quinta-feira, julho 02, 2015

Fez até uma cosquinha

Se eu levasse em conta o meu código de conduta e minhas tentativas de leis, o mundo seria totalmente diferente. Quando querem o vermelho, prefiro o verde; quando me desejam de verde, vou... isso mesmo, vocês já sabem, saio pra passear nuinha. E ainda arranjo um homem, sempre com propostas ousadas, excitantes, como meu recente namorado. Ele tem um casaco de meia estação, desses que se amoldam ao corpo, parece aquele papel prateado com que envolvemos uma fruta. Só que a fruta sou eu. E que fruta! Querem mordiscá-la, sentir o sabor, experimentar o sumo? Esperem, o dia de cada um há de chegar. E ele trouxe a peça, pediu que a vestisse. Não demorei a moldá-la sobre os meus ombros. Não, nada disso, não se deve vestir o agasalho desse modo, afirmou. Tirei-o e lho devolvi. Como se veste um casaco de meia estação?, ingênua eu, que sei apenas andar nua, nua e sorrindo. Vista-o sobre a pele, ordenou. Apenas, ressaltei. Meus dentes felizes e brancos. Fácil, não?, compreender os desejos de um homem. Um casaquinho sobre a pele, apenas, repeti. Não o fiz sob a vista dele. Fui ao quarto, a porta fechada. Voltei à sala. Não me toque, asseverei, caso contrário desmancho. Assim como a glacê de um bolo fugaz, acrescentou. E põe fugaz nisso, completei. Ele, o namorado, regozijou-se. Não temo a palavra. Foi exatamente assim que aconteceu. Um regozijo; a princípio eufórico, depois contido. E me pegou pelo braço, e me puxou porta afora, e me levou a passeio. O sol se punha, as pessoas iam e vinham. Não posso dizer que não gostei. Se falo lá em cima do meu código de conduta e de minhas leis às avessas, que mal há em passear nua à noite, ou quem sabe, até durante boa parte da madrugada? E as pessoas, acaso se surpreenderão? As pessoas não se surpreendem numa cidade como a minha. Não olham para o lado. Estão ensimesmadas. Essa mesma a palavra, bonita, não? Ensimesmada. Talvez pensem no namorado, no marido displicente, num filho que não vai bem na escola, ou mesmo não sabem no que pensam. Ninguém nota a mulher nua sob um casaquinho de meia estação. Vocês já sonharam que vão nuas ou nus pela rua? É tão engraçado. Ninguém nota a gente, não é mesmo? No sonho é assim; se acreditamos, as pessoas nada sabem. Então, o passeio com esse meu namorado foi parecido. Ninguém notou. E eu podia ir nua. Mas à vontade, impossível. Disse a ele que não queria o automóvel. Vamos caminhar pela orla de Ipanema, sugeri. Paramos num quiosque. Quero água de coco, sussurrei. Lá veio o empregado do quiosque com o coco e um canudo. Sorvi o mundo inteiro pelo canudo. Caso eu queira fazer xixi, afirmei, que bom, já estou pelada. Continuamos a andar de braços, sobre a calçada larga e bem iluminada. O vento que vinha do mar soprava por baixo da barra do agasalho, e eu, como podia me estar sentindo? Arrepiadíssima. Mas não esmoreci. Pelada ao vento, pelada à brisa marítima, pelada à beira-mar. Descemos à praia. Foi minha a sugestão. Ei, aonde você vai?, perguntou ele enquanto eu corria abandonando a sandália. Não imagina, lancei-lhe ao vento. Oh, sim, arremessei-lhe as palavras e o casaquinho. Depois, num salto, mergulhei. Só me resta a bronca da cabeleireira. O que fazes de teu cabelo, mulher?, ela sempre se assusta quando apareço no salão. Minha resposta silenciosa é um sorriso amarelo. Meu homem, preocupado, procura-me com os olhos baços. Não mais me tem à mão, apenas segura o casaquinho de meia estação. Lembro-me de minha amiga Elizabeth, enquanto movo braços e pernas tentando acostumar à temperatura fria da água. Quando me contou, eu já praticara a tal aventura, só que com desfecho diferente. Elizabeth saiu do carro peladinha, às três da manhã. O namorado partiu e ela ficou. Ficou a ver navios. Sério, o cenário ao fundo era de navios ancorados próximos à costa, aquela noite. Mas ela não queria saber deles e sim do banho de mar. Sua fantasia: mergulhar como viera ao mundo. E ninguém por perto. Nem o namorado. Que se fosse, que voltasse meia hora ou uma hora depois. Ela ficou escondida, ou melhor, sob as rendas desfiadas das poucas ondas que, suaves, iam e vinham. Se ele não volta, vejo o que faço, falou a si mesma. Era o jogo; assim ficavam excitados. O problema não foi ele não ter voltado, mas os olhos apurados de um pescador. Isso mesmo, um pescador experiente, que sabia discernir entre rendas desfiadas. Este a fisgou. Não usou rede nem molinete. Até disse que ela não era a primeira. Como eu deveria me comportar, então?, minha amiga chegou a me perguntar. Não esperou, no entanto, resposta. Saí com ele, isso mesmo, ali na beirinha d’água, e você sabe o significado do verbo sair, nessa situação; o problema não foi a saidinha, mas eu estava temerosa de que meu homem voltasse, acrescentou. E ele voltou?, eu, curiosa. Nem te conto... E se foi Elizabeth. Quanto ao meu homem, com o casaquinho nas mãos, esperava-me lá nas areias. Nadei ainda mais vinte minutinhos. Quando corri a ele, meu casaquinho, por favor, pedi. Casaquinho?, você entrou n’água com ele. Será?, fingi não me surpreender. Bandido, pensei, tal qual o namorado de Elizabeth, que, escondido, deve ter apreciado a mulher trepar com o pescador. Você viu o homem?, insinuei, meio afoita. Homem?, que homem?, franziu o cenho. O que levou o meu casaquinho, acrescentei, fez até uma cosquinha!

