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quarta-feira, maio 03, 2023

Nunca fiquei tão solta

Vou te contar, escuta, foi muito excitante, nunca fiquei tão solta. Saí com ele, aquele cara que conheci semana passada, já te falei sobre o homem. Fomos a um bar, entramos, sentamos e começamos a conversar. Papo vai, papo vem, cada um contava um caso, assunto puxa assunto e coisa e tal. Ele olhava pra mim, os olhos brilhantes; eu, pra ele, revelando já certa volúpia, e olha que fui vestidinha, super bem-comportada. A seguir, ele perguntou: você quer beber o quê? Acho que um coquetel. Olhamos o cardápio, cada coquetel que era uma maravilha. Escolhi um composto com gin, de cor azul, lindo. Chamamos o garçom, pedimos. Não passou muito tempo, as duas taças diante de nós. À medida que consumíamos, a conversa ficava mais animada. Ele pediu alguns salgados, muito gostosos por sinal, umas pastas, torradas etc. O garçom voltou, colocou tudo sobre a mesa. Comíamos com delicadeza, a conversa versou sobre teatro, cinema, atores e atrizes. Juro, não sabia que ia ficar tão animada, não conseguia me conter, comecei a rir, às vezes o escutava com tanta atenção, que parecia estar prestes a me fazer uma descoberta.

Lá pelas tantas, sugeriu: vamos beber mais, ok? Como eu já estava rindo à toa, nem respondi. Quando veio o outro coquetel, só ficávamos quietos ao colocar a boca na beirada do copo para tomar mais um gole. Comecei a contar casos que eram segredos, como o que aconteceu com a Luciene, lembra? Conheces a história: era mais de meia-noite quando ela me telefonou, tive de sair às pressas para buscá-la no centro da cidade, levei uma canga para que não voltasse nua pra casa. Ele achou a história muito engraçada. Como uma mulher vai parar num quarto de hotel com o namorado e na hora de ir embora não encontra as próprias roupas? Falei de outras amigas minhas, suas dissimulações. Ele ouvia. Também revelei que estou sozinha há muito tempo.  Permanecemos no bar até as seis da tarde.

Ao nos darmos por satisfeitos, ele pediu a conta e saímos abraçados um ao outro. Andamos um pouco pela rua, pensei de repente: aonde é que nós vamos agora? Ele não me falava nada sobre isso, estávamos ali pelas imediações do Largo. Então, convidei: vamos até lá em casa tomar um café? Ele aceitou.

Entramos na rua das Laranjeiras e seguimos em frente. Depois do viaduto, ainda andamos duas quadras e dobramos à direita, na minha rua. Chegamos ao prédio. Subimos.

Logo que entramos, fui a cozinha e coloquei a cafeteira pra fazer o café.  Voltei à sala e me sentei ao lado dele. Em certo momento, não aguentei, era tanto fogo que eu sentia. Nossos rostos estavam próximos, dei-lhe um beijo na boca. Não duvide, fui eu que tomei a iniciativa. Ficamos agarrados, ele me abraçando, até que falei espera um instantinho. Corri ao banheiro, tirei toda a roupa, todinha mesmo, envolvi o corpo numa toalha e voltei pra sala. Pedi pra que ele se levantasse e viesse me dar um abraço. Ele obedeceu. Levantou-se e veio até o centro da sala. Dei-lhe outro beijo na boca, com bastante ímpeto. Abracei-o com força. Ele puxou a toalha, que foi ao chão. fiquei agarradinha a ele, nua por inteiro. Acabou me carregando no colo e me levou pro quarto.

Aí aconteceu, foi uma transa inesquecível. Que loucura. Lembro perfeitamente. Nem colocamos camisinha, nenhuma proteção. Perdi mesmo a cabeça. Ele me acariciou de todas as maneiras. Depois, fez o principal. Que delícia! Ainda ficamos deitados durante umas duas horas.

Quando levantamos, voltei à cozinha e trouxe o café, que ainda não havíamos bebido. Sentamos novamente lado a lado no canapé e bebemos, eu ainda nua. Continuamos a conversar, mas com poucas palavras. Vez ou outra ele me tocava a pele, me beijava o rosto ou os lábios. Em um momento, tocou-me um dos seios. Comecei a sentir de novo uma enorme quentura.

Ele partiu às onze e trinta, tinha de acordar cedo pra trabalhar. Eu, então, comecei a pensar na nova situação, tudo tão de repente. O que vou fazer daqui pra frente? Sei, Glória, pra você as coisas são mais fáceis. Quanto a mim, sou ainda um pouco dura, sem jogo de cintura, como dizem por aí. Além disso, veja a minha idade, já não sou uma garota, não sei se uma nova relação amorosa vai me fazer bem. O amor nos deixa aos sobressaltos. Você acha mesmo? Que bom, vou pensar, tudo bem. Ok, um beijo, amanhã a gente se fala.

domingo, dezembro 11, 2022

Convite para terça-feira

Eu já imaginava que aquele convite me deixaria numa situação delicada. Era uma terça de janeiro, o telefone tocou; antes de atender, o nome dele já aparecia na tela.

Oi, como vai, tudo bem?, você está aí na Serra?, a voz dele, incisiva, parecia dizer que me desejava encontrar.

Estou, sim, respondi, sei que meu tom de voz revelou algum interesse, como se eu dissesse você vem encontrar comigo?

Vou a M. hoje, gostaria de ver você.

Suspirei. Minha vida estava parada, eu enfurnada em casa em pleno verão...

Você vem a M. mesmo?, quis me certificar.

Vou. E quero encontrar você.

Tudo bem, respondi, vou descer, que hora você chega?

Lá pelas onze.

Depois que desligou, abri o armário e escolhi uma roupa que combinava com o verão. Não sou muito de short, nem de bermuda, preferi uma blusa de malha e uma minissaia. Mas nada extravagante. É preciso dizer que ele, o homem do telefonema, já fora meu namorado, ou mesmo bem mais do que isso. Mas depois de sua partida da cidade, o relacionamento esfriou. Foi quando arranjei o meu atual companheiro. O homem mora comigo, mas deu para ser locutor de uma rádio comunitária, onde permanece bem mais do que em casa. E o pior é que nada ganha, tudo nas minhas costas, salário de professora.

Desci para M. no ônibus de dez e vinte. Fui apreciando a paisagem. O lugar não era feio, mas as pessoas não sabem dar o devido valor ao que possuem. O ar estava fresco. Quando o ônibus acabou de descer a serra e atravessou a rodovia, era possível sentir a brisa que vinha do mar. Sobreveio-me um arrepio. Quem sabe meu antigo namorado vai querer ir à praia, e eu nem trouxe o biquíni.

Às onze e dez cheguei ao local combinado. Não era na rua principal da cidade, mas na rótula, próxima ao Cajueiro. Ele já me esperava.

Beijei-o e sorri ao entrar no carro. Correspondeu ao beijo e ao sorriso. Deu a partida e seguiu na direção de Cavaleiros.

Não vamos a Cavaleiros, por favor, conheço muita gente, vai dar o que falar, sugeri.

Era o preço de viver em lugar pequeno. Sempre uma fofoca. Sempre a saberem quem está traindo quem. E meu objetivo nem era trair. Estava gostando daquele convite inesperado.

Ele tomou a estrada e seguimos na direção de Rio das Ostras.

No meio do caminho, falou:

Sei que você tem parentes em Rio das Ostras, por isso estou pensando em outro lugar, vamos ficar bem protegidos.

Acho que não há problema se alguém nos vir juntos, somos amigos, sorri no final.

No meio do caminho, aconteceu o que eu não esperava. Fez o retorno e entrou num hotel. Desses à beira da estrada.

Poxa, não sabia que você iria me levar para um lugar assim, cheguei a me queixar.

Não vou fazer nada contra a sua vontade, ok? Quero apenas ficar com você, e um pouco de tranquilidade.

O hotel era daqueles antigos, onde se dirige até à varanda do apartamento. Saímos do carro e entramos. Algo me surpreendeu. Bem ao lado do quarto havia uma piscina, e para o tamanho do local era enorme.

Está calor, não?, sorriu.

Sentamos e conversamos amenidades. Pediu um serviço de quarto. Para ele uma cerveja, para mim um suco com espumante. Lembrou a tal bebida que sempre apreciei. Num determinado momento, tirou a camisa, viera de bermuda.

Você não repara, vou entrar na piscina, está calor, só que não trouxe roupa de banho, sorriu ao terminar a frase.

Foi a banheiro, tirou a roupa e voltou enrolado na toalha. Depois, à beira da piscina, ficou de costas para mim, soltou a toalha e entrou n’água. O gesto dele me provocou um arrepio.

Você não quer entrar?, sugeriu.

Não sei, estou pensando.

Ele ficou dentro d’água, o copo à beira da piscina, ele com a cabeça de fora.

Acho que vou entrar, falei a mim mesma, em pensamento.

Pedi licença, fui ao banheiro e voltei enrolada na outra toalha. Fiz a mesma encenação dele, virei de costas, deixei a toalha ao lado e entrei n’água, não sem fazer alguma agitação na superfície que estava tão plácida. Continuamos a conversar como se tudo aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

Aproximou-se de mim.

Por favor, não me toque, não quero praticar um adultério.

Adultério?, repetiu. Achou a palavra muito engraçada.

Estou com você como amigo, não quero trair meu atual companheiro, eu disse. Mas estava ardendo de desejo. O pior é que queria negar que tinha tesão pelo homem bem ali à minha frente.

Tudo bem, não vou tocar você. Como já falei, não vou fazer nada que você não queira.

Mas lá pelas tantas fui eu que toquei nas costas dele. Virou para mim cheio de entusiasmo, mas adverti:

Não, não, foi apenas uma brincadeira, nada disso.

Vou apenas segurar na tua cintura, falou em tom de pedido.

Acabei deixando, ficamos os dois ali, um olhando para o outro, como caras de bobo.

Você veio a M. apenas para me ver?, perguntei interessada.

Digamos que sim.

Então, ainda gosta de mim.

Sim.

E você tem interesse em transar comigo, mesmo eu já não sendo aquelas coisas. Estou ficando velha.

Lembro você, corajosa, a circular nua ao meu lado, pela cidade, nua na estrada, na praia. Sinto tesão nisso.

Então você gosta do passado, afirmei.

Também do presente, você está nua à minha frente e tem muito charme. Acho que vou deixar você em casa, peladinha, como da outra vez.

Sorri.

Nada disso, onde moro há uma porção de gente.

Naquele tempo também havia.

Continuou com as mãos na minha cintura, aproximou-se, quase roçando minha pele.

Acho legal você ter vindo, venha outras vezes, venho ver você, disse dissimulada.

Então desfile pra mim, vai, sai da piscina e desfile.

Ah, tenho vergonha, ri.

Vergonha de quê? Só há nós dois aqui.

Espere, tenho de me preparar.

Afastei-me dele, apoiei na escadinha e saí da água, de costas. Peguei a toalha e fiz um curto tomara que caia. Virei para ele e sorri. Tocava uma música romântica na rádio. Comecei o desfile a passos curtos. No ponto mais distante dele, deixei cair a toalha.

Quando acabei o desfile, corri para junto dele.

À tarde, deixou-me no ponto, o mesmo onde eu saltara pela manhã. O dia ainda estava claro, fazia calor, mas fora eu que pedira para ir embora. Voltava satisfeita com tudo que vivera, mas sempre quando está próxima a noite a gente sente a consciência um pouco pesada. Realizar um desejo não é pecado, mas muitas vezes nos deixa com a pulga atrás da orelha. Afinal, traem-se uns aos outros não apenas com homens e mulheres, mas também com coisas, com trabalho, com algum jogo, ou mesmo com um amigo em uma mesa de bar. O resultado daquilo tudo era simples: as pessoas sempre estão se enganando, cada uma na verdade é a primeira a colocar chifres em si próprio.

Abri a porta e entrei. Do quarto ouvia-se o correr do riacho, bem aos fundos da casa. Tive vontade de ir até lá, de tirar de novo a roupa e namorar as águas do rio, faria de conta que estava com aquele homem que agora ia longe, em algum trecho da estrada. Lembrei-me, então de Gerson, homem que aparecera em Glicério nos tempos em que eu ainda não conhecera meu atual companheiro. Gerson, na verdade, queria trepar comigo.  Entardecia e eu tomava banho de rio, junto às pedras, onde se forma uma pequena queda d’água. Como uma mulher surpreendida nua por um homem pode fugir dele, tanto mais quando a nudez é motivada pelo puro tesão?

