Ele morava num hotel enquanto trabalhava na cidade e, numa
noite ou noutra, eu ia ao seu encontro. A cidade abrigava muitos trabalhadores
durante a semana; era um polo de produção de petróleo, com gente de várias
especialidades vinda das mais diversas localidades. O bairro à beira-mar, com
bares e restaurantes muito frequentados à noite, era o ponto para muitos. O
hotel dele não ficava ali, mas no centro, um tipo de casa de três andares
adaptada para a hospedagem. Na recepção, dava plantão à noite uma mulher; eu a
conhecia, morava no norte da cidade; alguém que, na maioria das vezes, não
ficava na recepção, mas adormecia num sofá recuado, sem que alguém que
transitasse ali ou chegasse à entrada a descobrisse.
Como conheci o homem com quem tinha tal relação? No
trabalho. A gente, nascida na cidade, também foi beneficiada com o súbito
progresso local; os mais graduados vinham de São Paulo, Rio, Brasília, e até do
exterior; a cidade, porém, oferecia vaga de trabalho tanto para os de cultura superior
como para as pessoas de cultura mediana e mesmo para quem não tinha estudo e
trabalhava no apoio. Eu era uma mulher que terminara o ensino médio e cursara
durante dois anos um tipo de especialização em monitoramento de circuitos.
Em geral, às terças ou quartas-feiras, dependia do
expediente dele, saía eu de casa às oito horas e caminhava até o hotel, que
ficava a sete quadras. Não era uma linha reta. Eu deixava a minha rua, pegava
uma via principal que vinha do ponto sul, caminhava trezentos metros,
atravessava a linha férrea, entrava por uma viela que levava à rodoviária.
Essa estava sempre movimentada, com gente aguardando os
ônibus ou desembarcando. Era alegre o local; certa vez achei que, caso alguém
sofresse de solidão ou algum tipo de tristeza, seria bom ir até a rodoviária,
era um tipo de distração. Gente com pequenas malas, mochilas, ou aqueles que
ficavam nos bancos e aguardavam sua hora de partir davam ao local um tipo de vigor
que não existia nas vizinhanças. Dois ou três bares e um pequeno restaurante
funcionavam quase direto, vendendo sanduíches, salgados, cervejas e
refrigerantes.
Às vezes, naquele caminho que se assemelhava a um jogo em
que era preciso entrar aqui e ali para encontrar o namorado, eu tinha vontade
de parar no retângulo e ficar olhando os ônibus que entravam e saíam das
plataformas, com o vibrar elegante dos motores, típicos de veículos que vão
para longe. Certa vez, vi de madrugada o ônibus que fazia uma linha vinda da
Bahia; ele me fez sonhar.
Passada a rodoviária, eu seguia uma das ruas laterais que me
levava à praça principal; na lateral direita, outra rua, ainda menor, me
conduzia ao hotel, onde o homem me esperava.
A funcionária, como em geral não estava no seu posto, me
obrigava a esperar. Quando ela mesma surgia ou qualquer outra pessoa ali
hospedada desejava também entrar ou sair, a porta se abria.
Não eram comuns encontros como o meu, mas o namorado era
conhecido na casa, e as coisas lhe eram facilitadas. Ao entrar, cumprimentava a
mulher, uma morena que deixava o sofá e me disfarçava um sorriso. No começo,
achei o gesto maldoso, mas, com o tempo, me acostumei e passei a achar que ela
tinha um rosto afetuoso, tolerante com as pessoas enamoradas. Ela me dizia o
número do quarto em que ele estava e eu seguia pelos corredores sempre
silenciosos, um labirinto de várias portas fechadas guardando vidas e segredos.
Ele não ficava sempre no mesmo quarto, porque não passava o final de semana na
cidade; quando voltava na segunda-feira, às vezes lhe davam outro aposento.
Havia vezes em que lhe abrigavam no segundo andar.
Tinha eu um jeito peculiar de tocar à porta: três batidas
leves seguidas de outras três. Logo ele abria. Eu entrava no ambiente escuro;
às vezes, a televisão, com o reflexo azulado, refletia sua luz nas paredes do
quarto. O homem, corpulento, beijava-me os lábios, de modo rápido; eu entrava e
me sentava ou à beira da cama ou sobre uma cadeira disponível, que em geral
tinha lugar próxima à janela. O quarto era simples, com um armário de duas
portas preso na parede, a cama que não chegava a ser de casal, embora fosse
larga, um quadro com uma paisagem marítima e a TV dependurada no lado correspondente
ao local que ficavam os pés de quem estivesse deitado na cama compunham o
ambiente acolhedor. No teto, havia um ventilador para os dias de verão.
Às vezes, quando fazia calor, eu pedia licença para ir ao
banheiro. Tirava a roupa e tomava uma ducha. Saía enrolada na toalha e voltava
para a beira da cama, esperando que ele me abraçasse. Embora ele não tivesse
lugar fixo na empresa – era um tipo de funcionário que circulava entre as
várias unidades, todas situadas em bairros diferentes da cidade, onde fazia
algum tipo de fiscalização ou manutenção –, eu já o tinha encontrado durante o
expediente. Na verdade, eu não tinha ideia se alguém na empresa sabia do nosso
relacionamento, mas isso para mim não era importante.
