quinta-feira, junho 13, 2013

Se houvesse sol - 5


No dia seguinte não fui à praia, acordei em torno do meio-dia e fiquei na cama por mais uma hora. Depois que me levantei, ainda permaneci em casa até as três horas. Quando saí, foi com a intenção de ir ao centro da cidade.

Ao chegar à rua Direita, parei numa cafeteria. Ainda bem que M. passou a ter uma dessas cafeterias que são comuns na zona sul do Rio de Janeiro. Pedi um café expresso. Apenas dez minutos depois chamei a garçonete para me trazer um salgado. Era a primeira coisa que eu comia após ter acordado. Olhei para a rua e vi o movimento no calçadão. Tentei imaginar aonde ia toda aquela gente. Havia pessoas de todos os tipos. Quais seriam suas profissões? O que faziam àquela hora andando pelo Centro? A passagem de dois jovens que conversavam animadamente me fez lembrar meu namorado. Onde andaria ele naquele momento? Não consegui situá-lo em lugar algum. Os dois que passaram riam, trajavam roupas esportivas e seguiam na direção norte. Logo depois, duas moças despertaram minha atenção. Vinham vagarosas, carregavam bolsas de uma loja famosa que fora inaugurada havia pouco, ali mesmo nas proximidades, a mesma loja também existia no único shopping da cidade. Uma das moças era minha conhecida. Conversei pela primeira vez com ela numa festa. Mal a conheci, ela me falou:

“Você me faz um favor?”

“Se eu puder...” 

“Conheci um rapaz ainda há pouco e vou sair com ele. Preciso de alguém que fique de sobreaviso. Minhas amigas também se arranjaram. Não há ninguém a quem eu possa pedir esse favor. Caso aconteça algum problema, não tenho a quem recorrer. Posso ficar com o número do seu telefone?”

“Claro”, dei a ela o meu número.

A moça agradeceu e ainda completou:

“Quando a gente tem alguém à mão, é sempre melhor.”

Ela ligou dois dias depois para me contar que tudo correra bem. Saíra com o garoto, mas não tinha acontecido nada além do namoro corriqueiro à beira da praia, já que ele não a convidara para um hotel nem ela poderia levá-lo para casa.

“Que besteira, a gente sai com esses rapazes para ficar se agarrando na areia.”

“Você não gosta de namorar na praia?”, perguntei.

“Depende, na maioria das vezes, não.”

“Eu gosto”, falei, “já namorei tantos homens na praia, tanto durante o dia quanto à noite.”

“Você não tem medo?”

“Antes temia ir para cama com alguém que conhecera no mesmo dia. Mas com o passar do tempo, fui tomando confiança e passei a não mais sentir medo. Já aconteceu alguma coisa a você?” perguntei.

“A mim, não, mas já tive uma amiga que se viu em apuros. Quase morreu.”

“Nesse caso”, continuei, “acho que mesmo deixando alguém de sobreaviso é difícil evitar que aconteça o pior.”

Encerramos logo depois a conversa. Num outro dia ela me telefonou, encontramo-nos na praia e continuamos a falar sobre homens e namorados.

Ela passou com a amiga, mas não me viu. Permaneci na cafeteria por mais algum tempo.

Ao deixar o local, fui avistada pelo James. Este não foi meu namorado, mas tivemos um caso, o suficiente para deixá-lo louco por mim.

“Oi, meu amor, quanto tempo, como vai essa beleza toda?”, falou.

“Vou bem, mas beleza toda é impressão sua.”

Beijou-me, deixou o rosto encostado ao meu durante alguns segundos.

“Que pena, não saímos mais. A última vez foi uma maravilha”, insistia ele.

“Já faz tanto tempo...”

“Mas não esqueci. Como vou esquecer uma gostosura como você?

Sorri educada.

“Vamos tomar um café?”, convidou-me.

“Acabei de sair da cafeteria”, apontei para o local com um leve movimento da cabeça.

“Que pena! Vamos fazer outra coisa?”

“Estou cansada. Dormi pouco na última noite, preciso voltar para casa.”

“Quer então uma carona?”

“Não, obrigada, meu carro está estacionado aqui na rua de trás.”

“Vamos marcar alguma coisa para um dias desses.”

“Vamos”, concordei, “você me telefona.”

“Você jura que não vai dar desculpa educada e...”

“Dessa vez, juro.”

“Olha lá, hein?”

“Não gosto de jurar. Mas quando juro, não minto. As pessoas me conhecem.”

“Fico muito feliz, vou telefonar.”

Beijou-me. Antes de ir, sussurrou no meu ouvido.

“Você ainda usa aquele biquíni?”

“Agora, tenho um menor.”

“Menor? Então, e aquela surpresa...”

Para terminar a conversa, insisti.

“Telefone, você vai ter direito a tudo. Estou precisando de outra noite como aquela”, assegurei-lhe.

“Deixa eu te dar mais um beijo.”

Aproximou o rosto mais uma vez, beijou-me e se foi. Mas sua fisionomia aparentava uma ponta de dúvida.

A história sobre o biquíni foi a seguinte.

Quando ele me conheceu, eu vestia um biquíni mínimo. Fora feito exclusivamente para o meu corpo, não sobrava nem faltava nenhum tantinho de pano. O homem me paquerou durante muito tempo, aproximou-se e iniciou uma conversa sem sentido. Depois de uma semana, na segunda vez em que saímos à noite, pediu que eu levasse o biquíni.

“Pensei que você estivesse me convidando para jantar, mas para vestir biquíni à noite...”

“É para jantar mesmo, e no Ilha Linda Sul, o restaurante mais cobiçado da orla. Mas depois você veste o biquíni.”

“Vamos à praia, à noite?”

“Não, mas quero você de biquíni só pra mim.”

“Quer saber de uma coisa? Tenho um biquíni ainda menor.”

Ele me olhou de soslaio, admirou meu corpo e disse:

“Menor?”

“Menor. Quer que eu o leve ou que eu venha com ele à praia amanhã?”

“Então o leve.”

“Pensei que você me quisesse nua, não de biquíni.”

“Quero nua, sim, mas primeiro de biquíni.”

“Ok.”

Encontramo-nos. Meu biquíni estava na bolsa. Jantamos no restaurante combinado. Comemos e bebemos bem. Uma garrafa de vinho ótima, no final um licor maravilhoso. Ficamos prontos para o amor. Quando entramos no carro, antes que ligasse o motor, pedi para que fechasse os olhos durante um minuto. Quando disse que os podia abrir, deparou-se com uma mulher vestida de biquíni a seu lado. Beijou-me intensamente. Ficamos namorando durante algum tempo. Depois, abri a porta do carro e corri para a praia. Disse:

“Venha me pegar!”

“Você é maluca”, gritou.

Do jeito que estava saiu correndo atrás de mim Fui até à beira d’água e o fiz molhar os sapatos para me abraçar. Ele me abraçou, me beijou, passeamos um pouco agarrados um ao outro.

“Você não tem medo que alguém a veja assim?”

“Estou de biquíni, e estamos na praia.”

“Virou-se e me beijou mais uma vez.”

No meio do beijo, senti que me despia da parte debaixo. Nada falei.

“E agora? Deixei você nuinha.”

“Nada disso, falta o sutiã”, mostrei os seios.

Deixei que o tirasse. Ainda o instiguei.

