segunda-feira, maio 25, 2015

Carta à mãe

Tenho tudo o que sonho, escreveu imediatamente à mãe, pronta a registrar mais um dado. Mas é claro que não contaria o principal. Gostara da nova cidade, do namorado que lhe surgira ao acaso, mas não queria falar sobre isso. A mãe já ficaria feliz ao saber que ela estava bem, que andava satisfeita com a vida. Os pormenores na nova cidade, as descobertas que fazia no dia a dia, não precisava relatar. Tinha muito o que contar, mas era necessário ser econômica, não se estender nas palavras como sempre lhe ocorria. Que facilidade para escrever, contar histórias. O ritmo da nova vida era alucinante. Tinha vontade de escrever cartas longas, descrever os detalhes da cidade, da casa onde morava, o jardim, a rua, a alegria de alguns jovens que moravam nas proximidades. Não se inibia no momento de compor o texto. Mas, para a mãe, escreveu apenas mais algumas linhas e achou que estava bom assim. O importante era mandar notícias, aproveitava para convidá-la a vir passar alguns dias na cidade. Logo, porém, sentiu um sobressalto. E se a mãe resolvesse vir e ficar muito tempo, ou mesmo não ir mais embora? Se lhe atrapalhasse a vida? Estava tão feliz. Também não queria que soubesse do namorado. Bem, nem mesmo ela própria sabia profundamente sobre ele. O homem seria mesmo seu namorado? Ah, que diferença fazem as palavras. Não perguntara a ele se tinha outra mulher, ou mesmo se um dia as tivera. Não eram perguntas que se faziam. Claro que um dia as tivera, pois era bonito, trazia no rosto a marca de quem sabia conquistá-las. Elas, por conta própria, deviam viver atrás dele. Tirariam a roupa antes de baterem à sua porta. Sentia-se uma felizarda por ter caído nas graças de criatura tão disputada. Quase se perdeu nesses pensamentos quando lhe veio à mente a imagem da mãe. Era por causa dela, do que lhe escrevia, que pensara no namorado. Convidou-a a vir, mas de modo discreto, num pós scriptum. Caso ela aceitasse, passeariam pela cidade, tomariam um sorvete, e depois diria das ocupações assumidas, dos compromissos, falaria que precisava deixá-la só durante algumas horas do dia. A mãe entenderia, sempre fora inteligente. E quanto ao namorado, agiria com naturalidade. Terminou de escrever, dobrou o papel e o enfiou num envelope. No dia seguinte o levaria ao correio. Chegou à janela e olhou a praça de fronte. Era uma paisagem atrativa, muitas pessoas passeavam, algumas levavam os filhos, observou duas jovens conversando. Eram bonitas, muito bonitas. A visão das duas trouxe-lhe à mente de novo a imagem do namorado. Quem sabe não o roubariam dela? O que deveria fazer para mantê-lo junto a si?, pensou enquanto permanecia como uma estátua, olhando na direção das mulheres. Ora, se ele estava sempre por perto era porque gostava dela, era porque se sentira atraído pelas suas qualidades. Ah, como era bom viver na cidade grande, ninguém a incomodá-la, ninguém a lhe bisbilhotar a vida. Lembrou-se de um namorado que tivera em sua cidadezinha. Tremia toda vez que transavam. Mesmo que fosse num motel distante. Não gostava que a vissem junto a ele. As mulheres mais velhas falavam logo em casamento. Depois ouviu uma história contada pela tia. Dizia que os homens da cidade eram tarados. Queriam as mulheres apenas para lhes roubar as roupas de baixo, depois mostravam as calcinhas aos amigos, disputavam entre si