quarta-feira, fevereiro 23, 2022

Não há dúvida

Eu tinha me separado e me mudado para a serra. É assim que a gente fala aqui na região. Há uma diferença entre morar na cidade, que é a sede do município, e a serra, na verdade um distrito, lugar rústico, de clima ameno, cortado por um rio de águas cristalinas permeado por várias quedas d’águas.

Logo nos primeiros meses, fiz amizades, em geral com pessoas bem mais jovens do que eu. Contaram-me sobre as possibilidades de passeios, como caminhadas e escaladas, recantos de onde se pode apreciar uma paisagem muito bonita. O mais interessante, porém, é o período de verão. Muita gente vem tomar banho na cachoeira ou no rio. Há jovens que preferem o banho à noite, quando, da mesma forma que acontece durante o dia, desejam aliviar o calor trazido pelas correntes de ar quentes que envolvem a região.

Com o passar do tempo, no entanto, não custei a descobrir que a frequência ao banho noturno não é desejada apenas para aliviar o calor, mas porque os rapazes aproveitam para tirar a roupa das moças, que mergulham como Evas e nadam nas águas frescas locais. Formam-se casais sem se fazer alarde, o prazer então é maior.

Como sou dez ou quinze anos mais velha do que a maior parte dos jovens, a princípio fiquei com um pé atrás, mas em poucos dias me apareceu um admirador que foi comigo para o tal banho. Arranjamos um local à margem, arborizado, onde eu pudesse me despir à vontade. Depois entramos n’água e aproveitamos. Caso encontrássemos outro casal, tudo permaneceria na maior discrição, como se fôssemos os únicos no local. Meu namoradinho, que é só para essas coisas (nada de ficar no meu pé, já avisei de antemão), no escuro da noite, entre carícias da água morna e de suas mãos, me contou casos muito engraçados da região, dentre eles o de uma frequentadora gostosona que tem um marido muito ciumento.

Ela, durante o dia, estende uma toalha sobre a pedra, abre uma revista e fica tomando sol vestindo o menor biquíni da região. À noite, quando o marido está de plantão, ela reaparece, e não é apenas para o banho. Há quem diga que ela tem cinco amantes. Como o lugar é pequeno, poucas coisas para fazer, é preciso dar um desconto. Ela deve namorar no escurinho da noite com apenas dois, ou mesmo um. Foi o que pude constatar numa das vezes em que me misturava às sombras das árvores, à cata de minhas roupas. Ela sorriu para mim, um sorrisinho cúmplice e levou um dos rapazes pelo braço. Não notou que eu tinha um acompanhante, fez um sinal que eu esperasse, queria me mostrar algo. Fiquei pensando o que uma mulher poderia mostrar a outra num lugar escuro, depois das dez da noite. O que fiz foi namorar, o máximo que pude. Depois disse ao namoradinho vamos lá pra casa, podemos aproveitar. Após ele ter ido embora, fiquei a refletir o que aquela mulher desejava conversar comigo.

No dia seguinte, descobri. Ela foi bater à minha porta para pedir um favor: aqui todos são discretos, conto com você, viu; se meu marido souber, acho que me mata, não fale nada pra ninguém. Contou em seguida sobre as alegrias que vivia na região. No final, ainda confessou: aqui é como o paraíso, namoramos todos, e eles namoram todas, nunca houve um lugar tão feliz: às vezes a bagunça é tão grande, continuou ela, bagunça no bom sentido, você entende, que volta e meia uma de nós volta nua pra casa, só no dia seguinte é que consegue encontrar as peças de roupa, é o maior arrepio!

Não consigo sentir arrepio em ter de voltar pelada pra casa, mas que os garotos são gostosos, não há dúvida.

quarta-feira, fevereiro 09, 2022

Garota das exclamações

! Sou a garota das exclamações! Tanto mais hoje, porque estou em Búzios. Uma garota de 18 anos, livre, e numa cidade onde todos dizem ser o paraíso, pode não querer nada mais na vida. Mas eu quero! E não é mentira. Ao chegar, logo após o meio-dia, as pessoas hospedadas na pousada me olham com o rabo de olho. Admiram meu corpinho de modelo! Entre elas, há um rapaz. Dizem que ele veio com uns amigos, já me informei.

