Não é bom despertar os demônios que temos dentro de nós. Quando eu era adolescente, namorava como todo mundo, abraçava, beijava e trepava, mas tudo de modo bastante suave, com namoradinhos de ocasião. Ao chegar aos trinta anos, ainda solteira, arranjava muitos namorados, aproveitava a vida. Um dos homens com quem saí nessa época foi o tal que começou a despertar meus demônios. Era dez anos mais velho do que eu e sabia não só conquistar uma mulher, como também fazê-la sentir prazer. Foi o primeiro com quem gozei de modo verdadeiro. Era muito potente na relação sexual e também em inventar fantasias. Sim, estas começaram a me fazer vibrar a duzentos por hora, se é que posso dizer assim.
O homem sabia contar histórias, e as contava na hora do
amor. Vocês já escutaram histórias na hora boa da trepada e gozaram mais por
causa delas? Ele conseguia. Passadas algumas semanas da primeira história,
senti vontade de colocar em prática o que ele me narrava. Uma coisa é a
realidade, alertou, outra, a literatura. Mas não dei ouvidos, queria o meu
prazer. Se era tão excitante escutar, imaginei como seria praticar todos
aqueles eventos.
Não pensem que vou repetir aqui a história da mulher que bate nua à porta do namorado. Esta já é antiga, já aparece diversas vezes no blog da Margarida e nas antologias publicadas por ela. Dentre muitas, vou contar a história da noiva que foge, porque, quase no momento do casamento, descobre que o tal ato não combina consigo.
Ela salta pela janela da própria casa, vestida de noiva pela metade, porque lhe falta o forro do vestido. Já está maquiada e,
no lugar do sapato de salto, veste um tênis branco. Após chegar à rua, corre dois quarteirões e entra num carro estacionado,
escondendo-se no banco traseiro. O motorista aparece, entra e dá a partida, sem
dar conta de que transporta a noiva fugitiva.
Como faço para dizer que estou aqui? Será que se trata de
Uber e ele saiu para pegar um passageiro? No momento em que parar, o passageiro, ao me ver, é capaz de dar um grito. O que direi? Deixo o carro se distanciar da minha casa; meu objetivo é abrir a porta quando parar em qualquer lugar
e me atirar do veículo. Mas o motorista pega a rodovia, não vai parar em lugar
algum. Aliás, para antes de Casimiro, na parada dos ônibus de viagem. Entra no estacionamento, salta, trava o carro, que dá aquele gritinho de que a tranca está ok, e corre pra
dentro do restaurante. Talvez vá ao banheiro, talvez queira fazer um
lanche. Lembro que a maçaneta da porta do motorista destrava o automóvel inteiro. Passo o braço por cima do banco e puxo a tranca da porta correspondente. Todas as portas se destravam. Ainda bem, nenhum som de alarme. Salto do
carro, corro na direção contrária do restaurante. Quando chego à beira da
estrada, um motorista para ao me avistar. O que houve, menina? Quer que te
leve à igreja? Deve estar atrasada. Entro e sento no banco ao seu lado.
Imaginem a continuação. Quem sabe, o novo motorista passa a
ser meu namorado contador de histórias. Ele vai, inclusive, se incumbir da tarefa de encontrar uma loja aberta e comprar roupas normais
para mim.
Façamos de conta que tudo deu certo!
Como você conseguiu que ninguém te comesse pelo caminho?,
quis saber uma amiga atrevida, a quem, num dia de fraqueza, contei a história.
Ah, quanto a isso, não sei se consegui, respondi, mas uma mulher bonita sempre tem sorte!
Meus demônios são outros, disse ela, muito dona de si, talvez pensando no amante, que lhe pagava todas as contas.
