quarta-feira, outubro 15, 2014

Gosto mesmo é de poesia

Você está me convidando para sair logo assim de primeira...

Foi você quem olhou pra mim e sorriu, correspondeu ao meu aceno.

Sim, mas acho que cometi um erro, peço desculpas, me dê licença.

Eu falava com um homem, no calçadão, em Ipanema. Saíra de casa para deixar um pouco os livros, respirar o ar do entardecer, beber água de coco num quiosque da orla. Um homem, no entanto, passou por mim. Sei que as mulheres devem andar com os olhos baixos, não é bom encarar os homens. Mas naquele momento acabei por espiá-lo de soslaio, não me controlei e sorri. Ele veio atrás. Eu devia ter desconversado rapidamente, cruzado a avenida e partido. Continuei, porém, minha caminhada com ele ao meu lado. Andamos como dois velhos amigos. Depois de alguns minutos, já entrara eu na conversa dele. Todos sabem que há homens terríveis, basta escutá-los por pouco que seja e já nos conquistam.

Você gosta de ler, não?, perguntou antes que eu atravessasse a rua.

Como descobriu?, respondi desarmada.

Intuição.

Aceitei a explicação de forma simpática. Ele, então, listou uma quantidade enorme de autores, principalmente de romancistas.

Como sabe que leio romances?

Intuição, continuou. Mas você lê romances inteligentes, tenho certeza.

Adivinhou de novo. E como faço para descobrir esses livros?, queria testá-lo.

Você frequenta as boas livrarias.

Isso mesmo. Você é bom em adivinhações, falei.

Pronto, o caminho estava aberto. Continuamos andando, seguíamos na direção do Jardim de Alá.

Por aqui há uma livraria; como já entardeceu, que tal?, propôs.

Ah, sim, na Visconde de Pirajá, conheço.

Acabamos os dois juntinhos dentro da livraria. Ele me apontava os títulos. Parecia conhecer todos os livros.

Como você sabe sobre tantos autores?

Segredo, respondeu.

Você é crítico literário?

Segredo.

Se for não tem graça, falei, todo crítico é suspeito.

Sou médico.

Médico, que legal!, cheguei a exclamar. Duas pessoas olharam na nossa direção.

Caminhamos para o centro da loja.

Mas gosto mesmo é de poesia, ele falou.

Você é um médico que gosta de poesia. Que legal, fiquei eufórica.

O que há de mal nisso? Os médicos além de serem grandes leitores, também muitas vezes são escritores.

Já pensou que maravilha, frequentar um médico que antes da consulta converse sobre literatura?

Então, essa é a chave, demonstração de bom gosto e de cultura.

Ah, exclamei e sorri para ele, estou precisando tanto de uma consulta assim.

Ele riu, continuou olhando os livros. Comprou dois e me presenteou.

Foi assim que, dois dias após conhecer o homem, fui parar no seu apartamento.

E lá pelas dez da noite, morta de vergonha, pedi: vamos hoje ficar apenas na conversa, ok?

Tudo bem, respondeu, é o que estamos fazendo dede o começo...

quinta-feira, outubro 09, 2014

Nudista anônima

Esse nosso mundo de hoje é movido pela imagem, e ninguém consegue se liberta disso, muito pelo contrário, as pessoas cada vez mais se tornam prisioneiras de fotografias e vídeos, desejando não só aparecer neles mas também mostrá-los a amigos e conhecidos. Outro dia, meu namorado comprou uma câmera nova, com ela é possível fazer todas as fotos ou vídeos que a gente possa imaginar.

Amor, vou fotografar você, ele pediu.

Mas já tenho tantas fotos...

Não faz mal, quanto mais, melhor.

E começou. Clique daqui, clique dali, e veste isso, e veste aquilo, de vestido, de short, de biquíni, até que... nua. Num primeiro momento nada de nu frontal mas, pouco a pouco, chegamos lá.

Olha que essas fotos são salvas automaticamente numa nuvem, a câmera está conectada, avisei.

Nada disso, está offline.

Jura?

Sentei diante do piano e toquei um pouquinho nua, para ele me fotografar.

Acho que, ao todo, o namorado fez mais de trinta fotos. Também apareço no sofá, na janela, na cozinha como se estivesse fazendo comida, entrando no banheiro. E em todas elas nua.