O mesmo aconteceu àquela tarde. Como uma mulher nua dentro da piscina de um quarto de motel ia escapar do ex-namorado? Tanto mais depois que ele passou um creme sobre o meu corpo.

domingo, dezembro 04, 2022

Paixão, desejo e consciência

Certa vez conheci um homem na antessala de um teatro. Como ele estava sozinho e eu também, não foi difícil iniciarmos um diálogo. Falamos, de início, da peça que estávamos prestes a assistir; depois, sobre teatro em geral. Quando entramos na sala, fomos procurar nossos acentos.

Após o término do espetáculo, reencontramo-nos. Eu estava doidinha para que isso acontecesse. Ele também tinha o mesmo sentimento. A peça fora tão interessante, que não nos faltaria assunto. Dali, ainda ficamos um pouco pelos arredores. Fomos a um bar, onde tomou uma taça de vinho e eu um suco. Como era dia de semana, não demoramos a nos despedir, deixando um com o outro o número dos nossos telefones.

Passaram-se alguns dias e marcamos um encontro. Encontramo-nos em torno de 19 horas. Assistimos a uma sessão de cinema. O filme era interessante, uma produção polonesa onde um homem visitava pessoas ricas para lhes tratar a alma e o corpo. Não era médico nem religioso, mas alguém que trabalhava com as mãos e com as ideias. A questão do clima também era abordada, já que, no local, nevava bem menos do que outrora. Após a sessão, pegamos um táxi e fomos a um restaurante, no Leme, local conhecido por reunir, já tarde da noite, muitos artistas.

Ainda nada disse sobre ele, chamava-se Léo e, desde o início, demonstrou ser pessoa extremamente delicada, sempre dando muita importância a tudo que eu falava. Passei mesmo a tomar cuidado com minhas opiniões, já que o homem as escutava com atenção.

Sempre quando conheço alguém, fico na defensiva. Não posso me revelar de primeira, pode ser algo perigoso, principalmente porque o conheci num lugar público. Quando alguém me apresenta um amigo ou colega de trabalho, é outra coisa, mas em relação a alguém que surge quase ao acaso, sinto certa preocupação. Fiquei mais tranquila quando me disse que trabalhava na Petrobras, chegou mesmo a mostrar sua identificação.

Jantamos na tal cantina. Comi um prato de massa e tomei também uma taça de vinho, o que me deixou bem mais à vontade. Ele queria que pedíssemos uma garrafa. Não, por favor, só aguento uma taça, afirmei.

Depois que terminamos, perguntou se eu queria fazer mais alguma coisa. Quando alguém recém-conhecido faz tal pergunta, é porque quer me levar ao seu apartamento. Não sei se acontece o mesmo com minhas amigas, porque pouco converso sobre isso quando estamos juntas, mas meu coração acelera mais do que o normal quando vou pela primeira vez ao apartamento do namorado. Não sei se é fruto de algum temor, ou se se trata da perspectiva dos possíveis momentos de prazer que vem pela frente.

O apartamento de Léo era muito bonito. Numa rua de Botafogo, de frente. Da janela da sala, dava para apreciar a copa das árvores; ao longe, outros prédios e algum comércio. Do lado de dentro, não havia muita coisa: um pequeno sofá, uma mesa com duas cadeiras, estante com poucos livros e um abajur num dos cantos da sala, próximo à janela. Lembrei-me de uma amiga que tinha a chave do apartamento do namorado. Adorava ir para lá na parte da tarde. Dizia que descansava em silêncio, adorava a luz do dia que vinha de fora; para completar, tirava toda a roupa.

Ele foi à cozinha e voltou com uma garrafa de vinho, abriu-a e derramou um pouquinho nas taças. Por favor, alertei, para mim apenas um dedinho, quero sentir o sabor. Obedeceu, brindamos e bebemos. A seguir, ligou o som, que tipo de música você gosta?, quis ele saber. Perguntei se tinha música instrumental, como jazz. Sim, é o que mais tenho, sorriu. O ambiente, então, se tornou mais relaxado, bebemos o vinho, ouvimos a música e namoramos.

Quando começo a sair com alguém, sinto vergonha de trepar na primeira vez. Quis dizer isso a ele, e esperei pelo momento certo. Depois de uma hora ou hora e meia, quando fomos para o quarto, sussurrei no seu ouvido você fica aborrecido se a gente não transar hoje? Tudo  bem, mas por que esta preocupação?, quis saber. É porque a primeira vez é difícil pra mim, ri depois destas últimas palavras. Ele pareceu compreender. Fiquei deitada na cama, ao lado dele, depois agarrada a ele, de calcinha e sutiã. Em determinado momento, dormi. Não sei se por causa da bebida ou pelo cansaço, mas isso não era importante naquele momento. Ele mantinha os olhos fechado, mas acariciava o meu ventre.

Quando acordei pela manhã, ele não estava no quarto, senti cheiro de café, que vinha da cozinha. Só então reparei que estava nua! Teria ele tirado minha roupa enquanto eu dormia? Não sei, jamais saberia. Posso dizer que, a partir daquele momento, eu pude trepar com ele com desejo, paixão e consciência.

terça-feira, julho 20, 2021

Na vontade

Já que você gosta de me deixar de sobreaviso, quero te contar o final da história, fica paga a hora, já é madrugada, daqui a pouco amanhece. Fique nua mais um pouco, sei que você gosta. É sobre o que aconteceu comigo na quinta-feira passada, não acabei de te contar. Não, não falei com ele de imediato. Eu estava dentro d’água, e você sabe que a praia de manhãzinha é vazia. A água estava fria, eu teimando em entrar e me agachar. Sempre quando entro num mar frio assim, lembro-me daquela vez, eu já te contei, faz séculos, mas lembro, eu pulei da pedra, mergulhei, uma água fria que doía, e aconteceu a tal sensação gostosa, na época nem sabia como se chamava. Depois, mesmo tentando outras vezes, não mais consegui. Quando vou a uma praia, lembro, acabo rindo comigo mesma. Outro dia, pensei e se eu tentasse de novo, já não há a pedra, a praia é outra, mas eu sou a mesma, a temperatura da água está baixa, entro e fico lá um pouco. Então, tentei, mas não deu, acho que pra conseguir agora é preciso algum treino. Resolvi depois de um tempinho, fazer o velho truque, transformei o biquíni numa pulseira, fiquei só te top dentro d’água, dá maior arrepio, uma amiga me ensinou. Agora, gozar mesmo, nada feito. Apesar de vestir um biquíni mínimo, achei que estava muito vestida, então o jogo, a pulseira de pano no braço direito. De repente, um homem pertinho de mim, e eu nem o tinha visto se aproximar. Que susto. Experimente você, está sozinha, ninguém na praia e, quando menos se espera, um homem imenso ao teu lado. Depois do susto, tive de rir. Ele notou meu sorriso e disse bom dia, desculpe se eu te assustei, não era a intenção, e foi nadando pra mais longe, cada vez mais. E eu no mesmo lugar. Envolvida pelo susto, até esqueci que estava nua. Ele não notou!, refleti. Como minha amiga me tinha contado, eles não notam não, são afoitos, estão sempre preocupados com eles mesmos. Quando dei conta da situação disse a mim mesma é preciso manter o sangue frio, Soraya. E se ele voltar não vai me encontrar vestida, acrescentei corajosa. Não vou morrer por causa disso. Tenho amigas que adorariam ser surpreendidas nuas, mas eu... Quem sabe, até role alguma coisa boa?, me perguntei. Não, é melhor marcar para outra hora, o homem vai pensar que sou piranha, e pra trepar é preciso clima. Mas é só não querer o tal duas vezes, me disse certa vez Ana. Como, nesta cidade? E se ele ficar me assediando? Mas foi nadando, nadando. Não mais vi o homem. À noite, no Ilhote, eram onze da noite, me lembrei dele. E se aparece agora, pensei, se me convida pra sair? Senti um arrepio, tive vontade de ir ao toalete, tirar a calcinha, guardá-la enroladinha num papel, dentro da bolsa. Eu estava com uma amiga, não comentei nada. E, como é muito comum acontecer comigo, fiquei apenas na vontade. A amiga ficou toda assanhada, cheia de sorrisinhos, quando um desconhecido veio falar com a gente, perguntou se queríamos alguma coisa, porque só estávamos bebendo. Ela, interesseira, soltou um quem sabe... Mas achei que o tal demonstrou interesse mesmo por mim. Fomos para a mesa dele. Em algum momento, a amiga sussurrou depois do bar vamos com ele, não vejo mal nenhum nisso. Mas o homem, no final, nos deixou em casa, pegou nossos números de telefone e ficou de ligar. Investimento, não?, dirá você. Como é bom investir, não é mesmo? Minha amiga sorria, depois de duas taças de vinho. E você, telefonando pra pedir um vestidinho, e tão tarde, ou melhor, quase manhã, pelo menos não ficou na vontade, não é mesmo? Onde você está? Ih, esse lugar fica longe, acho que vou ter de te deixar pelada.

terça-feira, dezembro 15, 2020

Refúgio

No final de Cavaleiros, quando havia o quebra-mar, certa vez encontrei um refúgio. Ficava a cinquenta metros do que seria o entroncamento com a Praia do Pecado, e dois metros abaixo da calçada. Quem passeava pelo local não dava por sua existência, porque a tendência era olhar na direção da beira da praia. Acho que houve, ali, um quiosque, por isso alguém escavou a parede, talvez com a intenção de guardar garrafas ou outro tipo de mercadoria. Quando o encontrei, estava deserto. Como estou sempre ali, num canto tranquilo da praia, onde tomo sol e posso ler revistas e livros, acabei descobrindo-o. Fui investigar. Quem o utilizou chegou a fazer uma entrada lateral, esculpiu dois degraus na pedra. No total devia ter nove metros quadrados. Havia ainda uma espécie de entrada de luz, na verdade uma fenda na pedra. Caminhantes que olhassem de longe só o descobririam se muito meticulosos. Era preciso aproximar-se, agachar-se, só então se descobriria a entrada.

Algumas amigas perguntam o meu local predileto da praia, se em Cavaleiros ou no Pecado. Evito revelar. Quando muito, digo que tomo banho de mar em frente ao Country. Mas não é verdade. Não quero ninguém a me perturbar. Amo a liberdade, a beleza do mar e o calor do sol, principalmente na meia estação. Por isso, estou sempre sozinha. Às vezes, aparece alguém para conversar, contar um caso, ou destilar suas mágoas. Permaneço, porém, impávida, não falo nada de mim, não conto meus desejos nem o que faço. Lógico que observo se há alguém que me agrade. Quem sabe um homem para apreciar de longe, ou um namorado sem grandes envolvimentos. Tenho conhecidas que falam demais, contam seus problemas e frustrações. Há mesmo quem conte seus casos com os homens, como Nara. Diz que já trepou com não sei quantos, aqui da cidade. Procura manter as aparências, tem cara de quieta, mas age de modo contrário. Seu último namorado era um homem casado. Vinha apanhá-la na praia, levava-a a um hotel e depois a devolvia à mesma praia. Quando o tempo muda e começa a ventar e não é possível mais a praia?, cheguei a perguntar. Aí tenho de me virar. Talvez ela, caso descubra o esconderijo, entre nele com um homem. Para namorar, é claro. Sorrio e volto à minha leitura.

Entrei no refúgio e pude verificar se estava sujo, ou cheio de areia. Havia areia, sim, trazida pelos dias de vento forte, mas, para quem ama a liberdade, era possível esconder-se, guardar algo, ou mesmo trocar de roupa.

Numa quarta-feira cheguei à praia às seis e trinta da manhã, para caminhar e dar um mergulho. Depois de andar de uma ponta a outra, fui ao esconderijo. Queria saber se alguém estivera lá. Qual minha surpresa quando descobri uma bolsa de butique, num dos cantos, dessas que se ganha quando se faz a compra de uma roupa cara. Abri-a com cuidado, temendo qualquer armadilha. Encontrei um vestido, de fazenda fina, acho que da mesma marca escrita na bolsa. Fiquei a imaginar quem o poderia ter deixado ali, correndo o risco de ser encontrado e levado. Mas não o levei. Enfiei-o de volta na bolsa e a coloquei no mesmo lugar. Pensei esconder-me e ficar à espreita da visitante que viria buscá-lo. Mas não pude, e acho que não teria paciência. Mergulhei, na parte da praia onde começa o Pecado. Depois, juntei minhas coisas e parti. Tinha de trabalhar.

