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sexta-feira, maio 08, 2026

Demônios

Não é bom despertar os demônios que temos dentro de nós. Quando eu era adolescente, namorava como todo mundo, abraçava, beijava e trepava, mas tudo de modo bastante suave, com namoradinhos de ocasião. Ao chegar aos trinta anos, ainda solteira, arranjava muitos namorados, aproveitava a vida. Um dos homens com quem saí nessa época foi o tal que começou a despertar meus demônios. Era dez anos mais velho do que eu e sabia não só conquistar uma mulher, como também fazê-la sentir prazer. Foi o primeiro com quem gozei de modo verdadeiro. Era muito potente na relação sexual e também em inventar fantasias. Sim, estas começaram a me fazer vibrar a duzentos por hora, se é que posso dizer assim.

O homem sabia contar histórias, e as contava na hora do amor. Vocês já escutaram histórias na hora boa da trepada e gozaram mais por causa delas? Ele conseguia. Passadas algumas semanas da primeira história, senti vontade de colocar em prática o que ele me narrava. Uma coisa é a realidade, alertou, outra, a literatura. Mas não dei ouvidos, queria o meu prazer. Se era tão excitante escutar, imaginei como seria praticar todos aqueles eventos.

Não pensem que vou repetir aqui a história da mulher que bate nua à porta do namorado. Esta já é antiga, já aparece diversas vezes no blog da Margarida e nas antologias publicadas por ela. Dentre muitas, vou contar a história da noiva que foge, porque, quase no momento do casamento, descobre que o tal ato não combina consigo.

Ela salta pela janela da própria casa, vestida de noiva pela metade, porque lhe falta o forro do vestido. Já está maquiada e, no lugar do sapato de salto, veste um tênis branco. Após chegar à rua, corre dois quarteirões e entra num carro estacionado, escondendo-se no banco traseiro. O motorista aparece, entra e dá a partida, sem dar conta de que transporta a noiva fugitiva.

Como faço para dizer que estou aqui? Será que se trata de Uber e ele saiu para pegar um passageiro? No momento em que parar, o passageiro, ao me ver, é capaz de dar um grito. O que direi? Deixo o carro se distanciar da minha casa; meu objetivo é abrir a porta quando parar em qualquer lugar e me atirar do veículo. Mas o motorista pega a rodovia, não vai parar em lugar algum. Aliás, para antes de Casimiro, na parada dos ônibus de viagem. Entra no estacionamento, salta, trava o carro, que dá aquele gritinho de que a tranca está ok, e corre pra dentro do restaurante. Talvez vá ao banheiro, talvez queira fazer um lanche. Lembro que a maçaneta da porta do motorista destrava o automóvel inteiro. Passo o braço por cima do banco e puxo a tranca da porta correspondente. Todas as portas se destravam. Ainda bem, nenhum som de alarme. Salto do carro, corro na direção contrária do restaurante. Quando chego à beira da estrada, um motorista para ao me avistar. O que houve, menina? Quer que te leve à igreja? Deve estar atrasada. Entro e sento no banco ao seu lado.

Imaginem a continuação. Quem sabe, o novo motorista passa a ser meu namorado contador de histórias. Ele vai, inclusive, se incumbir da tarefa de encontrar uma loja aberta e comprar roupas normais para mim.

Façamos de conta que tudo deu certo!

Como você conseguiu que ninguém te comesse pelo caminho?, quis saber uma amiga atrevida, a quem, num dia de fraqueza, contei a história.

Ah, quanto a isso, não sei se consegui, respondi, mas uma mulher bonita sempre tem sorte!

Meus demônios são outros, disse ela, muito dona de si, talvez pensando no amante, que lhe pagava todas as contas.

quinta-feira, janeiro 27, 2022

Minha conhecida e seu namorado

Outro dia encontrei um ex-namorado e senti uma ponta de inveja. Ele, agora, namora uma conhecida minha. Foi ela quem veio me dizer. Já estão junto faz um tempo. Vou contar a história do início.

Quando vim trabalhar aqui em M, ele foi uma das primeiras pessoas que conheci. Tinha uns quarenta anos, mas a aparência era de alguém mais jovem. Comecei a ficar ao lado dele, a ir almoçar sempre com ele, até que me convidou para sair à noite. Naquela época, eu tinha acabado de me separar, por isso tudo se encaixou. Ele também estava sozinho, contava uma mesma história de separação.

Quando vi minha conhecida na semana passada, tive vontade de perguntar se ele faz com ela as coisas que fazia comigo. Mas não me veio a coragem. Pode ser que a mulher pensasse que sou louca.

À época, trabalhávamos aqui em M, mas ele tinha um apartamento no Rio. Nos finais de semana, viajávamos para lá, frequentávamos cinemas e teatros, além de bares e restaurantes. Uma vida e tanto. Mas havia um problema, ou melhor, um problema no início, depois deixou de sê-lo, porque passei a gostar da situação. Depois de dormirmos juntos algumas vezes como pessoas normais, ele pediu se podia me amarrar. Quando ouvi a palavra, me assustei. Seria o homem um tarado e eu não havia percebido? No entanto, acabou conseguindo seu intento. Num dia em que eu estava mais excitada, permiti seus nós e laços, deixando-me atada à cama. Então subiu sobre mim e trepamos. Eu, imobilizada; ele dizia relaxa, relaxa e goza. Numa outra vez, além de amarrada, acabei amordaçada, e a trepada foi ainda mais intensa. Não posso perder esse homem, eu pensava. As ousadias dele foram se multiplicando. Uma outra noite, além de amarrada e amordaçada, senti a ponta de uma tesoura a percorrer-me a pele; depois, cortou um pouco dos meus pentelhos; a seguir, pegou o aparelho de barbear e me depilou por inteira. Que situação! No momento de vir sobre mim, ele disse espere um pouquinho. Afastou-se, notei que levava minhas roupas e a maleta onde estava o restante dos meus pertences. Quis perguntar o que fazia, mas o esparadrapo grudado à minha boca impediu-me. Voltou após alguns segundos, subiu sobre mim e começamos a transar. Eu não sabia se me entregava ou se tentava perguntar o que estava acontecendo, dava uns grunhidos, o significado era que ele me deixasse falar. Mas tudo que consegui foi escutar sua voz: relaxa e goza, não se preocupe, levei suas roupas e sua bagagem para o corredor do prédio, vamos ver se alguém acha; caso isso aconteça, você vai ficar pelada, sem ter o que vestir, mas as mulheres bonitas sempre dão um jeito. Passei a saltar sobre a cama, levantando as costas e as nádegas, do modo que podia, queria me soltar das cordas e dos laços que me atavam e ir lá fora recuperar minhas coisas. Ao me ver tão desesperada, disse não se preocupe, você é uma professora de literatura, entende de linguagem figurada, vamos aproveitar a noite. Lembrei-me então de que muitas vezes ele falava algo que significava o contrário. Comecei a achar que se tratava de mais uma de suas brincadeiras. Fui me acalmando, transamos muito gostoso e gozei em meio a todas aquelas metáforas.  Dei pela situação real quando ele me soltou. Corri, abri a porta. Onde minhas roupas e bagagem? Hoje, muitos anos depois, com tudo resolvido, dá até para rir.

Minha conhecida que o namora atualmente vive também isso tudo ou será que ele já amainou o fogo? Desconfio que não, ela tem cara de sapeca. E, nessa cidade, já ouvi falar de mulheres que saem à noite nuas, ao lado do namorado.

Quando cheguei a casa, olhei o meu marido vendo TV. Conheci-o quando ainda estava com o tal das cordas e laços. Senti uma ponta de desgosto. Homem sem imaginação, este marido.

Ah, minha conhecida e seu namorado, onde estão agora, o que fazem? Que inveja.

terça-feira, agosto 31, 2021

Galinha

A gente faz muitas loucuras durante a vida. Faz uns dez anos, tive um namorado que dizia me adorar. Saíamos para todos os lados e acabávamos na casa dele, onde namorávamos de modo muito gostoso. Mas ele tinha umas manias estranhas, gostava de me amarrar, os pés e as mãos. Eu permitia, e o pior, ou o melhor, não sei, passei a gostar da situação. Ele pegava meias grossas e atava meus braços à cabeceira da cama; as pernas, bem abertas, ficavam presas no lado contrário, laçadas por cordonete resistente. Nenhuma das vezes consegui me soltar. Houve um dia em que, num momento de euforia, aproveitou para me amordaçar. Tirou de não sei onde uma fita adesiva e colou na minha boca. Não passou muito tempo, veio nu sobre mim. Metia-me seu peru enorme e tapava minhas narinas. Dizia goza, vai, sei que você goza com o perigo. Eu tinha de respirar em intervalos, quando ele afrouxava os dedos. Ai, esse homem ainda me mata, eu pensava. Em outros momentos, pegava uma faca enorme e passava a ponta sobre o meu ventre. Eu queria me encolher, ficava apertadinha. Às vezes, uma marca vermelha brilhava sobre minha pele. Eu queria expressar o meu temor, mas, abafada pela mordaça, emitia baixos grunhidos. Uma vez, numa fração de tempo, tocou-me o clitóris. Deixei escapar uma lágrima. Molha, molha a faca com o teu gozo, vai, mas com o gozo da xereca, disse decidido. Tive que fazer malabarismo. Ele acabou por falar que eu consegui. Houve uma vez em que foi à cozinha e voltou com dois ovos. As mulheres gostam de chocar, pronunciou com nitidez. Não vai dizer que você... Não consegui acabar a frase, ele me segurou e já ia colocando o ovo dentro da minha boceta. Espere, por favor, tenho uma ideia melhor. Pareceu aceitar minha intervenção. Levantei-me, e, ainda nua, fui à cozinha. Acendi o fogo, coloquei uma pouco de água numa caçarola e pus os ovos para cozinhar. Enquanto isso, voltei à sala e me agarrei a ele. Gostava de aventura esse namorado, mas não media as consequências. Você gosta de me torturar, isso não é bom, viu?, vai que um dia eu arranje um homem carinhoso. Me beija, amor, bem demorado, por favor. Sentei no sofá, cruzei as pernas, vamos esperar um pouquinho, falei. Pelo menos esse não me pede para ir peladas lá fora. Tive um namorado que adorava isso. Cheguei mesmo a sair nua, de carro, ao lado dele. O homem morria de tesão. Mas o que estava ao meu lado, bebendo um gole de refresco, gostava mesmo era da minha pele. Você ficou com fome, quer comer ovos cozidos?, perguntei maldosa. Isso mesmo, e é tão gostoso. Quando a água ferveu, fui ao fogão e tirei os ovos, coloquei-os sobre um prato e os levei à sala, com o saleiro e a garrafinha de azeite. Quando depositei o prato sobre a pequena mesa de centro, ele pegou um deles e começou a descascar com bastante calma, colocando a casca ao lado; a seguir, descascou o segundo. Eu olhava a cena, com interesse. Depois, colocou um pouquinho de azeite sobre ambos. Então aproximou-se e pediu fique de cócoras. De cócoras?, ainda repeti. Isso mesmo, confirmou. O que você deseja? Eu já incentivava. Como adoro experiências novas, estava excitadíssima. Fiz o que pediu, de cócoras, ao lado da mesinha de centro. Feche os olhos, pediu. Obedeci. Passaram-se alguns segundos, senti algo morno a roçar minha boceta. Hum, hum, que gostoso, sussurrei, pensei que você tivesse fome. Que fome!, exclamou. O azeite ajudou o primeiro ovo a escorregar para dentro de mim. Tomou numa das mãos o segundo, e seguiu o mesmo ritual. Continuei agachadinha, as pernas abertas, ambos os ovos perdidos dentro de mim. Agora, amor, por favor, choca dois ovinhos pra mim. Deixa primeiro eu passear um pouquinho, grávida desses ovos. Levantei-me e fui à janela, lá fora ainda a noite era recente. Caminhei pensando no que acontecia andar nua pela casa com dois ovos dentro da xereca. Voltei e me agachei no mesmo lugar. Começamos a tentar pôr os ovos. Ele estava doidinho para ver o que iria acontecer. Hum, hum, estou vendo se consigo, falei baixinho. Posso dizer, que foi uma luta. Imaginei o sacrifício das galinhas. Eu mexia para um lado, para outro, fazia força, e nada. Começava de novo. Amor, acho que vou precisar da tua intervenção; ao contrário, vou parar no hospital, já pensou que vergonha! Ele agachou ao meu lado. Nada disso, as galinhas sabem chocar, bata os braços, faça de conta que você tem, como as galinhas, curtas asas. Ai, ai, fiz o que pediu. Agora, mexa-se, ele disse, já estou vendo a pontinha de um deles. Num movimento rápido, sem que ele notasse, toquei num dos meus grandes lábios. Um ovo escorregou. Isso, agora falta o segundo, ele a me incentivar.  Rodeou-me e segurou meus braços por trás. Eu podia mexer apenas as pernas. Abra bem, orientou, abra que vai escorregar. E o ovo caiu sobre o chão. E agora, amor?, eu, cheia de tesão, nem pude suspirar aliviada. Agora, você vai engolir os ovos. Abra a boca, ele introduziu o primeiro. Mastiguei-o com muito cuidado; depois, sem me deixar descansar, avançou entre os meus lábios o segundo. Mastiguei, vagarosa como fizera com o primeiro e o engoli. Fique de costas, a voz dele, sempre a me conduzir. Meteu, então, por trás, seu enorme peru, mas procurando minha xereca. Aceitei-o, fácil, ainda melada do azeite.