Cinco da tarde, praia da Ferradurinha, perto do centro, uma fila de homens de todas as idades vira a cabeça quando passei de biquíni. Laura, você não deveria vir com um biquíni como esse, diria minha amiga Dina. Por quê? Porque vão achar que você é bem piranha. Mas em Búzios! Eu exclamaria. Em Búzios e em todos os lugares, eles sempre pensam que somos piranhas, concluiria. É isso que eu desejo, deixe-os pensar que sou uma mulher que dá pra todo mundo! Mas, engraçado, na Ferradurinha, ninguém se aproximou. Em M, logo aparece alguém, quer fogo para acender o cigarro, uma informação, histórias de que estão há pouco tempo na cidade, dicas de restaurantes e bares badalados. Não sou guia turística, afirmo sorridente. Uma vez dei informações a um dinamarquês; quando ele foi ao bar, quem estava lá? Euzinha, aqui! Búzios é uma cidade onde as pessoas são discretas. Quem é interiorano, não vem para cá. Os rapazes nos olham de longe, ficam sonhando com uma boa trepada. Muitos ficam apenas no sonho! Eu não quero sonhar. Há um jovem lindo, de bermuda florida. Levanto, caminho até a beira d’água, perto dele. Está fria!, exclamo. Ele ri. Gosto do Nordeste, porque lá a água do mar é sempre quente, falo, quase em segredo. Ele me olha, sorri, quer dizer alguma coisa, apenas repete: sempre? Isso. Outra coisa, para arranjar namorada é bom, porque há muitas mulheres!, falo. Sério?, arregala os olhos. Sério, afirmo, mas há um lugar melhor do que lá para isso, continuo. Onde?, ele parece interessado. Em Búzios. Em Búzios?, repete em forma de pergunta, dando bastante entonação. Em Búzios, repito. Aqui, então, ele confirma. É lógico que é aqui, idiota, penso mas não chego a dizer. Perco a vontade de abraçá-lo. Afasto-me. Tenho certeza de que pensou que sou eu quem deseja arranjar namorada. Quando estou dentro d’água, outro rapaz se aproxima dele. Os dois trocam algumas palavras sobre mim, tenho certeza.

À noite, em Búzios. Não fale, a noite em Búzios é uma loucura. Não vá com ninguém antes das duas da madrugada, me aconselhou Dina. Por quê?, quis eu saber. Porque você vai perder o melhor da noite. Não posso perder e ganhar?, eu sempre querendo compensar. Como assim?, ela é esperta, mas prefere me escutar. Conheço um às onze, outro à meia-noite, outro a uma da madrugada, fico com um, com outro etc.; depois, às 2h30, o principal. E se o primeiro não te largar?, ela quis saber. Sou eu que vou largá-lo... Às vezes não é assim que as coisas acontecem!, exclamou.

As moças andam de shorts, ou mesmo de biquínis, não há muita diferença. Como sempre, o número de mulheres é maior, muitos homens juntos também. Oi, você está na minha pousada, escuto de um rapaz. Ele é bonito. Mas ainda são 22h00. Tenho vontade de dizer me procure depois das duas, mas mantenho a linha. Estou, sim, na sua pousada. Ele me toca as mãos. Vamos beber uma cerveja, diz. Prefiro Absolut! Ele arregala os olhos. Absolut? Movo a cabeça, faço um movimento de face que diz é óbvio. Ela bebe e a levo para cama, adivinho seu pensamento. Mas é ele quem bebe uma Heineken, fica altinho e vai com os amigos.

Moça, você é muito bonita, precisamos de mulheres jovens e bonitas, para uma festa numa mansão; você vem com a gente? Três garotas no banheiro me convidam. Uma festa particular, com piscina, open bar... Isso mesmo, diz a mais espevitada. Mas como vou saber que vocês não vão me dar um golpe, que não se trata de armadilha? Tais pensamentos me afastam da magia do local. A do meio diz: ela não conhece a gente, é um pouco difícil decidir, eu ficaria também na dúvida. O que pode acontecer?, pergunto-me. As moças são tão bonitas. Logo, a seguir, respondo: vou! Não há perigo em Búzios, é o paraíso, reflito. Quero fazer duas perguntinhas, tudo bem?, peço. Pergunte, diz a mais alta. Vocês conhecem os donos da festa? Conhecemos, é um velho amigo. E bota velho nisso, diz a menor, sempre sorrindo. Agora, a segunda pergunta: O máximo que pode acontecer é a gente ter de ficar nua, não é mesmo! No lugar da pergunta, exclamo. As três riem, a mais alta diz: você parece ser uma mulher experiente!