Depois que ele foi embora, comecei a me preocupar. Já tive tantos namorados e sei que os namoros não duram para sempre. Com alguns a briga foi tão feia, que não fomos capazes nem mais de conversar. Como será com esse? E se não caso com ele? Ai, ai, ai. E nem adianta amanhã pedir para ele eliminar as fotos que estão na câmera. Como vou ter certeza se já  não as descarregou em outro aparelho?

Não sei não, acho que me meti numa enrascada. Gosto muito dele e ele de mim, mas todos sabem como são os homens.

Fiquei muito nervosa. Queria desfazer a situação. Mas como? Lembrei-me de um namorado que me pedia para ir nua do lado de fora do seu apartamento e tocar a campainha para ele abrir. No começo, pensei que poderia me deixar nua lá fora pelo resto da noite. Mas com o tempo fui acostumando a não ter medo, porque ele sempre abria e tudo acabava bem. Tive também outro namorado que adorava transar comigo na praia. Bastava entrarmos na água para ele desatar o meu biquíni. Permiti também que me fotografasse nua uma vez. Até hoje me dou com ele, é uma ótima pessoa, creio que um telefonema seria suficiente para trazê-lo de volta. Um relacionamento que acabou mas que deixou saudades. Vou torcer para que com o atual namorado as coisas fiquem sempre bem.

Contei a uma amiga desse meu stress sobre o destino das fotos. Ela rebateu:

Você acostuma, não vai acontecer nada, não.

E se pôs a contar que também já se deixou fotografar sem roupa alguma. Nem se deu conta em que mãos foram parar as fotos.

Quem sabe, me acostumo, me acostumo tanto que amanhã me deixo fotografar nua de novo!, pensei comigo. Ai, não tomo jeito, será que existe alguma sociedade dos nudistas anônimos? Não sei, não. Mas mesmo que exista é capaz de eu aparecer lá peladinha!

quinta-feira, outubro 02, 2014

De graça!

Seria talvez possível que a um ponto da vida o mundo se tornasse óbvio? Vinha pensando nessa questão após sair com um paciente. Acho paciente uma palavra ruim, porque sou dentista e não acho quem senta na cadeira do meu consultório paciente. Mas deixemos isso de lado. Ia com ele pela rua. Fora o último naquela quinta-feira à tarde. Queríamos o café da livraria. Um ambiente agradável, acolhedor. Ele pediu que fôssemos antes ao caixa eletrônico. Entramos numa agência do banco, na Treze de Maio. Esperei a certa distância. Assim que saíram as notas da máquina ele as pegou e guardou na carteira. Ao chegar junto a mim, disse guarda essas pra você, é um presente. Entregou-me duas notas de cem. Não, o que é isso, cheguei a recusar. Mas ele insistiu compre uma coisa bonita, Acabei segurando as notas. Fico aborrecida com isso, sabia?, falei. É pra ajudar a pagar o condomínio, ele disse e começou a rir. Lembrei que uma ou duas semanas antes havia comentado que um paciente me paquerara e dissera que podia me ajudar a pagar o condomínio, pois tinha muito dinheiro e não via oportunidade para gastá-lo, mas o homem insinuou certo namoro comigo. No entanto, este, que estava ao meu lado naquele momento, completou não quero nada em troca. Ri e acabei guardando o dinheiro na bolsa. Sei, é certo que você não queira nada em troca, ironizei, depois completei ah, você é fogo, viu, isso não vai ficar assim não, vamos ver o que posso fazer pra devolver esse dinheiro. Pensei no tratamento dentário que ele fazia comigo. O mundo não se torna tão óbvio, refleti. As notas na bolsa. Aceitei enfim a gratificação. Assim que nos despedimos, no metrô, na estação Largo do Machado, beijei-o e senti um arrepio. Enquanto andava ao ponto do ônibus o arrepio intensificou-se, tocou-me ao fundo o corpo. O óbvio está no meu comportamento, pensei, como mulher sempre gostei de me sentir um pouco prostituta. Psiu, silêncio, disse a mim mesma, ninguém pode saber disso. Falo por mim, nada sei sobre outras mulheres. Mas ressalto, o gosto de me sentir prostituta não me ocupa totalmente, apenas um centímetro. Na verdade, procuro justificativas. Portanto, a aceitação das notas de dinheiro endossava a obviedade do mundo e me levava a entregar-me mais afoita aos afagos daquele homem.