domingo, maio 24, 2020

Lingerie da mesma cor

Marquei de telefonar e encontrar com ele, um homem para quem já trabalhei e sempre se mostrou afetuoso, que me enche de presentes e de algum dinheiro, mas faz dois dias conheci outro cara, que me provocou um arrepio prolongado, por isso não telefonei, optei pela nova aventura. Quando surge alguém que não conheço, vejo a possibilidade de um novo relacionamento, um tipo de namoro, não uma vida conjugal, é claro. Na verdade, uma nova experiência. Surgiu alguém que pode me proporcionar o que ainda não senti com nenhum outro. Esse negócio de desejar novas experiências já me causou alguns sustos. Não é bom sair com um homem de primeira nem com um desconhecido; às vezes, no meio da trepada, eles falam coisas de arrepiar, fico morrendo de medo. Certa vez um deles disse que tinha uma faca na bolsa, que ia me espetar com a ponta, ia fazer pequenos cortes na minha pele, narrava e enfiava o enorme peru dentro de mim. Fiquei morrendo de medo, com o cu apertadinho, como dizem por aí por meio de uma expressão chula mas verdadeira; após gozar, quis saber se o homem tinha a faca mesmo, mas, como não tocou no assunto, não perguntei. Uma amiga, para quem contei a história, tem certeza de que fiquei excitada com a possibilidade da tal da faca, e bem que gostaria de sentir a ponta afiada deslizando sobre meu corpo! Será? Mas este que conheci, que me fez renegar o primeiro, já vem há certo tempo me azarando, acho que não vai haver perigo, não, e parece ser tão gostoso, tem o tipo que possui um pênis longo e grosso. Não é muito alto, acho que quatro dedos a mais do que eu, mas é musculoso, costas largas, bom nadador, o tipo de homem com muita potência. Marquei de encontrar depois de amanhã, após o trabalho. Vamos tomar um copo num bar recém inaugurado, em Botafogo. Nas proximidades há um hotel, por isso já sei o que acontecerá depois. Vou com lingerie nova, calcinha e sutiã da mesma cor. Engraçado, dizem que quando uma mulher sai com um homem, vestindo calcinha e sutiã da mesma cor, é porque está a fim de trepar. Será? Já saí com as duas peças diferentes e mesmo com apenas uma! A tal amiga que deu seu parecer sobre a faca diz que já foi a um forró vestindo apenas um vestido de malha, justinho sobre a pele, nada mais. Você é louca, retruquei, caso algum homem te agarre, não poderá reclamar. É isto mesmo que eu estava querendo, ela disse. Em termos de relacionamentos, cada uma com sua loucura. Sei que muita gente está doidinha pra saber sobre esta minha nova aventura. Mas ainda não aconteceu!, só depois de amanhã. Eu conto, não vou esquecer, todos os detalhes. E o homem pra quem já trabalhei, que me enche de presentes e de algum dinheiro, será que vai ficar a ver navios? Nada disso, tenho a desculpa prontinha. Na última vez que dei bolo, disse que fui assaltada, me roubaram o celular. Ele caiu direitinho. Sempre volta. Meu telefone está tocando! É aquele por quem estou doidinha. Será que vai antecipar nosso encontro? E não estou nem com a lingerie da mesma cor.

quarta-feira, setembro 13, 2017

Lívia, tuas histórias são muito engraçadas

Tenho uma amiga que diz Lívia, tuas histórias são muito engraçadas. Por quê?, pergunto surpresa. Porque você sente uma coisa e diz outra. Como assim?, peço a ela que seja mais explícita. Você gosta e diz que não gosta. Será?, faço beicinho.

Mas o namorado acaba por me deixar louca, cheguei a refletir. Ele, porém, que é o louco. Como pode pedir a uma mulher que fique nua dentro do carro e depois salte numa estrada à noite? No começo não acreditei na proposta, achei que estava querendo me insuflar pavor. Pouco a pouco, no entanto, achei que seu pedido produziria um frisson mais intenso no nosso namoro. Então, aceitei. Trêmula e arrepiada, com o coração aos saltos, fiquei nua dentro do carro, depois saltei e o deixei partir. Lógico que prometeu voltar. Quem sabe se voltaria mesmo. Quando acelerou e se foi, confesso que fiquei toda molhada, e bem na xereca. Ele voltou, levou-me à sua casa, trepamos intensamente às cinco da manhã.

A segunda vez foi na praia. O quê?, você quer tirar o meu biquíni dento d’água? E se aparecer alguém, conheço muita gente aqui, a cidade é pequena. Entramos na água, antes de eu ficar nua dou de cara com uma ex-aluna, já adolescente. Oi, professora, como vai a senhora? Depois que ela se foi eu disse viu se estivesse nua?, que vergonha, o que ela iria pensar de mim? Ela não iria reparar, a água está escura, bastava você não dar na pinta, ele retrucou. Depois de dez minutos, acabei convencida, deixei que me tirasse o biquíni, e o pior, permiti que o guardasse lá onde estavam as minhas coisas, na areia. Ele foi, eu fiquei nua dentro d’água. Tudo acabou bem, no entanto. Ele voltou e me devolveu o biquíni. Não posso dizer que senti gozo, mas fiquei orgulhosa de ter aceitado o desafio. À noite uma pizza na orla e uma boa trepada antes de dormir.

A terceira vez foi no pequeno prédio onde moro, uma construção de três andares: um apartamento no térreo, dois no segundo andar e um no terceiro. Este último é onde habito. O namorado pediu que eu saísse nua, esperasse durante alguns minutos do lado de fora e depois batesse à porta para ele abrir. Eu fingiria estar chegando à casa de um desconhecido, batendo ao acaso, pedindo ajuda, contaria uma história, caso convencesse ele me abrigaria. Senti um arrepio diante da proposta. Mais um desafio. Não sou de me deixar vencer pelo temor. Sai nua de casa, e não me contentei em ficar junto à porta como havia combinado. Desci ao térreo, isso mesmo, que loucura, inteiramente nua, lá embaixo encontrei uma das moradoras, ela vestia calça comprida branca e estava junto ao portão, provavelmente esperando alguém. Ainda bem que apenas eu a vi. Dei as costas, subi as escadas e voltei para casa. Os outros apartamentos são meus, sou a senhoria, imagine se me surpreendem nua, iam me julgar louca, iam pedir minha internação. Mas tudo deu certo, representei a tal história e ele me abrigou. A transa foi ótima.

Lívia, tuas histórias são muito engraçadas, as invenções do teu namorado te colocavam em perigo, concordo, no teu lugar eu não toparia, mas essa expressão que você diz, "caiu a ficha", que ele queria mesmo era te aterrorizar, não acredito, na verdade você gostou, adorou, seria melhor dizer "engoli a ficha", e quem sabe está doidinha pra engolir outra!

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Le Match

Paul foi um namoradinho ousado. É o que eu sempre acho quando penso nele. Outro dia, ao dirigir pela península de Ashby e fazer o retorno, parei diante do Le Match, um antigo bar que hoje mantém apenas a arquitetura de quinze anos atrás e serve agora de galpão.  Paul pedira para sairmos aquela noite de primavera, queria que eu dirigisse devagar pela orla de Tom e depois parasse diante do antigo bar. Se fosse apenas essa a sugestão, nada demais. O namoradinho, no entanto, me queria de biquíni à noite. Perguntei se eu não morreria de frio, pois apesar da primavera a temperatura resistia a subir.

“Você vai de casaco e de biquíni”, insistiu.

Acabei por lhe fazer a vontade, e o biquíni que vesti era dos menores, de laçarotes, que entrava todo atrás. Joguei o casaco sobre o corpo, descia até parte das pernas, e nos aventuramos ao exterior.

“Você não me permite ao menos um par de meias?, dessas que sobem acima dos joelhos”, pedi.

Ele moveu a cabeça, concordando. Fomos então passear, de carro, uma espécie de furgão. Eu de casaco, biquíni, as meias e um par de botas.

“Você esta charmosa”, soprou sorridente, soltou o ar quente pela boca.

Demos várias voltas pela orla de Tom, depois pelo cais de Ashby e, enfim, fizemos o retorno. Paramos diante do Le Match, onde havia àquela hora poucas pessoas. Eram dez da noite. Parecia que os jovens estavam em alguma das boates que ficavam depois de Ashby. Pedimos duas bebidas, a minha de morango e vodca. Ele tomou um Scotch e comeu amendoins. Ficamos em silêncio durante algum tempo ouvindo a música abafada que vinha dos autofalantes do bar. Uns homens jogavam sinuca no andar de cima. Após a segunda dose, Paul sugeriu que saíssemos e caminhássemos até as dunas, a quinhentos metros dali.

