quinta-feira, setembro 18, 2008

Aposta

Tudo começou com uma aposta.

“Duvido que você faça isso”, disse minha amiga.

“Faço, não tenho medo nem vergonha.”

“Aposto que você não faz; não acredito.”

“Quer apostar mesmo? Digo que vai perder...”

Acabamos apostando. Agora não lembro a quantia, mas não era alta; o que valia era o intento.

A luz do corredor do meu andar apagava quando não havia presença humana. Mas o lugar onde eu decidira sentar, no quarto ou no quinto degrau da escada, entre o sexto e o sétimo andar, fazia que o sensor constantemente acendesse a lâmpada, o que de certa forma podia despertar a atenção de algum morador que estivesse acordado. Eu esperava aquele homem misterioso ali, quase junto à sua porta. Sabia que ele morava só e sempre chegava do trabalho por volta das duas da madrugada. Para completar, cumprindo as exigências da aposta, eu estava nua. Isso, nua em pêlo. Sentia a pedra fria da escada sob meu bumbum; a estação do ano não era de frio, mas a noite estava fresca; uma ligeira corrente de ar arrepiava minha pele.

Percebi quando o elevador começou a subir. O marcador enumerava os andares. Quando parou no sexto, senti um frio na barriga. Mas respirei fundo e aguardei os acontecimentos. Encolhi-me, encostei a parte da frente das coxas aos seios, envolvendo as pernas com os braços, feito um cordão. A única coisa que eu temia era que a pessoa que saísse do elevador não fosse quem eu esperava.

Não me enganei. Era ele mesmo, o morador do 603.

Ao me avistar, teve um ligeiro sobressalto. Depois olhou de novo, como se não acreditasse no que via. Em seguida chegou a sorrir, mas um sorriso nervoso.

Fiz fisionomia de desencanto.

“O que houve?”, perguntou ainda assustado.

“Uma separação”, respondi.

Ele abriu a porta um tanto atrapalhado e perguntou:

“Quer entrar?”

Levantei-me, cobri os seios com as mãos e caminhei para dentro do apartamento.

Fechou a porta e falou:

“Vou lhe dar alguma roupa”, fez um gesto de quem vai à procura de alguma coisa.

“Não é necessário, aqui dentro já me sinto segura.”

Ficamos os dois olhando um para o outro.

“Acho que daqui a pouco minha amiga já vai estar mais calma, então poderei voltar.”

“Mas, nua?”

“Está tarde, ninguém vai perceber”, falei.

“Apenas eu a vi nua?”, quis saber.

“Sim.”

“E o que fazemos, agora?”, disse ainda assustado, como se minha nudez fosse um grande estorvo.

“Não há problema algum, podemos conversar um pouquinho até que a minha amiga se acalme.”

“Sente-se, por favor, tem certeza de que não quer vestir nada?”

“Tenho”, acomodei-me numa poltrona, cruzando as pernas.

“Bebe então algo?”

“Bebo.”

O engraçado foi o seguinte: a nua era eu, mas ele é que continuava nervoso.

Bebemos. A bebida fez que ele relaxasse.

Sorri algumas vezes.

Então compreendeu minhas intenções. Aproximou-se, mas demorou para tocar meu corpo.

“Por essa eu não esperava, acho que acertei na loteria”, falou e também sorriu.

Saí de lá por volta das quatro da madrugada.

“Tem certeza de que não quer vestir nada? Você vai sair assim, nua?”

“Vou.”

“Caso sua amiga não abra a porta, pode voltar, tá?”

Depois de cinco minutos, bati com o nó do dedo médio três vezes em sua porta.

Ele abriu.

Eu, ainda nua e cobrindo os seios com as mãos, sorri para ele:

“Voltei!”.

quinta-feira, setembro 04, 2008

O xale

I

“Ele nos convidou.”

“Quem?”

“O Diógenes.”

“Que Diógenes?”

“O magnata; aparece em todas as revistas de celebridades; nunca ouviu falar dele?”

“Ah, o que mora na Viera Souto?”

“Esse.”

Marieta olhou-me e esperou o motivo do convite. Como nada falei, perguntou:

“Convidou pra quê?”

“O que você acha que ele deseja?”

“Ele é capaz de conquistar mulheres mais jovens e mais belas; o que há de querer de nós?”

“Não percebe, Marieta? Ele gosta de nossa ousadia.”

“Verdade, não existem mulheres mais ousadas do que nós.”

A garçonete chegou com nossos pedidos. Estávamos numa cafeteria, na Visconde de Pirajá. O cheiro agradável da bebida estimulou nossos sentidos. A moça trazia também um quiche de legumes para mim e um cheese cake para minha amiga. Outras pessoas aqui e ali nas mesinhas de madeira circundavam-nos.

“Mas esses milionários parecem que são tarados; ele faz uma exigência particular”, falei.

“Qual?”

“Como sabe que somos mulheres ousadas, quer o seguinte: eu e você temos de vestir a mesma roupa.”

“Mesma roupa? Então quer dizer que temos de ir exatamente vestidas de modo idêntico?”

“Não, não é isso.”

“O que é então? Não entendo...”

“Preste atenção, o que ele quer é o seguinte...”, interrompi para beber mais um gole do meu expresso, “...devemos dividir as roupas que caberiam a uma só pessoa.”

“Esse homem é louco?”

“Pelo que me consta não, mas quem sabe?”

“Você acha possível irmos como ele exige?”

“Marieta, você sabe que para obtermos nossas vantagens sempre damos um jeito.”

“Mas vamos fazer o papel de ridículas, vamos nuas ou seminuas...”

“Pior é sair vestida e voltar nua...”

“Por favor, não me lembre sobre isso!”

“Creio que tenho uma solução.”

Marieta levava à boca o último pedaço de seu cake.

“Qual?”, ela quis saber.

“Ele não disse a quantidade de roupas que podemos vestir.”

“Pessoas desse tipo são exigentes; caso não sigamos o que ele quer não vamos ganhar coisa alguma.”

“Querida, não vamos exagerar; lembre-se de que estamos no inverno; vamos fazer assim: você vai vestida como de costume, eu arranjo um xale, envolvo o pescoço e depois o resto do corpo. Vamos de carro; poderemos deixá-lo na garagem.”

Acabei de tomar os últimos goles do café, chamei a garçonete e pedi um pedaço de torta de morango com chocolate. Marieta deu-se por satisfeita.

II

Sobre uma pequena mesa lateral, havia uma estátua mediana de uma deusa grega. A base era de mármore e o corpo da deusa de bronze. Nua, ela destacava-se em meio a outras pequenas obras de arte que se espalhavam pelo salão. Uma vez que a noite estava clara, podia-se admirar o mar através dos vidros da grande janela que ocupava toda a frente do apartamento.

Não foi necessário que uma de nós chegasse nua. Através de um telefonema, ele nos deixou livres para encontrá-lo vestidas do jeito que bem desejássemos. Aproveitamos a época de inverno, que não é tão intenso no Rio, para vestirmos tecidos sensuais. Ao mesmo tempo em que nos insinuávamos, instigávamos a imaginação dele.

Tentou o mais que pôde ser gentil. Falou sobre arte, que era sua especialidade. Ficamos ouvindo-o, enquanto percebíamos o som ambiente; algumas vezes Mozart; outras, Chopin.

Em certo momento, Marieta soltou o cinto. O vestido dela era daqueles que se assemelham a um balão; fecham-se na parte de baixo em relação à cintura e despertam nos homens a vontade de enfiar uma das mãos sob o tecido e escalar as pernas de quem os usa. Nosso anfitrião a olhou com maior intensidade. Percebemos que o desejo tomou-lhe quase num golpe súbito. De repente, falou:

“Fiquem à vontade, não há mais ninguém aqui, além de nós três.”

Retirou-se durante alguns minutos; foi até a copa para nos trazer alguma coisa para saborearmos. Entendemos o que queria.

Marieta, num impulso intuitivo, tirou toda a roupa. Segui-a nos mesmos gestos.

Quando ele voltou, fez de conta que nada de mais havia acontecido.

“Querem um pouco de frios? É bom para acompanhar o vinho.”

Ele trouxera uma tábua arrumada artisticamente. Tudo o que fazia tinha um toque de beleza.

Eu e Marieta mantivemo-nos sentadas, de pernas cruzadas, em postura altiva e glacial. Trajávamos apenas nossos adornos: brincos, colares, pulseiras, anéis; e nos mantínhamos sobre saltos.

“Nunca estivemos aqui”, falou em voz baixa minha amiga, olhando ao mesmo tempo para a decoração do ambiente.

“Faltavam-me meios de encontrá-las; agora podem vir quando quiserem.”

“Obrigada, é muito gentil”, foi minha vez de falar.

“Adoro mulheres maduras e lindas.”

“Há muitas lendas a seu respeito”, continuei.

Marieta acendeu um cigarro.

“As lendas multiplicam-se mas, como vocês podem constatar, sou uma pessoa simples.”

“Também somos”, falei.

“Vocês sempre saem juntas?”

“Quando nos convidam...”, Marieta sussurrou, soltando a seguir a fumaça do cigarro.

“Dizem que andam nuas pela cidade.”

“Também são lendas”, repliquei, “nunca nos cobrimos tanto.”

“Posso fotografar vocês”, pediu-nos com delicadeza.

“Claro”, falei, “ficaremos muito lisonjeadas.”

Fez-se então a sessão de fotos. Ajudamos nas poses. Ele mostrava-se cada vez mais excitado.

Depois, convidou-me a segui-lo. Marieta permaneceu na sala, em meio à luz de abajures e envolta na magia da fumaça do próprio cigarro.

Não preciso dizer tudo que proporcionei a ele; houve vários momentos em que se viu imerso em intenso frêmito.

Depois pediu que Marieta entrasse. Quis que eu ainda permanecesse. Exercitou-se num jogo duplo, difícil para alguém de sua idade.

Disse para nós: “vocês são capazes de voltar nuas para casa?”

Marieta arregalou os olhos.

Antecipei-me com naturalidade:

“É claro que sim.”

Enquanto falava o acariciávamos.

“Não se assuste, depois que ele gozar não vai falar mais nisso”, pude dizer à minha amiga quando ele se demorou num gemido mais alto e prolongado.

“Ah, adoro mulheres como vocês; são capazes de tocar os homens no que há de mais fundo.”

Trabalhamos intensamente a sua sensibilidade. Ele mostrava-se à beira do gozo, chegava a urrar, mas equilibrava-se num fio tênue, conseguindo prolongar o prazer que proporcionávamos. Pensei que morreria.

“Vamos parar, ele pode ter um troço”, sussurrei.

“Que tenha, quero minhas roupas de volta.”

Apontei para o pênis e para a boca de minha amiga. Ela acudiu.

Passei minhas mãos por baixo das nádegas do homem, segurei-lhe a parte posterior do pênis puxando seus testículos carinhosamente na direção oposta a que ia a boca de Marieta. Então ele gritou terrivelmente. Ejaculava. Quando acabou, minha amiga ameaçou correr ao banheiro. Segurei-a, colei meus lábios aos dela e fiz que me passasse todo aquele mel. Quando a tarefa se deu por terminada, virei para ele, abri ligeiramente a boca e deslizei a língua com vagar pelo meu lábio superior. Ele, num novo grito de regozijo e num último lampejo, como um foguete que ainda explode atrasado, lançou ainda um jato de esperma. Caiu então para trás, mergulhando numa branda sonolência.

Deixamos o quarto. Vestimo-nos. Sobre uma das mesas havia dois envelopes com nossos nomes. Guardamos os envelopes.

Voltei ao quarto para me despedir. Beijei-o. Ele abriu os olhos; estava exausto. Sorriu.

“Ainda deseja alguma coisa, querido?”, soprei em seu ouvido.

“Não, obrigado; se vocês quiserem, podem ir.”

Fiz sinal para que Marieta o beijasse.

Falei mais uma vez: ”tens certeza de que não desejas mais nada?”

Marieta, após beijá-lo, arregalou os olhos em minha direção.

“Não; mas voltem sempre; não esquecerei vocês.”

terça-feira, agosto 19, 2008

Litoral norte

Sempre gostei de dormir apenas de camiseta, nada por baixo a me apertar. Quando fui passar uns dias de férias na casa de uma amiga, no litoral norte, continuei agindo da mesma forma. Certa noite procurei uma um pouquinho mais comprida, que me disfarçasse a nudez, mas não a encontrei. Já fazia alguns dias que estávamos ali e nossos pertences se encontravam meio bagunçados. Para não dormir totalmente nua, vesti uma pequena blusa que ia no máximo até o umbigo. No dia seguinte acordei cedo como sempre e fui fazer o café. Adoro fazer café e tomar a primeira xícara. As outras pessoas costumavam dormir até bem mais tarde, e eu sempre me via só na ampla cozinha. Fui como acordei, apenas a pequena blusa sobre o corpo. Quando o café já estava pronto e eu segurava com uma das mãos a xícara, percebi outra pessoa. Era um rapaz que fazia parte dos hóspedes, talvez dez anos mais jovem que eu. Ficou a me olhar demorado. Só então me dei conta de meu estado; mas, com frieza, mantive-me impassível, continuei tomando meu café com naturalidade, como se nada tivesse acontecendo. Ele não desistiu; olhava-me insistente. Então perguntei:

“O que foi, nunca viu uma mulher nua?”

