite. Acho que um tanto de pilequinho, mas com muita energia e animação.

No baile, me acabei. Os rapazes apreciavam-me o corpo e o minúsculo biquíni. Que sucesso! Quando eu dançava com todo ímpeto, o biquíni descia um pouquinho. Às vezes eu fazia de conta que não reparava, às vezes eu acertava a fina tirinha de pano. Quase fiquei nua! (quase?).

“Kátia, dessa vez você encantou, nenhum dos homens quer sair de perto de você.”

Eu sorria, fazia de conta que não entendia suas palavras. Mas o calor, o suor e minha nudez não excitavam apenas a eles. Eu também estava a mil. Calafrios de gozo...

“Lúcia, não posso voltar pra casa assim, com o dia claro, entende?. Temos de correr daqui antes do amanhecer”, lembrei-lhe em meio à música e à algazarra.

Nunca havia passado um Carnaval tão bom. Lá pelas quatro e meia, tomei Lúcia pelo braço e corremos dali. Sorte nossa, sempre um táxi.

“Não se preocupe, Lúcia, nessa cidade sempre é Carnaval. Toda semana uma festa, não podemos lamentar.”

Fomos para o meu apartamento. Dessa vez não perdi a chave, ela estava a tiracolo na pequena bolsinha, junto ao celular.

“Kátia, não entendi por que você correu tanto. Podíamos ter esperado o fim do baile.”

“E não esperamos?”

“Eu ainda queria curtir mais um pouco, ver os amigos depois da festa.”

“Eu, ao contrário, não queria que eles me vissem depois da festa”, afirmei.

“Por quê?”

“Será que você não notou?"

“Se não notei? O quê?”

“Ah, Lúcia, você é distraída mesmo. Lembra o admirador do primeiro dia?”

“Ah, aquele homem com quem você dançou no final? Bem que o percebi familiar.”

“’Oi, Fadinha, você de novo?’, ele, lá pelas três e pouco. O cara vinha enfeitiçado por mim desde o primeiro dia de Carnaval.”

“E o que houve, afinal?”

“’O que é do homem o bicho não come’, meu admirador falou! Não come?, deixei escapar o meu desejo.”

“E depois, Kátia, o que aconteceu?”

“Ele comeu.”

“Comeu?”

“Foi tão bom. Ou melhor, foi ótimo. E ainda deixei a lembrancinha.”

domingo, fevereiro 23, 2014

Bastante boa nisso

Eu caminhava a passos rápidos pelo calçadão, em Copacabana. Eram quatro horas da tarde de sábado. A maioria das mulheres que pratica este tipo de esporte veste bermuda ou short de lycra e camiseta. Eu, não, vou sempre de biquíni. Não é preciso ressaltar que se trata de um biquíni bem pequeno. O único outro apetrecho que me irmana a elas é o tênis. Além dele, levo uma pequena capanga, que prendo à cintura ou a um dos braços. É a maneira mais confortável que encontro para praticar o meu exercício diário. Marcho do Posto Seis ao Leme, ida e volta. Sei que muitos homens torcem o pescoço para olhar a minha bunda depois que cruzo com eles. Mas não me incomodo. Para falar a verdade, gosto, e muito. O importante, além de manter a beleza e a forma, é ser admirada. Ontem, no entanto, quando estava prestes a completar os oito quilômetros que percorro diariamente, encontrei um amigo. Gritou o meu nome. Pedi que aguardasse. Fiz a volta no final da praia e fui até ele.

“Oi, Célia, quanto tempo!, que bom encontrar você”, falou e me beijou.

“Quem bom, também estou adorando.”

“Bonita como sempre.”

“Você acha?”, estendi os braços e cruzei as mãos na altura do biquíni, fingia uma ponta de vexo.

“Está ótima e linda”, insistiu.

Passamos a andar lado a lado durante alguns metros.

“Você não pratica esporte algum?”, perguntei.

“Às vezes, mas estou muito ocupado.”

“É mesmo? O que você anda fazendo?”

“Escrevendo um livro”, sorriu e esperou a minha reação.

“Que legal, um livro, vou à noite de autógrafos.”

“Calma, Célia, ainda estou na metade, e por falar nisso, queria conversar sobre ele com você.”

“Eu? Como posso ajudar alguém tão inteligente como você?”

Paramos diante de um quiosque. Perguntou se eu aceitava beber água de coco. Fiz que sim com a cabeça. Continuou.

“Você é escritora. Sua opinião me vai ser muito importante.”

“Será? Meus livros são brincadeiras perto do que você estuda. O que você está escrevendo? Deve ser alguma tese ou algum tratado, não?”

O rapaz nos serviu dois cocos. Arranjamos lugar numa das mesas do quiosque.

“Você fala assim porque sabe que sou professor de universidade federal. Mas não tem nada a ver. Adoro o que escreve, você é bastante boa nisso.”

“Ah, obrigada. Adorei o bastante boa nisso.”

“É verdade. Ninguém pode negar.”

“Sobre o que é o seu livro, então?”, bebi alguns goles do meu coco, e reparei ao fundo quatro pessoas que jogavam vôlei junto a uma rede.

Ele pousou o enorme coco sobre a mesa e disse:

“A evolução da terminologia historiográfica na abordagem da escravidão no Brasil – dos primeiros navios negreiros à abolição.”

“Puxa”, exclamei, “deve ser uma história muito difícil.”

