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quinta-feira, julho 04, 2013

Se houvesse sol - 14 - final

O salão de chá do Hotel Everest era o mesmo em que havíamos tomado café naquele fim de madrugada. Mário chegou antes de mim e sei que esteve olhando em todas as direções a me procurar. Quando entrei, fazia quinze minutos que chegara. Eram quatro horas da tarde. Eu vestia um vestido reto, de cor negra, meus olhos estavam cobertos por óculos escuros. Avistei o rapaz e fui até ele.

“Não vai tirar os óculos?”, perguntou.

“Boa tarde”, ofereci-lhe o rosto.

Levantou-se e me beijou. Sentei a seguir, mas ele ainda permaneceu alguns segundos em pé, numa situação um tanto embaraçosa. Ele preferia não estar ali, preferia não ter o que dizer. Gostava de mim, apreciava-me o corpo, apesar de havermos estado juntos apenas duas vezes, uma na praia, outra naquele fim de madrugada.

“Não é preciso que você perca seu tempo”, falei antes de tirar os óculos.

“Você já sabe, então. Como descobriu?”

“Quase ao acaso.”

“Acaso? Você me contratou para essa investigação. Perdi três semanas. Conferi todos os lugares onde ele andou, falei com diversas pessoas com quem esteve, muitas me olharam com desconfiança, cheguei a ser seguido por dois homens, tenho trajetos, mapas, quartos onde ele morou, o croqui de um casarão da Monsenhor Félix, rua do centro velho, entrevistei a proprietária, falei que era repórter de um grande jornal...”

“Peço desculpas se fiz você andar por aí de modo desnecessário.”

“Desnecessário?”

“Vou pagar a você, não se preocupe, farei tudo conforme combinamos.”

“Dinheiro não é problema. Fiz o trabalho por amor.”

“Amor? Você sabe o que é amor?”

“Acho que você me pediu essa investigação por amor a alguém. Descobri quando comecei a andar em busca de Daniel. Percebi que você o amava.”

“Eu nunca o amei.”

“Por quê, então, toda essa busca? Estamos brincando de detetives?”

“Não é isso”, respondi, “não se trata de uma brincadeira.” Tirei o jornal da bolsa onde havia a notícia de que um rapaz se atirara do décimo segundo andar de um prédio do centro do Rio, no dia anterior. Era Daniel.

Mário, com ligeiro movimento de cabeça, concordou. Permanecemos em silêncio por alguns segundos.

“O que você vai fazer agora?”, ele quis saber.

“Ainda não sei?”

“Sua vida é boa, você tem alternativas, talvez encontre motivos para escrever mais um bom romance.”

“Não fale besteira”, afirmei severa, “isso não é um caso comercial.”

“Vamos comer algo, vamos conversar. Você é uma pessoa experiente, já superou muitos problemas durante a vida”, falava com seriedade duvidosa para alguém tão jovem.

“A morte é impossível de ser superada. Há apenas a conformação, o esmorecimento da lembrança enquanto outras coisas começam a vir à flor da pele.”

“Você não quer saber o motivo?”

“E você por acaso o tem?”

“Tenho algumas conjecturas”, falou.

“Daniel era um homem melancólico. Daí é possível esperar qualquer coisa, não é preciso saber muito.”

“Acho que estava sendo perseguido, alguém o cobrava alguma coisa. Não sei se dinheiro, não sei se se envolveu com drogas.”

“Sempre a mesma desculpa quando um caso se torna insolúvel: dinheiro, dívidas, drogas.”

“Minhas investigações apontam nessa direção.”

“Suas investigações apontam, apontam, há muitas coisas que apontam, você ainda não sabe nada sobre a vida.”

“Então por que me contratou?”

Suspirei, levei uma das  mãos ao rosto, uma garçonete alheia esperava que fizéssemos os pedidos. Mário fez sinal que esperasse.

“Você é um monstro”, afirmou com o dedo em riste para mim.

“Monstro?”, pus-me a rir. A garçonete já não pôde mostrar-se tão alheia, chegou a piscar os olhos e virar-se para a direita.

“Diga por que sou um monstro.”

“Não sei, mas acho você muito ardilosa.”

“Houve uma época em que eu fui ingênua, mas depois...”

“Fala a verdade, você queria motivos para uma boa história”, afirmou.

“Achas que sou tão insensível?”

“Acho, mas sei que não adianta conversarmos sobre isso agora. Escute, ele já se foi, o que podemos fazer é reclamar o corpo e enterrá-lo. Depois resolvemos o que vamos fazer de nossas vidas.” Sua sugestão pareceu-me sensata.

Coloquei novamente os óculos, virei-me para a garçonete e pedi um café puro, sem açúcar. Mário quis o seu com um pouco de leite.

Lá fora a tarde avançava, um fim de dia útil. Descendo a Maria Quitéria chegava-se à praia.  E sempre havia alguém na praia, sobretudo se houvesse sol.


Ele passou na faixa de areia entre o mar, que explodia em rendas desfiadas, e a pequena falésia. Era alto e jovem. Eu lia uma revista e ao mesmo tempo tentava dar conta do que acontecia à minha volta. Havia pouca gente na praia, um guarda-sol ou outro, a maioria eram mulheres sozinhas ou acompanhando crianças. Continuou o seu caminho. Não era uma caminhada de esportista ou de alguém interessado em andar para melhorar a condição física, era alguém que andava por andar, talvez por achar enfadonho permanecer no mesmo lugar. Parecia absorto. Lembro-me ainda que voltou o rosto para o mar uma ou duas vezes, depois desapareceu. Momentos mais tarde, fez o caminho de volta. Suas passadas eram como as da ida. Notou então que eu o olhava. Mesmo que continuasse acompanhando sua marcha, sei que jamais viria falar comigo. Era o jeito dele.

terça-feira, julho 02, 2013

Se houvesse sol - 13

Joel chegou de viagem numa manhã de quinta-feira. Sei que faz tempo não falo nele. Preferi relatar minhas aventuras no Rio de Janeiro, contar sobre as pessoas que conheci e sobre a procura que empreendi para tentar encontrar Daniel. Joel veio da África do Sul. Antes esteve em Singapura. O mundo do petróleo (e de tudo que diz respeito à sua profissão) o fascina. Fui esperá-lo no aeroporto. Ao chegar beijou-me eufórico demostrando toda sua alegria por eu estar em seus braços. Não se preocupou se causaria constrangimento a outras pessoas. Disse que cenas assim são comuns em qualquer aeroporto mundo afora. Sua saudade era sincera. Ficamos abraçados durante muito tempo.

No trajeto de volta a casa, enquanto eu dirigia, não cansou de me acariciar a perna direita, mas sem malícia. Falou palavras amáveis e até recitou um poema. Disse que estava ansioso porque queria me mostrar os presentes que trazia para mim. Ficaria comigo pelo menos um mês inteiro, e que eu escolhesse um lugar para passarmos uma temporada. Estava pronto para satisfazer todos os meus desejos.

Ao entrar em nosso apartamento, mostrou-se ainda mais amável. Admirou-se com os objetos novos que eu comprara durante a sua ausência, olhou demoradamente a paisagem através da janela da sala. Viu o espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas e mencionou que não via a hora de caminhar comigo pela orla.

Abraçamo-nos e nos beijamos muitas vezes. Ele, pouco a pouco, despiu-me Depois tirou sua roupa e namoramos quase pela casa toda. Acabamos deitados um sobre o outro, em cima do tapete, na sala.

Suas malas ainda ficaram fechadas por muito tempo. Repousamos ainda abraçados, nossos olhos fechados, experimentávamos o calor de nossos corpos. Vez ou outra nossas mãos trocadas deslizavam sobre a pele do outro, procurando reconhecer cada milímetro de corpo.

Naquela tarde, fomos de poucas palavras, ouvíamos o arfar de nossos pulmões. Eu pensava, como é bom o amor. Outro pensamento que não me abandonava: todos nós somos infinitamente sós, mesmo quando estamos juntos.

À noite, saímos para jantar. Joel queria sentir o ar do Rio após tanto tempo longe. Desejava também passear pela Zona Sul, ao meu lado. Escolhemos o restaurante de um hotel, na Delfim Moreira, de onde se podia apreciar uma das vistas mais bonitas da cidade.

“Como é difícil viver longe deste lugar”, ele disse, “por mais que gostemos da nossa profissão, sempre sentimos falta de alguma coisa. Quando olhamos o Rio e as pessoas que amamos, tudo se completa.”

