quarta-feira, outubro 21, 2026

Namorados, hotéis e a imaginação

Ele morava num hotel enquanto trabalhava na cidade e, numa noite ou noutra, eu ia ao seu encontro. A cidade abrigava muitos trabalhadores durante a semana; era um polo de produção de petróleo, com gente de várias especialidades vinda das mais diversas localidades. O bairro à beira-mar, com bares e restaurantes muito frequentados à noite, era o ponto para muitos. O hotel dele não ficava ali, mas no centro, um tipo de casa de três andares adaptada para a hospedagem. Na recepção, dava plantão à noite uma mulher; eu a conhecia, morava no norte da cidade; alguém que, na maioria das vezes, não ficava na recepção, mas adormecia num sofá recuado, sem que alguém que transitasse ali ou chegasse à entrada a descobrisse.

Como conheci o homem com quem tinha tal relação? No trabalho. A gente, nascida na cidade, também foi beneficiada com o súbito progresso local; os mais graduados vinham de São Paulo, Rio, Brasília, e até do exterior; a cidade, porém, oferecia vaga de trabalho tanto para os de cultura superior como para as pessoas de cultura mediana e mesmo para quem não tinha estudo e trabalhava no apoio. Eu era uma mulher que terminara o ensino médio e cursara durante dois anos um tipo de especialização em monitoramento de circuitos.

Em geral, às terças ou quartas-feiras, dependia do expediente dele, saía eu de casa às oito horas e caminhava até o hotel, que ficava a sete quadras. Não era uma linha reta. Eu deixava a minha rua, pegava uma via principal que vinha do ponto sul, caminhava trezentos metros, atravessava a linha férrea, entrava por uma viela que levava à rodoviária.

Essa estava sempre movimentada, com gente aguardando os ônibus ou desembarcando. Era alegre o local; certa vez achei que, caso alguém sofresse de solidão ou algum tipo de tristeza, seria bom ir até a rodoviária, era um tipo de distração. Gente com pequenas malas, mochilas, ou aqueles que ficavam nos bancos e aguardavam sua hora de partir davam ao local um tipo de vigor que não existia nas vizinhanças. Dois ou três bares e um pequeno restaurante funcionavam quase direto, vendendo sanduíches, salgados, cervejas e refrigerantes.

Às vezes, naquele caminho que se assemelhava a um jogo em que era preciso entrar aqui e ali para encontrar o namorado, eu tinha vontade de parar no retângulo e ficar olhando os ônibus que entravam e saíam das plataformas, com o vibrar elegante dos motores, típicos de veículos que vão para longe. Certa vez, vi de madrugada o ônibus que fazia uma linha vinda da Bahia; ele me fez sonhar.

Passada a rodoviária, eu seguia uma das ruas laterais que me levava à praça principal; na lateral direita, outra rua, ainda menor, me conduzia ao hotel, onde o homem me esperava.

A funcionária, como em geral não estava no seu posto, me obrigava a esperar. Quando ela mesma surgia ou qualquer outra pessoa ali hospedada desejava também entrar ou sair, a porta se abria.

Não eram comuns encontros como o meu, mas o namorado era conhecido na casa, e as coisas lhe eram facilitadas. Ao entrar, cumprimentava a mulher, uma morena que deixava o sofá e me disfarçava um sorriso. No começo, achei o gesto maldoso, mas, com o tempo, me acostumei e passei a achar que ela tinha um rosto afetuoso, tolerante com as pessoas enamoradas. Ela me dizia o número do quarto em que ele estava e eu seguia pelos corredores sempre silenciosos, um labirinto de várias portas fechadas guardando vidas e segredos. Ele não ficava sempre no mesmo quarto, porque não passava o final de semana na cidade; quando voltava na segunda-feira, às vezes lhe davam outro aposento. Havia vezes em que lhe abrigavam no segundo andar.

Tinha eu um jeito peculiar de tocar à porta: três batidas leves seguidas de outras três. Logo ele abria. Eu entrava no ambiente escuro; às vezes, a televisão, com o reflexo azulado, refletia sua luz nas paredes do quarto. O homem, corpulento, beijava-me os lábios, de modo rápido; eu entrava e me sentava ou à beira da cama ou sobre uma cadeira disponível, que em geral tinha lugar próxima à janela. O quarto era simples, com um armário de duas portas preso na parede, a cama que não chegava a ser de casal, embora fosse larga, um quadro com uma paisagem marítima e a TV dependurada no lado correspondente ao local que ficavam os pés de quem estivesse deitado na cama compunham o ambiente acolhedor. No teto, havia um ventilador para os dias de verão.

Às vezes, quando fazia calor, eu pedia licença para ir ao banheiro. Tirava a roupa e tomava uma ducha. Saía enrolada na toalha e voltava para a beira da cama, esperando que ele me abraçasse. Embora ele não tivesse lugar fixo na empresa – era um tipo de funcionário que circulava entre as várias unidades, todas situadas em bairros diferentes da cidade, onde fazia algum tipo de fiscalização ou manutenção –, eu já o tinha encontrado durante o expediente. Na verdade, eu não tinha ideia se alguém na empresa sabia do nosso relacionamento, mas isso para mim não era importante.