Na sexta seguinte encontrei com ele no mesmo café. Não marcara consulta alguma para aquele dia. Deixei o horário para o encontro. Depois do café permiti que me roubasse a roupa num hotel próximo. Quatro da tarde. Eu a rolar numa cama larga. E o homem dentro de mim. O mundo tornara-se óbvio. Mas teria problema o óbvio? Acho que o não óbvio será, uma madrugada dessas, ele me abandonar pelada num ponto de ônibus. Que fantasia excitante! Quem me contou foi uma paciente. Isso mesmo, uma mulher. Viveu a experiência na própria pele. E duradouro o arrepio. Ai, tenho de disfarçar. Talvez devesse mudar o nome dela. Meu paciente deu-me outros duzentos reais, o óbvio. Eliete, minha paciente, fez de graça! 

quinta-feira, setembro 25, 2014

A princesinha

Este conto tem como autora minha amiga de Glicério, Nuance Lewada. Ela volta ao blog com toda a força e promete muito  mais. Para ler suas contribuições anteriores clique aqui.                        

Christina vem lutando para melhorar o sistema de ensino em sua cidade. Ela acredita que esta é a melhor ação para que o povo aproveite as oportunidades de emprego. Sua amiga Francisca, mais conhecida como Pezinho, há muito tempo saiu de lá para tentar ser deputada  federal e conseguiu se eleger.

Lá em Brasília, Francisca saiu do sério: conheceu pessoas de vários estados, mas a que mais se identificou foi Mariano, um mendigo que no começo tentou ajudar, mas se apaixonou por ele, porque o cidadão lhe apresentava as melhores propostas de posições para fazer sexo. Um dia, Mariano propôs a Pezinho se deliciar sexualmente em todas as asas de Brasília. Pezinho ficou encantada com as diversas chances de ir ao delírio.

Christina ficava sabendo da felicidade de Pezinho. Trabalhando para a própria campanha, as conquistas na saúde avançam. Capacita mais de 4 mil alunos para o mercado de trabalho. E Christina fala, nas entrevistas: “O desenvolvimento continua em nossas mãos”. Em seus pensamentos, vem à tona a vida que a amiga, Pezinho, leva em Brasília.

À noite, mesmo com o corpo cansado, a candidata pensa: “Hoje vi nas ruas um mendigo ainda novo que pode dar um bom caldo”. Pegou o carro e rondou a cidade a procura da caça. Todos os mendigos já dormiam em seus colchonetes e cobertores, nessa época do ano é muito frio por lá, mas o Chico, um rapaz alto, cabelos lisos, olhos esverdeados, ainda vagava.

Christina parou perto dele e ofereceu passeio. Mesmo sem entender nada do que estava acontecendo, Chico entrou no carro. A candidata não foi reconhecida, pois estava de gorro. Christina levou Chico pra um motel fora da cidade. Chegando lá pôde ver melhor a pessoa de rua que ela havia pescado. Encheu a banheira com água morna, meio vidro de sabonete líquido e uma porção máxima de álcool. Pediu pra ele tirar os molambos que vestia e entrasse na banheira.

Chico concordou. Tomou um banho de príncipe. Conversou muito com ele embrulhado nas toalhas do motel. Ele havia vindo do Nordeste tentar a sorte na cidade e não tinha conseguido nada até agora.

Encheu a banheira novamente com sais de sua preferência e disse ter que tomar também um banho. Tirou as roupas aos olhos de Chico, mostrando seus enormes e rechonchudos seios, além de uma vagina espumando de vontades. Beijou o parceiro e o convidou a entrar na banheira.

Os dois se divertindo e conversando muito, Christina se declarou excitada com a presença e o perfume dele. Chico também, que estava a seco por vários meses, se emaranhou com Christina nas águas espumosas daquela banheira. Com um som romântico que ela havia colocado antes da ideia do seu banho, Chico deslizou com o seu pênis duro feito uma rocha no corpo de violão de Christina. Quando ele ia  penetrar na vagina, Christina se lembrou de uma camisinha que mantinha em sua bolsa, que por sinal estava na borda da banheira. Acarinhou o pênis de Chico com sua boca, o que fez o companheiro ir ao delírio, colocando a camisinha em seguida. Fez penetrar o pênis do Chico na vala entre suas pernas e gozou até não poder mais.

