segunda-feira, julho 16, 2018

Tantos vestidinhos

Vânia, tenho uma história louca pra te contar. Sabe o namoradinho sobre quem te falei? Então, saio com ele já algumas vezes, vamos ao cinema, a algum bar, a restaurantes e coisa e tal. Na última vez, depois de passearmos, me chamou pra ir ao apartamento dele. No começo hesitei, depois acabei indo. Logo que chegamos, ele ligou o rádio, uma música instrumental, depois ofereceu uma bebida. Não aceitei, já tínhamos bebido antes. Abriu uma cerveja, das pequenas, e bebeu devagar. Escutávamos a música e, vez ou outra, trocávamos um beijo. Depois de uma meia hora, deitei na cama de casal que há ali; o apartamento dele é um tipo de estúdio, com um pequeno sofá, mesa, quatro cadeiras, cama e um pequeno armário. Continuou no mesmo lugar, bebendo e olhando pra mim. Então eu o chamei pra ficar ao meu lado. Ele veio, deitou e me beijou, tudo ainda no maior respeito. Passaram alguns minutos, ele disse você vai ficar toda amarrotada. O que eu fiz? Tirei o vestido e fiquei de calcinha. Ele pegou minha roupa, colocou num cabide e guardou no armário. Assim fica guardadinho. Sorri de suas palavras. Continuamos nossos beijos e carícias. Não demorou, tirou minha calcinha. Eu nua, ele ao meu lado totalmente vestido. Me pediu pra ficar em pé, ao lado da cama, então me abraçou. Acho que gosta, vestido, de abraçar uma mulher nua! Será que preciso dizer o que aconteceu depois? Tirei a roupa dele, todinha, e deitamos de novo. Que bom! Um peru duro e imenso! Imagine o tanto que gozei. Fiz certo charminho, disse que era muito grande, ia me machucar. O homem teve o maior cuidado. Veio devagar. Quando fiquei molhadinha, escorregou o peru pra dentro de mim. Ui, gulosa que sou. Ficamos num namoro que evoluiu a várias posições, até dei aquela voltinha completa, o pau dele como eixo. Quando paramos, depois de muita excitação e gozo, descansamos um pouquinho. Ao dar mostra que queria ir embora, me pediu pra vestir uma camiseta dele. Mas por que não o vestidinho?, perguntei. Uma brincadeira, falou. Vesti a tal camisa, que me desceu até um palmo acima dos joelhos. Um mini vestidinho. Você sabe como sou assanhada, comecei a fazer várias poses, ora mostrava as coxas, ora levantava a barra da camisa. Ele disse você vai pra casa com esse vestidinho, vou levar você, ou quer dormir aqui? Quero dormir aqui, eu disse, mas era brincadeirinha, eu tinha um compromisso cedo, no dia seguinte. Achei tão engraçada a fantasia dele. Imaginei-me entrando no seu carro, depois descendo diante do meu prédio, correndo pra abrir a portaria, a seguir o elevador e a porta do apartamento. Que susto, ninguém a me surpreender! Se você for embora, ele completou, seu vestidinho fica aqui até amanhã, assim você volta, ainda que seja pra pegá-lo. A historinha me deixou a mil por hora. Pra aumentar a tensão falei já deixei tantos vestidinhos por aí... Ele me abraçou e me deitou de novo. Trepamos mais uma vez! Como fui embora? Jura que não conta pra ninguém? Adivinha, Vânia! Deixei, sim, tantos vestidinhos largados por aí!

terça-feira, julho 03, 2018

O homem não aguentou

O namorado parecia cheio de energia, mas não foi o que constatei quando ficamos sós, num quarto de hotel. Parecia nervoso e não conseguia a ereção. Não ia admitir sair dali sem o cara ter me comido. Mas mantive a calma e me mostrei carinhosa.

“Você está acostumado com as mulheres”, eu disse, “principalmente com mulheres bonitas.”

“Estou, mas você é especial.”

“Não tenho nada de mais nem de menos do que as outras”, sorri, pisquei um dos olhos para ele.

“Jura?”, ele duvidava.

“Por que jurar, basta você investigar. Sei que sou bonita, produzida, especial, mas... por que a tensão?”

Vou descontraí-lo, pensei.

Sorri, beijei-o, levantei-me. Ele me acompanhou, beijou-me, mordeu-me delicado o lábio inferior. Lembrei-me de um ex-namorado, adorava morder meus lábios, mordia com cuidado e mantinha-o dentro de sua boca durante um bom tempo; outra coisa que gostava era morder a ponta das minhas orelhas. Passei a gostar de ambas as ações, sentia-me a mil, como gozava com aquilo.

Começou a tirar-me a blusa.

“Calma, deixa que eu tiro”, sugeri.

Ele, porém, excitava-se ao despir-me. A me ver com os seios nus, beijou a extremidade de um, depois de outro. Tentei abrir sua calça, mas ele esquivou-se.

“Quero você nua por inteiro, depois tiro a roupa, assim fico com mais tesão”, afirmou.

Continuou a trabalhar com as mãos. Desabotoou minha calça, puxou a calcinha. Pronto, eu nua por inteiro nos seus braços.

Num movimento rápido, ele soltou-me, quis apreciar meu corpo da distância de dois metros.

Tenho vergonha, falei serelepe, cobrindo apenas os seios, a parte de baixo toda à mostra.

“Agora quero ver você nu”, exclamei.

Tirei a roupa do homem em dois segundos. Mas me surpreendi ao perceber que seu pênis não ficara duro. Nada falei, tomei-o com carinho numa das mãos e comecei a acariciá-lo. Fiz que sentasse, agachei e coloquei seu sexo dentro da minha boca. Acariciava-o agora com a língua, com os lábios. Senti, então, que enrijecia mas ainda não o suficiente.

“Relaxe”, falei, “relaxe que vai fica tudo bem.”

“Você é baiana?”, suspirou.

“Como adivinhou?”

“As cariocas falam relaxa, você disse relaxe, você é do nordeste.”

“Sou baiana, sim, uma baiana peladinha pra você.”

Por que alguém mais velho do que eu apenas alguns anos tinha tanta dificuldade para o sexo? Vai ver que lhe faltaram boas mulheres.

“Quer que eu fale sacanagem no teu ouvido?”, vou te contar uma boa história, sussurrei numa mistura de voz e gemido.

Fomos para a cama, deitei por cima dele, prendi seu pênis no meio das minhas pernas e continuei.

“Quer botar no meu cu?, os homens adoram.” (Quando a gente fala de outros homens, os namorados levantam a antena, e quem sabe o peru!)

Adoram?, pareceu assustar-se.

“Isso, adoram, não há quem não goste.”

“E não dói?”

“Ah, às vezes sim, tem que ser com carinho.”

“E como foi a primeira vez?”

“A primeira vez que deixei colocar atrás? Ah, fiquei nervosa, morrendo de medo. Sugeri ao homem e depois quis desistir. Ele tinha um peru enorme. Ao reparar, eu quis desconversar. Mas já era tarde. Como eu suei no começo. Mas no final gozei.”

