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quarta-feira, outubro 21, 2026

Namorados, hotéis e a imaginação

Ele morava num hotel enquanto trabalhava na cidade e, numa noite ou noutra, eu ia ao seu encontro. A cidade abrigava muitos trabalhadores durante a semana; era um polo de produção de petróleo, com gente de várias especialidades vinda das mais diversas localidades. O bairro à beira-mar, com bares e restaurantes muito frequentados à noite, era o ponto para muitos. O hotel dele não ficava ali, mas no centro, um tipo de casa de três andares adaptada para a hospedagem. Na recepção, dava plantão à noite uma mulher; eu a conhecia, morava no norte da cidade; alguém que, na maioria das vezes, não ficava na recepção, mas adormecia num sofá recuado, sem que alguém que transitasse ali ou chegasse à entrada a descobrisse.

Como conheci o homem com quem tinha tal relação? No trabalho. A gente, nascida na cidade, também foi beneficiada com o súbito progresso local; os mais graduados vinham de São Paulo, Rio, Brasília, e até do exterior; a cidade, porém, oferecia vaga de trabalho tanto para os de cultura superior como para as pessoas de cultura mediana e mesmo para quem não tinha estudo e trabalhava no apoio. Eu era uma mulher que terminara o ensino médio e cursara durante dois anos um tipo de especialização em monitoramento de circuitos.

Em geral, às terças ou quartas-feiras, dependia do expediente dele, saía eu de casa às oito horas e caminhava até o hotel, que ficava a sete quadras. Não era uma linha reta. Eu deixava a minha rua, pegava uma via principal que vinha do ponto sul, caminhava trezentos metros, atravessava a linha férrea, entrava por uma viela que levava à rodoviária.

Essa estava sempre movimentada, com gente aguardando os ônibus ou desembarcando. Era alegre o local; certa vez achei que, caso alguém sofresse de solidão ou algum tipo de tristeza, seria bom ir até a rodoviária, era um tipo de distração. Gente com pequenas malas, mochilas, ou aqueles que ficavam nos bancos e aguardavam sua hora de partir davam ao local um tipo de vigor que não existia nas vizinhanças. Dois ou três bares e um pequeno restaurante funcionavam quase direto, vendendo sanduíches, salgados, cervejas e refrigerantes.

Às vezes, naquele caminho que se assemelhava a um jogo em que era preciso entrar aqui e ali para encontrar o namorado, eu tinha vontade de parar no retângulo e ficar olhando os ônibus que entravam e saíam das plataformas, com o vibrar elegante dos motores, típicos de veículos que vão para longe. Certa vez, vi de madrugada o ônibus que fazia uma linha vinda da Bahia; ele me fez sonhar.

Passada a rodoviária, eu seguia uma das ruas laterais que me levava à praça principal; na lateral direita, outra rua, ainda menor, me conduzia ao hotel, onde o homem me esperava.

A funcionária, como em geral não estava no seu posto, me obrigava a esperar. Quando ela mesma surgia ou qualquer outra pessoa ali hospedada desejava também entrar ou sair, a porta se abria.

Não eram comuns encontros como o meu, mas o namorado era conhecido na casa, e as coisas lhe eram facilitadas. Ao entrar, cumprimentava a mulher, uma morena que deixava o sofá e me disfarçava um sorriso. No começo, achei o gesto maldoso, mas, com o tempo, me acostumei e passei a achar que ela tinha um rosto afetuoso, tolerante com as pessoas enamoradas. Ela me dizia o número do quarto em que ele estava e eu seguia pelos corredores sempre silenciosos, um labirinto de várias portas fechadas guardando vidas e segredos. Ele não ficava sempre no mesmo quarto, porque não passava o final de semana na cidade; quando voltava na segunda-feira, às vezes lhe davam outro aposento. Havia vezes em que lhe abrigavam no segundo andar.

Tinha eu um jeito peculiar de tocar à porta: três batidas leves seguidas de outras três. Logo ele abria. Eu entrava no ambiente escuro; às vezes, a televisão, com o reflexo azulado, refletia sua luz nas paredes do quarto. O homem, corpulento, beijava-me os lábios, de modo rápido; eu entrava e me sentava ou à beira da cama ou sobre uma cadeira disponível, que em geral tinha lugar próxima à janela. O quarto era simples, com um armário de duas portas preso na parede, a cama que não chegava a ser de casal, embora fosse larga, um quadro com uma paisagem marítima e a TV dependurada no lado correspondente ao local que ficavam os pés de quem estivesse deitado na cama compunham o ambiente acolhedor. No teto, havia um ventilador para os dias de verão.

Às vezes, quando fazia calor, eu pedia licença para ir ao banheiro. Tirava a roupa e tomava uma ducha. Saía enrolada na toalha e voltava para a beira da cama, esperando que ele me abraçasse. Embora ele não tivesse lugar fixo na empresa – era um tipo de funcionário que circulava entre as várias unidades, todas situadas em bairros diferentes da cidade, onde fazia algum tipo de fiscalização ou manutenção –, eu já o tinha encontrado durante o expediente. Na verdade, eu não tinha ideia se alguém na empresa sabia do nosso relacionamento, mas isso para mim não era importante.

Ele falava pouco e se preocupava em me acariciar ou deitar comigo logo que eu estava em sua cama. Era um namorado másculo e carinhoso, diferente dos homens com quem eu já me relacionara na cidade, de modos provincianos ou de atitudes que me desagradavam profundamente, como trejeitos de dominadores. Um desses namorados locais certa vez não me queria na praia com o biquíni que eu costumava usar. O namoro não durou muito. Aquele homem ali, a me escalar na cama do quarto de hotel, ou a me fazer quase flutuar sobre ele, não pensava em outras coisas a não ser no ato de sentir o calor de meu corpo e me penetrar de maneira vigorosa.

Eu permanecia com ele até as onze da noite. Às vezes, ele me pedia para dormir; vez ou outra eu concordava, mas precisava acordar mais cedo para ir até em casa trocar de roupa para ir depois trabalhar. Na maioria das noites, ficava em seus braços durante duas ou três horas, depois partia, fazendo o caminho de volta pelas mesmas ruas do começo da noite. À pergunta dele se não era arriscado uma mulher caminhar sozinha àquela hora, eu devolvia com a seguinte expressão: “conheço todo mundo na cidade.”

 

Na semana anterior, dormi um pouco mais após o amor; ao acordar, passava de meia-noite. Ele dormia. Um sono, até certo ponto, pesado. Levantei-me, joguei o vestido sobre o corpo e parti em silêncio, sem acordá-lo. Na saída, a recepcionista roncava no sofá de sempre. Apertei o botão que libera a porta. Temi que ela acordasse, mas seu sono era pesado, mais do que o do homem que eu deixava dormindo no quarto. Saí em silêncio e fechei a porta, evitando o ranger de metais.

Enquanto voltava, em alguns pontos da praça avistei mulheres sozinhas ou em duplas; vestiam roupas curtas, tentavam atrair os homens que, a pé ou de automóvel, frequentavam o perímetro. Como não estava acostumada a andar pelo caminho durante a madrugada, a presença das prostitutas me surpreendeu, pois as conhecia apenas de ouvir falar.

Mais adiante, não eram mulheres que formavam um grupo, mas travestis; pude descobrir devido à voz de uma delas, falava alto e de modo afetado; além dessa, havia outra que chamava a atenção, pois estava inteiramente nua. Descobri nela o corpo perfeito de uma mulher alta, bem delineada, mas com o pênis (era mediano, não estava ereto e exibia-o todo depilado, o que lhe conferia feminilidade); às vezes, ela o cobria; em outras, soltava-o, provocando o riso das amigas. Ela, no entanto, era a que mais se divertia. Como poderia voltar para casa daquele jeito, sem indícios de qualquer tipo roupas à sua volta? E de onde vinham, tanto as prostitutas quanto as travestis? Eu não fazia ideia. Não mudei meu trajeto; passei por ambos os grupos. Ladeando as travestis, a nua abriu-se num sorriso e gesto amorosos, não sei se para mim ou para as amigas.

Quando cruzei a rodoviária, tive vontade de me apressar e não olhar para a plataforma, mas não sei o que me fez virar o rosto naquela direção. Acabei descobrindo, em um dos bancos, uma vizinha da rua onde moro. Trajava um vestido rosa, tinha as pernas cruzadas daquele modo que, de perspectiva, quem olha deseja ver o fundo da calcinha da mulher; havia exagero em seus gestos e ela conversava com um homem que talvez esperasse a hora da partida. A vizinha não tinha boa fama. Algumas pessoas afirmavam que era amante de um homem na principal empresa petroleira e que, vez ou outra, era vista na praia durante a noite após o fechamento do Ilhote, principal restaurante da orla marítima, agarrada a um homem. Circulavam outras fofocas sobre ela, mas as atribuo à mente fantasista das pessoas.

Segui até a linha férrea, atravessei, dobrei à esquerda e caminhei pela via principal; após trezentos metros, dobrei à direita e entrei na minha rua. Quando faltavam duas casas para a minha, reparei o homem idoso a olhar pela janela. Esperava pela passagem da mulher por quem diz ser apaixonado para depois se deitar e dormir tranquilo.

Tirei a chave do bolso e abri o portão da casa, uma construção de dois andares dividida em três apartamentos. O meu é o do térreo, onde, além da casa, tenho o quintal.

Entrei no corpo da casa, tirei o vestido, deixando-o sobre a cadeira, fui ao banheiro, lavei as mãos e me atirei na cama. Estavam vivas em minha mente as pessoas vistas pelo caminho; ao começar a dormir, achei que a travesti nua me acenava.

