terça-feira, junho 18, 2013

Se houvesse sol - 7

Dois dias depois, numa tarde, fui com um amigo ao restaurante Ilha Linda. Bebemos uma garrafa de vinho. Presenciei, numa mesa vizinha, cena interessante, que comprovava o que eu conversara dias antes com Daniel.

Uma mulher, que trazia uma criança num carrinho de bebê, jantava com o marido. Na mesa próxima, um homem e outra mulher bebiam e conversavam. A mulher que trazia a criança vestia a saia curtíssima, por isso cruzara as pernas como se tentasse ocultar a nudez, mas o que conseguia era insinuar-se ao homem da mesa vizinha. Este podia dirigir o olhar para as suas pernas sem ser notado pela mulher que o acompanhava. Ao perceber o assédio, a primeira mulher descobriu-se estimulada e descuidou-se de propósito.

O que levara eu e meu amigo naquele dia ao restaurante, no entanto, foi um fato que ele estava vivendo. João Carlos queria conquistar uma jovem, mas não estava conseguindo, por isso marcara um encontro comigo. Pensou que eu poderia ajudá-lo.

“Ela é muito bonita, o único problema é a idade: trinta anos mais jovem do que eu”, falou em meio a um gole de vinho.

“Se você coloca a idade como problema, acaba tornando a conquista difícil.”

“Como? Não entendi.”

Respirei fundo, olhei para o mar, fiz como me surpreendesse alguma visão distante. Entardecia. Sorri, voltei-me para ele e disse:

“Quando nós mesmos classificamos um fato como problema, ele tende a ficar mais difícil, e você está dizendo que a idade é o problema.”

“Geralmente são as pessoas que dizem isso, faz parte do senso comum.”

“As pessoas acham, as pessoas dizem... Você precisa também achar, precisa dizer?”

Foi a vez de ele sorrir.

“Célia, só você para enxergar essas coisas, nunca tinha pensado nisso.”

“Reflita e conclua se não tenho razão. Caso você mesmo crie o obstáculo, será mais um que você terá de superar.”

“Já entendi”, parecia ter feito a maior descoberta de todos os tempos, “caso eu não veja isso como obstáculo, ele não existe.”

“Não é bem assim. Escute. Pode ser que a cabecinha dessa sua adorada mulher também pense que a idade seja um problema. Caso você não toque no assunto, ela pouco a pouco deixará de pensar nisso.”

“Vou começar por aí, então.”

“Comece, mas vá devagar. Lembra o ditado?”

“Qual?”, fez cara de curioso.

“O que é do homem o bicho não come.”

“Quando eu era criança, costumava ouvir isso dos garotos da rua onde morava.”

“Você já a convidou para sair, almoçar ou jantar?”, perguntei.

“Já, mas ela não deu resposta. Envio sempre mensagens por e-mail, ela responde sobre tudo, menos sobre os meus convites.”

“Então não é bom insistir. Espere um pouco, modere as ações, deixe-a pensar que você arranjou outra. De repente, quem sabe, você telefona e diz que quer falar com ela pessoalmente. Nada é garantido, mas há sempre uma possibilidade?”

João Carlos parecia mais esperançoso. Movimentou a cabeça, pegou um cigarro e o acendeu. Continuou:

“Às vezes também pode não ser para mim.”

“O quê?”

“Essa mulher. Há tantas outras, algumas me telefonam quase todos os dias, e eu quero a que não me dá resposta.”

“A natureza humana é assim, procura-se sempre o que é mais difícil. Vou contar uma coisa para você. Sabe quando aqui em M. existia o bingo? Conheci uma mulher que trabalhava lá. Ela não tinha atrativo algum. Mas um amigo meu era louco por ela. Fez de tudo para conquistá-la. A mulher era complicada. Tinha três filhos. Dois eram do primeiro marido; o menor, do segundo. Nem tinha com quem deixar as crianças. Passava a noite inteira trabalhando, arrumada, maquiada, trocando dinheiro para os clientes enfiarem nas máquinas. O meu amigo cantou a mulher insistentemente. Até que um dia conseguiu. Ela o explorou por seis meses. Ele permitiu, dava tudo que ela pedia. No final, ela ainda lhe arrancou três mil. Depois, desapareceu. Ele ainda ficou a procurá-la durante um bom tempo. Hoje, sei que ela voltou à cidade. Ainda bem que ele já não mora em M. Se morasse, aposto que ainda estaria atrás dela.

“As pessoas procuram o sofrimento, você quer dizer.”

“É mais ou menos isso. Mas para que duas pessoas se aproximem é preciso que exista uma certa química.  Tive outro amigo que dizia que não existe mulher difícil, mas mulher mal cantada. Sou mulher, portanto suspeita para falar, mas não penso assim. Uma boa cantada ajuda, mas acredito que há pessoas que a gente não consegue conquistar.”

“Verdade?”

“Pelo menos naquele momento, entende? Por isso acho que às vezes é melhor esperar um pouco, fazer-se de difícil. Não existe uma fórmula para todos.”

Alguns dias depois fui a uma festa no hotel mais chique da cidade. Do salão, era possível apreciar toda a orla marítima. As luzes vistas ao longe pareciam cintilar; o reflexo da lua sobre o mar estendia uma esteira prateada.

Conheci naquela noite Joel, um engenheiro que dizia trabalhar na Petrobras. Ficamos conversando por longo tempo junto a uma das janelas. Ele bebia uísque; eu, uma taça de vinho banco.

O assunto era sobre a cidade, sua beleza, seus problemas e o caos político em que estava mergulhada. Não disse muita coisa, fiquei mais a ouvir as explanações do homem.

“Vocês têm uma cidade com ótima localização geográfica, mas a organização local não existe. Tudo é muito provinciano. Como pode a indústria petrolífera conviver com tamanho caos?”

“Você chegou aqui hoje?”, perguntei.

“Faz alguns meses.”

“Há muita razão nas suas palavras, mas sinceramente não conseguimos fazer de M. uma cidade melhor. Acho que a causa está nos políticos locais. Eles compram votos. Quem os elege é a população inculta e de baixa renda. Caso houvesse educação, esclarecimento, poderíamos ter uma administração melhor. Mas o que acontece aqui, ocorre em qualquer cidade brasileira, ou mesmo do mundo subdesenvolvido. O caos e a desorganização não são privilégios locais.”

