quarta-feira, julho 19, 2017

Hóspede

Célia pede que suas amigas escrevam histórias interessantes. Não sou muito de escrita, mas vou contar algo engraçado que aconteceu comigo. Peço a ela a devida correção para que este texto venha ter a elegância e o estilo que costuma dar aos seus.

À época eu trabalhava numa pequena pousada, em M. Ficava na recepção, mas também fazia outros serviços, como arrumar os quartos enquanto os hóspedes saíam. Os frequentadores eram costumeiros, trabalhavam durante alguns dias na cidade, no final voltavam aos seus locais de origem, na semana seguinte retornavam, acabavam assim criando uma rotina de hospedagem e de amizade comigo e com a proprietária da casa. Sempre fui travessa, adoro namorar, mas naquele tipo de trabalho tentava me manter sob controle. Um dia, porém, houve um hóspede por quem me afeiçoei, alguém muito especial. Conversava comigo como se fosse sua amiga de longa data, mostrava-me livros e jornais sobre assuntos interessantes, como se eu fosse pessoa igual a ele. Com o passar do tempo, começou a fazer algumas brincadeiras, dizia que eu era bonita, chegou a perguntar se tinha namorado e se gostava de sair à noite para uma bebida. Portei-me com naturalidade, respondendo o possível. Chegamos a beber uma ou duas cervejas tarde da noite, na própria pousada, após o término do meu serviço. Certa vez acabamos abraçados junto às mesas, já arrumadas para o café da manhã. Mas o principal veio a acontecer há duas semanas. Ele chegou à pousada por volta do meio-dia. Havia apenas eu no local. Atendi-o e entreguei-lhe a chave do apartamento. Perguntou se eu podia passar lá em cima um pouquinho depois, deu um sorrisinho malicioso e subiu. Fiquei a pensar o que significava aquele sorriso, afinal, os homens são muito parecidos uns com os outros, o que acontece na maioria das vezes é alguma diferença de educação. Era o caso dele. Esperei quinze minutos e subi. Bati. Logo veio atender. Entre, por favor, convidou. Entrei e me encostei à parede, ao lado da porta. Esperei para ver o que me aguardava. Mas ele parecia sem graça, permaneceu calado, como não soubesse o que dizer. Vou ajudá-lo, pensei. Você está satisfeito com o quarto?, é de frente, pode apreciar a rua, apontei. Você trabalha aqui faz tempo, não?, mostrou-se interessando pelo meu trabalho. Respondi que sim, disse que já havia me demitido duas vezes e depois voltado, a cidade oferece poucos empregos para uma pessoa como eu. Você é bonita, não deve ser difícil arranjar emprego numa empresa maior, sugeriu. Não é assim que as coisas funcionam aqui, não contratam pela beleza, mas pela qualificação. Olhou-me de cima a baixo, mas com suavidade. Depois se levantou e se aproximou. Coloquei as mãos na cintura e esperei mais uma vez a iniciativa dele. Mas ele ainda permaneceu parado. Após alguns segundos perguntou você pode ficar aqui um pouco, vai chegar alguém para se hospedar? Acho que não, respondi, à hora do almoço o movimento é fraco. Segurou-me, então, pela cintura. Aceitei suas mãos e o abraço. Como era demorado nos movimentos, desabotoei o botão da minha bermuda. Chegou mais perto e puxou o fecho. A bermuda abriu-se e foi ao chão. Segurou no elástico da minha calcinha e a desceu totalmente. Levantei os pés, um após o outro. Com aquela pequena peça nas mãos ele a dobrou e guardou num de seus bolsos. Achei o gesto engraçado, dei uma gargalhada. Não fiquei apenas sem a calcinha, deixou-me também sem a blusa e sem o sutiã! Inteiramente nua, encostada à parede, senti-me bem assim. Abraçou-me e me apertou forte, contra a parede. O tecido de suas roupas sobre a minha pele causou-me algum prazer. Jamais eu estivera numa posição daquela, nua e agarrada a um homem vestido. Continuou abraçado ainda durante alguns segundos. Em seguida, levou-me para cama, tirou toda a roupa e pediu que eu sentasse sobre ele. No começo fiquei preocupada, vai me machucar, pensei ao reparar o tamanho do seu peru. Mas fui ficando úmida, e a penetração acabou acontecendo. No início uma certa dorzinha, depois o prazer. Tanto maior quanto mais fundo me penetrava. Comecei a gemer e a dar alguns gritos. Eu estava mais à vontade que ele, por isso senti mais prazer e cheguei a gozar primeiro. Pedi, então, que viesse por cima. Mudamos de posição e ele me penetrou de novo. Não demorou a gozar. Assim que acabamos, ouvimos a campainha. Vá à janela e olhe quem é, mas de modo disfarçado, sussurrou. Era a proprietária chegando com uma bolsa de compras. E sua única funcionária pelada no quarto de um hóspede! Vesti correndo a bermuda, a camiseta e desci aos saltos a escada. Abri a porta. Oi, Dona Marinete, como vai, por que não pediu que eu fosse ao mercado pra senhora?

