Senti saudades do meu amigo, enviei uma mensagem. Ele logo respondeu. Pedi desculpas, porque na última vez em que nos falamos eu o ofendi. Não estava bem naquele dia, por isso a tal ofensa. Mas ele pareceu não ter ficado aborrecido. Os homens gostam das mulheres, acabam perdoando tudo de errado que fazemos. Até mesmo uma escapadinha, caso descubram. Ele não é diferente. Me remexo na cama, estou nua sob o lençol, as coxas grossas roçando uma à outra. Penso nos dias de namoro que tivemos. É preciso dizer que já não somos namorados, depois de terminarmos continuamos amigos. Coisa difícil entre os casais. Contei a ele sobre meu novo homem. Escutou com paciência e curiosidade. Como você o conheceu?, quis saber. Ah, uma história rocambolesca, arrisquei; sabe esses sites de relacionamentos amorosos?, então, descobri um ainda mais saliente (aliás, adoro a palavra), um local onde se pergunta se a gente quer trepar com alguém das proximidades. Ele escutava, passivo, mas deixou escapar um ligeiro som de riso. Fui resumindo. Marquei com um homem que apareceu de primeira. Quem sabe é alguém daqui de perto, vou passar a maior vergonha. Porém, o homem não era conhecido. Disse que morava no Miramar. Como é um bairro familiar, fui à casa dele. Me esperava contente, com uma jarra de refresco e uns biscoitinhos. Acho que me apaixonei por ele por causa do lanchinho. Como estava constrangida (como dizer que não tinha experiência no tal tipo de encontro, ele iria acreditar?), tentou facilitar as coisas. O encontro foi à tarde, achei melhor, seria mais seguro. Não sei por que a luz do dia me passa a impressão de que não me acontecerá nada de mal, mesmo nos braços e na casa de um desconhecido. Ah, estou morrendo de vergonha, cheguei a dizer. Não faz mal, respondeu o homem. Ficamos conversando, apenas, nada de sexo no primeiro dia. Na semana seguinte, ele apareceu lá em casa, uma quinta feira, depois das nove da noite. Então, foi uma festa. Acabamos namorados. Você não vai me trair neste site, vai?, ele não cansa de me perguntar. Não, foi minha primeira e última vez, sempre insisto. Será que acreditou mesmo? Há homens que nos acham traiçoeiras, como as personagens ardilosas dos romances de literatura. Meu amigo gostou da história, no final perguntou: ele não tem compromisso com outra mulher? Não perguntei, eu disse; mas do modo que aparece aqui em casa, sem preocupação alguma, dormimos juntos dias de semana ou de sábado pra domingo, acho que não tem outra, não. Meu amigo é malicioso, quando me namorou ficava tentando descobrir se eu dava alguma escapada. Certa vez fui a Cabro Frio com uma amiga, ela tinha um encontro lá e não queria ir sozinha. Ele soube e ficou desconfiado, principalmente depois que dei uma sumida de dois dias. Mas agora ele escutava, e parecia se divertir. Você é muito foguenta, não fica sem namorado, disse, é muito diferente de tua irmã. Ele tem razão, estou sempre com alguém. Não cometeu a indelicadeza de dizer que adoro andar nua, e que já tentei de tudo nas areias de Cavaleiros, tantos os paqueras. Depois de um tempo, resolvi ir à praia em outra cidade, aqui fico mal falada. Senti uma coceira outro dia, ao olhar de novo o site de relacionamentos, pensei que tal uma escapadela, mesmo que seja apenas pra conversar? Não, disse a mim mesma, intranquila, se caio nas mãos de meu namorado, ele andando também por lá para se divertir! Talvez eu ache o maior barato, mas ele vai dizer que sou uma boa duma piranha... Esse último pensamento não contei a meu amigo. Mas do jeito que sabe sobre mim, é capaz de imaginar a cena. Na época do namoro, conversávamos tarde da noite pelo telefone. Como eu vivia de bicicleta pela cidade, ele me pedia monte e venha pra cá agora; se não estiver vestida, aproveite a oportunidade e venha nua. Uma quentura entre as pernas, o selim da bicicleta.
segunda-feira, outubro 11, 2021
quarta-feira, agosto 10, 2016
Você quer que eu fique nua pra você?
Eu o conhecera já fazia duas ou três semanas, ele viera trabalhar na cidade, na verdade um lugarejo, mas que tinha instalações para exploração de petróleo em alto mar. Passamos a nos encontrar quase todos os dias, frequentamos o principal restaurante, que ficava na orla marítima. Ele atendeu ao meu pedido. Ensinei o caminho e fomos a um hotel na cidade vizinha.
Durante o tempo em que ele permaneceu na minha cidade, ficamos juntos. Levei-o uma ou duas vezes pra casa. Mas não quis que virasse costume. Como nesse tipo de lugar quase todos se conhecem, logo começa o falatório, e eu não estava a fim de ouvir bobagens. Sabia que ele não ficaria pra sempre, o trabalho dele não permitia, eu tinha consciência também de que quando ele partisse seria muito difícil encontrá-lo de novo. Nos seus últimos dias, resolvi fazer algo marcante, algo que me tornaria inesquecível a ele.
