quarta-feira, maio 25, 2016

Não pude deixar de rir

Franzi a testa. Não pude deixar de rir.

“Você é louco”, falei.

“Por quê?”, ele fez de conta que não entendia.

“Você vai me deixar assim, aqui?”

“Assim?, não estou entendendo”, ele queria que eu definisse o que era estar assim.

“De calcinha e sutiã.”

“Ah”, fez uma expressão de satisfação, “de calcinha e sutiã”, repetiu, “não foi você quem sugeriu?”

“Sugeri, mas para namorar com você, não sabia que te excita tanto deixar uma mulher pelada numa praia, de madrugada.”

“Não é só excitação”, ele disse e me abraçou, “achei que você queria experimentar.”

“Experimentar? O que posso experimentar a mais do que estar nua pra você num lugar público?”

“Já vi mulheres que desejaram experimentar uma sensação maior, trata-se de um tipo de desafio.”

“Pode explicar melhor?”

“Claro”, ele me puxou pra junto dele, beijou minha testa, depois continuou, “uma delas me pediu para sair nua do apartamento. Que eu fechasse a porta. Dias depois, escreveu a experiência.”

“Ela ficou nua do lado de fora?”

“Isso mesmo, nua e trancada do lado de fora. Após dois minutos, bateu pra eu abrir. Ela disse, então, que sentiu um calafrio de abandono.”

“Ela escreveu a experiência?”, fiquei curiosa.

“Isso mesmo. Se quiser, trago pra você ler. Mas ela romanceou, as coisas não saíram tão bem como esperava.”

“O que ela esperava?”

“Que eu abrisse logo a porta. Mas não foi o que eu fiz. Deixei a mulher de molho por um bom tempo. Por isso, naquela noite, ela ficou furiosa. Uma ou duas semanas depois, porém, quis ir nua de novo lá fora.”

“Não quero ficar nua durante nem mais um minuto, vamos embora, quero o meu vestido, por favor”, comecei a ficar nervosa. Puxei seu braço com a intenção de voltarmos ao carro.

“Vamos ficar mais um pouco", mostrou-se irredutível. "Você sabe que posso ir embora e deixar você nua.”

“Você não faria isso. Qual o motivo?”

“O motivo?”, repetiu, “não sei, talvez certo prazer.”

“Você sente prazer em me abandonar nua? Isso significa que você gosta de maltratar as mulheres, ou mesmo que não gosta do sexo feminino.”

“Quem sabe”, ele disse em voz baixa.

“Com quem fui me meter”, deixei escapar, “você é louco mesmo. Já saí com muitos homens, nenhum deles me fez passar por uma situação tão constrangedora.”

"Você está constrangida?, foi você que suspirou 'vou descer de calcinha e sutiã, é uma antiga fantasia, ficar nua na praia, de madrugada'.”

“Concordo que falei, mas não sabia que as coisas tomariam outra direção."

"As mulheres sempre querem manipular os homens. Quando a situação fica fora de controle, se tornam desesperadas."

"Você sabe que vou ter problemas caso você me abandone nua aqui. Logo vai chegar alguém. Pega minha roupa, vai, do contrário não quero saber mais de você.”

“Jura? As mulheres adoram correr perigo, e acabam sempre voltando.”

Que loucura! Refleti rápido e conclui que, para sair de modo favorável da tal situação, precisava representar. Sorri falsamente e disse:

"Ok, vamos combinar algo diferente", minha fisionomia passou a ser de deboche, mas por dentro estava morrendo de raiva, "não precisa ir buscar minha roupa." Soltei as alças e abaixei o sutiã,  meus seios se mostraram, virei o fecho pra frente e abri a presilha, "pega, vai, guarda também isso lá", entreguei a peça a ele. Como não esperava por isso, ficou com o sutiã nas mãos, meio envergonhado. "Vou dizer mais uma coisa, continuei, "digamos que não aconteceu comigo, mas com uma amiga. O namorado fez essa mesma brincadeira, deixou a mulher nua e se foi. Sabe o que aconteceu?" Ele continuou olhando, curioso, colocou as mãos pra trás, ainda segurando o sutiã. "Ela conheceu outro homem e foi com ele."