quarta-feira, julho 12, 2017

Vou contar o que senti!

Recebi carta de um ex-namorado. Isso mesmo, uma carta, quem diria. Veio manuscrita, letra bem desenhada, autêntica obra de arte. Diz sentir saudades de mim. Que privilégio, saudade, algo difícil de explicar, de traduzir, inclusive palavra existente apenas em português. Deve ser verdade. Os portugueses foram longe, deixaram muita gente atrás de si, mulheres, filhos, amantes, muitos jamais retornaram. Não desejo avançar, atravessar todas as fronteiras, dar a volta ao globo terrestre, como fizeram os portugueses, quero apenas a carta, sua letra cursiva, a história de amor que comporta, amor e fantasia. O homem me faz alguns pedidos. Está sempre a me imaginar bela, apesar dos anos. Arrepio-me ante suas palavras. Caso não tivéssemos vivido várias aventuras, surpreender-me-ia. O que deseja? Transcrevo suas palavras.

Você costuma estar só, costuma viver o prazer de uma tarde de outono, escuta a música silenciosa presente no ar, percorre os cômodos, senta à uma poltrona na sala com um livro à mão, lê uma boa história, sonha com os personagens. Portanto, peço a você que faça uma representação. Torne-se uma personagem durante alguns instantes, pelo menos para mim. Dispa-se, isso mesmo, tire toda a roupa, todinha, nada sobre o corpo. Ponha-se a caminhar pela casa, como alguém que procura algo. Você lembra-se de uma bolsa a tiracolo, preta e de verniz, pequena a bolsa, uma gracinha. Vai ao encontro dela, deve estar num dos armários. Você possui tantas coisas, guarda os objetos queridos, mesmo os não mais em uso. Encontra a bolsa, lembra-se de uma saída noturna, você carregava a pequena bolsa, quase um bibelô. Você a põe pendurada ao ombro. Não esqueçamos, você está nua. A seguir, observa os pés. Não é possível portar uma bolsa tão mimosa e vestir pantufas. Vai até o outro armário e olha os sapatos, as sandálias, os de saltos mais altos. São tantos. Escolhe um deles, que reflete a mesma cor e brilho da bolsa, quem sabe foram comprados juntos. Deixa as pantufas ao lado da cama e calça o sapato de meio salto, quase clássico. Olha-se no espelho, vê-se refletida, corpo inteiro, a bolsa e o sapato. Caminha pela casa, dirige-se de novo à sala. Está pronta para sair. Um passeio, uma festa especial, não sei, convite de um admirador. Mas ainda não é a hora, é possível sentar-se e aguardar, ler uma página de revista antes. Chega-se ao sofá, senta, deixa a bolsa ao lado, toma nas mãos a revista, há várias na mesa de centro. Abre, percorre as primeiras páginas, cruza as pernas. Sente certo frisson, prazer talvez sentido poucas vezes, experiência nova, você nua, dentro de casa, arrepio a lhe correr o ventre. Cruza a perna na direção oposta, agora a direita sobre a esquerda. O sapato destaca-se. Após um quarto de hora, deixa a revista, levanta-se, ajeita a bolsa a tiracolo, dá alguns passos até à porta, é a hora, barulho de motor lá fora. Vai você, aventura. Mas pode andar mais um pouquinho pela casa. Faça de conta que ainda não terminou de se aprontar. As mulheres são mais demoradas, esmeram-se. Senta-se novamente, sente pequena ardência que pouco a pouco vai crescendo, até tornar-se um sol que a excita, como o sol de uma manhã de verão, uma espécie de prazer, um prazer quase indescritível (na praia, o calor deste sol se ameniza com um mergulho). Mas na sala, totalmente nua, bolsa a tiracolo, sobre um sapato de meio salto, você tenta se conter, quer deixar o momento de prazer para mais tarde, junto ao namorado que a espera dentro do carro, diante do portão. Como se chama mesmo o prazer que é caro às mulheres? Ah, sim, você sabe tão bem, as mulheres querem sempre mais...