Prometeu no outro dia levar roupas limpas para ele e marcar outros encontros, até decidir como ajudar o Chico.

Chico e Christina pareciam viver um conto de fadas. Todos os dias eles se encontravam no mesmo motel. Christina passou a manter a alimentação de Chico, e assim viveram ainda por muito tempo. A eleição chegou e Christina conseguiu ser eleita. Levou Chico pra Brasília, e lá ele não foi mais de rua, e sim o marido de Christina, seu  assessor sexual e importante na Câmara dos Deputados. Como a vida tem seus mistérios! 

quinta-feira, setembro 18, 2014

Que conquista, a minha

Antes eu procurava frases de efeitos para começar um conto. Sempre achei importante e imprescindível ter estilo. E as tais frases, como me davam prazer. Hoje já me sinto senhora de mim, isto é, do meu texto. Não mais necessito copiar literatura alheia. Durante a noite penso no que vivi no dia findo, coloco então certa ordem no caos. Quando acordo, vou direto ao computador. Não tenho dificuldades para transformar a brancura da folha numa obra de imaginação. Já depois de duas ou três frases, voo hábil, como a boa cozinheira que sou acrescento o tempero certo, nem mais nem menos, sutil apenas, nada que faça desandar o almoço, ou a janta, quem sabe.

Ah, meu patrão, como é encantador. Quando o conheci logo pensei vou conquistá-lo, não posso deixar que escape. Passava junto dele, quase a lhe roçar a pele, olhava-o de soslaio. Ele concentrado na leitura, na escrita, no trabalho. Essa vida de escritor é de arrepiar, o homem não pensa em outra coisa, lê e escreve o dia inteiro. Fui contratada como sua secretária. Vocês sabem como isso funciona. Faço de tudo, até mesmo o serviço doméstico. Visto uma bermuda de lycra, uma camisa de malha e mergulho no mar de tarefas que me espera. Sei que ele me olha de rabo de olho quando entro no seu escritório. Já o surpreendi uma ou duas vezes, ele bem sabe, mas o homem tem o poder do disfarce, consegue manter-se frio, distante. No começo pensei se ele me agarra?, grito ou corro? Um homem de seu quilate, porém, não vai partir para um expediente tão baixo, adivinho. Lógico que minhas manifestações de possível desespero também se encaixavam nas gavetas da representação, puro teatro. E demorou até acontecer alguma coisa entre nós. Há aquele toque de mãos, quando fingimos esquecer que estamos pele a pele. A mesma pele do ventre, das coxas, dos seios etc. Escorregamos durante alguns segundos no corpo alheio. Eu mesma afasto as mãos. Tenho a preocupação de não deixá-lo constrangido. Passam-se vários dias sem nos prestarmos a toques mais íntimos, apenas o trabalho, sorrisos e algum meneio meu de cabeça.

A iniciativa tem de ser minha, afirmaria a meus botões caso me fosse tal a roupa. Se deixar ao encargo dele, jamais teremos uma relação além da profissional. Passo a refletir sobre o que fazer, sobre como uma mulher pode conquistar um homem sem se mostrar ridícula. O amor? Não sei, amor como as pessoas o entendem parece enredo de telenovela, e meu patrão não é chegado a elas. Coloco-me em prontidão, descubro a possível trilha a seguir, observar-lhe as leituras. Qual o tipo de livro lê ele, qual o autor, qual o tipo de personagem feminina o interessa? Tem às mãos na maior parte do tempo os livros de Machado de Assis. Mas as mulheres de Machado são superiores aos homens, vencem na inteligência, na astúcia; quando não podem vencê-los abertamente se calam, reflito; com o tempo, percebe-se que ostentam o troféu da vitória. Portanto, não me posso colocar como uma das personagens machadianas, para tal empreitada precisaria de muita leitura, e isso levaria tempo. Descubro, entretanto, outra coisa, um possível caminho para as minhas intenções. Não se pode viver de tanta virtude, eis a verdade, quero dizer, não se pode viver de tanta seriedade. Entre numerosas personagens complexas, muitas virtuosas e outras nem tanto, encontro a vulgaridade. Não se trata de livro de Machado, mas obra traduzida do francês (oh, sempre os franceses), se não me engano um livro que logo depois de publicado foi levado às telas. Tomo o exemplar nas mãos e o folheio. Não passa muito tempo para eu descobrir que se trata de um caso de amor, ou seja, de relação sexual, melhor dizer assim. Um homem procura apartamento e, em meio à visita a um deles, encontra ao acaso uma mulher, que também busca onde morar. Não trocam palavras, apenas ligeiros gestos de cumprimento e de tolerância um com outro. Ambos partem, mas voltam duas ou três vezes, nos dias seguintes. Numa dessas visitas, acabam transando. Tudo acontece com naturalidade. São corpos que se atraem por si sós, ambos necessitam do calor recíproco. Na última visita, no entanto, há um pequeno pacote de manteiga. Acho que trazido pelo homem. Não preciso dizer a que a manteiga se presta. A mulher goza intensamente.