Do lado de fora, apesar da baixa temperatura, o céu estava claro.

“Por que as dunas?”, perguntei.

“Nada demais, apenas um passeio.”

Quando atingimos o ponto mais alto, pudemos apreciar toda a orla das praias da península. Apesar da noite, o contorno do litoral se delineava claramente.

“Então, você atendeu o meu pedido”, ele disse, “veio de biquíni.”

“O que há de mal nisso?”, cheguei a perguntar.

“Que tal você tirar toda a roupa?”, insinuou.

“Acho que não posso, vou adoecer”, falei.

“Então tire o biquíni”, sugeriu mais uma vez.

Dei de ombros. Com as mãos sob agasalho, desfiz os laços. Ele sorriu quando viu o biquíni nas minhas mãos. Entreguei a ele, que o guardou num dos bolsos.

“Você está gostando”, suspirou.

“Quem sabe”, devolvi.

Veio me abraçar. Suas mãos frias percorreram minha pele branca e gelada, dentro do casaco.

“É melhor voltarmos para casa”, eu disse.

“Vamos ao Le Match, quero mais uma dose”, ele rebateu.

Descemos as dunas e entramos mais uma vez no bar. Naquele momento havia mais pessoas. Avistei, entre três rapazes, Diana, uma velha amiga. Ela logo me viu e se aproximou.

“Que casaco bonito, deixa eu vestir um pouquinho”, foi logo dizendo.

“Não posso”, afirmei.

“Como não pode?”

“Depois te conto”, acrescentei.

Ela deslizou as mãos sobre minhas costas e sorriu.

“Depois tenho também uma coisa pra te contar”, disse e me beijou, voltando pro meio dos rapazes.

Eles estavam alegres, espelhavam muito vigor.

“Seria bom se ficássemos com eles”, disse a Paul.

Ele deu de ombros, pediu mais uma dose e sentou num dos bancos. Diana ria muito, logo abraçou o que estava à sua direita e, de lá, deu uma piscadela para mim.

Não sei como aquela noite terminou. Acho que voltamos ao carro e ficamos nos agarrando antes de eu dirigir de volta. Pode ser também que eu tenha dirigido de volta para casa, nua, pois fizera isso algumas vezes para agradá-lo.

O bar ficou na minha memória, o letreiro ainda é o mesmo, mas o fim que a construção passou a ter de uns anos para cá não é mais o de reunir jovens ávidos por bebidas, músicas e aventuras com as mulheres.

terça-feira, dezembro 01, 2015

Ela diz que isso se chama fetiche

Val, eu sei que é difícil a gente consolar alguém. Só cada um sabe o que sente na pele. Um segredinho, viu, isso que você acabou de me contar também já aconteceu comigo. Há coisas que supomos que só nós experimentamos, mas, acredite, também já aconteceram com muitas outras mulheres. Não menosprezo o teu sofrimento. Ele passa; depois as pessoas esquecem. Quero dizer, você e as pessoas. Posso te contar a minha história. É praticamente a mesma, só que aconteceu faz uns três anos, quando eu ainda morava em M., e o final foi um pouquinho diferente. Na época, até conversei sobre o assunto com uma amiga minha que é psicóloga. Ela tem consultório e uma porção de pacientes. Ouça, por favor.

Há pessoas que preferem a imaginação à vida real, foi o que ela me falou. Era o caso daquele meu namorado. Ele me fizera um pedido que a maioria das mulheres relutaria em aceitar. Mas, assim como você, aceitei. Eu achava que não deveria recusar desafios, precisava viver novas experiências, a adrenalina alta e coisa e tal, como beber demais ou experimentar pela primeira vez alguma droga. Saltei nua do carro dele, às duas da madrugada de um sábado de verão, na rodovia que leva a Glicério. Estava escuro e, naquele momento, não passava veículo algum. Ele pediu que eu o esperasse agachada, em meio à vegetação do lado esquerdo de quem sobe a serra. Disse que logo estaria de volta. Acelerou o carro e se foi. Ao contrário do que prometeu, não voltou. Ou melhor, apareceu quinze horas depois, porém na minha casa, me convidando para comer uma pizza. Não falou por que não cumpriu a palavra. Estava excitado, curioso para saber o que tinha me acontecido durante o resto da noite. Nada respondi. Apenas sorri, um sorriso enigmático, expressão de quem gostou da experiência. E até que gostei mesmo, sabia? Não consegui dormir um instante se quer, ele disse, fiquei a madrugada inteira pensando o que poderia estar acontecendo contigo, acrescentou. Será que eu ainda tinha esperança de que ele voltaria para me apanhar ou estava escondida, trêmula, ante a perspectiva do amanhecer, que me revelaria nua e indefesa?, foram as palavras dele. Muito engraçado, não? Ou ainda: algum homem me havia encontrado e me levado em seu carro; será que eu estaria transando com ele naquele momento? Acho que meu namorado gozou apenas ao imaginar o que estaria acontecendo comigo. Foi o que acabei concluindo. Minha amiga psicóloga tem razão. Ela diz que isso se chama fetiche. É como se um homem, no lugar de gozar com a namorada, gozasse com a calcinha dela. Há homens que saem com a gente e roubam a nossa calcinha, não é mesmo? Você já deve ter passado por isso. Aceitei a pizza, mas nada relatei. Se já gozara com a imaginação, não precisava gozar por intermédio da minha narrativa. O namoro durou mais alguns meses, e eu jamais mencionei a tal noite. Deixei o homem maluquinho. Quando ele insistia em saber o que havia acontecido, eu apenas perguntava o que você acha? Além da minha amiga psicóloga, nunca falei sobre isso a ninguém. Estou contando pela primeira vez a você. Quer saber o final dessa história? Não tenho problema nenhum em te contar. Minha amiga psicóloga também quis saber o final. Consegui ligar a um amigo. Apesar de sair nua do carro, não esqueci o celular. Esclarecendo, o homem não era bem um amigo. Era um cara casado com quem eu já saíra algumas vezes. Acho que a mulher dele também tinha um amante e não se preocupava com o que ele fazia durante as madrugadas quando andava ausente de casa. Ele veio me buscar. Contei a verdade a ele. Ficou surpreso, a princípio. Acabou achando a história engraçada e disse que eu era um tanto louca. Transamos naquela mesma noite, dentro do carro, numa saída da rodovia em que não há asfalto. Depois ele começou a pensar como me ajudaria para eu não chegar nua em casa. Tirou a camisa e me ofereceu. Foi isso. Cheguei em casa pela manhã, ainda estava todo mundo dormindo. Ao contrário do que aconteceu a você, ninguém me surpreendeu nua. Ele ainda esperou até que eu lhe telefonasse de dentro de casa dizendo que estava tudo bem.

É isso, Val, o tempo passa e a gente esquece. As pessoas também esquecem. Sei que saiu um pouco caro pra você, que teve até de se mudar para um bairro onde ninguém te conhece. Eu acho que não teria feito isso; ninguém tem nada a ver com a minha vida. Agora, quanto a ti, não há mais com que te preocupar. E também existem namorados normais. Você pode arranjar um. Mas será que nós, mulheres, somos normais, Val? É engraçado, não? No fundo, é a pura verdade.

quarta-feira, outubro 28, 2015

Meus lábios molhadinhos

Eles estão pra chegar, e o problema não é eu acabar surpreendida. Sempre achei que um dia esses pedidos do Walter me deixariam numa situação comprometedora. Que horas são? Onde o celular? Ah, quatro e quinze, daqui a pouco vai amanhecer, o que me resta a fazer? A gente  acaba morrendo por causa de um homem, uma paixão, namoro, tesão, e ele a fazer pedidos impossíveis. Você vai adorar, diz, não desejará outra vida. E a burra aqui acredita. Um friozinho na barriga pra tornar tudo mais excitante, desafios, qual mulher não gosta de desafios, de ter algo para contar às amigas, mesmo que elas não acreditem?, você vai adorar, ainda ele, com sua voz de sedutor, beba uma dose, é pra relaxar, insiste meloso, você gosta de doce, eu sei, depois da bebida, o doce contrabalança, e o arrepio vai ser maior, com esse seu corpo de modelo você pode abusar um pouquinho, não?, sei que vai sentir um arrependimento pequenino depois, vai exclamar por que comi o doce!, vai fazer exercícios, vai correr, suar e dizer que eliminou o docinho, você é tão gostosinha, ele continuando e eu acreditando, vem vamos namorar... Eu nua nas mãos do homem. Uma amiga veio me dizer que não quer mais namorado, não precisa dele, resolve tudo sozinha. Mas você não tem necessidade de sexo, de transar com alguém?, pergunto. Tenho, mas resolvi a situação, e sem namorado, ela sorri satisfeita, parece ter descoberto todos os segredos do mundo. Mas como?, curiosa, eu. Ela com seu sorrisinho cínico. Já sei, suspeito e falo, você transa sem ter o homem como namorado. Ela continua cínica que só, sorrisinho que não tenho como definir. Você já engoliu um pedaço de cuscuz inteiro?, sua pergunta me deixa os lábios molhadinhos. Não espera minha resposta. Como o cuscuz, espero cinco ou dez minutos, às vezes vinte, depois corro ao banheiro; prestes a colocar o dedo na garganta para devolvê-lo, sento no vaso e espero ainda um pouquinho, penso não posso perder este meu corpinho de modelo, e passo a mão sobre o ventre, já pensou se crio barriga, lá se vai meu emprego, lá se vai a admiração das  pessoas por mim; espero mais alguns minutos antes de enfiar três dedos goela abaixo; ah, acho que meu organismo já está processando o doce, tudo está virando uma massa de açúcar que me vai pelo corpo, não vou ter como evitar algumas gordurinhas, começo a achar que não tem mais jeito, o doce não volta, não haverá a mínima possibilidade, então junto as pernas aperto uma contra a outra, e na incerteza se devolvo ou não o cuscuz gozo que é uma maravilha; mas logo que volto a mim forço o vômito e ponho pra fora o doce, ele sai inteirinho, eu que dei alguns passos à beira do abismo vou ao orgasmo mais uma vez, não preciso de namorado, viu como é fácil?, finaliza a amiga. E o meu, com a história da bebida e do docinho me deixou nua, disse que me faria sentir um orgasmo jamais experimentado; prestem atenção na frase, orgasmo jamais experimentado. Acreditei. Como sou boba! Acreditei. Como se pode comprar um pedaço de cuscuz às três da manhã? Ainda o cuscuz, por que fui dizer a ele? O namorado assegurou que conhece um lugar. Saiu às escuras, e eu aqui. Fique só um pouquinho, volto logo. Foi o homem, eu deitada numa cama larga. Mas vejo que ele não volta. O apartamento é dele mas não mora sozinho. Tenho desfile às três da tarde, alertei, preciso descansar. Ok, vamos fazer a prova do docinho, voltou ele ao assunto, você nunca sentiu nada igual. Eu, agora na sala. Pra quem ligo? Que vergonha... Ai, ele levou a chave, mas ainda bem que não trancou a porta. Tenho de ligar pra uma amiga. Venha me salvar, não posso sair daqui desse jeito. Sem o docinho?, ela quer saber. Que docinho, que nada, é outro o problema, sabe, tão chato falar pelo telefone, venha logo, não demore, se ele não volta e chegam as pessoas que moram aqui como vou fazer? Mas o que há?, diga que espera por ele, as pessoas compreendem, ela contrapõe. Não compreendem, não, jamais vão compreender, a não ser que estejam em comum acordo com ele, vão querer outra coisa. O quê?, minha amiga não deixa de lado pergunta alguma. Lembra da Joyce, intervenho, aconteceu algo semelhante, e o problema não foi ela estar nua, ela nem liga pra isso, a Joyce gosta de dar pra todo mundo, o problema foi ter de comer uma caixa inteira de chocolates, eles a forçaram, e não deixaram ela ir ao banheiro, amarraram suas mãos às costas, soltaram três horas depois, a digestão já feita, e ela sem poder colocar os bombons pra fora, uma tragédia. Norma, vou dormir, por favor, não posso ajudar você, também tenho de desfilar, não há como ir a esse apartamento. A amiga desliga, ouço o portão abrir, vozes subindo ao segundo andar, passos de duas ou três pessoas. Não é problema estar nua, não é problema não encontrar minhas roupas, não é problema ter de trepar com eles; ai, três homens, e o que trazem? Não, por favor, não, tenham piedade, levanto às mãos diante dos seios, mas sem preocupação em escondê-los, faço o que vocês quiserem, continuo a falar, mas não me obriguem comer a bandeja inteira de cuscuz, por favor! Sinto o cheiro de coco, meus lábios molhadinhos...