quarta-feira, julho 05, 2017

Ninguém no meu pé

Faz alguns meses me separei, deixei a região serrana e voltei para a cidade. Como as notícias correm rápidas, um homem começou a rondar minha nova residência. Às vezes, essas pessoas provocam medo na gente. Mulher é um ser frágil, há quem se sinta no direito de nos perseguir para obter vantagens. Por mais que se aproximasse e puxasse assunto, não dei conversa. Cansou e deu um chá de sumiço.

Num sábado de sol, resolvi ir à praia. Como meu biquíni era antigo, corri ao centro e comprei um novo. Estava tão eufórica que aceitei um biquíni menor do que costumo usar, acho que era o sol a me provocar. Do centro mesmo fui a Cavaleiros, bem naquele pedaço em que a praia termina e começa o Pecado. Aliás, avancei mais um pouco, e fiquei num local de pouca gente, acho que uma mãe com duas crianças, alguns jovens a trinta metros, uma mulher alta mais adiante etc. Estendi minha toalha, finquei o guarda-sol, e me deitei. Estava tão agradável o ar que dormi durante uns vinte ou trinta minutos. Cheguei a sonhar. Um sonho como uma amiga dizendo praia me dá tesão. Logo que começa a tomar sol e sente o corpo esquentar, é assaltada por uma vontade louca de trepar. Não sai por aí agarrando o primeiro que aparece, disse que se contém e gosta da sensação. Certa vez um homem insistiu para tirar uma foto dela, você tem o corpo perfeito, afirmou. Não gosto de fotos, por favor. Não fez a foto, mas ficaram os dois conversando. Não vai mergulhar?, ele quis saber, está muito quente. Sabia que o mergulho na água fria lhe aumentaria o desejo por sexo, temia não resistir e entregar-se ao homem. Acabou dizendo não entro n’água. Ele foi sozinho.

A história provocou-me arrepios. Ainda bem que ninguém por perto, nem um paquera, estava esquecida em meio à areia, o mar, e aquela pouca quantidade de gente. Fui dar um mergulho. Após entrar n’água, nadar, voltei-me para a areia, surpreendi-me, um jovem muito bonito, de corpo de esportista, estava próximo ao meu guarda-sol. Será que espera por mim?, refleti. Voltei para junto dos meus pertences. Ele distanciou-se, esperava um amigo. Quando este chegou, foram juntos para o mergulho. Não olhou nem um instante para mim. Mesmo que estivesse nua, ele não repararia. Lembrei-me do meu paquera do quarteirão, você aceita uma cerveja?, perguntaria. Não sou de cerveja, obrigada, eu tinha pronta a resposta. Ele manteria a pose, tiraria do bolso o maço de cigarros, acenderia um, sorriria, olharia o mar e soltaria a fumaça de modo que não me incomodasse. Posso ficar um pouco na sombra?, perguntaria olhando o guarda-sol vazio. Nesta cidade os homens são invasivos, insistentes, as mulheres querem independência, não desejam ninguém na cola. Se houvesse homem que trepasse com a gente e depois fosse embora, nada comentasse, só aparecesse caso fosse chamado, seria ótimo. Mas este não é assim, vai acabar achando que é meu patrão. O jovem que esperava o amigo era de outra qualidade, adoraria ser paquerada por ele, quem sabe rolasse algum namoro. Mas o jovem não voltou, agradou-lhe mais o amigo. Fiquei na praia até as três ou quatro horas. Ora sob o sol, ora num mergulho refrescante. Tive vontade de trepar sim, como minha amiga do sonho, mas fiquei só na vontade, e a vontade é boa quando a gente sabe mantê-la, há todo um gozo nisso.