“Ah, claro, o Brasil inteiro é assim.” Olhou e perguntou: “será que posso fumar aqui?”

Vi que outras pessoas fumavam, sobretudo as que estavam próximas ao terraço. Sugeri o local e fomos andando até a porta que dava acesso a uma espécie de varanda. Ali se podia sentir mais intenso o ar frio da noite. Passei por algumas pessoas e vi entre elas João Carlos, que piscou para mim, conversava com uma mulher. Mas acho que não era sobre quem falara dias atrás.

“Que vista maravilhosa, são poucos os lugares assim onde se pode fazer uma festa.” Acendeu o cigarro e permaneceu olhando em direção ao mar.

“Tenho um apartamento no Rio, no Jardim Botânico, é um bairro agradável. Mas a cidade é muito desconfortável. O tráfego é caótico; o calor, excessivo; e o aglomerado humano me causa desprazer. Se uma cidade como M. fosse mais organizada, seria melhor ficar por aqui. Você já pensou alguma vez em morar no Rio?”, perguntou de repente, enquanto soltava a fumaça do cigarro e levantava um pouco a cabeça.

“Sim, já até morei em Copacabana. Estou acostumada ao Rio. Mas, apesar dos problemas de M, quem vive como eu, vive melhor aqui. Tenho uma boa casa, vou à praia, caminho quase todos dias, vez ou outra tomo banho de mar. É um lugar em que se tem mais conforto.”

Os coquetéis costumam oferecer champanha aos convidados, bebida que sempre esteve na moda nesse tipo de evento. Meu recente amigo, no entanto, recusou. Perguntou ao garçom se serviria mais uísque. O rapaz respondeu que sim. Não demorou e logo já voltava com a bebida. Pela primeira vez em M., vi alguém trabalhar com presteza. Joel fez alguns movimentos circulares com o copo para misturar o gelo e, a seguir, saboreou o líquido dourado.

“Os eventos promovidos por essas empresas petrolíferas são enfadonhos. Sabe-se perfeitamente o que está por trás disso. Sempre querem benefícios do Governo e da Petrobras. A empresa que hoje patrocina o coquetel pertence a um conhecido senador.”

Ouvi suas palavras, mas mantive-me em silêncio. Uma colega estava do outro lado do vidro da varanda. Ao me ver, acenou. Ela conversava com um homem muito alto, que à primeira vista parecia estrangeiro.

“Quer dizer que aqui é um bom lugar para se frequentar a praia?”, Joel perguntou.

“Vez ou outra, sim”, respondi

“Em que você trabalha?”

Os homens e suas indelicadezas, não se deve perguntar isso a uma mulher. Certa vez estive no Japão, aprendi que lá não se pergunta a profissão das pessoas. Aqui no Brasil, não há quem tenha a mínima educação sobre isso. Quando dizemos em que trabalhamos, revelamos mais da metade de nossa vida privada.

“Será que pretendo me estabelecer também com uma empresa petrolífera?” perguntei com ironia. Homens como Joel desconfiam que a maior parte das mulheres presentes nesses eventos seja prostituta. “Escrevo para o New York Times”, completei.

O homem arregalou os olhos, seu rosto mostrava surpresa. Em frações de segundos, deve ter passado em mente tudo o que me falou.

“New York Times?”, repetiu.

“New York Times e a revista New Yorker", afirmei com determinação.

Pedi licença e fui conversar com minha amiga que estava do outro lado da varanda. Ela me apresentou seu momentâneo companheiro, um americano. Cumprimentei o homem e falei alguma coisa em inglês.

Joel descobriu o número do meu telefone e ligou naquela mesma noite. Eram duas da madrugada. Não queria esperar até o amanhecer para se desculpar. Acrescentou que fora indelicado. Disse que, além de mim, descobrira através de um amigo americano que era uma mulher a correspondente no Brasil do famoso diário nova-iorquino.

"Eles, lá em Nova York, gostam muito dos meus textos e sempre me pedem mais assiduidade com as colaborações", afirmei. "Mas não sou a correspondente. Se fosse, não poderia levar a vida que levo.

Convidou-me para jantar no dia seguinte, pediu que eu sugerisse o restaurante. Aceitei o convite e marcamos no restaurante do Sheraton.

Quando cheguei, ventava muito na orla marítima. Ele já se encontrava no local. Devido ao mau tempo, escolhera uma mesa na parte interna. Uma garrafa de uísque estava sobre a mesa. Levantou-se para o cumprimento, que me pareceu muito formal, mas depois me beijou.

“Estou encantado com sua presença, obrigado por ter aceitado o convite. Peço-lhe desculpas mais uma vez.”

Sorri e sentei à sua frente. O garçom ofereceu-me o cardápio. Pedi inicialmente uma garrafa de água mineral.

Joel começou a desfiar uma longa conversa. Contou em primeiro lugar o que o levara a M. Depois, porque optara pela engenharia de produção. Descreveu minuciosamente o que fazia e as empresas onde trabalhara antes de ingressar na Petrobras. Disse que não ficaria muito tempo na cidade e que jamais encontrara uma mulher tão bonita e agradável como eu. Fingi acreditar. A seguir, convidou-me para acompanhá-lo ao Rio quem sabe eu desejasse ficar algum tempo naquela cidade. Disse que morava sozinho, mas se caso eu não quisesse hospedar-me em seu apartamento, pagaria um bom hotel para mim na zona sul do Rio.

“Não sabia que se ganha tão bem na Petrobras”, ironizei.

“Não é pelo meu salário, sou uma pessoa de família rica, desculpe-me dizer isso.”

“Não, não precisa se desculpar, não há mal algum em ser rico.”

Quanto ao convite, desconversei. Como poderia aceitar a oferta de um homem com quem eu saía pela primeira vez? Achei que lhe faltava habilidade, era cedo para me fazer tal proposta. Além disso, o convite revelava o mesmo machismo que demonstrou quando quis saber sobre minha profissão, no dia do coquetel.

Depois de alguns segundos de silêncio, enquanto o garçom nos servia, perguntou:

“Sobre o que você escreve?”

“Assuntos gerais, política, além de crítica literária.”

Falou que literatura não era o seu forte, embora gostasse de poesia e de Guimarães Rosa. Citou corretamente alguns trechos de Grande Sertão. Sobre poesia, falou de João Cabral. Conhecia alguns poemas. Admirava o poeta por ser pernambucano e por ter mesclado poesia social com lirismo comedido, segundo suas palavras. Mas não mais voltou ao assunto. Durante boa parte da noite, contou sobre os lugares por onde viajara a trabalho. Descreveu o Oriente, como a China e a Coreia do Sul. Contou as agruras de estar sozinho em terra estrangeira, num quarto de hotel. Disse que procurava ler os jornais de língua inglesa, mas logo se esgotavam. Depois, quando veio a internet, houve alguma melhora, porque podia distrair-se a conversar com os amigos distantes.

Naquela noite, convidou-me a ir com ele a seu apartamento. Mas recusei. Disse que iria num outro dia. Deixou-me em casa e beijou-me na despedida. O uísque deixara-lhe um pouco triste.
 
Andei à procura de Daniel. Fui à praia muitos dias seguidos. Fui ao Shopping duas ou três tardes, algumas noites. Em nenhum desses lugares consegui encontrá-lo. Na certa, o rapaz que vi uma vez no shopping não era ele, mas alguém muito semelhante. Seu desaparecimento acabou por me entristecer.

Continuei saindo ora sozinha, ora acompanhada. Sempre procurava nos rostos jovens a face interrogativa de Daniel. Mas não mais o encontrei.

Duas semanas depois Joel telefonou. Marcamos mais um jantar.

“Recebi um convite para voltar ao Rio. Infelizmente terei de ir, não posso recusar a oferta que a empresa me fez”, falou.

No final da noite, aceitei acompanhá-lo ao seu apartamento. Logo que entramos, falou:

“Veja, você vai gostar, foi arrumado com tanto esmero, agora terei de voltar ao Rio.”

“Não o desmanche, é realmente muito bonito.”

O prédio em que morou durante os poucos meses em que trabalhou em M. ficava numa elevação. Do apartamento tinha-se duas vistas da cidade: uma voltada para o centro; a outra, para o mar. Nas paredes havia obras de arte, eram muito bonitas. Os móveis de sala, mesa e estofados, todos de muito bom gosto.

Abriu o bar e tirou uma garrafa de uísque. Perguntou se eu me servia. Disse que preferia vinho do porto. Joel não se abateu, foi ao outro compartimento e trouxe a garrafa. Dali para o amor, nossos passos foram poucos.

sexta-feira, junho 14, 2013

Se houvesse sol - 6

“De que você vive?”, quis saber Daniel.

A pergunta desagradável surgiu alguns dias depois, quando, ao acaso, nos encontramos na praia.

“Primeiro me diga por que você não me telefonou.”

“Estive ocupado”, respondeu.

“Tenho vindo todo dia, pensei que o encontraria também todos os dias”.

“Andei vendo um emprego.”

“Quer dizer que procura emprego?”

“Pela minha vontade, não. Mas não posso viver sem dinheiro.”

“Você mora com seus pais então...”

“Sim. Mas você não respondeu a minha pergunta.”

“De que eu vivo? De brisa, não está vendo? De brisa e de sol. Não é possível me encontrar aqui todos os dias?”

“Mas não é sobre isso que perguntei. Queria saber se você tem algum emprego.”

“De certa forma, sim.”

“Você poderia dizer qual?”

“Posso dizer que não tenho uma empresa para dar emprego a você.”

“Não é isso que quero nem estou te pedindo emprego. Como você ganha dinheiro?”

“Sou rica. Mas não fale para ninguém, serei sequestrada.”

“Verdade mesmo?”

“Até certo ponto, sim. Mas mando uns textos para uma editora, para revistas e jornais.”

“Você então é jornalista.”

“Não. Escrevo por prazer.”

“Que bom! Escrever por prazer. E você lê também?”

“É do que mais gosto, ler e andar nua!”

“Você é muito engraçada.”

“É o que as pessoas dizem.

“Você é feliz?”

“Só quando leio e ando nua.”

“Mas você não elabora nenhuma questão?”

“Você pergunta sobre filosofia?”

“Isso. Mas não é esse o nome que dou.”

“Desisti. Escrevo umas histórias em que as pessoas vivem o prazer, entende? O prazer quase total. É o que tento fazer também em relação à minha vida.”

“Você acha isso possível?”, ele se mostrava muito excitado com a conversa.

“De certa forma, sim. Mas por outro lado há um problema.”

“Qual?”, perguntou, embora soubesse que eu continuaria mesmo sem sua intervenção.

Olhei para o mar, procurei um cigarro dentro da bolsa, acendi-o e estiquei as pernas, toquei levemente o meu próprio corpo perto do biquíni, abaixei um pouco o cordão para aproveitar melhor o sol.

“Você fica sempre na praia se bronzeando?”, interpelou.

“Não foi assim que você me conheceu?”

“Responda. Qual o outro lado?”, começou a mostrar-se nervoso, franziu o rosto por causa da ansiedade.

“O outro lado é a finitude.”

“Finitude?”

“Tudo um dia termina. Por isso tento viver o prazer máximo. Os gregos já pensavam assim, aliás, não todos, alguns, mas já pensavam.

“O que isso tem a ver?”

“Tem a ver com filosofia. Não foi esse o início? Parece que pra você o prazer não combina com a serenidade, ou com a seriedade. Não é isso que você pensa?

“E você acha que vale a pena viver assim?”, fez a pergunta sem me responder, parecia um tanto atordoado, comecei a ficar preocupada como tudo aquilo iria acabar.

“O quê?”, indaguei.

“A vida...”

“Acho que sim. Qual seria o outro caminho?”

“Uma atitude de recusa.”

“Recusa? Você com essa carinha não parece entender muito disso”, falei.

“Entendo mais coisas do que você imagina”, sua voz se alterou, chegou a gritar.

“Por isso, não pensa muito em sexo...”

“Não é essa a questão”, insistia ele, “o sexo também pode ser visto como um tipo de recusa.”

“Caso você leve para esse lado, acho que tem razão.”

Aproximei-me, beijei-o no rosto. Ele não esperava pelo beijo.

“Ouça”, continuei, “há filósofos que falam sobre isso, esse assunto parece um tanto velho, as pessoas não param mais para pensar nessas coisas.”

“O mundo parece um poço sem fundo. Nele se cai eternamente e não se tem condição de olhar para cima.”

“Talvez você tenha alguém a quem se agarrar antes de cair, ou talvez a queda eterna seja um pouco demorada demais. Venha até aqui, encoste-se em mim, sinta meu corpo, tente experimentá-lo. É difícil perceber algo fora disso no mundo de hoje. Não se vai a lugar nenhum pensando tanto.”

Levantou-se, olhou o mar. Pensei que fosse virar de novo para mim. Mas foi embora sem se despedir.

A conversa deixou-me um pouco assustada. Sabia que ele não encontraria as respostas que procurava. Talvez mais tarde pudesse refletir melhor. Não queria dizer a ele para procurar se divertir e esquecer suas perguntas. O que eu tentava era conquistá-lo para o meu mundo. Não que fosse aliená-lo, mas fazê-lo refletir sobre a questão do corpo, que para mim é muito importante.

quinta-feira, junho 13, 2013

Se houvesse sol - 5


No dia seguinte não fui à praia, acordei em torno do meio-dia e fiquei na cama por mais uma hora. Depois que me levantei, ainda permaneci em casa até as três horas. Quando saí, foi com a intenção de ir ao centro da cidade.

Ao chegar à rua Direita, parei numa cafeteria. Ainda bem que M. passou a ter uma dessas cafeterias que são comuns na zona sul do Rio de Janeiro. Pedi um café expresso. Apenas dez minutos depois chamei a garçonete para me trazer um salgado. Era a primeira coisa que eu comia após ter acordado. Olhei para a rua e vi o movimento no calçadão. Tentei imaginar aonde ia toda aquela gente. Havia pessoas de todos os tipos. Quais seriam suas profissões? O que faziam àquela hora andando pelo Centro? A passagem de dois jovens que conversavam animadamente me fez lembrar meu namorado. Onde andaria ele naquele momento? Não consegui situá-lo em lugar algum. Os dois que passaram riam, trajavam roupas esportivas e seguiam na direção norte. Logo depois, duas moças despertaram minha atenção. Vinham vagarosas, carregavam bolsas de uma loja famosa que fora inaugurada havia pouco, ali mesmo nas proximidades, a mesma loja também existia no único shopping da cidade. Uma das moças era minha conhecida. Conversei pela primeira vez com ela numa festa. Mal a conheci, ela me falou:

“Você me faz um favor?”

“Se eu puder...” 

“Conheci um rapaz ainda há pouco e vou sair com ele. Preciso de alguém que fique de sobreaviso. Minhas amigas também se arranjaram. Não há ninguém a quem eu possa pedir esse favor. Caso aconteça algum problema, não tenho a quem recorrer. Posso ficar com o número do seu telefone?”

“Claro”, dei a ela o meu número.

A moça agradeceu e ainda completou:

“Quando a gente tem alguém à mão, é sempre melhor.”

Ela ligou dois dias depois para me contar que tudo correra bem. Saíra com o garoto, mas não tinha acontecido nada além do namoro corriqueiro à beira da praia, já que ele não a convidara para um hotel nem ela poderia levá-lo para casa.

“Que besteira, a gente sai com esses rapazes para ficar se agarrando na areia.”

“Você não gosta de namorar na praia?”, perguntei.

“Depende, na maioria das vezes, não.”

“Eu gosto”, falei, “já namorei tantos homens na praia, tanto durante o dia quanto à noite.”

“Você não tem medo?”

“Antes temia ir para cama com alguém que conhecera no mesmo dia. Mas com o passar do tempo, fui tomando confiança e passei a não mais sentir medo. Já aconteceu alguma coisa a você?” perguntei.

“A mim, não, mas já tive uma amiga que se viu em apuros. Quase morreu.”

“Nesse caso”, continuei, “acho que mesmo deixando alguém de sobreaviso é difícil evitar que aconteça o pior.”

Encerramos logo depois a conversa. Num outro dia ela me telefonou, encontramo-nos na praia e continuamos a falar sobre homens e namorados.

Ela passou com a amiga, mas não me viu. Permaneci na cafeteria por mais algum tempo.

Ao deixar o local, fui avistada pelo James. Este não foi meu namorado, mas tivemos um caso, o suficiente para deixá-lo louco por mim.

“Oi, meu amor, quanto tempo, como vai essa beleza toda?”, falou.

“Vou bem, mas beleza toda é impressão sua.”

Beijou-me, deixou o rosto encostado ao meu durante alguns segundos.

“Que pena, não saímos mais. A última vez foi uma maravilha”, insistia ele.

“Já faz tanto tempo...”

“Mas não esqueci. Como vou esquecer uma gostosura como você?

Sorri educada.

“Vamos tomar um café?”, convidou-me.

“Acabei de sair da cafeteria”, apontei para o local com um leve movimento da cabeça.

“Que pena! Vamos fazer outra coisa?”

“Estou cansada. Dormi pouco na última noite, preciso voltar para casa.”

“Quer então uma carona?”

“Não, obrigada, meu carro está estacionado aqui na rua de trás.”

“Vamos marcar alguma coisa para um dias desses.”

“Vamos”, concordei, “você me telefona.”

“Você jura que não vai dar desculpa educada e...”

“Dessa vez, juro.”

“Olha lá, hein?”

“Não gosto de jurar. Mas quando juro, não minto. As pessoas me conhecem.”

“Fico muito feliz, vou telefonar.”

Beijou-me. Antes de ir, sussurrou no meu ouvido.

“Você ainda usa aquele biquíni?”

“Agora, tenho um menor.”

“Menor? Então, e aquela surpresa...”

Para terminar a conversa, insisti.

“Telefone, você vai ter direito a tudo. Estou precisando de outra noite como aquela”, assegurei-lhe.

“Deixa eu te dar mais um beijo.”

Aproximou o rosto mais uma vez, beijou-me e se foi. Mas sua fisionomia aparentava uma ponta de dúvida.

A história sobre o biquíni foi a seguinte.

Quando ele me conheceu, eu vestia um biquíni mínimo. Fora feito exclusivamente para o meu corpo, não sobrava nem faltava nenhum tantinho de pano. O homem me paquerou durante muito tempo, aproximou-se e iniciou uma conversa sem sentido. Depois de uma semana, na segunda vez em que saímos à noite, pediu que eu levasse o biquíni.

“Pensei que você estivesse me convidando para jantar, mas para vestir biquíni à noite...”

“É para jantar mesmo, e no Ilha Linda Sul, o restaurante mais cobiçado da orla. Mas depois você veste o biquíni.”

“Vamos à praia, à noite?”

“Não, mas quero você de biquíni só pra mim.”

“Quer saber de uma coisa? Tenho um biquíni ainda menor.”

Ele me olhou de soslaio, admirou meu corpo e disse:

“Menor?”

“Menor. Quer que eu o leve ou que eu venha com ele à praia amanhã?”

“Então o leve.”

“Pensei que você me quisesse nua, não de biquíni.”

“Quero nua, sim, mas primeiro de biquíni.”

“Ok.”

Encontramo-nos. Meu biquíni estava na bolsa. Jantamos no restaurante combinado. Comemos e bebemos bem. Uma garrafa de vinho ótima, no final um licor maravilhoso. Ficamos prontos para o amor. Quando entramos no carro, antes que ligasse o motor, pedi para que fechasse os olhos durante um minuto. Quando disse que os podia abrir, deparou-se com uma mulher vestida de biquíni a seu lado. Beijou-me intensamente. Ficamos namorando durante algum tempo. Depois, abri a porta do carro e corri para a praia. Disse:

“Venha me pegar!”

“Você é maluca”, gritou.

Do jeito que estava saiu correndo atrás de mim Fui até à beira d’água e o fiz molhar os sapatos para me abraçar. Ele me abraçou, me beijou, passeamos um pouco agarrados um ao outro.

“Você não tem medo que alguém a veja assim?”

“Estou de biquíni, e estamos na praia.”

“Virou-se e me beijou mais uma vez.”

No meio do beijo, senti que me despia da parte debaixo. Nada falei.

“E agora? Deixei você nuinha.”

“Nada disso, falta o sutiã”, mostrei os seios.

Deixei que o tirasse. Ainda o instiguei.

“Vá embora, me deixe aqui, nua.”

“Mas não vamos namorar num hotel?”

“Vamos, mas primeiro faça isso, vá embora.”

“Você promete que não vai escapar?”

“Como vou escapar nua?”

“Você é capaz de qualquer coisa.”

“Não vou escapar. Vá até o carro, guarde minhas roupas lá e depois volte para me buscar.”

“E se aparecer alguém?”

“Lembre-se, quem está nua sou eu!”

“Se é assim que você deseja...”

Foi até o carro, guardou meu biquíni e voltou correndo. Agarrou-me.

“Vamos, assim você me mata”, sussurrou depois de me beijar mais uma vez.

Foi uma noite maravilhosa, mas as circunstâncias nos impediram de novos encontros. Acho que arranjei outro namorado. James ainda me telefonou várias vezes. Acabei por lhe dizer que não poderia mais sair com ele. A esperança, no entanto, nunca o abandonou.

terça-feira, junho 11, 2013

Se houvesse sol - 4

À noite, fui ao encontro de Daniel. Ele tinha uma moto, mas disse que o apanharia. Encontramo-nos nas proximidades do Grande Hotel, na praia de C. Quando cheguei, ele já me esperava. Ao entrar no carro, beijou-me. Segui pela orla pensando onde pararíamos. Apontei um restaurante muito conhecido, quase no final da praia. Ele concordou. Estacionei e entramos. Estava feliz por tê-lo ao meu lado. Achei que ele demonstrava um pouco de acanhamento. Estava bem vestido, uma roupa que combinava com seu tipo físico e de acordo com o costume de como se vestem os jovens, calça de jeans leve e uma camisa polo que trazia no peito a bandeira da Inglaterra; calçava sapatos marrons, na verdade, olhando atentamente, tratava-se de um tipo de tênis mais usado para passeio.

“Neste restaurante, ficaremos à vontade. Não quero encontrar nenhuma de minhas amigas”, falei.

“Você gosta de restaurantes, não?”, insinuou.

“Gosto também de outros lugares, mas aqui nesta cidade não há muitas opções. Para conversar, nada melhor do que um restaurante.”

O garçom nos trouxe, com muita cerimônia, um enorme cardápio. Reparei que meu jovem companheiro assustou-se ante aquele exagero.

“Peça o que quiser, fui eu que convidei você, e quem convida dá banquete”, falei e lancei um beijinho a ele.

Olhou-me inclinando um pouco a cabeça, fez um movimento que indicava concordância com as minhas palavras.

“Aqui, além de ter um vinho ótimo, a gente pode apreciar o mar através dos vidros. Tudo que nos resta nesta cidade é o mar. Quer dizer, o mar e alguns restaurantes.”

“Você é de onde?”

“Sou do Rio. E você?” devolvi a pergunta.

“Daqui mesmo, mas já estive fora.”

“Onde?”

“Na Bahia.”

“Já sei, seu pai trabalhava com petróleo e levou a família para lá.”

“Como adivinhou?”, perguntou.

“Não é difícil, aqui há muitas histórias semelhantes.”

“O garçom voltou com o vinho escolhido por mim.”

“Nem perguntei se você gosta de vinho, desculpe-me.”

“Tomo uma taça, mas confesso que não é minha bebida preferida”, apressou-se em dizer.
Enquanto o garçom abria a garrafa, eu disse a Daniel:

“A gente demora a adquirir o paladar para o vinho. Quando tinha a sua idade, também não gostava. Acho que mais tarde você vai pensar de outro modo.”

O garçom colocou uma pequena quantidade e esperou que eu experimentasse. Movi afirmativamente a cabeça. Ele, então, encheu nossas taças até a metade.

“Você é uma mulher independente”, o jovem olhou para mim como se tivesse feito uma grande descoberta.

“Nenhuma mulher é independente. Aliás, ninguém é independente.”

“Você acha?”

“Claro. Tudo é relativo, nunca se tem um independência plena. Para beber este vinho, a gente depende de uma porção de gente.”

“Não falei neste sentido.”

“Sei que você fala em independência financeira, ou mesmo porque sou uma mulher livre e não devo satisfações a ninguém. Mas essa independência custa caro, e às vezes a gente se vê na mais completa solidão. Além disso, ninguém quer acabar os seus dias sozinho.”

“Você está falando na morte”, pareceu assustar-se.

“O que tem isso? As pessoas não gostam de pensar na morte, mas é a coisa mais natural que existe. Você, gostaria de morrer sozinho?”

“Acho que todos morrem sozinhos”, ele disse, “a não ser que aconteça um acidente ou mesmo um suicídio combinado entre duas ou mais pessoas, aí se morre junto.”

“Não falo nesse sentido. Acho que me expressei mal. Digamos assim: ninguém gosta de envelhecer só e terminar seus dias sozinho.”

“Nesse caso, quem sobreviver vai acabar sozinho.”

“Isso é verdade. Agora já não sei como resolver. E tem mais uma coisa, você falou nas hipóteses de duas ou mais pessoas morrerem juntas. Mas acredito que o momento da morte é único para cada um, como é também o momento da vida.”

A conversa se desviou para outros assuntos. Foi ele quem a reiniciou.

“Hoje pela manhã achei você um tanto louca. Me conhece tão pouco e já quis que eu a deixasse nua dentro d’água.”

“Acho que não há quem seja totalmente sã, sempre há um desvio.”

“O que você achou em mim para me fazer aquele pedido?”

“Gostei de você desde a primeira vez que o vi. Só tive um namorado bem mais jovem do que eu. Não costumo me entregar com facilidade aos homens. Foi uma maneira de tentar atrair você.”

Olhou-me diretamente, como ainda não me tinha olhado.

“Você sabe que tenho uma namorada?”

“Imaginei. Vocês jovens sempre têm alguém, aliás, quase todos têm alguém. Muitos até se casam. Depois vão jogar futebol e deixam a mulher sozinha em casa. Há aqueles que passam o domingo todo na rua, bebendo com os amigos.”

“Tenho amigos assim, mas tento ser um pouco diferente.”

Outro garçom havia muito nos esperava fazer o pedido. Daniel olhou para ele, depois para mim, parecia encabulado com a presença do empregado.

“Já vamos fazer o pedido”, falei ao garçom.

Retirou-se por alguns momentos enquanto eu olhava o cardápio. Perguntei ao meu companheiro se tinha alguma preferência.

“Não estou com fome.”

“Eu estou, não como nada desde a hora do almoço.”

Pedi um entrada para beliscarmos enquanto aguardávamos o prato principal, um filé de peixe à moda do restaurante, naturalmente o prato não tinha o nome em português.

“Caso encontre sua namorada, vou chamá-la para sair comigo. Assim ela aprenderá alguns truques”, ameacei.

“Como assim?”

“Como tornar seu namorado eternamente apaixonado.”

“Ah, será um grande pecado!”

“Você acha?”

“Acho. Mas quero perguntar uma coisa. Você não se incomoda de eu ter uma namorada?”

“Claro que não. Não vou namorar com ela, mas com você. E, assim, não precisamos ficar tão juntos. Tenho muito a fazer.”

“O que você faz?”

“Não gostaria de dizer agora, mas é algo muito importante, ao menos para mim.”

“Estou fazendo um curso.”

“Caso não queira me dizer, não há problema”, falei.

“Não, sobre isso nada tenho a esconder. Já fiz alguns estágios, mas não tenho um emprego fixo. Ainda estou tentando, e nem sei se é isso que eu quero.”

“Seria melhor a vida ao natural, caminhar pela praia de manhã, dar uns mergulhos, não é mesmo?”

“Isso seria um sonho, mas a vida não é assim. Na verdade, não tenho dinheiro algum.”

“Eu já o tenho. Lógico que não sou rica, mas para mim dinheiro não é problema.”

“Você é casada?”

“Por acaso você quer casar comigo?”

“Não tinha pensado nisso, foi só uma pergunta.”

“Não sou casada. E tenho uma porção de admiradores.”

“Acredito.”

“Pois acredite, não estou com você porque não há outros homens. Gostei de você quando o vi, quis ter uma nova experiência.”

“Será que aceito?”, riu em seguida.

“Convidei apenas para estarmos juntos. É lógico que você tem liberdade para ir embora a qualquer momento, e mesmo para não me tornar a ver.”

“Sei, tenho toda a liberdade do mundo. Mas as coisas não acontecem desse modo,” sorriu mais uma vez. Percebi que a minha estratégia estava dando certo.

O garçom chegou com os pratos e começamos a jantar.

“Nunca uma mulher me pediu para tirar seu biquíni na praia”, falou.

“Foi apenas uma estratégia. Queria excitar você, mantê-lo junto a mim por mais tempo.

“Você vai encontrar comigo amanhã e vai me pedir a mesma coisa?”

“Vou pedir ainda hoje.”

Achou minha resposta sagaz, tomou mais um gole de vinho e pôs-se a comer com mais apetite a sua parte no jantar.

Não é preciso dizer que passamos uma noite maravilhosa. Levei-o para minha casa. Logo ao entrar demonstrou interesse por tudo que viu.

Como bebi a maior parte do vinho, meu fogo já vinha aceso. Fui ao banheiro e tirei toda a roupa. Para não voltar à sala inteiramente nua, enrolei-me na toalha de banho, que se transformou num curto tomara-que-caia.

Desculpe, estou morrendo de calor, sentei ao lado do rapaz e cruzei as pernas. Meus seios, um tanto volumosos, ameaçavam escapar.

Ficamos namorando durante várias horas. Apesar de jovem, é um amante delicioso, sabe dar prazer a uma mulher. Pedi para que ficasse até o amanhecer, mas ele se foi em torno das três da manhã.

sexta-feira, junho 07, 2013

Se houvesse sol - 3

No manhã seguinte desci à praia em torno das  nove e finquei o guarda-sol na altura do Country. O mar era de poucas ondas, a praia estava num estado de calmaria. Após cinco ou dez minutos, já na cadeira, tendo passado o protetor solar, vi o rapaz que conhecera no dia anterior. Como era mesmo o nome dele? Ah, Daniel. Depois de tantos encontros e desencontros, quase não lembrava o seu nome. Reparei suas passadas. Será que me havia esperado aparecer para dar o ar de sua graça, mesmo fingindo que não me avistou? Ele se foi. Fiquei na esperança de que voltaria. Acendi um cigarro, dei um longo trago e soltei a fumaça olhando para o céu. Não havia sequer uma nuvem. Que manhã bonita! Desejei que as manhãs fossem sempre assim, e me sentia feliz porque podia desfrutar tamanho prazer.

Peguei a sacola e comecei a olhar uma revista de moda. Mulheres bem vestidas, estilo primavera, vestidos floridos, curtos, ou mesmo descendo até os joelhos. Numa das páginas centrais, várias modelos em fotos à beira-mar apresentavam uma nova coleção de biquínis. A moda para a próxima estação parecia optar por biquínis não muito curtos. E gosto deles tão mínimos. As modelos não sorriam nas fotos. Mostravam uma ponta de alegria, mas não um sorriso aberto. Quando ia bastante distraída com aquelas imagens, escutei uma voz masculina me chamar:

“Célia, como vai? Quanto tempo.”

Levantei os olhos, era um amigo de outros tempos. Já havia saído com ele para jantar e conversar. Sabia que sempre tivera desejo de me levar para cama, mas nunca conseguiu. Não foi porque eu não quisesse. Poderia até ter feito amor com ele, mas acho que as circunstâncias foram desfavoráveis.

“Tomando sol, apenas?”

“Tomando sol e olhando a paisagem.”

“Quem bom encontrar você bonita como sempre, e num clima tranquilo assim...”

“Obrigada, você me acha mesmo bonita?”

“Acho linda.”

“É muita gentileza da sua parte, já não estou tão em forma”

“Quando vejo você, sinto uma terrível vontade de convidá-la para sair.”

“Nada marcamos e nos encontramos aqui, não está ótimo assim?”

“Está, mas do jeito que você é bonita seria melhor tê-la sem outras pessoas em volta.”

“Já sei, você quer me sequestrar, não é mesmo?”

“No bom sentido, e não devolver por resgate algum.”

“Aí vai acontecer como com qualquer outra, vira casamento.”

Ele riu. Não sei se pensando na própria situação – a mulher dele era bonita, eu a conhecia –, ou se porque eu desfazia, mesmo sem querer, sua cantada.

“Você não quer ir a Rio das Ostras? Lá há praias mais reservadas,” falou.

“Hoje prefiro ficar aqui, talvez num outro dia eu vá com você. Não posso ficar na praia muito tempo, logo tenho de voltar para casa.”

“Ok, tenho seu telefone, dou uma ligada para marcar.”

“Isso mesmo, liga que a gente combina.”

Percebeu que eu preferia ficar sozinha. Após mais alguns minutos, foi embora.

Caso o momento fosse outro, eu o acompanharia. Mas queria esperar pelo jovem que eu paquerava havia pouco. Ele demorou a voltar. Quando o vi, não resisti, chamei-o.

“Oi, Daniel, como vai?”

“Bem”, ele não era de muitas palavras, como pude notar desde o primeiro dia.

“Vai ficar na praia por muito tempo?”, perguntei.

“Não sei ainda.”

“Você tem algum compromisso para hoje, durante as próximas horas?”

“Compromisso, não. Mas tenho algumas pequenas coisas para resolver.”

“Fique então aqui ao meu lado, vamos aproveitar um pouco o sol.”

Ele sentou sobre a própria areia, tomou nas mãos a revista que eu deixara de lado e olhou algumas páginas. Depois a colocou no mesmo lugar e se voltou para o mar.

“Você não tem o que fazer?”, perguntou.

“Mais ou menos”

“Você não tem nenhum compromisso?”

“Não, sou solteira” apressei-me em dizer.

“Desculpe, mas não foi isso que perguntei. Queria saber se você não precisa ir ao centro da cidade.”

“Às vezes preciso, mas não gosto de lá. Se eu puder, prefiro ficar aqui na praia.”

“Mas você fica na praia o dia inteiro?”

“Não, sempre vou embora em torno do meio dia.”

Nada mais disse. Olhou mais uma vez para a revista, mas não a segurou. Depois reparei que apreciou de soslaio as minhas pernas.

“Você quer entrar na água?”, eu tentava evitar que partisse.

“Posso entrar. Você não vai sozinha?”

“Às vezes vou, mas prefiro ir acompanhada.”

Peguei-o pela mão e caminhamos em direção ao mar.

“Você nada bem?”, ele quis saber.

“Nado.”

“Vamos então para trás da arrebentação?”

Soltei sua mão e mergulhei. Nadei até vencer a primeira onda. Olhei e o vi a alguns metros. Sinalizou que deveríamos avançar mais, pois vinham mais duas ondas. Mergulhamos juntos, cortamos a primeira, vencemos a segunda e permanecemos num pedaço de mar aparentemente calmo, um pouco distante da faixa de areia.

Quis provocá-lo.

“Tenho uma amiga que gosta de nadar até aqui para ficar nua.”

Ele mordeu a isca:

“Onde ela guarda a roupa?”

“Não sei, acho que tem um método especial. Acho que pede a alguém para levá-la para a areia.”

“Verdade?”

“Ela mesma me contou, do jeito que é maluca não duvido nada. Você gostaria de encontrá-la nua, por aqui?”

“Ela é bonita?”

“Tem mais ou menos o meu corpo.”

Pela expressão de seu rosto, percebi que achara a mulher bonita.

Ficamos flutuando, movimentávamos apenas as pernas ou nos sustentávamos com uma ou outra braçada. Aproximei-me bastante dele e toquei suas costas. Depois, sorri.

“Você me faz um favor?”

“Qual?”

“Você me deixa nua?”

“Aqui?”

“Sim, o que é que tem?”

“Acho que a pessoa sobre quem você falou é você mesma.”

“Quem sabe?”

“Você está falando a verdade? Quer mesmo que eu deixe você nua?

“Quero.”

“Como fazemos, então?”

“Primeiro, quero lhe dar um beijo.”

Abracei-o e dei um beijo nos seus lábios. Um beijo ligeiro, mas cheio de charme.

“Você não acha melhor deixar para tirar a roupa em outro lugar?”, perguntou.

“Você prefere?”

“Acho melhor.”

“Está bem, então vamos nos encontrar à noite.”

“Hoje?”

“Isso, hoje, você pode?”

“Posso.”

“Mas jura que não quer me deixar nua, aqui?”

“Já que você insiste...”

Nadamos, mergulhamos algumas vezes, abracei e o beijei de novo. Ficamos agarrados um ao outro durante longo tempo. Depois vesti o biquíni, que ele guardara dentro da sunga, e voltamos para junto do guarda-sol.

A perspectiva do encontro marcado para mais tarde agradou-o. Mas sua fisionomia tinha um ar diferente da que eu estava acostumada a ver nos homens.

Permaneci na praia depois que ele se foi. Devido à hora já adiantada –  já passava do meio-dia – a freqüência diminuiu. Olhei em direção ao mar e pude perceber que as águas pouco a pouco se tornavam mais agitadas. Pensei no rapaz, pensei aonde poderia chegar aquele relacionamento caso vingasse. Seus olhos até certo ponto tristes me vieram muitas vezes à mente. Ele não demonstrara euforia pelo meu corpo, nem mesmo no momento em que pedi para que me deixasse nua. Seria ele assediado por muitas garotas, por mulheres mais jovens do que eu? Teria outras preocupações, além de arrumar uma namorada, ou de fazer amor com alguém? Ou seria gay? Era natural que na idade dele muitos se preocupassem com a carreira profissional. Ele, no entanto, em momento algum falou sobre trabalho ou sobre o que fazia para ganhar a vida.

À tarde fui ao banco. Enquanto esperava, lia um livro para passar o tempo. Era um desses romances policiais norte-americanos. Tinha um nome peculiar: Edições perigosas. Como sempre fui fã de literatura policial, estava me deliciando com a história. Tratava-se de uma narrativa ambientada em Denver, capital do Colorado. Um policial tentava desvendar um crime: por que morrera um alfarrabista? O assassinato levava a várias pistas, que naturalmente eram falsas. Na verdade, o crime não era investigado por apenas um policial. Este formava dupla com outro, que era inteligente, mas não demonstrava a mesma perspicácia que o primeiro. O interessante é que o romance, como o próprio nome insinuava, tinha como pano de fundo o comércio de livros usados e raros. Era delicioso me perder naquelas páginas em que, além da ação, era citada uma infinidade de obras literárias. Havia três mulheres metidas na história. Uma era a namorada de um gangster. Ele tinha sobre si uma série de acusações, e a mulher sofria nas mãos dele. A polícia, no entanto, nunca encontrava provas para prendê-lo. Naturalmente era um dos suspeitos de ser o assassino do alfarrabista. A segunda personagem feminina era rica e parecia comercializar livros raros apenas por prazer. Pairava alguma suspeita sobre ela. Porém o mais fascinante, era o ambiente requintado em que vivia. Fazia o tipo de mulher fatal, mas primava pela artificialidade. A terceira era uma imigrante escocesa que arranjara emprego na livraria de um homem que era recente no negócio de livros antigos. Mostrava-se esperta e empreendedora, mas não o suficiente para escapar da morte quando a história já ia perto do final. Mais ou menos no meio da narrativa, o policial investigador é acusado de abuso de poder. É obrigado a deixar o caso e, logo depois, a polícia. Mas, no final, é ele quem desvenda os crimes. Sim, crimes, porque num bom romance policial nunca há apenas um cadáver. Neste, consegui contar pelo menos quatro. Esperava a minha vez entretida nessa teia narrativa quando alguém bateu nas minhas costas. Virei-me.

“Ah, logo vi, só podia ser você, compra todos os livros que vê”, era Lurdinha.

“Oi, como vai? Não tenho paciência para esperar sem ler alguma coisa.”

“Está tudo bem com você?”

“Sim.”

“Tem passeado?”

“Algumas vezes.”

“Está sozinha?”

“Sim, estou.”

“Falou com tanta determinação...”, arregalou os olhos.

“Faz tempo que estou sozinha. Prefiro assim.”

Não queria contar nada meu para Lurdinha. Ela era uma boa pessoa, mas sempre achei que dá azar falar sobre relacionamentos com as amigas. Deixo que descubram por si próprias. Além de tudo, ficam todas fingindo muito interesse, mas na maioria das vezes torcem para não dar certo.

“Não conte pra ninguém. Mas estou com um namorado novo.”

“Novo na idade, ou recente?”, perguntei.

“Recente. Conheci o homem outro dia. Mas ele é muito jovial. Vou sair com ele hoje, acho que vamos num dos restaurantes da orla e depois... Bem, depois depende dele.

“Ainda não tiveram nada?”

“Uma vez. E foi tão bom.”

“Que legal!”, tentei estimulá-la, “você ainda é jovem, merece alguém para amar.”

“Isso mesmo, amar. É tão bom amar, não? Vou te contar sobre o que aconteceu ontem. Acho que dá tempo, estão chamando as pessoas muito devagar nessa agência, acho que pelo menos para contar alguma coisa isso é bom. Escute. Houve uma festa na escola em que trabalho. Eu e minha turminha de alunos tomávamos conta de uma barraca e nos divertíamos muito. Foi então que ele chegou. Trabalha no turno da tarde com os alunos maiores, os da oitava série. Mandei-lhe uma mensagem, dessas chamadas de correio do amor. Disse que o desejava próximo. E foi o que aconteceu. Não demorou e ele estava ao meu lado, ficou quase até o final da festa. Quando tudo acabou, eu disse: ‘estou faminta e exausta’. Estava frio naquela hora. Adivinha o que aconteceu?", não esperou que eu respondesse, "acabei nua na casa dele, encolhida e debaixo de uma coberta. Aceitei o convite para lancharmos. Enquanto foi à rua comprar pão e leite, me enfiei sob a coberta no pequeno estofado que há na sala. Quando voltou, esquentou o leite, colocou pão e queijo sobre a mesa. Trouxe o café quente num bule de vidro. Então me chamou: 'Venha! O café está pronto.' Respondi: 'Não posso, acho que não acreditei no seu lanche.' Ele se aproximou. Tomei suas mãos e as enfiei sob meus panos. Ele sentiu minha pele quente. Estiquei-lhe um beijo comprido. 'Vou trazer a xícara pra você', falou. Tomamos o café com leite. Depois, puxei o homem para os meus braços e também para debaixo da coberta. Dali a uma hora e meia lanchamos de novo. Outro café, o leite bem quente, e eu ainda nua. Passei o final da tarde na casa dele. Só posso dizer que foi ótimo.

“Acho que ele também deve ter gostado muito. Essas coisas fascinam os homens. Não é todo dia que aparece uma mulher nua debaixo de uma coberta enquanto se vai à padaria.”

Lurdinha sorriu.

“Você tem razão, tanto para ele como para mim foi uma grande surpresa. Célia, peço que não conte a ninguém, tá bom? É para não dar azar.”

“Pode deixar. Não tenho interesse algum em falar sobre isso a qualquer outra pessoa. Confie em mim. Boa sorte.”

Dei-lhe um beijo e caminhei ao guichê para ser atendida.

Ah, essas mulheres, sempre atrás de namorados. Parece que não têm mais o que fazer na vida. Acabei também rindo de mim mesma. Será que era muito diferente dela? Acho que não. Mas ao menos eu lia um livro, apesar de policial.