Numa quinta-feira, por volta de meia-noite, eu deixava o Ilhote, onde havia encontrado uma amiga. Comemos, bebemos e colocamos nossos assuntos em dia. Ela viera de carro e eu também. Na hora de partir, porém, decidi ir ao tal esconderijo. Seria perigoso? Se fosse, eu não levava em conta o tal perigo. Dirigi até a ponta da praia. Ao parar, permaneci ainda dentro do carro durante um bom tempo, queria me certificar se havia alguém ao redor. Saí do automóvel, todo o cuidado era necessário. A lâmpada de um poste, a cinquenta metros, orientava o caminho, mas, ao mesmo tempo, revelaria minha presença. Caminhei na direção contrária, onde as sombras eram mais densas e me protegiam. Agachei-me quando cheguei junto ao refúgio, olhei mais uma vez em volta e coloquei a cabeça na pequena entrada. Não havia viva alma. Iluminei o celular e entrei. Verifiquei todos os recantos. Vi a bolsa, mas era outra, menor, e a loja estampada no papel era de roupas de banho. Direcionei a luz ao interior da bolsa e descobri o que ela guardava. Um biquíni de praia, duas peças, muito pequenas, manequim talvez 40 ou 42. Caberia no meu corpo, poderia tê-lo tomado para mim, estava ainda envolto naquele papel fino que as vendedoras utilizam para proteger a peça. Mas deixaria suspeita. Alguém teria descoberto o esconderijo. O jogo terminaria. Deixei tudo no local e parti. As conclusões ficariam para o dia seguinte.

Passaram-se duas semanas. Vieram várias frentes frias, o tempo fechou, choveu durante vários dias. No primeiro dia de sol, o calorzinho da manhã convidou-me à praia. Primeiro, a caminhada; depois, o mergulho. Mas não fui ao esconderijo. Sentei e li uma revista. Um homem veio me pedir fogo. A noite de quinta-feira, no entanto, aprontou-me duas surpresas. A primeira: a amiga que marcou encontro comigo no Ilhote não apareceu. Telefonei continuamente, mas o telefone dava caixa postal. Fiquei sozinha no restaurante. Tal atitude despertou interesse numa mesa onde quatro homens jantavam. Um deles, duas dezenas de minutos depois, passou por mim e tentou falar algo em meu ouvido. Como não dei atenção, foi embora. Depois, alguém deixou um pedaço de papel. Não cheguei a abri-lo. Os homens eram barulhentos e gesticulavam muito, tinham aspecto de que trabalhavam nas empresas de petróleo. A cidade, à noite, fica cheia deles, nos bares e restaurantes. Quando foram embora, permaneci mais um pouco, tentei ainda falar com Marília, a tal amiga, mas continuei sem resposta. Tomei ao todo duas taças de vinho tinto e fiquei apenas na entrada, carpáccio de salmão. Quando decidi partir, lembrei-me do refúgio. Como já estivera lá numa noite, resolvi dar outra olhada. Agi da mesma forma como da primeira vez. Estacionei o carro num local escuro, desci à areia pelo lado contrário à iluminação da rua, andei próxima ao muro de proteção à maré alta. Assim, ninguém me veria. Quem vem na calçada tem a tendência de olhar à beira d’água e não para baixo. Ao chegar perto do refúgio, o poste próximo ficou às escuras. Dei a volta, até a pequena fenda de entrada de ar. Escutei, então, gemidos de mulher. Depois, pude distinguir o que ela dizia. Senta, vai ser melhor assim, pedia, deixa que eu vou por cima, cavalgo sobre você, isso, assim, assim, mas, puta merda, você não trouxe a camisinha, isso não pode acontecer, mas vai, tenta não gozar dentro, por favor, isso, ai, está bom assim, que gostoso, olha que vou perder a cabeça, mas você não perde, não, por favor, sem camisinha é um problema, mas vai, vai, se segura. A voz dela era clara, cheia de desejo, o homem nada dizia. Afastei-me trinta metros e deitei-me sobre a areia. Quando saíssem, queria saber de quem se tratava. Mas, dez ou quinze minutos depois, apenas o homem saiu. Escutei-o subir ao calçadão e desaparecer na escuridão. Depois, ao longe, o motor de uma moto mostrava que ele se afastava. A mulher só, lá dentro, deixava-me curiosa. Caminhei de novo e olhei pela fenda. Ela fumava, a claridade do cigarro produzia algumas sombras e dava para ver o seu perfil, ainda estava nua. Em um momento se levantou, deu dois passos e chegou à saída do refúgio. Atirei-me para trás, encolhida. Ela caminhou até a beira e entrou na água. Tinha o cabelo muito curto e pareceu mesmo nadar um pouco. Num ímpeto, entrei no refúgio, olhei o que havia lá dentro. Nada. A mulher ficara sozinha, e sem o que vestir. Voltei-me e escapei. Deitei-me novamente no mesmo lugar onde me escondera assim que chegara. Depois de um quarto de hora, ela voltou ao refúgio. Foi então que decidi partir. Ela vivia uma situação perigosa, e eu não queria me misturar a tudo aquilo. Cheguei a correr dali, atingi o local onde estava o meu carro, ofegante.

Enquanto dirigia de volta, pensei que poderia ter ido a ela e oferecido ajuda. Mas será que ela estava em dificuldades, será que desejava ajuda? Há gente para tudo nesta vida. Decidi esquecer a tal história.

No dia seguinte, Marília me telefonou, pediu mil desculpas por ter faltado ao encontro, disse que depois me contaria o que aconteceu. Uma ou duas semanas mais tarde, encontrei-a ao acaso, no calçadão, estava bonita, sempre de cabelo bem curto, parecia um rapaz. Desculpou-se mais uma vez, mas não tocou no assunto.

Meses depois começaram as obras de remodelação da orla marítima de M. O tal refúgio não demorou a desaparecer.

segunda-feira, julho 06, 2020

Sisuda

Reparei a mulher de azul, piscou-me de novo. O que seria aquele sinal?, aparentemente eu não a conhecia. Levantou-se e deu a entender que iria ao toalete. Fez outro sinal. Preciso ir ao toalete, falei. Ele olhava a varanda. Levantei e segui a mulher.


Ele disse que sou sisuda. Sei o significado da palavra, mas fui ao dicionário procurar seu sentido perfeito. Sisudo (os dicionários são machistas, sempre o masculino) quem é muito sério, circunspecto. Depois, acrescentou o homem, você precisa ser pelo menos um tantinho transgressora. Ainda o dicionário. Transgredir: 1. ir além de, atravessar; 2. Não seguir determinação de ordem, lei etc. Tinha de me comportar de modo transgressor, isto é, extravagante, romper regras. O namoradinho de ocasião me queria nua, só podia ser.

Conheci-o na praia, vestia eu o menor biquíni. Mas ele não olhou meu bumbum, mas aos meus óculos grandes, redondo, a face, naquele momento, sem sorriso. Veio conversar. No primeiro contato, principalmente quando se trata de um estranho, não dou conversa, finjo mesmo que a pessoa não existe. Mas insistiu o homem. Um, dois, três dias, sempre comprimentos, uma semana, semana e meia e minhas resistências vencidas. Por isso, sisuda. Pagou-me um sorvete. Que ridículo, eu precisava que me pagasse algo? Quase não aceitei, mas, para ser polida, engoli a casquinha com duas bolas.

Semana seguinte. Se você tem interesse em mim, sou sisuda, não tenho como mudar. Pouco a pouco, acostumou-se. Vamos esta noite, sugeriu um dia na praia. Nesta não posso. Fiz mistério, amanhã, taça de ouro para a conquista.

Na noite seguinte, às vinte e uma horas, a sisuda, minissaia preta, blusa branca de mangas compridas com adereços em renda e botas que subiam aos joelhos, esperava o namorado na varanda. Enquanto isso, lembrava Adélia, amiga a quem contara o caso. Eu é que devia ter conhecido esse homem, não ia me chamar de sisuda nem transgressora, você conhece minhas peripécias. Ah, sim, Adélia tinha vasta fama, nem sempre positiva, entre tantas aventuras constava que, certa vez na praia, deixara o biquíni embaraçado nas mãos ágeis de um recente conhecido!

Quando o homem chegou, desci e fui a ele. Beijou-me e, muito gentil, abriu a porta do carro para que eu entrasse. Sobre minhas roupas, nada comentou, pelo menos naquele momento. Guiou até a orla e estacionou numa transversal. Caminhamos lado a lado, e entramos no Ilhote. Às 21h30 o restaurante já estava fervilhando, o vozerio alegre se espalhava pela varanda. Quando entramos, várias pessoas olharam minha saia curta, as botas negras também causavam frisson. Estava pagando para ver como seria a noite. Sentamos quase no meio do restaurante, no lado de dentro. Ele, pelo que pude perceber, adora chamar atenção, nada de cantos, quis o lugar mais chamativo. Tinha uma mulher bonita ao seu lado, era para ser visto, admirado, invejado. Eu me metamorfoseara em sorrisos. Quando o garçom veio perguntar o que iríamos beber, o namorado deu-me o privilégio da escolha. Sabia eu beber vinho? Já tomara algumas taças, as pessoas diziam que os melhores são os franceses. Quem sabe. O homem recebeu com interesse o meu desejo. E o garçom não demorou a aparecer com a garrafa e duas taças.

O que se pode conversar num tal momento, eu me perguntava, não queria tomar a iniciativa, já o fizera quanto ao pedido da bebida. Ele olhava o restaurante, queria mesmo ser observado, viera bem vestido, considerava-se bem acompanhado. Geralmente os engenheiros não têm muitos assuntos quando estão em companhia de mulheres, talvez refletisse, qual seriam as minhas preferências? Resolveu perguntar.

Preferências, repetiu a palavra, deixe-me ver, meu português cuidadoso. Tomei a taça com a mão direita e bebi um gole do vinho antes de responder.

Gosto de passear, de viajar.

Pensei que você gostasse de ler.

Gosto, sim, mas é um gosto particular. Ri pelo efeito que a frase causou. Não gosto da opinião de alguns homens de que a maioria das mulheres nada tem na cabeça, atitude machista e indelicada. Cheguei a mover-me na cadeira, mas não comentei o pensamento com o namorado.

Certa vez passei uma temporada em São Paulo, pesquisa sobre o solo, petróleo no litoral, como aqui. Ia aos bares, só havia homens. Aqui, pelo menos, há mulheres, e muito bonitas. Pareceu sem jeito, apontou a mim mas não deixou de mover os braços como se mostrasse as outras que frequentavam o local.

Uma gafe, as palavras dele, mas quem não as comete? Adélia e suas peripécias, suas gafes, a amiga era puro corpo, esses homens vem com muitas histórias para terminar a noite em cima da gente, por isso nada de muitas delongas. Será que eu deveria pensar do mesmo modo?, melhor os detalhes, as delongas, as pequenas histórias, como um livro bem elaborado, diálogos e descrições, expressões faciais, sustos e deslumbramentos. Por isso talvez chamasse-me sisuda, pouco ou nada transgressora. A voz do homem despertou-me.

Existem pessoas de todos os tipos, a gente conhece durante as viagens. Falava dos amigos, dos conhecidos, mas não se referia às mulheres. Lógico que não falaria de mulheres, nada mais deselegante do que trazer outra mulher para junto da que o acompanha, tanto mais no momento de conquista, não o faria, os homens podem não ter muita cultura, mas não cometem esse tipo de gafe. Saíra com outras mulheres, é claro, eu podia constatar. No restaurante, olhava a varanda, reparava a mesa só de mulheres, bem junto à mureta da calçada. Dali, podiam ser mais paqueradas, mesmo por aqueles que iam do lado de fora, que vinham nos carros; os homens às vezes paravam para vir falar com elas. Ele não era santo. Sozinho, também não as dispensaria, imagine em outras cidades, hospedado em hotéis, sozinho nos bares durante à noite, quantas e quantas na sua cama de hotel. Contar-me-ia mil vantagens, mas nada sobre mulheres, é claro. Sairíamos inúmeras vezes, um dia, de repente, iria embora, alguém o chamava em Curitiba, Santos, ou Vitória. Há petróleo por toda a parte. Não voltaria, quanto a isso tinha certeza. E não duvidava que tivesse mulher e filhos em outra cidade.

Você tem filhos, perguntei solene.

Seu olhar pareceu traí-lo. Filhos. Como ela descobrira?

Não, nem casado sou. Aliás, sou casado com o trabalho, riu depois de fazer uma fisionomia de que parecia alguém a carregar pesado fardo. Vamos pedir o jantar, sugeriu ao ver o garçom. Saiu-se bem do embaraço. Não ia perguntar se era casado, não se faz tal pergunta, estraga a noite. A gente aprende isso rápido.

