domingo, fevereiro 02, 2014

Afinal, para que servem os parques?

Salto na estação Baquedano – venho de Santa Isabel –, subo um andar e tomo o metrô na direção do Palácio do Governo. Um número regular de pessoas sempre visita o centro cultural La Moneda, e neste 23 de dezembro não é diferente. No momento em que chego acontece a troca da guarda, sempre apreciada por um bom número de pessoas, entre elas muitos turistas. Como é o último dia útil antes do natal, o clima de festa predomina por toda região metropolitana. Eu, inclusive, vou ao centro para participar de um almoço, a confraternização de final de ano da empresa onde trabalho. Enquanto caminho na direção da entrada do Centro Cultural La Moneda, avisto um pequeno grupo constituído por dois rapazes e uma moça. Na certa são turistas, pois olham para todos os lados com muito interesse e portam mapas da cidade. Os rapazes são bonitos, a moça veste short azul e camiseta branca. Sorrio para um deles, que retribui o sorriso. Continuo o meu caminho.

O Centro Cívico está todo festivo. Há comemoração de natal nos Correios e na Intendência. Crianças circulam com suas mães, demonstram ansiedade em participar nos festejos.

Subo o prédio onde trabalho sentindo um pouco de saudades pelo que vi na rua. Primeiro, os rapazes bonitos, depois as crianças felizes e fantasiadas de anjo. Desejo continuar compartilhando suas alegrias.

No escritório, a festa está estrepitosa quando entro. Alguns rapazes parecem já se ter excedido na bebida, riem muito. Sofia é a primeira a me desejar boas festas. Ficamos as duas próximas a uma das janelas, de onde se pode apreciar boa parte da cidade. Os garçons servem salgadinhos e pastas com torradas, há também azeviche. Tudo está muito gostoso. Para beber não falta vinho, mas servem também cerveja. Nestas festas, todos se descontraem e muitas vezes falam demais, por isso cuido para, na maior parte do tempo, apenas ouvir e dar uma ou outra opinião. Não quero depois, na volta do ano novo, ser objeto de pilhéria, como sempre acontece a quem passa dos limites nesse tipo de comemoração.

Quando deixo o local, já são três e meia da tarde. Margeio de novo o La Moneda. Olho a escada rolante que leva ao Centro Cultural. Lembro-me dos três jovens e da moça, mas é certo que eles estão longe dali.


No dia 26, um fato interessante faz que eu me sinta muito feliz. Resolvemos eu e Sofia passearmos pelo bairro La Starria, aquele local cheio de barzinhos, que começa a ficar movimentado ao entardecer. Ao passar diante da livraria Ulisses, dou com um homem de uns trinta e cinco anos. Ele olha para mim e sorri. Ainda embalada pelo ar de festas de fim de ano, correspondo ao sorriso. Ele para e fala comigo. Pergunta se eu conheço um bar agradável para se tomar uma cerveja àquela hora. Vê-se que não é chileno. Acho melhor não perguntar de onde vem. Olho para Sofia, que não demora a me devolver o olhar. Permanece calada. Digo então a ele que todos os bares são bons, e qualquer que seja a escolha ele não vai se decepcionar. Mas alerto quanto aos preços. Nós, que vivemos aqui, achamos tudo muito caro. Na maioria das vezes, só frequentamos esses lugares uma vez ao mês. Ele acaba convidando Sofia e eu. Mas, de modo polido, recusamos.

Continuamos o passeio pela La Starria. Bordejamos as barracas de livros usados, paramos em cada uma delas para ver alguns exemplares. Há títulos quase novos, e algumas têm os preços muito atrativos. Fico de, na volta, comprar um exemplar de Ficções, de Jorge Luís Borges. Está custando apenas cinco mil e se encontra em muito bom estado. Atravessamos a rua e paramos num café, de mesinhas na calçada. Pedimos dois expressos. Enquanto esperamos, descubro o pequeno grupo de jovens que vi no dia 23 próximo ao La Moneda. São eles mesmos. A moça dessa vez veste saia curta e está de pernas cruzadas, um dos rapazes usa uma camiseta de mangas com uma grande estampa de um grupo de rock, o outro uma camisa polo listrada, azul e amarela. Fixo o olhar neles para ver se um deles se volta para mim e lembra o encontro fortuito de três dias passados. Mas eles parecem entretidos numa conversa que não os permite desvios. Pelos sons, noto que falam português, mas consigo entender alguma coisa. Conversam sobre os passeios que fizeram. O de camisa listrada diz que a cidade é acolhedora, tem um ar hospitaleiro, o único assédio que sentiu foi dos músicos de rua. O outro ri, carrega uma sacola da Ulisses, deduzo que antes de decidirem pelo café deram uma olhada na livraria. Vêm nossos cafés. Eles tomam cerveja, inclusive a moça. E ela é muito magra. Continuo a prestar atenção na conversa deles. A rua movimentada exibe vários tipos de pessoas, passeiam e conversam animadamente, vê-se que a maioria é turista. Comento com Sofia sobre o grupo. Ela também está a vigiá-lo. Um deles olha para onde estamos e sorri para mim. É o mesmo daquele outro dia? Aquele não era tão jovem assim. Observo melhor, posso constatar que ele pode ter uns trinta anos. Retribuo o sorriso, reparo que fala alguma coisa ao grupo. Não desvio os olhos. Ele também continua a olhar-me. Repete o que disse momentos antes. Desvio um pouco o rosto, passo a contemplar a rua. Ele levanta e caminha até onde eu e Sofia estamos. Chega muito sorridente, cumprimenta-nos cautelosamente. Diz que me conhece de algum lugar, fala uma mistura de português e espanhol. Respondo que fale na sua língua, assim será melhor, acho que vamos nos entender bem. Pergunta se pode sentar-se ao nosso lado. Permito. Pela sua expressão facial, Sofia também acha boa a ideia. Começamos a conversar.

Apresenta-se, seu nome é Pedro.

O seu país é muito acolhedor, é o que posso entender de sua fala inicial.

Você viajou o país todo?, pergunto.

Não, apenas Santiago e mais duas cidades.

Você conheceu todos os bairros de Santiago?

Não, continua ele, segui a linha do metrô, visitei o centro cívico e alguns lugares culturais.

Vejo que comprou um livro.

Sim, um livro recomendado pelo vendedor, Geografia de la lengua, conhece?, ele se mostra interessado.

Já ouvi falar sobre, e também vi num caderno de "La Tercera", mas ainda não li, e para dizer a verdade não sei se vou ler, tenho me dedicado ao trabalho.

Você não gosta de fantasia?, pergunta com o rosto demonstrando preocupação.

Fantasia? Como assim?

Fantasia, ficção... Todo ser humano precisa de ficção. Não é possível ser apenas técnico. Eu sou engenheiro mecânico.

Ah, entendo o que você quer dizer, retruco, realizo minhas fantasias por intermédio do cinema.

Oh, cinema, muito bom. Que tipo de filme mais gosta?

Penso um pouco, lembro o cinema das proximidades, está passando um filme de Woody Allen.

Gosto de Woody Allen, Scorsese, Kubrick.

Muito bom, muito bom, são diretores muito interessantes, fala e fica em silêncio durante quase um minuto, depois muda de assunto.

Vocês não bebem outra coisa além de café expresso?

Bebemos, respondo, mas achamos que ainda é cedo para bebidas alcoólicas.

Mas já são sete e meia da noite;

Eu e Sofia conferimos as horas e começamos a rir.

Seus amigos nos olham da outra mesa, continuam bastante animados, um deles faz sinal para o que está conosco, mas não entendo o significado.

Vocês saem à noite nesta cidade?, reinicia ele a conversa.

Saímos, sim, há vários lugares interessantes em Santiago, mas é preciso saber do que vocês gostam, ou o que querem.

Gostamos de música, de cantar, de dançar, fala e faz de conta que dança. Vocês duas podem nos acompanhar em algum desses lugares, então?

Olho para Sofia. Mas ela está voltada para a entrada da cafeteria. A porta de madeira é bem trabalhada nas extremidades, parece obra de escultura. É para lá que Sofia olha. Um dos garçons passa com a bandeja contendo três cervejas e se curva à mesa que fica além da nossa, coloca as garrafas junto às pessoas, elas agradecem e ele volta para a entrada do café.

Chamo Sofia e falo a ela rapidamente num espanhol que creio não compreendido por nosso visitante. Sofia responde que por ela está tudo bem. Caso eu decida acompanhar o grupo, ela também irá.

Concordamos em ir com eles. Falam sobre um pub em Las Condes, um tanto distante de onde estamos. Alerto que nas proximidades existem bares e pubs muito bons, inclusive com o patamar onde há karaokê, por isso não precisamos ir tão longe. Ele alega que a moça está hospedada num hotel em Las Condes, assim será mais conveniente na hora de partirem. Mas diz que ainda é cedo, antes podemos ficar em La Starria, e até mudar de ideia, não há problema algum. Também acena com a possibilidade de caminharmos até Bela Vista ou Santa Lucia, onde também acontece vida boêmia.

Ainda ficamos juntos no café por mais trinta minutos, depois passamos a acompanhá-los. Acham melhor andarmos mais e aproveitarmos o clima cultural do bairro. Lembro-me do meu Borges, na banca de sebos. Corro até lá. A seguir caminhamos na direção da estação de metrô da Universidade Católica. No caminho paramos mais uma vez diante da livraria Ulisses. São quase nove da noite e ainda está aberta. Pedro mostra que já comprou dois livros ali mais cedo, e que agora tomou coragem para comprar o terceiro. Entra na livraria e volta com o exemplar dentro de uma bolsa plástica.

Os livros são caros aqui no Chile, diz.

Sim, aqui não há isenção de impostos para livros.

No meu país toda a cultura é subsidiada.

O seu país é o paraíso, completo.

