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segunda-feira, outubro 11, 2021

O selim da bicicleta

Senti saudades do meu amigo, enviei uma mensagem. Ele logo respondeu. Pedi desculpas, porque na última vez em que nos falamos eu o ofendi. Não estava bem naquele dia, por isso a tal ofensa. Mas ele pareceu não ter ficado aborrecido. Os homens gostam das mulheres, acabam perdoando tudo de errado que fazemos. Até mesmo uma escapadinha, caso descubram. Ele não é diferente. Me remexo na cama, estou nua sob o lençol, as coxas grossas roçando uma à outra. Penso nos dias de namoro que tivemos. É preciso dizer que já não somos namorados, depois de terminarmos continuamos amigos. Coisa difícil entre os casais. Contei a ele sobre meu novo homem. Escutou com paciência e curiosidade. Como você o conheceu?, quis saber. Ah, uma história rocambolesca, arrisquei; sabe esses sites de relacionamentos amorosos?, então, descobri um ainda mais saliente (aliás, adoro a palavra), um local onde se pergunta se a gente quer trepar com alguém das proximidades. Ele escutava, passivo, mas deixou escapar um ligeiro som de riso. Fui resumindo. Marquei com um homem que apareceu de primeira. Quem sabe é alguém daqui de perto, vou passar a maior vergonha. Porém, o homem não era conhecido. Disse que morava no Miramar. Como é um bairro familiar, fui à casa dele. Me esperava contente, com uma jarra de refresco e uns biscoitinhos. Acho que me apaixonei por ele por causa do lanchinho. Como estava constrangida (como dizer que não tinha experiência no tal tipo de encontro, ele iria acreditar?), tentou facilitar as coisas. O encontro foi à tarde, achei melhor, seria mais seguro. Não sei por que a luz do dia me passa a impressão de que não me acontecerá nada de mal, mesmo nos braços e na casa de um desconhecido. Ah, estou morrendo de vergonha, cheguei a dizer. Não faz mal, respondeu o homem. Ficamos conversando, apenas, nada de sexo no primeiro dia. Na semana seguinte, ele apareceu lá em casa, uma quinta feira, depois das nove da noite. Então, foi uma festa. Acabamos namorados. Você não vai me trair neste site, vai?, ele não cansa de me perguntar. Não, foi minha primeira e última vez, sempre insisto. Será que acreditou mesmo? Há homens que nos acham traiçoeiras, como as personagens ardilosas dos romances de literatura. Meu amigo gostou da história, no final perguntou: ele não tem compromisso com outra mulher? Não perguntei, eu disse; mas do modo que aparece aqui em casa, sem preocupação alguma, dormimos juntos dias de semana ou de sábado pra domingo, acho que não tem outra, não. Meu amigo é malicioso, quando me namorou ficava tentando descobrir se eu dava alguma escapada. Certa vez fui a Cabro Frio com uma amiga, ela tinha um encontro lá e não queria ir sozinha. Ele soube e ficou desconfiado, principalmente depois que dei uma sumida de dois dias. Mas agora ele escutava, e parecia se divertir. Você é muito foguenta, não fica sem namorado, disse, é muito diferente de tua irmã. Ele tem razão, estou sempre com alguém. Não cometeu a indelicadeza de dizer que adoro andar nua, e que já tentei de tudo nas areias de Cavaleiros, tantos os paqueras. Depois de um tempo, resolvi ir à praia em outra cidade, aqui fico mal falada. Senti uma coceira outro dia, ao olhar de novo o site de relacionamentos, pensei que tal uma escapadela, mesmo que seja apenas pra conversar? Não, disse a mim mesma, intranquila, se caio nas mãos de meu namorado, ele andando também por lá para se divertir! Talvez eu ache o maior barato, mas ele vai dizer que sou uma boa duma piranha... Esse último pensamento não contei a meu amigo. Mas do jeito que sabe sobre mim, é capaz de imaginar a cena. Na época do namoro, conversávamos tarde da noite pelo telefone. Como eu vivia de bicicleta pela cidade, ele me pedia monte e venha pra cá agora; se não estiver vestida, aproveite a oportunidade e venha nua. Uma quentura entre as pernas, o selim da bicicleta.

quarta-feira, agosto 10, 2016

Você quer que eu fique nua pra você?

Você quer que eu fique nua pra você?, tudo bem, mas vamos a um hotel, não gosto de namorar dentro de carro nem lá embaixo na areia da praia, eu disse.

Eu o conhecera já fazia duas ou três semanas, ele viera trabalhar na cidade, na verdade um lugarejo, mas que tinha instalações para exploração de petróleo em alto mar. Passamos a nos encontrar quase todos os dias, frequentamos o principal restaurante, que ficava na orla marítima. Ele atendeu ao meu pedido. Ensinei o caminho e fomos a um hotel na cidade vizinha.

Durante o tempo em que ele permaneceu na minha cidade, ficamos juntos. Levei-o uma ou duas vezes pra casa. Mas não quis que virasse costume. Como nesse tipo de lugar quase todos se conhecem, logo começa o falatório, e eu não estava a fim de ouvir bobagens. Sabia que ele não ficaria pra sempre, o trabalho dele não permitia, eu tinha consciência também de que quando ele partisse seria muito difícil encontrá-lo de novo. Nos seus últimos dias, resolvi fazer algo marcante, algo que me tornaria inesquecível a ele.

Tenho uma fantasia, falei. Fantasia?, ele me olhou curioso, sorriu e esperou a explicação. Nada de carnaval, lembra quando saímos nas primeiras vezes?, você queria tirar minha roupa dentro do carro, pedi então pra irmos a um hotel; aqui há um pequeno morro, de lá dá pra ver a cidade inteira, embora a escalada seja um pouco cansativa; minha fantasia é tirar a roupa lá no topo; não podia pedir isso a você naquele dia; vamos hoje? Ele concordou, achou a ideia muito boa e engraçada. Ensinei o caminho. Guiou até as proximidades. Deixamos o carro bem protegido, num trecho da estada que pouca gente conhece. Começamos a subida.

Sabia que não encontraríamos pessoa alguma naquelas bandas, mas mesmo assim preferi tomar o caminho mais difícil, afastado da possibilidade de um encontro casual com qualquer habitante da cidade. Algumas vezes tínhamos de andar no meio do mato; outras, aparecia um tipo de trilha, que nos ajudava. Faltando cem metros para atingirmos o topo, encontramos uma espécie de caverna. Como eu já conhecia o local, entrei e o chamei. Ali dentro o abracei, beijei-o na boca e ficamos agarrados um ao outro por um longo tempo. Você não me quer nua?, incentivei. Ele fez que sim com a cabeça. Tirei então toda a roupa, enrolei a blusa, a calcinha e o sutiã e os coloquei dentro da calça comprida, enrolei a calça e a escondi num dos cantos da gruta. Quem cavou isso aqui?, ele perguntou. Não sei, esse lugar já existe faz tempo. Você não tem medo que alguém more nesse lugar, algum desconhecido?, você vai deixar suas roupas aqui?, ele duvidava. Não vem ninguém não, vamos subir. Peguei o namorado pelo braço e continuamos a escalada. Após um tempinho, atingimos a parte mais alta. Sempre à frente, mostrei os quatro cantos da cidade. Foi engraçado, eu nua puxando o homem de um lado a outro pra mostrar a paisagem. Ninguém ainda teve essa mesma ideia, de vir aqui pra namorar?, ele estava preocupado. Acho que não, falei, a cidade tem lugares mais fáceis de se chegar, onde se pode namorar sem ser incomodado.

E realmente foi assim, namoramos bastante e não apareceu ninguém enquanto estivemos ali. Mas o namorado se mostrou um pouco intranquilo. Você não precisa ficar preocupado, relaxe, eu dizia, quem está nua sou eu. Abracei-o mais uma vez e trouxe o seu sexo de novo para o meio das minhas pernas. É bom a gente gozar com essa paisagem bonita em volta, debaixo desse céu salpicado de estrelas, veja como brilham, falei O céu estava sem nuvens e sem lua, dava para ver até mesmo a via láctea. Quando ele pensou em descer, resolvi pregar uma peça. Contei uma história.

Você deve estar pensando que trago aqui todos os namorados, ou todos os homens que conheço, mas não é isso não; confesso que já vim, fiquei nua, mas apenas com dois deles; e o mais engraçado foi o que aconteceu uma das vezes. Alguém surpreendeu vocês, e como você estava nua..., ele insinuou. Não, não foi bem assim, sabe a caverna?, fiz como agora, deixei minhas roupas lá, mas quando voltamos elas tinham desaparecido. Jura?, ele fez cara de surpresa. Juro, procurei tudo, mas não encontrei, o rapaz ficou como você, mais apavorado do que eu. Não posso voltar nua pra casa, disse a ele, mas temos um jeito, me empresta tua camisa, pedi. Ele vestia uma blusa de mangas compridas de tecido aflanedado, pois era outono e ele parecia sentir frio à toa. Sem a blusa vou ficar doente, mas tenho outra solução, vou descer sozinho e volto com uma roupa pra você, ele assegurou. Acreditei no homem e fiquei esperando, agora me pergunte se ele voltou?, eu disse finalizando o relato. E como você fez? Ah, isso não posso contar, morro de vergonha. Você voltou pelada pra casa?, perguntou ansioso. Não posso dizer que não, mas também não posso dizer que sim. Agarrei o homem, tirei seu sexo para fora da calça e trepamos mais uma vez. Descemos calados, já alta a madrugada. Entramos no carro e ele me deixou em casa. Antes de ir embora, ainda o beijei pela última vez. Você ficou me devendo, ele acrescentou. Eu?, o quê?, retorqui. O fim da história. Ah, não liga não, brincadeirinha, sabe como é a vida numa cidade pequena, sorri e acenei um adeusinho. Fiquei olhando o carro até desaparecer no final da rua.

Ah, meu namoradinho que me deixou nua, tomara que um dia desses você apareça de novo por aqui.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Le Match

Paul foi um namoradinho ousado. É o que eu sempre acho quando penso nele. Outro dia, ao dirigir pela península de Ashby e fazer o retorno, parei diante do Le Match, um antigo bar que hoje mantém apenas a arquitetura de quinze anos atrás e serve agora de galpão.  Paul pedira para sairmos aquela noite de primavera, queria que eu dirigisse devagar pela orla de Tom e depois parasse diante do antigo bar. Se fosse apenas essa a sugestão, nada demais. O namoradinho, no entanto, me queria de biquíni à noite. Perguntei se eu não morreria de frio, pois apesar da primavera a temperatura resistia a subir.

“Você vai de casaco e de biquíni”, insistiu.

