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terça-feira, setembro 21, 2021

Tá bom, vou acreditando

Quando entrei para a empresa, não sabia que seria tão bom. Quero dizer, bom mas um pouquinho angustiante. Sério, quando conto as pessoas não acreditam. O meu patrão começou com sorrisinhos, depois com histórias inverossímeis, no final vieram os presentes, muitos presentes. Pedia que eu não contasse a ninguém. Achei aquilo muito estranho. Ele trazia pulseiras, roupas, utilidades para o lar e mesmo dinheiro, que vinha arrumadinho dentro de um envelope, as notas maiores na frente. Um dia quis falar com ele, basta o meu salário, sou uma mulher competente, cumpro as tarefas, nada deixo a desejar. Mas não consegui, toda vez que pensava ir a sua sala, acontecia um problema, e eu ia deixando o tempo passar.

Contei o caso a uma amiga. Ela achou o máximo. Como você pode achar uma coisa dessas o máximo?, perguntei angustiada. Caso eu estivesse no teu lugar, adoraria, completou. Mas gosto tanto do meu marido, aceitando todos esses presente sinto como se o estivesse traindo. Traindo nada, afirmou, os homens é que traem, não conheço um homem que não tenha traído a mulher. Voltei para casa pensando na tal conversa.

A culpa disso é a subserviência. Caso fôssemos bem remuneradas, cultas, de alto nível de emprego, uma diretora de empresa ou uma executiva como exemplo, ou mesmo uma médica, isso não aconteceria. A diretora de uma empresa ganha tantos presentes de quem está imediatamente  acima dela? Acho que não, ela não precisa. Quando um homem gosta de uma mulher dessas, as coisas acontecem de outra maneira. Um dia desses dia li numa revista que uma mulher importante recebe o namorado numa cobertura que fica num prédio dos Jardins, em São Paulo. Até aqui, nada de mais, mas leiam o que vem a seguir: ela morre de tesão quando o homem faz que ela deite nua no parapeito da janela, correndo o risco de despencar lá de cima; certa vez ele subiu sobre ela e treparam ali mesmo, o coração de cada um a mil por hora. Não é mentira, ela mesma contou.

Comigo acontecem os tais presente porque ganho pouco, aliás, todas do meu nível de emprego recebem pouco, então os homens se aproveitam, gostam de mostrar uma falsa generosidade. Passa um tempo e tenho que trepar com o meu patrão.

Não, diz minha amiga, é bom ganhar presentes, mas você só trepa se quiser; se ele te dá dinheiro, é problema dele. Tá bom, vou acreditando.

terça-feira, junho 22, 2021

Banho-maria

“Você não está casada?”, ele perguntou.

“O que isso tem a ver?, sempre saí com você também casado?”, repliquei um tanto malcriada.

Era uma quinta-feira de Fevereiro, fazia alguns minutos que eu resolvera telefonar a ele, meu antigo patrão. Gostava dele, às vezes precisava dele, alguém que não deixava de resolver minhas dificuldades. Mas o problema era que ele não telefonava havia dois meses, uma quantidade de tempo enorme para quem deseja manter um relacionamento, mesmo que em banho-maria. À ultima vez houve um probleminha. O homem me ligou bem na hora que meu marido estava próximo ao meu celular. O que eu iria fazer? Não podia sair correndo com o aparelho como se nada tivesse acontecido. Cínica que sou, pedi atende pra mim, amor. Ele atendeu, e era o meu ex-patrão. Ao ouvir voz de homem, deve ter levado um susto. Este telefone não é da Márcia?, perguntou. Sim, respondeu o marido, quer falar com ela?, e me passou o aparelho. O que eu podia dizer. Oi, Sr. Jaques, como vai sua esposa? Ele, no entanto, insistiu, queria saber quem era o homem que atendeu ao telefone. Não pude negar, disse com a voz alta, clara: meu marido. Agradeceu, despediu-se e desligou. Depois, dois meses em silêncio. Como vou retomar a relação?, pensei.

“Preciso falar com o senhor”, continuei, não consegui perder o modo de tratá-lo, sempre chamando o homem de senhor.

“Pode falar.”

“Sabe”, continuei, “é melhor marcarmos em algum lugar, é uma conversa um tanto pessoal, não dá pra falar assim, ao telefone.”

Ele aceitou. Foi ao meu encontro. Sabia que, para ser atendida, não ia sair de graça.

“Quinhentos?”, pareceu assustar-se.

“Estou passando por um probleminha, achei que pudesse me ajudar.”

“Vamos ver”, coçou a cabeça. Estávamos num café, no subsolo de uma galeria comercial, no centro.

Tomamos os cafés, às vezes em silêncio, às vezes um assunto engraçado. Perguntei pela esposa. Ele respondeu de pronto, sem tremores, vai muito bem.

“O Senhor gosta dela”, afirmei.

“Quem sabe”, sorriu, olhou pra cima, depois me encarou nos olhos. “E então?”

Eu já sabia do que se tratava. Levantamos e saímos pela Rio Branco, entramos na Treze de Maio, depois na Senador Dantas. Trinta minutos e eu nua num quarto de hotel, fresquinha, saída do banho. O homem a babar por mim. Comecei a colocar em ação minhas habilidades.

“Sabendo que você está casada, fico mais excitado”, comentou.

“Não ligo pro meu marido, um casamento formal.”

“Ele não tem quinhentos reais?”

“Está desempregado.”

“Ah, sim, a crise”, sussurrou.

“É, a tal crise”, concordei.

“Além do dinheiro, trouxe um presentinho pra você”, ofereceu-me a bolsa de uma loja famosa.

Abri. Era um biquíni de praia.

“Quero que você vista”, pediu.

Vesti, amarrei os lacinhos.

“Que gracinha”, falou com seu sorriso sempre pronto, “deixa desamarrar”.

E assim foi, ótima a tarde pra namorar. Eu peladinha, na cama, todas as posições. Como adoro falar sacanagem, ainda contei uma história no ouvido dele.

No final, insistiu:

“Quero você de biquininho, mais uma vez.”

“Espere”, pedi.

Fui ao banheiro, me lavei e voltei vestidinha, o biquininho como uma luva, eu um tanto molhadinha, como que saída da água da praia. Me aproximei do ouvido dele e falei:

“Sabe de uma coisa, vou voltar pra casa vestida apenas de biquininho.”

O pênis do homem ficou duro de novo. Desfez meus laços, fomos a mais uma boa trepada.

Assim vai o meu relacionamento extraconjugal, a fogo baixo, em banho-maria. Só não posso deixar que passem mais dois meses.

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

Por isso não se arrependem

Não adiantou, não tive escapatória, tive de dar pra ele. Não que se tratasse de estupro. Longe disso. A responsável por tudo fui eu. Dei muita confiança, aceitei vários presentes. Quando chegou a hora agá, não havia mais saída. Uma amiga diz que sempre há como sair de um relacionamento indesejado. Mas não é tão fácil. E o relacionamento com ele não é indesejado, mas agradável, bom, ou muito bom. O que eu queria é que as coisas acontecessem de outro modo. Toda mulher gosta de dirigir o relacionamento. Pensei que tudo ia sob o meu comando. Quando dei conta da situação, estava sendo conduzida. Foi isso o que mais me aborreceu. Certa vez uma amiga contou que chorou muito após transar com um homem. Na época não entendi, mas agora sei o que ela passou. O tal homem a convidava para restaurantes, passeios pela cidade, presenteou-a com pulseiras e cordões. Ela aceitava. Sorria e agradecia. Pensou que ia ficar só nisso. Um dia ele insistiu no convite para um passeio de barco. O homem tinha um iate ancorado na Marina da Glória. Ela aceitou. Uma tarde linda, sol de outono. Saíram os dois às três da tarde a navegar pelas cercanias do litoral carioca. No meio do passeio, ele serviu doses de uísque com castanha do caju. Ela disse não costumo beber uísque, mas hoje abro uma exceção. Acabou não abrindo apenas a exceção. Quando tudo terminou e me vi nua no camarote, às seis da tarde de uma quarta-feira, morri de arrependimento, sou casada, você sabe, tenho filhos ainda adolescentes, completou. Tratando-se do meu caso não foi muito diferente. Quando o homem me tirou a calcinha, senti a mesma coisa, mas disse a mim mesma quero aproveitar a vida. Ele não era o meu tipo, muito mais velho, veste roupas antiquadas, mas também me presenteia. Toda mulher gosta de ganhar presentes. Toda mulher gosta de atenção, de saber que ainda seduz. Fui com ele. Um restaurante à luz de velas, um jantar requintado, uma garrafa de vinho, outra de espumante. Quando saímos pelas ruas do centro, ele de braço comigo, estava soltinha. Reparei então que ia nua. Isso mesmo, nua. Porque é assim que a gente se sente ao ver vencidas todas as resistências. As mulheres são assim, disse a mim mesma numa tentativa de comunhão com o resto da humanidade, principalmente com as mulheres. Um modo de me confortar. Deixei-me ser conduzida por ruelas do centro. Entramos por aqui, por ali e ele falou vamos subir aqui um instantinho, é um escritório de um amigo. Tomamos o elevador. Corredor comprido, sem uma viva alma. Ele tinha a chave. Abriu a porta. Havia um sofazinho, uma estante com livros, um mesa, duas ou três cadeiras, dois quadros na parede em frente. Acionou um pequeno aparelho e começou a tocar um tango argentino. Isso mesmo, era o que faltava. Ele me abraçou. E eu me desmanchei nos braços dele. O que há de mais nisso?, você pergunta. Não sei. Talvez não haja nada de mais. Mas me arrependi depois. Não me relaciono com homens faz tempo. Não tinha necessidades sexuais. Mas ele até me fez gozar. Isso foi o principal. Ao invés de me sentir feliz, me vi como uma prostituta. É porque gosto de pureza. Me sentia pura, uma mulher em paz com o mundo. Mas veio esse homem, que me pôs em conflito. Agora não sei mais o que faço. Tenho vontade de sair mais vezes com ele, trepar com ele, mas ao mesmo tempo me sinto imunda. Talvez seja a religião. Minha família foi sempre muito religiosa. Você dirá mas você não é casada, nem tem filhos, mora sozinha, o que há de mal ter um namorado, que seja uma amante? Não sei. O que sinto é um conflito terrível. E ao mesmo tempo morro de vontade de trepar com o homem. Quando bebo então nem se fala. Me entrego totalmente. Mas, depois, ao me dar conta que tudo passou, me sinto mal, uma espécie de nojo de mim mesma. Tomo banho, me esfrego intensamente, mas a sujeira não sai. O quê? Você também acha que não é sujeira? Você acha que o importante é termos bom coração? Pode ser. Mas ainda não acostumei a pensar assim. E ainda tem mais uma coisa. Na hora da transa nem me lembro de perguntar se ele trouxe camisinha. Trepamos três vezes, todas elas pele com pele. Sabe, acho que só vou me sentir bem no dia em que eu me casar. Então não vou mais me arrepender. Mas não gosto deste homem a ponto de querer casar! Você diz que casamento estraga a relação, que o bom é ficar desse jeito? Ah, é o que todo mundo fala, mas não quero pensar assim. Acho que esse é o jeito de viver das prostitutas. O que, as prostitutas não gozam? Deve ser por isso então que não se arrependem...