 

Voltando ao quarto de hotel e ao meu homem, adorei que ele ainda tivesse energia para uma segunda trepada. Envolveu-me, deitou-me e apreciou-me por trás. Fez, como sempre, elogios ao meu corpo. Depois, pediu que eu relaxasse, que realmente relaxasse. Falou um segredo no meu ouvido. Então, molhei-me. Daqui em diante, é melhor deixar voar a imaginação.

terça-feira, março 17, 2026

Luna

Ces petits amis sont extravagants, où as-tu déjà vu une invitation pareille ? Il dit que je suis courageuse, que les défis, c’est mon truc, que je ne les laisse jamais passer, alors… qu’en dis-tu ? Chéri, ça fait des mois qu’on est ensemble, et faire l’amour entre ces murs nus, c’est tellement bon ! J’admirais les murs nus. Et lui ? Lui, qui me veut nue tout le temps. Il faut la bonne ambiance, disais-je toujours en entrant. Pas du tout, l’ambiance commence quand tu me tends la robe pour que je la range, affirme-t-il toujours, les bras tendus. Ta maison a plein de portes, où est-ce que je vais la retrouver après, toi et ce jeu… Je continue en enlevant mes bas blancs, mes baskets déjà à côté de moi ; enfin, chaque petit ami a sa petite manie, je me suis même exprimée et je me suis résignée. Chaque petit ami ? veut-il savoir ; en as-tu eu d’autres avec de telles coutumes ? Et combien ! Je ne sais pas si je dis la vérité, je répète : j’ai perdu le compte ! Il sourit, je lui tends la robe, je suis seulement en culotte, je lui fais comprendre que je vais entrer, le salon est à trois pas. L'homme poursuit, une main toujours tendue. Hum, je comprends, dis-je, je la lui donne, ou je me donne à lui, je ne sais plus. Serai-je une condamnée suivant son bourreau ou une reine trompant les gardes, « une prostituée », crieront-ils, ils ne découvriront pas la femme qui trahit le roi ? Je ne sais pas. Il disparaît dans l'ombre, entre le salon et une chambre, revient, allume une lampe de chevet : un jus, des fruits rouges, une tarte ! J'adore te regarder manger, mon petit ami savoure les mouvements de ma mâchoire. Et si je dis que je n'ai pas faim, je m'aventurerai dehors. Tu ne me feras pas un tel affront, dit-il avec élégance. Nous nous asseyons, côte à côte. Ma jambe droite sur ma gauche. Je n'ai pas de poils ! Sous un cendrier, trois billets de deux cents euros, neufs, le papier presque vierge. Serait-ce mon cadeau ? Emmènes-tu toutes tes copines nues dans ta voiture ?, demande-t-il. Ne devrais-je pas plutôt poser la question ? Je réponds, les lèvres peut-être plus rouges. Peu importe, les voix n'ont pas d'importance, ce qui compte, c'est ce que tu fais, dit-il. Je souris, décroise les jambes ; un vagin bien soigné excite les hommes ; avec lui, l'effet est le même, mais il essaie de ne rien laisser paraître. Tu dois être très admiré, les femmes aiment les maisons comme la tienne, dis-je, probablement sans réfléchir. Crois-tu ? Beaucoup aiment l'aventure, les voyages, les cadeaux… , ajoute-t-il. Je regarde une fois de plus les billets sous le cendrier. Luna me revient en mémoire, nue sur la route nationale. Comment cela vous est-il arrivé, madame ? Il m'a laissé huit cents euros en poche, dit-elle. Et comment vous en êtes-vous sortie ?, je demande, curieuse. Je ne m'en suis pas sortie ! Deux mots, la réponse. Et la suite ? J'ai caché les billets dans ma chatte ! J'avais peur de me faire voler, continua-t-elle. Ce n'est pas ce que j'ai demandé ; comment êtes-vous rentrée chez vous dans cet état ? Je ne suis pas rentrée, je l'ai déjà dit, conclut-elle. Mais vous êtes là aujourd'hui, vous n'êtes pas morte, vous vous en êtes tirée, c'était à mon tour de vous le dire. N'en soyez pas si sûre ; ce qui m'a terrifiée, c'est le gynécologue, quelques jours plus tard ; j'avais peur d'attraper une infection ; quand je lui ai dit, il s'est excité, dit-elle. Lui, qui ? Le gynécologue ; avez-vous déjà vu un gynécologue s'exciter à la vue d'un vagin ? Elle rit, et je ris aussi. Je comprenais comment elle avait réussi à s'en tirer ! Hé, allons, me dit l'homme en me tirant de ma rêverie. Je me lève. Les billets, dit-il en désignant du doigt, tu peux les prendre. Il ouvre la porte.

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Les magiciennes

Je m'appelle Katy, mon amie s'appelle Rita, et notre nouvelle amie est Eva. Nous avons décidé de répéter un spectacle pour une boîte de nuit de notre ville. Nous avons de belles silhouettes, nous sommes jeunes et nous savons danser.

Trois semaines plus tard, notre spectacle validé, nous sommes allées le présenter.

Nous avons commencé par une chorégraphie de cancan : jupes courtes et strings en dessous. La musique disco est intense, des projecteurs nous inondent de lumière argentée, rouge et bleue. Le deuxième numéro est un slow, nous jouons des couples passionnés qui se relaient, puisque nous sommes trois. Nos minirobes laissent nos fesses à découvert ! Le troisième numéro est un strip-tease. Deux d'entre nous déshabillent progressivement Eva. Le public est en délire quand nous sommes prêtes à lui voler sa culotte. Et maintenant, la surprise, que je ne vous ai pas encore dite : nous avons des corps parfaits, très féminins, mais… nous ne sommes pas des femmes ! Quand, d'un côté, Rita et moi avons défait les rubans du string d'Eva, son pénis est apparu pendant deux secondes, complètement libre, illuminé par une lumière argentée ! Les projecteurs s'éteignirent, et le public hurla et applaudit. Cinq secondes plus tard, une musique rythmée commença, et des lumières colorées, dans un mouvement simultané, traversèrent la scène. Nous sommes revenues sur scène, vêtues de courts sarongs, la peau nue. Nous avons dansé, répétant des gestes harmonieux, jambes et bras synchronisés. Puis, un faisceau lumineux a illuminé trois tabourets bas devant nous, chacun portant une coupe de champagne. Eva fut la première à s'approcher ; par des gestes sensuels, elle continua à danser au rythme de la musique. Le public était en délire, imaginant déjà la suite. Elle se rapprocha de plus en plus, soulevant le bas de son sarong sans dévoiler son pénis. Un faisceau de lumière argentée restait sur ses cuisses. Puis, en une fraction de seconde, un jet de sperme a frappé l'intérieur du verre. La lumière persiste trois secondes, une petite tache floue apparaît sur le bord du sarong, mais cela fait partie du spectacle. D'un geste répété, elle saisit le verre et le porte à sa bouche. La lumière s'éteint trois secondes, le public crie et applaudit ; puis, le projecteur illumine les jambes de Rita, qui retient son souffle dans une danse de gestes érotiques. C'est son tour. Le spectacle se répète. Rita, après avoir éjaculé, a étalé une tache sur le sol, au-delà du centre du verre. Elle s'abaisse, fait un mouvement de langue, va-t-elle lécher le sperme ? Mais elle se relève et, toujours avec le verre, touche ses lèvres. Les lumières s'éteignent, applaudissements et huées, cris. Trois secondes de plus dans le noir. Le projecteur projette une lumière argentée sur mes cuisses. Je vais tenter l'exploit. Mais il y a un petit problème. Est-ce réel ? Je répète la danse, les gestes, je m'approche du tabouret, enveloppé par une musique forte et des lumières vives ; quand je soulève le bas de ma robe, pas d'éjaculation. Que faire ? La musique s'arrête brusquement, une lumière pâle m'enveloppe. « Les gars », dis-je, ma voix résonnant dans un micro invisible, le public retient son souffle pendant deux secondes. « Les gars, désolé, il a dû y avoir un problème, vous comprenez ? Je vais réessayer », dis-je tout en tenant innocemment le bas de ma robe. La musique reprend, les lumières aussi, je me place au bord de la salle, j'offre mes lèvres et je commence à remuer les hanches. « Quelqu'un veut m'embrasser ? » Un homme imposant s'approche et effleure le bout de mes lèvres des siennes, un baiser rapide. Je retourne derrière le tabouret, la musique m'encourage. Je m'approche du verre de champagne, le projecteur argenté éclaire mes cuisses. Je soulève le bas de ma robe jusqu'à mon nombril. La lumière argentée illumine mon pénis. Je jouis, mollement, dans le verre. La lumière s'élargit et illumine mon visage. Je caresse mes lèvres du bout de la langue, d'un mouvement circulaire. Les lumières s'éteignent trois secondes plus tard, et nous réapparaissons, tous les trois, enveloppés dans des serviettes blanches. Le public crie et applaudit ; nous nous inclinons pour le remercier. Quelques minutes de plus de cris et d'applaudissements. Les lumières s'éteignent. Nous courons vers les loges.

En sortant, nous devons toujours échapper au harcèlement. L'autre jour, un homme a voulu savoir : « Quel est le secret pour avoir un orgasme à la fin du spectacle, sans même se toucher ? » « Chéri, ai-je répondu poliment, avez-vous déjà vu un magicien révéler où il cache les lapins qu'il sort de son chapeau ? »

segunda-feira, janeiro 19, 2026

As-tu déjà lu Murakami ?

Quand je me suis réveillée, il était assis au bord du lit, en me regardant. J'ai esquissé un sourire, un léger sourire, celui de la satisfaction d'avoir trouvé refuge. Il m'a alors demandé :

« Comment es-tu entrée ? »

« Je ne sais pas trop, mais je crois que la porte d'entrée n'était pas verrouillée. »

« Où sont tes vêtements ? » a-t-il voulu savoir.

Certes, j'étais nue ! Mais je n'en ai pas eu honte.

« Je ne sais pas, je crois que je les ai perdus », ai-je répondu avec le même sourire innocent.

« Tu te réveilles dans mon lit, tu ne sais pas comment tu es entrée, tu as perdu tes vêtements et tu dis ne te souvenir de rien… Comment t'es-tu retrouvée à te promener nue en pleine nuit ? »

J'ai fait une grimace, complètement perdue. J'avais déjà perdu mes vêtements une fois, mais je ne lui avais rien dit.

« Viens t'allonger près de moi », ai-je proposé, « on essaiera de comprendre. »

J'ai tendu la main vers lui. Quand il s'est approché, je lui ai enlevé son short et son caleçon, puis je l'ai attiré contre moi. Au début, nous étions enlacés ; puis, je me suis légèrement tournée vers la droite ; il a compris mon intention et s'est tourné avec moi. Une fois sur lui, j'ai passé ma langue sur ses lèvres, puis je suis descendue le long de son cou, de sa poitrine, de son ventre, jusqu'à atteindre son pénis, qui était très dur ; je l'ai pris entièrement dans ma bouche et j'ai senti le bout dans ma gorge. Après une minute ou deux, je suis montée sur lui et j'ai commencé à le chevaucher, par de doux mouvements de va-et-vient. Il m'a pénétrée profondément. Nous avons rapidement joui tous les deux, presque en même temps. Nous nous sommes ensuite allongés côte à côte, nous embrassant et nous caressant. Il a demandé :

« As-tu déjà lu Murakami ? »

« Qui ? », je n'avais pas compris.

« Murakami, un écrivain japonais. »

« Non, je ne l'ai jamais lu, pourquoi ? »

« Il a écrit un roman avec une scène comme celle que nous vivons. »

« La femme est-elle arrivée nue chez lui, elle aussi ? » demandai-je, curieuse.

« Oui, elle ne se souvient pas non plus comment elle est arrivée là ni où elle a perdu ses vêtements. »

« Et ensuite ? » demandai-je, les yeux écarquillés.

« Pas grand-chose, en fait. Elle trouve une solution : il y avait beaucoup de vêtements de femme dans la maison, sa femme l'avait quitté récemment sans rien emporter. »

« Elle a eu plus de chance que moi ! » Mon exclamation amusée provoqua la surprise.

« Peut-être tu n’as pas tort» dit-il, amusé lui aussi.

quinta-feira, outubro 09, 2025

Fios da rede

Meu namorado disse "as mulheres adoram andar nuas". Não retruquei, apenas soletrei "ah, tá". Na nossa saída seguinte, apenas a canga envolvia-me o corpo. Ele, eufórico, guiou o automóvel a uma praia deserta. Estacionou. Saltamos e descemos à areia, deitamos e transamos boa parte da noite. Vivemos momentos ardentes, maravilhosos. Na hora de partirmos, porém, reparei que minha canga havia desaparecido. Ele, mostrando-se preocupado, disse que ia procurar algo para eu vestir.