“Gozou?, conta, por favor.”

Seu pênis começou a ficar no ponto.

“Sabe como ele fez para entrar?”, eu incentivava”, o homem dizia, relaxe, relaxe, mas eu não conseguia, estava toda tensa, apertada, não passava uma unha. Então ele lembrou que havia creme rinse no banheiro do hotel. Lambuzou meu cu. Isso mesmo, fiquei toda molhada, lambuzada. No ponto. Não pude então escapar. Um peru enorme entrando no meu cu.”

Seu pinto levantou, mais duro não podia.

“Ah, que bom, você me excitou, tenho dificuldade de ereção, você conseguiu com sua história.”

“Então mete, vem, vem dentro de mim.”

Eu já estava preparada, lambuzara-me com um creme que trouxera na bolsa. Lógico que não deixei que ele percebesse.

“Mete, isso, mete, bem devagar, deixa escorregar. Assim, assim”, gemi, “fica muito tempo, viu, nada de pressa. Já que você demorou a ter a ereção, demora também pra gozar. Vai, assim, isso, está muito gostoso, prometo que depois conto outra história, você não vai mais ficar de pau mole...”

O homem não gozava, o peru sempre duro, eu adorando. Num momento, acrescentei:

“Deixa pra gozar dentro da minha boca, tá?”

“Dentro da boca?”, suspirou.

“Isso mesmo, vou engolir tudinho, ok?”

Ui, o homem não aguentou!

segunda-feira, junho 18, 2018

Leitor de literatura

Tive um namorado que adorava fantasias, isto é, inventava várias situações para representarmos. Certa vez, na casa de praia, pediu-me para sair de biquíni e esperar durante algum tempo do lado de fora; depois, para bater e aguardar que ele abrisse a porta. Eu tinha de fazer de conta que era uma pessoa desconhecida, que estava ali em busca de um favor. Na verdade, eu podia inventar a situação que bem entendesse, mas no fundo deveria estar mesmo paquerando-o, porque já o tinha visto antes na praia. Em outro momento, na própria praia, eu passava junto a ele vestindo um biquíni bem saliente. Ele deveria tentar conquistar-me. No final, tudo acabava num amor quente, eu nua nos seus braços. Lógico que dentro de casa.

O tempo passou e nos separamos. Não sei o motivo. Na vida, é assim, tudo é efêmero, tudo um dia acaba. Mas há um mês recebi uma mensagem dele, dizia que ficaria muito feliz em me encontrar. Respondi perguntando como ele estava passando e o que desejava.

“Tenho um presente pra você”, falou.

“Um presente?”, que bom.

Disse que era surpresa, não podia me dizer. Marcamos, então o encontro.

Ele veio à minha cidade, chegou numa terça-feira pela manhã. Como eu continuava morando no mesmo lugar, não foi difícil encontrar-me.

Logo ao chegar, abriu os braços e me abraçou demorado. Beijou-me. Enfim, entregou-me o presente. Era uma linda canga, toda colorida, bordada em alguns pontos.

Enquanto eu abria o presente, ele começou a contar alguns casos engraçados, acontecidos com ele nos últimos anos. Quando ficou em silêncio, ainda com um ligeiro sorriso no rosto, agradeci o presente e o beijei mais uma vez.

“O que trás você aqui, afinal?, eu estava curiosa.

“Saudades”, respondeu de pronto.

“Nem lembro por que terminamos”, deixei escapar.

“Nem eu.”

“Tenho uma história engraçada pra contar”, eu disse.

Ele, como sempre gostou de ouvir minhas histórias, pediu que eu continuasse.

“Tenho ido muito à praia, você sabe como gosto, e fica logo aqui em frente. E tenho ido nua!”

Ele fez cara de espanto.

“Lógico que não totalmente nua, mas com um biquíni bem pequeno, você me conhece. Outro dia, veio um vendedor de cangas oferecendo-me uma. Acho que ele me vê sempre atravessando a rua de biquíni, resolveu oferecer-me. E ficou naquele papo de vendedor, olha que linda essa, faço baratinho pra senhora, e olha mais essa. Vez ou outra olhava minha nudez, mas queria mesmo era vender a canga. Eu disse que iria pensar, que no dia seguinte talvez comprasse. Ao encontrar-me dias depois, insistiu de novo. Acabei comprando duas cangas, muito bonitas por sinal. E pra completar a história. Tenho um namorado, sabe, ele adora me ver enrolada numa canga, e pede pra que eu não use nada por baixo. Lógico que tudo isso acontece dentro de casa. Eu ainda digo a ele é melhor eu ficar nua pra você! Mas ele prefere que eu surja enrolada numa canga, depois desamarra, e vem a hora do prazer.”

Meu amigo não mudou sua fisionomia, apesar da história do namorado.

“Agora você tem mais uma canga pra representar a fantasia de seu namorado, e muito mais bonita”, acrescentou.

Sentamos e conversamos. Após meia-hora ele propôs darmos uma volta. Saímos pra beira da praia. Como queria agradá-lo, enrolei no meu corpo a canga que me deu de presente.

“Hoje não tem quase ninguém na praia”, observou.

“Terça-feira é assim mesmo. Aqui só tem gente de sexta em diante.”

Andamos a orla toda, um quiosque estava aberto. Meu amigo comprou uma cerveja.

“Você não bebe?”, perguntou. Aceitei um suco.

“Você vai embora hoje?”, perguntei depois de um tempo.

“Acho que sim, vim ver você, posso ficar mais algumas horas.”

Lembramos os velhos tempos, mas ele não tentou me reconquistar, não falou nenhuma palavra que levasse a esta interpretação. Nem tentou tocar-me o corpo.

Num determinado momento, sugeriu:

“Você, com essa beleza toda, deve arranjar muitos namorados.”

“É, até que não é difícil, mas sabe como são as pessoas daqui, não são muitos fiéis.”

“E você é fiel?”

“Tento ser, mas às vezes, até que dá uma vontade de brincar com outro.”

Ri muito depois das minhas próprias palavras.

Continuamos nosso passeio. Ele então me convidou.

“Posso ficar o dia inteiro, você aceita almoçar, daqui a pouco?”

“Claro que aceito”, virei pra ele e fiz uma careta.

O sol estava brando, o vento suave, as ondas explodiam ao longe. Meu amigo olhou tudo aquilo e, tenho certeza, lembrou o tempo quando vivia ao meu lado.

Ainda enquanto andávamos pela beira da praia, perguntou:

“Como vão os livros?, tem lido muito?”

“Nem tanto”, respondi torcendo o sorriso, “preciso ir à biblioteca. Sabia que aqui há uma boa biblioteca?, já não vou lá faz tempo.”

“Trouxe um livro pra você. Pelo menos por enquanto não vai precisar da biblioteca. Quando voltarmos à sua casa, entrego, está na mochila.”

“É sobre o quê?”