Virei de costas para colocar a xícara sobre a pia. Mas na verdade quis mostrar meu bumbum. Depois me voltei e fiquei à espera da sua reação. De início se manteve quieto, como que enfeitiçado por minha nudez, depois chegou a se aproximar, mas de repente se deteve, olhou para porta e estacou. Deixei-o ali mesmo e fui para o meu quarto. Creio que o decepcionei. Naquele dia, não mais o vi.

Na manhã seguinte fui novamente preparar o café. Mas já usava a blusa que fazia as vezes de um mini-vestido. Ao acabar, enquanto lavava a louça, senti que alguém se aproximara por trás, bem junto a mim, e me levantava a blusa. Fiz de conta que nada percebi. Quando terminei, permaneci na mesma posição, virada ainda para pia. Senti então que um membro bastante enrijecido me forçava as pernas. Abri-as lentamente e, sem me dar conta de quem se tratava, permiti que me penetrasse. Com movimentos ferozes, deixou-me ardida. Não demorou a gozar e, quando isso aconteceu, ainda permaneceu por um tempo com o pênis inteiro dentro de mim. Depois que se soltou, ainda esperei na mesma posição. Ao me virar, ele já partira.

No dia seguinte voltei ao mesmo local. Para provocar, apareci com a camiseta curta; tudo de fora. Fiquei durante longos minutos voltada para a pia; sabia que alguém me apreciava. Mas não houve aproximação; e ao olhar na direção da porta, caso mesmo houvera alguém a me espiar, já desaparecera.

Nos dias que se seguiram fiz questão de dormir até mais tarde. Não consegui distinguir ruídos que dessem sinal de pessoa alguma nem na cozinha nem nos outros cômodos.

No domingo, uns cinco dias após a apressada relação sexual, já sem pensar no que acontecera, senti de novo um leve respirar às minhas costas. Eu tomava os últimos goles de café voltada para a pia. Quis virar-me para ver se se tratava do jovem da primeira vez. A pessoa, no entanto, me reteve com firmeza, imobilizando-me.

“Não quero”, sussurrei, “você precisa respeitar os meus desejos”, concluí. Roubou-me então a blusa, deixando-me nua, e se foi sem que eu pudesse distingui-lo.

Passados mais dois dias, não notei presença alguma na cozinha pela manhã. Tomava meu café e ia ler um pouco. Dali a uma ou duas horas, as outras pessoas acordavam.

Quando já quase esquecera o caso, novamente a misteriosa presença se fez notar no mesmo local, dessa vez imobilizando-me pelas costas.

“Preciso ver você, preciso saber de quem se trata”, falei.

Uma lufada de ar misturada com ruídos de voz chegou-me aos ouvidos.

“Vamos à praia.”

“Só se eu puder saber de quem se trata.”

“Na praia eu prometo que deixo você saber.”

“Mas estou nua...”

Arrastou-me mesmo assim. Então descobri quem era. Não se tratava do rapaz que me surpreendera nua no café da manhã, mas do marido da dona da casa, a amiga que me convidara.

“Não, por favor, não quero”, afirmei livrando-me de suas mãos.

“Quem você esperava?”

“Ninguém.”

“Como ninguém? Houve dias em que você se mostrou nua na cozinha. Para quem era?”

“Não interessa, jamais pensei que era você. Deixe-me vestir sua camisa, por favor”, pedi enquanto cobria os seios com as duas mãos.

“Sei que você não vai falar nada para a Ana”, insinuou.

Depois deu as costas e se foi.

Após alguns minutos, quando pensei em voltar, apareceu o rapaz.

“Oi”, falou com timidez.

Ainda estava nua e ele se pôs a me olhar como na primeira vez.

“Venha”, eu disse; “estou nua pra você”.

Fizemos amor. Ele mostrou-se muito carinhoso, não era o selvagem da primeira vez; ou melhor, o selvagem era o marido de minha amiga.

Enquanto estive de férias naquela casa, passei a me exibir só para ele (o rapaz) todo dia bem cedinho, não mais na cozinha, mas nas areias da praia!

Até que as férias acabaram.

domingo, agosto 03, 2008

"É a primeira vez?"

A noite entrava pelas horas. Eu estava um pouco assustada, era a primeira vez que visitava a casa dele. E pelo jeito ia passar a noite ali. Os objetos que eu levara denunciavam-me, viera com uma bolsa grande e plena. Não sabia, porém, como fazer para trocar de roupa e me recostar na cabeceira da cama. Tínhamos bebido uma garrafa de vinho, cujo ato fora quase um ritual; demoramos a esvaziá-la, esquecíamos dela enquanto conversávamos. Depois nos sentamos lado a lado; ele se aproximava, eu reparava que queria me beijar, mas acho que devido à minha timidez eu o assustava; então ele se afastava e enveredávamos por outra conversa. Falamos muito sobre lugares que conhecemos, viagens que fizemos, museus, galerias de arte. Quando voltávamos a nossos corpos, eu não sabia o que dizer, e ele sempre me olhando com encanto.

Foi aí que perguntou: “Você quer descansar?”

Respondi que sim. Fomos para o quarto.

“Você quer trocar de roupa aqui ou quer ir ao banheiro?”, ainda acrescentou: “quer que eu saia?”

Acho que quase enrubescida, disse a ele que iria me trocar no banheiro. Ele acompanhou-me, mas deteve-se na sala; sentou-se no pequeno estofado e voltou-se para os livros que estavam sobre a mesa.

Após alguns minutos, voltei; vestia uma camisola curta, mas recatada. Ele olhou e sorriu, procurava me deixar à vontade. “Como vamos fazer?”, perguntou.

Emudeci e esperei pela decisão dele.

“Você quer que eu durma aqui na sala e deixe o quarto para você?”, perguntou.

“Não quero incomodar, posso dormir aqui no estofado”, falei baixinho.

“Não, não, é desconfortável.”

“Podemos dormir os dois na cama”, falei demonstrando não estar constrangida.

“Então está bem”, finalizou.

Deitei-me, acendi o abajur que havia bem ao lado que eu escolhera.

Ele voltou e deitou-se ao meu lado. Ficou de barriga para cima; parecia refletir sobre alguma coisa.

Desliguei a pequena lâmpada e o quarto mergulhou na escuridão; através da janela era possível ver que a noite estava clara.

Em alguns segundos visualizei todo o percurso, desde o momento em que o conheci até àquela hora. Não pensei que estaríamos juntos após apenas uma semana do primeiro encontro. Estava tomada de uma intensa timidez. Caso ele se virasse em minha direção e me tomasse nos braços, eu não saberia o que fazer. Diria que não, que ainda era cedo, que eu nem deveria estar ali. Onde eu estava com a cabeça quando aceitei seu convite para passarmos juntos o fim de semana? Achei que seria melhor eu levantar, vestir-me e chamar um táxi. Mas se tomasse essa decisão, acho que seria o fim do relacionamento; e ele era tão agradável. Ele parecia ressonar. Acho que entendera toda a minha aflição e me proporcionava algum tempo para que eu pensasse melhor a questão. Não virei para o outro lado, ele poderia receber tal atitude como uma ofensa. Fiquei meio inclinada, não de todo virada para ele, mas também não demonstrando uma retirada brusca. Então ele tocou num de meus braços; tocou suave, lúcido, com tamanho carinho que fingi não perceber. Mantive-me na mesma posição. Então se aproximou e enfiou os braços por baixo de minha coberta, tocou as partes nuas de meu corpo. Arrepie-me, misturava timidez e excitação. Eu o enfrentaria? Não era um enfrentamento. Na verdade, relações amorosas não são enfrentamentos, são entregas, entregas suaves, límpidas; mas eu tinha tanto medo... O que faria? A solução foi manter-me estática, mas esforcei-me para ter os músculos relaxados. Não queria que ele me percebesse enrijecida e o coração a palpitar. Então se aproximou ainda mais, de mansinho. Não consegui manter-me quieta.

“Estou morrendo de medo”, revelei.

“Medo?” Medo de quê?”

“Não sei...”

“É a primeira vez?”

“Não!”, apressei-me em responder.

“Então não há o que temer.”

“Você se importaria se apenas namorássemos e deixássemos o principal para outro dia? Se você me respeitar, vai conseguir tudo de mim.”

“Tudo?”

“Dou a roupa do corpo.”

“Tudo bem, podemos esperar.”

Ele me deu um longo beijo. Eu pegava fogo.

A madrugada, moça nua úmida de orvalho, transcorreu suave.

Ainda antes do amanhecer não resisti, escalei seu corpo: borboleta a bater asas, tentando equilibrar-se sobre o galho mais alto de árvore robusta.

domingo, julho 20, 2008

Gotas d'água sobre meu corpo reluziam como pequenos diamantes

Quando na noite avançada a luz prateada do holofote me acertava em cheio, as gotas d’água sobre meu corpo reluziam como pequenos diamantes. Meu namorado achava a brincadeira excitante, e eu acabava por embarcar nas loucuras que ele inventava. Depois, já desligada a lâmpada, ele me abraçava e me possuía ali mesmo, sobre as areias da praia, com o marulhar a nos cantar o amor. Às vezes eu tremia de frio, tentava absorver o calor do seu corpo e ao mesmo tempo sonhava com algum pano comprido, algum tipo de veludo a me roçar a pele. Mas ele me deixava nua durante a maior parte do tempo. Tentava aquecer-me com a fricção do próprio corpo e me queria provar que eu esqueceria o frio à proximidade do orgasmo. Depois que gozávamos, eu, além do frio, sentia uma vergonha imensa, dizia então:

”Vai buscar minha canga, alguém ainda me encontra nua.”

Mas ele demorava e queria uma vez mais.

Encontrávamo-nos para essa aventura uma vez na semana.

“Por que não nos basta uma boa cama de hotel?”, eu perguntava.

“Assim é mais agradável, ao ar livre, e sob todos os riscos.”

“Mas está frio, ainda pego uma doença.”

“Se o tempo continuar assim, vamos a um lugar mais quente.”

Ele ia até o carro e vinha então com minha canga; depois de voltas e rodeios, como a amansar um touro bravio, envolvia-me e íamos jantar num restaurante rústico, onde a proprietária já nos conhecia. Discreta, ela nunca perguntou porque eu me vestia daquele jeito. Cada semana, pontuais, aparecíamos ali; e eu com um pano diferente a me cobrir o corpo. Talvez nos achasse veranistas loucos. Embora já fosse longe a estação do sol, continuávamos a nos divertir como se o verão, desatento, permanecesse. Apesar de eu reclamar, na verdade gostava das intempéries desse namorado extravagante.

Levava-me a algumas festas também exageradas. Aconteciam em apartamentos grandes, de inumeráveis salas e quartos, onde a música rápida girava nossos corpos. Havia salas, sempre às escuras ou sob tênues lâmpadas de abajures laterais, convidativas a contatos íntimos. Agarrávamo-nos então sobre estofados macios; poucas palavras e beijos de amantes demorados. Garçons jovens serviam-nos bebidas coloridas. Excitávamo-nos. As mulheres que freqüentavam tais festas não deixavam de mostrar-se extremadas. Além de parecerem amar em demasia seus homens, vestiam saias curtíssimas, tops mínimos. Certa noite quando fui ao banheiro, encontrei três jovens totalmente nuas. Diziam que sairiam assim para dançar; surpreenderiam seus pares. Perguntei se a dona da casa não se oporia à inteira nudez. Elas se entreolharam, riram e disseram que não tinham perguntado a ela. Uma propôs que tirassem apenas a calça de liga e fossem com aquelas blusas, vestidos curtos disfarçados, assim não assustariam os mais conservadores. E foram.

“Não nos acompanha? Tenho uma blusa que em você vai parecer um vestido lindo”, uma delas me ofereceu.

“Obrigada”, repliquei, “tenho andado nua o tempo todo.”

