sexta-feira, junho 14, 2013

Se houvesse sol - 6

“De que você vive?”, quis saber Daniel.

A pergunta desagradável surgiu alguns dias depois, quando, ao acaso, nos encontramos na praia.

“Primeiro me diga por que você não me telefonou.”

“Estive ocupado”, respondeu.

“Tenho vindo todo dia, pensei que o encontraria também todos os dias”.

“Andei vendo um emprego.”

“Quer dizer que procura emprego?”

“Pela minha vontade, não. Mas não posso viver sem dinheiro.”

“Você mora com seus pais então...”

“Sim. Mas você não respondeu a minha pergunta.”

“De que eu vivo? De brisa, não está vendo? De brisa e de sol. Não é possível me encontrar aqui todos os dias?”

“Mas não é sobre isso que perguntei. Queria saber se você tem algum emprego.”

“De certa forma, sim.”

“Você poderia dizer qual?”

“Posso dizer que não tenho uma empresa para dar emprego a você.”

“Não é isso que quero nem estou te pedindo emprego. Como você ganha dinheiro?”

“Sou rica. Mas não fale para ninguém, serei sequestrada.”

“Verdade mesmo?”

“Até certo ponto, sim. Mas mando uns textos para uma editora, para revistas e jornais.”

“Você então é jornalista.”

“Não. Escrevo por prazer.”

“Que bom! Escrever por prazer. E você lê também?”

“É do que mais gosto, ler e andar nua!”

“Você é muito engraçada.”

“É o que as pessoas dizem.

“Você é feliz?”

“Só quando leio e ando nua.”

“Mas você não elabora nenhuma questão?”

“Você pergunta sobre filosofia?”

“Isso. Mas não é esse o nome que dou.”

“Desisti. Escrevo umas histórias em que as pessoas vivem o prazer, entende? O prazer quase total. É o que tento fazer também em relação à minha vida.”

“Você acha isso possível?”, ele se mostrava muito excitado com a conversa.

“De certa forma, sim. Mas por outro lado há um problema.”

“Qual?”, perguntou, embora soubesse que eu continuaria mesmo sem sua intervenção.

Olhei para o mar, procurei um cigarro dentro da bolsa, acendi-o e estiquei as pernas, toquei levemente o meu próprio corpo perto do biquíni, abaixei um pouco o cordão para aproveitar melhor o sol.

“Você fica sempre na praia se bronzeando?”, interpelou.

“Não foi assim que você me conheceu?”

“Responda. Qual o outro lado?”, começou a mostrar-se nervoso, franziu o rosto por causa da ansiedade.

“O outro lado é a finitude.”

“Finitude?”

“Tudo um dia termina. Por isso tento viver o prazer máximo. Os gregos já pensavam assim, aliás, não todos, alguns, mas já pensavam.

“O que isso tem a ver?”

“Tem a ver com filosofia. Não foi esse o início? Parece que pra você o prazer não combina com a serenidade, ou com a seriedade. Não é isso que você pensa?

“E você acha que vale a pena viver assim?”, fez a pergunta sem me responder, parecia um tanto atordoado, comecei a ficar preocupada como tudo aquilo iria acabar.

“O quê?”, indaguei.

“A vida...”

“Acho que sim. Qual seria o outro caminho?”

“Uma atitude de recusa.”

“Recusa? Você com essa carinha não parece entender muito disso”, falei.

“Entendo mais coisas do que você imagina”, sua voz se alterou, chegou a gritar.

“Por isso, não pensa muito em sexo...”

“Não é essa a questão”, insistia ele, “o sexo também pode ser visto como um tipo de recusa.”

“Caso você leve para esse lado, acho que tem razão.”

Aproximei-me, beijei-o no rosto. Ele não esperava pelo beijo.

“Ouça”, continuei, “há filósofos que falam sobre isso, esse assunto parece um tanto velho, as pessoas não param mais para pensar nessas coisas.”

“O mundo parece um poço sem fundo. Nele se cai eternamente e não se tem condição de olhar para cima.”

“Talvez você tenha alguém a quem se agarrar antes de cair, ou talvez a queda eterna seja um pouco demorada demais. Venha até aqui, encoste-se em mim, sinta meu corpo, tente experimentá-lo. É difícil perceber algo fora disso no mundo de hoje. Não se vai a lugar nenhum pensando tanto.”

Levantou-se, olhou o mar. Pensei que fosse virar de novo para mim. Mas foi embora sem se despedir.

A conversa deixou-me um pouco assustada. Sabia que ele não encontraria as respostas que procurava. Talvez mais tarde pudesse refletir melhor. Não queria dizer a ele para procurar se divertir e esquecer suas perguntas. O que eu tentava era conquistá-lo para o meu mundo. Não que fosse aliená-lo, mas fazê-lo refletir sobre a questão do corpo, que para mim é muito importante.

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