terça-feira, setembro 08, 2015

O mesmo vestidinho

Não suportei, acabei ligando pra ele. Fazia tanto tempo, e a saudade era mais forte. Oi, que bom você ter ligado, falou. Sorri do meu lado, mas sem ele notar, é claro. Vamos marcar um passeio, completou. Um passeio?, demonstrei todo meu desejo na entonação. Isso, um chope, uma taça de vinho, ou uma bebida qualquer. Voltei no tempo, eu agarrada a ele, um beijo, um forte abraço, eu a acariciá-lo. Por que tudo acabou, qual o motivo da distância agora?, pensei. Perdemos as coisas como a água que escorre entre os dedos de nossas mãos. Vamos marcar então, afirmei. Ele disse a data, a hora, a noite. Após desligar, refleti se o telefonema fora boa ação.

Trabalhara para ele durante dois anos. Sempre com um jeitinho ingênuo, sedutor, acabou me conquistando. Nossa relação foi crescendo, ele invadindo o meu corpo e o meu espírito. Até que aconteceu algo inesperado. O sexo entre nós começou a me preocupar. Ele me fez gostar de coisas impensáveis, impublicáveis. E o pior, ou o melhor, não sei, comecei a me apaixonar cada vez mais por ele. Amarra-me, por favor, e bem forte, quero sentir a corda e o gozo, suspirava alucinada. O homem quase ia à loucura. Depois de me deixar em casa, eu sempre pensava, por que não trepamos como duas pessoas normais? O tempo foi passando, e cada noite com ele era caminhar à beira do abismo. E gostávamos do abismo, e eu nua à beira do abismo. O fio da navalha. O ponto culminante do nosso relacionamento aconteceu numa noite em que pedi, isso mesmo, pedi, é preciso ressaltar, leva-me amarrada e nua no banco do carona. Depois reconsiderei, no banco do carona, não, na mala do carro; na estrada escura você para e vou ao teu lado. Na primeira vez, foi um atropelo. Estávamos os dois excitadíssimos. Saí sem me preparar, não me preocupei com a fisionomia, com o cabelo nem com qualquer adorno. Na segunda, já mais experimentada, sugeri ir calçada, uma sandália de meio salto e uma bolsa pequena numa das mãos. O que ia dentro? O maço cigarros, um dinheiro, um pequeno rímel. Saímos da garagem de casa, eu nua na mala. Ele a guiar pelas ruas durante vinte minutos, até que atingiu a rodovia escura, noturna, o mundo era todo nosso. Ele parou, abriu o tampo da mala e me ajudou a sair. Caminhei à porta do carona. Passeávamos, eu saltava, ele fingia partir, acenava um adeusinho pra mim, mas logo voltava, não queria me perder para alguém que viesse a perscrutar a estrada deserta. Que sonho, encontrar uma mulher bonita e nua, roubá-la do namorado. Duas, três, quatro, cinco vezes, e eu nua ao lado dele. Até que falei não preciso gastar mais dinheiro com roupas, basta perfume e tratamento para o cabelo. Na sexta vez ele voltou à cidade e eu nua ao seu lado. Não teme a polícia?, perguntou. Então, tremi; nunca havia pensado em algum obstáculo. Mas não demonstrei, apenas sorri, acendi um cigarro, após dar um longo trago disse não, não temo. Certa vez em sua casa, experimentei outra sensação forte. Ele fez um exercício de relaxamento, e eu o segui; quando estava totalmente inerte, sem sentir o corpo, ele disse espere, volto logo. Voltou, veio com uma pinça e uma pedra de gelo. Vou deslizar a pedra sobre seu corpo e você não vai sentir nenhuma ponta de frio. No começo, a brincadeira deu certo. Ele passou a pedra sobre o meu ventre, sobre os meus seios, desceu até os poucos pelos púbicos de minha vagina. Nada sentia, estava em total estado de alheamento. Mas ao tocar meu clitóris, forte repuxo me veio lá de dentro. Ele desceu mais um pouquinho e beirou-me os grande lábios com o gelo frio, depois empurrou um pouquinho. Senti tremor e gozo inomináveis. Você engoliu a pedra inteira, ele disse. Venha me aquecer, pedi. Subiu sobre mim e me enfiou o longo pênis. Acho que procurava com o sexo o gelo perdido. O calor da penetração esfriou a pedra, e dela sobrou apenas o líquido insosso. Gozamos juntos. Noites depois, fui à sua casa vestindo um vestido de malha, colante e curto, muito curto mesmo. Ao chegar, ele exclamou como você veio assim pela rua? É noite, lembra?, devolvi, e vim de carro. Ele logo me roubou a roupa, e eu nada vestia sob. Outra noite ardorosa. Mas tudo acabou. Por quê? Não sei. Desaparecemos. Cada um foi cuidar da sua vida. E passou o tempo. Agora ligo, ele diz que vem, ou sou eu que vou, não sei.

Há mais uma coisa, e muito engraçada. Certa vez na sua casa, ao acordar, não encontrei meu vestidinho curto, o mesmo que vesti para surpreendê-lo na primeira vez. Você escondeu minha roupa?, perguntei. Ele jurou que não. Então, como pode ter desaparecido?, eu, surpresa. Tenho uma faxineira, sabe, ela deve ter vindo antes de acordarmos, e manda toda a roupa à lavanderia. E como fazemos agora?, assustei-me. Espera, vou dar um jeito. Tomamos café, e ele foi dar o seu jeito. Enquanto o esperava, fui à estante e tirei um livro. Dentro dele encontrei uma folha dobrada, escrita com letra de mulher, uma caligrafia um tanto tremida.

Fiquei morta de vergonha, ele telefonou bem no momento em que o Rui tinha acabado de me deixar nua. Vi o telefone piscando, pensei em não atender, mas não me contive. Quando escutei a voz dele, devo ter enrubescido. Lembrei o que sempre me diz: você dá pra todo mundo, hein? Assim que atendi, me convidou pra tomar um café, naquela mesma tarde. Hoje não posso, depois telefono. Desliguei e continuei nas mãos do Rui. Esse não perguntou nada, já me conhece; o negócio dele é trepar comigo. Às vezes bebemos umas taças de vinho, o que me acende. Quando o efeito começa a passar, morro de vergonha. Tento disfarçar, mas não consigo. E se gozo, nem se fala... Outro dia pedi que me despisse com violência, que arrancasse minha calcinha de modo que não servisse mais. Ele assim o fez. Mas depois que gozei, morri de vergonha. Mesmo sem ter falado nada ele notou. Disse baixinho, junto ao meu ouvido: não fica assim não, a gente dá um jeito. Que jeito?, retorqui, você por acaso tem em casa roupa de mulher? Imaginei abrir o armário e encontrar uma gaveta cheia de roupas íntimas, peças minúsculas. Assim, não me sentiria pelada. Como você tem tudo isso aqui? Rui: elas esquecem, e não ficam nem um pingo avermelhadas. Mas logo caí na real, a tal gaveta não existia. Teria mesmo de voltar nua, ou quase. Foi um desconforto: a saia curtinha, um top à-toa, uma jaquetinha que descia até o umbigo, a sandália de saltos e nada mais. O Rui sugeriu: da próxima vez, você traz outra na bolsa. Respondi: na hora do fogo nem penso nisso, o problema é depois... Eu estava de pé, pronta para ir embora, as mãos escapando de controle, a saia curta insuficiente para cobrir minha nudez.

A mulher morria de vergonha por lhe faltar a calcinha, e eu que estava ali a esperar por um duvidoso vestido?

O namorado voltou duas horas depois, o dia já perdido pra mim. Trouxe um vestido mais curto do que o meu. Pronto, vista, vai ficar uma beleza, falou. Vesti. Ficou uma beleza. Como volto?, é um vestido de noite. Não faz mal, levo você, afirmou. Entrei no carro nua, nua e de vestido. À porta da minha casa, ele quis entrar pela garagem, mas um carro impedia. Tive de saltar ali mesmo e entrar pelada em casa. Mas até que foi divertido. Agora ele vem, ou sou eu que vou, não importa, e visto o mesmo vestidinho, quem sabe.

quinta-feira, junho 25, 2015

Sensível, sensível

Sensível, sensível, é o que ele diz. E tem razão. Basta o leve suspiro de um homem a passar junto a mim, o arfar mais forte de sua respiração, ou um ligeiro golpe de olhos, para eu me arrepiar. Percorre-me o corpo uma mão invisível que deixa meus pelos eriçados. Se a mão é real, nem pensar. Sensível, sensível, o vestido a me roçar a pele nua, eu eriçada de novo. Tenho amigas que se entregam ao primeiro toque; outras dissimulam, fingem que nada acontece; há ainda aquelas que desistiram dos homens, sugerem-me ler um livro. Qual deles?, pergunto. Literatura, verdadeira literatura, a que propõe questões, não respostas. Assim minha sensibilidade irá em outra direção. Sério. Exemplo, uma mulher aluga uma suíte de hotel, uma tarde inteira, para ler um livro. Às vezes chora; outras, sorri. Os escritores não pensam nos leitores quando escrevem. Chego a acreditar que a boa literatura é a crueldade. Os seres humano é que são cruéis, dizem-me. Mas a leitora ama tanto, que chega a se ver muito bem amarrada a uma cadeira. Por mais que queira soltar-se, impossível. Queres de mim alguma coisa?, pergunta, embora se veja só. Sim! A voz emana do livro, não a amarro apenas por luxo, quero algo, sim. Estou pronta, corajosa anuncia. Amordaça-a, a tal voz não quer perguntas. Silencioso, o quarto. Ela nua, amarrada, amordaçada. A porta bate, alguém se vai. O livro ao lado da mulher, aberto numa página estrangeira. Passam-se minutos intermináveis, verdadeiras horas. Ninguém volta. A mulher, a corda, a mordaça; ela na cadeira.

