quarta-feira, maio 24, 2017

Maiô

A praia tinha poucas pessoas, mas eu gostaria que tivesse apenas eu. Ele me oferecera o passeio, o final de semana no meu lugar favorito. Minhas amigas sempre frequentaram praias chiques, hotéis ou pousadas de luxo sobre os quais depois falavam durante o ano inteiro. Minha vida até ali fora modesta, trabalho, nada de viagens, até que surgiu o namorado. Ele me surpreendia. Confesso que também não sou de namorados, mas decidi me dar este presente.

Você vai pagar pra mim?, perguntei.

Lógico, estou convidando.

Contei os dias doidinha que chegasse o final de semana da viagem. Não falei pra ninguém. Por aí há muita inveja, as coisas podem dar pra trás. Na véspera ainda pensei, será que ele vai dar uma desculpa, dizer que houve um problema, preciso ir trabalhar, houve um chamado urgente. Tudo se desmancharia, como num conto de fadas. Mas não foi o que aconteceu. Ele chegou eufórico, mais do que eu, ria e me beijava. Uma bolsa com um presente em uma das mãos.

É para você vestir na nossa viagem.

Descolei a fita adesiva e abri a bolsa. Um biquíni. Tudo o que eu não imaginava e não queria. Será que digo a ele que não quero mais ir, que me aconteceu um problema sério, a doença de uma parenta distante, preciso ir visitá-la, se morrer morro também culpada. Mas ele estava tão feliz, eu não teria coragem. O que tem de mais um biquíni?, perguntei a mim mesma. Ah, tenho trauma de biquínis, uso maiô, e faz tempo que não vou a uma praia. Conto um dia desses por quê, ou quem sabe, no final vocês descobrem o motivo.

Você vai ficar moreninha com este biquíni, a maior parte da pele descoberta, ele disse radiante como um sol imenso. Não sei mais que adjetivo acrescentar.

Pedi licença e corri ao banheiro. Confesso que a perspectiva do biquíni me provocou cólicas. Fiquei sentada no vaso sanitário uns quinze minutos.

Tudo bem com você?, ele quis saber.

Eu não diria a ele que não usava biquínis, que usava apenas maiô. Levaria o biquíni e o maiô, lá decidiria, lógico que decidiria pelo maiô. E ele nada poderia dizer. Uma boa solução. Beth, você é ótima, sempre vota em seu favor! Caso eu conte pra alguém minha aversão aos biquínis as pessoas rirão, antiquada serei, que motivo bobo, você vai acabar perdendo um homem desses, e homem está tão difícil...

Estava lá a praia, o dia combinado, a manhã fresca, já ensolarada, provocando arrepios. Será que alguém vai me ver de biquíni? Deus me livre, vamos mais adiante, por favor. Lógico que não disse a ele que o motivo era o biquíni. O maiô? Não tive coragem de desapontá-lo.

O melhor trecho da praia, ui, será que vou gozar assim, sem que ele me toque?, os arrepios aumentando, sensação de prazer cada vez maior.

Aqui não há ninguém, digo.

Então, descubro um jeito de me livrar do biquíni e depois poder usar o maiô. O restante do fim de semana de maiô, um maiô lindo, tão colorido, tanto pano.

Posso contar um segredo?, sussurro a ele e lhe dou um beijo úmido.

Claro, olha nos meus olhos.

Quero tomar banho de mar nua! Não gosto de biquínis, quero dizer, biquínis me dão vontade de ficar nua, e como não há ninguém, aponto o mar imenso diante de nossos corpos.

Nua? É tudo que quero, ele diz, exultante. Deixa que eu tiro o teu biquíni.

Maior delicadeza, ele a me despir. Depois? Ah, deixa pra lá, vocês são bons em imaginação...

quarta-feira, maio 17, 2017

Misturei-me aos mais jovens

Outro dia saí a passeio pela Zona Sul. Como adoro escrever, criar personagens e colocá-los em ação, experimentei eu mesma representar. Misturei-me aos mais jovens, meu objetivo era descobrir se os atraio, se os faço me desejarem. Fui ao um café. Escolhi uma mesa de onde podia observar quem passava na calçada, quem entrava e saía e aqueles que, como eu, tomavam café a uma das mesas. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que vários jovens me observavam. Sorri em agradecimento, e não passou muito tempo para que um rapaz de seus vinte e poucos anos viesse falar comigo. Disse que tinha uma festa para aquela mesma noite e perguntou se eu não queria acompanhá-lo. Perguntei a que tipo de festa me convidava. Um aniversário, uma amiga faz vinte e oito anos. Você não tem uma namorada?, mostrei-me curiosa. Ele apenas sorriu e quis saber se eu aceitava o convite, complementou dizendo que se tratava de uma festa até certo ponto modesta e que o local era o salão de um condomínio, no Leblon. Aceitei o convite. Mas nem mesmo sei o seu nome, conclamei-o a se apresentar. Henrique, respondeu econômico. Célia, muito prazer, retribuí. Como fazemos, então?, perguntei. Ele me apanharia nas proximidades ou, caso eu desejasse, poderia esperar por ele em minha casa. Marcamos.

Ele veio às nove da noite. Pegamos um táxi, ele disse o local ao motorista. Você vai adorar, afirmou, na festa vai haver muitos jovens e pelo que estou notando você gosta de jovens, não é assim?,  olhou pra mim, um sorriso alegre.

Percorremos as ruas Prudente de Moraes, General São Martins e chegamos à Visconde de Albuquerque, no final do Leblon. O motorista nos deixou à porta de um prédio de seis andares, de cor clara e com varandas. O salão de festas ficava acima do sétimo andar, uma espécie de cobertura com vista panorâmica privilegiada.