“Que bom você estar falando assim, espero que agora fique por perto.”

“Esse é o problema, um engenheiro de petróleo nunca é dono de sua vida.”

“Um médico seria?”, não queria alimentar a polêmica, mas acabei dando minha pincelada.

“Um médico pode abrir um consultório aqui na cidade e não precisa deixá-la, não é mesmo?”

“Fingi aceitar o argumento. Enquanto isso, o garçom nos trazia uma garrafa de vinho.”

Brindamos e saboreamos os primeiros goles. Depois Joel aproximou seu rosto e me beijou.

“Estava morrendo de saudade”, falei.

“Jura?”

“Juro. Você sabe que tenho minha vida profissional, que conheço muitas pessoas, mas você é sempre muito especial para mim.”

“Conversei muito com jornalistas na África do Sul, entre eles um escritor americano. Estão alarmados com o aumento da violência em alguns países.”

“A violência existe em qualquer lugar do mundo.”

“Mas os escritores estão preocupados com essa questão”, acrescentou.

Não quis incentivar a continuação daquele assunto. Era nossa primeira noite juntos depois de tanto tempo. Melhor seria comer, beber, namorar, apreciar a bela vista, usufruir a noite de temperatura amena. As ações das companhias de petróleo nas bolsas de valores mundo afora provocam altas e baixas que afetam a vida das pessoas, ora insuflam a riqueza em alguns lugares, ora provocam pobreza e destruição em outros. Portanto, uma observação de Joel exterior ao tecnicismo que normalmente rege o seu pensamento causou-me surpresa, mas mesmo assim eu não quis levar a conversa adiante, Não combinava com o momento.

“Aonde vamos viajar? Dentro do nosso país ou vamos para o exterior?”, perguntei.

“Você escolhe, meu amor.”

“Prefiro aqui mesmo, pertinho, três, quatro, no máximo cinco horas de automóvel. Nada de avião nem aeroportos, você deve estar cansado.”

“Ótimo’, disse ele, “também prefiro por aqui, você adivinhou o meu pensamento.”

“Há estâncias rústicas, ou lugares onde podemos curtir o frio, já que aqui no Rio quase nunca se pode vestir um casaco.”

“Ok, que tal Campos do Jordão?”, sugeriu.

“Isso, vai ser ótimo”, beijei-o depois de depositar o copo de vinho sobre a mesa.

Joel quis saber sobre o meu texto para o New Yorker.

“Acho que você não vai gostar. O texto trata de um tema que sempre me preocupou, mas não quero falar sobre ele. É melhor que você o leia.”

“Você não pode falar sobre o tema, pelo menos?”

“É sobre um episódio que testemunhei quando vivi em M. Você não está acostumado a me ver tratar de temas sociais.”

“Temas sociais?”

“Isso mesmo. Há pobreza, abandono, drogas e até homossexualismo. Mas o que predomina mesmo é a pobreza.”

“Será que eles lá no New Yorker vão publicar um texto assim? Acho que preferem matérias sobre relacionamento”, falou.

“Não sei. Mas eles que decidam. Caso não publiquem, quem sairá perdendo serão eles.”

“Você sempre escreve sobre amor e erotismo. Escreve agora sobre temas sociais e políticos?”

“Todo texto é político, mesmo o texto sobre sexo. O corpo é político”, falei, apesar de saber o lugar comum das expressões .

Som de um saxofone espalhou-se pelo ambiente. Era o começo do show de jazz que o restaurante de hotel costuma oferecer aos frequentadores uma vez na semana. Ao mesmo tempo, o garçom chegava com o prato que eu pedira, na verdade uma entrada. Havia frios, pastas, pães e queijo brie.

A música, sempre de qualidade, foi apreciada por todos os presentes. Havia alguém que tocava um violoncelo, outro mostrava-se hábil no teclado, o mais discreto era o baterista.

Joel aproveitou o momento para dar-me dois beijos. Depois pegou a taça e bebeu mais um gole de vinho.

Mais tarde, ainda no restaurante, começou a contar uma conversa que tivera com dois amigos enquanto estivera no exterior.

“Um deles disse que casamento não vale a pena, acha melhor ter uma amante. Ele acha que no casamento o amor não pode existir em alta temperatura.”

“Alta temperatura?”, fingi não entender.

“Você entende mais de metáforas do que eu. Esse meu amigo se chama Roberto. Já foi casado duas vezes. Agora não quer mais saber de casamento, diz que prefere ser amante de alguma mulher, encontrá-la uma ou duas vezes na semana.”

“Qual a idade dele?”, perguntei.

“Uns quarenta e poucos?”

“Então, ele já decidiu, depois dos quarenta é difícil alguém mudar de ideia.”

“Acho que Roberto sempre foi assim, um paquerador inveterado. Diz que é melhor sair com uma mulher somente nos momentos em que ela consegue enganar o marido. Assim ele não se aborrece, e o amor dura mais.”

“Não sei se isso é bom, não. A pessoa tem que viver em função da outra, esperar que sua amante possa encontrá-lo.”

“Eu disse isso, mas ele respondeu: – quando isso acontece, saio sozinho e arranjo logo outra, ou ao menos uma para aquela noite.”

“E você, o que acha disso?”, provoquei.

“Oh, meu amor, se eu fosse partidário dessa teoria não teria me casado com você.”

“O que ele faz se não consegue ninguém, por exemplo, numa noite?”

“Diz que não liga, bebe uma bebida ou outra, bate papo com algum amigo, ou mesmo com alguém que conheceu naquele momento; depois, quando se sente cansado, vai embora dormir. Ele é muito simpático. Caso saia sozinho, logo arranja companhia. Conhece pessoas em todos os lugares a que vai.”

“Se ele se sente feliz assim, ótimo. Há pessoas que preferem ficar sozinhas. Há outras a quem a solidão atemoriza. Esse seu amigo parece ter essa questão bem resolvida.”

“Há homens que, quando sós, procuram prostitutas.”

“Mas essas mulheres não sabem conversar, não possuem nível cultural elevado”, falei.

“Isso é verdade. Mas quem as procura também não está interessado nessas coisas.”

“Não sei, mas caso eu fosse homem, acho que não me acostumaria com alguém que não tivesse uma boa conversa. Aproveitar o corpo é bom, mas não o suficiente. A não ser que, fora dali, se tenha outra pessoa com quem se possa travar um bom diálogo.”

“Você é uma escritora. Nunca conversei com você sobre essa questão. Mas acho que os escritores criam tantos personagens porque querem ter um mundo à sua volta.”

“Não é bem assim. Muita gente vem conversar comigo sobre isso, principalmente em entrevistas. Mas ninguém pensa que todos os personagens são muito sós e o escritor partilha essa solidão. Na verdade, a solidão de cada personagem é uma extensão da solidão do autor.”

“Jura?”, Joel parecia surpreso.

“Preciso jurar?”

“Nunca pensei que fosse assim.”

“O escritor carrega consigo sua solidão e a solidão de todos os personagens. Por mais que cada personagem diga que não é só, isso não é verdade. Assim como o homem de carne e osso, eles também são profundamente sós.”

“É bom ouvir você falar essas coisas, nunca tinha pensado sobre isso.”

“É bom a gente esquecer um pouco esse assunto, e aproveitar a noite”, falei.

O pequeno grupo voltara ao palco e tocava os primeiros acordes. Joel pegou a garrafa de vinho, colocou um pouco para mim e para si próprio. Aproximei-me de seu rosto e o beijei. Ele retribuiu. Ao redor, as pessoas pareciam gostar da música. Ninguém era só, naquela hora. A solidão sobrava apenas para o escritor. Veio-me à mente Rulfo, o escritor mexicano. A vida inteira sempre a melhorar os dois únicos livros que publicara. Acabaram por se tornar clássicos. Certa vez, numa entrevista, afirmou que escrevia para esquecer a solidão.

No dia seguinte, quinta feira, como Joel disse que precisava comprar roupas, fomos ao Shopping Leblon. Andamos por todos os andares e visitamos várias lojas. Queria a minha ajuda para escolher camisas e calças para ele. Lembrei minha amiga de adolescência que viera de longe para assistir a espetáculos teatrais no Rio. Eu encontrara com ela no mesmo shopping, só que já fazia muito tempo que ela havia partido.