Vamos de salmão ao molho de abacaxi?

Deve ser uma delícia, acompanhei.

Foi-se o garçom, em meio às outras mesas, uma mulher de vestido azul olhou-me e piscou.

O vinho ia descendo na garrafa, descendo através de nossos lábios, boca, garganta, circulava por nosso sangue tornando-nos soltinhos. Eu e ele.

Sabe que me enganei quando disse que você era sisuda. Senti que não gostou.

Nada, não precisa se preocupar. Acho que é por causa dos óculos, deviam ser mais discretos.

Nada. Foi a primeira impressão, depois passa. Tenho um amigo que não sai do hotel, nessas viagens, disse ele gratuitamente. Acho tão interessante conhecer a cidade, ter contato com outras pessoas. Caso fosse como ele, não teria conhecido você.

Não perdeu grande coisa, falei e caí na gargalhada.

Não fale assim, você é uma joia, e muito reluzente.

Cuidado, podem me sequestrar.

Não, não vou deixar.

Reparei a mulher de azul, piscou-me de novo. O que seria aquele sinal?, aparentemente eu não a conhecia. Levantou-se e deu a entender que iria ao toalete. Fez outro sinal. Preciso ir ao toalete, falei. Ele olhava a varanda. Levantei e segui a mulher.

Você é a Vânia, não?, ela falou.

Sim. Mas não estou me lembrando de você.

Acho que faz muito tempo, trabalhei numa escola com você, faz mais de dez anos, muita confusão naquele tempo.

Hum, já sabia de quem se tratava. Helena, o seu nome. Abraçou-me.

Por que você não foi até a mesa onde estou?, perguntei, curiosa.

Achei que não seria bom. Senti saudades da Vânia daquela época, aproveitamos bem uma ou duas vezes.

Sim, aproveitamos, retruquei, mas já não tenho relações com mulheres, você foi a única. E o homem está me chamando de sisuda. Disse e ri.

Sisuda? Helena caiu na gargalhada. Abraçou ainda uma vez. Tá bom, vá então para os braços do namorado.

É a primeira vez que saímos, andou me azarando na praia, vários dias.

Antes que saísse, puxou-me para junto de si e beijou-me a boca. Não tive como impedir. Seu beijo era doce e, antes que eu partisse, puxou um dos botões de minha blusa e enfiou um pequeno papel dentro do meu sutiã. Era um número de telefone.

Depois que se foi, olhei-me no espelho, ajeitei-me, retoquei o batom. Meu coração ia aos saltos.

Voltei à mesa, creio ter conseguido manter as aparências, nada acontecera, era eu a mulher mais calma do mundo.

Comemos com vontade o salmão. A garrafa de vinho chegou ao final. Que tal uma dose de licor?, ainda sugeriu. Dali em diante, perdemo-nos em conversas banais. Ainda falava sobre o trabalho.

Você não sente falta de livrarias em M?, perguntei.

Pareceu não entender, a enxurrada de casos que vivera pelo Brasil e pelo mundo soterrava-lhe a visão.

Vocês, que trabalham com petróleo, são pessoas importantes, não?, meu lugar comum, toquei sua mão por sobre a mesa.

Não trabalhamos com petróleo apenas, mas com energia. E é ela que move o mundo.

Quando saímos, ele estava eufórico. Todo homem quando está a ponto de levar uma mulher para cama pela primeira vez vem nas nuvens.

Ao chegar ao passeio, ainda olhei para dentro do restaurante, Helena piscou-me mais uma vez. Senti o papel com o seu número me fazer cosquinha na ponta de um dos seios.

segunda-feira, junho 15, 2020

A aventura de um beijo

Como falei numa outra história, o confinamento deu o que falar. Aproveitei para uma aventura externa, de madrugada e às ocultas, como narrei num conto anterior. Agora, já na fase de abertura, tenho saído meio sonsa, ido à praia, ou mesmo a um passeio. É engraçado, sempre surgiu a oportunidade de travar novas relações, às vezes, mesmo, um namoro informal, mas depois desse problema da contaminação, todos a usar máscaras, o que acontecerá com os relacionamentos? Será possível beijar?

Outro dia fui à orla marítima, entardecia. Poucas pessoas passeavam. Guardavam a distância regulamentar e usavam máscaras. Vai ser difícil arranjar namorado, vou ter de me contorcer diante da tela do computador, relação sem tempero, requentada pelo circuito dos chips. E de máscara, já não uso batom.

Num determinado ponto do passeio, logo depois que passei o Country, um homem (seus olhos!) veio falar comigo. Aquela velha história: acho que conheço você, não trabalhou não sei onde, não estava na festa de não sei quem? Acho que não, tive a delicadeza de dizer. A obrigatoriedade de usar máscaras, era o que nos faltava, falou. Sempre usamos máscaras, mas nunca nos demos conta, caí na asneira de dizer. O homem saltou de barriga na conversa.

“Oh, você é uma mulher interessante, o que é raro por essas bandas.”

 Quis rebater, mas achei melhor me calar, assim terminaria ali.

“Você tem estilo, essa sua máscara florida...” Não pôde notar a risadinha irônica.

Uma das coisas desagradáveis desses novos tempos é que não podemos mostrar nosso sorriso, qualquer que seja. Despedi-me e continuei a caminhar. Pararia no Ilhote, mas na parte interna, não desejava a exposição.

Apareceu-me Ilana, no fim da praia.

“Agora essa”, falou, “não podemos beijar, se já era difícil arranjar namorado em M, imagine agora”, Ilana e suas costumeiras reclamações.

“Não é possível a transmissão do Covid pelo sexo”, adiantei-me.

“Sério?”, pareceu surpresa, “que bom, será que os homens sabem disso?”

Quando acabou de falar, completei:

“Meu amor, quando os homens querem trepar, não há Corona vírus que impeça.”

Sorriu: “tomara que você tenha razão, vou encontrar umas amigas adiante, na varanda do Ilhote.”

Despediu-se e partiu. Reapareceu o homem.

“Não me apresentei, falou, me chamo Elton, estava esperando sua amiga ir embora.”

“Muito prazer, Célia.”

“Então, conheço você, sim, de uma festa, você não está se lembrando de mim? As pessoas lhe elogiam muito na cidade, dizem que é famosa.”

“Eu, famosa?”, tive de rir, “deve ser porque durante algum tempo escrevi no New Yorker.”

“Isso, o New Yorker, não é pra qualquer um, ou qualquer uma. Vamos beber ou comer algo?”, ofereceu.

Queria ir sozinha ao Ilhote, mas o homem era tão bonito, acabei aceitando. Enquanto caminhávamos, perguntei-me: será que no passado recente já não nos esquentamos atrás de alguma árvore? Entramos no restaurante e ficamos na varanda. O garçom não demorou a surgir, com a amabilidade de sempre, não era dia de muito movimento. Elton pediu um chope de marca alemã, peculiar do local; eu, uma taça de vinho.

“Não, obrigada, não desejo comer por enquanto”, respondi à sua oferta para que eu olhasse o cardápio.

O começo de noite trazia um ventinho fresco, mas estava claro. Ainda bem que trouxe a echarpe.

“Faz algum tempo fui a uma festa numa mansão, acho que ficava na Lagoa, gostei muito, tinha piscina e tudo mais”, observou.

Lembrei-me, então, das festas organizadas por Maria Rita, tais acontecimentos provocavam frisson na cidade, vinham pessoas importantes, tanto daqui como de outros lugares. Mas não eram festas familiares.

“Ah, sim, eram boas as festas, participei também de algumas”, retruquei.

Sorriu, o garçom chegou com as bebidas.

“A epidemia tirou as pessoas das ruas, embora se possa sair atualmente; e quando vemos alguém caminhando, está usando máscara”, ele disse.

Era verdade, nós também as usávamos, mas as tiramos logo que entramos. Abaixara a sua à altura do queixo e deixou-a no local.

“Deve ser por pouco tempo”, tentei ser otimista.

“As festas ainda existem?”

“Não, já faz tempo que terminaram, boa época aquela; a organizadora mudou-se para São Paulo.”

“São Paulo?”, assustou-se.

“Entendo a surpresa, o espírito de Maria Rita combina melhor com o Rio.”

Tomei um gole de vinho, posei a taça sobre a mesa e olhei ao homem de soslaio. Ele não olhava para mim, mas passava a mão direita sobre um ponto da mesa, depois olhou para além dos limites do bar, como se procurasse alguém na rua.

Aquelas festas eram boas, homens bonitos, mulheres nuas, gente das empresas de petróleo, convidados selecionados. Nada de prostituição, mas muito divertimento.

“Lembro uma vez em que as mulheres vestiam biquínis. E era noite!”, observou.

“Normal, tudo acontecia muito à vontade, quase sempre era verão.”

Três mesas depois, próxima à entrada, estava Ilana. Olhou pra mim, deu um sorrisinho maldoso e fez pequeno sinal. Logo eu que disse não estar preocupada em sair com alguém estava bem ali, próxima a ela, com um homem de olhos azuis. Ilana também frequentara algumas das festas, mas era fofoqueira que só, e fazia o papel de mulher pudica. Na verdade, tudo encenação, ninguém mais fácil que ela na cidade, trepava até mesmo dentro de automóveis.

“Você escreve histórias”, trouxe-me de volta para junto de si, “histórias são sempre interessantes. Como elas surgem?”

“Difícil falar nisso. Sou uma autora que não sabe falar do que faz. Acho que surgem naturalmente.”

“Você tem talento”, afirmou, “muitos escritores dizem ter dificuldades diante da folha em branco.”

“Conversa, todo escritor escolheu a profissão porque tem o que dizer. Você quer sabe mesmo como descubro minhas histórias?”

“Adoraria”, seus olhos brilharam na minha direção, segurou a longa tulipa e bebeu mais um gole.

“Às vezes acordo de madrugada sentindo-me angustiada, acredita? Para aliviar a tal angústia, penso no que posso escrever no dia seguinte. Às vezes surgem ótimas histórias. Já aconteceu de acordar, pela manhã, e não lembrar a ideia da madrugada. Então, minha angústia é maior!”

Riu com intensidade, chegou a se balançar na cadeira.

“Você é engraçada, suas histórias devem ter humor.”

“Quem sabe, humor angustiante.”

“Numa cidade como M, você deve conhecer muita gente.”

“Às vezes finjo que não conheço, as pessoas me chamam por isso de besta.”

“Você tem amigas, amigos?”, estava curioso.

“Já tive mais. Hoje, quase sempre, prefiro sair sozinha.”

“Deve ser difícil aqui levar uma vida sozinha.”

“Verdade, melhor seria mudar para o Rio ou São Paulo, cidades onde é possível se viver no anonimato.”

Seu chope chegava ao fim, minha taça de vinho ia pela metade. O garçom aproximou-se e ele pediu mais um. Eu sentia a conversa um pouco travada, e não encontrava nele intenção maior do que ficar ali conversando durante boa parte da noite.

“Certa vez vi um filme sobre um professor de literatura. Ele fez amizade com um aluno. No final, o professor é abandonado pela mulher, perde o emprego e não tem onde morar. Mas encontra o então ex-aluno, ambos passam a andar juntos e sempre encontram motivos para contar histórias. Olham os apartamentos da vizinhança, imaginam seus habitantes e inventam infinitas histórias. Ao tal professor não importa a própria decadência. A literatura estava acima de tudo.”

“Acho que já vi o filme”, rebati, “se não vi, li em algum lugar, mas isso também é história. Na realidade, tal vida seria muito difícil, o homem seria um mendigo. No cinema e, nos maus livros, as coisas se resolvem.”

Pareceu decepcionado. Eu tirara a graça da sua narrativa, de seu pungente personagem. Tentei reverter a situação.

 “Sabe, um dia escrevi uma história em que havia uma mulher nua. Você gosta de mulheres nuas, não?, todos os homens gostam. Ela ia nua, de madrugada, aqui na praia. Acho que veio de casa nua dirigindo o próprio carro. Confesso a você, quando escrevi tive vontade de viver o mesmo; aliás, a história era um substituto ao meu desejo. Mas, imagine, caso eu resolvesse sair nua de casa. Poderia acabar em maus lençóis, ou sem lençol algum! Por isso a história. Entendeu?”

Ficamos conversando durante mais duas horas. Bebi duas taças, no final tomei um sorvete. Ele ficou nos chopes.

Ao sairmos do restaurante, colocamos nossas máscaras e voltamos ao nosso mundo. Ofereceu-me uma carona. Aceitei. Já na porta de casa, deixou-me o cartão, despediu-se e se foi.

