quarta-feira, agosto 27, 2014

Arlete perdeu a renda arrastão

A vida fora de casa é completamente outra. Foi isso que Arlete pensou às duas da madrugada, numa estradinha lateral, que margeava o quarteirão onde ficava a casa do homem com quem estava saindo. Dentro de casa há o aconchego, chegou a refletir, há a privacidade. Pode-se, sim, sentir o arrepio entre quatro paredes, a pele lisa, o sopro quente do verão vindo de uma das janelas aberta, mas ao lado fora... Ela olhou o relógio. Sim, usava um relógio. Apesar de tudo, tinha o pulso coberto. Trazia também a bolsa a tiracolo, e ia sobre uma sandália baixa. Isso era outra coisa que a preocupava. Por que não saíra de casa com uma das tantas sandálias de salto? Sempre gostava de mostrar-se elegante e, naquele momento, saltos altos ajudariam muito. Dentro de casa houvera uma brincadeira. Do mesmo modo que se portava na esquina de duas ruas desertas, também estacara numa posição sedutora, na confluência de duas paredes da sala. Mas estivera entre paredes, apenas o seu homem a se encantar. Aliás, ela também encantara-se consigo, e acontecera aquela sensação incontrolável. Lembrou-se das amigas e das festas. Eles, os homens, adoram uma brincadeira depois que bebem, elas comentavam. Eles dizem uma mulher nua é adorável, e vocês encantam, apesar de tudo. Apesar de quê?, ela agora se perguntava, pois não era mulher como as outras, como as atrizes dos filmes, da TV? Uma mulher bonita jamais fica em dificuldades, sempre haverá quem lhe estenda um manto bem cortado, um vestido de desfile, e gostará de vê-la passear destemida. Arlete sabia que não é bom mostrar-se por inteira. Existe um jeito de disfarçar algo que poderia tornar-se demais. Ereta, a bolsa, a sandália, tudo em harmonia. E já eram duas e quinze da madrugada. Quem iria levá-la? Não se preocupe, dissera ele, tudo está combinado em todos os detalhes. Mas não existe chance de algo dar errado?, ela perguntara. Você quer que algo dê errado?, respondera ele com outra pergunta. Não sei se a pessoa que vai parar e se aproximar será a do combinado, ela temia. Não é sua função levantar essas questões, você ganhou para isso, está lucrando, portanto cumpra o seu papel, a voz do homem soara uma ordem. Ela nada mais dissera. O homem a conduzira de automóvel até a confluência das duas ruas e a fizera saltar. Já passavam vinte minutos. Maria Rita. Ela, Arlete, lembrou-se de Maria Rita. Maria Rita nada temia, gostava mesmo era de dinheiro. Caso o depósito estivesse na conta, cumpria aquilo para que fora contratada. E boca fechada. Existe um jeitinho, um disfarce, algo que é do seu próprio corpo, ela, Maria Rita, afirmara, ninguém nota, e as mulheres adoram andar nuas, ainda acrescentara. Nunca nada de mal lhe acontecera, nem no dia que fora descoberta com aquele tecido vazado, que se usa em meias arrastão, tecido que lhe contornava o corpo inteiro, pernas, tronco, braços e pescoço, tudo traçado pela renda preta transparente. Maria Rita nada comentou, apenas contabilizou o ganho e dormiu tranquila, sabia que tudo se resolveria. Mas Arlete não era Maria Rita, e alguma preocupação não lhe deixava sossegada. Até que veio o táxi, parou e piscou os faróis. Por que não se aproximava?, bastaria abrir a porta e entrar. Ter que caminhar mais vinte metros... Ou o motorista queria vê-la desfilar. Isso, devia gostar de ver uma mulher desfilando. E tanto mais nua! Será que tinha certeza de que ela era uma mulher mesmo? Há muitas pessoas fofoqueiras por aí. De vestido, diria que apontava, o corte, uma inovação. Mas só a pele e tudo por um triz, ainda tendo de fazer movimentos... Ah, outra coisa, não podia transpirar. A transpiração colocaria tudo a perder. O líquido que serve como adesivo é do próprio corpo, um segredo que Maria Rita lhe revelara. Mas o líquido não pode entrar em conflito com outras secreções. Ainda havia aquela história do namorado que esfregou um creme ao redor das duas coxas de Arlete. Esse creme vai lhe provocar, e muito. E provocou, provocou uma... Não, isso não, mas neutralizou o adesivo por boas doze horas. Amanhã tenho um desfile, Arlete pensou, nada de cremes, tenho que estar perfeita, as impropriedades bem escondidas, ou disfarçadas, como sempre. Por que os homens gostam de nos colocar em perigo?, falou a si quando percebeu cintilâncias. Estrelas também tremeluzem abaixo das nuvens. Correu e entrou no táxi. Após sentar-se, sentiu umidade no acento. O creme? Arlete suspirou pela renda arrastão de Maria Rita.

