quarta-feira, março 29, 2017

Todo fogo que tenho

“Eu disse a você, estava na academia”, falei a ele quando saíamos do café. Olhou para mim e sorriu. Percebi na sua face uma ponta de ironia.

“Não foi para mim que você ligou, então.”

Franzi a testa.

“Foi o que falei, tenho certeza”, afirmei.

Riu mais uma vez. Estava na hora de partir. Beijou-me, agradeceu minha presença e se foi.

Enquanto subia ao consultório, comecei a pensar na tal ligação. Será que foi para ele mesmo que liguei?

As aparências enganam, como a maioria das pessoas já sabe. Muitos anunciam tal máxima aos quatro ventos. Na verdade, no entanto, deixam-se enganar. Eu, como muitos constatam, tenho fisionomia de santa, de mulher piedosa, incapaz de fazer algo que fira as pessoas. Uma traição então, nem pensar. Jamais as pessoas concluirão que a pratiquei. Este meu admirador, que acabou de tomar um café em minha companhia numa quarta-feira à tarde, vive me pedindo para sair com ele. Mas não se trata apenas de ir até à rua para tomar um café numa cafeteria qualquer. Ele quer mesmo é me levar para cama. Mas, de acordo com a minha fisionomia e meus argumentos, acabo convencendo-o de que não sou uma mulher vulgar, fácil nos convites para o sexo. Coitado, mal sabe ele das minhas atitudes. Já cheguei a ter três namorados ao mesmo tempo, tudo, porém, na mais alta discrição. Os homens dos quais gosto são os que falam pouco e agem muito. Não precisam tocar no assunto principal para eles, o sexo. Nem no desejo que percebem em mim, o dinheiro. Basta que avancem e que eu perceba os depósitos na minha conta corrente. Não faz mal que não mostrem recibo. O tal do telefone, quando falei que estava na academia, não era o namoradinho que me convidou ao café. Cometi um ato falho. Quem sabe, daí para frente, este irá descobrir o meu segredo. O que posso fazer? Nada. Como sempre, fiz de conta que nada aconteceu, que não entendi. Ainda bem que li Dom Casmurro e compreendi bem os olhos de ressaca de Capitu. Aprendi com ela. Assim, todos os homens caem na minha rede.

Se ele soubesse o caso do hotel, ficaria doidinho. Fui passar uns feriados na praia, no sul do estado. Todo manhã debaixo do sol, toda manhã o banho de mar. Moreninha. Até que surgiu um homem grandalhão. Quase impossível encontrar homens sozinhos em hotéis de praia. Mas eu encontrei. Veio falar comigo no momento em que eu tomava banho de mar. Não esperava encontrar uma quase sereia. Digo quase porque não sou metade peixe. Tenho certeza de que ele preferiu assim. Mas no restante eu estava nua, como as sereias Onde o biquíni? Ah, duas pulseirinhas. Como eu poderia escapar dele? E quem disse que escapar era o meu desejo? Apenas mostrei os olhos. E o mar até que estava pra peixe. O restante? No hotel, ao entardecer. Mas não nego que fiquei nua ao lado dele ao ar livre outras vezes. O homem quase enlouqueceu. Eu amei.

O namoradinho que me convida para o café vai continuar me convidando. Amanhã ou depois ele vem de novo. E eu vou com ele. Quanto ao outro, com quem falei que estava na academia, sempre espera por mim, com seu corpo de homem maduro que já foi atleta na juventude, e com os depósitos que faz na minha conta sem que eu lhe diga que percebo.

O meu namoradinho do café se deixa enganar pelas aparências. Jamais vai saber todo fogo que eu tenho!

quinta-feira, março 23, 2017

Melhor não dar ideia

Outro dia recebi uma mensagem de um ex-namorado. Já não o vejo faz alguns anos. Vinha escrito: "Oi, bom dia, tudo bem? Quanto tempo, não é mesmo? Estou com saudades, gostaria de encontrar você. Que tal marcarmos um fim de semana, irmos a uma praia, aproveitarmos um sábado e um domingo? Vai ser bárbaro encontrar você. Beijos, A.G." Li a mensagem diversas vezes, pude constatar que ele não me esquecera, meu  modo de amá-lo e minhas a ações surpreendentes lhe deixaram marcas. Mas eu não podia aceitar de primeira, não ficaria bem. Resolvi então esperar. Respondi no dia seguinte. Cumprimentei-o de modo amável, disse que estava muito ocupada para as próximas duas semanas, assim que estivesse livre entraria em contato. Nos dias que se seguiram lembrei-me do tempo em estivemos juntos, dos passeios e das surpresas.