"Verdade?", arregalou os olhos.

"Verdade, e este era muito melhor!", dei minha última carta e aguardei sua reação.

"Espera um instantinho", ele disse, "vou até o carro guardar isto", mostrou meu sutiã e deu as costas.

Enquanto subia a faixa de areia, acompanhei-o sem que ele percebesse. Temia que ele fosse embora. Ao destravar o carro, abri a porta de trás ao mesmo tempo que ele abriu a da frente. Como estava escuro, não notou. Por instinto de sobrevivência, peguei meu vestido enquanto ele lançou a pequena peça sobre o banco do carona. Em seguida, fechou a porta. Tudo aconteceu muito rápido. Depois desceu à praia pra encontrar comigo. Quando chegou ao local onde estivéramos, olhou prum lado e pro outro. Me procurava.

"Ei, estou aqui", falei.

"Ah, pensei que alguém já tinha levado você", me abraçou e me beijou na boca. "Vamos passear um pouco", sugeriu, "Você acha que eu ia mesmo abandonar você nua aqui?"

Eu havia largado o vestido num ponto da areia um pouco acima, antes de ele me avistar. Não queria dar o braço a torcer. Ai, agora é que volto nua pra casa, cheguei a pensar; não faz mal, me animei a seguir, não vai ser a primeira vez. Como eu representava, não era Miriam que desfilava nua, de braço com o namorado, sobre as areias da praia. Mas, digamos, Sílvia. Que bom os muitos cursos de teatro! Franzi a testa. Não pude deixar de rir.

Para lidar com um maluco como esse namorado, só uma mulher como a Sílvia; Além de louca, era muito safada. Mais adiante tirou a calcinha e pediu que ele a guardasse no bolso. E, antes de nascer o sol, gozou duas vezes. Uma trepada de dar gosto.