“Um romance, uma história que começa em M. e acaba no Rio de Janeiro. Uma espécie de livro de amor misturado com trama policial. Uma mulher ama um rapaz mais jovem do que ela. Ele desaparece e ela vai atrás, quer saber o que aconteceu. Durante este percurso, ela descobre outros fatos. É interessante chama-se Se houvesse sol.”

“Deve ser interessante”, chamei a atenção, “um livro ambientado em M., jamais soube de qualquer livro que se passa em M. Há grupo de poetas que se reúnem uma vez ou outra naquela cidade, alguma antologia de uma poesia muito convencional, mas livro ambientado em M., nunca soube.”

“Existe sim, talvez porque a autora não seja muito conhecida. Ela, inclusive, tem outro livro ambientado em M. e em Rio das Ostras.”

Chegávamos próximos à praça da Baleia. Meu amigo tirou o telefone do bolso e olhou as horas, quase meio dia.

“Você acha cedo para almoçar?”, perguntou.

“Não, está bom agora.”

Entramos num dos restaurantes que bordeiam a praça. Na porta havia uma tabuleta com os pratos do dia. Paramos durante alguns instantes e lemos as informações.

“Hum, vamos pedir um robalo em postas.”

Sentamos, o garçom não demorou a aparecer. Meu amigo fez os pedidos e continuou falando sobre literatura.

“Há algumas pessoas pedindo que eu escreva sobre seus livros. Aceito, consigo publicar, mas quero mesmo é publicar dois romances que tenho guardado.”

“Por que não publica?”

“Não é tão fácil assim. Na internet, há alguns sites que ajudam na elaboração de e-books, autopublicações etc., mas quero mesmo publicar por uma editora que faça a distribuição.”

“Lembra?, quando morei em M. era uma dificuldade formar um leitor de literatura. Por mais que eu tentasse no meu trabalho de bibliotecária, eram poucos os resultados.”

“Houve algum resultado?”, perguntou enquanto tomava um gole de suco de laranja, que o garçom acabava de trazer, “se você conseguiu formar um leitor, já está ótimo o resultado.”

Sorri, enquanto abria um tablete de manteiga para passar numa torrada. Esperávamos que nos trouxessem o prato principal.

“Qual a função da leitura no mundo de hoje?”, fiz a pergunta de surpresa.

“Não sei”, respondeu, “acho que a palavra função não é boa, parece algo do mundo industrial; a leitura é um prazer, um meio de conhecer o mundo, de usufruir da imaginação alheia. Dependendo do livro, também é um meio de elaborar questões. Mas fiquemos no prazer, no divertimento. É tão bom ler um livro interessante.”

“Hoje vejo gente olhando o celular o tempo todo, vendo fotos, vídeos que os amigos enviam, até estou começando achar a leitura impossível, pelo menos pra algumas pessoas.”

“Há muita coisa concorrendo com a leitura, mas ela é importante. O livro que eu trouxe pra você apresenta essa questão, a concorrência da leitura com outros meios de transmissão de histórias.”

O garçom chegou com o peixe assado. Era enorme, rodeado de batatas cozidas e alguns pedaços de tomate. Colocou-o no centro da mesa e começou a nos servir. Primeiro a mim, depois ao meu amigo. O empregado parecia satisfeito em distribuir aquele prato a nós dois. Antes de afastar-se, disse que o chamássemos caso precisássemos de mais alguma coisa.

O almoço transcorreu na mais pura satisfação. Até mesmo parecia o tempo em que vivemos juntos. Saboreamos o peixe, mantendo-nos em silêncio enquanto comíamos. Somente quando acabávamos é que voltamos a falar sobre um ou outro assunto banal. Meu amigo sabia gozar as coisas boas da vida, e aquele almoço era uma dessas coisas.

“Você continua o mesmo”, cheguei a falar.

“O mesmo?”, perguntou ainda mastigando.

“Você gosta do silêncio na hora da comida.”

“Como os gregos da antiguidade, eles também amavam saborear as refeições, nãos gostavam de conversar nem de música no momento em que comiam.”

“Ah, você sempre com seus exemplos, quero sabe se as mulheres sentavam à mesa ao lado deles.”

“Quem sabe, fala-se muita bobagem atualmente.”

“Que tal saborear um sorvete?”, sugeri ao olhar ao lado uma mulher que comia um com calda de caramelo.

“Ótima ideia, vamos completar toda essa gostosura.”

Meu amigo pediu um sorvete de coco; eu, um de morango. Ambos com calda de caramelo. Demoramos, esperamos os pedaços de frutas dissolverem-se dentro de nossas bocas, junto com o creme que, pouco a pouco, tornava-se uma espécie de líquido. Depois que terminamos, ele pagou a conta, agradecemos e saímos. Continuamos nossa caminhada pela beira da praia.

“Que tal irmos à praia, vamos pedir um guarda-sol e duas cadeiras na Tocolândia”, sugeriu.

“Será que aguento?”, perguntei já demonstrando o efeito do almoço, o sono sempre me capturava naqueles momentos.

“Durma debaixo do guarda-sol, recoste a cadeira enquanto aprecio o mar.”

“Quando você morou por aqui, não apreciava tanto a paisagem.”

“É a velha história, a gente sente depois que perde.”

Sorri, aceitei seu convite. Caminhamos à Tocolândia.

Conseguimos o guarda-sol e duas cadeiras de praia. Descemos a areia até ficarmos a mais ou menos vinte metros da linha d’água. Abrimos a cadeira e eu me coloquei sob a sombra. Fechei os olhos ligeiramente, como se cochilasse. Meu amigo sentou e permaneceu silencioso. Acho que passaram quase quinze minutos sem que nos dirigíssemos um ao outro. Fui eu que retomei o diálogo.

“Você sabe que houve um crime, aqui na região?”

“Não, não ouvi falar.”

“Uma mulher foi assassinada.”

“Sério?”

“Você acha que eu ia brincar com essas coisas?”

“Encontraram o criminoso?”

“Vou falar primeiro sobre o que aconteceu”, eu queria mostrar o motivo do crime.

“Ok.”

“Ela morava sozinha, trabalhava em M., aparentemente era alguém independente. Apareceu morta dentro de casa. Há rumores de que ela recebia alguns homens, mas há muita fofoca por aqui.”

“E a polícia?”

“Você sabe como é a polícia, ela não investiga.”

“Vocês vão deixar por isso mesmo? O fato põe em perigo todas as mulheres.”

“Claro, mas a quem vamos recorrer?, estamos numa cidade muito masculina, as vítimas são consideradas culpadas. Caso uma mulher queira viver livre, trepando com que deseja, ela é a culpada.”

“Você não sente medo?”

“Não, não sinto”, falei resoluta. “Mas, aqui, para ter segurança, é preciso de um homem. É um absurdo, não?”

Ele olhava o mar, parecia contente a apreciar a paisagem.

“Agora vamos pra um assunto mais leve,” falei.

Ele me olhou, sorriu.

“Ainda bem que há coisas boas em você.”