com quantas haviam trepado e a quem pertencera as peças. A tia falava e olhava de soslaio para ela. Levantava, dizia que tinha de estudar e saía. Até que passara no concurso público, mudara para o Rio, e fora morar em Ipanema. Da janela ainda olhava as outras jovens, elas ainda conversavam, uma arte a da conversa. Tinha inveja, pois nãos tinha amigas e achava que não sabia conversar. Mas para que amigas? Iriam roubar-lhe o namorado. E tudo ia tão bem, era inacreditável. Com exceção de um ponto, isso mesmo, pequenina nódoa que a fez refletir. Ele lhe falara sobre outra mulher, dissera que o fato sucederá a um amigo. Ela, no entanto, desconfiara, já contará histórias protagonizadas por si própria como se a atriz fosse uma amiga qualquer. Não se deve comentar sobre relacionamentos anteriores com a mulher que se namora hoje. É um preceito básico. Uma conhecida, que estudara psicologia, lhe falara muito sobre relacionamentos. Eles estão ótimos quando os dois se bastam, afirmava. Nada de trazer outras pessoas para junto dos dois amantes. Como trazer outra pessoa? Estamos sempre os dois juntos, e eram apenas palavras... Não entendera a lição. As palavras proporcionam a presença, acrescentara a psicóloga. Ah, sussurrara, as palavras então têm poder de materialidade. E o pequeno deslize do namorado fora contar sobre outra mulher, tornara-a real diante dela. E a história era de amargar. Nem queria lembrar. Mas a narrativa vez ou outra lhe martelava a cabeça. Para se livrar da obsessão resolveu escrever. Ele, o atual namorado, chegara em casa com a outra. Os dois bêbados. Ou melhor, ela vinha mais bêbada do que ele. Depois de abrirem a porta do apartamento, tirarem as roupas e se esparramarem na cama ele sugeriu à mulher passar-lhe um creme, e logo onde. Vocês podem imaginar. As palavras, ainda da narradora. A mulher permitiu o creme. Daí em diante foi uma festa. Ela de bruços, na cama, ele por cima. Ela gemia, pedia que ficassem daquele modo durante toda a noite. Fim da narrativa. Será que ele pediria o mesmo a ela? Jamais havia bebido e percebera que ele se frustrava quando ela nada aceitava, nem mesmo uma taça de vinho. O vinho é sagrado, ele dissera no primeiro encontro. Ela resistira. Quem sabe, apenas uma taça, hoje à noite ou amanhã. Mas e se ele viesse com a sugestão, o creme, ela também de bruços? Perderia o namorado, a conta era certa. Continuou a olhar pela janela. As duas jovens que antes conversavam já haviam desaparecido. Uma mulher trazia duas crianças pelos braços, deveriam ser seus filhos, um menino e uma menina. Ambos arrastavam seus brinquedos. A noite caía devagar. O céu rosado à oeste. Ali seria o mar? Não fazia ideia. Era péssima para direções. Ah, lá vinha ele, o namorado, sorridente, trazia uma sacola de supermercado. Quem sabe queijos e vinhos? Mas ela não beberia. Tremeu involuntariamente. Sairia da janela. Não demonstraria que o esperava. Não podia demonstrar ansiedade. Uma de suas armas. Não demonstraria excesso de interesse. Apenas um beijo, e o sorriso frio. Estudara inglês, aprendera etiqueta com os ingleses. E quanto às palavras, tomaria cuidado, não eram um terreno tão seguro. Em língua alguma. E tinha mais uma coisa, esconderia a carta que escrevera à mãe. Não queria o relacionamento perturbado por outra pessoa. Melhor o silêncio. Melhor o mistério. Assim, tornava-se mais interessante.

