sexta-feira, junho 20, 2008

Jazz and blues

Estávamos na praia, na faixa de areia que ficava diante da casa de Júlia. Era um sábado à tarde, o sol brilhava enquanto uma leve brisa nos tocava a pele e levantava a folhagem dos coqueiros. Eu lia um livro, enquanto ela, de óculos escuros, estava deitada em uma espreguiçadeira, de modo que aproveitava para bronzear o corpo. Seus filhos brincavam próximos a nós, faziam montes de areia ou iam até a beira d’água e voltavam com um pequeno balde a respingar. Caíra-me nas mãos um exemplar de um autor gaúcho, livro interessante. Um homem se despencava pela cidade durante um dia inteiro em busca de dinheiro para saldar uma dívida, enquanto a esposa, em casa, esperava-o. Nesse percurso através de cafés, financistas, penhores, casas de jogo, ele se deparava com vários e estranhos personagens, todos pertencentes ao submundo dos “espertos”, aqueles que sempre têm algum negócio a propor. Mas eram homens que mantinham a linha, vestiam-se bem, tinham gestos calculados, mesas certas nos restaurantes, e até havia entre eles certa solidariedade. Trabalho honesto não era profissão de quase nenhum deles. O personagem em questão era funcionário público; no entanto, sua repartição representava o que grande parte desse setor sempre representou para todos: um obstáculo a mais. Eu continuava a leitura, embora o ambiente que me envolvia nada tivesse a ver com o da história do livro; divertia-me torcendo para que pobre homem se saísse bem. Minha amiga, em determinado momento, me interrompeu:

“Graça”.

“Oi”, respondi, olhando em sua direção e fechando o livro.

“Você pretende fazer o que hoje à noite?”

“Está tão agradável a praia, que nem pensei nisso”.

“Vamos ao festival de jazz?”

“Podemos ir, mas e as crianças?”

“Elas ficam sozinhas, a Carolina já tem doze anos”.

“Está bem. Mas aqui está tão bom, quero que a tarde dure bastante”.

“Lembra quando falei pra você que seria ótimo virmos para a casa de praia no feriado? No início você ficou indecisa, agora está gostando".

“Não pensei que a praia estivesse tão boa e pouco freqüentada. Achei que o feriado atrairia muita gente de fora”.

“Não é mais como antigamente. Esse lugar já foi bem cheio em outros tempos, agora anda mais selecionado”.

“E Ana, não quis vir?”, perguntei.

“Minha irmã não gosta de lugares despovoados. Pra ela tem que ter muita gente; apesar de quarentona, quer agitação; sempre paquera um homem ou outro”.

“Gosto dela, é uma boa pessoa”.

“Eu também gosto muito, mas ela não vem porque não quer”.

“E ao festival, vai vir muita gente, não?”

“Deve vir, mas não é um festival comum; o público de jazz é mais requintado”.

“Você conhece alguém que vai estar lá?”

“Você pergunta sobre os grupos de música?”

“Também”.

“Um ou outro de alguns CDs; quanto aos possíveis freqüentadores, conheço muita gente nessa cidade, acho que vamos encontrar uns caras legais, vamos nos divertir”.

Um dos filhos de Júlia, o menino, tinha nove anos; pediu para eu ir até a beira d’água com ele. Embora o mar fosse tranqüilo, tinha medo. Acompanhei-o e acabamos divertindo-nos muito. Se ele já gostava de mim, passou a gostar mais. Depois veio a menina e entrou também. Aprontamos os três muitas brincadeiras.

Quando voltei para junto de Júlia, não consegui mais ler meu livro; as crianças me chamavam para qualquer coisa. Acho que chegaram a pensar que eu era da idade delas.

Em certo momento, a menina falou para mim:

“Tia Graça, você usa um biquíni muito pequeno, até parece de criança”.

Ri muito e deitei-me na cadeira de praia para aproveitar o fim de tarde.

À noite fomos ao festival. Acontecia todos os anos e era um evento nobre na cidade. A administração local transformara um terreno grande, próximo a uma das praias, no que se convencionou chamar “Cidade do Jazz”. Durante quatro ou cinco dias, ocorriam apresentações de grupos musicais em diversos pontos da cidade e à noite, a partir das 8h, o evento principal era nesse grande local. Havia um grande palco e, nas laterais, os bares e restaurantes da cidade montavam seus estandes e suas mesas. O festival reunia muita gente interessada em música. Havia moradores locais e pessoas que vinham de longe. Como à noite a temperatura caía um pouco e era mês de junho, as pessoas se vestiam bem, algumas trajavam até mesmo sobretudos. Era uma boa oportunidade de se tirar roupas de raro uso dos armários e desfilar ante todos os presentes. O festival de Jazz e blues não era um evento popular mas, ali, pouco a pouco assim se transformava; as pessoas gostavam de se passar por gente sofisticada, que acompanhava aquele tipo de música; havia também quem aparecesse por curtição apenas. Mas todos acabavam de algum modo se interessando.

Chegamos ao local por volta das nove horas. As apresentações ainda não haviam começado; ouviam-se sons desconexos vindos de músicos que preparavam seus instrumentos nos bastidores. Eu e Júlia andamos por grande parte do local. Ela, como gostava de roupa curta, viera com uma blusa colante ao corpo e uma saia curta, mas sobre a blusa vestia um casaco que lhe ia um pouco além das coxas. Tinha as pernas cobertas por meias azuis e calçava botas que atingiam quase o tornozelo. Eu ia vestida mais simples, um vestido comum – esquecera ao ir à casa dela de levar roupas mais chiques – e um casaco fino de mangas três quartos. Calçava as sandálias com as quais havia saído pela manhã.

“Viu o Humberto?, ele está lá naquela ponta”, disse minha amiga.

Humberto era um homem forte, cinco anos mais novo que ela, com quem tivera um caso logo após se separar do pai das crianças.

“Ele está sozinho”, ainda completou. “Vamos tomar uma cerveja?” Sugeriu sorridente.

Fomos até um dos bares. As mesas tomavam toda a frente e àquela hora já estavam quase todas ocupadas. Muitos jovens desfilavam de um lado a outro. As moças, principalmente, sorriam muito e conversavam. Suas roupas ora curtas, ora um pouco compridas, eram coloridas, mas tudo ajeitado de maneira muito sensual.

Júlia pediu uma cerveja; perguntou se eu não desejava alguma coisa. Disse que não, ainda era cedo para começar a beber. Com algum sacrifício, conseguimos dois lugares junto a duas moças que se mostraram receptivas a terem duas mulheres como companhia. Quando sentamos, a cortina do grande palco se abriu e a voz do locutor apresentou a primeira atração.

O grupo começou a tocar de forma que logo contagiou a platéia. A maior parte das pessoas estava diante do palco. A prefeitura colocara algumas cadeiras, mas muitos trouxeram cadeiras de armar de casa. Fez-se silêncio durante um tempo e uma mulher negra empunhou um violino, a banda a acompanhou. Após a primeira música, pararam por alguns momentos, foram muito aplaudidos pelo público. A mulher do violino se dirigiu em inglês à platéia, falou algumas palavras elogiosas sobre o local e sobre o prazer de estar apresentando-se ali. Voltaram a tocar.

As moças sorriam em aprovação aos músicos. Uma delas acendeu um cigarro; a outra começara a conversar com Júlia. Humberto, o amigo de Júlia, passou diante de nós e fez menção em parar. Minha amiga o chamou. Ele cumprimentou também as duas outras; conhecia uma delas. Acabei descobrindo que se chamava Marisa. Elas se levantaram e o beijaram. Arranjamos mais uma cadeira e ele se sentou entre mim e uma das moças. Depois, como quisesse falar algo em particular com Júlia, deslocou sua cadeira até ela e ficou a seu lado com o braço sobre o encosto da cadeira, numa posição que o fazia parecer estar a abraçá-la.

“Eu trouxe um baseado e estou doida para acender”, Marisa falou e olhou para os lados como se perguntasse se seria possível fazê-lo ali.

“É melhor em meio ao público, não vai demorar as outras pessoas por também vão estar fumando, espere um pouco”, disse o ex-namorado de Júlia.

Pouco a pouco chegava mais gente. Numa das entradas, dois holofotes deslocavam-se em sentido contrário, proporcionando um bonito efeito luminoso na direção do céu.

Percebi um conhecido que passou do lado de fora do conjunto de mesas; acenou para mim. Correspondi-lhe. Fez sinal de que depois viria falar comigo.

Pedi a um dos garçons uma caipirinha. Os garçons eram rapazes solícitos e bem vestidos, seguindo o estilo daquele bar. Seus cabelos eram cobertos por uma bandana negra, vestiam camisa e avental da mesma cor.
Júlia conversava animadamente com Humberto. As outras duas ora apontavam alguma coisa na direção do palco, ora acompanhavam a música com interesse. Minha amiga interrompeu a conversa e falou para Marisa:

“Vamos lá para o meio da multidão, assim você acende o baseado e eu dou uns tragos”.

“Ótima idéia”, ela falou levantando-se.

“Graça, você pode ficar aqui com ela”, apontou para Célia, a amiga de Marisa, “assim a gente não perde a mesa”.

Fiz que sim com a cabeça. Ela, o homem e a que trouxera o baseado se foram.

Um dos rapazes serviu minha caipirinha. Veio bastante enfeitada, como era tradição daquele bar, estava também muito gostosa. Comecei a tomá-la devagar, procurando saborear a bebida. O álcool logo me esquentou e provocou aquele frisson que sempre surge quando estamos em meio a algo que nos entusiasma. Célia pedira uma cerveja, mas também experimentou um gole da caipirinha.

“Está uma delícia, acho que daqui a pouco vou querer uma”.

“Não vai fazer mal?”

Ela já tomava a segunda lata de cerveja.

“Acho que não, uma só não dá pileque”.

Um rapaz acenou a ela, devia ter uns vinte anos, ela trinta. Subiu ao patamar das mesas e veio até nós.

“Oi, Davi, como vai?”, levantou-se e o beijou. “Aqui está minha amiga... Como você se chama mesmo?”

“Graça, muito prazer”, estendi-lhe a mão de onde estava sem me levantar.

Ele correspondeu, depois sorriu, fez um gesto de que desejava ficar junto a nós.

“Será que eu incomodo?”, perguntou.

“Claro que não, é um prazer ter você com a gente; aqui na mesa há mais gente, mas precisaram se ausentar um pouquinho”, Célia falou e sorriu em minha direção.

O rapaz sentou-se agradecido e olhou em busca de alguém que o atendesse. Apareceu dessa vez uma garçonete. Ela se vestia como os rapazes, mas não parecia trazer calça comprida sob o comprido avental; seus cabelos eram avermelhados e estavam presos em forma de rabo de cavalo.

“Bom grupo esse que está tocando, não?”, falou Davi, como se quisesse puxar conversa. “Está contagiando o público, a violinista é muito boa”.

Todos olhamos para o palco concordando com ele.

“Acho que conheço você de algum lugar”, falou voltando-se para mim.

“Pode ser”, sugeri, enquanto suguei pelo canudinho mais um gole da caipirinha.

Escutamos mais uma série de músicas, apreciávamos a performance da banda. Quando acabaram de tocar, as luzes do palco se acenderam. A mulher agradeceu muito e apresentou os outros músicos. Fingiram que se retiravam, mas devido aos aplausos incessantes voltaram para o bis. Quando acabaram, a cortina se fechou sob mais aplausos, enquanto a voz do apresentador anunciava que dentro de instantes teríamos a próxima atração.

Júlia, Marisa e Humberto voltaram para a mesa. Pareciam muito alegres e entusiasmados.

“Ah, estava ótimo o baseado”, disse Júlia para mim, “foi maravilhoso, e olha que estamos ainda no começo”.

Célia apresentou seu amigo. Marisa foi quem demonstrou mais interesse por ele. Aliás, é bom explicar aqui: ela já não era jovem, mas jovial. Descobri logo que gostava de rapazes. Talvez isso disfarçasse sua idade. A maneira de ela se vestir também revelava que não deixara totalmente a adolescência. Lembro que depois disse isso a Júlia, que retrucou: “e quem deixou?”. Talvez tivesse um pouco de razão.

Todos sentaram de novo, arranjamos mais uma cadeira. Ficamos conversando de modo que se formaram dois pares: Humberto e Júlia, Marisa e Davi. Eu e Célia ficamos à parte, mas os quatro, vez ou outra, tentavam nos incluir na conversa.

Nesse momento, o fluxo de pessoas era maior. Enquanto durava o intervalo, muitos procuravam os bares; outros iam em direção às outras partes do terreno. Descobri que havia estandes de venda de camisetas, CDs e que, próximo à entrada secundária, numa casa que parecia ser da administração, pequenos grupos de jazz e blues se apresentavam seguidamente, num show mais intimista.

Aquele conhecido que me acenara acabou por aparecer junto a nós. Apresentei-o a todos. Perguntou se incomodava caso ficasse em nossa companhia. Educada, disse que não, mas tentei deixar no ar um pouco de frieza; não o queria ao meu lado durante toda a noite. Sentou-se e pôs-se a conversar. Célia aproximou-se e deu mais atenção ao homem. Os dois deviam ser mais ou menos a mesma idade, lá pelos trinta ou trinta e dois anos.