quinta-feira, junho 25, 2015

Sensível, sensível

Sensível, sensível, é o que ele diz. E tem razão. Basta o leve suspiro de um homem a passar junto a mim, o arfar mais forte de sua respiração, ou um ligeiro golpe de olhos, para eu me arrepiar. Percorre-me o corpo uma mão invisível que deixa meus pelos eriçados. Se a mão é real, nem pensar. Sensível, sensível, o vestido a me roçar a pele nua, eu eriçada de novo. Tenho amigas que se entregam ao primeiro toque; outras dissimulam, fingem que nada acontece; há ainda aquelas que desistiram dos homens, sugerem-me ler um livro. Qual deles?, pergunto. Literatura, verdadeira literatura, a que propõe questões, não respostas. Assim minha sensibilidade irá em outra direção. Sério. Exemplo, uma mulher aluga uma suíte de hotel, uma tarde inteira, para ler um livro. Às vezes chora; outras, sorri. Os escritores não pensam nos leitores quando escrevem. Chego a acreditar que a boa literatura é a crueldade. Os seres humano é que são cruéis, dizem-me. Mas a leitora ama tanto, que chega a se ver muito bem amarrada a uma cadeira. Por mais que queira soltar-se, impossível. Queres de mim alguma coisa?, pergunta, embora se veja só. Sim! A voz emana do livro, não a amarro apenas por luxo, quero algo, sim. Estou pronta, corajosa anuncia. Amordaça-a, a tal voz não quer perguntas. Silencioso, o quarto. Ela nua, amarrada, amordaçada. A porta bate, alguém se vai. O livro ao lado da mulher, aberto numa página estrangeira. Passam-se minutos intermináveis, verdadeiras horas. Ninguém volta. A mulher, a corda, a mordaça; ela na cadeira.

Sensível, sensível, desejo a sorte da mulher? Um livro dentro de outro livro. E sorte é destino. Vou à rua, vestido solto, tecido leve, esvoaçante. Qual dos homens são sensíveis mas não a ponto de trazer-me uma corda? Prescruto-os por trás dos óculos. O namorado, mas à moda antiga.  Na verdade, enamorado. Ao contrário de vestidos soltos, vou travada.

Sensível, sensível, é o que fala, e me oferece ouro, uma pulseira larga. Tomo-a nas mãos, examino-a como um ourives. Enquanto a sinto nos dedos finos e provocantes, sussurra-me ao ouvido. Quero algo em troca. O quê?, afoita, chego a arfar. Quero-te nua!, arremata. Respiro fundo, quase sem saída. Ele leva-me a um hotel, desses que ficam no centro da cidade, aluga a suíte mais alta. Deixa o quarto escuro, peço-lhe quase em silêncio. Apenas isso, a sombra e eu nua. Algo a mais, acrescento, espera, quem sabe amanhã. Ele é paciente, dorme ao lado de uma mulher nua sob lençóis. Tem certeza de que virá o amanhã. Então, outra pulseira. Visto as duas. Apenas. E, em pé, meio sem graça, sorrio, um dos joelhos dobra-se involuntário, de leve. Quero esconder o impossível. Agora deita, vem, insinua. Primeiro me abraça, suspiro, depois o sexo. Abro devagar as pernas. Compras a mulher com duas pulseiras, choro-lhe ao ouvido. Vales três ou quatro, talvez cinco, ele devolve. O enamorado sobe sobre meu corpo. Latejo, suo. Sou travada, chego a dizer. Trouxe todas as ferramentas, retruca.