Acabei por lhe fazer a vontade, e o biquíni que vesti era dos menores, de laçarotes, que entrava todo atrás. Joguei o casaco sobre o corpo, descia até parte das pernas, e nos aventuramos ao exterior.

“Você não me permite ao menos um par de meias?, dessas que sobem acima dos joelhos”, pedi.

Ele moveu a cabeça, concordando. Fomos então passear, de carro, uma espécie de furgão. Eu de casaco, biquíni, as meias e um par de botas.

“Você esta charmosa”, soprou sorridente, soltou o ar quente pela boca.

Demos várias voltas pela orla de Tom, depois pelo cais de Ashby e, enfim, fizemos o retorno. Paramos diante do Le Match, onde havia àquela hora poucas pessoas. Eram dez da noite. Parecia que os jovens estavam em alguma das boates que ficavam depois de Ashby. Pedimos duas bebidas, a minha de morango e vodca. Ele tomou um Scotch e comeu amendoins. Ficamos em silêncio durante algum tempo ouvindo a música abafada que vinha dos autofalantes do bar. Uns homens jogavam sinuca no andar de cima. Após a segunda dose, Paul sugeriu que saíssemos e caminhássemos até as dunas, a quinhentos metros dali.

Do lado de fora, apesar da baixa temperatura, o céu estava claro.

“Por que as dunas?”, perguntei.

“Nada demais, apenas um passeio.”

Quando atingimos o ponto mais alto, pudemos apreciar toda a orla das praias da península. Apesar da noite, o contorno do litoral se delineava claramente.

“Então, você atendeu o meu pedido”, ele disse, “veio de biquíni.”

“O que há de mal nisso?”, cheguei a perguntar.

“Que tal você tirar toda a roupa?”, insinuou.

“Acho que não posso, vou adoecer”, falei.

“Então tire o biquíni”, sugeriu mais uma vez.

Dei de ombros. Com as mãos sob agasalho, desfiz os laços. Ele sorriu quando viu o biquíni nas minhas mãos. Entreguei a ele, que o guardou num dos bolsos.

“Você está gostando”, suspirou.

“Quem sabe”, devolvi.

Veio me abraçar. Suas mãos frias percorreram minha pele branca e gelada, dentro do casaco.

“É melhor voltarmos para casa”, eu disse.

“Vamos ao Le Match, quero mais uma dose”, ele rebateu.

Descemos as dunas e entramos mais uma vez no bar. Naquele momento havia mais pessoas. Avistei, entre três rapazes, Diana, uma velha amiga. Ela logo me viu e se aproximou.

“Que casaco bonito, deixa eu vestir um pouquinho”, foi logo dizendo.

“Não posso”, afirmei.

“Como não pode?”

“Depois te conto”, acrescentei.

Ela deslizou as mãos sobre minhas costas e sorriu.

“Depois tenho também uma coisa pra te contar”, disse e me beijou, voltando pro meio dos rapazes.

Eles estavam alegres, espelhavam muito vigor.

“Seria bom se ficássemos com eles”, disse a Paul.

Ele deu de ombros, pediu mais uma dose e sentou num dos bancos. Diana ria muito, logo abraçou o que estava à sua direita e, de lá, deu uma piscadela para mim.

Não sei como aquela noite terminou. Acho que voltamos ao carro e ficamos nos agarrando antes de eu dirigir de volta. Pode ser também que eu tenha dirigido de volta para casa, nua, pois fizera isso algumas vezes para agradá-lo.

O bar ficou na minha memória, o letreiro ainda é o mesmo, mas o fim que a construção passou a ter de uns anos para cá não é mais o de reunir jovens ávidos por bebidas, músicas e aventuras com as mulheres.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Chá e biscoitos

“Você não comeu nada”, disse Ana, ofendida, ao reparar os biscoitos intactos.

“É que estou surpresa”, repliquei.

“Surpresa?”

“Sim”, falei ainda olhando a foto. “Se ele mostra a alguém?”

“E o que os outros têm a ver comigo?”, respondeu sorridente, apanhando um dos biscoitos e mordiscando.

“Não sei, mas poderia causar algum prejuízo a você.”

“Nada disso, não preciso de ninguém, tenho meu próprio negócio e isso jamais me prejudicaria.”

Devolvi-lhe a foto. Ela a pousou sobre a mesa, ao lado do pratinho de biscoitos. Pegou sua xícara e tomou um pouco do chá.

Imaginei a situação em relação a mim. Jamais teria coragem de me deixar fotografar naquela pose. Ana estava de pé, na foto, num gramado, ao lado do tronco de uma pequena árvore. Vestia apenas o top, as mãos cruzadas abaixo do umbigo cobriam seu sexo. Andei durante muito tempo à procura de um namorado, não acho que com aquela atitude facilitaria as coisas. Minha amiga, no entanto, era espevitada. Tudo para ela era motivo de alegria.

“E como estão vocês agora?”, eu quis saber.

“Estamos ótimos.”

“Tomara que vocês nunca briguem.”

“E se brigarmos, o que tem?”, ela me olhou com o rosto desafiador.

“Ele pode chantagear você.”

“Bobagem”, acrescentou tranquila, “hoje as mulheres estão cansadas de andar nuas por aí.”

Suspirei e fiquei quieta no meu canto. Segurei a xícara e bebi um gole de chá, comi um dos biscoitos.

“Não quer ir com a gente, no Carnaval?”, sugeriu com ar de expectativa.

“Aonde?”

“Angra dos Reis.”

“Só se você deixar ele tirar uma foto minha, assim como essa que você mostrou?”, falei com ar de pilhéria.

“Jura?, ela arregalou os olhos. “Deixo, caso você permita que posemos junto.”

“Brincadeira, Ana, e quanto ao meu trabalho? Se o juiz me vir nua é capaz de me transferir.”

“Mas aposto que antes ele te convida para um hotel.”

“Você acha mesmo, Ana? Ele é tão bonito.”

“Claro que sim. Se eu fosse você, não perderia tempo. E o que é que tem trabalhar em outra seção?”

“Vou com vocês. Mas no pictures”, acrescentei.

“Ok.” Seus olhos grandes sempre me contagiavam. Senti uma coceirinha. Eu acabaria também tirando a roupa? Ela comeu mais um biscoito.

“Tem mais uma coisa, Ana, vou sair esta noite com o namorado que fez a foto”, ela disse.

“O que tem de mais nisso?”, olhei enquanto segurava a xícara.

“É que vou nua.”

“Nua?”, assustei-me.

“Nua, pelada, sem roupa alguma.”

“Mas, Ana, logo você uma mulher tão elegante...”

“É que ele afirmou um dia desses que poucas são as mulheres bonitas quando se mostram nuas por inteiro, e eu sou uma delas”, interrompeu.

“Você já não sabia disso?”

“Claro, mas nas palavras dele é outra coisa.”

“E como você vai fazer?”

“Surpresa!”, sorriu.

“E se alguém encontra você, Ana?”

Não encontra, não, Vera, e a cidade é pequena; as estradas, escuras. Quem sabe como um cachorro quente na Serra?, sorriu de novo após a sugestão.

“Você é louca.”

“Nada disso, prefiro que você diga que eu sei aproveitar a vida.”

“Talvez, mas eu não aceitaria sair nua por aí. Ele sabe ou é surpresa?”

“Sabe, foi ele quem pediu”.

“Cuidado, Ana. Se ele te larga pelada por aí?”

“Se isso acontecer, é ele quem sai perdendo”, ela deu uma imensa gargalhada e comeu o último biscoito.

terça-feira, outubro 06, 2015

E eu que queria chegar em casa peladinha

Aquela estrada. Meu desejo crescia quando passava por ela.

Ai, gemi.

O quê?, ele quis saber.

Nada, sussurrei.

Cruzei as pernas, o vestido a me escapar. Continuou dirigindo. Apenas nosso carro, faróis cortando a escuridão. Jorge sabia o que significava meus ais. Mas esse namoradinho era inexperiente, acho que cortês demais, sua preocupação era guiar. Cheguei a pensar em pedir que parasse, diria que estava com vontade de fazer xixi, sairia e voltaria nua. Como ele reagiria?

Jorge que era bom, diferente. Mandava eu descer, tomava toda minha roupa. “Espera um pouco que já volto”. Mergulhava na escuridão, adiante. Eu, pra trás; ele cada vez menor, mais distante. Sumiam os faróis. Eu e à noite. Meu coração aos saltos, toda molhada. O gozo. Mas um gozo diferente. Voltava trinta minutos depois. Certa vez demorou uma hora, achei que não vinha. Acabei aprendendo a gostar das situações perigosas. Não podia contar ao namoradinho. Me chamaria de louca, masoquista. O desejo, porém, crescia. E como.

Para um pouco, vamos namorar, sugeri.

Nessa escuridão?, ele.

O que tem?, entra com o carro num atalho.

Tive de ensinar. Pronto, apenas nós e as estrelas. Ficamos a olhar um ao outro. Me puxou pra junto dele. Um beijo na boca. Mãos sob meu vestido.

Você quer transar aqui?, perguntou.

Hã hã, afirmei com cara de safadinha.

Tirou minha roupa.  Restou sutiã e calcinha.

Já cheguei em casa de sutiã calcinha, afirmei.

 Jura?, conta então como foi.

Você gosta de histórias, não? Conto, sim. Mas me tira primeiro a calcinha.

Atendeu. Depois deitou o banco e abriu a calça. Puxei o pinto. Dei uma mordidinha. Subi sobre ele, as pernas bem abertas. Me acertou de primeira.

Espera, viu, não goza não, sei que está gostoso e que você vai por um triz, mas vamos fazer bem demorado. E ainda tem a historinha...