A segunda atração fez a platéia assistir ao espetáculo de modo silencioso. O grupo era composto por três músicos e uma cantora. As canções eram estilo jazz-bossa, e a cantora se apresentou sentada num banco comprido; pode-se dizer que o show era cool, mas todos davam mostras de estar gostando muito.

Ficamos assistindo a distância. O barulho do bar onde estávamos e a circulação das pessoas atrapalharam um pouco a recepção daquele tipo de música. Não seria ainda dessa vez que Marisa e Júlia se aventurariam no meio da multidão para fumar um novo baseado. Pedi mais uma caipirinha e, quando olhei à esquerda, vi Júlia beijando Humberto na boca. Os outros conversavam e ouviam o show ao mesmo tempo.

“Nós vamos dar uma volta”, disse Marisa e arrastou consigo Davi.

“Não desapareça, olha o nosso trato”, falou Júlia.

O trato estava claro a todos, amigas de baseado.

Eu bebia minha caipirinha. Júlia mantinha-se agarrada a Humberto; parecia que as cervejas já faziam algum efeito. Ela se mostrava lânguida, sensível às carícias do homem. Célia discutia com Jorge, o meu conhecido. Falavam sobre o significado da palavra jazz no presente. O rapaz afirmava que o estilo significava tudo que desse margem a algum tipo de improvisação musical. Célia parecia concordar, mas dizia que, para ela, o jazz tinha que ser o autêntico, aquele dos negros americanos. O máximo de concessão que fazia era para Chet Baker.

“O estilo deles é inimitável, já não existe nos dias de hoje”, afirmou.

O rapaz devolveu que poderia não existir o jazz do jeito que eles interpretavam, mas que havia muita gente boa, principalmente em Nova York. Quando falou no nome da cidade, parece que causou um certo encanto em Célia. Ela então perguntou se ele já estivera lá.

A segunda apresentação acabara e o número de pessoas continuava aumentando. Os bares tinham gente por todo os lados, inclusive nos balcões; os empregados demoravam para atender. Humberto conseguiu mais uma cerveja e Célia pediu dessa vez a caipirinha.

Quando começou a terceira apresentação, executada por um ágil grupo de blues, os quatro já se mostravam muito entusiasmados, queriam dançar. Pediram a mim que tomasse conta da mesa e se foram novamente para junto do palco. Aconteceu então algo interessante. Uma moça, quase menina, perguntou se podia sentar com o grupinho dela nas cadeiras vagas. Eu disse que sim, mas só enquanto meus amigos não voltavam. A mais jovem devia ter uns dezesseis anos, acendeu um cigarro. Antes perguntou se o cigarro incomodava; ofereceu um também a mim.

“Obrigada, tenho aqui”, peguei um e acendi.

Ela puxou conversa; disse que não entendia muito aquele tipo de música, mas que estava gostando, que dali em diante ia procurar se interessar mais. Não sabia que existia tanta gente ligada em jazz e blues. Observou que as pessoas eram de boa aparência e bem vestidas.

“Parece até que estamos num outro país, nunca vi tanta gente bonita”.

Tomei mais um gole da minha bebida. Ela falou:

“Tudo, menos bebida alcoólica, não desce”, sorriu depois da última palavra. O grupinho conversava animado, o mais velho apontava para a banda e explicava para o colega ao lado alguma coisa que eu não ouvia.

“Meus amigos não são agradáveis?”, segredou-me a pergunta; continuou: “conheci-os ontem, ficamos juntos o dia inteiro; e, em doze horas, já namorei dois deles”.

“Não houve confusão?”, eu quis saber.

“Confusão, como?”, pareceu não entender.

“Isso não gera ciúmes entre eles?”

“Ah, não, eles nem querem ter ninguém por muito tempo, gostam que seja assim, são muito amigos”.

Olhei em direção ao público, depois levantei a cabeça e soltei a fumaça do cigarro.

“A senhora não tem par?”

Achei engraçada a palavra senhora, mas não quis decepcioná-la.

“Até agora, não.”

“Se quiser, arranjo alguém, quer?”

“Verdade?”, eu incentivava.

“Verdade!, não acredita?”

“Acredito, então arranje”, embarquei na fantasia.

Ela olhou em meio às pessoas que iam lá junto ao balcão do segundo bar. Disse de repente:

“Espere um instante”.

Levantou e se afastou; não demorou a voltar com um rapaz tão jovem quanto ela. Depois descobri que ele tinha vinte anos.

“Aqui está seu jovem apaixonado”, disse entregando-o a mim.

Ele sorriu, aproximou-se e me beijou na boca. Então falou:

“Sua caipirinha deve estar ótima, vou pedir uma pra mim”, sentou-se ao meu lado e permaneceu ali, com o braço envolto em meu ombro.

Comecei a aproveitar a festa tanto quanto aqueles jovens. Agarrei o rapaz e ficamos nos beijando por longo tempo. Ele parecia ser hábil na arte de amar, tinha as mãos delicadas, sabia tocar meu corpo. Logo me pôs num fogo que eu não sabia para onde correr. Se o lugar não tivesse tão cheio, já estaríamos num outro tipo de relação.

Quando meu grupo voltou, pedi que eles levantassem. Júlia parecia estar excitadíssima, e vinha agarrada a Humberto. Marisa viera junto com Davi e Célia também se acertara com o outro homem.

Falei:

“Agora sou eu que vou me divertir um pouco”, e segui o grupo de jovens, agarradinha a meu recente namorado.

Nas duas últimas apresentações, dançamos muito. O jazz não costuma ser um ritmo dançante, mas em meio a todo aquele som arranjamos um jeito. As outras pessoas, da mesma forma, não ficaram para trás. Quando vinha do palco o som de blues, principalmente o mais recente, que é muito semelhante ao rock clássico, dançávamos com mais ímpeto.

Antes da última apresentação, voltamos à mesa onde ainda se encontravam meus primeiros amigos.

“Graça, ainda bem que você voltou, preciso de um favor seu”, Julia falou.

“Pois, peça”.

“Vou sair daqui a pouco com o Humberto, mas não vou pra casa. Ainda vamos andar um pouco por aí, ele está de carro. Será que você pode voltar pra lá e ficar com as crianças? Elas devem estar dormindo”.

Olhei para o meu pequeno grupo. Eles não me abandonavam. Acho que pensavam que eu pudesse ser uma tia mais velha. Júlia pareceu entender.

“Quando acabar, pode levá-los todos para lá, se quiserem. Mas peço que não façam barulho, nem muita extravagância”.

“Você já sabe qual é a nossa extravagância predileta, não?”

“Ah, imagino. Tanto que não acordem as crianças...”

“Tudo bem, vou falar com eles”.

“Vou te pedir mais um favor”, ainda disse, “leve essa sacola pra mim”.

“O que tem aí?”

“Depois você olha”.

Ainda nos divertimos muito durante o último show. Mas o jazz foi tradicional, estilo dos grandes clássicos. Aplaudimos muito quando acabou.

Ao sairmos, eles já sabiam para onde iríamos. Na casa de Júlia, fizemos uma outra festa.

Logo que entramos, um deles acendeu um baseado.

“Por favor, fume isso lá fora, aqui tem criança” falei em surdina.

Fumaram na varanda.

Servi alguma coisa para eles comerem. Também havia umas bebidas na geladeira. Todos namoramos. Espalhamo-nos pela sala, pela varanda, e houve quem fosse para as areias da praia, que ficava bem diante da casa.

Durante duas ou três horas os pares se agarraram e namoraram em silêncio. Mas apenas minha primeira amiga, aquela que me trouxera o rapaz, ficou nua, e só da cintura para cima. Os outros, se transaram, fizeram-no sem tirar a roupa.

Eu e meu namoradinho também aproveitamos a oportunidade. Nunca beijei tanto nem fui beijada tantas vezes como naquela madrugada. E nosso contato foi mais vibrante quando nos enfiamos sob um edredom.

Depois que se foram, já quase ao amanhecer, lembrei-me do embrulho de Júlia. Abri-o. Toda a roupa que ela vestira estava ali, com exceção do casaco.

Encerro aqui a novela iniciada em A galeria. Se tiver de dar um nome ao conjunto, será o mesmo desse último capítulo. Nada impede, no entanto, que os seis segmentos sejam lidos como contos independentes.

terça-feira, junho 03, 2008

Namorado

“Graça, eu queria pedir a você um favor”.

Era uma quarta ou quinta à tardinha; Jackie entrou na loja olhando para os lados e de maneira atabalhoada.

“Alguma coisa em que eu possa ajudar?”, perguntei.

“Claro, você pode ajudar e muito”.

“Tenho um ou dois modelos que vão ficar ótimos em você”.

“Não, Graça, não é isso; hoje não entrei para comprar roupa, vim apenas pedir um favor”.

“Claro, pode pedir”.

“Você lembra o último sábado?”.

“O último, Jackie, nem sei; deixe ver...”

“Eu ajudo; você estava com um rapaz no principal restaurante da orla, está lembrada?”

“Ah, sim, agora lembro”.

“Você estava no mesmo restaurante que eu!”, falou.

“Estava? E o que tem?”, perguntei um tanto ingênua.

“Vai dizer que você é tão inocente, Graça?”

“Como assim? Não estou entendendo”.

“Você me viu, não? Eu estava com um homem assim assim...” e fez uns gestos como se quisesse transcrever através das mãos o aspecto do homem.

“Agora, lembro”, acabei por concordar, “acho que vi você; mas nesta cidade todos se encontram”.

“Mas não era para encontrar”.

“Como?”, acabei ficando curiosa.

“É que eu não podia estar com aquele homem naquele momento e naquele lugar”.

“E por que você foi logo para o principal restaurante da cidade?”

“Não sei, um momento de loucura, talvez”.

“Acho que já entendi”, disse a ela e sorri. “Sou uma pessoa discreta, você sabe”.

“Eu deveria ter ido com ele para Rio das Ostras”.

“Querida Jackie, vou lhe revelar uma coisa. Nunca leve um namorado para Rio das Ostras. O resultado será negativo. Enfurne-se num hotel daqui mesmo e fique por lá algumas horas. Assim será mais difícil que a descubram”.

Ela pôs-se a rir e não demorou a dizer:

“Graça, você é muito esperta, adoro você. Mas veja bem, sou dona de uma pousada. Sé é para ficar num hotel, fico por lá mesmo”. Arremessou um beijo e partiu.

Minha amiga era dona de uma pousada, aliás, ela e o marido. Mas não estavam se dando bem ultimamente. Descobrira que ele saía com outra. Ela, Jackie, decidiu então fazer o mesmo. Só que era uma mulher atabalhoada; naquela altura todos na cidade já sabiam do caso que estava tendo. O pior é que o homem era um hóspede constante da pousada e conhecia seu marido.

Passou a se relacionar com o amante ali mesmo. Certa vez me disse que bateu nua à porta dele e, quando estavam em plena atividade, pressentiu que o marido chegava a casa. Segundo ela, conseguiu escapar; mas por pouco ele não a surpreendeu.

A cidade era cheia de acontecimentos desse tipo; e quando alguém sabia uma novidade, aparecia para dar a entender que estava por dentro de tudo e que até mesmo recebera confidências da própria protagonista. Eu nada falava, porque minha profissão exigia polidez, caso quisesse manter a clientela.

Havia casais que não se divorciavam porque não queriam dividir bens ou propriedades. Para eles, era mais adequado que cada um tivesse sua vida amorosa e não comentasse nada com pessoa alguma. Mas às vezes aconteciam alguns escândalos. Sobretudo quando eram mulheres que descobriam com quem o marido saía. Iam até a amante e agrediam-na através de palavras ou mesmo fisicamente. Por isso eu também precisava tomar cuidado, tanto mais quando homens bem mais velhos que eu se colocavam à minha procura. Quando eu saía com alguém assim, nada perguntava sobre sua vida particular; não me interessava. Nunca quis nenhum relacionamento sério e quanto menos soubesse sobre o outro, melhor. Depois que presenciei alguns fatos desagradáveis, passei a tomar minhas precauções. Era preferível namorar homens de outras cidades.
Alguns dias depois, uma cliente me convidou para uma festa. A comemoração ocorria num restaurante mexicano que, como quase todos os bons restaurantes da cidade, situava-se próximo à orla marítima. A aniversariante reservara uma grande parte do local; convidara praticamente todas as amigas. Sentei ao lado de uma que se chamava Deise. Pediu uma tequila com suco de laranja e logo se mostrou muito excitada. Começou a contar sobre todos os homens com quem já saíra (mas sem citar nomes); solteiros e casados; sabia quem gostava de mulher e quem não; também conhecia as lésbicas. Em determinado momento falou sobre um caso que tivera recentemente com uma pessoa importante. Num dos encontros, ele apareceu com a esposa. Ela, a mulher que nos contava o caso, tentou esconder-se, mas a tentativa foi vã. Quando temia um grande escândalo, o homem lhe disse que não se preocupasse, porque viera para lhe fazer uma proposta.

“Qual proposta?” alguém à volta perguntou.

“Vocês querem mesmo saber?”

As mulheres que acompanhavam a narrativa olharam-na com curiosidade; ela continuou.

