sexta-feira, junho 01, 2007

Sol de outono

O sol da tarde perdia-se em afagos sobre nossos corpos. As areias brancas se estendiam até encontrarem dois rochedos onde, ora com fúria ora com desleixo, ondas faziam-se espumas. À esquerda, a praia dava num costado de vegetação marinha, cordões de restinga. Mais adiante percebiam-se as últimas casas de uma vila, casario de veranistas, pareciam desertas quando fora de estação. Pedíamos que a luz quase crepuscular nos fosse generosa; queríamos a pele dourada e o corpo aquecido, apesar do vento de outono.

Foi então que ele apareceu. Surgiu sorrateiro, sem que o percebêssemos, e só demos por sua presença quando estava próximo aos rochedos. Trazia as mãos às costas, destacava-se nele o casaco marrom. Caminhava como se não tivesse visto viva alma, depois parou e pôs-se a olhar um ponto no oceano. Permaneceu assim durante longos minutos. E nós, ali, quase nuas...

Já havíamos estado naquele lugar em uma noite de verão, eu e Cecília, bêbadas e acompanhadas de dois homens. Entramos nuas no mar. Ao voltarmos à areia, com o corpo ainda a escorrer água salgada vestimos a mesma camisa de um deles. Devia ser engraçado e estranho a visão de duas mulheres dentro de um camisão: ora ficávamos frente a frente, seios contra seios; ora uma costeava a outra fingindo um sarro gostoso; ora roçávamos nossas nádegas. Braços e pernas faziam-se em dobro pelas mangas e barra da camisa; às vezes eu levantava a parte que a cobria deixando seu bumbum de fora; depois ela revidava fazendo o mesmo comigo. Fingíamos então um pudor que não tínhamos. A cabeça de cada uma escapulia pela mesma fresta apertada. Transformamo-nos em pequeno monstro. Mas monstro que não perdia o poder sedutor. Quando me atirei nos braços de um deles, pedi que me penetrasse com esmero e plenitude, queria senti-lo rígido. Depois, sussurrei que guardasse o gozo, deixasse para despejá-lo em minha boca; queria comer aquele homem como num ritual indígena, quando o bravo oponente é ingerido para tornar mais forte o herói vencedor; seu sêmen seria parte de meu sangue.

“Tô morrendo de vergonha, só de calcinha...”, a voz de Cecília chegou a meus ouvidos e continuou adiante, levada pelo vento. “Deixa de frescura, vai dizer que você não está gostando?”, redargüi. “Eu não estava preparada”, ainda teve tempo de dizer. Levantei-me, também seminua, meus seios saltaram, foi a única vez que o vi olhar em nossa direção. Depois, como chegou, desapareceu, enquanto nos refazíamos do ligeiro tremor, rastro de sua presença.

No final da tarde, ainda os afagos do sol, mas menos tácteis, distantes, não mais se importando conosco; assim como o estranho, que fez pouco caso de nossa nudez.

marg_57a@yahoo.com.br

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