Dá próxima vez, vamos à aventura de um beijo.

segunda-feira, junho 08, 2020

Minha amiga eu mesma

“Você é uma mulher muito elegante para dar aulas naquele tipo de escola.”

Escutei de um colega enquanto conversávamos, no começo do dia, numa das escolas onde leciono. O comentário versava sobre as más condições de trabalho no nosso meio profissional, mas senti que ele mostrava sua admiração por mim. Sorri, nada retruquei, nem sei o que fiz depois, devo ter ido até a sala dos professores pegar minhas coisas para a primeira aula.

Será que o tal colega me paquerava? Já não tenho homem faz tempo, minha vida é organizada, trabalho e tenho meus pequenos prazeres. Como já não sou jovem, admirei-me da iniciativa. Há tantas professoras de menos idade, bonitas e cheias de calor.

Faz alguns anos, quando trabalhei numa escola do litoral norte, vivi situações que me deixavam a mil por hora. A cidade era convidativa a muitas paqueras, à frequência à praia durante as horas vagas e a saídas noturnas a vários restaurantes e bares aconchegantes. Lembro que certa vez andava pela praia ao entardecer. Não sei o que me deu – a  acho que fui picada por um desejo recôndito –, tirei o top e passeei pela orla vestida apenas por uma camiseta larga. Um homem passou por mim e sentiu-se surpreso ao reparar meus seios nus!, chegou dar um sorrisinho com o canto da boca. Continuei minha caminhada como se aquela fosse a atitude mais normal do mundo. Na época tive uma amiga que era maluquinha, além de namorar vários homens ao mesmo tempo, ia à praia com um biquíni pequeníssimo, dizia adorar a praia da Joana, onde vez ou outra podia ficar com os seios de fora. Era solícita com todos que se aproximavam, dava seu número e, na maioria das vezes, marcava encontros. Gosto de tomar uma caipirinha, dizia, depois a gente vê o que acontece. E, segundo ela, só aconteciam coisas boas. Uma vez arranjei também um namorado. Você bebe uma taça de vinho?, perguntou. Claro, importado, ressaltei. Fomos a uma adega. Depois... Tenho vergonha de contar. Fiz coisas que ninguém imagina. Pude constatar que a tal amiga tinha razão. Mas nada falei a ela, não queria que me roubasse o namorado.

Volto à escola onde um colega chamou-me de mulher elegante. Fiquei interessada no tal. Quem sabe, seria tão bom a gente sair e passear, talvez uma taça de vinho. Mas levou um tempo enorme para eu estar com ele como gostaria. Toda vez que passávamos um pelo outro nos cumprimentávamos, sorríamos e seguíamos cada um seu caminho. As mulheres, no entanto, tem poderes especiais, não vai demorar ele cairá nas minhas malhas. Lógico que meus artifícios são discretos, mas o sucesso é garantido.

Você sabe, perto da minha casa abriu um bar de cervejas artesanais, uma delícia, disse eu a ele ontem. É mesmo, adoro cerveja artesanal. Caso você queira ir, eu acompanho você. Vamos marcar, então, vamos amanhã, pediu. Ok, ótimo, vamos sim.

Fiquei esperando, vestidinha, na porta de casa. Chegou de táxi, me beijou e fomos ao restaurante. Imaginem a noite mais animada do ano, pelo menos para nós dois. Não preciso dizer que não bebo muito, mas bastaram dois copos. Que calor. Lembrei a camiseta, os seios soltos por baixo, sorri para o homem. Ele, não custa, vai me ver nua!, pensei num momento. Ah, minha amiga professora lá no litoral norte, o namorado tinha uma Mercedes, e ela nua no banco do carona!

Quando a gente fala muito de amiga, quem sabe fala de si própria!

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Equilibradinha

Me perguntaram se já me equilibrei nua. Respondi sim, equilibradinha, mas sentada numa poltrona. Explico, antes de insistirem. No mês de dezembro sempre fazemos compras, logo precisamos de dinheiro. Ele havia telefonado, quer ganhar um presente? Jamais recuso. Claro, um presente, falei sem demonstrar tesão. Em dinheiro, completou. Continuei muda, porém arrepiada. O homem havia sido meu patrão, sempre regalos. Marcamos o encontro.

As ruas movimentadas, não seria preciso dizer, mas como é recomendável dar o ar local à história, vá lá. Caminhava eu na Gonçalves Dias, quase esquina com a Carioca, três da tarde. Veio o homem ao meu encontro. Beijos, sorriso, bolsas nas duas mãos, o short, como o nome diz, muito curto. Onde podemos realizar a transação? Lógico que ninguém perguntou isso, mas era o que se procurava resolver. Numa tarde de fim de primavera, as ruas quentes, as pessoas procurando andar pela sombra, homens olhando as saias curtas. Onde resolver o problema do desejo? Onde o do dinheiro? Andamos um pouco a esmo. Vamos a um ar condicionado, propôs. Entramos num bistrô. Veio a garçonete, olhou-me com olhar de também quero, depois de admirar o homem, será que ele paga quinhentos?, li nos olhos da mulher, que soube disfarçar. Sorvete de café, boa ideia, ele disse, uma taça de champanhe. Será verdade?, eu queria acreditar. Enquanto esperávamos, voltei o tempo, à época em que pedia: o senhor pode me emprestar duzentos? Passavam-se os meses, eu nunca quitava a dívida; ele não cobrava. Um dia o homem me deixa nua. Ah, a garçonete, sorvete ao lado da taça de champanhe. Vamos trocar?, brinquei. Traga outra taça, sorriu à mulher. Sabor, quase da minha cor, só um pouquinho mais escuro; ah, a champanha me deixou arrepiada, ainda. A pasta gelada entrava pela minha pequena boca, lábios, língua, garganta e desaparecia nas minhas vias interiores. Oh, como é bom o calor, como são bobos os homens. Vamos aos negócios. Sim, bebo também champanhe.

Certa vez eu já não trabalhava para ele, não resisti e telefonei. Marcamos no mesmo centro. Vou levar você a um hotel, ele, sem meias palavras. O que se faz num hotel? Abriu a porta do apartamento; eu, como se fosse a primeira vez, não encontrava lugar para minhas mãos. A disfarçar, peguei o telefone, pedi que me trouxessem um lanche. Como demorou. Pude, então, me preparar. Bebi uma Fanta e comi um sanduíche, juro, que pobreza, não sabia à época que podia pedir champanhe. Quando eu já ia nua, antes de treparmos, sente na poltrona, pediu, equilibradinha, isto é, cruze as pernas e fique um pouquinho sem se mexer. Como é difícil ficar sem se mexer.

Tirou do bolso um envelope. A garçonete me olhava de longe, tenho certeza, mesmo sem vê-la sei que me espionava. É para você, o presente. Sorri, contida, guardei o envelope dentro da bolsa. Não vai abrir? Ah, sei que és generoso, não preciso olhar agora. Seus olhos escaparam, minhas pernas brilharam. O shortinho. Respirei, nua. O dinheiro me aliviava. A garçonete veio recolher minha taça de sorvete vazia, o champanhe ia ainda pela metade. O que se pode conversar numa hora dessas? Como vai a empresa?, perguntei. Meneou a cabeça. Como sempre, mais triste sem você. Estou aqui, sempre que me telefonar, rebati, como uma boa rebatedora de uma bola difícil, jogo de tênis. Confesso que nunca pratiquei o esporte.

No mês de dezembro, próximo o dia de Natal, há clima para o convite a um hotel? Ele, elegante, não tocou no assunto. Sabia que haveria outros dias. Aliás, antes da despedida, antes mesmo de me beijar, soube se expressar: vocês, mulheres, sempre dão um jeito, esse calor, vão quase nuas, que bom. Minhas pernas. De novo, o shortinho. A garçonete, tenho certeza, ter-lhe-ia proposto o hotel, equilibradinha.

terça-feira, maio 21, 2019

História de cabides

Olá, Rosa, como vai, tudo bem? Que bom falar com você. Vou bem. Estou escrevendo, sim. Sei, as pessoas estão acostumadas com muito texto, toda semana uma história, mas a vida de uma escritora é assim mesmo, nem sempre vai no mesmo ritmo. Às vezes dizem por que você não escreve um romance, desses bem extensos, quatrocentas páginas? Olhe, que engraçado, dizem até a quantidade de páginas!, como se fossem o editor e suas exigências de mercado. Aliás, os editores do nosso país não gostam de livros longos, a tal realidade cultural do país. Mas as pessoas desejam que a gente faça o que elas gostariam, tem muita gente que adora minhas histórias, então perguntam por que não escrevo o longo romance, com todos os ingredientes de que gostam, uma torta de morango, e que faça muito sucesso. É muito engraçado, certa vez, no lançamento de um de meus livros, muitos leitores queriam me contar uma pequena história, alguns faziam um rápido resumo e diziam, antes de me beijarem, olhe, não deixe de falar disso, vai ser um grande sucesso. Ah, sim, mas já passei dessa fase. Você sabe que escrevo por prazer. Não me cobro, não, está bom assim, as pessoas gostam do que escrevo, é uma espécie de escrita pequena, subversiva. Já pensou se me torno muito famosa? Aonde irei, aquele monte de jornalistas atrás, tanto mais se tratando dos assuntos meus. Está bom assim, não digo que já não quis escrever uma literatura maior, participar de círculos de debates nas universidades. Mas isso tudo é um grande aborrecimento. Professores universitários fazem pesquisas acadêmicas, não me dou muito bem com isso, sou espontânea e gosto de me divertir. Sim, acho que na vida privada eles leem minhas histórias. Não faz mal que este tipo de literatura não se torne arte maior, como os críticos literários afirmam, mas não ligo pra isso, não. Olhe, tenho uma história ótima, pra você que é minha amiga, vou mandar por e-mail, ok?, mas não mostra pra ninguém, espere sair primeiro. Sou louca?, sei, é porque distribuo histórias antes de serem publicadas. É só pra você, viu, que é minha amiga, minha leitora favorita. Está tudo bem, não? Vou, sim, está marcado, vamos ao teatro e depois àquele restaurante, sei, conversamos melhor. É mesmo?, a Sônia?, ela é fogo viu, não deixa passar ninguém, quem sabe até escrevo uma história sobre suas façanhas. Tudo bem, você me conta. Beijos, amiga, muitos beijos.

Oi, Rosa, conforme prometi, eis a história. Guarde, por favor, bem guardadinha, e aproveite, você vai gostar.

Histórias de cabides. Vejam se cabides podem servir de motivo para um conto. Mas foi muito engraçado. O namorado abriu a porta do apartamento e me deixou passar na frente. Não repare, por favor, sabe como é, homem que mora sozinho. Entrei, sorrindo como sempre, e perdoando-lhe alguma possível desordem. O que mais gostei foram alguns livros de poesia que encontrei sobre uma espécie de mesa de centro, eram poemas de Eucanaã Ferraz. Que ótimo, adoro os poemas dele. O namorado sorriu. Ele não sabia, até então, dos meus dotes para a poesia. Fique à vontade, disse e foi até à cozinha. Tenho umas comidinhas muito gostosas, você vai adorar. O namorado sempre solícito. Voltou com uns salgadinhos de forno, uma garrafa de suco, outra de água, tenho também cerveja e vinho, disse. Ótimo, falei. Saboreamos os salgados, os biscoitinhos, uma pasta com rodelinhas de pão francês, depois o vinho. Conversamos amenidades. Jamais se devem puxar assuntos sérios ou difíceis com um namorado, tudo deve seguir com leveza, o corpo de uma modelo, como se a vida fosse uma grande esteira de prazeres. O céu, olhe, como estão lindas, quantas as estrelas, ar fresco, falei. Um abraço romântico, nossos hálitos, corpos quentes, beijos e mais beijos. O vinho descendo na garrafa, alguns salgados desaparecendo, penetrando nossas bocas, o prazer do paladar. Como a vida é boa, simples, e acabamos querendo tantas coisas complicadas. James Joyce e Saul Bellow escreveram livros muito difíceis, plenos de angústia, acho que o passar do tempo, a solidão, o desejo reprimido, a premência da morte. A mão do namorado encostou às minhas coxas nuas, a saia curta convidava. O vinho tinha escrito a introdução. A vida fluía natural, era um rio, que não encontrava obstáculos. Aliás, outro dia li não sei onde, é possível se banhar duas vezes no mesmo rio sim; basta que ele seja lento e que tenhamos uma bicicleta veloz. Não sei por que lembrei a história do cabide. Minha amiga Tânia arranjou um namorado, de primeira ela aceitou o convite para ir à casa dele. Louca, a Tânia. Louca e feliz. Trajava um vestidinho branco, tinha renda e forro, bem passado, estava armadinho, não consigo imaginá-la que não vestida de bailarina. Sentou no sofazinho da saleta do namorado, era um apartamento pequeno, jeitosinho, um estúdio na verdade. O homem veio sorrateiro, sentou ao lado. Lembrou então que tinha na geladeira uma garrafa de champanhe. Ah, a champanhe!, afirmou minha amiga. Depois que ele abriu tudo correu bem, como o creme nas mãos de uma boa massoterapeuta. Minha amiga se soltou, imaginem. Uma delícia esse champanha. Por conta própria, avançou através da porta da pequena saleta. Oh, o quarto, que bom, a cama imensa. Deitou-se, inocente, chamou o homem pelo nome. Ele não demonstrou surpresa, apenas perguntou a roupa?, você vai ficar toda amarrotada. Você tem um cabide?, Tânia nua, nos braços do homem, o tal creme, mas já não o da massoterapeuta.