sábado, agosto 23, 2014

E que incêndio!

É bom saber pensar e brigar. Não se pode ficar apenas no pensamento e no desejo. Ganhar cinco mil reais me vai ajudar muito a resolver alguns problemas. Se o que preciso comprar se pode chamar de problemas. Vi, na praia, a garota. Devia ter entre os vinte e vinte e cinco anos, quem sabe mais um pouquinho. Ela vinha com a mochila às costas e... de biquíni. Não caminhava na areia, rente à beira-mar, mas no calçadão. Ou na rua, não sei bem. Acho que era domingo e ela andava na rua. Um meio certo de arranjar namorado, caminhar de biquíni na rua. Mas será que era isso o que ela desejava? Não sei, pode ser que não. Tenho certeza de que ela ia de biquíni, calçava tênis, e a mochila às costas. Isso me deu uma tremenda ideia. Sempre há aqueles que querem sensações mais intensas, e eu conheci um desses. Um senhor agradável, simpático e generoso. Gostou de mim à primeira vista. Foi num dia desses, de céu nublado, quando se sai à tardinha em busca da última nesga de claridade e do sopro fresco que vem do mar. Parei num quiosque, na orla de Copacabana. Queria água mineral. Ele já estava lá, vestia calça comprida, uma camisa com a bandeirinha da França no peito e sorria. À mesa, um coco; já havia terminado de saborear a água. Sente aqui. O convite, dele. Aceitei, sentei e tomei toda a garrafinha de água mineral. Conversamos. Uma conversa vazia, dessas que se estabelecem entre duas pessoas recém-conhecidas. Depois que fui embora, esqueci-me do homem. Mas já no dia seguinte o encontrei de novo. Dessa vez, de bermuda, mais informal. E o encontrei também no domingo. Foi nesse dia que vi a moça de biquíni e mochila às costas. Ele me convidou ao cinema. Vamos ver um filme logo mais, pode ser um besteirol, apenas para espairecer. E lá fomos. Gentil o homem, pagou o cinema, o lanche. O filme? Não importa. Como ele dissera, um besteirol. Ficou com o meu número. Não custou a me convidar para jantar. À noite as coisas são mais sérias. Não sei de quem a frase. Mas o homem seguiu-a à risca. Levou-me a uma cantina, ali na Fernando Mendes. Boa a comida. Tomamos vinho. Escolhido por ele. Tudo sob medida. Depois de tanto, o que me restava? Acabei no seu apartamento. Bonito, o homem, para quem já passa dos sessenta; um bom amante, apesar dos sessenta. Nada comentamos sobre nossas diferenças, incluindo aí a idade. No final, o homem perguntou se eu tinha conta em algum banco. Sabe como é, vivo sozinho, não se sabe o dia de amanhã. Sorri. Voltei a casa, enlevada. Ganhara eu na loteria? Seria verdade o que eu ouvira, ou ele mentia? Na semana seguinte, deixei por escrito o número de uma conta de poupança que havia muito esquecida. Até fora ao banco para saber se ainda existia. Sim. Existia. E o banco estava pronto para acolher a parte do seu lucro. O homem depositou. Numa primeira vez, um dinheirinho. Passaram-se alguns dias, dobrou (ou triplicou?) a quantia. Apareceram dois mil. Não sou mercenária. Não arranjo namorado para ganhar dinheiro. Mas já que surgiu, aproveitemos... E o homem é um conquistador nato. Fala como se sonhasse, e logo o sonho torna-se realidade. Outro dia contou sobre umas fantasias, coisas que a princípio pensei que viu no cinema. Depois, porém, achei que ele mesmo pudesse ter inventado. Então, como sou sempre presenteada, não posso deixar escapar o homem. E acho que agora até mesmo o amo. Não há quem não ame uma bolsa plena de notas de cem acompanhada de um sorriso lisonjeiro. Não é minha a frase, mas de uma diarista, e acho que não falou com essas palavras. Mas a ideia é a mesma. E volto às fantasias do homem. Primeiro, amarrou-me nua a uma cadeira. Amarrada e com a boca lacrada por um largo esparadrapo. No dia que se seguiu, dois e quinhentos a mais na minha conta. E muitos beijos, carícias, e nada de ejaculação precoce (ele sabe namorar). Hoje, talvez mais do que amarrada, ou muito solta, não sei bem, eis-me nua, a bater à sua porta. A condição para ganhar os cinco mil: preciso estar nua por inteiro, batendo à sua porta. Não só vir e bater. Tenho de partir também nua. Então, o plano. A tal moça de biquíni com a mochila às costas. Eu, nua, com a mochila às costas. Agora, falta-me o desfecho. Escondê-la, a mochila. Nua, entro; nua, amo-o; nua, vou-me. E a mochila... Ah, a caixa de incêndio. E que incêndio!