A maioria dos homens são decepcionantes. E eu que queria chegar em casa peladinha!

quarta-feira, agosto 12, 2015

Fogo

A moça respirava modesta, calma. Já esperava que tal surpresa não tardaria. Arriscava-se com frequência e, ultimamente, vinha até mesmo exagerando. Por isso teve tempo de pensar, de examinar suas possibilidades, e a respiração era o que havia de mais importante, seria ela que lhe daria o prumo, a altivez, um sorriso ainda que distante e frio, um nada de mais à nudez às duas da manhã junto ao portão de entrada da própria casa. O homem, na verdade, foi quem demonstrou maior surpresa, uma espécie de susto e êxtase; a princípio, nada conseguiu dizer. Ela sentiu que viria uma pergunta, talvez quisesse saber se ela precisava de ajuda. A resposta, já pronta, seria o silêncio. Ninguém pede ajuda em silêncio. Talvez o pior fosse o correr dos segundos e dos minutos, porque depois do torpor inicial, depois daquela espécie de breve congelamento, o tal sujeito, antes estupefato, perderia pouco a pouco a rigidez e começaria a pensar. Aí então a ponta do iceberg, isto é, do perigo. Não se deve temer as atitudes das pessoas tomadas pela surpresa, mas das pessoas quando pensam. E quando derretesse o cascalho de gelo que cobria o homem, ela já não teria domínio sobre os acontecimentos. Era necessário que tudo se resolvesse em frações de segundos, caso não fosse possível, em meio minuto, daí em diante estaria nas mãos dele. Uma pasta escura a lhe lambuzar o corpo. Não tinha nada pra dizer e sabia que não devia desculpas, pois nada fizera de mal que exigisse tal pedido. O homem, porém, era um homem, da espécie mais masculina, um macho como um cavalo ou mesmo um touro, e para essas espécies as palavras não servem. Talvez ele achasse que teve sorte, que algo caiu do céu a seu favor, era um bem aventurado. E isso tudo sem formulação alguma, nada de conceitos, apenas a pele como entendimento. Despejaria sua macheza assim como despeja as fezes ou a urina, assim como almoça e não precisa saber o nome do prato. Ela era uma estátua que esperava o movimento da casa, mas a casa era escura, quase inabitada e, quem sabe, ela poderia ser tomada por uma ladra que age sem deixar rastros, sem precisar de roupas que soltem fios de algodão e lhe revelem. Virou de frente, encarou o desconhecido. Ele chegou mais perto, cobriu a luz que vinha da rua com seu corpo imenso. A sombra dele subiu pelo ventre de Aparecida. O que houve, moça?, ele não falou mas ela podia ouvir, era o torpor que ainda o cobria. Não merecia resposta. Impávida, as mãos estendidas lateralmente e a expressão de que o nu era ele. Olhe sempre numa direção indefinida, assim nada será presente, ela lembrou um ensinamento básico. O que houve, moça?, repetia a voz inexistente. Ante o silêncio da casa, ante os ruídos longínquos da estrada, ela diria não estamos sós. A resposta o desarmaria por trinta segundos intermináveis, ela tinha certeza. O que tem estar ou não a sós?, ele desejaria saber. Ela moveria os ombros, como se dissesse nada, não tem nada. Você vem comigo, ele sugeriu numa meia ordem, estou lhe oferecendo ajuda. Tirou o paletó e o estendeu diante dela, ocultando a si o corpo da mulher. Mas ela meneou a cabeça em negativa, não precisava de paletós, assim como ele nada podia ofertar a ela, nenhuma ajuda, ninguém na verdade precisa de ajuda, ela chegou a dizer. Ele a empurrou em direção ao pequeno muro. Ela não teve como contrapor, apenas a parede gelada a lhe apalpar as nádegas. Aparecida não queria perder o carteado. Vamos, ligeiro, enquanto há sombra, ela acrescentou. Sempre há uma saída. O homem ocupou todo o espaço, não queria deixar a noite em aberto. E ela sabia dos riscos desde o começo, sabia também que a altivez era um modo de resistência, não podia recuar. Aparecida mostrou os olhos grandes pela primeira vez, encarou o homem com olhos enormes, assustou-o. Venha cá, não fuja, não sou louca. Ele tremeu ante a palavra louca, chegou a retroceder dois passos. Volte aqui, era ela agora quem ordenava. Ou você se abre ou se deixa queimar, tanto é o fogo, disse a si mesma. Reparou, então, que estava só.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Cabia na palma da mão

O tempo que durou sua ida ao toalete e a volta à mesa, onde Oswaldo a esperava, Janete pôs em ordem os acontecimentos passados e recentes. Embora o tempo fosse curto, o jorro de pensamentos que lhe afluía à mente era suficiente para recuperar histórias extensas, que preencheriam pelo menos um volume de romance. Chegara ao restaurante no final da tarde; Oswaldo já a esperava. Os dois haviam vivido juntos fazia alguns anos. Talvez por falta de reflexão tivessem terminado o relacionamento. Ele, de outra cidade, vinha ao seu encontro assim que o trabalho permitia. O problema talvez fosse esse. Como ter alguém de tão longe, que podia acompanhá-la apenas nos momentos que lhe sobravam? Durara três anos o namoro, ou o casamento. Cada um que o defina à sua maneira. Sabia que o homem ainda a amava, ou ao menos a desejava. Sempre recebia convites para um café, um jantar, ou uma cerveja, que ela não tomava porque preferia suco. Oswaldo mantinha na mente a imagem de Janete. A mulher nua que descera ao primeiro andar apenas por molecagem. Batera à porta para que ele a recebesse e sentisse seu corpo quente. Dera certo. O ardil o capturara; ele sempre lembrava o fato. Houvera outras ações, sempre protagonizadas por ela, estrela rubra que incendiava a relação. A ação de sair nua se repetira. Acontecera de outra vez no automóvel, madrugada fria. Pediu que ele parasse no acostamento, quis sair, apenas a pulseira e a sandália meio salto. Caminhou à beira da estrada durante um bom quarto de hora, perdeu-se num bosque. O homem enfeitiçou-se com tal atitude. E que homem escaparia? Além de enfeitiçado ele já se mostrava apaixonado. Numa das vezes em que terminaram a noite na praia, após intenso jogo erótico, Janete pôs-se a correr nua pela areia; na volta a casa – uma casa de vila – ela ainda quis manter-se em pele. Oswaldo, então, surpreendeu-a. Correu para casa com toda a roupa de Janete sob o braço. Ela, ainda no banco do carona, calculou a distância que precisaria caminhar, vinte ou trinta metros sob céu aberto, até a porta de casa. E havia o vizinho que acordava cedo. Mas Janete não se atemorizou. Descobriu uma camiseta esquecida no banco de trás. Vestiu-a. Jamais um vestido tão curto. Caminhou altiva, cumprimentou o vizinho e bateu à porta de casa. O namorado, que morria de tesão, demorou a abrir. E que trepada naquele fim de madrugada. Houve uma vez em que contara tais sucessos a uma amiga. Talvez o único erro que cometera. Não se deve falar sobre essas coisas nem à melhor amiga. A tal mulher foi atrás de Oswaldo, quis para si também os sucessos. E, como acontece a todo homem, ele não deixou passar em branco. A mulher imitou-a até no episódio da praia, em Rio das Ostras. Aceitou tomar banho nua. Entrou na água com Oswaldo, tirou o biquíni e o entregou nas mãos dele. Mas, ao contrário de Janete, pediu que ele fosse embora, que encontrasse com ela somente no dia seguinte, em M. Ele atendeu-lhe o pedido. No dia seguinte ela contou a Janete, e ainda pediu que procurasse o biquíni levado por Oswaldo. Isso azedou o relacionamento entre Oswaldo e Janete. Ele ainda procurou pela mulher que deixara nua na praia, quis saber o que aconteceu depois que foi embora. Ela jamais contou. Essa atitude atraiu ainda mais o homem. Os homens são bobos, deixam-se levar por fantasias passageiras, pensou Janete. O que fazer depois disso? Afastaram-se. E sua amiga, ao mesmo tempo, afastou-se de Oswaldo, foi perder a roupa para outro homem, como soube depois. Janete ainda não voltara do toalete. As imagens em sua mente eram vivas, todo um passado em cinco ou dez minutos. Do que são capazes as imagens, pensava. O reencontro com ele já durava três meses. Mas ela já estava casada com outro. Conhecera-o num desses sítios de relacionamento, e ele logo viera dividir com ela a mesma casa. Contou a Oswaldo sobre o homem. Sobre o novo relacionamento. Mas havia um ponto sobre o qual deveria ter calado. Oh, ela sempre falara demais. Tratava-se de sua intimidade. Contara que não mantinha relações sexuais com o novo marido. E era verdade. Apenas amizade. A iniciativa fora do homem, pois ele disse sofrer de certa doença. Como conseguia viver com uma pessoa sem usufruir o principal do amor?, Oswaldo quis saber. E logo ela, tão fogosa, a desfilar nua pela cidade, tão quente no amor, tanto o ardor, a ponto de contagiar as amigas. Os tempos mudam, contra-argumentou Janete. Hoje, estou satisfeita assim, acrescentou. Disse que o marido era boa pessoa. Todos gostam dele, mas é apenas uma companhia para mim, repetiu ainda uma vez. Usou o "apenas" com significado de tudo, seu dicionário particular. Oswaldo lembrou-lhe de alguns eventos que vivenciaram juntos no passado, como o abraço apertado que ela gostava de sentir; o sexo no automóvel, na praia, o dia que foi surpreendida dentro d’água, mas por uma mulher. Janete ardeu durante o jantar. Não queria, no entanto, dar o braço a torcer. Não queria falar mal do atual marido. Oswaldo teve a delicadeza de não dizer que ela enganava-se, apenas sorriu, olhou um pouco para cima, depois voltou os olhos até que um lampejo refletiu-se dos olhos de Janete. Então a ida ao toalete, a demora para voltar. Todo um filme na cabeça. Não o encontraria mais, decidiu ainda trancada no toalete. Reparou que estava com a calcinha na mão, como nos tempos de namoro com Oswaldo. Ele adorava Janete nua. Aliás, os homens adoram que as mulheres andem nuas. Os homens adoram mulheres com a calcinha nas mãos. Mas ela decidira, seria a última vez que os dois se encontravam. Melhor o marido, melhor a companhia. Não a fazia arder, não lhe provocava nenhum tipo de desequilíbrio. Ela não podia dizer o mesmo quando se via ao lado de Oswaldo, mesmo em imaginação. Não queria sair dali correndo, nem desejava se esconder num hotel com Oswaldo, retomar todo um passado posto por terra fazia tempo. Melhor a segurança do homem atual, seu sorriso, os favores que lhe prestava. Ah, quanto ao sexo... Oh, não pensaria sobre isso. Mas queria, ao mesmo tempo, que Oswaldo não a esquecesse. Afinal, as mulheres gostam de se sentirem lembradas. Voltou a Oswaldo, agradeceu-lhe o jantar, o encontro, mas precisava partir. Tinha um compromisso. Um presente, estendeu-lhe a mão. Pequenino o presente. Cabia na palma da mão. Sabia que ele aceitaria com gosto. Guardaria como relíquia, ou como um troféu, quem sabe. Afinal, uma lembrança. Nenhuma mulher gosta de ser esquecida.

