segunda-feira, abril 20, 2009

De olhos vendados: capítulo 4

Durante duas semanas, Maria Zilda dedicou-se quase apenas ao trabalho. Nas horas vagas, principalmente nos momentos em que não tinha sono, lia algum romance. Durante muitos momentos, enquanto exercia seu cargo com a frieza que a justiça exige, chegou a pensar naquele homem educado com quem saíra para jantar e acabara por namorá-lo por uma noite. Ele não telefonara, nem mesmo uma vez. Ela tampouco. Ficou a lembrança. Quando levantava os olhos para ouvir o defensor de uma das partes sobre alguma questão trabalhista, muitas vezes o enfado fazia que ela escapasse daquela sala de onde teriam de sair decisões senão justas ao menos próximas à eqüidade.
Ao ultrapassar a marca dos vinte dias daquele último encontro, já esquecera o assunto; ou se isso não se dera, ao menos ocupava um ponto menor no rol de suas lembranças.
Foi então que uma das poucas amigas convidou-a para uma recepção. Rachel, a anfitriã, fizera parte com ela de uma vara criminal, quando iniciavam a carreira. Seguiram seus caminhos profissionais após alguns anos, conseguindo ambas ajeitar-se no ramo jurídico que mais agradava a cada uma, que não era o criminal. Depois o contato diminuiu, mas nunca desapareceu de todo. Ao receber o convite, Zilda achou que deveria comparecer. Andava muito sozinha e estar em meio a outras pessoas não lhe faria mal.
A festa estava marcada para o clube Caiçara, na Lagoa. Zilda, durante a tarde de sábado, preparou-se para o evento. Ela mesma cuidava do cabelo e de toda a aparência. Não tolerava salões de beleza nem especialistas em pele e maquiagem; fazia tudo de modo a manter o máximo de naturalidade e discrição.
Saiu de casa em torno de nove da noite. Como era a própria Rachel que fazia aniversário, calculava que os primeiros convidados não chegariam cedo. O normal, naquelas circunstâncias, era que a frequência aumentasse somente depois das dez horas.
Encontrou a pequena ilha, onde o clube se situa, muito iluminada. Um maître aguardava os convidados e os encaminhava para a balsa que não demorava a percorrer a pequena distância entre a entrada do clube e a ilha. Já que não estava frio, as mesas, inteiramente ornamentadas e preparadas para os convidados, se espalhavam pelo lado externo dos dois salões,. Os garçons já estavam servindo aperitivos e pequenos canapés. As pessoas aguardavam com expectativa a aniversariante. Após a travessia, Zilda foi recebida por um outro maître, este de terno preto. Ele, após encontrar o nome dela na lista de convidados, encaminhou-a com muita distinção a um dos principais lugares. Ela pensou em recusar e ficar por ali, andando de um lado a outro, com a expectativa de encontrar algum conhecido; assim se manteria mais à vontade. Mas a organização da festa era rigorosa. O homem fez questão de levá-la ao lugar pré-determinado. Um garçom se aproximou com um pequeno cardápio com tudo que seria servido e perguntou a ela o que a apetecia. Ela disse que comeria o mesmo que estava sendo servido para os outros convidados. Ele curvou a cabeça e saiu com a intenção de logo voltar. Alguns músicos já executavam, numa das partes do salão principal, uma pequena peça clássica.
Zilda observou dois jovens de uns vinte e poucos anos. Eles a olharam e ela ficou a pensar se a conheciam. Sorriam, conversavam fazendo gestos largos. Vestiam ternos, o que não era comum entre a juventude, mas se mostravam muito à vontade. Outro garçom parou com a bandeja e uma garrafa de uísque escocês junto a eles. Recusaram, mas de modo polido. Mantinham a animada discussão. Vez ou outra, o de cabelos castanho-claro virava-se para onde ela estava sentada, mas logo se voltava para o amigo.
Outras pessoas entraram, chegavam juntas. E uma delas era conhecida de Zilda. Tratava-se de uma mulher alta, que também trabalhava na Justiça, mas era defensora pública. Aproximou-se e cumprimentou a juíza, ficando durante alguns minutos desfiando uma conversa sem importância. Um dos rapazes dos que Zilda observara havia pouco aproximou-se, conhecia também a defensora. Cumprimentou-a e acabou sendo apresentado a Maria Zilda.
“É um grande prazer” ela retribuiu o sorriso.
A amiga observou que o lugar era muito chique; nunca estivera ali, não estava acostumada a festas desse tipo.
Zilda nada falou, mas propôs que sentassem juntas, pois a mulher também viera só.
O dois rapazes não se afastaram delas. A defensora, que se chamava Marlene, convidou-os:
“Vamos ficar todos juntos, assim a conversa flui mais animada.”
Acabaram sentando todos na mesa que estava reservada a Zilda. Imediatamente um dos garçons aproximou-se oferecendo uma bandeja com salgados. Sobre a mesa, repousavam, de modo harmonioso, uma garrafa de vinho e outra de champanha.
“Que bebida bonita”, sorriu Roberto – era o rapaz de cabelos pretos – ao receber do garçom o coquetel. “Tequila com limão e mais alguma coisa que não consigo distinguir.”
“Deixe-me provar”, o outro, Maurício, aceitou do garçom também uma taça e os dois começaram a travar um debate sobre o possível nome daquele coquetel.
Zilda ainda não aceitara bebida alguma. Sua amiga disse ao homem que desejava água mineral com gás.
Após alguns minutos, a conversa começou a definir-se. Em meio ao silêncio que perdurou por momentos, alguém se pôs a dar a primeira tacada, e foi sobre o nome de um livro: “Arcabouço mágico”. O livro era de autoria de Roberto, um dos jovens presentes. Seu amigo considerava a publicação como a mais inusitada nos últimos tempos.
“Ah, é você o autor dessa obra tão comentada”, Zilda mostrou-se surpresa. “Li uma resenha a respeito num jornal.”
“Com toda a modéstia de um jovem que lança o seu segundo livro; realmente acho que ainda tenho muito a aprender.”
“Pretendo comprá-lo dentro de alguns dias; é que ainda não tive tempo”, falou Zilda, “confesso que a matéria despertou minha atenção. Se soubesse que encontraria aqui o autor, já o teria comprado; traria para pedir um autógrafo.”
Roberto sorriu com o fato de ter encontrado alguém que sabia do livro.
“Que bom que encontrei a senhora. Até agora, fora o jornal, não soube de quem falasse do livro ou o elogiasse. A senhora trabalha com literatura, ou coisa semelhante?”
“Não; talvez até seja interessante trabalhar nesse ramo, mas nunca tive oportunidade.”
“Maria Zilda é uma juíza muito conceituada”, falou Marlene enquanto olhava para o interlocutor de Zilda.
“Juíza?” O amigo de Roberto pareceu levar um grande susto, “não sabia que encontraria aqui uma pessoa da mais alta patente.”
“Patente?”, atalhou Roberto, “onde juiz ou juíza é patente? Você com essa mania de hierarquia militar. E aqui entre nós, juízes e militares não se relacionam muito bem.”
Mara Zilda deixou escapar um riso franco, enquanto o próprio Maurício percebeu que acabara por fazer a conversa desviar-se. Tentou consertar.
“Peço desculpas; é a maneira de falar...”
“Você nem parece que estudou no Colégio Sion”, meteu-se Roberto de novo.
“Vamos fazer uma coisa”, disse Maria Zilda, “aqui somos apenas convidados para uma festa; esqueçamos cargos ou postos de importância. Já que estamos num lugar tão maravilhosamente ornamentado, pleno de pessoas bonitas e bem trajadas, um lugar onde predomina a arte, falemos dela, da arte, e já que estamos na presença de um escritor, ouçamos algo a respeito do seu livro.”
“Oh, não”, Roberto sorriu lisonjeiro, “é tão difícil falar sobre a própria obra.”
“Sei que escritores são pessoas vaidosas; você concorda?”, continuou Zilda.
“Lógico que ele há de concordar”, meteu-se Marlene; “ele finge falsa modéstia, conheço-o de outros carnavais.”
“Isso, a palavra certa: carnaval”, disse o escritor.
“Por quê?”, quis saber a juíza.
“Porque no carnaval cometem-se exageros, e a literatura para dar certo também precisa de exageros.”
“Como Dostoiévski?”, ela quis saber.
Roberto preparou-se para falar, mas reparou que seu copo estava vazio. Olhou na direção de um dos garçons – os garçons sempre se mostravam a postos – e este entendeu o que ele desejava.
“Dostoiévski não era um exagerado, senhora”, contestou.
“Não falo num sentido amplo, sobre sua obra toda; mas ele era de opinião de que a literatura não pode existir apenas com o lugar comum”, disse Zilda.
“Não sei, não sou leitor cuidadoso do escritor russo, pode ser que a senhora tenha razão.”
“Não precisa me chamar tanto de senhora, sejamos informais. Fale então sobre o seu livro. O que o levou ao tema?”
“O tema é a própria representação.”
Marlene e o amigo acompanhavam em silêncio, ora bebericando ora servindo-se de algum acompanhamento.
“Discuto no livro os diversos tipos de representação; mas não se trata de um ensaio, e sim ficção. Talvez tenha a ver com essa questão que você tocou, um tipo de exagero que precisa estar presente para que um texto capte o leitor”, Roberto continuou.
Outras pessoas chegavam. Em certo momento viu-se a aniversariante. Os quatro levantaram-se e procuraram captar sua atenção. Fizeram movimento de que iriam na direção dela, mas a mulher, muito bonita e reluzente nos adornos, fez sinal para que esperassem; dirigiu-se a eles.
“Que bom encontrar gente jovem e bonita, quero ser sempre assim, adoro vocês todos.”
Beijou primeiro Marlene, depois beijou e abraçou longamente Zilda e por fim dependurou-se nos rapazes.
“Comprei seu livro, vou começar a ler amanhã.”
“Ainda bem, assim não vou estar mais aqui”, ele completou.
Todos riram.
“Sei que vou gostar. Se amei o primeiro, acho que o segundo ainda deve ser melhor”, depois virou-se para Zilda e acrescentou:
“Ele é uma revelação; falo sério, não é porque ele está presente.”
A seguir pediu licença e partiu ao encontro dos outros convidados. Disse que caso houvesse algum problema quanto ao serviço, que a procurassem. Queria contentar todos os gostos.
Uma banda de música substituiu os músicos iniciais e começou a entoar um tipo de jazz. Apareceu em seguida uma mulher que, numa atitude cool, pôs-se a cantar. As pessoas aplaudiram.
Roberto aproximou-se mais de Maria Zilda; gostara da presença dela, percebeu que era uma mulher de personalidade, alguém capaz de expressar as próprias opiniões. Durante algum tempo, porém, não voltaram à literatura.
“Como é o processo de criação dos seus personagens?” Zilda perguntou, pegou a taça – tomava agora vinho – e esperou pela resposta.
O rapaz encenou um pouco, como que procurando valorizar seus pequenos gestos, depois falou:
“Eles aparecem.”
“Aparecem?”
“Simplesmente aparecem.”
“E não há um trabalho preparatório?”, insistiu Zilda.
“Quando há, não sobrevivem, ou mesmo renascem em outros.”
“Há oficinas por aí que ensinam muitas técnicas; parece que há jovens interessados em freqüentá-las...”
“Nunca pisei em uma.”
“Você não acredita em exercícios?”
“Acredito, mas não do jeito como são ensinados nesses lugares. As oficinas acabam servindo para que escritores ganhem dinheiro dando aulas; é um modo de sobrevivência para quem quer viver apenas da escrita.”
Maria Zilda sorriu, repousou a taça sobre a mesa. O rapaz ofereceu mais um pouco de vinho. Ela aceitou. Começava a gostar daquela mulher; ela tinha idade de ser sua mãe.
Marlene e Maurício perderam-se numa conversa paralela, que não era necessariamente sobre literatura. Ora ouviam a música, ora voltavam a alguma observação; pareciam fazer comentários sobre a festa e sobre as pessoas.
Lá pelas tantas, os músicos foram substituídos novamente. Dessa vez, a festa tornava-se pouco a pouco dançante. Uma banda que tocava rock ou mesmo algumas baladas fez que as pessoas se agarrassem e fossem para o meio do salão. O som tornou-se mais alto, impossibilitando a conversa. Roberto achou importante que isso acontecesse; temia estar sendo enfadonho e, além de tudo, já começava a sentir que o excesso de bebida lhe pesava a dicção. Com algum cuidado, falou:
“Sinto um pouco de receio ter de convidar uma juíza para dançar...”
Esperou que ela respondesse. Mas ela não o fez, apenas sorriu, levantou-se e tomou-lhe a mão. Dirigiram-se também para o centro do salão.
No dia que seguinte, Maria Zilda dormiu mais do que de costume e, quando acordou, percebeu que alguém lhe mandara um buquê com orquídeas e um cartão com dizeres elogiosos.
“Gostei muito de ter conhecido você. Conto que não me ‘julgue’ mal.” Abaixo vinha a assinatura: Roberto.
“Será que esses rapazes não dormem?”, pensou ela, ainda com muito sono. Depois sorriu ao observar o vocábulo “julgar” em destaque. Gostara de ter travado tal tipo de relação; apenas pensava como faria para levar o relacionamento adiante, e onde aquilo acabaria.
Por volta das quatro da tarde, Zilda atendeu o telefone. Era ele, Roberto. Ela, primeiro, agradeceu as flores, depois, ouviu-o. Ele queria encontrá-la à noite, precisava falar-lhe, dizia que era urgente.
“Urgente? De que se trata?”
“De literatura.”
“Então, não é urgente”, insistiu ela.
“Claro que é; não há nada mais urgente do que a literatura.”
Mara Zilda sorriu sozinha. Roberto não podia ver seu rosto. O sorriso era amplo e ela adivinhava o que vinha pela frente.
Roberto teve de esperar alguns dias para que ela aceitasse um encontro. Falaram-se duas ou três vezes pelo telefone durante a semana seguinte à festa. Enfim, marcaram para nove horas da noite de sábado, no restaurante Fiorentina.
Havia muito frequentara o Fiorentina. Mesmo antes da reabertura da casa tradicional. O restaurante primava por clientela importante, selecionada, portanto gostava do lugar. Na verdade, gostava também do bar do Sofitel. Mas uma mulher não pode estar sozinha durante muito tempo no mesmo lugar, desperta interesse até mesmo nos garçons. Depois de duas ou três visitas ao belo bar de estilo inglês, onde se podia ouvir música instrumental como algum jazz ou blues, voltou ao mesmo Fiorentina. Ali, era mais discreto.
Não é que Maria Zilda sempre saísse e quisesse uma vida boêmia. Nada disso. Na maior parte dos dias, voltava a casa, tomava um banho quente, ouvia música e lia alguma coisa. Mais tarde via algum telejornal, de preferência na TV fechada. Não dormia muito tarde.
Voltava, àquela noite, à famosa casa situada no Leme. Ao entrar, o maître a reconheceu e fez um cumprimento respeitoso. Depois, perguntou o número de lugares que ela queria.
“Apenas dois, e que seja discreto.”
O homem a levou até uma das mesas laterais, de onde podia apreciar quase todo o ambiente; mas, devido à posição transversal que ocupava, estaria ela e o acompanhante livres de olhares indesejados.
Roberto chegou pontualmente e se surpreendeu ao ser de pronto identificado pelo mesmo maître e de ser levado até onde estava a mulher.
“Que surpresa, você é pontual.”
“Sou uma juíza.”
Sentiu-se um pouco embaraçado; não esperava por aquelas palavras. Tranqüilizou-se quando Zilda abriu um sorriso e pediu que não se assustasse. Não costumava falar assim.
Pouco a pouco foram sondando o terreno e puderam conversar de modo mais solto. Pediram para beber coquetéis suaves, sem ácool, que mais impressionavam pela cor. Para comer, permaneceram longamente apenas beliscando o couvert.
“Quer dizer que há algo urgente quanto à literatura?”, quis saber Zilda.
“Não exatamente”, Roberto falou e virou-se para ela, como se quisesse observá-la com vagar e em detalhes.
“Como, não? Por que você quis então encontrar comigo?”
“Porque achei você uma pessoa digna de habitar as páginas dos melhores romances.”
“Ah!”, exclamou e sorriu mais uma vez. “Talvez você não se engane...”
“Quer dizer que você mesma também acha?”
“Você talvez tenha oportunidade de me conhecer melhor; daí poderá ter sua opinião.”
A conversa assumiu um tom formal; aquilo incomodava o escritor. Queria quebrar a barreira que surgira entre os dois e experimentar um pouco de camaradagem. Foi então que falou.
“Conheci você semana passada na festa da Rachel, esperava conversar hoje com franqueza, mas sinto que há algo entre nós que se apresenta intransponível. Peço desculpas.”
Zilda riu mais uma vez; simulou tirar a máscara e roçou os longos dedos sobre uma das mãos do rapaz. Aquilo pareceu amenizar a situação.
“Você sabe que sou um romancista, interesso-me pelas pessoas, achei você de uma intensa personalidade...”
Ela então interveio:
“Você quer realmente me conhecer ou quer construir um personagem para uma de suas histórias?”
Roberto franziu a testa, tentava disfarçar mas, na verdade, desejava a mulher.
“Se quer me conhecer, chegue mais perto, por favor”, falou Zilda, “se quer até me namorar, talvez eu diga que sim, mas não me convide para outros fins; não gosto de ser usada, meu amor.”
Durante alguns segundos, ele não soube o que dizer. Embora tivesse toda a experiência em criar personagens, não esperava por uma mulher daquele tipo. Ao mesmo tempo não precipitou o que lhe trouxera até aquela mulher.
Ela ainda complementou:
“Não tenho vergonha de dizer isso; e olha que tenho idade de ser sua mãe.”
“Quando se é hábil na escrita, não se tem a mesma destreza num confronto direto”, fora a fala de um dos personagens do seu primeiro livro, lembrou-se dela e atirou-a em direção à mulher.
“Interessante suas palavras”, Zilda não conhecia o livro nem a fala do personagem. A seguir, continuou: “esqueça a mãe, fica mulher.” Escorregou até ele e beijou-lhe a testa.
Dali em diante a conversa tornou-se amena.
“A literatura na verdade é urgente”, voltou Roberto ao assunto, “não se pode viver sem a fantasia.”
“Há muitos modos de se realizar a fantasia, mas também acho que a literatura é o modo mais adequado.”
As últimas palavras, ditas por Zilda, fizeram que ele se alegrasse.
“Você pensa mesmo assim?”
“Penso; não mentiria a você. Leio em média cinco livros por mês. Conheço alguma coisa.”
“Puxa, que bom conhecer uma mulher que têm essas opiniões...”
O garçom aproximou-se com uma garrafa de vinho tinto. Zilda alertara o maître a respeito da hora exata de trazê-la. Abriu-a com estilo e fez o gesto de que um deles experimentasse a bebida. Foi ela quem provou. Sorriu em aprovação. O garçom encheu cada taça até a metade, deixou a garrafa sobre a mesa e afastou-se. Roberto foi o primeiro a levantar a taça para fazer o brinde. Tilintaram e beberam alguns goles.
O rapaz olhou de modo mais intenso para os seios de Zilda. Ela trajava um vestido bege com estampas escuras, que não disfarçava seus seios volumosos. Ela estava elegante e tinha o corpo em forma. Notou que ele a olhava.
“Conversar sobe literatura às vezes pode ser enfadonho”, ela se expressou assim e levantou a taça para beber mais uma vez.
Roberto não teve o que dizer; apenas pensou e concluiu que tinha diante de si uma mulher difícil. De repente ouviu:
“Você sabe representar?”
“Representar? Como no teatro?
“Isso, como no teatro.”
“Não, não tenho essa habilidade; posso até escrever as falas, mas representar seria um caos.”
“Você já escreveu algum texto para ser representado?”
“Escrevi um, uma vez, mas foi coisa de amador; não creio que faria sucesso hoje.”
“E por que não tenta escrever outras vezes?”
“Sinto-me tolhido quando escrevo textos onde só existem diálogos.”
“Eu vou representar para você.”
“Você é atriz?”
“Depende da ocasião.”
“Em que teatro se dará o espetáculo?”
“Não será no teatro.”
“Onde então.”
“Você saberá.”
Maria Zilda desviou a conversa. Falaram sobre alguns livros, discutiram um pouco de filosofia, depois enveredaram por uma discussão que tinha como destaque um autor americano que falara que a literatura estava com os dias contados. A conversa também escapou em outro rumo quando ela acrescentou:
“E o que não está com os dias contados?”
Roberto riu. Diria que não foi isso que aquele autor quisera dizer, mas preferiu o silêncio. Tomavam os últimos goles da garrafa de vinho.
Ela não aceitou ir mais a lugar algum, alegou cansaço. Desejava a própria casa e a solidão. Deixaram em aberto o próximo encontro.
Roberto, pelo que conhecia das mulheres, chegara à conclusão de que não a veria mais. Ao menos em encontros como aquele. Achou que agira mal, que maculara a própria imagem. A mulher era exigente. Mesmo que ele fosse bom escritor, não conseguiria convencê-la a respeito de coisa alguma. Ela procuraria alguém mais interessante.