“Sabe que um rapaz, deve ter vinte e poucos anos, vive me paquerando.”

“E o que tem isso?”

“Sou quase vinte anos mais velha que ele, é muito tempo.”

“Nada disso, não há idade para o amor”, afirmou alegre.

“Você acha que alguém de vinte e poucos anos sabe o que é o amor? Se a gente, de mais de quarenta, ainda não sabe...”

“Conta como foi a aventura.”

“Não houve aventura. Quando venho à praia, ele sempre aparece, fica me olhando. Pediu um cigarro uma vez; de outra, pediu pra ler um caderno do jornal que eu trouxera pra praia. Emprestei. No final perguntou se eu não entrava n’água. Muito engraçado.”

“E o que você falou?”

“Que sim!”

“Então a coisa foi boa.”

“Só uma vez. Disse a ele para não se achar o tal.”

“É o seu namoradinho?”

“Não!”

“Entendi.”

“Tenho uma amiga que diz: ‘a fila anda!’, muito engraçada ela.”

Meu amigo decidiu mergulhar. Disse que sentia muito calor. Tirou a roupa, ficou apenas de sunga e entrou n’água. Voltou-se pra mim, jogava água pra cima, como se me convidasse a entrar. Soltei a canga, deixei-a sobre a cadeira e corri na direção dele.

segunda-feira, junho 04, 2018

Encanto

Na praia, sempre há alguém a nos olhar, sobretudo os homens. Nós, mulheres, sempre exercemos encanto sobre eles. Alguém pode dizer que o inverso é verdadeiro, quero dizer, os homens também enfeitiçam as mulheres. O dito não deixa de ter sua ponta de verdade. Mas as mulheres tem mais poder, e devem preservá-lo. O pior para uma de nós é tornar-se alguém que perdeu o poder de encantar. Toda mulher, por natureza, tem este dom. Vide, na história da literatura, as fadas e as feiticeiras. O poder de encanto que perdura, no entanto, acontece quando somos fugidias. Assim, os homens tornam-se apaixonados, ou quando não, atraídos. Por isso, temos de tomar muito cuidado. Outro dia, conversei aqui na praia, sob este mesmo guarda-sol, com uma amiga, enquanto aproveitávamos o dia.

Como fazemos para não perdermos o poder de encantar?, quis ela saber.

Não faça nada.

Como, não faça nada?, repetiu.

Quando um homem demonstrar interesse por você, espere. Apenas.

Esperar, como assim?

Deixe-o se encantar mais e mais. Faça de conta que não está percebendo o que ele quer.

Sim, entendi, ela replicou; se um homem estiver a fim de sair comigo, não aceito.

Na teoria, sim. Mas não seja tão explícita. Desconverse.

Mas gosto tanto dos homens, ela insistia.

Eu também, mas gosto mais do meu poder de sedução, do meu poder de encantamento. Caso aceito sair com alguém, sobretudo de primeira, este poder acaba. Nada pior a uma mulher do que perder sua capacidade de encantar, insisti.

Nunca pensei nisso, acho que o importante é satisfazer o meu desejo.

Caso você o satisfaça com um homem maravilhoso, amanhã ou depois terá o mesmo homem ou ele vai atrás de outra?

Na certa vai procurar outra, sim, são eternos insatisfeitos.

Melhor sentirmos prazer, uma espécie de orgasmo, com o nosso poder de encantamento. Cada vez que encantamos um deles, um gozo. Melhor do que o gozo com o homem transitório, prestes a nos deixar.

Mas, como fazer?, precisamos sentir o corpo masculino, o sexo masculino. Satisfazer-se com o próprio poder de encantamento é uma satisfação abstrata.

Nada disso, uma satisfação abstrata que reflete no próprio corpo.

Sério?, ela pareceu não acreditar.

Sério. Quer saber como?

Sim.

Deite sozinha, pense no seu poder de encantamento, de feitiço, imagine os homens que você seduziu, que deixou enfeitiçado por você. Faça isso nua, à noite. Goze com o seu próprio corpo, com o seu meio de encantá-los. É tão gostoso... Tenho uma amiga que, para se excitar mais, pensa nas sacanagens que os homens dizem no seu ouvido, sobretudo aqueles que ela seduziu.

Você fala sério?

Falo, vou contar uma pequena história. Quer ouvir?

Sim, talvez sirva de exemplo.

Tenho um amigo que recebeu pelo zap algumas fotos de uma mulher com quem ele se relaciona. Ela aparecia nua nas fotos e escreveu assim: eu gozando, guarda pra você. Ao aumentar a imagem, reparou que a vagina dela estava molhadinha, dava pra ver perfeitamente uma pérola de gozo. Ao encontrá-la, dias depois, ele perguntou você, pra fazer aquelas fotos, se masturbou. Ela disse não. Como você conseguiu gozar, então? Com meu próprio corpo, respondeu. Nem é tão bonita, mas tem um poder de encanto imenso. O poder é tanto, que ela se encanta consigo mesmo.

Minha amiga entortou a cabeça. Bem, não tinha pensado nisso, quem sabe também consigo.

Consegue, sim, todas conseguimos, sorri, como tivesse encontrado a verdadeira solução para o amor.

E o amor, qual o lugar dele nesses relacionamentos?, minha amiga pareceu adivinhar meu pensamento.

Amor mesmo é muito difícil, quase impossível, o que existe é atração física e paixão. Caso houvesse amor, os homens não correriam atrás de outras depois de trepar com a gente, não é mesmo? Por isso, a história do poder de encanto... e tem mais uma coisa, não quero dizer que não vamos trepar com homem nenhum, vez ou outra, quem sabe. Pode ser, de vez em vez com alguém daqui da cidade, ou vamos a um local onde ninguém nos conhece. Estes vão ficar ainda mais encantados. Não sabem nada de nós nem vão nos encontrar de novo!

segunda-feira, maio 21, 2018

Onde meu vestidinho?

Tenho um amigo que me adora. Aliás, às vezes nossa relação avança um pouco além da amizade, mas prefiro dizer que é meu amigo. Outro dia estávamos na praia, eu vestia um biquíni comportadíssimo, mas disse a ele que da próxima vez viria trajando apenas uma peça.

Uma peça?, surpreendeu-se.

Isso mesmo, uma peça.

Então você vem com os seios à mostra, sugeriu.

Nada disso, um maiô inteiriço, dei de ombros.

Ah, bom, ele entendeu.


Lembrei, então, de um antigo namorado, sapeca que só, não é que queria me deixar nua na praia? Eu queria mesmo era trepar com ele, uma gostosura, muito bom de cama, preferia mesmo ficar em casa a manhã inteira, eu nos braços dele. O homem, porém, queria me levar à praia. Eu cedia. Certa vez eu disse que iria, mas só com uma peça. Não fui vestindo o maiô inteiriço, apenas a parte de baixo do biquíni, e nada de comportado. Não é que dentro d’água ele me deixou nua? De uma peça, a nenhuma. Mas foi bom. A água gelada, eu nua. Ainda bem que aquela praia em R. O. estava vazia, não era temporada.