segunda-feira, maio 07, 2018

Bebendo de canudinho

Você me convidou pra encontrar você, não foi? Concordei, estou aqui. Mas não pense mal de mim. Você falou ao telefone olha, vou te dar um presente, aquele presente que sempre ofereci a você. Fiquei pensando o que seria. Depois, lembrei. É a quantia que eu sempre te pedia quando trabalhei no centro cultural. Pedia emprestado, mas depois não tocava mais no assunto. Nada falava, nem mesmo uma palavra. Por sua vez, você também não cobrava. Às vezes eu pensava aonde chegaríamos, eu toda endividada com você, sempre pedindo, você emprestando. Quero dizer, fingindo emprestar, porque na verdade me dava, já que jamais paguei. Tem alguns dias seu telefonema, oi como vai, tudo bem?, venha, vou te levar o presente. Escutei tua voz delicada, melodiosa. Fiquei com receio da proposta, achei que tinha uma ponta de prostituição. Você sabe, trabalho de secretária. No momento, não tenho emprego fixo. Mas sempre alguém me chama, me paga cento e cinquenta, duzentos reais. Você me ofereceu duzentos, disse que era presente, não pra fazer serviço de secretária, mas encontrar e sair com você. Quem sabe terminar num quarto de hotel?, imaginei naquela hora. Você deve ter pensado em prostituição, mas nada falou, teve medo de me ferir. Pensou sim, porque também pensei, é  normal esta angústia. Fiquei preocupada, porque não costumo sair com homem em troca de dinheiro. Você podia achar que sou piranha. Toda vez que aceito o convite de um homem, é porque me atraiu, porque pode ser capaz de me causar prazer. Sair por dinheiro é outra história. Aceitei porque com você acontece uma coisa diferente, uma coisa interessante. Gosto de você, sim, de sua conversa, e sei que você não vai me pagar porque sou prostituta. Mas pra me ajudar, não é mesmo? Já reparei que você gosta de ajudar as pessoas. Então, vim. Caso fosse alguém que não me agradasse, não estaria aqui. Por nenhum dinheiro do mundo. Procuraria uma diária de secretária, alguém que precisasse organizar o escritório, ou mesmo a residência. Engraçado, eu nua, sentada nesta cadeira, contando estas coisas pra você e bebendo suco de laranja no canudinho. Por isso, gosto de você. É uma pessoa calma, nada de precipitação. Você gosta de conversar primeiro, gosta de me observar, me oferece uma porção de coisas, disse que eu podia ligar pra recepção e pedir o que quisesse. Adorei, quero dizer, estou adorando. Sei que você também está. Você gosta de me ver nua, sentada, de pernas cruzadas, tomando laranjada no canudinho, e sabe que daqui a pouco vai me ter nos teus braços, bem apertadinha. Então, vou contar uma história bem safada no teu ouvido.

quarta-feira, março 29, 2017

Todo fogo que tenho

“Eu disse a você, estava na academia”, falei a ele quando saíamos do café. Olhou para mim e sorriu. Percebi na sua face uma ponta de ironia.

“Não foi para mim que você ligou, então.”

Franzi a testa.

“Foi o que falei, tenho certeza”, afirmei.

Riu mais uma vez. Estava na hora de partir. Beijou-me, agradeceu minha presença e se foi.

Enquanto subia ao consultório, comecei a pensar na tal ligação. Será que foi para ele mesmo que liguei?

As aparências enganam, como a maioria das pessoas já sabe. Muitos anunciam tal máxima aos quatro ventos. Na verdade, no entanto, deixam-se enganar. Eu, como muitos constatam, tenho fisionomia de santa, de mulher piedosa, incapaz de fazer algo que fira as pessoas. Uma traição então, nem pensar. Jamais as pessoas concluirão que a pratiquei. Este meu admirador, que acabou de tomar um café em minha companhia numa quarta-feira à tarde, vive me pedindo para sair com ele. Mas não se trata apenas de ir até à rua para tomar um café numa cafeteria qualquer. Ele quer mesmo é me levar para cama. Mas, de acordo com a minha fisionomia e meus argumentos, acabo convencendo-o de que não sou uma mulher vulgar, fácil nos convites para o sexo. Coitado, mal sabe ele das minhas atitudes. Já cheguei a ter três namorados ao mesmo tempo, tudo, porém, na mais alta discrição. Os homens dos quais gosto são os que falam pouco e agem muito. Não precisam tocar no assunto principal para eles, o sexo. Nem no desejo que percebem em mim, o dinheiro. Basta que avancem e que eu perceba os depósitos na minha conta corrente. Não faz mal que não mostrem recibo. O tal do telefone, quando falei que estava na academia, não era o namoradinho que me convidou ao café. Cometi um ato falho. Quem sabe, daí para frente, este irá descobrir o meu segredo. O que posso fazer? Nada. Como sempre, fiz de conta que nada aconteceu, que não entendi. Ainda bem que li Dom Casmurro e compreendi bem os olhos de ressaca de Capitu. Aprendi com ela. Assim, todos os homens caem na minha rede.

Se ele soubesse o caso do hotel, ficaria doidinho. Fui passar uns feriados na praia, no sul do estado. Todo manhã debaixo do sol, toda manhã o banho de mar. Moreninha. Até que surgiu um homem grandalhão. Quase impossível encontrar homens sozinhos em hotéis de praia. Mas eu encontrei. Veio falar comigo no momento em que eu tomava banho de mar. Não esperava encontrar uma quase sereia. Digo quase porque não sou metade peixe. Tenho certeza de que ele preferiu assim. Mas no restante eu estava nua, como as sereias Onde o biquíni? Ah, duas pulseirinhas. Como eu poderia escapar dele? E quem disse que escapar era o meu desejo? Apenas mostrei os olhos. E o mar até que estava pra peixe. O restante? No hotel, ao entardecer. Mas não nego que fiquei nua ao lado dele ao ar livre outras vezes. O homem quase enlouqueceu. Eu amei.

O namoradinho que me convida para o café vai continuar me convidando. Amanhã ou depois ele vem de novo. E eu vou com ele. Quanto ao outro, com quem falei que estava na academia, sempre espera por mim, com seu corpo de homem maduro que já foi atleta na juventude, e com os depósitos que faz na minha conta sem que eu lhe diga que percebo.

O meu namoradinho do café se deixa enganar pelas aparências. Jamais vai saber todo fogo que eu tenho!

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Por que você está sem a calcinha?

Sempre mudo a foto do meu zap, adoro. Ora poso de short, ora de vestidinho, ora de blusa que mostram meus ombros nus, já até postei foto de biquíni de praia, mas por apenas quinze minutos. De um tempo para cá, resolvi me casar. Juro. Não esses casamentos de igreja com véu e grinalda, nada disso, a gente só casa assim uma vez na vida. Mas um casamento bem atual, desses que chamamos o namorado para vir morar junto. Ele gostou da ideia, instalou-se na minha casa. Casa pequena, bairro simples, distante do centro, mas muito agradável. Eu não sabia, porém, que o homem era tão ciumento. Viu a minha foto do zap e foi dizendo nossa, você não pode se mostrar assim. Era a tal foto em que eu estava de shortinho. Postei, então, foto mais recatada, de bermuda. Meus amigos passaram a me mandar mensagens: Márcia, você nunca mais mudou a foto, era tão interessante ver você cada semana com uma roupa diferente. Acho que eles queriam dizer cada vez com menos roupa. Meu marido passou a controlar o meu telefone. Que aborrecimento. Tive de apagar as mensagens, de parar de conversar com alguns amigos. Tudo ele queria saber. Comecei a me arrepender do casamento. Que bobagem esta relação, passei a murmurar a mim mesma. O que compensa é que ele é muito gostoso. Acho que nunca tive um homem tão gostoso e disposto a trepar comigo a qualquer hora do dia ou da noite. Mas um dia desses me telefonou um homem com quem eu saí duas ou três vezes, alguém com quem tenho interesse em manter certa ligação, porque me dá muitos presentes, me convida para lugares chiques, eu é que recuso. Meu marido viu a tal ligação, o nome do homem e sem que eu soubesse ligou de volta para ele.

"Com quem você quer falar?", perguntou.

Acho que o homem ficou surpreso ao ouvir voz masculina.

"Não sei, não telefonei."

"Apareceu este número aqui, estou devolvendo a ligação, disse meu marido."

Acho que o homem fez a pergunta natural, aquela pergunta que a gente faz quando alguém atende o celular que não é o seu.

"Este telefone é o da Márcia?"

"Sim, quer falar com ela?, ela está aqui."

Me passou o telefone. O que eu iria dizer? Meu marido ali ao lado, o homem com quem eu transara duas ou três vezes do outro lado da linha. Um constrangimento. Mas consegui conversar como se fosse apenas um amigo. Dois dias depois saí para trabalhar, tive vontade de ligar ao tal amigo. Com tanto controle, achei que o marido precisava ser traído. Mas me segurei. Achei melhor dar a ele mais uma chance. No dia seguinte, porém, meu marido estava no celular, e conversava com uma mulher. Isso não vai dar certo, pensei. Liguei ao meu amigo, marquei um encontro, pedi um presentinho. Ele não é de negar.

Meu amigo adora minhas pernas, olha pra elas com intenso desejo. Deixa que eu tiro tua calcinha, disse. Eu já estava no hotel com o homem, esquecida do casamento. Ele não é tão quente como meu marido, mas também não é de se jogar fora. Tudo bem, boa a trepada. Me deu o que pedi, o tal presentinho.

Vou entrando em casa. Quero esquecer o que fiz. Será que já estou arrependida? Meu marido me espera. Arrepio. Caramba, será que o homem adivinha pensamentos. Vem cá neguinha, estava morrendo de saudade, onde você andava, hein? Me beijou na boca, foi me puxando a bermuda. Caramba, será que vai notar alguma coisa? Espera, alertei, estou morrendo de vontade de fazer xixi. Não faz mal, ele abaixou minha bermuda, faz aqui na minha boca. Foi então que reparou surpreso: ué, por que você está sem a calcinha?

sábado, agosto 23, 2014

E que incêndio!