terça-feira, maio 17, 2016

Nem vou espichar o vestidinho

Estou numa festa, sentadinha na sala, pernas cruzadas, vestido curtinho. Todo cuidado é pouco. Há pessoas conversando, umas riem, outras falam alto, vários assuntos alçam ao espaço, enredam-se. Ao meu lado uma mulher quase grita o sexo é ótimo, outra diz que os homens têm mais fogo do que as mulheres. Não chegam a um acordo. Os desejos são os mesmos, a da ponta alerta olha o preconceito. Nada falo, apenas sorrio discreta. Um garçom com as bebidas, de que o coquetel? Cereja. Delicioso. As mulheres não sabem sobre o meu desejo de sexo. Não adianta afirmarem que somos menos fogosas do que os homens porque o sexo deles é pra fora e o nosso pra dentro. Que absurdo! Os homens, tão pouco na festa, conto nos dedos, olham pra mim. Também, pudera, tão curto o vestidinho. As travestis, uma intervém, têm o maior dos fogos, o fogo dos homens e o das mulheres ao mesmo tempo. Uma gargalhada confortável, o arrepio. Um rapaz aproxima-se, junta-se a nós. Nossa conversa é indecente, acrescenta a terceira do sofá. A música convida, diz a dona da festa. Muita gente quer ver debaixo da minha roupa coladinha ao corpo, o tecido encolhendo, subindo, incluo na conta algumas das mulheres. Dançamos soltas, passos fingidos, movimentos medidos. O namorado quer a menina nua, não aqui nem agora, uma lembrança enquanto sinto as coxas bem arejadas, ele quer levá-la a passear sem peça alguma, ela vai sentada no banco do carona. A dona da festa vem dançar comigo, me toma pela cintura, desce um pouquinho uma das mãos. Já sei, quer saber se estou sem calcinha. Acho que se decepciona. Sabe a Karem, diz ao meu ouvido, olha pra ela, a saia fofa, também muito curta, é um tal de ir ao toalete, completa enquanto dá um passo atrás e faz que vai ao outro canto da sala. Lembra a Dina?, uma das moças vem junto a mim. Dina?, pergunto. Vai dizer que não lembra?, a travesti, afirma peremptória. Ah, finjo surpresa, o que houve? Vem à festa, diz. Que bom, afirmo fria. Dá ultima vez trouxe o namorado, um homão, sorriu, como se concentrasse nele todas as esperanças, ele adora a Dina de vestidinho como o teu, sabia?, ela insiste. Vai ver que compra na mesma loja, chego a dizer. É ousada, pra uma travesti, não sei como consegue, é outra que toda hora vai ao toalete, dá uma risadinha após a última palavra. Gira, continua a dançar, quase me toca com os seios. Reparo os bicos rijos. O garçom traz outro coquetel. Aceito. Sento no sofá, olho as amigas dançando. Duas também aceitam a bebida, vem pra junto de mim. Fogo?, ouço a voz de uma. Fogo, sim, mas nada de metáforas, fogo do isqueiro, ou de um palito de fósforo. Jura?, a primeira faz de conta que não acredita. Ouviu o que ela está dizendo? Não, quero dizer, ouvi fogo, será um incêndio?, brinco. Um incêndio monstruoso, repete a primeira, na verdade um novo método para o amor, ou velho método, não sei, dizem que as mulheres são frias, daí uma chama verdadeira pra aquecer. Ri. Finjo que entendo. Olha quem está chegando, uma aponta, a louca da Ângela. Por que louca?, quero saber. Ela mesma gosta de contar, diz a que está à minha direita, adora trepar em público. Levo o coquetel à boca e penso na Dina. Ela é que está certa, é travesti e tem o homem mais bonito, mais desejado de todas as mulheres, corresponde a todos os desejos dele. Uma fofoca, diz Ângela depois dos cumprimentos, na semana passada fui a uma festa na Teresa, adivinha quem estava lá?, a Dina, ela e o namorado, o vestido tão curtinho que quase pedi pra entrar no toalete com ela, qual o teu segredo?, eu quis perguntar. Todas as quatro mulheres, no cantinho da sala, ficam curiosas e arrepiadas! Uma diz será que a Dina topa a brincadeira? Qual brincadeira, responde a mais atirada. Vamos lhe pedir emprestada a calcinha! Peça também à Angela, você vai se surpreender, de novo a mais atirada. Riso geral. Essas mulheres não tem outro assunto?, pergunto-me, será que ninguém lê um livro nesta roda?, ou frequenta alguma galeria de arte? Quem sabe... Rio. Posso eu criticá-las? Não vou ao toalete nem vou espichar o vestidinho.

quarta-feira, maio 11, 2016

Há jeito para todas as coisas

Minhas brincadeiras são bobinhas, inofensivas, causam, talvez, um pouco de nervosismo. Quando contei a ele, apenas riu. Um riso que revelava minha infantilidade. Sei que ele poderia ter dito como você pode gostar dessas coisas, ou talvez dissesse não são tão inofensivas, você coloca em risco a sua integridade. A voz dele soaria em tom sentencioso, demonstrando as certezas peculiares aos homens. O que eu poderia fazer, a partir daí, seria me afastar, e não mais me preocupar com o que ele pensava. A vida é perigosa para os mais cautelosos, eu ainda poderia rebater. Mas preferi continuar com minhas brincadeiras bobinhas, que me dão muito prazer.

A casa era grande e tinha um cão. Mas ele ficou logo meu amigo. Não sei o que fez me olhar como uma pessoa benevolente. Os cães acham certas pessoas benevolentes, alguém que pode lhe acariciar a cabeça, passar uma das mãos pelo seu pescoço e lhe oferecer algo novo. Foi o que aconteceu. No primeiro dia, veio me cheirar. Ficou nisso. Agradei a ele. Seu focinho úmido percorreu minhas pernas, abanou o rabo, o cão paralisado ante as minhas mãos. Passei a visitar a casa todos os dias, às vezes também à noite. O cão sempre atrás de mim, como se eu fosse sua redentora.