Volto ao meu amigo. Não sabe nada das minhas sapequices.

Você gosta de vestidões?, pergunta.

Vestidões, como assim?

Aqueles vestidos compridos, que descem até abaixo dos joelhos, ou mesmo até os pés.

Gosto, tenho três.

Você nunca vestiu nenhum deles pra mim, fez cara de amuado.

Qualquer dia desses a gente sai à noite, vou vestida com o mais bonito, afirmei solícita.

Ok, vou adorar, deve ficar bem em você; vou te dar mais um no teu aniversário.

Ficamos na praia, ao sabor do mar, do sol e do vento. No final da tarde, ele me abraçou, me carregou no colo. Adorei. Pele com pele, coladinha a ele. Tomamos um refrigerante num quiosque.

Sabe, voltei a falar, há homens que adoram mulheres bem vestidas.

Sou um deles.

Acho que nos desejam de vestidões, para depois nos despirem, tirar toda a roupa que temos sobre a pele, inclusive calcinha e sutiã.

Ele riu.

Você nem usa sutiã!


Eu e esse meu amigo trepamos duas vezes, e totalmente ao acaso. Uma foi na minha casa. Ele dormiu ao meu lado, durante a noite resolvi abraçá-lo. Ao acordar, pela manhã, estava nua! Jurou que não foi pelas mãos dele. Abracei-o, ainda nuazinha, e fizemos um amor muito gostoso. Depois coloquei o dedo sobre os seus lábios e disse a ele: isto não aconteceu. Continuamos amigos, nada mudou entre nós. Que bom, seja sempre assim!

A segunda vez... Bem, a segunda vez conto já. Antes, apenas um parêntese.

No dia seguinte fiquei sozinha em casa. Peguei um livro pra ler. Sentei no sofá e me perdi na história, uma história de amor. Mas, às nove da noite, o telefone tocou. Era meu amigo.

Tenho um presente pra você, afirmou solene.

Não é ainda meu aniversário.

Não faz mal, quero te dar o presente; no aniversário, dou outro.

Não gosto de largar um bom livro, mas o deixei de lado pra receber o meu amigo. Chegou às dez em ponto.

Abri a pequena caixa, um vestido. Mas nada de vestido comprido. Ao contrário, um minivestido branquimnho. Meu amigo saliente!

Experimenta pra gente ver; se você não gostar pode trocar, aqui o cartão da loja e o nome da vendedora.

Fui ao quarto, vesti a roupa, cheirinho gostoso de roupa nova. Caiu perfeito no meu corpo. Tão curtinho. Voltei à sala.

Ah, eu que pensei que você gostava de mulher com muito pano!

Meu amigo me abraçou. Depois fomos ao restaurante, pertinho de casa, eu dentro do vestidinho.

Morro de vergonha, estou nua, tudo de fora.

Nada disso, você está ótima, ele me consolou.

Bebemos duas caipirinhas. Voltamos abraçados. Dormimos juntos. A bebida havia me deixado soltinha. Pendurei o vestidinho no encosto da cadeira e pulei sobre o meu amigo. Devagarinho, abri as pernas. Minha xota molhadinha!

Mas, no dia seguinte, quando acordei, ele já havia partido. Onde meu vestidinho? Não encontrei. Nem a caixa, nem o papel, muito menos o cartão da loja com o nome da vendedora.

Hum, será que meu amigo veio mesmo ou era a história do meu livrinho?

segunda-feira, maio 07, 2018

Bebendo de canudinho

Você me convidou pra encontrar você, não foi? Concordei, estou aqui. Mas não pense mal de mim. Você falou ao telefone olha, vou te dar um presente, aquele presente que sempre ofereci a você. Fiquei pensando o que seria. Depois, lembrei. É a quantia que eu sempre te pedia quando trabalhei no centro cultural. Pedia emprestado, mas depois não tocava mais no assunto. Nada falava, nem mesmo uma palavra. Por sua vez, você também não cobrava. Às vezes eu pensava aonde chegaríamos, eu toda endividada com você, sempre pedindo, você emprestando. Quero dizer, fingindo emprestar, porque na verdade me dava, já que jamais paguei. Tem alguns dias seu telefonema, oi como vai, tudo bem?, venha, vou te levar o presente. Escutei tua voz delicada, melodiosa. Fiquei com receio da proposta, achei que tinha uma ponta de prostituição. Você sabe, trabalho de secretária. No momento, não tenho emprego fixo. Mas sempre alguém me chama, me paga cento e cinquenta, duzentos reais. Você me ofereceu duzentos, disse que era presente, não pra fazer serviço de secretária, mas encontrar e sair com você. Quem sabe terminar num quarto de hotel?, imaginei naquela hora. Você deve ter pensado em prostituição, mas nada falou, teve medo de me ferir. Pensou sim, porque também pensei, é  normal esta angústia. Fiquei preocupada, porque não costumo sair com homem em troca de dinheiro. Você podia achar que sou piranha. Toda vez que aceito o convite de um homem, é porque me atraiu, porque pode ser capaz de me causar prazer. Sair por dinheiro é outra história. Aceitei porque com você acontece uma coisa diferente, uma coisa interessante. Gosto de você, sim, de sua conversa, e sei que você não vai me pagar porque sou prostituta. Mas pra me ajudar, não é mesmo? Já reparei que você gosta de ajudar as pessoas. Então, vim. Caso fosse alguém que não me agradasse, não estaria aqui. Por nenhum dinheiro do mundo. Procuraria uma diária de secretária, alguém que precisasse organizar o escritório, ou mesmo a residência. Engraçado, eu nua, sentada nesta cadeira, contando estas coisas pra você e bebendo suco de laranja no canudinho. Por isso, gosto de você. É uma pessoa calma, nada de precipitação. Você gosta de conversar primeiro, gosta de me observar, me oferece uma porção de coisas, disse que eu podia ligar pra recepção e pedir o que quisesse. Adorei, quero dizer, estou adorando. Sei que você também está. Você gosta de me ver nua, sentada, de pernas cruzadas, tomando laranjada no canudinho, e sabe que daqui a pouco vai me ter nos teus braços, bem apertadinha. Então, vou contar uma história bem safada no teu ouvido.

segunda-feira, abril 23, 2018

Kant à beira-mar

Nós sempre trabalhamos muito, por isso, num feriado prolongado, alugamos uma casa em Muriqui. Eu, Leila, e Wanda. Convidamos os rapazes. Apenas dois estavam disponíveis. Não se tratava de nossos namorados, mas gente que gosta de se divertir. Na sexta feira à noite começamos os preparativos. Já na madrugada, partimos para o nosso destino. Como moramos na baixada, pegamos um ônibus até a rodoviária de Nova Iguaçu. No mesmo local, bem cedinho, havia o tal ônibus que nos deixaria na cidade praiana.