Já havia algumas pessoas, que logo vieram falar com ele, pediram que ele me apresentasse a elas. Representamos um casal que já se conhecia fazia tempo, mas não dissemos qual o nosso tipo de relacionamento. Aliás, nada combinamos, as coisas foram acontecendo naturalmente. Pouco a pouco foram chegando os demais convidados e o salão tornou-se mais barulhento e também mais alegre. O número de pessoas foi suficiente para que pudéssemos gozar a festa com conforto. Dois ou três garçons serviam canapés e bebidas. Pude observar pessoas de vários tipos. Havia mulheres muito magras, eram modelos profissionais que estavam ali porque a aniversariante trabalhava com moda; vi pessoas fora do universo da moda como jornalistas, relações públicas e algumas empresárias, apesar da pouca idade. Todas muito educadas e se comportando com extremo requinte. Muitas jovens puxaram conversa comigo e queriam saber em que eu trabalhava. Não quis dizer que sou escritora e que vendo artigos para revistas estrangeiras, disse que precisava viajar com frequência a São Paulo, porque administrava negócios de família. Arregalaram os olhos, acho que pensaram que sou rica. Quem sabe. As meninas vestiam-se muito bem, nada de pouca roupa. Mesmo as que usavam vestidos curtos cobriam-se com algum complemento, como um leve casaquinho ou mesmo uma echarpe. Reparei que havia mulheres acompanhadas, mas a grande maioria estava só, nada de marido ou namorado. Meu companheiro portou-se como seu eu fosse também sua amiga, não ousou em nenhum momento aproximar-se de modo mais íntimo. As bebidas, gradativamente, tornaram as pessoas mais alegres e mais falantes, pois os coquetéis eram suaves mas continham vodca ou outra bebida semelhante, tudo com muita fruta e muito bom gosto. Uma das moças começou a falar sobre uma viagem à Europa, principalmente à França, viagem que começaria dali a alguns dias. Quem a ouvia começou a se interessar e dizer como seria interessante a viagem. Outras moças enriqueceram a conversa com alguma passagem de viagens que fizeram recentemente a alguns países. Percebi, então, que quase todos os convidados tinham algumas posses, e que as conversas não deixavam de lado os prazeres que esses bens podem proporcionar. Também pudera, uma festa no alto Leblon... Mas ninguém falou de literatura, ninguém comentou que lia um bom livro ou que conhecia algum poeta interessante. Não seria eu que faria tais observações. Em algum momento, uma das modelos – ela fumava e portava um copo de vodca com gelo – começou a contar uma experiência em Paris. Morara na cidade durante seis meses e tivera um namorado francês. Aprendera o idioma com ele. Alguém pediu para que ela falasse francês, e ela continuou a contar a história no idioma do namorado. Uns entendiam, enquanto outros demonstraram se desinteressar pelo assunto e foram saindo discretamente em direção a outras rodas. Ficando eu e mais duas de suas amigas ela continuou a narrativa, tocada pelo álcool de duas ou três doses de vodca. Disse que em Paris é que era bom, talvez o Rio seja um pouco Paris (introduzo suas palavras), só que o Rio é um pouco mais violento, é claro, mas em Paris ninguém se mete na vida alheia, eu gostava de namorar no táxi, enquanto rodávamos a capital, pedíamos ao motorista que nos levasse a determinado ponto da cidade, sempre bastante longe de onde estávamos, durante o percurso como era bom namorar e ter a cidade passando pela janela do automóvel, acho que jamais vou viver experiência igual, quero dizer, quando lá voltar creio que sim, e namorávamos e namorávamos, e nosso ardor não se resumia a beijos, certa vez após saltarmos no 18º arrondissement só então percebi que minha saia havia ficado no táxi! Todas caímos numa longa gargalhada. Ela também riu muito e acabou por aceitar outra taça da bebida. Ficamos na festa até as duas da madrugada, quando as pessoas começaram a ir embora. Todas me beijaram e pediram que eu sempre estivesse naquele tipo de festa, que o Henrique ia a todas e que eu, de antemão, já estava convidada.

Pegamos um táxi de volta, e quando paramos à porta de casa convidei Henrique para subir. Ele aceitou de bom grado. Você é uma pessoa muito legal, que bom ter conhecido você naquele café às três da tarde, que bom você também gostar de gente jovem, sabe, continuou, acho que conheço você de algum lugar, parece também que te conheço de muito tempo. Quem sabe, repliquei, você gosta de mulher nua? Ele não entendeu a brincadeira. Certa vez uma amiga minha disse a alguém, acrescentei, você já viu a Célia na praia, o biquíni dela parece de uma menina de 16 anos. Rimos muito, mais uma vez.

quarta-feira, maio 10, 2017

Onde fica a Colômbia?

Já faz tempo que sou guia turística, levo pessoas aos mais diversos lugares, dentro do país ou fora dele. Sempre conduzo nossos clientes de forma amorosa e exemplar. Muitos continuam viajando com nossa empresa por causa do tratamento especial que dou a todos. Na última excursão, fomos a Santiago do Chile. No grupo havia trinta e quatro pessoas. Chegamos a Santiago num domingo à noite para uma estada de cinco dias. No aeroporto, um ônibus aguardava para nos levar ao hotel, que ficava em Las Condes. Apesar de ser tarde da noite, todos pareciam muito felizes. Adoraram também o hotel, requintado e confortável. Na primeira noite, após a viagem de quatro horas mais a demora nos trâmites do aeroporto, só nos restava o descanso.

Não pretendo mencionar aqui todos os lugares por onde andamos. Apenas digo que a cidade de Santiago, com sua mescla de prédios antigos e modernos, com a amplidão de suas ruas e avenidas, é adorável. Quem gosta de vida boêmia também não pode reclamar. Há bairros com bares e feiras populares, que funcionam até a madrugada, principalmente no verão. A cidade, ao mesmo tempo, oferece um clima de cultura intensa, pois é possível visitar livrarias, museus e assistir a alguma peça de teatro. As cidades de Valparaíso e Viña del Mar, as vistas que proporcionam e a presença do mar, contribuem para completar o espírito de férias e descanso que uma viagem a este país proporciona.

Depois de três dias na cidade, de alguns passeios e de descanso no hotel, jantamos num restaurante do bairro de Las Condes. Todos apreciaram muito a culinária local e experimentaram vinhos e cervejas. Eu, como guia, bebo pouco. Naquele dia, porém, incentivada por várias pessoas do grupo, exagerei com uns goles a mais. Falamos um tanto mais alto devido à animação, e contamos muitas piadas. Um dos jovens leu alguns parágrafos de um livro, uma comédia muito interessante. O que aconteceu de especial vem a seguir.

No grupo, havia um homem de meia idade que viajava sozinho. Disse-me que nunca gostou de excursões e que aquela era a sua primeira. Ingressara no grupo devido à indicação de uma amiga sobre o meu profissionalismo em conduzir turistas ao exterior. Conversamos durante vários intervalos no decorrer da viagem e dos passeios. Nesse terceiro dia, ou noite, porque se tratava de um jantar, ele ficou a me observar com mais entusiasmo do que de costume.

Após toda aquela alegria, voltamos ao hotel. Algumas pessoas, sobretudo os mais jovens, pediram que aproveitássemos o bar do hotel, que ainda estava aberto àquela hora, e que bebêssemos ainda um vinho ou mesmo cerveja, assim poderíamos continuar as conversas interrompidas com o final do jantar. Então, eu soube dos namoros que aconteciam entre aqueles que compunham o grupo. Havia jovens, homens e mulheres, que trocaram de apartamentos para que se formassem casais e que pudessem namorar livremente durante a noite. Falaram de algumas peripécias, sempre sobre outros, nunca sobre si. Mas mesmo assim foi muito engraçado. Disseram que a jovem Elisa, de cabelos compridos e cara de freira, entregou-se aos abraços de um homem mais velho. Ela se despiu com as próprias mãos, agarrou-o durante boa parte da noite e depois saiu envolvida num roupão, porque em meios à confusão que os dois estabeleceram no apartamento não lhe foi possível encontrar o vestido. Houve outras histórias tão hilariantes quanto.