quinta-feira, novembro 06, 2014

Do mesmo modo como me havia encontrado

Será que todas as pessoas que conhecemos têm alguma função na nossa vida? Quando já morriam minhas últimas esperanças – eram quase cinco da manhã –, ele chegou. Difícil usar o pronome “ele”, porque eu não sabia e nem cheguei a saber quem era. Mas como pude observar de pouco em pouco, tratava-se de alguém muito educado. Parou o automóvel e perguntou se eu precisava de algo. Não me feriu com os olhos, manteve a suavidade das pessoas de bom coração. Nem desconfiou que fosse uma armadilha. Não sirvo de isca, sei bem disso. Entre os inúmeros papéis que sei representar o de isca é o mais temerário. Acreditou na minha sinceridade. Entrei e sentei no banco ao seu lado. O homem deu a partida e manteve-se em silêncio por um bom tempo. Quando já seguíamos a rodovia, talvez dois ou três quilômetros à frente, foi que perguntou onde eu desejava ficar. Você acha que devo ficar em algum lugar?, falei e cruzei as pernas, a direita sobre a esquerda. Sempre se tem um destino, respondeu. Continuou seguindo, ainda estava escuro, os faróis delineavam a madrugada, que já não custava a se abrir à claridade da manhã. E então?, onde você mora?, ele quis saber. Disse o endereço. Mas não me leve agora, guie mais um pouco, cinco ou dez minutos, vou ligar a uma amiga. Ele assentiu ao meu pedido. Fiz a ligação. Mayra não demorou a atender. Contei em poucas frases a minha situação. Ela sugeriu que eu subisse para Lumiar. Mas não falei logo ao meu afável recém-conhecido. Ele teria de forçar o carro, desviar-se do caminho. Respondi apenas com um ok e desliguei. Tudo bem, disse a ele com a voz baixa, você já entendeu, acrescentei. Sim, sorriu e continuou olhando à estrada. Sabe em Casimiro, a entrada para o Sana?, perguntei. Sei, sorriu de novo. Você não vai precisar me levar até lá, alertei, logo na entrada está bom, depois me viro. Tem certeza?, interpôs. Bem, caso você queira subir um pouquinho... Mas não é para ir ao Sana, e também não é para lá que vou. Sua amiga mora na estrada?, sua voz soou sonora, ao longe já se via o céu avermelhar-se. Lumiar, foi a minha vez de sorrir, talvez um sorriso branquinho. É um pouquinho antes, ele assegurou. Isso, às vezes passo um fim de semana ou outro com ela, eu mostro onde me deixar, ela vem me pegar. O homem guiou até o local. Demoramos trinta minutos. Quando parou, já clareava. Tudo bem?, eu disse antes de abrir a porta. Ele olhou-me como alguém de bom caráter, no entanto uma ponta de decepção escorria de seus olhos, acho que gostou de mim. Como qualquer homem, não queria perder a oportunidade. Tudo, respondeu acentuando o sorriso. Beijei-o, peguei uma de suas mãos e a coloquei sobre minha coxa direita. Ele compreendeu o que eu quis dizer. Minha amiga ainda demoraria vinte ou trinta minutos, então?, insisti. Então, completou. Daí, aconteceu. Mas mantivemo-nos discretos. Só não conseguimos o beijo. No final, quando saí do carro, perguntou tenho uma camiseta na mala, que tal? Não precisa, minha amiga já vem, lancei-lhe um beijo de despedida, pode ir, não precisa se atrasar por minha causa. Ligou o carro, deu um adeusinho e se foi. Deixou-me, do mesmo modo como me havia encontrado. 

quarta-feira, julho 16, 2014

Descoberta nua

Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade. Sim, porque em estado de graça se era muito feliz. Carlos, o marido, a estimulara à primeira vez. Vá, sim, no começo vais sentir um friozinho no estômago, mas com o passar do tempo te acabarás acostumando, depois desejarás sempre mais, é a verdadeira sensação de liberdade. E ele tinha razão. Na primeira vez, ao sair na noite escura de Glicério, o céu e as estrelas sobre sua cabeça, o vento morno do verão já maduro a roçar-lhe o corpo como amante atrevido, ela parou durante alguns instantes e pensou em desistir, em correr de volta para dentro da casa. Mas o rio, que corria logo atrás do quintal, a saudava com uma espécie de voz suave, música sibilante ao saltar um obstáculo ou de tom mais grave ao dedilhar o limo das rochas milenares que lhe aparavam o caminho. Suas águas eram sempre as mesmas, pois sempre voltavam com as chuvas. Ela respirou fundo e se pôs avante, passou por entre as plantas dos fundos da casa, alisou um tronco e se viu à beira do rio. Você precisa saber, moro num lugar onde tem um rio que passa bem atrás da casa, durmo ouvindo as águas correrem, ela dissera a um amigo quando descera a M. O amigo sorrira, um dia vou até lá conferir, quero conhecer o seu rio, ele retrucara, como se quisesse beijá-la. Ela, porém, era casada, gostava do marido, não pretendia desapontá-lo. Ele, apesar de preguiçoso, descansado, isso era certo, tratava-a com intenso carinho. Enfim, gostava do afeto que ele lhe transmitia. Oh, Carlos, tomar banho nua no rio, mesmo à noite, não sei, acho que já passei da idade de cometer essas loucuras. O que há de mal nisso?, ele replicara, quando voltares para dentro de casa, teu corpo estará mais quente, propício ao amor prolongado. Vamos juntos, então, ela lhe sugerira. Uma mulher nua é bonito, mas um homem nu, tanto mais se banhando num rio, não há de ser tão agradável assim, ele lhe respondera. Não é agradável a você, mas a mim, e a todas as outras mulheres, não há de haver nada melhor. Ele sorrira. Ela, no entanto, saiu sozinha da casa. Ao tocar as águas que corriam, sentiu, de repente, certa friagem. Não calculava que a água estivesse tão gelada. E se adoecesse? Ninguém adoecia no verão, mesmo nua à noite. O ar estava quente, o pulmão respirava uma aragem confortável e pura, apenas a pele é que se arrepiava com a temperatura baixa da água. E sabia que, logo, quando estivesse com o corpo todo dentro d’água, acostumar-se-ia. Seu corpo sempre fora quente, capaz de transmitir certo calor a quem estivesse próximo, até mesmo certo desejo. Por isso, não lhe era difícil arranjar namorados. Se quisesse, poderia ter vários, todos loucos por deixá-la nua. Mas Carlos a queria nua a céu aberto. E lá estava ela agora, despira-se pelas próprias mãos, acatara o conselho do marido de sair nua de casa, de caminhar até a beira do rio e de banhar-se nele. Ele dissera-lhe que ela descobriria novas sensações. Mas, será que apareceria alguém? Nunca ouvira sons humanos nos arredores da casa. Apenas o coaxar de algum sapo, o uivo de um cão distante, ruídos de animais de nomes desconhecidos a ela. Agachada dentro d’água, o corpo, já quente, vencera a temperatura fria da água corrente. Começou a sentir intenso prazer, o prazer que o marido lhe anunciara. Quem sabe, com o auxílio das mãos... não, não era partidária de gozar tocando-se, do amor autossuficiente, naquele momento não precisava das mãos, o gozo vinha natural. Será que estava traindo Carlos? Não era possível. E fora ele que sugerira a boa nova. Ao voltar para casa, ele estaria esperando por ela, estaria ansioso para que ela descrevesse todas as sensações. E eram muitas. Acometia-lhe uma espécie de gozo, um prazer interminável, que a fazia demorar-se mais e mais, a não querer deixar as águas. Mais tarde, quando deixou a margem próxima aos fundos de sua casa, ela, instintivamente, cobriu os seios com o braço direito, reparou as gotículas sobre a pele, sobre os poucos pelos do mesmo braço. A outra mão lhe ia também pregada ao corpo, mais precisamente à altura do umbigo, ou entre o umbigo e o púbis. Chegou à porta e torceu a maçaneta. Temeu encontrá-la trancada. O que faria se não conseguisse abrir a porta? Talvez o marido quisesse lhe pregar uma peça e a deixasse pelada do lado de fora, ou mesmo a fizesse aguardar por algum tempo até ele vir abrir para, a seguir, abraçá-la. Talvez tivesse de voltar ao rio, ocultar-se até o pescoço dentro d’água. Mas haveria o amanhecer. E alguém a descobrir uma cabeça nua com o corpo vestido pelas águas que corriam ligeiras, fugidias... Mas torceu a maçaneta e a porta abriu. Tudo dentro de casa estava silencioso, silencioso e escuro. Não sabia quanto tempo passara desde o momento em que saíra para ir ao rio e aquele momento em que estava de volta. Não encontrou o marido, a princípio. Sentou-se numa das poltronas e cruzou as pernas. Passou a fazer parte das sombras da noite. Após quinze minutos, foi ao quarto. O marido estava deitado, dormia, dormia o sono dos justos. Pois trabalhara o dia inteiro, trabalhara duro. Não pôde esperar por ela. Não havia problema. Deixaria o amor com Carlos para o dia seguinte. Caminhou até o banheiro e tirou a terra dos pés com uma toalha de banho. Verificou se estava toda limpa, incólume. Deitou, então, ao lado dele, ainda nua. Esperaria. Que descansasse em paz. Esperaria o dia seguinte, e mais o outro dia, e mais outro além. Estava casada com o marido, é certo, fazia alguns anos, acostumara-se a ele, quase não ousava olhar homem desconhecido algum. Mas já não desprezaria as carícias das céleres águas do rio. Quem foi que disse que não se pode banhar duas vezes no mesmo rio? Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: poderia habituar-se à felicidade. E, habituar-se à felicidade, torná-la-ia mais egoísta.

domingo, abril 06, 2014

Será que ele volta?

Recebo um telefonema às três da madrugada. É um namoradinho de ocasião. Está acostumada a me convidar com investidas surpreendentes.

Está muito tarde, respondo.

Ou muito cedo, quem sabe, ele insiste.

Onde pretende me levar?

Adivinha?

Concordo que venha me buscar à porta de casa.

Está frio, falo quando chega.

Entro no carro e fecho a porta. Dou-lhe um beijo molhado.

Aonde vamos?, pergunto.

Ele dá a partida. Num primeiro momento, nada responde. Dirige dentro da madrugada silenciosa.

Vamos a um lugar bem escuro, quero você nua.

Não seria melhor dentro de casa, no calor do quarto?

Não, nada disso, prefiro o sabor da aventura.

Damos algumas voltas pela cidade. Na orla, a avenida principal está clara, ainda é possível encontrar os últimos empregados dos restaurantes. Olhamos o mar, que desliza com ondas uniformes sobre as areias da praia. No final, meu namorado dobra à direita e seguimos para a rodovia.

Tire a roupa, ele pede.

Mas assim?

Você já prometeu que ia ficar nua dentro do carro, lembra? Então, hoje é a oportunidade.

Mas está frio.

Fica apenas de casaco.

Tiro toda a roupa e a coloco no banco traseiro, menos o casaco. Visto-o novamente depois de tirar a blusa. Começo a sentir excitação. Ele, ainda dirigindo, me acaricia o ventre.