Ah, meu namoradinho que me deixou nua, tomara que um dia desses você apareça de novo por aqui.
sexta-feira, janeiro 29, 2016
Le Match
“Você vai de casaco e de biquíni”, insistiu.
terça-feira, dezembro 08, 2015
Chá e biscoitos
terça-feira, outubro 06, 2015
E eu que queria chegar em casa peladinha
Ai, gemi.
quarta-feira, agosto 12, 2015
Fogo
quinta-feira, janeiro 15, 2015
Cabia na palma da mão
quinta-feira, novembro 06, 2014
Do mesmo modo como me havia encontrado
quarta-feira, julho 16, 2014
Descoberta nua
domingo, abril 06, 2014
Será que ele volta?
Será que ele volta?
sábado, dezembro 15, 2012
Arrepiada
“Por que você não deixou suas roupas por perto?”, ele.
“Porque gozo em dobro correndo riscos.”
“Você é terrível, Mara. Vou ver o que posso fazer.”
quinta-feira, novembro 08, 2012
Você veio de maiô?
Sempre gostei de tomar banho de mar. À noite, então, nem se fala, me faz ficar toda arrepiada. Posso entrar nua no mar.
Descemos à areia no Remanso. Ele deixou o carro perto de um quiosque, havia algumas pessoas tomando cerveja e conversando. Peguei meu namorado pelo braço e fizemos o caminho inverso. Não queria ninguém nos vendo entrar pelo escurinho da praia.
Quando chegamos à beira, ele perguntou: “você veio de maiô?”
Sorri para ele, dei-lhe um beijo sobre uma das bochechas, levantei o vestido e o tirei pela cabeça. Pedi que o segurasse, corri, mas antes de entrar na água voltei e lhe entreguei também a calcinha. Achei melhor ir nua, minha fantasia predileta. E tão poucas vezes realizada.
Mergulhei. As pessoas de modo geral temem o mar à noite, acho que por causa da escuridão, ou mesmo porque pensam que podem ser atacadas por algum peixe maior. Mas não tenho esse temor. Os peixes se afastam quando sentem as pessoas próximas. Cortei várias ondas, o mar estava bravio. Cheguei a nadar até após a primeira arrebentação. Fiquei a flutuar naquele pedaço de mar. Sempre que alguma onda se levantava, eu me abaixava ou a cortava. Havia correnteza em direção ao oceano, sabia que para voltar precisaria esperar um pouco e contornar pelo lado esquerdo de onde eu estava. Embora a situação não fosse fácil – a água gelava-me todo o corpo –, a sensação era muito prazerosa. Meu corpo inteiramente nu furando as ondas era quase um gozo. O que me preocupou a partir de certo momento não foi o fato de o mar estar batendo ou de eu estar tomando banho de mar nua, mas o pressentimento de meu namorado, por não me poder ver, pensar que eu estivesse em dificuldades. Isso poderia levá-lo a dar o alarme. Então, algumas pessoas viriam me procurar. Comecei achar melhor voltar à praia. Como não conseguia nadar em linha reta devido à corrente, fiz um contorno que me custou uns quinze minutos. Ao ver que poderia chegar à areia, dei mais algumas braçadas e peguei uma onda, surf de peito. As pessoas não sabem como é gostoso praticar esse tipo de esporte, tanto mais pelada. Outro gozo. Quando senti meus pés tocarem o fundo, caminhei e saí d’água. Mas... Cadê meu namorado?
O local estava escuro, era possível perceber o pessoal no quiosque, lá longe, mas sobre as areias não havia ninguém. Agachei à espera. O vento frio me fustigava a pele. Como dentro d’água a sensação era de uma temperatura mais amena, tive vontade de voltar ao mar. Porém avistei alguém correndo em minha direção. No começo, temi. Quem sabe um desconhecido? As batidas de meu coração se aceleraram. O homem abraçou-me não se importando com o meu corpo molhado, beijou minha boca e depois falou: "sua fantasia é tomar banho de mar nua, a minha é transar com você nas areias da praia".
Deitou-me e subiu sobre o meu corpo. Depois de gozar duas vezes dentro d’água, quem iria negar que não era o momento? E, agora, com alguém dentro de mim.
"Tenho também minhas fantasias", sussurrou, "e uma delas sempre foi encontrar uma mulher nua na praia. Vou levar você pra minha casa", beijou-me e concluiu: "peladinha."
sábado, dezembro 05, 2009
A natureza é nua
Quando chegou o verão, um vento morno soprava ao entardecer. Após as dez da noite, já se podia sentir a pele sendo acariciada por um sudoeste que vinha para nos arrepiar. Aí esquecia-se todo o calor do dia que findara para se mergulhar numa noite fresca, confortável.