Depois de sairmos do restaurante e subirmos aos apartamentos, ouvi três batidas suaves à minha porta. Era o homem que nunca viajara em grupo. Ele desejava me oferecer uma sobremesa, que trouxera do restaurante. Guardara-a com cuidado, para mim. Convidei que entrasse e aceitei o doce. Este homem tinha um talento especial, sabia fazer imitações com perfeição e começou a falar e fazer gestos como quase todos os integrantes do grupo falavam e agiam. Não aguentei de tanto rir. Ri tanto que tive de correr para o banheiro. Lá dentro, ainda continuei às gargalhadas. Quando saí, ele se pôs a me arremedar. Representou como se fosse eu a conduzir o grupo, imitou minhas falas nos passeios e, o mais engraçado, depois de eu ter bebido duas ou três taças de vinho. Ri tanto que acabei com sede. Bebi um copo de água mineral. Reparei, então, que sobre a pequena mesa, no interior do apartamento, havia duas garrafas de vinho. Abri uma e ofereci a ele. Continuamos a conversa, naquele momento de forma mais amena, já livre de tanto riso. Não sei quantos minutos se passaram, comecei a sentir um calor intenso. Lembrei que quando bebo demais passo a ter um instinto incontrolável para o sexo, e como aquele homem estava ali...

Mas não pensem que transei com ele. O homem bem que notou todo o meu fogo. Mas me dominei a tempo e disse que estava cansada, prometi que quando voltássemos ao Brasil poderíamos nos encontrar e conversar com maior liberdade. Ele quis contra-argumentar, mas aleguei que já estava tarde, no dia seguinte faríamos o último passeio, "precisamos acordar cedo", despedi-o. Ele se foi, muito polidamente, apesar de eu perceber em seu rosto um traço de contrariedade. Assim que saiu fiquei eu com o meu fogo, e sem saber como abrandá-lo. Tirei toda a roupa e vesti um roupão oferecido pelo hotel, apenas aquele tecido atoalhado sobre o corpo. A partir daí, fiz minha investida, que posso chamar de temerária.

Saí do quarto e caminhei pelo corredor até os elevadores. Quando o sinal de um deles soou, apareceu um homem jovial, que me perguntou:

"De onde onde és?”

“Brasil”, respondi. “Usted?”, abri-me num sorriso largo.

“Colômbia”, parou e esperou que eu tomasse a inciativa.

Foi aí que falei:

“Puedes esclarecer a mi donde fica Colômbia?”

Lépido, apontou a porta do seu apartamento.

Depois? Claro que explicou, e com muitos detalhes!

quinta-feira, maio 04, 2017

Eu, enfim, cedia

Mas se eu enfim cedia... Talvez fosse porque ninguém me conhecia naquela cidade. Quando as pessoas não sabem quem somos, ou quando estamos num lugar onde jamais estivemos e somos desconhecidas, tornamo-nos mais corajosas. Foi o que aconteceu naquela madrugada.

A cidade era Flores, um lugarejo à beira mar, e a proposta dele era tentadora, ou melhor, sugeria algo que testava minha coragem. Acho que tudo começou porque ele me viu andando pelo pequeno centro da cidade apenas de biquíni. Sempre entendi como normal uma mulher passear de biquíni quando está próxima à praia. Naquele local ainda não era propriamente a praia, faltava uma ou duas ruas, porém o cheiro do mar era tentador. Saí da casa onde estava hospedada, de biquíni e uma pequena bolsa a tiracolo. Num primeiro momento não dei conta se alguém me reparava. Havia algumas meninas brincando, também vestiam trajes de banho, e como sorriam. Sorri de volta. As meninas tinham os cabelos loiros e pareciam francesas. Segui na direção do mar. Parei numa das esquinas onde havia um quiosque, pedi dois maços de cigarros. Comecei achar que fizera a escolha certa ao permanecer alguns dias naquela cidade. Ao chegar à praia vi outras pessoas sentadas na areia, umas sobre espreguiçadeiras, outras sobre um pano estendido em cima da própria areia. E havia outras crianças. Escolhi um lugar em meio às pessoas. Um rapaz veio me oferecer uma espreguiçadeira e um guarda sol, de aluguel. Não recusei. Após sentar e apoiar minhas bolsas sobre o tecido que eu tirara da bolsa, comecei a ler uma revista. Mas a presença do mar era mais forte. Ele me tirou da página que eu tentava ler. Fiquei observando como estavam serenas as águas da praia, ao longe alguns barcos pareciam ancorados. Após olhar toda a extensão de areia, de reparar o barulho de domingo, ou de um dia de férias, voltei à leitura. O homem que apareceu para conversar chegou duas horas depois. Eu já havia entrado na água e tomara cuidado para não molhar os cabelos. Ele sorriu, ficou próximo e não demorou a vir perguntar-me se eu era turista ou se mudara para cidade. Sorri, tentando ser simpática. Disse que estava de férias, mas que não demoraria na cidade. Ele retrucou dizendo que era uma pena, o lugar era tão bom, que ficar menos de duas semanas seria uma perda. Achei engraçada a palavra perda, não tenho o costume de definir perda da mesma forma que ele. Mas sorri ainda, compassiva com o que ele dizia. Na verdade, eu não queria companhia, mas o homem ficou ao meu lado, em pé, a elogiar o local. Pensei que pudesse ser um comerciante que logo ofereceria o seu produto. No entanto, tratava-se de alguém que não está acostumado a encontrar mulheres sozinhas, um tipo de machismo muito comum nas muitas cidade do nosso país. Depois de algum tempo, peguei a revista e deixei de dar atenção a ele, voltei à leitura. Minha ação foi eficiente. Despediu-se e se retirou, antes disse que se precisasse de alguma coisa era só procurá-lo, pois todos o conheciam na cidade, chamava-se Éden. Continuei no mesmo lugar, lia a revista e sentia no corpo o sol e o cheiro do mar, a cidade possuía um frisson que excitava, difícil de traduzir em palavras. Fui à agua várias vezes, mas sempre com cuidado para não molhar os cabelos. Em uma dessas idas, reparei um rapaz, que também me olhou e sorriu, chegou a piscar um dos olhos. Tive vontade de conversar com ele, porém, não se aproximou. Às cinco horas, voltei para a pousada.

