quarta-feira, junho 14, 2017

Tatuagem

De repente recebi a mensagem, e fiquei desconcertada. Após tanto tempo sem falar comigo, como ele poderia me fazer um pedido daquele? Uma foto, era o que queria, e da minha tatuagem. Pelo menos poderia ter perguntado se eu ainda a conservava. Tatuagens não saem sozinhas, mas eu poderia ter desistido, poderia tê-la apagado, ou mesmo feito outra na mesma pele. Mas ele foi taxativo, queria a foto, ainda salientava pode fotografar apenas o local, nada de maiores detalhes. Sabia aquele ex-namorado que dois centímetros abaixo apareceria na fotografia algo que eu, antes, gostava muito de mostrar. Você está sozinha, separada, argumentava ele, não há problema algum me enviar uma foto de tua tatuagem, ninguém vai saber de quem se trata, ou quem porta o desenho. O que respondo?, ou deixo sem resposta? As pessoas dizem por aí que se a gente responde é porque já há alguma atração, algum interesse. O silêncio é a resposta de quem nada sente, se não sente não há o que dizer. Mas não sou mineral, não sou pedra. Estava colocada a questão. Já que sou de carne e de osso ficaria a me perguntar, a desenhar possibilidades? Lembrei-me das histórias de Clarice Lispector. A narradora  não conta histórias, nada num mar cheio de escolhos, sempre o naufrágio iminente, mas não desiste, luta com palavras, formulações que lhe servem de coletes salva-vidas. E mesmo assim há o risco do choque, há pedras a esmo, minas prestes a explodirem. A paixão segundo G.H., O livro dos prazeres, A hora da estrela. Nomes sugestivos para histórias terríveis. Uma pergunta aparentemente sem importância, muitas palavras, e a responta cada vez mais distante. No final, percebe-se a mulher não mais à procura de sua inteireza, mas consciente de que é fragmento, mesmo assim desejos e orgulho presentes, não se abandona o que temos de mais precioso. "- Veja aquela moça ali, por exemplo, de maiô vermelho. Veja como anda com um orgulho natural de quem tem um corpo. Você, além de esconder o que se chama alma, tem vergonha de ter um corpo." Gostaria de ser como Clarice, escrever livros e mais livros por uma causa que poucas pessoas enxergam, ou às vezes acham-na banal: uma mulher que descobre a sujeira deixada pela faxineira, e acaba por se ver sozinha diante do irremediável. Meu corpo, o irremediável. Volto ao ex-namorado, ao seu pedido, à minha tatuagem. Tenho amigas que se olhariam no espelho, pousariam as mãos sobre as coxas, sorririam a si mesma, e não perderiam mais tempo, enviariam a tal foto e esperariam pelo homem. Conheço uma que o esperaria nua, a tatuagem à mostra, mesmo que não a tivesse inventaria. Mas, quanto a mim, as coisas marcham devagar, por isso há quem diga que estou ficando velha, que já não tenho interesse por sexo. Não é verdade, claro que me interesso, sobretudo por sexo, vamos, porém, sem precipitações. Minha resposta levou alguns dias para sair, mas saiu, curta, e partiu: foto da tatuagem? Ele não enviou contra-resposta, era o jeito dele. Minha indagação ficou no ar. Pronto, acho que não mais incomoda, talvez eu tenha encontrado a solução, uma pergunta em relação ao pedido, uma pergunta que repete o próprio pedido, como se eu não tivesse entendido. Morreria o assunto, ele que procurasse tatuagens no corpo de outras mulheres, ou onde quer que fosse. Caso eu entrasse no jogo dele, sei que rolaria cama, mas era isso o que eu queria? Então, melhor esperar. Três dias depois, enviou a contra-responta. Cadê a foto? Naquele momento comecei a arder, e quando uma mulher arde não há água que lhe apague o fogo. Foi então que percebi um homem que rondava a minha casa fazia três dias. Seria um ladrão, um tarado? Comecei a ficar preocupada. No quarto dia, porém, veio conversar comigo, perguntou se eu ainda frequentava a praia, em frente ao Country. Respondi que sim, mas apenas quando fazia calor, o tempo ultimamente não estava para praias. Falou que atendia no quiosque em frene, e que eu parava pra tomar vez ou outra um refrigerante. Lembrei-me do homem, era eu mesma, disse a ele. Sorriu. Estou com um pequeno restaurante no final da praia perto do Pecado, aparece lá, é um convite. Lembro também da tua tatuagem!, finalizou e se despediu. Voltei pra casa matutando os dois acontecimentos, o ex-namorado com o pedido de uma foto e esse agora, que me servia no quiosque. Não respondi mais ao primeiro, estava muito longe, o que passou passou. No domingo seguinte choveu, não saí de casa. Mais uma semana e um sol de arder. Preparei-me, nada de facilitações, fui à praia. Cheguei às dez, apenas uma e trinta fui ao restaurante. Meu admirador logo me avistou, veio à porta receber-me e arranjou uma mesa especial pra mim. Deixei-o louco, eu vestia uma sainha curta e miniblusa, o biquíni por baixo, a tatuagem aparecendo e escondendo-se. Depois de almoçar, conversar, beber uma caipirinha, agradeci e fugi do homem. Se ficasse, não daria bom resultado, não é bom deixar que nos desatem o biquíni num primeiro encontro. Aliás, nem seria o primeiro, mas pra ficar nua sob a sainha seria, sim. Deixei passar uma semana, quem sabe duas, então voltei. Então... Melhor vocês imaginarem. Quero ainda dizer, por mais que imaginem ainda vai faltar alguma coisa!

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