terça-feira, novembro 24, 2015

Titia nua

Já falei sobre o corpo mignon que muitas mulheres apresentam. Não apenas as jovens, mas também as que já se adiantam nos anos. Vistas por trás, muitos homens pensam que elas navegam na maré dos vinte e poucos, às vezes acham que ainda não completaram dezoito. Ao vê-las pela frente, no entanto, percebem o ligeiro equívoco. Mas a vontade de estar com elas, para a maioria, não diminui, tanto mais a pele nas pernas e nos braços esticadinhas. Nada de estrias nem rugas. Não quero me autopromover ao me incluir neste grupo. Já não sou jovem, porém jovial e, pelas costas, muitos acham que sou uma garotinha. Mesmo que descubram a verdade, não abandonam a paquera, principalmente se estou na praia. Meu biquíni é uma coisinha à toa. Outro dia enquanto caminhava no calçadão me acendeu uma nova chama. É que conheci um jovem. Isso mesmo, um jovem. Olhei bem nos seus olhos e falei:

“Você tem certeza de que deseja namorar comigo?”

“Sim”, respondeu sucinto.

“Ok”, dei o aval.

Passeamos de mãos dadas.

“Esse seu vestidinho é cheio de charme”, reparou.

“Não é um vestidinho, é uma saidinha de praia. Você gosta porque é curto, não?”

“Isso mesmo. E em você fica uma delícia”, ressaltou.

“Delícia?, não sou sorvete”, adverti.

“Quem sabe”, sorriu. “Gosto de morder a casquinha.”

“Não tem casquinha, não”, revidei, “só creme.”

Ele de repente ficou louquinho.

“Não tem casquinha, como assim?”, quis certificar.

“Todo na pele, direto.”

Lá veio ele querendo um canto escondidinho para roçar por baixo do meu vestido.

“Calma”, alertei, “vamos devagar.”

E ele continuando louquinho.

“Você quer deixar a titia peladinha?”, acendi-o mais.

“Sim”, sucinto de novo.

“Vamos primeiro tomar água de coco", sugeri.

Sem que ele nada retrucasse, sentei à mesa do quiosque próximo. O empregado logo nos atendeu. Ao saborear a água, observei o mar, estava calmo, mas poucas pessoas se aventuravam ao mergulho.

"Você parece uma pessoa muito tranquila", ele disse. Naquele momento, seus impulsos haviam arrefecidos.

"Gosto de admirar a paisagem, gosto de saborear nossos frutos", sorri após a última palavra.

"Acho você muito atrevida."

"Ah, provocação, os homens adoram."

Ficamos em silêncio durante um ou dois minutos. Meu jovem enamorado mostrou-se como o tipo de pessoa que não começa um diálogo; espera o assunto, para depois falar alguma coisa.

"Você mora com seus pais?", perguntei.

"Apenas com meu pai, não tenho mãe", falou meio sem jeito.

"Convida as garotas para o apartamento?"

"As vezes sim, mas hoje está lá a faxineira. E você, vive só?”

"Como posso viver só se tenho mil namorados?", falei e caímos na gargalhada.

"Será que me convida a ir à sua casa?", insinuou.

"Sim, mas a praia está tão boa, que tal aproveitarmos?"

"É boa a ideia", completou.

“Tenho uma sugestão interessante.”

"Qual?", ele, curioso.

“No começo da praia, vista da pedra do Arpoador a paisagem é linda.”

Caminhamos até lá. Misturamo-nos às pessoas que passeavam pela orla. Ao subirmos a primeira pedra, apontei  na direção de toda a extensão de areia.

"Veja, que bonito, acho que não há outro lugar assim."

Ele olhou, mas nada comentou, para ele era a mais comum das paisagens. O rapaz tinha o olhar dos jovens que, na maioria das vezes, persegue apenas os instintos. Comprova o que digo sua ação seguinte, me abraçou demoradamente.

Descobrimos, em meio às pedras, uma espécie de caverna. Ficamos então invisíveis a olhos alheios.

“Você vai tirar o vestidinho?”, ansiava.

“Só se você fechar os olhos”, fingi rubor.

Assim foi feito. Meu corpo mignon em suas mãos. 

Como com todo jovem, pude sentir o amor fresco. Mas também como acontece a quase todos os jovens, ele não era um bom amante.

Mesmo assim, aceitei outro convite seu, quando me telefonou dias depois.

“Mas não pode levar meu vestidinho como lembrança, viu? Onde já se viu, deixar a titia peladinha...”