Certo dia estava excitada. Não sabia o motivo. Meu peito arfava, queria sair, irmanar-me a toda aquela vegetação, acariciar o tronco das árvores, sentir o pulsar de suas seivas, recostar num arbusto que se mostraria irmão de uma mulher que não estava ali para destruí-lo nem tramar nada de mal contra ele. Na mesma noite, notei que me faltava algo. Observei mais acurada a natureza; tentava descobrir nela o que faltava em mim. Passeei por vários caminhos; andei sobre a relva; resvalei em árvores que até então não havia reparado; descobri a areia fofa das margens de um pequeno regato que eu escutava mas ainda não estivera com ele. Depois olhei de novo para o céu. Toda a imensidão desembocava numa confluência que é difícil traduzir em palavras. As palavras às vezes matam a experiência. Subitamente descobri o que me fazia diferente: a natureza é nua! Isso mesmo, nada a cobre, a não ser sua própria pele: cascas, folhas, resíduos diversos, frutos e flores. Descobri um galho que se sobressaía em uma árvore maior. Galho à meia-altura, convidativo a aparar as roupas de uma mulher que se embebia de um suco embriagador. Tirei toda a roupa. Que não era muita. Pendurei-a no galho saliente.
Passei então a andar entre as árvores, a fazer meu passeio noturno como vim ao mundo, exatamente como todo aquele bosque, com plantas, árvores pequenas e grandes, vegetação diversa, e pequenos bichos.
A natureza expõe sua beleza através de seus próprios traços; os homens e as mulheres convencionaram criar traços que vão além daqueles com os quais nasceram.
Depois de algum tempo, já não precisava do galho em que pendurara minhas roupas na primeira e na segunda vez. Saía nua de casa.
Então veio a estação das chuvas. Quis sentir a tempestade sobre a própria pele, quis viver a experiência das árvores maiores, que estão expostas ao tempo, que não têm onde se esconderem. A água escorria sobre meus cabelos, sobre meu corpo inteiro, até atingir a terra que alimenta todos nós. Observava os galhos maiores, os troncos úmidos, as folhas que jaziam já sem vida à sua volta. Tudo era amor e silêncio, cheiro de terra e vida que se acumulava.
Quando voltou o sol, saí nua em plena luz do dia. Fui mais longe do que nunca. Quando voltava reparei sons vizinhos, vozes estranhas ao local, ruídos que destoavam à natureza. Fiquei à espreita, procurei um tronco maior onde me abrigar. Escalei-o sôfrega. Protegi-me nos galhos mais altos. Nunca tinha subido numa árvore, mas percebi que aquela me ajudava. Eles passaram. Eram dois e traziam uma espingarda. Demoraram a partir. Apenas ao anoitecer pude sair do meu esconderijo. Então, já não se ouvia som humano. Perto de casa, recostei-me numa árvore que sempre me acarinhava, contei-lhe o sucedido.
Dali em diante, fiquei muito tempo sem sair nua. Ao mesmo tempo, tentei descobrir quem eram aqueles homens. O que pude saber é que não moravam na cidade nem em nenhum arraial próximo.
Quando tudo se tranqüilizou novamente, me expus como antes, agora em pleno júbilo, talvez devido ao desejo reprimido.
Foi aí que me descobriste. Nua! E eu morrendo de vergonha. Te aproximaste e pediste que eu não temesse, que tu já me espiavas de longa data e também querias viver a mesma aventura. Fingi acreditar, embora exigisse que tapasses os olhos para que eu escapasse incólume. Prometeste naquele momento que não me farias mal algum e que só tocarias meu corpo com minha permissão. Fiz-me afável, talvez tenha semeado algum tipo de esperança em teu coração.
Mas ao amanhecer do dia seguinte, antes que voltasses – porque eu sabia que voltarias –, parti. Deixei para trás minhas árvores, minhas flores, meu céu nunca antes visto. Concluí que minha vida era um sonho; que aos homens e às mulheres não é possível a mesma vida das árvores.
domingo, julho 20, 2008
Gotas d'água sobre meu corpo reluziam como pequenos diamantes
”Vai buscar minha canga, alguém ainda me encontra nua.”
Mas ele demorava e queria uma vez mais.
Encontrávamo-nos para essa aventura uma vez na semana.
“Por que não nos basta uma boa cama de hotel?”, eu perguntava.
“Assim é mais agradável, ao ar livre, e sob todos os riscos.”
“Mas está frio, ainda pego uma doença.”
“Se o tempo continuar assim, vamos a um lugar mais quente.”
Ele ia até o carro e vinha então com minha canga; depois de voltas e rodeios, como a amansar um touro bravio, envolvia-me e íamos jantar num restaurante rústico, onde a proprietária já nos conhecia. Discreta, ela nunca perguntou porque eu me vestia daquele jeito. Cada semana, pontuais, aparecíamos ali; e eu com um pano diferente a me cobrir o corpo. Talvez nos achasse veranistas loucos. Embora já fosse longe a estação do sol, continuávamos a nos divertir como se o verão, desatento, permanecesse. Apesar de eu reclamar, na verdade gostava das intempéries desse namorado extravagante.