Fiquei no quarto até nove da noite. O banho de mar me deixara mole e sonolenta. Mas não podia ficar sem comer até o dia seguinte. Saí às dez e logo descobri, no pequeno centro, uma rua estreita onde se enfileiravam muitos bares, todos cheios, com pessoas jovens em sua maioria, bebiam e conversavam animadamente. O que me chamou a atenção foi que estavam todos muito bem vestidos. Encontrei uma mesa lateral em um dos bares e pedi ao garçom o cardápio. Havia vários pratos quentes e frios. Optei por uma salada e uma taça de vinho branco. O bar requintado da cidade interiorana era bem abastecido, tinha até mesmo muitas bebidas importadas. Antes da salada, serviram-me uma espécie de entrada, um prato quase ornamental, uma grande folha de alface espetada, e duas fatias de presunto, que vinham enroladas em si mesmas. Ao fim de trinta minutos, veio o prato pedido. Nesse meio tempo eu já observara às pessoas ao redor e reparara uma jovem que não cessava de olhar para mim. Achei estranho seu olhar. Num momento de distração, enquanto repousava o garfo e tomava um gole da taça de vinho branco, reparei que se encontrava ao meu lado, sempre sorridente, com ar indagativo. Perguntou se eu não me aborrecia estar sozinha. Respondi que não, estava acostumada a viajar e já me habituara. Perguntou ainda se podia ficar um pouco à minha mesa. Sim, respondi movimentando os ombros, como se aquilo não me aborrecesse.

É a primeira vez que você vem a Flores?, ela quis saber.

Sim, falei enquanto levava a taça aos lábios.

De repente ela perguntou:

Você reparou como os homens dessa cidade são engraçados?, disse isso enquanto sinalizava ao garçom para se aproximar. Sorrindo, pediu a ele um coquetel, não entendi o nome.

Os homens daqui são terríveis, viu? Terríveis e engraçados.

Engraçados, como?, demonstrei surpresa.

Ah, engraçados; chegam a estar pertinhos da gente, perguntam alguma coisa e depois desaparecem.

Desaparecem?, repeti.

Isso mesmo, repetiu, se a gente fica com vontade de sair com algum deles, fica apenas na vontade, porque não se sabe mais onde estão.

Agora me lembro, recuperei o que me acontecera na praia, um homem se aproximou e veio conversar, disse que todos o conhecem na cidade, que se precisasse de alguma coisa era só procurar por ele, seu nome é Éden, depois surgiu um rapaz que piscou o olho e não se aproximou.

São assim, sei quem é o que foi até você e se ofereceu para qualquer necessidade, fala assim com todas as mulheres.

E vocês, eu queria saber, não namoram ninguém, não casam nesta cidade?, fiz cara de curiosa.

Ela deu uma gargalhada. O garçom se aproximava com uma bebida de cor vermelha, colocou a taça, muito bonita, diante dela.

Ah, ela mostrou-se surpresa, não me apresentei, meu nome é Gorete.

E o meu é Sandra, retruquei. Onde estão suas amigas?, olhei para mesa onde ela estava momentos antes e reparei que se encontrava vazia.

Ah, foi sobre isso que falei a você, querem testar os homens da cidade, falei que não valia a pena, mas mesmo assim elas não me deram muita bola.

Elas não residem aqui?

Não, em Estância, fica a trinta quilômetros do litoral. Sempre vêm à cidade nos dias de folga, adoram este centro e dizem que aqui é mais fácil de paquerar.

Paquerar?, repeti e sorri.

Gorete começou a contar sobre uma de suas amigas, que namorara um rapaz na cidade. Saía com ele todas as noites, mas dizia estar cansada de fazer as mesmas coisas. O rapaz, para não perder a namorada, começou a criar fantasias, assim ela se distrairia e não ficaria reclamando. Passaram a representar papais diferentes, como não se conhecessem e se encontrassem de repente ao acaso, viviam várias situações, até mesmo algumas em que a mulher simulava estar em apuros.

Como, em apuros?, quis que ela me explicasse melhor.

Acho que faziam de conta que ela precisava de ajuda, como se estivesse afogando na praia, ou perdida na estrada. Numa dessas brincadeiras ela me falou que ficou esperando por ele totalmente nua, sorriu ao pronunciar a última palavra, e levou aos lábios o coquetel.

Ao vê-la tomar um gole, lembrei-me de dizer que a atmosfera da cidade me causava certo frisson.

Frisson?

Gorete achou a palavra interessante.

Então, falta frisson aos homens dessa cidade, acrescentou.

Mas sua amiga arranjou um homem que provoca arrepios, não?, acrescentei.

Ele é uma exceção. Já até tentei sair com ele, mas o homem não quis.

Jura?

Juro, meneou a cabeça positivamente. A cidade é muito pequena, ele falou, logo alguém vai nos ver juntos. E o que tem isso de mais?, perguntei a ele. Gosto muito da Anita, encerrou ele a conversa.

Não tenho atualmente necessidade de homens, não hesitei em falar. Eles, na maioria das vezes, aborrecem muito.

Você tem razão, mas a gente nunca segue o pensamento lógico, é a tal da paixão a nos complicar, ou o corpo a respirar, franziu a testa e sorriu. Sua expressão revelou mais charme do que eu antes pudera perceber.

Uma mulher chamou por Gorete, estava à beira da rua, fez sinal para que ela viesse até a borda do bar. Gorete atendeu ao chamado. A mulher cochichou algo no seu ouvido. Gorete sorriu, devolveu algumas palavras, deu um breve adeus e voltou à mesa.

Uma maluquete amiga minha, e deu uma sonora gargalhada.

Suas amigas são interessantes, atalhei.

Nem sempre, às vezes são engraçadas.

O que há de cômico nessa?

Acho que você não vai gostar de saber.

Por quê?

Porque você parece uma pessoa recatada, ela falou.

Como você sabe?

Veja, você ficou na praia a tarde inteira e não namorou ninguém, usa um biquíni até certo ponto conservador, não veio para este bar com a intenção de azarar, gostar de sentir a atmosfera de frisson que emana da cidade...

E o que há isso com o fato de sua amiga ser cômica.

É outra que vive a mil com o namorado, veio dizer que vai com ele a uma boate.

Que legal, não sabia de boates por aqui.

O problema não é esse, acrescentou, você reparou, ela já está quase nua e disse que só volta de manhã. Outro dia veio com a história de que o namorado gosta de lhe roubar a calcinha, toda vez que sai com ele volta sem. Hoje veio me dizer que ele não vai poder roubá-la, adivinhe por quê?

Ela veio sem.

Isso mesmo, você é inteligente. Ao terminar de falar, Gorete sorriu e me convidou para uma surpresa.