“Vá embora, me deixe aqui, nua.”

“Mas não vamos namorar num hotel?”

“Vamos, mas primeiro faça isso, vá embora.”

“Você promete que não vai escapar?”

“Como vou escapar nua?”

“Você é capaz de qualquer coisa.”

“Não vou escapar. Vá até o carro, guarde minhas roupas lá e depois volte para me buscar.”

“E se aparecer alguém?”

“Lembre-se, quem está nua sou eu!”

“Se é assim que você deseja...”

Foi até o carro, guardou meu biquíni e voltou correndo. Agarrou-me.

“Vamos, assim você me mata”, sussurrou depois de me beijar mais uma vez.

Foi uma noite maravilhosa, mas as circunstâncias nos impediram de novos encontros. Acho que arranjei outro namorado. James ainda me telefonou várias vezes. Acabei por lhe dizer que não poderia mais sair com ele. A esperança, no entanto, nunca o abandonou.

terça-feira, junho 11, 2013

Se houvesse sol - 4

À noite, fui ao encontro de Daniel. Ele tinha uma moto, mas disse que o apanharia. Encontramo-nos nas proximidades do Grande Hotel, na praia de C. Quando cheguei, ele já me esperava. Ao entrar no carro, beijou-me. Segui pela orla pensando onde pararíamos. Apontei um restaurante muito conhecido, quase no final da praia. Ele concordou. Estacionei e entramos. Estava feliz por tê-lo ao meu lado. Achei que ele demonstrava um pouco de acanhamento. Estava bem vestido, uma roupa que combinava com seu tipo físico e de acordo com o costume de como se vestem os jovens, calça de jeans leve e uma camisa polo que trazia no peito a bandeira da Inglaterra; calçava sapatos marrons, na verdade, olhando atentamente, tratava-se de um tipo de tênis mais usado para passeio.

“Neste restaurante, ficaremos à vontade. Não quero encontrar nenhuma de minhas amigas”, falei.

“Você gosta de restaurantes, não?”, insinuou.

“Gosto também de outros lugares, mas aqui nesta cidade não há muitas opções. Para conversar, nada melhor do que um restaurante.”

O garçom nos trouxe, com muita cerimônia, um enorme cardápio. Reparei que meu jovem companheiro assustou-se ante aquele exagero.

“Peça o que quiser, fui eu que convidei você, e quem convida dá banquete”, falei e lancei um beijinho a ele.

Olhou-me inclinando um pouco a cabeça, fez um movimento que indicava concordância com as minhas palavras.

“Aqui, além de ter um vinho ótimo, a gente pode apreciar o mar através dos vidros. Tudo que nos resta nesta cidade é o mar. Quer dizer, o mar e alguns restaurantes.”

“Você é de onde?”

“Sou do Rio. E você?” devolvi a pergunta.

“Daqui mesmo, mas já estive fora.”

“Onde?”

“Na Bahia.”

“Já sei, seu pai trabalhava com petróleo e levou a família para lá.”

“Como adivinhou?”, perguntou.

“Não é difícil, aqui há muitas histórias semelhantes.”

“O garçom voltou com o vinho escolhido por mim.”

“Nem perguntei se você gosta de vinho, desculpe-me.”

“Tomo uma taça, mas confesso que não é minha bebida preferida”, apressou-se em dizer.
Enquanto o garçom abria a garrafa, eu disse a Daniel:

“A gente demora a adquirir o paladar para o vinho. Quando tinha a sua idade, também não gostava. Acho que mais tarde você vai pensar de outro modo.”

O garçom colocou uma pequena quantidade e esperou que eu experimentasse. Movi afirmativamente a cabeça. Ele, então, encheu nossas taças até a metade.

“Você é uma mulher independente”, o jovem olhou para mim como se tivesse feito uma grande descoberta.

“Nenhuma mulher é independente. Aliás, ninguém é independente.”

“Você acha?”

“Claro. Tudo é relativo, nunca se tem um independência plena. Para beber este vinho, a gente depende de uma porção de gente.”

“Não falei neste sentido.”

“Sei que você fala em independência financeira, ou mesmo porque sou uma mulher livre e não devo satisfações a ninguém. Mas essa independência custa caro, e às vezes a gente se vê na mais completa solidão. Além disso, ninguém quer acabar os seus dias sozinho.”

“Você está falando na morte”, pareceu assustar-se.

“O que tem isso? As pessoas não gostam de pensar na morte, mas é a coisa mais natural que existe. Você, gostaria de morrer sozinho?”

“Acho que todos morrem sozinhos”, ele disse, “a não ser que aconteça um acidente ou mesmo um suicídio combinado entre duas ou mais pessoas, aí se morre junto.”

“Não falo nesse sentido. Acho que me expressei mal. Digamos assim: ninguém gosta de envelhecer só e terminar seus dias sozinho.”

“Nesse caso, quem sobreviver vai acabar sozinho.”

“Isso é verdade. Agora já não sei como resolver. E tem mais uma coisa, você falou nas hipóteses de duas ou mais pessoas morrerem juntas. Mas acredito que o momento da morte é único para cada um, como é também o momento da vida.”

A conversa se desviou para outros assuntos. Foi ele quem a reiniciou.

“Hoje pela manhã achei você um tanto louca. Me conhece tão pouco e já quis que eu a deixasse nua dentro d’água.”

“Acho que não há quem seja totalmente sã, sempre há um desvio.”

“O que você achou em mim para me fazer aquele pedido?”

“Gostei de você desde a primeira vez que o vi. Só tive um namorado bem mais jovem do que eu. Não costumo me entregar com facilidade aos homens. Foi uma maneira de tentar atrair você.”

Olhou-me diretamente, como ainda não me tinha olhado.

“Você sabe que tenho uma namorada?”

“Imaginei. Vocês jovens sempre têm alguém, aliás, quase todos têm alguém. Muitos até se casam. Depois vão jogar futebol e deixam a mulher sozinha em casa. Há aqueles que passam o domingo todo na rua, bebendo com os amigos.”

“Tenho amigos assim, mas tento ser um pouco diferente.”

Outro garçom havia muito nos esperava fazer o pedido. Daniel olhou para ele, depois para mim, parecia encabulado com a presença do empregado.

“Já vamos fazer o pedido”, falei ao garçom.

Retirou-se por alguns momentos enquanto eu olhava o cardápio. Perguntei ao meu companheiro se tinha alguma preferência.

“Não estou com fome.”

“Eu estou, não como nada desde a hora do almoço.”

Pedi um entrada para beliscarmos enquanto aguardávamos o prato principal, um filé de peixe à moda do restaurante, naturalmente o prato não tinha o nome em português.

“Caso encontre sua namorada, vou chamá-la para sair comigo. Assim ela aprenderá alguns truques”, ameacei.

“Como assim?”

“Como tornar seu namorado eternamente apaixonado.”

“Ah, será um grande pecado!”

“Você acha?”

“Acho. Mas quero perguntar uma coisa. Você não se incomoda de eu ter uma namorada?”

“Claro que não. Não vou namorar com ela, mas com você. E, assim, não precisamos ficar tão juntos. Tenho muito a fazer.”

“O que você faz?”

“Não gostaria de dizer agora, mas é algo muito importante, ao menos para mim.”

“Estou fazendo um curso.”

“Caso não queira me dizer, não há problema”, falei.