Numa noite dessas houve festa na serra. Quando há esse tipo de evento, vem gente de fora, até mesmo de outro estado. Arranjei um namorado só para aquela noite, muito parecido com o jovem da praia, achei até que podia ser ele, mas nada perguntei. O importante é que homens de fora não voltam para ficar no pé das mulheres daqui. Então, entreguei-me. Fiz de conta que era a maior piranha do lugar. Trepamos dentro do carro dele. Onde estacionara, não havia ninguém, todos estavam longe, na festa. Tirei toda a roupa e fui por cima. O peru do homem estava tão duro, mas tão duro, que parecia prestes a explodir. Abri as pernas e sentei sobre o rapaz. Chegamos o banco do motorista para trás, assim eu tinha onde esticar uma das pernas; para a outra, foi preciso abrir a porta. Então, eu controlava a trepada, descia e subia. No início demorei para acertar, mas pouco a pouco fui ficando molhadinha, a partir daí foi fácil, escorregava no pau do homem como num pau de sebo. Quando eu sentava totalmente sobre aquele sexo enorme, sentia o volume bem fundo dentro de mim. A loucura foi tanta que perdi a cabeça, mesmo sem conhecer o tal jovem acabei deixando que gozasse dentro de mim. Mas foi só naquele dia. Depois que terminamos, me vesti e voltei para festa. Ninguém no meu pé!

quarta-feira, junho 28, 2017

Amigo

Naquele tempo a praia do Flamengo tinha uma parte reservada. Havia pedras formando uma barreira, acho que separava a praia de um matagal, local onde depois viriam construir a Marina, a seguir se estendia a própria praia, que todo mundo frequentava. Mas a gente gostava mesmo era da parte escondida, onde se podia ficar à vontade. Nos reuníamos desde às onze ou doze horas da manhã, as meninas, como éramos conhecidas, e aproveitávamos para tomar banho sem o top. Podia aparecer alguém ou, quem sabe, a polícia? Na teoria, sim, mas não na prática. Quero dizer, tínhamos protetores com boas relações. A polícia não aparecia ali. Caso acontecesse, era para nos admirar e nos proteger. Entrávamos n’água e nos cobríamos até o pescoço, ninguém sabia que estávamos seminuas. Às vezes surgia na pequena extensão de areia alguns curiosos, já sabiam que nos banhávamos naquele trecho, disfarçavam e esperavam que saíssemos d’água, alguns se escondiam ou faziam de conta que não nos observavam, mas queriam mesmo era nos surpreender com os seios de fora. Que bobagem tudo aquilo!, o que tem de mais uma um ser humano qualquer com os peitos de fora? Mas toda aquela gente sentia muita graça nisso, muita excitação. Certo dia apareceu um homem jovem que entrou n’água e veio até nós, arranjou uma conversa fiada e esperou que ríssemos de suas piadas. Amelinha foi na onda, aceitou a brincadeira e resolveu ficar frente a ele, conversando e se divertindo. Ele não sabia do principal, ela me contou depois. Como?, indaguei. Não sabia mesmo, quando disse, continuou Amelinha, ficou surpreso, como vocês fazem para que ninguém note?, perguntou, a voz dele, segundo ela, trazia alguma excitação; as pessoas notam, sim, elas sabem, e convivem com isso, disse minha amiga; eu não notei, ele falou; agora que você já sabe..., ela sorriu, sem concluir. Ele,  porém, entendeu de outra maneira, abraçou-a, achou que fosse um convite. E você deixou, Amelinha?, perguntei. Ele era musculoso e fofinho, observou. O homem agarrou-se a ela e não quis soltá-la de modo algum. Ficaram no abraço apertado. Por que você não toma banho de mar nua por inteiro, ele quis saber; à princípio senti um arrepio, depois me refiz e respondi seria um escândalo, não?, apenas os seios de fora já está até bom demais, você não acha melhor a gente marcar pra depois, num outro lugar?, disse Amelinha, fazendo de conta que estava incomodada com o abraço, que durava. Qualquer homem aceitaria, mas ele... Que tal aqui, agora e depois?, ele, malandramente. Ela não teve outra saída senão rir. Se não o quisesse, deveria ter recusado desde o começo. Então, aconteceu. Ficaram os dois durante mais de uma hora. Vem cá, Rosana, preciso de você, ela me chamou depois que o rapaz partiu. Que bom eu ia por perto, a gente sempre ajuda os amigos. Ela estava tranquila, e ria muito. Esses rapazes são muitos traquinas, adivinha o que ele quis? Um beijo na boca, respondi afoita. Nada disso, deslize as mãos aqui. Segurou minhas mãos fazendo que descessem desde a cintura até a coxas. Deixei escapar um ah! Ele disse que devolve no nosso encontro de logo mais, vou tentar acreditar, sorriu. Amelinha tem bom humor. Esses engraçadinhos são tão sedutores, cheguei a dizer. Minha amiga concordou, concordou e suspirou.