Beatriz, uma amiga tão atirada (as aparências e os nomes enganam), diz que não faz por interesse, mas pelo gozo. Gozar, a melhor coisa do mundo, afirma. Travada?, ele repete e ri da palavra. Deixa ver, acrescenta Beatriz, já viste a cor e o peso do ouro, ou a flor da orquídea? Demoro a entender. O namorado ressona, foi tanto o sexo. Levanto-me e ando pelo quarto, apenas as duas pulseiras sobre a pele. Caminho de um lado a outro, vou à janela e olho a rua, o sol se põe no Rio de Janeiro, muitos os edifîcios, altos, não vejo ninguém às janelas dos outros prédios, não me arrisco olhar mais detalhes, escondo-me, escapa-me apenas os olhos no vão da cortina, um pano pesado, de cor azul, deixo cair o tecido, a cortina ou minhas roupas a voarem do décimo segundo andar?, o apartamento escurece de todo, volto-me, dois ou três passos e dou no extremo oposto, a porta, penso abri-la, espiar o silêncio exterior, tenho coragem?, giro a chave, abro uma pequena fresta, está escuro também lá fora, quem sabe aventuro-me nua ao corredor?, loucura, a porta bate e não abre por fora, e então?, temo tocar a campainha, vou despertar a todos, e eu nua, no centro do Rio às cinco e trinta da tarde, o que houve, senhorita, uma voz masculina, olhos desconhecidos, eu colada à parede. Pensamentos? O quarto vasto, o homem ressona. Leva-me nua em seus sonhos? Já sei, sonha em trazer mais presentes, um cordão de ouro, delicado, e uma medalhinha, o sol, às cinco e trinta da tarde. Ei, vem aqui, deita ao meu lado, a voz dele, temos todo o tempo do mundo. O que queres de mim? pergunto transtornada. Quero você deitada ao meu lado, ele responde. Deitada?, como?, conheço-te apenas de vista. Lúcia, venha cá. Não sou Lúcia, a voz escapa-me, incontrolável, Sou Beatriz, ouviu?, Beatriz. Ah, entendi, ele fala, Beatriz, a amiga de Lúcia, Beatriz, você reluz a ouro, está quase transparente, há uma palavra pra isso, diáfana, você está diáfana, vem aqui, Beatriz, quero umedecer meus lábios nos teus, estou louco de sede, ele continua, venha me salvar. Sento na única cadeira que há no quarto, junto as pernas, cruzo as mãos por trás do encosto, lanço-lhe um olhar feroz e digo amarre-me, amarre-me bem forte. Como um bom ator, finge não se surpreender. Levanta-se e vem até a mim, como se já esperasse pelo pedido.

quarta-feira, junho 17, 2015

Expresso

Estou peladinha e sentada numa cadeira de ferro, dessas de mesa de bar. Na sala há a mesa e mais três outras cadeiras. De repente me vem à mente as fotos em que apareço nua. Foram três ou quatro namorados que me pediram para posar. Aceitei. Mas sempre acabo deixando as fotos com eles. Às vezes fico pensando o que fizeram delas. Mas este último com quem estou namorando já faz um tempinho não me pediu apenas fotos, quis também que eu ficasse na cadeira de ferro, nua e de pernas cruzadas. Disse para eu esperá-lo que logo voltaria.

Nos vimos pela primeira vez na cafeteria onde trabalho, cafeteria de muito requinte. Ele vai sempre para tomar um expresso. Enquanto eu vou à máquina para preparar o café, ele me deixa nua. Sério, nuazinha. Depois, enquanto bebe, puxa conversa comigo. Frequenta a loja já de várias semanas. E sempre gosta de me trazer um presente. Uma blusinha, tal qual a que eu uso por baixo do avental, um perfume, uma bijuteria. "Achei que ia ficar bem em você", ele fala. Quando me convida para sair, digo: "só posso na sexta". Ele vem de carro, e me leva para passear na orla marítima. "Aqui é você quem será servida", diz, e vem o garçom a nos atender. Após o jantar, lá pelas onze e tanto da noite, dirige até a sua casa. Uma gracinha o local. Entra-se numa garagem, sobe-se uma escadinha, e já aparece a porta do apartamento, um quarto e sala grande, banheiro e cozinha, tudo muito amplo e claro. À noite, com a janela aberta, é possível ver o céu cheio de estrelas.

Namoramos com muito gosto. E é então quando ele me deixa peladinha pela primeira vez. Antes havia sido com os olhos; agora é de verdade. Ele me seduz de tal modo, que fico louquinha. Não age com aquele instinto animal que a maioria dos homens tem, quando chegam a ser brutos; mas com delicadeza. Espera que eu esteja pronta para escorregar para dentro de mim, tudo com a maior naturalidade.