Levava-me a algumas festas também exageradas. Aconteciam em apartamentos grandes, de inumeráveis salas e quartos, onde a música rápida girava nossos corpos. Havia salas, sempre às escuras ou sob tênues lâmpadas de abajures laterais, convidativas a contatos íntimos. Agarrávamo-nos então sobre estofados macios; poucas palavras e beijos de amantes demorados. Garçons jovens serviam-nos bebidas coloridas. Excitávamo-nos. As mulheres que freqüentavam tais festas não deixavam de mostrar-se extremadas. Além de parecerem amar em demasia seus homens, vestiam saias curtíssimas, tops mínimos. Certa noite quando fui ao banheiro, encontrei três jovens totalmente nuas. Diziam que sairiam assim para dançar; surpreenderiam seus pares. Perguntei se a dona da casa não se oporia à inteira nudez. Elas se entreolharam, riram e disseram que não tinham perguntado a ela. Uma propôs que tirassem apenas a calça de liga e fossem com aquelas blusas, vestidos curtos disfarçados, assim não assustariam os mais conservadores. E foram.
“Não nos acompanha? Tenho uma blusa que em você vai parecer um vestido lindo”, uma delas me ofereceu.
“Obrigada”, repliquei, “tenho andado nua o tempo todo.”
Riram e saíram as três. Uma esqueceu a calcinha sobre o pino da toalha. De propósito. E dançaram. Os homens com elas, cada vez mais enlouquecidos. Lá pelas tantas se enfiaram por outros cômodos. Discretas, namoravam. Agiam como se ainda trouxessem o arremedo de vestido, mas na verdade já os tinham perdido. As pequenas lâmpadas apagadas disfarçavam-lhes a nudez. Às vezes, seios se iluminavam furtivos, era a chama de um isqueiro que ia em direção ao cigarro a transbordar dos lábios de uma delas. Podia-se dançar inteiramente só e podia-se entregar a braços outros. Em certa noite escorreguei em mãos alheias. Meu namorado também ia em outra companhia. Um homem negro puxou-me junto a si, abocanhou-me os lábios. Permiti; no começo, um tanto medrosa, mas, em seguida, percebendo a penumbra, entreguei meu corpo pequeno a seu largo abraço. Após dançarmos uma ou duas músicas, levou-me para um canto. Ainda brilhava o abajur, mas ali éramos apenas os dois. Escorregou as mãos sob minha saia e me deixou nua.
“Você é muito grande para mim, vai me machucar”, sussurrei ao senti-lo.
“Não se preocupe”, revidou, “vou cuidar bem de você.”
E cuidou. Gozei como nunca; quis mais uma vez.
Quando a festa ia perto do fim, esforcei-me para não perdê-lo; queria algum meio de contato. Meu namorado, pelo que percebi, trazia um sorriso estampado. Vi quando uma morena piscou para ele. Ela usava um short curtíssimo, pensei até que estivesse de biquíni.
Dias depois encontrei meu homem negro. Levou-me para o melhor hotel da cidade. De novo, fez tudo na penumbra; e eu a senti-lo crescer dentro de mim, crescer até não poder mais. Mas com carinho, com esmero.
A estada com o amante foi apenas por três vezes; depois o perdi. Não havia apenas eu a desejá-lo.
Meu namorado continuou a envolver-me com suas surpresas. Eu atendia-lhe todos os desejos. E quando íamos àquelas festas, passei a fazer coro com as mulheres que queriam sair nuas do banheiro.
sexta-feira, abril 20, 2007
Amores físicos em tempo real
posted by Margarida57 at 12:03 am
Já estou no local que, como ensaiei, me deixa anônima. Os encontros já foram agendados; são três os candidatos; que tenham sorte e sucesso. É possível ver as pessoas que andam sobre o calçadão, mas creio que não conseguem avistar-me. Sobre o corpo, trago apenas ligeira canga, que também há de me servir de forro, pois não quero grãos de areia pregados a meu corpo. Desenrolo o pano e sento-me sobre. Vento fresco alisa-me a pele enquanto espero amante que não tarda. O marulhar suave embala-me em doce modorra. Céu de estrelas fugidias derrama luz azulada. Ao me aconchegar nas sombras, surpreende-me voz masculina. Boa noite. Boa noite, respondo; morango?, dou a senha. Com chantilly, ele devolve. É este. Transamos. Antes me unta o corpo com óleo que diz afrodisíaco, depois desliza a ponta dos dedos sobre meu ventre, acaricia-me os seios, morde meus lábios e não demora a penetrar-me. Sinto-o quente, vibrante. Ele demora sobre meu corpo, pulsa pesado e enfim despeja-me líquido de homem pleno, viril. Beija-me uma das faces, toca-me o queixo; quer me pagar. Não sou prostituta, transo por prazer, às vezes por amor. Ele se vai; antes pergunta por outro encontro, talvez num apartamento suntuoso. Digo que vou pensar; não sei, não é bom repetir. Agora espero o próximo, virá às duas e meia.