Se é uma festa não quero, afirmei, não gosto de multidão.

Nada de festa, vai ser uma experiência nova para você, garanto, e é um segredo nessa região. Vamos comigo, trata-se de algo ligado à natureza.

Você me espera beber mais uma taça de vinho?, impus como condição.

Ok, ela atendeu.

Enquanto esperei pela nova taça, acrescentei:

Na minha cidade já tive um namorado como este de sua amiga. Ele gostava de me levar nua dentro do carro, acredita?

Sério? Na cidade grande também acontece isso?

Os homens são os mesmos em qualquer lugar. Ele vestia terno, todo bem arrumado, ia me pegar quando eu saída de uma academia de ginástica. Eu vinha com aquela malha grudada ao corpo. Ele pedia que eu a tirasse dentro do carro, guardava toda a minha roupa dentro de uma valise e me levava nua ao seu lado. Era uma coisa de arrepiar.

E você acabou gostando?

Não é que acabei gostando, era o susto, sei lá, às vezes até era bom, mas o namoro não deu certo, não era isso que eu queria.

O garçom chegou coma a nova taça de vinho, e a amiga de Gorete surgiu novamente na borda do bar e a chamou. Gorete pediu licença. Enquanto tomava o vinho, ela deixou a amiga durante alguns instantes e foi ao toalete. Depois voltou, aproximou-se dela e lhe disse alguma coisa, os braços de ambas se cruzaram. Tomei mais um gole do vinho e Gorete voltou à mesa. Sua amiga desaparecera.

Deixamos o bar e a rua plena de gente. Caminhamos duas quadras e entramos no carro de Gorete. Ela guiou durante uns trinta minutos, afastando-se sempre da zona urbana. Antes da rodovia estadual, entrou num atalho, dirigiu durante mais dois quilômetros e parou o carro. Descemos. Havia várias árvores e estava escuro.

Não tenha medo, ela disse, venha comigo.

Ela andava como se já frequentasse o local havia tempo, caminhava rápida entre as árvores, vencia obstáculos e segurava minhas mãos quando me reparava temerosa. Chegamos, enfim, a um lago.

A água é quente, você vai gostar.

Caminhou até a beira, tirou a sandália e molhou os pés.

Venha ver, é muito gostosa, em cada lugar a temperatura é outra.

Não queria me molhar, falei.

Não se incomode, você nunca sentiu um prazer tão grande, falou e, radiante, deu-me as costas e tirou o vestido. Gorete estava sem calcinha.

Venha, não tema.

Não queria desagradá-la, mas confesso que comecei a ficar preocupada, pois a conhecera fazia pouco tempo, não sabia de quem se tratava e a mulher me convidava para ficar nua à meia-noite.

Não tema, venha.

Comecei a me despir, mas fiquei preocupada onde deixaria minhas roupas.

Não se preocupe, acrescentou adivinhando meus pensamentos, ninguém vem aqui.

Entramos então na água. Ela segurou uma das minhas mãos.

Gorete tinha razão. Em cada lugar que parávamos havia um tipo de temperatura.

Este lago mexe com a gente, ela fechou os olhos e demonstrou que sentia um tipo diferente de prazer. A gente até goza, nem precisa de concentração.

Apesar dos meus temores, tentei imitá-la na busca pelo prazer. E qual foi minha surpresa ao me ver arrepiada, começava a sentir um gozo como jamais sentira. Fui ficando cada vez mais excitada, meu coração chegou a se agitar.

Ainda bem que não sofro do coração, deixei escapar.

Ela sorriu. Ninguém morre de prazer, sentenciou. Ficamos as duas numa espécie de gozo que se prolongava, que se repetia, que nos arrebatava. Ele chegou a dizer:

Sinta apenas, não precisa olhar, chega-se a sentir um pênis a nos penetrar.

Não mais queríamos deixar o lago.

Parece um feitiço, cheguei a dizer, mas um feitiço positivo.

Um feitiço, uma magia, a magia do prazer, e ela gritou como se gozasse intensamente, um orgasmo profundo, quase definitivo. Não me contive, imitei-a no grito, um ardor prolongado.

Exaustas e ainda nuas deixamo-nos cair um pouco acima de uma das vertentes, ficamos de mãos dadas, tocando-nos com a lateral do nossos corpos.

Aqui ficam todas as angústias, falou depois de um longo tempo.

E não precisamos dos homens, acrescentei, o que é muito importante.

Quando começamos a voltar ao carro foi que nos preocupamos em descobrir onde tínhamos deixado nossas roupas.

Cheguei à casa onde estava hospeda ao amanhecer. Naquele dia dormi até às duas da tarde.

Depois do almoço, fui à praia. Deitada sob o sol e olhando uma paisagem surpreendente, comecei a pensar sobre o prazer que sentira na noite anterior. Não passou muito tempo para que se aproximasse e se agachasse junto a mim o homem do dia anterior. Perguntou se eu precisava de alguma coisa. Respondi que o mais interessante naquele lugar era a tranquilidade. Minha resposta tinha a intenção de afastá-lo. Mas não foi assim que ele entendeu;.

Este local é realmente um paraíso. Tenho um amigo que pertence a uma igreja que quer construir o paraíso na terra, disse a ele para vir aqui, o paraíso já existe, terminou sua sentença com um enorme sorriso. Depois me perguntou se eu mergulharia, pois, continuou, não era bom arriscar-se a uma insolação.

Ri de sua última palavra, e ele entendeu o meu gesto como sinal de simpatia. Caso eu entrasse no mar, estava pronto a me acompanhar, embora afirmasse que a praia, apesar de mar aberto, tinha as águas calmas. Permaneceu ainda ao meu lado por um tempo que me pareceu enorme. Não tinha mais o que falar. Eu também me mantive silenciosa.

Quando o sol atingiu aquele ponto limite sobre meu corpo, o estágio que aponta tênue divisa entre moderação e excesso, levantei-me, sorri ainda uma vez ao homem e caminhei para a beira d’água. O contraste entre a temperatura do meu corpo e a da água do mar provocou-me certo prazer. Mergulhei. Depois de dois ou três segundos voltei à tona. A água escorria pelos meus cabelos e borrifei através dos lábios um pouco da água salgada que sempre ouso experimentar enquanto mergulho. O sal sempre estimulou todos os meu sentidos. Dei as costas para a praia, pretendia admirar o horizonte. Mas o que descobri em primeiro plano foi o homem que me espionava na areia. Viera atrás de mim, também mergulhara e nadara, submerso, mais longe. Sorria, pouco a pouco aproximou-se. Notou que não me agradava, mergulhou de novo, deixando-me sozinha. Naquela tarde não mais o vi. Então, pude praticar algo que sempre me deu prazer, desde menina, sei que é uma bobagem, mas para mim tem significado. Tirei a parte de baixo do biquíni e o prendi no tornozelo, como se faz com uma pulseira em volta de um dos braços. Nadei apenas de top, de um lado a outro, sentindo o prazer da água fria entre minhas pernas. Pensei no homem que me espionara. Será que estaria por perto. Acho que gostaria de me encontrar nua, de poder tocar a minha pele, de me namoricar um instantinho que fosse. Achei até que poderia estar escondido, quem sabe submerso, e conseguisse descobrir minha nudez. Mas isto não aconteceu. Às cinco da tarde, voltei à pousada.