“Não, sobre isso nada tenho a esconder. Já fiz alguns estágios, mas não tenho um emprego fixo. Ainda estou tentando, e nem sei se é isso que eu quero.”

“Seria melhor a vida ao natural, caminhar pela praia de manhã, dar uns mergulhos, não é mesmo?”

“Isso seria um sonho, mas a vida não é assim. Na verdade, não tenho dinheiro algum.”

“Eu já o tenho. Lógico que não sou rica, mas para mim dinheiro não é problema.”

“Você é casada?”

“Por acaso você quer casar comigo?”

“Não tinha pensado nisso, foi só uma pergunta.”

“Não sou casada. E tenho uma porção de admiradores.”

“Acredito.”

“Pois acredite, não estou com você porque não há outros homens. Gostei de você quando o vi, quis ter uma nova experiência.”

“Será que aceito?”, riu em seguida.

“Convidei apenas para estarmos juntos. É lógico que você tem liberdade para ir embora a qualquer momento, e mesmo para não me tornar a ver.”

“Sei, tenho toda a liberdade do mundo. Mas as coisas não acontecem desse modo,” sorriu mais uma vez. Percebi que a minha estratégia estava dando certo.

O garçom chegou com os pratos e começamos a jantar.

“Nunca uma mulher me pediu para tirar seu biquíni na praia”, falou.

“Foi apenas uma estratégia. Queria excitar você, mantê-lo junto a mim por mais tempo.

“Você vai encontrar comigo amanhã e vai me pedir a mesma coisa?”

“Vou pedir ainda hoje.”

Achou minha resposta sagaz, tomou mais um gole de vinho e pôs-se a comer com mais apetite a sua parte no jantar.

Não é preciso dizer que passamos uma noite maravilhosa. Levei-o para minha casa. Logo ao entrar demonstrou interesse por tudo que viu.

Como bebi a maior parte do vinho, meu fogo já vinha aceso. Fui ao banheiro e tirei toda a roupa. Para não voltar à sala inteiramente nua, enrolei-me na toalha de banho, que se transformou num curto tomara-que-caia.

Desculpe, estou morrendo de calor, sentei ao lado do rapaz e cruzei as pernas. Meus seios, um tanto volumosos, ameaçavam escapar.

Ficamos namorando durante várias horas. Apesar de jovem, é um amante delicioso, sabe dar prazer a uma mulher. Pedi para que ficasse até o amanhecer, mas ele se foi em torno das três da manhã.

sexta-feira, junho 07, 2013

Se houvesse sol - 3

No manhã seguinte desci à praia em torno das  nove e finquei o guarda-sol na altura do Country. O mar era de poucas ondas, a praia estava num estado de calmaria. Após cinco ou dez minutos, já na cadeira, tendo passado o protetor solar, vi o rapaz que conhecera no dia anterior. Como era mesmo o nome dele? Ah, Daniel. Depois de tantos encontros e desencontros, quase não lembrava o seu nome. Reparei suas passadas. Será que me havia esperado aparecer para dar o ar de sua graça, mesmo fingindo que não me avistou? Ele se foi. Fiquei na esperança de que voltaria. Acendi um cigarro, dei um longo trago e soltei a fumaça olhando para o céu. Não havia sequer uma nuvem. Que manhã bonita! Desejei que as manhãs fossem sempre assim, e me sentia feliz porque podia desfrutar tamanho prazer.

Peguei a sacola e comecei a olhar uma revista de moda. Mulheres bem vestidas, estilo primavera, vestidos floridos, curtos, ou mesmo descendo até os joelhos. Numa das páginas centrais, várias modelos em fotos à beira-mar apresentavam uma nova coleção de biquínis. A moda para a próxima estação parecia optar por biquínis não muito curtos. E gosto deles tão mínimos. As modelos não sorriam nas fotos. Mostravam uma ponta de alegria, mas não um sorriso aberto. Quando ia bastante distraída com aquelas imagens, escutei uma voz masculina me chamar:

“Célia, como vai? Quanto tempo.”

Levantei os olhos, era um amigo de outros tempos. Já havia saído com ele para jantar e conversar. Sabia que sempre tivera desejo de me levar para cama, mas nunca conseguiu. Não foi porque eu não quisesse. Poderia até ter feito amor com ele, mas acho que as circunstâncias foram desfavoráveis.

“Tomando sol, apenas?”

“Tomando sol e olhando a paisagem.”

“Quem bom encontrar você bonita como sempre, e num clima tranquilo assim...”

“Obrigada, você me acha mesmo bonita?”

“Acho linda.”

“É muita gentileza da sua parte, já não estou tão em forma”

“Quando vejo você, sinto uma terrível vontade de convidá-la para sair.”

“Nada marcamos e nos encontramos aqui, não está ótimo assim?”

“Está, mas do jeito que você é bonita seria melhor tê-la sem outras pessoas em volta.”

“Já sei, você quer me sequestrar, não é mesmo?”

“No bom sentido, e não devolver por resgate algum.”

“Aí vai acontecer como com qualquer outra, vira casamento.”

Ele riu. Não sei se pensando na própria situação – a mulher dele era bonita, eu a conhecia –, ou se porque eu desfazia, mesmo sem querer, sua cantada.

“Você não quer ir a Rio das Ostras? Lá há praias mais reservadas,” falou.

“Hoje prefiro ficar aqui, talvez num outro dia eu vá com você. Não posso ficar na praia muito tempo, logo tenho de voltar para casa.”

“Ok, tenho seu telefone, dou uma ligada para marcar.”

“Isso mesmo, liga que a gente combina.”

Percebeu que eu preferia ficar sozinha. Após mais alguns minutos, foi embora.

Caso o momento fosse outro, eu o acompanharia. Mas queria esperar pelo jovem que eu paquerava havia pouco. Ele demorou a voltar. Quando o vi, não resisti, chamei-o.

“Oi, Daniel, como vai?”

“Bem”, ele não era de muitas palavras, como pude notar desde o primeiro dia.

“Vai ficar na praia por muito tempo?”, perguntei.

“Não sei ainda.”

“Você tem algum compromisso para hoje, durante as próximas horas?”

“Compromisso, não. Mas tenho algumas pequenas coisas para resolver.”

“Fique então aqui ao meu lado, vamos aproveitar um pouco o sol.”

Ele sentou sobre a própria areia, tomou nas mãos a revista que eu deixara de lado e olhou algumas páginas. Depois a colocou no mesmo lugar e se voltou para o mar.

“Você não tem o que fazer?”, perguntou.

“Mais ou menos”

“Você não tem nenhum compromisso?”

“Não, sou solteira” apressei-me em dizer.

“Desculpe, mas não foi isso que perguntei. Queria saber se você não precisa ir ao centro da cidade.”

“Às vezes preciso, mas não gosto de lá. Se eu puder, prefiro ficar aqui na praia.”

“Mas você fica na praia o dia inteiro?”

“Não, sempre vou embora em torno do meio dia.”

Nada mais disse. Olhou mais uma vez para a revista, mas não a segurou. Depois reparei que apreciou de soslaio as minhas pernas.

“Você quer entrar na água?”, eu tentava evitar que partisse.

“Posso entrar. Você não vai sozinha?”

“Às vezes vou, mas prefiro ir acompanhada.”

Peguei-o pela mão e caminhamos em direção ao mar.