Riram e saíram as três. Uma esqueceu a calcinha sobre o pino da toalha. De propósito. E dançaram. Os homens com elas, cada vez mais enlouquecidos. Lá pelas tantas se enfiaram por outros cômodos. Discretas, namoravam. Agiam como se ainda trouxessem o arremedo de vestido, mas na verdade já os tinham perdido. As pequenas lâmpadas apagadas disfarçavam-lhes a nudez. Às vezes, seios se iluminavam furtivos, era a chama de um isqueiro que ia em direção ao cigarro a transbordar dos lábios de uma delas. Podia-se dançar inteiramente só e podia-se entregar a braços outros. Em certa noite escorreguei em mãos alheias. Meu namorado também ia em outra companhia. Um homem negro puxou-me junto a si, abocanhou-me os lábios. Permiti; no começo, um tanto medrosa, mas, em seguida, percebendo a penumbra, entreguei meu corpo pequeno a seu largo abraço. Após dançarmos uma ou duas músicas, levou-me para um canto. Ainda brilhava o abajur, mas ali éramos apenas os dois. Escorregou as mãos sob minha saia e me deixou nua.

“Você é muito grande para mim, vai me machucar”, sussurrei ao senti-lo.

“Não se preocupe”, revidou, “vou cuidar bem de você.”

E cuidou. Gozei como nunca; quis mais uma vez.

Quando a festa ia perto do fim, esforcei-me para não perdê-lo; queria algum meio de contato. Meu namorado, pelo que percebi, trazia um sorriso estampado. Vi quando uma morena piscou para ele. Ela usava um short curtíssimo, pensei até que estivesse de biquíni.

Dias depois encontrei meu homem negro. Levou-me para o melhor hotel da cidade. De novo, fez tudo na penumbra; e eu a senti-lo crescer dentro de mim, crescer até não poder mais. Mas com carinho, com esmero.

A estada com o amante foi apenas por três vezes; depois o perdi. Não havia apenas eu a desejá-lo.

Meu namorado continuou a envolver-me com suas surpresas. Eu atendia-lhe todos os desejos. E quando íamos àquelas festas, passei a fazer coro com as mulheres que queriam sair nuas do banheiro.

sábado, julho 05, 2008

Seus amigos teimaram que eu tinha de escrever um conto especial para eles, e eram três horas da madrugada

Querido Dantas,

O que aconteceu foi um tanto inesperado. Seus amigos teimaram que eu tinha de escrever um conto especial para eles, e eram três horas da madrugada.

“Estou muito cansada, é melhor deixarmos para amanhã”, sugeri.

Mas eles não arredaram pé; mostraram-se intransigentes, insistiam.

“Não vai dar em boa coisa, o cansaço é inimigo de todo dote artístico”, eu disse.

Minhas palavras, no entanto, não fizeram eco no ouvido deles. Disseram que você prometera que enquanto a noite durasse, ainda antes do prenúncio das primeiras luzes do amanhecer, eu os surpreenderia com uma obra prima.

“Não acredito que meu amigo Dantas tenha prometido isso a vocês.”

“Não só prometeu, como afirmou que você nos atenderia com grande prazer.”

“Por que vocês não pediram no começo da noite? Seria mais fácil; eu, então, deixaria o champanhe para depois da escrita.”

Em meio a dois ou três spots de luz baixa, a quadros de gosto clássico em que predominavam mulheres nuas, a estofados macios, ao ar frio e a um fundo musical de piano, trouxeram-me um notebook, tão pequenino, incapaz de tapar minhas vergonhas.

“Vamos, há de sair uma bela história”, disse um deles, e ambos sorriram. Completaram os copos com mais uísque.

“E se nada sair?”, indaguei.

“Como nada sair?”, interpelou o de cabelos brancos, “você é capaz de tantas surpresas, é capaz até mesmo de fazer aparecer um veludo azul, traje a rigor.”

Era a cor do vestido com que eu chegara no início da noite.

“Diga-me então uma palavra”, sugeri.

“Amplidão”, disse um deles, “é ideal para uma mulher como você.”

“Não é uma boa palavra”, repliquei, “repita-a algumas vezes, atenha-se apenas ao som, tente despi-la de todo significado, repare que ela terá apenas um eco vazio.”

“Então vá de ‘despi-la’”, falou o outro com certa malícia.

“Também não serve”, eu disse, “a sílaba que antecede o pronome não é boa para a poesia, a letra pe seguida do i parece algo vulgar.”

“Que tal veludo, como seu vestido?”, perguntou o mais jovem, como que lançando uma carta derradeira.

“Sim, veludo”, concordei, “com o final quase inaudível, a letra o se transformando num suave u; veludo, veludo, veludo; uma boa palavra. Veludo que cobre as paredes, os divãs, a pele suave das mulheres, que poderia estar cobrindo meu corpo.”

Deitei a palavra na tela luminosa, e então a narrativa ameaçou expandir-se, como minhas pernas nuas, que escorregavam aos olhares dos dois homens.

Havia algumas horas que eu descera de um táxi na avenida, ante ao imponente prédio onde marcaram comigo aqueles senhores de aparência respeitável. A única coisa que exigiam, ou melhor, as duas únicas coisas eram o perfume francês, de casa centenária indicada por eles, e o vestido curto azul...

Pensei apenas em uma noite de divertimento, de conversas descompromissadas e boas bebidas, mas queriam meus dotes de escritora.

Contei então a experiência dinamarquesa.

Viajei a Copenhague a convite de um ilustre senhor que alguns meses antes ficara maravilhado com a nudez das mulheres brasileiras (assim dizia ele), que encontrara nas belas praias desse imenso litoral. Disse que elas não se vexavam em despir-se para ele, até mesmo sem preço algum. Ao convidar-me, porém, assegurou-me que pagaria todas as minhas despesas. Era assim como vocês, depois que bebia uma ou duas doses, pedia para a mulher tirar toda a roupa. Segundo ele, não havia resistência alguma da parte delas; às vezes as agraciava com algum mimo, mas nada de tão dispendioso; evitava as menores, temia complicações com as autoridades. Nuas, elas sentavam e portavam-se com extrema naturalidade. A única exigência é que pudessem ficar sobre saltos; não dispensavam a elegância. Bebiam, comiam, conversavam e contavam casos.

Cheguei então à Europa; pela primeira vez na Dinamarca, e meu anfitrião esperava-me eufórico no aeroporto.

Fomos para sua casa. Uma casa de dois andares, nos subúrbios, o ambiente tinha um ar de campo, tantas eram as árvores que circundavam as quadras. Logo conheci três moças que ficaram encantadas comigo. Aliás, elas já me esperavam e se mostravam entusiasmadas devido ao que lhes contara meu namorado. Pegaram as fotos que ele fizera quando estivera no Brasil e ficaram comparando com meu aspecto físico, ali junto a elas. Eu não entendia o que elas falavam e perguntavam, mas meu anfitrião traduziu à sua maneira e eu concluí que elas estavam admiradas com meu corpo e que tinham gostado muito das fotos em que eu aparecia de biquíni. A Dinamarca é um país gelado, lá o sol aparece pouco durante o ano; ficaram encantadas porque eu vinha de um lugar onde se podia andar quase nua durante boa parte do ano.

No dia seguinte passeamos pela cidade e paramos em dois parques, verdadeiros bosques, dificilmente encontráveis aqui no Brasil. Como era verão, vi pessoas tomando sol nuas. Tinham a pele branca, bem leitosa, estavam deitadas como se quisessem aproveitar todo o sol que lhes chegava ao corpo. Minhas companheiras – a filha dele e duas amigas dela – insistiram em parar à beira de um lago, onde havia uma grande árvore. Tiraram a roupa e ficaram apenas de calcinha. Todas mostraram os seios sem vergonha alguma. Entendi que desejavam que eu também me despisse. Atendia-as e ficamos sob o sol. Minha pele diferia muita da delas; mesmo sem ir à praia havia um bom tempo, a tonalidade de meu corpo era bem mais escura. Elas mostraram-se admiradas e desejaram ter a pele também da mesma cor. Quem transitava por ali em momento algum nos voltou os olhos. O interessante era que as pessoas ficavam nuas, mas o ambiente era muito natural; o nudismo não significava erotismo, era apenas um encontro com a natureza. Assim como um cão que anda a esmo e ninguém se assusta por ele não trazer roupa alguma, homens ou mulheres nada reparavam naquele local. Meu namorado ainda disse que não havia regras ou leis que proibissem a nudez em público, mas aquela prática era limitada a praias ou a locais como aquele. Por exemplo, ninguém saía nu de casa para ir ao centro ou para comprar alguma coisa no comércio local. Perguntei se era possível passear nua à noite pela cidade, ir sem roupa alguma, dentro do carro, ou mesmo ir a algum lugar afastado para namorarmos ao ar livre. Achou a pergunta e a idéia interessantes; observou que essas extravagâncias aconteciam em maior número entre os jovens, que as pessoas, de modo geral, preferiam os lugares fechados para terem relações sexuais.

À noite, mantive-me contida. Ele convidou-me para irmos a um restaurante. Tomamos vinho francês. Sua filha nos acompanhou; apesar de ter levado um casaco, ela usava uma saia muito curta, usava também meias. Reparei que eles gostam de beber muito; e, quando bebem, ficam muito excitados. Mas temem despir as mulheres, principalmente em lugares públicos. Todas as vezes que me acariciou foi dentro do quarto. Minha idéia de andar pelada pela cidade se concretizou num dos últimos dias. Ele bebera três ou quatro doses de uísque e eu dois cálices de vinho do Porto. Então mostrei a ele que o vestido que eu usava era na verdade uma canga enrolada ao corpo. Primeiro, não entendeu; mas quando ameacei desfazer o nó que segurava o tecido ao lado do meu seio direito, reparou a abertura lateral e mostrou-se muito interessado. Insinuei minha pele por inteiro e ele viu que nada marcava meu corpo por baixo da fazenda fina.

“No Brasil, as mulheres saem assim”, falei. Ele sorriu e retribuiu: “o Brasil é o paraíso.”

Quando deixamos o bar, soltei o pano no banco de trás e sentei nua a seu lado. Pedi que dirigisse por algumas ruas do centro. Em determinado local, fiz que parasse o automóvel e me deixasse só por alguns instantes. “Como? Você pode ser presa.” “Presa?, aqui na Dinamarca?, pois se nunca fui no Brasil.” Falei para que desse a partida e fiquei nuinha atrás de um automóvel estacionado. Ele deu uma volta rápida e retornou. “Agora já posso dizer que sou uma nua internacional.” Sei que se fosse no Brasil, o homem me agarraria e treparíamos ali mesmo, mas esperou chegar em casa. Eu quis sair do carro nua, mas ele não deixou.

Quando me despedi dele no aeroporto, ameacei: ”acho que vou entrar nua no avião!". “Não, por favor, em seu país tudo é permitido, aqui nem tanto...” Prometeu vir de novo ao Brasil, diz que vem no fim do ano; sempre me telefona.

Querido Dantas, já eram cinco e quinze (faltava pouco para amanhecer) quando acabei essa história para seus inquietos amigos. Deixei-a pronta na tela do notebook para que lessem.

Após alguns minutos, um deles falou para mim:

“Acho que você poderia dar mais um tempero.”

“Tempero? Literatura e tempero não combinam.”

“Ah, mas você entende o que queremos...”

Tomei novamente o pequeno computador sobre as pernas e dei o final que os fez – creio eu, pois mais nada reclamaram – satisfeitos.

Chamaram então um táxi e pediram ao motorista que me deixasse em casa.

Quando estávamos quase chegando, ainda enlevada pelo calor da noite, só então reparei que eu ainda ia... , como dizer?, como as meninas se mostram ao sol durante o verão nos parques dinamarqueses. Acho que era esse o final que seus amigos queriam. O motorista, discretíssimo, nem olhou para mim. Ao chegarmos diante do meu prédio, ainda me fez um favor.

Seus amigos são ótimos. Mas, oh, me deram uma canseira...

E gostam mais de histórias do que de mulheres!

Beijos,
Margarida.

PS. Quanto ao vestido de veludo, não se preocupe, pedi à minha secretária para buscá-lo no final da tarde.

sexta-feira, junho 20, 2008

Jazz and blues

Estávamos na praia, na faixa de areia que ficava diante da casa de Júlia. Era um sábado à tarde, o sol brilhava enquanto uma leve brisa nos tocava a pele e levantava a folhagem dos coqueiros. Eu lia um livro, enquanto ela, de óculos escuros, estava deitada em uma espreguiçadeira, de modo que aproveitava para bronzear o corpo. Seus filhos brincavam próximos a nós, faziam montes de areia ou iam até a beira d’água e voltavam com um pequeno balde a respingar. Caíra-me nas mãos um exemplar de um autor gaúcho, livro interessante. Um homem se despencava pela cidade durante um dia inteiro em busca de dinheiro para saldar uma dívida, enquanto a esposa, em casa, esperava-o. Nesse percurso através de cafés, financistas, penhores, casas de jogo, ele se deparava com vários e estranhos personagens, todos pertencentes ao submundo dos “espertos”, aqueles que sempre têm algum negócio a propor. Mas eram homens que mantinham a linha, vestiam-se bem, tinham gestos calculados, mesas certas nos restaurantes, e até havia entre eles certa solidariedade. Trabalho honesto não era profissão de quase nenhum deles. O personagem em questão era funcionário público; no entanto, sua repartição representava o que grande parte desse setor sempre representou para todos: um obstáculo a mais. Eu continuava a leitura, embora o ambiente que me envolvia nada tivesse a ver com o da história do livro; divertia-me torcendo para que pobre homem se saísse bem. Minha amiga, em determinado momento, me interrompeu:

“Graça”.

