terça-feira, junho 11, 2013

Se houvesse sol - 4

À noite, fui ao encontro de Daniel. Ele tinha uma moto, mas disse que o apanharia. Encontramo-nos nas proximidades do Grande Hotel, na praia de C. Quando cheguei, ele já me esperava. Ao entrar no carro, beijou-me. Segui pela orla pensando onde pararíamos. Apontei um restaurante muito conhecido, quase no final da praia. Ele concordou. Estacionei e entramos. Estava feliz por tê-lo ao meu lado. Achei que ele demonstrava um pouco de acanhamento. Estava bem vestido, uma roupa que combinava com seu tipo físico e de acordo com o costume de como se vestem os jovens, calça de jeans leve e uma camisa polo que trazia no peito a bandeira da Inglaterra; calçava sapatos marrons, na verdade, olhando atentamente, tratava-se de um tipo de tênis mais usado para passeio.

“Neste restaurante, ficaremos à vontade. Não quero encontrar nenhuma de minhas amigas”, falei.

“Você gosta de restaurantes, não?”, insinuou.

“Gosto também de outros lugares, mas aqui nesta cidade não há muitas opções. Para conversar, nada melhor do que um restaurante.”

O garçom nos trouxe, com muita cerimônia, um enorme cardápio. Reparei que meu jovem companheiro assustou-se ante aquele exagero.

“Peça o que quiser, fui eu que convidei você, e quem convida dá banquete”, falei e lancei um beijinho a ele.

Olhou-me inclinando um pouco a cabeça, fez um movimento que indicava concordância com as minhas palavras.

“Aqui, além de ter um vinho ótimo, a gente pode apreciar o mar através dos vidros. Tudo que nos resta nesta cidade é o mar. Quer dizer, o mar e alguns restaurantes.”

“Você é de onde?”

“Sou do Rio. E você?” devolvi a pergunta.

“Daqui mesmo, mas já estive fora.”

“Onde?”

“Na Bahia.”

“Já sei, seu pai trabalhava com petróleo e levou a família para lá.”

“Como adivinhou?”, perguntou.

“Não é difícil, aqui há muitas histórias semelhantes.”

“O garçom voltou com o vinho escolhido por mim.”

“Nem perguntei se você gosta de vinho, desculpe-me.”

“Tomo uma taça, mas confesso que não é minha bebida preferida”, apressou-se em dizer.
Enquanto o garçom abria a garrafa, eu disse a Daniel:

“A gente demora a adquirir o paladar para o vinho. Quando tinha a sua idade, também não gostava. Acho que mais tarde você vai pensar de outro modo.”

O garçom colocou uma pequena quantidade e esperou que eu experimentasse. Movi afirmativamente a cabeça. Ele, então, encheu nossas taças até a metade.

“Você é uma mulher independente”, o jovem olhou para mim como se tivesse feito uma grande descoberta.

“Nenhuma mulher é independente. Aliás, ninguém é independente.”

“Você acha?”

“Claro. Tudo é relativo, nunca se tem um independência plena. Para beber este vinho, a gente depende de uma porção de gente.”

“Não falei neste sentido.”

“Sei que você fala em independência financeira, ou mesmo porque sou uma mulher livre e não devo satisfações a ninguém. Mas essa independência custa caro, e às vezes a gente se vê na mais completa solidão. Além disso, ninguém quer acabar os seus dias sozinho.”

“Você está falando na morte”, pareceu assustar-se.

“O que tem isso? As pessoas não gostam de pensar na morte, mas é a coisa mais natural que existe. Você, gostaria de morrer sozinho?”

“Acho que todos morrem sozinhos”, ele disse, “a não ser que aconteça um acidente ou mesmo um suicídio combinado entre duas ou mais pessoas, aí se morre junto.”

“Não falo nesse sentido. Acho que me expressei mal. Digamos assim: ninguém gosta de envelhecer só e terminar seus dias sozinho.”

“Nesse caso, quem sobreviver vai acabar sozinho.”

“Isso é verdade. Agora já não sei como resolver. E tem mais uma coisa, você falou nas hipóteses de duas ou mais pessoas morrerem juntas. Mas acredito que o momento da morte é único para cada um, como é também o momento da vida.”

A conversa se desviou para outros assuntos. Foi ele quem a reiniciou.

“Hoje pela manhã achei você um tanto louca. Me conhece tão pouco e já quis que eu a deixasse nua dentro d’água.”

“Acho que não há quem seja totalmente sã, sempre há um desvio.”