posted by Margarida57 at 1:01 am
À hora marcada, descortino um vulto. Não cumprimenta. Morango?, pergunto. Com chantilly. É ele. Apresenta-se violento. Atira-me sobre a areia. Pega-me pelo meio das pernas, estica meus poucos pêlos, morde-me um dos ombros. Vaca, me xinga. Quero rir, mas não consigo. Acerta-me tapa vigoroso. Dou a outra face. Salpica-me areia, penetra-me áspero, me arranha. Perco a pele, sou carne viva. Sinto que não demora a explodir. A violência, porém, arrebata-me. Quero acompanhá-lo; sou amazona que cavalga atrasada sobre potro bravio, percorro terreno pedregoso, penetro densas florestas, salto obstáculos, protejo-me de galhos salientes, de armadilhas ocultas; quando o alcanço, arremesso-me, assalto-lhe as rédeas, emano meu rastro sobre seu corpo luzidio, lava de mulher madura, raras e provisórias pérolas violáceas que logo se dissolvem em líquido prateado, rio caudaloso que reflete o gozo das estrelas. Depois de satisfeito, parte abrupto. Leva-me a canga. Ei, volte aqui, não foi esse o combinado. Combinado?, só o preço. Lança as notas e foge. Não faço sexo por dinheiro, tento dizer, mas ele não escuta; como surgiu, desaparece. Às três e meia tenho outro. Espero? Não tenho alternativa.
posted by Margarida57 at 2:37 am
Às três horas vejo aproximar-se um jovem; deve ter pouco mais de vinte anos. Boa noite. Boa noite, digo. Morango? Ele parece não entender. Você gosta de morango?, insisto. Oh, prefiro abacaxi. Tento me conter; trata-se de um visitante imprevisto. Você está nua, diz. Parece, tento ser natural. E o que você faz aqui, nua? É melhor você não saber, vá embora, caso contrário a coisa pode ficar feia para o seu lado. Feia, como?, quer saber. Não vou dizer, aqui não é o seu lugar, espero um homem terrível, e tenho de estar assim, pelada, se ele descobrir algum estranho a meu lado é capaz de matá-lo, por favor, vá embora, não quero que você corra riscos. Ele olha amedrontado, vira-se tentando descobrir alguém que lhe venha pelas costas. Ainda insisto: vá, saia, agora; e fique calado. Ele se afasta.
posted by Margarida57 at 3:02 am
Transo com o terceiro da noite após as identificações de praxe. Ele sua. Parece que o fato de me ter encontrado nua o tornou mais excitado. Nada comenta sobre os arranhões ou a vermelhidão de meu rosto. Escala-me e permanece longo tempo. Gostou de me encontrar melada e suja de areia. Faz movimentos lentos, parece estar cavalgando. Sorri. Depois que goza, escorrega. Acende um cigarro, chega a chama do isqueiro próxima à minha cabeça, arranja-me os cabelos em desalinho. Quer pagar, chega a tirar o dinheiro. Não aceito, transo por paixão à vida, às vezes por amor a algum homem. Do jeito que você está, vai precisar de algum dinheiro. Sou rica, respondo. Sorri. Peço-lhe a camisa. A camisa?, não posso. Não tenho outra; arremessa longe o cigarro e parte. Não sei se o assustei.
posted by Margarida57 at 3:47 am
A madrugada se esvai. Não tenho mais ninguém programado. Sinto frio o estômago. Como faço para ir embora? Não posso voltar para casa andando nua pelas ruas de Copa, nem correr em direção ao calçadão e gritar aos caminhantes que já esporádicos aparecem: meu reino por uma calcinha! O jeito é não me desesperar; já saí de situações piores. Respiro fundo, tento controlar-me, ainda tenho algum tempo.
posted by Margarida57 at 4:27 am
Eis que reaparece o garoto das três horas. Ei, diz, quero falar com você. Você de novo?, finjo surpreender-me. Ele já se foi, você espera mais alguém? Não, venha cá. Ele se aproxima e eu o abraço, beijo-lhe a boca; sinto sua temperatura alta, seu coração se acelera. Você quer namorar comigo? Quero, responde animado. Então venha. Excito-o, solto-lhe o cinto, tiro-lhe as calças e agarro seu pinto. Está mais do que duro. Brincamos, esfregamo-nos. Ele quer me penetrar a todo custo. Deixa eu botar, quero gozar, diz. Seguro seu membro com firmeza. Sinto que ele não demora a ejacular; prendo-lhe então a extremidade com o polegar e tapo-lhe o canal por onde jorrará o seu prazer. Não posso deixar que ele goze, caso isso aconteça estarei perdida. Você quer ter uma transa completa comigo?, pergunto melosa. Quero. Então vamos lá pra casa, faço o convite. Eu já estou quase gozando e com você assim, nua, fico ainda mais louco. Sou sua pelo tempo que você quiser, mas vamos lá pra casa; minhas palavras soam imperiosas. Concorda. Onde estão suas roupas?, pergunta. O gato comeu, digo e lhe mordo carinhosa o lábio inferior. Ele treme mais excitado e avança sobre meu corpo. Minha destemperança quase põe tudo a perder; tento equilibrá-lo, disfarço. Me empresta a camisa, vai, me empresta e vamos. Ele, enfim, atende. Estou salva. Vamos, amor, guarde sua excitação, digo já vestida enquanto espero que ele abotoe as calças; depois, levo-o pelo braço. Não demoramos. No horizonte, já é possível notar que o amanhecer, róseo, se anuncia.