Deixo o livro de lado e continuo o meu serviço. Na manhã seguinte vou ao mercado. Entre as compras trago a manteiga, a mais cara, a mais bonita, a de nome atrativo, que dá asas à imaginação. Meu patrão olha o objeto sobre a mesa e, creio eu, não faz a ligação imediata com o assunto do livro encontrado por mim entre seus papéis. Come o lanche matinal e, apenas no final, olha para mim e sorri. Nesse sorriso, encontro uma ponta de malícia. Digo então... E curvo a cabeça. Começo a desfazer a mesa do café.

Duas horas depois, ao entrar no escritório para lhe levar um café puro, como sempre costumo fazer, ele pede a manteiga. O senhor quer também torradas?, pergunto sem malícia. Não, por favor, apenas a manteiga.

Não preciso dizer mais, confio na inteligência dos meus leitores.

sábado, setembro 13, 2014

Dentro da noite

A gente sempre é capaz de se surpreender.

Trabalhei em outra cidade durante um ano, mas todo final de semana voltava para casa. Como a passagem era cara, procurei saber se havia alguém que pudesse me dar uma carona. Assim, além de sair mais barata a viagem, voltaríamos conversando. O tempo passaria mais rápido e chegaríamos mais depressa em casa. Não é que quisesse apenas economizar dinheiro, pagaria o pedágio, ou mesmo ajudaria na gasolina. Falando a verdade, uniria o útil ao agradável. E não é que aconteceu? Soube de um homem que partia do Rio a tal cidade à mesma hora que eu. E também voltava. Combinamos.

No primeiro dia, esperei por ele num posto de gasolina próximo ao trajeto que fazia, queria facilitar as coisas e não ser taxada de comodista. Escondi meu mau humor matinal por trás das lentes escuras dos óculos. Sabia que, ao mesmo tempo, criaria um ar de mistério. Vestida para matar?, quem sabe. Partimos. Ele apenas sorriu. Silencioso durante toda a viagem, apenas um ligeiro sorriso e os cumprimentos convencionais. Como falo muito, cuidei para não soltar a matraca. Policiei a voz e meus modos. Não soube se o homem era solteiro ou casado. Também, o que me importava? Queria eu alguém para casar?

Chegou o dia de voltar. A mesma atitude. Tanto por parte dele quanto por mim. Já que se tratava de pessoa discreta, diminuí o repertório. No meio da viagem, que durava em torno de três horas, cheguei a lembrar de um rapaz com quem saía quando morei em BH. Jamais foi meu namorado, mas nos encontrávamos para transar.

Na semana seguinte, nova carona, mais duas viagens. Ida e volta. Será que nada vou saber sobre ele? No trabalho, cheguei a perguntar. Mas dele ninguém nunca soube coisa alguma, apenas que era um homem divertido.

Assim passamos a fazer parte um da vida do outro. Toda semana ida e volta juntos. Acabei deixando escapar alguns segredos meus, profissionais e pessoais. Quando falei sobre meus gostos, chegou a entortar a cabeça e a mover a ponta de um dos lábios. Uma vez que dirigia, não lançava olhar frontal a mim.

Comecei a achar que o homem era perigoso. Não praticaria nenhum mal contra mim, mas o perigo é que qualquer mulher cairia apaixonada por ele. Era alguém pleno de mistério.

Às vezes eu perguntava sobre alguma possível atitude dele num momento de trabalho. É preciso pensar, refletir, ele dizia. E sua voz soava plena, como se através do pensamento ou da reflexão conseguisse realmente o sucesso.