“Você nada bem?”, ele quis saber.

“Nado.”

“Vamos então para trás da arrebentação?”

Soltei sua mão e mergulhei. Nadei até vencer a primeira onda. Olhei e o vi a alguns metros. Sinalizou que deveríamos avançar mais, pois vinham mais duas ondas. Mergulhamos juntos, cortamos a primeira, vencemos a segunda e permanecemos num pedaço de mar aparentemente calmo, um pouco distante da faixa de areia.

Quis provocá-lo.

“Tenho uma amiga que gosta de nadar até aqui para ficar nua.”

Ele mordeu a isca:

“Onde ela guarda a roupa?”

“Não sei, acho que tem um método especial. Acho que pede a alguém para levá-la para a areia.”

“Verdade?”

“Ela mesma me contou, do jeito que é maluca não duvido nada. Você gostaria de encontrá-la nua, por aqui?”

“Ela é bonita?”

“Tem mais ou menos o meu corpo.”

Pela expressão de seu rosto, percebi que achara a mulher bonita.

Ficamos flutuando, movimentávamos apenas as pernas ou nos sustentávamos com uma ou outra braçada. Aproximei-me bastante dele e toquei suas costas. Depois, sorri.

“Você me faz um favor?”

“Qual?”

“Você me deixa nua?”

“Aqui?”

“Sim, o que é que tem?”

“Acho que a pessoa sobre quem você falou é você mesma.”

“Quem sabe?”

“Você está falando a verdade? Quer mesmo que eu deixe você nua?

“Quero.”

“Como fazemos, então?”

“Primeiro, quero lhe dar um beijo.”

Abracei-o e dei um beijo nos seus lábios. Um beijo ligeiro, mas cheio de charme.

“Você não acha melhor deixar para tirar a roupa em outro lugar?”, perguntou.

“Você prefere?”

“Acho melhor.”

“Está bem, então vamos nos encontrar à noite.”

“Hoje?”

“Isso, hoje, você pode?”

“Posso.”

“Mas jura que não quer me deixar nua, aqui?”

“Já que você insiste...”

Nadamos, mergulhamos algumas vezes, abracei e o beijei de novo. Ficamos agarrados um ao outro durante longo tempo. Depois vesti o biquíni, que ele guardara dentro da sunga, e voltamos para junto do guarda-sol.

A perspectiva do encontro marcado para mais tarde agradou-o. Mas sua fisionomia tinha um ar diferente da que eu estava acostumada a ver nos homens.

Permaneci na praia depois que ele se foi. Devido à hora já adiantada –  já passava do meio-dia – a freqüência diminuiu. Olhei em direção ao mar e pude perceber que as águas pouco a pouco se tornavam mais agitadas. Pensei no rapaz, pensei aonde poderia chegar aquele relacionamento caso vingasse. Seus olhos até certo ponto tristes me vieram muitas vezes à mente. Ele não demonstrara euforia pelo meu corpo, nem mesmo no momento em que pedi para que me deixasse nua. Seria ele assediado por muitas garotas, por mulheres mais jovens do que eu? Teria outras preocupações, além de arrumar uma namorada, ou de fazer amor com alguém? Ou seria gay? Era natural que na idade dele muitos se preocupassem com a carreira profissional. Ele, no entanto, em momento algum falou sobre trabalho ou sobre o que fazia para ganhar a vida.

À tarde fui ao banco. Enquanto esperava, lia um livro para passar o tempo. Era um desses romances policiais norte-americanos. Tinha um nome peculiar: Edições perigosas. Como sempre fui fã de literatura policial, estava me deliciando com a história. Tratava-se de uma narrativa ambientada em Denver, capital do Colorado. Um policial tentava desvendar um crime: por que morrera um alfarrabista? O assassinato levava a várias pistas, que naturalmente eram falsas. Na verdade, o crime não era investigado por apenas um policial. Este formava dupla com outro, que era inteligente, mas não demonstrava a mesma perspicácia que o primeiro. O interessante é que o romance, como o próprio nome insinuava, tinha como pano de fundo o comércio de livros usados e raros. Era delicioso me perder naquelas páginas em que, além da ação, era citada uma infinidade de obras literárias. Havia três mulheres metidas na história. Uma era a namorada de um gangster. Ele tinha sobre si uma série de acusações, e a mulher sofria nas mãos dele. A polícia, no entanto, nunca encontrava provas para prendê-lo. Naturalmente era um dos suspeitos de ser o assassino do alfarrabista. A segunda personagem feminina era rica e parecia comercializar livros raros apenas por prazer. Pairava alguma suspeita sobre ela. Porém o mais fascinante, era o ambiente requintado em que vivia. Fazia o tipo de mulher fatal, mas primava pela artificialidade. A terceira era uma imigrante escocesa que arranjara emprego na livraria de um homem que era recente no negócio de livros antigos. Mostrava-se esperta e empreendedora, mas não o suficiente para escapar da morte quando a história já ia perto do final. Mais ou menos no meio da narrativa, o policial investigador é acusado de abuso de poder. É obrigado a deixar o caso e, logo depois, a polícia. Mas, no final, é ele quem desvenda os crimes. Sim, crimes, porque num bom romance policial nunca há apenas um cadáver. Neste, consegui contar pelo menos quatro. Esperava a minha vez entretida nessa teia narrativa quando alguém bateu nas minhas costas. Virei-me.

“Ah, logo vi, só podia ser você, compra todos os livros que vê”, era Lurdinha.

“Oi, como vai? Não tenho paciência para esperar sem ler alguma coisa.”

“Está tudo bem com você?”

“Sim.”

“Tem passeado?”

“Algumas vezes.”

“Está sozinha?”

“Sim, estou.”

“Falou com tanta determinação...”, arregalou os olhos.

“Faz tempo que estou sozinha. Prefiro assim.”

Não queria contar nada meu para Lurdinha. Ela era uma boa pessoa, mas sempre achei que dá azar falar sobre relacionamentos com as amigas. Deixo que descubram por si próprias. Além de tudo, ficam todas fingindo muito interesse, mas na maioria das vezes torcem para não dar certo.

“Não conte pra ninguém. Mas estou com um namorado novo.”

“Novo na idade, ou recente?”, perguntei.

“Recente. Conheci o homem outro dia. Mas ele é muito jovial. Vou sair com ele hoje, acho que vamos num dos restaurantes da orla e depois... Bem, depois depende dele.

“Ainda não tiveram nada?”

“Uma vez. E foi tão bom.”

“Que legal!”, tentei estimulá-la, “você ainda é jovem, merece alguém para amar.”