No começo de La Starria há um bar simples, um bom espaço para conversar, tomar uma cerveja e observar as pessoas que passam na rua. Mostro a eles. Gostam do ambiente. Entramos e pedimos as bebidas. A moça deseja de novo outra cerveja. Adora o rótulo da pequena garrafa e tenta descolá-lo para levar como lembrança.

Você pode levar a garrafa, sugiro.

Posso mesmo? Que bom!

Ela parece deslumbrada.

Em que vocês trabalham aqui?, pergunta o Pedro, que entre todos é o que se mostra mais extrovertido.

Nós duas trabalhamos com publicidade.

Interessante, ressalta, isso dá muito dinheiro.

Certamente, nossos patrões estão ricos, fala Sofia.

Todos riem.

No meu país há muita publicidade, fala Márcio, o que veste a camisa com a estampa do grupo de rock.

No mundo todo, tudo é publicidade, digo e movo os ombros.

As cervejas estão geladas e gostosas. Eu, que não sou muito de cerveja, tomo uma, mas prefiro a de marca mexicana. A conversa esfria um pouco. Os rapazes olham a rua e observam as pessoas. A moça entretém-se com o celular, parece que conseguiu entrar numa linha aberta, navega pela internet.

Vocês ainda vão querer ir ao pub?, pergunto.

O que você acha? Não fica aberto até mais tarde?, quer saber Pedro.

Sim, respondo, mas então temos de nos apressar. Conheço o lugar. Se vamos agora, podemos ir de metrô. Mais tarde, só de táxi.

E como vocês irão embora?, pergunta Márcio, demonstrando preocupação em não deixar nós duas sozinhas no meio da noite.

Teremos de pegar um táxi.

Isso não vai sair caro para vocês?, insiste.

Nem tanto. Caso queiram ir ao pub, é melhor agora, sentencio.

Eles concordam. Pagamos a despesa e caminhamos a passos rápidos para a estação do metrô Universidade Católica.

Saímos do metrô na estação Tobalaba, andamos duas quadras e encontramos o pub. O local possui dois andares e um terraço. No primeiro, há lugares na rua, sobre o passeio, e na parte interna; no segundo existe um bar com karaokê, que funciona a partir das 21 horas; no terceiro, mais um bar, só que a céu aberto, uma espécie de terraço, apropriado para os dias quentes. Está cheio o pub. A qualquer dos salões a que nos dirigimos, há uma porção de gente. Mas todos demonstram muita animação, tentam conversar e, ao mesmo tempo, aproveitar as canções americanas que tocam seguidamente proporcionando um clima todo especial. Novamente queremos cervejas. Os rapazes aproveitam para pedir também batatas fritas. Como não encontramos lugares disponíveis, ficamos no terraço.

Daqui a pouco vamos para o andar do meio, onde há o karaokê, fala Pedro.

Você sabe cantar?, pergunto.

Mais ou menos. No meu país, canto acompanhando ao violão.

Que bom, digo, vamos aguardar com ansiedade a sua vez.

Sofia sorri.

O pub é todo de madeira, possui uma decoração com quadros de pinturas abstratas, muito coloridas, as luminárias são de intensidade média, e as pessoas bonitas. As mulheres, sobretudo, estão muito bem vestidas. Márcio observa:

As chilenas se vestem muito bem. No meu país não sabemos disso. É o que dá conhecer o país apenas acompanhando jogos de futebol, completa. Parece censurar a si próprio.

Chegam as bebidas e as batatas fritas. Não demora descemos para o segundo piso, o do karaokê. Arranjamos uma mesa de cinco lugares. Pedro inscreve-se para cantar. Antes de chegar a sua vez, três pessoas vão ao microfone. O karaokê parece que privilegia canções de língua inglesa. É só o que se ouve.

Todos cantam bem em inglês por aqui, observa Márcio.

As pessoas de outros países nos acham muito americanizados, diz Sofia.

Verdade?, pergunta Pedro.

Vocês não sabiam?, é a minha vez de perguntar.

Pedro canta. E canta bem. Uma canção americana dos anos 90. As pessoas o aplaudem muito. Depois dele, uma garota canta uma música da Madona, o que causa uma tremenda agitação. Em certo momento, todos dançam, e cada vez pedimos mais cervejas.

Temos de ir embora às três da manhã, porque depois dessa hora o pub não serve mais bebidas alcoólicas. Trata-se de uma determinação legal, um modo as autoridades controlarem a sociedade e evitarem a desordem. Não sei se essas coisas funcionam. Mas acontece assim.

Nos despedimos dos rapazes. Mas eles não nos querem deixar ir sozinhas. Insistem em levar a moça ao hotel próximo e depois nos acompanhar até determinado ponto do caminho.

Acabamos aceitando a carona. Entramos num táxi e falamos nossos destinos.

Pedro parece querer chegar-se a mim, percebo que deseja minha companhia, mas faltam-lhe palavras. Consegue, porém, deixar comigo o número do seu hotel. Sofia apenas sorri, bebeu demais, mas a bebida não lhe causa transtorno algum.

O táxi os deixa primeiro no centro, no hotel onde estão hospedados, depois nos leva à porta de casa. Quando vamos pagar a corrida, o motorista nos informa que os rapazes já pagaram o nosso trajeto.

Na tarde daquele mesmo dia, apareço sozinha no hotel de Pedro, é na Bela Vista.

Ainda bem que você veio, vamos embora amanhã bem cedo, ele diz.

Nada falo, sorrio e ele me beija.

Aonde vamos?, pergunta.

Vamos a um parque.

A um parque? Prefiro um local mais sossegado, onde possamos conversar sem que outras pessoas nos incomodem.

Num parque ninguém vai nos incomodar, afirmo.

Tem certeza? Um parque não é um lugar público?

É público, mas você verá que é muito acolhedor.

Caminhamos lado a lado por várias avenidas, entramos na calle Santa Lucia e seguimos na direção do parque próximo.

Pedro surpreende-se ao ver o grande número de casais que se estendem sobre a grama. Muitos se acariciam sem se incomodar com ninguém.

Aqui vocês tem muita liberdade, fala.

Liberdade?, como assim?, Faço de conta que não entendo suas palavras.

No meu país, as pessoas não ficam assim nos parques, agarradas umas às outras. Às vezes nem mesmo os frequentam.

O seu país têm muitas praias, não?

Sim.

Então, acrescento, as praias fazem o papel dos parques daqui, as pessoas lá aparecem juntas, quase sem roupas.

Mas é diferente, diz, vocês aqui frequentam os parques públicos.

Atravessamos algumas alamedas e encontramos um local desocupado. Sentamos na grama, cruzamos as pernas e continuamos a conversa.

Repare, insisto, Santiago é uma cidade muito fria, não é sempre que se pode ficar deitado sobre a grama, conversando e namorando. Você dá sorte de vir aqui no verão. Venha num inverno, verá o tanto que precisará andar agasalhado.

Vocês aproveitam então todos os dias de verão.

Se possível, sim. E há mais uma coisa, talvez isso faça a diferença do local de onde você veio; aqui, a cidade é acolhedora. Pode-se ficar num parque porque não há perigo.

Não há ladrões aqui?

Ladrões há, explico-lhe, mas o costume de se ficar na praça é maior do que o temor a furtos ou a roubos. E os ladrões daqui são bons em agir de forma furtiva. O maior número de delitos é o de tentar abrir mochilas para furtar o que está lá dentro.

Pedro ri.

Não trago mochila, diz.

Depois se chega bem perto de mim, pega uma mecha dos meus cabelos e a acaricia, aproxima o rosto e tenta um beijo. Permito o beijo, permito a carícia. Ficamos os dois em silêncios durante muito tempo. A seguir, dou a senha:

Não vai me deixar nua, viu.

Ambos rimos. Deixamos então nossos corpos se tocarem. Sabemos que o amor é difícil. Que, pelo menos, o ardor de nossos corpos seja satisfeito. Nenhum problema que isso aconteça num parque. Afinal, para que servem os parques?

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Sociedade secreta

Glenda atravessa a Rui Barbosa, vem vestida como uma executiva que volta do trabalho num final de expediente. Ao atingir o passeio, dá mais alguns passos e para diante de uma vitrina de decoração. Olha alguns móveis, todos em estilo despojado, predominam móveis de sala, cadeiras, mesas, poltronas e luminárias. Ao voltar-se para continuar o caminho, seus olhos encontram os de um homem que vem na direção contrária. Os olhares se cruzam e permanecem fixos um no outro durante menos de um segundo, mas o tempo é suficiente para que o encontro não se torne uma lembrança fugidia. Glenda não vai parar, como não parou, nem irá atrás do homem. Como uma mulher de modos recatados, nunca tomou tal atitude, e não a cometerá agora. Mas ele... , ele já vem conquistando várias mulheres, e aquela não lhe parece difícil.

Corre atrás dela. Não que Glenda não saiba que está sendo seguida. Sabe e está gostando, mas, como todas, representa. Ele aproxima-se bastante – já vão adiantados duas quadras – e entrega-lhe um cartão. Não o faz, no entanto, sem elegância. Quer chamar-lhe pelo nome, mas como não sabe, diz em voz baixa:

Moça, moça, caiu alguma coisa de sua bolsa.

Glenda para e vira-se para ele. O homem, então, entrega-lhe o cartão de visitas. Lógico que é um ardil, ou um convite, onde está escrito o nome e o telefone dele. Dali em diante, a iniciativa deverá ser da mulher.

Duas semanas depois, Glenda disca o número. Ele atende.

Oi, quero agradecer o cartão.

Cartão?, ele surpreso.

O cartão que você me entregou naquele dia, na Rui Barbosa.

Ah, sim, lembro, que bom você ter telefonado.

Venha até aqui, quero falar com você.

Onde?

Estou no Ilha Linda sul, diz Glenda, tem de ser agora.

Vou, sim, me dê quinze minutinhos.

Não demora e ele já está lá.

Ah, disse Glenda, vi quando você passou com o carro antes de estacionar, é tão bonito, qual a marca?

Ele responde um nome que a mulher não compreende mas finge conhecer.