Ele adorava tocar na lateral do meu corpo. Primeiro me segurava pela cintura, depois ia descendo as mãos espalmadas sobre a minha pele, deslizava-as pelos quadris, lentamente, até chegar às coxas. O pequeno espaço percorrido tornava-se uma espécie de exploração, talvez quisesse certificar se eu viera nua... Demonstrava maior excitação quando estávamos na praia, dentro d’água, de pé, um voltado para o outro. Nas primeiras vezes, quando suas mãos descobriam os lacinhos do meu biquíni, ele as pousava ali e deslocava em alguns centímetros a peque peça. Certa vez incentivei quer tirar?, só toma cuidado pra não perder. Percebi que a sugestão fez seu coração bater mais forte. Puxou uma das pontas de cada laço e o biquíni me escapou, aninhando-se numa de suas mãos. Apertou-me mais forte e cobriu meu bumbum com as mesmas mãos. Agora você está vestida pelo meu corpo, sussurrou no meu ouvido. Ficamos abraçados durante um bom tempo. A nudez não me fez sentir nenhuma insegurança, eu quase cabia dentro do namorado.

No final de semana seguinte foi a vez de eu lhe fazer a surpresa. Entrei primeiro na água e o chamei acenando e sorrindo muito. Quando chegou e se colocou à minha frente, pousou as duas mãos à minha cintura, como de costume. Ao descê-las, no entanto, percebeu que eu estava nua. Isso mesmo, sem a parte de baixo do biquíni. Nem perguntou onde eu o escondera, agarrou-me com mais vigor e ficamos naquela posição, abraçados, ele a cobrir de novo o meu bumbum com suas grandes mãos. Mesmo que alguém se aproximasse, não repararia o meu estado. Naquele momento, ainda o provoquei, entreguei-lhe o biquíni e pedi guarde-o, vá à areia e o coloque dentro da minha bolsa. Não demorou a obedecer. Lá do guarda-sol acenou para mim e ficou me observando por um longo tempo. Quando voltou, veio com as mãos vazias. Naquela tarde fiquei nua dentro d’água, na praia da Joana, quase até o pôr do sol, e com algumas pessoas próximas. Mas elas nada reparam. Minha ousadia fez que ele jamais me esquecesse.

Passaram-se as duas semanas desde sua primeira mensagem. Minha a vez de tomar iniciativa. "Agora podemos marcar", respondi, "aguardo contato." Logo retomou o diálogo. No dia seguinte telefonou, fizemos os últimos acertos para o encontro e para um novo passeio. Num último momento uma mensagem sua não me surpreendeu: "você ainda usa biquínis como os daquele tempo?, estou doidinho pra saber." Nada respondi. Espero-o chegar para que ele mesmo possa constatar. Poderia ter falado a ele sabe, um tempo depois de você arranjei um namorado de Minas, fiquei também nua dentro d’água, só que o homem foi além da conta, adivinha! Isso mesmo, estou nua até hoje.

Bom, melhor não dar ideia.

quarta-feira, março 15, 2017

Louco pela rádio

Outro dia saí com um namorado extravagante que só. Adora me convidar a passeios noturnos. Como nossa cidade é pequena, logo se atinge a rodovia federal. Ele me leva tarde da noite no seu carro, para num trecho do acostamento e pede para eu tirar toda a roupa. Mais rápida do que uma lebre em fuga, deixo no branco traseiro todas as peças e mergulho nos seus braços. Num dia desses, saí peladinha do carro. Ele adorou minha iniciativa. Passamos a transar também do lado de fora, e até mesmo nos afastar do carro para dentro da escura vegetação que bordeia a rodovia. Eu sempre nua.