“Isso mesmo, amar. É tão bom amar, não? Vou te contar sobre o que aconteceu ontem. Acho que dá tempo, estão chamando as pessoas muito devagar nessa agência, acho que pelo menos para contar alguma coisa isso é bom. Escute. Houve uma festa na escola em que trabalho. Eu e minha turminha de alunos tomávamos conta de uma barraca e nos divertíamos muito. Foi então que ele chegou. Trabalha no turno da tarde com os alunos maiores, os da oitava série. Mandei-lhe uma mensagem, dessas chamadas de correio do amor. Disse que o desejava próximo. E foi o que aconteceu. Não demorou e ele estava ao meu lado, ficou quase até o final da festa. Quando tudo acabou, eu disse: ‘estou faminta e exausta’. Estava frio naquela hora. Adivinha o que aconteceu?", não esperou que eu respondesse, "acabei nua na casa dele, encolhida e debaixo de uma coberta. Aceitei o convite para lancharmos. Enquanto foi à rua comprar pão e leite, me enfiei sob a coberta no pequeno estofado que há na sala. Quando voltou, esquentou o leite, colocou pão e queijo sobre a mesa. Trouxe o café quente num bule de vidro. Então me chamou: 'Venha! O café está pronto.' Respondi: 'Não posso, acho que não acreditei no seu lanche.' Ele se aproximou. Tomei suas mãos e as enfiei sob meus panos. Ele sentiu minha pele quente. Estiquei-lhe um beijo comprido. 'Vou trazer a xícara pra você', falou. Tomamos o café com leite. Depois, puxei o homem para os meus braços e também para debaixo da coberta. Dali a uma hora e meia lanchamos de novo. Outro café, o leite bem quente, e eu ainda nua. Passei o final da tarde na casa dele. Só posso dizer que foi ótimo.

“Acho que ele também deve ter gostado muito. Essas coisas fascinam os homens. Não é todo dia que aparece uma mulher nua debaixo de uma coberta enquanto se vai à padaria.”

Lurdinha sorriu.

“Você tem razão, tanto para ele como para mim foi uma grande surpresa. Célia, peço que não conte a ninguém, tá bom? É para não dar azar.”

“Pode deixar. Não tenho interesse algum em falar sobre isso a qualquer outra pessoa. Confie em mim. Boa sorte.”

Dei-lhe um beijo e caminhei ao guichê para ser atendida.

Ah, essas mulheres, sempre atrás de namorados. Parece que não têm mais o que fazer na vida. Acabei também rindo de mim mesma. Será que era muito diferente dela? Acho que não. Mas ao menos eu lia um livro, apesar de policial.

quinta-feira, junho 06, 2013

Se houvesse sol - 2

À noite, fui ao Shopping. Vestia um vestido preto curto, o tecido colado ao corpo, desses que nos deixam torneadas e fazem o olhar dos homens nos acompanhar quando lhes damos as costas. Como a temperatura era de meia estação, calçava uma bota de cano curto mas de salto, da mesma cor do vestido. Olhei algumas vitrines; atraiu-me a da Maria B. Vestidos, saias combinando com blusas verde musgo, manequins bem trajados, suéteres e cachecóis. Num dos corredores, sentei-me num quiosque de café expresso. Havia apenas eu, duas mulheres numa mesa próxima e mais adiante um casal. Tomei um capucino. De onde eu estava, reparei a joalheria Jews. Já que sou apaixonada por joias, tentei lembrar os cordões, colares e pulseiras que sempre ornam sua vitrine. Certa vez um admirador me presenteou com uma medalha. Conheci-o fazia pouco tempo. A medalha, que tinha ares esotéricos, lembrava o sol. Gostei muito dela. Deixei-me conquistar por ele fazendo o seu jogo, mas o relacionamento durou pouco. Chegamos a sair algumas vezes. Certa vez me levou a um restaurante muito chique. Aí vem a parte difícil de contar: ele me agarrou dentro do carro. Alguém que dá uma joia de presente a uma mulher e a seguir  tenta agarrá-la dentro do automóvel é de uma pobreza terrível. Deixei, porém, que me acariciasse. Depois, falei: "vou lhe fazer uma surpresa, feche os olhos." Ele assim obedeceu. "Não pode abrir, viu, porque se abrir perde a graça. Segure isso, está bem?" Ele então falou: "o que você me está dando para segurar?" Respondi: "adivinhe, é de pano e estava sobre o meu corpo, toque com a outra mão o meu pescoço." Ele assim o fez. "Ah, o cordão, você está só de cordão?" "Isso mesmo", falei, "mas não abra ainda, vou sair do carro, quando estiver lá fora dou a ordem para você abrir os olhos." Eu e essa eterna mania de dar ordens, vai que um dia elas não sejam obedecidas. Saí do carro, somente o cordão de ouro e a medalha no pescoço. "Agora abra." Ele se surpreendeu ao me ver pelada na frente do carro. Dobrei os braços, cobri os seios e fiquei olhando-o numa posição sedutora. Não resistiu e veio para o lado de fora. "Não, por favor, volte para dentro do carro, deixe meu vestido sobre o capô e volte. Continue de olhos fechados." Muito a contragosto, ele voltou. Não escutou outra ordem, porque me vesti e fugi dali. Creio que ao reparar o silêncio contínuo à sua volta, abriu os olhos e ficou furioso. Numa outra vez me viu na orla marítima. Mas não pôde fazer nada, estava acompanhada. Para provocá-lo, sorri e dei um adeusinho às escondidas.

Ao sair do café, olhei os cartazes com os filmes da semana. Havia uma comédia muito comentada. Senti vontade de assistir. Mas, uma surpresa, vi o jovem com quem conversara na praia pela manhã. Ele passou rápido, não me reparou. Pelo seu traje, acho que trabalhava em algum dos restaurantes do shopping. Decidi investigar. Rodeei todo o andar com a intenção de verificar os dois restaurantes que ficavam na frente, logo à entrada. Não demorei, mas não mais o vi. Será que se escondera, ou o homem não era ele? Achei melhor não insistir naquela noite. Mais cedo ou mais tarde o veria de novo.

Quando passei novamente em frente às escadas rolantes, vi duas amigas que me acenavam da mesa onde estavam. Tomavam chopes. Apesar de outras pessoas estarem nas proximidades, o local não estava muito cheio. Não é possível nesta cidade uma mulher ficar sozinha, pensei. Logo aparece algum conhecido. Elas eram boas pessoas. Também tinham um fogo terrível, viviam em conversas sobre namorados e sobre como se tornarem cada vez mais sedutoras.

“Ah, acho que vou até lá fora fumar”, falou Gisele. “Oi, Célia, que bom que você está por aqui”, disse ao me ver, “espere um instante, já volto.”

Na mesa ficaram Jussara e Carla, as duas se viraram para mim. Foi Jussara que falou primeiro:

“Como vai, Célia, há quanto tempo, não é mesmo? Nem pra telefonar marcando uma saída com a gente. Estamos sentindo sua falta.”

“Que bom que tenho amigas tão prestativas, que se preocupam sempre em me encontrar”, falei e sorri para elas.

Carla se manifestou:

“Há uma novidade, espere a Gisele voltar que ela vai contar, está achando o máximo o que aconteceu com ela.”

“Já sei”, arrisquei, “arranjou um namorado bem jovem e complicado.”

“Não é tão jovem, mas ela se meteu numa encrenca, e acha ótimo sair por aí contando a todo mundo, tanto mais numa cidade dessas, eu morreria de vergonha, ou então fugiria para bem longe. Mas você sabe como ela é.”

“Então o negócio é bom”, dei meu palpite.

“Para uma mulher do jeito dela, acredito que sim.”

“Olhem, vem ela de volta”, mostrou discretamente Jussara.

“Oi, Gisele, como vai?”

“Estou ótima, estou precisando de alguém para me acompanhar num chope, você aceita?”

“Um só, aceito, não quero engordar, principalmente porque tenho ido à praia nos dias de sol.”

“E tem feito muitos dias de sol, não é mesmo? Com esse corpinho que você tem, acho que não quer deixar de se exibir.”