Estou doidinha que você me leve pra passear.

Levo, claro, mas gostaria de saber por que você demorou tanto a ligar, já não contava com seu telefonema.

Perdi o seu número, encontrei apenas hoje, que bom, não é mesmo?

Ah, ainda bem, diz o rapaz. Mas sabe o que é, continuou, estou aqui porque dei uma fugida, ainda é o horário de trabalho, preciso voltar, que tal encontrar comigo à noite?

Ok, fala Glenda, mas fique ainda um pouquinho.

Tudo bem, vou tomar um chope.

Ele pede a bebida, e olha nos olhos da mulher. Ela sorri.

Não pensei encontrá-la de novo, achei você uma mulher de aparência muito séria.

Jura?

Juro. Fico muito feliz por estar aqui.

Ele toma o chope, depois paga toda a despesa, beija-a e se vai, promete pegá-la à noite, às oito horas. Glenda fala que tem seu número bem guardado, e que já não o perderá. Ele anota o número dela.

Quando parte, acha tudo aquilo muito estranho, mas como as mulheres são sempre um mistério, quer acreditar que tudo vai muito normal.

À noite volta para encontrá-la. Ela está no café do Hotel Mercure, na orla.

Oi, pensei que você não viesse.

Eu?, Jamais seria capaz de deixar você esperando.

Ela sorri e lhe dá um beijo.

O que vamos fazer?, ele pergunta.

Você veio com seu automóvel?.

Sim, e também tenho uma moto.

Quero passear um pouco. Você me leva a Rio das Ostras?

Claro.

Vamos, então.

Ele mais uma vez paga a conta e os dois partem.

Pelo caminho, ela puxa conversa.

Soube que você escreve livros.

Soube? Como descobriu?

Hoje em dia, com o Google, todos nos tornamos verdadeiros detetives.

O Google? Ah, sim, o Google, ele repete.

Quero lhe pedir uma coisa.

Pois peça.

Você me coloca em uma de suas histórias?

Ele olha para Glenda, mostra uma fisionomia de satisfação. Do lado de fora, a noite avança, o céu está claro. Na direção contrária os faróis dos veículos dão uma tonalidade azulada à aventura noturna.

Coloco, claro, mas você sabe, escrevo livros de viagens, não se trata de ficção.

Ah, gosto muito de ler, e sei que todo escritor inventa alguma coisa.

Isso é verdade, ele concorda.

Eu dito para você a história em que desejo aparecer.

Então, foi por isso que me procurou. Quando soube que sou escritor, resolveu telefonar.

Não, já falei que perdi o seu número.

Ah, sim, acredito.

Em Rio das Ostras resolvem ficar na Praia do Cemitério, um local bastante agradável onde há realmente um cemitério, mas os mortos não perturbam a fileira de barzinhos que se estende à beira da praia. Sentam em uma mesa lateral e continuam a conversa.

Quer dizer que você vai me ditar a parte da história com suas aventuras, ele diz.

Aventuras, não; na história, sou dona de um bar à beira-mar como este aqui, e recebo sempre muitos amigos. Assim vou poder mostrar para todos que sou personagem de uma história.

Você ama os livros e as histórias, não?

Amo também os automóveis.

E as motos, não?, quer saber ele.

Também as motos, Glenda ergue a bela taça de xerez e brinda ao copo de chope do homem.

À literatura, diz ele.

À literatura e aos automóveis, exclama Glenda.

Ela dá mais detalhes de como deseja aparecer na história. Diz como é a decoração do bar, quem o frequenta e até mesmo o que veste. Ainda se refere a um segredo que vai revelar mais tarde, quer que faça parte do final da história.

Posso colocar o seu bar e você no livro, quanto a isso não há problema algum, diz ele, mas quanto ao segredo não sei, acho que vou ter problemas, porque se trata de um livro de viagens.

Quem sabe você diz que, conforme uma lenda local, a mulher etc. e tal e assim conta o segredo.

Sei, entendo o que você quer, só não compreendo o porquê disso tudo.

Não faz mal que não compreenda, depois você vai entender.

Conversam sobre outras coisas, bebem e comem. Lá pelas dez e meia saem do restaurante. Glenda pede para ir até a beira da praia. Ele concorda e os dois caminham adiante.

Que bom não haver ninguém por perto, diz e despe o vestido de uma só vez deixando-o nas mãos do homem, depois entra na água.

Na volta, após secar o corpo ao ar livre, senta nua no banco do carona e não se veste enquanto voltam à cidade de origem.

O rapaz toca-lhe o corpo quando para num bairro da zona norte da cidade. Ela o abraça e os dois fazem sexo dentro do carro. Os vidros escuros deixam-nos despercebidos.

Dias depois, o escritor coloca a mulher numa de suas histórias de viagens. Ele está na América Central, numa praia do Panamá. Cria um bar como aquele de Rio das Ostras. A mulher é a anfitriã perfeita para qualquer tipo de viajante. No final, diz que há uma lenda na localidade sobre Glenda, a dona do bar, mas ele descobre por conta própria, ninguém no lugarejo sabe que a dona do bar e a personagem da história são a mesma pessoa. Agora, resta esperar por Glenda para que ele descubra o segredo que ela deseja no relato.

Três dias se passam e ele recebe um e-mail de Glenda. Ela o cumprimenta com um beijo. Na mensagem, há um arquivo anexado. Ele abre. É um relato, um miniconto chamado “Aparição”, trata-se de uma história em que uma mulher aparece nua num lugarejo à beira da estrada às quatro horas da manhã. Ela pede ajuda a um homem, que se surpreende ao vê-la em pelo. Há uma foto também anexada: é Glenda a mulher nua na madrugada. Um dia depois ele recebe outra mensagem. Novamente um miniconto. Agora chamado “Rita”, é a história de uma mulher que está nua dentro d’água, numa praia de Rio das Ostras. Ela está sozinha e também aparece um homem. Ela conta-lhe, então, seu périplo pelas praias da região com o namorado, que há pouco partiu. Mas esse ouvinte só repara que ela está nua no final do relato, e é ela mesma que revela. A mulher também não tem preocupação alguma de como vai fazer para sair dali nua. Está prestes a anoitecer, ela abraça o homem e diz que o importante é gozar.

No final de semana, encontra-se com Glenda no restaurante Ilha Linda Sul.

O que significam aquelas histórias que você me enviou?, está curioso.

Ela sorri, tem um cigarro entre os dedos, mas ele permanece apagado; seu cabelo liso escorre pelo lado direito, do lado esquerdo está preso numa espécie de penteado assimétrico. Enfim, responde:

É o segredo.

Segredo?

Isso. Não disse a você que havia um segredo e que você deveria colocá-lo na história da dona do bar, no seu livro de viagens?

Ah, sim, agora entendo. Mas você precisa me explicar melhor.

Explico, sim. Temos um grupo, só de mulheres, uma espécie de sociedade secreta. Vivemos experiências extremas e depois nos reunimos para contá-las umas às outras. Às vezes, escrevemos as histórias com nomes fictícios. Estou contando a você para que faça parte do livro. E o livro não vai ser lançado aqui, não é mesmo?

Vocês se reúnem para experiências extremas com alucinógenos e uso de drogas pesadas?

Não, nada disso, já passamos dessa fase, hoje somos até mesmo vegetarianas, bebemos vez ou outra algum drink, a maioria toma suco. Nossa experiência é com sexo.

Agora começo a entender.

Aproveitamos a noite, o fato de a cidade não ser grande permite que andemos nuas. Corremos o risco de ser surpreendidas ou mesmo estupradas, mas é isso que nos arrepia. Agimos individualmente, traçamos antes um roteiro, mas antes do amanhecer temos de estar sãs e salvas. Você pode pensar que trepamos com qualquer um, mas não é bem assim. Precisamos sentir alguma atração.

Nunca deu errado?, ele quer saber.

Até agora, não. E acreditamos que ninguém na cidade saiba sobre nossa sociedade.

Mas em “Aparição” a mulher contata um homem, pelo menos ele fica sabendo.

Às vezes há esse contato, mas depois desaparecemos. Então quem passou pela experiência nada mais sabe sobre nós, o máximo que pode acontecer é surgir uma conversa de botequim, que, no fundo, não tem credibilidade. Também não há como nos reconhecer, usamos sempre algum disfarce.

Vou escrever sobre isso, então.

Ok, escreva e fique atento.

Ela para de falar e vai até o passeio para acender o cigarro. As ondas do mar estouram com regularidade e é possível assistir às espumas que sobem e descem as areias da praia.

Na madrugada da sexta seguinte ele recebe um telefonema, são três da manhã. Glenda pede para que ele a apanhe dois quilômetros após o Hotel Blue Tree, próximo à lagoa, acrescenta que tem de ser dentro de vinte minutos. Desliga o telefone sem deixá-lo responder. Quando o homem chega, Glenda, nua, o espera sentada numa pedra. Toma-o por uma das mãos e dá a direção que precisam seguir. Ele a obedece. Às quatro em ponto ela desce do carro, ainda nua, na Praia da Joana.

Vá agora, você não pode ficar aqui, nem pode me espionar.

Ele dá a partida. Um quilômetro adiante para o carro e salta, volta pela vegetação até o local onde deixou a mulher. Repara que ela permanece ali e está fumando mais um cigarro. Pouco a pouco um barulho de motor cresce dentro da noite. Surge uma moto. Uma mulher guia. Glenda sobe na garupa e se vai.

Dois dias depois encontra Glenda de novo na orla da praia de Cavaleiros. Conversam bastante, mas toda vez que ele tenta tocar no acontecimento recente ela muda de assunto. É como se a noite de Glenda nua não tivesse existido.

Eles trepam num motel próximo. Ele pergunta se pode levá-la nua no carro. Glenda aceita. No final diz que vai deixá-la na ponta da praia de Cavaleiros, quer ver como vai fazer para se safar. Mas a mulher, a princípio, nega sair do carro, diz que as coisas precisam ser programadas.