“Oi”, respondi, olhando em sua direção e fechando o livro.

“Você pretende fazer o que hoje à noite?”

“Está tão agradável a praia, que nem pensei nisso”.

“Vamos ao festival de jazz?”

“Podemos ir, mas e as crianças?”

“Elas ficam sozinhas, a Carolina já tem doze anos”.

“Está bem. Mas aqui está tão bom, quero que a tarde dure bastante”.

“Lembra quando falei pra você que seria ótimo virmos para a casa de praia no feriado? No início você ficou indecisa, agora está gostando".

“Não pensei que a praia estivesse tão boa e pouco freqüentada. Achei que o feriado atrairia muita gente de fora”.

“Não é mais como antigamente. Esse lugar já foi bem cheio em outros tempos, agora anda mais selecionado”.

“E Ana, não quis vir?”, perguntei.

“Minha irmã não gosta de lugares despovoados. Pra ela tem que ter muita gente; apesar de quarentona, quer agitação; sempre paquera um homem ou outro”.

“Gosto dela, é uma boa pessoa”.

“Eu também gosto muito, mas ela não vem porque não quer”.

“E ao festival, vai vir muita gente, não?”

“Deve vir, mas não é um festival comum; o público de jazz é mais requintado”.

“Você conhece alguém que vai estar lá?”

“Você pergunta sobre os grupos de música?”

“Também”.

“Um ou outro de alguns CDs; quanto aos possíveis freqüentadores, conheço muita gente nessa cidade, acho que vamos encontrar uns caras legais, vamos nos divertir”.

Um dos filhos de Júlia, o menino, tinha nove anos; pediu para eu ir até a beira d’água com ele. Embora o mar fosse tranqüilo, tinha medo. Acompanhei-o e acabamos divertindo-nos muito. Se ele já gostava de mim, passou a gostar mais. Depois veio a menina e entrou também. Aprontamos os três muitas brincadeiras.

Quando voltei para junto de Júlia, não consegui mais ler meu livro; as crianças me chamavam para qualquer coisa. Acho que chegaram a pensar que eu era da idade delas.

Em certo momento, a menina falou para mim:

“Tia Graça, você usa um biquíni muito pequeno, até parece de criança”.

Ri muito e deitei-me na cadeira de praia para aproveitar o fim de tarde.

À noite fomos ao festival. Acontecia todos os anos e era um evento nobre na cidade. A administração local transformara um terreno grande, próximo a uma das praias, no que se convencionou chamar “Cidade do Jazz”. Durante quatro ou cinco dias, ocorriam apresentações de grupos musicais em diversos pontos da cidade e à noite, a partir das 8h, o evento principal era nesse grande local. Havia um grande palco e, nas laterais, os bares e restaurantes da cidade montavam seus estandes e suas mesas. O festival reunia muita gente interessada em música. Havia moradores locais e pessoas que vinham de longe. Como à noite a temperatura caía um pouco e era mês de junho, as pessoas se vestiam bem, algumas trajavam até mesmo sobretudos. Era uma boa oportunidade de se tirar roupas de raro uso dos armários e desfilar ante todos os presentes. O festival de Jazz e blues não era um evento popular mas, ali, pouco a pouco assim se transformava; as pessoas gostavam de se passar por gente sofisticada, que acompanhava aquele tipo de música; havia também quem aparecesse por curtição apenas. Mas todos acabavam de algum modo se interessando.

Chegamos ao local por volta das nove horas. As apresentações ainda não haviam começado; ouviam-se sons desconexos vindos de músicos que preparavam seus instrumentos nos bastidores. Eu e Júlia andamos por grande parte do local. Ela, como gostava de roupa curta, viera com uma blusa colante ao corpo e uma saia curta, mas sobre a blusa vestia um casaco que lhe ia um pouco além das coxas. Tinha as pernas cobertas por meias azuis e calçava botas que atingiam quase o tornozelo. Eu ia vestida mais simples, um vestido comum – esquecera ao ir à casa dela de levar roupas mais chiques – e um casaco fino de mangas três quartos. Calçava as sandálias com as quais havia saído pela manhã.

“Viu o Humberto?, ele está lá naquela ponta”, disse minha amiga.

Humberto era um homem forte, cinco anos mais novo que ela, com quem tivera um caso logo após se separar do pai das crianças.

“Ele está sozinho”, ainda completou. “Vamos tomar uma cerveja?” Sugeriu sorridente.

Fomos até um dos bares. As mesas tomavam toda a frente e àquela hora já estavam quase todas ocupadas. Muitos jovens desfilavam de um lado a outro. As moças, principalmente, sorriam muito e conversavam. Suas roupas ora curtas, ora um pouco compridas, eram coloridas, mas tudo ajeitado de maneira muito sensual.

Júlia pediu uma cerveja; perguntou se eu não desejava alguma coisa. Disse que não, ainda era cedo para começar a beber. Com algum sacrifício, conseguimos dois lugares junto a duas moças que se mostraram receptivas a terem duas mulheres como companhia. Quando sentamos, a cortina do grande palco se abriu e a voz do locutor apresentou a primeira atração.

O grupo começou a tocar de forma que logo contagiou a platéia. A maior parte das pessoas estava diante do palco. A prefeitura colocara algumas cadeiras, mas muitos trouxeram cadeiras de armar de casa. Fez-se silêncio durante um tempo e uma mulher negra empunhou um violino, a banda a acompanhou. Após a primeira música, pararam por alguns momentos, foram muito aplaudidos pelo público. A mulher do violino se dirigiu em inglês à platéia, falou algumas palavras elogiosas sobre o local e sobre o prazer de estar apresentando-se ali. Voltaram a tocar.

As moças sorriam em aprovação aos músicos. Uma delas acendeu um cigarro; a outra começara a conversar com Júlia. Humberto, o amigo de Júlia, passou diante de nós e fez menção em parar. Minha amiga o chamou. Ele cumprimentou também as duas outras; conhecia uma delas. Acabei descobrindo que se chamava Marisa. Elas se levantaram e o beijaram. Arranjamos mais uma cadeira e ele se sentou entre mim e uma das moças. Depois, como quisesse falar algo em particular com Júlia, deslocou sua cadeira até ela e ficou a seu lado com o braço sobre o encosto da cadeira, numa posição que o fazia parecer estar a abraçá-la.

“Eu trouxe um baseado e estou doida para acender”, Marisa falou e olhou para os lados como se perguntasse se seria possível fazê-lo ali.

“É melhor em meio ao público, não vai demorar as outras pessoas por também vão estar fumando, espere um pouco”, disse o ex-namorado de Júlia.

Pouco a pouco chegava mais gente. Numa das entradas, dois holofotes deslocavam-se em sentido contrário, proporcionando um bonito efeito luminoso na direção do céu.

Percebi um conhecido que passou do lado de fora do conjunto de mesas; acenou para mim. Correspondi-lhe. Fez sinal de que depois viria falar comigo.

Pedi a um dos garçons uma caipirinha. Os garçons eram rapazes solícitos e bem vestidos, seguindo o estilo daquele bar. Seus cabelos eram cobertos por uma bandana negra, vestiam camisa e avental da mesma cor.
Júlia conversava animadamente com Humberto. As outras duas ora apontavam alguma coisa na direção do palco, ora acompanhavam a música com interesse. Minha amiga interrompeu a conversa e falou para Marisa:

“Vamos lá para o meio da multidão, assim você acende o baseado e eu dou uns tragos”.

“Ótima idéia”, ela falou levantando-se.

“Graça, você pode ficar aqui com ela”, apontou para Célia, a amiga de Marisa, “assim a gente não perde a mesa”.

Fiz que sim com a cabeça. Ela, o homem e a que trouxera o baseado se foram.

Um dos rapazes serviu minha caipirinha. Veio bastante enfeitada, como era tradição daquele bar, estava também muito gostosa. Comecei a tomá-la devagar, procurando saborear a bebida. O álcool logo me esquentou e provocou aquele frisson que sempre surge quando estamos em meio a algo que nos entusiasma. Célia pedira uma cerveja, mas também experimentou um gole da caipirinha.

“Está uma delícia, acho que daqui a pouco vou querer uma”.

“Não vai fazer mal?”

Ela já tomava a segunda lata de cerveja.

“Acho que não, uma só não dá pileque”.

Um rapaz acenou a ela, devia ter uns vinte anos, ela trinta. Subiu ao patamar das mesas e veio até nós.

“Oi, Davi, como vai?”, levantou-se e o beijou. “Aqui está minha amiga... Como você se chama mesmo?”

“Graça, muito prazer”, estendi-lhe a mão de onde estava sem me levantar.

Ele correspondeu, depois sorriu, fez um gesto de que desejava ficar junto a nós.

“Será que eu incomodo?”, perguntou.

“Claro que não, é um prazer ter você com a gente; aqui na mesa há mais gente, mas precisaram se ausentar um pouquinho”, Célia falou e sorriu em minha direção.

O rapaz sentou-se agradecido e olhou em busca de alguém que o atendesse. Apareceu dessa vez uma garçonete. Ela se vestia como os rapazes, mas não parecia trazer calça comprida sob o comprido avental; seus cabelos eram avermelhados e estavam presos em forma de rabo de cavalo.

“Bom grupo esse que está tocando, não?”, falou Davi, como se quisesse puxar conversa. “Está contagiando o público, a violinista é muito boa”.

Todos olhamos para o palco concordando com ele.

“Acho que conheço você de algum lugar”, falou voltando-se para mim.

“Pode ser”, sugeri, enquanto suguei pelo canudinho mais um gole da caipirinha.

Escutamos mais uma série de músicas, apreciávamos a performance da banda. Quando acabaram de tocar, as luzes do palco se acenderam. A mulher agradeceu muito e apresentou os outros músicos. Fingiram que se retiravam, mas devido aos aplausos incessantes voltaram para o bis. Quando acabaram, a cortina se fechou sob mais aplausos, enquanto a voz do apresentador anunciava que dentro de instantes teríamos a próxima atração.

Júlia, Marisa e Humberto voltaram para a mesa. Pareciam muito alegres e entusiasmados.

“Ah, estava ótimo o baseado”, disse Júlia para mim, “foi maravilhoso, e olha que estamos ainda no começo”.

Célia apresentou seu amigo. Marisa foi quem demonstrou mais interesse por ele. Aliás, é bom explicar aqui: ela já não era jovem, mas jovial. Descobri logo que gostava de rapazes. Talvez isso disfarçasse sua idade. A maneira de ela se vestir também revelava que não deixara totalmente a adolescência. Lembro que depois disse isso a Júlia, que retrucou: “e quem deixou?”. Talvez tivesse um pouco de razão.

Todos sentaram de novo, arranjamos mais uma cadeira. Ficamos conversando de modo que se formaram dois pares: Humberto e Júlia, Marisa e Davi. Eu e Célia ficamos à parte, mas os quatro, vez ou outra, tentavam nos incluir na conversa.

Nesse momento, o fluxo de pessoas era maior. Enquanto durava o intervalo, muitos procuravam os bares; outros iam em direção às outras partes do terreno. Descobri que havia estandes de venda de camisetas, CDs e que, próximo à entrada secundária, numa casa que parecia ser da administração, pequenos grupos de jazz e blues se apresentavam seguidamente, num show mais intimista.

Aquele conhecido que me acenara acabou por aparecer junto a nós. Apresentei-o a todos. Perguntou se incomodava caso ficasse em nossa companhia. Educada, disse que não, mas tentei deixar no ar um pouco de frieza; não o queria ao meu lado durante toda a noite. Sentou-se e pôs-se a conversar. Célia aproximou-se e deu mais atenção ao homem. Os dois deviam ser mais ou menos a mesma idade, lá pelos trinta ou trinta e dois anos.

A segunda atração fez a platéia assistir ao espetáculo de modo silencioso. O grupo era composto por três músicos e uma cantora. As canções eram estilo jazz-bossa, e a cantora se apresentou sentada num banco comprido; pode-se dizer que o show era cool, mas todos davam mostras de estar gostando muito.