Após as compras, paramos numa cafeteria. Pedimos dois expressos, uma água mineral com gás e um pedaço de bolo de laranja. Pedi à garçonete dois garfos, queria dividir o bolo com Joel. Foi engraçado, eu comia um pedaço e dava outro a ele; comia mais um e colocava outro na boquinha dele. Caímos na gargalhada várias vezes sem nos importar com as pessoas que passavam. Algumas nos olhavam achando aquilo muito divertido; outras não nos davam atenção alguma.

Nos Shoppings, há empregados para tudo. Reparei, enquanto ainda tomávamos café, uma ou duas funcionárias da conservação. Elas portavam um instrumento de limpeza que era seguro por um cabo, semelhante a uma vassoura, mas na extremidade sua ponta era fina e possuía uma espécie de esfregão. Elas olhavam o chão e passavam a tal ponta onde havia riscos ou algum objeto grudado. Uma delas aproximou-se de um homem de terno – tudo levava a crer que ele fosse um dos seguranças do local –, sorriu e começou a conversar com ele. O homem correspondeu ao sorriso e à conversa. Imaginei a relação que os dois teriam, ou poderiam vir a ter.

“Viu a Rosane por aí?”, perguntou a mulher.

“Hoje, ainda não.”

“Preciso falar com ela.”

“Se ela aparecer por aqui, aviso.”

Os dois deram alguns passos na direção da livraria.

“E aquele dia, hein, foi muito bom”, falou a mulher.

“Você gostou mesmo, não?”

“Melhor do que a gente ficar se arriscando por aqui.”

“Não há risco nenhum, mulher, sei onde ficam todas as câmeras. Elas não podem registrar a gente.”

“Fala sério, Arnaldo, foi melhor o lugar pra onde tu me levou, por isso toquei no assunto.”

“Se você gostou, melhor; vamos então sempre lá.”

“Sei que você gosta de me namorar em qualquer lugar. Diz que aqui é mais gostoso porque a gente não perde tempo.”

“Isso é verdade, você sabe. Tem vários lugares pra gente se abraçar. Pode ter certeza que a câmera não pega.”

“Mas, Arnaldo, prefiro numa cama, é mais confortável.”

“Tá certo, mulher, tá certo, vamos passar a ir sempre lá.”

“Vou andando, tenho que trabalhar.”

“Até mais, Isaura.”

Olhei para Joel. Ele estava batucando sobre a mesa com um dos dedos, acho que cantarolava em silêncio.

“Vamos?”, sugeri.

“Espere uma pouco, acho que vem o pianista aí”, apontou para o piano de calda que se localizava numa parte do salão.

“Será que haverá concerto às onze e trinta da manhã?”

“Quem sabe, aqui é Ipanema, ou Leblon, nem sei mais, tudo pode acontecer.”

Ri com ele, espichei o pescoço e dei-lhe um beijo.

Joel continuou a rir. Depois, ainda chamou a garçonete para pedir mais um café.

“Você não sabe como essas coisas de relacionamento amoroso podem ser engraçadas”, falou, “há uma história interessante contada por um amigo quando esteve num desses países asiáticos, não sei se na China, Índia, ou mesmo na Coreia, pode até ter acontecido em Singapura. Mas o que faz rir é o conteúdo da história. É sobre uma mulher que ficou verde.”

“Deve ser mentira, isso não é possível”, atalhei.

“Não discuto a veracidade, mas que é divertido não resta dúvida.”

“Então, conta, vai”, incentivei.

“Aconteceu com uma mulher ocidental. Era uma prostituta. Sabe como são as prostitutas em países asiáticos, não? Você escreve boas histórias sobre esses temas, deve pesquisar bem. Existem máfias que as controlam. E são levadas de países pobres, vivem uma boa vida por lá, mas precisam dar lucros a seus patrões. Essa era assim, fazia tudo direitinho. Até que chegou um homem de Angola. Ele possuía um vício muito delicado. Gostava que a mulher comesse chocolates enquanto trepava com ele.”

“Ela comeu chocolates e aí ficou verde?”, interrompi divertida.

“Não, espere, não foi bem assim, deixa eu contar, também gosto de narrar. Quando estava no país, o tal angolano saía com ela todos os dias. E pagava mais que os outros. Mas pedia para ela comer o chocolate que ele mesmo levava. Para ela não havia problema, acho que chegava a exclamar: – a  que gostosura!, e comia mais e mais. Até que ela começou a engordar. Seus chefes a chamaram e quiseram saber o motivo, pois já começavam a ter prejuízo. Ela não quis complicar a vida do angolano, disse apenas que ela mesma resolvera comer demais ultimamente. Eles, então, começaram a vigiá-la a todo momento. Pagaram para que fizesse exercícios, nutricionista e coisa e tal. Mas a mulher não emagrecia. Resolveram a partir daí investigar todos os homens com quem ela fazia programa. Descobriram, enfim, os chocolates do angolano. Foi então que, para não alterar a rotina, nem os ganhos que eles tinham com a frequência do homem, resolveram dar o chocolate que ele devia levar. Era um chocolate dietético. Daí em diante, a mulher começou a ficar verde.”

“Ela era alérgica ao chocolate dietético”, frisei.

“Isso, alérgica.”

“E como fizeram depois?”

“Acharam melhor mandar o angolano de volta para a África do que perder a mulher. Parece que de início ela sofreu, porque chegou a se apaixonar por ele, ou pelos chocolates, não sei bem, mas depois acostumou e voltou a ser o que era."

“Boa a história”, falei, “dá um bom conto, caso caia nas mãos de alguém com talento.”

“Entrego-a a ti, minha talentosa esposa”, e deu-me mais um beijo. Segurou então a pequena xícara que já o esperava fazia alguns minutos e sorveu o café.

Da nossa viagem, o que tenho a relatar é que vivemos dias maravilhosos. Passeamos por todos os locais turísticos da cidade, jantamos em vários restaurantes, comemos fondue e tomamos diversos vinhos. Escritores e escritoras normalmente não são reconhecidos, poucos são celebridades. Apesar de ver uma mulher com um livro meu nas mãos, hospedada no mesmo hotel em que estávamos, não fui reconhecida por ela. Até chegamos a conversar. Quando a encontrei em outro momento, ela lia aquele conto da mulher que se separa do marido porque ele quer fazer sexo com ela várias vezes por dia. Percebi que a mulher ria muito. Talvez em pensamento dissesse: “ai se fosse o meu marido, que beleza.” Alguns têm demais, outros de menos. Também é difícil encontrar aqueles que dão e que recebem na medida certa.

quinta-feira, junho 27, 2013

Se houvesse sol - 12

A carona me deixou em Ipanema, na praia, quase esquina com a Aníbal de Mendonça. Ao começar a atravessar a avenida, ouço meu nome. Volto ao passeio.

"Não lembra de mim?"

Era Mário, que eu conhecera na praia alguns dias atrás.

"Como ia esquecer? Você roubou o meu biquíni."

"Não quer ir lá em casa buscar", soltou o deboche.

"Fica para outra hora."

"Não vá embora assim tão rápido; é muita coincidência nos vermos de novo, tanto mais numa cidade com toda essa quantidade de gente."

"Estou cansada, preciso dormir um pouco."

"O que você faz na rua a essa hora da madrugada?"

"Não saí para levar o cachorro a passeio", sorri e o olhei de lado.

“Lógico que não, não vejo cão algum.”

"Gostei da frase de efeito."

"Você é escritora", falou.

"Eu?"

"Isso. Pesquisei sobre você."

"Oh, o Google, grande universidade."

"Você é do New York Times."

"O que é ser do New York Times? Bem, deixa pra lá."

"Você é uma mulher famosa e importante, também colabora com o New Yorker."

"Você quer conversar comigo, não? Então vamos para outro lugar. Não vou ficar aqui na rua, quase cinco da manhã."

"Outro lugar? Onde?"

"A um café, quero tomar um café", falei.

"Mas café a essa hora? Acho que não vamos encontrar."

"Caso você queira continuar ao meu lado, dou a sugestão, mas a conta fica com você."

"Qual a sugestão?"

"Café da manhã num desses hotéis", apontei ao Cesar Park, foi o único que consegui mostrar aquela hora.

Ele olhou, depois se voltou a mim.

"César Park?"

"Conhece outro? Não precisa ser tão luxuoso."

"Acho que sei", tomou-me um dos braços e atravessamos a Vieira Souto.

