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sexta-feira, março 22, 2024

Franjas negras

No calor do baile de carnaval – sou atriz, a equipe de filmagem preferiu um baile verdadeiro no lugar de montar uma festa cênica –, entre os corpos suados e os ritmos enlouquecidos, me vejo envolta numa dança sedutora, onde a linha entre fantasia e realidade é muito tênue. No momento, ensaiamos. Vestida com meu biquíni mínimo, coberta apenas por franjas negras que se movem ao ritmo da música, apesar da seminudez não me sinto vulnerável, mas corajosa. "Por favor, não vai me deixar nua, não posso voltar pra casa sem..." digo em meio ao som da banda ao meu namorado, enquanto os olhares devoradores me cercam.

Chega o momento da filmagem, e diante das câmeras, repito aquela mesma frase para o homem à minha frente. Danço com uma intensidade magnética, hipnotizando-o. A energia do lugar parece se intensificar, e a filmagem flui sem falhas, capturando toda a sensualidade do momento. "Por favor, não vai me deixar nua, não posso voltar pra casa sem..." repito, enquanto o pessoal da equipe capta minha voz através de um microfone pequenino; eu; entregue ao frenesi da dança.

A equipe de filmagem se despede, e parte. Não quero acompanhá-la, o baile me contagiou. O diretor me alerta, deixando-me imersa na atmosfera eletrizante da noite de carnaval. Um homem (o verdadeiro namorado?), cujos olhares me seguiram desde o início, se aproxima. Sua presença é como uma chama que me consome, e eu me entrego sem hesitar à dança envolvente que ele propõe. "Por favor, não vai me deixar nua, não posso voltar pra casa sem..." repito mais uma vez, quase inconsciente, busco uma sensação de segurança que parece se dissolver diante da sua proximidade. E então, suas palavras chegam-me misturadas à música alegre, solta; sua voz metida a boba, um sussurro provocante: "Você já está nua faz tempo, não notou?" A mão do recente namorado traça um caminho pelo meu corpo, destacando a ausência de qualquer vestimenta, nem as franjas que mal me cobriam! Sinto-me flutuando, entregue àquele jogo de sedução que ultrapassa os limites do que é visível, pelo menos enquanto durar a festa, enquanto o sonho persistir.

No do final do baile, em meio ao silêncio da banda e misturada ao som das despedidas, minha voz repete o mantra, agora com variação: “por favor, não posso voltar pra casa sem, procure a responsável pelo figurino!”

quarta-feira, agosto 03, 2022

Você nem imagina

Aqui no prédio onde moro, um homem lindo veio morar no quinto andar. E sozinho! Ao passar por mim, cumprimenta-me, muito sorridente. Não sou uma mulher de dar conversa a vizinhos; no máximo, digo bom dia. Quando encontro alguém do prédio na rua, finjo que não vejo. Ele, porém, encontrei outro dia cruzando uma esquina, nas proximidades. Senti uma vontade louca de parar para falar com ele. Passou rápido, mas sem deixar de me olhar. Moveu a cabeça e disse alguma coisa. Eu estava passeando com o cachorro. Ele ainda se voltou para o animal e sorriu, como se desejasse alguma interação. Continuei a caminhada e continuei a pensar no admirador.

Às vezes, o fato de a gente não ser simpática, provoca muitos obstáculos. Como me fecho no meu mutismo e em geral não olho quem está passando ou cruzando comigo na rua, torna-se difícil passar a falar com todo mundo de uma hora para outra. Por exemplo, não consigo chamar esse homem e inventar uma história, ficar conversando, convidar para um cafezinho. Tais ações são contrárias à minha natureza. Além disso, na zona sul do Rio, a maior parte das pessoas é calada. Tenho uma conhecida que diz preferir o modo de vida da zona norte da cidade. Lá, as pessoas se aproximam uma das outras com mais facilidade. Mas, mesmo aqui, há exceções. Tenho amigas que criariam oportunidades para a aproximação. Diriam, Miriam, você é muito idiota, como pode deixar passar um homem desse tipo, e logo você que é rica. A qualidade "rica" fica por conta delas. Insinuar-se-iam até conseguir um pretexto para tê-lo ao seu lado. Muitas vezes, inventam uma recepção, com taças de vinho ou de champanhe, para convidar o homem.  

Outro dia, estava eu conversando com o porteiro sobre um problema do nosso condomínio, quando o tal novo morador passou por nós. Cumprimentou-nos efusivamente, um bom dia que, na minha opinião, ecoou pelo resto da manhã. Em frações de segundo, imaginei-me ao lado dele na praia, num bar da orla bebendo um coquetel, ou na minha casa em Itaipava, eu e ele, sozinhos, a passar um final de semana! Mas como vou chegar a isso? Fico apenas na vontade. O homem passou, acho que foi para o trabalho. O porteiro respondeu ao que eu perguntava. Depois, fui para casa e fiquei olhando para o meu cão, que gosta de sentar aos meus pés e sentir o calor do meu corpo. Histórias de calor do corpo deveria acontecer com meu recente enamorado. Aliás, como lhe dizer que estou enamorada?

Conversei sobre ele com a minha analista. Ela disse que é um bom sinal. Por que você não toca na campainha do apartamento do homem e não conversa com ele? Pergunte se ele gosta de cinema. Não há nada de mal nisso.

Suas palavras ficaram na minha cabeça. Às vezes estou lendo um livro, a história começa a passar em branco porque o homem me invade o pensamento.

Fernanda, pedi à pessoa mais próxima a mim no prédio, alguém que conheço há muitos anos, você me ajuda organizar uma festa? Festa?, Miriam, que bom!, jamais ouvi você falar uma coisa assim. Qual o motivo da comemoração? Ah, você nem imagina...

quarta-feira, fevereiro 09, 2022

Garota das exclamações

! Sou a garota das exclamações! Tanto mais hoje, porque estou em Búzios. Uma garota de 18 anos, livre, e numa cidade onde todos dizem ser o paraíso, pode não querer nada mais na vida. Mas eu quero! E não é mentira. Ao chegar, logo após o meio-dia, as pessoas hospedadas na pousada me olham com o rabo de olho. Admiram meu corpinho de modelo! Entre elas, há um rapaz. Dizem que ele veio com uns amigos, já me informei.

Cinco da tarde, praia da Ferradurinha, perto do centro, uma fila de homens de todas as idades vira a cabeça quando passei de biquíni. Laura, você não deveria vir com um biquíni como esse, diria minha amiga Dina. Por quê? Porque vão achar que você é bem piranha. Mas em Búzios! Eu exclamaria. Em Búzios e em todos os lugares, eles sempre pensam que somos piranhas, concluiria. É isso que eu desejo, deixe-os pensar que sou uma mulher que dá pra todo mundo! Mas, engraçado, na Ferradurinha, ninguém se aproximou. Em M, logo aparece alguém, quer fogo para acender o cigarro, uma informação, histórias de que estão há pouco tempo na cidade, dicas de restaurantes e bares badalados. Não sou guia turística, afirmo sorridente. Uma vez dei informações a um dinamarquês; quando ele foi ao bar, quem estava lá? Euzinha, aqui! Búzios é uma cidade onde as pessoas são discretas. Quem é interiorano, não vem para cá. Os rapazes nos olham de longe, ficam sonhando com uma boa trepada. Muitos ficam apenas no sonho! Eu não quero sonhar. Há um jovem lindo, de bermuda florida. Levanto, caminho até a beira d’água, perto dele. Está fria!, exclamo. Ele ri. Gosto do Nordeste, porque lá a água do mar é sempre quente, falo, quase em segredo. Ele me olha, sorri, quer dizer alguma coisa, apenas repete: sempre? Isso. Outra coisa, para arranjar namorada é bom, porque há muitas mulheres!, falo. Sério?, arregala os olhos. Sério, afirmo, mas há um lugar melhor do que lá para isso, continuo. Onde?, ele parece interessado. Em Búzios. Em Búzios?, repete em forma de pergunta, dando bastante entonação. Em Búzios, repito. Aqui, então, ele confirma. É lógico que é aqui, idiota, penso mas não chego a dizer. Perco a vontade de abraçá-lo. Afasto-me. Tenho certeza de que pensou que sou eu quem deseja arranjar namorada. Quando estou dentro d’água, outro rapaz se aproxima dele. Os dois trocam algumas palavras sobre mim, tenho certeza.

À noite, em Búzios. Não fale, a noite em Búzios é uma loucura. Não vá com ninguém antes das duas da madrugada, me aconselhou Dina. Por quê?, quis eu saber. Porque você vai perder o melhor da noite. Não posso perder e ganhar?, eu sempre querendo compensar. Como assim?, ela é esperta, mas prefere me escutar. Conheço um às onze, outro à meia-noite, outro a uma da madrugada, fico com um, com outro etc.; depois, às 2h30, o principal. E se o primeiro não te largar?, ela quis saber. Sou eu que vou largá-lo... Às vezes não é assim que as coisas acontecem!, exclamou.

As moças andam de shorts, ou mesmo de biquínis, não há muita diferença. Como sempre, o número de mulheres é maior, muitos homens juntos também. Oi, você está na minha pousada, escuto de um rapaz. Ele é bonito. Mas ainda são 22h00. Tenho vontade de dizer me procure depois das duas, mas mantenho a linha. Estou, sim, na sua pousada. Ele me toca as mãos. Vamos beber uma cerveja, diz. Prefiro Absolut! Ele arregala os olhos. Absolut? Movo a cabeça, faço um movimento de face que diz é óbvio. Ela bebe e a levo para cama, adivinho seu pensamento. Mas é ele quem bebe uma Heineken, fica altinho e vai com os amigos.

Moça, você é muito bonita, precisamos de mulheres jovens e bonitas, para uma festa numa mansão; você vem com a gente? Três garotas no banheiro me convidam. Uma festa particular, com piscina, open bar... Isso mesmo, diz a mais espevitada. Mas como vou saber que vocês não vão me dar um golpe, que não se trata de armadilha? Tais pensamentos me afastam da magia do local. A do meio diz: ela não conhece a gente, é um pouco difícil decidir, eu ficaria também na dúvida. O que pode acontecer?, pergunto-me. As moças são tão bonitas. Logo, a seguir, respondo: vou! Não há perigo em Búzios, é o paraíso, reflito. Quero fazer duas perguntinhas, tudo bem?, peço. Pergunte, diz a mais alta. Vocês conhecem os donos da festa? Conhecemos, é um velho amigo. E bota velho nisso, diz a menor, sempre sorrindo. Agora, a segunda pergunta: O máximo que pode acontecer é a gente ter de ficar nua, não é mesmo! No lugar da pergunta, exclamo. As três riem, a mais alta diz: você parece ser uma mulher experiente!

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Equilibradinha

Me perguntaram se já me equilibrei nua. Respondi sim, equilibradinha, mas sentada numa poltrona. Explico, antes de insistirem. No mês de dezembro sempre fazemos compras, logo precisamos de dinheiro. Ele havia telefonado, quer ganhar um presente? Jamais recuso. Claro, um presente, falei sem demonstrar tesão. Em dinheiro, completou. Continuei muda, porém arrepiada. O homem havia sido meu patrão, sempre regalos. Marcamos o encontro.