A madrugada se desdobrava em tons intensos, e eu me encontrava sentada na areia, perdida em pensamentos, aguardando o retorno do homem que desaparecera na escuridão da noite em busca de algo para me cobrir. O som hipnotizante das ondas quebrando na praia era a única companhia para a ansiedade que crescia dentro de mim a cada minuto que passava. 

A luz suave do amanhecer começou a banhar o céu, colorindo-o com tons de rosa e laranja, mas ele não retornava. Uma sensação de desamparo começou a se instalar, e a incerteza sobre seu paradeiro obscurecia meus pensamentos. Que ideia minha, como essa canga foi desaparecer? E o que vou fazer caso o homem não volte? Devia ter refletido antes de me vestir sumariamente e aceitado vir para essa praia com ele. Caramba, se um homem qualquer me encontra nesse estado, vai fazer uma festa. Na certa, vou ter de abrir as pernas. Encontrar uma mulher nua numa praia, vai achar que ganhou um prêmio. Caso apareça uma mulher, pode ser que me socorra com um pano qualquer, mas uma vez fui chamada de vagabunda por uma delas, vai me deixar aqui pelada e ir embora. Ai, a polícia, não! Eu, presa, na delegacia, sentada numa cadeira desconfortável, sem ter como me cobrir, homens passando de um lado a outro, as pessoas a me olharem de rabo de olho. Será que tenho direito a um telefonema, como nos filmes? Não vou poder alegar que fui assaltada, ninguém vai acreditar.

Com o sol prestes a nascer, tomei uma decisão. Ergui-me da areia, consciente de minha nudez, e caminhei ao longo da praia em busca de ajuda. A paisagem ganhava vida com os primeiros raios de sol; apesar de vulnerável, senti-me determinada.

Avistei ao longe uma cabana de pescadores e, com cautela, me aproximei. Um golpe de vento acertou-me o corpo. Arrepiei-me, segurei meus cabelos (era a única coisa que eu podia segurar naquele momento),queria manter apresentável. O pescador idoso que ali estava e consertava sua rede não se se surpreendeu: "você não é a primeira que aparece nua aqui." Ouviu minha história com compreensão; por fim disse: "vista aquela túnica que está ali no canto. Vesti-a com gratidão, sentindo o alívio misturar-se com a vergonha. Completou: "pertence à minha mulher, ela usa quando vai embora depois do banho de mar, nem sei porque ficou na cabana..." E se ela desse falta da tal roupa?, pensei, mas deixei a solução para o homem. Ele indicou o caminho de volta à cidade, e eu agradeci, ainda perplexa com a experiência vivida.

O sol já estava alto quando alcancei uma estrada, e, com a dignidade recém-descoberta, consegui uma carona de volta para casa.

Apesar da peculiaridade do episódio na praia deserta, eu devia ter aprendido uma lição valiosa. Mas não foi o que aconteceu. Depois de tirar a túnica e tomar um banho, deitei-me nua na cama. Senti então um forte desejo de trepar com alguém ainda uma vez.

Dias depois, outra solução veio-me à cabeça. Uma solução que me deixou a mil por hora. Vocês sabem, depois que o perigo passa, a gente tem muitas ideias geniais! Quem sabe, no lugar de encontrar um pescador idoso, eu deparasse com outro, mas jovem e vigoroso, que me segurasse pelo braço, me deitasse sobre o chão arenoso de sua cabana e me comesse ainda uma vez. Depois...  Bem, depois me mandaria andar, peladinha, e que tomasse cuidado para, ao sair, não embaralhar os fios de sua rede.

sexta-feira, abril 11, 2025

Esconderijo

Eu andava pela areia; no final da praia, subindo em direção à vegetação existente na junção das duas bordas de mar, havia um refúgio. Não sei se era conhecido de alguém naquele tempo. Era preciso descer uns degraus. Talvez o local fora utilizado como depósito de algum quiosque. Com a derrubada deles e a tentativa de reforma da orla, o pequeno espaço quase subterrâneo tenha sido deixado de lado. Era difícil percebê-lo. Acabei descobrindo-o porque sou curiosa e vivo buscando novas experiências.

Ao entrar no refúgio, procurei olhar para todos os lados, temia algum bicho. O que encontrei, no entanto, foi muita areia, trazida certamente pelo vento. Quando se entrava no pequeno compartimento, talvez de nove metros quadrados, não era possível que alguém do lado de fora percebesse pessoa alguma escondida. Após explorar o local, de me certificar de que não havia rastro humano ali dentro, saí e me prometi voltar, só que à noite.

Numa noite de quinta-feira, voltei à orla da praia. Deixei o carro distante, perto de um restaurante, e caminhei em meio às sombras até a parte da areia que dava acesso ao esconderijo; vamos nomeá-lo assim. Quando pisei na areia, tirei a sandália de meio salto que calçava, era mais confortável sentir a temperatura fria do chão. Ouvi o marulhar e me aproximei da linha da água. Meu vestido ia um pouquinho acima dos joelhos; portanto, não o molharia. Deixei uma pequena onda tocar-me, acariciar-me os pés. A temperatura baixa da água me provocou um tremor que, não sei o motivo, deixou-me em certa euforia. Tive vontade de mergulhar, de nadar escondida pela noite. Meu coração se acelerou. Virei-me para a parte de cima da praia, onde ficava a vegetação acima do refúgio. Então, lembrei-me, vou entrar agora no tal esconderijo. Caminhei, olhei em todas as direções, será que alguém me vira, será que me seguia? Não vi alma.

Ao chegar ao local recém-descoberto, desci os três degraus, abaixei-me e o iluminei com a luz do meu celular. Continuava vazio, sem dar mostra de que alguém o frequentara desde a última vez que estivera ali. Checado o piso, as paredes, entrei. Minha altura era suficiente para que não batesse a cabeça no teto. Pousei a bolsa num dos cantos, após verificar se o local não estava sujo. Na verdade, como sempre, a areia era muita, mas branquinha, como à beira da água. Que loucura! Pensei, se aparecesse algum homem, não teria como me safar. Certamente me agarraria, diria que a curiosidade mata e ele não seria culpado, mas eu e minha teimosia. Quis correr dali, mas algo mais forte me reteve: o gosto pela aventura. Tive, então, a ideia que sempre me tentou: tomar banho de mar nua. Como não era possível durante o dia, à noite, e com aquele refúgio para guardar os meus pertences, a boa situação se apresentava. Mas estava escuro, eu podia tirar a roupa à beira da água, guardar o vestido e tudo mais dentro da bolsa e mergulhar, deixando-a na areia, mais próxima a mim do que naquele refúgio, de onde teria de caminhar nua mais ou menos trinta ou quarenta metros.

Não passou muito tempo, decidi pelo refúgio. Apesar da distância, era mais protegido. A bolsa sobre a areia poderia chamar atenção, brilhar sob alguma lanterna, algum farol de automóvel que descesse a pequena rua. Tirei a roupa, inclusive a calcinha, guardei tudo com muito cuidado. E a chave do automóvel, e o celular? Queria tê-los comigo para alguma emergência. Como, porém, entraria na água com o celular. Impossível. A chave poderia fazê-la de pulseira, mas com telefone não dava.

Olhei um lado, olhei outro e desci a areia. Não corri. Desnecessário. Andei, um desfile pausado. Ainda me voltei à vegetação superior, ninguém. Entrei na água, cuidei de não fazer barulho. Nadei. O mar não estava bravio, e aproveitava minha experiência de natação. Permaneci dentro d'água durante uma boa meia hora. Quando comecei a sentir muito frio, decidi sair. Adotei o mesmo procedimento.

Com muita calma, olhei todos os lados e caminhei, outro desfile, até o refúgio. Entrei, suspirei, quis deixar que as gotas d'água secassem sobre meu corpo. Não tinha pente ou escova para o cabelo. Procurei a bolsa. Estava no mesmo lugar. Ainda bem... O que me aconteceria se não a encontrasse? Nem pensar. Naquele momento, uma corrente de ar fresco penetrou o refúgio, provocando-me arrepios. Que vontade de abraçar um homem grande, largo, eu ainda nua. Mas onde um homem assim? Que eu abandonasse a ideia, às vezes os homens são o contrário do que desejamos. O corpo, no entanto, solta faíscas, o desejo por sexo é sempre muito presente. Poderia me deitar no esconderijo, mover minhas energias interiores, lembrar situações excitantes e atingir o prazer... Mas o chão estava cheio de areia; eu, ainda úmida das águas do mar. Levantei a bolsa com uma das mãos, saí da gruta e corri para o carro. Não olhei para ver se havia viva alma por perto.

Tive sorte, ninguém envolto nas sombras da noite por aquelas bandas. Algumas estrelas cintilavam para mim quando olhei o céu, piscavam seus olhinhos incentivando à aventura maior. Cheguei-me junto à porta do automóvel, pressionei a chave. Ouvi o ruído de destravamento das trancas, soou alto para as horas. Já imaginaram, apenas o bramir do mar, o ligeiro zunir do vento e a expansão de um som que revela a presença humana, o receio a ladrões, a pretensão de se resguardar a propriedade? Esperei. Ninguém ouviu o alarme; pelo menos, era o que a tranquilidade indicava. Entrei, sentei-me no banco do motorista, pousei a bolsa sobre o banco ao lado, afastei um pouco mais o meu banco, queria ter dois metros, estiquei as pernas, o volante distante do meu ventre. Relaxei.

Daí em diante, não sei contar o que aconteceu. Adormeci? Cochilei? Tive um sonho tão feliz? Acho que sim. Um homem a me namorar, sobre meu corpo. O calor dos nossos corpos não se dissipou tão facilmente depois que despertei. Mas, onde, ele, o homem?

Meu Deus, quatro e quinze da madrugada. Cadê a chave do carro? Viro daqui, dali. Será que a perdi? Não! Não estaria eu sobre o banco do motorista. Olho a bolsa, levanto-a. A chave largara-se no estofado do banco do carona, entre o assento e o encosto. Seguro-a, as mãos ainda trêmulas, enfio na ignição, aciono o motor. Engato a marcha avante e dou a partida. O veículo me leva para casa.

Já dirigi nua outras vezes.

terça-feira, maio 14, 2024

Que susto!

Outro dia saí com umas amigas, fomos a um restaurante na orla de M. Algumas são casadas, outras têm seus namorados. Durante boa parte do jantar, ficaram a falar dos relacionamentos. Houve uma que disse estar arrependida, que se sentia melhor quando estava sozinha. Outra afirmou que, caso o namorado fosse bom de cama, era tudo muito bom, mas que não precisavam morar juntos. Uma das casadas falou que um homem ou uma mulher não são os mesmos durante a vida inteira, as pessoas estão sempre mudando e isso torna o relacionamento melhor. Quando se dirigiram a mim, respondi que estava feliz do jeito como vivo e que, naquele momento, não sentia necessidade de ter namorado ou algum tipo de relacionamento

Ao chegar em casa, tirei a roupa e me deitei no canapé que tenho numa das salas. Refleti sobre o encontro, sobre o que as amigas conversaram e, como bebera duas ou três taças de espumante, estava um pouco serelepe, isto é, excitada. Então, comecei a praticar o exercício ensinado certa vez por um amigo, uma espécie de prática que ele apelida de ioga do amor. Esta permite que a pessoa fique satisfeita coma própria companhia, que namore a si própria e se torne muito feliz com tal ação. Não se trata de masturbação, porque o que se pratica é soltar todos os músculos, até a gente se sentir totalmente relaxada; depois, pode-se mover, caso este seja o desejo, as energias pelas regiões que podemos chamar de sexuais. Com algum exercício, chega-se ao orgasmo. Dormi, então, satisfeita, agradecida por me bastar a mim mesma, sem necessidade de ter um homem ao meu lado. Jamais contei isso a nenhuma amiga, porque tenho certeza de que vão rir e tudo vai se transformar em fofoca.