À noite, depois das nove e meia, encontrei Gorete de novo. Ficamos durante algum tempo no mesmo bar da noite anterior. Ela pediu sua bebida rubra, enquanto eu optei pelo mesmo vinho. Aqui, os donos de bar tem bom gosto, as bebidas são esmeradas, elogiei.

Gorete sorriu. Sua amiga, a mesma que a chamou da borda do bar na noite anterior, aproximou-se. Beijou-lhe ambas as faces. Gorete apontou para mim, a moça sorriu e acenou. Ao voltar, segurou seu copo, tomou um gole e falou:

Ela achou seu vestido lindo, disse que adora vestidos que vão até os pés.

Achei que ela preferisse sempre os de pouco comprimento.

Nada disso, o negócio dela é mais embaixo.

Ambas rimos.

Passava de uma hora quando saímos juntas do bar. Vamos andar de carro, sugeriu minha amiga. Ela se pôs ao volante, ligou o carro e deu a partida. Costeamos a praia, e entramos por uma pequena estrada que subia um morro. Na parte mais alta era possível ver o outro lado da enseada.

Bonito daqui, falei.

É muito bonito.

Será que o prazer vai ser o mesmo de ontem?, eu comecei a sentir o frisson que a noite emanava.

Acho que maior, ela sorriu depois da resposta.

Gorete dirigiu descendo a vertente oposta da montanha. Não havia ninguém, apenas nós deslizávamos estrada a baixo. Ao chegarmos à praia, ela desligou o motor, abriu a porta e saímos direto para a areia da praia.

A água aqui é quente, como a do lago, embora o mar seja aberto.

Tirei as sandálias, segurei-as com uma das mãos e caminhei até a beira. Verdade, a água estava quente.

Gorete aproximou-se e segurou-me pela cintura, levantou o meu vestido.

Não precisa fazer isso, eu mesma tiro.

Fiquei nua. Gorete abraçou-me. Ao apertar-me num abraço estreito, senti algo rijo onde deveria ser o sexo de uma mulher. Ela também tirou a roupa. Gorete tinha um pênis. Como eu não notara da vez em que estivéramos no lago? Ah, o prazer foi tanto..., pensei

Não se assuste, só se você quiser, falou, sem conseguir escondê-lo, sem conseguir evitar que crescesse ainda mais.

Olhei um tanto estupefata, mas me recuperei a tempo. Pensei muito, num curto espaço de tempo.

Já sei, dei uma sonora gargalhada, é você que rouba as calcinhas das moças da cidade.

Só as calcinhas? Já levei comigo tantos vestidos, elas adoram andar nuas, e adoram trepar comigo.

Sou como elas, eu enfim cedia, por aqui ninguém me conhece, faça a seu bel prazer, aja como se eu fosse uma delas. Corri e mergulhei no mar noturno. Gorete seguiu-me.

quarta-feira, abril 26, 2017

Por que você veio de biquíni?

No começo achei aquilo estranho, mas pouco a pouco fui me acostumando. Ele tirava toda a minha roupa, pedia para eu ficar deitada, imóvel, então começava a me acariciar. Primeiro os seios, depois o ventre, a seguir ia descendo, vagaroso, sem demonstrar pressa alguma; um pouquinho mais abaixo tocava meu sexo com a ponta dos dedos. Já excitada, queria que ele logo viesse sobre mim, precisava sentir-me invadida por seu sexo rijo. Chegava a me mover, pequeno sinal de desconforto, queria dizer sem palavras que suas mãos não me bastavam. Quando tudo parecia se consumar, quando eu pensava que subiria, ágil, sobre meu corpo, ele pedia para me contar uma história. Uma história?, eu replicava impaciente, uma história logo agora? Uma história de tesão, de excitação, se é que as duas palavras não se igualam, você vai arder ainda mais, ele sentenciava. Mas já estou ardendo, daqui a pouco não vou mais querer, perco a vontade, contra-argumentava. Nada disso, sua fala lenta, a voz clara tentava me convencer, você vai adorar, não desejará outra vida. Começava a desfiar uma narrativa. História bobinha, chegava eu a sussurrar, mas não demorava a pedir continue, continue, estou gostando, quero saber como vai acabar.

As mulheres gostam de andar nuas, e você não é exceção. Em casa fica sempre nua, principalmente no verão. Como mora sozinha, não sente necessidade de vestir-se, sai de um cômodo, entra noutro, a nudez lhe proporciona forte tesão, desejaria ter alguém ao seu lado, mas não é sempre que isso é possível. Muitas mulheres dizem que está difícil arranjar namorado nos tempos atuais, tanto mais um namorado fiel, que as ame. Você, sempre nua, senta na poltrona da sala de estar, cruza as pernas e pensa na questão. Acaba por lembrar uma amiga que, por sua vez, narrou uma situação de arrepiar. Ela, que também adora andar nua, sentiu urgência de arranjar um namorado; apelou, como rápida saída, para as relações virtuais. Depois de alguma conversa, o homem a convenceu a um encontro real. Ela de início sentiu-se intimidada. Mas respirou fundo e decidiu ousar, era tudo ou nada. Planejou, com muitos detalhes, uma surpresa que, segundo ela, tornaria o namorado seu prisioneiro, uma espécie de cárcere de amor e de tesão. Marcou na ponta da praia, às dez da noite. Na ponta da praia?, o homem perguntou surpreso. Por que a surpresa? Lá é totalmente escuro, nenhum poste de luz. Isso mesmo, confirmou ainda segurando o telefone, na ponta da praia. Diana chegou de carro, não foi difícil identificar aquele que a esperava, afinal não havia outra pessoa no local. Ele, que se identificara como Jorge, permaneceu imóvel ao ver o veículo encostar. Ela, da mesma forma, não se deslocou um centímetro sequer do assento do motorista; esperou que ele se aproximasse. Ao olhar através da janela, pensou a princípio que ela estivesse nua, uns segundos a mais percebeu que a mulher viera de biquíni. Isso mesmo, de biquíni de praia, e apenas com a parte inferior. Tentou não demonstrar surpresa; cumprimentou-a e esperou que ela tomasse a iniciativa. Entre, por favor, ouviu a voz melodiosa da mulher. Contornou o automóvel pela parte dianteira, parou diante da porta do carona, abriu, pediu licença e entrou. Reparou o rosto de Diana, sorriu, percorreu com os olhos os seios, o ventre e as pernas da mulher, movendo um pouco a cabeça. Como era bonita! Apesar de entrada pelos quarenta, tinha o corpo bem delineado. Ela retribuiu o sorriso e, sem palavras, não demorou a abraçá-lo. Minutos mais tarde, subiu por cima do homem. Era menor e bem mais leve do que ele. Agarrou-o com força e deixou que ele agisse. Depois de namorarem e treparem com voracidade, ela pediu vamos até à beira d’água, preciso dar um mergulho. Os dois saíram do carro, cada um de seu lado, deram-se as mãos e caminharam até a beira da praia. Por que você veio de biquíni?, enfim, ele perguntou. Para que você o tirasse, ela respondeu com naturalidade.