É bom saber pensar e brigar. Não se pode ficar apenas no pensamento e no desejo. Ganhar cinco mil reais me vai ajudar muito a resolver alguns problemas. Se o que preciso comprar se pode chamar de problemas. Vi, na praia, a garota. Devia ter entre os vinte e vinte e cinco anos, quem sabe mais um pouquinho. Ela vinha com a mochila às costas e... de biquíni. Não caminhava na areia, rente à beira-mar, mas no calçadão. Ou na rua, não sei bem. Acho que era domingo e ela andava na rua. Um meio certo de arranjar namorado, caminhar de biquíni na rua. Mas será que era isso o que ela desejava? Não sei, pode ser que não. Tenho certeza de que ela ia de biquíni, calçava tênis, e a mochila às costas. Isso me deu uma tremenda ideia. Sempre há aqueles que querem sensações mais intensas, e eu conheci um desses. Um senhor agradável, simpático e generoso. Gostou de mim à primeira vista. Foi num dia desses, de céu nublado, quando se sai à tardinha em busca da última nesga de claridade e do sopro fresco que vem do mar. Parei num quiosque, na orla de Copacabana. Queria água mineral. Ele já estava lá, vestia calça comprida, uma camisa com a bandeirinha da França no peito e sorria. À mesa, um coco; já havia terminado de saborear a água. Sente aqui. O convite, dele. Aceitei, sentei e tomei toda a garrafinha de água mineral. Conversamos. Uma conversa vazia, dessas que se estabelecem entre duas pessoas recém-conhecidas. Depois que fui embora, esqueci-me do homem. Mas já no dia seguinte o encontrei de novo. Dessa vez, de bermuda, mais informal. E o encontrei também no domingo. Foi nesse dia que vi a moça de biquíni e mochila às costas. Ele me convidou ao cinema. Vamos ver um filme logo mais, pode ser um besteirol, apenas para espairecer. E lá fomos. Gentil o homem, pagou o cinema, o lanche. O filme? Não importa. Como ele dissera, um besteirol. Ficou com o meu número. Não custou a me convidar para jantar. À noite as coisas são mais sérias. Não sei de quem a frase. Mas o homem seguiu-a à risca. Levou-me a uma cantina, ali na Fernando Mendes. Boa a comida. Tomamos vinho. Escolhido por ele. Tudo sob medida. Depois de tanto, o que me restava? Acabei no seu apartamento. Bonito, o homem, para quem já passa dos sessenta; um bom amante, apesar dos sessenta. Nada comentamos sobre nossas diferenças, incluindo aí a idade. No final, o homem perguntou se eu tinha conta em algum banco. Sabe como é, vivo sozinho, não se sabe o dia de amanhã. Sorri. Voltei a casa, enlevada. Ganhara eu na loteria? Seria verdade o que eu ouvira, ou ele mentia? Na semana seguinte, deixei por escrito o número de uma conta de poupança que havia muito esquecida. Até fora ao banco para saber se ainda existia. Sim. Existia. E o banco estava pronto para acolher a parte do seu lucro. O homem depositou. Numa primeira vez, um dinheirinho. Passaram-se alguns dias, dobrou (ou triplicou?) a quantia. Apareceram dois mil. Não sou mercenária. Não arranjo namorado para ganhar dinheiro. Mas já que surgiu, aproveitemos... E o homem é um conquistador nato. Fala como se sonhasse, e logo o sonho torna-se realidade. Outro dia contou sobre umas fantasias, coisas que a princípio pensei que viu no cinema. Depois, porém, achei que ele mesmo pudesse ter inventado. Então, como sou sempre presenteada, não posso deixar escapar o homem. E acho que agora até mesmo o amo. Não há quem não ame uma bolsa plena de notas de cem acompanhada de um sorriso lisonjeiro. Não é minha a frase, mas de uma diarista, e acho que não falou com essas palavras. Mas a ideia é a mesma. E volto às fantasias do homem. Primeiro, amarrou-me nua a uma cadeira. Amarrada e com a boca lacrada por um largo esparadrapo. No dia que se seguiu, dois e quinhentos a mais na minha conta. E muitos beijos, carícias, e nada de ejaculação precoce (ele sabe namorar). Hoje, talvez mais do que amarrada, ou muito solta, não sei bem, eis-me nua, a bater à sua porta. A condição para ganhar os cinco mil: preciso estar nua por inteiro, batendo à sua porta. Não só vir e bater. Tenho de partir também nua. Então, o plano. A tal moça de biquíni com a mochila às costas. Eu, nua, com a mochila às costas. Agora, falta-me o desfecho. Escondê-la, a mochila. Nua, entro; nua, amo-o; nua, vou-me. E a mochila... Ah, a caixa de incêndio. E que incêndio!

segunda-feira, julho 28, 2014

Carrossel

Estou nua. Era para estar morta de vergonha, mas algo me acalma. Qualquer coisa de especial neste homem quase desconhecido me deixa à vontade.


Nunca fiz isso por dinheiro, falo.

Mas são dois mil reais, responde.

O que faz você gastar tanto assim?, mostro curiosidade.

Não sei, é um costume que tenho faz tempo, e também tenho muito dinheiro.


O primeiro encontro aconteceu num vagão do metrô. Eu entrara na estação Catete, ia para Ipanema. Vestia roupa de ginástica, calça colante ao corpo, uma camiseta do mesmo tecido e tênis apropriados para correr ou caminhar. No meu caso, era para a esteira. Reparei um homem olhando na minha direção. Como eu levava uma revista, tentei me prender à leitura. Mas ele não desgrudou os olhos. As estações foram se sucedendo, e ele continuava no seu afã de me espionar.

Sou uma mulher de quarenta e cinco anos. Devido ao permanente exercício tanto ao ar livre como nas academias de musculação, tenho o corpo bem delineado. Não sou, entretanto, uma mulher magra. Se não sou gorda, é porque me exercito todo dia. A aparência, ao contrário, revela a minha verdadeira idade. De um tempo para cá, me desliguei dos homens. Moro sozinha e vivo para a ginástica. Fico feliz sempre que acabo de me superar, tendo feito os exercícios programados. Alguém poderá perguntar como resolvo as questões afetiva e sexual. Não tenho respostas para elas. Digo apenas que a ginástica me basta. De resto trabalho, leio alguma coisa e uma vez na semana vou ao cinema. Tenho duas ou três amigas, ocasionalmente nos reunimos para conversar.

Mas naquele vagão de metrô, me apareceu o homem das notas de cem. Vamos apelidá-lo assim.

Quando eu me preparava para descer na última estação da Zona Sul, percebi que ele me seguia. Uma vez que ando bastante rápido, tentei fazer o máximo para deixá-lo para trás. O tal homem, porém, parecia colado ao meu encalço. Consegui chegar ao prédio da academia. Entrei e disse cá com os meus botões: estou salva, o homem ficou para trás.

Duas horas depois, ao deixar o local e caminhar de volta para a estação General Osório, percebo novamente o homem. Ele me esperava. Como alguém deve fazer para abordar uma desconhecida? Creio que ele é experiente nisso. É também um exímio artista. É sabido que qualquer mulher não deve dar conversa a homem algum, sobretudo na rua, onde a possibilidade de golpes é sempre alta. Mas o homem acabou conseguindo uma resposta minha. Uma resposta negativa, é claro. Mas estava estabelecido o diálogo. Para um mestre, aquela porta escancarava todo o castelo. E o homem me envolveu na sua história. Acabei parando para ouvi-lo. Tanto mais eu o recusava, mas ele avançava no seu intento. Então veio a conversa de shoppings, de compras espetaculares, de produtos que toda mulher deseja.


Não me troco por dinheiro, digo em algum momento.

Não se trata de dinheiro, mas do mundo contemporâneo. Quem não deseja um amigo rico, alguém que lhe supra as necessidades?, pergunta.

Não tenho necessidade alguma, afirmo resoluta.

Como, não?, rebate. Todos as temos. É porque não gostamos de pensar nessas coisas. Apenas olhamos os produtos de modo fetichista.

Fetichista?, assusto-me.


Então ele contrapôs uma longa história. Explica o significado da palavra.

Passa a me esperar na porta da academia todos os dias, após a ginástica. Depois caminhamos juntos até a estação do metrô. Num certo dia, passo a simpatizar com ele.

Traz alguns presentes. Não no segundo dia, mas na segunda semana. Objetos de adorno como pequenos broches, ornamentos para estante ou mesa de centro. Também me presenteia com perfumes e um livro, depois de descobrir o meu gosto pela leitura.


Há pessoas que podem conquistar tudo o que quiserem, afirma.

Será?, duvido.

Verdade, sentencia.


Sem rodeios, diz que eu sou uma dessas pessoas.

Já quase sua amiga, marcamos encontro num shopping. Como o homem é consumista! Nunca vi pessoa alguma entender de tantas coisas, tantas lojas, tantos produtos. Desde vestuário, até objetos de decoração, passando por joias, roupas e brinquedos.

Num sábado à tarde, vamos ao cinema. Depois, a um restaurante.


Não, obrigada, não bebo bebidas alcoólicas, recuso amavelmente o convite para tomar um vinho. Mas aceito um suco.


Tomo o suco, e ele o vinho.

Acho que quem se embriaga sou eu. E logo com um suco de abacaxi e hortelã...

Acabo a noite na casa dele. Coloca nas minhas mãos dois mil reais. E são apenas as notas a tocar meu corpo. Por quê? Adivinhem. Ou melhor, leiam a primeira linha desse texto.

terça-feira, julho 08, 2014

Margarida, a verdadeira

A história que eu transcrevera em minhas próprias palavras era igual a que ele contara. Não que eu quisesse plagiá-lo, mas, na verdade, tudo era devido a esse furioso vício que (ao menos no meu caso) é escrever. Ele narrara, em livro, que um mágico fizera aparecer notas de dólar no picadeiro e as distribuíra ao público. Todos avançaram e encheram as mãos e os bolsos tanto quanto puderam, uma algazarra surpreendente. Depois subiram as mulheres (não que algumas já não tivessem também escondido dinheiro dentro das roupas), que se adiantaram ante o magnânimo oferecimento de roupas de grife. Aliás, grifes francesas e italianas. As beldades entravam numa pequena cabine, deixavam para trás as roupas com as quais chegaram e vestiam as novíssimas, oferecidas pelo mágico.

A história do famoso escritor russo era um pouco diferente da minha, tinha um fundo moral e criticava o governo. No meu caso, como todos sabem, a intenção é o puro divertimento. Nem pretensões literárias tenho. Caso pensasse assim, já teria publicado um livro, ou contratado um agente.

Na minha história, havia também um mágico, só que ele não possuía tanto poder. Fazer aparecer dinheiro não é difícil, o que não se consegue é fazer que a chuva de notas dure quase todo o espetáculo, como no dito livro. Transformar a mesma quantidade de notas em rótulos adesivos horas depois, talvez exija o conhecimento e o cuidadoso manuseio de vários produtos químicos. Quanto fazer aparecer e, sobretudo, desaparecer vestidos, saias, calças e blusas, a coisa já se torna mais fácil e, digamos, muito sensual. Além de não se criar problemas com a receita federal.