sábado, abril 18, 2009

De olhos vendados: capítulo 3

Dois dias depois, enquanto tomava chá no salão da cafeteria, no subsolo do Ed. Avenida Central, Zilda esquecia por alguns momentos os grossos processos que trazia na bolsa para pensar na aventura que vivera durante a madrugada na boate. Às vezes censurava a si mesma pelo comportamento intempestivo, pelos disfarces e frequência a ambientes que podiam complicar-lhe a vida. Caso alguém descobrisse sua verdadeira identidade, o que aconteceria? A desembargadoria tentaria impedir que ela exercesse o cargo? Em muitas ocasiões, os superiores fingem que nada sabem, agem como se nada acontecera, mas no momento em que há o interesse de alguém, um parente ou mesmo amigo próximo, não deixam de exercer o poder e investigam a fundo a vida daqueles de quem desejam o cargo, dando ouvidos até mesmo a boatos. Portanto era preciso ser cautelosa. Não se sentia culpada. O que estava fazendo não era errado. Gostava de divertir-se, e os disfarces, em meio às atribulações diárias, atuavam como uma espécie de relaxamento da tensão. Sabia que era bom realizar-se com a carreira que escolhera, que as atividades profissionais deviam bastar-lhe; mas, será que se vivia apenas para isso? Será que não tinha o direito a divertimentos que a deixassem num estado eletrizante? Certa vez ouvira de uma amiga que muitas pessoas extasiam-se com o perigo. O risco torna-as excitadas. É mais ou menos como acontece quando frequentamos um parque de diversões. Por que escolhemos, principalmente quando ainda jovens, o brinquedo mais perigoso? Será que é apenas porque precisamos de autoafirmação? Ou será que há um desejo oculto, um desejo que temos dificuldade de nomear e que só se realiza ante o perigo? Dizem que, na relação sexual, o momento do gozo nada mais é do que uma centelha de êxtase ante a perspectiva da morte. E, na verdade, essa morte ocorre. Após o orgasmo, cai-se numa atitude de inação, que não deixa de ser uma metáfora do próprio fim. Aquele que supera esses momentos e continua impetuoso, sente-se, talvez, uma espécie de fênix. O ato de morrer e renascer, instantes de ressurreição, estabelece de modo perene o prazer de se trafegar e tocar corpos ante a perspectiva do abismo.
Zilda sentiu um arrepio. Olhou em volta, mas as outras pessoas conversavam entre si ou – principalmente as sozinhas – mergulhavam os pensamentos nas xícaras de chá ou nas taças de suco de laranja.
No dia seguinte, após colocar a leitura dos processos em dia, recebeu o convite de um promotor de justiça para jantar num restaurante em Ipanema. Ela aceitou. Marcaram para nove horas. Ela também permitiu que ele a apanhasse em casa.
Nesse dia, nada de disfarces, Maria Zilda era ela mesma. Estava exuberante. Vestira-se com uma roupa que a tornou uma senhora de aspecto bem sucedido. Fazenda de primeira, corte especial, jóias e o cabelo com um prendedor pequeno mas capaz de brilhar sob poucas luzes.
Quando já estavam sentados à mesa do restaurante, enquanto ela olhava o cardápio, o homem sussurrou:
“Nunca saí com uma mulher tão maravilhosa como você.”
Ela o olhou por cima dos óculos:
“Você está sendo muito delicado. Já não sou jovem. Há muitas mulheres que conseguem manter-se dentro dos padrões de beleza que os homens dos dias hoje têm em mente.”
A conversa ia e vinha. Via-se que seu acompanhante estava fascinado. Não a cortejava apenas por delicadeza. Zilda sabia, mas viera porque precisava de disfarce. Não como os usuais, mas para que as pessoas a vissem e comentassem que ela era uma mulher normal. Na verdade estava usando aquele cavalheiro. E, quando deu conta disso, sentiu-se um tanto vexada.
Jantaram; beberam uma garrafa de vinho tinto. As luzes do restaurante eram baixas nas laterais. Os garçons acompanhavam todos os movimentos dos freqüentadores. Não deixavam copo ou taça vazios. Traziam o que havia de melhor e procuravam mostrar-se sempre solícitos. Havia em outras mesas mulheres com roupas que reluziam, acentuando o desejo de serem observadas. As mulheres são mais afeitas a essas coisas; adoram exibir-se. Maria Zilda comeu até o último pedacinho da sobremesa. Achou tudo maravilhoso. Sorriu o tempo todo, deixando o homem que a convidara muito feliz.
Já havia muito que ele vinha fazendo convites e ela esquivava-se. Naquele momento, acreditava, acertara. O enamorado pegara-a num bom dia, ou numa boa noite, estava feliz. Ela, por sua vez, representava; talvez o próprio papel, mas representava. Seu prazer não era aquele, tentava, no entanto, passar credibilidade como atriz.
Quando acabaram, ele surpreendeu-se com uma palavra dela. Apenas uma. Que saiu em forma de pergunta.
“Namoro?”
Ele a olhou enquanto esperava pela iniciativa dela para deixarem o local. Talvez pensasse que ela embriagara-se com a pouca bebida. Ouviu de novo.
“Namoro?”
Agora com o segundo “o” mais aberto, tornando a palavras mais pessoal.
Saíram do restaurante. O manobrista entregou-lhe o carro e ele pôs-se a dirigir. Não sabia o que dizer nem para onde ir. Mas levá-la em casa parecia desperdício. Guiou o veículo até a orla marítima. O ar que vinha do oceano invadiu-lhes os pulmões, embora trafegassem com os vidros fechados. Maria Zilda abriu a janela e respirou fundo, de olhos fechados.
“Deseja ir a mais algum lugar?”, perguntou suave, temeroso. Não queria encerrar o passeio de modo abrupto. Conhecia a mulher, ela às vezes era incisiva.
“Quem sabe você não me convide para ouvir uma música, num lugar de luz baixa, onde o som apenas envolva nós dois?”
Ao fazer a curva no final do Posto 6, trafegavam no sentido de quem vai para a Lagoa.
O apartamento do promotor era grande. Apesar de morar sozinho, não poupava esforços para ter o que chamava de apartamento onde a beleza jamais deixa de estar presente. Apreciava convidar pessoas para beber, ou mesmo para conversar. Viera de São Paulo, precisava fazer amigos, os parentes eram poucos e não havia nenhum no Rio. Uma vez que era relativamente jovem, gostava de festas. O apartamento servia. Mas tudo acontecia na maior discrição, sem grandes ruídos, sem qualquer tipo de incômodo para a vizinhança.
Som de orquestra espalhou-se pela sala. Havia alto-falantes embutidos no teto, o que dava à musica possibilidade de expansão. Ouviram uma sonata, silenciosos. Quando esta acabou, ele trouxe uma garrafa de champanha. Abriu-a. Serviu à mulher e depois encheu a própria taça. Brindaram.
Maria Zilda deixou-se envolver por um abraço demorado. Correspondeu ao beijo que ele oferecera-lhe. Após alguns segundos, ajeitaram-se sobre a poltrona larga. Ela olhou ao redor, parecia procurar alguma coisa.
“Há algo que você deseja?”
“Não”, ela sussurrou, “estou olhando a decoração.”
Ele aumentou a luz, através de um pequeno comutador que ficava junto a uma mesa lateral. Quadros se enfileiravam na parede oposta. A mulher pôde perceber a variedade de telas que ornamentavam o apartamento. Embora algumas trouxessem ao ambiente o traço moderno, tendiam ao clássico.
Beberam o champanhe, quase sem palavras. Zilda percebeu que seu anfitrião era vagaroso; talvez temesse que algo desse errado. Esperava por ela; dava mostras de que não desejava desagradá-la. Sentia-se bem ali, mas será que ele não ficaria no encalço dela depois desse dia? Será que a importunaria? Por momentos achou que não tomara a atitude correta quando o incentivou a convidá-la ao apartamento dele. Tudo estava muito bonito e agradável, mas temia as consequências. O que faria dali em diante? Diria que desejava ir embora? Não seria boa a solução. Começou a suspirar pelas suas saídas anônimas e disfarçadas; além de não ter de dar satisfação a ninguém, podia manter a máscara pelo tempo que desejasse. Na situação em que se encontrava, não seria elegante tentar desvencilhar-se do homem tão de repente. Pensou mais um pouco, enquanto ele aproximou-se e alcançou-lhe o rosto. Ela representou uma mulher em início de paixão. Cedeu. Os braços dele desceram-lhe as costas e pararam no pedaço que antecede a cintura. Ele a puxou para si e quis que ela recostasse sobre seu tronco. Zilda obedeceu. Ficaram assim por longos minutos.
A mulher disse que precisava ir ao toalete. Ele apontou a porta correspondente. Ela tomou mais um gole da bebida, pousou a taça sobre a mesinha, levantou-se e caminhou a passos suaves, levando a bolsa consigo. Chegara à conclusão do que faria para acabar com aquela noite de forma mais rápida; mas de modo que não o ofendesse.
Deixou a bolsa sobre um aparador, onde havia cremes e perfumes; olhou-se no espelho, retocou os cantos do rosto, passou uma camada suave de batom. Começou então a colocar o plano em ação. Tirou toda a roupa, sem pressa. Procurou um lugar para colocá-la de modo que não ficasse dobrada e marcada. Olhou-se mais uma vez e viu seu reflexo na lâmina do espelho. Não estava má sua silhueta. Manteve-se sobre os sapatos de salto e segurou a bolsa. Saiu do banheiro, com muita naturalidade; voltou e sentou-se no mesmo lugar onde estivera.
O homem, ao repará-la, teve ímpetos de tomá-la nos braços com violência e deitá-la ali mesmo, mas conteve-se. Sorriu levemente e fingiu estar acostumado àquele tipo de atitude. Maria Zilda também sorriu e o puxou para si.
Namoraram longamente. Na poltrona e mesmo sobre o tapete.
Mostrou-se uma mulher ardorosa.
Quando acabaram, ele falou, ainda deitado junto a ela:
“Nunca vi você com homem algum, fiquei a princípio temeroso de convidá-la...”
“Não tenho namorado”, ela disse, “nem tenho intenção de ter.”
Ele permaneceu em silêncio. Apesar de todos os movimentos ousados daquela mulher, compreendeu que jogava um jogo difícil, com alguém que se mostrava quase impossível de ser batido.
“Já teve algum?”, a pergunta saiu quase que indesejada; depois, reparou que não marcara ponto com a investida.
Ela apenas disse:
“Alguns.”
No meio da madrugada, quando estava pronta para partir, beijou-o mais uma vez. E, talvez ainda com a finalidade de confundi-lo mais um pouco, sorriu e disse:
“Quando era mais jovem, mais ou menos aos vinte e poucos anos, tive um namorado. Ele era muito avançado para época. Me deixava nua em quase todos os lugares para onde me levava; e muitas vezes eram lugares públicos.”
Ele teve vontade de perguntar o que se sucedera, mas não ousou, apenas sorriu.
Maria Zilda não permitiu que ele a levasse em casa. Telefonou para que viesse um táxi. Apesar de muitos os protestos do homem.