As ruas movimentadas, não seria preciso dizer, mas como é recomendável dar o ar local à história, vá lá. Caminhava eu na Gonçalves Dias, quase esquina com a Carioca, três da tarde. Veio o homem ao meu encontro. Beijos, sorriso, bolsas nas duas mãos, o short, como o nome diz, muito curto. Onde podemos realizar a transação? Lógico que ninguém perguntou isso, mas era o que se procurava resolver. Numa tarde de fim de primavera, as ruas quentes, as pessoas procurando andar pela sombra, homens olhando as saias curtas. Onde resolver o problema do desejo? Onde o do dinheiro? Andamos um pouco a esmo. Vamos a um ar condicionado, propôs. Entramos num bistrô. Veio a garçonete, olhou-me com olhar de também quero, depois de admirar o homem, será que ele paga quinhentos?, li nos olhos da mulher, que soube disfarçar. Sorvete de café, boa ideia, ele disse, uma taça de champanhe. Será verdade?, eu queria acreditar. Enquanto esperávamos, voltei o tempo, à época em que pedia: o senhor pode me emprestar duzentos? Passavam-se os meses, eu nunca quitava a dívida; ele não cobrava. Um dia o homem me deixa nua. Ah, a garçonete, sorvete ao lado da taça de champanhe. Vamos trocar?, brinquei. Traga outra taça, sorriu à mulher. Sabor, quase da minha cor, só um pouquinho mais escuro; ah, a champanha me deixou arrepiada, ainda. A pasta gelada entrava pela minha pequena boca, lábios, língua, garganta e desaparecia nas minhas vias interiores. Oh, como é bom o calor, como são bobos os homens. Vamos aos negócios. Sim, bebo também champanhe.

Certa vez eu já não trabalhava para ele, não resisti e telefonei. Marcamos no mesmo centro. Vou levar você a um hotel, ele, sem meias palavras. O que se faz num hotel? Abriu a porta do apartamento; eu, como se fosse a primeira vez, não encontrava lugar para minhas mãos. A disfarçar, peguei o telefone, pedi que me trouxessem um lanche. Como demorou. Pude, então, me preparar. Bebi uma Fanta e comi um sanduíche, juro, que pobreza, não sabia à época que podia pedir champanhe. Quando eu já ia nua, antes de treparmos, sente na poltrona, pediu, equilibradinha, isto é, cruze as pernas e fique um pouquinho sem se mexer. Como é difícil ficar sem se mexer.

Tirou do bolso um envelope. A garçonete me olhava de longe, tenho certeza, mesmo sem vê-la sei que me espionava. É para você, o presente. Sorri, contida, guardei o envelope dentro da bolsa. Não vai abrir? Ah, sei que és generoso, não preciso olhar agora. Seus olhos escaparam, minhas pernas brilharam. O shortinho. Respirei, nua. O dinheiro me aliviava. A garçonete veio recolher minha taça de sorvete vazia, o champanhe ia ainda pela metade. O que se pode conversar numa hora dessas? Como vai a empresa?, perguntei. Meneou a cabeça. Como sempre, mais triste sem você. Estou aqui, sempre que me telefonar, rebati, como uma boa rebatedora de uma bola difícil, jogo de tênis. Confesso que nunca pratiquei o esporte.

No mês de dezembro, próximo o dia de Natal, há clima para o convite a um hotel? Ele, elegante, não tocou no assunto. Sabia que haveria outros dias. Aliás, antes da despedida, antes mesmo de me beijar, soube se expressar: vocês, mulheres, sempre dão um jeito, esse calor, vão quase nuas, que bom. Minhas pernas. De novo, o shortinho. A garçonete, tenho certeza, ter-lhe-ia proposto o hotel, equilibradinha.

domingo, novembro 17, 2019

Fila

Ele me pediu para escrever um texto excitante e lhe enviar como mensagem. Você acha essas histórias mais instigantes na narrativa de uma mulher, afirmei. Isso mesmo, retrucou, as mulheres tem mais força narrativa. Os homens são assim, adoram uma mulher falando sacanagem. Você quer então transar pelo telefone, isso é coisa antiga, sabia?, provoquei. Ele disse que sim e, como estávamos ali um ao lado do outro, cheguei a dizer será que não basta a gente transar num quarto de hotel, ou mesmo em seu apartamento, como temos feito? Deu de ombros e fez uma fisionomia alegre, mas sem um sorriso propriamente. Lembrei então de um rapaz que eu conhecera, fora meu estagiário numa das empresas em que trabalhei, sabia fazer a mesma cara, transmitia alegria sem sorrir. Sua fisionomia impressionava outras mulheres, queriam ficar o tempo todo junto dele. Logo uma delas começou a provocá-lo.

“Acho que ele não vai querer”, eu lhe dissera, “quem sabe queira se manter apenas profissional, sem se envolver com alguém aqui na empresa?”

“Vai ver o homem é gay, e você tentou sair com ele mas não conseguiu.”

“Nada disso, não podemos fazer uma afirmação dessas, caso ele saiba poderá até nos processar.”

Minhas palavras pareceram assustar a candidata.

“Vou tentar mesmo assim, quem sabe consigo”, insistiu.

Na semana seguinte a mulher voltou a conversar sobre aquele meu estagiário.

“Saí com ele, quero dizer, saímos.”

“Saímos?”, indaguei curiosa.

“Isso mesmo, eu, Dora e Silvana.”

“Então foram apenas a um bar, uma happy hour.”

“Nada disso”, ela retomou, “fomos a um hotel.”

“Um hotel?”, surpresa na minha voz e acho que no meu rosto.

“Isso mesmo, ele aceitou, você precisava ver, nós três nuas agarradas ao homem.”

“Mas, isso é uma vergonha, o que ele vai pensar de vocês, da nossa empresa?”

“Nada disso, o homem é cabeça feita, um ótimo amante, e uma coisa é trabalho, outra sexo.”

“Mas três mulheres com um homem, não é normal”, afirmei.

“Mara, o que é normal hoje em dia, sobretudo aqui na nossa empresa?”, ela terminou e se foi.

Fiquei pensando no sobretudo que ela pronunciou.

Por que você está tão calada?, perguntou meu amigo, acho que eu ficara hipnotizada com a lembrança. Nada, com essa sugestão sua, lembrei uma história de alguns anos atrás. De tanto insistir, contei a história. Sabe que já aconteceu comigo?, veio ele com o contraponto, sério, foi numa escola, eu tentava ser professor, também era estagiário, e no ensino médio; o professor me apresentou à turma, com toda a seriedade, este é o nosso estagiário, vai ajudar a tirar as dúvidas de vocês e vez ou outra vai dar algumas aulas; fomos assim por um semestre; perto do final do estágio, duas delas me convidaram para uma festa; aceitei, mas não era bem uma festa, havia cinco ou seis delas que queriam trepar comigo, sério, cinco ou seis, fizeram até fila, apenas pedi que eu trepasse sozinho com cada uma enquanto as outras esperariam do lado de fora do quarto, mas fiz uma exigência inusitada, que me deixava excitado e capaz de me dar fôlego para transar com todas; que ficassem nuas, em fila, na porta do quarto; quando saísse uma, a seguinte deveria entrar, e eu precisava ver todas nuas e em fila, repeti; elas se mostraram obedientes, assim como eram na escola, e tudo terminou muito bem; uma boa lembrança que não esqueço. Como você quer então transar comigo por mensagens de celular, algo tão comportado diante de uma história dessas?, eu estava curiosa. Ora, essa experiência, a de trepar por mensagens de celular, eu nunca tive; ah, outra coisa, você tem de dizer que está inteiramente nua, seu único artefato será o telefone, ok?

segunda-feira, agosto 26, 2019

Você não vai ter dúvida nenhuma de me abandonar peladinha!

Você que gosta de me trazer para este seu apartamento, e também sempre adora inventar mais um fetiche, escute, é uma história muito engraçada. Não vou falar de ex-namorados, não; mas de uma situação que vivi com algumas amigas. Um homem bem mais velho nos convidava para festas que ele organizava em seu apartamento. Tudo da melhor qualidade. O local era bonito, com vista para o mar, muito bebida e comida, ainda havia a música. As amigas diziam que o tal senhor era juiz de direito. Ele andava muito bem vestido e vivia a sorrir. Um perfeito anfitrião. Mas fazia uma exigência, sabe qual? Que nós, mulheres, fôssemos com aqueles vestidinhos curtos, colados ao corpo. O homem gostava de nos apreciar quase nuas. Lógico que não falava nada sobre isso, seus empregados eram os encarregados de transmitir as condições para participarmos das festas. O dono da casa ainda fazia mais uma exigência: que as moças fossem maiores de idade, por isso tínhamos de apresentar algum documento. Mas, mesmo assim, acredito que entre aquele mulheril todo havia muitas garotas de dezessete anos. No resto, podíamos nos divertir à vontade. Veja bem, hoje se fala na valorização da mulher, no respeito e igualdade entre os sexos, se protesta quando o corpo feminino é usado de modo sensual na publicidade. Mas, naquele tempo, quase ninguém pensava nisso. Além de nós, que queríamos nos divertir, havia o dono da casa e seus convidados em constante estado de êxtase. Aliás, os convidados eram pessoas tão distintas quanto a ele, adoravam nos ver dançar, olhavam com insistência nossas pernas de fora e não demoravam a vir nos beliscar. Na maioria das vezes, muitas jovens e até mesmo as mulheres maduras nada vestiam sob o fino tecido dos vestidinhos. Algumas tiravam a calcinha e guardavam na bolsa. Uma delas (não posso precisar-lhe a idade) dizia ter sido namorada do nosso anfitrião, e que ele fora muito generoso, garantindo-lhe presentes caros e até mesmo dinheiro. Ele dava ordens ao motorista para levá-la de automóvel a um hotel de luxo onde ela devia aguardá-lo. A única exigência era que vestisse roupa bem curta. Segundo ela, o juiz tinha lá as suas manias. Não é que o homem fosse tarado, mas ela nunca conseguiu voltar para casa de calcinha. Ele sempre a roubava. Qual deve ser a pena para um juiz que rouba a calcinha da namorada?, perguntava ela sarcástica. Contou que certa vez tirou toda a roupa dentro do carro e chegou nua ao apartamento. Mas o homem a repreendeu, mostrou-se furioso, queria ele mesmo despi-la. Para contentá-lo, pois ela lhe conhecia bem os costumes, sugeriu que após o sexo ele a levasse nua no automóvel e a obrigasse a saltar numa das praias da orla. E se você for estuprada?, ele perguntou. Se isso acontecer, depois conto a você, ela respondeu; ainda acrescentou, caso a polícia me prenda por estar nua, jamais mencionarei o seu nome. E assim fizeram. Mas na hora agá, ele não teve coragem de abandoná-la nua. Voltando às festas que o tal homem oferecia, jamais houve algum agravante. Às vezes, uma das meninas terminava a festa como veio ao mundo. Mas todos viam o episódio com muita naturalidade, e tudo acabava tornando-se motivo de alegria.u

Agora, fale com sinceridade, se você quer me deixar de novo sem a calcinha, como o tal magistrado fazia com a namorada, tudo bem, mas me levar nua a uma das praias não sei, já conheço você, não vai ter dúvida nenhuma em me abandonar peladinha! Mas vamos primeiro trepar, e tem de ser uma trepada muito boa, quero sentir você bem fundo dentro de mim, depois prometo pensar no assunto.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Em dobro

A história que vai a seguir é um pouco delicada, talvez mesmo difícil de se contar.