Meu namorado ficou a me admirar. Em que eu estava pensando? Quando éramos adolescentes perguntávamos ao namorado, caso o silêncio fosse longo, em que você está pensando? Outra coisa que acontecia naquela época era a dificuldade de se desligar o telefone quando nos despedíamos. Desligue você primeiro. Não, desligue você. Não, da outra vez fui eu quem desliguei, é a sua vez. O tempo passava acompanhando, curioso, nossa falta de assunto.

Depois de mais um beijo, bem quente, devastador, procurei minha taça de vinho sobre a mesa e tomei mais um gole. Posei-a a seguir sobre a mesa e sorri. Arrumei meus cabelos. Você gosta de sacanagem, não?, ri depois da minha pergunta. O namorado também sorriu. Pega então um cabide pra mim, vai.

domingo, fevereiro 17, 2019

Vamos beber mais champanhe

Estava na praia, deitada de bruços, sobre a canga. Posição estratégica, porque não há homem que não dê uma olhadinha. Alguém poderia perguntar como uma mulher bonita como você, que sempre tem namorados capa de revistas, deseja se mostrar de maneira tão intensa? Exatamente por isso tenho namorados de cinema, respondo tranquila. Meu biquíni é fio, entra todo, reparo que muitos dos meus admiradores olham com mais ardor para se certificarem de que não estou nua! Sério. Dou cada susto neles. Eles voltam a cabeça procurando a tirinha que me revela seminua. É sempre bom ser admirada, faz bem para o ego, acho que acontece o mesmo com todas as mulheres. Às vezes ando de biquíni no calçadão, quando há bastante gente, o sol quente, os quiosques plenos de rapazes lindos a bebericar, a tentar matar a sede. Quando me veem, esquecem a bebida, o que estavam conversando, esquecem mesmo as mulheres que os acompanham. Conto agora o que se seguiu, uma história deliciosa, dessas a que estou sujeita no dia a dia da praia.

Fazia tempo que permanecia deitada, o bumbum ardendo. Virei-me, sentei-me na cadeira. Não passou dez minutos, decidi subir ao quiosque, tomar um suco. Poderia tomá-lo no local, alguém o traria até meu guarda-sol, mas preferi dar uns passinhos, exercitar o corpo, reparar os rapazes. Pedi a alguém próximo você pode dar uma olhadinha nas minhas coisas? Sim, claro, fique a vontade disse a mulher. Apenas de biquíni segui, aventurei-me cem metros no calçadão. Mas que prazer, quanto tempo disse um homem e tanto, acho que artista de TV. Conversa antiga. Claro que ele me paquerava. Acabei por aceitar sua aproximação. Ao parar e trocar algumas palavras, percebi que vários passantes olhavam minha bunda. Faz um tempo um jornalista escreveu que as cariocas não andam de biquíni no calçadão, que isso é coisa de gente de fora. Nem quero pensar na tal crônica, sempre gostei de andar nua no calçadão. O homem me dragava, patati, patatá, patati, patatá. Eu gostando. Conversa vazia, mas plena de frisson. Onde podemos nos encostar para me dar um beijo?, meu o pensamento. A conversa mole continuava, corpo ginástica esporte sucos sol mar álcool. É preciso ter sorte nesse tipo de paquera, não se sabe de quem se trata numa praia comprida como essa. Tive uma amiga que acabou o dia nuinha. Lógico, era isso que desejava. Conseguiu trepar com um homem lindo, segundo ela, musculoso, como um campeão de atletismo. Tudo aconteceu por trás da arrebentação. Mas há homens que gostam de guardar para si alguns biquínis! Nunca tive uma sorte dessas, ou melhor, um  homem halterofilista a me deixar nua. Mas este, um marmelo doce como só, me lambia o corpo inteiro. Vamos dar uma volta, convidou. Minhas coisas estão lá embaixo, pedi a uma desconhecida para tomar conta, retruquei. Não faz mal, é rápido. Ele apontou algo incerto, adiante. Não sei por que desejamos e aceitamos companhias. O incerto e o perigo nos atraem. Será a solidão? Por mais bonita que sejamos, os homens nos querem para se deitarem conosco, ou para que os chupemos bem forte. A gente é de estirpe semelhante. Que tal apenas uma conversa sobre arte, uma garrafa de água mineral, um café... Não conseguimos. Será? Acaba predominando a linguagem do corpo, seu desejo, aliás, o desejo nosso por inteiro. Segui o homem, quero dizer, caminhei ao seu lado. Confesso que me arrepiei quando seu braço forte e longo envolveu-me, tocava-me a cintura. Um casal de namorados adolescente. Paramos adiante, em frente a um jipe enorme. Abriu a porta e me convidou a entrar. Não posso sair, minhas coisas estão na praia. Ele já sabia. Não iria sair, não saiu. No jipe havia um pequeno freezer. Abriu e tirou uma pequena garrafa de espumante. Em alguns segundos, a rolha espocou. Encheu duas taças de plástico, brindamos e bebemos. Muito boa. Ficou a me olhar, fez seu banco reclinar. Entendi seu desejo. Abaixei a cabeça, puxei sua bermuda. Seu pênis, bastante duro, penetrou minha boca, meus lábios molhados de champanhe. Ele segurava meus cabelos, não me deixou levantar a cabeça. Fiquei naquele exercício por uns cinco ou dez minutos, até que o homem explodiu dentro de mim. Segurou firme, até estar ciente de que eu engolira todo seu sêmen. No final, me soltou e sorriu, permaneceu no banco ainda deitado. Vamos beber mais champanhe, convidou. Quando acabamos, não esperava que ele tivesse tanta energia. Soltou os laços do meu biquíni e pediu que subisse sobre ele. Não quero dizer o prazer que senti. Eu ardia. Tive apenas tempo de dizer não goza dentro não, não tenho mais como engolir tanta porra.

Ah, os meus pertences. A mulher ainda estava lá, tomou conta direitinho.

segunda-feira, maio 21, 2018

Onde meu vestidinho?

Tenho um amigo que me adora. Aliás, às vezes nossa relação avança um pouco além da amizade, mas prefiro dizer que é meu amigo. Outro dia estávamos na praia, eu vestia um biquíni comportadíssimo, mas disse a ele que da próxima vez viria trajando apenas uma peça.

Uma peça?, surpreendeu-se.

Isso mesmo, uma peça.

Então você vem com os seios à mostra, sugeriu.

Nada disso, um maiô inteiriço, dei de ombros.

Ah, bom, ele entendeu.


Lembrei, então, de um antigo namorado, sapeca que só, não é que queria me deixar nua na praia? Eu queria mesmo era trepar com ele, uma gostosura, muito bom de cama, preferia mesmo ficar em casa a manhã inteira, eu nos braços dele. O homem, porém, queria me levar à praia. Eu cedia. Certa vez eu disse que iria, mas só com uma peça. Não fui vestindo o maiô inteiriço, apenas a parte de baixo do biquíni, e nada de comportado. Não é que dentro d’água ele me deixou nua? De uma peça, a nenhuma. Mas foi bom. A água gelada, eu nua. Ainda bem que aquela praia em R. O. estava vazia, não era temporada.


Volto ao meu amigo. Não sabe nada das minhas sapequices.

Você gosta de vestidões?, pergunta.

Vestidões, como assim?

Aqueles vestidos compridos, que descem até abaixo dos joelhos, ou mesmo até os pés.

Gosto, tenho três.

Você nunca vestiu nenhum deles pra mim, fez cara de amuado.

Qualquer dia desses a gente sai à noite, vou vestida com o mais bonito, afirmei solícita.

Ok, vou adorar, deve ficar bem em você; vou te dar mais um no teu aniversário.

Ficamos na praia, ao sabor do mar, do sol e do vento. No final da tarde, ele me abraçou, me carregou no colo. Adorei. Pele com pele, coladinha a ele. Tomamos um refrigerante num quiosque.

Sabe, voltei a falar, há homens que adoram mulheres bem vestidas.

Sou um deles.

Acho que nos desejam de vestidões, para depois nos despirem, tirar toda a roupa que temos sobre a pele, inclusive calcinha e sutiã.

Ele riu.

Você nem usa sutiã!


Eu e esse meu amigo trepamos duas vezes, e totalmente ao acaso. Uma foi na minha casa. Ele dormiu ao meu lado, durante a noite resolvi abraçá-lo. Ao acordar, pela manhã, estava nua! Jurou que não foi pelas mãos dele. Abracei-o, ainda nuazinha, e fizemos um amor muito gostoso. Depois coloquei o dedo sobre os seus lábios e disse a ele: isto não aconteceu. Continuamos amigos, nada mudou entre nós. Que bom, seja sempre assim!

A segunda vez... Bem, a segunda vez conto já. Antes, apenas um parêntese.

No dia seguinte fiquei sozinha em casa. Peguei um livro pra ler. Sentei no sofá e me perdi na história, uma história de amor. Mas, às nove da noite, o telefone tocou. Era meu amigo.

Tenho um presente pra você, afirmou solene.

Não é ainda meu aniversário.

Não faz mal, quero te dar o presente; no aniversário, dou outro.

Não gosto de largar um bom livro, mas o deixei de lado pra receber o meu amigo. Chegou às dez em ponto.

Abri a pequena caixa, um vestido. Mas nada de vestido comprido. Ao contrário, um minivestido branquinho. Meu amigo saliente!

Experimenta pra gente ver; se você não gostar pode trocar, aqui o cartão da loja e o nome da vendedora.

Fui ao quarto, vesti a roupa, cheirinho gostoso de roupa nova. Caiu perfeito no meu corpo. Tão curtinho. Voltei à sala.

Ah, eu que pensei que você gostava de mulher com muito pano!

Meu amigo me abraçou. Depois fomos ao restaurante, pertinho de casa, eu dentro do vestidinho.

Morro de vergonha, estou nua, tudo de fora.

Nada disso, você está ótima, ele me consolou.

Bebemos duas caipirinhas. Voltamos abraçados. Dormimos juntos. A bebida havia me deixado soltinha. Pendurei o vestidinho no encosto da cadeira e pulei sobre o meu amigo. Devagarinho, abri as pernas. Minha xota molhadinha!

Mas, no dia seguinte, quando acordei, ele já havia partido. Onde meu vestidinho? Não encontrei. Nem a caixa, nem o papel, muito menos o cartão da loja com o nome da vendedora.

Hum, será que meu amigo veio mesmo ou era a história do meu livrinho?

quarta-feira, maio 10, 2017

Onde fica a Colômbia?

Já faz tempo que sou guia turística, levo pessoas aos mais diversos lugares, dentro do país ou fora dele. Sempre conduzo nossos clientes de forma amorosa e exemplar. Muitos continuam viajando com nossa empresa por causa do tratamento especial que dou a todos. Na última excursão, fomos a Santiago do Chile. No grupo havia trinta e quatro pessoas. Chegamos a Santiago num domingo à noite para uma estada de cinco dias. No aeroporto, um ônibus aguardava para nos levar ao hotel, que ficava em Las Condes. Apesar de ser tarde da noite, todos pareciam muito felizes. Adoraram também o hotel, requintado e confortável. Na primeira noite, após a viagem de quatro horas mais a demora nos trâmites do aeroporto, só nos restava o descanso.