Sai da rodovia, entra por uma avenida lateral e segue até a rodovia estadual. Quando começa a trafegar nela, tudo está muito escuro, apenas os faróis do automóvel exploram o caminho por algumas dezenas de metros. Nas laterais, a vegetação e, vez ou outra, alguma névoa. Depois de guiar por um quarto de hora, para no acostamento e me abraça, me beija e pergunta:

Você teria coragem de descer?

Nua?, completo.

Isso.

Faço que sim com a cabeça. Sorrio. Contenta-me a aventura noturna.

Vamos fazer assim, diz, dou a partida, dirijo por mais dois ou três quilômetros, depois faço o retorno e volto pra pegar você, quando estiver na direção contrária venho com o alerta ligado. É o sinal de que me aproximo.

Faço de novo que sim com a cabeça, deixo que ele me dê um longo beijo na boca. Desço do carro, sempre tentando manter a elegância.

Será que ele volta?

Logo que entro ele reclina o banco do carona e vem por cima de mim. Abro as pernas. Meu corpo ainda traz o frio que faz do lado de fora. Há muito estou toda molhada. Não sei se de nervoso ou tesão. Ele me percorre o pescoço com a língua, me beija com ardor, seu pênis procura o meu sexo, o encontro é instintivo. Enquanto me penetra, grito de prazer, grito pelo encontro fortuito, grito por estar nua nos seus braços, ou numa rodovia, não sei; clamo pelo prazer do risco que corro, chamo seu nome como se procurasse por ele, como se não tivesse voltado e me deixado nua à beira da rodovia. Seu sexo agita-se dentro de mim, mergulha cada vez mais fundo, lateja, eleva-me às estrelas que ainda vejo através do para-brisa quando abro os olhos. Quero o momento eterno, momento de prazer máximo. Aperta meus peitos, sussurro, aperta. Ele obedece. Você adivinhou o meu desejo, falo ao mesmo tempo que procuro sua boca com meus lábios grossos, a boca úmida. Você sabe que eu quero sempre trepar, que quero ficar nua pra você... Arfo. O gozo se aproxima, mas não quero perdê-lo. Desejo que dure, que permaneça horas a fio, que vença os dias, que jamais acabe. Meu corpo todo treme. O ardor me sacode com impetuosidade. Quero sentir seu sexo no mais fundo do meu corpo, da minha alma. Vai, me esporra, me esporra agora, vai, grito, gemo, choro. Desejo-me nua por mais tempo, desejo que se vá de novo, que volte e tudo comece outra vez. Não quero o tempo a passar. Não quero o sol. Ardo para que a madrugada dure. Que dure a sombra, que a rosa permaneça em botão, que perdure a névoa e que eu goze mais uma, duas, três vezes, cada vez mais, e que ele me deixe pelada, que desapareça, que volte de novo e que tudo se repita até não mais pudermos, até que já não nos equilibremos sobre o fio tênue da razão...

E o frio, e eu pelada.

Será que ele volta?

sábado, dezembro 15, 2012

Arrepiada

No Arpoador, como a calçada é alta, o passeio forma um paredão em relação ao nível da areia da praia. Assim, à noite, aquele pedaço de areia torna-se um espaço quase privilegiado para casais que desejam namorar sem serem observados. Hoje, quase ninguém mais namora às escondidas, mas sempre há pessoas que gostam do risco, homens e mulheres que sentem imenso prazer em descer à praia de madrugada e ficar ali se agarrando. Revelei esse desejo ao meu namorado. Ele, no começo, achou perigoso. Porém, após eu insistir, acabou cedendo. E ficou morrendo de tesão quando eu, nua, o abracei, nas areias da praia.

“Você não tem medo de que apareça alguém?”, parecia nervoso.

“Não penso nisso, só quero o prazer.”

“Mas podemos ser presos. Já pensou, você nua na delegacia? Vai ser o maior escândalo.”

“Esquece isso, por favor. Agora, trepa comigo”, pedi.

Começamos a namorar. Ele pouco a pouco foi esquecendo o perigo, encostou-me no paredão, levantou-me e encaixou seu pênis entre as minhas coxas. O friozinho da noite contrabalançava ao ardor que eu emanava pelos poros. Fechei os olhos e também esqueci onde estava. Pedi em seguida que ele se deitasse e fui sobre ele, seu pênis sempre ereto.

Ouvíamos a explosão da arrebentação e o rugir do mar, que ia e vinha em espumas que deslizavam sobre a areia. Também era possível escutar o ruído dos automóveis que desciam a avenida.

Permanecemos enroscados um ao outro por quase uma hora. Depois que gozei, deitei-me sobre ele. Meu namorado forrara a areia com a própria camisa.

Embalamo-nos num sono leve e confortável. Quando demos pela hora, o céu parecia anunciar a manhã. Meu namorado antecipou-se:

“Vamos embora, já vai ficar claro.”

“Espera ainda um pouquinho”, pedi.

Abracei com força seu tórax e rolamos pela areia, quis que ele ficasse sobre mim.

“Já está tarde”, falou.

“Não te preocupa, só mais um pouquinho”, pedi.

Transamos mais uma vez. Quando acabamos, já era dia.

Então, anunciei:

“Vais ter de me levar pelada para casa.”

“Por quê?”

“Não reparaste que cheguei nua?”

“Lembro que, no carro, você estava vestida; mas quando chegamos aqui embaixo, não sei como você fez para aparecer nua.”

“Combinei com uma amiga, bobo. Pedi que ela levasse minhas roupas. Falei a ela: tenho um namoradinho novo, ele tem cara de que é capaz de resolver qualquer problema.”

Beijei sua boca. Ele me abraçou.

“Por que você não deixou suas roupas por perto?”, ele.

“Porque gozo em dobro correndo riscos.”

“Você é terrível, Mara. Vou ver o que posso fazer.”

Ainda sussurrei:

“Olha como estou arrepiadinha!”

quinta-feira, novembro 08, 2012

Você veio de maiô?

Eu queria mesmo era aproveitar a noite. E, como estava calor, sugeri a meu namorado: “que tal um banho de mar?” Ele apenas falou: “vinda de você, a proposta não me surpreende".

Sempre gostei de tomar banho de mar. À noite, então, nem se fala, me faz ficar toda arrepiada. Posso entrar nua no mar.

Descemos à areia no Remanso. Ele deixou o carro perto de um quiosque, havia algumas pessoas tomando cerveja e conversando. Peguei meu namorado pelo braço e fizemos o caminho inverso. Não queria ninguém nos vendo entrar pelo escurinho da praia.

Quando chegamos à beira, ele perguntou: “você veio de maiô?”

Sorri para ele, dei-lhe um beijo sobre uma das bochechas, levantei o vestido e o tirei pela cabeça. Pedi que o segurasse, corri, mas antes de entrar na água voltei e lhe entreguei também a calcinha. Achei melhor ir nua, minha fantasia predileta. E tão poucas vezes realizada.

Mergulhei. As pessoas de modo geral temem o mar à noite, acho que por causa da escuridão, ou mesmo porque pensam que podem ser atacadas por algum peixe maior. Mas não tenho esse temor. Os peixes se afastam quando sentem as pessoas próximas. Cortei várias ondas, o mar estava bravio. Cheguei a nadar até após a primeira arrebentação. Fiquei a flutuar naquele pedaço de mar. Sempre que alguma onda se levantava, eu me abaixava ou a cortava. Havia correnteza em direção ao oceano, sabia que para voltar precisaria esperar um pouco e contornar pelo lado esquerdo de onde eu estava. Embora a situação não fosse fácil – a água gelava-me todo o corpo –, a sensação era muito prazerosa. Meu corpo inteiramente nu furando as ondas era quase um gozo. O que me preocupou a partir de certo momento não foi o fato de o mar estar batendo ou de eu estar tomando banho de mar nua, mas o pressentimento de meu namorado, por não me poder ver, pensar que eu estivesse em dificuldades. Isso poderia levá-lo a dar o alarme. Então, algumas pessoas viriam me procurar. Comecei achar melhor voltar à praia. Como não conseguia nadar em linha reta devido à corrente, fiz um contorno que me custou uns quinze minutos. Ao ver que poderia chegar à areia, dei mais algumas braçadas e peguei uma onda, surf de peito. As pessoas não sabem como é gostoso praticar esse tipo de esporte, tanto mais pelada. Outro gozo. Quando senti meus pés tocarem o fundo, caminhei e saí d’água. Mas... Cadê meu namorado?

O local estava escuro, era possível perceber o pessoal no quiosque, lá longe, mas sobre as areias não havia ninguém. Agachei à espera. O vento frio me fustigava a pele. Como dentro d’água a sensação era de uma temperatura mais amena, tive vontade de voltar ao mar. Porém avistei alguém correndo em minha direção. No começo, temi. Quem sabe um desconhecido? As batidas de meu coração se aceleraram. O homem abraçou-me não se importando com o meu corpo molhado, beijou minha boca e depois falou: "sua fantasia é tomar banho de mar nua, a minha é transar com você nas areias da praia".

Deitou-me e subiu sobre o meu corpo. Depois de gozar duas vezes dentro d’água, quem iria negar que não era o momento? E, agora, com alguém dentro de mim.

"Tenho também minhas fantasias", sussurrou, "e uma delas sempre foi encontrar uma mulher nua na praia. Vou levar você pra minha casa", beijou-me e concluiu: "peladinha." 

sábado, dezembro 05, 2009

A natureza é nua

Quando morei em Estâncias do Vale, uma pequena cidade no noroeste do Rio, tive experiências fascinantes com a natureza. Minha casa ficava no meio de um bosque onde se podiam apreciar árvores diversas e acolhedoras. Sempre achei que há árvores que não desejam a proximidade de seres humanos. Mas, ao menos em relação a mim, elas se mostraram receptivas a partir do momento em que me estabeleci ali e passei a admirá-las. Ainda bem que minha casa ficava fora do perímetro urbano, e a residência mais próxima a mais ou menos quinhentos metros. Podia sair à vontade em qualquer hora do dia ou mesmo da noite que me sentia protegida por toda aquela exuberante natureza. O canto dos pássaros, os sons de animais de que eu nem mesmo sabia o nome não me intimidavam. Nada ali poderia me fazer mal. À noite, gostava de caminhar até um platô de onde eu observava todas as estrelas possíveis. Não havia luzes por perto, logo era mais escuro o céu e as estrelas brilhavam como diamantes. Não me lembro de, antes, ter apreciado um céu assim.

Quando chegou o verão, um vento morno soprava ao entardecer. Após as dez da noite, já se podia sentir a pele sendo acariciada por um sudoeste que vinha para nos arrepiar. Aí esquecia-se todo o calor do dia que findara para se mergulhar numa noite fresca, confortável.