segunda-feira, agosto 18, 2014

Pergunta de adolescente

Você ainda com essas perguntas de adolescente, ele disse. Eu estava de pé, em frente à sua porta. Olhei para o homem, com ligeiro sorriso. Ele me observava, embora não se voltasse direto ao meu corpo. A pergunta era se queria ir comigo à festa de uma amiga. Pergunta de adolescente? Não devia convidá-lo, refleti, com tanta gente querendo a minha companhia. Ele tem vinte anos a mais do que eu e a festa, segundo o entendimento dele, era para jovens. Sua presença destoaria da maior parte das pessoas. Ainda tentei explicar que também haveria gente mais velha, mais madura, quero dizer. Provavelmente são os pais de algumas das meninas, completou. Entre, convidou-me e abriu um pouco mais a porta. Vamos conversar um pouco, acrescentou. Na verdade, ele temia que algum vizinho me descobrisse à porta. Eu vestia apenas uma camiseta, que me descia até as coxas.

Esse vizinho já de alguns meses conversa comigo sobre livros. É só me ver lendo alguma coisa que começa a relatar os autores que admira. Em alguns pontos, o homem acha que sou muito madura; em outros, diz que me comporto ainda como adolescente, sobretudo quando o convido para alguma saída noturna. Certa vez chamei-o para ver Thor, o último filme escrito a partir de uma história em quadrinhos. Mas esse tipo de filme é para adolescentes, afirmou. Quis contra-argumentar, o que tem ser um filme para adolescentes?, se a gente gosta... Mas o meu vizinho não gosta de se ver rodeado por moças e rapazes, colegiais, como ele diz. Fui ao cinema sozinha. Arranjei um admirador com quem acabei ficando mais de duas semanas. E rolou bons momentos. Mas meu vizinho me veio oferecer Em busca do tempo perdido.

Li o primeiro volume. Dias depois bati à sua porta com a intenção de conversar sobre o livro. Ficamos duas horas discutindo. Ele falava e olhava para as minhas pernas. No final, ofereceu o segundo volume.