Então, ele, o mágico, chamou ao palco aquelas que desejavam vestir-se à moda francesa ou italiana. E foram quinze ao todo. Entraram na cabine e... Atenção! Abriu-se a porta. De lá saíram vestidas com modelos estonteantes. Brilhavam, espelhavam várias cores, reflexos dourados ou prateados. Mas, após passarem atrás de uma tela branca, apareceram nuas em pelo na outra extremidade do palco. Onde os vestidos de grife? Onde as roupas com as quais saíram de casa? Muitas gostaram da brincadeira, enquanto outras...

Uma delas, que me contou a história e estava furiosa, tentei acalmá-la. Disse que já realizara tantas fantasias de namorados, que perdi a conta de quantas vezes saí nua de casa, também eu não sabia calcular quantas vezes regressara nua. Ela, porém, continuou furiosa, disse que o mágico lhe prometera um Versace e não cumprira a promessa, ou a cumprira apenas momentaneamente. Não era mal terminar a noite nua, nem voltar pelada pra casa, isso estava longe de ser um problema, o que desejava mesmo era o vestido que, por seu próprio esforço, jamais ostentaria sobre o corpo. Você precisa entender que quando se vai a um espetáculo desses não se pode exigir mais do que o preço do ingresso, retruquei. Ela fechou a cara e foi embora insatisfeita. A certa distância, vi um admirador lhe oferecer o casaco, embora de fazenda leve e curto. Ela não esmoreceu, preferiu continuar nua.

Voltamos a dialogar, eu e o mágico. Lembrei-lhe dos vestidos que ficaram na cabine, as mulheres poderiam processá-lo por furto, ou algo parecido. Respondeu que não, elas não vão fazer isso, foram selecionadas a dedo, e se foram embora nuas era porque tinham em mente objetivos maiores para as suas carreiras, enfim, para as suas vidas. Lembrei-lhe sobre o escritor russo, que descrevera mágica semelhante, e sobre mim, que estava sendo acusada de plagiá-lo. O mágico riu e acrescentou Margarida, quando você me sugeriu este número eu já tinha lido o livro, só não me viera à mente como torná-lo atrativo a um circo brasileiro; depois, quando tive a ideia dos Versaces, percebi que seria o chamarisco, faltava saber como conseguir que as candidatas à modelo ficassem misturadas à plateia; mas acabei descobrindo uma solução; um ilusionista tem sempre uma carta na manga; desde que seja rápido no artifício, ninguém há de reparar...

Tudo saiu conforme planejou. Ganhou notoriedade, apesar de, na sua profissão, tudo ser muito fugaz.

Quanto a mim, usei como argumento o fato de sempre andar nua, tanto em casa como na rua, portanto, poderiam me processar por tudo, menos por plágio. E, afinal, a outra Margarida, a que aparece na história do escritor russo, é apenas uma personagem de ficção. Eu, como podem testemunhar os meus leitores, sou uma mulher de verdade.

Não deixem de ler “O mestre e Margarida”, de Mikhail Bulgakov, editora Alfaguara. Vocês vão se divertir muito.

quinta-feira, junho 05, 2014

Cá estou eu, a esperar por ele

Havia pedido que eu usasse o vestido justo e curto. “Esconder o que se é, é fingir o que não somos.” Assim, a função da roupa que uso não é a de me cobrir, mas de salientar o meu corpo, as minhas curvas plenas de volúpia. Palavras dele.

“Você é fogo, viu, fiquei morrendo de vergonha, ir daqui de Copa até Mesquita de trem com esse vestidinho apenas, os homens todos a me olhar, até achei que algum deles ia me agarrar”, sussurrei no seu ouvido enquanto ele fazia carinho nos meus seios.

Mas preciso explicar. Sou secretária desse senhor. Faço todo o serviço doméstico e de rua. Acabei me deixando seduzir. No começo, por causa do bom salário; depois, porque passei a gostar dele. E o homem adora que eu vista roupa curta, no escritório e na rua, sozinha ou ao lado dele.

“Com essa roupa, estou chamando muito a atenção; assim, acho que alguém vai me roubar de você.”

“Não vai, não”, retruca, “o que é do homem o bicho não come.”

“Não come? Não tenha tanta certeza disso. Minhas amigas trocam de namorado como trocam de calcinha.”

Ele ri.

“Mas você não vai agir assim.”

“Não acha melhor que eu me mostre nua só pra você?”

Ele, porém, apenas manifesta um ligeiro movimento de cabeça, a princípio parece concordar.

“Quando você vem com esse vestidinho de malha, colado ao corpo, nem fala, morro de tesão. Acho engraçado você ficar o tempo inteiro esticando a barra do vestido.”

“Foi você quem me deu de presente. E mais uma coisa, a partir de agora vou deixar o vestido subir.”

Adoro quando estou trabalhando sozinha e ele chega de repente. Me abraça e me beija, aperta o seu tórax contra o meu, passeia as mãos pelas minhas costas, vai descendo, até que para sobre o meu bumbum. Então, faz uma massagem muito gostosa ali. Caso eu esteja de vestido, não demora a enfiar as mãos por baixo do pano.

“Estou em horário de trabalho”, finjo-me aborrecida.

“Trabalho?”, repete.

“Isso mesmo”, reafirmo. “Você sabe que adoro trabalhar.”

“Pago a você o dobro para me namorar.”

“Nada disso”, replico, “Você sabe que só namoro por amor.”

Esse meu namoradinho... Se fosse outra tiraria todo o dinheiro dele, mas não tenho coragem.

“Vamos fazer assim”, sugiro, “trabalho durante o dia, amor durante a noite,” tento colocar ordem no caos.

Mas sei que ele não vai aguentar, quero dizer, nem eu. Sinto um calor. E lá vem ele a levantar a minha saia. E lá vou eu a fingir que não estou a fim. Mas não demoro a entregar o ouro. Assim, não há trabalho que renda.

Agora estou aqui esperando por ele. Disse que voltaria logo. Querem saber mesmo aonde ele foi? Numa loja linda que há aqui embaixo. Quer me dar um vestidinho novo de presente.

“É melhor você me dar o dinheiro, prefiro eu ir, assim experimento.”

Mas ele não aceita, quer ter o prazer de me trazer a roupa.

“Como você vai saber se cabe em mim?”, ainda faço a última investida.

Olha então pro meu corpo.

“Levo este que você está usando como modelo, cai tão bem no seu corpo.”

E lá foi ele, o meu vestidinho numa bolsa. E cá estou eu, peladinha, a esperar por ele!

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Depois você me paga

Sentei na beira da cama, cruzei as pernas e esperei. Não entendi o que ele tinha em mente. Achei mais elegante nada perguntar. Meu vestido repousava no mesmo lugar onde o deixara horas antes, após me despir. Devido a meus seios rijos, não viera de sutiã, quase não o usava, mas a calcinha... Ele ainda dormia, ou fazia de conta, não posso dizer ao certo. Ouvi barulho de vozes vindo da rua. Eram pessoas que chegavam de alguma festa, conversavam. A madrugada agradável fazia que demorassem a seguir cada qual o seu caminho, queriam mais tempo entre os amigos. Depois de mais ou menos dez minutos levantei e me vesti, apenas o tecido fino sobre a pele. Pensei na noite que tivéramos: primeiro o passeio; depois, ali no seu apartamento, a música na pequena sala e o amor. Começamos de pé, encostados a uma das paredes, a seguir o sexo ardente na cama de casal do único quarto. Ele dissera ao meu ouvido que eu era a mulher da sua vida, que nunca namorara alguém tão quente como eu. Talvez tudo conversa fiada. Devia contar a mesma história para todas que conquistava. E eu ainda o incentivei, falei de um namorado que me deixara nua à porta de casa. Excitou-se, quis saber detalhes, contou então sobre um baile de carnaval de tempos atrás. Namorou uma fada que usava apenas biquíni, deixou-a sem a varinha. Só roubou-lhe a varinha?, perguntei. Ele dissimulou, mas acabou revelando, tomou-lhe também o biquíni. Sou também uma fada, falei, pena não ter vindo de biquíni, o que você vai levar de mim? Sorriu. Fazia pouco tempo que nos conhecêramos, ainda nem bem partíramos para o sexo. Demoro a ir para cama com namorado novo. Sei que já não sou tão jovem, sei também que os tempos são outros, tempos em que tudo se resolve com rapidez. Mas ainda sou lenta, não gosto de precipitações. Ele mexeu-se na cama. Esperei mais um pouco. Fez silêncio novamente. Achei que não acordaria. Procurei a sandália, a bolsa, fui até o banheiro e olhei-me no espelho. A aparência estava boa, disfarçava. Chamaria um táxi e correria para casa. Não sabia se o procuraria de novo. Lembrei-me de sua fadinha. Quem sabe ainda possuía a varinha, quem sabe me mostraria o biquíni. Onde será que os guardava? O apartamento era pequeno, não seria difícil encontrar. Temi que acordasse e não me deixasse ir. Pensei na fadinha nua e sem poder algum. Não queria acabar do mesmo jeito que ela. Que ninguém me olhasse por baixo da roupa. Que não pensassem mal de mim. As mulheres têm certa fascinação em se sentirem prostitutas, falam algumas pessoas. Será?.

Quando desci encontrei na portaria um garoto. Gostosa, ouvi-o dizer. Há quanto tempo não ouvia essa palavra. Voltei-me. Ele sorriu. Tão bonito o garoto. Ei, moça, espere aí. Esperei. Ele veio até a mim. Você quer passear comigo?, perguntei. Quero, falou com decisão. Mas precisa pagar, sabe, comigo nada é de graça. Quanto você cobra? Duzentos, e tem de ser adiantado, mais uma coisa, vou avisar porque há homens que depois reclamam. O que é?, ele, curioso. O último cliente me roubou a calcinha. Não quero a calcinha, quero você, decidiu. O garoto levava jeito. Tem aonde me levar?, indaguei. Tenho, não moro sozinho, mas você passa por minha namorada, o único problema é quanto aos cem. Cem, não, duzentos, fiz de conta que me assustei. É, desculpa, os duzentos, ele reparou. Não faz mal, falei, fechamos por cento e cinquenta. Não é que você não valha, afirmou pegando uma das minhas mãos, é que também não tenho cento e cinquenta. Ok, sorri, deixo por cem, mas só dessa vez, viu?

quarta-feira, outubro 02, 2013

Esperei então por ele

Seu Afonso, o senhor está me oferecendo duzentos reais. Aceito, mas promete não me pedir nada em troca? Trabalho para o senhor, tenho o meu salário, não é justo que me ofereça dinheiro a mais. Pessoas como eu sempre são necessitadas. Não tenho como negar. Se o senhor me oferece, aceito; mas, por favor, não me peça nada em troca.