Ficamos assistindo a distância. O barulho do bar onde estávamos e a circulação das pessoas atrapalharam um pouco a recepção daquele tipo de música. Não seria ainda dessa vez que Marisa e Júlia se aventurariam no meio da multidão para fumar um novo baseado. Pedi mais uma caipirinha e, quando olhei à esquerda, vi Júlia beijando Humberto na boca. Os outros conversavam e ouviam o show ao mesmo tempo.

“Nós vamos dar uma volta”, disse Marisa e arrastou consigo Davi.

“Não desapareça, olha o nosso trato”, falou Júlia.

O trato estava claro a todos, amigas de baseado.

Eu bebia minha caipirinha. Júlia mantinha-se agarrada a Humberto; parecia que as cervejas já faziam algum efeito. Ela se mostrava lânguida, sensível às carícias do homem. Célia discutia com Jorge, o meu conhecido. Falavam sobre o significado da palavra jazz no presente. O rapaz afirmava que o estilo significava tudo que desse margem a algum tipo de improvisação musical. Célia parecia concordar, mas dizia que, para ela, o jazz tinha que ser o autêntico, aquele dos negros americanos. O máximo de concessão que fazia era para Chet Baker.

“O estilo deles é inimitável, já não existe nos dias de hoje”, afirmou.

O rapaz devolveu que poderia não existir o jazz do jeito que eles interpretavam, mas que havia muita gente boa, principalmente em Nova York. Quando falou no nome da cidade, parece que causou um certo encanto em Célia. Ela então perguntou se ele já estivera lá.

A segunda apresentação acabara e o número de pessoas continuava aumentando. Os bares tinham gente por todo os lados, inclusive nos balcões; os empregados demoravam para atender. Humberto conseguiu mais uma cerveja e Célia pediu dessa vez a caipirinha.

Quando começou a terceira apresentação, executada por um ágil grupo de blues, os quatro já se mostravam muito entusiasmados, queriam dançar. Pediram a mim que tomasse conta da mesa e se foram novamente para junto do palco. Aconteceu então algo interessante. Uma moça, quase menina, perguntou se podia sentar com o grupinho dela nas cadeiras vagas. Eu disse que sim, mas só enquanto meus amigos não voltavam. A mais jovem devia ter uns dezesseis anos, acendeu um cigarro. Antes perguntou se o cigarro incomodava; ofereceu um também a mim.

“Obrigada, tenho aqui”, peguei um e acendi.

Ela puxou conversa; disse que não entendia muito aquele tipo de música, mas que estava gostando, que dali em diante ia procurar se interessar mais. Não sabia que existia tanta gente ligada em jazz e blues. Observou que as pessoas eram de boa aparência e bem vestidas.

“Parece até que estamos num outro país, nunca vi tanta gente bonita”.

Tomei mais um gole da minha bebida. Ela falou:

“Tudo, menos bebida alcoólica, não desce”, sorriu depois da última palavra. O grupinho conversava animado, o mais velho apontava para a banda e explicava para o colega ao lado alguma coisa que eu não ouvia.

“Meus amigos não são agradáveis?”, segredou-me a pergunta; continuou: “conheci-os ontem, ficamos juntos o dia inteiro; e, em doze horas, já namorei dois deles”.

“Não houve confusão?”, eu quis saber.

“Confusão, como?”, pareceu não entender.

“Isso não gera ciúmes entre eles?”

“Ah, não, eles nem querem ter ninguém por muito tempo, gostam que seja assim, são muito amigos”.

Olhei em direção ao público, depois levantei a cabeça e soltei a fumaça do cigarro.

“A senhora não tem par?”

Achei engraçada a palavra senhora, mas não quis decepcioná-la.

“Até agora, não.”

“Se quiser, arranjo alguém, quer?”

“Verdade?”, eu incentivava.

“Verdade!, não acredita?”

“Acredito, então arranje”, embarquei na fantasia.

Ela olhou em meio às pessoas que iam lá junto ao balcão do segundo bar. Disse de repente:

“Espere um instante”.

Levantou e se afastou; não demorou a voltar com um rapaz tão jovem quanto ela. Depois descobri que ele tinha vinte anos.

“Aqui está seu jovem apaixonado”, disse entregando-o a mim.

Ele sorriu, aproximou-se e me beijou na boca. Então falou:

“Sua caipirinha deve estar ótima, vou pedir uma pra mim”, sentou-se ao meu lado e permaneceu ali, com o braço envolto em meu ombro.

Comecei a aproveitar a festa tanto quanto aqueles jovens. Agarrei o rapaz e ficamos nos beijando por longo tempo. Ele parecia ser hábil na arte de amar, tinha as mãos delicadas, sabia tocar meu corpo. Logo me pôs num fogo que eu não sabia para onde correr. Se o lugar não tivesse tão cheio, já estaríamos num outro tipo de relação.

Quando meu grupo voltou, pedi que eles levantassem. Júlia parecia estar excitadíssima, e vinha agarrada a Humberto. Marisa viera junto com Davi e Célia também se acertara com o outro homem.

Falei:

“Agora sou eu que vou me divertir um pouco”, e segui o grupo de jovens, agarradinha a meu recente namorado.

Nas duas últimas apresentações, dançamos muito. O jazz não costuma ser um ritmo dançante, mas em meio a todo aquele som arranjamos um jeito. As outras pessoas, da mesma forma, não ficaram para trás. Quando vinha do palco o som de blues, principalmente o mais recente, que é muito semelhante ao rock clássico, dançávamos com mais ímpeto.

Antes da última apresentação, voltamos à mesa onde ainda se encontravam meus primeiros amigos.

“Graça, ainda bem que você voltou, preciso de um favor seu”, Julia falou.

“Pois, peça”.

“Vou sair daqui a pouco com o Humberto, mas não vou pra casa. Ainda vamos andar um pouco por aí, ele está de carro. Será que você pode voltar pra lá e ficar com as crianças? Elas devem estar dormindo”.

Olhei para o meu pequeno grupo. Eles não me abandonavam. Acho que pensavam que eu pudesse ser uma tia mais velha. Júlia pareceu entender.

“Quando acabar, pode levá-los todos para lá, se quiserem. Mas peço que não façam barulho, nem muita extravagância”.

“Você já sabe qual é a nossa extravagância predileta, não?”

“Ah, imagino. Tanto que não acordem as crianças...”

“Tudo bem, vou falar com eles”.

“Vou te pedir mais um favor”, ainda disse, “leve essa sacola pra mim”.

“O que tem aí?”

“Depois você olha”.

Ainda nos divertimos muito durante o último show. Mas o jazz foi tradicional, estilo dos grandes clássicos. Aplaudimos muito quando acabou.

Ao sairmos, eles já sabiam para onde iríamos. Na casa de Júlia, fizemos uma outra festa.

Logo que entramos, um deles acendeu um baseado.

“Por favor, fume isso lá fora, aqui tem criança” falei em surdina.

Fumaram na varanda.

Servi alguma coisa para eles comerem. Também havia umas bebidas na geladeira. Todos namoramos. Espalhamo-nos pela sala, pela varanda, e houve quem fosse para as areias da praia, que ficava bem diante da casa.

Durante duas ou três horas os pares se agarraram e namoraram em silêncio. Mas apenas minha primeira amiga, aquela que me trouxera o rapaz, ficou nua, e só da cintura para cima. Os outros, se transaram, fizeram-no sem tirar a roupa.

Eu e meu namoradinho também aproveitamos a oportunidade. Nunca beijei tanto nem fui beijada tantas vezes como naquela madrugada. E nosso contato foi mais vibrante quando nos enfiamos sob um edredom.

Depois que se foram, já quase ao amanhecer, lembrei-me do embrulho de Júlia. Abri-o. Toda a roupa que ela vestira estava ali, com exceção do casaco.

Encerro aqui a novela iniciada em A galeria. Se tiver de dar um nome ao conjunto, será o mesmo desse último capítulo. Nada impede, no entanto, que os seis segmentos sejam lidos como contos independentes.

terça-feira, junho 03, 2008

Namorado

“Graça, eu queria pedir a você um favor”.

Era uma quarta ou quinta à tardinha; Jackie entrou na loja olhando para os lados e de maneira atabalhoada.

“Alguma coisa em que eu possa ajudar?”, perguntei.

“Claro, você pode ajudar e muito”.

“Tenho um ou dois modelos que vão ficar ótimos em você”.

“Não, Graça, não é isso; hoje não entrei para comprar roupa, vim apenas pedir um favor”.

“Claro, pode pedir”.

“Você lembra o último sábado?”.

“O último, Jackie, nem sei; deixe ver...”

“Eu ajudo; você estava com um rapaz no principal restaurante da orla, está lembrada?”

“Ah, sim, agora lembro”.

“Você estava no mesmo restaurante que eu!”, falou.

“Estava? E o que tem?”, perguntei um tanto ingênua.

“Vai dizer que você é tão inocente, Graça?”

“Como assim? Não estou entendendo”.

“Você me viu, não? Eu estava com um homem assim assim...” e fez uns gestos como se quisesse transcrever através das mãos o aspecto do homem.

“Agora, lembro”, acabei por concordar, “acho que vi você; mas nesta cidade todos se encontram”.

“Mas não era para encontrar”.

“Como?”, acabei ficando curiosa.

“É que eu não podia estar com aquele homem naquele momento e naquele lugar”.

“E por que você foi logo para o principal restaurante da cidade?”

“Não sei, um momento de loucura, talvez”.

“Acho que já entendi”, disse a ela e sorri. “Sou uma pessoa discreta, você sabe”.

“Eu deveria ter ido com ele para Rio das Ostras”.

“Querida Jackie, vou lhe revelar uma coisa. Nunca leve um namorado para Rio das Ostras. O resultado será negativo. Enfurne-se num hotel daqui mesmo e fique por lá algumas horas. Assim será mais difícil que a descubram”.

Ela pôs-se a rir e não demorou a dizer:

“Graça, você é muito esperta, adoro você. Mas veja bem, sou dona de uma pousada. Sé é para ficar num hotel, fico por lá mesmo”. Arremessou um beijo e partiu.

Minha amiga era dona de uma pousada, aliás, ela e o marido. Mas não estavam se dando bem ultimamente. Descobrira que ele saía com outra. Ela, Jackie, decidiu então fazer o mesmo. Só que era uma mulher atabalhoada; naquela altura todos na cidade já sabiam do caso que estava tendo. O pior é que o homem era um hóspede constante da pousada e conhecia seu marido.

Passou a se relacionar com o amante ali mesmo. Certa vez me disse que bateu nua à porta dele e, quando estavam em plena atividade, pressentiu que o marido chegava a casa. Segundo ela, conseguiu escapar; mas por pouco ele não a surpreendeu.

A cidade era cheia de acontecimentos desse tipo; e quando alguém sabia uma novidade, aparecia para dar a entender que estava por dentro de tudo e que até mesmo recebera confidências da própria protagonista. Eu nada falava, porque minha profissão exigia polidez, caso quisesse manter a clientela.

Havia casais que não se divorciavam porque não queriam dividir bens ou propriedades. Para eles, era mais adequado que cada um tivesse sua vida amorosa e não comentasse nada com pessoa alguma. Mas às vezes aconteciam alguns escândalos. Sobretudo quando eram mulheres que descobriam com quem o marido saía. Iam até a amante e agrediam-na através de palavras ou mesmo fisicamente. Por isso eu também precisava tomar cuidado, tanto mais quando homens bem mais velhos que eu se colocavam à minha procura. Quando eu saía com alguém assim, nada perguntava sobre sua vida particular; não me interessava. Nunca quis nenhum relacionamento sério e quanto menos soubesse sobre o outro, melhor. Depois que presenciei alguns fatos desagradáveis, passei a tomar minhas precauções. Era preferível namorar homens de outras cidades.
Alguns dias depois, uma cliente me convidou para uma festa. A comemoração ocorria num restaurante mexicano que, como quase todos os bons restaurantes da cidade, situava-se próximo à orla marítima. A aniversariante reservara uma grande parte do local; convidara praticamente todas as amigas. Sentei ao lado de uma que se chamava Deise. Pediu uma tequila com suco de laranja e logo se mostrou muito excitada. Começou a contar sobre todos os homens com quem já saíra (mas sem citar nomes); solteiros e casados; sabia quem gostava de mulher e quem não; também conhecia as lésbicas. Em determinado momento falou sobre um caso que tivera recentemente com uma pessoa importante. Num dos encontros, ele apareceu com a esposa. Ela, a mulher que nos contava o caso, tentou esconder-se, mas a tentativa foi vã. Quando temia um grande escândalo, o homem lhe disse que não se preocupasse, porque viera para lhe fazer uma proposta.

“Qual proposta?” alguém à volta perguntou.

“Vocês querem mesmo saber?”

As mulheres que acompanhavam a narrativa olharam-na com curiosidade; ela continuou.

“Ele queria trepar comigo e com a esposa ao mesmo tempo”.

“E o que você fez?”, perguntou a mais curiosa.