Depois da tal história, você ficou a mil. Seria verdade? Como a amiga poderia agir de tal modo, arriscar-se a ser surpreendida por algum morador da cidade, e quase todos conhecem seu carro. Levava em conta que o tal Jorge era desconhecido, alguém de outra cidade. Mas quem sabe ele seria um morador dali, alguém que lhe pregaria uma peça? Segundo ela, porém, tudo terminou bem. Ele maravilhado com a ousadia da mulher, ela satisfeita plenamente, com o prazer em dia. Você, após ouvi-la, pensou numa maneira de também satisfazer seu tesão. Como agiria? Da mesma forma que Diana? Não teria coragem, não é mesmo? Poderia sair nua de casa, isso mesmo, nua, dirigindo, daria umas voltas pela cidade, sentiria na pele o ar noturno, o calor do verão, mas voltaria direto para casa, nada de descer nua a areia da praia. Era o que você tinha a intenção de fazer. Mas, como estava trêmula, não sabia dizer se de temor ou de excitação, tomou uma dose de vodca antes de sair de casa. Foi o que lhe deu coragem. Não fez as coisas conforme planejou, foi além. Saiu, entrou no carro e deu a partida, seguiu a sua rua no sentido sul, contornou o larguinho do Bosque, pegou a Avenida das Rosas e depois o entroncamento que divide a saída da cidade com a via que leva ao litoral. Lá, acelerou, jamais viu o velocímetro marcar tanto, estava doidinha para chegar à orla marítima. Depois da meia noite, a orla é quase deserta, apenas alguns cães vagam pelo local, a ponta da praia sem postes de luz. Arrepios a mais. Encostou o automóvel no mesmo lugar onde a amiga deixara o seu. Pena que não posso escondê-lo, seria muito ruim alguém ver esse carro sozinho, estacionado aqui a esta hora da madrugada, você pensou. Mas não houve jeito, o melhor seria deixá-lo ali mesmo e caminhar até à beira d’água. Foi então que aconteceu o inesperado. Quer que eu conte mesmo? Você já tem a história, não preciso dizer mais. Quer que eu conte? Está gostando? Ok, vou narrar. Enquanto descia a faixa de areia, você sentiu-se molhada, encharcada, mas não por algum respingo da forte maré, foi na verdade tomada por intenso gozo, mesmo que homem algum não a agarrasse. Após vinte minutos de idílio, a surpresa. Forte ronco de motor chegou aos seus ouvidos. O que será isso?, você se perguntou. Virou rápida para ver se o automóvel estava no mesmo lugar. Sim, ninguém por perto, suspirou aliviada. Outro veículo, no entanto, estacionou atrás do seu. Você voltou-se novamente para o mar e tentou esquecer o que acontecia lá em cima. Será ele?, você se perguntou. Mas não marquei com ninguém. Será ele?, continuou a imaginar. Continuou a descer a areia, o gozo, ao invés de interrompido, cada vez mais forte, mais quente. Foi então que sentiu alguém a agarrando pelas costas. Ah, Jorge, que bom, vieste rápido, já estou nua, pelada pra você, estou molhada, encharcada, você gemeu tais palavras numa voz de ardor, enfia, enfia logo, tira o meu gozo, estou faz tempo sem namorado.

Jorge, vem, sobe sobre mim, sua história é ótima, mas agora quero sentir teu pau, nada melhor do que ele, falei em meio ao meu delírio de prazer proporcionado pelo pequeno conto. Vem, demora bastante dentro de mim.

Dei-me conta, não muito tempo depois de conhecê-lo, de que não viveria sem suas histórias. Mesmo quando estou só e nua em casa, quando muitas vezes sou tomada pelo arrepio de tesão, penso nelas. Não posso negar que muitas, se não me fazem gozar, me deixam no ponto. O que também não deixa de ser um grande prazer.

quarta-feira, abril 19, 2017

Bem nua

Quando eu morava em BH adorava andar de biquíni dentro de casa, biquíni mínimo, quase nua. O apartamento no décimo oitavo andar protegia-me. O prédio de frente, do mesmo tamanho que o meu, subia até o vigésimo. Dois andares a mais eram quase nada diante dos outros dezoito. Ia eu da sala ao quarto, do quarto à sala, da sala à cozinha, o passeio transformava-se em grande prazer, meus movimentos provocavam-me arrepios. Voltava à sala e sentava no sofá, de costas para a janela. Cruzava as pernas, meditava, lia uma revista, avaliava programas vespertinos, como ida a teatros, a cinemas, quem sabe uma viagem no próximo final de semana.

Mudei para o Rio de Janeiro, cidade de tantos namorados. No Rio, andar de biquíni dentro de casa é redundância. Nesta cidade quente e ensolarada, anda-se nua. Certa vez atendi ao telefonema de um recente namorado. Perguntou o que eu vestia. Nada, respondi com naturalidade. Nada?, ele quis ter certeza. Nada, estou nua. O homem ficou louco, pediu que eu me levantasse, que andasse pela casa, que mudasse de lugar, fosse à cozinha e bebesse um pouco d’água, quem sabe comesse um bombom ou uma pequena barra de chocolate. Contasse a ele como era praticar todas essas coisas nua. Você está nua mesmo?, parecia não acreditar. Estou, por que duvidas de mim?

No Rio os prédios ficam próximos uns dos outros, por isso a nudez causa surpresa, estupefação, às vezes alguns problemas. Um morador de frente tem hora marcada para olhar-me, admirar-me. Mas finjo que não o vejo. Mesmo com o quarto na penumbra, a veneziana ou a cortina de renda a obstruir-lhe parte da visão, o homem não desiste. Que tal convidá-lo a vir aqui? Acho que morreria, menos então um admirador.