Seu Afonso me olhou, sorriu e se retirou. Foi para o escritório terminar o que estava fazendo. Voltei à cozinha, pois faltava limpar o fogão.

De uns tempos para cá o patrão começou a me oferecer dinheiro. Contei a uma amiga, que me disse: “todos os homens são iguais, não demora e você vai ter de dar pra ele”.

Quando me ofereceu dinheiro pela primeira vez, dinheiro além do pagamento mensal, eu, surpresa, recusei.

Não preciso, seu Afonso, tenho o meu salário.

Passou uma semana e lá fui eu a ele:

Seu Afonso, já que o senhor ofereceu... Ouça bem, foi o senhor que ofereceu, ainda ressaltei.

Peguei as notas e guardei na bolsa.

No final do mês, quando me pagou o salário, tirei duas cédulas de cem e tentei lhe devolver. Ele deu as costas e se retirou. Fiquei com as mãos abanando. Que eu ficasse com as notas, falou, era um presentinho.

No mês que se seguiu, seu Afonso me deu um embrulho bem pequeno envolto em papel colorido. Abri. Era uma caixinha com um cordão de ouro dentro, a corrente fininha, muito bonita.

Seu Afonso, não é meu aniversário, não é justo que o senhor me dê um presente, isso deve ter sido caro. Não, seu Afonso, não faço desfeita, é que não é justo, o senhor já me paga o salário.

Eu tentava explicar. Mas ele, de novo, deu as costas e se foi.

Duas semanas depois, fui a ele. Estava sem dinheiro nenhum, precisava de um adiantamento.

Seu, Afonso, por favor, o senhor pode me emprestar cinquenta reais? Emprestado, viu?

Ele foi ao quarto, pegou o dinheiro e voltou com a nota de cinquenta.

No final do mês, assim que me pagou, deixei o dinheiro sobre a mesa da sala. Escrevi um bilhete. Agradecia e devolvia os cinquenta reais.

Mas no dia seguinte, logo que entrei, vi a mesma nota sobre a bancada da cozinha. Estava escrito: você esqueceu ontem sobre a mesa.

Tentei falar com ele, mas ele não quis conversa sobre isso.

E assim passaram-se os meses. O patrão sempre me pagando a mais, sempre a me presentear. Uma blusa, um colar, um brinquedo para o meu filho, um dinheiro para inteirar no aluguel.

Você precisa de um aumento, falou no mês passado. Vou aumentar o seu salário.

E passou a me dar vinte por cento a mais.

Mas, seu Afonso, o senhor paga o maior salário de empregada doméstica.

Ele apenas sorriu.

Um mês depois ganhei dois presentes. Um perfume e uma joia; desta vez, uma pulseira.

Seu Afonso, por favor, isso deve ter custado muito.

Ele deu de ombros.

Já não conto sobre os presentes a amiga alguma. Elas colocam olho grande. E dizem que pediriam mais, que se aproveitariam. Mas seu Afonso é legal, me dá tudo isso e não pede nada em troca.

Seu Afonso, falei hoje, o senhor nunca me pediu nada em troca, sorri. O senhor é uma pessoa legal, tem caráter. Se fosse outro...

Não aguentei, fui chegando perto dele. Estava caindo de madura.

Posso beijar o senhor? Ninguém jamais fez tanto por mim.

Ele deixou que eu o beijasse.

Seu Afonso, continuei depois que afastei meus lábios do seu rosto, o senhor espera um instantinho? Quero lhe fazer uma surpresa.

Ele arregalou os olhos, acho que entendeu.

Fui ao quarto de serviço e tirei toda a roupa. Voltei nua. Nua e silenciosa. Caminhei até a sala. Parei a meio metro de onde estava sentado. Mas continuei em pé, as pernas juntas, as mãos cruzadas um pouco abaixo do umbigo. Sorri, um sorriso meio de vergonha e meio de mulher sem-vergonha.

Seu Afonso, suspirei.

Ele olhou o meu corpo.  Sorriu, um sorriso de satisfação.

Esperei então por ele.

sexta-feira, setembro 20, 2013

Você gosta de deixar as mulheres nuas

Depois da meia-noite acontecem coisas estranhas. Paquerei um cara durante a semana inteira. Acabei que consegui sair com ele. Conhece o Ilhote Sul? É um restaurante chique, não preciso dizer. Ele me convidou e ofereceu: peça o que quiser. Aproveitei. Bebi vinho italiano, tão caro. Então começou ele uma conversa estranha. Disse que conheceu um ex-namorado meu. Revelou até mesmo alguns segredos meus. Não sei como descobriu que andei nua de madrugada pela cidade. Ele narrava com um arrepio. Não sei se foi o vinho italiano ou se já viera com a intenção. Você vai embora nua?, perguntou. Quando eu era mais nova, duas ou três vezes fui, mas agora, acho que não, respondi. Mas você é tão bonita, acrescentou. Mais bonita vestida, retruquei. Melhor nua, não?, pediu. Estou gorda, não gosto de tirar a roupa depois de comer tanto, já pensou se me flagram com essa barriguinha?, adverti. Até que é sensual?, contra-argumentou. Sensual?, eu quis saber. A sua barriguinha, emendou. Pensei que você fosse dizer que não tenho barriga alguma, debochei. Bem, amor, na verdade afirmo que: você não tem barriga não, mas, continuando, sei que gosta de um presentinho, aliás, toda mulher gosta; que tal uma pulseirinha de ouro?, sugeriu. De ouro?, redargui. Isso, de ouro, assegurou. Mas hoje é tão difícil, quase ninguém dá ouro de presente, acrescentei. Dou e provo, falou e mostrou a pulseira. Era realmente de ouro. Então?, recolocou a pergunta. O que você quer mesmo em troca?, fiz de conta que esquecia. Quero você nua, seus olhos miraram os meus e depois voltaram-se para o mar. Só isso?, minha intenção era ganhar tempo. Claro que não, quero um beijo e alguma coisa a mais, assegurou.

Deixáramos o carro no estacionamento do restaurante. Caminhamos pelo calçamento. Depois do Tropical acaba a praia. Venha comigo, convidou. Andamos cem metros, longe da luz da rua, apenas as estrelas, a lua e, defronte à praia, a vegetação. Quer ainda a pulseira?, perguntou. Acho que sim, duvidei. Por que a incerteza? Não acredita que seja verdadeira?, indagou. Acredito, firmei a voz.

Daí namoramos. Uma hora e um quarto.

No final, falou: não basta só o namoro. Sei disso, retruquei, você gosta de deixar as mulheres nuas. Isso mesmo, comentou, ainda bem que entre nós há o consenso. Me passa a pulseirinha, pedi. Obedeceu. Obedeci também. Sei que você gosta de histórias, falei. Se gosto?, tanto mais no dia seguinte, e na voz de quem deixou a saia nas minhas mãos, sua voz acompanhava a brisa suave da madrugada. Um beijo, vá, desejei. E lá foi ele; e fiquei eu. Apenas a pulseira, a sandália plataforma e a bolsa mínima. Cabe nela um maço de cigarros; cabe junto o celular, caso o maço não esteja cheio.

Portanto, você, que me lê agora, será que pode me ajudar? Traz uma camiseta. Recompenso. Sabe o Tropical? Caminhe na areia da praia, faz de conta que vai pra lagoa. É só. Quando estiver próximo, eu chamo. Mas lembre, não demore. Quero a pulseira, apenas. Não quero complicação.

quinta-feira, maio 02, 2013

Mastiga com vontade

– Por quanto tempo ainda você vai me deixar nesse canto da sala, apenas de calcinha? Já posei para as fotos que você pediu.

– Lena, por que as mulheres sempre escondem os seios quando nuas diante de um homem?

– Ora, porque é onde sentem mais vexo.

– Já deixo você se vestir, mas ouve primeiro esta história, ok? É de alguém que também posou aqui neste mesmo apartamento. Ela escreveu um livro de contos, e dedicou um deles a mim.

– A você?

– A mim, Lena, verdade. Ouve. Faz das minhas palavras as delas.


Ele deixou um bombom ao meu lado e disse: “quando estiveres prestes a gozar, me avisa, vou colocar o bombom na tua boca, mastiga então com vontade e engole tudo. Quero-te gozando também com o chocolate.”

Apenas ao escutar o pedido já fiquei arrepiada. Mas vamos do começo.

Cheguei à região dos Jardins às quatro da tarde. Não demorei a encontrar o endereço. Ao bater, veio atender uma espécie de governanta uniformizada.

“Pois não?”

Falei a senha.

“Por favor”, abriu caminho e me mandou seguir. Atravessamos o corredor comprido. Chegamos ao pátio, havia um jardim bem no centro.

“Atravesse o jardim e entre por aquela porta”, apontou à outra extremidade.

Segui em frente. Não deixei de observar as flores, que estavam tão vívidas. Ao atingir a porta desejada, bati. Ela fez sinal para eu mover a maçaneta. Obedeci e entrei.

Na antessala havia um aviso: tire toda a roupa e a pendure no cabide. Olhei para o interior do cômodo. Meus olhos demoraram a se acostumar à meia luz. Passei a mão nos meus próprios seios. Mesmo antes de me despir já me senti nua. Avancei dois passos, mas parei e olhei de novo o cabide vazio dependurado numa espécie de apoio transversal. Novamente li o bilhete: “tire toda a roupa...”

Um tanto vexada, cumpri o que me era pedido. Mantive os sapatos e a bolsa dependurada ao ombro. Sabia que devia continuar em frente, meu dever era entrar e explorar todos os cômodos. Após descobrir um dos toaletes e o quarto de dormir, entrei numa espécie de escritório. Uma das paredes abrigava várias prateleiras com livros que subiam até o teto. Uma escada de três degraus estava ao lado, era para os livros que estavam mais acima. Quando me voltei, vi um enorme livro de arte sobre a mesa. Tomei-o nas mãos, sentei na poltrona e o abri. De repente, brilhou a luz de um flash.

“Fotos não estão no acordo”, falei sem tirar os olhos do livro.

Apareceu um homem vestido de terno. Sorriu, baixou a máquina.

“Você será recompensada muito além do que espera.”

“Será?” Disfarcei minha nudez com uma parte do livro, depois o abracei como um agasalho que me salvaria do frio.  Com o sorriso, teci um manto para disfarçar a ponta de vexo que a falta das roupas me provocava.

“Gosta de chocolate?”, ele soube contornar a situação.

“Na maioria das vezes, sim”, respondi sorridente.

“Sirva-se”, apontou o pote com bombons, “chocolates servem como agasalho”, observou meu corpo arrepiado.

“São tantos, acho que vou me esconder debaixo de um cobertor”, vagarosa, mastiguei dois. O homem me esperava.

“Uma boa ginástica também serve de aquecimento”, apontou outra porta e fez sinal para que o seguisse. Entramos numa espécie de mini academia.