quinta-feira, abril 16, 2009

De olhos vendados: capítulo 2

Durante duas semanas Zilda esteve às voltas com a leitura de um processo muito extenso. Tratava-se de uma ação movida por um grupo de pessoas que se sentia ludibriado por um empresário fraudulento. Ela precisou de noites inteiras dedicadas à questão. Quando tinha algum tempo vago, consultava compêndios sobre o tema. Era perfeccionista, queria a decisão mais acertada.
Nos poucos momentos vagos, tentava ler um romance. Gostava de, ao mesmo tempo em que se dedicava ao trabalho, estar fazendo algo que a distraísse. A leitura de romances era um tipo eficaz de distração. Caíra-lhe nas mãos um romance de uma autora russa que escrevera sua obra em francês. O livro chamava-se Suíte francesa. No começo achou que era uma narrativa comum, dessas que a gente lê e logo esquece, mas depois descobriu que se tratava de uma história pungente, ocorrida em meio à Segunda Grande Guerra. Sentiu pena de não poder dedicar-se àquela leitura de modo exclusivo. Como os processos tomavam-lhe grande parte da noite, a leitura do livro era muito desejada, mas pouco avançava.
Duas semanas após a última saída noturna, resolveu dar a si uma noite de prazer. Começou a pensar o que poderia fazer. Gostava daqueles disfarces, de sair como outra pessoa. Durante alguns anos tentara fazer análise psicanalítica para descobrir o motivo daquela ânsia de representação. Mas trocara umas tantas vezes de analista, que concluíra que aquilo não era para ela. Lembrou de uma amiga que gostava de se fazer de ex-hippie e que freqüentava boates que tocavam músicas dos anos de 1960, gostava de Janes Joplin. Quis arrumar-se de modo semelhante. Vestiu-se, mas achou-se ridícula quando se olhou no espelho. Decidiu então usar uma peruca de cabelos compridos castanho-claro. Vestiu uma blusa que deixava seus seios volumosos e insinuantes. Experimentou um tipo de minissaia. Não era curta, mas sentiu-se nua com aquela roupa. Faltava a sandália. Optou por uma de meio salto. O conjunto combinava. Mas parecia ser ela ainda, Maria Zilda. Tinha que intensificar o disfarce. Com um batom de um vermelho carmesim cobriu os lábios. Para completar, levou ao rosto óculos escuros. Era noite, mas esses óculos eram a única maneira de livrar-se da própria personalidade. Talvez na boate pudesse tirá-los. Caso não o fizesse, ninguém tinha nada com isso. Poderiam achá-la louca, mas pouco se importava. Perfumou-se com um perfume extravagante, tomou nas mãos a cigarreira, colocou-a na bolsa e estava pronta para sair.
Na rua, ao embarcar num táxi que chamara pelo telefone, reparou quando duas adolescentes olharam em sua direção e comentaram alguma coisa. As moças talvez opinassem que ela seria uma mulher autêntica. E na verdade era. Chamava-se naquela noite, Adélia.
Quando entrou na boate, o recepcionista perguntou se fizera reserva ou se pertencia a algum grupo. Ah, o eterno problema das reservas. Como poderia saber quando fazer reserva se decidia ir aos lugares de repente e sozinha? Disse que pertencia a um grupo que se reunia naquele lugar às quartas. Sabia que havia muitos desses grupos, que marcavam festas para quase todas as semanas. O homem citou o nome de algumas personalidades. Ela disse que acreditava que seu grupo estava um pouco atrasado, mas que não demoraria. O funcionário deu-lhe uma insígnia para que colocasse na blusa. Assim ela entrou.
Não havia muitas pessoas na pista. Quase todas as mesas já estavam tomadas e nelas casais ou grupo de amigos conversavam. Como ainda era cedo, a música era lenta e o ambiente tranquilo. O garçom surgiu como por encanto com a bandeja cheia de copos de uísque. Ofereceu um e ela aceitou. Reparou que era permitido fumar. Abriu a pequena bolsa, tirou um cigarro e o acendeu. Numa das mesas, viu um casal num beijo demorado. Não se incomodavam com as outras pessoas. Entregavam-se totalmente um ao outro, como se tivessem apenas aquela noite para amar. Reparou uma mulher de uns trinta e poucos anos que se levantou de uma das mesas. Seu vestido parecia apenas uma blusa, era curtíssimo. Numa das extremidades da pista de dança, viu dois rapazes conversando; um deles a mirava com insistência. Pouco a pouco a música foi ficando mais rápida; as pessoas começaram a mexer mais o corpo, acompanhavam o ritmo. Os rapazes animaram-se, a pista tornou-se mais freqüentada e o que a olhara veio para onde estava Adélia. Tomou-a pelo braço num gesto convidativo e a puxou para o centro, bem em meio às outras pessoas. As luzes rodopiavam em várias cores, incentivam um delírio que apenas começava. Maria Zilda deixou-se envolver pela música e pelo homem. Assim permaneceram durante várias músicas, algumas mais rápidas, outras, menos. Quando o ritmo permitia, ela era abraçada por seu par e deixava-se levar, sempre acompanhando-o nos movimentos. Em algum momento pediu licença e tirou da bandeja de um dos garçons mais um copo de uísque. A bebida a deixava animada, numa intempérie que não ocorreria caso estivesse sóbria. O rapaz a acompanhava, mas tomava cerveja. Em meio ao som alto, não era possível conversar; voltaram então para a pequena pista e dançaram. Reparou que muitos casais beijavam-se na boca. Maria Zilda não iria tão longe, mas Adélia poderia.
“Tira um pouco os óculos”, a voz do rapaz lhe chegou ao ouvido após algumas tentativas vãs, em meio ao barulho e à agitação.
Ela por meio de gestos fez que não, estava bem assim.
“Por que os óculos?”
Ela fez alguns gestos e pôs-se a rodopiar como se não tivesse entendido o que ele perguntara.
Após mais algumas músicas, pediu licença e foi ao toalete. Lá havia outras mulheres. Ouviu de uma delas a respeito de um rapaz que viera naquele dia, com quem tivera um breve namoro. A outra respondia que não via nada de mais, pois se já nenhuma relação tinha com ele, não deveria cumprimentá-lo. Fingisse que não o reconhecia.
“Esse seus óculos é show”, disse uma mulher, “você soube escolher bem, serve mesmo para noite, você ficou uma gata”, sorriu para ela.
Adélia ao sair não mais queria encontrar o rapaz. Como faria para que dali para frente ele não a assediasse? Dirigiu-se para o bar. Lá casais conversavam com mais tranquilidade, porque a música não chegava com tanta intensidade. Alguns homens estavam sozinhos e permaneciam junto ao balcão. Havia quem tomasse cerveja, taça de vinho e até mesmo quem tinha junto de si uma garrafa de uísque. Um senhor sorriu para ela e pediu para que se aproximasse. Adélia o atendeu.
“Rui, é um prazer estar junto a uma mulher encantadora”, ele era baixo, um pouquinho gordo, mas parecia ser simpático. Tinha cabelos apenas nas partes laterais da cabeça.
“Adélia, também fico feliz em conhecê-lo.”
“Conhecê-lo?, que charme!”, espantou-se com a maneira de ela falar.
Ofereceu a ela a bebida, pediu ao garçom um copo com algumas pedras de gelo e colocou um pouco de uísque.
“Basta, por favor, acho que já bebi demais.”
“Essa líquido dourado e glorioso nunca é demais.”
O bar ficava no fundo, de onde se podia ver todo o ambiente. Àquela hora já havia muitas pessoas na boate. Ela olhou ao redor e observou que as luzes moviam-se, que não apenas as pessoas balançavam-se ao sabor da música rápida, mas que tudo parecia girar. As luzes e a escuridão no intervalo de cada mudança de movimento dos pequenos holofotes eram mergulhos no negrume que há no espaço vazio do céu, onde o brilho das estrelas chegam rarefeitos. O rapaz que estivera durante a maior parte do tempo com ela a encontrou.
“Você sumiu, estava à sua procura.”
“Você então é um bom investigador”, falou enquanto descansava o copo, após ter tomado mais um gole de uísque.
“Vamos, a pista está fervendo.”
“Prefiro ficar aqui; ah, queria apresentar a você o meu namorado”, apontou para o senhor que conhecera havia pouco.
Este, sem demonstrar surpresa, estendeu a mão ao jovem, disse o nome e completou com: “é um imenso prazer”.
Depois que desistiu de Adélia e afastou-se, ela voltou-se para Rui e disse:
“Você me salvou, obrigada, já estava cansada dele, assediou-me desde que cheguei.”
“Eu que agradeço por ter sido promovido a posto tão honroso.”
“Posto?”
“Por que não?”
A música romântica fez que os casais se abraçassem; era uma balada, incentivava namoros. Muitos se beijaram na boca. Não teve coragem de se voltar ao homem que estava a seu lado. Sempre gostara da espontaneidade desses jovens, mesmo daqueles que já entravam pelos anos e demonstravam o mesmo ardor. Agarram-se e beijam-se com tanta facilidade. Apenas concluiu o pensamento, sentiu a mão do homem a tocar-lhe os ombros. Depois ele colocou-se à sua frente, abraçou-a e ensaiaram alguns movimentos que não eram bem os de uma dança. Seus corpos se tocaram. Ela pode sentir o calor que o corpo dele emanava. Então também o abraçou e fez que ficasse mais apertado a si. Ele exalava álcool; ela, porém, nada podia reclamar, bebera já três doses, seu hálito, portanto, não deveria ser diferente. Foi então que o beijou. A espontaneidade das outras pessoas e o efeito da bebida ajudaram-na. Precipitara-se, mas não se arrependia.
Durante cerca de duas horas ficaram num namoro apertado, um junto ao outro; ora iam até a pista, ora voltavam ao bar, onde a garrafa de uísque os esperava. Enquanto dançaram, permaneceram bem próximos. Não admitiram a intromissão de homens ou mulheres que se aproximavam remexendo o corpo, em busca de cumplicidade, mesmo que apenas na sintonia dos movimentos.
Já ia alta a madrugada quando ela percebeu que tinha de ir. Caso contrário, não manteria o disfarce. O mínimo que aconteceria era ter de revelar onde morava. Não desejava deixar tal pista. Manter-se anônima custava caro. Pediu licença e foi ao toalete. Ao voltar, disse:
“Preciso partir”, sua voz tinha o timbre trágico das artistas de talento.
“Levo você.”
“Não é possível.”
“Mas, por quê?”
“Espero que compreenda.”
“Mas eu não poderia deixar você ao menos nas proximidades...”
“Volto de táxi.”
Rui olhou com certa tristeza. Já tivera muitas mulheres, passara por várias alegrias e desilusões com elas; pressentia que, aquela à sua frente, elegante, de saia curta, não seria de fácil conquista. Tinha a experiência dos velhos amantes, sabia que não devia insistir. Mostrou-se suave.
“Deixe-me beijá-la.”
Adélia não só permitiu o beijo como tocou com ambas as mãos as costas do homem, trazendo-o mais próximo. Ao mesmo tempo fechou os olhos e os manteve assim para que ele a observasse; deixara nas pálpebras cerradas uma ponta de volúpia que ele não deixou de reparar.
“Acompanho você até o lado de fora.”
“Não é preciso, peço que fique.”
Tocou-lhe o rosto com mais um beijo, depois deu as costas e partiu.