Na semana seguinte fui eu que me ofereci a ele. Com o pretexto de continuar conversando sobre Proust, voltei ao apartamento. Não passou muito tempo e eu já estava nos braços do homem. Quando acabamos, não me vesti. Sentei pelada no sofá e continuei a conversa, com a maior naturalidade. Esse Swann não era muito esperto, ressaltei, fazer tanto por uma mulher e, apesar de ela ser uma prostituta, ele a tratava como uma dama de respeito. Meu vizinho contestou, não se tratava de considerá-la prostituta, eram os costumes da época, e em meio à nobreza ainda remanescente era assim que se vivia. Tudo bem, rebati ainda sentadinha e de pernas cruzadas, mas acho que havia outras mulheres, ele não precisava ter se submetido tanto. O homem ofereceu-me um refrigerante. Aceitei. Depois trouxe um doce, sobremesa feita pela diarista durante à tarde. Comi de bom grado. No final, levantei-me, beijei-o em sinal de despedida, abri a porta e saí. Ei, espere, falou. Mas eu já entrava na porta em frente, a porta do meu apartamento. Lancei-lhe mais um beijinho e fechei.

No dia seguinte, à mesma hora, dez da noite, bati de novo à sua porta. Você?, pareceu surpreso, já acabou o livro?. Não, não vim falar sobre livros, é que acho que esqueci alguma coisa aqui ontem, não? Ele foi lá dentro buscar minha camiseta. Você ainda está agindo como uma adolescente, falou ao devolvê-la. Vai dizer que não gostou? retruquei baixinho e sorri fingindo inocência. Percebi, então, que ele tinha companhia. Não demorou a fechar a porta.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Você gosta de fantasia