Adélia também gosta de algumas brincadeiras. Aliás, foi ela quem me despertou para o prazer que as brincadeiras podem proporcionar. Adélia gosta de ir à praia cedo. Chega com o nascer do sol. Corre pela beira, o mar a lhe molhar os pés. Sua bastante, depois mergulha na água fria. Diz que a sensação é maravilhosa, corre-lhe um arrepio, uma espécie de gozo. Certa vez correu nua e depois mergulhou. Em dobro, o prazer. Repetiu o exercício, repetiu o gozo. Certa vez um homem apareceu à praia, e Adélia nua dentro do mar. O que fazer? Esperar. Mas o homem teve mais paciência do que Adélia. Ela acabou indo com ele. Hoje está bom assim, ela falou, ficamos no olhar, e você até já me beliscou, vamos marcar um encontro para logo mais, tentava ela escapar. O homem concordou. Adélia então fugiu. Não veio mais nadar pela manhã. O que perdeu? O prazer. Há tantas outras praias, disse-lhe eu. Ela começou de novo, na ponta da praia.

A minha aventura, porém, não era na praia. Queria o homem bonito que morava à casa onde eu sempre rodeava. O cão atrás de mim. Eu podia entrar durante a madrugada, como ladra escorregadia. Mas nada queria roubar, ou melhor, talvez um coração, o coração de um homem jovial. Mas eu tinha medo de falar com ele. Teria sido melhor encontrá-lo e expor minhas intenções. Tudo tão simples. Mas a aventura me dava furor. Invadi a casa. Rodeei-a com o cão. Um cão imenso. Deitava com ele na grama do quintal. Meu homem dormia. Que tal subir, ir até ele? O homem poderia não gostar, eu temia. Para alguns tipos as mulheres são perigosas. Lembrei de novo minha amiga nua na praia querendo convencer o homem que ela tinha o direito de nadar nua, ele não poderia tê-la contra a vontade dela. Existe lei, sabia?, Adélia chegou a murmurar. Mas os homens querem saber lá de lei. Ou fazem as leis conforme sua vontade. Ela nada contou, mas é lógico que teve de dar pra ele. E eu que desejava dar, mas meu homem não vinha. Fiquei com o cão enquanto o aguardava. Venha logo, observe-me, cheguei a mandar uma mensagem por sob a porta de entrada, acho que não aguento por tanto tempo. Ele veio. Mas devagar. E trouxe o cão. Fingi que não o conhecia. O cão. Vamos à praia?, sugeriu. Por que não aqui?, tão aconchegante, suspirei. Gosto que minhas namoradas nadem nuas...

Você nada bem, por isso tem esse corpinho, alguns músculos apenas, mas um corpo muito bonito. E ele a me ver nadar. Eu tão longe. Desaparecia o namorado, sumia junto com o cão. Eu boba por ele, pedia pra guardar minhas roupas. Pudera. Fizemos o jogo durante uma semana.

Depois de tanto tempo, fui nadar sozinha. Na ponta da praia. Eu e o mar. Imito minha amiga Adélia?Madrugada ainda, o vermelho de um sol antes de subir o horizonte. Nada de homem, nadar apenas. A pele. Uma semana depois tento convencer o desconhecido a me deixar só, digo a ele que não tem o direito de deitar comigo. Sou virgem, asseguro, como último argumento. Ele não me olha surpreso. Dá-se um jeito, diz. Não espera minha réplica. Há jeito para todas as coisas, completa. Eu pelada. O homem me puxando pelo braço.

terça-feira, maio 03, 2016

Recatada

Sempre fui uma mulher recatada, visto roupas que destacam o meu corpo, mas nada de saias ou vestidos muito curtos. Pernas de fora, apenas na praia, é o que sempre achei. Mas o meu namorado acabou me convencendo a usar roupas extravagantes.

Se encontro alguém?, pergunto preocupada.

Você faz de conta que é outra pessoa.

Outra pessoa?, assusto-me.


Passei a sair com penteados diferentes, ele me deu dois ou três pares de óculos, dois de lentes escuras. Alguns dias cheguei a cobrir a cabeça com lenços, ou mesmo com uma espécie de véu. Comecei a gostar da brincadeira.

Frequentamos os restaurantes de uma cidade vizinha. Tudo ia às mil maravilhas até que, de repente, avistei uma pessoa conhecida. Ela não me viu, ainda bem. Fiquei tão preocupada que não reparei com quem ela estava. Quem sabe alguém já me avistou e nada falou? Meu namoradinho, porém, se mostrava cada vez mais entusiasmado. A cada entusiasmo dele, minhas saias ou vestidos ficavam mais curtos.