Entramos no Everest, na Prudente de Morais. Subimos um andar e encontramos o restaurante. Ainda era cedo. Um dos empregados veio nos avisar que tínhamos de esperar em torno de uma hora até começar o café da manhã.

"Não há problema", falei, "vamos aguardar.".

Sentamos numa mesa central. Em volta, alguns empregados preparavam as mesas com toalhas brancas e talheres. Um deles aproximou-se e perguntou se queríamos tomar um pouco do café que ele tinha para os empregados. Aceitei e agradeci. Esse pessoal que trabalha em hotel adora quando compartilhamos alguma coisa com eles. Significa que nós e eles não temos muitas diferenças. O rapaz trouxe duas xícaras, o bule com o café e um açucareiro.

"Você consegue tudo que quer, não é mesmo?" perguntou Mário.

"Quase tudo."

"Que bom, assim podemos conversar melhor. Fora os funcionários do hotel, não há ninguém aqui. E lá fora ainda está escuro."

"Sim, podemos conversar, mas estou exausta. Vim com você pelo café."

"Quer dizer que não veio por mim?"

"Bem, para ser sincera, estava louca para tomar café, você não imagina, depois de tudo que vivi essa noite. E esse aqui está ótimo. Esses rapazes fazem as coisas bem feitas quando é para eles."

"Caso você fosse escrever um episódio de romance, criaria uma cena assim, não é mesmo?"

"Por que a pergunta?"

"Você é uma escritora, mais conhecida no exterior do que aqui no Brasil. Onde poderia encontrar os seus livros?"

"Existem duas livrarias que os vendem aqui no Rio, depois escrevo o nome e endereço para você. Continue, por favor."

"Você tem cenas assim, à meia luz. Na madrugada. E seus personagens são cheios de vida."

"Você gostaria que eles estivessem mortos?", sorri, com fisionomia de deboche. Enquanto isso levei aos lábios mais um gole de café.

"Não quero dizer isso. É que eles parecem de verdade. Quero dizer, são de verdade."

"Todo escritor quer que seus personagens sejam verdadeiros. Caso você diga que eles não o são, o escritor ficará furioso com você. Lembra do Eça?"

"Eça?", pareceu não entender.

"Eça de Queirós."

"Ah, sim, já ouvi falar, acho que li alguma coisa dele no ensino médio."

"Machado de Assis escreveu uma crítica acusando seus personagens de marionetes. Eça de Queirós ficou furioso."

"É mesmo?", pareceu surpreso.

"Isso, mas já faz muito tempo. E então? A conversa começou com você falando sobre cenas criadas por mim...”

“Isso mesmo. Acho que nos seus livros há cenas assim, poderíamos dizer, cenas em semitons. São belas, talvez por isso você seja tão apreciada nos Estados Unidos.”

“Sou apreciada lá, porque foi onde comecei a publicar. Há também os portugueses, eles apreciam muito o que escrevo. Não nego que seja mais fácil fazer sucesso aqui quando se é reconhecida primeiro no exterior.”

Acabei de tomar o café. Olhei através do vidro de uma janela próxima e percebi que a noite se esvaía. Um empregado do hotel, em trajes de garçom, veio recolher o bule. “A senhora deseja mais alguma coisa?”

“Viemos para o café, agradecemos este que vocês trouxeram, acho que não vou esperar abrir o restaurante.”

“Dentro de vinte ou trinta minutos, o restaurante estará aberto, caso a senhora possa esperar...”

“Será que não há um pão ou uma torrada?”, perguntei.

“Há sim, vou trazer. A senhora aceita que seja pão ou torrada do café da manhã dos funcionários?”

“Aceito. As coisas feitas para vocês também são muito boas”, sorri.

“Vocês não devem saber, mas os funcionários têm direito a café da manhã, e também são muito exigentes.”

Meu acompanhante sorriu e disse depois que o homem retirou-se:

“Esses caras são muito espertinhos.”

“Você não acha que eles também têm direitos?”

“Mas por que não pagam o café com o salário deles?”

“Eles pagam, sim. Tudo que consomem está calculado na quantia que recebem. Nenhum patrão é bobo.”

“Como se deve fazer para se lançar um livro?”, perguntou Mário. Mudava o destino da conversa de novo.

“Vá a um lugar bem alto e o atire lá de cima.”

“Falo sério, quero lançar um livro.”

“E o que tem escrito?”

“Quer que eu mostre? Podemos marcar para nos encontrar.”

“Se você me quer ver mais vezes concordo, mas não me peça para ler originais.”

“Mas foi você que perguntou.”

“Perguntei no sentido de saber o gênero que você escreve.”

“Histórias policiais.”

“Bem inteligente você.”

“Por quê?”

“Trata-se de um gênero muito cultivado ultimamente e, ao mesmo tempo, requisitado pelas editoras.”

“É isso, mas não tenho editora.”

“Veja, caro amigo, você não tem editora; eu, muito mais tempo na estrada do que você, preciso escrever nos Estados Unidos da América para ser reconhecida no Brasil, preciso lançar meu primeiro livro em Portugal, e por uma editora desconhecida. Imagine.”

“Mas qual a fórmula?”

“Não há fórmulas. Escreva bastante, essa é a fórmula. Escreva bastante. Um dia, caso acredite realmente no que escreve, você conseguirá.”

“Foi assim que você conseguiu?”, quis ele saber.

“Mais ou menos. Ainda não consegui de todo, mas sei que daqui para frente não será difícil.”

“E há a internet”, falou com voz baixa, olhando como se estivesse distraído com um barulho lá na rua.

“É, há a internet. Antes, nada havia.”

“Você também escreve, ou escreveu, histórias eróticas”, apontou ainda sobre minha obra.

“As pessoas classificam assim. O que posso fazer? Escrevo sobre a vida. Vou contar um segredo, ouça. Você quer ser escritor de verdade, não? Então jamais esqueça o que vou dizer. Nós, escritores, na maioria das vezes, não temos ideia alguma sobre o que escrever. Muitos, por causa disso, se desesperam. Mas um verdadeiro escritor não deve desesperar-se. Caso aconteça com você de não ter ideias, crie dois personagens e os coloque a conversar, mesmo que a conversa seja sobre coisas banais. A partir disso, nascem grandes histórias.”

“Você é muito inteligente”, ele falou.

“Isso é um absurdo.”

“O quê? Achar você inteligente?”

“Não. É um absurdo eu estar aqui, perdendo tempo com você, e toda essa..."

O empregado do hotel voltou trazendo uma bandeja com vários pães abertos, um pote de manteiga e outro de geleia. Trouxe também talheres, renovou as xícaras e deixou um novo bule com café.

“Vamos comer”, falei e tomei nas mãos uma canoa de pão.

“Há mais verdade num pão com manteiga do que num romance de Shakespeare”, ele falou.

“Romance? Shakespeare não escreveu romance.”

“Não faz mal o que ele tenha escrito. Mas acho ainda assim o pão com manteiga mais verdadeiro.”

No final daquele café, o dia já ia claro. Interpelei Mário com seriedade.

“Você diz que quer ser escritor, não é verdade?”

“Verdade”, ainda engolia um último pedaço de pão.

“Escrever romances policiais, não?”

“Isso, policiais. Só não sei se os chamo de romance, novela ou contos.”

“Quanto a isso não importa, O que vale é que continue a escrever. Nunca pare, mesmo que você morra junto com os seus papéis.”

“Morrer com os meus papéis? Interessante a frase”, afirmou.

“Vou lhe dar uma missão. Quem sabe sirva de combustível para alguma história que você venha um dia contar. Preciso encontrar uma pessoa.” Falei então sobre Daniel. Pedi que o encontrasse para mim.”

“O que você vai me dar em troca?”, perguntou cheio de malícia.

“Quer pagamento pelo trabalho de detetive particular? O melhor trabalho é ter uma boa história. Mas talvez você mereça mais alguma coisa. Já que escreve histórias policiais, deve ter alguma habilidade.”

“Não precisa ser pagamento em dinheiro, você me entende, não?”

“Oh, como entendo! Vamos fazer assim. Caso você descubra algo que valha a pena, deixo que você me vista o biquíni.”

“Biquíni?”