segunda-feira, maio 18, 2015

Você chegou nua!

Abri os olhos pesados de sono sentindo o copo nas mãos, mas fechei-os de novo com um sorriso confortável de cansaço. Ele, então, aproximou-se. Primeiro tocou meu ombro direito, a seguir foi descendo uma das mãos trazendo junto com ela a alcinha da blusa que eu usava. Com a esquerda, soltou a outra alça. Fiz de conta que nada percebia. Agora eu usava um tomara-que-caia levemente sustentado pela fragilidade dos meus pequenos seios. Você traz mais um pouco de suco para mim?, pedi. Ele foi até a cozinha e voltou com a jarra. Completou o copo. Bebi dois ou três goles e voltei à mesma posição. Após um ou dois minutos, pousei o copo sobre o descanso que estava sobre a mesa. Ele aproximou-se e me abraçou. Permanecemos sentados na poltrona. Eu cruzara as pernas, as pontas de meus joelhos insinuavam a nudez que ele desejava. Por fim, um longo abraço nos manteve unidos, uma espécie de enredamento. Parecíamos entorpecidos e presos por um cordão que não se acabava. Quando nos soltamos, meus seios apontaram. Eu estava sem a blusa. Você tem o corpo de lutadora, falou. Eu?, fiz que me surpreendia, deve ser porque malho muito. Então é isso, completou. Você não gosta?, interpelei. Ah, claro, gosto muito. Ele saiu para ajeitar alguma coisa, não sei se foi levar minha blusa para o quarto ou se foi à cozinha apagar a luz. Logo voltou e deitou-se sobre mim. Eu ainda estava de saia. Sua roupa não vai amarrotar?, perguntou. Se você não soltá-la com cuidado, insinuei. Despiu-me. Não lançou minha saia ao chão nem deixou-a sobre a poltrona, teve o cuidado de levá-la ao quarto e pendurá-la num cabide. Ao voltar eu disse você pode agora amarrotar a mim. Ele riu da expressão e rebateu que eu tinha de ser tratada com cuidado. Novamente se colocou sobre o meu corpo. Fizemos amor.

Quando acabamos, ainda ficamos durante muito tempo abraçados. Tomei a inciativa de levantar e ir até a cozinha. Estava com sede. Ele perguntou o que eu queria. Falei que não se preocupasse, buscaria um copo d'Água. Percebi então como ele era detalhista na arrumação. Que nada soubesse sobre mim, a mulher mais bagunceira do mundo. Vi então que não combinaríamos. Depois de algum tempo o homem provavelmente não me suportaria, com tanta falta de cuidado que carrego comigo. Voltei com o copo ainda cheio. Sentei no sofá e cruzei as pernas. Ele cobrira-se com a manta do estofado. Eu permanecia nua.

Às cinco da manhã, pedi pegue minhas roupas, preciso ir. Ele falou roupas?, você chegou aqui nua! Caímos ambos na gargalhada. Lembrei-me de um namoradinho que fazia a mesma brincadeira. Adorava me deixar nua e demorava pra devolver minhas roupas. Certa vez insistiu tanto pra me enrolar numa manta, que não me fiz de rogada, não só deixei que me envolvesse com o pano transparente como também voltei pra casa vestida daquele jeito. O rapaz se apaixonou por mim. Mas o de agora foi mais suave, o negócio dele era trepar comigo. E lógico que nada falei sobre outros homens. Depois de rirmos muito, namoramos de novo. Naquele dia, não voltei pra casa.

quarta-feira, maio 13, 2015

Deixo que me fotografe

Essas viagens ao exterior são emocionantes, principalmente quando se viaja sozinha. Estou em Santiago do Chile, num hotel muito bom. Um prédio alto, de entrada luxuosa, com um balcão comprido revestido de madeira e aço, luminárias prateadas, funcionários solícitos. No foyer há várias poltronas ao lado direito de quem entra, enfileiram-se até a parte mais interna do prédio. Neste mesmo lado, localiza-se a entrada do bar e restaurante do hotel. Ao fundo do corredor há os elevadores e à esquerda é possível ver a escada que conduz a uma espécie de mezanino, onde se situa um dos centros de convenção, mas o que se percebe à primeira vista é uma cabine com vários computadores, todos para uso dos hóspedes. O hotel possui ainda piscina e academia, no décimo oitavo andar, de onde se tem uma vista panorâmica do bairro e de parte da cidade.

Observo as pessoas com a liberdade de uma aventureira, e posso até sorrir para os homens. Todos correspondem. Um deles olha para mim no momento em que saio do café da manhã. Aproveito então para sentar por alguns minutos numa das poltronas. Começamos a travar um animado diálogo. Ele quer saber de onde venho. Respondo-lhe. Diz adorar o meu país, já o visitou diversas vezes.

Estás a turismo?, pergunta.

Viajei com a intenção de descansar.