quarta-feira, junho 21, 2017

Mecânica

Você compreende?, a maioria dos homens não, eles acham estranho mulher comandar oficina mecânica. Antes era eu e me meu ex-marido. Ele era responsável pelo setor de reparos e manutenção, eu pela administração e contabilidade. Depois do divórcio, me tornei a responsável por tudo. Algumas pessoas pensaram que não daria certo uma mulher no comando de um tipo de trabalho segundo elas muito masculino. Mas consegui, a oficina vai bem, obrigada, às vezes com mais automóveis do que antes. Outra coisa também, muito interessante na imaginação de muitas pessoas, é que uma mulher no meio de tantos homens serve apenas para despertar fantasias sexuais. Já tive um namorado que me perguntou se eu já havia transado com alguns dos meus mecânicos. Acho que me imaginava nua entre eles, o corpo escorregadio luzindo a lubrificante. Os homens sentem tesão ao pensar nisso. O tal namorado podia me ter conquistado, podia ter permanecido comigo, quem sabe se tornado meu companheiro, mas sua mentalidade não era de um verdadeiro homem. Aliás, até agora não encontrei verdadeiros homens, pode ser que eles não existam, ou existam apenas na cabeça das mulheres. O importante é que tenho meu meio de sobreviver, a oficina, espero que continue assim. Há pessoas que me acham uma pessoa sem cultura, tudo porque este tipo de trabalho não é intelectual, mesmo que eu tenha de fazer contas, saber preços, e entender de alguns sistemas. Acham que o importante são as profissões universitárias, o chique é frequentar bibliotecas ou auditórios de faculdades. Ledo engano. O fato de alguém viver em meio a cheiro de óleo, de graxa não significa que seja pessoa sem cultura. Os homens que se aproximam de mim é que precisam, pouco a pouco, descobrir minhas qualidades. Leio livros sim, e muitos. Você reparou minas roupas?, não uso roupas curtas ou extravagantes, no máximo calças de liga, como a que estou vestindo hoje. Mas não acho este tipo de roupa indecente, porque modela as coxas e deixa o bumbum saliente. Mulheres vestidas assim não estão à procura de homens, como algumas pessoas imaginam. E ter homem, hoje em dia, na maioria das vezes não é bom para as mulheres. Eles perturbam e, quase todos, primam pela infidelidade. Há mulheres que traem seus maridos, mas é muito maior a quantidade de homens que traem as suas mulheres, além disso, após nos conquistarem partem imediatamente para outra. Ah, acho que já falei demais, agora fale um pouco, quero saber se você é diferente dos outros. E tem ainda uma coisa, a maioria do público masculino deseja logo levar a mulher para cama. Eu posso deitar com alguém, mesmo à primeira vista, mas se noto que tenta me enganar não apareço mais, deixo na saudade. Houve um que vinha aqui para a manutenção do seu carro, ao perceber que vivo sozinha passou a frequentar a oficina, mas com outros fins, como me ver, e me convidar para um cafezinho aqui ao lado. Era muito charmoso, mas descobri que era casado. Não deixaria de sair com ele por razões morais, mas porque mentiu. Então lhe disse que poderia ser sua amiga, no máximo, nada de ficar me cantando o tempo todo. Conclusão, não apareceu mais.