“Isso mesmo. O que você me roubou”, levantei-me, beijei-lhe o rosto, deixei com ele meu cartão e desci as escadas em direção ao saguão do hotel.

quarta-feira, junho 26, 2013

Se houvesse sol - 11


Você, Chico, vai ser o homem mais feliz de todos

Estados Unidos suspendem ajuda militar à Coreia do Norte, morte de jovem reabre discussão sobre homofobia no Chile, Chaves volta à Venezuela após radioterapia em Cuba, emboscada contra comboio da OTAN no Afeganistão mata 20, cinco policiais são mortos em Ciudad Juarez, no México, OEA abre investigação sobre morte de Vladimir Herzog; as notícias na TV, sempre as notícias, e tem gente que pergunta por que assisto TV, por que o interesse por tantas notícias, pensam que sou idiota; a casa do Grapete fica do outro lado da rua, na verdade não é bem uma casa, mas uma construção irregular, incompleta, faz anos está no tijolo, Grapete vez ou outra aparece, o cabelo desgrenhado, cara de bêbado, dizem que já veio alguém da família pra levar ele pro hospital mas não conseguiu, Grapete deve ter bons argumentos, Grapete tem alguém pra pensar nele, Grapete tem quem diz ser da família dele; Odair passa de bicicleta, faz um aceno, sei que Odair tem pena de mim, mas não preciso da pena dele, estou sentado torto na cadeira, os pés cruzados, Odair sabe que não sinto os pés, sabe que minhas pernas são só figuração, ele pensa que sou meio retardado, que não entendo as coisas, nesse ponto Odair está errado, posso não falar, não articular palavras, mas entendo tudo, entendo e penso como ele, até melhor do que ele, Odair ganha dinheiro do movimento e pensa que sou bobo; a TV de novo, grande barulheira na sala a tarde inteira, a TV sempre ligada, e eu olhando a rua, se é que se pode dizer que isso é rua, que isso é bairro, isso é a favela, isso é a Malvina; dona Isaura passa, grita meu nome e também acena, dona Isaura já quis se passar por minha mãe, dona Isaura vinha me trazer comida, dona Isaura também é uma pessoa que tem pena de mim; ela diz Chico, vem comer um pirão, trouxe pra você, como vou comer pirão, d. Isaura?, tenho vontade de dizer mas não consigo, ela precisava trazer o pirão num prato, deixar no meu colo junto com uma colher, assim como o pirão, colher a colher, deixando sem querer o gotejo me lambuzar a camisa, como todo o pirão, dona Isaura grita olá, Chico, cadê a Maninha, dona Isaura não espera resposta, dobra o aceno e se vai; vem o menino da pipa, olha o céu, procura vento, procura pipas, vá estudar, Anderson, essa gente de hoje gosta de dar nomes difíceis aos filho, vá estudar, Anderson, quero gritar, mas só um grunhido, só a Maninha entende meus grunhidos, lá vai Anderson a olhar sempre o céu, cuidado com o chão, Anderson, cuidado com o chão, tu olha demais pro céu, se há alguma coisa lá?, sou eu quem sei?; Maninha saiu de manhã, Maninha ainda não voltou, Maninha talvez não volte, ou volte bem tarde, virá alguém pra empurrar a cadeira pra dentro, me deixar na sala, me por diante do aparelho de TV, depois irá embora, mas antes vai dizer nada de troça, Chico, nada de troça, vê, espera a Maninha, espera que a Maninha já vem, a Maninha ficou de cuidar de mim, cuida em troca da pensão do INSS, Maninha é legal, mas ela gosta mesmo é de mulher, no começo isso me incomodava, mas lá sei eu de mulher com mulher?, deixo as duas se esfregarem, elas pensam que eu não vejo, mas deixo as duas se agarrarem, a casa é pequena, Maninha geme, Maria Cláudia geme nos braços da Maninha, escuto esquecido na cadeira, mas finjo que não escuto, finjo que não vejo, Maninha tinha uma loja que vendia CDs, a loja ficava bem aqui do lado, mas o negócio não vingou, dizem que era ilegal, que a prefeitura não aprovou, mas onde fica a prefeitura pra ver as coisas daqui?, Maninha me olhava de perto, eu grunhia, ou esguichava a voz junto com uma gosma, ela vinha me acudir, mas Maninha e Maria Cláudia tiveram de fechar a loja de CDs, foram à vida, foram trabalhar noutro lugar, Maninha não fica mais aqui ao lado, ninguém fica ao lado, algum vizinho, alguém que passa dá um jeito na cadeira se desandei, me apruma, traz um copo d’água, já pra eu ir ao banheiro tenho de esperar Maninha voltar, quase não aguento, às vezes não aguento mesmo, ela volta e estou molhado, mal cheiroso, Maninha diz ainda não aprendeu, Chico, você não é mais criança, criança... não sou criança, não tenho pai, mas lembro dele, era quem me criava, quem cuidava de mim, mas sei que morreu, ninguém falou mas descobri, ele morreu, se tenho mãe?, todo mundo teve uma dia uma mãe, mas nunca vi, um dia ouvi alguém dizer, sempre escuto alguém dizer alguma coisa, ouvi que ela se foi quando nasci, quando descobriu o que eu era, o que eu seria dali pra frente, não teve coragem a minha mãe, mas não ponho culpa nela, vai ver teve razão, acho que as mães sempre têm razão; aqui perto tem um garoto, acho que ele tem futuro, ele não devia ter nascido aqui, não devia viver aqui, garoto muito inteligente, lê livro em dois dias, estuda, estuda muito, quero dizer a ele vá embora, não fique nesse lugar, aqui as pessoas não prestam, quem há de pensar em alguém?, só pobreza, pobreza e mais pobreza, os moradores com seu jeito de driblar a miséria, acho que se falasse como os outros eu não conseguiria dizer essa palavra, driblar, mas o garoto fica, vai à escola, volta e fica, quero perguntar por que voltou tão cedo, por que a escola hoje acabou ainda fresca a manhã, mas não consigo, sou bom só no pensar, falar que é bom nada, talvez melhor assim, fico quieto e não arranjo encrenca, mas o garoto sabe de mim, sabe tudo de mim, sei disso pelo seu jeito de me olhar, olha na certeza, deduz no faro, é algoz no pensamento, sabe que não posso falar mas não duvida, ele sabe o que eu penso, às vezes me pergunta alguma coisa, mexo então os olhos, respiro fundo, ele entende o que pensei, entende minha agonia, não vai com os outros meninos, não vai pro jogo de bola, às vezes algum deles quer me levar a cadeira até o campinho pra eu ver o jogo, mas ele não acompanha, antes Maninha deixava alguém me levar, mas surgiu alguma confusão, tiro pra lá, tiro pra cá, não sei se da parte da polícia ou da parte do pessoal do movimento, então Maninha achou melhor eu ficar, e o garoto sempre está a me rodear, é amigo, nada de histórias, ele não conta histórias, sabe que elas não podem me fazer melhorar, mas ele vem, vem mergulhado no silêncio, assim como vem vai, mas entendemos bem um ao outro, basta o olhar, às vezes quero desviar os olhos, afastar  o pensamento, sinto então que me acompanha, não me deixa, acho que um dia ele vai escrever minha agonia, sei o que é um câncer, não tenho câncer mas sei o que é, o garoto é capaz de descrever um câncer, toda a dor capaz de fazer um homem se contorcer até não poder mais, a grande agonia, sei que ele é capaz de falar disso, sei que ele é também capaz de descrever a minha dor, então olho os olhos dele mais uma vez, olhos que não perguntam, daí vejo que ele pode dizer o que não dá pra dizer, aquilo mais do lado de dentro, aquilo que não existe palavra pra representar, mas vem a mãe chamar o garoto, ele vai com ela, é uma simples doméstica, não tem instrução como o filho, tão inteligente, interessado em estudo, em livros; fico comigo, a TV lá nas alturas, a casa vazia, de novo notícias, depois histórias de pessoas felizes, pessoas que vivem num mundo cor de rosa, olho por cima do muro da pequena varanda, já anoitece, homens voltam do trabalho, outros vão, mulheres passam de um lado a outro, aumentam as pessoas que passam no lado de fora; Jéferson surge e tenta me colocar um cigarro na boca, fuma, vai fazer bem, fala, fuma, você vai relaxar, dou uma tragada mas não sinto nada de bom, apenas a fumaceira a me invadir os pulmões, a me dar enjoo, vou trazer pó pra você, vou buscar, você vai ser mais feliz, sei que Jeferson não pode fazer isso, o pó é caro e ele não tem nem pra si próprio, o sofrimento que ele sente não é meu, é dele, pensa como seria se estivesse no meu lugar, mas Jéferson sabe muito pouco de mim; Zilda vai passando, muitos falam das aventuras dessa mulher, mas é difícil dizer se é verdade o que falam sobre ela, quero acreditar, quero que tudo seja verdade mais pelo prazer de imaginar o que ela faz na cama com os homens, comigo sei que nunca vai acontecer de verdade, mas quem sabe na imaginação vai ser até melhor, ela vem andando devagar, da varanda vejo que sorri, sei que é tarde mas consigo ver seu rosto, aparência leve, sem preocupação, vira na minha direção, fala alguma coisa que não consigo escutar, lança um beijo, sorri, dá adeus e segue, quero retribuir, mas minhas mãos pesam, meu corpo treme, solto um guincho, acho que quase um relincho, mas ela não houve, não pode ouvir, já está longe, mergulhada nas sombras, ou sob as luzes de outros postes, a saia comprida esconde suas pernas, Zilda vai à praia sozinha, dizem, olha por trás dos óculos escuros todos os homens, não deixa que eles percebam, quando algum é de seu gosto sempre consegue um jeito pra ele vir até ela, não sei o  que conversam, nem como começa o assunto, mas ela puxa algum fio, vai tecendo, como aquela história de uma tal de Penélope, só que não espera, não precisa esperar, o fio é a conversa que vai enredando o homem, todos os homens, e de repente eles não podem mais se soltar, alguém comentou perto de mim um dia desses que ela gosta de pescar em silêncio, isso mesmo, pescar, é o que gosta mais de fazer, os homens sempre mordem a isca, ficam do lado dela, se falam ela pede silêncio, trepar no silêncio das horas, foi assim que alguém contou, assim é mais gostoso, ela lança os braços, não é um abraço de serpente, é um abraço de satisfação, depois deixa o pano que lhe envolve o corpo escorregar pro lado, deixa aparecer o que tem por baixo, então tudo se dá da melhor forma possível, sempre da melhor forma possível, fico a pensar no modo como ela faz pras outras pessoas que estão na praia não perceberem que ela vai tão à vontade, que está nua nas mãos de quem lhe dá prazer, nos braços daquele a quem resolveu se soltar, prefiro sempre pensar que tudo acontece favorável a ela, assim Zilda vai sentindo prazer, vai dando prazer aos homens, cada dia num ponto da praia, ela não cobra nada, não faz por dinheiro, mas por gosto, como é bom uma mulher que faz por gosto, um amigo por gosto, namorado por gosto, sexo por gosto, marido por gosto, nada em troca, apenas o gosto, o sexo como um doce, como um sorvete, Zilda já desapareceu faz tempo, já deve estar em casa, tomou banho, Zilda nua debaixo do chuveiro, Zilda em casa à vontade, como na praia, como nas mãos de seus amantes; já vai acho que dez da noite, o tempo esfriou, ainda estou na varanda, alguém me empurra pra dentro, alguém faz a cadeira andar três metros, mas não tem ninguém perto, Maninha ainda não chegou, Maninha ainda longe, Maria Claudia também, às vezes não chegam, não sei o que fazem as duas tão tarde por aí, antes tinha a loja de CDs, Maninha sempre perto, mas a loja de CDs fechou, a prefeitura disse que era ilegal; o vento alisa minha pele, vou fazer de conta que são os dedos de Zilda, ela voltou, ninguém pôde dar por ela, somente eu e Zilda, voltou e faz carinho nos meus braços, nos pelos dos meus braços, bem de leve; mas vem Zé Rufino pra atrapalhar, mais um do movimento, parece ser legal ele, todos parecem ser legais desde que seus interesses sejam os primeiros, Zé Rufino traz o sorriso nos lábios, mas é sorriso de Judas, pergunta quer que empurre pra dentro?, o tempo esfriou, vai pegar um resfriado, e cá pra nós, trouxe da boa pra você, o que a vida pode nos dar melhor que isso?, ele me leva pra dentro, coloca sobre a mesa a carreira branca, o papel laminado, o corpo da caneta, me empurra pra bem perto da mesa, põe uma das pontas da caneta quase dentro do meu nariz, funga , garoto, funga, você ta aí sozinho o dia inteiro, a noite inteira, funga, funga pra ter companhia, vejo Maninha surgir, ela vem toda iluminada, parece Nossa Senhora, tem a companhia de Maria Cláudia, elas vêm na minha direção, querem me beijar, as duas, mas elas param pelo caminho e se abraçam, se beijam, escuto então o som vindo da loja de CDs, escuto as músicas que Maninha dizia colocar pra mim, mas vira de costas, dá o braço a Maria Claudia e as duas vão embora, tudo vai se apagando, desaparecendo, a música que vem da loja de CDs vai diminuindo de volume, a loja de CDs faz tempo que fechou, ouço de novo o Zé Rufino, Chico, funga, funga de novo, Chico, vou trazer todo dia, você, Chico, vai ser o homem mais feliz de todos.