Sensível, sensível, desejo a sorte da mulher? Um livro dentro de outro livro. E sorte é destino. Vou à rua, vestido solto, tecido leve, esvoaçante. Qual dos homens são sensíveis mas não a ponto de trazer-me uma corda? Prescruto-os por trás dos óculos. O namorado, mas à moda antiga.  Na verdade, enamorado. Ao contrário de vestidos soltos, vou travada.

Sensível, sensível, é o que fala, e me oferece ouro, uma pulseira larga. Tomo-a nas mãos, examino-a como um ourives. Enquanto a sinto nos dedos finos e provocantes, sussurra-me ao ouvido. Quero algo em troca. O quê?, afoita, chego a arfar. Quero-te nua!, arremata. Respiro fundo, quase sem saída. Ele leva-me a um hotel, desses que ficam no centro da cidade, aluga a suíte mais alta. Deixa o quarto escuro, peço-lhe quase em silêncio. Apenas isso, a sombra e eu nua. Algo a mais, acrescento, espera, quem sabe amanhã. Ele é paciente, dorme ao lado de uma mulher nua sob lençóis. Tem certeza de que virá o amanhã. Então, outra pulseira. Visto as duas. Apenas. E, em pé, meio sem graça, sorrio, um dos joelhos dobra-se involuntário, de leve. Quero esconder o impossível. Agora deita, vem, insinua. Primeiro me abraça, suspiro, depois o sexo. Abro devagar as pernas. Compras a mulher com duas pulseiras, choro-lhe ao ouvido. Vales três ou quatro, talvez cinco, ele devolve. O enamorado sobe sobre meu corpo. Latejo, suo. Sou travada, chego a dizer. Trouxe todas as ferramentas, retruca.

Beatriz, uma amiga tão atirada (as aparências e os nomes enganam), diz que não faz por interesse, mas pelo gozo. Gozar, a melhor coisa do mundo, afirma. Travada?, ele repete e ri da palavra. Deixa ver, acrescenta Beatriz, já viste a cor e o peso do ouro, ou a flor da orquídea? Demoro a entender. O namorado ressona, foi tanto o sexo. Levanto-me e ando pelo quarto, apenas as duas pulseiras sobre a pele. Caminho de um lado a outro, vou à janela e olho a rua, o sol se põe no Rio de Janeiro, muitos os edifîcios, altos, não vejo ninguém às janelas dos outros prédios, não me arrisco olhar mais detalhes, escondo-me, escapa-me apenas os olhos no vão da cortina, um pano pesado, de cor azul, deixo cair o tecido, a cortina ou minhas roupas a voarem do décimo segundo andar?, o apartamento escurece de todo, volto-me, dois ou três passos e dou no extremo oposto, a porta, penso abri-la, espiar o silêncio exterior, tenho coragem?, giro a chave, abro uma pequena fresta, está escuro também lá fora, quem sabe aventuro-me nua ao corredor?, loucura, a porta bate e não abre por fora, e então?, temo tocar a campainha, vou despertar a todos, e eu nua, no centro do Rio às cinco e trinta da tarde, o que houve, senhorita, uma voz masculina, olhos desconhecidos, eu colada à parede. Pensamentos? O quarto vasto, o homem ressona. Leva-me nua em seus sonhos? Já sei, sonha em trazer mais presentes, um cordão de ouro, delicado, e uma medalhinha, o sol, às cinco e trinta da tarde. Ei, vem aqui, deita ao meu lado, a voz dele, temos todo o tempo do mundo. O que queres de mim? pergunto transtornada. Quero você deitada ao meu lado, ele responde. Deitada?, como?, conheço-te apenas de vista. Lúcia, venha cá. Não sou Lúcia, a voz escapa-me, incontrolável, Sou Beatriz, ouviu?, Beatriz. Ah, entendi, ele fala, Beatriz, a amiga de Lúcia, Beatriz, você reluz a ouro, está quase transparente, há uma palavra pra isso, diáfana, você está diáfana, vem aqui, Beatriz, quero umedecer meus lábios nos teus, estou louco de sede, ele continua, venha me salvar. Sento na única cadeira que há no quarto, junto as pernas, cruzo as mãos por trás do encosto, lanço-lhe um olhar feroz e digo amarre-me, amarre-me bem forte. Como um bom ator, finge não se surpreender. Levanta-se e vem até a mim, como se já esperasse pelo pedido.

quinta-feira, novembro 20, 2014

Sonata para piano

Ela havia sentido uma ponta de prazer. E o pior é que ele notara. Na certa, não a perdoaria...

Ou melhor, queria contar essa história em terceira pessoa, mas a mulher era eu e, de verdade, já me havia aberto demais; ele, grudado às minhas costas; eu sem me poder mexer.

Ia num ônibus repleto, um fim de tarde. Todos sabem como é a condução nos arredores das grandes cidades. Em BH, então, nem se fala. Voltava do trabalho. Vestia jeans, uma blusa branca de mangas curtas, curtinhas mesmo, fazia calor, na cintura o tecido era larguinho, disfarçava qualquer ameaça de barriguinha. Estava em pé, as pessoas passavam rente às minhas costas. Observei algumas. Uma menina com a mãe, provavelmente voltava da escola; um rapaz carregando uma mochila; uma mulher jovem, de óculos, com aspecto de secretária; depois passou um homem negro, achei sua altura exagerada, vestia calça azul e camiseta marrom, sem gola, vinha de cara fechada. Daí em diante me perdi em pensamentos, preocupações diárias, uma lembrança ou outra que nos assalta quando reparamos algo na rua, um portão, o letreiro de uma loja, o cheiro de pão que vem de uma padaria. Ao saltar do ônibus, reparei que meu celular não estava na bolsa. Fiquei desconfiada do homem negro, grandalhão. Não sei por quê, mas sempre achamos que os ladrões têm cara de ladrões. Às vezes isso é um ledo engano. Mas cismei. Apesar de sempre dizer não ao preconceito, cismei que o negro roubara-me o telefone.

Passaram-se duas semanas e ia eu na mesma linha de ônibus. Quase as mesmas pessoas, o empurra-empurra de sempre. Assustei-me ao descobrir, entre os passageiros, o mesmo grandalhão suspeito. Agarrei a bolsa e tentei olhar um ponto neutro na paisagem. Não mais procurei o homem, não mais olhei pessoa alguma. Depois de saltar, reparei que faltavam vinte reais, apenas uma nota, eu a levava no bolso de trás da calça.

Nas semanas que se seguiram, viajei no mesmo itinerário, mas ele não apareceu. Eu olhava os passageiros em detalhes, procurava observar neles algo que revelasse suas personalidades. Não me queria preconceituosa de só achar o ladrão no corpo e na fisionomia do negro. Avistei uma senhora gorda, estava sentada num dos bancos além da metade do coletivo. Apesar de aparentar idade – entrava pelos quarenta, ou mesmo pelos cinquenta – seu rosto emanava felicidade, mantinha a aparência de adolescente, quase infantil, trazia sobre o colo duas bolsas de papel. Tentei em vão descobrir o motivo de toda aquela felicidade.

Duas semanas adiante, quando já não pensava no homem, avistei-o de novo. Num primeiro momento senti o corpo todo arrepiado. Não sei se de medo ou se por outro motivo. Lembrei que trazia uma nota de dez num dos bolsos da calça, mas dessa vez no dianteiro. Ainda pensei em, num movimento rápido, esconder o dinheiro na palma da mão. Assim fazemos na infância, quando sob as ordens de algum adulto vamos ao armazém da esquina comprar o ingrediente que falta para completar o prato do almoço. Mas acabei deixando o dinheiro no bolso, intocado. Senti o homem passar suave às minhas costas. Esforçava-se para não me espremer na barra do banco transversal, talvez tivesse certo pudor ao me esbarrar. Não o senti a me tocar o bolso em momento algum. Quando saltei, no entanto, a nota de dez me faltava.

“Era uma época em que eu não conseguia escrever e me sentia atormentada por aquela espécie inaudível de barulho.” A frase, copiei-a de um livro. Às vezes descubro uma frase que gostaria de ter escrito. Espero, então, o momento certo de usá-la. Mas emprego-a de modo disfarçado. Troco alguma palavra ou aplico-lhe um desvio, porém de modo que não lhe roube a graça original. Ela, a frase, representou exatamente o que eu sentia nos dias posteriores a que vira o tal homem, ou o tal ladrão, melhor dizer assim. Aquela espécie inaudível de barulho era a face sorrateira do homem que eu cismava encontrar no rosto de outros negros que me cruzavam o caminho. Os dias se demoravam. Eram tardes intermináveis. Eu sentava na poltrona da sala com um livro nas mãos. As listras de sol, que atravessavam a janela, avançavam com lentidão sobre o assoalho. Quando me atingiam os pés, eu já não encontrava nesse sol o calor necessário para aquecer meu espírito. O crepúsculo trazia o vento frio, que eu queria de um mar impossível.

Já na primavera, resolvi sair. Era setembro. Embarquei num ônibus em busca de uma biblioteca pública. Não demorei a chegar ao centro da cidade. As pessoas mergulhadas nos livros, o som inconfundível das bibliotecas, o mundo do silêncio. Na volta, mesmo de pé, agarrada a uma as vigas, vinha lendo o livro que apanhara de empréstimo. Foi então que ele apareceu. Entrou imenso, percorreu grande parte do corredor e parou bem atrás de mim. O ônibus, como sempre, pleno de pessoas. O homem estacado às minhas costas, bem seguro, bem posicionado. Lembrei que desta vez não trazia dinheiro no bolso. Melhor, nem bolsos tinha, viera de vestido, justo, que me deixava as pernas de fora. A primavera já incendiava boa parte das mulheres. O que ele me roubaria? Numa das mãos eu segurava uma pequena carteira. Dentro, duas notas de vinte, uma de cinco e duas moedas. Trazia também o cartão do banco e a identidade. Fechei o livro e sustentei sob o braço esquerdo todo o peso daquela história. Pensei em abrir a carteira e lhe entregar o dinheiro. Que me deixasse em paz, de volta à leitura. Mas fiquei apenas no pensamento. Depois, comecei a sentir certo calor. Não tenho vergonha de confessar. Enfim, descobri o que ele me queria roubar. Logo, ali, dentro do ônibus, em meio à multidão de sessenta passageiros, que escândalo... Suas mãos tatearem-me as coxas. Eu as sentia. Não tinha a mesma habilidade de quando praticava seus furtos. Cheguei a pensar em gritar, alertar quem estava à minha volta, quem me poderia ajudar? Mas nada fiz. Depois acabei achando melhor assim. Levava o seu objeto de desejo e eu mudava de bairro, ou de cidade. E não o encontraria mais. Apesar de ser atirada, nunca vivera tal experiência. Vinha com mescla de medo e mais de alguma coisa que, dias depois, descobrir ser prazer. No momento pensei, faço de conta que sonho. E nos sonhos tudo é permitido... Ele avançava. Que não me levasse o vestido, que não me deixasse toda nua. Surpreendi-me quando o vi sobre passeio, acabado de descer. Ainda a multidão a me espremer, ainda suas mãos desajeitadas a tentar uma sonata por baixo do meu vestidinho.

segunda-feira, junho 23, 2014

Dentro de mim ou a moral das histórias

Faz algum tempo, eu queria tirar a moral das histórias; hoje, acho que o importante é contar uma boa história, apenas isso. Foi então que ele veio com a ideia do celular. Eu nua e ele falando que fez uma coisa engraçada com o celular da ex-namorada. Como, uma coisa engraçada?, eu quis saber. Ela estava nua, assim como você agora, e com o celular na mão, ele se pôs a contar...