Dez da manhã já entrávamos na casa. Apenas nós três. Os homens viriam mais tarde e trariam bebidas e comidas. Vistoriamos o local. Um amor de casa, apenas a uma quadra da praia. Deixamos nossos pertences num dos quartos onde havia uma cama de casal, uma de solteiro e um armário de quatro portas. O local cheirava bem, aquele cheirinho de limpeza. Vestimos nossos biquínis, escrevemos um bilhete, que colamos na porta de entrada. Corremos à praia.

A praia de Muriqui é refúgio de muita gente que vem de lugares de periferia. Não há vergonha alguma nisso. Mas as mulheres desses lugares são um tanto escandalosas. Falam alto, às vezes lhes falta educação. Vestem-se de modo escandaloso e ficam agarradas ao namorado o tempo todo. Logo que fincamos nosso guarda-sol, reparamos uma morena que usava um biquíni minúsculo, a bunda toda de fora, parecia até um biquíni feito de fita isolante. Quem sabe era mesmo. Magra, alta, bonita, a mulher movia-se com delicadeza, mas vez ou outra representava gestos de quem está próxima ao orgasmo.

Eram dez e trinta da manhã e já havia muita gente namorando numa das pontas da areia, onde há um muro baixo, que serve de proteção à maré alta. Mesmo em pé as mulheres permaneciam de olhos fechados, guardadas pelos grandes braços de seus homens. Não se moviam, pareciam concentradas num prazer quase espiritual.

Leila tirou a canga e sentou-se na cadeira de armar.

“Ah, até que enfim”, disse e sorriu, “vou aproveitar o dia, como estou precisando!”

Wanda era a única que fumava. Abriu a bolsa, tirou um cigarro e o acendeu, depois também sentou. Permaneci de pé, olhando ao redor, queria me certificar de que não havia conhecido algum.

Como ainda era relativamente cedo, muitas famílias aproveitavam o sol ameno para levar suas crianças ao banho de mar. Pais conduziam os filhos até a beira d’água, outros faziam bonecos de areia, com os brinquedos das crianças. Estas sorriam e queriam sempre algo mais.

“Está praia é uma azaração à tarde”, suspirou Leila.

“É mesmo?”, eu desejava que ela falasse mais.

“A gente espera companhia, não é mesmo? Caso não fossem os rapazes, daria pra escolher ficante, ou mesmo namorado”, completou.

“Você já esteve aqui outras vezes?”, Wanda perguntou a Leila.

“Sim, duas vezes. Numa delas vim também com duas amigas. Vocês querem sabe mesmo como foi?”

“Eu quero”, falei e sorri. Reparei uma mulher que corria para a água seguida de um homem que parecia desejar segurá-la. Deviam também ser namorados.

“No primeiro dia, fiquei com dois rapazes, e quase ao mesmo tempo.”

“Não houve confusão, ou ciúmes, por parte de algum?”, olhei Leila nos olhos e esperei a resposta.

“Nada, eles queriam mesmo aproveitar o momento, depois procuravam outra. Acho que naqueles dias estava na moda namorar o maior número de pessoas num espaço curto de tempo.”

“E o que vocês fizeram?”, Wanda mostrava-se curiosa.

“Fizemos de tudo, só pedi pra não gozarem dentro.”

“E eles respeitaram?”, perguntei.

“Acho que sim, já se passaram dois ou três anos, e estou aqui, em forma.”

“Vocês treparam onde?”, continuei.

“Lugar aqui é que não falta, imagine um local. Então, trepei lá.”

“Acho que não”, sorri como numa piada, “você não trepou em cima de um coqueiro.”

“Mas trepei em baixo, dentro d’água, encostada num muro, na casa de um deles. Ainda usei um vestidinho desses de malha, bem curtinho, acho que pensavam que eu estava de biquíni por baixo, mas eu sentava e cruzava as pernas, nadinha além do vestido.”

“Nossa, Leila, você exagerou, não tenho coragem de agir assim”, disse Wanda.

“Não se preocupem, agora estou mais comportada, não vou dar má fama a vocês. Sei que quando estão namorando, não avançam a outro homem. Não é mesmo, Márcia?”

Tive de dar um sorrisinho. Certa vez quando eu estava casada, ela me viu com um amigo num restaurante, cismou que o homem era meu amante. Tive um caso com ele, sim, mas são tantas as mulheres que jantam com amigos.

“Se a conversa for esta”, interveio Wanda, “existe gente pra tudo. Tenho uma amiga que frequentava Rio das Ostras. Ela diz que ficava nua dentro d’água, tirava o biquíni e pedia para namorado guardar dentro da sunga. Diz que se sentia livre e solta.”

Rimos muito as três.

“Existem muitas histórias, às vezes aquela que tem cara de santinha é a mais levada”, falei, “mas o bom mesmo é uma boa trepada, com um homem que sabe tocar numa mulher, alguém que demore dentro da gente.”

“Agora sim”, disse Leila. “Mas não é apenas pra isso que estamos aqui, não é mesmo?, olhem o sol, o mar, a natureza. E daqui a pouco vamos tomar uma cerveja!”

“A Márcia com esse biquininho, oh, depois de duas cervejas, vai se sentir peladinha.”

“Ai, nem fala”, fiz cara de que ficaria morta de tesão.

Falei na mulher com cara de santinha, mas tenho certeza que minhas amigas acham que a tal sou eu. Nada falam por educação, mas me imaginam como uma fêmea plena de ardis e peripécias. A Márcia fica caladinha, mas pensem ela na cama, diria uma; não precisa ser na cama, em qualquer lugar, sugeriria a outra. Ainda bem que não sabem nada de mim. Certa vez estive nesta mesma praia, viera sozinha, um fim de semana. Como adoro andar de biquíni,  vestia um tão pequeno quanto este, mas de lacinhos. Um homem de quase dois metros ficou me azarando boa parte do tempo. No princípio, eu não queria nada com ninguém, apenas ler minha revista e tomar sol. Mas o sujeito foi chegando, oferecendo-se, perguntando se eu queria uma cerveja. Respondi que esperava um amigo. O homem não desistiu. Do alto de seus quase dois metros ficou observando. Ora olhava para um lado, ora para outro. Duas horas depois, aproximou-se e disse seu namorado deu bolo. Pois é, respondi. Minha resposta soou como um sim. Ele não desgrudou mais. Imaginem, eu, um metro e sessenta e cinco e o homem dois. Lá pelas três da tarde já havíamos bebido três cervejas. Entramos os dois n’água. Ele fez a festa. Apenas não transamos ali. Lá pelas cinco da tarde pediu para acompanhá-lo, conhecia um lugar onde havia uma ducha maravilhosa. Ardida, segui-o. A tal ducha ficava no quintal de uma casa. E era mesmo uma delícia. Não há ninguém, não se preocupe, pode tomar banho à vontade, ele disse. Entrei debaixo da ducha de biquíni. Não passou muito tempo, senti uma vontade incrível de tomar banho nua. Despi-me e estendi o biquíni numa cordinha ao lado. Tomei meu banho tranquila. O homem fingiu não observar minha nudez. Quando acabei, estendeu uma toalha imensa. Enxuguei-me e fiquei enrolada nela. Ele tomou banho também, mas foi rápido. Assim que terminou, secou o corpo em uma toalha menor e veio me abraçar. Levou-me para dentro da casa. Será que preciso contar o que aconteceu? Imaginem. Um homem daquela altura trepando com uma baixinha como eu. No começo fiquei temerosa, mas tudo correu bem.