Como sou escolada em brincadeiras desse tipo, na verdade brincadeiras juvenis, acabo incentivando os garotos. Eles adoram. Depois de me conhecerem, não querem outra vida. E sou eu que preciso fugir quando se apaixonam.

quarta-feira, novembro 18, 2015

Onde deixei o biquíni?

Olhou-se no espelho, aprumou o tronco, exibiu-se movendo-se para esquerda e para a direita, reparou a barriga, sempre achou que tinha barriga, inspirou e manteve presa por alguns segundos a respiração, exibiu de novo o tórax girando o corpo em um ângulo de quarenta e cinco graus, esquerda e direita, depois soltou o ar, mas mantendo o tanto que achava de barriga para dentro, tentaria segurar a postura, o teste das areias da praia, ele sempre acabava por revelar o corpo das mulheres. Fechou a porta do armário onde estava o espelho e permaneceu ainda nua. Caminhou através de um pequeno corredor e chegou à sala, tinha deixado o vestido sobre uma das poltronas. Sempre desorganizada, vestidos sobre sofás e poltronas; de um dia a outro, as roupas a esperavam. Olhou a janela, o vidro transparente permitia o panorama dos outros prédios. Tantos os vizinhos, será que esperavam que ela aparecesse para observá-la? Sempre ia nua até a sala, sempre a procurar pelos vestidos, pelos panos que envolviam seu corpo. Nesta manhã quero a canga lilás, onde a canga lilás? Duas ou três estavam umas sobre as outra, a lilás era a terceira. Tempo suficiente para ser vista pelo homem no outro prédio, vai ver ele já tinha uma foto dela, a tecnologia, os apartamentos tão próximos. Envolveu o corpo no pano, enfiou uma das pontas dentro do próprio pano, na altura dos seios, apertou bem. Tomaria o café e sairia, o sol e o mar a esperavam . Mas tinha ainda de vestir o biquíni, lógico que não esqueceria. Lembrou de um namorado de outros tempos, sempre as lembranças, sentia prazer com as lembranças, o tal namorado a queria nua, incentivou-a a tomar banho de mar nua. Como vou ficar nua com tanta gente em volta? Acharam a saída, ela enrolaria o corpo na canga, nada mais sobre a pele, depois foram a um bar, desses de mesinhas no calçamento, e ela pediu uma caipivodca.  Depois de dois ou três goles o prazer foi maior. Não sabia que era tão gostoso, falou ao namorado. A bebida?, ele. Não, o corpo, estou toda arrepiada. Outra lembrança boa era a do chapéu de abas largas, tipo mexicano. Era época em que muitas mulheres faziam topless na praia, e ela não ficaria para trás. O chapéu, na verdade, também servia para cobrir a cabeça; ela, porém, mais o usava para cobrir os seios. O top guardado dentro da bolsa de palha e o chapéu sempre numa das mãos. Até que um menino lhe esbarrou o braço e voou o tal chapéu. Os seios, nus, e uma pontinha de vexo. Não demorou a aparecer um cavalheiro trazendo-lhe o sombrero de volta. Resultado, os seios sensuais disfarçados e um novo namorado. Duas lembranças para a manhã que começava já eram suficientes. Tomou o café. Agora o biquíni, onde deixara o biquíni? Pôs-se a procurar as duas peças.