Ele sorriu, “não se trata de história, é realmente uma tese de pós-doutorado.”

“E qual será o meu papel num trabalho como esse?”

“Você pode ler para mim, é muito hábil nisso, escreve muito bem."

“Mas minha escrita é sem compromisso. Ou, se há compromisso, é com o prazer, a diversão.”

“Nada a ver. Quem escreve, sabe.”

Não queria aceitar, sobretudo porque às vezes, apesar de ver estas pesquisas como necessárias, acho sua leitura extremamente chata.

“Já sei, você está ocupada com um novo livro”, acrescentou.

Quase falei que sim, mas acabei cedendo.

“Nada disso. Você sabe que escrevo como se estivesse brincando. A literatura para mim é um grande prazer. Leio para você sua tese, sim. Mas não me comprometo a pensar nas ideias nem no vocabulário. Vejo apenas a ortografia das palavras usuais e a concordância.”

“Ótimo, Célia, é isso mesmo que eu desejo. Vou ficar muito agradecido.”

“E como podemos fazer?”

“Vamos até meu apartamento. Deixo com você a primeira parte. Prefiro que você corrija em papel.”

“Ok”, respondi, “mas vamos agora?”

“Podemos ir. Quanto mais cedo melhor.”

Quis dizer a ele que estava de biquíni, e que ele morava um pouco afastado da praia. Mas seu entusiasmo era tanto, que nada falei. Atravessamos a Atlântica, percorremos alguns metros numa rua transversal e chegamos onde ele estacionara o carro. Entramos. Deu a partida e continuou o seu assunto, o livro. Nada mencionou sobre eu estar apenas de biquíni nem demonstrou espanto. Saímos de Copacabana, cruzamos Botafogo e chegamos ao Flamengo. A praça São Salvador era o nosso destino. Depois de estacionar numa vaga de rua, saímos do automóvel e seguimos para o prédio onde ele mora. Várias pessoas olharam-me surpresas. Não esperavam encontrar uma mulher nua naquelas bandas. Na entrada do prédio, uma senhora franziu o cenho e moveu a cabeça em desaprovação ao me vir subir as escadas.

Dentro do apartamento, meu amigo continuou não dando mostras de que reparara a minha nudez. Pegou um calhamaço de papel e se pôs a falar sobre seu futuro livro. Sentei numa poltrona, cruzei as pernas e fiquei ouvindo. Depois de me explicar o assunto com muito zelo, entregou-me as folhas.

“Você tem um mês para fazer a revisão.”

“Um mês?”, minha pergunta saiu automática. Eu estava surpresa devido ao seu fanatismo pelo trabalho.

“É pouco?, então que tal um mês e quinze dias?”

“Está bom, fechado.”

“Não é um trabalho gratuito, vou pagar a você.”

“Jura?”

“Claro, é da parte da editora. Eles estão sem revisores, reclamam por causa da dificuldade do assunto.”

“Já que vão pagar, cobro bastante caro, viu?”

“Não faz mal, o tanto que pedir aceito.”

“Olha lá”, brinquei, “sua editora vai à falência.”

Ele apenas riu. E foi à cozinha fazer um café.

Ficamos conversando sobre vários assuntos até mais ou menos nove da noite. Só então ele se deu conta de que eu tinha de voltar para casa.

“Você se incomoda se eu pagar o táxi pra você?, pra mim vai ser um pouco complicado levá-la agora em Copacabana.”

“Ok, vou de táxi. E já que arranjou trabalho para mim, não precisa pagar.”

“Não, não”, insistiu, “vou pagar sim, e chamo o táxi.”

“Quero pedir um favor a você. Um segredinho, sabe?”, sussurrei.

“Segredinho, adoro segredos.”

Continuei então bem baixinho, falando apenas com o ar:

“Você deve me empresta algo, sabe?”, minha intenção era que ele reparasse que eu estava nua e me emprestasse uma camiseta. “Adivinha?”, continuei. Enfim, apontei para o meu corpo. Em uma das mãos eu segurava as folhas do livro dele.

“Meu Deus, nem reparei, você precisa de uma pasta para levar as folhas!”, sua voz soou em tom de surpresa, como se uma chama saísse repentina dos seus lábios.

Logo as folhas ficaram protegidas dentro de uma pasta verde, de plástico.

Já que ele não entendeu, não vou pedir camisa alguma, pensei com minha pele. Havia feito tanto sucesso na vinda, agora pagava pra ver o que iria acontecer, quem sabe eu até me tornaria uma celebridade.

Dei-lhe dei um beijinho nos lábios, em sinal de despedida. Ele tirou da carteira o dinheiro do táxi e me entregou. Agradeceu mais uma vez. Depois que fechou a porta, mergulhei na noite que se anunciava. Uma noite quente e plena de frisson.

Lá embaixo, um jovem, quase ainda garoto, perguntou-me:

"Moça, você vai ao samba de raiz que tem aqui na praça? Já está até fantasiada."

"Vou, sim". olhei pra ele e sorri.

Ele, então, me entregou uma máscara, dessas que tapam apenas os olhos, enfeitada de lantejoulas prateadas.

Vista, vai ficar legal!

Tirei os óculos escuros e o pendurei no cordão do top, entre os seios. Coloquei a máscara.

"Posso ir com você?", perguntou.

"Claro. Vambora!", tomei-o num meio abraço e seguimos ao ritmo de festa.