“Ah, adivinhou, adoro.”

“Gisele”, interveio Jussara, “conta pra ela aquela história.”

“Que história, Jussara?”

“Ah, mulher, não se faça de tola, aquela história que você me contou cheia de sorrisos e achou muito engraçada.”

“Acho que a Jussara gostou mais do que eu do fato que narrei a ela.”

“Eu, Deus me livre, ficar nua na casa de uma desconhecida e ainda por cima estar sob o risco de ser enxotada pelada de lá.”

“Que história é essa?” perguntei surpresa.

“Calma, nem estava prensando mais nisso, mas já que nossa amiga tocou no assunto, conto de novo. Cada vez que relato o que aconteceu acho que a Jussara morre de tesão.”

“Sem comentários”, disse Jussara.

“Vamos para o restaurante da entrada, lá, além de ser melhor, ficamos em evidência. Você, Célia, falou que toma um chope.”

“Está bem, então vamos.”

Caminhamos até a entrada do shopping, do lado esquerdo há um bar muito bonito, todo com mesinhas de mármore. Sentamos e pedimos dois chopes. Jussara pediu uma taça de vinho.

“Sou toda ouvidos”, falei e ri.

Foi a respeito de um homem que me paquerou, saí com ele duas vezes.

“Ah, tinha de ter um namorado no meio, não?”

“Namorado na verdade, não. Foi apenas duas vezes. Mas eis a história. Estava no trabalho, você sabe que atendo o público. Eram mais ou menos três da tarde quando uma mulher de uns quarenta anos, loura, bonita mesmo, sentou diante de mim. Perguntei:

“Em que posso servi-la?”

E respondeu:

“Você trepou com o meu marido.”

Olhei um pouco assustada, achei que era uma brincadeira. Falei séria:

“Nem conheço a senhora, como pode falar assim comigo?”

Ela continuou:

“Mas é verdade, não sou pessoa de fazer escândalo. Mas descobri e vim até aqui para conversar com você.”

Senti um pouco de desconforto com a presença dela, mas acabou falando o nome do marido, o dia, a hora e o lugar aonde eu tinha ido com ele. Lembrei enfim de quem se tratava. Então, eu disse:

“É melhor a gente conversar em outro lugar, aqui preciso atender as pessoas, não vai ficar bem conversar sobre isso agora, vamos marcar para depois do expediente?”

Ela aceitou.

Quando saí, às cinco e trinta, lá estava a mulher aguardando. Sorriu para mim e disse:

“Vamos a um lugar melhor.”

Ela tem carro. Convidou-me a entrar, fiquei morrendo de medo.

“Não precisa ter medo, não vou fazer nada com você, só quero conversar.”

“Mas sobre o quê?”, perguntei, “saí apenas duas vezes com o seu marido, lembro de quem se trata, mas não marcamos mais nenhum encontro nem ele me falou que era casado.”

“Caso ele tivesse falado você sairia com ele?”

“Não sei. Já saí com homens casados, isso não me interessa, mas às vezes temo que aconteçam problemas como esse.”

“É melhor entrarmos no meu carro, vamos”, ela insistiu, “não quero ficar aqui no meio da rua conversando.”

Entramos no carro e saímos dali. Fomos para orla marítima. Paramos e entramos no Ilha Linda Sul. Achei melhor que fosse num lugar público, porque ali conheço algumas pessoas. Ela acabou aceitando. Pedimos, como agora, dois chopes. Até aquele momento não tinha se apresentado. Falou então seu nome, chama-se Mara. Reiniciou a conversa:

“Não quero brigar com você porque saiu com o meu marido. Sabe mesmo o que quero saber?” silenciou, esperando conseguir certo efeito com a pergunta. Intuí que esperava que eu me manifestasse.

“Não.”

“Quero que me explique o que fez para conquistá-lo.”

Sorri enquanto bebia os primeiros goles do meu chope. Ela me acompanhou.

“Mas essas coisas são difíceis de explicar, acontecem naturalmente”, insisti.

“Quero reconquistá-lo. Ele já gostou muito de mim, mas agora acho que perdeu o interesse. Veja como sou bonita, acho que sou mais bonita do que você. Desculpe a comparação.”

Sorri mais uma vez. Olhei bem nos seus olhos, depois o pescoço, os cabelos. Ela tinha realmente os traços muito refinados.

“Veja, vou tentar dizer alguma coisa”, falei, “não sou casada , e isso instiga um pouco os homens. Eles olham e querem me conquistar, desejam uma mulher diferente da que eles têm em casa. Há um ponto que sempre está contra a esposa, mesmo que ela seja bonita: as esposas perdem o fetiche.”

Ela me olhou demonstrando interesse, quis acender um cigarro, mas observou que não era permitido fumar no restaurante. Ficou durante alguns minutos com o cigarro apagado entre os dedos.

“Fetiche? Pode me explicar melhor?”

“É o seguinte, alguma coisa tem que estar escondida. A esposa costuma se abrir demais, isso é ruim, faz seu marido perder o interesse. Preste atenção. Aprendi isso quando era mais jovem. Tive um noivo, como todas as moças da época. Todas tiveram um noivo na juventude e estavam sempre prestes a casar com ele. Muitas até mesmo casaram. Esse meu noivo dizia gostar muito de mim. Mas vivia tomando chope com os amigos e jogando futebol. Aos domingos, era um problema. Ele só aparecia tarde da noite, nem dava para ficarmos juntos. Então imaginei como seria aquele casamento. Quis terminar o noivado, mas primeiro planejei um meio de deixá-lo apaixonado por mim. Depois, terminaria.”

“E o que você fez?”, perguntou ansiosa, balançava uma das pernas, estavam cruzadas.

“Esperei um dia em que tinha certeza de que ele estaria sozinho em casa. Não tínhamos marcado encontro, apareci de repente. Mas não foi só isso.”

“O que mais, então?”

“Apareci nua na casa dele!”

“Nua? Como assim?”

“Pelada, sem roupa alguma. Ele levou o maior susto.”

“O que você disse a ele?”

“Já acabo de contar. Permite que eu vá até lá fora fumar um cigarro?”

“À vontade, mas não demore.”

Podia ter fugido e deixado a mulher no restaurante morrendo de curiosidade, mas não queria fazer isso. Desejava mesmo contar o que aconteceu. Não demorei a voltar.

“Você também não queria fumar?”, perguntei, “vá agora.”

Acabou aceitando a sugestão. Enquanto isso, pedi ao garçom mais um chope.

Logo ela voltou, deve ter apagado o cigarro antes de ter atingido a metade.

“Conte, por favor, estou morta de curiosidade”, sorriu depois da última palavra.