Certo dia estava excitada. Não sabia o motivo. Meu peito arfava, queria sair, irmanar-me a toda aquela vegetação, acariciar o tronco das árvores, sentir o pulsar de suas seivas, recostar num arbusto que se mostraria irmão de uma mulher que não estava ali para destruí-lo nem tramar nada de mal contra ele. Na mesma noite, notei que me faltava algo. Observei mais acurada a natureza; tentava descobrir nela o que faltava em mim. Passeei por vários caminhos; andei sobre a relva; resvalei em árvores que até então não havia reparado; descobri a areia fofa das margens de um pequeno regato que eu escutava mas ainda não estivera com ele. Depois olhei de novo para o céu. Toda a imensidão desembocava numa confluência que é difícil traduzir em palavras. As palavras às vezes matam a experiência. Subitamente descobri o que me fazia diferente: a natureza é nua! Isso mesmo, nada a cobre, a não ser sua própria pele: cascas, folhas, resíduos diversos, frutos e flores. Descobri um galho que se sobressaía em uma árvore maior. Galho à meia-altura, convidativo a aparar as roupas de uma mulher que se embebia de um suco embriagador. Tirei toda a roupa. Que não era muita. Pendurei-a no galho saliente.

Passei então a andar entre as árvores, a fazer meu passeio noturno como vim ao mundo, exatamente como todo aquele bosque, com plantas, árvores pequenas e grandes, vegetação diversa, e pequenos bichos.

A natureza expõe sua beleza através de seus próprios traços; os homens e as mulheres convencionaram criar traços que vão além daqueles com os quais nasceram.

Depois de algum tempo, já não precisava do galho em que pendurara minhas roupas na primeira e na segunda vez. Saía nua de casa.

Então veio a estação das chuvas. Quis sentir a tempestade sobre a própria pele, quis viver a experiência das árvores maiores, que estão expostas ao tempo, que não têm onde se esconderem. A água escorria sobre meus cabelos, sobre meu corpo inteiro, até atingir a terra que alimenta todos nós. Observava os galhos maiores, os troncos úmidos, as folhas que jaziam já sem vida à sua volta. Tudo era amor e silêncio, cheiro de terra e vida que se acumulava.

Quando voltou o sol, saí nua em plena luz do dia. Fui mais longe do que nunca. Quando voltava reparei sons vizinhos, vozes estranhas ao local, ruídos que destoavam à natureza. Fiquei à espreita, procurei um tronco maior onde me abrigar. Escalei-o sôfrega. Protegi-me nos galhos mais altos. Nunca tinha subido numa árvore, mas percebi que aquela me ajudava. Eles passaram. Eram dois e traziam uma espingarda. Demoraram a partir. Apenas ao anoitecer pude sair do meu esconderijo. Então, já não se ouvia som humano. Perto de casa, recostei-me numa árvore que sempre me acarinhava, contei-lhe o sucedido.

Dali em diante, fiquei muito tempo sem sair nua. Ao mesmo tempo, tentei descobrir quem eram aqueles homens. O que pude saber é que não moravam na cidade nem em nenhum arraial próximo.

Quando tudo se tranqüilizou novamente, me expus como antes, agora em pleno júbilo, talvez devido ao desejo reprimido.

Foi aí que me descobriste. Nua! E eu morrendo de vergonha. Te aproximaste e pediste que eu não temesse, que tu já me espiavas de longa data e também querias viver a mesma aventura. Fingi acreditar, embora exigisse que tapasses os olhos para que eu escapasse incólume. Prometeste naquele momento que não me farias mal algum e que só tocarias meu corpo com minha permissão. Fiz-me afável, talvez tenha semeado algum tipo de esperança em teu coração.

Mas ao amanhecer do dia seguinte, antes que voltasses – porque eu sabia que voltarias –, parti. Deixei para trás minhas árvores, minhas flores, meu céu nunca antes visto. Concluí que minha vida era um sonho; que aos homens e às mulheres não é possível a mesma vida das árvores.

domingo, julho 20, 2008

Gotas d'água sobre meu corpo reluziam como pequenos diamantes

Quando na noite avançada a luz prateada do holofote me acertava em cheio, as gotas d’água sobre meu corpo reluziam como pequenos diamantes. Meu namorado achava a brincadeira excitante, e eu acabava por embarcar nas loucuras que ele inventava. Depois, já desligada a lâmpada, ele me abraçava e me possuía ali mesmo, sobre as areias da praia, com o marulhar a nos cantar o amor. Às vezes eu tremia de frio, tentava absorver o calor do seu corpo e ao mesmo tempo sonhava com algum pano comprido, algum tipo de veludo a me roçar a pele. Mas ele me deixava nua durante a maior parte do tempo. Tentava aquecer-me com a fricção do próprio corpo e me queria provar que eu esqueceria o frio à proximidade do orgasmo. Depois que gozávamos, eu, além do frio, sentia uma vergonha imensa, dizia então:

”Vai buscar minha canga, alguém ainda me encontra nua.”

Mas ele demorava e queria uma vez mais.

Encontrávamo-nos para essa aventura uma vez na semana.

“Por que não nos basta uma boa cama de hotel?”, eu perguntava.

“Assim é mais agradável, ao ar livre, e sob todos os riscos.”

“Mas está frio, ainda pego uma doença.”

“Se o tempo continuar assim, vamos a um lugar mais quente.”

Ele ia até o carro e vinha então com minha canga; depois de voltas e rodeios, como a amansar um touro bravio, envolvia-me e íamos jantar num restaurante rústico, onde a proprietária já nos conhecia. Discreta, ela nunca perguntou porque eu me vestia daquele jeito. Cada semana, pontuais, aparecíamos ali; e eu com um pano diferente a me cobrir o corpo. Talvez nos achasse veranistas loucos. Embora já fosse longe a estação do sol, continuávamos a nos divertir como se o verão, desatento, permanecesse. Apesar de eu reclamar, na verdade gostava das intempéries desse namorado extravagante.

Levava-me a algumas festas também exageradas. Aconteciam em apartamentos grandes, de inumeráveis salas e quartos, onde a música rápida girava nossos corpos. Havia salas, sempre às escuras ou sob tênues lâmpadas de abajures laterais, convidativas a contatos íntimos. Agarrávamo-nos então sobre estofados macios; poucas palavras e beijos de amantes demorados. Garçons jovens serviam-nos bebidas coloridas. Excitávamo-nos. As mulheres que freqüentavam tais festas não deixavam de mostrar-se extremadas. Além de parecerem amar em demasia seus homens, vestiam saias curtíssimas, tops mínimos. Certa noite quando fui ao banheiro, encontrei três jovens totalmente nuas. Diziam que sairiam assim para dançar; surpreenderiam seus pares. Perguntei se a dona da casa não se oporia à inteira nudez. Elas se entreolharam, riram e disseram que não tinham perguntado a ela. Uma propôs que tirassem apenas a calça de liga e fossem com aquelas blusas, vestidos curtos disfarçados, assim não assustariam os mais conservadores. E foram.

“Não nos acompanha? Tenho uma blusa que em você vai parecer um vestido lindo”, uma delas me ofereceu.

“Obrigada”, repliquei, “tenho andado nua o tempo todo.”

Riram e saíram as três. Uma esqueceu a calcinha sobre o pino da toalha. De propósito. E dançaram. Os homens com elas, cada vez mais enlouquecidos. Lá pelas tantas se enfiaram por outros cômodos. Discretas, namoravam. Agiam como se ainda trouxessem o arremedo de vestido, mas na verdade já os tinham perdido. As pequenas lâmpadas apagadas disfarçavam-lhes a nudez. Às vezes, seios se iluminavam furtivos, era a chama de um isqueiro que ia em direção ao cigarro a transbordar dos lábios de uma delas. Podia-se dançar inteiramente só e podia-se entregar a braços outros. Em certa noite escorreguei em mãos alheias. Meu namorado também ia em outra companhia. Um homem negro puxou-me junto a si, abocanhou-me os lábios. Permiti; no começo, um tanto medrosa, mas, em seguida, percebendo a penumbra, entreguei meu corpo pequeno a seu largo abraço. Após dançarmos uma ou duas músicas, levou-me para um canto. Ainda brilhava o abajur, mas ali éramos apenas os dois. Escorregou as mãos sob minha saia e me deixou nua.

“Você é muito grande para mim, vai me machucar”, sussurrei ao senti-lo.

“Não se preocupe”, revidou, “vou cuidar bem de você.”

E cuidou. Gozei como nunca; quis mais uma vez.

Quando a festa ia perto do fim, esforcei-me para não perdê-lo; queria algum meio de contato. Meu namorado, pelo que percebi, trazia um sorriso estampado. Vi quando uma morena piscou para ele. Ela usava um short curtíssimo, pensei até que estivesse de biquíni.

Dias depois encontrei meu homem negro. Levou-me para o melhor hotel da cidade. De novo, fez tudo na penumbra; e eu a senti-lo crescer dentro de mim, crescer até não poder mais. Mas com carinho, com esmero.

A estada com o amante foi apenas por três vezes; depois o perdi. Não havia apenas eu a desejá-lo.

Meu namorado continuou a envolver-me com suas surpresas. Eu atendia-lhe todos os desejos. E quando íamos àquelas festas, passei a fazer coro com as mulheres que queriam sair nuas do banheiro.

sexta-feira, abril 20, 2007

Amores físicos em tempo real

Hoje vamos à aventura em tempo real. Munida dos mais recentes avanços da tecnologia, tento viver experiências de amor físico e relatá-las ao mesmo tempo. O local é Copacabana. Apesar de a praia ser muito iluminada, há um trecho onde a areia é comprida e permite a quem fica próximo ao mar algum esconderijo. É bem ali, por contraditório que possa parecer, diante do Meridien. Vou daqui a pouco, em torno da uma da madrugada. Quero viver fantasias, correr riscos. Algumas amigas chamam-me louca; talvez o seja, ao menos em parte, quem sabe...
posted by Margarida57 at 12:03 am

Já estou no local que, como ensaiei, me deixa anônima. Os encontros já foram agendados; são três os candidatos; que tenham sorte e sucesso. É possível ver as pessoas que andam sobre o calçadão, mas creio que não conseguem avistar-me. Sobre o corpo, trago apenas ligeira canga, que também há de me servir de forro, pois não quero grãos de areia pregados a meu corpo. Desenrolo o pano e sento-me sobre. Vento fresco alisa-me a pele enquanto espero amante que não tarda. O marulhar suave embala-me em doce modorra. Céu de estrelas fugidias derrama luz azulada. Ao me aconchegar nas sombras, surpreende-me voz masculina. Boa noite. Boa noite, respondo; morango?, dou a senha. Com chantilly, ele devolve. É este. Transamos. Antes me unta o corpo com óleo que diz afrodisíaco, depois desliza a ponta dos dedos sobre meu ventre, acaricia-me os seios, morde meus lábios e não demora a penetrar-me. Sinto-o quente, vibrante. Ele demora sobre meu corpo, pulsa pesado e enfim despeja-me líquido de homem pleno, viril. Beija-me uma das faces, toca-me o queixo; quer me pagar. Não sou prostituta, transo por prazer, às vezes por amor. Ele se vai; antes pergunta por outro encontro, talvez num apartamento suntuoso. Digo que vou pensar; não sei, não é bom repetir. Agora espero o próximo, virá às duas e meia.
posted by Margarida57 at 1:01 am