Você gosta de fantasia, não é mesmo? Mas venha devagar, vamos nos concentrar, poucos os movimentos, ou mesmo nenhum, apenas você pulsando dentro de mim. Isso, assim, vou por cima, sento, que tal nós dois paradinhos?, eu mordisco; você me infla, ok? Ouça. Lembra a brincadeira. Você me quis pelada lá fora, na estrada. Avisei. Se ele me encontra vai ser um banquete, ó, não escapo, você vai dançar, pois o homem é tarado por mim. Ele sempre me olhou de soslaio e, imagine, quando eu dava as costas ele me comia com os olhos. Era por causa da minha bunda. Isso, você está pulsando direitinho, e eu, mordiscando, apenas esses movimentos sutis, vamos tentar gozar assim; quanto mais demorarmos, tanto melhor. Escuta. Então, ele me encontrou. A tal brincadeira; eu, pelada dentro da noite. Tentei me esconder, mas ele me viu. Vinha dirigindo o primeiro carro da madrugada. Acho que demorei a me abaixar. O homem reparou o vulto, freou e desceu para conferir. Se fosse um ladrão?, perguntei depois; era um vulto de mulher, afirmou. Mulher também pode ser perigosa, rebati. Ele disse estou acostumado. Eu, na frente dele, na lateral do carro, a blusa tão curtinha, do umbigo pra baixo tudo de fora, ideia tua, lembra?, levaste o restante contigo, e demoraste, não foi?, o homem ali, me comendo com os olhos. O que houve?, ele quis saber. Não é momento pra perguntas, eu contradisse. Como você vai fazer pra voltar pra casa assim, nua?, ele. Será que penso em voltar?, respondi.  Você está pelada para mim?, o tal motorista duvidava. Quem sabe, retruquei. Mas ele não sabe pulsar, assim como você. Quanto a mim, nem tempo tive de mordiscar. O homem era bruto, quero dizer, é bruto. Me segurou pelos ombros, foi descendo as mãos, e ainda me deixou sem a pequena blusa. Lançou minha única roupa mato adentro, para além do acostamento da rodovia. Como me apertou. Espera, não deve ser assim, falei. Não tenho muito tempo, estou a trabalho, ele disse, e logo vão notar o veículo no acostamento, vão querer saber o que aconteceu, tenho hora, na empresa tudo é cronometrado. Mas não estou aqui pra isso, ressaltei. Como, não? Você aparece nua na minha frente e agora vai fugir, insistiu. Quem sabe, posso estar aqui apenas para provocar, lancei a questão. Eu queria ganhar tempo. Provocar?, duvidou, uma mulher nua além de provocar quer algo mais, finalizou. Então colocou o pênis fora da calça. Eu quis me livrar, mas ele me segurava com força. Você está acostumado a estuprar as mulheres, insinuei. Estuprar?, a palavra fez que enfraquecesse a força das mãos. Confesso que eu podia ter corrido, escapado, mas estava tão nua. Isso não é estupro, tentou se convencer, você sempre se mostrou pra mim, me deu confiança, me deu até esperança de um encontro, e não esqueça que apareceu nua em frente ao local onde sempre passo às cinco da manhã, todas essas suas ações não aconteceram por acaso, argumentou. Trata-se de uma brincadeira, falei, brincadeira do namorado, ele me deixou aqui nua mas volta para me pegar, eu disse cerimoniosa. Brincadeira?, não se brinca com essas coisas, falou alarmado, não é possível que você tenha um namorado que te deixa nua por aí. Mas fui eu que dei a ideia, falei, tentava salvar a situação, não queria que ele pensasse mal de você. Se foi tua a ideia, continuou com a argumentação, é porque pensava em mim, queria que eu te encontrasse. Será?, sorri depois da interrogação. Lógico que sim, acrescentou, já tive várias namoradas, e muitas agiram como você; a mais recente vivia no carro atrás de mim, não saltava, esperava eu deixar o último passageiro pra ir comigo até a garagem; no caminho eu enfiava o carro num desses cantos da estrada e tirava a minissaia que ela usava pra me provocar, o pano  não media um palmo, a pele já estava toda arrepiada, ela não demorava a se derramar em gozo. Ele, então, me apertou com força, puxou meu corpo pra junto do seu, senti seu pênis entre minhas pernas. Espere, pedi, me leve pra dentro do carro. Você quer no carro, repetiu, ok, vamos pro carro. Entramos, me deitou num dos bancos, o carro todo escuro, assim como a noite. Aí aconteceu. Foi tudo muito rápido, ele não demorou a gozar. Quanto a mim, saiba, homens desse tipo não esperam pela mulher, não são como você, que agora pulsa dentro de mim com mais intensidade enquanto te mordisco com a vagina, enquanto conto toda a história. Vamos gozar os dois, juntos. Vamos explodir. E sei que você não vai me levar a mal por ter estado nas mãos de outro, ou melhor, por ter dado pra outro. Você ainda quer que eu conte mais? Ele me deixou nua na estrada, disse que tinha de ir, não podia se arriscar a perder o emprego, de modo algum. Pediu que eu esperasse. Ligaria a um amigo, que me traria roupas. Falei que podia ir, que não se preocupasse. Sei me virar sozinha, afirmei segura. Sabe?, ainda ironizou. Então, partiu. Não sei se chamou alguém pelo telefone. Aí você chegou, e me levou nua no carro, e já a manhã se anunciava. Gostou, não é mesmo?, está até a sentir maior o tesão! Agora goza, vai, despeja tudo dentro de mim, mas paradinho, viu, assim como eu, e aproveita, já estou soltinha...

quinta-feira, agosto 07, 2014

Você está tomando o momento de alegria

Você está tomando o momento de alegria, ele disse, e que alegria!

Você acha mesmo?, perguntei, quem sabe, o meu forte é representar.

Ajeitei a blusa, que me vinha até o umbigo. Verifiquei a bolsa. Virei para a direita, depois para a esquerda, sorri mais uma vez. Estou tomando o momento de alegria, repeti.