Não pretendo mencionar aqui todos os lugares por onde andamos. Apenas digo que a cidade de Santiago, com sua mescla de prédios antigos e modernos, com a amplidão de suas ruas e avenidas, é adorável. Quem gosta de vida boêmia também não pode reclamar. Há bairros com bares e feiras populares, que funcionam até a madrugada, principalmente no verão. A cidade, ao mesmo tempo, oferece um clima de cultura intensa, pois é possível visitar livrarias, museus e assistir a alguma peça de teatro. As cidades de Valparaíso e Viña del Mar, as vistas que proporcionam e a presença do mar, contribuem para completar o espírito de férias e descanso que uma viagem a este país proporciona.

Depois de três dias na cidade, de alguns passeios e de descanso no hotel, jantamos num restaurante do bairro de Las Condes. Todos apreciaram muito a culinária local e experimentaram vinhos e cervejas. Eu, como guia, bebo pouco. Naquele dia, porém, incentivada por várias pessoas do grupo, exagerei com uns goles a mais. Falamos um tanto mais alto devido à animação, e contamos muitas piadas. Um dos jovens leu alguns parágrafos de um livro, uma comédia muito interessante. O que aconteceu de especial vem a seguir.

No grupo, havia um homem de meia idade que viajava sozinho. Disse-me que nunca gostou de excursões e que aquela era a sua primeira. Ingressara no grupo devido à indicação de uma amiga sobre o meu profissionalismo em conduzir turistas ao exterior. Conversamos durante vários intervalos no decorrer da viagem e dos passeios. Nesse terceiro dia, ou noite, porque se tratava de um jantar, ele ficou a me observar com mais entusiasmo do que de costume.

Após toda aquela alegria, voltamos ao hotel. Algumas pessoas, sobretudo os mais jovens, pediram que aproveitássemos o bar do hotel, que ainda estava aberto àquela hora, e que bebêssemos ainda um vinho ou mesmo cerveja, assim poderíamos continuar as conversas interrompidas com o final do jantar. Então, eu soube dos namoros que aconteciam entre aqueles que compunham o grupo. Havia jovens, homens e mulheres, que trocaram de apartamentos para que se formassem casais e que pudessem namorar livremente durante a noite. Falaram de algumas peripécias, sempre sobre outros, nunca sobre si. Mas mesmo assim foi muito engraçado. Disseram que a jovem Elisa, de cabelos compridos e cara de freira, entregou-se aos abraços de um homem mais velho. Ela se despiu com as próprias mãos, agarrou-o durante boa parte da noite e depois saiu envolvida num roupão, porque em meios à confusão que os dois estabeleceram no apartamento não lhe foi possível encontrar o vestido. Houve outras histórias tão hilariantes quanto.

Depois de sairmos do restaurante e subirmos aos apartamentos, ouvi três batidas suaves à minha porta. Era o homem que nunca viajara em grupo. Ele desejava me oferecer uma sobremesa, que trouxera do restaurante. Guardara-a com cuidado, para mim. Convidei que entrasse e aceitei o doce. Este homem tinha um talento especial, sabia fazer imitações com perfeição e começou a falar e fazer gestos como quase todos os integrantes do grupo falavam e agiam. Não aguentei de tanto rir. Ri tanto que tive de correr para o banheiro. Lá dentro, ainda continuei às gargalhadas. Quando saí, ele se pôs a me arremedar. Representou como se fosse eu a conduzir o grupo, imitou minhas falas nos passeios e, o mais engraçado, depois de eu ter bebido duas ou três taças de vinho. Ri tanto que acabei com sede. Bebi um copo de água mineral. Reparei, então, que sobre a pequena mesa, no interior do apartamento, havia duas garrafas de vinho. Abri uma e ofereci a ele. Continuamos a conversa, naquele momento de forma mais amena, já livre de tanto riso. Não sei quantos minutos se passaram, comecei a sentir um calor intenso. Lembrei que quando bebo demais passo a ter um instinto incontrolável para o sexo, e como aquele homem estava ali...

Mas não pensem que transei com ele. O homem bem que notou todo o meu fogo. Mas me dominei a tempo e disse que estava cansada, prometi que quando voltássemos ao Brasil poderíamos nos encontrar e conversar com maior liberdade. Ele quis contra-argumentar, mas aleguei que já estava tarde, no dia seguinte faríamos o último passeio, "precisamos acordar cedo", despedi-o. Ele se foi, muito polidamente, apesar de eu perceber em seu rosto um traço de contrariedade. Assim que saiu fiquei eu com o meu fogo, e sem saber como abrandá-lo. Tirei toda a roupa e vesti um roupão oferecido pelo hotel, apenas aquele tecido atoalhado sobre o corpo. A partir daí, fiz minha investida, que posso chamar de temerária.

Saí do quarto e caminhei pelo corredor até os elevadores. Quando o sinal de um deles soou, apareceu um homem jovial, que me perguntou:

"De onde onde és?”

“Brasil”, respondi. “Usted?”, abri-me num sorriso largo.

“Colômbia”, parou e esperou que eu tomasse a inciativa.

Foi aí que falei:

“Puedes esclarecer a mi donde fica Colômbia?”

Lépido, apontou a porta do seu apartamento.

Depois? Claro que explicou, e com muitos detalhes!

quinta-feira, maio 04, 2017

Eu, enfim, cedia

Mas se eu enfim cedia... Talvez fosse porque ninguém me conhecia naquela cidade. Quando as pessoas não sabem quem somos, ou quando estamos num lugar onde jamais estivemos e somos desconhecidas, tornamo-nos mais corajosas. Foi o que aconteceu naquela madrugada.

A cidade era Flores, um lugarejo à beira mar, e a proposta dele era tentadora, ou melhor, sugeria algo que testava minha coragem. Acho que tudo começou porque ele me viu andando pelo pequeno centro da cidade apenas de biquíni. Sempre entendi como normal uma mulher passear de biquíni quando está próxima à praia. Naquele local ainda não era propriamente a praia, faltava uma ou duas ruas, porém o cheiro do mar era tentador. Saí da casa onde estava hospedada, de biquíni e uma pequena bolsa a tiracolo. Num primeiro momento não dei conta se alguém me reparava. Havia algumas meninas brincando, também vestiam trajes de banho, e como sorriam. Sorri de volta. As meninas tinham os cabelos loiros e pareciam francesas. Segui na direção do mar. Parei numa das esquinas onde havia um quiosque, pedi dois maços de cigarros. Comecei achar que fizera a escolha certa ao permanecer alguns dias naquela cidade. Ao chegar à praia vi outras pessoas sentadas na areia, umas sobre espreguiçadeiras, outras sobre um pano estendido em cima da própria areia. E havia outras crianças. Escolhi um lugar em meio às pessoas. Um rapaz veio me oferecer uma espreguiçadeira e um guarda sol, de aluguel. Não recusei. Após sentar e apoiar minhas bolsas sobre o tecido que eu tirara da bolsa, comecei a ler uma revista. Mas a presença do mar era mais forte. Ele me tirou da página que eu tentava ler. Fiquei observando como estavam serenas as águas da praia, ao longe alguns barcos pareciam ancorados. Após olhar toda a extensão de areia, de reparar o barulho de domingo, ou de um dia de férias, voltei à leitura. O homem que apareceu para conversar chegou duas horas depois. Eu já havia entrado na água e tomara cuidado para não molhar os cabelos. Ele sorriu, ficou próximo e não demorou a vir perguntar-me se eu era turista ou se mudara para cidade. Sorri, tentando ser simpática. Disse que estava de férias, mas que não demoraria na cidade. Ele retrucou dizendo que era uma pena, o lugar era tão bom, que ficar menos de duas semanas seria uma perda. Achei engraçada a palavra perda, não tenho o costume de definir perda da mesma forma que ele. Mas sorri ainda, compassiva com o que ele dizia. Na verdade, eu não queria companhia, mas o homem ficou ao meu lado, em pé, a elogiar o local. Pensei que pudesse ser um comerciante que logo ofereceria o seu produto. No entanto, tratava-se de alguém que não está acostumado a encontrar mulheres sozinhas, um tipo de machismo muito comum nas muitas cidade do nosso país. Depois de algum tempo, peguei a revista e deixei de dar atenção a ele, voltei à leitura. Minha ação foi eficiente. Despediu-se e se retirou, antes disse que se precisasse de alguma coisa era só procurá-lo, pois todos o conheciam na cidade, chamava-se Éden. Continuei no mesmo lugar, lia a revista e sentia no corpo o sol e o cheiro do mar, a cidade possuía um frisson que excitava, difícil de traduzir em palavras. Fui à agua várias vezes, mas sempre com cuidado para não molhar os cabelos. Em uma dessas idas, reparei um rapaz, que também me olhou e sorriu, chegou a piscar um dos olhos. Tive vontade de conversar com ele, porém, não se aproximou. Às cinco horas, voltei para a pousada.

Fiquei no quarto até nove da noite. O banho de mar me deixara mole e sonolenta. Mas não podia ficar sem comer até o dia seguinte. Saí às dez e logo descobri, no pequeno centro, uma rua estreita onde se enfileiravam muitos bares, todos cheios, com pessoas jovens em sua maioria, bebiam e conversavam animadamente. O que me chamou a atenção foi que estavam todos muito bem vestidos. Encontrei uma mesa lateral em um dos bares e pedi ao garçom o cardápio. Havia vários pratos quentes e frios. Optei por uma salada e uma taça de vinho branco. O bar requintado da cidade interiorana era bem abastecido, tinha até mesmo muitas bebidas importadas. Antes da salada, serviram-me uma espécie de entrada, um prato quase ornamental, uma grande folha de alface espetada, e duas fatias de presunto, que vinham enroladas em si mesmas. Ao fim de trinta minutos, veio o prato pedido. Nesse meio tempo eu já observara às pessoas ao redor e reparara uma jovem que não cessava de olhar para mim. Achei estranho seu olhar. Num momento de distração, enquanto repousava o garfo e tomava um gole da taça de vinho branco, reparei que se encontrava ao meu lado, sempre sorridente, com ar indagativo. Perguntou se eu não me aborrecia estar sozinha. Respondi que não, estava acostumada a viajar e já me habituara. Perguntou ainda se podia ficar um pouco à minha mesa. Sim, respondi movimentando os ombros, como se aquilo não me aborrecesse.

É a primeira vez que você vem a Flores?, ela quis saber.

Sim, falei enquanto levava a taça aos lábios.

De repente ela perguntou:

Você reparou como os homens dessa cidade são engraçados?, disse isso enquanto sinalizava ao garçom para se aproximar. Sorrindo, pediu a ele um coquetel, não entendi o nome.

Os homens daqui são terríveis, viu? Terríveis e engraçados.

Engraçados, como?, demonstrei surpresa.

Ah, engraçados; chegam a estar pertinhos da gente, perguntam alguma coisa e depois desaparecem.

Desaparecem?, repeti.

Isso mesmo, repetiu, se a gente fica com vontade de sair com algum deles, fica apenas na vontade, porque não se sabe mais onde estão.

Agora me lembro, recuperei o que me acontecera na praia, um homem se aproximou e veio conversar, disse que todos o conhecem na cidade, que se precisasse de alguma coisa era só procurar por ele, seu nome é Éden, depois surgiu um rapaz que piscou o olho e não se aproximou.

São assim, sei quem é o que foi até você e se ofereceu para qualquer necessidade, fala assim com todas as mulheres.

E vocês, eu queria saber, não namoram ninguém, não casam nesta cidade?, fiz cara de curiosa.

Ela deu uma gargalhada. O garçom se aproximava com uma bebida de cor vermelha, colocou a taça, muito bonita, diante dela.

Ah, ela mostrou-se surpresa, não me apresentei, meu nome é Gorete.

E o meu é Sandra, retruquei. Onde estão suas amigas?, olhei para mesa onde ela estava momentos antes e reparei que se encontrava vazia.

Ah, foi sobre isso que falei a você, querem testar os homens da cidade, falei que não valia a pena, mas mesmo assim elas não me deram muita bola.

Elas não residem aqui?

Não, em Estância, fica a trinta quilômetros do litoral. Sempre vêm à cidade nos dias de folga, adoram este centro e dizem que aqui é mais fácil de paquerar.

Paquerar?, repeti e sorri.

Gorete começou a contar sobre uma de suas amigas, que namorara um rapaz na cidade. Saía com ele todas as noites, mas dizia estar cansada de fazer as mesmas coisas. O rapaz, para não perder a namorada, começou a criar fantasias, assim ela se distrairia e não ficaria reclamando. Passaram a representar papais diferentes, como não se conhecessem e se encontrassem de repente ao acaso, viviam várias situações, até mesmo algumas em que a mulher simulava estar em apuros.

Como, em apuros?, quis que ela me explicasse melhor.