posted by Margarida57 at 5:23 am
Em meu apartamento, tentei conter-lhe o ímpeto viril e pedi que me ajudasse no banho. Ensinei a ele como uma mulher deve ser acariciada, como torná-la ferina, como levá-la ao máximo delírio. Pedi que me percorresse a pele, que ajudasse na remoção dos grãos de areia e que cuidasse da vermelhidão de meu rosto. Depois lhe dei as costas, as nádegas à flor d'água, pedi que me massageasse. As partes que me ardiam foram pouco a pouco se tornando entradas vulneráveis, portais por onde trafegavam a sensação de bem-estar e gozo. Sobre a cama, ao desfazer-me de toalha rica em algodão, rolamos juntos; ele inteiramente nu recendendo a macho voraz; eu, exalando perfume original, embebida em seiva que me amenizava as feridas. Tateou-me então por entre as pernas e encontrou aquele filete sempre em carne viva. Mergulhamos em oceano vasto e profundo, povoado de peixes inomináveis, mar abundante em cores sutis, cortinas translúcidas possíveis a olhos de amantes e poetas. Quando partiu, deixou-me em sonhos de menina recatada.
Acordei apenas no meio da tarde. Sobre a mesinha, largou poema original: o nome, endereço e telefone.
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Peixes
No verão de 99, aluguei uma casa no alto de Ponta Negra, em Natal. A localização permitia-me ver toda a extensão da praia, cerca de seis quilômetros, onde predominava apenas areia, mar, e o céu. Era possível apreciar, nas madrugadas, a partida silenciosa dos pescadores, homens que enfrentam o mar bravio em embarcações rústicas, frágeis; homens que seguram firme o leme enquanto o vento intrépido infla as velas. De madrugada eu descia e, escondida – não queria causar alarde ou mal-estar entre eles –, observava o momento em que começavam a deslizar os barcos desde a parte superior das areias até entrarem n'água e se atirarem, rudes, em busca do peixe de cada dia. Depois – apenas a pele morena, tingida pela luz impetuosa dos trópicos – descia sozinha e caminhava debaixo de uma noite quase sempre pesada em estrelas. Então eles já iam longe, mas não perdia de vista suas velas, e me impressionava o saltar constante e corajoso dos barcos contra vagas ricas em espumas. Para aqueles pescadores, o mar era razão de vida, talvez cometa azul em céu de desventura. Enquanto eu, turista de estação, tentava me familiarizar com o local e fazer dele minha morada natural; depois de algumas semanas, já me sentia parte dali, como se tivesse sempre vivido ante aquele mar bravio e sob céu que refletia namoros estelares na paisagem marinha. Andava então longa extensão de areia, respirava o ar úmido de sal, de mar. Envolvia-me o êxtase da estação quente, mas tépida à noite. Gostava de estar sozinha, em estado de total deleite. Era pérola que desprendia faíscas, diálogo luminoso entre astros prateados. Certa vez notei que uma das naus voltava antes do previsto. Quis correr, esconder-me, procurar arbusto que me cobrisse. Mas não há mal maior do que emboscada vil que nos surpreenda, lanterna invasora que nos revele nua. Permaneci estática, nem me dei ao luxo de recostar sobre a areia convidativa; o máximo que me permiti foi cobrir os seios, recurso ineficaz: como as águas de preamar, transbordavam fartos às minhas mãos exíguas. Embora a noite fosse clara, consegui permanecer envolta nas sombras. Dois homens, um deles parecia ser bem jovem, desembarcaram e empurraram o barco areia acima; depois, desprenderam as velas. Ouvi a voz do mais velho: "vá agora". O garoto ainda tentou algum argumento para permanecer ali, mas o outro impôs sua autoridade. O remanescente desembarcou os peixes e, por meio de uma grande faca, começou a limpá-los. Vi que era hábil. Abria a parte inferior, tirava as vísceras e as enterrava na areia; ia amontoando os peixes limpos em um cesto. Foi então que me chamou. Surpreendi-me. Voltei a ouvir sua voz; pedia para que me aproximasse. Obedeci. Mas ele continuou seu trabalho; a princípio, não me dirigiu o olhar. Após algum tempo a seu lado, estática, foi a vez de ele se por de pé; tirou então a camisa e a colocou em uma de minhas mãos. Vesti-a; estava úmida, cheirava a mar, mas sobretudo ao corpo de homem em constante movimento. Seu odor de suor, que poderia causar repugnância a pessoas mais sensíveis, deixou-me excitada; e não consegui esconder o que me acontecia. Talvez o mesmo prazer sintam as rosas no momento em que desabrocham. Disfarcei. Agachei-me e lhe pedi a faca. Pus-me a limpar-lhe os peixes. Assistia a tudo impávido, como se minha presença fosse algo natural, rotineiro. O tocar nos peixes deixou-me ainda mais ruborizada. Era o momento de união entre a ação do pescador, seu cheiro que se espalhava sobre meu corpo e o fruto de seu trabalho. Cortei o último em pequenos filetes; mordisquei um deles enquanto olhava o homem do mar. Ele voltou-se para o suporte de madeira. Peguei outro filete e lhe ofereci. Comemos juntos. O sabor era como licor em noite de fantasias; o calor me assaltava, minhas entranhas ardiam... Foi então que aconteceu. Uma de suas mãos tocou-me por sob a blusa e misturou-se ao mel do meu desejo. Amamo-nos com toda a rudeza dos navegantes que há muito desejam aportar...