Minha amiga Leila fez-me voltar ao local. “Que tal mergulharmos. Já há uma azaração terrível ao redor de nós!”

Verdade, eu começava a me sentir ardida, como da vez que transei com o gigante.

Por volta de meio-dia chegaram os rapazes. Os dois amigos que prometeram trazer bebida e comida. O engraçado foi que não vieram sozinhos. Havia um terceiro. Jair e Jaime já tinham estado na casa, onde deixaram a bagagem. Não foi difícil nos encontrar na praia.

“Este é Michel”, Jair apontou ao jovem de mais ou menos trinta anos, que os acompanhava. “Estava meio perdido, perguntando que ônibus vinha pra cá, então eu disse pode vir com a gente.”

“Oi, pessoal, bom dia, muito prazer, não quero incomodar, aceitei a carona, agora o resto é comigo.”

“Não, nada disso, pode ficar com a gente, moramos quase ao lado, conhecemos você de vista, vai se divertir muito”, completou Jair.

Leila olhou o homem e virou-se para nós duas sorrindo. “Que bom”, chegou a dizer, “não se joga fora homem nenhum”, falou baixinho.

Michel trazia uma mochila de onde tirou revistas e livros assim que se ajeitou próximo a nós. Sua intenção era passar o feriado junto à praia e se distrair com algumas leituras.

Leila e Wanda acompanharam seus amigos, que trouxeram para a praia um isopor cheio de latas de cervejas. Começaram a beber. Mas logo um deles disse que ia mergulhar, sentia muito calor. Minhas amigas seguravam suas bebidas, enquanto Jaime dizia:

“Que maravilha, hoje é sábado, vamos ficar aqui até segunda, vai ser dez!”

Michel tirou da bolsa uma revista que, creio eu, viera lendo durante a viagem. Achei interessante sua reação. Numa praia, em meio a tantos divertimentos, ele preferia a leitura. Leila olhou para o rapaz e fez uma fisionomia de desgosto, talvez achasse que faria sucesso com o novo conhecido. Wanda olhava na direção do mar, preferia o amigo já de longa data, com quem, vez ou outra, mantinha algum relacionamento.

A revista era de filosofia. Tinha também na bolsa mais três livros, cujos títulos a princípio não pude descobrir. Como as coisas mais difíceis nos atraem, comecei a pensar como faria para aproximar-me daquele homem.

Eu sempre levei revista para praia, mas nada sério, revistas de moda, de relacionamento, ou mesmo sobre a vida de gente de teatro, cinema e TV. Vez ou outra, eu pegava emprestado um livro na biblioteca pública, nada demais, um livro comum, como um romance popular.

Logo que minhas amigas se afastaram, consegui iniciar certo diálogo com Michel.

“Você gosta mesmo de ler”, arrisquei, interrompendo sua leitura.

Sorriu e mostrou-me os livros, tirando-os da bolsa. Um deles era sobre Emmanuel Kant, outro um pequeno dicionário, havia também um romance, que não consegui distinguir o nome, nem pude perceber se era em português. Michel me ofereceu os livros.

“Não, obrigado, gosto de ler, mas esses assuntos são muito sérios para mim.”

“Não há nada de sério aqui, são coisas normais, como a praia, como todas as pessoas que estão aqui em volta.”

“Jura?”, cheguei a suspirar.

“Verdade, as coisas boas são simples.”

“Kant não é simples, lembro um professor que falou sobre ele, Kant foi um filósofo, parecia gente muito séria.”

“Gente séria?. Você acha que há alguém sério na filosofia? Quase todos especulam, resposta que é bom nenhum deles tem”, sorriu, olhou para mim. “Dê uma olhada, não se trata de um livro escrito diretamente por Kant, é pedagógico, sobre suas três críticas.”

Naquela praia, deitada ao lado do jovem, usando um biquíni que me mostrava mais do que vestia, comecei a folhear alguns páginas sobre Kant. Minhas duas amigas e os rapazes haviam desaparecido. Talvez estivessem dentro d’água, ou quem sabe comendo um churrasquinho e bebericando uma cerveja.

“Kant não é difícil”, voltou a falar Michel, “sua obra é uma tentativa de descobrir como o homem chega ao conhecimento. Este é o modo mais simples de falar sobre o filósofo. É lógico que há outras coisas, como discussões sobre o ser, sobre como o ser humano vê o mundo, como o estuda. Há também aspectos morais, a beleza, quer dizer, como julgar o que é a beleza. Mas o fundamental é que ele deseja saber o que o ser humano é capaz de saber. Isto Kant chama de razão. ‘O que posso saber?’, é a pergunta principal da primeira crítica de Kant, chamada de Crítica da razão pura.”

Dei mais um suspiro. “Puxa, você deve saber muita coisa”, cheguei a dizer.

“Nem tanto, o saber não nos leva a muitas certezas, mas à vontade de saber cada vez mais.”

“Você diz que ele escreveu também sobre a beleza.”

“Escreveu, sim.”

“O que ele diz sobre isso”, mostrei-me curiosa.

“Kant diz que a beleza não é um conceito, ela é subjetiva. Hoje as pessoas já entendem assim, mas no tempo dele, houve quem tentasse estabelecer um conceito universal para a beleza.”

“Universal?”, fiz de conta que não entendi.

“Os filósofos procuravam uma norma geral para o mundo, mas Kant não entendeu assim. Pode-se mesmo achar uma coisa bela porque os outros acham, mas é preciso se afastar daquilo que se quer apreciar. A beleza pode não ser agradável; ou pode agradar a uns e não a outros.”

Respirei fundo mais uma vez, achava a conversa interessante, não era só arranjar namorado que satisfazia, conversar com aquele homem era bom, era alguém que tinha prazer por coisas abstratas.

“Você gosta de coisas abstratas”, afirmei.

Ele deu uma gargalhada.

“Todas as coisas são abstratas.”

“Não acredito”, assustei-me, levantei-me, dei uma volta e mostrei a ele meu corpo. “Você acha que sou abstrata?”

“De certa forma sim, porque o desejo de um homem pelo seu corpo é um desejo cultural. Entenda, os animais trepam sem precisar dar esta voltinha, não precisam exibir o bumbum, além disso, trepam apenas em períodos de cio. O ser humano tem um desejo construído.”

“Caramba, que complicação!”

“Não é complicado, não, deita aqui ao meu lado que explico melhor.”

Será que já teria chegado o momento, bem ali na praia, diante de todas as pessoas?

Michel leu um parágrafo do livro sobre a tal teoria.”