“Ele queria trepar comigo e com a esposa ao mesmo tempo”.

“E o que você fez?”, perguntou a mais curiosa.

“Trepei”.

Todas caíram na gargalhada. Quem estava mais distante quis que a história fosse repetida. A narradora, não abriu mão de um princípio básico: não disse o nome do amante nem o da mulher dele.

Uma outra relatou a história de uma professora que tinha um amante e era constantemente agredida pela esposa dele. Certa vez, quando saía do colégio onde trabalhava, viu a mulher caminhando em sua direção. Tentou voltar, mas era tarde. Foi agredida, caiu no chão e se sujou toda, pois vestia uma calça branca. Voltou então à escola para se recompor. Quando alguém perguntou o que acontecera, as próprias amigas correram em seu socorro: ”há uma mulher louca na cidade que sempre bate na fulana quando a encontra; é uma coisa inexplicável”. E ela mesma, sem graça, concordou com apenas um monossílabo: “é”.

Entre as presentes na festa de aniversário, podia-se notar uma grande quantidade de mulheres que não tinha marido nem namorado. Reclamavam que os homens estavam em falta na cidade.

“Não só na cidade, mas em todo lugar”, alguém afirmou.

Eu não me preocupava com esse problema, porque sempre havia algum homem atrás de mim. Na maioria das vezes era eu que o recusava.

“Por isso acho certo o que faz uma amiga”, disse uma loura de mais ou menos uns trinta e cinco anos, “quando percebe que alguém está interessado nela, logo aceita a companhia e até mesmo trepa na primeira vez que sai com ele”.

“Na primeira vez? É muito perigoso”, interferiu a que estava quase ao lado da aniversariante.

“Eu não vou pro motel na primeira vez, mas essa minha amiga vai, e acho que não está errada; do jeito que os homens estão em falta, não se pode perder a oportunidade”.

“Mas há alguns que são loucos; hoje em dia tudo é muito perigoso”.

“Viver é perigoso, como sempre se ouve por aí, e não vai ser um homem que se conhece pela primeira vez que vai tornar a coisa pior”.

“Se você fala, assim, por que não trepa na primeira vez?” quis saber a que dialogava com ela.

“Bem... Vamos ver...”

“Ela falou sobre uma amiga, mas acho que não há amiga alguma; ela mesma é que vai logo de primeira” sorriu a que sentava no lado oposto.

Todas rimos, enquanto o garçom chegava com uma bandeja cheia chopes e duas caipirinhas.

“Cuidado”, disse a que estava ao meu lado direito, creio que se chamava Ana, “dizem que há um estuprador na cidade”.

“Ah, se há, quero que me encontre e me estupre”, afirmou a loura.

“Há um outro que, dizem, está deixando as mulheres nuas!”

“Tanto que me coma antes, não há problema algum”, concluiu ainda a loura.

Na final da festa Jackie – ela também estava lá – veio em minha direção. Primeiro me beijou, depois falou:

“Graça, preciso de um favor teu”.

“Fale”.

“O Gustavo vem me buscar; você pode ficar um pouco comigo?”, Gustavo era seu amante-namorado.

Andamos em silêncio pela orla. A temperatura era amena. Acendi um cigarro enquanto o esperávamos.

“Vou te pedir mais um favor”.

“Mais um?”, retruquei.

“Só mais unzinho, ta?” Falou em tom carinhoso. “Você fica com a gente? Assim não haverá margem para suspeitas. Se alguém nos vir, pode pensar que o namorado é teu”.

“Você ainda vai demorar, por aqui?”

“Não, talvez uma meia-hora”.

Concordei. Ela ficou exultante.

Quando o homem chegou e ela apresentou-o a mim, pusemo-nos a caminhar na direção do Confort. Quando terminou o calçamento, ambos desceram para a faixa de areia.

“Você vem conosco?”

“O que você acha?”, perguntei.

“Quero que venha”, disse e me lançou o olhar em tom de súplica.

Caminhamos cerca de trezentos metros.

De repente, ela pediu que ele se destacasse um pouco adiante, virou-se para mim e fez mais um pedido:

“Você fica aqui e toma conta da minha roupa?”

Antes que eu respondesse, já havia tirado o vestido.

“Jackie, você é louca!”

“Estou muito excitada, deve ter sido a bebida, vai ser rapidinho...”

“Está bem”, sentei-me na areia enquanto ela se foi na direção do homem, vestia apenas a calcinha.

Voltou depois de quarenta minutos. E voltou nua.

Depois desse dia, tornou-se ainda mais minha amiga. Preferi, no entanto, manter alguma frieza em relação a ela. Temia que a cumplicidade pudesse me trazer complicações.

quarta-feira, maio 21, 2008

Corpo e prazer

Outro dia apareceu na loja um rapaz. Não tinha a intenção de comprar coisa alguma. Foi até lá para conversar um pouco e me emprestar um livro. Havia uma ou duas semanas que o conhecera num dos bares da orla enquanto bebia ou comia alguma coisa com uma amiga. Na verdade, era um colega dela. Apresentou-me na ocasião e ele ficou um pouco entre nós. Soube que era professor de literatura. Perguntei que tipo de livros costumava passar para seus alunos. Ele me respondeu que dependia da série e da escola. Eu disse que gostava de ler, mas sem compromisso. Então apareceu na loja para me levar um livro.

“Você gosta muito de ler, todos deveriam ser como você, assim o mundo seria mais interessante”.

“Você acha?”, repliquei.

“Não acho, tenho certeza”.

“Os professores têm muitas certezas”, deixei escapar.

“Ora não pense assim, os professores são as pessoas mais confusas que existem, jamais confie neles!”.

Sorri e achei que ele poderia ser alguém interessante.

“Olha”, falei, “leio qualquer coisa que me caia nas mãos; outro dia li a vida de Charles Chaplin”.

“Deve ser muito interessante, nunca li nada sobre ele”.

“É interessante, sim”.

Ao observar que alguém entrava para ver alguma roupa, deixou o livro e se foi. Fez sinal que qualquer dia voltava.

Li o livro que ele me emprestou. Livro interessante. Nada tinha a ver, creio, com sua profissão, e não era um livro a ser aplicado em escola. Tratava-se de um romance de uma escritora inglesa. A história tinha algumas idas e vindas e eu me deliciei naquele clima tortuoso que envolvia vários personagens e vários períodos do século XX.

Dias depois, apareceu de novo. Mas não pudemos conversar muito porque a todo momento entrava alguém para perguntar alguma coisa. Deixou um bilhete com o número do telefone. Numa outra vez, quando ele apareceu para uma visita rápida, também dei o meu número.

Encontramo-nos fora dali para um passeio e um chope numa noite de sábado.

Enquanto bebericávamos, começamos a conversar sobre livros.

“É difícil encontrar alguém que leia bastante e saiba conversar sobre o que está lendo”, ele disse. “As pessoas estão mais ligadas nas imagens”.

“Imagens? Como assim?”

“As pessoas estão mais fascinadas pelo mundo do áudio-visual, como cinema, DVD, computador etc.”

“Quanto aos outros não sei, mas gosto muito dos livros. Se o assunto me agrada, leio; não tenho método, nem pretendo ter. Ah, outra coisa, não gosto de jornais, quase não os compro”.

Ele ficou a me olhar, depois seus olhos se puseram distantes. Comecei a pensar se me desejava ou se estava ali apenas para conversar.

“Os livros fazem as mulheres mais belas”, falou.

Fiz-me de desentendida. Levou o copo à boca e completou:

“As mulheres que leem muito são fascinantes”.

“Não são todos os homens que pensam assim. Tive um amigo que só gostava de mulher que bebia o tanto quanto ele. Se ela ficasse num bar horas a fio e saísse quase bêbada, ele se apaixonava. Nunca leu sequer um livro nem desejou mulher fora desse círculo”.

“É verdade, não se pode generalizar”.

“Sabe, às vezes não me agrada falar para as pessoas das coisas que gosto; isso revela como sou. Não desejo que as pessoas me invadam; guardo muito a minha privacidade. Quando revelamos o que lemos ainda é pior, a outra pessoa, caso seja um pouco inteligente, logo deduz o tipo de pessoa que somos”.

“Interessante seu raciocínio, não tinha pensado ainda sobre isso. Então, quer dizer que você não gosta de se revelar...”

“Não”.

“Dizendo isso, você já está se revelando. Sinto muito, não vou perguntar mais”.

“Não precisa ficar aborrecido, é apenas uma colocação que gosto de fazer; amo estar comigo mesma”.

“Você não se sente muito só, desse modo?”.

“Às vezes, sim, mas faz parte da vida”.

“Existem pessoas que não suportam a solidão”.

“Não é solidão”, repliquei, "trata-se de um estar-consigo, ter prazer pela própria companhia e fazer as coisas de modo gostoso, sem precisar preocupar-se...”

“Não seria muito egoísmo de sua parte pensar assim?”.

“Não acho, não estou fazendo mal a ninguém...”

“Não se trata de fazer bem ou mal; se alguém se interessar por você e desejar sua companhia?”

Comecei a perceber quais eram suas intenções. Sorri, acendi um cigarro, dei um longo trago e soltei a fumaça com a cabeça inclinada um pouco para cima, depois respondi:

“Não sei, por acaso há alguém aqui interessado em mim? Caso a resposta seja positiva, não precisamos de tantas máscaras ou tantos livros...”

“Bem, você está sendo um tanto rápida, eu não tinha pensado nisso”.

“Eu, rápida?”, sorri e desviei meu olhar para um ponto indefinido. Depois acrescentei: “me acho tão lenta, preguiçosa”.

“Não é isso, de modo algum. Não estou aqui com a intenção de dar uma cantada em você, no caso seria uma cantada um tanto intelectual; minha intenção é apenas conversar com alguém interessante e, no fundo, manter a amizade”.

O garçom chegou trazendo mais dois chopes. Experimentamos a bebida quase simultaneamente. Meu recente amigo falou, talvez sem pensar:

“Amanhã vou ao Rio, pensei em convidá-la, mas devido a seu trabalho acho que você não pode, não é mesmo?”.

“Não é que eu não possa, se a viagem for marcada com antecedência...

“Ah, me desculpe é que pensei que você trabalhasse todos os dias...”

“Lógico que trabalho, mas se você quer me convidar precisa perguntar com antecedência, posso dar um jeito”.

“Verdade?”

“Claro, por que não?"

Não sei se ele queria na verdade convidar-me, ou se falava aquilo apenas para esticar a conversa. Achei que poderia ter um compromisso com outra mulher e por isso não me desejava a seu lado no Rio. Quando voltou, alguns dias depois, foi à loja e deixou um embrulho, que veio numa bonita sacola. Eram livros que ele me trazia de presente. Abri o pacote e me pus a manuseá-los. No da seguinte, telefonou. Marcamos um novo encontro.

O dia fora quente. Apesar da brisa que vinha do oceano, o calor de todo não se dissipara naquele entardecer. O sol se punha, e seus raios, já avermelhados, brilhavam sobre a superfície do mar. Aves brancas planavam rente ao espelho d’água; vez ou outra uma delas mergulhava para reaparecer num voo leve e límpido alguns segundos depois.

Estávamos nas imediações do Tênis e caminhamos em direção ao Sul. Quando o passeio e a ciclovia terminam e dali em diante se estende a grande faixa de areia, paramos e ficamos a apreciar toda a paisagem. Incentivei-o a continuar a caminhada, agora sobre as areias; despi as sandálias e desci a pequena escada que separa o calçamento do trecho da praia. Ele acompanhou-me, mas continuou calçado; pisava devagar, mantendo um equilíbrio precário, tentava evitar que os sapatos se enchessem de areia. Adentramos por cerca de quinhentos metros a área deserta. Depois paramos, virados para o mar, enquanto a noite caía e as luzes da orla, já distantes, reluziam como vaga-lumes.

“Esse lugar me faz lembrar uma namorada que tive quanto comecei a trabalhar nessa cidade”.

Pelas palavras dele, percebi que não tinha outras intenções em relação a mim que não fosse apenas a amizade. Não traria outra mulher ao nosso encontro, mesmo que feita de palavras, caso me desejasse. Ou seria inábil ao extremo.

“Uma namorada?”, incentivei-o a falar.

“Isso; uma pessoa que conheci quando cheguei aqui”.

“E o que houve?”.

“A maioria dos homens não gosta de falar sobre os próprios fracassos; mas vou contar a você. Sabe, até pensei em escrever sobre isso, mas o tempo passou e tudo ficou apenas como lembrança”.

“Quem sabe, ainda é tempo”, quis incentivá-lo.

“Os romances de amor muitas vezes têm um tema muito banal, mas acabam por fazer sucesso, você não acha?”.

“Sim, é verdade”.

Ele então começou a contar sua história.