Houve uma época em que pensei um modo de atrair os homens, não imaginava que a roupa produziria tanto frisson. Que ótimo, agora já sei, caso este namorado desapareça, já tenho um método, vou atrair o homem que eu desejar.

Certo domingo ao entardecer ele veio me buscar para mais um passeio.

Tenho uma surpresa, disse.

Tirou de uma sacola um presente. Abri o pacote.

Que camiseta linda!, adorei.

Não é camiseta, sussurrou.

Não? O que é, então?

Um vestidinho.


Gelei. Ele me quereria domingo a passeio com o vestidinho.

Vesti-o apenas para agradá-lo. Vim à sala e disse:

Caso saio assim, só de camiseta, todos os homens vão correr atrás de mim.


Não adiantou minhas ponderações. O namoradinho insistiu tanto, que saí de camiseta.

As pessoas vão pensar que você está de short por baixo, falou.

Veja se há alguém na rua, pedi.

Não tem ninguém na rua, pode vir.


Corri para o carro e entrei. Ele guiou para Rio das Ostras. Durante a viagem ligou o som e escutamos músicas que nos estimulavam. Ele passava a marcha e escorregava a mão direita sobre minhas coxas.

Paramos na Costa Azul. Ventava. Saímos do carro. Ele comprou duas garrafas de cerveja e me deu uma. Descemos à praia.

Ele me abraçou, me beijou e deslizou a mão por baixo da camiseta.

O que foi?, perguntei ao perceber que ele se estava surpreso.

A calcinha?

Ah, eu disse, falta a calcinha.

Por que não me pediu? Eu compraria pra você.

Não estou sem por falta de calcinhas em casa, imagina o motivo.

Ah, sim, que tolo, já imaginei.


Escurecia. Só nós dois na praia. Ele levantou minha camiseta até me deixar de peitos de fora, depois puxou e conseguiu tirá-la de mim. A seguir, arremessou-a no ar e deixou que o vento a levasse.

Não faz mal, afirmou, se desaparecer vou comprar mais três.

Mais três?, repeti. Ah, não esqueça das calcinhas!

terça-feira, abril 26, 2016

O que aconteceu depois?

No momento do amor, ele sussurrou no meu ouvido:

“Conta pra mim o que te excita, vai, diz o que te deixa com tesão, principalmente quando você está sozinha e deseja alguém.”

Continuei agarrada a ele, passava as unhas sobre suas costas.

“Quer saber mesmo?, olha que conto, você vai adorar.”

“Então, conta, adoro ouvir você contar sacanagem.”

“Mas você precisa dizer alguma coisa antes”, afirmei, “algo que eu possa continuar; falar assim direto é difícil pra mim.”

“Tudo bem, começo e você continua, ouça: você adora se disfarçar, vestir uma saia bem curta, ou um vestidinho colado ao corpo, sair à noite, ir a uma boate, fingir que é outra pessoa...”

“Outra pessoa, isso mesmo, fingir que sou outra pessoa, mas preciso de uma máscara, dessas de maquiagem, como a dos atores, coloco a máscara e vou; sabe que tenho uma carteira de identidade com outro nome, achei certa vez a carteira, uma mulher bonita, tão bonita, procurei por ela mas não encontrei, queria devolver o documento, achei uma pena entregar nos correios, coloquei um anúncio e não apareceu ninguém, fiquei com a carteira; às vezes tento ser esta mulher, já fingi três ou quatro vezes, saio à noite, sou Silvia, o nome dela, ando pela cidade, vou a festas, a algum baile, até criei um história, um passado pra Sílvia, quando nasceu, onde morou boa parte da vida, o que estudou e o que faz atualmente, ela é uma mulher adorável, tenho tudo escrito; ela usa a saia curtinha, é atirada, sabe, sai com um homem de primeira, não pensa nos perigos, aliás para ela perigos não existem; adorável Sílvia.”

O namorado estava muito excitado, um toque a mais gozava.

“Assim você não vai saber a história de Sílvia”, falei em seu ouvido “relaxe.”

Ele soltou meu tronco, afastou o rosto e sorriu.