Ainda não falei, mas sou casada. Tenho o marido e mais este namorado. Meu marido é uma pessoa que trabalha numa rádio comunitária. Aliás, não trabalha, é voluntário, fala o tempo todo nisso. Já não aguento. Ganha uma pequena aposentadoria e não faz mais coisa alguma na vida para conseguir dinheiro. As grandes despesas sou eu quem pago com o meu salário de funcionária da prefeitura. Além de viver nesta bendita rádio, quando chega em casa ele enche a pança e cai num sono pesado. Acorda somente no dia seguinte, lá pelas oito da manhã.

Meu namorado serviu para eu sair da vida enfadonha ao lado do marido que nem sexo me oferece. As aventuras que vivemos proporcionam-me intenso gozo, dão-me gosto pela vida e me deixam plena de sorrisos.

Num dia desses aconteceu uma coisa muito engraçada, que veio melhorar a relação com este rapaz que conheci faz pouco tempo. Nossas transas à beira da estrada foram se multiplicando. Ele, um tanto mais ardiloso, inventou nova maneira de ficarmos ainda mais excitados. Passou a pedir para eu sair pelada do carro e fazermos uma encenação. Ele parte com o veículo e volta depois de uns quinze ou vinte minutos. Fico esperando por ele, mas finjo então que se trata de um desconhecido. Ele para ao me ver nua, aproxima-se, abre a calça e põe o pinto pra fora. Eu tenho de chupá-lo. Quando acabo, passa-me uma nota de cinquenta, entra no carro e vai embora, deixando-me ainda nua. Num dia desses, além do sexo oral, trepou comigo, eu encostada à lataria do automóvel. No final, gozamos juntos. Então me passou quatro notas de cinquenta e foi embora. Fiquei esperando dez, vinte, trinta minutos, mas ele não voltou. O que vou fazer agora, nua, longe de casa?, pensei, mas sem desespero. Caso eu tivesse ficado com o celular, não adiantaria telefonar para o marido vir buscar-me, porque ele não acorda por nada deste mundo. De repente lembrei que ali perto há o sítio de um amigo, que mora sozinho. Caso eu chegasse lá nua, seria o queijo na goiabada. Caminhei vinte minutos e ouvi latido de cães. Meu amigo logo apareceu, pensou que fosse algum ladrão. Ao me avistar, esfregou os olhos, pensou ser um sonho. O que houve com você?, exclamou. Absolutamente nada, disse tranquila, apenas um imprevisto. Não contei a ele que tinha um namorado e que ele havia me abandonado nua. Aliás, nada falei, só pedi abrigo até às cinco da manhã, e depois que me levasse em casa. Ele compreendeu. Teve a elegância de nada mais perguntar. Eu o abracei e, adivinhem o que aconteceu? Mais um namorado.

Nos dias que se seguiram, o homem que me deixou nua voltou a me procurar. Saí com ele. Não havia problema algum, nem fiquei aborrecida por causa daquele gesto impensado da parte dele.  Jurou que não o repetiria. Mas mantive segredo, não disse a ele como voltei para casa nem o que aconteceu. Você é fogo, viu, falei sorrindo. E o abracei. Mas me senti tentada a pedir que ele me abandonasse nua de novo, no mesmo lugar.

Enquanto isso, meu marido na rádio. Enquanto isso meu marido enchendo a pança e dormindo de barriga para cima. Não acorda por nada nesse mundo. Azar o dele! 

terça-feira, março 07, 2017

Mas, pensando bem...

Onde é que já se viu um janeiro assim, mal começou este ano de 2002 e já me aparece no consultório sete pacientes para atender num só dia. Um mês que deveria ser de férias, já tão movimentado. Quem dera ter, ainda que no futuro, uma época em que eu possa trabalhar com tranquilidade, atender as pessoas de uma em uma hora e não ter de sair como uma louca na hora do almoço para ir aos convênios entregar todos esses formulários. Quem sabe um dia inventem um sistema para a gente enviar estas guias sem ter de sair do consultório. Oh, acho que já estou querendo muito.