Fui a uma festa onde conheci várias pessoas, dentre elas uma mulher linda. Dançamos juntas, eu, ela e mais quatro ou cinco mulheres. Como a música era de ritmo rápido, convidava-nos ao meio da pista. Havia poucos homens, sempre mais preocupados em beber do que dançar. A mulher linda ficou junto a mim, depois veio conversar, já um pouquinho distante da música alta.

Quero que você entenda, falou, pareço mulher, mas há um pequeno detalhe.

Arregalei os olhos.

É sério, continuou, tenho corpo de mulher, ajo como uma, todos me admiram como mulher, mas não sou mulher, entendeu?

Ah, sim, respondi meio sem jeito.

Como há tantos transexuais por aí, fiz de conta que sua história era muito natural. Depois de determinado momento, cheguei a perguntar:

Como você faz pra usar uma roupa assim tão curta?

Ela não demorou a responder.

Sempre me perguntam a mesma coisa, sorriu.

Então?, insisti.

Tem um jeitinho, sabe, respondeu delicada, dá pra gente se arranjar.

Por que você não opera?, perguntei afoita.

Deus me livre, disse assustada, prefiro como sou, uma mulher com pênis.

Depois de sua resposta, pensei que seria interessante, pelo menos por algumas horas ou por alguns dias, ser uma mulher com pênis.

“E tem mais, acrescentou, se corto (ui, nem gosto de falar assim), perco meu eleitorado.

Depois desta última frase, acentuou-me o gosto de ter um pênis durante pelo menos um curto espaço de tempo. Eu seria um cometa a jorrar minha calda através do espaço, todos a me admirar. Lógico, avisaria a eles no momento do encontro, sou uma mulher com pênis. Você é travesti?, eles mostrar-se-iam surpresos. Não, não sou travesti, sou uma mulher com pênis. Sério?, insistiriam. Por que preciso mentir? Acho que haveria uma fila imensa de homens atrás de mim, afinal, tudo que é exótico atrai. Preste atenção, eu diria ao recente admirador, sou uma mulher que fez uma cirurgia, implantou um pênis, mas quero continuar como mulher, não fiz o implante para usar o membro como homem. Ele arregalaria os olhos. Isso mesmo, eu asseguraria, acredite se quiser. Mas eu teria de recorrer à minha nova amiga para saber os truques.

Ensine-me, por favor, como faço para usar um vestido tão curto, com calcinha tão pequena?

Ela me daria uma aula, aconselhar-me-ia.

E à praia, como se faz?, eu gostaria de saber.

Não há mistério algum, arranja-se da mesma forma de quando se usa o vestidinho. Tem mais uma coisa adorável, ela a me ensinar, com o pênis temos mais ardor sexual, o gozo é intenso. Você não sabe o que é uma ejaculação? Sempre recebeu a ejaculação dentro de você, mas agora é você quem vai ejacular!

Eu, doidinha para arranjar alguém, querendo que me faça ejacular. Será que depois do gozo eu correria, morta de vergonha? Há homens que quando gozam perdem todo o prazer, ficam de cara fechada, demoram dias para se recuperar. Não, não quero mais o pênis, prefiro viver no meu constante estado de gozo sendo mesmo uma mulher.

Calma, disse a amiga travesti, tudo depende de treino, quando se tem o sexo para fora, o fogo é maior; e basta um pouco de controle, você vai viver a mil, muito mais do que uma mulher. Travesti é homem e mulher ao mesmo tempo, logo tem o desejo sexual em dobro.

Adorei. Mas tenho outro problema, pensei sem dizer a ela, adoro andar nua, com o pênis não vou poder, um travesti nu por inteiro é impossível.

Ela pareceu adivinhar meu pensamento:

Calma, você é muito precipitada, tudo a seu tempo, dá pra ficar nua por inteiro sim, e é uma gracinha!

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Depois eu te digo onde enfiar a cabeça

Estou me sentindo nua com este vestido, Karen.

No começo é assim, depois você acostuma, e olhe que a festa vai ser ótima.

Mas, Karen, eu mal consigo me mover, se eu sentar vai aparecer tudo...

Eu era como você, usava uns vestidões, daqueles bem compridos, quando vesti um mini morri de vergonha. Mas logo me acostumei, as outras meninas andam quase nuas. Perto delas, nós vamos estar até muito vestidas.

Tive um namorado, Karen, que adorava que eu andasse ao lado dele nua, me levava de carro à noite, ou na madrugada, certa vez me deu de presente um vestido impossível.

Vestido impossível, Lu?

Isso mesmo, impossível, só saí com ele uma vez e fiquei traumatizada, acho que por isso voltei aos vestidões.

Traumatizada, como assim?

Ele trouxe o vestido de presente, disse que adorou e fez que eu o vestisse.

E depois?

Depois, saímos. Ele ainda afirmou: é um vestido para a noite, a gente volta enquanto estiver escuro. E lá fui eu, morrendo de medo que a noite terminasse logo e todo mundo me encontrasse nua.

Lu, que vestido foi esse?

Mais ou menos igual ao que você mandou eu vestir agora, acho que também se trata de uma roupa para usarmos apenas enquanto estiver bem escuro. Já pensou a gente aparecer na rua durante o dia com um vestido curto assim. Só se for para ir à praia, com o biquíni embaixo.

Nada disso, Lu, acabe logo de se arrumar que já estamos em cima da hora.

Mais um pouquinho só, Karen, vamos já.

A festa vai ser ótima, maior azaração, os homens muito bonitos, musculosos, você não gosta de homens musculosos?

Não fala, amiga, não fala que nem posso contar isso.

Contar o quê?

Sobre homens musculosos, Karen, um deles me deixou nua.

Cruzes, só desgraça, Lu.

Desgraça nada, até que foi bom, mas não conta pra ninguém.

Contar? Como? Nem sei o que aconteceu.

O caso da praia, vai dizer que não contei?

Não contou não, você deve ter comentado com a Ana ou com a Cláudia, comigo não.

Jurava que foi a você a quem falei. Mas ouça, espere, deixa eu acabar de pintar os olhos.

É melhor você contar pelo caminho, Lu.

Pelo caminho, mas não vem alguém pra levar a gente?

Vem, sim.

Então, Karen, como vou contar, foi um escândalo.

Então conte rápido.

Fui à praia de madrugada, você acredita, cismei que queria tomar banho de mar debaixo da luz da lua.

E daí?

Daí que entrei no mar nua.

Acho que todas nós já fizemos isso ao menos uma vez na vdia, Lu.

Jura? Mas ouça, entrei nua e saí nua, no final voltei no carro do Marcos, o musculoso, ainda nua.

O que aconteceu com sua roupa.

Não sei, nem me lembro, acho que bebi demais.

Lu, vamos embora, você está de conversa fiada, vive andando nua por aí e diz estar com vergonha dese vestiddinho. Não acredito.

Pois acredite, estou morrendo de vergonha e olha que vim até de sutiã.

O que tem isso? Todas atualmente usamos sutiã.

É mesmo, tinha esquecido. Mas o biquíni...

Isso, Lu, vamos embora, o biquíni também é necessário, ouviu, eles só gostam se estamos de biquíni, alguns falam que depois devolvem. Outro dia, a Marcia, a mãe do Heitor, veio falar comigo. Disse que nós éramos garotas vulgares, que o filho dela não tinha de guardar a minha calcinha na gaveta dele. Foi ele que quis, respondi toda inocente.

Karen, a mãe do Heitor falou isso? Que vergonha, eu não teria onde enfiar a cabeça.

Vamos, Lu, já estamos atrasadas, e alguém buzinou lá embaixo. Depois eu te digo onde enfiar a cabeça.

quinta-feira, janeiro 04, 2018

Brincar com o fogo

Eu queria brincar com o fogo, mas não me queimar. Explico. Não desejava mais namorados na minha cidade, lugar onde quase todos se conhecem e falam demais. Mas como sou atrevida, cruzei várias vezes com o novo vizinho e dava um sorrisinho malicioso. Ele ficou a mil, embora não tenha demonstrado. Fiz de conta que saía para algo importante. Como ando bem arrumada, finjo ir a uma reunião de trabalho. Todo dia a mesma ação, o mesmo sorriso, intenção desmedida. Num sábado dei com ele de novo, encontro inesperado: como eu ia à praia, vestia apenas camiseta e biquíni! Senti uma ponta de vexo. Passou mais uma semana e o homem veio falar comigo. Bateu à minha porta convidando-me para uma festa. Você gosta de praia, já percebi, falou, vai ser ótimo, a festa vai ser lá no fim do Pecado, no próximo sábado ao entardecer, mas vamos antes pra tomarmos um banho de mar.

O que tem de mais ir a uma festa, tanto mais do tipo como ele me descrevia e, o principal, acompanhada por alguém novinho na cidade? O problema é que eu havia prometido não mais sair com homens do local. Ah, mas ele não é do local! Na tarde do dia em que falou comigo pela primeira vez, senti uma felicidade inexplicável. Aceitei o convite. Lembrei-me da Aninha, ela aceita sair com todos os homens que a convidam, e a relação não acaba apenas num passeio. Outro dia descobri que está saindo com um homem casado, e logo neste lugarejo de tantos fofoqueiros. Deixa a porta sem trancar, ele entra sem bater,  parece que tudo corre às mil maravilhas. O negócio é a mulher do homem não descobrir. Já tive vários namorados no entorno, cada um mais louco que o outro. Houve um que me queria levar passear nua! Namorar homens casados por aqui, negativo, suas mulheres são muito bravas.

Chegou, enfim, o dia da festa. Ele veio me buscar, 15h00 de um sábado. Parou o carro, abriu a porta e, com um largo sorriso, disse entre meu amor. Como não desejava me mostrar atrevida, vestia um vestido comprido de malha, o biquíni por baixo. Afinal, era uma festa à beira mar mas poderia terminar tarde, não ficaria bem permanecer nua após anoitecer. Entrei, fechei a porta, dei-lhe um beijo e ele deu a partida. Após vinte minutos, estacionava. Devíamos caminhar uns oitocentos metros sobre a areia da praia até onde havia um trecho reservado para a festa.