Quando você telefona para algum homem resgatá-la de madrugada, parece não haver programação, ele diz.

Parece, apenas.

Então, hoje, vamos ao acaso, ele parece nervoso.

Calma, sou eu que estou nua, ela sorri após a última palavra.

Você não quer a história?, ele insiste, a história da dona do bar? É preciso uma dose de imprevisibilidade.

Você acha?, ela finge começar a pensar no assunto.

Para que as histórias sejam verdadeiras, a gente precisa respeitar o acaso.

Ok, então, vamos ao acaso, Glenda concorda.

Ela desce do carro, abre a porta devagar, sai e a fecha novamente. Está de pé, do lado de fora, diante da janela do carona.

Nada de documentos nem de telefone, ele acrescenta e dá a partida.

A mulher fica nua e sozinha. Ele dirige por toda a orla, faz o retorno no final da praia e volta ao local onde a deixou. Mas ela não está. Ele a procura nos arredores, desce a areia, entra pelo Pecado. Mas não a encontra. Nem ali, nem em lugar algum.

Uma semana depois, num sábado às três da manhã, recebe um telefonema. É Glenda, e ela o espera, nua, no mesmo local em que ele a deixou.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

Repare, Suzy, ele tem dois bolsos

Suzy, está vendo aquele cara ali adiante?

O de bermuda quadriculada?

Ele mesmo.

O que tem ele?

Foi quem deixou a Clarice nua.

A Clarice? Bem que ela dever ter gostado, Joana.

Suzy, qualquer uma gostaria de ficar nua pelas mãos dele, mas no local adequado.

Local adequando?

Isso mesmo, Suzy. Ele deixou a Clarice nua aqui na praia.

Quem contou isso, Joana?

A própria.

Não deve ser verdade, a Clarice adora uma história.

É verdade, sim, tem até testemunha.

Testemunha?

A Graça, Suzy, parece que ela ajudou a Clarice, foi ela quem a encontrou nua.

Joana, a Clarice é capaz de ficar nua pelas próprias mãos e depois inventar uma história dessas. Ela adora aparecer.

Foi verdade, Suzy. Ouça só.

Ok, então conta.

Ela conhecia o homem de vista. Ele se aproximou e ela aceitou a conversa. Namoraram, aquele namoro casual, beijaram-se.

E depois o cara roubou o biquíni dela?

Quase isso, Suzy. Mas foi dentro d’água.

Ah, eis a Clarice a inventar moda.

Ela diz que cometeu apenas um pecadilho.

Pecadilho?, Joana.

Isso, a palavra é dela. Foi ela quem pôs as mãos do cara sobre as tirinhas do biquíni quando estavam com a água na altura do pescoço.

É mesmo? Muito inocente a Clarice.

Escute, é engraçado. Ela pensou, vai que ele me deixa nua um pouquinho. Ele adivinhou seu pensamento, tirou-lhe o biquíni. Ela ainda falou: “não vai perdê-lo, por favor”. Ele respondeu: “não vou, não, guardo no bolso da bermuda,” e guardou.

E depois?

Ah, Suzy, está curiosa, não? Também está gostando...

Conte o que aconteceu.

Segundo ela, eles ainda namoraram um tempão dentro d’água, ela disse que foi uma delícia.

Dentro d’água? Prefiro na cama.

Depois que terminaram, ele disse a ela: “espera um instantinho”. “O que houve?”, ela quis saber. “Tenho de procurar algo”, ele respondeu. “Mas me deixa vestir o biquíni”, ela pediu. “É exatamente ele que tenho de procurar”, ele falou e foi embora.

Vai ver que caiu do bolso enquanto transavam. Não falei que é melhor a cama? Mas e aí?

E aí, Suzy, surgiu a Graça. De início Clarice nada contou, fez de conta que nem era com ela. Mas a Graça percebeu que a amiga já estava fazia tempo dentro d´água. “Vamos sair, Clarice, vamos beber alguma coisa.” sugeriu. Clarice respondeu: “não posso”, e ficou mais um pouco dentro d'água. "Não pode?", quis saber a amiga. Então, a nua acabou contando a historia.

Já sei o desfecho, a Graça arranjou outro biquíni para a amiga.

Mais ou menos isso.

Então, Joana, Clarice contou isso a todo mundo?

A todo mundo não, acho que só pra mim. Agora você também sabe. Mas não fale pra ela não, tá? Ela pode se aborrecer.

Clarice não se aborrece, ela gosta de ser o centro das atenções.

E tem mais uma coisa, Suzy.

O quê?

Ela disse que encontrou o cara de novo dois dias depois.

Verdade?

Sim, aqui mesmo, na praia. Ele lhe falou: “tenho uma surpresa pra você”, tirou o biquíni do bolso da bermuda e devolveu a ela.

Você acredita nessa história, Joana?

Acredito. E tem ainda outra coisa. Clarice revidou: “você achou o meu biquíni?, então quero que você mesmo o vista no meu corpo.” Entraram os dois na água e ela ficou pelada de novo!

Isso tudo é bem o jeito dela.

Suzy, você também gostaria de uma brincadeira assim, não?

Claro, não vou mentir, mas prefiro numa cama.

Olhe, Suzy, vem o cara na nossa direção, é ele, o mesmo da Clarice.

Será que escutou o que estamos conversando?

Pode ser, quem sabe?

Joana, quero ficar sozinha, de repente ele me paquera e eu o levo lá pra casa. Mas fique por perto, fique de sobreaviso...

De sobreaviso?

Isso, Joana, nunca se sabe.

Vamos fazer diferente, Suzy.

Diferente? Fale rápido, Joana, o cara já está quase do nosso lado.

Vamos as duas.

As duas?

Isso, as duas, e é melhor que seja aqui mesmo.

Aqui, Joana?

Aqui, sim. Tua casa é longe. Vamos fazer como a Clarice. E repare, Suzy, ele tem dois bolsos!

quarta-feira, dezembro 18, 2013

Gosto de histórias fortes, sabia?

Ele vinha dirigindo pela avenida que margeia o canal, eu caminhava pela calçada. Parou o carro, buzinou, abaixou o vidro e me chamou. Sorri, cumprimentei e dei um adeusinho. Ele é professor lá da escola. Às vezes conversamos durante os intervalos. Sabe que me separei. Contei às amigas sobre a separação e ele escutou.

Meu marido só me queria para o sexo. Podia ser qualquer hora do dia, eu podia estar em qualquer cômodo da casa, bastava ele me encontrar para me agarrar, me dar um tapa na bunda e começar a tirar a minha roupa. Dizia que estava louco para trepar comigo. Falando assim, sei que muitas mulheres vão sentir inveja, outras dirão que me estou fazendo de gostosa.

O professor fez o vidro elétrico subir e novamente ficou incógnito dentro do automóvel. Aquilo, não sei por que, me provocou certo arrepio. Acelerou e se foi.

Na semana seguinte, enquanto eu almoçava no restaurante que fica em frente à escola, encontrei ao acaso com ele. Logo seus olhos cruzaram com os meus. Moveu a cabeça num ligeiro cumprimento e foi ao buffet se servir. Na volta, perguntou se podia sentar à mesma mesa onde eu estava. Sorri em sinal de aprovação. Será que ele também só pensa em sexo?, perguntei silenciosa aos meus botões. Colocou a pasta na cadeira ao lado e começou a comer. Não demorou a me fazer uma pergunta. Quis saber se eu vou ao Rio ou a Niterói com alguma frequência.

Vou pouco para aqueles lados, apenas se houver grande necessidade. Tudo o que preciso tem por aqui.

Ah, sim, falou e pareceu surpreso.

Uma vez fui a Niterói para fazer umas fotos, lembrei e disse a ele.

Umas fotos, que legal, enquanto comia olhava o prato e, quando podia, a mim.

É, fiz um álbum de fotografias, sabe, nunca tive um.

Mas fotografias de que tipo?, quis saber.

De todos os tipos. Queria ter uma lembrança de mim enquanto sou jovem, magra, sei lá, as mulheres sempre se preocupam com essas coisas.

Você gosta de manter e de reviver o passado?, ele, curioso.

A gente tem que aproveitar enquanto é jovem, é isso que eu acho. Depois que passam os anos, geralmente engordamos; aproveito enquanto tenho esse corpinho.

Ai, Gisele, você é tão burrinha, pensei, está alertando o homem a prestar ainda mais atenção em você.

É para ter uma lembrança, você compreende?, repeti.

Compreendo. As mulheres são muito vaidosas.

Só as mulheres?, ressaltei.

Na maioria das vezes, sim.

Hoje há homens que vivem em salões de beleza, afirmei.

Você repara bem as pessoas, não?

Depois de suas palavras, acabei um tantinho vexada. Pois ele sabia que eu estava separada, e pela minha conversa dava para perceber que eu andava reparando os homens.

Dias depois, enquanto saíamos da escola, ele me avistou e ofereceu carona.

Moro aqui pertinho, falei.

Mas não é melhor ir de carro?

Acabei aceitando. Ele seguiu em frente, cruzou duas ruas e eu já estava em casa.

Na semana seguinte, me convidou para sair.

É que tenho uma história para te contar, falou.

Uma história?, perguntei com ar de curiosidade. É sobre alguém aqui da escola?

Agora não posso dizer.

O bandido me deixou curiosa, sabia lidar com as mulheres.

Aceitei o convite. Era um sábado, oito da noite, quando ele veio me pegar em casa.

Cadê a menina?, perguntou.

Ficou com minha mãe, sorri já dentro do carro.

Deu a partida. A noite estava fresca. Andamos pelas vias internas da cidade até começarmos a trafegar numa marginal que nos leva à orla marítima.

Entrou com o carro num estacionamento, virou a cabeça para mim e perguntou:

Você quer caminhar um pouco ou prefere ir direto a um restaurante?

Acho melhor passearmos primeiro, sugeri.