Ele falava pouco e se preocupava em me acariciar ou deitar comigo logo que eu estava em sua cama. Era um namorado másculo e carinhoso, diferente dos homens com quem eu já me relacionara na cidade, de modos provincianos ou de atitudes que me desagradavam profundamente, como trejeitos de dominadores. Um desses namorados locais certa vez não me queria na praia com o biquíni que eu costumava usar. O namoro não durou muito. Aquele homem ali, a me escalar na cama do quarto de hotel, ou a me fazer quase flutuar sobre ele, não pensava em outras coisas a não ser no ato de sentir o calor de meu corpo e me penetrar de maneira vigorosa.

Eu permanecia com ele até as onze da noite. Às vezes, ele me pedia para dormir; vez ou outra eu concordava, mas precisava acordar mais cedo para ir até em casa trocar de roupa para ir depois trabalhar. Na maioria das noites, ficava em seus braços durante duas ou três horas, depois partia, fazendo o caminho de volta pelas mesmas ruas do começo da noite. À pergunta dele se não era arriscado uma mulher caminhar sozinha àquela hora, eu devolvia com a seguinte expressão: “conheço todo mundo na cidade.”

 

Na semana anterior, dormi um pouco mais após o amor; ao acordar, passava de meia-noite. Ele dormia. Um sono, até certo ponto, pesado. Levantei-me, joguei o vestido sobre o corpo e parti em silêncio, sem acordá-lo. Na saída, a recepcionista roncava no sofá de sempre. Apertei o botão que libera a porta. Temi que ela acordasse, mas seu sono era pesado, mais do que o do homem que eu deixava dormindo no quarto. Saí em silêncio e fechei a porta, evitando o ranger de metais.

Enquanto voltava, em alguns pontos da praça avistei mulheres sozinhas ou em duplas; vestiam roupas curtas, tentavam atrair os homens que, a pé ou de automóvel, frequentavam o perímetro. Como não estava acostumada a andar pelo caminho durante a madrugada, a presença das prostitutas me surpreendeu, pois as conhecia apenas de ouvir falar.

Mais adiante, não eram mulheres que formavam um grupo, mas travestis; pude descobrir devido à voz de uma delas, falava alto e de modo afetado; além dessa, havia outra que chamava a atenção, pois estava inteiramente nua. Descobri nela o corpo perfeito de uma mulher alta, bem delineada, mas com o pênis (era mediano, não estava ereto e exibia-o todo depilado, o que lhe conferia feminilidade); às vezes, ela o cobria; em outras, soltava-o, provocando o riso das amigas. Ela, no entanto, era a que mais se divertia. Como poderia voltar para casa daquele jeito, sem indícios de qualquer tipo roupas à sua volta? E de onde vinham, tanto as prostitutas quanto as travestis? Eu não fazia ideia. Não mudei meu trajeto; passei por ambos os grupos. Ladeando as travestis, a nua abriu-se num sorriso e gesto amorosos, não sei se para mim ou para as amigas.

Quando cruzei a rodoviária, tive vontade de me apressar e não olhar para a plataforma, mas não sei o que me fez virar o rosto naquela direção. Acabei descobrindo, em um dos bancos, uma vizinha da rua onde moro. Trajava um vestido rosa, tinha as pernas cruzadas daquele modo que, de perspectiva, quem olha deseja ver o fundo da calcinha da mulher; havia exagero em seus gestos e ela conversava com um homem que talvez esperasse a hora da partida. A vizinha não tinha boa fama. Algumas pessoas afirmavam que era amante de um homem na principal empresa petroleira e que, vez ou outra, era vista na praia durante a noite após o fechamento do Ilhote, principal restaurante da orla marítima, agarrada a um homem. Circulavam outras fofocas sobre ela, mas as atribuo à mente fantasista das pessoas.

Segui até a linha férrea, atravessei, dobrei à esquerda e caminhei pela via principal; após trezentos metros, dobrei à direita e entrei na minha rua. Quando faltavam duas casas para a minha, reparei o homem idoso a olhar pela janela. Esperava pela passagem da mulher por quem diz ser apaixonado para depois se deitar e dormir tranquilo.

Tirei a chave do bolso e abri o portão da casa, uma construção de dois andares dividida em três apartamentos. O meu é o do térreo, onde, além da casa, tenho o quintal.

Entrei no corpo da casa, tirei o vestido, deixando-o sobre a cadeira, fui ao banheiro, lavei as mãos e me atirei na cama. Estavam vivas em minha mente as pessoas vistas pelo caminho; ao começar a dormir, achei que a travesti nua me acenava.

 

Voltando ao quarto de hotel e ao meu homem, adorei que ele ainda tivesse energia para uma segunda trepada. Envolveu-me, deitou-me e apreciou-me por trás. Fez, como sempre, elogios ao meu corpo. Depois, pediu que eu relaxasse, que realmente relaxasse. Falou um segredo no meu ouvido. Então, molhei-me. Daqui em diante, é melhor deixar voar a imaginação.