“Cheguei nessa cidade em março do ano 2000, vim sozinho, fiquei a princípio num hotel. Trabalhava três dias na semana, dias seguidos. No último, voltava ao Rio, porque tenho lá um apartamento. Na semana seguinte estava eu aqui de novo, me hospedava no mesmo hotel. Num encontro de professores, conheci uma mulher que também era professora e fora nomeada pela prefeitura havia pouco. Embora ela lecionasse em outra escola, ficamos amigos. Almoçamos juntos no primeiro encontro, ela me deu, então, o seu número. Passamos a conversar e marcamos outro encontro. Ela compareceu toda animada. Descobri que também se hospedava num hotel. Começamos a nos encontrar todas as semanas, de repente ela passou a ficar no mesmo hotel que eu. Vinha de Niterói, para cumprir o seu horário bastava dormir duas noites aqui na cidade. Logo começamos a ter um caso. Apesar de ser casada, como me contou à época, seu relacionamento com o marido não ia bem; estavam para se separar. Alguns meses depois, aluguei um pequeno imóvel num prédio residencial próximo ao centro. Aí  ela passou então a dormir comigo. As noites em que permanecíamos na cidade, vivíamos um relacionamento ardoroso. No final daquele mesmo ano, ela realmente se separou. Nosso namoro se tornou mais constante e ela começou também a frequentar o meu apartamento do Rio. Mas sua vontade era morar em definitivo em M. Começou a procurar apartamento, pois achava que não poderia ficar no mesmo lugar que eu. Alegou que deixaria de vez Niterói. Uma vez que possuía muitas coisas, traria tudo para cá. Conseguiu um imóvel pequeno, próximo ao meu, e se mudou. Continuamos a nos encontrar, ora no apartamento dela ora no meu. Mas depois houve um período em que nos distanciamos. Ela, então, conheceu outra pessoa, alguém que morava quase ao lado. Daí para ficarem juntos não passou muito tempo. Acho que hoje estão casados”.

“E você, não quis se casar com ela?”

“Acho que o problema foi esse. Eu tinha saído de um relacionamento difícil e não queria casamento, pelo menos naquele momento”.

“Você não sofreu com isso? Já passaram alguns anos e do jeito que você conta parece que ainda tem mágoa”.

“Sofri no começo, mas depois vieram outras mulheres e tudo se resolveu. Tive uma mulher melhor que ela”.

“Essa história, bem contada, dá um romance”.

“Na época pensei em escrevê-la, depois, porém, perdi o entusiasmo. Hoje, quando me lembro de tudo, sinto que seria interessante escrever um romance ambientado aqui na cidade; mas não sei se teria condições”.

Voltáramos a andar pela praia; envolvidos pela conversa, atingíramos o outro extremo da faixa de areia, quase junto à lagoa.

“Está deserto aqui”, falou.

“Não creio que tenhamos problemas”.

Começamos a fazer o caminho de volta.

“Sabe o que me atraiu muito nela?”, continuou.

Virei o rosto a ele para demonstrar que o ouvia.

“Numa de nossas noites, descobri que ela tinha mais prazer caso eu me tornasse violento?”

“Como assim?”

“Numa das primeiras vezes, dei-lhe um ligeiro tapa. Aí passou a pedir que eu lhe batesse com mais força, até mesmo com o cinto.”

Apenas sorri. Ele ainda acrescentou.

“Na manhã seguinte, dizia que estava muito dolorida. Pedia para ver se havia marcas sobre as partes do corpo que ficavam descobertas. À noite, no entanto, queria de novo que eu a maltratasse. Pedia sempre que eu fosse cada vez mais violento, sobretudo no momento do orgasmo”.

Quando beirávamos o hotel Confort, voltamos ao calçamento da orla. Permanecemos então num pesado silêncio.

“Espero não ter estragado nosso passeio contando a você estas coisas”.

“Não, não; achei interessante”.

“Jura?”, ele quis saber.

“Juro”.

“E você?, me fala alguma coisa...”

“Eu?, não sou muito de falar”.

“Vamos beber alguma coisa?”

“Vamos”, concordei.

Durante boa parte do tempo em que permanecemos no pequeno restaurante, não voltamos à história que me contara. Mudou de assunto, falou sobre romances que lera e acabou por dizer que a literatura não deveria ser ensinada nas escolas, pois concluiu que as escolas destruíam tudo o que era bom.

“Quando você começou a gostar de ler?”, ele quis saber.

“Quando era bem menina. Sempre procurei os livros por minha conta. Hoje não sei dizer o papel da escola na minha vida, ou dos professores; nem mesmo tenho uma profissão em que se precise ser intelectual”.

“Intelectual?”, ele riu. “Você acha que eu sou intelectual?”

“Todos que trabalham com o intelecto são intelectuais, não?”

Riu de novo e falou:

“Nesse sentido, sim. Mas você não acha que as pessoas hoje em dia estão muito ligadas no corpo?”

“Sempre estiveram; você, não está também? Pois acabou de contar sobre uma relação de amor entre um homem e a mulher em que o corpo e a dor estavam em primazia...”

“Boa palavra: primazia”.

Depois de ter bebido dois dedos do chope, acariciei-lhe um dos braços e disse, enfim:

“Olha, sabe de uma coisa, você precisa ser mais carinhoso!”, comecei a rir.

Mas não nos beijamos ainda naquela noite.

quarta-feira, maio 07, 2008

Uma amiga em Rio das Ostras

Certa vez fui a Rio das Ostras visitar uma amiga. Ela morava numa casa linda, bem de frente para a praia. Era uma tarde de sábado, o dia fora de um sol intenso. Pusemo-nos a conversar sobre vários assuntos. Mas o que mais agradava a ela era falar de um senhor de quase setenta anos, que fora seu amante e ainda trabalhava; ele dava aulas numa faculdade, em Macaé.

“Foi um tempo bom, aquele que passamos juntos” dizia ela, “aproveitamos bastante; eu tinha um medo terrível de que a mulher dele descobrisse e viesse fazer escândalo. Trabalhávamos na mesma faculdade, todos nos conheciam, caso isso acontecesse seria o fim”.

Mantive-me calada enquanto ela continuava a conversa. Não quis perguntar se sabia o estado civil dele antes de começar o relacionamento. Ela parecia ter necessidade de continuar sua história. Mas de repente me perguntou:

“Você já teve um namorado assim?”.

“Assim, como?”, devolvi a pergunta com ligeiro sorriso e com a intenção de ganhar tempo.

“Um homem casado”.

“Quando tenho alguém, normalmente não faço essas perguntas”.

“Não faz perguntas? E se ele for casado? Se tiver o risco de vocês serem descobertos?”.

“Nunca fiz perguntas desse tipo. Às vezes alguém me vem contar alguma coisa, mas faço de conta que não me interesso”.

“Ah, então você faz de conta?” Ela queria que eu confessasse que me interessava pela vida particular do homem que no momento eu poderia ter.

“Na verdade, não quero me casar com ninguém, e não quero ninguém grudado em mim todos os dias”, falei.

“Isso, eu sempre fui assim, acabei ficando sozinha a vida inteira porque também nunca quis casamento. Porém não me arrependo, acho que foi bom”.

Ela servira um café com biscoitos, estávamos no terraço, e dali podíamos apreciar a praia, que era muito bonita. O mar estava agitado e um vento mais forte envolvia o continente num prenúncio de tempestade. Reparou que eu olhava, admirada, toda aquela paisagem; então, continuou.

“Você sabe que já tive um namorado mais novo que eu mais ou menos quinze anos. Foi também uma época boa. Eu tinha uns cinqüenta e ele mais ou menos trinta e cinco. Ele vinha pra cá e nós ficávamos bebendo e apreciando o mar, assim como você está fazendo agora, só que bebíamos uísque. E às vezes bebíamos demais. Ele me agarrava, me beijava e queria me levar nua pra praia. Uma vez fui, só uma vez, mas morri de vergonha. Ninguém nos viu, falei a ele ‘é só dessa vez, hein, não vá me fazer passar vergonha’, e foi tão bom.”

“E por que acabou?”, arrisquei.

“Acabou o quê?”

“O namoro; não era melhor com ele do que com o professor, que era bem mais velho?”

“Ah, sim, era melhor com o rapaz. Mas não sei por que acabou. Nem sei se acabou. Ele desapareceu e eu também não o procurei mais. Acho que deve ter arranjado uma mulher mais jovem, do tipo dele. Engraçado que ele vinha pra cá, tinha tudo do bom e do melhor e de repente desapareceu".

Acendi um cigarro. Sorvi-o longamente e soltei a fumaça. Ela me olhou e disse.

”Você parece uma pessoa feliz, gosto do seu jeito”.

“Será que ele morreu?”, sugeri trágica.

“Ele, quem?”.

“O rapaz”.

“Ah, não. Alguém me veio contar alguma coisa sobre ele, estava tudo bem”.

“Acho que sou feliz, sim”, falei retomando a opinião dela, “as pessoas se admiram; às vezes isso me chateia um pouco. Nos dias de hoje, parece que há um bando de mulheres que não consegue se realizar e, quando elas vêem uma que não é como a maioria, põem-se a admirar...”

“Não estou falando isso por inveja, não, viu? Sempre fui como você, por isso é que gosto de ser sua amiga”.

“Tenho muitos prazeres, procuro vivê-los nas pequenas coisas do dia-a-dia”.

“Você já fez análise?”, perguntou enquanto segurava a xícara com a intenção de tomar mais um gole de café.

“Análise, como assim?”

“Análise psicanalítica.”

“Ah, não, psicanálise não é coisa pra mim, mas acho que até poderia ser legal”.

“Você parece uma pessoa analisada. É uma mulher centrada”.

“Centrada? Eu?”, falei e caí na gargalhada. “Muita gente diz isso, que sou uma mulher equilibrada, ou centrada, nem sei. É muito engraçado, mas eu me acho tão desorganizada, preguiçosa, dorminhoca etc...”
Jussara riu do meu jeito de falar. Depois perguntou se não queria dar uma volta pela praia. Àquela hora o sol já quase se punha e o céu se avermelhava convidativo.

Lá pelas nove da noite, fomos a um restaurante. Não tínhamos fome, nossa intenção era passear, ouvir um pouco de música, já que no local havia música ao vivo, e observar as pessoas.

Jussara pediu uísque, sua bebida predileta. Eu preferi a caipirinha de sempre.

Continuamos nossa conversa iniciada à tarde. Enquanto ela falava, eu reparava o ambiente. Já estivera ali outras vezes, com outras pessoas; amigos, amigas e talvez algum namorado ocasional. O salão ainda não estava cheio. As pessoas chegavam pouco a pouco e se podia notar que algumas eram jovens; a maioria, porém, era de meia-idade. O garçom se aproximou com nossas bebidas. Serviu Jussara em primeiro lugar, depois se virou para mim, colocou o copo sobre a mesa e sorriu antes de voltar-se para as outras mesas.

“O uísque aqui costuma ser bom”, ela falou.

“Você gosta de uísque, não é mesmo?”

“Gosto, e tenho que tomar cuidado para não beber demais”.

Peguei meu copo, havia um pequeno canudo; sorvi alguns goles.

“Também já tomei uísque, hoje prefiro uma ou duas doses de caipirinha”.

“Graça, depois olhe à sua direita, há um homem conhecido meu, é engenheiro. Até pouco tempo atrás ele estava casado, mas acho que agora está só, e ele é interessante”.

“Você deve conhecer quase todos por aqui. A cidade não é grande e a população tampouco”.

“Conheço muita gente, mas têm aparecido rostos novos. Essa febre de emprego na região fez muitos se mudarem para cá. A cidade perdeu um pouco da graça que tinha há alguns anos”.

“Já sei quem é”, disse a ela, depois de ter identificado a pessoa a quem me chamara a atenção. “Já esteve lá na loja, mas acho que faz tempo”.

“É um bom partido, você não acha?”

“Não sei, sempre fui muito independente e ele parece ser do tipo galanteador, meio possessivo. Lembro que já conversei com ele”.

“Você fala que sempre foi independente, mas assim acaba não saindo com ninguém”, ela falou enquanto olhava o cardápio. “Não vai comer nada?”.

“Não sei, já lanchei na sua casa”.

“Mas isso foi há três horas”.

“Como pouco, pode ser que eu belisque alguma coisa; peça você”.

O garçom se aproximou novamente e ela fez o pedido.

Som de violão começou a ecoar pelo ambiente; era o casal que estava preste a começar a apresentação costumeira. O rapaz tocava e a moça, com uma voz muito bonita, se fez ouvir. As pessoas olharam para o pequeno palco e houve um momento em que o tom das conversas diminuiu de volume para ouvir a música.

Antes de o garçom trazer a comida, o homem que Jussara me apontara veio até onde estávamos.

“É um grande prazer ver você”, disse a ela.

“Fico feliz também por encontrá-lo, essa é minha amiga Graça, é quase dona de uma loja, em Macaé".

“Oh, me lembro de você, como vai? É um imenso prazer reencontrá-la. Acho que já estive na sua loja”.

Sorri, agradecida. Apertei-lhe a mão.

“Jussara, venha ficar conosco. Espero um amigo, nem sei se ele virá, por enquanto estou sozinho”.

“Fique você aqui, então”, ela o convidou, apontando uma das cadeiras vazias.

Ele olhou para a mesa onde estivera, e depois procurou pelo garçom para dizer que mudaria de lugar; tomou do encosto da cadeira o agasalho e veio juntar-se a nós.

“Espero não estar incomodando”, disse.

“Claro que não, se estivesse eu falaria, você já me conhece de outros carnavais”.

“Ah, é mesmo, de outros carnavais, e também de outras festas”.