Começou a contar uma história, mas logo descobri que não era sobre ninguém que eu conhecia. Na verdade, pelo que entendi, ele falava sobre um personagem de livro, embora afirmasse que a história aconteceu mesmo. Contou sobre um cara que resolveu ir morar no litoral.

Gosto de histórias fortes, sabia?, falei.

Você, com essa carinha de anjo?

Eu, anjo?

Pelo menos é o que parece. Mas pode deixar que essa história é bastante forte.

A história começava com um homem dizendo que iria se matar no dia seguinte, e falava a um dos filhos. Eu, atenta, ouvia.

No início o filho tenta contra-argumentar, mas logo desiste. Percebe que a decisão do pai é irremovível. Aliás, não é uma escolha. Na verdade, ele não tem escolha. Mas o pai, de modo surpreendente, faz um pedido insólito. Que ele, após o suicídio, leve a cadela que o acompanha há quase dezesseis anos a uma veterinária amiga e peça que a sacrifique. A mulher já sabe mais ou  menos da história. O filho, a princípio, acha tudo um grande absurdo e diz que não vai assumir tal compromisso.

Meu amigo esperou que eu perguntasse alguma coisa.

Ele não tentou o suficiente para salvar o pai do suicídio, falei.

O que aconteceu foi que o rapaz acabou convencido pelo pai de que o suicídio era o melhor caminho, tanto mais nas circunstâncias em que o velho se encontrava.

Ele estava doente?

Tudo leva a crer que sim, mas a doença não é mencionada, apenas falam sobre um grande sofrimento.

Mas como esse filho pode ter aceitado isso?, eu mostrava indignação.

Você não falou que gosta de histórias fortes? Estou contando.

Está bom, continue, você tem razão, é uma história forte. Enquanto caminhávamos, abotoei o agasalho e cruzei os braços abaixo dos seios, quis me proteger da brisa que soprava do mar. Apesar do friozinho, era uma noite bonita, o céu estava cheio de estrelas.

E há outra coisa, continuou, a mulher desse filho, antes do episódio do suicídio, já o havia trocado pelo irmão.

Como?, fiz que não entendi.

Isso mesmo. Já fazia alguns anos. A esposa começou a gostar do irmão e foi com ele. Eles, os irmãos, nunca mais se falaram. Passaram o resto da vida como inimigos.

Olhei para ele e sorri. Mas foi um sorrido de desconforto. Gostara da história, até me causara alguma excitação, mas era uma situação muito triste.

Durante o jantar, ainda perguntei sobre o que aconteceu depois.

É uma história verdadeira, posso lhe garantir, falou. Embora tenha sido publicada num livro de ficção. É tudo verdade, assentiu com a cabeça.

Depois dessa noite, passamos a nos encontrar uma vez na semana. Lógico que no começo fiz o tipo de mulher difícil. Três encontros depois, passeamos de novo, mas em Rio das Ostras. Caminhamos à noite numa das praias e jantamos num restaurante da Praça da Baleia. Como não estou acostumada a bebidas alcoólicas, fiquei de pilequinho. Acabei levando-o para a minha casa depois do jantar.

Me conta uma história?, pedi, estou precisando.

Precisando?, riu.

Isso mesmo. Não sei se já falei a você, essas histórias me deixam a mil.

Começou a contar sobre um americano que soube que dentro de poucos meses morreria. Estava com câncer e o médico lhe assegurou, com muita honestidade, que para o seu caso todos os medicamentos eram apenas paliativos. O homem pôs a venda tudo que tinha, e passou a dizer às pessoas que faria uma longa viagem.

Ele tocava saxofone, continuou. O homem queria viajar para um país longínquo, o Vietnã. Queria morrer em terra estrangeira e longe de todos. Como os elefantes, já ouviu falar?, perguntou.

O que tem os elefantes?, eu quis saber.

Eles se retiram quando sentem a morte próxima, afastam-se da manada e morrem sozinhos.

E o homem fez isso?

De certa forma, sim, mas antes arranjou uma namorada.

Senti intenso arrepio com essa parte da história.

Então ele transou com ela antes de morrer?, perguntei.

Várias vezes. Mas no final ela acaba com outro.

Ah, que pena, exclamei. Pedi para ir ao banheiro.

Quando voltei, eu disse que também tinha uma história para contar. Algo que eu mesma vivenciara.

Tive um aluno cujo pai se matou.

Foi na Florinda, não? Todo mundo ficou sabendo desse caso.

Foi, sim. Trabalhei lá mais uns dois anos, depois pedi transferência. O fato foi traumático para todos. O garoto não tinha mãe e, de repente, o pai se suicida.

E como ficou o menino?

Totalmente fora de órbita. Pensei na época, que foda, como esse garoto vai sobreviver. Ele andava pelos cantos da escola, sempre em silêncio, pensativo, como se dependesse do seu pensamento a possibilidade de descobrir as razões que levaram o pai a esse tipo de morte. Há suicídios que não possuem lógica nem explicação. Alguém me contou que, quando se sofre violência na infância, com o passar dos anos a vítima tende a sentir essa violência cada vez de modo mais intenso, até o ponto de não mais suportar. Daí a razão de tantos suicídios inexplicáveis. Sei lá, isso é uma loucura só, concluí.

Naquela noite, após tantas histórias, a maioria insólita, fiquei nua nos braços dele.

Depois que me separei ainda não transei com ninguém, eu disse. E olha que o meu marido era tarado por mim.

Você realmente é muito bonita, falou demonstrando muita admiração.

Acho que encontrei o homem certo, falei sem querer, como se pensasse em voz alta.

Como você pode saber se ainda nem me conhece direito?

Preciso de um homem que me conte histórias como essas que você contou. Promete que sempre terá uma história para me contar, principalmente antes de me levar pra cama?

Prometer não prometo, isso é muito complicado, mas vou tentar. Não é fácil ter sempre boas histórias. E também nada sabemos sobre o futuro.

É fácil, sim, tem tanto livro por aí. E quanto ao futuro, ele acontece sozinho.

Tudo bem, deixando o futuro de lado, você não disse que as histórias precisam ser verdadeiras?

Disse, mas você também me disse que é tudo verdade.

Concordo. De certo modo, é tudo verdade. E você também contou uma história muito verdadeira.

É que eu me excito com essas narrativas, inclusive com a do suicídio do pai do meu ex-aluno.

Já que você gosta de histórias fortes e se excita tanto com elas, será que não vai me matar essa noite? Assim também terá o que contar, só não precisa dizer que a assassina é você, riu, depois me beijou na boca.

Quem sabe, respondi fazendo de conta que entrava na brincadeira. Vou te pedir mais uma coisa, assim pode ser que eu não te mate, continuei.

Fale, sou todo ouvido.

Salta sobre mim como o animal mais feroz. Me penetra o mais fundo que você puder. Mas faço uma ressalva.

Silenciei durante trinta segundos.

Você quer o salto, a força, o pênis do tigre, não é isso?, ele.

Isso. Enfim encontrei um homem que me compreende.

Mas há uma ressalva, completou e olhou para mim esperando que eu continuasse.

Ah, sim, a ressalva, repeti abandonando qualquer vestígio de vexo. O que quero dizer é o seguinte, nada de tapas na bunda, viu, isso é coisa de criança. Me bate na cara, e bem forte. Outra coisa, quero que você me amarre. Tenho uma corda bem grossa, ali na gaveta do armário, a gaveta de baixo; mais além, vai à cozinha e volta com uma faca, há uma de ponta, pequena, na gaveta dos talheres. Percorre o meu corpo com ela, pressiona a ponta sobre a minha pele, onde você quiser, pode fazer uns furinhos, chupa então o meu sangue, chupa, me bebe, depois enfia teu peru em mim, mete bem fundo. Mas precisa ser pela noite inteira, sabe, a noite toda, e não para, viu, não para, quem sabe gozo até o dia claro, ou até já não houver sol. Agora vem, me aperta, não demora a começar, quero também o teu sangue...


Nota: a história do pai que chama o filho para comunicar que vai se matar é de Daniel Galera, e está no livro Barba ensopada de sangue, editora Companhia das Letras, e a do homem que sofre de câncer e quer morrer em terra estrangeira é do livro Hanói, de Adriana Lisboa, editora Alfaguara.

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Depois você me paga

Sentei na beira da cama, cruzei as pernas e esperei. Não entendi o que ele tinha em mente. Achei mais elegante nada perguntar. Meu vestido repousava no mesmo lugar onde o deixara horas antes, após me despir. Devido a meus seios rijos, não viera de sutiã, quase não o usava, mas a calcinha... Ele ainda dormia, ou fazia de conta, não posso dizer ao certo. Ouvi barulho de vozes vindo da rua. Eram pessoas que chegavam de alguma festa, conversavam. A madrugada agradável fazia que demorassem a seguir cada qual o seu caminho, queriam mais tempo entre os amigos. Depois de mais ou menos dez minutos levantei e me vesti, apenas o tecido fino sobre a pele. Pensei na noite que tivéramos: primeiro o passeio; depois, ali no seu apartamento, a música na pequena sala e o amor. Começamos de pé, encostados a uma das paredes, a seguir o sexo ardente na cama de casal do único quarto. Ele dissera ao meu ouvido que eu era a mulher da sua vida, que nunca namorara alguém tão quente como eu. Talvez tudo conversa fiada. Devia contar a mesma história para todas que conquistava. E eu ainda o incentivei, falei de um namorado que me deixara nua à porta de casa. Excitou-se, quis saber detalhes, contou então sobre um baile de carnaval de tempos atrás. Namorou uma fada que usava apenas biquíni, deixou-a sem a varinha. Só roubou-lhe a varinha?, perguntei. Ele dissimulou, mas acabou revelando, tomou-lhe também o biquíni. Sou também uma fada, falei, pena não ter vindo de biquíni, o que você vai levar de mim? Sorriu. Fazia pouco tempo que nos conhecêramos, ainda nem bem partíramos para o sexo. Demoro a ir para cama com namorado novo. Sei que já não sou tão jovem, sei também que os tempos são outros, tempos em que tudo se resolve com rapidez. Mas ainda sou lenta, não gosto de precipitações. Ele mexeu-se na cama. Esperei mais um pouco. Fez silêncio novamente. Achei que não acordaria. Procurei a sandália, a bolsa, fui até o banheiro e olhei-me no espelho. A aparência estava boa, disfarçava. Chamaria um táxi e correria para casa. Não sabia se o procuraria de novo. Lembrei-me de sua fadinha. Quem sabe ainda possuía a varinha, quem sabe me mostraria o biquíni. Onde será que os guardava? O apartamento era pequeno, não seria difícil encontrar. Temi que acordasse e não me deixasse ir. Pensei na fadinha nua e sem poder algum. Não queria acabar do mesmo jeito que ela. Que ninguém me olhasse por baixo da roupa. Que não pensassem mal de mim. As mulheres têm certa fascinação em se sentirem prostitutas, falam algumas pessoas. Será?.