Antes de partir, ainda lhe disse: "amanhã volto; quero lhe devolver a blusa".
quinta-feira, maio 25, 2006
Nua em Itaúna
Tudo começou quando percebi aquele homem forte e saudável que estava hospedado em um dos chalés. Descobri-o só, em plenas férias de verão. As mulheres que também aproveitavam o mês de janeiro ali em Itaúna, naquela pequena pousada perto das dunas e do mar sempre agitado, tiveram, da mesma forma que eu, súbita excitação. Será que ele seria adepto do amor pelas mulheres? Era a pergunta que não deixavam de fazer, embora sempre sem a resposta desejada. Ele acordava cedo. Quem o espreitava, podia vê-lo saindo em direção à praia. Depois de cerca de trinta ou quarenta minutos, voltava gotejando água salgada, perfumado pela maresia, com os cabelos pretos molhados. Era hora de as pessoas irem ao café da manhã. A pousada não era grande, mas comportava bem uns doze pequenos chalés. No mais, havia o prédio principal, em que ficavam a administração e o restaurante; mais abaixo, num pequeno declive, havia a piscina, onde as pessoas se banhavam na maioria das vezes ao entardecer. Duas famílias com algumas crianças, rapazes com namoradas, ele - o homem desejado -, e, no mais, mulheres em grupo; por fim, eu, sozinha, em um dos pequenos chalés, que para mim não deixava de ser imenso; éramos todos os habitantes provisórios daquele lugar. Levara livros, CDs, tudo para um descanso de quinze dias, mas a chegada daquele desconhecido foi vento fugidio que, a princípio, levantou-me os véus para, em seguida, levá-los de forma irremediável. Cruzei com ele algumas vezes, ora na praia, ora no restaurante, ora na piscina. Voltou-me o olhar, porém, apenas uma vez e pareceu não demonstrar interesse.
Numa das tardes, encontrava-me à beira da piscina. Lia uma revista qualquer. Três mulheres, das que estavam em grupo, apareceram de repente. Vinham apenas de biquíni. Voltavam da praia e, pelo modo extravagante como se comportavam, pareciam ter se excedido na bebida. Uma, inclusive, se mostrava ligeiramente trôpega. Duas delas, talvez devido à caminhada pelas dunas, logo se sentaram em cadeiras reclinadas, no lado contrário ao que eu estava, enquanto a mais alegre, ou mais bêbada, abriu o chuveiro e tomou um rápido banho; tinha a intenção de livrar o corpo da água salgada; em seguida, mergulhou na piscina. Após alguns minutos os olhares delas, surpresos, se voltaram para o pequeno portão gradeado que ficava à entrada do caminho que vinha dar ali. Era ele que se aproximava. O homem só, desejado por todas, inclusive por mim. Cumprimentou-nos respeitosamente e tencionava seguir em frente, em direção talvez a seu aposento. Elas entreolharam-se; a que se encontrava dentro d'água não deixou de emitir algum tipo de gracejo. Fiz como se nada tivesse acontecendo, continuei minha leitura. Ele parou. Pareceu entender o que ela tanto desejava. Então, para romper o embaraço, ouviu-se a voz de uma delas: " você joga cartas?". Ele assentiu. Elas imediatamente o convidaram e combinaram jogo para depois do jantar. Sueli, assim chamava-se a que nadava, convidou-o para entrar na água. Num primeiro momento, ele hesitou, mas, depois, dirigiu-se ao chuveiro, tirou do corpo a água salgada e a areia que trazia nas pernas; em seguida mergulhou. Enquanto as duas, que permaneciam nas espreguiçadeiras, entreolharam-se indagativas, a da piscina aproximou-se quando ele voltou à tona. Eu fingia ler a revista, tentava demonstrar pouco interesse, mas vez ou outra, de soslaio, olhava para dentro d'água. Estabeleceram algum tipo de conversa. Ele percebeu que a mulher não estava em seu estado normal. Mexia-se muito, falava mais alto e o agarrava pelos braços a todo momento. Súbito, ouvimos a voz dela: "já sei que vou perder, jogo cartas muito mal, é melhor nos distrairmos com outra coisa". Ela já estava quase agarrada a ele, mas, de modo inesperado, soltou-se e mergulhou fazendo barulho e espirrando água. Quando reapareceu, a água escorria pelo seus cabelos pretos e, no contra-fluxo dos raios de sol do entardecer, o rosto dela espelhou alguma beleza. Creio que tal detalhe não passou despercebido a ele. Numa fala um tanto tresloucada, Sueli deu prosseguimento: "se jogarmos a valer, vou perder mesmo, então vou lhe pagar agora". As duas amigas se entreolharam novamente; esperavam um gesto louco daquela que era a mais atirada. Num movimento rápido, soltou os laçarotes do biquíni e o entregou nas mãos do homem com as seguintes palavras: "toma, fica de presente para você, pagamento, já que vou perder no jogo de cartas". O homem olhou para mim um tanto embaraçado, sem saber o que fazer. A única coisa que conseguiu proferir foi: " é melhor você cuidar da sua amiga". Olhei na direção das outras duas que, vendo meu constrangimento e percebendo que eu nada tinha a ver com aquela situação, se precipitaram dentro da água em socorro à mulher nua. Vestiram-na, pediram desculpas e a levaram para dentro. Prometeram que, se ela estivesse melhor, apareceriam para jogar cartas. Também me convidaram.
