domingo, abril 06, 2014

Será que ele volta?

Recebo um telefonema às três da madrugada. É um namoradinho de ocasião. Está acostumada a me convidar com investidas surpreendentes.

Está muito tarde, respondo.

Ou muito cedo, quem sabe, ele insiste.

Onde pretende me levar?

Adivinha?

Concordo que venha me buscar à porta de casa.

Está frio, falo quando chega.

Entro no carro e fecho a porta. Dou-lhe um beijo molhado.

Aonde vamos?, pergunto.

Ele dá a partida. Num primeiro momento, nada responde. Dirige dentro da madrugada silenciosa.

Vamos a um lugar bem escuro, quero você nua.

Não seria melhor dentro de casa, no calor do quarto?

Não, nada disso, prefiro o sabor da aventura.

Damos algumas voltas pela cidade. Na orla, a avenida principal está clara, ainda é possível encontrar os últimos empregados dos restaurantes. Olhamos o mar, que desliza com ondas uniformes sobre as areias da praia. No final, meu namorado dobra à direita e seguimos para a rodovia.

Tire a roupa, ele pede.

Mas assim?

Você já prometeu que ia ficar nua dentro do carro, lembra? Então, hoje é a oportunidade.

Mas está frio.

Fica apenas de casaco.

Tiro toda a roupa e a coloco no banco traseiro, menos o casaco. Visto-o novamente depois de tirar a blusa. Começo a sentir excitação. Ele, ainda dirigindo, me acaricia o ventre.

Sai da rodovia, entra por uma avenida lateral e segue até a rodovia estadual. Quando começa a trafegar nela, tudo está muito escuro, apenas os faróis do automóvel exploram o caminho por algumas dezenas de metros. Nas laterais, a vegetação e, vez ou outra, alguma névoa. Depois de guiar por um quarto de hora, para no acostamento e me abraça, me beija e pergunta:

Você teria coragem de descer?

Nua?, completo.

Isso.

Faço que sim com a cabeça. Sorrio. Contenta-me a aventura noturna.

Vamos fazer assim, diz, dou a partida, dirijo por mais dois ou três quilômetros, depois faço o retorno e volto pra pegar você, quando estiver na direção contrária venho com o alerta ligado. É o sinal de que me aproximo.

Faço de novo que sim com a cabeça, deixo que ele me dê um longo beijo na boca. Desço do carro, sempre tentando manter a elegância.

Será que ele volta?

Logo que entro ele reclina o banco do carona e vem por cima de mim. Abro as pernas. Meu corpo ainda traz o frio que faz do lado de fora. Há muito estou toda molhada. Não sei se de nervoso ou tesão. Ele me percorre o pescoço com a língua, me beija com ardor, seu pênis procura o meu sexo, o encontro é instintivo. Enquanto me penetra, grito de prazer, grito pelo encontro fortuito, grito por estar nua nos seus braços, ou numa rodovia, não sei; clamo pelo prazer do risco que corro, chamo seu nome como se procurasse por ele, como se não tivesse voltado e me deixado nua à beira da rodovia. Seu sexo agita-se dentro de mim, mergulha cada vez mais fundo, lateja, eleva-me às estrelas que ainda vejo através do para-brisa quando abro os olhos. Quero o momento eterno, momento de prazer máximo. Aperta meus peitos, sussurro, aperta. Ele obedece. Você adivinhou o meu desejo, falo ao mesmo tempo que procuro sua boca com meus lábios grossos, a boca úmida. Você sabe que eu quero sempre trepar, que quero ficar nua pra você... Arfo. O gozo se aproxima, mas não quero perdê-lo. Desejo que dure, que permaneça horas a fio, que vença os dias, que jamais acabe. Meu corpo todo treme. O ardor me sacode com impetuosidade. Quero sentir seu sexo no mais fundo do meu corpo, da minha alma. Vai, me esporra, me esporra agora, vai, grito, gemo, choro. Desejo-me nua por mais tempo, desejo que se vá de novo, que volte e tudo comece outra vez. Não quero o tempo a passar. Não quero o sol. Ardo para que a madrugada dure. Que dure a sombra, que a rosa permaneça em botão, que perdure a névoa e que eu goze mais uma, duas, três vezes, cada vez mais, e que ele me deixe pelada, que desapareça, que volte de novo e que tudo se repita até não mais pudermos, até que já não nos equilibremos sobre o fio tênue da razão...

E o frio, e eu pelada.

Será que ele volta?

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