Acho que faziam de conta que ela precisava de ajuda, como se estivesse afogando na praia, ou perdida na estrada. Numa dessas brincadeiras ela me falou que ficou esperando por ele totalmente nua, sorriu ao pronunciar a última palavra, e levou aos lábios o coquetel.

Ao vê-la tomar um gole, lembrei-me de dizer que a atmosfera da cidade me causava certo frisson.

Frisson?

Gorete achou a palavra interessante.

Então, falta frisson aos homens dessa cidade, acrescentou.

Mas sua amiga arranjou um homem que provoca arrepios, não?, acrescentei.

Ele é uma exceção. Já até tentei sair com ele, mas o homem não quis.

Jura?

Juro, meneou a cabeça positivamente. A cidade é muito pequena, ele falou, logo alguém vai nos ver juntos. E o que tem isso de mais?, perguntei a ele. Gosto muito da Anita, encerrou ele a conversa.

Não tenho atualmente necessidade de homens, não hesitei em falar. Eles, na maioria das vezes, aborrecem muito.

Você tem razão, mas a gente nunca segue o pensamento lógico, é a tal da paixão a nos complicar, ou o corpo a respirar, franziu a testa e sorriu. Sua expressão revelou mais charme do que eu antes pudera perceber.

Uma mulher chamou por Gorete, estava à beira da rua, fez sinal para que ela viesse até a borda do bar. Gorete atendeu ao chamado. A mulher cochichou algo no seu ouvido. Gorete sorriu, devolveu algumas palavras, deu um breve adeus e voltou à mesa.

Uma maluquete amiga minha, e deu uma sonora gargalhada.

Suas amigas são interessantes, atalhei.

Nem sempre, às vezes são engraçadas.

O que há de cômico nessa?

Acho que você não vai gostar de saber.

Por quê?

Porque você parece uma pessoa recatada, ela falou.

Como você sabe?

Veja, você ficou na praia a tarde inteira e não namorou ninguém, usa um biquíni até certo ponto conservador, não veio para este bar com a intenção de azarar, gostar de sentir a atmosfera de frisson que emana da cidade...

E o que há isso com o fato de sua amiga ser cômica.

É outra que vive a mil com o namorado, veio dizer que vai com ele a uma boate.

Que legal, não sabia de boates por aqui.

O problema não é esse, acrescentou, você reparou, ela já está quase nua e disse que só volta de manhã. Outro dia veio com a história de que o namorado gosta de lhe roubar a calcinha, toda vez que sai com ele volta sem. Hoje veio me dizer que ele não vai poder roubá-la, adivinhe por quê?

Ela veio sem.

Isso mesmo, você é inteligente. Ao terminar de falar, Gorete sorriu e me convidou para uma surpresa.

Se é uma festa não quero, afirmei, não gosto de multidão.

Nada de festa, vai ser uma experiência nova para você, garanto, e é um segredo nessa região. Vamos comigo, trata-se de algo ligado à natureza.

Você me espera beber mais uma taça de vinho?, impus como condição.

Ok, ela atendeu.

Enquanto esperei pela nova taça, acrescentei:

Na minha cidade já tive um namorado como este de sua amiga. Ele gostava de me levar nua dentro do carro, acredita?

Sério? Na cidade grande também acontece isso?

Os homens são os mesmos em qualquer lugar. Ele vestia terno, todo bem arrumado, ia me pegar quando eu saída de uma academia de ginástica. Eu vinha com aquela malha grudada ao corpo. Ele pedia que eu a tirasse dentro do carro, guardava toda a minha roupa dentro de uma valise e me levava nua ao seu lado. Era uma coisa de arrepiar.

E você acabou gostando?

Não é que acabei gostando, era o susto, sei lá, às vezes até era bom, mas o namoro não deu certo, não era isso que eu queria.

O garçom chegou coma a nova taça de vinho, e a amiga de Gorete surgiu novamente na borda do bar e a chamou. Gorete pediu licença. Enquanto tomava o vinho, ela deixou a amiga durante alguns instantes e foi ao toalete. Depois voltou, aproximou-se dela e lhe disse alguma coisa, os braços de ambas se cruzaram. Tomei mais um gole do vinho e Gorete voltou à mesa. Sua amiga desaparecera.

Deixamos o bar e a rua plena de gente. Caminhamos duas quadras e entramos no carro de Gorete. Ela guiou durante uns trinta minutos, afastando-se sempre da zona urbana. Antes da rodovia estadual, entrou num atalho, dirigiu durante mais dois quilômetros e parou o carro. Descemos. Havia várias árvores e estava escuro.

Não tenha medo, ela disse, venha comigo.

Ela andava como se já frequentasse o local havia tempo, caminhava rápida entre as árvores, vencia obstáculos e segurava minhas mãos quando me reparava temerosa. Chegamos, enfim, a um lago.

A água é quente, você vai gostar.

Caminhou até a beira, tirou a sandália e molhou os pés.

Venha ver, é muito gostosa, em cada lugar a temperatura é outra.

Não queria me molhar, falei.

Não se incomode, você nunca sentiu um prazer tão grande, falou e, radiante, deu-me as costas e tirou o vestido. Gorete estava sem calcinha.

Venha, não tema.

Não queria desagradá-la, mas confesso que comecei a ficar preocupada, pois a conhecera fazia pouco tempo, não sabia de quem se tratava e a mulher me convidava para ficar nua à meia-noite.

Não tema, venha.

Comecei a me despir, mas fiquei preocupada onde deixaria minhas roupas.

Não se preocupe, acrescentou adivinhando meus pensamentos, ninguém vem aqui.

Entramos então na água. Ela segurou uma das minhas mãos.

Gorete tinha razão. Em cada lugar que parávamos havia um tipo de temperatura.

Este lago mexe com a gente, ela fechou os olhos e demonstrou que sentia um tipo diferente de prazer. A gente até goza, nem precisa de concentração.

Apesar dos meus temores, tentei imitá-la na busca pelo prazer. E qual foi minha surpresa ao me ver arrepiada, começava a sentir um gozo como jamais sentira. Fui ficando cada vez mais excitada, meu coração chegou a se agitar.

Ainda bem que não sofro do coração, deixei escapar.

Ela sorriu. Ninguém morre de prazer, sentenciou. Ficamos as duas numa espécie de gozo que se prolongava, que se repetia, que nos arrebatava. Ele chegou a dizer:

Sinta apenas, não precisa olhar, chega-se a sentir um pênis a nos penetrar.

Não mais queríamos deixar o lago.

Parece um feitiço, cheguei a dizer, mas um feitiço positivo.

Um feitiço, uma magia, a magia do prazer, e ela gritou como se gozasse intensamente, um orgasmo profundo, quase definitivo. Não me contive, imitei-a no grito, um ardor prolongado.

Exaustas e ainda nuas deixamo-nos cair um pouco acima de uma das vertentes, ficamos de mãos dadas, tocando-nos com a lateral do nossos corpos.

Aqui ficam todas as angústias, falou depois de um longo tempo.

E não precisamos dos homens, acrescentei, o que é muito importante.

Quando começamos a voltar ao carro foi que nos preocupamos em descobrir onde tínhamos deixado nossas roupas.

Cheguei à casa onde estava hospeda ao amanhecer. Naquele dia dormi até às duas da tarde.

Depois do almoço, fui à praia. Deitada sob o sol e olhando uma paisagem surpreendente, comecei a pensar sobre o prazer que sentira na noite anterior. Não passou muito tempo para que se aproximasse e se agachasse junto a mim o homem do dia anterior. Perguntou se eu precisava de alguma coisa. Respondi que o mais interessante naquele lugar era a tranquilidade. Minha resposta tinha a intenção de afastá-lo. Mas não foi assim que ele entendeu;.

Este local é realmente um paraíso. Tenho um amigo que pertence a uma igreja que quer construir o paraíso na terra, disse a ele para vir aqui, o paraíso já existe, terminou sua sentença com um enorme sorriso. Depois me perguntou se eu mergulharia, pois, continuou, não era bom arriscar-se a uma insolação.

Ri de sua última palavra, e ele entendeu o meu gesto como sinal de simpatia. Caso eu entrasse no mar, estava pronto a me acompanhar, embora afirmasse que a praia, apesar de mar aberto, tinha as águas calmas. Permaneceu ainda ao meu lado por um tempo que me pareceu enorme. Não tinha mais o que falar. Eu também me mantive silenciosa.

Quando o sol atingiu aquele ponto limite sobre meu corpo, o estágio que aponta tênue divisa entre moderação e excesso, levantei-me, sorri ainda uma vez ao homem e caminhei para a beira d’água. O contraste entre a temperatura do meu corpo e a da água do mar provocou-me certo prazer. Mergulhei. Depois de dois ou três segundos voltei à tona. A água escorria pelos meus cabelos e borrifei através dos lábios um pouco da água salgada que sempre ouso experimentar enquanto mergulho. O sal sempre estimulou todos os meu sentidos. Dei as costas para a praia, pretendia admirar o horizonte. Mas o que descobri em primeiro plano foi o homem que me espionava na areia. Viera atrás de mim, também mergulhara e nadara, submerso, mais longe. Sorria, pouco a pouco aproximou-se. Notou que não me agradava, mergulhou de novo, deixando-me sozinha. Naquela tarde não mais o vi. Então, pude praticar algo que sempre me deu prazer, desde menina, sei que é uma bobagem, mas para mim tem significado. Tirei a parte de baixo do biquíni e o prendi no tornozelo, como se faz com uma pulseira em volta de um dos braços. Nadei apenas de top, de um lado a outro, sentindo o prazer da água fria entre minhas pernas. Pensei no homem que me espionara. Será que estaria por perto. Acho que gostaria de me encontrar nua, de poder tocar a minha pele, de me namoricar um instantinho que fosse. Achei até que poderia estar escondido, quem sabe submerso, e conseguisse descobrir minha nudez. Mas isto não aconteceu. Às cinco da tarde, voltei à pousada.

À noite, depois das nove e meia, encontrei Gorete de novo. Ficamos durante algum tempo no mesmo bar da noite anterior. Ela pediu sua bebida rubra, enquanto eu optei pelo mesmo vinho. Aqui, os donos de bar tem bom gosto, as bebidas são esmeradas, elogiei.

Gorete sorriu. Sua amiga, a mesma que a chamou da borda do bar na noite anterior, aproximou-se. Beijou-lhe ambas as faces. Gorete apontou para mim, a moça sorriu e acenou. Ao voltar, segurou seu copo, tomou um gole e falou:

Ela achou seu vestido lindo, disse que adora vestidos que vão até os pés.

Achei que ela preferisse sempre os de pouco comprimento.

Nada disso, o negócio dela é mais embaixo.

Ambas rimos.

Passava de uma hora quando saímos juntas do bar. Vamos andar de carro, sugeriu minha amiga. Ela se pôs ao volante, ligou o carro e deu a partida. Costeamos a praia, e entramos por uma pequena estrada que subia um morro. Na parte mais alta era possível ver o outro lado da enseada.

Bonito daqui, falei.

É muito bonito.

Será que o prazer vai ser o mesmo de ontem?, eu comecei a sentir o frisson que a noite emanava.

Acho que maior, ela sorriu depois da resposta.

Gorete dirigiu descendo a vertente oposta da montanha. Não havia ninguém, apenas nós deslizávamos estrada a baixo. Ao chegarmos à praia, ela desligou o motor, abriu a porta e saímos direto para a areia da praia.

A água aqui é quente, como a do lago, embora o mar seja aberto.

Tirei as sandálias, segurei-as com uma das mãos e caminhei até a beira. Verdade, a água estava quente.

Gorete aproximou-se e segurou-me pela cintura, levantou o meu vestido.

Não precisa fazer isso, eu mesma tiro.

Fiquei nua. Gorete abraçou-me. Ao apertar-me num abraço estreito, senti algo rijo onde deveria ser o sexo de uma mulher. Ela também tirou a roupa. Gorete tinha um pênis. Como eu não notara da vez em que estivéramos no lago? Ah, o prazer foi tanto..., pensei

Não se assuste, só se você quiser, falou, sem conseguir escondê-lo, sem conseguir evitar que crescesse ainda mais.

Olhei um tanto estupefata, mas me recuperei a tempo. Pensei muito, num curto espaço de tempo.

Já sei, dei uma sonora gargalhada, é você que rouba as calcinhas das moças da cidade.

Só as calcinhas? Já levei comigo tantos vestidos, elas adoram andar nuas, e adoram trepar comigo.

Sou como elas, eu enfim cedia, por aqui ninguém me conhece, faça a seu bel prazer, aja como se eu fosse uma delas. Corri e mergulhei no mar noturno. Gorete seguiu-me.