quinta-feira, abril 09, 2009

De olhos vendados: capítulo 1

A avenida Chile sempre foi uma via de grande importância para muitas pessoas que trabalham no centro do Rio; de alguns anos até os dias de hoje, passou também a ter muita importância para advogados, promotores e demais pessoas que atuam na Justiça do Trabalho. O imponente prédio fica na rua do Lavradio, e a Chile é, para quase todos, passagem obrigatória. Maria Zilda é uma das que freqüentam o local. Poucas vezes vem no próprio automóvel; é mais comum vê-la chegar de táxi. Mas há dias em que prefere vir de metrô, saltar na estação Carioca e percorrer o pequeno trecho, que é agradável, desde que o clima esteja ameno. É bom andar pela avenida, olhar de relance o espaçoso edifício da Petrobrás, o do BNDES, e empreender a caminhada a passos macios, perdida em pensamentos, ainda distante do que terá de enfrentar quando entrar em seu gabinete. Maria Zilda é juíza.
Numa manhã de quarta-feira, optou pelo trajeto a pé. A estação do metrô já ficara para trás e ela margeava a catedral. Reparou um homem dentro de um veículo, que a observava com interesse. O carro era um Citröen, desses novos, de cor vinho. O desconhecido parecia aguardar uma vaga para estacionar, descobriu a mulher elegante, de óculos escuros, roupa sóbria, firmou os olhos nela. Ela continuou seu trajeto sem dar importância.
Gostava de andar furtiva pela cidade, sem que pessoa alguma a reconhecesse. Na maioria das vezes o conseguia. Costumava ir a um café, no subsolo do Edifício Av. Central. Na verdade o local era uma cafeteria que ficava no corredor à direita de quem desce a escada rolante pela entrada da Rio Branco. Ali, acomodava-se em uma das mesas laterais, mais ou menos na metade do salão. A garçonete vinha servir-lhe, trazia um enorme cardápio. Achava aquilo tão engraçado; um cardápio enorme e depois um salgado tão pequeno, de farinha integral, pastel de forno de berinjela. Tomava um chá preto; demorava-se. Vingava-se do dia estafante, de todos os problemas que a circundavam. O lugar era requintado, com pessoas bem trajadas, pessoas com ares de importância.
Já vira o homem do automóvel vinho, tinha certeza, num final de tarde, naquela mesma cafeteria.
Maria Zilda cruzou a entrada do prédio da Justiça sem olhar para ninguém; depois do hall, deu mais alguns passos à esquerda e tomou o elevador exclusivo para os magistrados; subiu sozinha.
O dia-a-dia de um juiz ou juíza não é fácil como parece para a maioria das pessoas. Muitos acham que quem ocupa tal cargo é um privilegiado. Pensamento rasteiro e desprovido de consistência. Esse tipo de profissional sempre se vê às voltas com uma quantidade inumerável de processos. Sua capacidade de leitura precisa ser tamanha que, caso decidisse ler apenas romances, conseguiria-o com desembaraço; leria pelo menos um por dia, e dos grossos. A parafernália jurídica que ocupa o gabinete de muitos juizes seria suficiente para fazer qualquer um desistir de ao menos pensar em seguir o caminho da magistratura. Existem, no entanto, aqueles que são teimosos. Enveredam pelo Direito e não esmorecem enquanto não obtém a aprovação e nomeação para tal cargo. Maria Zilda pertencia a tal estirpe. Inumeráveis pareceres, instruções, ordens, audiências e, por fim, sentenças – estas exigiam sempre muita reflexão – deviam ser emitidos durante um dia. É bem verdade que a uma juíza não é necessário olhar para o acúmulo de compromissos e ser tomada pelo estresse. Sempre se dava um jeito. A justiça é morosa, todos sabem, e, da mesma forma, sabem que precisam esperar. Há ainda os instrumentos jurídicos, que não deixam de avolumar os processos, por mais simples que o caso aparente. Maria Zilda conseguia manter-se dentro dos padrões exigidos pela instância superior à qual devia satisfações. E não decepcionava.
Naquele dia, apenas um fato fez que ela ainda pensasse sobre o dia excessivo. Foi o momento em que um homem – tinha em torno dos trinta anos – dirigiu-lhe diretamente a palavra, com uma inquirição, e de modo grosseiro. Tratava-se de uma pendência com a empresa onde trabalhara. Sem esperar a vez de falar, interpelara a juíza, assim como se falasse com uma pessoa qualquer. Ela, severa, virou-se para o advogado dele, como que o repreendendo. Este cochichou uma ou duas palavras no ouvido do querelante, que de imediato suspirou e nada mais falou.
No final da tarde, ela perdeu-se proposital por algumas ruas do Centro. Onde andavam os outros que tinham cargo de destaque na sociedade? Andariam em automóveis de vidros escuros, sempre escondidos, saindo de um ambiente fechado para outro. Temiam o reconhecimento na via pública. Por que não se encontram juizes e juízas andando a esmo por aí? Qual o local que eles freqüentam? Zilda conhecia alguns restaurantes, ponto certo de magistrados, promotores e até mesmo de advogados. Também sabia daqueles que viviam trancados em suntuosos apartamentos, ou casas de condomínios fechados. Passeavam, mas não muito no Rio de Janeiro. Preferiam outros estados, onde não atuavam, ou mesmo eram partidários de que passear com tranqüilidade era possível apenas no exterior, nas metrópoles do mundo desenvolvido. Ela, porém, não pensava da mesma forma. Saía, ia a vários locais, embora não se mostrasse plena; preferia o disfarce. E tinha-os em grande número.
Maria Zilda sentia-se perfeitamente realizada com a carreira que escolhera. Havia dias, porém, em que cometia algum exagero, uma espécie de compensação para o trabalho exaustivo que o cargo lhe impunha. Uma mulher ao ser percebida com demora por um homem precisa manter a discrição, tanto mais uma juíza. Naquele mesmo dia, só que à tarde, ela deparou-se com o mesmo homem que cravara os olhos nela pela manhã. Só que agora, ela não estava na rua, mas na mesma cafeteria em que o vira dias antes. Ele a estaria seguindo? Às vezes reparava seu olhar acintoso. Maria Zilda escondia-se atrás de óculos grandes, de lentes não tão escuras, mas o suficiente nebulosas para esconder-lhe os olhos. Antes que se sobressaltasse, a garçonete sussurrou algumas palavras no ouvido dela, como que pedindo desculpas, mas o homem insistira tanto; entregou-lhe um pequeno cartão. Ela mal olhou o que estava escrito. Grande descortesia. Levantou-se, deixou algum dinheiro sobre a mesa e se foi. O cartão permaneceu sobre a toalha, quase intocado.
Dali seguiu por algumas ruelas que a levaram ao Centro Velho. A Livraria da Travessa desanuviou seus olhos turvos. Entrou. Estacou diante dos livros de literatura, todos arranjados de modo a despertar o interesse no leitor. Antes de procurar algum título, prestou atenção ao semblante das pessoas. Reparou que aqueles que estavam voltados para os livros não levantavam os olhos para os outros freqüentadores, mesmo que estivessem de frente um ao outro, ou mesmo lado a lado. Assim se sentiu mais confortável.
Entreteve-se com um livro de um escritor inglês. Lera havia muito tempo vários daqueles romances, reparou que agora os livros se apresentavam em nova tradução e de modo mais sofisticado. Mais adiante viu O país das neves, de Yasunari Kawabata, logo abaixo havia A dançarina de Izu. Lembrou que lera ambos, o último tão delicado, tratava-se da história de um jovem que num período de férias escolares viaja para as montanhas e encontra um grupo de atores. Estes vão de aldeia em aldeia apresentando uma peça de teatro. O jovem decide acompanhá-los; um primor, o conto. Passeou por outros nomes e outros títulos, deu-se com Lídia Jorge, A costa dos murmúrios, lembrou que lera outro livro da autora, mas fugia-lhe o nome.
Permaneceu entre as estantes e descobriu a de teatro. Olhou alguns títulos, reparou que vira algumas montagens; depois, dispersou-se mais adiante. Despertou-lhe o café, tão requintado, que havia no lado direito da loja. Sentou em uma das mesas e aguardou que a atendessem. Queria continuar o chá que fora interrompido pelo homem inoportuno. Algumas pessoas conversavam em voz baixa enquanto tomavam café; havia aqueles que após terem comprado algum livro sentavam-se e folheavam-no enquanto aguardavam o garçom. Seria bom que ela estivesse em companhia de alguém. Mas, para uma mulher como ela, ter amigos era uma complicação a mais. Com exceção de duas mulheres e um amigo que na verdade fora empossado como analista judiciário, não se aproximava de outras pessoas. Ao saberem que ela era juíza, olhavam-na de forma diferente. Ao mesmo tempo, sabia Zilda que não poderia ser íntima de muitas pessoas. Isso lhe atrapalhava a vida. Talvez, muitos achem pedantes pessoas do porte de Maria Zilda. A garçonete trouxe o chá.
Duas jovens manuseavam livros nas estantes de filosofia. Pôde apreciar o brilho nos olhos delas ao segurarem algum exemplar de filósofos que, dali de onde ela se sentara, não conseguia distinguir. A filosofia era algo que deslumbrava certas pessoas, parecia revelar segredos de difícil decifração ao comum dos mortais. Lembrou que também vivenciara isso, mas optara pelos livros de Direito. As diversas ramificações da área jurídica e suas peculiaridades fascinaram-na mais do que qualquer outra coisa. No Direito havia mais certezas e, além disso, podia ler os livros de filosofia apenas como hobby.
Viu quando um casal trocou um beijo rápido enquanto via algum livro. Eram namorados, conversavam, olhavam as capas e aproveitaram o momento para ligeiro contato fisco. Zilda, de sua mesa, mostrou um breve sorriso. Aprovava a espontaneidade da juventude.
A noite já se estabelecera quando deixou a livraria. Caminhou novamente pelas pequenas ruas do Centro. Muitas pessoas ainda andavam também por aqueles caminhos. Todos iam em busca de transporte; voltavam para casa após mais um dia de trabalho. Maria Zilda, incógnita, acompanhava toda aquela gente. Quando chegou à Rio Branco, atravessou-a e, quase de imediato, entrou num ônibus especial, desses todo fechado e de ar-condicionado, que ia para o Leblon. Reclinou um pouco a poltrona e pôs-se a olhar as pessoas que estavam no passeio. As janelas vedadas do veículo faziam o lado externo da vida sem som. Ouviam-se apenas os ruídos internos e alguns murmúrios emitidos pelos poucos passageiros que conversavam.
A maioria das mulheres ainda opta pelo casamento, ou mesmo que não se casem, por algum tipo de relacionamento. Ela, no entanto, optara pelo estudo e pela profissão. Às vezes, debruçava-se sobre um livro na maior parte das horas vagas. Por outro lado, em determinadas noites, sentia que precisava sair, aproveitar a vida de uma outra maneira. Talvez estivesse sozinha durante a maior parte do tempo porque não soubesse dosar suas predileções. Na verdade, não gostava de dizer que era uma mulher só. Sentia-se bem consigo mesma. Tentara estabelecer relacionamentos afetivos, mas não conseguira mantê-los. Os homens eram controladores, e ela não se adaptava a isso. Não era do seu feitio dar satisfações, dizer aonde ia ou o que faria; ou mesmo ter de atender telefonemas durante o dia para dizer como passava. Quando os homens percebiam onde pisavam, pouco a pouco diminuíam os convites, até que desapareciam. A partir daí, passou a sair só, mesmo à noite quando ia a um espetáculo ou mesmo quando decidia jantar em um ou outro restaurante refinado. Apareciam-lhe pretendentes? Sim. Ela era uma mulher bonita, ainda jovial, apesar dos quarenta e poucos anos. Passou a flertar através de olhares, de movimentos sutis. Dissimulava, mas gostava de saber que estava sendo admirada. Até que uma idéia estimulou-lhe o dia-a-dia. Alguns dias atrás tivera uma idéia que tal conhecer alguém e nem precisar saber-lhe o nome? Sair com a pessoa uma vez, conversar, assistir a algum filme ou peça de teatro, depois jantar e, quando lhe apetecesse, ter um contato mais íntimo? Mas como seria essa pessoa? Quem seria ela? Pensou em diversas artimanhas para atingir esse objetivo. Talvez encontros casuais com alguém que ela achasse interessante, fazendo chegar a essa pessoa um bilhete com uma intenção. Para aquele que sabe ler, não são necessárias demasiadas metáforas; e as palavras diretas também não são delicadas. Uma vez que as línguas permitem volteios e graças, aproveitaria. Sabia que, ao andar muito sozinha, não seria difícil receber convites. Mesmo naquele momento, em que não predominavam abordagens diretas, os homens conheciam meios de fazer uma mulher receber um cartão, ou um número. Caso ela facilitasse, ao menos com um olhar, ainda que distraído, tudo estaria resolvido. Lembrou do cartão que recebera na cafeteria; não devia tê-lo recusado. Mas precisava ter cuidado, tinha de se mostrar um tanto difícil. Também não desejava ser reconhecida.
Ao chegar em casa decidiu que, àquela noite, sairia. Iria a algum lugar com a finalidade de se divertir. Tomou um copo de suco, sentou-se na ampla cozinha e ficou a reparar a arrumação perfeita que a empregada fizera durante o dia. Tudo era bonito e estava no devido lugar. Arranjara a empregada perfeita, tinha um senso de arrumação muito parecido ao seu. Achou que bastava o pensamento de como queria as coisas dentro de casa para que a mulher atendesse de pronto.
Acendeu um abajur lateral e uma luminária que corria de modo longitudinal o contorno do teto. Não demorou a afundar-se numa das poltronas da sala. Vislumbrou na parede em frente dois quadros que comprara na última visita a uma famosa galeria de arte, em Ipanema. Apresentavam pintura figurativa, mas era preciso um pouco de imaginação para visualizar o que o artista pretendera pintar. Numa pequena mesa lateral, havia dois livros. Pegou-o nas mãos e folheou-o sem que prestasse atenção ao conteúdo. Algumas palavras foram retidas por sua mente. Uma mulher em férias na Bahia conhecera um diplomata, os dois empreendiam uma viagem pelo mundo. Depois deixou o livro no mesmo lugar e pôs-se a imaginar. O outro era uma obra que comentava de modo minucioso o código processual. Folheou-o também; procurou as passagens que tanto a apaixonavam; as minúcias das leis, os trâmites que precisavam seguir. Não era à toa que decidira ser juíza, pois tinha verdadeira paixão por aqueles longos parágrafos, aquelas letras pequeninas. Era como uma investigadora que desvenda um mundo novo, quase uma revelação; e apenas ela tinha aquele conhecimento, poucos iam tão a fundo no estudo de todos os trâmites jurídicos. Após algum tempo, repousou o livro, cuidadosa, no mesmo local de onde o retirara. Voltou-se para os próprios pensamentos. Sairia à noite. Mas disfarçada. A idéia capturou-a de maneira voluptuosa. Fazia isso vez ou outra. Vivia alguns disfarces. Era interessante rodar pela cidade fingindo ser outra pessoa. Arranjava até novos nomes. Além de ser uma juíza importante, sabia que tinha talento para também ser uma atriz. Na verdade, usava máscaras. Sentia-se seduzida, começou a imaginar como faria naquela noite.
O telefone, de repente, soou. Olhou o número de origem e não atendeu. Sabia de quem se tratava, um outro magistrado. Teria alguma dúvida e ligava para ela. Era mais antiga do que ele na função e conhecia certos procedimentos de que ele sempre necessitava. O aparelho continuou no seu lamento. Quando o silêncio voltou a predominar, reparou que o céu estava escuro lá fora, voltou então à questão. Um disfarce, sim, era tudo de que precisava.
Entrou em um táxi às dez e quarenta e cinco. Usava uma peruca de cabelos pretos compridos, óculos de lentes redondas um tanto azuladas, que não deixavam entrever, de todo, os olhos. Vestia um vestido que lhe cobria os joelhos. Mas o tecido era fino e deixava o corpo com curvas sinuosas. O decote era um tanto ousado e permitia que se apreciasse parte dos seios volumosos, além da pele brilhosa. Ascendia aroma de sutilíssimo perfume.
Naquela noite, o Esch Bar apresentava um trio de músicos ingleses. Não havia mesa disponível. Ela não fizera reserva e não desejava ter fornecido um nome falso para tal. Um senhor gordo, porém, ao reparar que a mulher ficara embaraçada porque não fora atendida na solicitação de uma mesa, convidou-a para a sua. Foi o maître que transmitiu o convite a Maria Zilda.
“Muito prazer, Emília”, mentiu Zilda.
“Nelson, encantado”, disse o homem.
“Agradeço a gentileza, acabo de chegar ao Brasil e perdi o costume de ter de reservar um lugar em restaurantes.”
“Oh, que grata surpresa, além de estar encantado, tenho ao meu lado alguém que frequenta as casas mais famosas da velha Europa?”
“Mais ou menos.”
“Qual sua profissão?”
Maria Zilda não se surpreendeu. Estava acostumada a essas perguntas indiscretas. Os homens só pensavam em profissões, negócios, dinheiro. Não tinham discrição suficiente para reparar que alguém poderia ser uma pessoa rica e não precisar trabalhar.
“Atualmente, não preciso trabalhar.”
Como o bar costumava ser frequentado por gente da elite, não temeu proferir a última frase. O homem, porém, olhou para ela com mais interesse.
O som dos músicos que iniciavam a apresentação veio do fundo da sala e fez que as pessoas se voltassem para o pequeno palco. Todos aplaudiram. Durante algum tempo, as pessoas interromperam a conversa e prestaram atenção à exibição dos artistas. Quando iam pela segunda música, Nelson chegou ao ouvido de sua recém-conhecida e sussurrou-lhe demonstrando entusiasmo:
“Eles são bons, não acha?”
Zilda, para ele Emília”, assentiu com a cabeça e sorriu.
Devido à proximidade, pode sorver o perfume da mulher; não era um perfume comum, tinha um componente especial que por segundos assaltou-lhe os sentidos, imergindo-o numa espécie de embriaguez. Desejou possuir aquela mulher naquela mesma noite. Sabia que, no entanto, não seria fácil. Fez que o garçom se aproximasse e pediu uma garrafa de vinho, do mais fino e famoso. Sabia que aquele tipo de mulher tinha um preço alto. Não poderia começar por qualquer bebida.
Os músicos ainda tocavam, aplaudidos vez ou outra por algum grupo mais exaltado, quando o casal tilintou as duas taças e Emília levou aos lábios a sua. Seus olhos brilharam ao mesmo tempo em que a bebida rubra espelhou as luzes frágeis da casa. Nelson percebeu e viu nessa conjunção, além de uma exuberante beleza, uma certa aprovação para suas intenções.
Saíram do bar às duas e trinta da madrugada. Beberam um pouco mais do que de costume, mas tinham-se sob domínio. Emília parecia estar completamente sóbria, apesar do vinho. Nelson ia mais alegre. Pensou em tomá-la pelos braços, mas a achou séria demais. Temia um revés.
“Será que posso levá-la em casa?”
“No seu lugar, eu não me arriscaria?”
Ele pareceu se surpreender e quis saber por quê.
“Moro na Barra, é muito longe daqui. Pego um táxi.”
“Oh, não, absolutamente, para mim nada é longe para estar um pouco mais em sua companhia.”
“Agradeço. Peço que não ínsita. Prefiro ir de táxi.”
Nelson ficou sem saber o que dizer. Tudo estava indo tão bem, estava tão encantado pela sorte que tivera naquela noite, que não imaginava perder a mulher. Mas não quis insistir, seria deselegante e, ao mesmo tempo, não queria humilhar-se.
“Se é assim que você deseja, ajudo a tomar seu táxi.”
Aguardaram. Depois que Emília embarcou, descobriu que não pedira e ela não lhe dera o número do telefone. Bom, essas coisas acontecem. Ao menos tivera ao seu lado durante a noite uma mulher encantadora.
Ao chegar em casa, Zilda estava afogueada. Tirou toda a roupa e deitou-se. Pôs-se a imaginar a impressão que causara no homem e no desejo que despertara nele. Não desejava propriamente a pessoa, mas sentia intenso prazer ao perceber que ocuparia durante algum tempo o pensamento de alguém.