“Minha amiga veio passar o sábado comigo, e decidimos vir beber alguma coisa e ouvir um pouco de música”.

Fiz sinal com a cabeça de que concordava com as palavras dela.

“E o trabalho, como vai?”.

“Lá vem você falar em trabalho em pleno sábado...”

“Sei que você adora o que faz, Jussara, não vá ficar aborrecida por causa disso”.

“Na verdade, gosto do que faço; mas quem gosta mesmo é a minha amiga Graça, não é? Ela é tarada por roupas e por aquela loja”.

Ele riu das palavras de Jussara.

“Heitor”, esse era seu nome, “você não vai pedir nada para beber?”

“Vou, mas até vir você ainda não tinha decidido; já que está tomando uísque, e do escocês, vou acompanhá-la”.

Chamou o garçom, pediu que ele trouxesse a bebida. Quando o empregado retornou fez que ele deixasse a garrafa sobre a mesa.

Jussara e o homem conversavam compassadamente. Às vezes ela começava a falar algo, como uma lembrança, ou sobre alguém da cidade que era conhecido de ambos. Então era a vez de ele completar, ou contrapor um assunto paralelo, ou falar também de alguém que achava interessante. Quando sentiu que o momento favorecia, ele revelou:

“Você sabia que eu me separei?”

“Ah, eu pensei que você já estivesse separado há tempos, sempre vejo você sozinho”.

Ele riu, levantou o copo, fez como quem ia tomar um pouco do uísque, mas interrompeu o gesto para dizer:

“Isso mesmo, sempre estou sozinho, então não adianta estar casado, não é?” Acabou por continuar o gesto e bebeu um gole.

“Quer dizer que agora você está livre para amar!” Jussara sorriu das próprias palavras.

Ele colocou o copo sobre a mesa, olhou para os pratos que estavam bem arranjados e creio que se intimidou em apanhar um pedaço do tira-gosto que o garçom acabara de trazer.

“Por favor, queira se servir”, ela disse ao observar o gesto interrompido.

Ele retomou o movimento e demonstrou aprovação pelo paladar do que experimentara.

“E, você, não fala nada?” Ele disse, se dirigindo a mim. Quis que o foco do assunto deixasse de ser ele para se sentir um pouco aliviado.

“Eu?”, ri e também tomei mais um gole da caipirinha.

“Isso, você, você é jovem e muito bonita”.

“Olha, Heitor, que revelação, já está à procura de uma mulher jovem?” Jussara quase o fez enrubescer.

A música tomava todo o ambiente, a moça cantava MPB, e cantava bem; o rapaz no violão era um exímio instrumentista. Olhei para eles, depois me voltei para o homem que nos fazia companhia e disse.

“Obrigada por me achar bonita, não creio que seja unanimidade”.

“Oh, unanimidade”, repetiu minhas palavras, “como não unanimidade, queira me desculpar, não estou lhe fazendo a corte, mas acho muito difícil que um homem não ache a senhorita muito bonita”.

“E seu amigo, será que não vem?”, quis saber Jussara.

“Ele me garantiu que viria, embora estivesse um tanto ocupado com um trabalho para a empresa”.

“Fala um pouco da sua vida de engenheiro, então, vai”.

“Minha vida de engenheiro é muito atribulada, não tenho tempo mais para nada; essa região aqui é muito propícia ao trabalho que desenvolvo, mas é como falamos no início, quase se vive só para isso, para o trabalho”.

“É bom, porque se ganha dinheiro, não?”

“Ganha-se”, respondeu voltando-se para ela, “mas nem tudo é dinheiro, é preciso viver, aproveitar a natureza, fazer umas viagens. Estou sempre adiando as coisas de que mais gosto”.

“Talvez o excesso de trabalho nos faça deixar de lado as pessoas de que gostamos”, arriscou minha amiga, creio que sem pensar.

“Não acho que seja isso que nos afasta. Se gostamos, quando estamos próximo colocamo-nos mais à sua disposição”.

“É, mas um afastamento longo não é bom para a relação”.

“Não tenho ficado no mar muito tempo, e agora, com as facilidades de comunicação, é possível se estar sempre por perto”.

“Mas há mulheres que exigem uma intensa presença física”, disse Jussara.

“Ah, sim, presença física, essa é boa!”, repetiu ele.

“Sabe o que estou querendo dizer com isso?”, ela retomou.

“Acho que sim”.

“Então, mulher que não tem presença física do seu companheiro acaba arranjando outro”, sentenciou.

“E, você”, ele virou-se para mim mais uma vez, “pensa assim também?”

Apenas sorri e fiz um movimento com os ombros.

“Olhem, até que enfim, meu amigo Raul...”

Seu amigo o procurava da entrada do restaurante; quando o descobriu, atendeu a seus acenos dirigindo-se até onde estávamos.

Raul era um homem gordo. Chegou com um cigarro entre os dedos e pareceu não se importar se era permitido ou não fumar no interior do restaurante. Como ninguém reclamou, continuou tranqüilamente fumando.

Depois das apresentações, sentou-se e procurou o garçom; desejava muito um chope. Apesar da temperatura amena, ele parecia sentir calor. Tirou o lenço de um dos bolsos e o esfregou em torno do pescoço.

“Minha amiga tinha acabado de perguntar se a pessoa com quem eu havia marcado não viria; não deixei de dizer que você é uma pessoa que cumpre seus compromissos”.

Ele sorriu.

“Não esperava que Heitor tivesse marcado encontro com duas pessoas tão simpáticas”.

“Oh, você acabou de nos conhecer, como acha que somos simpáticas?”, observou Jussara.

“Dá pra se notar, não diga que vocês não são pessoas adoráveis?”.

“Meu amigo sempre diz que conhece poucas pessoas, que bebemos sozinhos, mas veja, hoje temos companhia”, arriscou Heitor.

“Que bom, fico feliz por todos nós”, deu um largo sorriso e levou aos lábios o copo que o garçom acabara de trazer.

A conversa enveredou por sinuosas vias que privilegiavam o trabalho dos dois homens. Eles pareciam não ter outro assunto. Contavam episódios e atitudes de cada um como feitos monumentais. Como eram engenheiros, não deixavam de valorizar a profissão e a empresa onde trabalhavam.

Heitor começou a contar uma viagem que ambos fizeram com o objetivo de acompanhar o término da montagem de uma plataforma e de seu percurso até o Brasil. Relatava a quantidade de dias em que ficaram no mar, a vagarosidade da viagem e o fato de não haver mulher alguma a bordo.

Jussara, não sei se por pilhéria ou por ser assunto que sempre abordava, foi logo completando.

“Posso imaginar vocês dois quando chegaram, não devem ter feito outra coisa a não ser procurar por mulheres em todos os lugares...”

“Nem tanto”, interrompeu Heitor, “lembre-se de que na época eu era casado e minha ex-esposa me esperava com todo ardor”,

“Ardor?” disse minha amiga e continuou: “Ela deve ter sentido sua falta, mas na verdade deve ter gostado da liberdade de ficar seis meses sem o marido”.

“Você gostaria?”, perguntou ele.

“Você acha que eu não me casei por falta de convite? Sempre havia alguém atrás de mim, mas preferi a vida de mulher independente”.

Eu sabia que aquilo não era verdade. Se o professor que agora ia na casa dos setenta, ou mesmo o homem mais novo que ela dez anos houvessem proposto casamento, ela aceitaria, tenho certeza.

“Eu sei que às vezes é difícil a gente viver só, mas é melhor do que arranjar uma série de aborrecimentos”, Jussara disse sorrindo.

“Não sabia que éramos motivo de aborrecimento”, falou Raul e deu uma estrondosa gargalhada. Um homem que estava na mesa ao lado com a mulher olhou para nós um tanto surpreso e nossos olhos se cruzaram.

A conversa voltou ao assunto que os dois preferiam: o trabalho. Falaram ambos sobre energia, a questão vital segundo eles, a maior necessidade entre todas as outras coisas.

O salão do restaurante já estava lotado. O barulho um tanto exagerado atrapalhava quem quisesse ouvir a cantora. Os que já haviam bebido além da conta eram os mais animados e ruidosos. Jussara tinha o rosto vermelho, parecia satisfeita, ouvia o que os homens falavam, virando a cabeça ora para Heitor, ora para Raul.

Eu tomara a caipirinha e não quis outra quando o garçom se aproximou. Tentava manter-me interessada na conversa dos dois homens. Quis ser educada, ou ao menos aparentar. No diálogo deles não havia lugar para o sonho ou para a fantasia; eram tão terra a terra quanto o petróleo que ajudavam a descobrir e trazer do fundo do mar.

Em torno da uma da madrugada fomos embora. Jussara bebera mais do que costumava, mas apenas seu rosto mostrava os vestígios do exagero. Ela se comportava de modo adequado. Eles nos ofereceram carona, mas estávamos tão próximas da casa de minha amiga que não fazia sentido ir de carro. De súbito, foi ela que sugeriu:

“Vocês não querem ir até lá em casa? A gente toma a última dose”.

Heitor olhou para o amigo como se esperasse pela resposta deste. Raul se mostrou mais animado do que todos; o grande número de chopes que tomara parecia ter-lhe despertado um entusiasmo que não tivera quando chegara.

Jussara gostava de homens galanteadores como Heitor, por isso mostrava-se um tanto propensa a desejar sua companhia por mais algum tempo.

Entramos em casa. Jussara acendeu as luzes e pediu que nos sentássemos. Havia um grande estofado de cor creme, no qual os dois homens sentaram; em sentido transversal, havia um menor, onde me sentei. Ela foi até o bar apanhar a garrafa de uísque. Trouxe também cerveja para Raul; ofereceu-me, caso eu quisesse continuar tomando caipirinha, o que fosse necessário para prepará-la. Quando todos já estávamos acomodados, ligou o aparelho de som e uma música baixa, acho que um pop norte-americano, completou o ambiente.

Raul tentava a todo custo extrair de mim alguma conversa. Jussara correu em seu auxílio, dizendo que eu na verdade tinha mais assunto do que ela, porque sempre estava lendo alguma coisa.

“Oh, que interessante, você é uma leitora?, deve ser então uma pessoa muito especial. As mulheres que lêem muito são diferentes das outras”.

Sorri e ele começou a falar para mim, deixando o amigo junto a Jussara.

“Quando eu era estudante lia muitos romances, gostava de verdade”. Citou uma infinidade deles. “Tirava boas notas por isso. Naquele tempo para ingressar na universidade federal era preciso muita leitura”.

“E hoje, não lê mais?”, eu quis saber.

“Leio, mas não é a mesma coisa que antes; o trabalho me absorve muito e acabo por ler quase sempre manuais e livros técnicos”.

“Eu não viveria sem meus livros”.

“Hoje as pessoas vêem muita TV, por isso talvez a leitura não seja uma prática tão intensa”.

Levantou-se, foi até a mesa e completou seu copo de cerveja.

“Você costuma ir ao Rio?”, perguntou-me.

“Atualmente não, quase não saio dessa região; viajo apenas nas férias”.

“Há umas livrarias ótimas lá, convido você a passar um fim de semana. Levo você para escolher muitos livros e para passear”.

“Vamos ver”, falei, “vamos ver”.

Já estava muito cansada e, depois de mais um quarto de hora, pedi licença a eles dizendo que eu trabalhara no dia anterior e precisava descansar. Creio que Raul ficou um tanto decepcionado, pois falou:

“Amanhã é domingo, espere mais um pouco. Você não quer dar uma volta lá fora? A temperatura está amena e a essa hora creio que ainda há movimento”.

Olhei para Jussara, reparei que ela estava bem próxima a Heitor e ele tinha uma das mãos sobre suas pernas. Não quis estragar-lhe o prazer. Seus olhos voaram em minha direção; entendi o que ela queria.

Deixamos os dois e fomos passear lá fora. E demoramos bastante para voltar. Nada comentamos sobre eles. Raul bebera demais; foi capaz apenas de esticar a conversa. Não teve ímpeto para me fazer qualquer outro tipo de convite.

quinta-feira, abril 24, 2008

Dilema

Joana entrou na loja, estava um tanto agitada.

– O que há, tudo bem? – perguntei.

– Preciso de umas roupas novas.

– Que bom. Tenho umas coisas ótimas, chegaram ontem à tarde, você vai adorar.

– Quero ver, vou experimentar todas.

– Fico feliz por ver você nesse entusiasmo. Alguma coisa mudou, não? – Perguntei enquanto, um tanto surpresa, olhava em sua direção. Procurei, porém, manter a discrição.

– Muitas coisas mudaram, agora vou ser uma mulher diferente.

Tirei as roupas das embalagens e fui colocando-as diante daquela mulher morena, alta, com expressão intensa.

– Andei adoentada, você soube, não?

– Acho que sim. Você desapareceu.

– Andei fazendo uns tratamentos, até que encontrei o médico certo, uma terapia nova.

– Que bom que você conseguiu.

– Descobri coisas que não enxergava antes. Agora quero explorar minha beleza, ser admirada.

– E sua filha, vai bem?

Ela me olhou de relance e se voltou para as roupas que tomava nas mãos. Temi ter tocado num assunto delicado, mas ela logo respondeu.

– Está tudo bem. Agora está na escola.