Quando desci encontrei na portaria um garoto. Gostosa, ouvi-o dizer. Há quanto tempo não ouvia essa palavra. Voltei-me. Ele sorriu. Tão bonito o garoto. Ei, moça, espere aí. Esperei. Ele veio até a mim. Você quer passear comigo?, perguntei. Quero, falou com decisão. Mas precisa pagar, sabe, comigo nada é de graça. Quanto você cobra? Duzentos, e tem de ser adiantado, mais uma coisa, vou avisar porque há homens que depois reclamam. O que é?, ele, curioso. O último cliente me roubou a calcinha. Não quero a calcinha, quero você, decidiu. O garoto levava jeito. Tem aonde me levar?, indaguei. Tenho, não moro sozinho, mas você passa por minha namorada, o único problema é quanto aos cem. Cem, não, duzentos, fiz de conta que me assustei. É, desculpa, os duzentos, ele reparou. Não faz mal, falei, fechamos por cento e cinquenta. Não é que você não valha, afirmou pegando uma das minhas mãos, é que também não tenho cento e cinquenta. Ok, sorri, deixo por cem, mas só dessa vez, viu?

quarta-feira, novembro 27, 2013

Boa ideia!

Eu saltara na estação do metrô Cantagalo e procurava a praia. Vi um homem que aguardava ao sinal e me aproximei.

Você pode me informar como vou à praia?

Basta seguir esta mesma rua, apontou.

Obrigada.

Você vem de longe?, ele quis saber.

Da Pavuna.

Poxa, é um bom pedaço.

De metrô é rapidinho, falei e sorri.

Já não vou a praia faz tempo, falou e sorriu também.

O sinal abriu para nós. Caminhamos juntos um trecho da rua. De repente, diante de um prédio, ele parou.

Moro aqui, qualquer coisa que precisar toca no 502, me chamo Manoel.

Obrigada, falei e segui. Fiquei a pensar no homem que morando ali tão pertinho da praia disse que não a frequentava fazia tempo.

Passei quase o dia inteiro em Copacabana, bem juntinho ao mar. Tomei duas latinhas de cerveja, encontrei três amigos. Um deles me paquerou, mas desconversei. Ele reparou muito o meu corpo, acho que adorou o meu minúsculo biquíni. Quando decidi ir embora, saí sem que notassem. Voltei pela mesma rua da manhã. Ao passar pelo prédio do tal Manoel, olhei para cima, imaginei qual seria a sua janela. Junto ao portão estavam os botões com os números dos apartamentos. Aproximei-me e toquei o 502. Logo ouvi a sua voz.

Alô?

Aqui é a moça a quem você informou de manhã como se ia à praia, lembra?, senti uma ponta de vergonha após a última palavra.

Ah, lembro sim, o que houve?

Não houve nada, apenas passei e resolvi tocar.

Que bom que você lembrou. Quer subir?

Você permite? Gostaria de um copo d’água.

O portão abriu e subi ao quinto andar. Quando me aproximei, a porta do apartamento já estava aberta.

Entre, fique à vontade, falou.

O homem morava sozinho. Ele me ofereceu um refresco, acho que de maracujá.

Você não quer tomar um banho. É bom depois da praia.

Boa ideia, exclamei.

Lá fui para o banheiro. Ele deixou uma toalha grossa junto à porta.

Saí após o banho enrolada na toalha. Havia lavado o biquíni e o pendurara na parte superior do box. Não sei por que, ao olhar para ele, lembrei-me de um patrão para quem trabalhara fazia dois anos. Chegamos certa vez a nos envolver, apenas uma transa, mas depois ele precisou viajar e ficou muito tempo fora. Quando voltou, nosso caso já esfriara, não nos referimos nenhuma vez ao que passou, e eu ainda continuei um bom tempo como sua funcionária.

Ele me ofereceu algo para comer.

Não, obrigada, já comi demais hoje.

Você realmente é muito elegante, ele sorriu.

É bom tomar um banho após a praia, você tem razão. A gente se sente refrescada.

Lembrei o meu vestidinho que servia de saída de praia. Voltei ao banheiro e o vesti.

Assim é melhor para voltar pra casa, falei.

Você não acha que é muito curto, observou o homem.

Não para vir à praia. As pessoas sabem que quem usa está de biquíni.

Pensei então no biquíni estendido no banheiro. Acho que Manoel teve o mesmo pensamento.

Como você vai fazer para voltar para a Pavuna?

Do mesmo jeito que fiz para vir, respondi. Mas não era isso que ele estava perguntando. Eu havia entendido, mas me fiz de sonsa.

Depois de um tempo, falou:

Tenho roupa de mulher aqui, é de uma irmã que vem vez ou outra. Caso você precise, apontou o armário.

Depois de uns trinta minutos, parti. Antes, perguntei:

Posso deixar o biquíni secando aqui no seu apartamento?

Claro, respondeu. Quando vier de novo à praia, telefone antes. Ele me deu o número.

Fui embora, com o mesmo vestidinho com que viera. E, só para provocar, deixei o homem com a dúvida se eu vestia ou não alguma roupa por baixo.

É claro que voltei outras vezes. E, então, não foi apenas para vestir o biquíni!

quarta-feira, novembro 20, 2013

Achei tão bom!

Pensei que você hoje não viesse mais, falou logo que entrei.

Estou tão atrasada assim?

Pra mim você sempre está atrasada, ele disse e me agarrou com voracidade. Não demorou e eu estava nuinha.

Não é melhor bebermos alguma coisa antes, ou mesmo ouvir uma música?, sugeri.

Sim, tanto que você continue nua.

Colocou um CD de jazz: trompete, cordas e percussão. Veio de novo e me abraçou, percorreu minhas costas com as duas mãos, puxou-me para junto de si. Beijei-lhe a boca, um beijo demorado.

Adoro quando você vem ao meu apartamento, disse ele.

Também gosto muito. Aqui ficamos os dois bem tranquilos, no maior amor.

Levei-o um passo adiante, como num ligeiro bailar, encostei-o na parede e apertei seu tórax com os meus seios. Ficamos assim um longo tempo. Depois rolamos pelo chão, ali mesmo. Então, ele se colocou sobre mim. Trocamos carícias antes de eu me oferecer totalmente a ele. Mas, antes de gozar, ele me fez um pedido.

Você desfila pra mim?

Desfilar?

É, desfilar, como as modelos.

Mas as modelos vestem saias, blusas, vestidos, ou mesmo biquíni, eu estou nua.

Não faz mal, vamos fazer de conta.

Então ele se pôs a anunciar a nova coleção de verão.

É bom que seja de verão mesmo, porque estou peladinha.

Como havia uma revista de moda no porta-revistas, ele a abriu numa determinada página e começou a falar o nome dos conjuntos. Eu fingia que andava numa passarela comprida.

Vocês, espectadores, não digam que a rainha está nua, porque não é verdade, falei depois de mais alguns passos.

Você é linda nua, exclamou.

Pena que não posso sair nua por aí, eu ia fazer o maior sucesso.

Pode sim, quem sabe a gente tenta.

Você acha?, perguntei fazendo cara de mulher perplexa.

Acho, basta você ter coragem.

Coragem eu tenho, afirmei convicta.

Então vamos!

Vamos aonde?

À rua, falou.

Agarrei-o de novo, lancei-me sobre ele no sofá. Trepamos. Tudo que representamos até ali tinha me excitado bastante. Foi uma transa ótima.

Estou angustiada, falei quando acabamos.

Então vamos mais uma vez ao sexo, sua angústia vai passar rapidinho, falou e se pôs de novo sobre mim.

Sei, amorzinho, mas não é essa a questão, faço a mesma pergunta de há pouco. Por que não se pode andar nua por aí?

Não é melhor você posar nua apenas para mim? Por que se mostrar a todos?

Não quero me mostrar a todos, quero ter a liberdade sobre o meu corpo, sobre como me apresentar.

Mas existe coisas chamadas costumes, leis, disse ele, não se pode derrubá-los de uma vez só, causaria espanto, confusão, até uma guerra.

Então vamos quebrar os costumes aqui entre nós, rasgue minha roupa e me deixe sem ter o que vestir...

Você quase acertou a proposta que eu ia lhe fazer, ou melhor, sabe naquele momento em que estávamos agarradinhos, ali no canto do tapete? Eu queria dizer que não deixaria você se vestir hoje, ia esconder o seu vestido.

Mesmo?

Sim. Você costuma ir ao banheiro nua; quando voltasse, não encontraria suas roupas.

Ah, então vou ao banheiro. Estou louca pra fazer xixi. Quando voltar, vou olhar se meu vestido ainda vai estar ali, na cadeira. Não me decepcione, olhei nos olhos dele.