quarta-feira, junho 14, 2017

Tatuagem

De repente recebi a mensagem, e fiquei desconcertada. Após tanto tempo sem falar comigo, como ele poderia me fazer um pedido daquele? Uma foto, era o que queria, e da minha tatuagem. Pelo menos poderia ter perguntado se eu ainda a conservava. Tatuagens não saem sozinhas, mas eu poderia ter desistido, poderia tê-la apagado, ou mesmo feito outra na mesma pele. Mas ele foi taxativo, queria a foto, ainda salientava pode fotografar apenas o local, nada de maiores detalhes. Sabia aquele ex-namorado que dois centímetros abaixo apareceria na fotografia algo que eu, antes, gostava muito de mostrar. Você está sozinha, separada, argumentava ele, não há problema algum me enviar uma foto de tua tatuagem, ninguém vai saber de quem se trata, ou quem porta o desenho. O que respondo?, ou deixo sem resposta? As pessoas dizem por aí que se a gente responde é porque já há alguma atração, algum interesse. O silêncio é a resposta de quem nada sente, se não sente não há o que dizer. Mas não sou mineral, não sou pedra. Estava colocada a questão. Já que sou de carne e de osso ficaria a me perguntar, a desenhar possibilidades? Lembrei-me das histórias de Clarice Lispector. A narradora  não conta histórias, nada num mar cheio de escolhos, sempre o naufrágio iminente, mas não desiste, luta com palavras, formulações que lhe servem de coletes salva-vidas. E mesmo assim há o risco do choque, há pedras a esmo, minas prestes a explodirem. A paixão segundo G.H., O livro dos prazeres, A hora da estrela. Nomes sugestivos para histórias terríveis. Uma pergunta aparentemente sem importância, muitas palavras, e a responta cada vez mais distante. No final, percebe-se a mulher não mais à procura de sua inteireza, mas consciente de que é fragmento, mesmo assim desejos e orgulho presentes, não se abandona o que temos de mais precioso. "- Veja aquela moça ali, por exemplo, de maiô vermelho. Veja como anda com um orgulho natural de quem tem um corpo. Você, além de esconder o que se chama alma, tem vergonha de ter um corpo." Gostaria de ser como Clarice, escrever livros e mais livros por uma causa que poucas pessoas enxergam, ou às vezes acham-na banal: uma mulher que descobre a sujeira deixada pela faxineira, e acaba por se ver sozinha diante do irremediável. Meu corpo, o irremediável. Volto ao ex-namorado, ao seu pedido, à minha tatuagem. Tenho amigas que se olhariam no espelho, pousariam as mãos sobre as coxas, sorririam a si mesma, e não perderiam mais tempo, enviariam a tal foto e esperariam pelo homem. Conheço uma que o esperaria nua, a tatuagem à mostra, mesmo que não a tivesse inventaria. Mas, quanto a mim, as coisas marcham devagar, por isso há quem diga que estou ficando velha, que já não tenho interesse por sexo. Não é verdade, claro que me interesso, sobretudo por sexo, vamos, porém, sem precipitações. Minha resposta levou alguns dias para sair, mas saiu, curta, e partiu: foto da tatuagem? Ele não enviou contra-resposta, era o jeito dele. Minha indagação ficou no ar. Pronto, acho que não mais incomoda, talvez eu tenha encontrado a solução, uma pergunta em relação ao pedido, uma pergunta que repete o próprio pedido, como se eu não tivesse entendido. Morreria o assunto, ele que procurasse tatuagens no corpo de outras mulheres, ou onde quer que fosse. Caso eu entrasse no jogo dele, sei que rolaria cama, mas era isso o que eu queria? Então, melhor esperar. Três dias depois, enviou a contra-responta. Cadê a foto? Naquele momento comecei a arder, e quando uma mulher arde não há água que lhe apague o fogo. Foi então que percebi um homem que rondava a minha casa fazia três dias. Seria um ladrão, um tarado? Comecei a ficar preocupada. No quarto dia, porém, veio conversar comigo, perguntou se eu ainda frequentava a praia, em frente ao Country. Respondi que sim, mas apenas quando fazia calor, o tempo ultimamente não estava para praias. Falou que atendia no quiosque em frene, e que eu parava pra tomar vez ou outra um refrigerante. Lembrei-me do homem, era eu mesma, disse a ele. Sorriu. Estou com um pequeno restaurante no final da praia perto do Pecado, aparece lá, é um convite. Lembro também da tua tatuagem!, finalizou e se despediu. Voltei pra casa matutando os dois acontecimentos, o ex-namorado com o pedido de uma foto e esse agora, que me servia no quiosque. Não respondi mais ao primeiro, estava muito longe, o que passou passou. No domingo seguinte choveu, não saí de casa. Mais uma semana e um sol de arder. Preparei-me, nada de facilitações, fui à praia. Cheguei às dez, apenas uma e trinta fui ao restaurante. Meu admirador logo me avistou, veio à porta receber-me e arranjou uma mesa especial pra mim. Deixei-o louco, eu vestia uma sainha curta e miniblusa, o biquíni por baixo, a tatuagem aparecendo e escondendo-se. Depois de almoçar, conversar, beber uma caipirinha, agradeci e fugi do homem. Se ficasse, não daria bom resultado, não é bom deixar que nos desatem o biquíni num primeiro encontro. Aliás, nem seria o primeiro, mas pra ficar nua sob a sainha seria, sim. Deixei passar uma semana, quem sabe duas, então voltei. Então... Melhor vocês imaginarem. Quero ainda dizer, por mais que imaginem ainda vai faltar alguma coisa!