... Achei engraçado ela atender a ligação e dar uma desculpa esfarrapada para o homem que estava do outro lado da linha, quem sabe se tratava do marido dela. Como você já percebeu, não pergunto sobre esses assuntos. A postura da mulher era de algum charme: em pé, de costas para mim, uma das mãos com o celular no ouvido, a outra na cintura. Depois que desligou, dei a ideia, vamos colocar o seu celular num saquinho plástico. Para quê?, ela perguntou como num rápido reflexo, não vai dizer que você vai querer... As reticências foram dela. Isso mesmo, respondi, você adivinhou. Não trocáramos palavra alguma sobre o que ela pensara nem sobre o que eu iria sugerir, mas a nossa língua era a mesma. Sentou na cama e entregou o aparelho a mim. Só não quero que, caso ele toque, você atenda, advertiu. Não, não vou atender, melhor, não vamos atender, assegurei. Levei o telefone e voltei com ele dentro do saquinho plástico. Adivinhe o que fizemos? Não, não precisa responder nem ficar tão assustada. Enfiei o celular no saquinho. Quando acabei, ela já estava deitada. Abriu as pernas e falou pronto, agora é com você. Num tempo em que reina a tecnologia, trepei com ela de celular enfiado na vagina. O pior de tudo, ou o melhor, não sei dizer, é que o telefone tocou. Ela gritou deixa tocar, deixa, deve ser ele, vamos gozar primeiro. E gozamos. O telefone tocando e vibrando junto com o meu piru dentro dela.

Ele acabou de contar e olhou do modo frontal para mim. Gelei. Será que pretendia fazer o mesmo comigo? Ainda nua movi-me um tantinho na cadeira, balancei um dos pés; de pernas cruzadas, puxei a coxa direita um pouco mais para cima. Sorri, enfim. Ele, para não alongar o constrangimento, disse longe de pensar que vou pedir para você fazer isso. Ainda bem, respondi, mas acho que a mulher fica muito desvalorizada quando os homens propõem situações desse gênero, acrescentei. Mas ela é uma mulher de outro nível, ele tentou se salvar, e no fundo a proposta foi dela, também acrescentou.

Ele ligou o som. Encerramos o assunto e ouvimos a música. Era uma canção americana, quase um folk. Ele tem bom gosto para essas coisas. Depois, fomos para cama.

Após me levar em casa (esqueci de dizer que estávamos na casa dele), já sozinha, tentei enfiar o telefone na minha vagina, a mesma atitude que ele fizera à ex-namorada. Aqui entra a questão que escrevi lá no começo, a minha antiga necessidade de tirar a moral das histórias.  Eu dissera que as mulheres saem diminuídas com tais atitudes, e era eu mesma que, naquele momento, introduzia o celular em mim. Fui, então, ao telefone da casa e liguei para o meu número. Confesso que me arrepiei quando ouvi o som da campainha; afinal, eu emitia um som distante. Era como se o telefone soasse em algum lugar da casa e eu não soubesse onde ele estava. Mas aconteceu algo ainda melhor, a vibração do aparelho me trouxe de volta ao meu corpo. Senti intenso prazer.

Nos dias que se seguiram, toda vez que meu namorado telefonou demorei a atender. Até que ele perguntou a razão de tanta demora.

Você deve imaginar onde estava o meu celular, respondi.

Ele entendeu. Riu muito. Achou que eu contava uma anedota.

sábado, maio 03, 2014

Surpreso?

Ele falou sobre uma mulher que tivera. Mas a culpa foi minha, reconheço. Não sei por que sempre começo a puxar assunto sobre suas ex-namoradas. Ele diz que isso me dá tesão. Acontece quando brigamos, não aguento e afirmo que com sicrana ou beltrana ele não agiu daquela forma. Tanto agi que ela me chutou pra escanteio, declara solene. O motivo foi outro, replico, ninguém aguenta esse mulheril todo atrás de você. Silencia durante um tempinho. Então, continuo, tem mais uma coisa, aquela sua última namorada é feia que dói. Olha para mim surpreso, faz um movimento como se fosse falar algo, mas não vai adiante. Continuo, lembra aquele meu amigo?, aquele que apresentei a você no CCBB, ele estava comigo quando você apareceu com ela, até ele comentou, caramba, que mulher feia. Feia?, retruca, você é professora de artes, devia saber que o feio e o bonito são questões de ponto de vista, parece que nunca leu Kant. Isso não tem nada a ver com Kant, ela é feia, sim, chego a gritar. Estourando de raiva, acaba falando, você pode achá-la feia, mas fazia umas coisas melhor do que você, certa vez permitiu que eu tirasse o biquíni dela na praia, dentro d’água, e a deixasse nua durante um tempo enorme, você não teria coragem de se prestar a isso, terminou e esperou que eu retrucasse. Mas engoli a seco. O que eu poderia falar? Certa vez já ficara nua do lado de fora do apartamento dele por causa de uma discussão semelhante. Agora, porém, deixar que ele me roubasse o biquíni ao entrar para tomar banho de mar seria demais. Mas não suportei aquilo, acabei por lhe dizer, fico sim, tenho mais peito do que ela. Ah, realmente, nisso você tem razão, seus peitos são muito maiores, completou como se narrasse o desfecho duma piada.

No dia seguinte fomos à praia. Ele queria me testar. Vamos ver se você falou da boca pra fora ou se vai ter coragem mesmo, afirmou em tom de pergunta, duas vezes, enquanto dirigia. Chegamos à Barra, lá no final da praia, um tipo de reserva. Aqui está bom, apontei o local. Arrumamos nossas coisas, abrimos o guarda sol. Havia poucas pessoas na praia. Notei que ele estava excitado. Vamos entrar, ordenei. Como já fizera teatro, eu representava, encarnava na verdade outra pessoa, porque caso vivesse eu mesma, a Cris que todos conhecem, desmoronaria em tremeliques. Vamos, concordou. De repente, pareceu surpreso. Você vai de maiô? Sim, claro, como você gostaria que eu fosse?, fiz cara de inocente. De biquíni, assim só tiro a parte de baixo, fica mais discreto, você pode ficar horas dentro d’água que ninguém repara que lhe falta a peça inferior, assegurou. Peça inferior?, repeti e ri, nada disso, quero ficar nua por inteiro, você tira o meu maiô e traz para cá, guarda entre as hastes superiores da barraca, ok?, e mais uma coisinha, depois vai dar uma volta, tome uma cerveja num desses quiosques, quando cansar volte com o meu maiô, vou ficar esperando. Estou surpreso, falou. Surpreso?, você deveria pensar melhor ao me fazer propostas desse tipo, não falei que tenho mais coragem do que sua ex? E cá entre nós, afirmo e reafirmo, ela é feia que dói.

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Sociedade secreta

Glenda atravessa a Rui Barbosa, vem vestida como uma executiva que volta do trabalho num final de expediente. Ao atingir o passeio, dá mais alguns passos e para diante de uma vitrina de decoração. Olha alguns móveis, todos em estilo despojado, predominam móveis de sala, cadeiras, mesas, poltronas e luminárias. Ao voltar-se para continuar o caminho, seus olhos encontram os de um homem que vem na direção contrária. Os olhares se cruzam e permanecem fixos um no outro durante menos de um segundo, mas o tempo é suficiente para que o encontro não se torne uma lembrança fugidia. Glenda não vai parar, como não parou, nem irá atrás do homem. Como uma mulher de modos recatados, nunca tomou tal atitude, e não a cometerá agora. Mas ele... , ele já vem conquistando várias mulheres, e aquela não lhe parece difícil.

Corre atrás dela. Não que Glenda não saiba que está sendo seguida. Sabe e está gostando, mas, como todas, representa. Ele aproxima-se bastante – já vão adiantados duas quadras – e entrega-lhe um cartão. Não o faz, no entanto, sem elegância. Quer chamar-lhe pelo nome, mas como não sabe, diz em voz baixa:

Moça, moça, caiu alguma coisa de sua bolsa.

Glenda para e vira-se para ele. O homem, então, entrega-lhe o cartão de visitas. Lógico que é um ardil, ou um convite, onde está escrito o nome e o telefone dele. Dali em diante, a iniciativa deverá ser da mulher.

Duas semanas depois, Glenda disca o número. Ele atende.

Oi, quero agradecer o cartão.

Cartão?, ele surpreso.

O cartão que você me entregou naquele dia, na Rui Barbosa.

Ah, sim, lembro, que bom você ter telefonado.

Venha até aqui, quero falar com você.

Onde?

Estou no Ilha Linda sul, diz Glenda, tem de ser agora.

Vou, sim, me dê quinze minutinhos.

Não demora e ele já está lá.

Ah, disse Glenda, vi quando você passou com o carro antes de estacionar, é tão bonito, qual a marca?

Ele responde um nome que a mulher não compreende mas finge conhecer.

Estou doidinha que você me leve pra passear.

Levo, claro, mas gostaria de saber por que você demorou tanto a ligar, já não contava com seu telefonema.

Perdi o seu número, encontrei apenas hoje, que bom, não é mesmo?

Ah, ainda bem, diz o rapaz. Mas sabe o que é, continuou, estou aqui porque dei uma fugida, ainda é o horário de trabalho, preciso voltar, que tal encontrar comigo à noite?

Ok, fala Glenda, mas fique ainda um pouquinho.

Tudo bem, vou tomar um chope.

Ele pede a bebida, e olha nos olhos da mulher. Ela sorri.

Não pensei encontrá-la de novo, achei você uma mulher de aparência muito séria.

Jura?

Juro. Fico muito feliz por estar aqui.

Ele toma o chope, depois paga toda a despesa, beija-a e se vai, promete pegá-la à noite, às oito horas. Glenda fala que tem seu número bem guardado, e que já não o perderá. Ele anota o número dela.

Quando parte, acha tudo aquilo muito estranho, mas como as mulheres são sempre um mistério, quer acreditar que tudo vai muito normal.

À noite volta para encontrá-la. Ela está no café do Hotel Mercure, na orla.