O local estava rodeado por mesas, cadeiras e alguns guarda-sóis. Havia som, com DJ, como nas competições de surf. Alguns rapazes e muitas mulheres conversavam em pequenos grupos. Aproximamo-nos, ele me apresentou a seus amigos, que logo vieram em nossa direção. Jovens, homens e mulheres, trabalhavam como garçonetes; ao fundo, havia uma grande barraca de onde vinham salgados e bebidas. Reparei que todos estavam em trajes de banho, fazia calor, apressei-me em tirar a roupa. Não se passaram cinco minutos quando dei com a única pessoa da cidade que eu conhecia naquela festa. Ela não se aproximou de mim, mas fez um sinal e sorriu. Era Laísa, mulher metida a pudica, que frequentava a praia de maiô, no entanto, ali, vestia um minúsculo biquíni, talvez por isso tinha tantos rapazes à sua volta. Aceitei uma bebida que vinha com bastante gelo, depois descobri que se tratava de uma mistura de frutas com tequila. Meu amigo não me deixou só, pegou-me pelo braço diversas vezes e agiu como se fosse meu namorado. Muitas moças estavam perto do DJ, pediam músicas diversas, dançavam com muito entusiasmo, quase num transe. É uma festa patrocinada pela empresa, disse-me o namorado, como muitos dos empregados são de outras regiões, às vezes se faz uma festa dessas para que todos permaneçam alegres, mesmo longe de casa; sobre as moças, algumas também trabalham na empresa, enquanto outras são convidadas, como você.

Conforme a bebida foi sendo consumida, quase todos começaram a experimentar um grande entusiasmo. Ninguém se cansava. Alguns entravam n’ água e chamaram os amigos para acompanhar. Quando anoiteceu, viam-se inúmeros casais abraçados, as mulheres quase nuas e um pouco de pilequinho, contribuíam para criar uma atmosfera erótica. Mas, apesar de alguns exageros, a festa transcorreu sem incidentes. Tive a impressão de que duas ou três mulheres mergulharam nuas, mas ninguém deu muito atenção a elas. A maior parte das pessoas, porém, mantinha-se satisfeitas em abraçar, beijar, beber, comer os salgados e os pratinhos que as garçonetes traziam. Num dos raros momentos em que estive só, Laísa  veio falar comigo. Com um sorrisinho dissimulado, pediu não conta pra ninguém, viu, não gosto de fofoca, essa cidade é muito provinciana. Já era noite, ela cruzou os braços por trás das costas salientando seu corpo de biquíni. Você imagina o sacrifício que se faz para manter um corpo como o meu, ela disse orgulhosa. É bonita, não se pode negar, pena estar se perdendo neste lugarejo, pensei. Você veio com o homem mais desejado pelas mulheres que estão na festa, sabia?, sussurrou quase no meu ouvido, felizarda, acrescentou. Estou doidinha por aquele ali, apontou, está do lado esquerdo da mulher que fala ao DJ, já fiz de tudo, mas ele não me repara, acho que tenho de ficar nua!, sorriu e moveu os braços como se não encontrasse outra solução. Ao ver que me acompanhante voltava, ela despediu-se, lançou-me um beijo e correu para junto das moças que dançavam. Toda vez que a reparei, Leísa tinha um copo às mãos, quase não comia, acho que era para manter o corpo. A música ficou mais alta, mais envolvente e quase todos fomos dançar, ora uma espécie de forró, outra, samba, adiante lambada. Mas o bom mesmo foi quando se tocou uma música bem lenta, romântica.

Às dez da noite, meu recente namorado abraçou-me bem apertado, beijou-me longamente na boca e perguntou o que eu mais desejava. Acho que estou satisfeita, resumi. Ele despediu-se dos amigos, abraçou-os e beijou as moças que restavam. Caminhamos, então, de volta para o automóvel. Ao nos afastarmos do local da festa, reparei o brilho exagerado das estrelas. Por causa da escuridão local, podia-se apreciar melhor o céu. Ele abraçou-me, ficamos os dois a apreciarmos a noite não sei por quanto tempo.

Percebi, pelo seu carinho e por suas palavras, que ele não queria me deixar em casa, talvez, quem sabe, levar-me a um hotel. Mas seguiu o caminho de volta, até a porta da minha casa. Antes de saltar, levantei o vestido até acima dos joelhos, vestira-o para voltar para casa. Ele apreciou minhas coxas e pousou uma das mãos sobre elas. Incomodo se entrar um pouco?, perguntou.

quarta-feira, maio 17, 2017

Misturei-me aos mais jovens

Outro dia saí a passeio pela Zona Sul. Como adoro escrever, criar personagens e colocá-los em ação, experimentei eu mesma representar. Misturei-me aos mais jovens, meu objetivo era descobrir se os atraio, se os faço me desejarem. Fui ao um café. Escolhi uma mesa de onde podia observar quem passava na calçada, quem entrava e saía e aqueles que, como eu, tomavam café a uma das mesas. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que vários jovens me observavam. Sorri em agradecimento, e não passou muito tempo para que um rapaz de seus vinte e poucos anos viesse falar comigo. Disse que tinha uma festa para aquela mesma noite e perguntou se eu não queria acompanhá-lo. Perguntei a que tipo de festa me convidava. Um aniversário, uma amiga faz vinte e oito anos. Você não tem uma namorada?, mostrei-me curiosa. Ele apenas sorriu e quis saber se eu aceitava o convite, complementou dizendo que se tratava de uma festa até certo ponto modesta e que o local era o salão de um condomínio, no Leblon. Aceitei o convite. Mas nem mesmo sei o seu nome, conclamei-o a se apresentar. Henrique, respondeu econômico. Célia, muito prazer, retribuí. Como fazemos, então?, perguntei. Ele me apanharia nas proximidades ou, caso eu desejasse, poderia esperar por ele em minha casa. Marcamos.

Ele veio às nove da noite. Pegamos um táxi, ele disse o local ao motorista. Você vai adorar, afirmou, na festa vai haver muitos jovens e pelo que estou notando você gosta de jovens, não é assim?,  olhou pra mim, um sorriso alegre.

Percorremos as ruas Prudente de Moraes, General São Martins e chegamos à Visconde de Albuquerque, no final do Leblon. O motorista nos deixou à porta de um prédio de seis andares, de cor clara e com varandas. O salão de festas ficava acima do sétimo andar, uma espécie de cobertura com vista panorâmica privilegiada.

Já havia algumas pessoas, que logo vieram falar com ele, pediram que ele me apresentasse a elas. Representamos um casal que já se conhecia fazia tempo, mas não dissemos qual o nosso tipo de relacionamento. Aliás, nada combinamos, as coisas foram acontecendo naturalmente. Pouco a pouco foram chegando os demais convidados e o salão tornou-se mais barulhento e também mais alegre. O número de pessoas foi suficiente para que pudéssemos gozar a festa com conforto. Dois ou três garçons serviam canapés e bebidas. Pude observar pessoas de vários tipos. Havia mulheres muito magras, eram modelos profissionais que estavam ali porque a aniversariante trabalhava com moda; vi pessoas fora do universo da moda como jornalistas, relações públicas e algumas empresárias, apesar da pouca idade. Todas muito educadas e se comportando com extremo requinte. Muitas jovens puxaram conversa comigo e queriam saber em que eu trabalhava. Não quis dizer que sou escritora e que vendo artigos para revistas estrangeiras, disse que precisava viajar com frequência a São Paulo, porque administrava negócios de família. Arregalaram os olhos, acho que pensaram que sou rica. Quem sabe. As meninas vestiam-se muito bem, nada de pouca roupa. Mesmo as que usavam vestidos curtos cobriam-se com algum complemento, como um leve casaquinho ou mesmo uma echarpe. Reparei que havia mulheres acompanhadas, mas a grande maioria estava só, nada de marido ou namorado. Meu companheiro portou-se como seu eu fosse também sua amiga, não ousou em nenhum momento aproximar-se de modo mais íntimo. As bebidas, gradativamente, tornaram as pessoas mais alegres e mais falantes, pois os coquetéis eram suaves mas continham vodca ou outra bebida semelhante, tudo com muita fruta e muito bom gosto. Uma das moças começou a falar sobre uma viagem à Europa, principalmente à França, viagem que começaria dali a alguns dias. Quem a ouvia começou a se interessar e dizer como seria interessante a viagem. Outras moças enriqueceram a conversa com alguma passagem de viagens que fizeram recentemente a alguns países. Percebi, então, que quase todos os convidados tinham algumas posses, e que as conversas não deixavam de lado os prazeres que esses bens podem proporcionar. Também pudera, uma festa no alto Leblon... Mas ninguém falou de literatura, ninguém comentou que lia um bom livro ou que conhecia algum poeta interessante. Não seria eu que faria tais observações. Em algum momento, uma das modelos – ela fumava e portava um copo de vodca com gelo – começou a contar uma experiência em Paris. Morara na cidade durante seis meses e tivera um namorado francês. Aprendera o idioma com ele. Alguém pediu para que ela falasse francês, e ela continuou a contar a história no idioma do namorado. Uns entendiam, enquanto outros demonstraram se desinteressar pelo assunto e foram saindo discretamente em direção a outras rodas. Ficando eu e mais duas de suas amigas ela continuou a narrativa, tocada pelo álcool de duas ou três doses de vodca. Disse que em Paris é que era bom, talvez o Rio seja um pouco Paris (introduzo suas palavras), só que o Rio é um pouco mais violento, é claro, mas em Paris ninguém se mete na vida alheia, eu gostava de namorar no táxi, enquanto rodávamos a capital, pedíamos ao motorista que nos levasse a determinado ponto da cidade, sempre bastante longe de onde estávamos, durante o percurso como era bom namorar e ter a cidade passando pela janela do automóvel, acho que jamais vou viver experiência igual, quero dizer, quando lá voltar creio que sim, e namorávamos e namorávamos, e nosso ardor não se resumia a beijos, certa vez após saltarmos no 18º arrondissement só então percebi que minha saia havia ficado no táxi! Todas caímos numa longa gargalhada. Ela também riu muito e acabou por aceitar outra taça da bebida. Ficamos na festa até as duas da madrugada, quando as pessoas começaram a ir embora. Todas me beijaram e pediram que eu sempre estivesse naquele tipo de festa, que o Henrique ia a todas e que eu, de antemão, já estava convidada.

Pegamos um táxi de volta, e quando paramos à porta de casa convidei Henrique para subir. Ele aceitou de bom grado. Você é uma pessoa muito legal, que bom ter conhecido você naquele café às três da tarde, que bom você também gostar de gente jovem, sabe, continuou, acho que conheço você de algum lugar, parece também que te conheço de muito tempo. Quem sabe, repliquei, você gosta de mulher nua? Ele não entendeu a brincadeira. Certa vez uma amiga minha disse a alguém, acrescentei, você já viu a Célia na praia, o biquíni dela parece de uma menina de 16 anos. Rimos muito, mais uma vez.

terça-feira, novembro 08, 2016

Você ficou nua, como a mulher de quem acabou de falar?

Certa vez eu falara a ele que faria uma surpresa. Havia comprado uma sainha, improvisaria uma blusa curtinha, vestiria o conjunto e desfilaria à noite, só pra ele. Mas nunca cumpri minha promessa. Sempre que o encontrava, saíamos, víamos um filme e depois jantávamos num restaurante da orla marítima. Na volta, logo ao entrarmos a casa, nos agarrávamos e nos beijávamos. Ele, então, tirava minha roupa e mergulhávamos num sexo quente, pleno de ardor. A surpresa ficava sempre para a próxima semana.