No meio de todo este desconforto, que é ter de sair de casa no verão para trabalhar, ainda há quem marque e não apareça. Eu a esperar pelo engraçadinho. Outro dia veio um senhor; pela aparência e pelas roupas parecia ser muito distinto. Atendi à primeira vez; na segunda, ele veio? Não. Acho que eu é que não deveria ter vindo, teria sido melhor uma piscina para me refrescar do calor. Mas ele ligou, pediu desculpase apareceu três dias depois. Trouxe um ramalhete de flores, quis me dar um presente. Não lhe dei confiança. Não queria o tal ramalhete. Que ele o desse para suas negas, não para mim. Mas é lógico que não agi assim, aceitei as flores, agradeci e o atendi.

Ele passou a comparecer às consultas com pontualidade e não faltou de novo. Na última vez, começou com uma conversa estranha. Disse que tinha se separado e que vivia muito infeliz, muito melancólico, andava pela cidade a esmo, sem tem com quem conversar, sem amigo ou amiga, sem ninguém.

A profissão de dentista é ingrata. As pessoas não vêm aqui para cuidar apenas dos dentes. Elas querem falar sobre si mesmas, contar seus sucessos e tentar suas intenções. O tal paciente, digamos que se chama Oswaldo, passou a contar a sua história. Melhor era procurar uma psicóloga, pensei. Mas eu não podia ser tão indelicada. Escutei-o, e cada vez seus relatos eram mais diversos. Falou da mulher, disse que ela o atormentara a vida toda. Por mais que fizesse por ela, de nada valia. “Uma ingrata”, afirmava, “uma ingrata que não reconhecia o sustento da casa, os presentes que lhe dera, as viagens que fizeram juntos.” Eu escutando todo aquele fraseado ensandecido. No final, ainda disse que ela o traíra. Teria ele mesmo razão?

Num dia desses, ao acabar de atendê-lo o relógio já marcava seis e trinta da tarde. Acho que adivinhou meu pensamento. “Você já vai embora, será que podemos descer juntos?”, ele sugeriu. Eu quis dizer que não dava, que tinha de arrumar o consultório, mas estava tão cansada que aceitei a sugestão. Descemos juntos, e o caso não ficou só em pegar o elevador, saltar na portaria e caminhar até o ponto do ônibus. Pelo meio do caminho, resolveu tomar um refresco. “Vamos aqui ao lado, há uma lanchonete e faz tanto calor”, convidou. Eu não quis me mostrar indelicada. Afinal, um refresco, vá lá, tomo-o e vou embora. A parada no pequeno restaurante me custou uma hora e quinze minutos. O homem continuou com aquele assunto, só falava da vida infeliz que tivera ao lado da ex-mulher. “Mas agora estou livre”, chegava a levantar os braços ao afirmar, “graças a Deus, ela não me perturba mais.”

Uma semana depois voltou ele ao consultório. Numa das mãos, havia uma bolsa com um pacote, era um presente para mim. Quis dizer que não precisava, não queria aceitar, receber presentes daquele homem me deixaria numa situação desvantajosa, ele poderia pensar que eu aceitava sua cortesia e que estava interessada nele. Mas acabei nada dizendo, meio sem jeito sorri e agradeci.

Como vou fazer para me livrar dele?, perguntei a mim mesma. Já sei, lembrei-me de uma história que ouvi de alguém ou li em algum livro. Conversaria com ele abertamente.

Na próxima consulta, o homem me trouxe de novo outro ramalhete. Acabei aceitando mas aproveitei a oportunidade e perguntei: “Vamos conversar às claras, você tem interesse em mim?” É claro que se eu tivesse interesse nele, não faria a pergunta, as coisas aconteceriam naturalmente. Uma pergunta sempre pode estragar tudo. Mas como ele me era indiferente, a pergunta vinha a calhar.

Ele me olhou, piscou os olhos. Acho que estava nervoso. “Não queria falar nisso assim tão de repente”, respondeu.

Não retruquei, esperei alguns segundos, que se transformaram em minutos, o que fez aquele espaço de tempo se tornar muito desconfortável.

“Vamos conversar sobre isso depois de você acabar de atender as pessoas”, sugeriu.