“A boate era na verdade uma caixa, de tão pequena; havia uma sofá que corria pela lateral e acompanhava toda o perímetro da pequena sala; as pessoas, sentadas, namorados agarrados às namoradas, as saias curtas, malhas que subiam, encolhiam, as mulheres não conseguiam manter as coxas cobertas; no centro, as pessoas dançavam; parei num canto, esperei, não sei por que mas se podia fumar no local, acendi o cigarro; um casal levantou e foi dançar, juntou-se aos outros; sentei no local recém desocupado, traguei o cigarro e soltei a fumaça com a cabeça um pouco inclinada para cima; não demorou um homem apareceu ao meu lado, ofereceu tudo que se vendia ali; recusei, mas ele trouxe uma garrafinha de vodca, acabei aceitando; ficou juntinho a mim, num curto espaço de tempo já estava com um dos braços envolvendo meu pescoço, me puxou para junto dele e me beijou na boca; do homem emanava um perfume adorável, foi o que me vez gostar de ficar coladinha a ele, naqueles momentos não tentou nada além do beijou e de alguns apertos; preferimos ficar curtindo as músicas e namorando, vez ou outra bebericando, nada de muitas palavras; lá pelas tantas levantamos e fomos para o centro da sala, três ou quatro casais dançavam, as luzes misturavam nossas silhuetas, a fumaça nos envolvia, a bebida subia e o pilequinho adiantava o tesão; quando tudo acabou fui com ele, saímos da boate quatro ou quase cinco da manhã; me levou para um hotel; já imaginou, eu nada sabia do homem, ninguém entre meus amigos sabia onde eu estava, eu era Sílvia, mulher que nenhum de meus amigos conhecem, o que fazer caso o homem tentasse algo de mal contra mim?; não pensei mais nisso, pedi apenas para ir ao banheiro, tomei um banho e voltei para o quarto enrolada na toalha.”

“O que aconteceu depois?”, o namorado me agarrou de novo, me beijou, subiu sobre mim.

“Aconteceu o que vai acontecer agora; aliás, agora, você precisa tirar minha calcinha!”

quarta-feira, abril 20, 2016

Virgínia

Vi quando Virgínia atravessou a Galeria do Comércio. Tentei alcançá-la, cheguei a correr, quase tropecei, mas ela entrou pela Gonçalves Dias e desapareceu. Tenho certeza de que também me avistou, mas fingiu não me ver. O que nunca entendi foi o seu desaparecimento.

Estivéramos juntas no último verão e foi ela quem me fez o convite.

“Um ricaço está com um barco ancorado na Marina, quer duas mulheres com ele, você está interessada?”

“Você o conhece?”

“Não, mas a indicação é segura, não há perigo algum.”

“E o que precisamos fazer?”, perguntei antes de levar à boca a xícara de café. Estávamos no salão de chá do CCBB.

“Basta que confirmemos através do telefone; o convite é para estarmos lá por volta das dez da noite.”

“O que você acha, devemos ir?”

“Passar a noite num barco parece ser estimulante, não? E, além disso, o ambiente é suntuoso, teremos uma noite de beleza e prazer.”

O garçom se aproximou e deixou, diante de Virgínia, um bonito pedaço de torta de morango. Eu comia, de garfo e faca, um pão ciabata com mussarela de búfala e tomates secos.

“É para hoje o convite?”, perguntei.

“Amanhã.”

“O que devo vestir?”

“O que quiser; ao chegarmos lá, passaremos antes por uma espécie de vestiário; devemos usar as roupas que ele tiver escolhido.”

“Roupas de que tipo?”

“Não sei, mas devem ser roupas chiques. É um tipo de fantasia que ele tem: gosta de vestir as mulheres."

“E quem as despe?”, sorri eu mesma com a pergunta.

“Ele, também.”

“Ok, combinado.”