Penso que ele de repente pode desaparecer. Todos sabem como são os homens; assim que conseguem o que querem, partem para outras aventuras. Ele, porém, sempre volta. E me traz uma pulseirinha. Naquela noite me leva para passear de novo. Um novo jantar, outro restaurante. "Quero que você conheça todos os lugares bonitos dessa cidade", fala. Jantamos. Bebemos uma garrafa de vinho. E a seguir, de novo no seu apartamento acolhedor, o amor.

Passamos a sair pelo menos duas vezes na semana. Partimos para aventuras mais estimulantes. Como são essas aventuras? Ah, é difícil descrever. Mas ele tem razão; que elas nos excitam, não resta dúvida. Chega o dia em que pede para eu sair com ele vestida apenas com a pulseirinha. "E como vamos fazer? Será que não vou presa?", fico um pouco assustada. Para me tranquilizar, ele diz: "nada disso, deixa que resolvo todos os problemas." Sinto que posso confiar nele. Faço como ele pede. Entro no carro vestida apenas com a pulseira de ouro, um pulseira sútil, bem delicada. Dirige de Macaé a Rio das Ostras. Ai, com fico arrepiada, nua no banco do carona. Dias depois, comento com uma amiga. Uma amiga mesmo, quase irmã. Ela fala que há homens que inventam muitas coisas legais, e que também tem passado por isso, mas na praia; seu namorado a deixa pelada dentro d'água; no final da brincadeira, ela está morrendo de tesão. Paramos em Rio das Ostras. Ele sai do carro para comprar algo para comermos e bebermos. Adiante, num local mais escuro, também desço do carro. Caminhamos de mãos dadas até a beira da praia. Ficamos um tempo enorme namorando. Sussurro no ouvido dele: "caso apareça alguém, você me empresta tua camisa, ok?". "Combinado", responde. Mas não precisa, fico nua a noite inteira. Depois voltamos para o apartamento dele, e namoramos com a maior vontade.

Mas, voltando a esse momento em que escrevo, me pergunto: por quanto tempo vou esperar por ele? Estou nua. Dessa vez ele colocou minhas roupas numa pequena bolsa e disse: "tenho de fazer um trabalho rápido, você me espera?" Fiz que sim com a cabeça. Ele me beijou e se foi. Será mais uma ação dele para ficarmos excitados? Depois que bateu a porta, comecei a pensar, e se aparece alguém, se entra aqui outra pessoa? Ainda para mais me angustiar: e se ele não volta? Há homens capazes de tudo.

Mas meu namorado não é assim, não. Desde que nos conhecemos, na cafeteria, ele se tem mostrado muito afetuoso, e tem razão quando diz: "você vai sentir cada coisa, namorando comigo...." E não é verdade? Estou a esperar por ele, e muito arrepiada. Não queria dizer, porque não gosto de vulgaridade, mas estou até mesmo molhadinha. Agora, só falta ele voltar!

Mais um pequeno detalhe. Ainda que nua, sempre tenho frieza para algum argumento. É sobre o que acabo de escrever. Pode ser que pensem: "não é possível uma garçonete escrever tão bem; não seria garçonete, mas escritora." Quem sabe. Tive um professor que sempre me dizia: você escreve muito bem, você é uma verdadeira escritora!

segunda-feira, junho 08, 2015

Conto de inverno

Jeane anda pela galeria comercial mais famosa de sua cidade, aproxima-se o inverno e ela quer comprar um casaco. As lojas enfileiram-se com aquele visual colorido e alegre, em algumas delas pode-se sentir o cheirinho das roupas, tão atraentes e tão fofas, como um carinho que se está prestes a receber. Ela olha os casaquinhos, pois, afinal, em sua cidade não faz tanto frio assim. Após a opinião da vendedora e de alguma reflexão, compra um de cor verde, de malha, que se amolda perfeito ao seu corpo. Ele desce um pouquinho além da cintura. Jeane até mesmo lembra que, num inverno anos atrás, saiu para namorar vestindo apenas um casaco, mas isto é outra história. A vendedora embrulha a peça, e mantém-se sorridente durante todo o tempo em que Jeane fica na loja; depois coloca o embrulho numa bolsa bonita e lhe entrega. Ela sai da loja pensando em quando estreará o agasalho, sabe que faz bater mais forte o coração dos seus admiradores onde quer que passe. Há também aquele senhor que sempre está à porta de casa, na mesma rua onde ela mora. Ele a olha com olho gordo. Acha engraçada a expressão "olho gordo", não é criação sua, mas de uma amiga da vizinhança.

A amiga de Jeane usava a expressão "olho gordo" porque quando via um tipão, ficava doida pra ir pra cama com ele. Jeane era devagar, demorava aceitar a aproximação de qualquer homem, fosse ele o mais bonito de todos. Isso contribuía para provocar seus admiradores. Todos a paqueravam, apesar de Jeane não corresponder a quase nenhum deles. Mas a amiga do olho gordo via em Jeane um jeito diferente de amar, descobrira uma porta que se forçada de modo adequado poderia ficar escancarada. Por isso, não desistia de buzinar suas ideias na cabeça da mulher.