À hora marcada, descortino um vulto. Não cumprimenta. Morango?, pergunto. Com chantilly. É ele. Apresenta-se violento. Atira-me sobre a areia. Pega-me pelo meio das pernas, estica meus poucos pêlos, morde-me um dos ombros. Vaca, me xinga. Quero rir, mas não consigo. Acerta-me tapa vigoroso. Dou a outra face. Salpica-me areia, penetra-me áspero, me arranha. Perco a pele, sou carne viva. Sinto que não demora a explodir. A violência, porém, arrebata-me. Quero acompanhá-lo; sou amazona que cavalga atrasada sobre potro bravio, percorro terreno pedregoso, penetro densas florestas, salto obstáculos, protejo-me de galhos salientes, de armadilhas ocultas; quando o alcanço, arremesso-me, assalto-lhe as rédeas, emano meu rastro sobre seu corpo luzidio, lava de mulher madura, raras e provisórias pérolas violáceas que logo se dissolvem em líquido prateado, rio caudaloso que reflete o gozo das estrelas. Depois de satisfeito, parte abrupto. Leva-me a canga. Ei, volte aqui, não foi esse o combinado. Combinado?, só o preço. Lança as notas e foge. Não faço sexo por dinheiro, tento dizer, mas ele não escuta; como surgiu, desaparece. Às três e meia tenho outro. Espero? Não tenho alternativa.
posted by Margarida57 at 2:37 am

Às três horas vejo aproximar-se um jovem; deve ter pouco mais de vinte anos. Boa noite. Boa noite, digo. Morango? Ele parece não entender. Você gosta de morango?, insisto. Oh, prefiro abacaxi. Tento me conter; trata-se de um visitante imprevisto. Você está nua, diz. Parece, tento ser natural. E o que você faz aqui, nua? É melhor você não saber, vá embora, caso contrário a coisa pode ficar feia para o seu lado. Feia, como?, quer saber. Não vou dizer, aqui não é o seu lugar, espero um homem terrível, e tenho de estar assim, pelada, se ele descobrir algum estranho a meu lado é capaz de matá-lo, por favor, vá embora, não quero que você corra riscos. Ele olha amedrontado, vira-se tentando descobrir alguém que lhe venha pelas costas. Ainda insisto: vá, saia, agora; e fique calado. Ele se afasta.
posted by Margarida57 at 3:02 am

Transo com o terceiro da noite após as identificações de praxe. Ele sua. Parece que o fato de me ter encontrado nua o tornou mais excitado. Nada comenta sobre os arranhões ou a vermelhidão de meu rosto. Escala-me e permanece longo tempo. Gostou de me encontrar melada e suja de areia. Faz movimentos lentos, parece estar cavalgando. Sorri. Depois que goza, escorrega. Acende um cigarro, chega a chama do isqueiro próxima à minha cabeça, arranja-me os cabelos em desalinho. Quer pagar, chega a tirar o dinheiro. Não aceito, transo por paixão à vida, às vezes por amor a algum homem. Do jeito que você está, vai precisar de algum dinheiro. Sou rica, respondo. Sorri. Peço-lhe a camisa. A camisa?, não posso. Não tenho outra; arremessa longe o cigarro e parte. Não sei se o assustei.
posted by Margarida57 at 3:47 am

A madrugada se esvai. Não tenho mais ninguém programado. Sinto frio o estômago. Como faço para ir embora? Não posso voltar para casa andando nua pelas ruas de Copa, nem correr em direção ao calçadão e gritar aos caminhantes que já esporádicos aparecem: meu reino por uma calcinha! O jeito é não me desesperar; já saí de situações piores. Respiro fundo, tento controlar-me, ainda tenho algum tempo.
posted by Margarida57 at 4:27 am

Eis que reaparece o garoto das três horas. Ei, diz, quero falar com você. Você de novo?, finjo surpreender-me. Ele já se foi, você espera mais alguém? Não, venha cá. Ele se aproxima e eu o abraço, beijo-lhe a boca; sinto sua temperatura alta, seu coração se acelera. Você quer namorar comigo? Quero, responde animado. Então venha. Excito-o, solto-lhe o cinto, tiro-lhe as calças e agarro seu pinto. Está mais do que duro. Brincamos, esfregamo-nos. Ele quer me penetrar a todo custo. Deixa eu botar, quero gozar, diz. Seguro seu membro com firmeza. Sinto que ele não demora a ejacular; prendo-lhe então a extremidade com o polegar e tapo-lhe o canal por onde jorrará o seu prazer. Não posso deixar que ele goze, caso isso aconteça estarei perdida. Você quer ter uma transa completa comigo?, pergunto melosa. Quero. Então vamos lá pra casa, faço o convite. Eu já estou quase gozando e com você assim, nua, fico ainda mais louco. Sou sua pelo tempo que você quiser, mas vamos lá pra casa; minhas palavras soam imperiosas. Concorda. Onde estão suas roupas?, pergunta. O gato comeu, digo e lhe mordo carinhosa o lábio inferior. Ele treme mais excitado e avança sobre meu corpo. Minha destemperança quase põe tudo a perder; tento equilibrá-lo, disfarço. Me empresta a camisa, vai, me empresta e vamos. Ele, enfim, atende. Estou salva. Vamos, amor, guarde sua excitação, digo já vestida enquanto espero que ele abotoe as calças; depois, levo-o pelo braço. Não demoramos. No horizonte, já é possível notar que o amanhecer, róseo, se anuncia.
posted by Margarida57 at 5:23 am

Em meu apartamento, tentei conter-lhe o ímpeto viril e pedi que me ajudasse no banho. Ensinei a ele como uma mulher deve ser acariciada, como torná-la ferina, como levá-la ao máximo delírio. Pedi que me percorresse a pele, que ajudasse na remoção dos grãos de areia e que cuidasse da vermelhidão de meu rosto. Depois lhe dei as costas, as nádegas à flor d'água, pedi que me massageasse. As partes que me ardiam foram pouco a pouco se tornando entradas vulneráveis, portais por onde trafegavam a sensação de bem-estar e gozo. Sobre a cama, ao desfazer-me de toalha rica em algodão, rolamos juntos; ele inteiramente nu recendendo a macho voraz; eu, exalando perfume original, embebida em seiva que me amenizava as feridas. Tateou-me então por entre as pernas e encontrou aquele filete sempre em carne viva. Mergulhamos em oceano vasto e profundo, povoado de peixes inomináveis, mar abundante em cores sutis, cortinas translúcidas possíveis a olhos de amantes e poetas. Quando partiu, deixou-me em sonhos de menina recatada.

Acordei apenas no meio da tarde. Sobre a mesinha, largou poema original: o nome, endereço e telefone.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Peixes

No verão de 99, aluguei uma casa no alto de Ponta Negra, em Natal. A localização permitia-me ver toda a extensão da praia, cerca de seis quilômetros, onde predominava apenas areia, mar, e o céu. Era possível apreciar, nas madrugadas, a partida silenciosa dos pescadores, homens que enfrentam o mar bravio em embarcações rústicas, frágeis; homens que seguram firme o leme enquanto o vento intrépido infla as velas. De madrugada eu descia e, escondida – não queria causar alarde ou mal-estar entre eles –, observava o momento em que começavam a deslizar os barcos desde a parte superior das areias até entrarem n'água e se atirarem, rudes, em busca do peixe de cada dia. Depois – apenas a pele morena, tingida pela luz impetuosa dos trópicos – descia sozinha e caminhava debaixo de uma noite quase sempre pesada em estrelas. Então eles já iam longe, mas não perdia de vista suas velas, e me impressionava o saltar constante e corajoso dos barcos contra vagas ricas em espumas. Para aqueles pescadores, o mar era razão de vida, talvez cometa azul em céu de desventura. Enquanto eu, turista de estação, tentava me familiarizar com o local e fazer dele minha morada natural; depois de algumas semanas, já me sentia parte dali, como se tivesse sempre vivido ante aquele mar bravio e sob céu que refletia namoros estelares na paisagem marinha. Andava então longa extensão de areia, respirava o ar úmido de sal, de mar. Envolvia-me o êxtase da estação quente, mas tépida à noite. Gostava de estar sozinha, em estado de total deleite. Era pérola que desprendia faíscas, diálogo luminoso entre astros prateados. Certa vez notei que uma das naus voltava antes do previsto. Quis correr, esconder-me, procurar arbusto que me cobrisse. Mas não há mal maior do que emboscada vil que nos surpreenda, lanterna invasora que nos revele nua. Permaneci estática, nem me dei ao luxo de recostar sobre a areia convidativa; o máximo que me permiti foi cobrir os seios, recurso ineficaz: como as águas de preamar, transbordavam fartos às minhas mãos exíguas. Embora a noite fosse clara, consegui permanecer envolta nas sombras. Dois homens, um deles parecia ser bem jovem, desembarcaram e empurraram o barco areia acima; depois, desprenderam as velas. Ouvi a voz do mais velho: "vá agora". O garoto ainda tentou algum argumento para permanecer ali, mas o outro impôs sua autoridade. O remanescente desembarcou os peixes e, por meio de uma grande faca, começou a limpá-los. Vi que era hábil. Abria a parte inferior, tirava as vísceras e as enterrava na areia; ia amontoando os peixes limpos em um cesto. Foi então que me chamou. Surpreendi-me. Voltei a ouvir sua voz; pedia para que me aproximasse. Obedeci. Mas ele continuou seu trabalho; a princípio, não me dirigiu o olhar. Após algum tempo a seu lado, estática, foi a vez de ele se por de pé; tirou então a camisa e a colocou em uma de minhas mãos. Vesti-a; estava úmida, cheirava a mar, mas sobretudo ao corpo de homem em constante movimento. Seu odor de suor, que poderia causar repugnância a pessoas mais sensíveis, deixou-me excitada; e não consegui esconder o que me acontecia. Talvez o mesmo prazer sintam as rosas no momento em que desabrocham. Disfarcei. Agachei-me e lhe pedi a faca. Pus-me a limpar-lhe os peixes. Assistia a tudo impávido, como se minha presença fosse algo natural, rotineiro. O tocar nos peixes deixou-me ainda mais ruborizada. Era o momento de união entre a ação do pescador, seu cheiro que se espalhava sobre meu corpo e o fruto de seu trabalho. Cortei o último em pequenos filetes; mordisquei um deles enquanto olhava o homem do mar. Ele voltou-se para o suporte de madeira. Peguei outro filete e lhe ofereci. Comemos juntos. O sabor era como licor em noite de fantasias; o calor me assaltava, minhas entranhas ardiam... Foi então que aconteceu. Uma de suas mãos tocou-me por sob a blusa e misturou-se ao mel do meu desejo. Amamo-nos com toda a rudeza dos navegantes que há muito desejam aportar...