Oi, pensei que você não viesse.

Eu?, Jamais seria capaz de deixar você esperando.

Ela sorri e lhe dá um beijo.

O que vamos fazer?, ele pergunta.

Você veio com seu automóvel?.

Sim, e também tenho uma moto.

Quero passear um pouco. Você me leva a Rio das Ostras?

Claro.

Vamos, então.

Ele mais uma vez paga a conta e os dois partem.

Pelo caminho, ela puxa conversa.

Soube que você escreve livros.

Soube? Como descobriu?

Hoje em dia, com o Google, todos nos tornamos verdadeiros detetives.

O Google? Ah, sim, o Google, ele repete.

Quero lhe pedir uma coisa.

Pois peça.

Você me coloca em uma de suas histórias?

Ele olha para Glenda, mostra uma fisionomia de satisfação. Do lado de fora, a noite avança, o céu está claro. Na direção contrária os faróis dos veículos dão uma tonalidade azulada à aventura noturna.

Coloco, claro, mas você sabe, escrevo livros de viagens, não se trata de ficção.

Ah, gosto muito de ler, e sei que todo escritor inventa alguma coisa.

Isso é verdade, ele concorda.

Eu dito para você a história em que desejo aparecer.

Então, foi por isso que me procurou. Quando soube que sou escritor, resolveu telefonar.

Não, já falei que perdi o seu número.

Ah, sim, acredito.

Em Rio das Ostras resolvem ficar na Praia do Cemitério, um local bastante agradável onde há realmente um cemitério, mas os mortos não perturbam a fileira de barzinhos que se estende à beira da praia. Sentam em uma mesa lateral e continuam a conversa.

Quer dizer que você vai me ditar a parte da história com suas aventuras, ele diz.

Aventuras, não; na história, sou dona de um bar à beira-mar como este aqui, e recebo sempre muitos amigos. Assim vou poder mostrar para todos que sou personagem de uma história.

Você ama os livros e as histórias, não?

Amo também os automóveis.

E as motos, não?, quer saber ele.

Também as motos, Glenda ergue a bela taça de xerez e brinda ao copo de chope do homem.

À literatura, diz ele.

À literatura e aos automóveis, exclama Glenda.

Ela dá mais detalhes de como deseja aparecer na história. Diz como é a decoração do bar, quem o frequenta e até mesmo o que veste. Ainda se refere a um segredo que vai revelar mais tarde, quer que faça parte do final da história.

Posso colocar o seu bar e você no livro, quanto a isso não há problema algum, diz ele, mas quanto ao segredo não sei, acho que vou ter problemas, porque se trata de um livro de viagens.

Quem sabe você diz que, conforme uma lenda local, a mulher etc. e tal e assim conta o segredo.

Sei, entendo o que você quer, só não compreendo o porquê disso tudo.

Não faz mal que não compreenda, depois você vai entender.

Conversam sobre outras coisas, bebem e comem. Lá pelas dez e meia saem do restaurante. Glenda pede para ir até a beira da praia. Ele concorda e os dois caminham adiante.

Que bom não haver ninguém por perto, diz e despe o vestido de uma só vez deixando-o nas mãos do homem, depois entra na água.

Na volta, após secar o corpo ao ar livre, senta nua no banco do carona e não se veste enquanto voltam à cidade de origem.

O rapaz toca-lhe o corpo quando para num bairro da zona norte da cidade. Ela o abraça e os dois fazem sexo dentro do carro. Os vidros escuros deixam-nos despercebidos.

Dias depois, o escritor coloca a mulher numa de suas histórias de viagens. Ele está na América Central, numa praia do Panamá. Cria um bar como aquele de Rio das Ostras. A mulher é a anfitriã perfeita para qualquer tipo de viajante. No final, diz que há uma lenda na localidade sobre Glenda, a dona do bar, mas ele descobre por conta própria, ninguém no lugarejo sabe que a dona do bar e a personagem da história são a mesma pessoa. Agora, resta esperar por Glenda para que ele descubra o segredo que ela deseja no relato.

Três dias se passam e ele recebe um e-mail de Glenda. Ela o cumprimenta com um beijo. Na mensagem, há um arquivo anexado. Ele abre. É um relato, um miniconto chamado “Aparição”, trata-se de uma história em que uma mulher aparece nua num lugarejo à beira da estrada às quatro horas da manhã. Ela pede ajuda a um homem, que se surpreende ao vê-la em pelo. Há uma foto também anexada: é Glenda a mulher nua na madrugada. Um dia depois ele recebe outra mensagem. Novamente um miniconto. Agora chamado “Rita”, é a história de uma mulher que está nua dentro d’água, numa praia de Rio das Ostras. Ela está sozinha e também aparece um homem. Ela conta-lhe, então, seu périplo pelas praias da região com o namorado, que há pouco partiu. Mas esse ouvinte só repara que ela está nua no final do relato, e é ela mesma que revela. A mulher também não tem preocupação alguma de como vai fazer para sair dali nua. Está prestes a anoitecer, ela abraça o homem e diz que o importante é gozar.

No final de semana, encontra-se com Glenda no restaurante Ilha Linda Sul.

O que significam aquelas histórias que você me enviou?, está curioso.

Ela sorri, tem um cigarro entre os dedos, mas ele permanece apagado; seu cabelo liso escorre pelo lado direito, do lado esquerdo está preso numa espécie de penteado assimétrico. Enfim, responde:

É o segredo.

Segredo?

Isso. Não disse a você que havia um segredo e que você deveria colocá-lo na história da dona do bar, no seu livro de viagens?

Ah, sim, agora entendo. Mas você precisa me explicar melhor.

Explico, sim. Temos um grupo, só de mulheres, uma espécie de sociedade secreta. Vivemos experiências extremas e depois nos reunimos para contá-las umas às outras. Às vezes, escrevemos as histórias com nomes fictícios. Estou contando a você para que faça parte do livro. E o livro não vai ser lançado aqui, não é mesmo?

Vocês se reúnem para experiências extremas com alucinógenos e uso de drogas pesadas?

Não, nada disso, já passamos dessa fase, hoje somos até mesmo vegetarianas, bebemos vez ou outra algum drink, a maioria toma suco. Nossa experiência é com sexo.

Agora começo a entender.

Aproveitamos a noite, o fato de a cidade não ser grande permite que andemos nuas. Corremos o risco de ser surpreendidas ou mesmo estupradas, mas é isso que nos arrepia. Agimos individualmente, traçamos antes um roteiro, mas antes do amanhecer temos de estar sãs e salvas. Você pode pensar que trepamos com qualquer um, mas não é bem assim. Precisamos sentir alguma atração.

Nunca deu errado?, ele quer saber.

Até agora, não. E acreditamos que ninguém na cidade saiba sobre nossa sociedade.

Mas em “Aparição” a mulher contata um homem, pelo menos ele fica sabendo.

Às vezes há esse contato, mas depois desaparecemos. Então quem passou pela experiência nada mais sabe sobre nós, o máximo que pode acontecer é surgir uma conversa de botequim, que, no fundo, não tem credibilidade. Também não há como nos reconhecer, usamos sempre algum disfarce.

Vou escrever sobre isso, então.

Ok, escreva e fique atento.

Ela para de falar e vai até o passeio para acender o cigarro. As ondas do mar estouram com regularidade e é possível assistir às espumas que sobem e descem as areias da praia.

Na madrugada da sexta seguinte ele recebe um telefonema, são três da manhã. Glenda pede para que ele a apanhe dois quilômetros após o Hotel Blue Tree, próximo à lagoa, acrescenta que tem de ser dentro de vinte minutos. Desliga o telefone sem deixá-lo responder. Quando o homem chega, Glenda, nua, o espera sentada numa pedra. Toma-o por uma das mãos e dá a direção que precisam seguir. Ele a obedece. Às quatro em ponto ela desce do carro, ainda nua, na Praia da Joana.

Vá agora, você não pode ficar aqui, nem pode me espionar.

Ele dá a partida. Um quilômetro adiante para o carro e salta, volta pela vegetação até o local onde deixou a mulher. Repara que ela permanece ali e está fumando mais um cigarro. Pouco a pouco um barulho de motor cresce dentro da noite. Surge uma moto. Uma mulher guia. Glenda sobe na garupa e se vai.

Dois dias depois encontra Glenda de novo na orla da praia de Cavaleiros. Conversam bastante, mas toda vez que ele tenta tocar no acontecimento recente ela muda de assunto. É como se a noite de Glenda nua não tivesse existido.

Eles trepam num motel próximo. Ele pergunta se pode levá-la nua no carro. Glenda aceita. No final diz que vai deixá-la na ponta da praia de Cavaleiros, quer ver como vai fazer para se safar. Mas a mulher, a princípio, nega sair do carro, diz que as coisas precisam ser programadas.

Quando você telefona para algum homem resgatá-la de madrugada, parece não haver programação, ele diz.

Parece, apenas.

Então, hoje, vamos ao acaso, ele parece nervoso.

Calma, sou eu que estou nua, ela sorri após a última palavra.

Você não quer a história?, ele insiste, a história da dona do bar? É preciso uma dose de imprevisibilidade.

Você acha?, ela finge começar a pensar no assunto.

Para que as histórias sejam verdadeiras, a gente precisa respeitar o acaso.

Ok, então, vamos ao acaso, Glenda concorda.

Ela desce do carro, abre a porta devagar, sai e a fecha novamente. Está de pé, do lado de fora, diante da janela do carona.

Nada de documentos nem de telefone, ele acrescenta e dá a partida.

A mulher fica nua e sozinha. Ele dirige por toda a orla, faz o retorno no final da praia e volta ao local onde a deixou. Mas ela não está. Ele a procura nos arredores, desce a areia, entra pelo Pecado. Mas não a encontra. Nem ali, nem em lugar algum.

Uma semana depois, num sábado às três da manhã, recebe um telefonema. É Glenda, e ela o espera, nua, no mesmo local em que ele a deixou.

quarta-feira, dezembro 18, 2013

Gosto de histórias fortes, sabia?

Ele vinha dirigindo pela avenida que margeia o canal, eu caminhava pela calçada. Parou o carro, buzinou, abaixou o vidro e me chamou. Sorri, cumprimentei e dei um adeusinho. Ele é professor lá da escola. Às vezes conversamos durante os intervalos. Sabe que me separei. Contei às amigas sobre a separação e ele escutou.

Meu marido só me queria para o sexo. Podia ser qualquer hora do dia, eu podia estar em qualquer cômodo da casa, bastava ele me encontrar para me agarrar, me dar um tapa na bunda e começar a tirar a minha roupa. Dizia que estava louco para trepar comigo. Falando assim, sei que muitas mulheres vão sentir inveja, outras dirão que me estou fazendo de gostosa.

O professor fez o vidro elétrico subir e novamente ficou incógnito dentro do automóvel. Aquilo, não sei por que, me provocou certo arrepio. Acelerou e se foi.