Jeane sai da galeria comercial e põe-se a caminhar pelo passeio da rua principal da cidade. Olha mais algumas vitrines e cumprimenta de longe duas amigas que passam apressadas. Duas quadras adiante, ao dobrar uma das ruas que leva ao bairro onde mora, vê um casal passar agarradinho. O coração de Jeane sobressalta-se, o homem que vem agarrado à moça parece o seu ex-namorado, o tal que veio namorá-la e a encontrou esperando por ele vestida apenas com o casaquinho. Ela não consegue ter certeza se é mesmo ele que desfila com a namorada pelo calçadão da cidade. Mas aquela presença súbita reaviva nela a lembrança do dia em que foi mais ousada. Ela confessou a si mesma que a ideia de encontrar com ele vestindo apenas o casaquinho foi interessante. Ele havia ligado dizendo que estava com saudades. Ela, então, quis inovar em suas atitudes. Banhou-se em água quente com sais e ervas afrodisíacas. Após sair do banho e enxugar-se, hidratou o corpo com um creme especial e um óleo muito cheiroso, depois vestiu o tal casaco. Como estava frio e ela gostava de tomar um chazinho, leite morno e caldos, preparou tudo com esmero. Por último, acendeu a lareira. Ficou esperando o namorado preparada, num ambiente fofo e bem aconchegante. Todos esses detalhes revelavam que ela estava com muita vontade. Quando ele chegou, foi atender a porta com o seu casaquinho verde, sem calcinha e sem sutiã. Seus seios estavam fáceis de serem vistos, e pediam para serem tocados. Quando se cumprimentaram, o namorado percebeu sua pele lisa e gostosa. Suas mãos percorreram todo o corpo de Jeane, encontrando uma xereca raspada e apetitosa. Os dois rolaram no tapete macio que havia na sala, e se deliciaram num só gozo.

Depois de caminhar três quadras, Jeane entra na rua onde mora. A primeira pessoa que vê é o senhor que a paquera. Posicionado quase em frente a casa dela, ele permanece encostado a uma árvore. Quem sabe, ela pensa, depois de reviver o passado até que estou mordida... e ele merece uma chance, pelo menos é persistente. Entra em casa já convicta de que não deve viver só de lembranças. Não tranca a porta. Prepara-se do mesmo modo como no dia em que se encontrou com o namorado. O banho de sais, o creme, o óleo cheiroso sobre o corpo. Depois ferve água e faz chá de ervas, acrescenta uma pitadinha de gengibre ralado. A bebida torna-a mais excitadinha. Enfim, acende a lareira e olha através da janela do segundo andar. Avista lá embaixo o senhor. Ele ainda a espera, igual a um cachorro sem dono. Ela chega à sacada e faz um sinal para ele entrar. Aguarda-o deitada no tapete. O homem não acredita estar vendo aquela cena, mas avança sobre Jeane como se fosse um touro. Ele adora a novidade, e Jeane revive o passado. Mas desta vez não por meio de lembranças, seu corpo transborda prazer.

segunda-feira, junho 01, 2015

A bebida de cor vermelha

“Vou a M. na próxima quinta, quem sabe  seja possível um encontro?”, ao escutar a voz de Mário, Deli arrepiou-se. Não sabia se era excitação ou certo desconforto. Havia lembranças que desejava esquecer. Mas a voz do homem, que chegava através do telefone, provocou-lhe um frisson difícil de controlar. Suspirou, chegou a respirar fundo e acabou dizendo que sim, ia ver se seria possível o encontro. Depois de guardar o telefone na bolsa, avaliou mais uma vez as perdas e ganhos de ter de novo aquele homem ao seu lado. Afinal, o ex-namorado, com seu jeito de conquistador experiente, ainda lhe fazia bater forte o coração, era impossível esquecer suas investidas furiosas, o modo como ele a segurava no momento do abraço e de seu vigor durante o sexo. Recordava também os passeios com ele nas cercanias da cidade, dos banhos de mar em praias distantes e desertas. Ele a estimulava, e ela tornara-se ousada, como na manhã em que correra nua do carro de Mário até às águas da praia, dera um belo mergulho e nadara ao natural durante boa parte do dia. Lembranças é que não faltavam. Havia uma que sempre lhe fazia sentir um friozinho na barriga. Foi numa madrugada de temperatura baixa, ela resolveu sair do automóvel em que iam os dois, pediu que ele parasse o carro e saltou apenas de casaco. O tal agasalho mal lhe atingia a cintura. Ao voltar ao carro ele lhe disse que as roupas dela haviam desaparecido. No final, uma boa trepada. E, agora, o telefonema, ele viria na próxima quinta-feira. Comeriam uma pizza, era uma boa ideia, e no restaurante preferido de ambos.