Muito importante descansar, completa numa mistura de português e espanhol. Não vai passear, fazer city tour?

Não sei, ainda não decidi.

Estou a trabalho, mas quando venho a Santiago não deixou de visitar o centro histórico, é muito interessante. Há também bairros boêmios, com muitos bares e vida cultural.

Sorrio e agradeço a sugestão. Digo que preciso subir, despeço-me desejando-lhe boa estada na cidade.

No quarto aproveito para relaxar, ler algumas páginas do livro que trago comigo e lembrar-me do homem recente. Ele deu mostras de interesse por mim. Por que não ajo como as garçonetes, ou as camareiras de hotel? Sei que todas elas são mulheres de respeito, mas encantam-se quando se descobrem amadas por um homem, seja ele quem for. E aproveitam. Gostam de presentes, cada um mais caro que o outro. Numa conversa recente, uma amiga falou-me de sua empregada doméstica. Esta lhe contou como faz em relação aos homens que a desejam. Trabalhou certa vez num hotel. Gostou do serviço, mas o patrão cismou com ela. Não ficou muito tempo. Mas enquanto trabalhou deu-se bem nas finanças e no amor. Ganhava gorjetas dos hóspedes e, quando eles a apreciavam... Adivinha? Certo dia um deles pediu que ela fosse até o quarto onde estava hospedado. Queria que ela o fotografasse. Um pedido até certo ponto surpreendente. Pegou a câmera, ensinou-lhe o manejo e fez várias poses. Depois perguntou se ela gostaria de aparecer em uma ou duas fotos. A mulher respondeu que nas horas vagas era modelo.

Modelo?, realçou a palavra o homem surpreso.

Isso mesmo, modelo. Não reparou como tenho o corpo perfeito?

Ah, acho que não reparei devido à roupa de funcionária do hotel, ele desculpou-se.

Deixo que me fotografe, ela afirmou.

Ele fez as duas fotos.

O senhor não deseja se certificar de já fui modelo mesmo?

Gostaria, mas não sabia como lhe pedir.

Não precisa pedir, espere um instantinho só.

Ela entrou no banheiro e saiu de lá enrolada numa toalha.

Pode deixar que depois trago outra para o senhor, ela disse.

Não, não há problema, pode usar a toalha o tanto que quiser.

O homem fez várias fotos da mulher. No final, ela soltou a toalha e posou nua.

Contou à patroa que os dois fizeram uma festa. E o homem, antes que ela batesse a porta do quarto e retomasse o trabalho, ainda lhe enfiou no bolso do vestido duas notas de cem dólares.

Após ler durante uma hora e meia, decido sair pela cidade. Não sou camareira nem garçonete, mas tenho o fogo das mulheres que gostam de amar. Num city tour, e ainda mais com um estrangeiro, quem sabe?

terça-feira, maio 05, 2015

Vestido de noiva

Meu namorado trouxe uma roupa muito sexy para mim. Um vestido curto, mas feito em formato de rede, tipo meia-arrastão. Tranquei-me no quarto e voltei de lá vestidinha. Por baixo, o top negro e a calcinha. Desfilei pela sala. Depois sentei no colo dele.

“Tenho mais uma surpresa para você”, falou baixo, amoroso, junto ao meu ouvido.

“Mais uma?”, curiosa, eu.

“Aliás, duas.”

“É mesmo, não diga?”

Entregou-me outro presente. Abri, era uma caixa pequena, e dentro havia uma pulseira.

“Que lindo”, coloquei no braço esquerdo e lhe dei um beijo na boca. “Você falou que tinha outra surpresa?”

“Ah, sim, adoro passear, você já sabe.”

“Que bom! Também quero sair.”

“Mas você vai assim”, apontou à minha roupinha.

“Assim?”, quase um tremor.

“Assim, sim, com o minivestido.”

“Mas estou pelada!”

“Não faz mal, você vai gostar de passear peladinha.”

Depois de alguma negociação, aceitou que eu levasse um forro. Então me envolvi num tecido negro, de cetim, que já tenho faz tempo, e coloquei o vestidinho por cima.