Espertinho, pensei. Quer encontrar um jeito de sair mais uma vez comigo.

“Ok, concordo”, afirmei, “mas vamos marcar para amanhã.”

Ele aceitou. Ficou muito feliz. Mal sabia que minha intenção era lhe telefonar no dia seguinte, no meio da tarde, e desmarcar o encontro, dizer pelo telefone que não desejava sair com ele. Para uma mulher, conversar com um homem deste tipo num bar ou restaurante é muito desvantajoso, a conversa pode não acabar bem. Eu diria que não tinha nenhuma intenção quanto a ele e acabaríamos o assunto, mesmo que perdesse o paciente. Mas o dia foi muito cheio. Era uma quinta-feira, e tive de atender oito pacientes. Esqueci totalmente de ligar para o homem.

No final da tarde, quando atendia o último, alguém tocou a campainha. Parei, tirei as luvas e abaixei a máscara, fui até a porta e abri. Era ele. Veio encontrar comigo para sairmos juntos. E trouxe uma bolsa com um pacote enorme. Outro presente.

E agora, o que faço? Como vou me livrar deste homem tão insistente?

Mas, pensando bem, não sei, quem sabe ele seja uma boa pessoa, quem sabe ele tenha razão...

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Beijo na orelha

Eu queria enviar uma mensagem para ele, ou mesmo um ícone daqueles que há no whats app. Fiquei um tempo enorme pensando, demorei a decidir. Um dia antes, era segunda-feira, ele me telefonou, perguntou se eu estaria no consultório à tarde. Respondi que sim. Vou tentar aparecer lá, ele falou. Mas não foi o que aconteceu. Atendi uma, duas, três pessoas, e nada de ele tocar a campainha, pelo menos para me dar um beijo, como às vezes faz. Quando eu consultava um dos pacientes, o celular tocou. Porém não pude responder. Não ia interromper a consulta por causa de uma ligação para o celular. Só no final do dia pude olhar o número da ligação perdida. Era o dele, que pena. Voltei para casa. Ele não aparecera para me visitar nem ligou de novo.

Por isso eu queria mandar a mensagem, ou o ícone do whats app. Acabei encontrando um coração pulsante. Isso mesmo, um coração rubro, que pulsa à medida que o destinatário abre a mensagem e o observa, uma gracinha. Antes de enviar, lembrei-me mais uma vez do gesto dele ao me visitar. Dá-me dá um abraço apertado, segura-me por alguns segundos, eu agarradinha nele. Não posso dizer que não gosto. Certa vez esperava-me para descermos ao café, então o telefone tocou. Atendi. Não sei se era um paciente ou uma ligação comercial. O que recordo é que, enquanto eu respondia a ligação, ele deu meia volta e beijou a minha orelha, a orelha contrária à de onde eu colocara o gancho do telefone. Senti um arrepio incrível, confesso que até fiquei envergonhada. Como se diz por aí, perdi o rebolado: esqueci o que devia dizer à pessoa que me aguardava do outro lado da linha. Naqueles poucos segundos, lembrei-me de um acontecimento que me ocorrera quando era bastante jovem.

Estava com um namoradinho, acho que era sábado à noite, ele agiu da mesma forma. Um beijo molhadinho na minha orelha. O rapaz, então, surpreendeu-me num ligeiro tremor. Envergonhada, abracei-o. Ele entendeu meu abraço como um sinal de aceite. Como faria para dizer que tudo não passava de um mal entendido? Ainda para incentivar, eu vestia um tomara que caia curtinho. Dá para acreditar? Não consegui escapar de suas investidas. No final, eu ainda me sentia molhadinha, e não era só na orelha. Quis dizer que não gostei, fiz cara de furiosa, mas quem acha que consegui?

Volto ao consultório. Após o beijo, permaneceu juntinho a mim, abriu a boca e deu também a tal lambidinha, bem dentro da minha orelha. Parece que minha lembrança atraiu sua ação. Fiquei toda arrepiada, quase não aguentei. Ou melhor, não aguentei mesmo. Mas tive de disfarçar e dizer para com isso, estou no telefone.