Mas na semana passada resolvi fazer o contrário. Quando ele chegou pra me pegar, eu vestia a tal sainha e blusinha, levava nas mãos uma echarpe, para caso de um frio repentino. Percebi que ele se surpreendeu, porém nada falou. Entramos num táxi e fomos ao cinema. Dentro da sala, outro ato inesperado de minha parte. Tomei uma de suas mãos e a coloquei sobre minha coxa esquerda. A mão quente tomou grande parte da minha perna, a sainha subira confortavelmente. Ele chegou mais perto, moveu o tronco como se quisesse arranjar-se mais confortável na poltrona. Ainda no escuro do cinema, beijamo-nos, cheguei a sussurrar no seu ouvido gostou? Ele me beijou mais uma vez. Há muito que prometo, cheguei a soprar. Ele relaxou no recosto e assistimos ao filme.

Você, com essa sainha, o melhor seríamos ir a uma boate, vai fazer o maior sucesso, sugeriu. Uma boate apenas para nós dois?, insinuei. Não, uma boate de verdade, você dançando agarradinha a mim. Tudo bem, concordei.

A boate era bem pequena, havia o bar e a exígua pista de dança. A música, como sempre, era alta, ecoava terrivelmente em nossos ouvidos; as luzes, de enlouquecer. Como estava muito cheio, ele me abraçou e não me largou um momento sequer. Acho que temia que eu fosse levada por algum homem sozinho, ou alguém a me enfiar as mãos sob a minissaia. Bebemos as nossas caipirinhas e dançamos agarradinhos. Algumas mulheres também se agarravam aos homens. Havia alguns que ficavam ao redor da pista, aguardavam olhares maliciosos. A ideia da boate fora boa. Eu me soltava, acelerada pela bebida. Depois de algum tempo, percebi alguns estofados, rodeavam as paredes da boate, onde namoravam mulheres e homens; alguns, pelos gestos ousados, pareciam apaixonados. Dançávamos alucinadamente, ele resguardava-me com as mãos, não desejava perder nem mesmo um milímetro do meu corpo. Percebi entre as mulheres uma que dançava com um micro vestido. Não podia levantar os braços sob o risco de deixar seu bumbum de fora. Como era safadinha, vez ou outra se exibia, girava, e revelava. Os homens a olhavam, queriam-na nua. Um deles chegou-se a ela, abraçou-a e, disfarçadamente, tocou suas coxas. Ela jogou o corpo pra trás, inclinando-se num precário equilíbrio, o vestido subiu um tantinho, o suficiente para revelar que ela estava totalmente depilada. Não sei dizer por quê, mas senti inveja da mulher. Queria eu fazer o mesmo? Meu namorado continuava a me abraçar. Estou morrendo de tesão, disse no seu ouvido, em meio a todo o barulho da boate. Mas ele escutou. Saímos da pista e nos colocamos em uma das extremidades, onde não havia tanta gente. Queria que houvesse um buraco, falei. Um buraco?, repetiu como se não entendesse. Pra você me deixar nua e me comer, acrescentei. Olhamos em volta. A parede era forrada de veludo, muita gente se agarrava encostada nela; no fundo, os toaletes; ao lado uma porta sem letreiro. Pedimos licença e escapamos. Meu namorado mexeu na maçaneta, a porta abriu-se. Lá dentro, outros casais, mais estofados, pessoas que se agarravam. Numa ponta, descobrimos um lugar vago. Sentamos, eu sobre seu colo. Imaginem, eu de sainha, as pernas abertas, sobre as pernas de meu namorado. Ninguém olhou pra nós, não estavam interessados. Não fizemos o principal, mas senti o seu sexo no meio das minhas pernas. É melhor irmos, ele disse, vamos nos agarrar em um lugar em que fiquemos à vontade. Tudo bem, consenti. Queria sentir seu pênis dentro de mim, na posição em que estávamos não era possível. Olhei ao redor e reparei que ninguém trepava ali, apenas as saias, ou vestidos, iam acima da discrição exigida. Enquanto ele foi ao caixa pagar nossos cartões, corri ao toalete, um quadrado também muito estreito, onde cabiam duas pessoas diante da pia, ou do espelho; meio metro atrás estava uma porta de metal que dava entrada ao local onde ficava o vaso. Diante da pia, havia quatro mulheres, a princípio não entendi o que discutiam. O mais curioso: uma delas estava inteiramente nua. Perguntei se a cabine onde ficava o vaso estava disponível. Uma delas disse sim, as outras continuaram discutindo. Entrei, fechei a porta e prestei atenção à conversa. Você fala com ele, ele vai resolver, sempre resolve, falou a que estava nua. Outra interveio com duas perguntas repetidas, como se estivesse muito surpresa: mas como?, mas como? Depois explico, disse a nua, vá falar com ele, não é a primeira vez que acontece. Saí da cabine, perguntei se poderia lavar as mãos. A nua afastou-se e apontou a torneira, não demonstrava vexo algum. Ao abrir a porta do toalete ainda ouvi as mulheres: quando amanhecer, quero saber como você vai fazer pra sair pelada da boate, fale com ele, ele vai resolver, está muito barulho... As vozes se perderam, abafadas pela música alta e bem ritmada. Meu namorado abraçou-me, saímos e tomamos logo um táxi.

Enquanto o táxi rolava pela orla da lagoa, contei ao namorado sobre a mulher nua no banheiro. Sabe, achei aquilo muito engraçado, a mulher dava a entender que não tinha o que vestir, como pode ter acontecido?, certamente ela não saiu nua de casa. Ele riu, talvez tenha achado o assunto excitante. Já terminei nua a noite, mas faz tempo, aconteceu num daqueles bailes de carnaval de antigamente, rolava de tudo. Você ficou nua, como a mulher de quem acabou de falar? Sim, fiquei, todo mundo ficava, o que tem? Nada, nada, ele disse preocupado de que eu não ficasse aborrecida. Acho que sua pergunta revelava por que a mulher estava nua, devia ter acontecido o mesmo que acontecia a nós naqueles famosos bailes. Você gostou da minha sainha?, disse baixinho no seu ouvido e o beijei. Adorei, ele respondeu, mas prefiro você sem ela. Sem ela?, repeti. Isso mesmo, acrescentou, sem a saia. Então tira, pode tirar, me deixa nua, soprei-lhe. Mas aqui no táxi?, pareceu surpreender-se. Não faz mal, a nua serei eu. Então, ele atendeu o meu pedido, quero dizer, a minha quase súplica, porque eu já estava morrendo de vontade de trepar com ele. Ele resolve, fale com ele que ele sempre resolve. Enquanto eu gozava, a voz da nua ecoava na minha cabeça.

terça-feira, junho 21, 2016

Nós, mulheres, sempre queremos mais um pouquinho

Usar esses vestidinhos colados ao corpo, curtinhos, é um problema ou, quem sabe, a solução, depende do que cada uma de nós deseja. Sou alta, 1,80, magra, a perna um tantinho grossa. Quando uso um deles é uma atração à parte. É melhor à noite, entra-se no automóvel e salta-se no local da festa, ou na porta do restaurante combinado. Tenho um namorado que me adora de pernas de fora, e o vestidinho ajuda.

Outro dia fomos a uma festa no Jóquei Club. Não preciso dizer que minha presença causou quase um escândalo. Escândalo no sentido positivo. Não houve homem que não olhasse pra mim. Mesmo aqueles que estavam acompanhados das mulheres mais lindas. Quando fui ao toalete, muitas me olharam com inveja. Sempre há uma engraçadinha, não é mesmo? E ela pediu se podia vestir meu vestido por alguns instantes, queria ver se ficava bom nela. Não posso voltar nua, eu disse assustada. É só um pouquinho, e juro que não saio do banheiro, deixo saia e blusa com você. Tudo bem, falei, como somos todas conhecidas... Tirei o vestidinho e permiti que ela o experimentasse. Foi presente do namorado, sabe, falei, na verdade eu devia perguntar a ele se posso deixar outra mulher vesti-lo. Ah, ele ia adorar, duas mulheres nuas pra ele, e com o mesmo vestidinho, disse a engraçadinha desfilando e dando várias voltinhas. Saí do toalete e me misturei aos outros convidados, encontrei o namorado. Ainda bem que não mais a vi, nem voltei ao toalete.

O que serve de fetiche aos homens quando estou com esse tipo de roupa é que eles desejam saber se uso calcinha. Sabe que já até saí sem calcinha, mas é melhor vir completa, de calcinha e top. Mas eles sonham que o vestido vai subir e eles vão ver minha xereca. Não gosto do nome, não é nada literário, mas não encontro outro. Continuando no fetiche, há também aqueles que desejam subir as mãos por baixo do tecido e tocar minhas coxas até atingir o meio das pernas. Tenho amigas que querem ficar logo peladas, são ousadas, dizem que estão molhadinhas de tesão. Mas acho que é da boca pra fora. A mulher pra ficar excitada precisa de algum estímulo, não basta estar nua. Há ainda aquelas que ficam anos sem namorado, sem transar, a velha história de que o sexo da mulher é para dentro, por isso conseguem se segurar.

Há algumas coisas que me excitam, não sei explicar por quê. Uma delas é namorar dentro do carro. Não em qualquer lugar, mas em lugares especiais, onde existem árvores, silêncio e um céu cheio de estrelas. Há um lugar assim na Cosa Verde, onde predomina a mata de um lado e o mar de outro, é bom parar o carro numa das estradinhas laterais, deixá-lo estacionado em meio às árvores e namorar. É possível fazer sexo dentro do carro; se a temperatura estiver alta, pode-se mesmo fazer fora. Foi dentro de um carro que tirei o vestidinho pela primeira vez num lugar público. Estendi-o no banco de trás e deixei o namorado vir com todo ardor. Num outro dia, fizemos uma brincadeira. Saí correndo do automóvel, nua, e ele tinha de me pegar. Como estava escuro, me escondi. Foi um ótimo meio de nos excitarmos. Quando me encontrou, não aguentamos, trepamos encostados num tronco de árvore. O local estava como gosto, silencioso, o cheiro de mato, o céu cheio de estrelas, e lá longe, na pista, viam-se os faróis dos veículos.