“Continuando: apareci nua na porta dele. Bati, era uma dessas casas que tem muro com um portão que não fica trancado; a gente passa pelo portão, vai até a porta da casa e toca a campainha. Ele veio atender. Ao me ver, arregalou os olhos, ficou assustadíssimo. Perguntou de um só jato o que tinha acontecido. Nada respondi, apenas disse: me dê abrigo, por favor. Você foi assaltada, fizeram alguma coisa com você? Me fale o que aconteceu, ele quis saber. Me dê abrigo, eu dizia, abracei-o, beijei-o na boca e comecei a tirar sua roupa. Ele ainda continuava assustado. Não vai contar o que houve?, perguntou de novo. Depende, eu disse. Tirei sua roupa e trepamos ali mesmo, no chão da sala. Quando acabamos, pedi: você pode me dar um copo de água ou de suco? Vou buscar, mas quero saber direitinho o que aconteceu, falou. Foi à cozinha, mas quando voltou eu já não estava lá. Durante um bom tempo não me deixou em paz. Grudou de tal modo que eu não tive mais liberdade para fazer coisa alguma. Quando me perguntava sobre aquele dia, eu desconversava. Não foi mais tomar chope com os amigos nem jogar futebol aos domingos. Queria ficar comigo o tempo todo, queria trepar comigo o tempo todo. Às vezes, no meio do ato, suplicava: conta, conta sobre aquele dia. Sua família desconfiou de suas atitudes, pensaram que eu estivesse grávida. Depois de um mês, terminei o noivado. Nunca contei a ele por que cheguei nua naquele dia. Acho que até hoje deve deve ser apaixonado por mim. Já não mora na cidade”

“Mas que maldade!”, ela disse.

“Maldade?”, retruquei, “se você acha isso maldade, merece mesmo ser traída.”

Ela fechou a cara. Ficamos ali mais um quarto de hora. Depois me perguntou se eu queria carona para voltar. Respondi que não. Despedimo-nos e ela se foi. Antes, porém, disse:

“Muito obrigada, já sei o que vou fazer.”


“E a história de que você ficou nua na casa dela e que correu o risco de ser posta pra fora sem roupa?”, insistiu Jussara.

“Ah, isso foi num outro dia. Espere, quero mais um chope, também vou até lá fora fumar, depois continuo.”

Gisele saiu durante alguns minutos. Olhei para Jussara que fez um movimento com os olhos e continuou em silêncio. O garçom veio com o chope de Gisele e me perguntou se eu queria mais um.

“Por enquanto não, obrigada.”

Gisele voltou. Olhei para ela com fisionomia de interesse, queria que continuasse contar a sua aventura.

“Num outro dia encontrei-a na rua. Parou para falar comigo e agradeceu muito pelo que ensinei a ela.”

“Ensinei alguma coisa?”, disfarcei.

Ela respondeu: “e como!”

Contou o que fez. Minha história sofreu algumas adaptações na versão dela, que incluía até mesmo dirigir nua. Falou que o marido ficou exultante ao vê-la chegar sem roupa em casa. A princípio, nada perguntou. Pegou-a no colo e foram direto para cama. Depois, quis que ela lhe dissesse o que significava tudo aquilo. Mas ela fechou bem a boca. Nos dias que se seguiram, ele ficou morrendo de curiosidade. Ela continuou em silêncio sobre o assunto. Ele então sugeriu algumas ações semelhantes. Pedia para ela sair, trancava a porta e pedia para que batesse nua. Ela cumpria o que o homem pedia. Depois que entrava, caía em seus braços e inventava uma história para explicar porque chegara nua. Ele sempre tinha a esperança de que dentre tantas histórias ela acabaria contando a daquele primeiro dia. Depois passaram a sair de madrugada. Iam a lugares escuros, para a orla ou mesmo para a rodovia. Ele deixava-a nua por alguns minutos e partia levando toda a roupa da mulher dentro do carro. Um dia não a encontrou, procurou-a a noite inteira, achou a mulher quando já amanhecia, e num local muito distante de onde a deixara. Quis saber o que acontecera. Mas ela silenciou mais uma vez.  Convidou-me para ir até sua casa para continuar contando suas histórias, disse que queria me fazer uma surpresa. Fez um café e depois me pediu para tirar a roupa. Perguntei qual era o motivo. Disse que queria comparar o seu corpo com o meu.

“Ah, que besteira, é lógico que você é mais bonita”, disse eu.

Mas acabei aceitando o desafio. Tirei a roupa e comparamos nossos corpos. Ficamos ambas nuas durante algum tempo, as duas sentadas em poltronas da sala, de pernas cruzadas. Quando estava para ir embora, pedi que me deixasse vestir. Devolveu meu vestido. Agradeci, beijei-a e fui embora. É tudo. Sei que seu casamento dura até hoje, e o marido nunca mais me procurou.


“E como você fez?”, Jussara quis saber.

“Já arranjei três amantes depois dele.”

Caímos as três numa gargalhada demorada.

Fomos embora por volta das dez horas, a hora em que as lojas fecham. Quando já estava no estacionamento, vi de novo o rapaz que admirara pela manhã na praia. Acho que me espionava. Mas por que não veio falar comigo? Sou uma pessoa tão aberta. Talvez porque me viu acompanhada de outras mulheres. Depois ainda pude perceber que correu até o estacionamento das motocicletas. Não mais consegui vê-lo, estava escuro e o estacionamento fica num ângulo mais retirado, no pátio coberto do shopping.

Em casa, larguei-me numa das poltronas antes de me despir. Deitei-me. Quis ouvir uma música, mas quando pressionei o controle foi a tela da televisão que brilhou. Cheguei a tomar um susto. Havia apanhado o controle errado. Acabei me distraindo com um filme. Acho que era uma série policial. Devia fazer frio naquele lugar, pois uma mulher usava um vestido de tecido grosso, de mangas compridas, quando saiu em diligência ainda cobriu-se com um sobretudo. Mas foi o vestido da mulher que chamou a minha atenção. Lembrei-me de um vestido semelhante que tivera quando morei em BH. Aconteceu algo muito engraçado quando saí com aquela roupa, a pedido de um namorado de ocasião. Mais uma extravagância. “Você sai de vestido mas sem nada por baixo?”, a voz lânguida revelava seu forte desejo por mim. Ri da proposta. Como ele era encantador, aceitei. Confesso que a ideia também me agradou. O vestido era do mesmo modelo daquele do filme, de botões que iam de cima até embaixo. Os botões e a possibilidade de desabotoá-los o excitavam mais. Saímos lá pelas dez e meia, rodamos por umas ruas onde havia bares e boates. Entramos em um bar e tomamos uma cerveja, comemos uma besteira qualquer. Ele ficou me alisando e, quando podia, me beijando. Fomos os dois ficando excitados. Já passava de meia-noite quando saímos dali. Meu namorado perguntou: “você não conhece um canto escuro para eu desabotoar esse vestido e lhe dar uns beijos?” Sua nova proposta me excitou ainda mais. Nada falei, mas o puxei pela mão e andamos por umas ruas escuras. Encontrei um vão. Era entre uma loja e uma espécie de galpão, um lugar que fazia alguns anos não servia para nada, acho que fora uma pequena fábrica. Ficamos ali, de pé, agarrados um ao outro. “Vai, desabotoa”, incentivei, “suas mãos estão tremendo, quem vai ficar nua sou eu, completei.” Ele me deixou nuazinha. Não lembro onde deixei o vestido. Minha única proteção durante muito tempo foi o corpo dele. Passaram alguns automóveis e eu ali, totalmente nua. Namoramos muito. Após uma meia hora fomos embora. Acabamos nossa transa em casa, numa rede que eu tinha dependurada perto da janela. O andar era o décimo oitavo. Dali dava para ver todo o centro da cidade. Em meio às carícias, ele sussurrou no meu ouvido: “já pensou se te roubam o vestido?” Respondi: “pensei nisso, fiquei ainda com mais tesão!”