quinta-feira, abril 02, 2009

Vestida de noiva

Sempre fui muito corpo. Toda vez que arranjo um namorado, quero que ele me acaricie continuamente; desejo sentir seus dedos sobre minha pele; peço que percorra minhas costas, o bumbum, as pernas e que não esqueça de tocar meus pequenos pés. Quando estou prestes a fazer amor, imploro-lhe carícias maiores. Ofereço-lhe meus lábios, que não esqueça de mordiscá-los antes do beijo; só depois mergulhe sua língua, inundando-me a boca. De arrepio em arrepio, de pequenas em pequenas explosões, marcho inflamando-me, até culminar num grande abalo sísmico, onde não dou mais conta dos meus atos.

Nas últimas semanas, porém, conheci um homem dois anos mais velho que eu, experiente. Além de adivinhar todo o mecanismo que me excita, introduziu-me em experiência mais vasta. Agora, além do corpo, despertou meu espírito.

Numa das primeiras vezes, perguntou baixinho, em meu ouvido:

“Você usa só o corpo, ou também a mente?”

“A mente? Como assim?”, pensei tratar-se de alguma experiência que ia além do físico.

“A imaginação.”

“Como, a imaginação?”

“Você pensa em alguma coisa ao fazer amor ou se concentra apenas nos aspectos táteis que o corpo pode proporcionar?”

“Às vezes penso numa coisa...”

“O quê, por exemplo?”

“Ah, agora não digo, tenho vergonha.”

“Então vou contar algo mais; você vai delirar de prazer.”

“Deixa para amanhã; hoje me toca daquele jeito especial, que só tu conheces.”

Naquela noite trepamos de forma avassaladora. Meu corpo vibrou sob seus dedos ágeis. Dirigia-me ora com sutileza ora com toda a energia; executava uma sinfonia em que durante vários movimentos me fez beirar o êxtase.

No encontro seguinte, no apartamento dele, quando já me encontrava nua e pedia sua aproximação, ele começou a tatear meu corpo como sempre, mas, ao mesmo tempo, passou a sussurrar-me algo excitante. Era uma pequena história.

Conto com minhas palavras.

Eu estava numa praia deserta, passava da meia-noite, e ia nua, isso, nuinha; esperava alguém. O vento me tocava a pele, como mão de um homem que faz pequenas carícias. Aí apareceu meu amante. Saiu de dentro da noite e rolou comigo sobre manto estendido sobre as areias. Ao longe ouvíamos o mar. Quando terminamos, pediu-me que entrasse n’água e, depois do mergulho, de lá saísse como princesa das águas, pronta para mais um encontro. Tremi, mas fui. Ao sair, dei-me com a escuridão e o vazio. Não vi o homem que me aguardaria. Minhas próprias mãos percorreram meu corpo trêmulo. Apalpei-me, procurei tapar minha nudez envergonhada. Quando me desesperava, ele apareceu. Envolveu-me seus braços largos. Meu corpo úmido percorrido por seus dedos hábeis provou outros tremores, agora de prazer maior. Fizemos amor mais uma vez. Ao lampejo de uma estrela tardia, ele disse que precisava partir. “Como vou embora?”, eu estava ansiosa por saber, pois não havia rastros de como chegara ali, se nua ou vestida, ou mesmo onde morava. Sorrateiro, antes de desaparecer, sua voz soou tal canto de navegante homérico: “És a musa desse lugar, estás em tua própria casa”, e se foi. Pensei comigo: ‘logo será dia, onde estou? Para onde irei?’ Eis que momentos de inquietude se dissiparam ante a chegada de um príncipe com seu automóvel. “Vou levá-la, rainha, esperam-na trajes de majestade.” Beijei-lhe uma das faces, entrei em seu carro temerosa. Um conversível, sob as luzes da cidade. Antes de chegados ao destino, paramos em um amplo descampado, à beira de uma outra praia, de ondas estrondosas, seculares. Ali, sobre meu corpo, fez o mesmo trajeto de todos os outros. Depois me carregou ainda nua, abriu a mala e quis vestir-me com um vestido de noiva, descomunal. Apenas o tecido sobre a pele, rendas e mais rendas. Sua voz chegou-me como carícia: “essa noite, o casamento!” Ainda digo: “casamento? Nem te conheço, como casamento? E além de tudo, não estou pura, olha meus cabelos, minha pele salgada, e nem trago nada além do vestido que me dás.” Ele completa: “vou banhar-te em água doce! E o casamento é só por uma noite!” Carregou-me até uma nascente em que espirarrava um jorro flácido; banhou-me, esfregando o corpo com sabonete de rosas.

Essa foi a narrativa.

Antes de fazermos amor, ou mesmo durante, meu namorado passou a me contar a cada noite uma nova história; levou minha imaginação a extremos, proporcionando-me o gozo em dobro.

Em suas narrativas eu saía cada noite com uma roupa insinuante. Ora elegante, ora provocante, ora seminua. Ele, ou mesmo alguém incumbido por ele, conduzia-me. Durante a madrugada, mesmo que por alguns momentos minhas roupas desapareciam. Às vezes minha nudez passava despercebida, eu ultrapassava peripécias como se fosse uma mulher invisível; outras, devia tramar para ludibriar olhares acintosos. Tínhamos cuidado de voltar antes do amanhecer. Os vidros escuros do veículo sempre estavam a me salvar. Certa vez roubei a festa. Fui a um noivado e terminei na cama do noivo. Apenas muitos meses depois, ele notou que tivera em seus braços a mulher trocada.

Numa outra noite, disse a meu narrador e namorado: “Lembra uma vez que senti vergonha de te contar minha fantasia? Escuta, agora, é tua vez de delirar.”

Isso se deu faz dois meses. Deixei-me seduzir por um homem que conhecera naquele mesmo dia. Estávamos numa praia deserta. Ficamos agarradinhos, namorando de pé durante um bom tempo. Então ele desfez os lacinhos do meu biquíni; me deixou nua! Apesar de não ter ninguém por perto, eu senti uma vergonha imensa. Morri de medo que alguém aparecesse.

Depois ele me sentou sobre suas coxas, de frente, uma perna para cada lado. Eu tremia muito. Achei que ia sentir dor, mas seu pênis escorregou fácil para dentro de mim. Ouvi sua voz, bem junto ao meu ouvido, quase um sussurro: "relaxe, não vai haver problema algum", naquele momento pude sentir um pouco de prazer.

Quando acabamos, eu estava de novo com muita vergonha; nunca tivera uma relação sexual numa praia às quatro da tarde. Ele ainda disse: "você fica linda nua, acho que vou pedir pra você desfilar um pouquinho".

Lembrei-me de uma amiga que se viu em apuros depois de fazer amor com um homem que conhecera momentos antes. Pensei que poderia acontecer o mesmo comigo; as circunstâncias eram muito parecidas.

Continuou: "ainda não vi os seus seios".

Olhei em volta e, diplomática, propus: "deixo você ver, mas me devolva primeiro o biquíni".

"Vou pensar", ele falou.

Cruzei as mãos, instintiva, sobre meus poucos pelos. Esperei cerca de um minuto. De repente, falei:

"Hoje vou me casar"

"Casar?".

"Isso, o que há de errado?"

"Mas você esteve comigo, agora vai para os braços de outro?".

"Oh, sou livre, encaro o casamento de outra forma; meu noivo sabe disso".

"Então quer dizer que deixei uma noiva nua!"

"Deixou. Agora me devolva a parte de baixo que eu mostro o que desejas, mas depois preciso me vestir e partir. Caso-me às nove da noite. Se não apareço em casa, ou se apareço nua, haverá escândalo; e escândalo é o que mais detesto, morro de vergonha".

Ao ver que eu ainda tremia e que estava muito vexada, ele (como demorou!) me devolveu a p­­­equenina peça. Algumas gotículas d’água escorriam de meu corpo; não sei se ainda a água do mar ou se o suor provocado pela aflição.

Cumpri o que prometera.

Logo após vestir a calcinha, refazendo nas laterais os pequenos laços, tirei o top; e por alguns minutos deixei aquele homem, que eu conhecera não fazia duas horas, apreciar meus seios.

"Como são belos!", sua voz e seu rosto revelaram todo o feitiço em que eu o enredara.

Abracei-o. Senti seu tronco quente; e logo suas mãos tatearam minhas costas, minha cintura, meus quadris e depois de novo estreitaram os laços que me vestiam.

Recomeçamos. Agora, eu sentia mais confiança. E ia nua por inteiro.

Ainda falou:

"Acho que seu casamento vai ter de esperar."

"Que espere, as noivas sempre atrasam...", falei excitada; ele acabara de descobrir o ponto chave de meu corpo.

Quando aquela segunda vez acabou, caminhei nua até a beira d’água para me lavar. Mas ao voltar....

"Não conto o desfecho, deixo-o a ti. Só digo que me foi favorável!"

Não perguntei a meu namorado se imaginou o final da história. Ele estava com o gozo à flor da pele. Prendeu-me voraz; soltou-me somente após despejar-me todo o seu ardor.