quarta-feira, novembro 11, 2015

Desta vez ninguém falou

No fundo mesmo, ela se julgava uma deusa. Toda iluminada, toda medida pelas duas horas. Isso tudo porque ele lhe telefonara e dissera que sentia saudades. Após colocar o telefone sobre a mesinha lateral, Lorena espreguiçou-se na poltrona, chegou a dar um bocejo. Ah, as deusas não bocejam, demonstram sempre beleza e só possuem virtudes. Bocejar não era uma virtude. Recompôs-se e meteu-se a pensar como faria para tornar-se deusa, ou ao menos aparentar. Vieram-lhe à mente algumas gravuras das deusas gregas ou romanas. Lorena, na verdade, não sabia distingui-las, repetia um lugar comum: no fundo eram as mesmas. A única coisa que sabia era que andavam nuas! As deusas gregas eram ousadas, mostravam o corpo. Se algo cobria suas partes íntimas, fora obra da mão titubeante de algum pintor ou escultor um tanto mais casto. Lorena levantou-se, caminhou até o quarto e olhou-se no espelho do guarda-roupas. Não era gorda, mas estava um pouquinho esbelta, assim como as deusas gregas. Elas não eram magras, afinal não havia naquela época esse negócio de as meninas quererem ser modelos. A única modelo foi Penélope. Mas Penélope não foi deusa, foi esposa, modelo de esposa. Lorena tentou tirar da cabeça toda a mitologia antiga. Ainda que pensasse nos gregos, era pouco versada neles. Olhou-se no espelho mais uma vez, colocou-se de perfil. Não se via barriga alguma, e isso era bom, pelo menos enquanto estava vestida. Caso tirasse a roupa, precisaria encolher um pouco a barriguinha. Quando ia à praia, tinha de se esforçar, não era fácil permanecer o tempo todo de barriga encolhida. Levantou a blusa e conferiu melhor o corpo. Na praia, deitava numa cadeira e relaxava, desse modo era mais fácil manter a elegância. Lembrou-se de um namorado que tivera. Não passara tanto tempo assim. Ele era mais velho que ela, bem mais velho, entrava pelos sessenta, talvez sessenta e cinco. Achava-a também uma deusa. Ela fazia uma bagunça terrível com o homem, não o deixava em paz. E ele a queria nua. Se pudesse a levaria para passear nua. Qualquer dia desses roubam-me de ti, ela assegurou. Ele sorriu, sabia da mercadoria valiosa. Isso mesmo, mercadoria. Lorena, no entanto, não gostava de ser mercadoria. O homem esbanjava em compras, dava à namorada tudo o que ela pedia. Outra não teria renunciado ao namoro. Veio um dia o que Lorena achou que seria o verdadeiro amor. Ela era mulher que viera de um  lugarejo, era simplória em relação a essas coisas, acreditava de verdade no amor. E o amor a levou do tal senhor. Passaram-se dois meses e ambos, ela e o amor verdadeiro, marcharam, um para cada lado. Lorena não teve coragem de voltar para o namorado anterior, o velho, como ela dizia a si enquanto pensava nele. E o homem do telefone, o que a chamara de deusa? Este nem a vira nua. Ou melhor, ainda nada houvera entre os dois, apenas conversa, e quase todas pelo  telefone. O homem era muito ocupado. Lorena lembrou da amiga levada que paquerava e transava com quase todos que a admiravam. Lorena, porém, era recatada, demorava-se para deitar com alguém. O homem, ocupado; ela, recatada. Por isso ainda não haviam se aproximado. Quem sabe fosse casado. Mas ela nada perguntaria, aproveitaria, isto sim. Será que conseguiria? Foi isso que lhe ensinara a amiga levada, tão levada que contara ter já viajado nua num ônibus. Lorena ficou a pensar como uma mulher poderia viajar nua num ônibus. Ninguém reparou?, fez a pergunta. A amiga levada apenas sorriu. Eram quatro da manhã, respondeu. Lorena imaginou a amiga como única passageira, nada mais, porém, falou. As pessoas mentem muito, refletiu, e esta bem que pode ser uma boa ficcionista. O telefone tocou novamente. Lorena correu à sala e o atendeu. Esperou alguns segundos, disse alô mais duas vezes. Seria o homem que a chamou de deusa? Seria a amiga namoradeira nua pela cidade a lhe querer contar mais uma de suas aventuras? Lorena pensou, esperou pela voz que poderia vir do outro lado da linha. Mas, desta vez, ninguém falou. 

quarta-feira, novembro 04, 2015

Só todos aqueles trastes

Alô, quem?, Glória? Olá, como vai?, quanto tempo. Quais as novidades? Tudo bem. Quem? Ah, por favor, não me fale no Antônio, não quero ouvir falar no nome dele. Por quê?, Ora, Glória, você sabe, namorei ele, vivi com ele por aquele tempo todo, mas não deu, terminei. Ele era bom, atencioso, legal, mas não sei, cansei, sabe? O quê? Ele deixou com você uma encomenda pra mim? Fala sério, Glória. Então, quer dizer que você está me telefonando pra isso? Não, claro, compreendo, você queria conversar comigo e aproveitou a oportunidade. Mas que encomenda é essa? Não abriu? Parece um tecido? Jura? Pode abrir, sim, abre e me fala o que é. Sim, aguardo, mas não demora, tenho de ir à ginástica. Isso, estou em forma, você precisa ver o meu corpinho. Pega sim, espero. [...] O quê, um vestido? Branco, estampado com flores azuis? Ah, sim, agora sei o que é. Um bilhete?, dentro do embrulho. Pode sim, lê pra mim, quero saber o que o engraçadinho do Antônio escreveu. “Você não me contou como fez pra voltar pra casa sem ele”. Só isso, Glória?, não entendeu? O quê?, sem o vestido?, está louca?, Glória, como eu ia andar nua por aí? Já ouviu falar em histórias assim? Ah, Glória, não queria tocar nesse assunto, é muito desagradável. Promete não falar pra ninguém? Sei que você é pessoa confiável, por isso o Antônio deixou esse vestido com você. Já não quero falar com ele, sabe, foi um episódio que desejo esquecer. Não sei se dá pra falar pelo telefone, acho que passo aí mais tarde. Apanho o vestido e conto pra você. Agora vou pra ginástica. Lá pelas cinco e meia está bom? Então tá, vou sim.