(Texto para New Yorker, abril de 2012) 

segunda-feira, junho 24, 2013

Se houvesse sol - 10

O táxi subiu uma estrada onde acredito jamais ter passado.

“Esse endereço que a senhora me deu fica na estrada que leva ao clube Costa Brava,” disse o motorista.

Saltei numa rua estreita de muitas casas em ambos os lados, mas eram casas distantes umas da outras. Algumas, quase cinematográficas. Nos anos 1960, a região fora muito badalada, as residências pertenciam a milionários que resolveram viver estilo de vida norte-americano.

Leila estava à minha espera, beijou-me mostrando imensa alegria. O local era guarnecido por homens de terno, via-se que se comunicavam entre si porque usavam fones e microfones embutidos. Subimos dois lances de escada e atravessamos um pequeno jardim. Leila mostrou-me a paisagem. Embora fosse tarde da noite, era possível apreciar a montanha de um lado e, de outro, um trecho do mar. Um vento moderado tornava o ambiente bastante fresco. Entramos num dos salões, havia estofados que rodeavam o local, algumas pessoas estavam sentadas, enquanto outras bebiam junto ao sofisticado bar. Alguém avisou que a música dali em diante seria ao vivo. Já se ouviam os primeiros acordes da pequena banda de jazz.

“Há também a parte descoberta, onde fica o terraço; a piscina está localizada atrás.”

Apesar de a iluminação ser baixa, permitia reparar homens e mulheres, jovens na maioria. Leila sorria para as pessoas. Todos cumprimentavam-me como se eu fosse velha conhecida. Comecei a gostar do ambiente.

“Fique à vontade, não vou poder dar atenção a você o tempo todo, mas sei que não vai se incomodar”, falou e foi buscar uma bebida. Trouxe dois copos altos, continham tequila misturada com frutas, a bebida da moda. “Aqui há gente para todos os gostos”, continuou, “para dançar, conversar, namorar etc., basta procurar.”

“Leila, é sua amiga?”, perguntou um homem de meia idade.

“Sim, esta é Célia”, falou Leila apontando-me e virando-se a ele.

“Muito prazer, Leonardo.”

“O prazer é todo meu.”

“Vamos para a varanda”, convidou.

Enquanto atravessávamos a sala em direção à parte descoberta da casa, Leila desapareceu entre seus amigos. Leonardo começou a falar sobre o trabalho que fazia na TV. Um amigo parou diante dele e lhe ofereceu cigarro. Não era um cigarro comum, mas cigarro de maconha. Ele aceitou de bom grado, acendeu, deu dois tragos, fez que ia devolver mas lembrou-se de mim. Estendeu a mão e me ofereceu. Não recusei, tomei o estreito cigarro entre meus dedos, sorvi-o também duas vezes e o devolvi ao primeiro homem, que esperava.

“Maravilhado com a senhorita”, falou e pediu licença.

“Figuraça esse aí que trouxe a cannabis”, sorriu,

Passei a ouvir tudo o que Leonardo contava, mas não revelei minha identidade nem disse em que trabalhava. Ele teve a educação de não fazer perguntas a respeito. A conversa entrou pela filosofia. Começou a contar sobre uma peça recente que abordava a vida de Spinoza.

“Já ouviu falar de Spinoza?”, perguntou.

“Já, mas não sou especialista em filosofia”, respondi.

“Não digo Spinoza, o filósofo, mas a peça.”