quarta-feira, junho 07, 2017

Marquinha do biquíni

Esta história aconteceu há mais ou menos dez anos. Na época, ainda não havia por aqui smartphones, escrevi e arquivei num notebook antigo, que logo pifou. Agora, que consegui recuperar a memória daquele computador, descobri acontecimentos que vivi e anotei, algumas histórias estão prontas. A que vai a seguir é uma delas.

Estávamos numa praia retirada. Este é mesmo o melhor vocábulo: retirada. À época, ainda não havia estrada para chegarmos a ela. Foi preciso escalar um morro, acho que uma hora ou uma hora e meia de subida e descida. Ao pisarmos nas areias, eu, Augusta e Frida sentimos um friozinho no estômago. Que maravilha!, ninguém a nos incomodar, uma praia inteira para nós, quem sabe pudéssemos mesmo acampar, passar ali vários dias.

“Não trouxemos tenda para acampamento”, alertou Augusta.

É mesmo, estávamos mesmo desprevenidas, apenas a roupa do corpo, o biquíni por baixo e cada uma com sua bolsa e o conteúdo que toda mulher acha necessário para as circunstâncias.

Estendemos nossas tolhas sobre a areia, abrimos um guarda sol, nem precisamos nos preocupar com nossos pertences. O mar estava maravilhoso, as ondas explodiam longe, havia uma extensa faixa de areia, a água transparente chegava mansa, respeitosa, quase surpresa com nossa presença.

“Sempre quis bronzear os seios”, disse Augusta excitada pelo momento, “nada de marca do top, dessa vez meu namorado vai ficar surpreso, como você pode ter marquinha do biquíni e não do top?, ele vai perguntar.”