Se houvesse sol - 1

A partir de hoje passo a publicar, em capítulos, o meu novo romance. Espero que o apreciem. Agradeço.

Ele passou na faixa de areia entre o mar, que explodia em rendas desfiadas, e a pequena falésia. Era alto e jovem. Eu lia uma revista e ao mesmo tempo tentava dar conta do que acontecia à minha volta. Havia pouca gente na praia, um guarda-sol ou outro, a maioria eram mulheres sozinhas ou acompanhando crianças. Continuou o seu caminho. Não se tratava de uma caminhada de esportista ou de alguém interessado em andar para melhorar a condição física, era alguém que andava por andar, talvez por achar enfadonho permanecer no mesmo lugar. Parecia absorto. Lembro-me ainda que voltou o rosto para o mar uma ou duas vezes; depois, desapareceu. Momentos mais tarde fez o caminho de volta. Suas passadas eram como as da ida. Notou então que eu o olhava. Mesmo que continuasse acompanhando sua marcha, sei que jamais viria falar comigo. Era o jeito dele.

No dia seguinte, voltei à praia. O mesmo sol, quase as mesmas pessoas. A cena se repetiu. Então lhe acenei. Perguntei se tinha fogo. Mas ele não fumava. Ao reparar que eu teria de renunciar ao cigarro, acho que por gentileza pediu que eu aguardasse. Voltou com um isqueiro. Ignoro onde o arranjou. Não acendeu meu cigarro. Apenas emprestou-me o isqueiro. Acendi e devolvi.

Obrigada", meu sorriso pareceu agradá-lo. Embora tenha também sorrido, partiu em seguida.

Demorou uma semana para que eu o visse de novo. Não  lembro se era quarta ou quinta-feira. Acenei num sinal de cumprimento. Sorri. Ele fez os mesmos gestos, mas não parou. Mais ou menos uma hora depois vinha de volta. Como não queria perdê-lo, chamei-o.

“Passeando?”, perguntei.

“Dando umas voltas.”

“Mas a praia é em linha reta”, sorri.

“Como?”, pareceu não entender.

“É uma brincadeira, não me leve a mal.”

Durante o breve diálogo, mantive-me de pé, olhando durante quase todo o tempo para ele.

“Meu nome é Célia, e o seu?”

“Daniel.”

“Você toma banho de mar?”, continuei.

“Tomo.”

“Mas vejo apenas você caminhando...”

“Mergulho mais tarde.”

“Vamos mergulhar?”, sugeri.

“Vamos.”

E fomos nós dois para dentro d’água.

A água do mar estava fria, mas não deixamos de nos divertir. Mergulhamos diversas vezes, cortamos várias ondas. Ao voltarmos à superfície eu sorria para ele enquanto uma enorme quantidade de água escorria pelos nossos cabelos e rostos. Sempre tentávamos observar as ondas para não sermos surpreendidos por uma ou outra de maior tamanho. Meu recente amigo tinha intimidade com o mar, mostrou-se bom nadador.

Voltamos para junto do meu guarda-sol. Enxuguei-me com uma grande toalha e a ofereci a ele. Não desejava esperar que os mornos raios de sol me secassem.

“Fique um pouquinho”, pedi.

Ele olhou para o céu como se consultasse alguma coisa. Acho que se certificou de que o sol ia alto e que não desapareceria. Depois se voltou para mim e sentou-se na areia, ao lado da cadeira onde momentos antes eu sentara.

Durante algum tempo, que me pareceu enorme, ficamos olhando na direção do mar, um vento ainda brando nos acariciava.

“Você vem à praia todos os dias?”, perguntei.

“Tento vir.”

“É bom poder aproveitar a vida à beira-mar, tanto mais numa cidade tranquila como a nossa.”

“Você acha M. tranquila?”

“Pelo número de habitantes, sim. Mas depende também da vida que se leva.”

“É, depende da vida que se leva”, pareceu gostar das minhas últimas palavras. “Você não trabalha?”

“Depende do que se entende por trabalho”, respondi. “Às vezes vir até aqui e permanecer sob o sol é um tipo de trabalho, não é mesmo? Ajuda no que é preciso fazer depois.”

“E o que você faz depois?”

“Espero chegar o dia seguinte.”

Riu.

“Acho que vou ter de ir, tenho um compromisso.”

“Então vá, não há problema algum, a gente se vê depois.”

Despediu-se e se foi. Quando já havia dado alguns passos, falou:

“Estou sempre aqui pela manhã.”

Acenei e sorri antes que me desse as costas.

Depois que ele se foi, concentrei-me na leitura de uma revista. Era uma dessas revistas semanais que trazem a vida de modelos e de artistas, objetos e roupas da moda, muita propaganda e história de pessoas famosas. Havia uma página em que uma atriz americana contava o seu primeiro trabalho para um comercial em que tinha de ficar nua da cintura para cima. Eis as palavras da mulher:

Era uma propaganda de jeans e a cena não era difícil, mas como eu não estava acostumada a tirar a roupa na frente de tanta gente, fiquei um pouco nervosa. O diretor dizia: “são todos profissionais, não temos tempo a perder, caso você queira desistir há milhares de garotas que estão dispostas a posar nua de graça.”

Eu estava já sem a blusa, mas envolta numa pequena toalha. Ele continuava: “Vamos, não posso perder tempo, tenho outros compromissos para hoje.”

“Espere um instante, por favor, dê-me mais cinco minutos que eu consigo”, pedi

“Apenas cinco minutos, caso contrário contratamos outra pessoa.”

Voltei desesperada ao camarim. Ele ficava numa caminhonete que tinha cortinas nas janelas. Para me deixar ainda mais nervosa, filmávamos ao ar livre. Um dos assistentes correu atrás de mim e me ofereceu uma dose de uma bebida que naquele momento eu não soube identificar.

“Beba isso, você vai relaxar.”

Depois de alguns minutos, confesso que me senti ótima, totalmente solta. Saí do camarim até mesmo sem o pano que me cobria os seios. O diretor olhou surpreso:

“Vamos, então?”

Sorri e disse sedutora:

“Agora!”

As fotos ficaram lindas. Pedi para escolher qual gostaria que fizesse parte da campanha publicitária. Eles concordaram e acabaram também opinando que a minha escolha era a melhor. Depois, ao me ver na capa dupla das principais revistas com os seios à mostra e vestindo apenas a calça jeans e o sapato preto de salto, senti uma ponta de vergonha. Mas o que há de se fazer? É a minha profissão.

Algumas semanas depois, o mesmo assistente que me dera a bebida telefonou e me convidou para sair. Marcamos o encontro num dia de semana, à noite. Ele me pegou em casa.

“Que bebida foi aquela que você me ofereceu naquele dia?”, perguntei, “me senti tão corajosa.”

“É segredo. Mas se você quiser vamos até lá em casa que eu dou a você mais uma dose.

Aceitei, queria descobrir o segredo.

Não digo o que aconteceu depois. Tomei a bebida e logo tirei a blusa de novo.


Continuei folheando a revista. A mulher não dissera o principal, se trepara ou não com o homem. Mas é lógico que deve ter trepado.

Quando senti o sol já a me queimar, dei mais um mergulho. Esperei meu corpo secar durante cinco ou dez minutos, recolhi o guarda sol e voltei para casa.