Não é preciso dizer que minha vida tornou-se uma aventura errante. No bom sentido, é claro. Como era bom errar em meio à tanta fantasia. Não creio que de hoje em diante me acostumaria com um homem que fosse apenas corpo.

Mas há ainda mais uma coisa.

De tanta fantasia, decidimos colocar algumas em prática. Há quem diga que é perigoso trazer a literatura para vida real. Mas sempre me saí bem. Caso algo desse errado, o que me poderia acontecer? Não seria condenada à morte por querer um gozo a mais.

Dentre tantas aventuras, resumo a mais excitante e arriscada. Fomos a uma boate, lugar de gente distinta. Lá pelas tantas, soltei o tomara-que-caia e o deixei sobre um estofado do fundo; escorreguei-me nua pelo salão escuro. Uma mulher muito branca, porém, gritou: “acendam as luzes, acendam as luzes, há uma mulher nua!.”

Acenderam. Mas como demoraram. Demoraram tanto, que eu já ia vestida; se não dentro da roupa com que chegara, ao menos coberta pelo agasalho do homem que me aguardava!

E ninguém notou.

quinta-feira, março 19, 2009

Inocentes de BH

Estava deitada na grama, no setor do parque em que as mulheres escolhem para tomar sol. Como era véspera de carnaval, aproveitava para bronzear o corpo; fora convidada a algumas festas, queria estar no ponto certo para fazer sucesso. O sol ainda estava morno, eram nove da manhã; deitara-me de bruços e com um chapéu a cobrir-me quase toda a cabeça. Acreditava que não poderia ser reconhecida e, ao mesmo tempo, estaria protegida dos raios do sol. Ia tão longe em pensamentos que não ouvi a primeira vez que alguém me chamou. Parecia uma voz distante, que não fazia parte do lugar onde me encontrava. “Marisa, que biquíni pequeno! O bumbum todo de fora!” Apenas quando me tocou o corpo, percebi que falava comigo. E o toque foi um ligeiro beliscão, bem num dos lados que o biquíni não cobria. “Ai, que susto, é você?” Era Djanira, uma amiga que vez ou outra encontro tomando sol. É mais jovem que eu e também muito bonita. “O que você vai fazer nesse carnaval, Marisa?” “Advinha?” “Desfilar nua, como no ano passado?” Ri: “Não, esse ano estou mais comportada.” “Comportada? Então não te convido para uma festa.” “É mesmo?” “Uma festa de arrepiar!” “Acho que estou um pouco cansada de festas. Não sei ainda. Tenho vários convites, mas queria fazer uma coisa diferente.” “Que, coisa?” “Não sei, acho que estou ficando velha. Queria ficar com alguém, mas não queria tumulto esse ano, Djanira.” “Tumulto?, todos adoram a nossa presença, dizem que enfeitamos e damos sensualidade às festas; caso não comparecêssemos, esses eventos não seriam os mesmos.” “Sei que todos gostam; que também aproveitamos. Mas chega uma hora que cansa. Dançamos, enlouquecemos os homens, bebemos, comemos, namoramos e até, sabe como é, acontecem aquelas coisas das quais tiramos imenso prazer...” “Então? O que se pode querer mais que isso? Temos um corpão para exibir; aparecemos sempre vestidas minimamente; temos os melhores homens para nos apreciar. Só não podemos querer que eles fiquem conosco para o resto da vida. Aqui, entre nós; seria de doer, não é mesmo?” “Acho que você tem razão.” “Você, com essa conversa, parece que está atravessando uma crise existencial. Certa vez contei algo assim à minha terapeuta. Sabe o que ela me disse? ‘Quando você estiver atravessando uma fase assim, tente criar desejo por alguma coisa, por algo que lhe dá extremo prazer; de preferência por uma coisa que a excite’. E você sabe o que me excita, não?” “Ah, imagino.” “Imagina?, pensei que você soubesse. Me deixa deitar do seu lado que tem dois caras nos olhando. Já viu meu biquíni novo? Acho que é menor do que o seu. Vamos enlouquecê-los, só de curtição.” “Você é terrível, Djanira.” “Eu? Por que será que os homens não preferem um prato de chuchu em vez de quererem lamber nossos corpos?” Tive de rir. “Antes que eles se aproximem e tentem falar com a gente, me deixa te contar um fato que aconteceu ontem na festa da Bia.” “Você foi à festa ontem e já está aqui cedo tomando sol?” “O que você acha, Marisa? Não pode ser o meu espírito, pode? E além de tudo, quero ficar pretinha como você... Quero te contar. Foi muito engraçado. Veio uma amiga da Bia, de BH, chama-se Amira. Uma mulher de quase cinqüenta anos, mas de um corpo de vinte. Uma minissaia, uma blusinha, e sem sutiã. Os homens ficaram fascinados. Todos queriam apertá-la, colar o corpo no dela. E ela se entusiasmou. Sabe que na Bia, o calor sobe e a gente acaba dançando de biquíni.” “De biquíni ou de calcinha?” “Ah, Marisa, você sabe de quê. Até a mineira percebeu rapidinho; ela falou que nunca tinha participado de uma festa daquelas, não imaginava que as pessoas eram tão animadas aqui na cidade; ficou empolgadíssima. Acabou dançando também só de calcinha. Sei que no final, um dos rapazes a deixou nuinha; e ela fez de conta que nem percebeu. Quando a festa acabou, ela falou: ‘não faz mal, vou embora pelada, o carnaval aqui é muito bom; volto amanhã’.” “Olha, Djanira, os caras de quem você falou estão ao nosso lado.” “E o que a gente faz?” “Não sei, você não é expert no assunto?” “Eu, Marisa? Sou tão inocente; minha mãe sempre me disse para não conversar com estranhos...” “E você seguiu o conselho dela!” “Claro que não, mas...” “Djanira, vamos fingir que somos de Minas.” “Vamos, Marisa; acho que o da direita estava na festa ontem.” “Djan, você está imaginando coisas.” “Tenho quase certeza.” “Não esqueça, somos mineiras.” “Vamos, tanto que eles não me roubem a blusa...” “Blusa? Você veio de blusa, Djan?” “Vim?, ou não?” “Presta atenção, dizem que Minas é um estado conservador; somos as mulheres mais inocentes do mundo; do mundo, não, do mundo é demais; da cidade...”

sábado, março 07, 2009

Uns braços

O parque Olhos D’água, ao amanhecer, já recebe seus primeiros caminhantes. Chegam quase apressados, prontos para cumprir o percurso planejado. São pessoas que, em sua maioria, desejam uma vida saudável, querem respirar o ar puro da manhã e manter o peso sob controle. Há aqueles que se exercitam porque, na verdade, precisam mesmo emagrecer.

O local possui muitas nascentes e vegetação típica do cerrado; também há um lago numa das extremidades, onde é possível observar muitos peixes e tartarugas; o canto dos pássaros é bastante envolvente. O parque funciona quase como um oásis em meio ao clima seco da região. Nada pode ser tocado, pois trata-se de uma reserva ambiental.

A circulação é silenciosa. Quando alguém reconhece um colega, amigo ou vizinho, faz um leve gesto com a cabeça.

Nas primeiras horas, após o nascer do sol, predomina o ligeiro stress típico das capitais. Os que se põem a andar ou correr trazem na fisionomia a marca da vida agitada e plena de preocupações. Percebem-se os vícios da pressa, o desejo de logo dar por encerrada a atividade física, porque a necessidade de ganhar dinheiro impera. São pessoas que não estão ali, suas mentes já saltaram etapas e vivem por antecipação os possíveis aborrecimentos do dia que começa.

É bom não compactuar com essa gente. Nada melhor do que se deixar levar pela preguiça, pelo sono que sempre é mais intenso ao amanhecer e largar-se na cama por mais uma ou duas horas.

Em torno das nove tomo um ligeiro café e desço ao parque, apreciando a beleza da quadra em que mora a amiga que me hospeda. Cumprimento com um sorriso curto as pessoas que cruzam comigo; reparo de soslaio, por trás das lentes escuras, o rosto bonito de homens e mulheres, joviais e despreocupados. A essa hora da manhã já se foram os caminhantes de hora marcada; predominam a preguiça, um certo desleixo, e a corrida em que há um pouco de prazer em se deixar atrasar. Acho que até mesmo nasce o desejo de ser vencida por um sol que já não se apresenta tão suave. No final de voltas e mais voltas pelo parque, momento em que sobressaem a respiração ofegante e o corpo molhado de suor, vejo expressões que anseiam largar-se sobre os bancos próximos à entrada principal, fechar os olhos e em nada pensar, além de sentir o palpitar do próprio peito. Há ainda outra possibilidade de prazer: atrasar-se mais um pouco junto à carrocinha do vendedor de água de coco.

Não sinto inveja das pessoas que passam lá fora vestidas e refrigeradas dentro dos automóveis.

“Você veste uma tipo de peça engraçada.”

“Como assim?”, perguntei.

“Esse objeto que cobre seus braços.”

“Isso não é objeto, são mangas que funcionam independentes da blusa; na verdade, são elásticas, proporcionam elegância e sensualidade. Você nunca viu ninguém usar isso?”

“Não, você é a primeira.”

“Aprendi no trabalho; às vezes faz parte do uniforme; pode-se optar ou não pelo uso.”

“Qual sua profissão?”, ele quis saber.

“Advinha.”

“É difícil dizer a profissão de uma pessoa como você; não vou arriscar.”

“E eu não vou dizer; só informo que estou de férias.”

“Férias em Brasília?”

“Sim, por que não?”

“Aqui não há nada para fazer.”

“É isso mesmo que desejo, não ter nada para fazer, além de caminhar ou correr nesse parque.”

O diálogo acima foi travado quando eu acabara de caminhar numa manhã de quarta-feira. Um homem alto, ainda jovem, com aspecto de alguém bem-sucedido puxara conversa dias antes e eu aceitara. Encontramo-nos mais duas ou três vezes e nesse dia eu vestia as famosas mangas que me apertavam dos antebraços até quase os punhos.

“Você tem problema de circulação sanguínea?”, ele ainda quis saber, insistindo em descobrir a utilidade do excesso no meu traje.

“Não, não tenho problema algum.”

“Posso convidar você para sair à noite?”

“Poder, pode; mas vou dizer não.”

“Qual o motivo?”

“Já disse, não quero fazer nada nessas férias, além de vir aqui pela manhã e mais tarde ler um bom livro.”

“Você lê Machado de Assis?

“Às vezes, sim.”

“Dizem que ele também escreveu literatura erótica...”

“É verdade, há alguns contos.”

Despedi-me e atravessei em direção à quadra.

Todos os dias pela manhã, durante pelo menos uma semana, frequentei o parque. Descobri que estava sempre sob os olhos daquele admirador do primeiro dia. Se por acaso nossos caminhos se cruzavam em algum trecho, ele meneava a cabeça, fazendo um ligeiro cumprimento. Eu retribuía através de um sorriso discreto.

Houve um dia em que não apareci. Calculo que ele deve ter ficado preocupado. Talvez até tenha pensado que minhas férias houvessem chegado ao fim. Mas voltei ao parque e o encontrei de novo; foi então que aconteceu...

Mas antes quero contar uma outra coisa.

Minha anfitriã convidou-me para sair em determinada noite e foi por isso que não apareci no parque naquela manhã. A história foi mais ou menos assim.

“Carla, vamos a uma festa hoje?”, sugeriu.

“Festa? Não estou disposta; tenho dito que não quero fazer coisa alguma nesses dias, apenas caminhar no parque, ler um livro e descansar.”

“Vamos, por uma vez apenas, depois você volta ao ritmo de não fazer coisa alguma.”

“Que tipo de festa?”

“Uma festa muito especial, escute. Aqui nessa cidade há um grupo de pessoas que não deseja ter relacionamento sério com ninguém, então a gente se reúne uma vez no mês para se divertir. É muito interessante.”

“São pessoas que não querem ter namorados, namoradas, maridos etc?”

“Isso mesmo, daí há o encontro, assim todos se divertem juntos.”

“Não haverá problema aparecer lá alguém que não faça parte do grupo?”

“Caso seja convidada de um dos participantes, não. E você é minha convidada.”

“Não sei, não estava querendo sair...”

“Vamos, só essa vez.”

“E o que acontece na festa?”

“Há música, conversa e dança; também pode rolar um namoro; mas nada de compromisso.”

“É uma festa recatada?”

Ela sorriu e respondeu:

“Recatada? Bem, mais ou menos."

Acabei aceitando o convite.

Cheguei na festa, curiosa. Como era fevereiro, foi um baile em que todos estavam de máscaras. Eles já se conheciam, mas a fantasia incendiou a imaginação de cada um.

Comecei logo fazendo um certo sucesso. Acho que devido ao fato de eles não me conhecerem e não poderem ver meu rosto, já que o regulamento pedia que não se tirassem as máscaras. Alguns homens começaram a me assediar. Estava calor, fui de roupa curta. Isso contribuiu para as aproximações. Em determinado momento, vi que minha amiga desaparecera; as pessoas estavam dançando e se beijando de forma ardente. Não quis que ninguém me beijasse, mas não consegui escapar de alguns apertos no momento em que estive na pista de dança.

Também houve uma dançarina que apresentou um número especial. Todos a aplaudiram muito. Ela tirou pouco a pouco toda a roupa, ficando apenas de máscara e de biquíni. Depois pediu a dois rapazes que desfizessem seus lacinhos. Quando o biquíni se soltou, as luzes se apagaram e apenas seu rosto, coberto pela linda máscara, ficou iluminado. Após alguns segundos, todo o salão ficou escuro. Quando as lâmpadas laterais voltaram a se acender, a dançarina nua não mais estava ali.

Achei interessante o grupo de pessoas. Uma vez que não tinham parceiros fixos, homens e mulheres podiam revezar-se, namorando numa noite alguém que fora parceiro de outro na festa anterior. Perguntei à minha amiga se havia quem convidasse algum outro participante para sair num outro dia qualquer. Ela me respondeu que sim, havia muitos convites, mas que no encontro mensal ninguém podia se sentir dono de pessoa alguma. Achei que tudo aquilo era uma boa solução para que as pessoas não se sentissem sozinhas; na verdade, era uma tentativa de amor coletivo.

“Você sabe que é a melhor maneira de não se ter compromisso. Caso haja um homem ou mulher que queira um relacionamento convencional, não pode demonstrá-lo nessas festas. Pode-se até fazer amor, mas de um modo bastante livre”, explicou minha amiga.

Recebi muitos convites para sair depois da festa. Houve quem me desse o número do telefone. Tratei todos com bastante gentileza, porém não desejei ninguém. Estava determinada a passar minhas férias do jeito que eu planejara.