Descemos no elevador de serviço, entramos no carro e saímos.

Foi um passeio tão bom. Primeiro me levou para jantar. Restaurante lindo, comida ótima. Tinha até vista para o mar. Depois, descemos até a praia. Encontramos outros casais que passeavam à beira-mar. Uma mulher estava de biquíni, e eram onze da noite.

Meu namorado fez o pedido. Eu não poderia negá-lo. Sempre me proporciona os maiores prazeres, os melhores presentes. Faz tudo o que peço e o que não peço.

“Tira o forro”, falou.

Olhei as outras pessoas. Elas não estavam interessadas em nós. Melhor.

“Tira você”, minha sugestão o pegou de surpresa.

“Eu?”

“Isso mesmo, você, basta puxar por baixo.”

Tão delicado o meu namorado. Puxou. Surpresa! Eu só tinha o vestidinho de redinha sobre o corpo.

“Você está pelada”, quis me enrolar com o tecido.

“Nananinanão!”, exclamei.

Vocês estão doidinhos para saber como acaba essa historinha, não é mesmo? Na verdade, não aconteceu nada demais. Passeamos pela areia, fomos até a beira d’água. Apenas uma mulher nos olhou enviesada. Depois subimos à calçada, entramos no carro e voltamos pra casa.

O minivestido ficara para trás. Ou melhor, dobrado e guardado junto com o forro, no porta luvas do carro. Voltei pelada! E assim que entramos em casa... Ah, acho que já não preciso contar.

Vocês merecem saber, sim. No centro da sala havia uma caixa enorme. E dentro dela, o que tinha mesmo?

Um vestido de noiva!

terça-feira, abril 28, 2015

Entrei na tal fantasia

Respirei fundo e me pus avante, como era boa aquela sensação, talvez fosse o perigo, enfrentá-lo sempre é um desafio. O que pode fazer uma mulher nua às duas da madrugada, tanto mais à distância da própria casa? Mas eram duas da tarde e agora à história era outra. As lembranças que ficassem escondidas, numa espécie de sótão da memória. No telefone, a voz dele dizia quanto tempo, que bom falar com você. Convidava-me. Queria reviver algumas aventuras do passado. Não é bom voltar o relógio, rebati, vamos daqui em diante. Ele ficou em silêncio durante alguns segundos, mas logo retornou, com seu desejo acho que maior. O passado já passou, você tem razão, afirmou, o importante é o que vamos fazer daqui pra frente. Foi a minha vez de silenciar, de pensar muito, ainda que em trinta segundos. Desejaria eu ir à sua cidade, permanecer envolta nas carícias daquele homem que sempre partia sem avisar e voltava a me procurar? Você não falou ainda o motivo de tanto tempo sem ligar, disse eu subitamente. Ah, negócios, muitos os negócios, replicou. Quem garantirá que você não vai desaparecer de novo? Ninguém, sua voz soou sóbria, quanto a isso não há garantia.

Desembarquei no dia seguinte na rodoviária Novo Rio. Sempre achei o lugar muito confuso, feio, deselegante para uma cidade como o Rio de Janeiro. As pessoas corriam pelos longos corredores, não se preocupavam se esbarravam umas nas outras. Num dos cantos, uma mulher jovial, embora se percebesse que ia pelos cinquenta anos, beijava na boca um homem talvez quinze anos mais novo. Pessoas subiam e desciam, levavam malas, sacolas e pacotes. Corri até o ponto dos táxis, mas tudo estava muito confuso. E nem era véspera de feriado. Do outro lado da rua um ônibus indicava no letreiro que ia para o Leme. Embarquei. A viagem se deu vagarosa. A cidade tinha muitas interdições de avenidas, havia obras por todo lado. Depois de cinquenta minutos saltei num ponto próximo a uma praça, no bairro de Copacabana. Dobrei a segunda rua à esquerda e me deparei como pequeno hotel onde sempre fico hospedada quanto vou ao Rio. Ele ligou às quinze para as sete. Disse que só poderia encontrar comigo no dia seguinte às duas da tarde numa rua do centro da cidade. Ok, confirmei. Acho que a incerteza era o que me movia. Não sei dizer, mas o risco, sempre o risco. Coloque a dois metros um barril de pólvora e sempre haverá admiradores, ou mesmo quem se proponha a saltá-lo segurando um cigarro aceso. Naquele homem fugaz, escorregadio, enganador, havia um tipo de magia difícil de transformar em palavras, um filete de gasolina capaz de provocar um grande incêndio. A verdade é que ele atraía, e como.