Lógico que eu não iria perguntar sobre o marido, já seria ir longe demais. Percebi que todos os problemas que ela vivera e talvez ainda vivesse tinha relação com ele.

– Precisamos nos encontrar fora daqui para conversar. Você vai gostar de me ouvir, aconteceram tantas coisas.

Tomou nas mãos dois vestidos, uma saia e uma blusa de tecido fino.

– Vou experimentar.

Enquanto estava no provador, chamou-me para que eu desse a minha opinião sobre as roupas em seu corpo. Não fiz mais do que elogiar. Vendo aquele corpo bonito de mulher, ainda pensei num outro modelo que achei que cairia melhor nela. Fui até um dos suportes, peguei a roupa e sugeri que ela também a experimentasse. A cor era preta; ela ficou deslumbrante.

– Vou levar tudo.

– Ótimo.

Depois que acertamos a forma de pagamento, ela pegou as embalagens, beijou-me e se foi sorridente.

– Precisamos nos encontrar num final de semana para conversar mais. Vamos marcar – sugeriu.

– Telefone, vai ser ótimo.

Joana era professora. Havia alguns meses que eu não a encontrava. Certa vez telefonei para sua casa com a intenção de lhe dizer sobre as roupas bonitas que recebêramos. Atendeu o marido. Identifiquei-me e disse que desejava falar com ela. Ele respondeu que a mulher andava adoentada, sofria de depressão e não queria falar com ninguém. Chegou a me dizer que ela precisava das amigas, que se pudesse fosse vê-la. Mas nunca fui. Não por não querer, mas devido à minha própria falta de organização.

No final de semana seguinte à sua estada na loja, ela me ligou e marcamos um encontro. Fomos a um dos restaurantes da orla marítima. Ela vestia uma das roupas compradas dias antes.

– Esse vestido ficou ótimo em você.

– Graças a você, amiga, que sempre tem o que é bom e melhor.

– Obrigada.

Ela levara a filha. Quieta, a menina comia um pedaço da pizza.

– Você sabe que estive doente?

– Sim, há alguns meses eu liguei pra você e seu marido me informou. Fiquei de fazer uma visita, mas nunca fui. Desculpe-me.

– Não precisa se desculpar. Sei os compromissos que as pessoas têm hoje em dia, é muito difícil corresponder a tudo.

– Mas se eu fosse mais organizada, poderia ter ido à sua casa fazer uma visitinha.

– Acho você tão organizada, tão, como se diz, tão centrada.

– É só impressão, sou um caos só.

Joana riu. A menina, sentada diante de nós, olhou-nos e sorriu também.

– Não sei o que aconteceu comigo, mas fiquei muito mal. Não sei como consegui me recuperar.

– Hoje essa doença é muito comum. E as mulheres são suas principais vítimas.

– Por que será, hein? – perguntou enquanto bebia um gole do copo de refrigerante.

– Não sei, mas desconfio que os homens sabem aproveitar a vida melhor do que nós. Por isso eles quase não sofrem desse mal.

– Talvez eles sofram, mas conseguem se desviar. Saem com os amigos, às vezes têm um caso extraconjugal, e acabam também por beber demais. Essas coisas servem de paliativo.

Escutava-se o leve marulhar, uma brisa suave chegava até onde nos encontrávamos, na varanda do restaurante. O local estava quase repleto, sobravam duas mesas.

– Eu acho que as mulheres sofrem de depressão porque não se realizam em muitos aspectos – insinuou.

– Como assim?

– Nós ficamos presas a alguém e acabamos por acreditar que somos felizes, enquanto a outra pessoa, na maioria das vezes, começa a deixar esfriar a relação, entende? Deixa cair na rotina. Então nós ficamos tentando, tentando e acho que é isso que adoece. Vou contar pra você porque sei que não vai passar adiante. Eu estava me sentindo muito sozinha, mesmo casada. Acho que isso me fez mal. Passei a fazer terapia, sabe? Ele, o terapeuta, me disse que eu tinha de me valorizar mais, tinha de sair, ter outras opções, que minha vida estava passando e eu estava deixando tudo de lado. Os homens parecem que ficam satisfeitos com seus pequenos afazeres. Nós precisamos talvez de algo mais, não sei.

– Acho que a gente precisa aproveitar, sim. Acho também que não se deve temer o fato de se ficar sozinha. Deve-se procurar graça nos pequenos prazeres.

– Como assim? – Joana mostrava-se curiosa com a minha simplicidade de ver as coisas.

– Por exemplo, adoro tomar café. Então em determinado momento da tarde, vou até a cafeteria próxima e tomo o café. Sorvo-o vagarosa, tento sentir o máximo de sabor. Depois fumo um cigarro. Hoje todos condenam o fumo, mas eu dou alguns tragos e sinto um prazer imenso. Mas veja, é preciso fazer as coisas com gosto. Não mecanicamente, só por costume; aí, nada mais tem graça.

– Acho que você tem muito prazer também em trabalhar, não? Vejo você apanhar as roupas com tanto carinho, arranjá-las de modo admirável. Fico observando você e penso que eu deveria ser assim. Você parece que sente prazer em tudo.

– Realizo-me em muitas coisas, você tem razão.

A menina acabara seu pedaço de pizza e queria mais um pouco de guaraná. Joana pegou o refrigerante e encheu o copo com mais um pouco da bebida.

– Você namora alguém? – perguntou-me Joana.

– Ah, todo mundo me pergunta isso, é impressionante. Acho que namoro todas as coisas.

– Verdade? Mas como você faz?

– Como eu falei, fazendo uma coisa de cada vez e com gosto...

– Mas e namorado, um homem de verdade?

– Não sei se existem homens de verdade. Às vezes prefiro ficar sozinha.

– Como você suporta?

– Não é que eu não tenha ninguém, mas não é nada muito sério, só diversão.

– Sabe, acho que eu deveria ser assim, como você, por isso quis marcar para conversar sobre isso.

– Sobre o quê?

– Sobre isso, sobre desejos, namorados, a vida enfim, não sei...

– Nós não podemos depender dos homens. Há pessoas que dizem que encontraram o par ideal, mas isso é muito difícil, todos têm problemas.

– É verdade – continuou – todas temos problemas. E às vezes é a falta de perspectiva de solução que nos deixa mal. Você nunca sofreu por alguém?

– Já, uma ou duas vezes. Mas passou rápido. Como eu disse, encontro prazer em quase tudo.

– Meu marido é boa pessoa. Gosto dele. Mas não sei o que aconteceu nos últimos tempos, nos afastamos muito.

– Acho que acontece com todo mundo. É difícil que tudo seja sempre como no início. Não quero dizer que isso seja motivo para não se ter ninguém, para se viver na mais completa solidão.

O garçom apareceu e eu pedi uma caipirinha. Joana se surpreendeu.

– A bebida não lhe faz mal?

– Bebo pouco; e caipirinha é melhor porque bebo apenas uma ou duas.

– Você sabe viver. Quem ensinou essas coisas a você?

– Ninguém. Ou melhor, gosto muito de ler. Assim encontro várias personagens, várias idéias, e acabo tirando um grande proveito de tudo. Mas leio romances mesmo, nada de auto-ajuda.

– Você é contra a auto-ajuda?

– Não, mas não gosto.

– Como a leitura ajuda você, então?

– Não leio para obter ajuda; leio porque gosto, por puro prazer. Quando se descobre o prazer que a leitura proporciona, não se quer outra vida. É muito legal.

Joana riu. Um vento mais forte varreu a beira da praia. Algumas pessoas encolheram os braços, outras ajeitaram o agasalho.

– Quando eu era solteira, tive um namorado que vivia lendo. E eu tinha ciúmes por ele encontrar tanto prazer em companhia dos livros. Até disse a ele que um homem não poderia se casar e ler tanto – Joana riu após as últimas palavras. – E olha, acho que ele é igual a você, está solteiro até hoje.

– Esse então também descobriu o segredo da vida – arrisquei e dei um ligeiro sorriso.

– E quando você arranja alguém que não gosta das mesmas coisas que você?

– Normalmente não fico com ninguém que não combina pelo menos em alguma coisa comigo.

– Mas esse seu jeito intelectual acaba por tornar você mais exigente...

– Só se for para um relacionamento mais longo. Quando percebo como o homem é, principalmente se é do tipo possessivo, na segunda ou terceira vez digo que não quero mais.

– E se ele for bom de cama? – Joana perguntou de um modo que a filha não ouvisse.

– Se o problema for esse, conheço muita gente boa de cama, não é preciso que seja um namorado.

Joana pôs-se a rir.

– Você realmente sabe viver, não?

A menina de repente falou:

– Mãe, lá vem o papai.

E realmente vinha.

– Eu disse para ele que estaríamos aqui, espero que você e não se incomode.

– Não, claro que não.

O marido de Joana chegou sorridente. Parecia que já tinha bebido um pouco. Beijou a filha, a mulher e me cumprimentou. Sentou-se e pediu um chope ao garçom que se aproximava.

Dali em diante ficamos algum tempo em silêncio. Depois, Joana pôs-se a lhe contar sobre as roupas que comprara e sobre a loja em que eu trabalhava. No final, deixei-os; aleguei um compromisso para aquela noite ainda. Sorriram. Não me deixaram pagar minha despesa. Joana ainda me beijou e, pelo movimento que fez com os olhos, percebi que sentira atração pelo meu posterior compromisso.

quinta-feira, abril 10, 2008

A galeria

A galeria Carapebus fica no Centro, como quase todos sabem. É um corredor de passagem entre duas importantes ruas. O local alinha lojas famosas, como diversas butiques de roupas masculinas e femininas, uma cafeteria, uma revistaria, uma loja de CDs e DVDs, uma delicatessem e um caixa eletrônico da Caixa Econômica. A galeria ainda recebe as pessoas que vão ao Tropical Plaza, um pequeno shopping que se situa ao lado e também é local de lojas chiques. Quem olha para o alto quando anda sobre o passeio da rua principal, pode observar dois edifícios que completam o conjunto arquitetônico. Nas salas comerciais, há uma variedade de consultórios, escritórios de advogados e de administradores de imóveis; vez ou outra se sabe de algum atelier de artista famoso ou studio reservado a gente talentosa.

Eu trabalhava havia dois anos em uma loja de roupas femininas. Uma das melhores na cidade. Sempre recebia a visita de jovens e de senhoras da sociedade. Experimentavam os modelos, e algumas aguardavam as novidades que vinham do Rio ou de São Paulo. Vez ou outra, recebíamos visitas de homens; sobretudo os de meia-idade. Vinham comprar presentes para as esposas ou mesmo para as amantes. Essas também frequentavam a loja e, com muita discrição, faziam compras cujas somas eram saldadas pelos respeitosos senhores. Eu conhecia quase a todos; e a proprietária, uma mulher educada, acostumada aos sabores vários das relações interpessoais, confiava a mim o atendimento discreto da variada clientela. Sempre sorrindo, sem demonstrar maior intimidade, eu me aproximava dos clientes e atendia todos com esmero.

A cidade em sua extensão e em seus quase duzentos mil habitantes não era uma cidade pequena; os antigos moradores, porém, não deixavam de se cumprimentar e sempre paravam para falar sobre algum assunto. Vivia-se o delicioso mundo das aparências, em que todos se fazem de sóbrios, mas não abandonam a embriaguês provocada pela possibilidade de um relacionamento novo e excitante. Assim nós vivíamos nossa pequena felicidade, entre beijos, abraços, e uma aproximação maior quando era conveniente.

Certa feita eu tive um namorado. O rapaz passava constantemente diante da vitrine e sorria para mim. Fingia apreciar os manequins expostos e, às vezes, entrava para fazer alguma pergunta sobre as mercadorias. Como a loja não tinha roupas masculinas, via-se embaraçado. Quando eu o indagava para quem era o presente, ele pigarreava e inventava pessoas diversas. Na verdade, nada comprava. No dia seguinte, lá estava ele de novo a olhar através do vidro o mundo multicor das roupas femininas.

Uma vez falou:

– Roupa de mulher é coisa bonita, os homens não têm tantas opções...

– São poucos os que pensam assim, você é uma pessoa de sensibilidade.

Minha frase lhe soou como um elogio, e ele passou a me visitar com mais freqüência. Um dia me convidou para tomar café na cafeteria próxima. Passamos então a conversar mais, enquanto eu sorvia um expresso e comia com delicadeza o pequeno biscoito que acompanhava a bebida. Certa vez lhe pedi um cigarro. Assustou-se. Disse que não fumava e admirou-se que eu me prestava a tal vício. Respondi-lhe que não era um vício, mas prazer. Ele ainda insistiu na proibição de fumar em lugares fechados. Devolvi atenuando-lhe a preocupação:

– É que poderíamos conversar mais um pouquinho dando uma volta pela quadra, até atingirmos a outra entrada da galeria.

Depois daquele dia, além do café, completávamos nosso encontro com o pequeno passeio. Um dia ele me convidou para sair à noite.

Notei que tinha idéias estranhas. Estava à procura de alguém para casar. Percebi que fora criado de modo muito conservador; o que não era raro na periferia da cidade. Tinha uma família numerosa e se pôs a contar toda a sua história enquanto caminhávamos pela orla marítima. Reparei também que ele não costumava fazer aquele passeio; conhecia pouco por ali.