No dia seguinte, voltei ao parque. Ainda ficaria na cidade por uma semana. No mesmo dia, conversei de novo com meu admirador.

O diálogo se deu no mesmo lugar em que ocorrera na primeira vez. O dia estava lindo, convidava à caminhada e incentivava ao amor.

“Você não é de Brasília, não é mesmo?”

“Não.”

“E suas férias ainda duram muito?”

“Mais alguns dias.”

“Que pena, não vou ver mais você. Com a sua presença, Brasília passou a ter outro colorido”, riu após pronunciar o nome da cidade.

Também ri.

“Como posso dar colorido a uma cidade?”

“Há mulheres que têm esse poder.”

“Olha, assim você vai me conquistar”, fiz ar de extrema simpatia.

“Vou?, que bom. O que falta, então?”

“Só mais uma palavrinha”, falei.

“Qual?”

“Adivinhar meu nome.”

“Carla.”

“Tenho de entregar os pontos”, avancei sobre ele e mordisquei seus lábios.

Ele me abraçou. Estávamos suados, mas o calor de nossos corpos tornou-se um convite a mais.

Naquela mesma manhã tomamos água de coco juntos. Voltamos também juntos para a quadra. Ele morava no bloco D e eu estava no F.

“Pena que não posso convidar você para tomar um café na minha casa”, falou, “há uma pessoa idosa lá, ela é muito convencional e está doente.”

“Também não posso convidar você, estou na casa de uma amiga.”

“Vamos sair à noite?”, sugeriu.

“Não sei; disse à minha amiga que não ia sair enquanto estivesse aqui. Nem tenho aceito os convites dela para passearmos.”

“Então voltamos ao ponto zero.”

“Voltamos.”

“Tenho uma solução; não sei se você vai aceitar”, disse ele.

“Qual?”

“Passearmos um pouco, agora.”

“Como?”

“Tenho um carro, está na garagem. Vamos?”

“Para onde?”

“Vamos ver...”

Descemos o subsolo do prédio dele. Entramos num automóvel vermelho. Ele deu a partida e demos umas voltas pela cidade. Paramos em uma cafeteria. Ele pediu café; eu, apenas um suco.

Quando voltamos ainda permanecemos dentro do carro. Fui eu que o abracei primeiro. Beijei-o em seguida; um beijo comprido. Ele, então, me recostou sobre seu peito, apertou-me e acariciou meus cabelos.

“Tive uma idéia”, falei.

“Qual?”

“Feche os olhos.”

Ele me obedeceu. Desvencilhei-me dos braços dele, completei:

“Espere dois minutos.”

Saí do carro. Estava escura a garagem. Entrei exatamente dois minutos depois.

“Toque meu corpo”, pedi a ele.

“Você está nua!”, falou sem abrir os olhos, percebendo meu corpo apenas pelo tato.

“Continue de olhos fechados”, ordenei.

Ficamos um junto ao outro por outros longos minutos. Então me tocou os braços.

“Você está vestindo apenas as mangas, não é mesmo? Está nua. Tem apenas os braços cobertos.”

“Isso; agora abra os olhos.”

“Vou despir seus braços.”

“Ai, assim morro de vergonha”, falei sensual, sorrindo de leve e procurando mais uma vez seus lábios.

Fizemos amor dentro do próprio carro. Foi uma única vez.

Alguns dias depois, parti. Não disse nada a ele. Nunca soube minha profissão.

Quando o avião decolou e Brasília ficou para trás, minha voz ecoou pelos autofalantes da aeronave:

“Senhores passageiros, bem-vindos a bordo, este é o voo 1901, com destino ao Rio de Janeiro...”

Mais tarde, ainda durante o voo, uma amiga da tripulação me perguntou:

“Nunca vi você com os braços nus; cadê suas mangas?”

“Ah, nem te conto...”

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Samba, beijos e arrepio

Esse carnaval foi um arraso, me diverti muito. Saí em duas escolas: uma na noite de domingo, outra na de segunda. Nas alas onde as fantasias são mínimas. Que curtição! Não há nada melhor do que ser estrela na avenida, em meio aos holofotes e sob as câmeras dos fotógrafos e de TV.

Mas quero contar algo que vai além disso. Aconteceu na terça. Não satisfeita, aceitei o convite de duas amigas para assistirmos ao desfile das escolas do segundo grupo. Nunca pensei que seria tão animado. Acho que o samba autêntico está nessas escolas; nelas predomina a criatividade e o samba no pé. Dentre todas as alegrias e satisfações de um ótimo carnaval, a melhor se deu já depois de meia-noite, quando os tambores ressoavam e tornavam mais intensas as batidas dos corações.

Um homem ficou por muito tempo me azarando. Eu sambava, cantava com as escolas, fechava os olhos, estava entusiasmadíssima. Ele aproximou-se e beijou minha boca. Uma pessoa qualquer tomaria um enorme susto. Mas mantive a tranqüilidade e agi como se nada tivesse acontecido. Ele continuou junto a mim. Minhas amigas já haviam se misturado a outras pessoas, ou mesmo arranjado namorados.

O recém-chegado ficou a dançar às minhas costas; vez ou outra encostava no meu corpo.

Depois de eu ter andado nos outros dias de fantasia, estava de vestido curtinho. Não é preciso dizer que até as mulheres olhavam para mim e sentiam inveja do meu corpo.

O homem não desistiu. Voltou com um novo beijo, num rodopio que fez com que nos encontrássemos frente a frente. Fui tomada por um terrível frêmito; aceitei o beijo – como ele sabia beijar! – e tocamos nossas línguas. Dali em diante, nosso idioma foi o gingar dos corpos, a sutileza dos abraços e a umidade dos nossos lábios.

Então ocorreu o clímax. Quando vinha a bateria da última escola, ele agarrou-me com mais volúpia. Surpreendeu-me, levantou o meu vestido. Não foram muitos os segundos para que eu sentisse toda a sua vitalidade.

Ainda bem que ninguém reparou. Cada um dos presentes também vivia o seu êxtase: uns com a música; outros com o balanço do corpo; poucos talvez da mesma forma que nós dois.

Queria que aquele momento fosse eterno. Ele soube fazer amor naquela posição desconfortável, como eu jamais experimentara.

Depois que tudo passou, ele também se foi, desapareceu na multidão. Encontrei então minhas amigas. Cada qual contou sua aventura. Eu falei que adorei o desfile, que sambei e me diverti muito naquela última madrugada de carnaval. “Só isso?”, perguntou Soraia. “Só”, foi o que respondi. Mas lógico que elas não acreditaram.

Ainda há um porém. Hoje pela manhã, após dormir quase a quarta inteira, fui à padaria. Quis tomar café quase ao ar-livre, envolta pelo clima de verão. De repente, vejo um homem conversando com outro em uma das mesas. Seria o dos apertos, beijos e tudo mais? Ainda bem que eu estava de óculos escuros e de cabelo preso. Agucei os ouvidos. Falava ao amigo justamente sobre o carnaval e sobre a incrível experiência que tivera.

“Você precisava ver a gata que conquistei. Vestia uma roupa curtíssima.”

“Onde?”, perguntou o amigo.

“No sambódromo, no último dia do desfile.”

“Em que lugar do sambódromo?”

“Na arquibancada especial. Escute só como foi: ela sambava num entusiasmo que não tenho palavras pra descrever. Então me aproximei por trás; de repente, dei um rodopio e beijei a boca da gata.”

“Ela não reagiu?”

“Não, agiu como se eu não existisse. Permaneci atrás dela. Na minha segunda investida, senti sua pele toda arrepiada. Entendi como um sinal verde. Ficamos juntos o resto da noite; beijei-a na boca o tempo todo e, no final, aconteceu...”

“Aconteceu o quê?”

“O principal, ora. Fui levantando de leve o vestidinho dela. Ela pouco a pouco me apertava com mais intensidade, então...”

Paguei meu lanche e fui embora. Temi que ele me reconhecesse.

Sabem como é, amor de carnaval deve ser assim: fugaz. Daí, a gente nunca esquece.

E mais uma coisa: não se deve dizer o nome nem perguntar o do parceiro.

domingo, fevereiro 15, 2009

"Olhem essa foto, eu estava só de camisa!"

Tomávamos vinho na casa de um casal amigo. Era sábado à noite, final de janeiro. Ela, o marido, um amigo e eu. Conversávamos sobre os mais variados assuntos. Predominou, porém, a conversa sobre cinema. Falou-se sobre os principais filmes da temporada. Conforme entrávamos pela noite, tornávamo-nos mais excitados. Bebíamos o vinho e, entre um gole e outro, água mineral.

Minha amiga é escritora, mas de livros sérios. Também viaja muito; ela e o marido. Contava sobre uma viagem que fizeram à Argentina há mais ou menos uns seis anos. Depois os dois já foram a outros lugares, mas aquela, de 2003, parece que marcara a ambos e ao casal que viajara junto; uma das pessoas que compôs o segundo par era o amigo que estava também ali.

Leda – chamemos assim minha amiga escritora – vivia, à época da viagem, o idílio inicial do casamento. Pegara o diário que o grupo escrevera durante os dias em que estiveram em Buenos Aires. Isso mesmo, o grupo tinha um diário, e minha amiga recebera a tarefa de escrevê-lo. Além das observações sobre a cidade, sobre o que faziam durante o dia e a noite, o diário também exibia objetos que os viajantes colaram nas páginas do caderno, como rótulo de cerveja, guardanapo de restaurante, bilhete de metrô, reclame do hotel ou de algum bar, folheto com algum espetáculo que estava em cartaz, entrada do espetáculo etc.

Ela mostrou também muitas fotos em que apareciam além de ela e o marido, o outro casal. Havia cenas de beijos movidos por paixão tempestuosa. Ao remexer na caixa de onde tirara o diário, encontrou algumas outras fotos; não da viagem, mas tiradas em casa ou em festividades com os amigos.

“Olhem essa foto, eu estava só de camisa, devia estar muito doida; olha essa outra, é a Marisa. Também pelo jeito não estava nada sóbria. Lembra o dia em que ela chegou aqui com o vestido rasgado?, estava bêbada. Mas essa em que estou só de camisa, nem lembro, não sei como me fotografaram assim.”

“Tente lembrar e conte pra gente”, sugeri.

“Será que meu marido deixa?”, falou de modo irônico e se voltou para ele.

“Você é quem sabe; será que o Rui também não estava com a namorada?”

“Que eu me lembre, não”, respondeu com presteza o amigo.

“Acho que já sei o que aconteceu”, começou a contar Leda.

“Lembrou muito depressa, amor”, falou o marido enquanto colocava mais um pouco de vinho na própria taça.

“É que foi um dia espantoso, ou melhor, uma noite. Eu e a Lúcia havíamos comprado seis garrafas de champanha. Isso mesmo, seis garrafas. Lembro que o champanha não era para aquele dia. Mais ou menos às quatro da tarde, chegou a Ruth. Ela logo sugeriu: ‘que tal tomarmos um golinho?’ Abri uma garrafa; bebemos em dez minutos. Estava uma delícia. Resolvemos abrir mais uma; de uma em uma, tomamos as seis. Éramos só mulheres em casa, o César disse que chegaria às nove e, quando ele abriu a porta, deu com as mulheres todas nuas num fogo terrível, e eu só de camisa. Ele fez de conta que nem reparou. As mulheres continuaram nuas. Então, ele resolveu abrir uma garra de vinho. Lembro bem, depois falou: ‘que tal irmos com a garrafa lá pra baixo, para o Parque do Flamengo?’. Todas nós concordamos. Só então a Ruth e a Lúcia se deram conta de que estavam nuas. Acabei emprestando uma camisa para cada uma e descemos. Acho que as pessoas nos olharam um tanto incrédulas. Quando estávamos lá, depois de esvaziarmos a garrafa de vinho com a ajuda do César, não foi, amor? ele mesmo tirou a câmera do bolso e fez as fotos. Queria encontrar a outra; há uma ainda mais engraçada. Voltamos para casa e caímos cada uma num sofá. Só acordamos no dia seguinte. Quando levantei, César tinha saído. Mas não demorou a voltar. As meninas, logo que se deram conta da noite que viveram, procuraram muito recatadas suas roupas, vestiram-se e foram embora. Cada foto tem uma história, não é mesmo?”

Continuamos bebendo e conversando.

Entre esses amigos, tenho fama de ser uma mulher comedida, que gosta de ler, de música, de cinema e de espetáculos teatrais. Nada sabem sobre minhas histórias, muitas delas muito mais picantes. É bom que seja assim; cada coisa em seu devido lugar; e em cada lugar uma representação.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Cris e o amor

Não me devasse desse jeito, olhe apenas para o meu rosto. Eu conto o que aconteceu. Os homens adoram essas histórias, principalmente quando elas saem da boca de uma mulher. Foi o seguinte:

Encontrei um homem lindo, parecia ainda rapaz, mas já entrava pelos quarenta; elegante, jovial. Fui eu quem o abordou.

“Você não é da Filosofia, da UFRJ?”

“Não”, ele respondeu, “sou da UFRJ, mas da Letras.”

“Você é muito parecido com um antigo amigo meu da Filosofia; pensei que fosse ele.”

Continuamos a conversar. Estávamos no Espaço de Cinema, era uma tarde de domingo. Ele tinha ido para assistir a um filme espanhol; eu, apenas para sair um pouco de casa.

Comentou sobre o que fazia na universidade. Concluíra um mês antes o mestrado. Falou sobre o tema da pesquisa. Acabou me convidando para assistir ao filme. Aceitei. Era uma comédia, nem lembro mais o nome, mas naquele momento até que nos divertimos.

Quando o filme acabou, ele queria lanchar; acompanhei. Conversamos mais um pouco. Falei sobre mim, sobre o que faço na vida. Ouviu com interesse.

Ao despedirmos, ofereceu uma carona. Contra-argumentei:

“Você vai ter que dar muitas voltas, vou de ônibus, não quero incomodar.”

“Não incomoda, a gente aproveita e conversa mais um pouco.”

Aceitei.

Uma semana depois estávamos namorando. Comecei a freqüentar a casa dele. Um apartamento pequeno, no Centro, muito arrumadinho, cheio de CDs e livros.

O namoro, porém, não durou. Havia um mulheril terrível atrás dele, e aquilo me incomodava.

Ele dizia:

“Não se preocupe, não vou trair você, elas são apenas minhas amigas; não se pode viver sem amigos, não é mesmo?”

Mas não me acostumei com o jeito dele. A maior parte de suas amizades era de mulheres. Fui eu que terminei o namoro.