Antes de entrar no cômodo, reparei a porta. Era toda trabalhada com esculturas em baixo relevo. Retratavam mulheres nuas nas mais diversas posições. Ao ver que eu admirava a obra de arte, perguntou:

“Será que você consegue imitá-las no exercício?”

Entrei sem nada responder. Sentei num aparelho que se usa para aumentar o volume muscular das pernas. Fiz os primeiros movimentos.

“Ótimo, não sabia que você é tão boa nisso.”

Depois de alguns minutos, subi na bicicleta.

“Sempre quis pedalar nua”, sorri na direção dele.

“Então você vai querer vir aqui muitas vezes.”

“Quem sabe”, envolvi-o de novo na minha simpatia enquanto aumentava a velocidade.

“Ai, acho que vou perder a cabeça”, falei em meio às acelerações. “Acho que hoje a perco de vez.”

“Espere um pouco,  ainda há algo mais excitante”, apontou-me outra sala.

“Estou tão bem aqui sobre a bicicleta...”

“Deixe-a para outra hora, controle-se e venha comigo.”

Antes de atravessar a próxima porta, tive de me banhar num pequeno chuveiro manual. Ele fez questão de direcionar a chuveirada de água morna na minha direção. Entramos numa sala de banho. No meio, havia o ofurô, a banheira japonesa.

“A água está escura”, observei.

“Chocolate com uma pitada de licor, você não aprecia?”

“Chocolate?”

“Isso. Você entra primeiro. Eu vou depois e me banho junto com você.”

Enquanto ele se despia, falei de um ex-namorado.

“Ele deixou um bombom ao meu lado e disse: ‘quando estiveres prestes a gozar, me avisa. Vou colocar o bombom na tua boca, mastiga então com vontade e engole tudo. Quero-te gozando também com o chocolate.”

“Aqui faremos o mesmo, mas vamos tomar o chocolate todo, até deixar a banheira sequinha.”

“Jura?”, fiquei assustadíssima.

“Oh, se juro.”

Entramos. Em poucos segundos me tornei negrinha, a toca na cabeça me salvava os cabelos. Não tive de sorver todo o chocolate da banheira, pois morreria afogada. Mas os dois, bebemos boa parte. Depois lambemos um ao outro. E, no final, perdi a cabeça... Deixei que ele gozasse dentro de mim. Como não havia mais jeito, ainda mergulhei de boca no seu pênis, tudo misturado ao chocolate.


– E então, Lena, o que achaste?

– Não sei. Mas vou destapar os seios e estender os braços para aceitar um bombom de chocolate!

segunda-feira, outubro 15, 2012

Um caso a pensar

“Valdo, por favor, pare com essa brincadeira”.

“Que brincadeira, Valéria?”

“Não posso voltar nua pra Barra Mansa”.

É ótimo dormir com ele. Toda sexta. Ele tem lá suas taras, mas isso é normal nos homens. Valdo me quer nua o tempo todo. Sempre transamos duas ou três vezes na mesma noite. Pela manhã, corro de volta pra minha cidade.

Eu andava na Nossa Senhora de Copacabana. Era uma dessas sextas calorentas que antecipam o verão. Ia de calça justa e blusa curta, a roupa acentuando as minhas curvas. Pernas grossas, seios volumosos. De repente...

“Ei moça, vamos conversar”.

“Verdade?”, mostrei-lhe o rosto.

“Verdade verdadeira”, falou, “mas vamos antes beber alguma coisa”.

“Não sou de beber. Mas quero lhe dizer uma coisa, estou pra um programa, nem cobro tanto”.

“Não calculei que você fosse prostituta”.

“Prostituta?”

“Isso. Como posso chamar você?”

“Valéria”.

“Valéria, não gosto de prostitutas”.

“Quando você me tiver na cama, não falará assim”.

“As prostitutas trepam mecanicamente. Só pensam em acabar logo pra levar o dinheiro do cliente”.

“Se você pensa assim a meu respeito, tchau”.

Dois quarteirões à frente veio ele de novo. Só então reparei que ainda me seguia.

“Qual o preço?”

“Você não vai achar caro”.

“Quanto?”

“Duzentos”.

“Pode ser pela noite toda?”

“Pra quem diz que não gosta de prostitutas...”

“Sim ou não?”

“Não. Preciso voltar pra minha cidade”.

“E se eu dobrar a oferta?”

“É um caso a pensar”.

Acabei aceitando. Fomos ao apartamento dele.

Não costumo ir a apartamentos, frequento apenas os hotéis onde os funcionários me conhecem. Medida de segurança. Mas ele pareceu ser boa pessoa.

“Você é muito bonita. E muito gostosa”, disse assim que acabamos de transar pela primeira vez.

“Ainda me quer pelo resto da noite?”, pensei nos homens que me abandonam assim que gozam.

“Claro, ainda não acabamos”.

“Não?”, fingi surpresa.

Reparei que escondera minhas roupas. Mas nada falei. Transamos novamente. Depois caímos num sono gostoso.

De manhã, acordei ainda nua. Ele dormia ao meu lado. Andei um pouco pelo pequeno apartamento. Quando sentei novamente na cama, Valdo me agarrou pelas costas sem que eu esperasse. Trepamos de novo.

Eram nove da manhã quando falei: “gostei muito de você, mas não posso voltar pelada pra casa”.

Passamos a nos encontrar toda sexta, no mesmo lugar, à mesma hora. Bebemos, comemos e depois subimos ao apartamento.

“Acho que não vou mais cobrar, já somos namorados”, falei ontem.

"Nada disso, nada de namoro, você é minha contratada para toda sexta".

Vesti uma saia curtinha, só pra ele. Ele me trazia um presentinho: calcinha e sutiã.

"Quer que eu vista agora?", sorri mostrando as duas peças.

"Quem sabe", respondeu.

Depois da terceira transa, pediu: "veste o meu presentinho, veste; você vai ficar linda dentro dele”.

“Vou tomar um banho primeiro. Mas não posso voltar pra casa de calcinha e sutiã, Valdo!”

“Quem sabe”, fez cara de safadinho.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Noite de verão

Ouça, Marilda, um silêncio... Acho que consigo ouvir a brasa de meu cigarro a queimar.

Roberta, não é essa a questão. O silêncio é muito bom, mas tenho outra preocupação, são três e trinta da madrugada, e nós aqui sentadas, de pernas cruzadas, neste banco de jardim, esperando dois homens...

E o que há de mal nisso?

Não haveria nada de mal se não estivéssemos apenas de calcinha.

Você mesma não falou que toda mulher gosta de andar nua?

Gostamos de andar nuas, de nos exibir, Roberta, quanto a isso não há dúvida, mas vestindo roupa curta, de biquíni numa praia, numa piscina particular, ou mesmo nua dentro de casa, mas não num lugar público, e a esperar dois homens que não sabemos se virão...

Marilda, relaxe, eles sempre vêm; lembra os presentes que pedimos?

Roberta, não somos prostitutas!

Não, claro que não, ganhamos alguma coisa e também gozamos. As prostitutas não gozam.

Roberta, escuta, acho que vem um carro, e agora, o que faremos?

Nada, Marilda, não faremos absolutamente nada. Você sabe como se fica invisível, quietinha, viu.

Ah, passou, não nos viram.

Eles nunca nos veem, não têm sensibilidade para isso, tanto mais algo inesperado como duas mulheres nuas numa noite de verão.

Por que será que esses homens não têm uma ideia mais simples, como a de nos levar a um hotel? Por que desejam a gente nua correndo todo esse risco?

Marilda, há gosto para tudo, um deles falou que sua fantasia principal é a de ver duas mulheres sentadas nuas, de pernas cruzadas, as duas fumando, despreocupadas, como se a nudez fosse a coisa mais normal do mundo.

Sei, Roberta, eles falaram isso, mas podíamos ter ficado com nossas roupas por perto, dá-las nas mãos do garoto e vê-lo ir embora de bicicleta me fez ficar (e ainda estou) toda trêmula.

Marilda, tive uma ideia, na próxima vez, ao dizerem o local, vamos vir antes, trazer roupas reservas e escondê-las por perto.

Próxima vez, Roberta? O problema é agora, nem sei se vai haver uma próxima vez.

Marilda, acenda mais um cigarro, relaxe, tente encontrar prazer nessa situação, estou adorando.

Você está adorando porque tomou duas caipirinhas. Quero ver quando o efeito terminar, vai ficar mais preocupada do que eu. Roberta, ouça, agora parece barulho de moto.

Então, devem ser eles.

Roberta, não são eles, e nos viram, o que vamos fazer?

Quietinha, vamos pagar pra ver.

Pagar?

Ou receber...

Moças, Roberta e Marilda?, perguntou um deles, mantendo-se sobre a moto.

Eu, Roberta; ela, Marilda. Não reparem, ela está tremendo porque está com frio,

Venham com a gente, cada uma suba numa garupa.

Vamos, Marilda, é a nossa vez.

Roberta, aonde esses caras vão nos levar?

Para casa, amiga, eles sempre nos levam para casa.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Você vai adorar!

Estava na calçada, aguardava o táxi. Reparei uma moça com uma túnica frente única, parecia na verdade um microvestido. Mas dava para perceber que ela vestia short por baixo. Respirei aliviada. Já imaginou alguém de roupa tão curta sem o shortinho? Lembrei que eu já saíra com um vestido daquele comprimento. Tive uma vontade louca de estar naquela blusa, todos os homens a me olharem, a procurarem minhas pernas nuas.

O táxi parou. Entrei. O motorista, sempre discreto, já conhece meus trajetos. Jandira me havia ligado fazia trinta minutos e comunicado sobre o cliente que eu deveria atender naquela tarde.

Após rodar por toda a Presidente Vargas, o automóvel contornou a Candelária e parou no sinal com a Primeiro de Março. Alguns minutos a mais atravessamos o trecho da perimetral sobre a Praça 15. Dois ou três minutos depois eu desembarcava na Marechal Câmara, em frente ao hotel onde costumo atender a maioria dos meus clientes.

“Ei, moça”, um homem me surpreendeu quando quase já atingia a porta do hotel. Parei, automática. Mas não era quem estava agendado. Este me esperava na suíte 410.

“Ei, moça, você combina encontros pela Jandi, não?”

“Sim, mas você precisa ligar para ela, não fale comigo agora, por favor”, deixei o homem para trás e atravessei a porta.

Na suíte encontrei o cliente, como de costume.

Duas horas depois, tendo cumprido meu papel com esmero, saí do hotel, sozinha. O cliente descera um quarto de hora antes. Na calçada, porém, o mesmo homem que me abordara na chegada.

“Moça, por favor, qual o seu preço?"

“Já falei, os encontros precisam ser agendados através da Jandi, não falo sobre preços."

“Você tem um expediente, não? Que tal sair comigo por fora, pago o que eles pedem e você fica com as duas partes.”