Deli gostava dos fatos no passado, as lembranças sempre são melhores, dizia a si mesma. Por isso, tempos depois, escreveu o encontro com Mário. Leria-o sempre; tanto mais o tempo passasse, melhor.

Eram seis e meia da noite, encontrei-o à porta da faculdade onde ele trabalhou durante muitos anos. Entrei no seu carro e ele dirigiu à orla marítima. O ar estava fresco, a temperatura convidava a encontros.

Você tem problemas de horário?, perguntou.

Não, nenhum problema.

Ele sorriu e percebeu que eu abria várias portas.

Já no restaurante, vi uma mulher duas mesas adiante tomando uma bebida de cor vermelha. Perguntei ao garçom o que era. Campari, respondeu. Pedi a bebida. Meu acompanhante, que tomava um chope, olhou-me surpreso, logo eu que me negava a bebidas alcoólicas. Começamos a colocar a conversa em dia. O tempo foi passando e a cada gole eu tornava-me mais faladeira, contei tudo que acontecia na cidade, sobre as pessoas amigas e sobre mim. Acabou surgindo o assunto sobre meu marido. Falei o que devia e o que não devia. Quando reparei, a bebida estava no fim. Repeti a dose.

Saímos do restaurante passavam das dez.

Onde você quer ficar?, perguntou.

Não quero ficar, ou melhor, quero passear. Por falar nisso, lembra dos nossos passeios? Estiquei o braço esquerdo e toquei o seu ombro. Pôs o carro em movimento, contornou toda a orla e entrou na rodovia estadual.

Pare ali, no acostamento, pedi.

Ele obedeceu. Enfim, desligou o carro. Envolvi-o num longo abraço. Como bom conquistador, abraçou-me e nada falou.

Quero uma coisa, eu disse.

O quê?

Acho que não preciso entrar em detalhes.

Mergulhei direto no pênis de Mário. Abri sua calça e o coloquei inteiro na boca. Ainda nem estava rijo quando o introduzi, mas pouco a pouco seu volume foi aumentando até atingir minha garganta. Eu o chupava de todos os modos, numa gulodice de fazer inveja. Fui tão habilidosa que ele não demorou a gozar. Não deixei escapar  uma gota sequer, engoli tudo demonstrando um ar de sacana que só eu sei representar. Ele demonstrou que ainda tinha fôlego para uma trepada. Tirei toda a roupa e saltei sobre o seu ventre. Ficamos naquele local até depois de meia noite.

Ainda estava nua quando pedi para que ele dirigisse. Mário ligou o automóvel e o pôs em movimento. Pouco a pouco foi aumentando a velocidade. Antes de chegar à rodovia federal, pedi que parasse novamente.

Quero saltar, falei.

Ele nada disse, apenas me beijou e sorriu.

Desci do carro, levava apenas o telefone, a pequena bolsa e a sandália. Sempre achei muito deselegante andar descalça. Dei a volta pela frente, curvei-me à janela do motorista e o beijei, a seguir disse a ele:

Pode ir.

Ele não demonstrou surpresa. Beijou-me mais uma vez, acelerou e partiu.

Depois daquela madrugada não mais atendi seus telefonemas. Tenho certeza de que deseja me encontrar de novo, e também saber como me virei para chegar nua em casa. Gosto de fantasias, da imaginação... Mas deixo registrado aquele final de madrugada.

Telefonei a meu marido. Ele sabia das minhas aventuras pretéritas com Mário, inclusive a história da estrada. Na ocasião em que contei, nada falou, mas percebi sua excitação no momento do sexo. Revivia o episódio e lhe oferecia de presente. A bebida de cor vermelha dera-me coragem.