Eu chegara à casa dele às 7 da noite. Fazia calor, era verão, tudo parecia transbordar, inclusive o nosso ardor. Ele me abraçou e me beijou. Olhou a minissaia que eu vestia. Sorriu.

Você está linda!, fez um longo gesto, como seu eu fosse uma rainha.

Dei uns passinhos e me sentei na poltrona. Cruzei as pernas e esperei por ele.

A casa estava arrumada, a janela aberta mostrava o mar ao longe. Havia uma mesinha logo depois da poltrona e sobre ela um livro. Peguei-o e comecei a folheá-lo. Era um romance de uma escritora americana.

Lendo romances, afirmei voltando os olhos a ele.

É para aprender a lidar com vários tipos de situações amorosas.

Como a nossa, suspirei.

Isso, como a nossa.

Você está achando difícil?

Não, é um livro fácil.

Não falo do livro, mas da nossa relação.

Difícil, não, diferente.

Ele ficou parado junto ao braço da poltrona. Eu ainda segurava o livro.

Lembrei que na praia ele às vezes ficava envergonhado, acho que temia encontrar alguém que o visse ao meu lado.

Lembra a praia?, deixei escapar.

O que tem a praia?

Você sempre parece assustado. Já pensou, pode aparecer um amigo seu, e você ao lado de um ou melhor, de uma... como devo dizer?

Nada disso, não concordo, até gostei, sabe; você é corajosa, anda quase nua.

Nua?, você não sabe o que é andar nua.

Então, já que é você quem sabe, vou deixar você nua hoje...

Vai?, perguntei e me encolhi na poltrona, fiz de conta que procurava uma proteção, mas sabia inexistente.

Vou!, fingia ser um lobo mal, abriu a boca como se fosse me comer inteira.

Veja, mostrei a ele. Curta, a saia, não?

Já tinha reparado. Como você consegue?

Ah, isso é o que todos desejam saber. Acho que por isso é que me namoram.

Todos descobrem que você vem apenas com essa sainha sobre a pele?

Quase todos.

E o que eles fazem?

Querem me roubar a saia, afirmei e sorri.

Sério?, você acabou de me dar uma ótima ideia.

Se isso satisfaz você, tudo bem.

Ele me abraçou, e não demorou a me deixar nua.


No final, alta a madrugada, falou: vou fazer o que prometi.

O quê?, fiz-me de esquecida.

Você, nua...

Ri, num ligeiro arrepio. Vai sair um pouco mais caro, retruquei.

Não ligo, pago.

E como vou esconder?

Ah, acho que você é muito boa nisso.


Desci no elevador de serviço. Lá embaixo, o táxi.

Moço, não repare, estendi-lhe a princípio uma nota de cem, estou tomando o momento de alegria; o resto, resolvemos no caminho.

segunda-feira, julho 28, 2014

Carrossel

Estou nua. Era para estar morta de vergonha, mas algo me acalma. Qualquer coisa de especial neste homem quase desconhecido me deixa à vontade.


Nunca fiz isso por dinheiro, falo.

Mas são dois mil reais, responde.

O que faz você gastar tanto assim?, mostro curiosidade.

Não sei, é um costume que tenho faz tempo, e também tenho muito dinheiro.


O primeiro encontro aconteceu num vagão do metrô. Eu entrara na estação Catete, ia para Ipanema. Vestia roupa de ginástica, calça colante ao corpo, uma camiseta do mesmo tecido e tênis apropriados para correr ou caminhar. No meu caso, era para a esteira. Reparei um homem olhando na minha direção. Como eu levava uma revista, tentei me prender à leitura. Mas ele não desgrudou os olhos. As estações foram se sucedendo, e ele continuava no seu afã de me espionar.