“Trepei”.

Todas caíram na gargalhada. Quem estava mais distante quis que a história fosse repetida. A narradora, não abriu mão de um princípio básico: não disse o nome do amante nem o da mulher dele.

Uma outra relatou a história de uma professora que tinha um amante e era constantemente agredida pela esposa dele. Certa vez, quando saía do colégio onde trabalhava, viu a mulher caminhando em sua direção. Tentou voltar, mas era tarde. Foi agredida, caiu no chão e se sujou toda, pois vestia uma calça branca. Voltou então à escola para se recompor. Quando alguém perguntou o que acontecera, as próprias amigas correram em seu socorro: ”há uma mulher louca na cidade que sempre bate na fulana quando a encontra; é uma coisa inexplicável”. E ela mesma, sem graça, concordou com apenas um monossílabo: “é”.

Entre as presentes na festa de aniversário, podia-se notar uma grande quantidade de mulheres que não tinha marido nem namorado. Reclamavam que os homens estavam em falta na cidade.

“Não só na cidade, mas em todo lugar”, alguém afirmou.

Eu não me preocupava com esse problema, porque sempre havia algum homem atrás de mim. Na maioria das vezes era eu que o recusava.

“Por isso acho certo o que faz uma amiga”, disse uma loura de mais ou menos uns trinta e cinco anos, “quando percebe que alguém está interessado nela, logo aceita a companhia e até mesmo trepa na primeira vez que sai com ele”.

“Na primeira vez? É muito perigoso”, interferiu a que estava quase ao lado da aniversariante.

“Eu não vou pro motel na primeira vez, mas essa minha amiga vai, e acho que não está errada; do jeito que os homens estão em falta, não se pode perder a oportunidade”.

“Mas há alguns que são loucos; hoje em dia tudo é muito perigoso”.

“Viver é perigoso, como sempre se ouve por aí, e não vai ser um homem que se conhece pela primeira vez que vai tornar a coisa pior”.

“Se você fala, assim, por que não trepa na primeira vez?” quis saber a que dialogava com ela.

“Bem... Vamos ver...”

“Ela falou sobre uma amiga, mas acho que não há amiga alguma; ela mesma é que vai logo de primeira” sorriu a que sentava no lado oposto.

Todas rimos, enquanto o garçom chegava com uma bandeja cheia chopes e duas caipirinhas.

“Cuidado”, disse a que estava ao meu lado direito, creio que se chamava Ana, “dizem que há um estuprador na cidade”.

“Ah, se há, quero que me encontre e me estupre”, afirmou a loura.

“Há um outro que, dizem, está deixando as mulheres nuas!”

“Tanto que me coma antes, não há problema algum”, concluiu ainda a loura.

Na final da festa Jackie – ela também estava lá – veio em minha direção. Primeiro me beijou, depois falou:

“Graça, preciso de um favor teu”.

“Fale”.

“O Gustavo vem me buscar; você pode ficar um pouco comigo?”, Gustavo era seu amante-namorado.

Andamos em silêncio pela orla. A temperatura era amena. Acendi um cigarro enquanto o esperávamos.

“Vou te pedir mais um favor”.

“Mais um?”, retruquei.

“Só mais unzinho, ta?” Falou em tom carinhoso. “Você fica com a gente? Assim não haverá margem para suspeitas. Se alguém nos vir, pode pensar que o namorado é teu”.

“Você ainda vai demorar, por aqui?”

“Não, talvez uma meia-hora”.

Concordei. Ela ficou exultante.

Quando o homem chegou e ela apresentou-o a mim, pusemo-nos a caminhar na direção do Confort. Quando terminou o calçamento, ambos desceram para a faixa de areia.

“Você vem conosco?”

“O que você acha?”, perguntei.

“Quero que venha”, disse e me lançou o olhar em tom de súplica.

Caminhamos cerca de trezentos metros.

De repente, ela pediu que ele se destacasse um pouco adiante, virou-se para mim e fez mais um pedido:

“Você fica aqui e toma conta da minha roupa?”

Antes que eu respondesse, já havia tirado o vestido.

“Jackie, você é louca!”

“Estou muito excitada, deve ter sido a bebida, vai ser rapidinho...”

“Está bem”, sentei-me na areia enquanto ela se foi na direção do homem, vestia apenas a calcinha.

Voltou depois de quarenta minutos. E voltou nua.

Depois desse dia, tornou-se ainda mais minha amiga. Preferi, no entanto, manter alguma frieza em relação a ela. Temia que a cumplicidade pudesse me trazer complicações.

quarta-feira, maio 21, 2008

Corpo e prazer

Outro dia apareceu na loja um rapaz. Não tinha a intenção de comprar coisa alguma. Foi até lá para conversar um pouco e me emprestar um livro. Havia uma ou duas semanas que o conhecera num dos bares da orla enquanto bebia ou comia alguma coisa com uma amiga. Na verdade, era um colega dela. Apresentou-me na ocasião e ele ficou um pouco entre nós. Soube que era professor de literatura. Perguntei que tipo de livros costumava passar para seus alunos. Ele me respondeu que dependia da série e da escola. Eu disse que gostava de ler, mas sem compromisso. Então apareceu na loja para me levar um livro.

“Você gosta muito de ler, todos deveriam ser como você, assim o mundo seria mais interessante”.

“Você acha?”, repliquei.

“Não acho, tenho certeza”.

“Os professores têm muitas certezas”, deixei escapar.

“Ora não pense assim, os professores são as pessoas mais confusas que existem, jamais confie neles!”.

Sorri e achei que ele poderia ser alguém interessante.

“Olha”, falei, “leio qualquer coisa que me caia nas mãos; outro dia li a vida de Charles Chaplin”.

“Deve ser muito interessante, nunca li nada sobre ele”.

“É interessante, sim”.

Ao observar que alguém entrava para ver alguma roupa, deixou o livro e se foi. Fez sinal que qualquer dia voltava.

Li o livro que ele me emprestou. Livro interessante. Nada tinha a ver, creio, com sua profissão, e não era um livro a ser aplicado em escola. Tratava-se de um romance de uma escritora inglesa. A história tinha algumas idas e vindas e eu me deliciei naquele clima tortuoso que envolvia vários personagens e vários períodos do século XX.

Dias depois, apareceu de novo. Mas não pudemos conversar muito porque a todo momento entrava alguém para perguntar alguma coisa. Deixou um bilhete com o número do telefone. Numa outra vez, quando ele apareceu para uma visita rápida, também dei o meu número.

Encontramo-nos fora dali para um passeio e um chope numa noite de sábado.

Enquanto bebericávamos, começamos a conversar sobre livros.

“É difícil encontrar alguém que leia bastante e saiba conversar sobre o que está lendo”, ele disse. “As pessoas estão mais ligadas nas imagens”.

“Imagens? Como assim?”

“As pessoas estão mais fascinadas pelo mundo do áudio-visual, como cinema, DVD, computador etc.”

“Quanto aos outros não sei, mas gosto muito dos livros. Se o assunto me agrada, leio; não tenho método, nem pretendo ter. Ah, outra coisa, não gosto de jornais, quase não os compro”.

Ele ficou a me olhar, depois seus olhos se puseram distantes. Comecei a pensar se me desejava ou se estava ali apenas para conversar.

“Os livros fazem as mulheres mais belas”, falou.

Fiz-me de desentendida. Levou o copo à boca e completou:

“As mulheres que leem muito são fascinantes”.

“Não são todos os homens que pensam assim. Tive um amigo que só gostava de mulher que bebia o tanto quanto ele. Se ela ficasse num bar horas a fio e saísse quase bêbada, ele se apaixonava. Nunca leu sequer um livro nem desejou mulher fora desse círculo”.

“É verdade, não se pode generalizar”.

“Sabe, às vezes não me agrada falar para as pessoas das coisas que gosto; isso revela como sou. Não desejo que as pessoas me invadam; guardo muito a minha privacidade. Quando revelamos o que lemos ainda é pior, a outra pessoa, caso seja um pouco inteligente, logo deduz o tipo de pessoa que somos”.

“Interessante seu raciocínio, não tinha pensado ainda sobre isso. Então, quer dizer que você não gosta de se revelar...”

“Não”.

“Dizendo isso, você já está se revelando. Sinto muito, não vou perguntar mais”.

“Não precisa ficar aborrecido, é apenas uma colocação que gosto de fazer; amo estar comigo mesma”.

“Você não se sente muito só, desse modo?”.

“Às vezes, sim, mas faz parte da vida”.

“Existem pessoas que não suportam a solidão”.

“Não é solidão”, repliquei, "trata-se de um estar-consigo, ter prazer pela própria companhia e fazer as coisas de modo gostoso, sem precisar preocupar-se...”

“Não seria muito egoísmo de sua parte pensar assim?”.

“Não acho, não estou fazendo mal a ninguém...”

“Não se trata de fazer bem ou mal; se alguém se interessar por você e desejar sua companhia?”

Comecei a perceber quais eram suas intenções. Sorri, acendi um cigarro, dei um longo trago e soltei a fumaça com a cabeça inclinada um pouco para cima, depois respondi:

“Não sei, por acaso há alguém aqui interessado em mim? Caso a resposta seja positiva, não precisamos de tantas máscaras ou tantos livros...”

“Bem, você está sendo um tanto rápida, eu não tinha pensado nisso”.

“Eu, rápida?”, sorri e desviei meu olhar para um ponto indefinido. Depois acrescentei: “me acho tão lenta, preguiçosa”.

“Não é isso, de modo algum. Não estou aqui com a intenção de dar uma cantada em você, no caso seria uma cantada um tanto intelectual; minha intenção é apenas conversar com alguém interessante e, no fundo, manter a amizade”.

O garçom chegou trazendo mais dois chopes. Experimentamos a bebida quase simultaneamente. Meu recente amigo falou, talvez sem pensar:

“Amanhã vou ao Rio, pensei em convidá-la, mas devido a seu trabalho acho que você não pode, não é mesmo?”.

“Não é que eu não possa, se a viagem for marcada com antecedência...

“Ah, me desculpe é que pensei que você trabalhasse todos os dias...”

“Lógico que trabalho, mas se você quer me convidar precisa perguntar com antecedência, posso dar um jeito”.

“Verdade?”

“Claro, por que não?"

Não sei se ele queria na verdade convidar-me, ou se falava aquilo apenas para esticar a conversa. Achei que poderia ter um compromisso com outra mulher e por isso não me desejava a seu lado no Rio. Quando voltou, alguns dias depois, foi à loja e deixou um embrulho, que veio numa bonita sacola. Eram livros que ele me trazia de presente. Abri o pacote e me pus a manuseá-los. No da seguinte, telefonou. Marcamos um novo encontro.

O dia fora quente. Apesar da brisa que vinha do oceano, o calor de todo não se dissipara naquele entardecer. O sol se punha, e seus raios, já avermelhados, brilhavam sobre a superfície do mar. Aves brancas planavam rente ao espelho d’água; vez ou outra uma delas mergulhava para reaparecer num voo leve e límpido alguns segundos depois.

Estávamos nas imediações do Tênis e caminhamos em direção ao Sul. Quando o passeio e a ciclovia terminam e dali em diante se estende a grande faixa de areia, paramos e ficamos a apreciar toda a paisagem. Incentivei-o a continuar a caminhada, agora sobre as areias; despi as sandálias e desci a pequena escada que separa o calçamento do trecho da praia. Ele acompanhou-me, mas continuou calçado; pisava devagar, mantendo um equilíbrio precário, tentava evitar que os sapatos se enchessem de areia. Adentramos por cerca de quinhentos metros a área deserta. Depois paramos, virados para o mar, enquanto a noite caía e as luzes da orla, já distantes, reluziam como vaga-lumes.

“Esse lugar me faz lembrar uma namorada que tive quanto comecei a trabalhar nessa cidade”.

Pelas palavras dele, percebi que não tinha outras intenções em relação a mim que não fosse apenas a amizade. Não traria outra mulher ao nosso encontro, mesmo que feita de palavras, caso me desejasse. Ou seria inábil ao extremo.

“Uma namorada?”, incentivei-o a falar.

“Isso; uma pessoa que conheci quando cheguei aqui”.

“E o que houve?”.

“A maioria dos homens não gosta de falar sobre os próprios fracassos; mas vou contar a você. Sabe, até pensei em escrever sobre isso, mas o tempo passou e tudo ficou apenas como lembrança”.

“Quem sabe, ainda é tempo”, quis incentivá-lo.

“Os romances de amor muitas vezes têm um tema muito banal, mas acabam por fazer sucesso, você não acha?”.

“Sim, é verdade”.

Ele então começou a contar sua história.