Apesar da pouca idade, eu já tivera outros relacionamentos; com jovens e com homens mais velhos. Ele quase não me tocava, então fiquei desconfiada de que não me convidaria para um contato mais íntimo. Não foi o que aconteceu. Saímos naquela mesma noite e ele não era mal; mas, como não tínhamos lugar para ficar, acabei levando-o para minha casa. Antes, porém, enquanto andávamos, nem mesmo me convidou para beber ou comer algo. Fui eu que o alertei que estava com sede e desejava beber água de coco.
Já naquela ocasião, pude perceber que tipo de homem ele era. Daí em diante, planejei me afastar e continuar minha vida de mulher livre.

Nos dias que se seguiram, continuou a aparecer e insinuou certo desejo de posse sobre mim. Tomei mais duas vezes café em sua companhia e fumei o meu cigarro. Não demorei a lhe dizer que não mais iria acompanhá-lo; poderíamos ser amigos, mas que não me assediasse, não desejava passear com ele todos os dias. Creio que ficou decepcionado. Desapareceu por uns quinze dias, até que ressurgiu e me acenou através da vitrine. Correspondi, mas não saí quando acabei de atender a cliente. Depois disso, nunca mais voltou.

Não sei dizer o motivo, mas na maioria das vezes quando estou sozinha, sinto-me a mulher mais feliz do mundo. Não preciso me preocupar com ninguém nem refletir se estou agindo de modo a ferir aquele que estaria ao meu lado. Passei assim uns dois meses. Trabalhava, saía para meu lanche, voltava para a loja, retornava a casa, lia algum livro, ouvia música e nada me incomodava. Às vezes ia à orla marítima, encontrava uma amiga, então sentávamos em algum restaurante para jantar ou mesmo para beber alguma coisa. Aos domingos havia vezes em que todos os meus amigos iam à praia; meu telefone não parava de tocar. Era normal eu não atender; dormia até tarde e só lá pelas três horas eu aparecia na praia. Mas mesmo assim não era para um banho de mar; às vezes para almoçar, outras para tomar um suco. É claro que eu não optava eternamente pela mais completa solidão. Às vezes eu aceitava algum convite para sair à noite ou mesmo me esforçava para acordar cedo, isto é, lá pelas dez, e ir à praia com alguém interessante.

Até que surgiu um senhor cerca de vinte ou vinte e cinco anos mais velho do que eu.

A primeira vez que o vi foi na própria loja. Entrara como todos em busca de uma roupa bonita para presentear alguém. Mostrei-lhe vários modelos. Tratei-o com o profissionalismo que costumo atender os clientes. Notei, porém, algo diferente nele. Olhava-me sorrateiro e não demorei a desconfiar de que ele tinha outro interesse além do presente que procurava. Comprou um vestido longo, traje para noite, um tanto formal, não era o que se usava com freqüência na cidade mesmo em ocasiões especiais. Mas não deixava de ser bonito. Alguns dias depois, voltou para me agradecer. Disse que a pessoa a quem presenteara adorou a roupa. Tentou retribuir-me com algum presente. Eu disse que não poderia aceitar; fizera o meu trabalho e não competia aos clientes pagarem nada a mais do que o preço da mercadoria. Não desistiu. Voltou outras vezes.

Andava sempre bem vestido. Como trabalho com roupas e as conheço, reparei que ele tinha bom gosto. Vestia roupa social de grife; às vezes quando o vi trajando algo mais esportivo, observei que as etiquetas eram de roupas caras, compradas no Rio ou em São Paulo. Era bastante ardiloso em conquistas amorosas. Percebia-se que dificilmente alguma mulher deixaria de cair em suas mãos caso ele assim o desejasse. Apesar de beirar os cinqüenta anos, era jovial; conversava sobre muitos assuntos e demonstrava ser pessoa de alguma cultura. Freqüentava vez ou outra a vida cultural do Rio e mostrava-se sempre atualizado em relação a peças de teatro e a filmes em cartaz naquela cidade.

Não desanimou ante a minha recusa. Continuou a aparecer na loja. Comprou mais alguma coisa e, num final de tarde, enquanto um vento suave acariciava a cidade, fez de conta que me encontrou ao acaso na porta de uma das saídas da galeria e me ofereceu carona. Eu tinha, na época, uma motocicleta, mas naquele dia não viera nela. Acabei por aceitar sua oferta. Foi então que ele me levou para jantar. Eu disse que não tinha fome, que tinha lanchado havia apenas uma hora; ofereceu-me então uma bebida e um passeio de carro pela orla. Levou-me mais tarde ao restaurante mais conceituado do local. Ficamos horas conversando. Percebi que era pessoa agradável. Daí em diante, não mais me mantive na defensiva e passei a tratá-lo com mais carinho.

Passamos a nos encontrar uma vez na semana. Eu não me incomodava, pois também tinha tempo para meus livros e CDs. Num dos encontros, presenteou-me com uma jóia. Olhei-a demoradamente e disse:

– Não posso aceitar seu presente.

– Não faça essa desfeita.

– Não é desfeita; não posso...

– Mas qual o motivo?

– Não posso.

Ele guardou a pequena embalagem em um dos bolsos do paletó e manteve-se como se nada tivesse acontecido. Quando nos despedimos, pela primeira vez tomei a iniciativa de beijá-lo; foi um longo beijo. Ele colocou a mão em um dos bolsos. Creio que tiraria o presente para me ofertar de novo. Mas segurei sua mão e não permiti que ele fosse além da intenção.

A seguir, durante três semanas desmarquei todos os encontros com ele. Ele aparecia na loja um ou dois dias depois ou telefonava, fingia que tudo ia bem e nada falava sobre nossas frustradas saídas.

Depois deixou de me convidar por algum tempo; passava, apenas acenava e seguia o próprio caminho.

– Você despreza uma grande oportunidade – disse-me a dona da loja.

– Você o conhece?

– É gente importante na Petrobras.

– E o que isso tem a ver?

– Qualquer mulher desejaria um homem desses, acho que você perde...

Nunca havia dado satisfações a ela, mas como era uma mulher inteligente, não deixou de observar as investidas dele.

Alguns dias depois, quando estava no mesmo restaurante que fora com ele, mas sozinha, avistei-o. Estava acompanhado de uma mulher muito bonita.

Após alguns dias, surgiu de novo na galeria. Chamou-me e fui tomar café naquela mesma cafeteria. Depois pedi que me acompanhasse até lá fora, porque queria fumar. Agiu com todo o cavalheirismo e acabou por me convidar para sair à noite. Pedi que marcássemos o encontro para o dia seguinte.

O encontro aconteceu, embora ele pensasse que eu não apareceria. Jantamos e bebemos vinho. Ele estava, como sempre, muito bem trajado. Ventava, e trouxera um pulôver verde musgo; sua calça era cinza e, sob o agasalho via-se uma blusa bege com a gola alta circundando o pescoço. Conversamos durante muito tempo. Nada falou sobre sua vida particular ou sobre a família. Também nada perguntei. O assunto girou em torno de uma exposição de livros que ocorria no Rio. Como soubera da minha paixão pela leitura, pôs-se a falar sobre uma infinidade de livros. Quando deixamos o restaurante, lá pelas onze horas, pedi que andássemos um pouco pelo passeio que beirava as areias da praia. A noite estava bonita e algumas pessoas também caminhavam. Ouvia-se o leve marulhar da maré baixa; e a iluminação da avenida, apesar de um tanto sóbria, esticava suas luzes até a beira d’água. Vez ou outro um cordão de restinga substituía as areias e se estendia em direção ao mar. Fomos até o último prédio, que era de um hotel; dali em diante, as areias e o mar enfiavam-se numa escuridão amenizada apenas pelas luzes que vinham do céu. De um lado, o terreno arenoso; de outro, o mar. Resolvi pregar-lhe uma peça. Tirei a sandália e comecei a correr areia adentro em direção ao pedaço da praia que ficava quase na escuridão total. Gritei para que me seguisse. Ele estava muito formal para descer à beira-mar; mas acabou vindo atrás de mim. Pus-me a correr e reparei que ele não me alcançaria. Quando quase tateava na escuridão, agarrei-o por trás e beijei-lhe a nuca. Ele virou-se, me abraçou e procurou com os lábios minha boca. Comecei então a tirar toda a roupa.

– Aqui não, pode ser perigoso.

Quando acabou de falar, eu já estava nua. Namoramos ali mesmo. Eu, sôfrega e ele, um tanto temeroso.
Depois desse dia, passou a vir à loja com mais freqüência. Deu-se quase o mesmo que ocorrera com o rapaz anterior. Comecei a me sentir tolhida. Ele nada falava, mas dava a impressão de que queria ter algum poder sobre mim. Agia como se eu já lhe pertencesse. Saímos mais duas vezes. Na última, eu disse que não queria mais.

– Mas o que está havendo? Você não está gostando de sair comigo? Eu não estou agradando?

– Não é isso, o problema deve ser meu – ainda amenizei.

Ele ficou muito decepcionado.

Um portador veio trazer-me um presente dois dias depois. Não quis receber. Devolvi-o sem olhar o que era e sem ler o bilhete que ele escrevera. Desapareceu por exato dois meses. Ressurgiu depois como se nada houvesse acontecido e me convidando para jantar. Mantive-me fria e resoluta. Disse que tinha outro compromisso.

Um mês e meio depois conheci um alagoano. Chegou sorridente à loja e disse que não desejava comprar absolutamente nada. Entrara porque jamais vira uma mulher tão linda como eu. Palavras dele. Era mergulhador. Trabalhava na exploração de petróleo no fundo do mar. Era um homem jovial e alegre. Convidou-me para um encontro mais tarde. Respondi que não poderia. Não queria aceitar seu convite logo numa primeira vez. Lamentou que só pudesse rever-me quinze dias depois, porque seu trabalho exigia que ele embarcasse no dia seguinte.

– Não há problema, depois, quem sabe, a gente se encontra.

Deixei assim uma porta aberta para o futuro. Ele sorriu debochado e esperançoso; seu rosto trazia uma luminosidade inexistente nos homens que eu conhecera até então. Deixou seu nome e telefone escrito num canto de papel.

– Eu posso telefonar de vez em quando da plataforma, se você quiser; não quero constrangê-la pedindo seu número; caso haja interesse seu, dê uma ligada que eu passo a telefonar.

O sorriso dele encerrou a conversa e a fisionomia altiva demonstrava certeza da conquista amorosa. Ainda sussurrou:

– Você é muito especial, não posso deixá-la escapar.

Mantive-me fria, resoluta; estava sozinha na loja, mas era uma profissional, talvez fosse esse o segredo de meu sucesso. Embora a presença dele e toda sua alegria tenham me contagiado, representei alguém que não se comovera.

Quando ele se foi, recortei o número do pequeno papel e coloquei na agenda.

Sabia que os homens que trabalham no mar, nas plataformas, ficam embarcados pelo menos durante quinze dias. Não quis precipitar-me, por isso deixei passar os primeiros dez dias. Então um dia à noite, telefonei. Alguém atendeu e pediu que eu esperasse um pouco. A mesma pessoa retornou:

– Por favor, deixe o recado, no momento ele não pode atender.

Deixei meu número.

No dia seguinte, ao amanhecer eu rolava ainda na cama, sonolenta, quando a campainha do telefone soou. Demorei a atender. Quando tomei nas mãos o aparelho e respondi, ouvi a voz dele, a mesma voz que me abordara na loja, numa inflexão jovial e alegre; do jeito que ele falava, até parecia estar em férias numa praia do nordeste.

– Oi, amor, como vai essa coisa deslumbrante?

– Coisa o quê? – eu não havia entendido a última palavra.

– Coisa deslumbrante.

– A, sim, se você visse o meu rosto agora, não iria me chamar assim.

– Gata, você é a coisa mais deliciosa desse mundo. Não há comparação. Nem as águas do mar, a luz do sol, o brilho prateado das estrelas são capazes de disputar com você.

– O brilho prateado de quê? – quis fazê-lo repetir.

– Das estrelas! O brilho prateado das estrelas!

– Alguém está ouvindo essa conversa aí?

– A plataforma inteira está exultante, me considera o homem mais feliz do mundo.

– Não diga.

– Eles têm inveja, dizem que eu sou assim porque sou do nordeste e que lá ou se morre de fome ou se vive para amar.

Conversamos durante quinze minutos. Falou então que não demorava a desembarcar e queria ficar comigo bastante tempo.

– Vamos devagar, ainda nem nos conhecemos...

– Nem é preciso; enquanto formos assim, nos amaremos sempre – percebi uma ruidosa gargalhada.

Ri também. E acabei achando que ele tinha razão.

Naquele dia senti, ao sair para trabalhar, que os meus olhos tinham outro brilho.

Após cinco dias, ele apareceu de surpresa na loja. Não telefonara para dizer que já estava em terra, nem havíamos marcado encontro algum.

– Meu amor, minha adorada criatura, estou aqui para lhe dizer que nunca vi uma deusa com tamanha beleza.

Ajoelhou e pôs-se a fazer mesuras.

– Levante-se, se alguém vir você nessa posição vai achar ridículo.

– Pois que ache; o amor na verdade é ridículo, mas não se deixa de amar por causa disso.