Sou uma mulher de quarenta e cinco anos. Devido ao permanente exercício tanto ao ar livre como nas academias de musculação, tenho o corpo bem delineado. Não sou, entretanto, uma mulher magra. Se não sou gorda, é porque me exercito todo dia. Minha aparência, ao contrário, revela a minha verdadeira idade. De um tempo para cá, me desliguei dos homens. Moro sozinha e vivo para a ginástica. Fico feliz sempre que acabo de me superar, tendo feito os exercícios programados. Alguém poderá perguntar como resolvo as questões afetiva e sexual. Não tenho respostas para elas. Digo apenas que a ginástica me basta. De resto trabalho, leio alguma coisa e uma vez na semana vou ao cinema. Tenho duas ou três amigas, ocasionalmente nos reunimos para conversar.

Mas naquele vagão de metrô, me apareceu o homem das notas de cem. Vamos apelidá-lo assim.

Quando eu me preparava para descer na última estação da Zona Sul, percebi que ele me seguia. Uma vez que ando bastante rápido, tentei fazer o máximo para deixá-lo para trás. O tal homem, porém, parecia colado ao meu encalço. Consegui chegar ao prédio da academia. Entrei e disse cá com os meus botões: estou salva, o homem ficou para trás.

Duas horas depois, ao deixar o local e caminhar de volta para a estação General Osório, percebo novamente o homem. Ele me esperava. Como alguém deve faze para abordar uma desconhecida? Creio que ele é experiente nisso. É também um exímio artista. É sabido que qualquer mulher não deve dar conversa a homem algum, sobretudo na rua, onde a possibilidade de golpes é sempre alta. Mas o homem acabou conseguindo uma resposta minha. Uma resposta negativa, é claro. Mas estava estabelecido o diálogo. Para um mestre, aquela porta escancarava todo o castelo. E o homem me envolveu na sua história. Acabei parando para ouvi-lo. Tanto mais eu o recusava, mas ele avançava no seu intento. Então veio a conversa de shoppings, de compras espetaculares, de produtos que toda mulher deseja.


Não me troco por dinheiro, digo em algum momento.

Não se trata de dinheiro, mas do mundo contemporâneo. Quem não deseja um amigo rico, alguém que lhe supra as necessidades?, pergunta.

Não tenho necessidade alguma, afirmo resoluta.

Como, não?, rebate. Todos as temos. É porque não gostamos de pensar nessas coisas. Apenas olhamos os produtos de modo fetichista.

Fetichista?, assusto-me.


Então ele contrapôs uma longa história. Explica o significado da palavra.

Passa a me esperar na porta da academia todos os dias, após a minha ginástica. Depois caminhamos juntos até a estação do metrô. Num certo dia, passo a simpatizar com ele.

Traz alguns presentes. Não no segundo dia, mas na segunda semana. Objetos de adorno como pequenos broches, ornamentos para estante ou mesa de centro. Também me presenteia com perfumes e um livro, depois de descobrir o meu gosto pela leitura.


Há pessoas que podem conquistar tudo o que quiserem, afirma.

Será?, duvido.

Verdade, sentencia.


Sem rodeios, diz que eu sou uma dessas pessoas.

Já quase sua amiga, marcamos encontro num shopping. Como o homem é consumista! Nunca vi pessoa alguma entender de tantas coisas, tantas lojas, tantos produtos. Desde vestuário, até objetos de decoração, passando por joias, roupas e brinquedos.

Num sábado à tarde, vamos ao cinema. Depois, a um restaurante.


Não, obrigada, não bebo bebidas alcoólicas, recuso amavelmente o convite para tomar um vinho. Mas aceito um suco.


Tomo o suco, e ele o vinho.

Acho que quem se embriaga sou eu. E logo com um suco de abacaxi e hortelã...

Acabo a noite na casa dele. Coloca em minhas mãos dois mil reais. E são apenas as notas a tocar meu corpo. Por quê? Adivinhem. Ou melhor, leiam a primeira linha desse texto.

quinta-feira, julho 24, 2014

Queres saber quem me levou para casa?