Gosto de ter muitos namorados, não todos ao mesmo tempo, mas é bom experimentar os mais diversos tipos de homem. É importante também fazer papel de mulher séria, nada de piranhice.  Os homens ficam caidinhos pelo meu encanto, pelo meu jeito angelical, pelas minhas pernas longas e nuas. Houve um que me pediu que eu fosse no banco do carona sem o vestidinho, ainda que por alguns minutos. Como ele era muito atraente, simpático e de uma família rica, concordei. Acabei que não vesti mais a roupa. Ele parou à porta de minha casa e disse está escuro, você está só em casa, devolvo teu vestidinho amanhã, assim durmo com o teu cheirinho. Jura que devolve?, perguntei, gosto tanto dessa roupa, afirmei. Juro, respondeu solene. Ele esperou eu abrir a porta e entrar. Eu, apenas de sandália e com a bolsa a tiracolo dei um adeusinho. Ele voltou no dia seguinte. Trepamos que foi uma beleza. E o vestidinho voltou passado e muito cheiroso. A nós, mulheres, no momento do sexo sempre parece que falta alguma coisa, queremos mais um pouquinho. Os homens não são capazes de nos satisfazer. Mas esse namorado me completou. Ou, não sei, foi o que chegou quase lá!

terça-feira, maio 17, 2016

Nem vou espichar o vestidinho

Estou numa festa, sentadinha na sala, pernas cruzadas, vestido curtinho. Todo cuidado é pouco. Há pessoas conversando, umas riem, outras falam alto, vários assuntos alçam ao espaço, enredam-se. Ao meu lado uma mulher quase grita o sexo é ótimo, outra diz que os homens têm mais fogo do que as mulheres. Não chegam a um acordo. Os desejos são os mesmos, a da ponta alerta olha o preconceito. Nada falo, apenas sorrio discreta. Um garçom com as bebidas, de que o coquetel? Cereja. Delicioso. As mulheres não sabem sobre o meu desejo de sexo. Não adianta afirmarem que somos menos fogosas do que os homens porque o sexo deles é pra fora e o nosso pra dentro. Que absurdo! Os homens, tão poucos na festa, conto nos dedos, olham pra mim. Também, pudera, tão curto o vestidinho. As travestis, uma intervém, têm o maior dos fogos, o fogo dos homens e o das mulheres ao mesmo tempo. Uma gargalhada confortável, o arrepio. Um rapaz aproxima-se, junta-se a nós. Nossa conversa é indecente, acrescenta a terceira do sofá. A música convida, diz a dona da festa. Muita gente quer ver debaixo da minha roupa coladinha ao corpo, o tecido encolhendo, subindo, incluo na conta algumas das mulheres. Dançamos soltas, passos fingidos, movimentos medidos. O namorado quer a menina nua, não aqui nem agora, uma lembrança enquanto sinto as coxas bem arejadas, ele quer levá-la a passear sem peça alguma, ela vai sentada no banco do carona. A dona da festa vem dançar comigo, me toma pela cintura, desce um pouquinho uma das mãos. Já sei, quer saber se estou sem calcinha. Acho que se decepciona. Sabe a Karen, diz ao meu ouvido, olha pra ela, a saia fofa, também muito curta, é um tal de ir ao toalete, completa enquanto dá um passo atrás e faz que vai ao outro canto da sala. Lembra a Dina?, uma das moças vem junto a mim. Dina?, pergunto. Vai dizer que não lembra?, a travesti, afirma peremptória. Ah, finjo surpresa, o que houve? Vem à festa, diz. Que bom, afirmo fria. Dá ultima vez trouxe o namorado, um homão, sorriu, como se concentrasse nele todas as esperanças, ele adora a Dina de vestidinho como o teu, sabia?, ela insiste. Vai ver que compra na mesma loja, chego a dizer. É ousada, pra uma travesti, não sei como consegue, é outra que toda hora vai ao toalete, dá uma risadinha após a última palavra. Gira, continua a dançar, quase me toca com os seios. Reparo os bicos rijos. O garçom traz outro coquetel. Aceito. Sento no sofá, olho as amigas dançando. Duas também aceitam a bebida, vem pra junto de mim. Fogo?, ouço a voz de uma. Fogo, sim, mas nada de metáforas, fogo do isqueiro, ou de um palito de fósforo. Jura?, a primeira faz de conta que não acredita. Ouviu o que ela está dizendo? Não, quero dizer, ouvi fogo, será um incêndio?, brinco. Um incêndio monstruoso, repete a primeira, na verdade um novo método para o amor, ou velho método, não sei, dizem que as mulheres são frias, daí uma chama verdadeira pra aquecer. Ri. Finjo que entendo. Olha quem está chegando, uma aponta, a louca da Ângela. Por que louca?, quero saber. Ela mesma gosta de contar, diz a que está à minha direita, adora trepar em público. Levo o coquetel à boca e penso na Dina. Ela é que está certa, é travesti e tem o homem mais bonito, mais desejado de todas as mulheres, corresponde a todos os desejos dele. Uma fofoca, diz Ângela depois dos cumprimentos, na semana passada fui a uma festa na Teresa, adivinha quem estava lá?, a Dina, ela e o namorado, o vestido tão curtinho que quase pedi pra entrar no toalete com ela, qual o teu segredo?, eu quis perguntar. Todas as quatro mulheres, no cantinho da sala, ficam curiosas e arrepiadas! Uma diz será que a Dina topa a brincadeira? Qual brincadeira, responde a mais atirada. Vamos lhe pedir emprestada a calcinha! Peça também à Ângela, você vai se surpreender, de novo a mais atirada. Riso geral. Essas mulheres não tem outro assunto?, pergunto-me, será que ninguém lê um livro nesta roda?, ou frequenta alguma galeria de arte? Quem sabe... Rio. Posso eu criticá-las? Não vou ao toalete nem vou espichar o vestidinho.

terça-feira, março 29, 2016

Vou te mostrar pra que serve uma mulher

“Cris, chega aqui que quero lhe pedir um favor.”

“Fala, Lena, o que foi?”

“Você tem uma calcinha pra me emprestar?”

“Uma calcinha, por quê?”

“Ah, Cris, depois te conto, você arranja uma calcinha pra mim?”

“Hum, deixa eu ver, já até imagino o que aconteceu, você com esse vestido coladinho ao corpo e com a fama de namoradeira que só, esses garotos, essa festa concorrida.”

“Vai, Cris, você arranja; se não, tenho de ir embora.”

“Vou procurar no armário de mamãe, no meu quarto vai dar na pinta, tá cheio de gente.”

“Tanto faz, Cris, o importante é você me ajudar.”

Ela se foi e eu fiquei esperando, no corredor que dava acesso à escada do segundo piso. Não via a hora de o Eduardo mostrar minha calcinha para os outros garotos.

Ainda bem, Cris voltou logo.

“Pegue, Lena, foi o que eu consegui.”

“Cris, tua mãe usa calcinhas menores do que a minha.”

“Pois é, o que vou fazer? Minha mãe também gosta de vestidinhos tubinhos, bastante curtos, e deve viver perdendo a calcinha por aí.”

Voltei para junto de alguns convidados. Mas, dessa vez, para a varanda.

Chegaram novas pessoas, dois rapazes e três moças. Elas também usavam roupas extravagantes, saias curtas, tops que mais pareciam uma faixa a cobrir os seios. Como eu já os conhecia, fiquei entre eles. Mas não demorou a surgir o Eduardo.

“Oi”, falou, “você por aqui?”

“Não gostei, Eduardo, não vou mais ficar com você, isso não é brincadeira que se faça.”

“Que brincadeira?”, ele fez de conta que não entendeu.

“Você e seus amigos não gostam de mulher, não sabem aproveitar as garotas, querem apenas disputar entre vocês quem rouba mais calcinhas. Outro dia a mãe do Marcos veio me perguntar se eu também deixava que os rapazes roubassem as minhas. ‘Por quê?’, perguntei a ela. ‘Porque o Gustavo sempre tem uma calcinha guardada na gaveta de roupas dele. Diz que é da namorada’, disse ela com um sorrisinho de escárnio.”

“Vou te dizer uma coisa, bem baixinho”, retomou Eduardo, “não é só você que ficou sem, há três outras meninas na mesma situação.”

“Três outras?”, fiz cara de surpresa.

“Isso mesmo, três, e não duvido que daqui a pouco vai ter quatro ou cinco. Todas como você, todas sem.”

“Quem disse que estou sem?”

“Você agora traz calcinha reserva?”, perguntou com os olhos bem abertos.

“Quem sabe”, dissimulei.

Eduardo pediu licença, chegou a Sheila, também de vestido curtinho.

Fiquei na festa, até aceitei dançar. Os garotos olhavam para mim, para Sheila, para Jéssica, para Carla, não afastavam os olhos nem por um minuto. Num determinado momento, passaram também a assediar a Cris, a dona da festa. Notei nela um sorrisinho irônico.

Algum tempo depois, Eduardo me pegou pelo braço e disse:

“Vem cá rápido, por favor, quero falar com você.”

“O que é dessa vez?”

“Quero devolver tua calcinha?”

“Não precisa, pode ficar, guarde de lembrança.”

“Não, não, quero devolver.”

Sem que eu pudesse reagir ele tirou minha calcinha de um dos bolsos e a colocou na minha mão. Durante alguns segundos fiquei segurando aquele pedacinho de pano vermelho. De repente, virei de costas, e enfiei a calcinha dentro do top, fazendo-a desaparecer como num toque de mágica.

Lá pelas tantas, vi a mãe de Cris. Os garotos também olhavam pra ela com uma intensidade que me causou desconfiança.

“Lena, a Cris está te procurando”, disse Marta.

“Ah, ainda bem que eu te encontrei Lena”, disse Cris, “você precisa me devolver a calcinha, por favor, caso contrário vou ter problemas.”

“O que aconteceu, Cris?”, fiz de conta que não entendi o motivo daquele desespero.

“Sabe como é a minha mãe”, ela ficou com o Gustavo, nos fundos da casa, perto da piscina. Imagina o que aconteceu?”

“Ela também?, Cris.”

“Ela é humana, como qualquer uma de nós. Já teve até um namorado da nossa idade. E foi um namoro sério. Vamos ao banheiro e me devolva, por favor, na gaveta em que eu a peguei tinha apenas essa, que eu te emprestei. Acho que ela não vai querer ficar sem durante toda a festa, vai acabar procurando pela única calcinha que estava na gaveta.”

“Tudo bem, devolvo, mas você pode me dizer algum lugar dessa casa onde eu possa ficar sozinha?”, minha perguntou revelou toa minha ansiedade

“O sótão, ninguém vai lá?”

“Obrigada, mas não fale a ninguém, por favor.”

Fomos ao banheiro. Tirei a calcinha e lhe entreguei. Quando saía do banheiro, encontrei o Eduardo.

“Eduardo, me siga, quero falar uma coisa com você.”

Ele não pensou duas vezes. Entramos os dois no sótão. Tranquei a porta.

“Tire minha roupa, vai, quero trepar. Esse negócio de roubar calcinha não me satisfaz.”

Ele arregalou os olhos como se dissesse é pra já!

“Vou te ensinar pra que serve uma mulher”, soprei no ouvido dele.

terça-feira, setembro 22, 2015

Que profundezas!