Os namorados surpreendem-se com minha pouca roupa. Mas aqui faz muito calor, não sei como vocês aguentam, chego a dizer, às vezes tenho vontade de partir. Partir, como assim?, parecem mal compreender. Ir embora, morar num local de clima mais ameno, ou voltar a BH. Um deles quis saber se já saí nua em BH.

Já, uma ou duas vezes, e foi com um namorado do Rio, eu disse. Como foi? Ele foi a Minas, à minha procura. Conheci-o através de uma amiga, namoramos em BH, namoro convencional para uma mulher que mora sozinha. Numa noite de sábado saímos a passear, a comer, beber algo, temperatura amena, eu vestia um vestido de fazenda grossa, mangas compridas, todo abotoado à frente. Ele cismou desabotoar-me, e não foi dentro de casa. Há um parque nas vizinhanças?, sugeriu. Um parque? Sim, mas lembre-se, não estamos na Escandinávia. Escandinávia?, namorado sem cultura aquele. Um lugar tranquilo, onde o único perigo ronda as pessoas uma vez a cada três anos, às vezes um bêbado aproxima-se e te ameaça com um punhal, mas logo vai embora. Encontramos o parque, os botões soltaram-se pouco a pouco, até que o vestido escapou-me. À segunda vez?, não foi em BH, mas no interior, no entorno da minha cidade natal. Viajei com o namorado, queria visitar meu pai. Passamos dois dias na cidade, hospedamo-nos na casa de meu pai, mas não pudemos dormir juntos, não havia cômodos disponíveis. Saímos à noite, a desculpa foi um passeio, uma cerveja no barzinho local. Por que não bebem aqui?, ainda perguntou meu pai. Jairo quer sentir o ar noturno, disse como desculpa, sorri. Fomos ao tal bar, e acabei a noite nua, não no bar, é claro, mas num lugar onde namorava quando adolescente. Caminha-se duas ruas depois da praça principal e a cidade acaba de repente. Estava tudo como no tempo antigo, a escuridão era a mesma, só faltavam as pessoas do outro tempo.

Mas aqui no Rio o calor é vigoroso. Então à praia, e eu nua, verdade, bem nua, a ponto de não dar para reparar o biquíni!

quarta-feira, abril 12, 2017

À noite apareço pra devolver

Entre lençóis e almofadas acordo na casa do namorado. Oito horas, silêncio, manhã que começa dourada. Pouco a pouco vou recompondo o dia anterior, a noite de amor, as horas de prazer. Espreguiço-me, fecho os olhos, tento mais um pouquinho de sono, não quero renunciar ao paraíso. Mais um quarto de hora sinto vontade de tomar café, café fresco e bem quente, começar meu dia com disposição. Sento à beira da cama, os pés a tocar o chão, nua por inteiro, como costuma acontecer quando durmo com o namorado. Enfim, levanto-me, arrasto comigo um dos lençóis, como um grande manto, começo a juntar minhas roupas. Calça, calcinha, meias, top, casaquinho. Onde a blusa? Tenho problema com blusas, elas desaparecem sem deixar o menor vestígio. Há pessoas que não sabem, nós, mulheres, podemos perder algumas peças de roupa, mas morremos de vexo caso não encontremos a blusa. É certo que gostamos de exibir os seios. Mas há momentos próprios para isso. Ficar de seios à mostra ao inesperado é duro, muito duro. Junto a roupa toda sobre a poltrona do canto do quarto. Com meus próprios movimentos, deixo escorregar o lençol. Não há problema, melhor ir à cozinha, o café espera-me. Após dez minutos, estou sentada na mesinha da própria cozinha, xícara à frente, um pedaço de queijo, uma torrada, manteiga. Mas onde enfiei a blusa?, eu a pensar com os meus botões, aliás, a pensar sem pano e sem botões. Uma lembrança me vem à memória. Devia ter dezoito ou dezenove anos, uma festa como as que aconteciam naquele tempo. Acho que quando eu era bastante jovem todos eram loucos, isso mesmo, totalmente pirados. Não sei se a ideia fora tramada por antecipação ou alguém a gerou naquele mesmo momento. As garotas podem tirar a blusa, vamos apagar as luzes, todas ganham um prêmio. Caímos na história. Mas até que foi engraçada aquela noite. Tiramos blusas, tops, sutiãs, e houve quem ficasse nua por inteiro. De mais detalhes, não lembro. No final da tal festa, lá pelas quatro e tanto da madrugada, onde a minha blusa? Eu e Aninha sem a blusa. Como volto pra casa com os peitos de fora?, o que vou dizer à minha mãe?, Aninha desesperada. Suas palavras serviam para mim. Não sei de quem fora a brincadeira, mas eu e ela não encontramos o menor vestígio de nossas blusas. Tempos depois houve outro fato semelhante, mas com um homem com quem tive um caso. Ele me roubou a calcinha, o que me deixou furiosa durante alguns dias, mas depois esqueci. Melhor sem calcinha do que sem blusa!

O apartamento do namorado, tão bonito, ajudei a decorar, a comprar alguns objetos, tudo muito mimoso, requintado, há também muitos livros. Mas cadê minha blusa? Será que vai se repetir o desfecho daquela festa perdida no tempo? O namorado sai cedo, precisa trabalhar. Não acredito que levou minha. Por que desejaria minha a blusa consigo? A blusa na sua mochila, vez ou outra ele vai ao banheiro, tranca-se, pega o tecido fino nas mãos e o cheira, meu perfume o acompanhará durante boa parte do dia. Não acredito, ele há de me preferir ao vivo, conheço-o bem, não vai querer a namorada em segunda mão na pele de um pano de algodão. Ando pela casa. Banheiro, saleta, sala, escritório. Nada. Minha blusa criou asas e voou. Cubro-me com o lençol mais uma vez, um tomara-que-caia comprido, além dos pés, arrasto a cauda pelo chão da sala, chego à janela, olho os outros apartamentos, a rua defronte, uma marquise. Lógico que não há blusas em lugar algum. Volto à cama, aproveito e me deito de novo, enrolo-me no lençol, aperto o tecido junto aos seios. Como pode uma blusa desaparecer assim tão, tão, sei lá, tão de repente? Ah, sim, minha blusa abduzida. Vou dormir de novo, pode ser que ao acordar ela tenha aparecido. Caso isso não aconteça, o namorado tem dezenas de blusas, camisas, camisetas... Resolvido. Escolho uma e vou pra casa. À noite apareço pra devolver. À noite, aperto seu corpo quente, sua pele nua, seu abraço a me cobrir. Posso, então, perder a blusa novamente.