Às duas em ponto eu esperava por ele na rua do Ouvidor esquina com rua do Carmo. A mesma rua do Ouvidor das histórias contadas por Joaquim Macedo, o autor de A moreninha. Não sou tão morena, mas mais atrevida, já que gosto de andar nua na noite escura. Caminhamos por outras ruas do Centro entramos num hotel, na Senador Dantas, um prédio antigo reformado e ambientado para casais em estado de paixão. Havia uma mulher discreta na recepção, não olhava frontalmente as mulheres que acompanham os homens. Subimos num elevador ruidoso, deixou-nos no sexto andar. Assim que entramos no apartamento, comecei a me despir. Não tirei a calcinha. Ele me abraçou quando eu virei para ele com os seios empinados, me deu um intenso aperto e me beijou os lábios. Nada de muitas palavras, ele sempre foi um homem silencioso. Permanecemos em pé, agarrados, num intenso apertar e roçar de corpos. Ele ainda não tirara toda a roupa, estava de calças compridas, mas mesmo assim pude sentir seu sexo rijo a me pressionar o ventre. Namoramos durante duas horas e meia. No final, tomei uma garrafinha de água, que havia no freezer. Estirei-me na cama e me pus a pensar sobre o fato de estar tão longe de casa, em outra cidade, viera apenas para encontrar um homem que dizia gostar de mim e que me procurava ocasionalmente. Você ainda gosta de andar nua por aí?, perguntou curioso. Ora, claro que sim, você que me despertou pra isso, não?, beijei-lhe o rosto com os lábios úmidos de água mineral. Então, proporcionei algo de bom a você, o que mereço em troca?, ele queria algo mais. Tudo, respondi e subi sobre o seu corpo. Seu sexo, que estava em repouso deu mostras de que despertava de novo. Abri as pernas e o agasalhei, o prazer foi intenso. Tenho um novo segredo pra você, acrescentou. Segredo? Achei que já me tinha ensinado tudo. Nada disso, voltou ele à palavra, trata-se de uma fantasia.

De sua bolsa, tirou uma fantasia de carnaval. Quer experimentar?, é de uma personagem de escola de samba. Como você conseguiu?, eu quis saber. Conheço muitas pessoas, e trabalho com atores e atrizes. Verdade?, mostrei surpresa, não sabia que seu trabalho era tão interessante.

Entrei na tal fantasia. Caiu com perfeição no meu corpo. Agora vou levar você pra passear fantasiada, ele riu no final da frase. Verdade?, Acho que morro. Nada disso, as pessoas vão adorar, e você está muito sexy com ela. Depois a gente volta para o hotel. Estou muita sexy?, estou nua, não brinca que você vai me levar nua lá fora?  Vou sim, e você não vai querer outra vida, nua às cinco da tarde.

Acho que por isso sempre volto a esse homem, a ele e a suas invenções. É lógico que tudo foi apenas um jogo. Passear lá fora significava apenas sair nua do apartamento e tocar a campainha para que ele me recebesse. Mas pra quem é de longe, imagine o frisson que senti enquanto batia à porta. E havia a possibilidade de ele não abrir. Por isso volto sempre a esse homem. Ele é um arrepio.

quarta-feira, abril 22, 2015

Qual a diferença, afinal.