Na mensagem do whats app, não escrevi nada, apenas enviei o coração pulsante. Sei que ele vai entender. Meu coração pulsa por ele. Na próxima vez que me beijar, sei que me vou toda derreter.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Vizinho

Eu olhava pelo olho mágico da porta principal, aquele buraquinho que dá pra ver quem está no corredor do prédio. No meu caso, no sexto andar. O tal novo morador vivia no 601, o meu era o 603. Toda manhã e toda tarde, eu sabia seus horários. Como chamar sua atenção? Pensei várias estratégias, mas não achei nenhuma delas convincente. Restou-me apreciá-lo por trás da porta, por aquele buraquinho mínimo e ridículo. Desconfiei que o homem fosse gay. Logo, porém, cheguei à conclusão que não era possível. De três em três dias vinha uma mulher ao seu apartamento. Numa sexta-feira, mais uma descoberta. Havia outra, que era bem morena, pernas grossas, sempre trajando calças legging. Conversei com Isabel, uma amiga, especialista em paqueras, em arranjar os mais diversos tipos de namorados.

“Mara, o principal é você ter paciência. Com paciência tudo se consegue. O homem, caso você queira, cai de graça nas tuas mãos. Nem precisa muito esforço.”

“Isabel, ele já tem duas ou três mulheres, será que vai se interessar por mim?”

“Você precisa definir, Mara, se você quer se relacionar com um homem desses. Se ele é cheio de mulheres, o que você vai querer com ele.”

“Quem sabe se enamora por mim, Isabel?”

“Difícil, amiga, muito difícil, não queira mudar as pessoas, elas permanecem quase as mesmas durante toda a vida.”

“Ah, então uma só saidinha, dar uma namoradinha com ele e pronto, ali mesmo no prédio, no apartamento dele ou no meu.”

“Caso o teu desejo seja esse, Mara, fale com ele. Bata na porta do homem e diga que quer conversar. Ele vai achar você uma pessoa interessante, mas não é bom esperar mais que disso. Como você mora ao lado, é capaz de ficar desconfiado, achar que você vai controlá-lo o tempo todo, e ele não mais poderá levar a vida como deseja. Mais uma coisa, Mara, ele é bonito?, ainda não me falou sobre isso.”

“É lindo, Isabel, lindíssimo, o problema é esse. Se fosse uma pessoa comum, mas é fora do normal.”

“Então, cara amiga, caso a tua percepção esteja correta, vai ser ainda mais difícil. Caso seja trepar só uma vez com ele, bata na porta do homem e converse sobre isso. Diga que o achou bonito, que sonhou com ele, que o deseja, que não leve você a mal. É praticamente certo que vai aceitar. Mas não espere nada além disso.”

Voltei pra casa e fiquei pensando naquela conversa. Será que Isabel queria mesmo que eu falasse tão diretamente com o homem? Talvez seu conselho fosse só pra impressionar.

Passaram-se vários dias. Numa quinta feira, prestei atenção à hora em que ele chegou. Abriu a porta vagaroso, com ar de quem chega ao paraíso, depois entrou e fechou também com suavidade. Esperei trinta minutos. Saí do apartamento e fui até a porta dele. Aguardei um ou dois minutos antes de bater. Pareceu-me um tempo enorme. Após apertar a campainha, esperei mais vinte ou trinta segundos. Ele veio abrir. Ao perceber uma mulher à sua porta, abriu mais largamente e mostrou-se de forma plena. Vestia bermuda e camiseta, não estava descalço, mas com umas pantufas que normalmente a gente usa dentro de casa. Sorri e senti vergonha. O que diria a ele?

"Oi, sou sua vizinha daqui ao lado, sei que aqui as pessoas não têm costume de bater às portas alheias para se apresentar, mas gosto de fazer amigos."

Ele sorriu. “Renato”, disse o nome, “a seu inteiro dispor.”

Continuei com a fisionomia congelada, talvez também um sorriso, branca como a neve, estática. O homem perguntou:

“Quer entrar?”

“Ah, sim, obrigada, meu nome é Mara, muito prazer.”

“Vou fazer um café, você me acompanha?”

“Oh, sim, um café, que bom.”