“Cheguei nessa cidade em março do ano 2000, vim sozinho, fiquei a princípio num hotel. Trabalhava três dias na semana, dias seguidos. No último, voltava ao Rio, porque tenho lá um apartamento. Na semana seguinte estava eu aqui de novo, me hospedava no mesmo hotel. Num encontro de professores, conheci uma mulher que também era professora e fora nomeada pela prefeitura havia pouco. Embora ela lecionasse em outra escola, ficamos amigos. Almoçamos juntos no primeiro encontro, ela me deu, então, o seu número. Passamos a conversar e marcamos outro encontro. Ela compareceu toda animada. Descobri que também se hospedava num hotel. Começamos a nos encontrar todas as semanas, de repente ela passou a ficar no mesmo hotel que eu. Vinha de Niterói, para cumprir o seu horário bastava dormir duas noites aqui na cidade. Logo começamos a ter um caso. Apesar de ser casada, como me contou à época, seu relacionamento com o marido não ia bem; estavam para se separar. Alguns meses depois, aluguei um pequeno imóvel num prédio residencial próximo ao centro. Aí  ela passou então a dormir comigo. As noites em que permanecíamos na cidade, vivíamos um relacionamento ardoroso. No final daquele mesmo ano, ela realmente se separou. Nosso namoro se tornou mais constante e ela começou também a frequentar o meu apartamento do Rio. Mas sua vontade era morar em definitivo em M. Começou a procurar apartamento, pois achava que não poderia ficar no mesmo lugar que eu. Alegou que deixaria de vez Niterói. Uma vez que possuía muitas coisas, traria tudo para cá. Conseguiu um imóvel pequeno, próximo ao meu, e se mudou. Continuamos a nos encontrar, ora no apartamento dela ora no meu. Mas depois houve um período em que nos distanciamos. Ela, então, conheceu outra pessoa, alguém que morava quase ao lado. Daí para ficarem juntos não passou muito tempo. Acho que hoje estão casados”.

“E você, não quis se casar com ela?”

“Acho que o problema foi esse. Eu tinha saído de um relacionamento difícil e não queria casamento, pelo menos naquele momento”.

“Você não sofreu com isso? Já passaram alguns anos e do jeito que você conta parece que ainda tem mágoa”.

“Sofri no começo, mas depois vieram outras mulheres e tudo se resolveu. Tive uma mulher melhor que ela”.

“Essa história, bem contada, dá um romance”.

“Na época pensei em escrevê-la, depois, porém, perdi o entusiasmo. Hoje, quando me lembro de tudo, sinto que seria interessante escrever um romance ambientado aqui na cidade; mas não sei se teria condições”.

Voltáramos a andar pela praia; envolvidos pela conversa, atingíramos o outro extremo da faixa de areia, quase junto à lagoa.

“Está deserto aqui”, falou.

“Não creio que tenhamos problemas”.

Começamos a fazer o caminho de volta.

“Sabe o que me atraiu muito nela?”, continuou.

Virei o rosto a ele para demonstrar que o ouvia.

“Numa de nossas noites, descobri que ela tinha mais prazer caso eu me tornasse violento?”

“Como assim?”

“Numa das primeiras vezes, dei-lhe um ligeiro tapa. Aí passou a pedir que eu lhe batesse com mais força, até mesmo com o cinto.”

Apenas sorri. Ele ainda acrescentou.

“Na manhã seguinte, dizia que estava muito dolorida. Pedia para ver se havia marcas sobre as partes do corpo que ficavam descobertas. À noite, no entanto, queria de novo que eu a maltratasse. Pedia sempre que eu fosse cada vez mais violento, sobretudo no momento do orgasmo”.

Quando beirávamos o hotel Confort, voltamos ao calçamento da orla. Permanecemos então num pesado silêncio.

“Espero não ter estragado nosso passeio contando a você estas coisas”.

“Não, não; achei interessante”.

“Jura?”, ele quis saber.

“Juro”.

“E você?, me fala alguma coisa...”

“Eu?, não sou muito de falar”.

“Vamos beber alguma coisa?”

“Vamos”, concordei.

Durante boa parte do tempo em que permanecemos no pequeno restaurante, não voltamos à história que me contara. Mudou de assunto, falou sobre romances que lera e acabou por dizer que a literatura não deveria ser ensinada nas escolas, pois concluiu que as escolas destruíam tudo o que era bom.

“Quando você começou a gostar de ler?”, ele quis saber.

“Quando era bem menina. Sempre procurei os livros por minha conta. Hoje não sei dizer o papel da escola na minha vida, ou dos professores; nem mesmo tenho uma profissão em que se precise ser intelectual”.

“Intelectual?”, ele riu. “Você acha que eu sou intelectual?”

“Todos que trabalham com o intelecto são intelectuais, não?”

Riu de novo e falou:

“Nesse sentido, sim. Mas você não acha que as pessoas hoje em dia estão muito ligadas no corpo?”

“Sempre estiveram; você, não está também? Pois acabou de contar sobre uma relação de amor entre um homem e a mulher em que o corpo e a dor estavam em primazia...”

“Boa palavra: primazia”.

Depois de ter bebido dois dedos do chope, acariciei-lhe um dos braços e disse, enfim:

“Olha, sabe de uma coisa, você precisa ser mais carinhoso!”, comecei a rir.

Mas não nos beijamos ainda naquela noite.

quarta-feira, maio 07, 2008

Uma amiga em Rio das Ostras

Certa vez fui a Rio das Ostras visitar uma amiga. Ela morava numa casa linda, bem de frente para a praia. Era uma tarde de sábado, o dia fora de um sol intenso. Pusemo-nos a conversar sobre vários assuntos. Mas o que mais agradava a ela era falar de um senhor de quase setenta anos, que fora seu amante e ainda trabalhava; ele dava aulas numa faculdade, em Macaé.

“Foi um tempo bom, aquele que passamos juntos” dizia ela, “aproveitamos bastante; eu tinha um medo terrível de que a mulher dele descobrisse e viesse fazer escândalo. Trabalhávamos na mesma faculdade, todos nos conheciam, caso isso acontecesse seria o fim”.

Mantive-me calada enquanto ela continuava a conversa. Não quis perguntar se sabia o estado civil dele antes de começar o relacionamento. Ela parecia ter necessidade de continuar sua história. Mas de repente me perguntou:

“Você já teve um namorado assim?”.

“Assim, como?”, devolvi a pergunta com ligeiro sorriso e com a intenção de ganhar tempo.

“Um homem casado”.

“Quando tenho alguém, normalmente não faço essas perguntas”.

“Não faz perguntas? E se ele for casado? Se tiver o risco de vocês serem descobertos?”.

“Nunca fiz perguntas desse tipo. Às vezes alguém me vem contar alguma coisa, mas faço de conta que não me interesso”.

“Ah, então você faz de conta?” Ela queria que eu confessasse que me interessava pela vida particular do homem que no momento eu poderia ter.

“Na verdade, não quero me casar com ninguém, e não quero ninguém grudado em mim todos os dias”, falei.

“Isso, eu sempre fui assim, acabei ficando sozinha a vida inteira porque também nunca quis casamento. Porém não me arrependo, acho que foi bom”.

Ela servira um café com biscoitos, estávamos no terraço, e dali podíamos apreciar a praia, que era muito bonita. O mar estava agitado e um vento mais forte envolvia o continente num prenúncio de tempestade. Reparou que eu olhava, admirada, toda aquela paisagem; então, continuou.

“Você sabe que já tive um namorado mais novo que eu mais ou menos quinze anos. Foi também uma época boa. Eu tinha uns cinqüenta e ele mais ou menos trinta e cinco. Ele vinha pra cá e nós ficávamos bebendo e apreciando o mar, assim como você está fazendo agora, só que bebíamos uísque. E às vezes bebíamos demais. Ele me agarrava, me beijava e queria me levar nua pra praia. Uma vez fui, só uma vez, mas morri de vergonha. Ninguém nos viu, falei a ele ‘é só dessa vez, hein, não vá me fazer passar vergonha’, e foi tão bom.”

“E por que acabou?”, arrisquei.

“Acabou o quê?”

“O namoro; não era melhor com ele do que com o professor, que era bem mais velho?”

“Ah, sim, era melhor com o rapaz. Mas não sei por que acabou. Nem sei se acabou. Ele desapareceu e eu também não o procurei mais. Acho que deve ter arranjado uma mulher mais jovem, do tipo dele. Engraçado que ele vinha pra cá, tinha tudo do bom e do melhor e de repente desapareceu".

Acendi um cigarro. Sorvi-o longamente e soltei a fumaça. Ela me olhou e disse.

”Você parece uma pessoa feliz, gosto do seu jeito”.

“Será que ele morreu?”, sugeri trágica.

“Ele, quem?”.

“O rapaz”.

“Ah, não. Alguém me veio contar alguma coisa sobre ele, estava tudo bem”.

“Acho que sou feliz, sim”, falei retomando a opinião dela, “as pessoas se admiram; às vezes isso me chateia um pouco. Nos dias de hoje, parece que há um bando de mulheres que não consegue se realizar e, quando elas vêem uma que não é como a maioria, põem-se a admirar...”

“Não estou falando isso por inveja, não, viu? Sempre fui como você, por isso é que gosto de ser sua amiga”.

“Tenho muitos prazeres, procuro vivê-los nas pequenas coisas do dia-a-dia”.

“Você já fez análise?”, perguntou enquanto segurava a xícara com a intenção de tomar mais um gole de café.

“Análise, como assim?”

“Análise psicanalítica.”

“Ah, não, psicanálise não é coisa pra mim, mas acho que até poderia ser legal”.

“Você parece uma pessoa analisada. É uma mulher centrada”.

“Centrada? Eu?”, falei e caí na gargalhada. “Muita gente diz isso, que sou uma mulher equilibrada, ou centrada, nem sei. É muito engraçado, mas eu me acho tão desorganizada, preguiçosa, dorminhoca etc...”
Jussara riu do meu jeito de falar. Depois perguntou se não queria dar uma volta pela praia. Àquela hora o sol já quase se punha e o céu se avermelhava convidativo.

Lá pelas nove da noite, fomos a um restaurante. Não tínhamos fome, nossa intenção era passear, ouvir um pouco de música, já que no local havia música ao vivo, e observar as pessoas.

Jussara pediu uísque, sua bebida predileta. Eu preferi a caipirinha de sempre.

Continuamos nossa conversa iniciada à tarde. Enquanto ela falava, eu reparava o ambiente. Já estivera ali outras vezes, com outras pessoas; amigos, amigas e talvez algum namorado ocasional. O salão ainda não estava cheio. As pessoas chegavam pouco a pouco e se podia notar que algumas eram jovens; a maioria, porém, era de meia-idade. O garçom se aproximou com nossas bebidas. Serviu Jussara em primeiro lugar, depois se virou para mim, colocou o copo sobre a mesa e sorriu antes de voltar-se para as outras mesas.

“O uísque aqui costuma ser bom”, ela falou.

“Você gosta de uísque, não é mesmo?”

“Gosto, e tenho que tomar cuidado para não beber demais”.

Peguei meu copo, havia um pequeno canudo; sorvi alguns goles.

“Também já tomei uísque, hoje prefiro uma ou duas doses de caipirinha”.

“Graça, depois olhe à sua direita, há um homem conhecido meu, é engenheiro. Até pouco tempo atrás ele estava casado, mas acho que agora está só, e ele é interessante”.

“Você deve conhecer quase todos por aqui. A cidade não é grande e a população tampouco”.

“Conheço muita gente, mas têm aparecido rostos novos. Essa febre de emprego na região fez muitos se mudarem para cá. A cidade perdeu um pouco da graça que tinha há alguns anos”.

“Já sei quem é”, disse a ela, depois de ter identificado a pessoa a quem me chamara a atenção. “Já esteve lá na loja, mas acho que faz tempo”.

“É um bom partido, você não acha?”

“Não sei, sempre fui muito independente e ele parece ser do tipo galanteador, meio possessivo. Lembro que já conversei com ele”.

“Você fala que sempre foi independente, mas assim acaba não saindo com ninguém”, ela falou enquanto olhava o cardápio. “Não vai comer nada?”.

“Não sei, já lanchei na sua casa”.

“Mas isso foi há três horas”.

“Como pouco, pode ser que eu belisque alguma coisa; peça você”.

O garçom se aproximou novamente e ela fez o pedido.

Som de violão começou a ecoar pelo ambiente; era o casal que estava preste a começar a apresentação costumeira. O rapaz tocava e a moça, com uma voz muito bonita, se fez ouvir. As pessoas olharam para o pequeno palco e houve um momento em que o tom das conversas diminuiu de volume para ouvir a música.

Antes de o garçom trazer a comida, o homem que Jussara me apontara veio até onde estávamos.

“É um grande prazer ver você”, disse a ela.

“Fico feliz também por encontrá-lo, essa é minha amiga Graça, é quase dona de uma loja, em Macaé".