Ele falava pouco e se preocupava em me acariciar ou deitar
comigo logo que eu estava em sua cama. Era um namorado másculo e carinhoso,
diferente dos homens com quem eu já me relacionara na cidade, de modos
provincianos ou de atitudes que me desagradavam profundamente, como trejeitos
de dominadores. Um desses namorados locais certa vez não me queria na praia com
o biquíni que eu costumava usar. O namoro não durou muito. Aquele homem ali, a
me escalar na cama do quarto de hotel, ou a me fazer quase flutuar sobre ele,
não pensava em outras coisas a não ser no ato de sentir o calor de meu corpo e
me penetrar de maneira vigorosa.
Eu permanecia com ele até as onze da noite. Às vezes, ele me
pedia para dormir; vez ou outra eu concordava, mas precisava acordar mais cedo
para ir até em casa trocar de roupa para ir depois trabalhar. Na maioria das
noites, ficava em seus braços durante duas ou três horas, depois partia,
fazendo o caminho de volta pelas mesmas ruas do começo da noite. À pergunta
dele se não era arriscado uma mulher caminhar sozinha àquela hora, eu devolvia
com a seguinte expressão: “conheço todo mundo na cidade.”
Na semana anterior, dormi um pouco mais após o amor; ao
acordar, passava de meia-noite. Ele dormia. Um sono, até certo ponto, pesado.
Levantei-me, joguei o vestido sobre o corpo e parti em silêncio, sem acordá-lo.
Na saída, a recepcionista roncava no sofá de sempre. Apertei o botão que libera
a porta. Temi que ela acordasse, mas seu sono era pesado, mais do que o do
homem que eu deixava dormindo no quarto. Saí em silêncio e fechei a porta,
evitando o ranger de metais.
Enquanto voltava, em alguns pontos da praça avistei
mulheres sozinhas ou em duplas; vestiam roupas curtas, tentavam atrair os homens
que, a pé ou de automóvel, frequentavam o perímetro. Como não estava acostumada
a andar pelo caminho durante a madrugada, a presença das prostitutas me
surpreendeu, pois as conhecia apenas de ouvir falar.
Mais adiante, não eram mulheres que formavam um grupo, mas
travestis; pude descobrir devido à voz de uma delas, falava alto e de modo
afetado; além dessa, havia outra que chamava a atenção, pois estava inteiramente
nua. Descobri nela o corpo perfeito de uma mulher alta, bem delineada, mas com
o pênis (era mediano, não estava ereto e exibia-o todo depilado, o que lhe conferia feminilidade); às vezes, ela o cobria; em outras, soltava-o, provocando o riso das
amigas. Ela, no entanto, era a que mais se divertia. Como poderia voltar para
casa daquele jeito, sem indícios de qualquer tipo roupas à sua volta? E de onde vinham, tanto as prostitutas quanto as travestis? Eu não fazia ideia. Não mudei meu trajeto; passei por ambos os grupos. Ladeando as travestis, a nua abriu-se num sorriso e gesto amorosos, não sei se para mim ou para as
amigas.
Quando cruzei a rodoviária, tive vontade de me apressar e
não olhar para a plataforma, mas não sei o que me fez virar o rosto naquela
direção. Acabei descobrindo, em um dos bancos, uma vizinha da rua onde moro. Trajava
um vestido rosa, tinha as pernas cruzadas daquele modo que, de perspectiva,
quem olha deseja ver o fundo da calcinha da mulher; havia exagero em seus
gestos e ela conversava com um homem que talvez esperasse a hora da partida. A
vizinha não tinha boa fama. Algumas pessoas afirmavam que era amante de um
homem na principal empresa petroleira e que, vez ou outra, era vista na praia
durante a noite após o fechamento do Ilhote, principal restaurante da orla
marítima, agarrada a um homem. Circulavam outras fofocas sobre ela, mas as
atribuo à mente fantasista das pessoas.
Segui até a linha férrea, atravessei, dobrei à esquerda e caminhei
pela via principal; após trezentos metros, dobrei à direita e entrei na minha
rua. Quando faltavam duas casas para a minha, reparei o homem idoso a olhar
pela janela. Esperava pela passagem da mulher por quem diz ser apaixonado para
depois se deitar e dormir tranquilo.
Tirei a chave do bolso e abri o portão da casa, uma
construção de dois andares dividida em três apartamentos. O meu é o do térreo,
onde, além da casa, tenho o quintal.
Entrei no corpo da casa, tirei o vestido, deixando-o sobre a
cadeira, fui ao banheiro, lavei as mãos e me atirei na cama. Estavam vivas em
minha mente as pessoas vistas pelo caminho; ao começar a dormir, achei que a
travesti nua me acenava.
Voltando ao quarto de hotel e ao meu homem, adorei que ele ainda tivesse
energia para uma segunda trepada. Envolveu-me, deitou-me e apreciou-me por trás.
Fez, como sempre, elogios ao meu corpo. Depois, pediu que eu relaxasse, que
realmente relaxasse. Falou um segredo no meu ouvido. Então, molhei-me. Daqui em
diante, é melhor deixar voar a imaginação.