Ele foi. Esperei na pequena sala de estar. Simples, mas aconchegante. Um sofá de dois lugares, uma poltrona individual, abajur com o foco voltado para o colo de quem senta na poltrona individual, talvez para facilitar à leitura, a pequena mesa de centro portando alguns jornais, dois ou três livros, envelopes. Achei que não seria possível ir diretamente ao assunto, isto é, que o achei bonito e desejava trepar com ele. Seria melhor seguir pelas vias normais, ser amiga do homem, cumprimentá-lo no dia a dia, sorrir quando o encontrasse na rua, falar sobre um livro, um filme, e deixar que a vida tomasse seu curso.

“Você prefere açúcar ou adoçante?”, ele com uma pequena bandeja, as duas xícaras. Reparei que era delicado, as xícaras bem pequenas, brancas, pintadas com linhas que se alternavam. O açucareiro, adoçante, duas colheres, tudo ajeitado, homem que dá atenção aos detalhes.

“Prefiro açúcar.”

“Você mora no prédio há muito tempo?”, ele quis saber.

“Três anos”, eu disse, “três anos e alguns meses.”

“É bom, aqui?”

“Sim, é silencioso, bom pra ler, pra estudar.”

“Você estuda”, perguntou enquanto levava a xícara aos lábios.

“Mais ou menos, sou professora.”

“Professora?”, perguntou, mostrando alguma surpresa.

“Sim, ensino médio, língua portuguesa.”

“Então, tenho de tomar cuidado com as palavras”, suspirou.

“Nada disso, cada um fala como quer.”

“Trabalho com cinema”, acrescentou.

“Que lega!”, não deixei de exclamar.

“Muito legal”, mas há trabalho que não acaba mais.

Pedi que falasse mais sobre seu trabalho, pois adoro cinema.

Disse que fazia várias coisas, desde a iluminação, como auxiliar na direção e até dirigir. Já dirigira dois documentários e vários curtas, inclusive um premiado no exterior.

“Você, vez ou outra, vai notar que desapareço de repente, é o trabalho, às vezes fico meses fora.”

Dois dias depois encontrei Isabel na cafeteria da Rainha Elisabeth.

“Falei com ele”, fui logo dizendo.

“Falou o quê?”

“Me apresentei como a vizinha do lado, caso ele precisasse de alguma coisa...”

“Começou com uma tentativa de amizade, então?”

“Não era essa a intenção, mas foi o caminho que surgiu.”

“Não deixa de ser boa opção, quem sabe, um investimento futuro.”

“Pode ser”, afirmei, “foi a solução, agora posso falar com ele de vez ou outra, de repente acontece o que desejo.”

“Você é esperta, Mara.”

“Nem tanto, poderia já estar frequentando a cama dele.”

“Pra que tanta pressa? Você espera, enquanto isso há outros homens, muitos paqueram você.”

“Todos casados”, ressaltei.

“O que há de mal nisso? Você quer casar? Pelo que me consta, não.”

Tomei meu café. Na calçada passou um homem jovial, talvez trinta, quarenta anos, piscou o olho pra mim.

“Lembra da Berta?”, Isabel me trouxe de volta ao assunto, “ela teria feito de tudo para transar com o homem na primeira vez.”

“Algumas mulheres são assim, mas não é muito o meu jeito, só aconteceu uma ou duas vezes, e mesmo assim foi porque o homem abriu caminho. Mas o vizinho permaneceu parado, até mesmo surpreso, sem ação, eu não poderia agarrá-lo de primeira.”

“Também venhamos, Mara, há outras coisas boas para se fazer na vida, não se pode pensar em sexo o tempo todo.”

“Só a Berta pensa nisso o tempo todo, o vestido curtinho, as pernas cruzadas como estivessem protegendo a nudez, mas se ela pudesse andaria sem roupa alguma.”

“Outro dia veio-me dizer que está procurando alguém para se apaixonar, está voltando aos tempos antigos, agora que passou dos 40. Também me contou que, assim como você, está paquerando um homem interessante. Conheceu-o num trabalho temporário e, por coincidência, ele mora no mesmo bairro que ela. Berta foi à casa dele, o homem estava lavando o quintal com uma mangueira. Adivinha o que ela fez?”