segunda-feira, maio 25, 2015

Carta à mãe

Tenho tudo o que sonho, escreveu imediatamente à mãe, pronta a registrar mais um dado. Mas é claro que não contaria o principal. Gostara da nova cidade, do namorado que lhe surgira ao acaso, mas não queria falar sobre isso. A mãe já ficaria feliz ao saber que ela estava bem, que andava satisfeita com a vida. Os pormenores na nova cidade, as descobertas que fazia no dia a dia, não precisava relatar. Tinha muito o que contar, mas era necessário ser econômica, não se estender nas palavras como sempre lhe ocorria. Que facilidade para escrever, contar histórias. O ritmo da nova vida era alucinante. Tinha vontade de escrever cartas longas, descrever os detalhes da cidade, da casa onde morava, o jardim, a rua, a alegria de alguns jovens que moravam nas proximidades. Não se inibia no momento de compor o texto. Mas, para a mãe, escreveu apenas mais algumas linhas e achou que estava bom assim. O importante era mandar notícias, aproveitava para convidá-la a vir passar alguns dias na cidade. Logo, porém, sentiu um sobressalto. E se a mãe resolvesse vir e ficar muito tempo, ou mesmo não ir mais embora? Se lhe atrapalhasse a vida? Estava tão feliz. Também não queria que soubesse do namorado. Bem, nem mesmo ela própria sabia profundamente sobre ele. O homem seria mesmo seu namorado? Ah, que diferença fazem as palavras. Não perguntara a ele se tinha outra mulher, ou mesmo se um dia as tivera. Não eram perguntas que se faziam. Claro que um dia as tivera, pois era bonito, trazia no rosto a marca de quem sabia conquistá-las. Elas, por conta própria, deviam viver atrás dele. Tirariam a roupa antes de baterem à sua porta. Sentia-se uma felizarda por ter caído nas graças de criatura tão disputada. Quase se perdeu nesses pensamentos quando lhe veio à mente a imagem da mãe. Era por causa dela, do que lhe escrevia, que pensara no namorado. Convidou-a a vir, mas de modo discreto, num pós scriptum. Caso ela aceitasse, passeariam pela cidade, tomariam um sorvete, e depois diria das ocupações assumidas, dos compromissos, falaria que precisava deixá-la só durante algumas horas do dia. A mãe entenderia, sempre fora inteligente. E quanto ao namorado, agiria com naturalidade. Terminou de escrever, dobrou o papel e o enfiou num envelope. No dia seguinte o levaria ao correio. Chegou à janela e olhou a praça de fronte. Era uma paisagem atrativa, muitas pessoas passeavam, algumas levavam os filhos, observou duas jovens conversando. Eram bonitas, muito bonitas. A visão das duas trouxe-lhe à mente de novo a imagem do namorado. Quem sabe não o roubariam dela? O que deveria fazer para mantê-lo junto a si?, pensou enquanto permanecia como uma estátua, olhando na direção das mulheres. Ora, se ele estava sempre por perto era porque gostava dela, era porque se sentira atraído pelas suas qualidades. Ah, como era bom viver na cidade grande, ninguém a incomodá-la, ninguém a lhe bisbilhotar a vida. Lembrou-se de um namorado que tivera em sua cidadezinha. Tremia toda vez que transavam. Mesmo que fosse num motel distante. Não gostava que a vissem junto a ele. As mulheres mais velhas falavam logo em casamento. Depois ouviu uma história contada pela tia. Dizia que os homens da cidade eram tarados. Queriam as mulheres apenas para lhes roubar as roupas de baixo, depois mostravam as calcinhas aos amigos, disputavam entre si com quantas haviam trepado e a quem pertencera as peças. A tia falava e olhava de soslaio para ela. Levantava, dizia que tinha de estudar e saía. Até que passara no concurso público, mudara para o Rio, e fora morar em Ipanema. Da janela ainda olhava as outras jovens, elas ainda conversavam, uma arte a da conversa. Tinha inveja, pois nãos tinha amigas e achava que não sabia conversar. Mas para que amigas? Iriam roubar-lhe o namorado. E tudo ia tão bem, era inacreditável. Com exceção de um ponto, isso mesmo, pequenina nódoa que a fez refletir. Ele lhe falara sobre outra mulher, dissera que o fato sucederá a um amigo. Ela, no entanto, desconfiara, já contará histórias protagonizadas por si própria como se a atriz fosse uma amiga qualquer. Não se deve comentar sobre relacionamentos anteriores com a mulher que se namora hoje. É um preceito básico. Uma conhecida, que estudara psicologia, lhe falara muito sobre relacionamentos. Eles estão ótimos quando os dois se bastam, afirmava. Nada de trazer outras pessoas para junto dos dois amantes. Como trazer outra pessoa? Estamos sempre os dois juntos, e eram apenas palavras... Não entendera a lição. As palavras proporcionam a presença, acrescentara a psicóloga. Ah, sussurrara, as palavras então têm poder de materialidade. E o pequeno deslize do namorado fora contar sobre outra mulher, tornara-a real diante dela. E a história era de amargar. Nem queria lembrar. Mas a narrativa vez ou outra lhe martelava a cabeça. Para se livrar da obsessão resolveu escrever. Ele, o atual namorado, chegara em casa com a outra. Os dois bêbados. Ou melhor, ela vinha mais bêbada do que ele. Depois de abrirem a porta do apartamento, tirarem as roupas e se esparramarem na cama ele sugeriu à mulher passar-lhe um creme, e logo onde. Vocês podem imaginar. As palavras, ainda da narradora. A mulher permitiu o creme. Daí em diante foi uma festa. Ela de bruços, na cama, ele por cima. Ela gemia, pedia que ficassem daquele modo durante toda a noite. Fim da narrativa. Será que ele pediria o mesmo a ela? Jamais havia bebido e percebera que ele se frustrava quando ela nada aceitava, nem mesmo uma taça de vinho. O vinho é sagrado, ele dissera no primeiro encontro. Ela resistira. Quem sabe, apenas uma taça, hoje à noite ou amanhã. Mas e se ele viesse com a sugestão, o creme, ela também de bruços? Perderia o namorado, a conta era certa. Continuou a olhar pela janela. As duas jovens que antes conversavam já haviam desaparecido. Uma mulher trazia duas crianças pelos braços, deveriam ser seus filhos, um menino e uma menina. Ambos arrastavam seus brinquedos. A noite caía devagar. O céu rosado à oeste. Ali seria o mar? Não fazia ideia. Era péssima para direções. Ah, lá vinha ele, o namorado, sorridente, trazia uma sacola de supermercado. Quem sabe queijos e vinhos? Mas ela não beberia. Tremeu involuntariamente. Sairia da janela. Não demonstraria que o esperava. Não podia demonstrar ansiedade. Uma de suas armas. Não demonstraria excesso de interesse. Apenas um beijo, e o sorriso frio. Estudara inglês, aprendera etiqueta com os ingleses. E quanto às palavras, tomaria cuidado, não eram um terreno tão seguro. Em língua alguma. E tinha mais uma coisa, esconderia a carta que escrevera à mãe. Não queria o relacionamento perturbado por outra pessoa. Melhor o silêncio. Melhor o mistério. Assim, tornava-se mais interessante.