Num dia desses, apareceu um antigo admirador. Convidou-me para sair. O que se tem para fazer em M além de se ir a um restaurante na orla marítima? Nada. Aliás, tem sim, dormir com o namorado na casa dele, na minha ou num hotel. Acabamos bebendo demais e ele me levou para um hotel. De início, achei muito bom, porque me tirava da rotina. Prometeu que ficaríamos até o amanhecer e que tomaríamos café da manhã no mesmo hotel, porque ele não trabalhava no dia seguinte.

Assim foi feito. Fui com ele. Tomamos banho juntos. Lembrei que, certa vez, ele me falara, numa brincadeira, queria me ensaboar por inteira. Naquela noite, acabei permitindo, mas não quis que me penetrasse debaixo do chuveiro, porque a transa acabaria logo. Após terminarmos o banho, fomos para cama, namoramos então com toda a intensidade. Para mim, que estou acostumada com gozos sutis, originários de práticas de relaxamento e imaginação, o contato pele a pele foi muito forte, proporcionando-me um prazer que eu não sentia há tempos. Além disso, ele ejaculou lá dentro, três jatos fortes e quentes. Que loucura.

Depois de tudo acabado, ele foi embora. Uns dias depois voltei a sair com as amigas. Elas continuaram com o mesmo assunto: namorados, homens bonitos, produtos caros, presentes ganhos por muitas delas. A casada disse que o marido lhe comprou um objeto lindo para a cozinha. Fiquei a imaginar como um objeto doméstico poderia lhe proporcionar tanto prazer. Acho que as outras pensaram o mesmo, mas se calaram.

Quando cheguei em casa naquela noite, como havia bebido as três taças de espumante, deitei-me nua novamente no canapé e comecei a fazer os exercícios, queria transar comigo mesma, praticar a ioga do amor. Fiz tudo certo, como sempre, mas apenas beirei o orgasmo. Acho que isso acontecia porque na hora principal me vinha à mente o amante de há poucos dias, o banho que ele me deu, o sabão que passou sobre meu corpo e depois a fricção do seu pênis dentro da minha vagina. Não era possível, caso eu tivesse ficado apenas nos meus exercícios já teria gozado e estaria muito satisfeita. O contato carnal com o homem me fizera perder a sensibilidade. E agora, como faria dali pra frente para namorar comigo mesma?

Depois de repousar durante alguns minutos, voltei ao movimento das energias. Consegui, então, mover meu clitóris, uma, duas, três vezes; de novo, uma, duas, três vezes. O momento do prazer máximo se aproximava. Movi então as duas coxas de leve. Depois, relaxei o corpo novamente e voltei às energias. Veio-me ao pensamento a ousadia de um antigo namorado. O que ele fizera para me provocar tamanho gozo? Tenho vergonha de dizer agora. Mas, ao pensar naquele momento, o prazer foi crescendo, crescendo, até que... beirei de novo ao gozo, mas não consegui chegar à explosão a que estou acostumada. Será que, daqui em diante para chegar ao orgasmo terei de agir como minhas amigas, arranjar namorado, um relacionamento ocasional ou mesmo me casar? A ameaça me soou como se eu fosse uma fada despida dos seus poderes.

Demorei três semanas praticando os exercícios, fazendo direitinho tudo que aprendi na ioga do amor. Enfim, na última vez... Vamos ao que aconteceu: comecei a sentir meu clitóris se mover sem que eu me esforçasse; a seguir, passei a sentir uma quentura intensa na região do baixo ventre. Pensei no tal namorado com sua ousadia que não consegui contar até aqui. Então, explodi!

Graças, que bom! Eu que pensava, tão temerosa, não mais conseguir namorar comigo mesma, não mais sentir o prazer sozinha. De agora em diante, vou me preservar, tenho de manter a sensibilidade, nada melhor do que esse gozo.

Será? E os três jatos fortes e quentes? Não sei, acho que, com minha varinha, vou contar estrelas...

quarta-feira, agosto 24, 2022

Presença de espírito

Naquela noite eu estava de namorado novo, saindo de um restaurante onde comemos e bebemos bem. Já na rua, ele me perguntou onde eu ainda desejava passear. Meu telefone vibrou, o homem percebeu. Nesses momentos, não é bom deixar o telefone à vista, mas eu estava num tamanho enlevo, que acabei não prestando atenção. Pode atender, ele disse. Não, claro que não vou atender; além disso, estamos na era das mensagens, não se telefona diretamente a ninguém nos tempos atuais, contrapus. Mas deve ser um admirador especial, para ligar a esta hora. Não, nada disso, eu argumentava tentando fazê-lo esquecer meu celular, você ligaria para alguém às onze da noite?, perguntei. Quem sabe, quando se está apaixonado, as horas são meras abstrações, sentenciou. Não atendi. Ao chegar ao apartamento do namorado, nos poucos segundos em que fiquei sozinha, vi que havia o nome de quem fizera a ligação, um ex-namorado. Quero dizer, não era tão ex assim, porque só saíramos duas vezes. Como eu não atendera, deixara a seguinte mensagem: vamos tomar café da manhã? Dizia a hora e local do encontro, para o dia seguinte. Ainda bem que o novo namorado nada sabia sobre isso. Eu iria já apagar a mensagem, quando ele apareceu. Fiz de conta que olhava um vídeo de uma amiga, quis mesmo lhe mostrar. Veja que engraçado, falei. Os homens são expertos, ele sabia que não era nada disso.

O homem que me convidava para o café da manhã era casado. Eu não me aborrecia por isso. Nas duas vezes em que saí com ele, passeáramos pela manhã. Na segunda vez, me levou para cama na hora do café da manhã, um hotel em Botafogo. Eu vestia biquíni de praia, uma camiseta e bermudinha de lycra. Tomamos café no hotel. Comemos tudo que veio na bandeja, depois nos entregamos ao amor.

Mas na tal noite, com o novo namorado, não queria estragar o prazer da primeira vez. O que fazer? Ou melhor, como desfazer a tal situação? De que você mais gosta?, perguntei. De uma namorada de olhos castanhos, de pele bronzeada e... Posso completar?, ele, tímido. Sim, complete, eu disse solícita. De peitos de fora. Ah, deixei escapar a interjeição e sorri, mas assim tão de repente. É como gosto, você perguntou, estou sendo sincero. Dei as costas, tirei a blusa, soltei o sutiã, larguei-os sobre o sofá lateral e me voltei ao namorado. Pensei que a história do telefonema estava esquecida, porém, na quentura do sexo, ele solta já sei, você é casada!, e ele está procurando onde a mulher pode estar numa hora dessas. Eu, casada?, repliquei, esqueça isso, vamos namorar. Tive uma namorada como você, adorava andar nua ao meu lado pra lá e pra cá, depois descobri que era casada, uma confusão e tanto. Venha, por favor, fiz seu pênis escorregar mais uma vez para dentro de mim, nada de histórias de outras namoradas nem de maridos. Se sou casada, prometo que você pode me deixar pelada na porta de casa. A seguir, beijei-o na boca e não mais permiti que falasse.

Esses namorados têm muita presença de espírito.

quarta-feira, agosto 17, 2022

Dois probleminhas

Bati à porta dele. A princípio, parecia não haver ninguém no apartamento. Eu entrara às escondidas, a portaria estava destravada e não havia funcionário do prédio na guarita de segurança. O elevador estava no andar térreo, o que me facilitou as coisas. Que desconcerto, se me descobrem, vão achar que sou louca.

Alguém pareceu chegar à porta, quem está aí? O que eu iria responder? Marilene, lembra de mim? O homem do outro lado silenciou, devia estar organizando as ideias. Havia-se passado dois meses. Marilene?, que Marilene? A do Pecado, você deve lembrar, do Ilhote Sul e da vinda para cá às quatro da manhã, e tem mais uma coisa, não consegui terminar. Como conseguiu entrar, insistiu? Pela portaria, fui lógica. Ele deve ter movido o rosto, num pequeno sorriso, mas eu não pude ver. O prédio tinha câmeras, dois empregados de serviço, e eu me apresentava ali sem ter deixado rastros, sem  ter chamado a atenção, era natural a desconfiança. Recue dois passos, pediu. Recuei. Após alguns segundos, ouvi a chave girando. Ele apareceu na fresta da porta. Antes que falasse alguma coisa, pedi você deixa eu ir ao banheiro, é urgente. Afastou a porta, corri sala adentro descobrindo por mim mesma o caminho do toalete.

Depois de alguns minutos, ao voltar à sala e me sentar suave e já tranquila no estofado junto à janela, reparei seus olhos pregados no meu corpo. Foi a minha vez de sorrir. Está surpreso? Levou alguns segundos para retomar o diálogo, ele gostava de dominar a conversa, tentava disfarçar a surpresa por causa da minha sorte e esperteza. Podia ter sido presa, exclamou com discrição. Presa?, repeti, por quê?, tentava ser natural, lembra do dia em que saímos do restaurante?, você foi bem mais ousado. Ele sorriu pela primeira vez, tínhamos bebido demais, foi normal a minha atitude, rebateu. Dei de ombros, o importante era o momento presente, esperei por ele, queria que continuasse. Até onde ele iria, o que desejaria?, já que não me esperava no momento nem naquela situação. Você estava com problemas intestinais e veio me procurar, voltou ao assunto inicial. Não apenas intestinais, cheguei a dizer. Acho que os intestinais você já resolveu, agora quanto ao outro... Eram sete da manhã, dia claro, talvez ele tivesse algum compromisso, talvez um trabalho. Quando decidi pelo seu prédio, achei que poderia ainda estar dormindo. Pensando em tudo isso, continuava a olhá-lo como se esperasse uma decisão. Você deu sorte, completou, estou de boa maré, abri a porta pra você, deixei que se aliviasse, mas não quero você a me procurar, aquela noite já foi suficiente, não sou homem de compromisso nem de apenas uma mulher, meu erro foi revelar a você o meu endereço; agora, vou até o quarto, você sabe o que tem a fazer. Desapareceu no corredor que levava a um dos quartos. Olhei o encosto de uma cadeira e vi uma camisa de homem, de mangas compridas.

No térreo, depois que cumprimentei o funcionário da portaria, continuei a dobrar as mangas da camisa masculina, que caía larga no meu corpo. O porteiro deve ter pensado que eu, certamente, ia à praia.

quarta-feira, agosto 10, 2022

Temos companhia

Minha avó saía com todos os homens que conhecia, tinha 57 anos, era magra, bem cuidada, tinha facilidade de arranjar namorados. Soube de tudo quando vi o celular dela se iluminar. Tomava banho e deixou o telefone sobre a mesa da sala. Você vai mandar ou não a foto de teu bumbum?, a mensagem que li. Peguei o telefone e procurei outras mensagens do mesmo homem. Que safada, ela provocava, dizia que iria pensar, que ele não era fiel a ela. Isso foi em outros tempos, ele rebatia, tua bunda sempre fui muito bonita, continuava a mensagem. Coloquei o celular no mesmo local e fingi que fazia outra coisa quando minha avó saiu do banheiro.

