quinta-feira, agosto 22, 2013

Amante menor

Manuel Bandeira se dizia um poeta menor. Eu me acho uma amante menor. É verdade. Uma amante que não sabe amar. Ou, quem sabe, uma amante que ama muito pouco. Na verdade, o que sempre quis e quero é sentir prazer. E naquele pequeno aglomerado de casas de frente para o mar, eu ainda não descobrira homem algum a quem pudesse, pelo menos de modo disfarçado, voltar os meus olhos. Como morava pouca gente no lugarejo, era natural que todos se conhecessem. Portanto, uma pessoa estranha como eu, que chegara fazia alguns dias e ocupava sozinha uma casa inteira, soaria estranho à população local.

Mas já no dia seguinte surgiria alguém para me fazer acreditar que assim como Manuel Bandeira jamais foi um poeta menor, eu também não era uma amante menor. O homem, de quase dois metros de altura, despertou-me de um enleio enquanto eu, sob o sol, nas areias da praia, era embalada por quase um sonho, um sonho de claridade e de fundo musical orquestrado pelas pequenas ondas da praia.

“Você não é daqui”, afirmou.

Ainda sonolenta, virei-me em sua direção, e por trás das lentes de sol, falei:

“Quem dera, a vida toda nessa paz, nesse mar”, e me virei para o outro lado.

“A paz também cansa”, falou e se afastou.

Esqueci-me do homem.

À noite ouvi certo alvoroço numa das casas. Parecia uma festa. Alguém veio bater à minha porta.

“Você não quer participar de um festejo?”, era o mesmo homem que aparecera de manhã, na praia.

“Você poderia ter a bondade de pelo menos dizer o seu nome?”, franzi a testa após a última palavra.

Olhou-me, sério. Eu não tinha os óculos escuros para me esconder àquela hora, e também não queria desviar os olhos.

“Enamorado, é o meu nome, mas todos me chamam de Amor.”

Dei uma gargalhada prolongada. Ele completou o meu espalhafato com a sua risada, grave e mais contida.

“Verdade? Enamorado?”, repeti ainda tentando esconder os últimos traços de riso.

“Sim. Mais popular como Amor. Vamos?”, ofereceu-me o braço.

Aceitei.

Como o número de participantes era pequeno, o encontro podia ser chamado de festa mais pela alegria dos presentes do que pela quantidade. Com a minha chegada e a de Amor, completamos oito pessoas na casa. Cinco homens e três mulheres. Ao entrar, recebi sorrisos de todos os lados.

“Você vai gostar da gente”, falou uma mulher.

Um dos rapazes expeliu a fumaça do cigarro para um dos lados e me estendeu a mão. Os outros vieram-me beijar.

Reparei que um dos presentes tocava acordeom.

“Cheguei a aprender quando era criança”, falei.

“Quer”, ele fez o gesto de que me passaria o instrumento.

“Não, por favor, não lembro mais nada.”

“Rodolfo, toca pra gente”, uma das mulheres pediu.

Uma canção argentina começou a sair do instrumento. Em poucos segundos quase todos estavam a dançar. Amor tomou-me por uma das mãos, envolveu-me com seus longos braços e começamos nossos primeiros passos no centro da sala.

Após mais ou menos uma hora, espaço de tempo em que uns beberam cerveja e outros vinho, alguém sugeriu que nos fantasiássemos.

“Há um baú com vários trajes, no quarto dos fundos, são objetos de teatro. Cada um pode se vestir do jeito que quiser, mas deve colocar a máscara, assim não saberemos quem é quem.”

Todos se entusiasmaram com a sugestão. Tiramos a sorte e fomos um a um ao tal quarto. Depois de pronto, cada um saiu pela porta lateral que dava num corredor externo e foi aguardar o restante do grupo nas areias da praia. Desse modo as identidades não foram reveladas.

As fantasias eram as mais engraçadas possíveis. Havia bailarinas, palhaços, princesas, branca de neve, bruxa, dama antiga, super-heróis e uma que era apenas um biquíni mínimo. Adivinhem quem escolheu esta? Lógico que fui eu. Mas todos foram obrigados a vestir as máscaras, assim nos confundiríamos e não saberíamos quem era quem.

De início não consegui descobrir Amor. Muitos vieram a me cortejar, inclusive as mulheres. Ah, ia esquecendo, as máscaras tinham um capuz que nos cobria os cabelos, isso tornou a identificação ainda mais difícil. Até mesmo pelo corpo não foi tão fácil identificar as mulheres. Todos eram ótimos atores. Apenas o músico foi identificado com facilidade porque continuou a tocar no acordeom suas canções ora comoventes ora animadas.

A festa transferiu-se para as areias, com o mar a acompanhar com seu leve murmúrio o nosso alarido. Dançamos, ainda sob o som do acordeom. Algum tempo depois, cada um de uma vez tinha de fazer uma imitação para ser descoberta pelos demais.

A festa prosseguiu à beira mar com todos cantando e dançando. Mais bebida surgiu, trazida por uma mulher que não fazia parte do grupo. Era uma espécie de batida de várias frutas. Não passou muito tempo para que começássemos a nos agarrar. Mas não foi uma tentativa de formar casais. Ora recebíamos beijos que pareciam de homem, ora de mulher. Namoramos a três, a quatro e até mesmo a cinco.

A festa não terminou, ao menos pelo que me lembro. As duas mulheres logo ficaram nuas. Depois de beber demais, acabei dormindo, e acho que os outros também.

Acordei com os primeiros raios de sol. Dois ou três já haviam se retirado, mas os outros permaneciam desmaiados sobre areia, e quase agarrados entre si. Reparei que alguém me havia tirado a máscara e o top, mas eu ainda vestia o biquíni de fantasia.

Levantei-me e ouvi imediatamente:

“Amor está pronto para cobri-la de beijos.”

Bocejei, minha cabeça doía. Tapei instintivamente os seios.

“Cobri-la?”, repeti enquanto respirava fundo e olhava na direção do mar tentando-me refazer.

“Cobri-la. Gostou da erudição? Aqui todos somos clássicos, no idioma e no teatro”, completou.

“Então, despir-me-ei”, eu disse. Soltei os seios, fiz descer o biquininho e o larguei sobre a areia. Corri e mergulhei no mar. A água estava quente.

Depois? Ah, depois... Cada um que use a sua imaginação. Lembram o início? Sempre me considerei uma amante menor!

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