Certa vez, na volta, pedi que parasse, precisava fazer um lanche. Assentiu. Parou o carro num restaurante famoso, desses em que param os ônibus de luxo. Indicou-me o restaurante, onde os garçons esperavam pelos clientes. Não, quero apenas um lanche. Mas o seu olhar foi tão generoso, que aceitei o convite.

Vamos tomar uma cerveja?, minha a pergunta.

Concordou. Depois, eu mesma alertei, mas você está dirigindo.

Tomou água mineral. Bebi a cerveja.

Acho que ri mais do que me era permitido. Não estava acostumada a uma garrafa inteira, e das grandes.

No caminho, pedi pare, por favor, preciso fazer xixi, alertei.

Apontou que dali a quinze quilômetros havia um bar com banheiros limpos.

Não, por favor, pare em qualquer lugar, não aguento.

Será que eu já ia rubra?

Parou no acostamento de uma longa reta. Saí, fechei a porta e agachei bem junto ao carro.

Quando voltei, não digo que estava morta de vergonha.

Vamos ficar aqui mais um pouco, não preciso chegar em casa cedo, hoje, falei.

Mostrou adiante um local melhor, um esconderijo. Quem passasse pela rodovia não seria capaz de nos perceber. Dirigiu por uma estrada transversal à rodovia e parou num local que parecia perfeito para estacionar.

Você não quer voltar para casa hoje?, perguntou.

Dei os ombros. Demorei a responder.

Sabe o que é? Quando morei em BH saía com um cara parecido com você. Eu não era namorada dele, mas a gente saía. Você entende, não?

Ele entendeu, e até muito bem. Já estava escuro. O céu apresentava as primeiras estrelas. O silêncio era comprido, como a reta lá de cima, onde se viam apenas os faróis dos automóveis a cortar a noite recente.

Sabe, já saltei nua numa estrada, e já também tomei banho nua numa cachoeira.

Jura?

Claro, juro.

Então, você vai la fora nua?, apontou a noite fechada.

Nua, nua?, fiz cara de inocente.

Sim.

Transamos duas vezes naquela noite. Uma antes de eu sair do carro e outra depois. Ainda pedi que ele dirigisse um pouco à frente e me deixasse esperando.

Por que você gosta assim?, quis ele saber.

Não respondi. Mas quando ele deu a partida, confesso que fiquei arrepiadíssima. Tudo meu dentro do carro e eu pelada do lado de fora...

Continuamos indo e vindo juntos. Vez ou outra, sempre na volta, parávamos no mesmo lugar, quase à mesma hora. E, para não perder o costume, eu sempre saía nua do carro. Ele gostava de admirar o prazer que eu sentia nisso.

Um ano depois me transferi para o Rio. Apenas comuniquei a ele. Não demonstramos tristeza, nem deixamos transparecer que estávamos perdendo alguma coisa.

Nada se perde, pensei. Ganhamos momentos de prazer, sobretudo porque gozávamos juntos, gozávamos também com as primeiras estrelas, com a estrada comprida, com os faróis dos automóveis que mergulhavam na noite como se sempre estivessem prestes a entrar num longo túnel.

Mas que besteira, pensei. Nada se perde? No final das contas, havia a minha casa. Telefonei então para ele.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Você gosta de me telefonar, não é mesmo?