Nos dias que se seguiram, consegui olhar de novo seu celular, li outras mensagens, de outros homens, pelo menos uns cinco diferentes. Todos queriam fotos, diziam que ela era gostosa. Um lembrou uma vez que transou com ela numa praia em M, depois da meia-noite, que sensação, jámais senti algo igual. Ele parecia vidrado. Ela respondeu quem sabe a gente vai lá de novo.

Passaram-se alguns dias e achei que aquilo tudo era apenas conversa de zap, apenas para passar o tempo. Um dia, porém, encontrei minha avó no Ilhote Sul. Eu estava com duas amigas da minha idade, dezenove, vinte anos, todas da faculdade. Como o restaurante estava cheio, ela não me reparou. Minha avó estava acompanhada de um homem jovem, que podia ser meu namorado! Fiz de conta que não a conhecia. Pensei segui-la, mas não daria certo. O que fazer?

No dia seguinte, descobri no celular dela quem era o tal homem. Ela o chamava de meu amor, ele a apelidara de gostosinha. Havia um dia e endereço onde iriam se encontrar de novo. Mas, naquele mesmo dia, encontrei outra mensagem, de outro homem. Ela respondia que sim, que sairia com ele dois dias depois.

Eu não sentia necessidade de sexo, chegava a conversar sobre isso com algumas amigas. Elas diziam que era assim mesmo, toda garota que se inicia na vida sexual, no começo não sente prazer. Comecei a achar que minha avó era o exemplo disso, cada vez que ficava com mais idade o prazer era maior. Será que com o passar dos anos a vontade de trepar aumenta, ou será que minha avó é uma safada de primeira linha? Cheguei a perguntar a algumas pessoas sobre sexo. Elas diziam você está tão interessada nisso agora, o que está acontecendo? Eu tinha que desconversar. Eu tivera apenas dois namorados, naquele momento estava sozinha, transara mesmo apenas com um, e não tinha sentido muito prazer.

Algumas semanas depois, deixei de lado o telefone dela. Eu arranjara um namoradinho. Ele começou a me levar para passear nos mais diversos lugares. Como era mais velho do que eu quase dez anos, já tinha a vida estabilizada.

Uma noite comemos muito e paramos o automóvel diante de um hotel na praia do pecado. Entramos e alugamos um apartamento por boa parte da noite. Quando saímos, já quase pela manhã, resolvemos descer até a praia. Era um local que não dava para chegar pela orla, foi preciso caminhar por uma rua interna, cercada de vegetação alta de ambos os lados. O carro não conseguia atravessar. Nossa intenção era sentar na areia e apreciar o amanhecer.

Quando nos aproximamos do final da praia, meu namoradinho disse silêncio, acho que ouvi alguma coisa. Nos agachamos e ficamos observando. Uma mulher inteiramente nua estava deitada sobre um uma canga e um homem acariciava suas costas.

Temos companhia, vamos mais adiante.

Não, eu disse, quero ver se conheço a pessoa. 

Para que fui falar tal besteira. A mulher se levantou e caminhou para a beira d’água, nua como viera ao mundo. Pela estatura e pelo corte de cabelo, pude reparar que era a minha avó. Ela estava tão bonita, combinava com o lusco-fusco do amanhecer que se anunciava, era capaz de irradiar uma bondade que apenas eu podia perceber. Naquele momento, quis ser igual a ela. Cheguei a prometer que faria tudo para seguir seus passos na vida, descobrir o prazer que ela sentia em cada gesto, o êxtase que a natureza irradiava do corpo dela. Todo o preconceito que eu tinha contra ela desaparecera como num toque de mágica.

Nada falei ao namorado, ele conhecia a minha avó, sabia que a mulher ali à beira d'água era ela. Teve a elegância de nada comentar.

Como estava nua, ficou. O homem a seu lado a acariciava.

Afastamo-nos sem sermos percebidos. Eu também ficaria nua, mas em outro lugar.

Dali em diante, minha vida seria outra.

quarta-feira, março 23, 2022

Essas mulheres mentem que só

Uma amiga contou uma história interessante. Há um homem que gosta dela, disposto a convidá-la aos melhores lugares e, até mesmo, a lhe fazer depósitos mensais na conta bancária. Ela, porém, não mais telefonou para ele. Por quê?, eu quis saber. Não diga pra ninguém, não porque eu não seja capaz de aproveitar tal situação, mas o motivo é que conheci outro homem. Continuei admirada. Minha amiga já namorou mais do que um, aliás, mais do que dois ao mesmo tempo. Mas, Valba (vamos lhe dar um nome), você já foi tão mais atirada... Ela voltou a contar sobre a situação, o novo namorado era um homão de quase dois metros, bonitos, de parar o trânsito (achei engraçada a expressão, tão antiga e usada para casos de mulheres bonitas). Não posso me arriscar, Célia, não posso perder o homem. Por que você o perderia?, não entendo, você sempre tão hábil, capaz de endoidecer todos eles. Valba me olhou com seriedade, não ficou calada: há fases da nossa vida em que temos que pisar no freio. A amiga mostrava-se hábil em metáforas automobilísticas. Ele é muito gostoso, jamais tive um homem assim, você sabe que os homens gozam muito rápido, deixam a gente na saudade, ele consegue se controlar, fica trepando durante horas, não imagina o tanto que eu gozo em uma noite ao lado dele, conto isso apenas a você, nada de espalhar por aí, podem me roubar o namorado. Nada disso, rebati, ele deve ser hábil em namorar mais do que uma ao mesmo tempo. Acabei deixando Valba em dúvida, chamei um Uber e fui embora, tinha um compromisso e já eram seis da tarde.

Depois que cheguei em casa, meu compromisso: o vizinho que vive batendo à minha porta às sete horas, dá boa noite e conta alguma coisa que lhe aconteceu durante o dia, no trabalho. Como surgiu a amizade, como tamanha intimidade? Não lembro, são essas coisas que acontecem na vida da gente e não temos explicação. Quando fui morar no prédio, ele já estava lá. Não se aproximou porque moro sozinha. Há outras mulheres como eu nos outros apartamentos. A preferência dele é por mim. Por outro lado, nunca tentou nada além de uma boa conversa. Já saímos diversas vezes, num sábado ou domingo, para um cinema ou um restaurante. No começo, fiquei desconfiada, achei que ele me levaria para cama. No entanto, nunca criou a oportunidade. Agora, acho que já não há clima para isso. Seria gay? Não. Uma mulher me parou na rua para me dizer que meu namorado é muito gostoso. Namorado?, repeti. Aquele homem que vive com você pra cima e pra baixo, já namorei com ele. Sorri, e não lhe disse a verdade, preferi que pensasse em namorados.

Não é um negão de dois metros, como o namorado de Valba, e não tem o aspecto de que vai trepar com uma mulher a noite inteira provocando-lhe orgasmos múltiplos. A conversa dele é sobre livros, peças de teatros e um ou outro filme.

Deu sete horas, ele bateu pra me cumprimentar. Hoje foi um dia especial, trouxe um presente pra você. Pedi que entrasse. Entrou e me deu uma caixa num papel cheio de flores. Chocolate belga, uma amiga acabou de chegar da Europa e me trouxe alguns presentes, achei que esse se encaixaria muito bem pra você. Sorri, com a caixa de bombons belgas nas mãos. Enquanto ele contava alguma história daquele dia, imaginei Valba na cama com o seu homão, gozando várias vezes. Imaginei Valba a receber várias propostas do homem que lhe levaria a vários lugares chique, que lhe faria depósitos bancários, que ela dispensou. Imaginei-a mastigando bombons belgas. Depois, disse a mim mesma, em pensamento, enquanto meu amigo arrematava sua história: Célia, essas mulheres mentem que só.

segunda-feira, abril 19, 2021

Gênero de amor

Acho o maior barato o passeio que meu amigo faz todas as manhãs de sábado. Como ele mora na zona sul, anda por toda a orla de Ipanema e do Leblon. Durante a caminhada, me envia mensagens sobre o dia, sobre como está a praia, conta alguma coisa engraçada e me deseja bom fim de semana. Muitas vezes, tais mensagens vêm acompanhadas de uma foto. Elas alegram o meu dia e me dão energia, torno-me então uma mulher cheia de otimismo e bom humor.

Numa dessas semanas precedentes, marquei come ele um encontro para um café, no centro da cidade, numa confeitaria bonita. Conversamos durante mais de uma hora e meia. Contei-lhe alguns episódios da minha vida. Quando tinha vinte e poucos anos, viajei à Bahia, fiquei hospedada numa pousada, onde conheci um canadense. Apesar de eu ter ido com duas amigas, acabei ficando o tempo todo com o homem. Namoramos. Foi ótimo. Nas minhas férias seguintes, resolvi ir ao Canadá, ao encontro dele. Mas, quando cheguei lá, as coisas não deram muito certo, não saíram como eu esperava. Ele, tão afetuoso aqui, tão desprendido; no seu país, não agiu da mesma forma. Não teve o mesmo afeto, até mesmo me fez pagar tudo o que consumi. Será que, ao estarmos no nosso país, somos mais severos com as pessoas? Não sei, mas foi o que aconteceu. E, olha, caso ele tivesse desejado, eu teria me casado com ele, teria largado tudo e partido ao Canadá, mais precisamente a Montreal. Lembro-me de que, no aeroporto, no momento de eu voltar, ele me cobrou três dólares, que havia me emprestado horas antes para eu tomar um café. Meu amigo ouviu a história e disse foi uma pena, poderia ter dado certo. Não sei por que há homens que são assim, agem de um jeito quando são turistas e de outro quando não, tornam-se autoritários, afirmei. Quando acabamos o café e as torradas, pagamos a conta e saímos, era a rua do Ouvidor. Caminhamos na direção da Uruguaiana, meu amigo me acompanhou durante o trajeto e conversamos mais um pouco. Depois que se foi, fui a uma loja de roupas, onde, mais cedo, algo me interessou. Quando voltei para casa, pensei muito na tarde agradável que tivera. Ele até quis pagar a conta, mas não aceitei. Eu inventei esta história de virmos tomar um café, logo tenho de pagar, ele disse. Aceitei o convite, portanto também preciso contribuir, respondi. Ele riu.

É bom ter amigos; quanto a esse então, nem se fala. Quando ele envia suas mensagens, coloco o fone de ouvido e vou para o meu quarto escutar, sozinha, longe da minha filha adolescente. A seguir, respondo, na maioria das vezes, gravo também a mensagem, e assim vamos vivendo. Sou apaixonada pelas pessoas e por muitas coisas, dei a entender. Ele parece gostar de mulheres assim, como eu.

Quando conheci o tal canadense, eu vivia outra realidade. Minha ousadia foi tanta, que entreguei-me totalmente a ele. Uma das extravagâncias daquelas férias foi ficar nua na praia. O litoral onde a gente estava, naquele tempo, não era tão frequentado, e eu quis agradar o recente namorado aceitando tudo o que pedia. Quando senti a água morna do mar envolver todo o meu corpo, confesso que a experiência me elevou à milésima potência. Depois, ele veio me abraçar, e ficamos os dois dentro d’água, agarrados um ao outro, eu esquecida de que ia nua tanto era o gozo. Ao visitar seu país, minha intenção era a mesma. Quem sabe, ele me tenha achado uma mulher vulgar. Quanto a dinheiro, jamais fui interesseira. Sempre tive o meu trabalho para poder comprar o que desejasse.