“Oh, me lembro de você, como vai? É um imenso prazer reencontrá-la. Acho que já estive na sua loja”.

Sorri, agradecida. Apertei-lhe a mão.

“Jussara, venha ficar conosco. Espero um amigo, nem sei se ele virá, por enquanto estou sozinho”.

“Fique você aqui, então”, ela o convidou, apontando uma das cadeiras vazias.

Ele olhou para a mesa onde estivera, e depois procurou pelo garçom para dizer que mudaria de lugar; tomou do encosto da cadeira o agasalho e veio juntar-se a nós.

“Espero não estar incomodando”, disse.

“Claro que não, se estivesse eu falaria, você já me conhece de outros carnavais”.

“Ah, é mesmo, de outros carnavais, e também de outras festas”.

“Minha amiga veio passar o sábado comigo, e decidimos vir beber alguma coisa e ouvir um pouco de música”.

Fiz sinal com a cabeça de que concordava com as palavras dela.

“E o trabalho, como vai?”.

“Lá vem você falar em trabalho em pleno sábado...”

“Sei que você adora o que faz, Jussara, não vá ficar aborrecida por causa disso”.

“Na verdade, gosto do que faço; mas quem gosta mesmo é a minha amiga Graça, não é? Ela é tarada por roupas e por aquela loja”.

Ele riu das palavras de Jussara.

“Heitor”, esse era seu nome, “você não vai pedir nada para beber?”

“Vou, mas até vir você ainda não tinha decidido; já que está tomando uísque, e do escocês, vou acompanhá-la”.

Chamou o garçom, pediu que ele trouxesse a bebida. Quando o empregado retornou fez que ele deixasse a garrafa sobre a mesa.

Jussara e o homem conversavam compassadamente. Às vezes ela começava a falar algo, como uma lembrança, ou sobre alguém da cidade que era conhecido de ambos. Então era a vez de ele completar, ou contrapor um assunto paralelo, ou falar também de alguém que achava interessante. Quando sentiu que o momento favorecia, ele revelou:

“Você sabia que eu me separei?”

“Ah, eu pensei que você já estivesse separado há tempos, sempre vejo você sozinho”.

Ele riu, levantou o copo, fez como quem ia tomar um pouco do uísque, mas interrompeu o gesto para dizer:

“Isso mesmo, sempre estou sozinho, então não adianta estar casado, não é?” Acabou por continuar o gesto e bebeu um gole.

“Quer dizer que agora você está livre para amar!” Jussara sorriu das próprias palavras.

Ele colocou o copo sobre a mesa, olhou para os pratos que estavam bem arranjados e creio que se intimidou em apanhar um pedaço do tira-gosto que o garçom acabara de trazer.

“Por favor, queira se servir”, ela disse ao observar o gesto interrompido.

Ele retomou o movimento e demonstrou aprovação pelo paladar do que experimentara.

“E, você, não fala nada?” Ele disse, se dirigindo a mim. Quis que o foco do assunto deixasse de ser ele para se sentir um pouco aliviado.

“Eu?”, ri e também tomei mais um gole da caipirinha.

“Isso, você, você é jovem e muito bonita”.

“Olha, Heitor, que revelação, já está à procura de uma mulher jovem?” Jussara quase o fez enrubescer.

A música tomava todo o ambiente, a moça cantava MPB, e cantava bem; o rapaz no violão era um exímio instrumentista. Olhei para eles, depois me voltei para o homem que nos fazia companhia e disse.

“Obrigada por me achar bonita, não creio que seja unanimidade”.

“Oh, unanimidade”, repetiu minhas palavras, “como não unanimidade, queira me desculpar, não estou lhe fazendo a corte, mas acho muito difícil que um homem não ache a senhorita muito bonita”.

“E seu amigo, será que não vem?”, quis saber Jussara.

“Ele me garantiu que viria, embora estivesse um tanto ocupado com um trabalho para a empresa”.

“Fala um pouco da sua vida de engenheiro, então, vai”.

“Minha vida de engenheiro é muito atribulada, não tenho tempo mais para nada; essa região aqui é muito propícia ao trabalho que desenvolvo, mas é como falamos no início, quase se vive só para isso, para o trabalho”.

“É bom, porque se ganha dinheiro, não?”

“Ganha-se”, respondeu voltando-se para ela, “mas nem tudo é dinheiro, é preciso viver, aproveitar a natureza, fazer umas viagens. Estou sempre adiando as coisas de que mais gosto”.

“Talvez o excesso de trabalho nos faça deixar de lado as pessoas de que gostamos”, arriscou minha amiga, creio que sem pensar.

“Não acho que seja isso que nos afasta. Se gostamos, quando estamos próximo colocamo-nos mais à sua disposição”.

“É, mas um afastamento longo não é bom para a relação”.

“Não tenho ficado no mar muito tempo, e agora, com as facilidades de comunicação, é possível se estar sempre por perto”.

“Mas há mulheres que exigem uma intensa presença física”, disse Jussara.

“Ah, sim, presença física, essa é boa!”, repetiu ele.

“Sabe o que estou querendo dizer com isso?”, ela retomou.

“Acho que sim”.

“Então, mulher que não tem presença física do seu companheiro acaba arranjando outro”, sentenciou.

“E, você”, ele virou-se para mim mais uma vez, “pensa assim também?”

Apenas sorri e fiz um movimento com os ombros.

“Olhem, até que enfim, meu amigo Raul...”

Seu amigo o procurava da entrada do restaurante; quando o descobriu, atendeu a seus acenos dirigindo-se até onde estávamos.

Raul era um homem gordo. Chegou com um cigarro entre os dedos e pareceu não se importar se era permitido ou não fumar no interior do restaurante. Como ninguém reclamou, continuou tranqüilamente fumando.

Depois das apresentações, sentou-se e procurou o garçom; desejava muito um chope. Apesar da temperatura amena, ele parecia sentir calor. Tirou o lenço de um dos bolsos e o esfregou em torno do pescoço.

“Minha amiga tinha acabado de perguntar se a pessoa com quem eu havia marcado não viria; não deixei de dizer que você é uma pessoa que cumpre seus compromissos”.

Ele sorriu.

“Não esperava que Heitor tivesse marcado encontro com duas pessoas tão simpáticas”.

“Oh, você acabou de nos conhecer, como acha que somos simpáticas?”, observou Jussara.

“Dá pra se notar, não diga que vocês não são pessoas adoráveis?”.

“Meu amigo sempre diz que conhece poucas pessoas, que bebemos sozinhos, mas veja, hoje temos companhia”, arriscou Heitor.

“Que bom, fico feliz por todos nós”, deu um largo sorriso e levou aos lábios o copo que o garçom acabara de trazer.

A conversa enveredou por sinuosas vias que privilegiavam o trabalho dos dois homens. Eles pareciam não ter outro assunto. Contavam episódios e atitudes de cada um como feitos monumentais. Como eram engenheiros, não deixavam de valorizar a profissão e a empresa onde trabalhavam.

Heitor começou a contar uma viagem que ambos fizeram com o objetivo de acompanhar o término da montagem de uma plataforma e de seu percurso até o Brasil. Relatava a quantidade de dias em que ficaram no mar, a vagarosidade da viagem e o fato de não haver mulher alguma a bordo.

Jussara, não sei se por pilhéria ou por ser assunto que sempre abordava, foi logo completando.

“Posso imaginar vocês dois quando chegaram, não devem ter feito outra coisa a não ser procurar por mulheres em todos os lugares...”

“Nem tanto”, interrompeu Heitor, “lembre-se de que na época eu era casado e minha ex-esposa me esperava com todo ardor”,

“Ardor?” disse minha amiga e continuou: “Ela deve ter sentido sua falta, mas na verdade deve ter gostado da liberdade de ficar seis meses sem o marido”.

“Você gostaria?”, perguntou ele.

“Você acha que eu não me casei por falta de convite? Sempre havia alguém atrás de mim, mas preferi a vida de mulher independente”.

Eu sabia que aquilo não era verdade. Se o professor que agora ia na casa dos setenta, ou mesmo o homem mais novo que ela dez anos houvessem proposto casamento, ela aceitaria, tenho certeza.

“Eu sei que às vezes é difícil a gente viver só, mas é melhor do que arranjar uma série de aborrecimentos”, Jussara disse sorrindo.

“Não sabia que éramos motivo de aborrecimento”, falou Raul e deu uma estrondosa gargalhada. Um homem que estava na mesa ao lado com a mulher olhou para nós um tanto surpreso e nossos olhos se cruzaram.

A conversa voltou ao assunto que os dois preferiam: o trabalho. Falaram ambos sobre energia, a questão vital segundo eles, a maior necessidade entre todas as outras coisas.

O salão do restaurante já estava lotado. O barulho um tanto exagerado atrapalhava quem quisesse ouvir a cantora. Os que já haviam bebido além da conta eram os mais animados e ruidosos. Jussara tinha o rosto vermelho, parecia satisfeita, ouvia o que os homens falavam, virando a cabeça ora para Heitor, ora para Raul.

Eu tomara a caipirinha e não quis outra quando o garçom se aproximou. Tentava manter-me interessada na conversa dos dois homens. Quis ser educada, ou ao menos aparentar. No diálogo deles não havia lugar para o sonho ou para a fantasia; eram tão terra a terra quanto o petróleo que ajudavam a descobrir e trazer do fundo do mar.

Em torno da uma da madrugada fomos embora. Jussara bebera mais do que costumava, mas apenas seu rosto mostrava os vestígios do exagero. Ela se comportava de modo adequado. Eles nos ofereceram carona, mas estávamos tão próximas da casa de minha amiga que não fazia sentido ir de carro. De súbito, foi ela que sugeriu:

“Vocês não querem ir até lá em casa? A gente toma a última dose”.

Heitor olhou para o amigo como se esperasse pela resposta deste. Raul se mostrou mais animado do que todos; o grande número de chopes que tomara parecia ter-lhe despertado um entusiasmo que não tivera quando chegara.

Jussara gostava de homens galanteadores como Heitor, por isso mostrava-se um tanto propensa a desejar sua companhia por mais algum tempo.

Entramos em casa. Jussara acendeu as luzes e pediu que nos sentássemos. Havia um grande estofado de cor creme, no qual os dois homens sentaram; em sentido transversal, havia um menor, onde me sentei. Ela foi até o bar apanhar a garrafa de uísque. Trouxe também cerveja para Raul; ofereceu-me, caso eu quisesse continuar tomando caipirinha, o que fosse necessário para prepará-la. Quando todos já estávamos acomodados, ligou o aparelho de som e uma música baixa, acho que um pop norte-americano, completou o ambiente.

Raul tentava a todo custo extrair de mim alguma conversa. Jussara correu em seu auxílio, dizendo que eu na verdade tinha mais assunto do que ela, porque sempre estava lendo alguma coisa.

“Oh, que interessante, você é uma leitora?, deve ser então uma pessoa muito especial. As mulheres que lêem muito são diferentes das outras”.

Sorri e ele começou a falar para mim, deixando o amigo junto a Jussara.

“Quando eu era estudante lia muitos romances, gostava de verdade”. Citou uma infinidade deles. “Tirava boas notas por isso. Naquele tempo para ingressar na universidade federal era preciso muita leitura”.

“E hoje, não lê mais?”, eu quis saber.

“Leio, mas não é a mesma coisa que antes; o trabalho me absorve muito e acabo por ler quase sempre manuais e livros técnicos”.

“Eu não viveria sem meus livros”.

“Hoje as pessoas vêem muita TV, por isso talvez a leitura não seja uma prática tão intensa”.

Levantou-se, foi até a mesa e completou seu copo de cerveja.

“Você costuma ir ao Rio?”, perguntou-me.

“Atualmente não, quase não saio dessa região; viajo apenas nas férias”.

“Há umas livrarias ótimas lá, convido você a passar um fim de semana. Levo você para escolher muitos livros e para passear”.

“Vamos ver”, falei, “vamos ver”.

Já estava muito cansada e, depois de mais um quarto de hora, pedi licença a eles dizendo que eu trabalhara no dia anterior e precisava descansar. Creio que Raul ficou um tanto decepcionado, pois falou:

“Amanhã é domingo, espere mais um pouco. Você não quer dar uma volta lá fora? A temperatura está amena e a essa hora creio que ainda há movimento”.

Olhei para Jussara, reparei que ela estava bem próxima a Heitor e ele tinha uma das mãos sobre suas pernas. Não quis estragar-lhe o prazer. Seus olhos voaram em minha direção; entendi o que ela queria.

Deixamos os dois e fomos passear lá fora. E demoramos bastante para voltar. Nada comentamos sobre eles. Raul bebera demais; foi capaz apenas de esticar a conversa. Não teve ímpeto para me fazer qualquer outro tipo de convite.