Você gosta de me telefonar, não é mesmo? Sabe que já me casei, mas mesmo assim insiste, e ainda pergunta pelo meu marido. Ele está na rádio, você já sabe sobre isso; desde que se mudou pra minha casa, aqui na serra, se enfiou na rádio e quase não sai de lá, não recebe um centavo, mas não sai de lá. A rádio é comunitária, ele diz que está ajudando. O que vou fazer?, deixo que ele vá. E você aproveita para me telefonar. Outro dia, me lembro bem da tua pergunta, você quis saber se tomo banho nua no rio que passa aqui atrás, quase dentro do quintal. Não, não tomo não, a água está poluída, quando passa por aqui já beirou várias vilas aqui de cima, portanto não pretendo contrair uma doença. Mas vou dizer um segredo. Escute. Quando o telefone tocou, eu estava saindo do banho, corri até a sala e peguei nas mãos o aparelho. Adivinha. Estou nua, isso mesmo, nua, pelada, acho que você deve estar adorando me ouvir contar isso. Não fiz de propósito. Como ia adivinhar que era você? Mas coincidiu. Como sei que gosta de me ver nua, ou de imaginar que estou nua, digo a verdade, sentei pelada na poltrona, cruzei as pernas e estou falando com você. Não, ele não vai chegar agora, é quase certo; se chegar, o que tem?, a desculpa vai ser a mesma, estava saindo do banho etc. e tal. Outra coisa, ele nada pode falar, atualmente sou eu que pago as contas, o que ele ganha é muito pouco, e ainda se mete em trabalhos voluntários. O quê? Ah, sim, lembro. Você não esquece isso, não é mesmo? Acho que adorou. Lembro muito bem. Foram duas vezes. A primeira foi na estrada. Era de madrugada e você me pediu que tirasse toda a roupa. Saí do carro apenas de casaco, um casaco grosso mas curto. Se você não volta eu estava perdida, com tudo de fora, o primeiro que passasse ia querer me comer. Bom que a brincadeira acabou bem. Você foi dar apenas uma voltinha e não demorou. Ou, sei lá, na hora me pareceu uma eternidade, mas acho que não passou de vinte minutos. Isso mesmo, quando entrei no carro, vestindo apenas o agasalho, disse a você que estava molhadinha, e não era devido ao casaco, estava molhada em baixo, bem entre as pernas. Está gostando de me ouvir falar sacanagem? Acha que porque me casei eu não ia mais contar nada picante? O quê? Ah, sim, pode ser, acho que você tem razão, já estou me sentindo mais aliviada das dores nas costas, acho que quando tenho tesão, ou quando trepo, as dores diminuem. Vai ver que eu devia andar sempre nua por aqui, assim ficava molhada e aliviada das dores, acho que tesão e uma boa trepada resolvem tudo. Mas escute, já que você tocou no assunto, outro dia li um daqueles livros que você sugeriu, da mulher que viaja para outro país e arranja um namorado casado, gostei da história, é boa, ela frequenta um bar com ele, acho que em Tel Aviv, ou era em Jerusalém?, não lembro ao certo. Sei que a mulher veio da Rússia e logo arranjou um namorado, um árabe. Ela estava certa. A irmã é que foi uma idiota, casou-se com um mecânico que a traía e aceitou viver naquele fim de mundo, na Rússia. As coisas não são muito diferentes por aqui. Em Glicério, também está cheio de gente querendo arranjar problemas. Ainda há outra história em relação a nós dois, lembra? Na praia, lá em Rio das Ostras. Você fez que eu tirasse o biquíni dentro d’água e o entregasse nas suas você. E o que aconteceu depois? Você levou o biquíni lá pra areia e o guardou dentro da minha bolsa. Me deixou nua na praia. Sabe que também fiquei morrendo de tesão. E a menina, minha ex-aluna, quando me viu veio me beijar, e nem notou que me faltava a parte de baixo. Ainda bem que tudo acabou de modo satisfatório. Ou não? Na minha memória sei que não voltei nua pra casa. Sabe, contei essa história pra uma amiga. Não disse que aconteceu comigo, mas com uma pessoa próxima. Você sabe que existe uma porção de gente que faz essas coisas por aqui, e mesmo em Macaé? Aqui na serra, quando as mulheres namoram saindo de carro, elas acabam sempre nuas, dizem que adoram namorar ao ar livre, sob a luz da lua. Há uma delas que conhece um cara que contou que a namorada gosta de sair nua de casa e ir até o portão. Você lembra que eu também já fiz isso? Desci as escadas pelada e encontrei uma mulher lá embaixo, bem junto ao portão, ainda bem que ela não me viu, cheguei a pensar que era Lídia. Você gostou..., adorou, e os apartamentos do segundo andar estavam com inquilinos. Olha, acho que nem vou precisar tomar remédio hoje, só o fato de estar aqui nua conversando com você já me aliviou muito, me deu o maior ânimo, estou melhor. Não, não venha, não quero trair o meu marido, e logo aqui, tão perto de casa, nada disso. Vamos fazer diferente. Um dia desses eu vou aí e a gente arranja um lugar pra você me deixar nua. Hoje acho que vou gozar sozinha, vou também pensar nas nossas histórias, acho que até hoje você goza pensando em mim, não? Goza, sim; e acho que vou gozar também, já mudei até a posição das pernas, sério, estou toda molhada...