Hoje, vivo sozinha. Fico feliz quando tenho amigos, e este que me manda mensagens é de uma alegria e tanto. Os seres humanos são complicados. Melhor assim, o  encontro num café, o prazer de uma boa conversa, a troca de ideias. Uma aproximação saudável. À noite, deitada, ouvindo música, penso nele durante muito tempo. Sinto intenso prazer. Há quem diga que se trata de prazer sexual. Se for, tanto melhor. E vamos vivendo tal gênero de amor.

terça-feira, abril 13, 2021

Trepadeira

Deixe guardar no meu bolso, ele disse, notando meu desconforto. Não gosto dessas coisas, falei sem alternativa, foi você que teve a ideia. Estávamos no seu carro, um veículo largo, bonito, ele ao volante, tinha parado junto ao último poste da orla, de onde se podia descer à beira do mar ou caminhar à direita, para um local da praia que se mostrava quase selvagem. Nós temos minha casa, a tua, não entendo por que você quer aqui, no meio do nada, um desconforto. É a oportunidade, você não acha um tanto excitante?, ele. Nada disso, sou conservadora, você me conhece. Então, voltou ele à iniciativa, por que você tirou a calcinha? Ah, fiz uma fisionomia de vítima, foi você quem pediu, você sempre a me desafiar, a dizer que eu gosto de situações extravagantes, mas não é verdade.

Arrastou-me para perto de si, o vestido subiu mais um pouco deixando minhas coxas de fora. Espera, espera, por favor, assim vai estragar minha roupa, custou caro. Pronto, está satisfeito?, eu disse depois de tirar o vestido e colocá-lo no banco traseiro. Deslizou as mãos sobre o meu ventre, tentou beijar o bico dos meus seios, um após o outro. Assim, está bom, falou. Já pensou se surge alguém?, expressei meu temor olhando para um lado e para o outro. Está escuro,  já é tarde, pareceu entender minha preocupação. O homem era forte, levantou-me, como se eu fosse uma pena, e posou-me atravessada, sobre seu colo, ele ainda vestido. Você não tem coragem de ficar pelado, ri depois da última palavra. Homem nu é muito feio, rebateu. Não acho, adoro homens nus. Ah, sabia, você gosta de todos os homens nus, não apenas eu. Claro, gosto de me divertir, você é mais um deles. Riu, beijou-me. Vá entender as mulheres, acabou sussurrando no meu ouvido enquanto deslizava uma das mãos descendo as minhas costas. Põe o peru para fora, vai, você está me deixando a mil. Meu peru desapareceu, ele disse, e apertou minhas nádegas, fez que meus seios roçassem sua blusa. Oh, desapareceu, como isso é possível, fiz ar de surpreendida, então vou sair correndo pela praia, quero um homem que tenha um peru, e um peru bem grande. Desci a mão direita para o fecho da sua calça e o abri, afastei-me de seu colo e mergulhei a boca sobre seu seu pênis, que cresceu mais ao sentir minha língua. Lembrei Olga, uma amiga que já não morava na cidade. Certa vez, para criar surpresa, enquanto chupava o sexo do namorado, numa situação muito parecida com a que eu estava, abriu de repente a porta do automóvel e pulou fora. O homem quase morreu do coração. Venha me pegar, ela gritou. E desceu à areia da praia. Ele demorou a pegá-la. É o que dá namorar mulher quinze anos mais nova. Eu ali, no entanto, não agiria destemperada. O que desejava mesmo era aquele peru imenso dentro de mim. Amor, vamos para casa, você tem razão, vamos trepar numa cama, alertou. Nada disso, agora quero aqui, você inventou isso, tem de assumir. Abri as pernas, um tanto desajeitada sobre ele, o volante a roçar minha bunda. Deve ser bom dirigir com o traseiro, deixei escapar, enquanto tentava fazê-lo penetrar minha xereca. Às vezes tenho vontade de algumas ações perigosas, como fez Olga ao correr nua. Você já saiu nua da garagem com um namoradinho de ocasião, ele disse, enquanto eu saltava sobe seu peru. Garagem?, fiz que não entendia. Manobra direitinho, vai, manobra e estaciona o teu Mercedes dentro da minha buceta; já viu garagem mais confortável? Não demorou, o homem gozou. Que mela mela! Saltei pela porta do passageiro e fiquei agachada, ao lado do carro, esperando a porra do namorado escorrer para o chão terroso da parte alta da praia. Depois de alguns segundos, falei: me dá, amor, está no teu bolso, vai ajudar resolver a situação. O que está no meu bolso? Não lembra? Minha calcinha.

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

Por isso não se arrependem

Não adiantou, não tive escapatória, tive de dar pra ele. Não que se tratasse de estupro. Longe disso. A responsável por tudo fui eu. Dei muita confiança, aceitei vários presentes. Quando chegou a hora agá, não havia mais saída. Uma amiga diz que sempre há como sair de um relacionamento indesejado. Mas não é tão fácil. E o relacionamento com ele não é indesejado, mas agradável, bom, ou muito bom. O que eu queria é que as coisas acontecessem de outro modo. Toda mulher gosta de dirigir o relacionamento. Pensei que tudo ia sob o meu comando. Quando dei conta da situação, estava sendo conduzida. Foi isso o que mais me aborreceu. Certa vez uma amiga contou que chorou muito após transar com um homem. Na época não entendi, mas agora sei o que ela passou. O tal homem a convidava para restaurantes, passeios pela cidade, presenteou-a com pulseiras e cordões. Ela aceitava. Sorria e agradecia. Pensou que ia ficar só nisso. Um dia ele insistiu no convite para um passeio de barco. O homem tinha um iate ancorado na Marina da Glória. Ela aceitou. Uma tarde linda, sol de outono. Saíram os dois às três da tarde a navegar pelas cercanias do litoral carioca. No meio do passeio, ele serviu doses de uísque com castanha do caju. Ela disse não costumo beber uísque, mas hoje abro uma exceção. Acabou não abrindo apenas a exceção. Quando tudo terminou e me vi nua no camarote, às seis da tarde de uma quarta-feira, morri de arrependimento, sou casada, você sabe, tenho filhos ainda adolescentes, completou. Tratando-se do meu caso não foi muito diferente. Quando o homem me tirou a calcinha, senti a mesma coisa, mas disse a mim mesma quero aproveitar a vida. Ele não era o meu tipo, muito mais velho, veste roupas antiquadas, mas também me presenteia. Toda mulher gosta de ganhar presentes. Toda mulher gosta de atenção, de saber que ainda seduz. Fui com ele. Um restaurante à luz de velas, um jantar requintado, uma garrafa de vinho, outra de espumante. Quando saímos pelas ruas do centro, ele de braço comigo, estava soltinha. Reparei então que ia nua. Isso mesmo, nua. Porque é assim que a gente se sente ao ver vencidas todas as resistências. As mulheres são assim, disse a mim mesma numa tentativa de comunhão com o resto da humanidade, principalmente com as mulheres. Um modo de me confortar. Deixei-me ser conduzida por ruelas do centro. Entramos por aqui, por ali e ele falou vamos subir aqui um instantinho, é um escritório de um amigo. Tomamos o elevador. Corredor comprido, sem uma viva alma. Ele tinha a chave. Abriu a porta. Havia um sofazinho, uma estante com livros, um mesa, duas ou três cadeiras, dois quadros na parede em frente. Acionou um pequeno aparelho e começou a tocar um tango argentino. Isso mesmo, era o que faltava. Ele me abraçou. E eu me desmanchei nos braços dele. O que há de mais nisso?, você pergunta. Não sei. Talvez não haja nada de mais. Mas me arrependi depois. Não me relaciono com homens faz tempo. Não tinha necessidades sexuais. Mas ele até me fez gozar. Isso foi o principal. Ao invés de me sentir feliz, me vi como uma prostituta. É porque gosto de pureza. Me sentia pura, uma mulher em paz com o mundo. Mas veio esse homem, que me pôs em conflito. Agora não sei mais o que faço. Tenho vontade de sair mais vezes com ele, trepar com ele, mas ao mesmo tempo me sinto imunda. Talvez seja a religião. Minha família foi sempre muito religiosa. Você dirá mas você não é casada, nem tem filhos, mora sozinha, o que há de mal ter um namorado, que seja uma amante? Não sei. O que sinto é um conflito terrível. E ao mesmo tempo morro de vontade de trepar com o homem. Quando bebo então nem se fala. Me entrego totalmente. Mas, depois, ao me dar conta que tudo passou, me sinto mal, uma espécie de nojo de mim mesma. Tomo banho, me esfrego intensamente, mas a sujeira não sai. O quê? Você também acha que não é sujeira? Você acha que o importante é termos bom coração? Pode ser. Mas ainda não acostumei a pensar assim. E ainda tem mais uma coisa. Na hora da transa nem me lembro de perguntar se ele trouxe camisinha. Trepamos três vezes, todas elas pele com pele. Sabe, acho que só vou me sentir bem no dia em que eu me casar. Então não vou mais me arrepender. Mas não gosto deste homem a ponto de querer casar! Você diz que casamento estraga a relação, que o bom é ficar desse jeito? Ah, é o que todo mundo fala, mas não quero pensar assim. Acho que esse é o jeito de viver das prostitutas. O que, as prostitutas não gozam? Deve ser por isso então que não se arrependem...

segunda-feira, novembro 30, 2020

Passei a fazer sua vontade

Numa cidade pequena, é fácil conseguir formar clientela, principalmente quando a gente é simpática. Comecei a trazer roupas de grife, de São Paulo. No começo, eram para mim as roupas, mas as amigas me encontravam e perguntavam onde eu tinha comprado a tal saia, o vestido, o biquíni. Como todas adoram andar na moda, mesmo num lugar onde quase não se tem aonde ir, prometi trazer uns modelos novos na minha próxima viagem. E assim foi, arrisquei além da conta, mas o mulheril acabou com tudo em dois dias.

Sábado à noite as pessoas vão à única pizzaria da cidade, ou aos quiosques de churrasquinhos ou cachorro quente, mas não deixam de vestir a melhor roupa. As mulheres, então, nem se fala, sempre vivem na expectativa de conhecer o homem de suas vidas, alguém de fora que veio à cidade ao acaso para visitar um amigo ou um parente, para um trabalho que a gente não sabe que existe. É o momento em que todas as peças são retiradas dos armários, de bustiês a casaquinhos, passando por minissaias e vestidos compridos, calças e  blusas, camisas de abotoar. Caso faça calor, as costas vão nuas, as pernas de fora; caso o tempo ande fresco, quem sabe um pouquinho mais de fazenda. E quem é a responsável pela revolução em M? Eu, Célia. O sucesso foi tanto, que abri uma pequena loja. O sucesso avançou, atravessou as divisas da cidade e a fama chegou aos lugares mais distantes. Tenho encomendas de todos os tipos.

Não consigo viver sozinha. Sempre há alguém a me procurar. Outro dia apareceu uma mulher estranha, disse ter um vício. Ouvi, com atenção, o que tinha a me falar.