Você não sabe ser livre, ele falou pelo telefone. Como assim?, embaracei-me nas suas palavras. Você se prende a pequenos compromissos aí em M., poderia estar aqui aproveitando melhor estes dias. Eram duas da tarde quando desliguei o telefone, pensei em me arrumar e viajar imediatamente à cidade dele, mas contive-me. Melhor esperar o dia seguinte. Mas ao levantar pela manhã comecei a deixar de pensar sobre a possível viagem. Eu sempre facilitava demais as coisa pra ele e sempre me prejudicava, saía dos encontros desvalorizada. Naquela mesma manhã, enquanto ia ao caixa eletrônico, encontrei Rubens, um mulherengo de carteirinha. Oi, princesa, como vai? Ele tinha a mania de chamar as mulheres de princesas, eu sabia que não era apenas comigo. Oi, respondi, mas ao contrário das outras vezes, além da voz, deixei o sorriso, foi uma porta aberta. Ele não deixaria de aproveitar. Começou a dizer que o dia estava lindo, combinava perfeito com meu sorriso. Ah, gentileza sua, redargui. Nada disso, ele acrescentou, você é uma princesa que merece todos os favores do reino. Rubens, deixa de história, nem mais existem reinos. Ele apontou um automóvel estacionado, de cor vermelha, conversível. Vou levar minha rainha a um passeio, sugeriu. Rubens, pretendo tirar dinheiro, vou ao caixa eletrônico. Insistiu em me acompanhar. Acabei por aceitá-lo ao meu lado. Quando saímos do banco, caminhamos um pouco a esmo e acabamos parando onde ele estacionara o carro. Vamos? Levo você em casa, convidou. Quem disse que vou pra casa?, emendei a frase com mais um sorriso. Era tudo o que ele queria, e eu sabia que caso entrasse no carro seria o mesmo que dizer sim às suas pretensões. Depois de cinco minutos, rodávamos pela estadual, uma rodovia junto ao mar. Veja que beleza, ele falava e apontava o mar, vamos parar, você toma uma cerveja. Um suco, respondi. Ok, vamos estacionar. O carro ficou num trecho de areia que se misturava à vegetação rasteira. Descemos até perto do mar. Ele explodia com ondas volumosa e irregulares, as espumas deslizavam ligeiras, vinham quase aos nossos pés. Às vezes eu tinha a impressão de que as águas chegariam com força até onde estávamos arrancando-nos dali com toda sua fúria. Rubens segurou uma das minhas mãos e me conduziu a uma cabana, que mal pude dar pela presença naquela paisagem. Ao nos aproximarmos, o vento levantava nossos cabelos e agitava nossas roupas. Entramos naquele local rústico, onde pudemos sentar, ainda ouvindo o som que vinha lá de fora e que parecia o começo de uma tempestade. Uma mulher jovem trouxe uma espécie de cardápio. Rubens perguntou se eles tinham camarões. A mulher assentiu e desapareceu num compartimento posterior ao bar. Rubens ria para mim, disse que eu adoraria o que serviam ali. A mesma mulher voltou, trazia um suco e uma cerveja. Colocou o copo à minha frente, abriu a cerveja e encheu o copo do meu amigo. É deserto, aqui, cheguei a comentar. É um bom lugar para se conversar e namorar, falou e sorriu. À noite, deve ser um lugar tentador, acrescentei. Ele pareceu gostar da minha observação. Você gosta de sucos, não é mesmo? Suas palavras ecoaram na minha mente, lembrei meu admirador do Rio, que telefonara no dia anterior. O que ele dissera mesmo? Era como se sua voz se perdesse ante todo o bramir da natureza. Meu namoradinho do Rio gosta de me convidar para um hotel no centro da cidade, gosta de me deixar nua às duas da tarde, certa vez me perguntou se eu voltava nua pra casa. Respondi que sim, nuazinha nuazinha, só pra provocar. Quanto a Rubens eu sabia que teria de demorar em seus braços, ele desejaria meu corpo durante todo o dia e também durante boa pote da noite. Ninguém poderia dizer que eu não era livre, que vivia presa aos meus pequenos problemas em M. Aliás, preferi deixar que Rubens fizesse sua parte e provasse que M. valia a pena. Nua num hotel no centro do Rio. Nua numa praia, num fim de tarde em M. Qual a diferença, afinal? Acho que o vento, todos os ventos, e as mãos grossas daquele homem da terra crente em princesas, crente em reinos jamais extintos. Saboroso o camarão, ressaltei, e o suco então nem se fala, está boa a cerveja?, emendei gulosa. Ele bebeu um longo gole, seu rosto estampou todo o prazer que a vida lhe podia oferecer. Eu ia nua, dentro do seu copo de cerveja ou, quem sabe, ao lado do seu corpo dourado. E os olhos baços e indiferentes da garçonete estavam acostumados a sonhos que vinham do mar.