Certa vez fui visitar um escritor amigo meu. Era sábado de Carnaval. Como ele escreve contos e romances profundos, que tocam os limites da alma humana, queria perguntar como devia fazer para escrever algo semelhante. Mas ao chegar nem tive tempo de fazer a pergunta. Ele foi logo me pedindo emprestado o vestido que eu trazia sobre o corpo, queria se divertir fantasiado de mulher no bloco das piranhas, que sairia numa rua próxima, naquela mesma tarde. Meu vestido?, repeti, surpresa. Ele acrescentou o que tem de mais?, é carnaval. Fui ao banheiro e tirei a roupa. Quando reparou que eu vestia biquíni, pediu também as duas peças. Mas vou ficar nua... O que há de mal nisso? Você não quer explorar as entranhas da alma humana?, respondeu adivinhando o porquê da minha visita. Além disso, pode ir ao meu quarto e vestir uma camisa de malha à sua escolha, estão todas no armário, completou. Feliz, desceu para o seu Carnaval. E eu fiquei a esperá-lo. Que chá de cadeira ele me deu... Passaram-se duas, três horas e nada de ele voltar. Lembrei-me de uma amiga que teve de ficar sentada nua num escritório durante três horas; o namorado, um advogado, foi a uma audiência e de brincadeirinha levou as roupas dela na pasta. Acabei fazendo o que meu amigo sugerira. Fui ao quarto, abri o armário e vesti uma camiseta. Caiu como um vestidinho. Desci. Lá na rua passava um bloco, e não era o do meu amigo. Logo um rapaz veio ao meu encontro. Me abraçou, me beijou e me puxou pelo braço. Quando dei por mim, brincava com ele. Ai, se descobrem que estou nua, pensei. Carnaval. Aliás, foi assim que passei a gostar de Carnaval. E nunca me diverti tanto como naquele dia. Foi assim que também passei a entender as profundezas da alma humana. E que profundezas, diria meu amigo escritor, diria horas depois o folião apaixonado.

quinta-feira, julho 30, 2015

Conto de carnaval

Eu era uma deusa consagrada pelas duas da tarde. Uma deusa de máscara.

Ele, surpreso, olhou para mim. Tentava entender o jogo.

“Nunca viu uma mulher de rosto coberto?”, minha voz soou distorcida através do pequeno orifício.

“Já, mas não de máscara e nua por inteiro.”

“Aí é que está a graça”, sorri para ele, que não podia adivinhar o meu sorriso.

“Você gosta de fantasia”, afirmou.

“Claro, não sou prostituta nem estou apaixonada.”

Percebi que minha resposta chegou a ele um tanto enigmática.


A brincadeira começou quando uma amiga pediu para tomar conta da pequena casa. Era por volta do mês de novembro. Toda vez que eu descia à cidade, verificava se tudo andava bem. Aproveitava para descansar, principalmente quando o dia estava quente. Como sempre gostei de me fantasiar, imaginei a tal brincadeira. Arranjaria vários namorados e os levaria àquela casa. Mas para que tudo desse certo, havia dois pontos: que não fossem homens violentos, e que não vissem o meu rosto. Assim, caso dessem comigo na rua não me reconheceriam nem sairiam comentando aos amigos. Contatei uma amiga. Perguntei se gostava de máscaras e de Carnaval.

“Adoro”, foi sua breve resposta.

Ela agenciaria os encontros para mim. Eles, assim, não conheceriam o meu rosto.

“E se um deles lhe arrancar a máscara?”, pareceu preocupada.

“Pode acontecer”, respondi, “mas é o risco que a gente corre para sentir prazer. Talvez isso faça o prazer maior.”

Saímos as duas a campo. Ela também queria experimentar.

“Ninguém pode saber”, adverti, caso contrário estaremos em maus lençóis; quero dizer, sem lençol algum; e nuas! Além disso, a casa não é minha, a proprietária confia em mim.”

“Por que não arranjamos namorado como duas pessoas normais?”

“Você consegue?”, repliquei. “Caso diga que sim, seja feliz.”

Minha amiga riu e entendeu.


Ela começou a andar lá pelos lados da rodoviária, sempre ao amanhecer. Sentava num banco e fingia esperar o ônibus. Quase sempre um homem se aproximava e vinha puxar conversa. Esperava também o seu ônibus. A conversa começava com alguns entraves. Ela não abriria logo o jogo. O primeiro trabalhava como mergulhador nas plataformas de petróleo. Ela se assustou.

“Nossa, que profissão perigosa!”

“Nem tanto”, ele retrucou. “É só o começo, depois não há o que temer.”

Contou também que vinha de longe. Ficava quinze dias no mar. Depois voltava para casa. Naquela manhã estava voltando. Deixou o telefone. Dali a quinze dias esperaria por ela.

Ela me trouxe o número dele.

“Quem sabe, talvez ele seja teu.”

“Como vou fazer?”

“Faça de conta que foi você que conversou com ele na rodoviária. E depois, há a máscara, ele não vai ver o teu rosto.”

“Certo, vou ligar então.”

Ele veio. Aproveitei. E muito. Não era tão dotado nem tão hábil, mas foi uma boa aventura. Além de me comer, chupou a minha buceta.

Minha amiga continuou suas ações. Como acordava cedo, andava pela rodoviária fingindo estar prestes a embarcar. Marcava com os homens. Eles vinham para mim, sem que percebessem o ardil. Depois do mergulhador, veio um operador de guindaste. E que guindaste o homem tinha. Gozei várias vezes. Depois dele, veio um domador de cavalos. Vixe, suspirei, vai que o homem queira me domar. Enganei-me. o homem sabia trepar. E que delicadeza.

Nessas idas e vindas de namorados, chegou o Carnaval.

Será que no carnaval eu precisaria de máscara? Fiz três fantasias. Uma odalisca, uma colombina e, por último, uma baianinha. Todas um amor. Pintei bem o rosto, modifiquei o cabelo e saí me misturando na folia. Não é preciso dizer que as sainhas de todas as fantasias eram minis. Os homens vinham atrás, me seguiam, me queriam abraçar. Mas polidamente eu desconversava. Meu negócio era dançar. Pela manhã, eu ia à praia. Para me enfeitar, arranjei uma rendinha, tipo um vestido de noiva, mas sem forro; por baixo, o biquíni. Toda vez que surgia um bloco na orla, eu acompanhava o ritmo. Num desses momentos de euforia, encontrei a amiga que arranjava os namorados.

“Oi”, ela falou, estava mascarada.

“Por que a máscara?”, perguntei.

“Porque é carnaval.”

“Mas você não tira?”

“Não quero ser reconhecida”, respondeu, “e, além disso, resolvi fazer como você.”

“Hoje, não faço não”, disse convicta, “quero dançar, quero o carnaval.”

Ela escapou em meio ao bloco, um homem a levou pelo braço.

À noite me vesti de baianinha. Entrei num enorme cordão, no centro da cidade. Duas horas depois corri para orla. Outro bloco. Batucada, samba, vozes a cantar, corpos a transpirar sensualidade.

No domingo, passei o dia vestida de odalisca. As pernas de fora. Homens querendo-me beliscar. Ai, nada de manchas vermelhas sobre a pele, eu fingia dizer. Lá pelas tantas, acho que passava das três da tarde, um jovem se pôs a me seguir. Como ele dançava bem, conhecia todos os passos. Eu era a estrela principal de uma escola de samba. Pelo menos era assim que eu me sentia. Houve até um turista americano que, de câmera na mão, não nos abandonou. À noite, enquanto tomava um refresco, ainda na orla da praia, encontrei minha amiga mascarada.

“Oi”, falou, “já aproveitei com três.”

“Aproveitou?”, fingi não entender.

“Fiz o que você faz mascarada durante o ano.”

Respondi “oh, parabéns”, enquanto ela escapava nos braços de dois negros fortes. Está dando tudo que não deu há anos, pensei.

Senti um toque nas costas. Era o jovem dançarino. Deslizamos de novo pela avenida principal. Um bloco se aproximava, com todos os tambores.

Na segunda, saí às duas da tarde, vestida de baianinha. A roupa branca, branquinha mesmo, e eu cheia de colares. Logo um soprou no meu ouvido.

“Fofinha, quero levar você pra casa, deixar só os colares sobre essa pele branquinha.”

Tive de rir. E ele dançou comigo. Mas na hora principal, escapei. O homem estava doido para me comer. E lá vinha o dançarino do dia anterior. Gostei dele porque sua vontade era apenas dançar, e demonstrava um enorme entusiasmo. Mais uma vez encantamos corações, arrebanhamos aplausos, e uma legião de fotógrafos atrás de nós.

Não é preciso dizer que, naquela noite, enquanto eu me refrescava com um suco, num quiosque, encontrei a amiga mascarada.

“Você não tira a máscara?”, perguntei.

“Não posso ser reconhecida”, respondeu solene.

“Por quê?”

“Ora, porque já trepei com cinco foliões. E olha que lhe conto um segredo”, acrescentou, “o último tem um pau enorme, quero ficar com ele até o fim do carnaval, nunca vi homem tão bem dotado. Repare de perfil, é aquele ali de copo de cerveja na mão, está com um amigo. Não é bem avantajado?”

Reparei o homem. Era verdade. Parecia que tinha um peru dos grandes. Pela primeira vez naqueles dias e noites de carnaval senti uma fisgada bem no fundo do útero. Era vontade de trepar. Até ali o meu negócio fora apenas a festa. Mas nada falei à minha amiga.

“E onde vocês transam?”, eu, curiosa que só.

“Numa barraca no Pecado. Foi ideia minha. Quando arranjo um, levo pra lá, mas agora só quero com ele.”

Surgiu o rufar de alguns tambores. Alguém me tomou um dos braços e mergulhamos na folia. Minha amiga se perdeu na multidão.

Foi uma noite encantadora. Como não gosto de bebidas alcoólicas, brinquei lúcida e com toda a energia até quatro da manhã. Dancei com muitas pessoas, entrei também num cordão só de mulheres. Bem no meio, uma jovem dançava inteiramente nua!

No último dia, aproveitei para sair num bloco que estava marcado para as dez da manhã. Uma festa muito animada, com bebidas para os integrantes que vestiam o abadá. Fiz da minha um vestidinho muito sexy. Dancei sensualíssima, beijei na boca dois ou três homens. Mas nada de sexo com eles. Às três da tarde, fui procurar a barraca da minha amiga mascarada. Não foi difícil de chegar até lá. Ela estava deitada, descansando. Estava só, sem a máscara e inteiramente nua.

“O que houve com você?”, perguntei. “Não está na folia?”

“Vou daqui a pouco, estou descansando.”

“E a máscara? Você está nua...”

“Lembra o meu paquera avantajado? Emprestei a ele. Disse que ia brincar num bloco onde os homens saem vestidos de mulher. Ele volta daqui a pouco. Quanto à máscara, acabei não resistindo e mostrei o rosto. Agora estou nua duas vezes!”, parecia feliz por ter se revelado.

“Quer dizer que ele foi brincar num bloco vestido de mulher?”, repeti o que ela dissera logo após ter uma brilhante ideia. Lógico que nada comentei a ela. “Isa, e se ele não volta?”, acrescentei.

“Claro que volta. O homem está apaixonado.”

Despedi-me, deixei o Pecado para trás e me enfiei de novo na avenida. Não foi difícil encontrar o bloco de homens desfilando vestidos de mulher. Iam pela altura da Glória. Iam desengonçados dentro de vestidos e roupas de banho femininas. Quando chegavam à Cancela, avistei o namorado de minha amiga. Era um dos mais animados. A roupa de mulher até que lhe caíra bem. Ele batucava um tamborim. Engracei-me ao seu lado, fazendo volteios e sorrindo. Ele se aproximou e passou a batucar cada vez com mais vigor o seu instrumento. Eu dançava como uma passista. Rebolava, descia, subia, mexia o bumbum novamente. O homem ia ao delírio, enlouquecia. Quando a bateria encerrou o desfile, ele me ofereceu uma cerveja. Bebi com ele um ou dois copos. Seus amigos se dispersaram dizendo que voltariam à orla, havia mais dois blocos e a bebida seria grátis. Puxei-o então pelo braço e falei.