“Não, também não estou a par.”

“Maravilhosa, não deixe de assistir, é o melhor papel do Zé Augusto. Por falar nele, ficou de passar por aqui.”

“A peça trata do Spinoza filósofo?”, perguntei.

“Oh, sim, e trata de filosofia, mas de forma amena. Sabe como são as peças de hoje, todas voltadas para o grande público. Caso se encene um assunto difícil, o fiasco é total. Não é possível montar espetáculos apenas para eruditos.”

“O que mais se destaca nessa montagem?”, comecei a mostrar curiosidade.

“A atuação do Zé Augusto. Isso é ponto pacífico.”

“O que mais?”, insisti.

“A Holanda da época, a tolerância religiosa, embora os judeus do período não tenham tolerado Spinoza.”

“A direção consegue recriar a Holanda de Spinoza, no palco?”

“Consegue, mas não é uma superprodução teatral, há na montagem muita sugestão. E é um mundo que já preconiza o futuro, o presente que vivemos, compreende?”

“Compreendo.”

“Não deixe de ir, é espetacular.”

Uma mulher loura veio sentar-se junto a nós.

“Esta é Tânia”, apresentou a amiga. “Como você se chama mesmo?”

“Célia, muito prazer”, disse e me apresentei à amiga.

“Tânia, estava falando a ela sobre Spinoza, a peça teatral, você também não a achou ótima?”

“Ah, Spinoza, sim, muito boa.”

“E o Zé Augusto, já chegou?”

“Parece que telefonou, está chegando, todos querem congratulá-lo.”

“Então”, Leonardo voltou-se para mim, “é uma unanimidade.”

“Léo”, chamou Tânia, “a Mércia também está para chegar, e disse que vem como atua na peça.”

“Mas ela, no espetáculo, aparece o tempo todo nua!”, arregalou os olhos depois da exclamação.

“Portanto, há de se esperar que ela venha pelada”, Tânia fez fisionomia de que dizia algo óbvio.

“Mas, como, nua? Vai vir de Copacabana até aqui sem roupa alguma?”, Leonardo mostrava-se estupefato.

“Pelada, sim. Mércia gosta de aparecer, você já sabe, não?”

“Gosta, gosta muito, e não é a primeira vez que ela aparece nua numa festa. No começo da carreira fez a mesma coisa.”

“O que há de mais numa mulher nua?”, interrompi a estupefação de ambos.

“Na verdade, nada”, disse o homem, “você tem toda a razão. Não há nada de extraordinário numa mulher nua, tanto mais quando se trata da Mércia”, proferiu Leonardo.

“Spinoza é aquele da ética, você sabe?”, interferiu Tânia.

“A ética é sobre o que as pessoas mais falam na filosofia dele, mas Spinoza escreveu também sobre outras coisas muito interessantes”, falei.

“Você entende de filosofia?”, perguntou a mulher.

Naquele momento a música tornou-se extremamente barulhenta lá dentro, as pessoas começaram a gritar, festejavam algo, alguma coisa que parecia imperdível. Tanto Leonardo como Tânia levantaram-se sem pedir licença e correram para o salão. Fiquei sem dar a minha resposta sobre Spinoza, o filósofo. Mas, na verdade, eles não estavam interessados nisso.

Como todos se deslocaram para o salão onde estavam os músicos, senti curiosidade e acompanhei as demais pessoas. Muitos convidados estavam à minha frente, mas com jeitinho consegui aproximar-me. Todos começaram a gritar o nome do ator, o homem que atuava na peça Spinoza. Ao mesmo tempo, apareceu uma mulher inteiramente nua, cobria a sua cabeça um chapéu enorme. Seu corpo estava quase todo prateado, e onde deveriam estar seus pelos púbicos havia o núcleo de um cometa pintado em dourado, a cauda do corpo celeste subia até um dos seios da atriz. Mércia não era alta, mas um sapato de salto muito avantajado aumentava-lhe a estatura.

Alguém, de repente, bradou vivas ao ator; depois, à atriz. Espocaram-se rolhas de garrafas de espumante. Zé Augusto e Mércia foram carregados e atirados ao ar. Em relação à atriz, o cuidado era redobrado, pois não lhe queriam estragar a fantasia.

Quando a exaltação amainou, formaram-se grupos. O ator e a atriz principais ficaram no centro dos dois grupos constituídos por outros atores e convidados. Alguém gritou:

“Um brinde a Zé Augusto, um brinde a Mércia, um brinde a Spinoza, um brinde à ética!” Todos gritaram com entusiasmo e beberam mais um copo de champanha.

 Depois da algazarra, as pessoas ainda disputaram durante algum tempo a permanência próxima a Zé Augusto e à Mércia. Voltei ao terraço, encontrei Leila durante curto espaço de tempo com quem troquei algumas palavras. A seguir reapareceu Leonardo, que procurou reatar o assunto que conversava comigo antes da chegada do casal de atores.

A tequila voltou a circular, misturada ou pura, vinha servida pelos garçons. Meu recente amigo pegou dois copos e ofereceu-me um sem que eu pedisse. Brindamos novamente os dois e bebemos alguns goles.

Enfim, perguntou qual era o meu ramo de trabalho. Eu não quis falar sobre o que fazia, disse apenas que vendia a jornais alguns artigos sobre cultura.

“Interessante”, respondeu, “mas onde saem seus artigos?”

Já tinha preparada a resposta. Como tinha uma amiga na Folha de São Paulo, chutei que publicava alguma coisa no caderno “Ilustrada”, e que conseguira colocar uma matéria também na Folha, mas na edição dominical. De início senti algum receio, porque, como se tratava de profissional de TV, provavelmente era pessoa que lia todos os jornais. Qual não foi minha surpresa ao ouvir dele:

“Ultimamente não tenho olhos para jornais Temos tanto trabalho na TV, que chego em casa exausto.”

Silenciei. Pude constatar a minha teoria de que a TV jamais levará as pessoas a algum lugar. A conversa com Leonardo mostrou-se improdutiva. Se ao menos ele desejasse conversar sobre assuntos fugazes, seria bem melhor. Mas seu constante esforço para aparentar erudição provocava efeito contrário. Cada vez que começava a falar sobre algum autor, ou mesmo sobre determinada montagem teatral, apenas observações medíocres saíam de sua boca. Quando a pequena banda voltou a tocar, levantei-me e pedi licença. Aleguei que queria estar próxima dos músicos. O homem ficou para trás e se perdeu no meio de seus próprios amigos. Que também não se mostravam muito diferentes dele.

Reparei, no salão principal, um jovem que me olhava. Depois de alguns minutos, ao observar que lhe correspondera o olhar, veio apresentar-se.

“Meu nome é Jaime, como você se chama?”, quis saber. Sua fisionomia demonstrava real interesse.

“Célia, muito prazer.”

Ele tomou-me pelo ombro e me conduziu ao meio do salão. As pessoas dançavam de rosto colado, como se fosse possível dançar um blues. Mas o acompanhei e não deixei de tirar proveito de sua afetividade.

“Vim a essa festa, mas conheço poucas pessoas”, falou bem junto do meu ouvido, temendo que o som da música impedisse-me de ouvi-lo.

“Não me diga que você é um penetra.”

“Penetra? Nem pensar. Além de eles serem muito vigilantes com a entrada de convidados, eu morreria de vergonha caso fosse descoberto.”

Ri de suas palavras. Jaime acompanhou-me na risada.

“Você sabe poemas de Fernando Pessoa?”, perguntou-me de repente.

“Alguns, mas não sou tão boa de memória. Leio Pessoa, mas olhando nos livros."

“Tenho um livro dele aqui comigo”, falou fingindo que tiraria o livro de um dos bolsos. “Assim que sairmos deste salão, vamos até a varanda. Lá a gente toma alguma coisa e lê alguns poemas”, sugeriu.

A música cessou por alguns instantes, tempo suficiente para ele me tomar por um dos braços e arrastar-me para a varanda. Tirou o exemplar do bolso, abriu-o e procurou o primeiro poema:

Os Deuses vendem quando dão.
Compraze a glória com desgraça.
Ai dos infelizes, porque são
Só o que passa!

Depois de enfatizar e parecer se deleitar com a última estrofe, partiu para o poema seguinte:

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo.

Tentava dar à voz um tipo de contracanto à música que vinha lá de dentro. Como não queria gritar, criava aquele efeito teatral em que o ator apenas simula a voz num tom mais alto.