sábado, abril 18, 2015

A pelada sou eu

Digamos que seja tudo verdade. E a verdade às vezes dói. Mas faço de conta que ainda tenho alguma chance. Não foi isso que combinamos. Ele me pediu para descer do carro, dar uma voltinha, depois de cumprir a tarefa que precisava cumprir voltaria para me levar para casa. Ah, esses homens, deve ter surgido outro programa. E eu esperando. Deixa estar. Deixa estar que resolvo à minha maneira. Caso ele ainda apareça, não mais me encontrará. Estarei longe. E nos braços de outro. Mas que estou furiosa, estou.

"Rosalvo, você vem me buscar? Eu sei, está tarde, não combinei nada com você. Mas surgiu um imprevisto, por isso telefono, e você vai ter uma surpresa. Isso mesmo, Rosalvo, uma surpresa. Não, pode deixar que não vou fazer como da outra vez, deixei você chupando o dedo, lembro sim. Nada disso, não vai acontecer de novo, prometo. Anote onde esto? Depois da 41. Isso. Há um restaurante perto, mas não quero ir até lá, ou melhor, não posso. Por quê? Você vai logo saber. Se apresse, Rosalvo. preciso que esteja aqui no máximo em vinte minutos. Por que tanta pressa, Rosalvo? É fácil adivinhar, você me conhece. Não, não brigamos, muito pelo contrário, estamos muito bem. Mas ele, ou eu, não sei bem, acho que nós dois, sabe, namoramos com o perigo. Essas coisas nos excitam. Que coisas? Ora, Rosalvo, não faça perguntas óbvias. Se estivéssemos numa Dinamarca, numa Noruega, acho que não seria nada de mais. Mas no Brasil, e nesta cidadezinha... tudo se torna muito perigoso. O que, Rosalvo? Ah, sim, você diz que eu e ele gostamos do perigo. Isso, Rosalvo, isso mesmo. Fui eu quem disse há pouco, você está repetindo. Vamos deixar a conversa pra outra hora. Se apresse. O quê?, você acha que eu devo escrever um livro com minhas histórias?, com as situações que me acontecem? Rosalvo, escrever livros é fácil, tanto mais para mim, o problema é publicar, e isso não é assunto para o momento. Venha me buscar que eu conto. A surpresa? Se eu falar perde a graça. Quando você estiver aqui, vai perceber, e como. Vai amar. Uma armadilha? Rosalvo, você acha que eu vou te atrair para uma armadilha? Sou sua amiga, jamais faria isso. Se fosse obrigada? As tais pessoas que me obrigariam não conheceriam você, eu não ligaria para você, procuraria outra pessoa, talvez uma que me tivesse feito algum mal. Uma pessoa assim não me viria buscar, Rosalvo? Deixa, Rosalvo, não precisa mais, não, não venha, vou me virar sozinha, me arrependi de ter ligado a você. Vem o ônibus, vou dar sinal. Não sabia que aqui passava ônibus. Melhor se tiver só o motorista. Sabe, Rosalvo, há um deles que me paquera. Quem sabe seja hoje o dia de sorte do homem. Não precisa, não, Rosalvo. Já dei sinal, está quase parando, vou entrar. A surpresa, Rosalvo? Ficou para o motorista. É ele que me vai levar. Pode me olhar de frente, moço, sou eu sim, e sou sem vergonha, não é você que sempre passa às quatro e meia em frente à escolinha? Então, é o seu dia de sorte. Não acredita? É verdade. A verdade às vezes dói, mas a de hoje é só prazer Não precisa ficar com vergonha, não, moço. A pelada sou eu!"