Saímos à noite.

Ele era intempestivo. Arranjou um carro com alguém e resolveu guiá-lo por vários lugares. Onde parava tinha um conhecido; ou passava a travar conhecimento imediatamente. Fomos a três lugares antes de pararmos para jantar num restaurante que ele achou adequado para me levar. Então começou a falar em voz baixa, a recitar versos, disse que estudara no ensino médio com um professor que o fizera gostar de literatura; falou-me sobre vários livros e emendava em versos de amor. Se ele já tivesse bebido, creio que diria que estava bêbado, mas não era verdade. Acho que ele possuía uma embriaguês natural. Conversamos, comemos e bebemos. Nessa noite, até exagerei; devido ao seu entusiasmo pela vida, ou mesmo por mim, como não cansava de dizer, acabei por beber um tanto além do que estava acostumada.

– E agora, o que vamos fazer? – perguntou enquanto íamos em busca do seu automóvel, após o jantar demorado.

– Acho que não consigo fazer mais nada – insinuei.

– Tem certeza?

– Acho que sim.

Então ele parou diante de mim, me abraçou e me beijou, num beijo longo e cheio de carinho.

– Temos tempo, não é mesmo?

– Talvez a vida inteira – eu disse.

– Isso, a vida inteira.


Os dias se passavam e nós acabamos por nos encontrar quase toda noite. Cada vez íamos a um local diferente. Comíamos e bebíamos; eu sempre preocupada em não exagerar. Sempre mantivera o equilíbrio na maioria das situações e não seria agora que eu me deixaria arrastar por uma paixão que não sabia até quando iria durar.

Em todas as noites em que saíamos, acabávamos um sobre o outro; às vezes na minha casa, outras em algum hotel. E não foi raro que namorássemos à vontade, ao ar livre, com as estrelas e o negrume da noite a cobrir nossos corpos. Ele me possuía com um ardor que eu jamais vira em outro homem.

No sábado seguinte fizemos um programa mais demorado. Fomos passar o fim de semana em Rio das Ostras, a próxima cidade na direção sul. Chegamos em torno das dez e trinta da manhã, percorremos várias praias, paramos na Costa Azul e resolvemos mergulhar. Depois permanecemos sob o sol; não demorou para que nos abraçássemos e começássemos um namoro, de início comportado. O mar estava calmo, as ondas deslizavam e desfaziam-se em grossas camadas de espuma quase junto à beira-mar. O céu era de um azul intenso, não havia sequer uma nuvem. Quando saí do primeiro mergulho e senti a luz dourada do sol em contato com o meu corpo frio devido à temperatura baixa da água, fui envolta num prazer quase táctil. O prazer foi tanto que eu nada quis beber nem dar alguns tragos no cigarro (não era tabaco) que meu companheiro trazia. Ficamos longos minutos em silêncio, a contemplar toda aquela paisagem. Às vezes, na vida da gente, acontecem alguns momentos que sabemos que ficarão registrados para sempre, por isso queremos aproveitá-los ao máximo.

Deitei num pedaço de areia sobre uma toalha grande. Ele se pôs a espalhar as gotículas que ainda insistiam e escorrer pelo meu corpo. Continuei deitada, os olhos fechados, como se estivesse adormecida e envolta num sonho do qual jamais desejaria despertar. Seus lábios, também frios, procuraram os meus, e nos tornamos mais juntos num beijo molhado, um beijo que comungava com o dia límpido, a água gelada, o sol ainda morno e uma alegria difícil de colocar em palavras. Depois ele tateou minhas costas, escorregou os dedos por minha cintura, margeou-me as ancas e tocou como quem não quer nada (ou quer tudo!) as tiras de meu biquíni. Eu pensei: “ai, meu deus, assim eu morro”.

Uma hora depois fomos para a praia da Joana. As outras pessoas ainda chegavam e o ambiente quase deserto predominava. Alguma barraca aqui, outra ali; mais adiante o vendedor de cerveja e alguns comestíveis; e, olhando na direção do horizonte, o mar infinito. Foi aí que aconteceu, mergulhamos mais uma vez. Éramos as únicas pessoas a nos banhar naquele pedaço de mar. Enfiávamos a cabeça por baixo d’água, procurávamos um ao outro; agarrávamos-nos, escapávamos um do outro, voltávamos a nos encontrar e depois nos separávamos mais uma vez; os cabelos a escorrerem a água quase prateada, nossas faces encharcadas refletiam os raios dourados do sol. Eu era uma sereia em corpo inteiro de mulher; leve, escapulia, deslizava, para logo em seguida ser envolta pelos braços dele. Uma de minhas escapadas foi mais demorada, submergi e, quando voltei à tona, ele me enlaçou de surpresa, mantendo-me atada ao seu corpo; então me deixou nua...

Até as duas horas ficamos ali; ora dentro d’água ora sobre as areias. Quando já estávamos embriagados de amor e da paisagem, ainda compramos algo para beber. Tomei uma caipirinha e ele bebeu cerveja. A bebida ainda nos tornou mais alegres e excitados, e fez que nossos corpos sempre tivessem necessidade de estarem juntos.

À tarde, procuramos um restaurante para saciar nossa fome. Encontramos um, bem de frente para o oceano, onde pudemos ficar num deck que nos proporcionava uma vista magnífica de todo o litoral. Pedi mais uma caipirinha e, em determinado momento, bebi alguns goles do chope dele. A comida, à base de peixe, contribuiu para que o dia continuasse envolto em mil maravilhas.

Quando acabamos, voltamos à praia, mas procuramos um lugar deserto, ou quase, já que o dia de sol havia atraído as pessoas para o banho de mar. Fomos até uma praia chamada Águas Lindas; permanecemos um pouco sobre o sol e depois entramos na água mais uma vez. Tudo o que vivêramos pela manhã se repetiu; naquele momento, no entanto, com mais intensidade, pois a bebida nos ascendera recantos inexplorados. Então ele, como num passe de mágica, fez desaparecer as duas pequenas peças que eu vestia. Em algum momento, sorrindo e adorando a situação, ainda soprei em seu ouvido:

– Quero ver como vou sair pelada daqui.

Ele nada falou, enganchou-me num longo beijo como se dissesse com brandura “tudo será resolvido”. Jamais eu vivera um fim de semana com tal intensidade.


Depois de uma semana, ele disse que tinha um compromisso em outro estado e que precisaria estar fora por alguns dias. Despediu-se aparentando uma terrível desolação por ter de me deixar. Falou que sofreria muito. Após ter conhecido alguém como eu, jamais sua vida seria plena durante o tempo em que estivéssemos afastados.

Animei-me – por louca que me chamem – depois que ele partiu. Assim eu poderia voltar ao normal. Trabalharia com a segurança e a tranqüilidade de sempre e depois teria tempo para me dedicar aos meus prazeres prediletos: ler, caminhar pela praia e ficar sozinha. Apesar de estar gostando muito dele e de sua companhia, não queria ter a minha vida toda modificada. Desejava reger meu destino; lógico que era bom ter um namorado, ou um companheiro, sei lá como nomear, mas, ao mesmo tempo, não desejava que minha vida se transformasse de modo tão avassalador.

Uns dias depois, após fechar a loja, encontrei uma amiga que me convidou para tomar um chá num bistrô recém inaugurado. Chamava-se Marlene.

– Graça, você precisa conhecer o namorado que arranjei! – ela disse entusiasmada.

– Olhe, não saia por aí contando para todo o mundo, dá azar, viu? – enfatizei.

– Não estou contando pra ninguém, só pra você.

– Obrigada pela confiança...

– Escute, estou a mil, nunca vivi um relacionamento assim.

Enquanto ela falava, eu pensava também em meu namorado. Será que ela nos havia visto junto e contava algo só para eu também falar sobre mim? Não falaria nada, apenas ouviria sua história.

– Olha, nunca tive ninguém assim, o cara me faz sentir coisas mirabolantes.

– Mirabolantes? Como? – eu incentivava.

– Nunca falei intimidades minhas para ninguém, porém como você é uma pessoa discreta, vive sempre calada, profissional, nunca se ouve nada a seu respeito, vou contar...

E desfiou uma conversa miúda. Começou pelo relacionamento que tivera antes.

– Lembra do Osvaldo? No começo eu pensei que ele era o homem ideal para mim, mas com tudo o que aconteceu...

– Você não disse que o amava, que era o homem da sua vida?

– Disse, mas me enganei; com o passar do tempo ele mudou, houve aqueles problemas que você sabe, ou já ouviu falar por outras bocas; ele passou a beber em excesso e se tornou um homem violento. Mas deixa eu te contar sobre meu novo namorado.

– Conta então; esqueçamos o passado.

– Isso mesmo. Nunca vi ninguém assim; ele me pega de maneira rude, mas depois se torna tão carinhoso, torna-se o homem mais carinhoso do mundo; e fica dentro de mim um tempo enorme; que prazer eu sinto!

– Que bom que você tenha encontrado alguém à sua altura...

– Isso mesmo, eu mereço um homem assim. E, olha, ele me despertou pra uma coisa que eu nunca tinha pensado.

– O quê? Me conta – eu a fazia falar, desse modo me mantinha incólume.

– Umas fantasias, sei lá; pensei que essas coisas aconteciam apenas em histórias, ou em filmes, mas sinto um enorme tesão quando as praticamos.

– O que, por exemplo?

– Coisas como sair de casa com ele, depois da meia-noite, quase nua!

– É mesmo?

– Isso. Outro dia saí com um vestido curtíssimo; não estou mais em idade de andar nua por aí, até lembrei uma vez quando eu era adolescência e terminei uma noite pelada, sem ter o que vestir. Saí com um vestidinho preto, bem justo ao corpo; e sem nada por baixo. Quase deixei o homem louco!

– E o que mais?

– Ah, são tantas as coisas. De outra vez fomos à praia do Pecado, também de madrugada. E ele me deixou nua... Namoramos sobre as areias, ventava, e quando acabou não encontrei minha roupa; ele disse: “calma, vamos encontrar”, e pôs-se a procurá-la. Quando eu não tinha mais esperança e pensava, ai meu deus, vou ter que voltar nua pra casa!, ele a achou; então me pegou no colo e me penetrou mais uma vez.

– Deve ter sido fascinante.

– Ora, se foi! Mas tem mais uma coisa; tenho um pouco de vergonha de contar; pra você, porém, acho que consigo. Quis que ele realizasse um sonho antigo...

– Qual?

– Escute, quem sabe não seja o sonho de toda mulher. Eu pedi pra que ele me deixasse nua, de madrugada, numa das margens da BR. Paramos o carro lá, uma escuridão só, e eu desci. Nua! Ele percorreria um quilômetro ou mais e voltaria pra me pegar. Fiquei ali, no maior breu; vez ou outra passava um carro ou um caminhão, então eu me abaixava junto ao mato para ficar escondida. Cheguei a pensar: se ele não volta, se se perde de mim, se o carro enguiça? Mas essas coisas me faziam trêmula e excitada. Até que ele voltou; trepamos num recanto em que ele parou. Eu ainda nua, toda molhada de emoção e de prazer; nunca gozei tanto. Só em falar fico excitada.

– Marlene, cuidado com essas coisas. Eu sei que são excitantes, mas se não der certo, se acontecer algum problema, você vai passar maus bocados; a cidade ainda é provinciana e se alguém encontra você nua por aí...

– Ai, isola, isso não vai acontecer. Mas fala de você, também tem alguém, não?

– Tenho. Você sabe como sou. Até gosto de namorar, gosto dessas coisas também; no fundo acho que todas nós gostamos. Porém, mantenho um certo domínio sobre mim mesma, não quero depender física nem emocionalmente de homem algum.

– Você é diferente, não é mesmo?

– Nem tanto, é questão de autocontrole. Gosto de ficar sozinha, de ler, de curtir a natureza em silêncio.

– Mas como te disse, estou a mil e super feliz.

– Fico feliz por você também. Vê se aparece lá na loja.

– Vou sim.

Ela se foi e eu voltei pra casa. Naquela noite acabei de ler um livro de uma escritora inglesa que contava uma história ambientada nos anos de 1960. Na verdade, um período muito mais avançado em matéria de sexo do que a época em que vivíamos.


O tempo passou. Meu namorado voltou outras vezes. Quando ele estava em terra, saíamos e aproveitávamos. Tivemos quase todas as experiências amorosas e sexuais. Fizemos amor nos locais mais improváveis. Talvez se minha amiga soubesse, ficaria de cabelos em pé. Mas nunca contei nada pra ninguém.

Ela viveu o seu romance de modo intenso, mas não conseguiu permanecer com seu homem por muito tempo. Não soube por ela, mas por suas conhecidas; vinham me falar da vida de outras pessoas sem que eu nada perguntasse.

Apesar de gostar muito de meu namorado, sempre procurei manter minha independência e individualidade. Mesmo nos dias que ele passava na minha casa. Também nunca perguntei nada o que fazia quando estava longe de mim. Ele, do mesmo modo, vivia apenas o momento; nada de interrogatórios ou atitudes que demonstrassem ciúme. Creio que foi isso que o manteve e o mantém junto a mim.

Amamo-nos muito, mas antes de tudo e em primeiro lugar, amamos a nós mesmos.