“Tenho muitas roupas, sabe, viajo muito e compro muita coisa, tenho além do que preciso. Não faz mal, ainda assim vou comprar algo com você. Mas quero te contar sobre o tal vício, do qual não consigo me libertar” Fiquei curiosa, ela embromava, embromava e não falava. Até que, depois de tanto rodeio, contou-me:

“Adoro andar nua”.

“Todas gostamos, ninguém explica o motivo, não é mesmo?”

“Não, mas não falo neste sentido. Gosto de sair nua, mesmo. Acordo de madrugada, entro no carro nua e saio a passear pela cidade. Nua mesmo, nenhuma peça.”

“Isso não é perigoso?”, fiz fisionomia de preocupada.

“Sim, claro que é, mas acho que é por isso que gosto.”

“Alguém sabe disso?”

“Não creio. Já me viram de carro, uma vez ou outra, mas não puderam notar que estava nua!”

“E o que você acha que eu posso fazer para te ajudar?”

“Não, não estou pedindo ajuda, apenas contei, acho que, assim, fico mais leve.”

“Mas se acontecer alguma coisa com você, não vai dizer que fui eu que contei.”

“Não. Sei que você não vai contar a ninguém. Você é boa comerciante, e bons comerciantes são calados. Meu avô foi bom comerciante.”

“Está bem, você procurou só pra me contar isso?”

“Não, quero fazer uma encomenda.”

Ela encomendou um biquíni caríssimo. Bom para mim.

Quando veio buscar, no mês seguinte., contou-me uma história.

Certa vez, tive um namorado aqui da cidade, sabe? Mas ele já foi embora, abriu um negócio em outro estado. Às vezes ainda me telefona, me convida para ir encontrar com ele. Fui uma única vez, fiquei de voltar, mas ainda não voltei. Ele foi o único que me descobriu nua. Estava eu na beira da lagoa, bem escondida, não tinha levado nem uma calcinha. Ele me descobriu por causa do carro. Não se consegue esconder um carro, não é mesmo?, tanto mais numa cidade pequena. Todo mundo sabe que o carro é de fulano, de sicrana, de beltrana. Ele viu o meu carro e ficou preocupado. Ficou de plantão bem ao lado, e eu lá embaixo, na areia, sem que ele soubesse que eu estava lá. Meu Deus, como vou voltar com esse homem de plantão? Daqui a pouco amanhece, não posso voltar nua à luz do dia. O pior foi que ele entrou no carro e virou a chave, ligou o motor. Ah, não, vão roubar o carro, agora é que estou perdida. Confesso que a possibilidade me deixou arrepiada. Você está pensando que saí correndo, querendo sabe quem era o homem? Não, nada disso. Resisti, firme. Você sabe que sei assobiar forte? Quer ver? Viu, dá até dor no ouvido. O homem acabou descendo à areia. Fiquei sentadinha. Ele procurando de quem era o assovio. Fiu, fiz de novo. Ele me viu, mas não reparou que eu estava nua. Quando chegou perto, eu estava com as pernas cruzadas e o braço cobrindo os seios, ele ainda não notou. Só quando soltei os braços, que ele perguntou o que aconteceu, você foi assaltada? Claro que não, nesta cidade não tem ladrões, cheguei a dizer. Mas você está nua. Dei então uma grande gargalhada. E lhe contei a história. Acabamos namorados. E te confesso que, algumas vezes, saí nua ao lado dele, no banco do carona. Mas ele não gostava. Preferia que eu vestisse as melhores roupas. Passei a fazer sua vontade.

“Mas você continua saindo nua. Tem vontade que outro homem te descubra?”

“Não sei. Às vezes, sim. Mas fico molhadinha quando estou nua, de madrugada, na borda da lagoa. Não sei se um homem vai estragar tudo.”

Ainda ficou algum tempo conversando, falou de algumas amigas, da paquera no único restaurante da cidade. Depois marcamos o dia de receber a encomenda, e ela foi embora. Ainda me disse:

“Conto com a tua discrição, viu, sei que és uma pessoa séria. Meu avô foi comerciante.”

terça-feira, setembro 08, 2020

Pastilha

Gosto de vestir apenas o pulôver, nada mais sobre a pele. Desce até às coxas, estico o tecido sempre a me escapar. O tal agasalho é do namorado, seu tecido quente sobre o meu corpo me excita bastante. Lembro uma amiga, faz algum tempo que não a vejo, gosta também de andar vestida assim, apenas o pulôver, mas o prefere curto. Gosto que me cubra até as virilhas, costuma dizer. Nossa, mas está tudo de fora, alerto. É assim mesmo, diz. Espera o namorado com a bunda de fora. Deixo o espelho e sento à beira da cama. O agasalho sobe, cruzo as pernas, dou a esticadinha. Vocês têm fogo no rabo, dirá ele, caso me veja assim. Não só no rabo, eu rebaterei. Que tal sair, vamos passear, você, só de pulôver. Ah, os homens e suas fantasias. Sério?, faço de conta que não acredito. Me abrace, vem. Seu braços me apertam, suas mãos correm sobre minha pele quente, sob o pulôver. Tire, vai, me deixe nua.

Queremos a vida independente, como a dos homens, profissão que nos dê autonomia. Mas na hora do sexo, somos cadelinhas a permitir o cão a montar. Tenho amigas que não os querem mais, os homens. Talvez seja por causa disso, a dita independência. Mas, no fundo, sei que o desejo de trepar não as abandona. Arranjam artifícios, modos diversos de fazer sexo, pretextos para gozarem mais e mais. Às vezes se pensa num homem que dá muito prazer, alguém com quem se tenha trepado e o gozo flui fácil. Fica-se, então, cheia de fogo, deita-se na cama e aguarda-se. Será que ele vem. A gente nua, esperando. Uma pastilha, instrumento erótico, para ser colocada dentro da xereca. Incendeia, crescem as chamas. O namorado vem, já está à porta, ouço o ruído da chave, seus passos adentram. Logo estará sobre o meu corpo. Minha temperatura sobe, escalada em etapas, até que gozo, após lânguido mexer das coxas, sutil roçar de entre pernas. O namorado imaginário já tendo partido, nenhum aborrecimento, a felicidade, a independência, o orgasmo certificado. Certa vez tirei uma foto, sério, uma foto do gozo, a fenda toda molhada. Acho que a tal pastilha dissolve e torna nossas secreções mais espessas. Enviei a foto a um antigo amante, vivia me pedindo uma foto nua. Na embriaguez do gozo, acabei indo além do que pedira. Depois, ai, que vergonha, minha xereca molhadinha guardada na gaveta dele, mesmo nas horas em que estou séria, no trabalho. A tal independência, o gozo, já vai no passado.

O pulôver sobre minha pele, eu nua, o namorado, desta vez real, preste a chegar. Mas onde a tal pastilha? Abandono o namorado, mas não a pastilha. Quando abrir a porta, já a terei engolido. Ainda bem, há vários modos de engolir uma pastilha.

segunda-feira, julho 13, 2020

A noite do Mustang

Já era tarde, quase uma da madrugada. Havíamos conversado muito, eu e minha amiga. Sua casa fica numa espécie de bosque, a três quadras da praia. Surpreendo-me quando penso como foi possível à natureza produzir um lugar tão arborizado próximo à praia. O tal bosque fica em R, cidade a vinte e seis quilômetros de onde moro, litoral norte. Às vezes marcamos de passar à noite juntas, bebendo um bom vinho, comendo queijos e conversando. Assunto não falta. A vida muitas vezes é um tédio, diz, o que salva são as amizades, as conversas e alguns namoros. Tem razão, principalmente quando fala em alguns namoros, apenas alguns mesmo. Preciso descansar, falei, amanhã é domingo, a gente pode passear, ou ir à praia. Ela sorriu. Bebemos o que restava da garrafa, minha amiga ainda se aventurou a mais um pequeno pedaço de camembert. Permanecemos alguns minutos em silêncio. Levantei vagarosa e comecei a recolher taças e louça para levá-las à cozinha. Não se preocupe, amanhã a gente arruma, vamos descansar. Sorri, abracei minha amiga, um abraço fraterno, pude sentir o calor do seu corpo, um calor perfumado, quase doce, caso seja possível defini-lo assim. Vou tomar uma ducha e vou me deitar, eu disse. Corri ao banheiro, tirei a roupa, um vestidinho que me vinha até os joelhos, estampado, justo ao corpo até a cintura com a parte inferior abrindo-se solto, nada extravagante. Entrei na ducha, aproveitei e lavei minha calcinha. Saí do quarto enrolada na toalha e entrei no quarto sempre reservado a mim durante as estadas naquela casa confortável. Ia fresco o tempo. Vesti uma camiseta, emprestada por ela, sempre me esqueço de levar roupas quando vou à sua casa, coloquei a calcinha para secar no parapeito da janela. Olhei o céu estrelado e respirei fundo.

Ao acordar, o sol já levantara e inundava nossas vidas. O terreno exterior da parte construída da casa recebia a visita de muitos pássaros, piados e cantos alegravam a manhã. Abri a janela e recebi em cheio o ventinho colorido e cheiroso da manhã. Minha amiga tinha jardim e horta, perfumes e aromas não nos abandonavam. Fui ao toalete, lavei o rosto, voltava ao quarto quando resolvi ir à sala. Jaziam sobre a mesa as sobras do nosso jantar. Recolhi pratos e talheres, fui à copa e coloquei tudo dentro da pia. Depois liguei a cafeteira. Todos ainda dormiam.  Sem que eu esperasse, apareceu um homem jovem, mais ou menos dez anos a menos que eu. Oi, você por aqui, não se lembra de mim?, perguntou. Franzi o cenho numa tentativa de mergulhar no passado recente. Como já namorara tanta gente, confesso que não conseguia me lembrar dele. O cara do Mustang? Mustang?, repeti. Sim, da exposição de colecionadores, completou. Lembrei e sorri para não perder a graça. A tal exposição fora ótima, mas a noite não me aconteceu como uma das melhores, bebi demais e não recordava o que fiz. Ao amanhecer, estava nua, num quarto, nos braços do homem que ia ali à minha frente naquele instante. Você conhece a Adélia?, perguntei. Sou filho dela, permaneceu estático, admirando-me. Como podia acontecer aquilo, a Adélia tinha um filho e eu já trepara com ele. Nem sei se só com ele, porque na noite do Mustang estava ele acompanhado de mais dois amigos. Daqui a pouco vai chegar o Marcos, disse gratuitamente. Marcos?, não sei quem é. Sabe sim, voltou à tona, é aquele meu amigo que veio no carro com a gente. Automóveis fascinantes, bebidas e mais bebidas, amigos, quarto de hotel, eu nua pela manhã, tudo muito confuso. Fingi que não me constrangia. Você contou alguma coisa sobre mim para sua mãe?, perguntei assustada. Nada, não conto pra minha mãe sobre a minha vida particular, afirmou peremptório. Ah, que bom, sorri, deixa eu te dar um beijo. Aproximei-me, abracei-o e beijei-lhe o rosto, nas duas faces. Correspondeu o abraço, cruzou as mãos sobre minhas costas e ficamos durante algum tempo no abraço, como se repousássemos. Depois deslizou as mãos sobre a camiseta até as minhas coxas e disse conheço esta camiseta, já foi minha, sabia? Você quer de volta?, perguntei provocadora. Quem sabe, riu. Ele era mais alto do que eu, a tal camiseta se transformara numa camisola sobre o meu corpo. Tomamos café juntos, comemos os pedaços de pão que restavam no cesto sobre a mesa. Depois, pediu licença, tinha um passeio para aquele dia, iria para o carro esperar o Marcos. Escreveu o número do telefone num pequeno pedaço de papel e fechou-o dentro da minha mão direita. Beijou-me, gosto de café, acariciou-me a cabeça, não esqueci a noite do Mustang, citou de novo o evento. Havia carros bonitos, quis eu completar. Não são os carros que me fazem lembrar a noite, sorriu e me abraçou mais uma vez. Despediu-se e se foi. Após sua partida, sentei-me no sofá, de onde estava era possível apreciar as árvores do jardim, vários pássaros continuava a festa. E eu não lembrava o que acontecera na tal noite. Ah, não vai ficar assim, reparei que, inconsciente, apertava numa das mãos o número do seu telefone.