segunda-feira, maio 18, 2015

Você chegou nua!

Abri os olhos pesados de sono sentindo o copo nas mãos, mas fechei-os de novo com um sorriso confortável de cansaço. Ele, então, aproximou-se. Primeiro tocou meu ombro direito, a seguir foi descendo uma das mãos trazendo junto com ela a alcinha da blusa que eu usava. Com a esquerda, soltou a outra alça. Fiz de conta que nada percebia. Agora eu usava um tomara-que-caia levemente sustentado pela fragilidade dos meus pequenos seios. Você traz mais um pouco de suco para mim?, pedi. Ele foi até a cozinha e voltou com a jarra. Completou o copo. Bebi dois ou três goles e voltei à mesma posição. Após um ou dois minutos, pousei o copo sobre o descanso que estava sobre a mesa. Ele aproximou-se e me abraçou. Permanecemos sentados na poltrona. Eu cruzara as pernas, as pontas de meus joelhos insinuavam a nudez que ele desejava. Por fim, um longo abraço nos manteve unidos, uma espécie de enredamento. Parecíamos entorpecidos e presos por um cordão que não se acabava. Quando nos soltamos, meus seios apontaram. Eu estava sem a blusa. Você tem o corpo de lutadora, falou. Eu?, fiz que me surpreendia, deve ser porque malho muito. Então é isso, completou. Você não gosta?, interpelei. Ah, claro, gosto muito. Ele saiu para ajeitar alguma coisa, não sei se foi levar minha blusa para o quarto ou se foi à cozinha apagar a luz. Logo voltou e deitou-se sobre mim. Eu ainda estava de saia. Sua roupa não vai amarrotar?, perguntou. Se você não soltá-la com cuidado, insinuei. Despiu-me. Não lançou minha saia ao chão nem deixou-a sobre a poltrona, teve o cuidado de levá-la ao quarto e pendurá-la num cabide. Ao voltar eu disse você pode agora amarrotar a mim. Ele riu da expressão e rebateu que eu tinha de ser tratada com cuidado. Novamente se colocou sobre o meu corpo. Fizemos amor.

Quando acabamos, ainda ficamos durante muito tempo abraçados. Tomei a inciativa de levantar e ir até a cozinha. Estava com sede. Ele perguntou o que eu queria. Falei que não se preocupasse, buscaria um copo d'Água. Percebi então como ele era detalhista na arrumação. Que nada soubesse sobre mim, a mulher mais bagunceira do mundo. Vi então que não combinaríamos. Depois de algum tempo o homem provavelmente não me suportaria, com tanta falta de cuidado que carrego comigo. Voltei com o copo ainda cheio. Sentei no sofá e cruzei as pernas. Ele cobrira-se com a manta do estofado. Eu permanecia nua.

Às cinco da manhã, pedi pegue minhas roupas, preciso ir. Ele falou roupas?, você chegou aqui nua! Caímos ambos na gargalhada. Lembrei-me de um namoradinho que fazia a mesma brincadeira. Adorava me deixar nua e demorava pra devolver minhas roupas. Certa vez insistiu tanto pra me enrolar numa manta, que não me fiz de rogada, não só deixei que me envolvesse com o pano transparente como também voltei pra casa vestida daquele jeito. O rapaz se apaixonou por mim. Mas o de agora foi mais suave, o negócio dele era trepar comigo. E lógico que nada falei sobre outros homens. Depois de rirmos muito, namoramos de novo. Naquele dia, não voltei pra casa.