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.

Aí, mencionou:

Há metafísica bastante em não pensar em nada...

“O poeta da verdadeira metafísica, Alberto Caeiro.”

Eu ouvia-o com interesse. O rapaz declamava bem os poemas. Em algum momento, reparei que outras pessoas também prestavam atenção nele. Quando acabou, houve quem o aplaudisse.

“É o maior poeta da nossa língua”, exclamou Jaime.

“Mais do que Camões?”, arrisquei.

“Camões é de outro tempo, é de um mundo que não mais existe, compará-lo com qualquer outro só traz dificuldades.”

“Então você admite a grandiosidade do poeta seiscentista”, afirmei.

“Admito, é claro, e posso dizer que você faz boas observações.”

“Estou no senso comum”, sorri para ele.

Reparei que me olhava de modo enternecedor, depois falou:

“Você é muito sensível, além disso, é bonita.”

“É o que todos falam.”

“Não acredita?”, fez cara de curioso.

“Acredito. Tanto é verdade que os homens estão sempre a me desejar.”

Riu alto e logo após silenciou, parecia ouvir algo distante.

“Podíamos ir para um lugar mais tranquilo, conversaríamos melhor e mais à vontade”, falou.

“Não agora, tenho uma amiga, acho que seria desfeita caso eu meu retirasse.”

“Não, por favor, não sugiro que deixemos a festa agora, mas que nos encontremos qualquer dia desses para podermos ler Pessoa de modo mais intenso.”

“Ah, sim, compreendo, acho ótimo.”

Passava um garçom com várias taças de tequila, Jaime pegou duas e me ofereceu uma.

“Há um lugar mais silenciosa, outro terraço, vamos até lá”, fez mais uma sugestão.

“Outro terraço?”

“Outro, a casa é cheia de surpresas”, acrescentou.

“Será que outras pessoas já não estão lá?”

“Não creio, é um lugar afastado, entre as árvores que ficam além da piscina.”

Apesar de já saber até onde iam suas intenções, aceitei o convite. Mas ao chegarmos lá, uma surpresa, havia uma garota nua nos braços de um rapaz. Eles fizeram de conta que não nos viram e pareceram não se incomodar com a nossa presença. Jaime olhou além dos muros da casa e mostrou um ponto perdido no mar, fácil de apreciar do local. Depois não demorou a beijar-me. Acabei por aceitar parte de seu carinho. Digo parte porque também começou a me querer tirar a roupa. Segurei suas mãos e dei-lhe um beijo. Fechei os olhos abraçada a ele, sem deixar que avançasse.

“Sabe, há certo exercício que me excita bastante”, falou, mantendo-se agarrado a mim.

“Exercício?”, estava eu a demonstrar interesse.

“É um tipo que ioga que provoca excitação.”

“Como é?”, ainda não o soltara.

“Você precisa deitar e usar a imaginação. Primeiro movimenta energias pelo corpo, depois a concentra nos órgãos sexuais. Caso a pessoa leve essa prática a sério, é capaz de chegar ao orgasmo apenas por meio do pensamento.”

“Jura?”

“Juro. E há quem consiga na primeira vez.”

“Se isso for verdade, todos os problemas estão resolvidos”, arrisquei.

“Você acha? Por quê?”

“Ninguém mais estará sozinho, e já não se precisará de um 'outro'. Em contrapartida, viveremos um constante tipo de morte. Estaremos sempre deitados a gozar com a imaginação.”

“Se você se satisfaz assim, por que, neste caso, precisará na verdade de um 'outro'?”

“Não falo neste caso”, afirmei, “mas em todos os casos. A humanidade entrará em decadência. Será como uma droga que nos contagiará a todos.”

“Não seja tão trágica, trata-se apenas de um exercício sexual. Você não que treinar? Com o jeito que você tem, é capaz de logo conseguir.”

“Você será o meu instrutor?”

“Sim”, respondeu com convicção.

“Só não me peça para tirar a roupa, por favor.”

“Não, não precisa. Basta que você se deite e siga o que vou sussurrar no seu ouvido.”

A partir daí se seguiu um fato engraçadíssimo. A garota nua que estava havia longo tempo a namorar o rapaz ouviu as palavras de Jaime, aproximou-se e perguntou se também poderia participar da experiência. Ele não se surpreendeu, respondeu que sim.

“Conheço um lugar mais reservado onde poderemos ficar sem que ninguém nos incomode”, falou a mulher. “Desculpe pela intromissão e por não me ter apresentado a vocês, me chamo Ana e o nome dele é João.”

“Muito prazer, Célia”, depois Jaime falou seu nome.

“Vamos, então?”, convidou-nos e se pôs a caminho por uma trilha entre as árvores do jardim.

Nos fundo, onde o terreno beirava um muro, deparamo-nos com uma minúscula casa. A porta não estava trancada, e parecia que ela sabia disso. Ana girou a maçaneta e convidou-nos a entrar. Era um quarto rústico. Numa das extremidades, vi a pequena cozinha, um fogão antigo e um botijão de gás. Ao lado, ficava o banheiro. No quarto, apenas uma cama de casal e um armário antigo completavam o ambiente.  Ela mesma tocou no interruptor, uma luz fraca acendeu-se.

“Não se preocupe, este lugar era a moradia de um casal que faz muito tempo partiu para o interior de Minas, eram caseiros aqui”, informou Ana.

Logo em seguida deitou-se na cama e  pediu a Jaime que começasse a experiência.

“Célia, não vai participar também?”

Olhei a mulher nua sobre a cama, olhei para Jaime, fiz um gesto de indefinição.

“Deite ao lado dela.”

O homem que estivera com ela até ali, dirigiu-se a nós e disse: “vou até o salão pegar alguma coisa para beber, volto já”, abriu a porta e desapareceu na escuridão que envolvia o jardim.

O rapaz começou o seu trabalho. De início, fez que relaxássemos até quase não sentirmos mais o corpo. Depois, instigou-nos a movimentar nossas energias internas. Pedia que juntássemos essas energias sobre a cabeça e começássemos a movê-las da cabeça aos pés, cada vez de modo mais rápido. Confesso que tais movimentos, caso feitos com seriedade, deixará alguns rastros no corpo, como sensações diversas. Portanto, ao direcionar toda essa energia a pontos específicos do corpo, foi-me possível sentir de modo mais intenso sua atuação. Ela tornou-se tanto maior, quando dirigida aos órgãos genitais. Daí em diante não consegui avançar, mas Ana começou a ter reações estranhas.

“Agora vocês estão sentindo muita excitação. Em pouco tempo estarão transbordantes de prazer, serão capazes de atingir o orgasmo sem ninguém tocar seus corpos. Ouçam, é como um copo que se vai pouco a pouco enchendo”, continuava Jaime muito sério, “no ponto em que começa a transbordar, é o momento do gozo. Vocês já estão quase lá. Pensem em algo capaz de provocar tesão em vocês. Cada um de nós sabe de algo ou de alguma situação que nos provoca o princípio do prazer, pensem nisso, concentrem-se, então faltará pouco. Agora, o copo já se encontra quase cheio, vocês estão chegando lá, em alguns segundos atingirão o ponto máximo." Nesse momento, Ana começou a gritar desesperada.

“Estou gozando, estou gozando, acho que não preciso mais de homem algum, nunca mais, é o gozo máximo, nunca senti nada igual, estou gozando, gozando, é interminável, por favor, me deixem sozinha, saiam”, ordenava apenas com a voz, sem mexer o corpo, “saiam”.

Levantei-me e corri dali. Não esperei por Jaime. Atravessei o jardim, passei pela piscina e encontrei um garçom com a bandeja cheia de taças de champanha. Peguei uma delas e caminhei até o outro extremo do salão. A banda ainda tocava, mas naquele momento bossa nova. Encontrei Leila, beijava na boca um amigo. Ela sorriu para mim. Caminhei até a varanda, reparei que algumas pessoas já deixavam a festa, eram quatro da manhã.

“Alguém vai para Ipanema?”, perguntou um homem de terno.

“Eu”, gritei de longe. Corri e entrei no automóvel. No banco traseiro havia mais duas mulheres. Uma delas era a atriz que chegara nua. Reconheci-a pela pintura sobre o corpo, mas vestia uma camisa comprida sobre a pele. Sorriu e cumprimentou-me. O motorista deu a partida.