Queridos leitores, adivinhem o que aconteceu depois. Pensaram direitinho? Querem mais um tempinho ou está bom? Posso dizer? Ah, sim. Não encontrei meu vestidinho nem naquela noite nem no dia seguinte. Como fui embora? Adivinhem... Vocês, principalmente as mulheres, já se viram na mesma situação. É tão bom, não? Então, mãos à obra, escrevam contando-me!

quarta-feira, novembro 13, 2013

Depois do filme, quem sabe

Tenho uma diarista que é fogo, não perde tempo, namora o tempo todo e obtém sempre vantagem dos homens que arranja. Ultimamente tem falado sobre a casa onde trabalha às quartas; um emprego, segundo ela, muito bom. O patrão dá-lhe dinheiro a mais e pede que não fale à esposa. É a mulher que cuida do salário.

“Cuidado, ele vai querer algo em troca”, alertei.

"Não sei, acho que sim, mas enquanto eu puder vou tirando vantagem."

Passaram-se duas semanas e fui eu que conheci um homem vinte anos mais velho que eu. Estava num café, onde uma amiga lançava um livro. O local, no Leblon, abrigava pessoas elegantes e discretas àquele entardecer. O homem comprou o livro, entregou a autora para que autografasse e permaneceu nas proximidades. Como havia um pequeno coquetel, acabamos conversando. Ele falou sobre a beleza dos poemas que o livro contém e sobre a referência a certos mitos, tema importante na vida atual e assunto imprescindível num dos ramos do conhecimento da vida moderna, a psicanálise. Escutei o homem, mas não me demorei ali, tinha um compromisso.

Dias depois o encontro ao acaso na Livraria da Travessa. Logo que me avistou, aproximou-se. Sorridente, ofertou-me um poema. Foi o primeiro presente, um poema decorado, encaixava-se perfeito ao momento.

Não sei dizer o motivo, mas caí nas águas dele e passamos a nos encontrar. O pretexto sempre era uma boa conversa. E os cafés, os melhores lugares. Continuou a me ofertar presentes. Trouxe uma caixinha. Desembrulhei e tirei a tampa. Uma máscara em miniatura. Trouxera-a de Veneza. Contou-me sobre a cidade.

Lembrei-me de minha diarista e os cem reais que o patrão oferecera-lhe. Aceitei os primeiros presentes. Mas depois comecei a querer desvencilhar-me do homem. A diarista continuou a contar a vantagem do dia. Na semana seguinte aos cem recebeu mais cento e cinquenta.

“Qualquer hora perco a empregada”, falei, "desse jeito você não vai precisar mais trabalhar."

“Não diz isso, dona Leila, não sou mulher à toa.”

Meu admirador convidou-me para o cinema. Marcamos em Botafogo, onde há um conjunto de salas que exibe filmes europeus. Sofisticado ele, não? Logo ao chegar, reparei uma pequena bolsa, colorida, que ele segurava. Beijou-me e fez que eu recebesse a prenda. Sorri, agradecida.

“Não precisa”, falei, “assim, tantos os presentes, não é justo.”

“Claro que é”, quase bradou o homem, “não posso encontrar uma mulher tão elegante, tão educada, sem retribuir o mimo”, completou.

Abri o tal mimo. Era uma pequena caixinha com outra caixinha dentro, e mais ainda outra; no final, uma bonequinha russa. Que charme, surpreendi-me. Ele apenas sorriu.

“Dona Leila”, eufórica, relatou a diarista na semana seguinte, “acho que o homem enlouqueceu, desta vez foram duzentos.”

“Duzentos?, e a mulher dele?”

“Da mulher, não sei, só posso dizer que o homem botou duzentos na minha mão."

“E você?”, eu curiosa.

“Eu? O que a senhora faria no meu lugar? Peguei o dinheiro e guardei na bolsa.”

“Olha que ele vai querer você pelada.”

“Será, dona Leila?”

”O que você acha, Júlia?”, eu, conclusiva.

Duas semanas depois voltou o meu admirador. Fizera uma viagem. Chegou com uma bolsa enorme, e dentro dela uma série de pacotes pequenos. Primeiro, bonequinhas de enfeite, bonequinhas russas. O homem é doido por bonecas. Vai ver que me acha uma delas. Havia também dois perfumes, três camisas com nome das cidades por onde andara, e no mais fundo da bolsa, dentro de outra caixinha, um anel.

“Não posso aceitar o anel”, falei um tanto precipitada.

“Não?, qual o motivo?”, ele parecia surpreso.

“Somos apenas amigos, não quero noivado”, afirmei resoluta.

“Não se trata de noivado, não lhe peço compromisso algum, é apenas um mimo, um enfeite para os dedos, é ouro da Suíça”, ressaltou, “ao ver a joia na vitrina não pensei que poderia frequentar outras mãos que não as suas”, insistia ele.

“Oh, você parece um poeta apaixonado”, repliquei.

“Quem sabe?, também escrevo poemas, lembra aquele recitado por mim num dos primeiros encontros? É de minha autoria, não quis fazer autopropaganda logo no início.”

“Ah, és também poeta?”, ressaltei a segunda pessoa.

Ele apenas inclinou o rosto e mostrou um rosto engraçado. Lembrei a máscara veneziana.

Experimentei o anel.

“Adivinhaste-me o tamanho”, exclamei.

“Dona Leila, já não posso mais”, voltou-me a diarista, “já chega a trezentos a oferta.”

“Que bom”, arregalei os olhos.

“A senhora acha mesmo?”

“Você não falou que aproveitaria enquanto houvesse chance? Pois aproveite.”

“Mas, Dona Leila, estou sentindo que devo obrigação ao homem?”

“Obrigação?”, franzi o cenho, “que obrigação?”

“Vou tirar a roupa pra ele.”

“Ele só quer ver?”, eu não estava surpresa.

“Sim, mas a senhora sabe, é só no início, depois vai o conteúdo.”

“Conteúdo?”, fiz que não entendi.

“O meu corpo, dona Leila, o homem é louco por minhas curvas.”

Nada disse a ela sobre o meu admirador. Escondi o anel para que não perguntasse nada.

Continuei a encontrar o namorado. Sim, àquela altura que outra palavra poderia dar ao relacionamento? Nosso namoro era constituído de passeios pela cidade, sessões de cinema e um ou outro jantar. Ele nada pedia, parecia ter todo o tempo do mundo para conquistar o prêmio.

Mas minha diarista marchava a passos largos. No outro dia contou-me que tirou a roupa para o homem.

“E se a mulher dele surpreende vocês dois?”, perguntei.

“Não há esse perigo, ela sempre chega muito tarde, ele é que trata de quase tudo, eu mal vejo a mulher.”

“Então, as coisas são fáceis para vocês”, insinuei.

“São, são realmente muito fáceis.”

Alguns dias depois fui ao cinema sozinha. Enquanto esperava a hora do filme, um homem jovem veio falar comigo.

“Oi, tudo bem?”, esperou que eu respondesse.

Baixei os olhos como se não quisesse dar atenção.

“Você estava olhando para mim”, falou, “pensei que me conhecesse de algum lugar.”

“Não, foi um equívoco”, alertei, “vi uma mulher atrás de você, pensei ser uma amiga, foi para ela que olhei.”

“Ah, sim... Como você está sozinha, achei que quisesse conversar um pouco.”

“Conversar?”, repeti sua palavra e sorri.

“Isso mesmo”, continuou, “às vezes as pessoas precisam conversar”.

Olhei o relógio e ameacei levantar-me. Queria ver o filme, não demoraria a começar.

“Quem precisa conversar sou eu”, enfim confessou, “achei você uma pessoa agradável, por isso me aproximei.”

Tirei da bolsa um cartão e o entreguei a ele.

“Outro dia, e, ainda um acréscimo, sou psicanalista, cobro caro.”

Ele foi embora, e eu entrei para ver o filme.

Não demorou minha diarista veio com uma história interessante.

“Dona Leila, ele vai alugar um apartamento pra mim.”

“Verdade?”, fingi surpresa, pois conheço os tipos.

“Verdade. Vai alugar no centro da cidade. Assim fico mais perto e ele pode me visitar sem riscos.”

“Quer dizer que vocês estão com medo da mulher dele?”

“Medo, medo, não. Mas fica mais conveniente, e já que é ele é quem vai pagar...”

Meu admirador reapareceu no final de semana. Marcamos um teatro. Após o espetáculo, fomos ao Mini Moc, um restaurante japonês, na Dias Ferreiras. Falei pela primeira vez sobre a minha diarista. Ele achou a mulher esperta e a história interessante.

“Não é apenas pelo fato de haver traição, mas porque há um pouco de prostituição nisso tudo”, opinei.

“É difícil dizer hoje o que não é prostituição. A sociedade em si é prostituta. Quem pagar mais, leva.”

“Mas aceitar tantos presentes”, exclamei, “não seria melhor obter as coisas com o trabalho?”, eu tinha essa dúvida.

“Minha querida”, iniciou, “o que acontece é o seguinte: o homem gostou dela, quer fazer um agrado. Os presentes são a materialização do seu amor. Assim eliminamos a prostituição.”

“Você em parte tem razão. Se pensamos que tudo é prostituição, não mais podemos dar presentes quando gostamos de alguém.”

“Isso mesmo, você pode dar o presente de forma desprendida, sem segundas intenções”, disse ele.

“Por falar nisso, você tem-me dado muitos presentes. Ganhei até mesmo um anel de noivado”, mostrei a mão direita.

Ele silenciou durante alguns segundos, talvez pensasse na minha diarista, talvez no patrão dela. Depois, mudamos de assunto. Conversamos sobre o recém-visto espetáculo.

Dois dias depois estou de novo sozinha no café do cinema. Lembram do homem jovem que veio falar comigo da outra vez? Apareceu de novo. Aproximou-se.

“Agora, já nos conhecemos”, falou.

 “Oi, como vai?”

“Vou bem. Quero-lhe fazer um convite.”

“Faça”, falei e continuei olhando minha revista.

“Que tal um chope depois do filme?”

“Chope?”, franzi a testa.

“É o modo de dizer, você entende, não?”, reparou.

“Ok, um chope”, sorri, coloquei a revista na bolsa. Só então reparei que devia ser mais jovem que eu dez ou quinze anos. “Você vai ao filme também?”