A proposta era vantajosa, mas perigosa quando se trata de alguém desconhecido.

“Prefiro que você ligue para a Jandira, tenho o número, basta dizer que deseja ser meu cliente, ela marca pra daqui a pouquinho. Não diga que estou a seu lado.”

“Não quero nada com sua agenciadora, mas direto com você.”

Eram quartro da tarde, muitas pessoas transitavam pelo passeio, nós atrapalhávamos o caminho. Ameacei deixar o homem falando sozinho. Ao dar dois passos, ele me seguiu, fez um gesto de que ia me segurar pelo braço. Mas recuou.

“Quanto sua agenciadora pede? Quatrocentos, quinhentos?”

“Seiscentos.”

“Pago setecentos mais cem para o seu transporte de volta.”

Sua oferta me fez pensar. Setecentos não era coisa à toa. Rapidamente, falei – porque sabia que se demorasse desistiria: “temos de ir primeiro a um caixa eletrônico, você deve fazer o depósito na minha conta.”

“Ok, qual é o seu banco?”

Caminhamos até o caixa mais próximo. Havia poucas pessoas na fila, logo se deu a transferência de valores.

“Agora vamos”, me segurou por um dos braços. Entramos num táxi.

O homem fez o taxista atravessar a ponte em direção a Niterói.

“Por que tão longe?”, sussurrei, “não posso ficar com você por mais de duas horas, vão procurar por mim.”

“Ficamos o tempo que seus clientes costumam usar, não há problema.”

Descemos do táxi dentro de um motel, numa das praias de fora.

Estou acostumada a diversos tipos de homem, mas naquele momento tremi um pouco. Como através da agência nunca tive problemas, comecei a achar que agindo sozinha poderia ficar em maus lençóis, literalmente.

Logo que entramos na suíte, falou:

“Tire a roupa.”

“Mas assim, sem fantasia?”, suspirei sem graça.

“Claro que haverá fantasia.”

Tirou da pasta uma túnica exatamente igual à da moça que eu vira enquanto esperava o táxi.

“Vista”, ordenou, “mas sem nada por baixo”, viu?

Vesti a blusa.

“Suba na sua sandália alta e ande como se estivesse desfilando, você tem de fazer de tudo para que eu não note que você está sem calcinha.”

“Acho que vai ser impossível, sou muito alta e a sandália ainda me deixa maior, mas já que é a sua vontade...”

Me coloquei na posição e comecei o desfile. Reparei que ele recolheu minhas roupas, mas fingi nada ter visto. Andei de um lado a outro, passos de modelo, sorria sempre que passava por ele. Acabei gostando da brincadeira.

“Sabe a moça da propaganda, a que fica de calcinha e sutiã ao fazer um pedido ao marido? Sou eu”, sorri e dei mais uma voltinha.

“Acredito, mas acho que você não vai passar no teste”, sentenciou.

“Por quê?”, fiz que ia chorar, enquanto parava e inclinava o corpo para frente, na direção dele.

“Estou vendo cinema de graça.”

“De graça? Pois está saindo tão caro!", sorri e o beijei.

Dali para frente, fizemos amor. Foi tudo de bom. Tanto para mim quanto para ele. Havia muito não gozava com um cliente.

No final, pediu: “volta para casa apenas com a túnica que dei a você?”

“Curtinha, assim? Vou dar cineminha pra todo mundo.”

“Levo você de táxi.”

“Como vou saltar?”

“No seu prédio não há uma entrada de automóvel?”

“Há, sim, entro por ela quando faço compras.”

“Então? Pago mais cinqüenta.”

“Mas você devolve minha roupa? Eu a levo na bolsa.”

“Claro, por que iria querer seu vestidinho?”

“Sei lá, às vezes aparece cada um...”

“Posso fazer uma pergunta indiscreta? É mais uma fantasia”, sua voz soou baixa, humilde.

“Claro, pois faça.”

“Você já foi presa alguma vez?”

“Presa? Pela polícia?”

“Isso.”

“Não”, falei com ar de preocupação. Será que ele era da polícia e iria me prender? Para voltar ao clima anterior, acrescentei: “mas já houve um cliente que me deixou pelada na rua, de madrugada.”

“Como você fez?”

“Aí você já está querendo saber demais”, simpática, aproximei meu rosto ao seu.

“O que custa você contar?”

“Morro de vergonha. Mas vamos fazer o seguinte, você me dá o seu endereço eletrônico que eu mando por escrito.”

“Jura?”

“Juro, e eu tenho um estilo para escrever... Você vai adorar!”

quarta-feira, setembro 14, 2011

Os homens aqui não estão acostumados a isso

Eu estava deitada na grama, sobre uma imensa toalha. Tomava o sol suave de uma manhã de final de primavera. Ele se aproximou, o jardineiro, e se surpreendeu ao me encontrar nua. Será que jamais vira alguém bronzear-se em pele sobre o gramado de uma casa de campo? Desculpou-se e se foi, com a fisionomia séria, envergonhado. Minha nudez pareceu-lhe um ultraje. Meu amigo, ao longe, sorriu para mim, enquanto trabalhava numa tela, ao ar livre.

Sempre fui modelo para pintores, e não são poucos os que me convidam para ficar após o trabalho. Alguns até me pagam mais por isso, presentes é que não faltam.

Percebi que o jardineiro foi até o meu amigo e se desculpou.

“Não há problema algum”, respondeu, “é costume entre profissionais desse tipo permanecerem nuas.”

Sorri de longe e acenei.

“Se você quiser, pode conversar com ela, não vai ficar aborrecida, Marie gosta de fazer amigos.”

Mas o jardineiro se foi, com seus passos sempre conservadores.

“Essa gente não admite desinibição, nem entende o que é estar à vontade”, falei depois, enquanto ele se certificava se a tela saíra de acordo com o seu desejo.

“São pessoas que nasceram e viveram a vida toda aqui, não pensam como as parisienses.”

“Já imaginou, Michel, se ele me tivesse visto chegar com você, do jeito que chegamos ontem?”

“É, ainda bem que ele não permanece na casa à noite.”

“Na verdade, você não me quis apenas como modelo, não é mesmo?”

“Marie, você sabe o tanto que gosto de você.”

“Vamos fazer uma brincadeira ao anoitecer: fujo nua pelo povoado e você tem que me achar.”

“Prefiro que bebamos vinho numa mesa, junto ao jardim, é mais gostoso, comprei alguns queijos deliciosos.”

“Oh, amor, pensei que o seu queijo fosse eu, sua querida Marie.”

“Você é muito mais que isso, mas não desejo que alguns dos rapazes, desses que andam pelos sítios, surpreendam você nua.”

“Há rapazes por aqui?”

“Não se pode falar em homens que você levanta as antenas.”

“Nunca menti a você, Michel. Quando há quem me agrade, vou atrás imediatamente. E tem mais uma coisa: gosto de você, mas nosso compromisso é apenas comercial, sou uma de suas modelos.”

“Marie, caso você saia nua por esses caminhos, quem terá problemas serei eu.”

“Quem disse que sairei nua? Deixarei aos rapazes o fardo de tirar a minha roupa.”

“Rapazes?”

“Você foi quem falou que há mais de um.”

Virei-me, ainda nua e vi alguém vindo numa bicicleta. Acenei. O ciclista me retribuiu o cumprimento, mas não reparou a minha nudez, passou em alta velocidade. Michel riu.

“Vamos, amor, vista o agasalho, entremos um pouco”, pediu.

Depois de uma garrafa de vinho, namoramos. Michel me tomou nos braços, fez que eu cavalgasse sobre o seu pênis. Voltei-lhe as costas e pedi que me penetrasse a vagina, mas por trás, como os cães. Num outro momento, ele me levantou. Encostei-me à parede e, em vez de colocar os pés no chão, pousei-os sobre a parede em frente, com Michel entre as minhas pernas. Gozei aos gritos e com o maior prazer.

Enquanto descansávamos, comentei sobre minha estada num dos pontos do litoral do Rio de Janeiro, quando viajara no último verão à América do Sul.

Em Ilha Grande, conheci algumas moças que andavam quase nuas, mas quando tirei o top numa das praias elas logo pediram que eu o vestisse. Quis saber o motivo. Uma delas falou:

Os homens aqui não estão acostumados a isso, vão agarrar você.

Veja que engraçado. Naquele lugar, caso uma mulher ande nua é porque deseja ser agarrada.

Eu disse a ela:

Se eu quiser trepar com um dos homens daqui, eu mesma aviso.

Logo replicou:

Você pode avisar, ele vai gostar, mas não pode andar nua por aí, os homens não respeitam a mulher inteiramente nua.

Você não falou que trepou com um deles sobre um lençol, à beira mar, ontem à noite?

Trepei, mas isso é outra coisa ela respondeu.

Acho melhor ficar logo nua, em vez de usar shortinhos tão minúsculos e biquínis que não cobrem nada. Mas lá é diferente. Caso se use um biquininho, já se está vestida, e pronta para ser respeitada.

Lembro de uma festa que fui numa das noites, numa boate perto da praia. No final, arranjei um namorado e fui com ele me deitar na areia. Estava calor, como hoje aqui, deixei que tirasse toda a minha roupa. Depois a pediu de presente.

Uma lembrança, por favor falou.

Você vai se vestir de mulher? perguntei desconfiada.

Não, é que não quero esquecer a francesinha, quero sempre sentir o teu cheirinho.

Devolvi a ele:

Então cheire já, porque depois que gozo sou muito fedorenta.

O homem se pôs a rir. Mas no final da noite acabei atendendo o seu pedido.

Quando cheguei à pousada, outro escândalo:

Você voltou nua!

Ah, essa agora, não se pode satisfazer a vontade de um namorado nesta ilha? Como vocês chamam mesmo esse lugar? Oh, não precisa dizer, já lembrei: Ilha de Santa Cruz.

sexta-feira, julho 15, 2011

Boa sorte, garotas

Cora, você não está à vontade, não estou acostumada a vê-la assim .

Ah, Mara, você sabe, não tenho o hábito de praticar essas coisas.

O que tem de mais ficarmos nuas da cintura para cima? Somos tão bonitas. Vamos fazer uma surpresa, eles vão gostar. Basta que representemos: somos as mulheres mais vestidas do mundo. Olhe para a Cíntia, veja como é boa atriz, está perfeita no papel.

Não exagere, Mara, também não sou tanto assim.

Hoje você está perfeita, Cíntia, seu porte é de muita naturalidade.

Obrigada.

De nada. Cora, vou contar um episódio vivido por mim. Acho que vai fazer você se soltar.

Conta, então, de repente...

Lembra do Bruno? Aquele que mora em Botafogo.

Sim, lógico, lembro, ele é tão bonito.