“O que você vai dizer?”, Frida falou de olhos bem abertos.

“Vou sugerir que adivinhe”, completou demonstrando muita alegria.

Acompanhamos seu entusiasmo.

“Você tem razão”, disse eu, “aqui não há ninguém, podemos até mesmo ficar nuas.”

“Nua, nua, acho melhor não, vou ficar apenas sem o top”, afirmou Augusta, e foi tirando a parte de cima do biquíni, admirou os próprios seios, olhou para nós duas e riu, depois se deitou esquecida da vida. Não passou muito tempo para Frida seguir seu exemplo, primeiro deitou-se de costa, depois soltou os laços, puxou o sutiã com os seios encostados na toalha e permaneceu na posição, seus seios grandes pressionando a toalha. Pediu que eu passasse o protetor solar. Fechou os olhos e fez de conta que aquilo era a ação mais normal do mundo.

Eu, que sou um tanto atirada, até ali permanecia vestida, as duas peças nos devidos lugares. Caminhei à beira d’água e molhei os pés, estava gelada, mas dava para experimentar certo frisson. Olhei o mar, o horizonte, depois virei-me para as extremidades da praia, acompanhei a extensão de areia, a cadeia de montanhas que se erguia do lado oposto e o caminho de onde viemos. Voltei ao guarda-sol e só então me desfiz do top. Espalhei um pouco de protetor sobre o ventre, sobre os seios, e permaneci deitada, de peitos voltados para o sol.

Após trinta minutos, achei que as amigas tinham dormido. Nenhuma delas falara alguma coisa durante aquele espaço de tempo nem abrira os olhos. Pensei, então, que poderia aparecer alguém. Talvez seguisse o mesmo caminho que fizemos. Olhei na direção, mas não vi ninguém. Seria engraçado caso chegasse um homem e desse com nós três de peito de fora.

Veio-me à mente uma lembrança, acho que em Búzios, fazia alguns anos. Eu decidira tomar sol de seios de fora e aparecera alguém. A princípio não liguei, mas depois comecei a ficar preocupada. Nesses lugares às vezes os homens são machistas, acham que podem agarrar, trepar com uma mulher que encontrem nua, não acham que ela tem seus desejos, suas preferências e que o desconhecido pode não estar em seus planos, e que mesmo não ficamos nua com o objetivo de trepar com o primeiro que aparece. Mas não aconteceu nada de mais, apenas ficamos conversando. Depois de algum tempo, peguei um enorme chapéu que trouxera para me proteger do sol e com ele cobri os seios. O homem sorriu e nada comentou, fumou um cigarro comigo e partiu.

“Meninas, vocês vão dormir a manhã inteira?, viemos à praia para curtir”, falei.

Ambas abriram os olhos e mudaram a posição, Augusta de ventre para cima, Frida de costas. Reparam que eu também estava sem o top e enrolara um tanto a calcinha para que a marquinha ficasse mais baixa.

“Será que aparece alguém?”, perguntei.

“Seria, bom, está tão monótono”, disse Frida, mas em tom de pilhéria.

“Jura?”, eu disse, “você não se sentiria vexada?”

“Eu, não, ninguém me conhece aqui, seria mesmo muito bom.

Reparei que ela não brincava.

Augusta riu, pareceu concordar com Frida. “Se alguém nos vir nuas vai achar que damos pra qualquer um, vamos ter problemas para nos safarmos.”

“E quem disse que quero me safar”, continuou Frida, com toda graça do mundo.

Mergulhamos, caminhamos pela areia, divertimo-nos, fizemos nossos lanches e bebemos o refresco que trouxemos. Sempre de seios nus.

Às quatro da tarde vestimos nossas roupas e pegamos o caminho de volta. O sol e a praia nos deixaram cansadas, mas pouco a pouco subimos e descemos o morro. Do outro lado, descobrimos um quiosque. Antes de partirmos, decidimos entrar e sentar um pouco. Frida pediu uma cerveja.