“O que você achou em mim para me fazer aquele pedido?”

“Gostei de você desde a primeira vez que o vi. Só tive um namorado bem mais jovem do que eu. Não costumo me entregar com facilidade aos homens. Foi uma maneira de tentar atrair você.”

Olhou-me diretamente, como ainda não me tinha olhado.

“Você sabe que tenho uma namorada?”

“Imaginei. Vocês jovens sempre têm alguém, aliás, quase todos têm alguém. Muitos até se casam. Depois vão jogar futebol e deixam a mulher sozinha em casa. Há aqueles que passam o domingo todo na rua, bebendo com os amigos.”

“Tenho amigos assim, mas tento ser um pouco diferente.”

Outro garçom havia muito nos esperava fazer o pedido. Daniel olhou para ele, depois para mim, parecia encabulado com a presença do empregado.

“Já vamos fazer o pedido”, falei ao garçom.

Retirou-se por alguns momentos enquanto eu olhava o cardápio. Perguntei ao meu companheiro se tinha alguma preferência.

“Não estou com fome.”

“Eu estou, não como nada desde a hora do almoço.”

Pedi um entrada para beliscarmos enquanto aguardávamos o prato principal, um filé de peixe à moda do restaurante, naturalmente o prato não tinha o nome em português.

“Caso encontre sua namorada, vou chamá-la para sair comigo. Assim ela aprenderá alguns truques”, ameacei.

“Como assim?”

“Como tornar seu namorado eternamente apaixonado.”

“Ah, será um grande pecado!”

“Você acha?”

“Acho. Mas quero perguntar uma coisa. Você não se incomoda de eu ter uma namorada?”

“Claro que não. Não vou namorar com ela, mas com você. E, assim, não precisamos ficar tão juntos. Tenho muito a fazer.”

“O que você faz?”

“Não gostaria de dizer agora, mas é algo muito importante, ao menos para mim.”

“Estou fazendo um curso.”

“Caso não queira me dizer, não há problema”, falei.

“Não, sobre isso nada tenho a esconder. Já fiz alguns estágios, mas não tenho um emprego fixo. Ainda estou tentando, e nem sei se é isso que eu quero.”

“Seria melhor a vida ao natural, caminhar pela praia de manhã, dar uns mergulhos, não é mesmo?”

“Isso seria um sonho, mas a vida não é assim. Na verdade, não tenho dinheiro algum.”

“Eu já o tenho. Lógico que não sou rica, mas para mim dinheiro não é problema.”

“Você é casada?”

“Por acaso você quer casar comigo?”

“Não tinha pensado nisso, foi só uma pergunta.”

“Não sou casada. E tenho uma porção de admiradores.”

“Acredito.”

“Pois acredite, não estou com você porque não há outros homens. Gostei de você quando o vi, quis ter uma nova experiência.”

“Será que aceito?”, riu em seguida.

“Convidei apenas para estarmos juntos. É lógico que você tem liberdade para ir embora a qualquer momento, e mesmo para não me tornar a ver.”

“Sei, tenho toda a liberdade do mundo. Mas as coisas não acontecem desse modo,” sorriu mais uma vez. Percebi que a minha estratégia estava dando certo.

O garçom chegou com os pratos e começamos a jantar.

“Nunca uma mulher me pediu para tirar seu biquíni na praia”, falou.

“Foi apenas uma estratégia. Queria excitar você, mantê-lo junto a mim por mais tempo.

“Você vai encontrar comigo amanhã e vai me pedir a mesma coisa?”

“Vou pedir ainda hoje.”

Achou minha resposta sagaz, tomou mais um gole de vinho e pôs-se a comer com mais apetite a sua parte no jantar.

Não é preciso dizer que passamos uma noite maravilhosa. Levei-o para minha casa. Logo ao entrar demonstrou interesse por tudo que viu.

Como bebi a maior parte do vinho, meu fogo já vinha aceso. Fui ao banheiro e tirei toda a roupa. Para não voltar à sala inteiramente nua, enrolei-me na toalha de banho, que se transformou num curto tomara-que-caia.

Desculpe, estou morrendo de calor, sentei ao lado do rapaz e cruzei as pernas. Meus seios, um tanto volumosos, ameaçavam escapar.

Ficamos namorando durante várias horas. Apesar de jovem, é um amante delicioso, sabe dar prazer a uma mulher. Pedi para que ficasse até o amanhecer, mas ele se foi em torno das três da manhã.

Nenhum comentário: