domingo, fevereiro 12, 2012

Ensaios de Montaigne

Trabalhar numa cidade dessas, de praias paradisíacas, para onde na alta temporada vem gente de todos os lugares, ninguém merece, tanto mais se durante horas seguidas nada se vende. Chego à papelaria às dez da manhã. Se a patroa ainda abrisse a loja depois do almoço, como fazem os outros comerciantes locais... Mas, não, abre todo dia às dez em ponto, diz que precisamos aproveitar os meses de verão porque a loja vende utensílios para praia. Vá acreditar nesse nome, utensílios. Quais são? Baldinho e brinquedinhos para as crianças, guarda-sol, óleo de bronzear. Sou a primeira a chegar, além de tudo o que tenho a fazer durante o dia inteiro (varrer, tirar o pó, arrumar as mercadorias), tenho o dever de abrir a loja. Assim que levanto a porta o telefone toca. É a patroa perguntando se já cheguei. Tenho vontade de responder que não, que ainda estou no 15º sono. Ninguém entra na primeira hora, a loja é festa para as moscas. Até arranjei um livro. Um sebinho que fica aqui perto vende livros de bolso. Acho que o rapaz que trabalha lá gosta de mim, me vendeu um livro por três reais. De início me surpreendi com o nome: Ensaios de Montaigne. Mas, depois, me acostumei. Como nunca entra ninguém na parte da manhã, fico eu com o livro sobre o balcão a ler os tais ensaios. Esse Montaigne viveu em outra época, um tempo em que as pessoas eram mais sensatas, viviam recolhidas, não havia tantas coisas para se fazer. Mas, como diz o homem, morria-se muito cedo. De doenças, e devido a muitas guerras. Quanto às doenças, ainda não havia remédios, acho que as pessoas se curavam pela filosofia. Continuava na leitura, quando entrou uma pessoa na loja. Levantei os olhos, na verdade não era cliente, mas uma amiga.

“Oi, Marissol, bom dia, como vai?”, falei ao vê-la.

“Olá, Jane, vim só pra te ver.”

“Você que é feliz, pode ir à praia sempre a essa hora.”

“Sou feliz, sei disso, mas queria perguntar a você uma coisa?”

“Uma coisa?”, fiz ar de intelectual com meu livro do Montaigne sobre o balcão.

“Isso, tenho uma dúvida.”

“Então, pergunte”, fechei o livro, ajeitei os óculos e olhei Marissol.

“É sobre um rapaz.”

“Quem? Sobre rapazes não sei muito bem.”

“Não diga, Jane, sempre você está na Bay’s, e lá é cheio de rapazes.”

“Às vezes vou lá, mas só sábado à noite, você sabe, esse trabalho aqui não me dá muitas opções.”

“É sobre um rapaz que frequenta a boate, ele me falou para aparecer.”

“Aparecer, onde?”, perguntei, me abanei com as mãos, estava calor, olhei para o ventilador, parecia jogar o vento em todas as direções, menos na minha.

“Aparecer na Bay’s, Jane.”

“Qual é o nome dele?”

“Esse que é o problema, esqueci de perguntar.”

“Marissol, me poupe, por favor, você vem aqui na loja e quer informação sobre um rapaz de quem nem mesmo sabe o nome?”

“Mas você sabe, Jane, ele sempre está lá, usa um cavanhaque curtinho.”

“Cavanhaque curtinho? Me deixa pensar. Ah, deve ser o Marcelo. É um de cabelo curto preto, que quando está na praia usa sempre bermuda vermelha?”

“Isso, bermuda vermelha, deve ser ele mesmo. Me convidou para aparecer na Bay's, parou na praia, no trecho onde eu tomo banho de mar, para me paquerar, me chamou de sereia porque fico o tempo todo dentro d’água.”

“Então, e o que você quer saber dele?”

Marissol olhou como se investigasse tudo que loja tem para vender, depois se voltou para o meu livro, chegou a pegá-lo nas mãos, mas o pousou sobre o balcão.

“Será que posso encontrar com ele? É boa pessoa?”

“Marissol, nunca ouvi ninguém falar nada de mal sobre ele, apenas que é namorador, acho que se for por uma noite, tudo bem, o difícil é ele ficar com alguém por muito tempo.”

“Obrigada, Jane, era isso que eu queria saber. Então, posso ficar com ele por uma noite.”

“Acho que sim. Se ele quiser...”

“Ok, obrigada mais uma vez, agora vou à praia, já que ele me chamou de sereia”, arremessou um beijinho para mim e se foi. Na porta, virou e disse: “vê se você também aparece na Bay’s, vou lá no próximo sábado.”

“Vou tentar,” falei. Assim que ela saiu, voltei ao meu livro velhinho e amarelado, mas tão gostosinho.


Na segunda seguinte, de manhã, Marissol entra na loja como um furacão.

“Olá”, sorri para mim.

“Oi, como vai? E aquele dia hein?”

“Vim pra te contar.”

“E então?” mostro-me curiosa.

“Foi legal.”

“Apenas legal?”, pergunto.

“Sabe, sempre pode ser melhor, não é mesmo?”

“Não sei, pode?”

Marissol olha os produtos que estão nas estantes de cima, depois volta os olhos para a vitrina que dá para rua principal, vira-se de novo ao balcão e surpreende-se mais uma vez com os meus Ensaios de Montaigne.

“O que diz esse Montaigne?”

“Muitas coisas”, respondo.

“É mesmo? Um dia peço a você esse livro. Mas ouça, vim pra te contar.”

“Então conta.”

“Sabe”, fala Marissol, começa tudo com um “sabe”, “você viu quando eu e o Marcelo passamos a ficar juntos, não?”

“Vi, estava dançando, mas pude perceber.”

“Dali em diante, ficamos. Beijei ele muito, mas o principal foi depois que a festa acabou.”

“O que houve de importante?”

“O de sempre, sabe como é, não se pode ir além do ponto a que estamos acostumadas a ir.”

“Como assim?”, faço-me de desentendida.

“Ah, fomos para a praia. Aí, aconteceu.”

“Aconteceu?”

“Isso, namoramos verdadeiramente, entende? Namoramos, não preciso dizer mais, não é?”

“Já entendi”, falo e dou um suspiro.

“Apenas pedi a ele que forrasse a areia com a camisa, não queria estragar o vestido.”

“Sei, quando vamos à praia para isso odiamos areia no corpo e na roupa”, deixo escapar.

“Ah, esqueci de te dizer, ele falou que eu estava com roupa de piriguete.

“Piriguete?”

“Conhece essa palavra, não? É quando a gente sai com esses vestidos curtinhos, coladinhos ao corpo, como o que eu vesti.”

“E ele gostou?”

“Parece que sim, só não gostou quando lhe perguntei se tinha um punhal.”

“Punhal?”, assusto-me com a palavra. “Pra que um punhal?”

“Aí é que está, pra tornar as coisas mais emocionantes.”

“Marissol, você esteve aqui pra perguntar como era o Marcelo, parecia sentir medo dele, agora me fala em punhal? Você é louca?”

“Não sei, Jane, mas te peço um favor, não conta pra ninguém, tá?”

“E o punhal?”

“Você quer saber, está curiosa também?”, pergunta com ironia.

“Você não perguntou se ele tinha o punhal?”

“Perguntei. Mas ele não tinha. Então, tirei o meu de dentro da bolsa e emprestei a ele.”

“Jura, Marissol? Você agora anda com um punhal? E o que ele fez com o teu punhal?”

“Ah, Jane, você é tão ingênua. E não cansa de ler esses... Como é mesmo o nome do livro?” Pega-o em uma das mãos e lê em voz alta: “Ensaios de Montaigne. Só te peço uma coisa, amiga, não conte pra ninguém. Nem do Marcelo nem do punhal, ok? Um beijo, porque agora vou à praia, obrigado e até logo.”

Na saída, acompanhada pelo som das pedrinhas penduradas que se chocam ante o abrir e o fechar da porta, ela vira-se para mim e manda mais um beijo.

Olho para o balcão, tomo o livro nas mãos e digo em voz alta: Ensaios de Montaigne. Esse Montaigne era um sujeito sensato, agora veja só a Marissol, roupa de piriguete e punhal, era tudo o que me podia acontecer nessa segunda de manhã.

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