Viste as fotos? Foram tiradas ao entardecer, ao mesmo tempo em que fazias teu filme. Eu caminhava sobre a areia da praia. Pouco gente àquela hora, pois é inverno. Embora no Rio a temperatura quase sempre seja quente, nos meses de junho, julho e agosto ela se torna mais amena. Mesmo assim muitas pessoas continuam a frequentar a praia. E o entardecer é o período ideal.  A maioria caminha pelo calçadão, ou pedala na ciclovia, por isso a areia quase deserta, e mesmo despercebida. Eu estava à beira d’água, depois caminhei até um guarda-sol solitário, onde devia pousar por alguns instantes. Na verdade, caso eu desistisse ficaria no prejuízo. Após ganhar algumas notas de cem, eu não podia fugir, não é mesmo? Meu dever era desfilar para ser filmada. Mas não se via quem empunhava a câmera, porque filmava de longe, não queria chamar a atenção. Permaneci algum tempo sentada sob o abrigo. Depois, devagarinho, tirei o top; a seguir, o biquíni. Um garoto me trouxe o pagamento, tão discreto ele, nem olhou para mim. Eu, nua, e ele com vergonha. Levantei e caminhei em direção ao calçadão. Não era meu dever pensar em nada. Melhor a mente vazia, ou a lembrança de alguma coisa distante, algo de outro lugar ou de outro tempo. Pensa sobre um livro que tenhas lido, ou mesmo sobre um filme, assim será mais fácil, aconselhou-me uma amiga. Meus passos, firmes. No começo, os óculos escuros a cobrir-me parte do rosto. Sigo como se fosse a pessoa mais séria do mundo. Vou até perto do calçadão. Faltam dez metros, talvez doze, para o calçamento. Até ali estou incógnita, longe de algum quiosque. Ainda bem, os quiosques atrapalham, sempre há alguns bebedores de cerveja, sempre há quem olhe o mar. Não seria difícil descobrirem uma mulher nua. Não demorariam a dar o alarde, chamariam outros para ver. Fazer uma descoberta e nada dizer não tem graça. Dou as costas para a avenida e volto na direção do mar. Procuro o guarda-sol, mas onde mesmo? Preciso manter a calma, fazer de conta que nem é comigo. Sei que estás ansioso, talvez me perguntes, como vais fazer agora, nua e fora de rota? Calma, tudo há de se arranjar. Li em algum lugar que as mulheres bonitas atraem boa sorte. Portanto, longe o desespero. O que há de mal na nudez? Quem sabe haverá um admirador silencioso, fará uma foto e a guardará como lembrança, mostrará a mulher nua que encontrou na praia apenas ao amigo íntimo, recordação das férias que não mais voltarão. Vou à beira d’água. O marulhar chega ao meus pés. Tenho vontade de mergulhar, de vestir a capa transparente bordada de espumas, mas estou tão sequinha, bonita, o cabelo tratado. Melhor o corpo liso, melhor a nudez. Onde um amigo? E não é que alguém vem ao meu encontro? Uma mulher. Ri. Estende a mão. Está de biquíni. Um biquíni mínimo, mas vestida. Ri mais uma vez. Você precisa de ajuda?, pergunta. Não, digo com firmeza, estou ótima. Então tá. Vira-se e se vai. E eu a céu aberto, tão nua. Logo depois que a mulher desaparece, lembro das notas de cem, as notas que me mandaste pelo garoto. Sinto então o vento frio, um arrepio (ou uma carícia?), e o desejo das tuas mãos sobre a minha pele. Aí me vem uma cosquinha, bem lá no fundo, o dinheiro dobrado no saquinho plástico, guardadinho dentro de mim. Esse eu não posso perder. Viste mesmo as fotos? O que achaste? Apareceram na internet, quase ao vivo. São três; e nas três, eu nua. Na última, estou sem os óculos de sol. Não sei se posso negar que a mulher sem o top e o biquíni em Ipanema, ao entardecer, sou eu. Queres saber como fiz depois? Ah, lembras? Mulher bonita atrai boa sorte. E que sorte! As mãos, sempre as mãos, como as tuas.