Na semana seguinte, enquanto eu almoçava no restaurante que fica em frente à escola, encontrei ao acaso com ele. Logo seus olhos cruzaram com os meus. Moveu a cabeça num ligeiro cumprimento e foi ao buffet se servir. Na volta, perguntou se podia sentar à mesma mesa onde eu estava. Sorri em sinal de aprovação. Será que ele também só pensa em sexo?, perguntei silenciosa aos meus botões. Colocou a pasta na cadeira ao lado e começou a comer. Não demorou a me fazer uma pergunta. Quis saber se eu vou ao Rio ou a Niterói com alguma frequência.

Vou pouco para aqueles lados, apenas se houver grande necessidade. Tudo o que preciso tem por aqui.

Ah, sim, falou e pareceu surpreso.

Uma vez fui a Niterói para fazer umas fotos, lembrei e disse a ele.

Umas fotos, que legal, enquanto comia olhava o prato e, quando podia, a mim.

É, fiz um álbum de fotografias, sabe, nunca tive um.

Mas fotografias de que tipo?, quis saber.

De todos os tipos. Queria ter uma lembrança de mim enquanto sou jovem, magra, sei lá, as mulheres sempre se preocupam com essas coisas.

Você gosta de manter e de reviver o passado?, ele, curioso.

A gente tem que aproveitar enquanto é jovem, é isso que eu acho. Depois que passam os anos, geralmente engordamos; aproveito enquanto tenho esse corpinho.

Ai, Gisele, você é tão burrinha, pensei, está alertando o homem a prestar ainda mais atenção em você.

É para ter uma lembrança, você compreende?, repeti.

Compreendo. As mulheres são muito vaidosas.

Só as mulheres?, ressaltei.

Na maioria das vezes, sim.

Hoje há homens que vivem em salões de beleza, afirmei.

Você repara bem as pessoas, não?

Depois de suas palavras, acabei um tantinho vexada. Pois ele sabia que eu estava separada, e pela minha conversa dava para perceber que eu andava reparando os homens.

Dias depois, enquanto saíamos da escola, ele me avistou e ofereceu carona.

Moro aqui pertinho, falei.

Mas não é melhor ir de carro?

Acabei aceitando. Ele seguiu em frente, cruzou duas ruas e eu já estava em casa.

Na semana seguinte, me convidou para sair.

É que tenho uma história para te contar, falou.

Uma história?, perguntei com ar de curiosidade. É sobre alguém aqui da escola?

Agora não posso dizer.

O bandido me deixou curiosa, sabia lidar com as mulheres.

Aceitei o convite. Era um sábado, oito da noite, quando ele veio me pegar em casa.

Cadê a menina?, perguntou.

Ficou com minha mãe, sorri já dentro do carro.

Deu a partida. A noite estava fresca. Andamos pelas vias internas da cidade até começarmos a trafegar numa marginal que nos leva à orla marítima.

Entrou com o carro num estacionamento, virou a cabeça para mim e perguntou:

Você quer caminhar um pouco ou prefere ir direto a um restaurante?

Acho melhor passearmos primeiro, sugeri.

Começou a contar uma história, mas logo descobri que não era sobre ninguém que eu conhecia. Na verdade, pelo que entendi, ele falava sobre um personagem de livro, embora afirmasse que a história aconteceu mesmo. Contou sobre um cara que resolveu ir morar no litoral.

Gosto de histórias fortes, sabia?, falei.

Você, com essa carinha de anjo?

Eu, anjo?

Pelo menos é o que parece. Mas pode deixar que essa história é bastante forte.

A história começava com um homem dizendo que iria se matar no dia seguinte, e falava a um dos filhos. Eu, atenta, ouvia.

No início o filho tenta contra-argumentar, mas logo desiste. Percebe que a decisão do pai é irremovível. Aliás, não é uma escolha. Na verdade, ele não tem escolha. Mas o pai, de modo surpreendente, faz um pedido insólito. Que ele, após o suicídio, leve a cadela que o acompanha há quase dezesseis anos a uma veterinária amiga e peça que a sacrifique. A mulher já sabe mais ou  menos da história. O filho, a princípio, acha tudo um grande absurdo e diz que não vai assumir tal compromisso.

Meu amigo esperou que eu perguntasse alguma coisa.

Ele não tentou o suficiente para salvar o pai do suicídio, falei.

O que aconteceu foi que o rapaz acabou convencido pelo pai de que o suicídio era o melhor caminho, tanto mais nas circunstâncias em que o velho se encontrava.

Ele estava doente?

Tudo leva a crer que sim, mas a doença não é mencionada, apenas falam sobre um grande sofrimento.

Mas como esse filho pode ter aceitado isso?, eu mostrava indignação.

Você não falou que gosta de histórias fortes? Estou contando.

Está bom, continue, você tem razão, é uma história forte. Enquanto caminhávamos, abotoei o agasalho e cruzei os braços abaixo dos seios, quis me proteger da brisa que soprava do mar. Apesar do friozinho, era uma noite bonita, o céu estava cheio de estrelas.

E há outra coisa, continuou, a mulher desse filho, antes do episódio do suicídio, já o havia trocado pelo irmão.

Como?, fiz que não entendi.

Isso mesmo. Já fazia alguns anos. A esposa começou a gostar do irmão e foi com ele. Eles, os irmãos, nunca mais se falaram. Passaram o resto da vida como inimigos.

Olhei para ele e sorri. Mas foi um sorrido de desconforto. Gostara da história, até me causara alguma excitação, mas era uma situação muito triste.

Durante o jantar, ainda perguntei sobre o que aconteceu depois.

É uma história verdadeira, posso lhe garantir, falou. Embora tenha sido publicada num livro de ficção. É tudo verdade, assentiu com a cabeça.

Depois dessa noite, passamos a nos encontrar uma vez na semana. Lógico que no começo fiz o tipo de mulher difícil. Três encontros depois, passeamos de novo, mas em Rio das Ostras. Caminhamos à noite numa das praias e jantamos num restaurante da Praça da Baleia. Como não estou acostumada a bebidas alcoólicas, fiquei de pilequinho. Acabei levando-o para a minha casa depois do jantar.

Me conta uma história?, pedi, estou precisando.

Precisando?, riu.

Isso mesmo. Não sei se já falei a você, essas histórias me deixam a mil.

Começou a contar sobre um americano que soube que dentro de poucos meses morreria. Estava com câncer e o médico lhe assegurou, com muita honestidade, que para o seu caso todos os medicamentos eram apenas paliativos. O homem pôs a venda tudo que tinha, e passou a dizer às pessoas que faria uma longa viagem.

Ele tocava saxofone, continuou. O homem queria viajar para um país longínquo, o Vietnã. Queria morrer em terra estrangeira e longe de todos. Como os elefantes, já ouviu falar?, perguntou.

O que tem os elefantes?, eu quis saber.

Eles se retiram quando sentem a morte próxima, afastam-se da manada e morrem sozinhos.

E o homem fez isso?

De certa forma, sim, mas antes arranjou uma namorada.

Senti intenso arrepio com essa parte da história.

Então ele transou com ela antes de morrer?, perguntei.

Várias vezes. Mas no final ela acaba com outro.

Ah, que pena, exclamei. Pedi para ir ao banheiro.

Quando voltei, eu disse que também tinha uma história para contar. Algo que eu mesma vivenciara.

Tive um aluno cujo pai se matou.

Foi na Florinda, não? Todo mundo ficou sabendo desse caso.

Foi, sim. Trabalhei lá mais uns dois anos, depois pedi transferência. O fato foi traumático para todos. O garoto não tinha mãe e, de repente, o pai se suicida.

E como ficou o menino?

Totalmente fora de órbita. Pensei na época, que foda, como esse garoto vai sobreviver. Ele andava pelos cantos da escola, sempre em silêncio, pensativo, como se dependesse do seu pensamento a possibilidade de descobrir as razões que levaram o pai a esse tipo de morte. Há suicídios que não possuem lógica nem explicação. Alguém me contou que, quando se sofre violência na infância, com o passar dos anos a vítima tende a sentir essa violência cada vez de modo mais intenso, até o ponto de não mais suportar. Daí a razão de tantos suicídios inexplicáveis. Sei lá, isso é uma loucura só, concluí.

Naquela noite, após tantas histórias, a maioria insólita, fiquei nua nos braços dele.

Depois que me separei ainda não transei com ninguém, eu disse. E olha que o meu marido era tarado por mim.

Você realmente é muito bonita, falou demonstrando muita admiração.

Acho que encontrei o homem certo, falei sem querer, como se pensasse em voz alta.

Como você pode saber se ainda nem me conhece direito?

Preciso de um homem que me conte histórias como essas que você contou. Promete que sempre terá uma história para me contar, principalmente antes de me levar pra cama?

Prometer não prometo, isso é muito complicado, mas vou tentar. Não é fácil ter sempre boas histórias. E também nada sabemos sobre o futuro.

É fácil, sim, tem tanto livro por aí. E quanto ao futuro, ele acontece sozinho.

Tudo bem, deixando o futuro de lado, você não disse que as histórias precisam ser verdadeiras?

Disse, mas você também me disse que é tudo verdade.

Concordo. De certo modo, é tudo verdade. E você também contou uma história muito verdadeira.

É que eu me excito com essas narrativas, inclusive com a do suicídio do pai do meu ex-aluno.

Já que você gosta de histórias fortes e se excita tanto com elas, será que não vai me matar essa noite? Assim também terá o que contar, só não precisa dizer que a assassina é você, riu, depois me beijou na boca.

Quem sabe, respondi fazendo de conta que entrava na brincadeira. Vou te pedir mais uma coisa, assim pode ser que eu não te mate, continuei.

Fale, sou todo ouvido.

Salta sobre mim como o animal mais feroz. Me penetra o mais fundo que você puder. Mas faço uma ressalva.

Silenciei durante trinta segundos.

Você quer o salto, a força, o pênis do tigre, não é isso?, ele.

Isso. Enfim encontrei um homem que me compreende.

Mas há uma ressalva, completou e olhou para mim esperando que eu continuasse.

Ah, sim, a ressalva, repeti abandonando qualquer vestígio de vexo. O que quero dizer é o seguinte, nada de tapas na bunda, viu, isso é coisa de criança. Me bate na cara, e bem forte. Outra coisa, quero que você me amarre. Tenho uma corda bem grossa, ali na gaveta do armário, a gaveta de baixo; mais além, vai à cozinha e volta com uma faca, há uma de ponta, pequena, na gaveta dos talheres. Percorre o meu corpo com ela, pressiona a ponta sobre a minha pele, onde você quiser, pode fazer uns furinhos, chupa então o meu sangue, chupa, me bebe, depois enfia teu peru em mim, mete bem fundo. Mas precisa ser pela noite inteira, sabe, a noite toda, e não para, viu, não para, quem sabe gozo até o dia claro, ou até já não houver sol. Agora vem, me aperta, não demora a começar, quero também o teu sangue...


Nota: a história do pai que chama o filho para comunicar que vai se matar é de Daniel Galera, e está no livro Barba ensopada de sangue, editora Companhia das Letras, e a do homem que sofre de câncer e quer morrer em terra estrangeira é do livro Hanói, de Adriana Lisboa, editora Alfaguara.