domingo, maio 24, 2020

Lingerie da mesma cor

Marquei de telefonar e encontrar com ele, um homem para quem já trabalhei e sempre se mostrou afetuoso, que me enche de presentes e de algum dinheiro, mas faz dois dias conheci outro cara, que me provocou um arrepio prolongado, por isso não telefonei, optei pela nova aventura. Quando surge alguém que não conheço, vejo a possibilidade de um novo relacionamento, um tipo de namoro, não uma vida conjugal, é claro. Na verdade, uma nova experiência. Surgiu alguém que pode me proporcionar o que ainda não senti com nenhum outro. Esse negócio de desejar novas experiências já me causou alguns sustos. Não é bom sair com um homem de primeira nem com um desconhecido; às vezes, no meio da trepada, eles falam coisas de arrepiar, fico morrendo de medo. Certa vez um deles disse que tinha uma faca na bolsa, que ia me espetar com a ponta, ia fazer pequenos cortes na minha pele, narrava e enfiava o enorme peru dentro de mim. Fiquei morrendo de medo, com o cu apertadinho, como dizem por aí por meio de uma expressão chula mas verdadeira; após gozar, quis saber se o homem tinha a faca mesmo, mas, como não tocou no assunto, não perguntei. Uma amiga, para quem contei a história, tem certeza de que fiquei excitada com a possibilidade da tal da faca, e bem que gostaria de sentir a ponta afiada deslizando sobre meu corpo! Será? Mas este que conheci, que me fez renegar o primeiro, já vem há certo tempo me azarando, acho que não vai haver perigo, não, e parece ser tão gostoso, tem o tipo que possui um pênis longo e grosso. Não é muito alto, acho que quatro dedos a mais do que eu, mas é musculoso, costas largas, bom nadador, o tipo de homem com muita potência. Marquei de encontrar depois de amanhã, após o trabalho. Vamos tomar um copo num bar recém inaugurado, em Botafogo. Nas proximidades há um hotel, por isso já sei o que acontecerá depois. Vou com lingerie nova, calcinha e sutiã da mesma cor. Engraçado, dizem que quando uma mulher sai com um homem, vestindo calcinha e sutiã da mesma cor, é porque está a fim de trepar. Será? Já saí com as duas peças diferentes e mesmo com apenas uma! A tal amiga que deu seu parecer sobre a faca diz que já foi a um forró vestindo apenas um vestido de malha, justinho sobre a pele, nada mais. Você é louca, retruquei, caso algum homem te agarre, não poderá reclamar. É isto mesmo que eu estava querendo, ela disse. Em termos de relacionamentos, cada uma com sua loucura. Sei que muita gente está doidinha pra saber sobre esta minha nova aventura. Mas ainda não aconteceu!, só depois de amanhã. Eu conto, não vou esquecer, todos os detalhes. E o homem pra quem já trabalhei, que me enche de presentes e de algum dinheiro, será que vai ficar a ver navios? Nada disso, tenho a desculpa prontinha. Na última vez que dei bolo, disse que fui assaltada, me roubaram o celular. Ele caiu direitinho. Sempre volta. Meu telefone está tocando! É aquele por quem estou doidinha. Será que vai antecipar nosso encontro? E não estou nem com a lingerie da mesma cor.

segunda-feira, março 09, 2020

Lambida

Às vezes sinto saudades dos tempos em que vivi em M, uma cidade muito divertida, que não tinha tanta gente como essa onde vivo agora e onde era possível fazer mil extravagâncias. Passeava pela orla, ia vez ou outra à praia. Como havia muita gente de fora, era um ótimo lugar para arranjar namorado. Um arrepio. Lembro os anos de faculdade. Entre os alunos e alunas, a maioria era mulher, mas eu namorava mesmo era com os professores. Verdade. Eles pediam não conta pra ninguém, não fica bem um professor sair com as alunas. Havia aulas pela manhã e à noite. À tarde, eu descansava, ia a um café próximo ao Centro, frequentava a biblioteca e a loja de uma amiga. Eu tinha, então, 21 anos. Foi quando conheci um professor, dos mais entusiasmados, dos mais ousados, me convidava para acompanhá-lo a todos os lugares. Quando o vi pela primeira vez, passei a sentar na fila da frente, usava saias ou vestidos curtinhos, pernas cruzadas, olhava em direção a um ponto neutro, nunca a ele. Não demoraram os convites. Íamos a recepções, passeios, excursões, praias e restaurantes. Impossível não ser notada ao lado daquele homem. Com o tempo, já não era problema outras pessoas saberem sobre nosso relacionamento.

Ele tinha um apartamento num bairro conhecido como Riviera. Não é preciso dizer que acabávamos quase todas as noites naquela morada ajeitadinha, a ouvir música e a beber champanhe. O homem adorava champanhe.

Num certo sábado, resolvemos visitar as cidades da região serrana. Uma amiga de lá daquelas bandas nos acompanhou. Ela conhecia tudo e ia mostrando os lugares. Tomamos banho numa cachoeira e num rio, acabei achando que ela se insinuava para o meu professor. Ria, dissimulada, tomou banho quase nua. Por aqui não tem homem, disse, só matuto, e uma porção de veados, é difícil achar namorado, quando quero um desço à praia, a Cavaleiros ou mesmo à Costa Azul.

Ficamos o dia inteiro juntos, ela a apontar serra tal, gruta tal, rio com este nome, cachoeira com aquele, eram tantos, nem lembro mais, contava casos engraçados, como os de um lugar onde as moças e os rapazes que moravam nas redondezas namoravam. Elas, principalmente, tinham um fogo enorme, diziam não querer chegar aos finalmentes, mas é lógico que não aguentavam. Ela narrava e ria. Meu namorado dizia todo local tem dessas coisas.  No final da tarde, a amiga pediu para descer a serra com a gente, ia passar o final de semana com uma amiga. Seria amiga mesmo? Sorriu, aquele sorrisinho de quem não lembra onde deixou a calcinha.

Nos finais de semana eu e o namorado passeávamos por todo o litoral. Começávamos a beber vinho branco, terminávamos o dia bebendo champanhe, às vezes uma caipirinha, ou, quem sabe, uma dose de uísque. Havia praias extensas, caso tomássemos a direção do litoral sul. Éramos apenas nós debaixo do guarda-sol, deitados na espreguiçadeira. Em determinada ocasião, cheguei a dormir mais de uma hora, o marulhar distante e o sol de fim de tarde. Cheguei a sonhar. Um namoradinho de ocasião, numa praia que não era nenhuma das que existiam nas redondezas, num momento de entusiasmo pediu para eu ficar nua. Nua numa praia! Não demorei a decidir. Tirei o biquíni e ele me abraçou, disse você esta vestida com o meu corpo, senti então seu pênis crescendo entre minhas pernas. Acordei. O vento mais forte me desarrumava os cabelos e levantava vez ou outra um chicotinho de areia. Vamos embora, pedi. Vamos mergulhar primeiro. Dentro d’água, nos divertimos muito, o professor agarrado a mim. Depois conclui, o sonho fora resultado da influência da amiga assanhada lá da Serra, vivia a me telefonar pra falar dos homens.

Na semana seguinte a encontrei no centro da cidade. Ela ia a uma loja trocar uma peça de roupa, pediu-me que a acompanhasse, queria contar um caso que, segundo ela, me dizia respeito.

Sabe o teu namorado, começou a história, com as pupilas no canto dos olhos, gosta de deixar as mulheres nuas.

Mas é tudo que nós queremos, falei-lhe ao pé do ouvido.

Mas a coisa é em outro sentido, continuou. Ele gosta de levar as mulheres nuas no carro dele, depois, sabe com é, pede para elas saltarem, namora encostado na lataria, faz que elas vibrem de tesão.

Escutei toda a louca história, na verdade queria mesmo era atrapalhar o meu namoro.

O que ele fez antes, não me importa, o que vale é que agora está comigo, e se mostra apaixonado. Sorri após a última palavra. Ainda há mais uma coisa, acrescentei, adoraria estar no lugar dessa tal, nua encostada na lataria, na beira de uma estrada, de madrugada. Vou dar a ideia a ele.

Não faça isso, você não sabe o que pode te acontecer. Vou contar a verdade. Já saí com ele, não comente, por favor.

Arregalei os olhos.

Foi por isso toda aquela insinuação no dia em que passamos na serra, agora entendo.

Desculpe, ela disse, não consegui disfarçar, o homem me deixou nua, de madrugada.

Sério?, fiz que não acreditava.

Juro, não vou mentir com essas coisas. Não vou contar agora como o conheci, é uma história complicada, uma festa e coisa e tal. Namoramos uns dois meses, numa noite ele me pediu pra eu encontrar com ele vestindo uma peça, um vestidinho fino, nada  mais. Parou à beira da rodovia, começou a me abraçar, me beijar, acabou por me tirar o vestido, depois pediu pra eu descer do carro, atravessar a estrada e esperar por ele do outro lado.

Olhou para mim com cara de safada.

E não é que aceitei?

Como é essa história?

Isso mesmo, nua na estrada, às duas da madrugada. Ele partiu, falou que voltava, levou meu vestidinho dentro do carro. E eu nua, imagine, pelada, esperando cinco, dez, quinze, vinte minutos e nada. Ele não voltava. Como não voltou. Só o vi três dias depois, passando de carro pelo centro.

Você não prestou queixa à polícia?

Não, nada de polícia, não queria escândalo.

E como você se safou?

Não me safei, tive que recorrer a alguém, que me deu uma carona e amainou as coisas. Mas em troca tive de trepar com o cara; além disso, chegar nua em casa.

Ela seguiu seu caminho. Continuei por um tempo com o professor, meu namorado, ex-namorado de minha amiga. Até que, um dia, ele me fez o tal pedido, sair apenas coberta por um vestidinho fino, como ela me contara.

Ele marcou pra hoje a tal aventura, falei assustada à amiga ao telefone. O que você acha?

Acho que vou mandar o tal homem que me resgatou naquela noite buscar você.

Você namora com ele?

Quem sabe?, mas não sou ciumenta.

Caímos ambas não apenas em armadilhas, mas numa gostosa gargalhada.


A história me fez ficar toda arrepiada.

Que saudade dos tempos em que vivi em M.