Um dia, estou sozinha de novo, no Espaço de Cinema, quando o vejo. Mas dessa vez com uma mulher muito bonita. Me escondi, não deixei que ele me descobrisse. Ele não deu por mim.

Então fui tentada a procurá-lo. Telefonei. Marquei. Saímos mais uma vez e depois de tomarmos algumas taças de vinho fomos para casa dele.

“Vi você com aquela sua namorada”, eu disse.

“Namorada?”

“Sim, aquela de cabelo castanho, curto.”

“Ah, sim, é a Rita. Mas não chega a ser uma namorada. Veio de BH, ficou aqui alguns dias, acabou acontecendo alguma coisa entre nós, mas não posso dizer que seja namorada.”

A existência daquela mulher pôs fogo nas minhas entranhas. Acabei por abraçá-lo, beijá-lo e por tirar toda a roupa. Quando já ia nua, falou:

“Vou contar a você uma coisa que aconteceu. A mineira é um tanto louca. Numa das noites, bebi bastante. No momento em que ela acabou de tirar a roupa, pedi: vai até lá fora e toca a campainha, faz de conta que está chegando nua pra me namorar. Ela ainda perguntou: nuazinha? Sim, respondi, nuazinha. Não é que ela foi?”

Então, eu disse a ele:

“Vou também. Sou tão louca quanto ela.”

“Você?”, ainda duvidou.

Saí duas vezes, deixei que ele trancasse a porta e fiquei pelada no corredor do quinto andar. E o corredor era tão iluminado...

Toquei a campainha. Ele demorou para abrir. Cheguei a pensar um pouquinho arrepiada: ‘Será que ele vai me deixar pelada aqui fora?’ Mas ele abriu. Entrei, me agarrei a ele e trepamos imediatamente. Eu que sou difícil de gozar, naquela noite gozei primeiro. Foi isso.

Veja só a maluquice que dá na gente quando se está apaixonada. Sou uma pessoa importante, diretora de uma escola técnica federal. Já pensou se alguém me flagra nua, se sou presa, sei lá. Na hora, esses perigos não me vieram à cabeça.

De lá pra cá me tornei uma mulher mais desinibida, mas às vezes tenho umas recaídas. Morro de vergonha. Agora pode me devassar, pode me apreciar nua. Só não me peça para ir lá fora, por favor...

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Tomara-que-caia

Fui a uma loja no Shopping Leblon e comprei um vestido lindo. Sou um pouco confusa sobre nomes de fazenda, mas é de uma brancura intensa, bem apropriada para combinar com minha pele bronzeada por esse sol de verão. O vestido é um tomara-que-caia. É justo dos seios até os quadris, depois escorrega um pouco larguinho, descendo até alguns centímetros acima dos joelhos. Sentada, com as pernas cruzadas, fica à mostra o lado externo daquele pedaço de coxa que todo homem gosta de apreciar.

Dias antes conheci um desses numa fila de cinema. Estava cansada de muitos livros e resolvi assistir a um filme. Será que não se pode sair sozinha sem que haja alguém a olhar uma mulher bonita? É sempre bom ser admirada, todas as mulheres gostam. Mas o homem soltou algumas palavras. Acabei por corresponder-lhe.
Ele ia a outro filme. E foi. Caso tivesse desistido só para ficar ao meu lado, eu o teria despedido. Naquele momento queria ficar sozinha; eu e meu filme. Havia poucas pessoas na sessão; pude esticar as pernas, recostar quase como se estivesse em casa. Mas na hora de ir embora, eis que o encontro. Esperava-me; estava no bistrô, justo onde parei para tomar um café expresso.

“Gostou do filme?”, perguntou.

“Adorei.”

“Também gostei do meu; se puder não deixe de assistir, é empolgante.”

Tomamos juntos o café. Ele também pedira o seu. Eu apenas sorria, mas aquele sorriso natural, que já faz parte da minha fisionomia.

Falou mais alguma coisa. Perguntou se queria acompanhá-lo à livraria. Entramos e nos pusemos a apreciar alguns títulos. A livraria, embora seja um local de venda de livros usados, é bastante atraente. Ficamos ali por quase trinta minutos.

Fui eu quem disse que precisava ir. Não se opôs. Deu-me um cartão. Disse que esperava encontrar-me de novo.

Liguei dias depois e marcamos no mesmo bistrô. O lugar é tão agradável, que sempre se tem vontade de lá voltar.

Conversamos amenidades. Descobri que ele não era de muita leitura.

Na terceira vez marcamos à noite. Levou-me ao Fiorentina, no Leme. Desconfiei que queria alguma coisa a mais. Bebemos vinho, comemos bem. A comida ali é boa porque não é muita; assim, não prejudica a elegância. Ele riu de minha observação.

Depois acabei indo parar na casa dele. Isso mesmo. Não gosto de ir à casa de alguém logo no primeiro nem no segundo encontro, mas já era o terceiro. O que um homem e uma mulher podem fazer quando saem juntos pela terceira vez? Sempre acho que podemos ter amigos, que é possível sair com gente que faz companhia e proporciona boa conversa. Ele, porém, tinha ar de volúpia.

Ah, esqueci de dizer, quando saímos para o jantarzito, fui com o vestido novo. Levei um xale azul para o caso de uma queda repentina de temperatura. Mas esta permaneceu alta; ou melhor, subiu.

Ele tratou-me com muito cavalheirismo. Acho que foi o que me fez cair em suas mãos. Sentei-me num estofado, acendi um cigarro. Ele ficou a me apreciar.

“Sempre achei que o cigarro dá mais charme às mulheres”, comentou.

Sorri enquanto expelia a fumaça.

“Fumo pouco; apenas quando estou apaixonada”.

Não precisei ir além. Aproximou-se, pois já sabia que o contemplado pela paixão era ele.

Abraçou-me. Depois disse: “seu vestido é tão bonito, mas vai ficar todo amarrotado.”

“O que você sugere?”

“Não sei.”

Então tive eu mesma a idéia. Perguntei:

“Incomodo se me despir?”

“Oh, claro que não”, respondeu demonstrando alegria.

Tirei o vestido e o entreguei a ele.

Segurou como se fora uma preciosidade. Levou-o depois para o quarto; creio que, pelo respeito, pendurou-o em algum lugar de destaque.

Quando voltou, seus braços envolveram-me. Sussurrou-me mil fantasias ao pé do ouvido. A que mais me agradou foi essa: “você parece a Cinderela nua.”

“Eu, Cinderela?”, arrepiei-me.

“Isso mesmo, Cinderela. Aquela que precisa fugir antes da meia-noite, porque caso passe da hora também perderá as roupas de princesa.”

“Acho então que vou então perder as minhas”, falei enquanto procurava-lhe os lábios.

“Quem sabe?”, ainda teve tempo de falar antes do beijo.

“Queres dizer que me vais deixar nuinha?”, tentava-o. “E os trezentos e quarenta que dei pelo vestido?”

“Dou seiscentos e oitenta.”

“Seiscentos e oitenta? Já não sinto desconforto algum em correr nua pra casa.”

Envolvi-o em mais beijos e abraços.

Levou-me no colo para o quarto, depositou-me sobre a cama. Abrasava-me o desejo. Fartou-se com a Cinderela nua...

O vestido... Bem, o vestido...

Querem mesmo saber sobre o vestido? É um tomara-que-caia lindo!

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Aniversário do blog

Faltam poucos dias para meu blog completar três anos de existência. Estou muito feliz por ter cumprido até aqui meu objetivo de publicar pelo menos dois contos por mês. Calculando apenas desde abril de 2008, já recebi quase duas mil visitas. Para um blog particular, praticamente sem divulgação alguma, que se mantém apenas pelo suave rumor das próprias palavras, é um grande sucesso.

Sempre recebo muitas mensagens de congratulações. Todos demonstram grande apreço por mim e por minhas histórias. Agradeço aos queridos leitores e às adoráveis leitoras.

Sei que há quem deseja que eu escreva com mais freqüência e narre mais detalhes da minha vida. Seria pedir demais. Acho a freqüência que escolhi para publicar os contos a melhor possível. Tudo que retrato é baseado em experiências minhas ou de pessoas próximas a mim. Faço muitas coisas interessantes no meu dia-a-dia, mas sou um pouco perfeccionista, não creio que escrevendo diariamente ou mesmo toda semana conseguiria agradar como agradei até aqui.

Acho que as histórias precisam transmitir alegria e privilegiar o prazer que a vida pode proporcionar.

Desejo continuar escrevendo por muito tempo.

Quando alguém, entusiasmado pelo que leu, me procura e deseja a todo custo estar comigo, digo: “cuidado, não vamos transformar a literatura em realidade; essa tentativa pode resultar em algo por demais explosivo.”
Um grande beijo a todos. Que possamos comemorar juntos esse aniversário; dessa vez, de forma pudica, ou se querem uma palavra mais terna: com recato.

Margarida

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Réveillon

Muitas pessoas circulavam no Shopping Nacional; era 30 de dezembro. Eu vestia uma blusa verde de algodão com pequenas estrelas pretas, calça jeans e sandália plataforma. Parei num quiosque de café expresso, no terceiro piso. Acabara de ver vitrines de roupas femininas. Cada modelo lindo. Os manequins ainda estavam vestidos para o Natal. As vendedoras tentavam capturar mulheres como eu, que adoram roupas bonitas. O clima de fim de ano, com a perspectiva de um réveillon maravilhoso, contagiava a todos, a beleza em volta ajudava no entusiasmo. Ao levar meu café à boca, notei num banquinho do lado oposto uma mulher mais jovem que eu. Parecia ter chorado. Também tomava café, mas suas mãos estavam trêmulas. Colocou a xícara sobre o pires e, com uma das mãos, tapou o rosto. A seguir, reparei que lhe escorreu uma lágrima. Fui até ela.
“Você precisa de ajuda?”
Parece que minha aproximação fez que se comovesse mais. Apoiou a mão direita sobre um dos meus braços e pôs-se a chorar com mais intensidade.
“Aconteceu alguma coisa com você, ou com alguém de sua família?”, perguntei.
“Comigo”, falou entre um soluço e outro.
Usei meu argumento principal para esses momentos:
“Se ninguém morreu, é possível encontrar solução para qualquer coisa.”
“O que aconteceu foi uma besteira, mas me feriu profundamente.”
“Olhe, acho que você perdeu um grande amor”, disse e sorri.
“Antes fosse isso, mas nem amor chegou a ser.”
“Vamos fazer o seguinte”, sugeri, “aqui, outras pessoas já nos repararam, vamos para outro lugar.”
Ela concordou. Paguei nossos dois cafés e caminhamos em meio às amplas galerias. Descemos a escada rolante, encontramos um banco grande, de madeira, que estava vazio e à espera de nossa companhia. Sentamos.
Já se mostrando mais animada, falou:
“Não foi nada demais, é que conheci um homem hoje”, interrompeu um tanto sem jeito e olhou-me. “Besteira, não?”
“Claro que não. O que pode haver melhor do que um homem?”
“Acho que você me compreende.”
“Compreendo, mas acabe de contar.”
Começou a narrar uma história que acontecera havia pouco; uma situação um tanto tortuosa.
“Conheci um homem hoje. Estou há tanto tempo sozinha, que pensei: que sorte minha, e trata-se de alguém com certa beleza. Almoçamos juntos, acredita? Almoçamos naquele restaurante aconchegante que fica numa das extremidades do terceiro piso. Me tratou com tanta elegância, que pensei que ele seria o homem da minha vida. É Carlos o nome dele. Mas ouça só o que se deu depois. Quando acabamos, ele ainda me ofereceu um café. Aceitei. Fomos ao café da livraria, ali perto de onde você me viu chorando. Depois descemos ao estacionamento. Ele disse que tinha de fazer algumas coisas importantes Perguntou se eu podia ir com ele. Fiz um pouco de encenação, disse que tinha um compromisso. Ele insistiu. Acabei por dizer que o acompanharia. Prometeu-me levar depois a um lugar maravilhoso. Não queria dizer de antemão para não estragar a surpresa. Entramos no carro dele. É um desses carros grandes, de aspecto robusto, tinha os vidros escuros. Do lado de fora, não dava para se perceber coisa alguma lá dentro. Logo que fechou a porta, me beijou. Um beijo tão gostoso. Depois começou a me acariciar. Ainda falei: 'você vai se atrasar no seu compromisso'. Mas nada respondeu. Continuou a me fazer carinho, a avançar com as mãos sobre o meu corpo, até que começou a tirar minha roupa. Falei um pouco preocupada: 'olha, aqui há outras pessoas'; ele, porém, foi rápido na resposta: 'ninguém pode nos ver'. Fiquei um tanto apavorada. O homem tirava minhas roupas, as pessoas passavam em direção a seus carros e nem davam por nós."
“Já passei por uma situação dessas”, interrompi.
“Já? E como foi?”
“Foi ótimo.”
Ela abriu um ligeiro sorriso. Falou:
“Você é desinibida, não?”
“Apenas desinibida?”
“Parece.”
“Mas continue. Sua história é uma delícia”, queria que ela retomasse.
“Então ele me deixou peladinha.”
“Peladinha peladinha?”
“Isso. Tirou minha roupa toda. Fizemos amor. Foi ótimo. Após acabarmos, falou com ternura ao meu ouvido: ‘você pode me esperar um instante? Tenho que pagar o estacionamento, mas prefiro que não fique no carro’. Eu disse que não havia problema, iria ao banheiro enquanto ele procurava o guichê.”
“Ao voltar ao local, não mais o encontrei. Já se passaram duas horas. Acho que depois que gozou, cansou de mim.”
“Será que você não errou a referência?”
“Não, tenho certeza do local. Conheço bem aqui.”
“Não se entristeça por isso. Você aproveitou, passou por momentos de prazer que não esperava. O que deseja, além disso?”
“Quero o homem para mim.”
“Desculpe-me, mas deixe de ser ingênua. No final, tudo ia dar num grande aborrecimento.”
“Como você sabe?”
“Apenas os amores passageiros são eternos; sobrevivem na nossa lembrança. Já passei por situações semelhantes. Vou fazer um convite a você: venha amanhã encontrar comigo. Vou a uma festa de réveillon no apartamento de uma amiga. Uma cobertura na asa norte. Lá vão estar pessoas interessantes. E já que o seu negócio é casar, pode ser que conheça alguém que também tenha as mesmas intenções.”
“Você jamais desejou alguém para conviver?”
“Já, mas acho mais interessante o modo como vivo hoje.”
Despedimo-nos, beijei-a.
Encontramo-nos à noite, no dia seguinte.
E ela, ao menos para o réveillon, descobriu seu príncipe encantado.