“Tenho uma surpresa pra você.”

Ele me acompanhou. Não queria levá-lo para a tal casa que eu tinha a chave, mas não havia outro lugar. Ao chegarmos, tirei toda a roupa e me entreguei a ele. Minha amiga tinha razão, mostrou-se ótimo amante. Ele tinha um peru imenso, parecia um cavalo. E como demorava a gozar. Jamais um homem me proporcionou tamanha satisfação.

“Não vá embora”, falei. “Vamos trepar mais uma vez.”

E assim fizemos. Durante toda a noite. Pela manhã ele se foi. Como o carnaval já terminara, saiu apenas de bermuda. As roupas de Isa, que ele vestira para o tal  bloco, acabaram ficando comigo, mas eu não podia levá-las a ela. Descobriria que eu estivera com seu homem.

Duas semanas depois, a dona da casa veio morar em M. Devolvi-lhe então a chave. A brincadeira das máscaras terminava. Quando encontrei minha amiga, totalmente ao acaso e mais ou menos um mês depois do carnaval, eu disse:

“Que carnaval inesquecível, hein?”

“Nem fala, riu um  tanto envergonhada.”

“E o namorado?”, perguntei fazendo de conta que nada sabia.

“Voltou assim que você se foi. Trepamos a noite inteira. O problema foi que o bandido não me devolveu a fantasia!”, finalizou.

Ainda bem, pensei, Isa sabe mentir. E que bom humor!

segunda-feira, março 30, 2015

A faltar uma blusinha

Ai, acordar peladinha depois dessas festas, nem lembrar como tudo aconteceu... Ainda estou morrendo de sono, acho que são nove ou dez da manhã. É o sítio de Mariinha, quanto a isso não posso me enganar. Quando eu morava em BH, as festas eram mais discretas. Cidade grande é outra história. Aqui, nesse lugarejo, as meninas são de um fogo terrível. O pior é que acham que lá, na cidade grande, as mulheres são mais atiradas que cá. E querem imitá-las. Pior que imitam apenas uma ideia. Então marcam essas festas, onde acabamos quase todas nuas, mesmo que de uma nudez disfarçada, e dormindo em casas alheias, nem sabendo onde foram parar uma das blusas. Isso mesmo, sempre desaparece uma blusa; já aconteceu de sumir uma saia. Como voltar para casa em tal circunstância? É preciso que alguém empreste uma roupa, como um casaquinho de meia estação. Depois vamos até o Shopping, a 120 km da cidade, comprar novas roupas. Aqui em Minas todas vivemos de aparência. É lógico que é o único modo de a sociedade nos aceitar. Fingimos. Em nossos trabalhos somos exímias profissionais. Uma de nós é dentista. Não digo qual, não quero dar pistas sobre as amigas, quem sabe eu? Mas voltando às festas, são de lascar, isso mesmo, acho que é essa a palavra, porque como diz o mineiro do campo, são de tirar o couro. Como não podem nos tirar o couro real, nos tiram a roupa. Depois, dão no couro! Muitas querem ter namoradinhos, curtir a vida a dois, casarem-se. Mas já pensaram sobre? Casarem-se? E quem já passou por isso tudo, quem já cansou? Não se pode viver para o marido, nem para os filhos. É bom ter filhos, não nego, mas não se pode viver em função deles durante toda a vida. Então apareceu a Mariinha e deu a ideia. Chamou as mulheres mais destemidas da cidade e convidou-as todas. Mas, Mariinha, alguém há de acabar descobrindo, afirmou uma. Não, basta que fiquemos de boca fechada, ela retrucou, e não precisa que as festas aconteçam sempre, três ou quatro vezes ao ano é o suficiente, e nada de homem da cidade, acrescentou a promotora. Engajamo-nos na brincadeira, mulheres da cidade e outras que ficavam nela apenas parte do tempo, como médicas, a tal dentista e professoras. O local seria um sítio, a 40 km, na serra de G, digamos assim. Na primeira das festas, não aconteceu nada demais. Apenas comemos, bebemos e dançamos... como dançamos! Homens de menos, mulheres sempre mais numerosas. Fizemos mais duas festas, a frequência aumentou e também a quantidade de homens, mas as mulheres sempre mais numerosas. Na quarta festa, propus que mudássemos o local, precaução apenas. Alguém já está comentando pela cidade?, quis saber a amiga. Não, nada ouvi, mas sabe como é, melhor não facilitarmos. Nas festas seguintes, fomos a uma pousada, era de uma das frequentadoras dos eventos. Numa pousada, algumas se assustaram, isso pode soar mal. Há no lugar um grande salão, e depois, fica-se mais à vontade. E passamos a alternar, uma vez no sítio de Mariinha, outra na pousada. Vieram homens de longe, inclusive de BH, acharam a nossa ideia maravilhosa. Exercíamos nossas profissões durante os dias, éramos as pessoas mais sérias da cidade, mas durante as festas a liberdade era total. Até mesmo vieram algumas mulheres casadas. Mulheres casadas, assustei-me, podem arrepender-se e sair comentando por aí. Nada disso, rebateu Mariinha, tenho o nome de todas, estão arriscando o próprio casamento, e é lícito que se divirtam. E vinham elas, mais sorridentes do que todas nós, mais provocantes, arrumavam-se num dos banheiros da casa, transformavam-se em autênticas piranhas. Não há problema que namoremos, disse a dona do sítio, o importante é que não vire rebu. Achei engraçada a palavra, rebu. Daí em diante já se via uma ou outra agarradinha com seu par, depois a sair ao ar fresco, até que alguém falou pois não há um quarto com cama? Concordou-se, então. A respeito do quarto e da cama. E as festas, oh, uma beleza. Mas nada pode durar para sempre, trata-se de uma verdade absoluta. Fizemos a última ontem, a de despedida (será?). Já está dando na pinta, surpreendeu-me a amiga. Mas até na última acordar peladinha, e sempre a faltar uma blusinha...

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Ainda bem que existe o carnaval

Sempre fui tímida. Arranjar namorado, nem se fala. Caso alguém venha falar comigo, fico desarmada. Não tenho palavras para sustentar um diálogo nem por dois minutos. Ainda bem que existe o carnaval, a festa que nos faz virar a cabeça. No meu primeiro carnaval, quando já me sentia um pouco mais madura, fantasiei-me de colombina. Levei, porém, uma máscara. Não estava preparada para brincar de rosto descoberto. Outro ponto que combinei comigo mesma naquele ano, não me divertiria perto de casa. Escolhi um bairro distante e lá fui eu. Não sabia que seria tão fácil dançar, e até arranjar namorado. No começo, deixei-me levar pela música, pelos tambores e, depois, pelas mãos dos rapazes. Como não era conhecida no lugar, não havia nada de mais me divertir, permitir até mesmo que me beijassem. Já naquela época, pelo menos nas primeiras horas de diversão, sempre achei melhor fugir dos rapazes que me queriam exclusiva. Misturava-me à multidão e aparecia na outra ponta do cordão, ou mesmo algumas ruas à frente, quando, furtiva, podia apreciar outra música, outro ritmo, outros homens e deixar, pouco a pouco, que escorregassem seus braços pelos meus ombros e cintura. Com o passar do tempo, tornei-me desinibida. Já não usava máscara, e não fugia assustada dos primeiros foliões que me queriam abraçar. Apenas os recusava polidamente e marchava adiante, sempre no ritmo da música. Outro ponto, oferta que a passagem dos anos me proporcionou, foi o despojamento da fantasia. De carnaval a carnaval, preparava uma roupa mais confortável e, não posso deixar de salientar, menor. Os homens são tarados por mulheres nuas. Além de fazê-los enlouquecer, sentimos um gozo todo especial ao andarmos nuas pela cidade. Portanto, minhas sainhas da fantasia subiam cada vez mais, ou mesmo desapareciam. Ora usava short, ora biquíni. Algumas pessoas devem desejar saber como é possível estar fantasiada vestindo apenas biquíni. É plenamente possível. Pode-se ressaltar a época que se deseja representar. Como era o biquíni nos anos 1950? Como nos 70? Como nos 90, ou mesmo nos nossos dias? Por isso, a cada dia de carnaval, é possível espelhar uma época. Claro que o observador deverá ter conhecimento desses períodos para compreender a fantasia. Mas aí o problema já não é meu. Outro ponto: como, ao usarmos um minúsculo biquíni, podemos transmitir a ideia de que não convidamos os homens a nos deixarem nuas ou a não transarem conosco? Será preciso, então, demonstrar que o nosso objetivo é dançar, pular carnaval, e que braços e mãos daqueles que nos admiram devem ficar distantes. Mas para isso precisamos ter muita energia. É necessário dançarmos sem parar. Assim, deixaremos exausto qualquer um dos rapazes. Acompanhar toda a nossa alegria tornar-se-á para eles impossível. Ficarão para trás. Como ter tanta energia? Mas sobre isso nada falamos, é o nosso segredo. Outra fantasia, já antiga, que arrasta uma fileira de homens atrás da gente – pude constatar faz três anos – é a saia de franjinhas. Aquele tipo de minifantasia que obriga os homens a torcerem o pescoço ao cruzarem conosco. Eles têm razões para querem certificar se usamos calcinha ou se vamos nuas. Trata-se de uma das minhas fantasias preferidas. Mas no carnaval que estou vivendo agora, optei por um tipo de canga especial, de renda, como um vestido de noiva, com apliques aqui e ali, evitam, desse modo, a total transparência. O tecido fino cobre e, ao mesmo tempo, desnuda o meu corpo. Desperta também a curiosidade dos homens: há algo sob a fina teia? Ao mesmo tempo, posso amarrar a renda do jeito que desejar. Ora como um tomara que caia, ora cruzando o pescoço e deixando entrever um pedaço de seio (será que vai solto ou há algum suporte invisível?, pois se mantém tão rijo). Mais um segredinho, sempre prefiro os espaços descampados, as ruas largas, o ar por sobre a minha cabeça, ou mesmo a água a molhar-me o corpo caso venha a chuva. Nada de me divertir encurralada em camarotes estreitos dos bailes de carnaval. Nada de estar nas mãos de homens destemperados. Ou melhor, não quero pano algum meu segredado pelas mãos deles. Basta-me o arrepio da rua, basta-me o perigo aparente do folião imprevisto, meu suposto algoz. Apenas suposto, porque na hora agá gozo. Apesar da timidez, tenho o poder de perceber no lampejo dos seus olhos a virtude de esperar primeiro a satisfação das mulheres. E continuo na folia. Diálogos? Lembram lá em cima? Jamais sustentei. Nem por dois minutos. Nem para pedir de empréstimo a camisa caso, no fim da folia, surpreenda-me o raiar da quarta-feira.