Então. Uma vez fui à casa dele, estava calor. Por minha conta tirei a blusa e o sutiã. Ficamos conversando, bebendo e namorando que nem dei conta em que parte da casa tinha deixado as duas peças. De repente tocaram a campainha. Ele foi atender. Era um casal amigo. Sem lembrar que eu estava nua da cintura para cima, mandou-os entrar. E eu? Esqueci também da minha própria nudez. Quando chegaram à sala e o Bruno fez as apresentações, a moça soltou um gritinho e tapou a boca com uma das mãos. Só então nos demos conta da situação.

E você?

Fiz de conta que não era comigo. Peguei meu copo e bebi mais um pouco. Pedi depois licença e fui à cozinha. Voltei com mais dois copos para os recém chegados. Tudo na maior seriedade. Eles sentaram e continuamos a conversa. Lembro que fiquei nua até depois de irem embora. E não se tocou mais no assunto.

Mara, acho que para eu ficar à vontade, depende de outra coisa.

Cora, o que depender de mim, faço, não há problema algum.

Você me deixa ficar com o Agenor?

Ah, sei que você é apaixonada por ele. Se conseguir, pode ficar. Acho que ele também vai gostar de você.

Que bom! Veja como fiquei feliz, repare, a partir de agora sou a mulher mais à vontade do mundo.

É, quando você fala no Agenor, fica soltinha.

E eu Mara, vou ficar com quem?

Cíntia, não se preocupe, vem um rapaz lindo, chama-se Adalberto, você vai adorar.

Jura?

Juro.

Ouviram? Estão chegando, tocaram o interfone.

Ouvimos, Cíntia, atende você, aperte o três que o portão abrirá.

Ai, meu Deus, será que o Agenor vai me querer?

Quanto a isso, não se preocupe, Cora. Mas lembre-se: estamos vestidíssimas! E não trema, viu? Esses bicos dos seios precisam transmitir tranquilidade.

Bicos dos seios?

Isso mesmo, Cora, sente-se e respire fundo. Não vá estragar tudo.

Ok, está bom assim?

Está razoável. Boa sorte, garotas.

quinta-feira, maio 19, 2011

Você é muito profissional

Estava no píer, em C. Frio, era uma manhã de domingo, ainda cedo. O vento, suave, soprava em direção ao continente. Sobre meu corpo, apenas um vestido leve, soltinho, nem dormira na noite anterior, fora a uma festa, despedira-me dos amigos e decidira ver o amanhecer. O sol matinal, principalmente o seu aparecimento gradativo no horizonte, sempre me deu muita energia. Seus raios, os riscos vermelhos e alaranjados no céu, que pouco a pouco vão empurrando a escuridão para oeste, recuperam-me de qualquer noite em claro ou mal dormida. Daí, que, naquela manhã, não fui para casa. Como a brisa da madrugada ainda perdurava, mantinha-me abraçada ao meu próprio tronco, com as mãos cruzadas sobre os seios. Até então não percebera presença de pessoa alguma. Mas ouvi um ligeiro ruído; depois, alguns passos. Vi um homem. Não sei o que pensou, mas meu vestido curto, leve, eu sozinha, ainda o restinho da madrugada, tudo isso acho que contribuiu para que, pouco a pouco, ele se aproximasse. Nada falou, mas senti que ansiava por trocar algumas palavras. Os seres humanos são assim, não vivem sem uma troca, sobretudo se lhes é vantajosa. Embora mulher e sempre na posição de desvantagem, fui a primeira a dizer oi, ou bom dia, não lembro ao certo. Na verdade, uma atmosfera de alegria me contagiava, todo aquele espetáculo que se anunciava era promissor, não conseguiria permanecer calada ao lado de outra pessoa diante de um domingo que pouco a pouco se azulava.

“Bom dia”, correspondeu e sorriu.

“Bonito, não?”

“Muito bonito.”

“Você está hospedada na casa da Vera, não?”

“Não, não sou eu, deve ser outra pessoa, não estou hospedada com ninguém, vim de uma festa, tenho uma pequena casa em Arraial.”

“Desculpe, confundi você.”

“Não tem problema, estou acostumada com essas confusões, e olha que às vezes são maneiras de continuar a conversa”, ri em seguida, fazendo que ele se descontraísse.

“Não, não, minha intenção não foi essa.”

“E se fosse, que mal teria? As pessoas gostam de se aproximar uma das outras e as mulheres gostam de ser admiradas.”

“Assim você me rouba todas as armas.”

“E quem disse que não sei sobre as armas dos homens?”

Riu de novo.

“Você é bonita, e ainda sozinha a essa hora é um convite e tanto.”

“Você quer me convidar para quê? Tenho a alternativa de recusar, não é mesmo?”

“Claro. Mas já que você falou em convite, sou fotógrafo, adoraria fotografar você.”

“Só aceito se for profissionalmente, sou modelo.”

“Ótimo, então podemos fazer um acordo.”

O sol já aparecia, o dia de domingo se consolidava, respirei fundo, olhei para o mar e deixei que o homem falasse.

“Você tem um meio de contato?”

“Tenho, pena que não trouxe um cartão. Mas você anota meu celular, também meu e-mail.”

Ele anotou meu nome e tudo que era preciso.

“Flávia, telefono para você, não vai demorar.”

“Estou acostumada a trabalhar para revistas de moda, tudo muito profissional, você me entende, não? Nunca tive problema algum. Geralmente me pegam no aeroporto, me levam para o estúdio, fazem as fotos, me pagam, e me levam de volta. Temos apenas que fazer um pequeno contrato.”

“Ok, combinado.”

“Uma perguntinha só”, insisti, “de quantas pessoas é a sua equipe?”

“No máximo três pessoas, e há também uma mulher. Não se preocupe.”

“Não há mal algum. Mesmo que todos sejam homens, poso do mesmo jeito.”

Despediu-se. Disse que tinha um compromisso duas horas depois e que precisava descansar. Antes de ir, pediu desculpas:

“Me chamo Arnaldo, não me apresentei antes”, estendeu-me a mão. Mas acabei aproximando meu rosto para beijá-lo. Ele não se surpreendeu.

Três ou quatro dias depois, telefonou. Eu já estava no Rio. A ligação era de São Paulo, falou sobre local, dia e hora, a seguir me enviou por e-mail todos os detalhes, o pequeno contrato, a quantidade de fotos, para que fim eram etc.

Na sexta da mesma semana, embarquei no Santos Dumont.

Uma moça, segurando um cartaz com o meu nome e sobrenome, esperava-me à porta do desembarque, no aeroporto de Congonhas. Ajudou-me a carregar a bagagem, na verdade uma sacola de mão e a bolsa. Entramos no táxi que já nos aguardava, atravessamos toda a cidade. Encontrei Arnaldo apenas no estúdio, no décimo oitavo andar de um prédio comercial, acho que próximo ao centro, não sei precisar ao certo.

“Que prazer em ter você conosco.” Beijou-me

“O prazer também é meu”, falei tentando me tornar íntima do ambiente que nos circundava.

Serviu-me café e uns biscoitos, perguntou se a viagem fora boa. Perguntas de praxe. Depois me mostrou o estúdio e falou sobre o tipo de fotos que desejava.

Trabalhava para uma grife. Mostrou-me as roupas que eu teria de vestir, apresentou-me ao maquiador.

Depois de tudo preparado, começamos a fotografar. Sempre tive muita experiência. Fiz centenas de fotos com as mais diversas roupas: vestidos, saias, blusas e, no final, biquínis. Em algumas eu não devia aparecer totalmente vestida. Às vezes apenas de blusa, outras tantas só de saia e assim sucessivamente.

Paramos às 13h00 para o almoço. Retornamos às 14h30min e continuamos a fotografar.

Quando terminamos, deviam ser mais ou menos 17h. Estava exausta.

“Você quer permanecer aqui em São Paulo, ou volta hoje mesmo para o Rio?”

“Prefiro voltar”, respondi feliz pela possibilidade.

“Para nós seria um prazer levá-la para jantar, apresentá-la à noite paulistana.”

“Fica para outra vez, estou muito cansada, e amanhã tenho mais um compromisso.”

Despedimo-nos. A equipe era composta por quatro pessoas, uma a mais do que me falara no começo, mas acho que isso aconteceu porque se esqueceu de incluir o maquiador, ou a moça que me foi apanhar no aeroporto.

Foi ela ainda que me levou de volta. Peguei o vôo das 19h45min.

Na verdade, aquela primeira conversa no píer, em Cabo Frio, me rendeu um bom dinheiro. Já pensou se eu fosse uma mulher austera, que não conversasse com homem algum? Estaria agora no prejuízo.

Dias depois, enquanto aguardava Rita – uma amiga – vestir-se para sairmos, contei-lhe o episódio.

“E você, não aproveitou?”, sua curiosidade um dia ainda haverá de matá-la.

“Acha que não aproveitei? Já não falei quanto me pagaram?”

“Mas você não quis passear com eles, não namorou ninguém. Um homem tão fino, tão bonito, tão...

“Profissional”, completei.

“O que há de mal nisso? Ouço falar de modelos e mesmo de atrizes que namoram fotógrafos, diretores, outros atores e até mesmo gente da própria equipe.”

“Mas você não acha que isso prejudica?”

“Não, basta saber separar as coisas.”

“Separar como, Rita? Se transo com alguém, fica tudo misturado. E, além disso, há homens em muitos outros lugares.”

“Não sei disso, Flávia. Não tenho ninguém faz tempo. Acho que se me surge uma oportunidade como essa, não deixo passar.”

“Você fala assim porque nunca trabalhou como modelo. Quando se é desse ramo, não é assim que as coisas funcionam.”

“Tive um namorado que me fotografou nua, podia ter-me tornado modelo. As fotos ficaram lindas.”

“Onde estão essas fotos agora?”

“Ficaram com ele.”

“E não preocupa você o que ele possa fazer com elas?”

“Não acho que ele vá fazer mau uso delas.”

“Quero ver a sua reação caso ele coloque as fotos num desses sites pornô...”

“Ah, sabe, às vezes dou uma olhadinha na Internet pra ver se me encontro.”

“Você gosta de correr perigo, não? Sente prazer nisso... Saiba uma coisa, quem é modelo profissional não posa de graça nem gosta de correr riscos.”

“Ah, sei que sou doidinha, não faz mal posar nua e de graça se o homem é bonito.”

“Então se você tivesse conhecido o fotógrafo, em Cabo Frio, imagino o resultado.”

“Acho que agarrava o homem ali mesmo no píer. E se o vestido fosse como o seu, certamente seria levado pelo vento...”

“Rita, sei que existe gente pra tudo, mas você é muito louca, não sei como posso ser sua amiga.”

“Poxa, Flávia, você é muito profissional. Vai dizer que nunca deu uma fugidinha com um cara desses. Conta, vai, já deu sim, acho que até já me contou...”

Acabamos as duas rindo, enquanto saíamos para um restaurante no Leblon.