“Você está interessada na beleza, não é mesmo? Para Kant, a estética, isto é, a apreciação da beleza, nada tem a ver com a ética. Traduzindo: a arte não precisa seguir uma moral. Já que é subjetiva tanto na produção como na recepção, hão pode formar conceitos universais. Para o filósofo, o que é verdade precisa ser universal, é o que chama de imperativo categórico. Como a arte não chega a nenhum tipo de conceito universal, não deve emitir conceitos morais. Quer um exemplo?

Fiz que sim com a cabeça, espreguicei-me sobre a canga.

“Não existe a beleza, mas representações dela, e as pessoas não devem buscar nas representações artísticas conceitos para aquilo em que acreditam. O exemplo: você também pode fazer do seu corpo uma obra de arte, mas não vai conseguir estabelecer um conceito de beleza através dele. Uma coisa é o que pode ser observado pelos sentidos, outra é a razão.”

“Verdade?, então estou no caminho errado”, dei uma sonora gargalhada.

Ficamos em silêncio. Abri uma cerveja e ofereci a ele. Bebeu com gosto.

“Vamos passear”, sugeri.

“Vamos.”

Andamos pela beira da água, depois mergulhamos. Abracei-o sem lhe dizer nada, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ele retribuiu o abraço e gostou quando eu comecei a fazer carinho nas suas costas.

Ficamos na praia até cinco horas, quando fomos até a casa. Ele, sempre ao meu lado, trouxe a mochila e seus pertences. Ao chegar, tomamos uma ducha. Pendurei o biquíni num pequeno varal que havia no quintal e corri nua para um dos quartos. Aproveitamos a casa vazia para namorar

Nua sobre a cama, pensei se ele esqueceria suas teorias para se dedicar ao prazer, ao meu corpo. Mas lembrei algo engraçado. Certa vez, uma amiga me falara que homens intelectuais gostavam mais de histórias, adoram exercitar a imaginação. Para eles, a realidade é algo menor.

Logo que ele entrou no quarto, levantei uma das pernas, assim minha nudez não era total, uma das coxas cobria o principal. Olhou-me nos olhos, então, perguntei.

“Você gosta de histórias, não é mesmo, sei que homens como você são de imaginar, de gozar com aquilo que pensam.”

Michel sorriu de novo, aproximou-se, pôde reparar que eu estava toda depilada. Como já vinha excitada, a pontinha do meu grelo escapava. Uma mulher nua, e com o grelo de fora é demais. Afastei um pouquinho as pernas e o convidei.

“Qual história você tem pra me contar?”, ele, curioso.

“Tenho muitas. Vamos ver o teu gosto. Como desejas? Uma história de sexo pesado, ou um conto leve? Fetiche ou nudez aberta? Quer saber o dia em que nadei nua? Foi um barato. Pelo teu jeito, acho que quer botar no meu cu.”

Deu uma gargalhada. Deitou e subiu sobre mim. Mas ainda estava de bermuda.

“Vou contar uma história leve, acho você um homem delicado. Preste atenção.”

Ele escorregou à minha direita, deixou uma das mãos sobre o meu umbigo. Comecei a narrar.

“Tenho uma camisa de malha que faço de conta ser um vestidinho, curtinho e bonitinho. Jogo sobre o corpo, nada por debaixo. Saio com ele à noite, uma sandália rasteirinha, nada nas mãos. Faço de conta que vou ao encontro de alguém. Agora me conta, o que você faria se me encontrasse? Vamos dizer, você me encontra no calçadão, desce comigo pra areia, a gente caminha quase até onde as marolas podem molhar nossos pés. Nos abraçamos, nos beijamos. Você descobre que eu só visto aquela blusinha fina. Já sei, você fica agarradinho a mim e vai explorando minha pele. Quando tem a ereção, levanta a ponta dianteira do meu vestidinho. Não me resta outra coisa a fazer a não ser afastar as pernas e receber você, um homem ereto, prestes a explodir em gozo. Devagar, peço, não goza não, quando um homem goza dentro de uma mulher, ela precisa ficar agachada um tempão pra poder devolver seu esperma, como demora. Se estiver sem calcinha, nem pensar. Você me experimenta, desliza ágil pra dentro dos meus lábios. Depois de alguns minutos, digo deixa pra gozar dentro da minha boca. Você aceita, mas cisma em me tirar a camisa, em me deixar nua. Há outras pessoas, vão ver que estou nua, sussurro. E quem vai reparar?, todos têm seus afazeres, que também são muito interessantes, você conclui. Permito. Agacho e tiro a blusa. Entrego-a nas tuas mãos. Você a enrola, pequenina, uma bolinha de pano. Guarda-a no bolso da bermuda. Na mesma posição começo o boquete. Você vai as nuvens, uma delícia.  Sou boa nisso, abocanho teu pênis sem pressa, ora na ponta, ora por inteiro. Às vezes o fricciono com uma das mãos. Mas você não goza logo. Adoro. Ficamos os dois no embalo do namoro. Não vejo outras pessoas, não vejo ninguém. A praia é toda nossa. Onde se foram os outros namorados? Quando menos espero, você goza. Três jatos fortes. Quase perco a pose. Que vergonha!, engasgar com a porra do namorado! Mas isso não acontece. Equilibro-me, mesmo que precária, dou uma volta completa com a língua, com os lábios, não deixo pingar fora uma gota. Engulo meu presente. Olho pra você e sorrio. Você passa pra minhas costas. Ambos olhamos o mar noturno. Você satisfeito. Eu, mesmo que ainda não tenha gozado, morta de tesão, o corpo nu ao vento, outro tipo de gozo. Silêncio. Quando procuro você, estou sozinha. Onde se escondeu?”

“Sua história é muito boa. Agora me deixa te penetrar”, pede humilde, já nu, na cama, quase sobre o meu corpo.

“Quero te perguntar uma coisa antes”, intervenho. “É verdade que intelectuais se masturbam mais do que trepam?”

“Quem sabe”, ele ri.

“Ah, tenho mais uma surpresa, ou precaução, não sei”, atrevo-me antes que ele me enfie o peru enorme. Vá lá na geladeira, tem manteiga, ou margarina, não sei ao certo.”

“Não é preciso, gosto ao natural, mulheres e suas sedas, mulheres e suas seivas.”

“Ui!”

“Você tem medo?”, chega a perguntar.

“Uma coisa são as palavras; a outra é o ato.” Pisco os olhos, sinto-me vexada, parece que volto à primeira transa, lá atrás, não sei quantos anos.

“Tenho mais uma coisa a dizer. É ainda sobre filosofia”, insiste no olhar.

Aproveito, ainda deitada, para cruzar uma perna sobre a outra, como querendo esconder algo precioso.

“Há a questão do sublime”, continua. “Você sabe a diferença entre o belo e o sublime?” Mesmo sem que eu lhe responda, vai adiante. “O belo é o que satisfaz aos nossos sentidos, o sublime vai além, não somos capazes de compreendê-lo.”

Estende uma das mãos, toca-me o corpo, junta-se a mim, devagar, bem devagar.