Ele é terrível, Glória, inventa cada coisa. Acho que as mulheres acabam gostando. No começo eu ficava meio temerosa, mas depois passei a gostar também. Sabe como é a cidade, não tem nada pra fazer. Ele me chamava pra sair de noite e me levava lá pro Pecado. Primeiro comíamos e bebíamos alguma coisa ali no Ilha Linda, depois me arrastava pra beira da praia. Eu dizia Antônio, temos minha casa, por que isso? Mas ele queria que eu tirasse a roupa ali mesmo. Não foram só essas coisas. A gente ia também pra Rio das Ostras, lá pra Joana, ao entardecer. Ele cismava de me deixar nua dentro d’água. Sabe, Glória, essas fantasias esquentavam o relacionamento. Então aconteceu. O caso do vestido. Que é o motivo de minha vinda aqui à sua casa. A gente já tinha terminado, mas às vezes eu encontrava com ele pra um café, ali perto da Silva Jardim. Ele me contava como estava e eu falava um pouco de mim. Antônio gostava de escutar sobre o meu atual casamento. Achava estranho eu ficar aqui na cidade e meu marido a maior parte do tempo lá na serra. No final, ele ia comigo até perto de casa, depois me deixava e ia pra faculdade, onde leciona à noite. Numa dessas tardes, quando me acompanhou até em casa, convidei ele pra subir. Não repara que está a maior bagunça, a casa cheia de trastes. Antes de entrarmos, ele ainda lembrou um episódio engraçado. Certa vez, quando éramos namorados, ele me pediu pra descer nua, ficar um pouquinho do lado de fora e depois voltar pra ele abrir a porta e me receber peladinha, como ele falava. Acabei correspondendo ao desejo dele. Lembra que você veio aqui embaixo nua?, ele disse. Você não esquece essa história, respondi. Subimos e ficamos lá durante algum tempo. Então ele me fez o mesmo pedido. Você vai nua lá embaixo? Tá maluco, rebati, aquilo tudo já passou. Então ele começou com certo ardil. Eu pago pra você tirar a roupa, falou. Pagar, não sou prostituta. Não se trata de prostituição, disse ele, apenas uma ajuda, e sei que hoje as pessoas sempre precisam de algum dinheiro; dou a você cem reais. Cem reais?, o que é isso?, está me comprando?, contra-argumentei. Não se trata de compra ou venda, apenas um presente; aumento o lance, vamos dizer, cento e cinquenta. Não, Antônio, esquece, não vou tirar a roupa. E por duzentos?, ele continuava. Me veio à cabeça que consegui esse corpinho com a ginástica, e que estava atrasada na mensalidade. O pensamento me deu um arrepio. E ele notou, viu que eu titubeava. Sei que você está precisando, aumento mais cinquenta. Tirou o dinheiro do bolso e colocou sobre a mesinha de entrada. Fiquei, então, olhando as cinco notas de cinquenta, depois virei pra ele. Fiz uma negativa com a cabeça. Mas acabei tirando o vestido. Por trezentos e cinquenta reais. A roupa toda, também a roupa de baixo. E foi essa a história. Fui pelada lá fora. Caminhei até o quintal. Ao voltar, reparei que ele tinha desaparecido. Levou com ele meu vestido, calcinha e sutiã. E eu naquela casa cheia de trastes, sem roupa alguma pra vestir, todas estavam em Glicério, onde moro. Você quer saber como fiz para sair dessa situação? Olha, pelo bilhete, acho que ele quer saber também! É verdade, não, eu não tinha em casa um mísero pano pra me enrolar, só todos aqueles trastes...