“Pediu pra tomar banho de mangueira.”

“Como não tinha levado o biquíni, você já sabe como ela tomou banho. Não preciso contar o resto."

“Agora voltando ao meu vizinho, Isabel, qualquer dia desses bato à porta dele, nua, viu?”

“Acredito.”

“Estou me preparando.”

“Então, você vai ousar mais que a Berta.”

“Mais? Você acha que ela nunca bateu nua à porta de um homem?”

Isabel suspirou. Eu, o que iria fazer? Voltei a pensar no meu vizinho.

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Quinhentos reais

Enviei a ele uma dessas mensagens de whats app. Dizia o seguinte: deposite quinhentos reais na mina conta, dentro de 24 horas irá lhe acontecer algo maravilhoso, caso não aconteça deposite mais quinhentos.

O problema, ou a solução, não sei, foi que ele depositou. Recebi a resposta menos de uma hora depois, pude constatar o dinheiro na minha conta através do celular.

À tarde ele apareceu no meu consultório. Entrou, abraçou-me e disse: “já me aconteceu a tal coisa maravilhosa, estou aqui ao seu lado.”

Suspirei aliviada. Ficamos conversando durante alguns minutos, mas um paciente logo chegou e precisei atendê-lo.

“Volto depois da consulta”, sussurrou no meu ouvido enquanto eu fechava a porta.

Ele desceu, foi à rua, e me deixou com o paciente.

Voltou mesmo, uma hora depois. Vamos lá embaixo tomar um café, sugeriu.

Aceitei. Sentamos no bistrô que há na galeria do próprio prédio, em frente às duas livrarias. Começamos a conversar.

Ele tem uma conversa terrível, qualquer uma é capaz de cair seduzida por ele. Falou dos dias que se passavam, do verão, das coisas boas que há para se aproveitar. Como sua voz tornava tudo um mar azul de águas plácidas! No final, jogou um beijinho para mim. Não sei por que me arrepiei, e não consegui esconder. Caímos os dois na gargalhada.

Sempre fui uma mulher pudica, não dou bola para qualquer um, mas aquele meu amigo era uma tentação.

Instantes depois, tirou um presente da pasta e me ofereceu. Ainda não havíamos acabado o café.

“Uma pulseirinha”, exclamei, “tão delicada, tão mimosa, que beleza”, sorri e coloquei no braço, ficou uma gracinha.

Após acabarmos o café, aliás, comemos também um pedaço de bolo, perguntei se iria subir comigo. Vou arrumar o consultório para ir embora, não tenho mais paciente.

Concordou. Com muita elegância, prontificou-se a me esperar.

Ao descermos novamente, começamos a andar pela Av. Rio Branco. Depois caminhei até o ponto de um ônibus. Vamos juntos, falei a ele. Embarcamos. O tempo foi curto, vinte minutos e saltávamos à Rua das Laranjeiras.

Meu amigo desceu comigo. Surgeri que me acompanhasse. Pensava se o convidava a subir ou se me despedia dele ali mesmo na rua. Caso esgcolhesse a segunda alternativa, perderia muito. Como era fofo ficar com ele e, afinal, ele me presenteara duplamente. Com ele só tinha a ganhar.

“Vamos lá em cima comigo”, convidei.

Dentro do apartamento, liguei a TV, mas sintonizei na parte de música, para preencher o ambiente. O que eu faria a partir daquele momento?

“Aguarde um instantinho”, pedi.

Fui ao quarto. Claro que não apareceria nua na sala, de repente, como uma doce surpresa a lhe cair no colo. Seria demais. Optei por lhe pedir que reparasse um vestido que comprei havia pouco, precisava da opinião de um homem.

“São sempre boas as opiniões masculinas”, sentenciei.

Voltei dentro do vestido azul, que comprara fazia dois ou três dias.

Ele achou lindo. Sentei-me ao seu lado, ainda bem vestida, olhei-o nos olhos, depois fechei os meus, como que mergulhada em pensamentos.

Senti, então, seus lábios quase tocando os meus.