“Quem sabe”, olhou a fila, virou-se para o cartaz.

“Depois do filme, quem sabe”, foi a minha vez de falar.

Ele entendeu. Caminhou à bilheteria e comprou o ingresso.

quarta-feira, novembro 06, 2013

Você me arranja um cigarro?

O restaurante do hotel ainda não estava cheio para o café da manhã. O dia claro refletia sua luz através das portas e de alguns trechos do revestimento, todos de vidro. Cafés da manhã em hotéis sempre são coisas exageradas, e aquele não era diferente. Podia-se circular por grande parta do self service que sempre ainda haveria algo para experimentar. Algumas pessoas colocavam no pequeno prato um pouco de ovos mexidos, linguiça ou bacon; já outras preferiam as frutas e os sucos, de uva e de laranja. Na parte dos queijos e manteigas, a variedade era extensa; depois vinham os frios; em frente, escolhia-se entre os mais variados tipos de pão, dos mais diversos tamanhos, pães doces ou salgados; mais adiante era o local dos bolos, predominavam os de chocolate e milho; no balcão se enfileiravam os recipientes de café, leite e chá; a geladeira estava localizada mais adiante, através do vidro era possível escolher entre bebidas e iogurtes. Quem quisesse podia tostar o pão num daqueles aparelhos que fazem a torrada saltar quando atinge determinada temperatura.

Quando voltei à mesa pela segunda vez, trazia uma xícara grande de café com leite, pensava sobre toda aquela comilança, na certa me custaria uns quilos a mais. Só, então, reparei o homem que eu conhecera na noite anterior.

Queria tanto fumar um cigarro, foram as minhas palavras, disse como se conversasse comigo mesma.

O desconhecido não demorou a aparecer com um maço de cigarros a me oferecer um. Aceitei. Como não se pode fumar dentro do hotel, saí do foyer. Ele me acompanhou.

As cariocas são fogo, veja só, falou.

Não era a mim a quem se referia, mas a duas mulheres que entraram com ele à tarde. Também não perguntei do que se tratava, naquele momento não me interessavam detalhes de sua vida particular.

Sou carioca, eu disse.

Ele então corrigiu:

Falo a respeitos daquelas duas que me acompanhavam mais cedo; não as conheço, dei uma carona do aeroporto até aqui quando soube que vinham para o mesmo hotel que eu, foram logo se oferecendo para passear comigo à noite.

Ri da história, soltei a última fumaça, apaguei o cigarro, agradeci e fiz menção de entrar para voltar ao meu apartamento. Ele, cuidadosamente, pediu o número do meu telefone.

Mais tarde me ligou e me convidou para passear. Fui eu então quem disse:

As cariocas são fogo.

Ele apenas riu. Aceitei o convite e fomos a um bar ali perto, na parte externa do Brasília Shopping. Ele contou sua história, disse que era médico e que estava na cidade para um congresso sobre geriatria.

Ah, geriatria!, exclamei, interessante.

Sorriu meio sem graça, como se dissesse que já não achava interessante ouvir histórias pela voz de pessoas idosas. Logo pareceu entendeu o meu pensamento.

Que bom, você é jovem, assim será mais divertido.

Mais divertido, repeti, já passei dos quarenta, e a vida não é apenas uma diversão.

Não, eu não quis dizer isso, tentou corrigir, é porque, aqui, em Brasília, frisou, esses espaços distantes entre tantos edifícios me transmitem uma sensação de angústia e de abandono.

Eu gosto, afirmei, aprecio muito a arquitetura da cidade, vim aqui a turismo.

Turismo?, mostrou-se incrédulo. Como alguém pode fazer turismo em Brasília?

Sempre venho aqui, e por motivos estéticos, respondi.

Ambos rimos, e não era ironia de minha parte. Ao sairmos do bar, depois de algumas caipirinhas, falei a mesma frase lá do hotel.

Queria tanto um cigarro.

Ele se apressou a me oferecer o seu maço.

Não é desses, continuei, é aquele outro, sabe, um cigarro de outro tipo...

Outro tipo?, pareceu ingênuo.

Sim, aquele cigarro que não se pode vender por aí; acho que você consegue com o guardador de automóveis.

Você não acha que isso faz mal?, ele perguntou enquanto eu, na varanda da minha suíte, soltava a fumava do tal cigarro conseguido por ele. E, além disso, vai que alguém sinta o cheiro e vá reclamar à recepção.

Achei engraçado o modo requintado de ele falar e retruquei:

É melhor você ir embora.

Ele permanecia sentado, dentro do quarto.

Não, não é o caso, completou.

O cigarro de maconha acabou por me aproximar dele.

No café da manhã do dia seguinte, ele me piscou os olhos e acrescentou:

Não esqueça, logo mais estarei livre.

À noite, nos encontramos novamente. Já passava das nove.

O que você fez hoje?, ele quis saber.

Nada de interessante, respondi, andei pelos imensos espaços abertos que tanto angustiam você.

Sabe, iniciou sua história, faz dez anos que tive um problema que me levou ao hospital, fiquei internado durante um tempo enorme.

O que você teve?

Câncer no intestino, respondeu.

Mas por que está me contando essa história agora?

Por nada, acho que você tem razão em querer aproveitar a vida; ontem censurei você por fumar o tal cigarro, mas também tenho meus vícios, sempre bebi bebidas fortes.

Se você arranjar outro cigarro daquele para mim hoje, não vou levar a mal, chantageei e sorri.

Perguntou por que eu viajava só.

Porque assim conheço novas pessoas, pessoas interessantes, diferentes das de onde moro. Às vezes conheço gente muito rica, embora não seja esse o meu objetivo. E não venho apenas para cá, viajo por todo o país, e às vezes para o exterior. Os hotéis são os melhores lugares para se travar novas relações.

Qual o seu objetivo?, ele quis saber.

Simplesmente viver. Como poderia fazer isso na minha cidade? Lá há sempre o mesmo círculo de amigos, quase as mesmas situações, os mesmos lugares.

Você não acha que as pessoas são as mesmas em todos os lugares?

Não acho, não, respondi.

Você tem um pouco de razão, mas a ilusão de que vamos encontrar alguém diferente é que nos anima. E eu, sou diferente?

Talvez, sim; pelo menos desceu duas vezes para comprar um cigarro de maconha para mim.

Ele mexeu com a cabeça, como se compreendesse as minhas palavras, depois continuou:

Por falar nisso, você está muito elegante, com esse vestido um pouquinho acima do joelho, colado ao corpo, sentada e de pernas cruzadas...

Já sei, quando um homem fala assim com uma mulher é porque a quer nua.

Acho que sim, fez cara de sonso.

Você sabe que tive uma amiga muito louca. Ela viajava sozinha e quando conhecia um homem o levava para o seu quarto de hotel, tirava toda a roupa e dizia: guarda lá no teu apartamento. Assim, segundo ela, nua e sozinha, se sentia mais livre, a milhares de quilômetros de casa.

E o que acontecia depois?

Não sei. Ela nunca falou. E eu nunca perguntei.

Naquela noite, dormimos juntos, no meu quarto. E devo confessar que ele foi um bom amante.

O dia seguinte seria o último do seu congresso.

Você me leva?, pedi no café da manhã.

Aonde?

Ao seu congresso. É o último dia, não?

Sim, é o último.

E depois?

Depois volto para São Paulo, e você para o Rio, não é mesmo?

Mas antes vou com você ao congresso.

Acho que não vai gostar. Ando sempre querendo saber sua profissão. Mas sempre me esqueço de perguntar, e você nada falou sobre isso.

Sou dentista, exerço a profissão num consultório na av. Rio Branco, no Rio.

Ah, sim, uma profissão muito necessária.

Acabávamos o café. Levantamo-nos e caminhamos para fora do restaurante.

Vamos, então, ele convidou. Levo você comigo. Não sei se vai gostar dos meus amigos e dos assuntos deste último dia.

Assim ficamos mais tempo juntos. Você não vai gostar?

Claro, vou gostar muito. Mas no centro de convenções, você vai perceber que sou uma pessoa muito requisitada.

Não faz mal, fico à parte.

Pegamos nossas bagagens, quitamos o hotel e embarcamos no carro que estava reservado a ele.

Acompanhei-o em todos os compromissos. Assisti a muitas das apresentações, sendo que numa delas foi ele o palestrante. Enquanto falava e olhava na minha direção, percebi que sorria com um canto da boca, depois se virava para os outros e continuava.

Nos últimos momentos em que estivemos juntos, pedi-lhe mais uma vez. Já estávamos próximos ao aeroporto.

Você me arranja mais um daqueles cigarros.

Ele tirou um do bolso.

Tão rápido, não esperava por essa.

Sabia que você ia querer mais. Na última vez, comprei alguns reservas.

Alguns?, eu, surpresa.

Mais dois ou três.

Sorri.

Ele me beijou antes do seu avião partir.

Vá a São Paulo, falou, espero lá por você.

Vá ao Rio, também o espero.

Você não teme ser presa?, perguntou.

Presa, como assim?

Você fuma cigarros proibidos. Está levando alguns na bolsa.

Ah, acho que vou fumá-los ante da partida.

Onde? Já estamos na sala de embarque.

Sempre se dá um jeito, falei.

Um jeito?, ele repetiu.

Lembra de minha amiga que pedia para ser deixada nua no hotel?

Ah, sim, o que tem?

A única coisa que ela me falou é que sempre dava um jeito.

Como vamos fazer para nos encontrar?, foi sua última pergunta. A fila para São Paulo já havia terminado, faltava apenas ele, a quem a funcionária da empresa aérea aguardava com certa ansiedade.

Quando chegar, telefone, vamos dar um jeito, pedi. E se eu estiver nua, em apuros, em algum lugar, venha correndo me ajudar, ok?

Ok. Ele sorriu, me beijou e se foi. Antes de desaparecer através do corredor que o levava à aeronave, ainda olhou para trás e acenou mais uma vez.