No dia seguinte fomos juntas. Peguei um táxi e apanhei Virgínia em Copacabana. Na entrada da Marina, identificamo-nos. De imediato, abriu-se o portão e o táxi nos levou até o local indicado pelo funcionário; este vestia uma espécie de farda azul com botões dourados, muito semelhantes daquelas que vestem os empregados dos hotéis internacionais. Ao sairmos do automóvel, uma recepcionista muito simpática recebeu-nos. Acompanhou-nos até um vestiário. Lá nos entregou roupas boas, muito bem cortadas e costuradas, na verdade roupas de desfile; e, como é comum a esse tipo de roupa, extravagantes, muito curtas e transparentes. Como estou habituada, não me senti desconfortável. Mas Virgínia não reagiu da mesma forma; falou: “Estou nua.”

“Nua, nada, quantas mulheres não gostariam de estar em nosso lugar?”

A recepcionista, que nos acompanhava em tudo, sorriu. Após dizer que estávamos lindas, levou-nos até a embarcação.

Entramos. O leve marulhar proporcionava graça especial. O barco acompanhava os ligeiros movimentos da preamar. Descrevê-lo, por mais preciosas as palavras, seria tentativa vã. Imaginem o que há de melhor arranjado e de mais alto requinte. A mulher deixou-nos. Fomos recebidas por um homem de farta cabeleira grisalha, avantajada para sua idade. Ele era forte, mas um pouco acima do peso; deveria estar por volta dos sessenta anos. Dirigiu-se a nós, apresentou-se educadíssimo.

Virgínia piscou-me os olhos. Entramos na cabine espaçosa. Uma música em inglês soava baixa, voz de mulher, parecia blues nova-iorquino.

“Como estão passando as maravilhosas senhoritas?”, foram as palavras dele.

Apenas sorrimos. Ah, o nome dele era Taylor.

Ofereceu-nos bebida apontando para um bar em que os copos de cristal ficavam encaixados em suportes. Garrafas de todas as bebidas se enfileiravam de modo harmonioso.

“Que tal champanhe para comemorar o gracioso momento?”

“Não é mal”, eu disse.

Abriu uma garrafa especial, segundo ele. Serviu-nos. Tilintamos as taças e bebericamos. Estava uma delícia.

Deslizou uma pequena plataforma que se transformou em mesa. Apareceram vários tipos de salgados. Também havia pastas e pequenos sanduíches. Fez um gesto para que experimentássemos.

Entabulamos conversa sobre os sete mares. Aliás, apenas ele entendia de mares. O máximo que eu e Virgínia podíamos fazer era esticar nossas aventuras litorâneas, enumerar as praias que frequentávamos e aquelas onde, muitas vezes, apenas a água do mar escondera nossa nudez.

Em certo momento, após descansar o copo com uísque sobre o encaixe da mesa – sim, agora ele bebia uísque, eu e minha amiga mantivemo-nos fiéis ao champanhe –, tomou Virgínia pelas mãos, levantou-a e fez que ela desfilasse num ligeiro rodopio, ainda segura por um ou dois dedos dele. Sem demora, soltou-lhe o vestido, que foi ao chão; ela ficou só de calcinha – bem pequena por sinal – mas manteve-se altiva e risonha, fazendo de conta que esperava por aquele gesto. Não houve demora para que chegasse a minha vez. Tomou-me pelas mãos e, em vez de girar-me, conduziu-me até a pequena escada que levava ao passadiço; fez que eu a subisse. Do lado de fora, tirou minha roupa. Deixou que o vento a levasse.

Namorou ambas, quase ao mesmo tempo. Jamais vi homem com tamanho vigor. A noite e a madrugada transcorreram maravilhosas.

Mas lá pela tantas houve um incidente. Virgínia atirou-se ao mar. Ele mergulhou ao perceber que ela não voltava. Veio à tona duas ou três vezes antes de encontrá-la. Quando a trouxe nos braços, gritou para mim:

“Me ajude a tirá-la de dentro d’água.”

Acho que o episódio excitou-o ainda mais. Amou, uma vez mais, cada uma de nós.

Partimos apenas ao amanhecer.

Ele em momento algum mencionou o incidente, e Virgínia também não tocou no assunto.

sexta-feira, abril 15, 2016

Esquentação

Outro dia eu contava a Miriam sobre a francesa com quem aprendi uma boa maneira de esquentar o relacionamento amoroso. O segredo, segundo ela, é a gente arranjar outro homem além do namorado, mas apenas pra conversar, ficar juntinho, passear, pedir uma carona, despertar o seu desejo, mas jamais praticar o principal, o sexo. Este deve ser deixado pra depois, pra hora do encontro principal, com o namorado. Miriam sorriu, acabou dizendo essas francesas são terríveis.