Antes de partir, ainda lhe disse: "amanhã volto; quero lhe devolver a blusa".

quinta-feira, maio 25, 2006

Nua em Itaúna

Descubro o estreito túnel que me leva à sua porta. Ouço sons indecifráveis, vejo luzes abatidas em pequenos lilases, sinto ameaças veladas aos irregulares passos de meus pés. Não domino o arfar de meus pulmões. A penumbra que me oculta é frágil, pode partir-se a qualquer momento. Temo algo maior, talvez farol que se intercale a meu caminho, algo que dissipe a noite que me envolve e me lance contra muro ofuscado pela luz, a ponto de não me permitir esconderijo algum. Temo por minha total nudez revelada. O espaço que me separa de meu destino é fenda incerta e abstrata, que ora me aponta a direção, ora a desvia...

Tudo começou quando percebi aquele homem forte e saudável que estava hospedado em um dos chalés. Descobri-o só, em plenas férias de verão. As mulheres que também aproveitavam o mês de janeiro ali em Itaúna, naquela pequena pousada perto das dunas e do mar sempre agitado, tiveram, da mesma forma que eu, súbita excitação. Será que ele seria adepto do amor pelas mulheres? Era a pergunta que não deixavam de fazer, embora sempre sem a resposta desejada. Ele acordava cedo. Quem o espreitava, podia vê-lo saindo em direção à praia. Depois de cerca de trinta ou quarenta minutos, voltava gotejando água salgada, perfumado pela maresia, com os cabelos pretos molhados. Era hora de as pessoas irem ao café da manhã. A pousada não era grande, mas comportava bem uns doze pequenos chalés. No mais, havia o prédio principal, em que ficavam a administração e o restaurante; mais abaixo, num pequeno declive, havia a piscina, onde as pessoas se banhavam na maioria das vezes ao entardecer. Duas famílias com algumas crianças, rapazes com namoradas, ele - o homem desejado -, e, no mais, mulheres em grupo; por fim, eu, sozinha, em um dos pequenos chalés, que para mim não deixava de ser imenso; éramos todos os habitantes provisórios daquele lugar. Levara livros, CDs, tudo para um descanso de quinze dias, mas a chegada daquele desconhecido foi vento fugidio que, a princípio, levantou-me os véus para, em seguida, levá-los de forma irremediável. Cruzei com ele algumas vezes, ora na praia, ora no restaurante, ora na piscina. Voltou-me o olhar, porém, apenas uma vez e pareceu não demonstrar interesse.

Numa das tardes, encontrava-me à beira da piscina. Lia uma revista qualquer. Três mulheres, das que estavam em grupo, apareceram de repente. Vinham apenas de biquíni. Voltavam da praia e, pelo modo extravagante como se comportavam, pareciam ter se excedido na bebida. Uma, inclusive, se mostrava ligeiramente trôpega. Duas delas, talvez devido à caminhada pelas dunas, logo se sentaram em cadeiras reclinadas, no lado contrário ao que eu estava, enquanto a mais alegre, ou mais bêbada, abriu o chuveiro e tomou um rápido banho; tinha a intenção de livrar o corpo da água salgada; em seguida, mergulhou na piscina. Após alguns minutos os olhares delas, surpresos, se voltaram para o pequeno portão gradeado que ficava à entrada do caminho que vinha dar ali. Era ele que se aproximava. O homem só, desejado por todas, inclusive por mim. Cumprimentou-nos respeitosamente e tencionava seguir em frente, em direção talvez a seu aposento. Elas entreolharam-se; a que se encontrava dentro d'água não deixou de emitir algum tipo de gracejo. Fiz como se nada tivesse acontecendo, continuei minha leitura. Ele parou. Pareceu entender o que ela tanto desejava. Então, para romper o embaraço, ouviu-se a voz de uma delas: " você joga cartas?". Ele assentiu. Elas imediatamente o convidaram e combinaram jogo para depois do jantar. Sueli, assim chamava-se a que nadava, convidou-o para entrar na água. Num primeiro momento, ele hesitou, mas, depois, dirigiu-se ao chuveiro, tirou do corpo a água salgada e a areia que trazia nas pernas; em seguida mergulhou. Enquanto as duas, que permaneciam nas espreguiçadeiras, entreolharam-se indagativas, a da piscina aproximou-se quando ele voltou à tona. Eu fingia ler a revista, tentava demonstrar pouco interesse, mas vez ou outra, de soslaio, olhava para dentro d'água. Estabeleceram algum tipo de conversa. Ele percebeu que a mulher não estava em seu estado normal. Mexia-se muito, falava mais alto e o agarrava pelos braços a todo momento. Súbito, ouvimos a voz dela: "já sei que vou perder, jogo cartas muito mal, é melhor nos distrairmos com outra coisa". Ela já estava quase agarrada a ele, mas, de modo inesperado, soltou-se e mergulhou fazendo barulho e espirrando água. Quando reapareceu, a água escorria pelo seus cabelos pretos e, no contra-fluxo dos raios de sol do entardecer, o rosto dela espelhou alguma beleza. Creio que tal detalhe não passou despercebido a ele. Numa fala um tanto tresloucada, Sueli deu prosseguimento: "se jogarmos a valer, vou perder mesmo, então vou lhe pagar agora". As duas amigas se entreolharam novamente; esperavam um gesto louco daquela que era a mais atirada. Num movimento rápido, soltou os laçarotes do biquíni e o entregou nas mãos do homem com as seguintes palavras: "toma, fica de presente para você, pagamento, já que vou perder no jogo de cartas". O homem olhou para mim um tanto embaraçado, sem saber o que fazer. A única coisa que conseguiu proferir foi: " é melhor você cuidar da sua amiga". Olhei na direção das outras duas que, vendo meu constrangimento e percebendo que eu nada tinha a ver com aquela situação, se precipitaram dentro da água em socorro à mulher nua. Vestiram-na, pediram desculpas e a levaram para dentro. Prometeram que, se ela estivesse melhor, apareceriam para jogar cartas. Também me convidaram.

O jogo de cartas transcorreu dentro da normalidade. Acabáramos de jantar e sentamo-nos a uma das mesas da sala que antecedia o restaurante. Sueli, a nua da piscina, chegou atrasada, mas misturou-se ao grupo e participou das partidas; agia como se nada tivesse acontecido. Nenhuma das amigas tampouco referiu-se ao episódio. Como éramos cinco, revezávamo-nos nas parcerias. Quando formei dupla com ele, sempre que colocava a dama em jogo lançava-lhe olhar desafiador. Não sei se queria muito, mas o que pretendia era que ele me percebesse a lançar-me, também nua, mas de forma mais discreta; senha de encontro tardio. Com o correr das horas, para não incomodarmos o silêncio local, alguém sugeriu que continuássemos as partidas no aposento das mulheres. Houve consenso, apenas eu não quis continuar. Aleguei cansaço. As outras lamentaram, mas não insistiram. Enfim, todas, em companhia do amigo recente, dirigiram-se ao novo local, enquanto eu retornei ao meu chalé.

Abri uma das janelas e procurei entre as árvores distinguir o mar lá embaixo. Respirei fundo. Ar morno misturado com maresia invadiu meus pulmões provocando-me enorme excitação. O coração bateu mais acelerado. Uma energia repentina tomou-me. Senti vontade de descer as dunas e caminhar à beira-mar. Não pensei duas vezes, do jeito que estava, saí. Encostei a porta e desci a rampa.

Não tardou e eu já caminhava com os pés dentro d'água. O mar rugia ora ameaçador ora arrefecido. Espuma clara e ligeira tocava-me as pernas e se dissipava, como que tragada pelas areias brancas. As águas mornas em braços espessos me acariciavam vez ou outra as coxas; respingos prateavam-me a pele e a pouca roupa. O céu coberto de estrelas destacava-se na noite de poucas luzes. Na praia, não havia viva alma. Até que não resisti. Não perderia um banho noturno, acompanhada apenas pela paisagem anterior à nossa chegada, à chegada do primeiro humano. Ouvia e sentia na pele o vento sedutor, sopro quente bafejando a expansão marinha nos extremos limites de meu corpo, ardendo-me o desejo. Despi-me. Larguei as roupas, livres, sobre a areia. Depois mergulhei e me pus - sempre nadei bem - em direção às ondas. Apesar da iluminação precária das estrelas, entendia-me bem na sombra noturna e na bruma natural. Nadei até onde pôde meu fôlego. Sentia o mar envolver-me como homem vigoroso que me acarinhava, começando com sutilezas e indo até ponto mais íngreme. Minha pele deslizava pelas águas escuras que poriam medo a qualquer das criaturas, mas a mim era seio natural, berço protetor. Eu era sereia impossível de se perder na vastidão do mar, sentia-me em morada original, que atingia as barras do infinito. Procurava estar sensível ao roçar das águas sobre meu corpo, sobre meus poucos pêlos, sobre meus cabelos. Então compreendi como as criaturas marinhas são prenhes de gozo e jamais abandonam o mar. Meu corpo era termômetro natural, sensível à mínima nuança de frio e calor. Águas geladas que me passavam entre as pernas alternavam-se com águas quentes, provocando-me excitação e me levando a gozo irrefreável, a gozo quase que sem fim. Extasiada, lamentei que, em breve, as sombras se dissipariam, e não poderia, nua, atrasar-me no retorno.

Quando de volta subi a rampa e penetrei nos domínios da habitação humana, reparei que todos dormiam. Ruídos, somente os de pequenos bichos noturnos e, ao longe, ainda o rugir do mar. Não parei à minha porta, desejava porta alheia. Sentia que era o momento. Encostei-me junto a seu chalé. Minha respiração era ofegante, meu coração ia aos saltos. O corpo ainda molhado, o cabelo respingando. As roupas? Deixara-as de propósito na praia. Agora já teriam sido levadas pela maré que subia. A mesma que me empurrava na direção do primeiro homem. Permaneci junto à porta. Talvez não soubesse ir além. Esperava.

Deságuo, ligeiro córrego a recender odor de rosas, à saída do estreito túnel que me leva à sua porta...

Não precisei bater...