O jogo de cartas transcorreu dentro da normalidade. Acabáramos de jantar e sentamo-nos a uma das mesas da sala que antecedia o restaurante. Sueli, a nua da piscina, chegou atrasada, mas misturou-se ao grupo e participou das partidas; agia como se nada tivesse acontecido. Nenhuma das amigas tampouco referiu-se ao episódio. Como éramos cinco, revezávamo-nos nas parcerias. Quando formei dupla com ele, sempre que colocava a dama em jogo lançava-lhe olhar desafiador. Não sei se queria muito, mas o que pretendia era que ele me percebesse a lançar-me, também nua, mas de forma mais discreta; senha de encontro tardio. Com o correr das horas, para não incomodarmos o silêncio local, alguém sugeriu que continuássemos as partidas no aposento das mulheres. Houve consenso, apenas eu não quis continuar. Aleguei cansaço. As outras lamentaram, mas não insistiram. Enfim, todas, em companhia do amigo recente, dirigiram-se ao novo local, enquanto eu retornei ao meu chalé.
Abri uma das janelas e procurei entre as árvores distinguir o mar lá embaixo. Respirei fundo. Ar morno misturado com maresia invadiu meus pulmões provocando-me enorme excitação. O coração bateu mais acelerado. Uma energia repentina tomou-me. Senti vontade de descer as dunas e caminhar à beira-mar. Não pensei duas vezes, do jeito que estava, saí. Encostei a porta e desci a rampa.
Não tardou e eu já caminhava com os pés dentro d'água. O mar rugia ora ameaçador ora arrefecido. Espuma clara e ligeira tocava-me as pernas e se dissipava, como que tragada pelas areias brancas. As águas mornas em braços espessos me acariciavam vez ou outra as coxas; respingos prateavam-me a pele e a pouca roupa. O céu coberto de estrelas destacava-se na noite de poucas luzes. Na praia, não havia viva alma. Até que não resisti. Não perderia um banho noturno, acompanhada apenas pela paisagem anterior à nossa chegada, à chegada do primeiro humano. Ouvia e sentia na pele o vento sedutor, sopro quente bafejando a expansão marinha nos extremos limites de meu corpo, ardendo-me o desejo. Despi-me. Larguei as roupas, livres, sobre a areia. Depois mergulhei e me pus - sempre nadei bem - em direção às ondas. Apesar da iluminação precária das estrelas, entendia-me bem na sombra noturna e na bruma natural. Nadei até onde pôde meu fôlego. Sentia o mar envolver-me como homem vigoroso que me acarinhava, começando com sutilezas e indo até ponto mais íngreme. Minha pele deslizava pelas águas escuras que poriam medo a qualquer das criaturas, mas a mim era seio natural, berço protetor. Eu era sereia impossível de se perder na vastidão do mar, sentia-me em morada original, que atingia as barras do infinito. Procurava estar sensível ao roçar das águas sobre meu corpo, sobre meus poucos pêlos, sobre meus cabelos. Então compreendi como as criaturas marinhas são prenhes de gozo e jamais abandonam o mar. Meu corpo era termômetro natural, sensível à mínima nuança de frio e calor. Águas geladas que me passavam entre as pernas alternavam-se com águas quentes, provocando-me excitação e me levando a gozo irrefreável, a gozo quase que sem fim. Extasiada, lamentei que, em breve, as sombras se dissipariam, e não poderia, nua, atrasar-me no retorno.
Quando de volta subi a rampa e penetrei nos domínios da habitação humana, reparei que todos dormiam. Ruídos, somente os de pequenos bichos noturnos e, ao longe, ainda o rugir do mar. Não parei à minha porta, desejava porta alheia. Sentia que era o momento. Encostei-me junto a seu chalé. Minha respiração era ofegante, meu coração ia aos saltos. O corpo ainda molhado, o cabelo respingando. As roupas? Deixara-as de propósito na praia. Agora já teriam sido levadas pela maré que subia. A mesma que me empurrava na direção do primeiro homem. Permaneci junto à porta. Talvez não soubesse ir além. Esperava.
Deságuo, ligeiro córrego a recender odor de rosas, à saída do estreito túnel que me leva à sua porta...
Não precisei bater...