Continuei a falar sobre meus relacionamentos. Sempre quando marco com Jonas, tenho um amigo que me dá carona. Saímos do trabalho juntos e vamos ao estacionamento. Dentro do carro, antes de ele dar a partida, faço carinho num dos braços dele, me aproximo, faço de conta que vou deitar a cabeça no seu ombro, deixo que ele encoste as mãos em mim, mas quando a coisa começa a esquentar me afasto. É muito engraçado. Ele dá a partida e dirige pelas ruas da zona sul. Às vezes coloco uma das mãos sobre sua coxa direita, outras vezes deixo que ele passe a mão, de leve, sobre as minhas pernas. Ao saltar, beijou-o com algum calor. Dali corro para os braços do Jonas, quentinha, ardendo pelo sexo dele.

A francesa tinha um namorado com quem vivia agarrada. Mas antes, era mais atirada do que eu, levava o amigo pra casa, queria que ele a esquentasse antes do namorado chegar, lógico que nada comentava sobre isso, fazia-se de inocente. Houve um dia em que entraram no apartamento e ela pediu licença para ir trocar de roupa. Voltou com uma camisola transparente, falou a ele assim: “você é quase meu irmão, não faz mal me ver nua, não é mesmo?” E sentou do lado dele. Ficaram uma hora e meia tocando um no outro, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Ela conversava, um assunto emendava noutro e as mãos tocavam braços, pernas, coxas, até que... Nada disso, o marido abriu a porta e entrou, beijou a mulher, cumprimentou o amigo e sentou-se numa das poltronas. Ela levantou-se e se acomodou ao seu lado. O amigo, muito sem graça, disse que tinha um compromisso e se foi. A francesa dizia que gozava muito depois de tanto aquecimento.

Miriam parecia arrepiada, cada vez mais surpresa. Será que isso dá certo mesmo?, chegou a perguntar. Conversamos mais um pouco. Lá pelas seis da tarde ela se despediu e foi embora.

Suzana, você tem razão, você e tua amiga francesa, Miriam me falou tempos depois. Ela me beijou e sorriu. Disse que minha conversa ajudou muito. O namoro em que havia se metido estava fervendo. O namorado percebeu que ela andava muito com outro homem, pra todo lado o homem a acompanhava. Então, ela falou da francesa. Primeiro, ele ficou desconfiado, mas depois, ao perceber o ardor da mulher, não quis outra vida. Mas quem não entendeu foi o amigo. Não houve quem lhe tirasse o pensamento de que Miriam não queria nada além daquelas cenas de esquentação. Ela nada falou a ele sobre isso, queria que ele percebesse. Mas o homem não tinha a menor sensibilidade. Não é melhor você ter uma mulher nua ao teu lado do que não ter ninguém?, ela, num momento de irritação, lhe perguntou; amanhã eu posso não estar aqui, é melhor assim, completou. E ficou agarrada a ele, deixando o principal para o verdadeiro namorado. Eu quis saber se Miriam ficara nua ao lado do segundo. Não, fiquei com uma sainha que é uma coisa à toa; o homem passou a mão pelas minhas coxas, conseguiu ir mais longe do que nos dias anteriores; olha, assim não volto amanhã, disse eu, então ele sossegou. Você nunca soube de ninguém que acabou dando pro segundo?, ela me perguntou, de seu rosto emanava um ar de curiosidade.

Uma vez aconteceu, com uma amiga, confessei a ela, mas não foi bom, ela acabou a relação com o segundo, e ficou sem ninguém pra esquentar.

Que pena!, Miriam lamentou; tenho, então, que ser muito inteligente; sabe, Suzana, outro dia quase aconteceu, mas me recompus a tempo, foi por um triz, quase escorreguei, quero dizer, quase ele escorregou, já ia caindo lá dentro.

Ambas demos uma sonora gargalhada. Tudo depende de nós, querida, falei, basta pensar: o que vem depois será muito melhor.