sexta-feira, março 22, 2024

Franjas negras

No calor do baile de carnaval – sou atriz, a equipe de filmagem preferiu um baile verdadeiro no lugar de montar uma festa cênica –, entre os corpos suados e os ritmos enlouquecidos, me vejo envolta numa dança sedutora, onde a linha entre fantasia e realidade é muito tênue. No momento, ensaiamos. Vestida com meu biquíni mínimo, coberta apenas por franjas negras que se movem ao ritmo da música, apesar da seminudez não me sinto vulnerável, mas corajosa. "Por favor, não vai me deixar nua, não posso voltar pra casa sem..." digo em meio ao som da banda ao meu namorado, enquanto os olhares devoradores me cercam.

Chega o momento da filmagem, e diante das câmeras, repito aquela mesma frase para o homem à minha frente. Danço com uma intensidade magnética, hipnotizando-o. A energia do lugar parece se intensificar, e a filmagem flui sem falhas, capturando toda a sensualidade do momento. "Por favor, não vai me deixar nua, não posso voltar pra casa sem..." repito, enquanto o pessoal da equipe capta minha voz através de um microfone pequenino; eu; entregue ao frenesi da dança.

A equipe de filmagem se despede, e parte. Não quero acompanhá-la, o baile me contagiou. O diretor me alerta, deixando-me imersa na atmosfera eletrizante da noite de carnaval. Um homem (o verdadeiro namorado?), cujos olhares me seguiram desde o início, se aproxima. Sua presença é como uma chama que me consome, e eu me entrego sem hesitar à dança envolvente que ele propõe. "Por favor, não vai me deixar nua, não posso voltar pra casa sem..." repito mais uma vez, quase inconsciente, busco uma sensação de segurança que parece se dissolver diante da sua proximidade. E então, suas palavras chegam-me misturadas à música alegre, solta; sua voz metida a boba, um sussurro provocante: "Você já está nua faz tempo, não notou?" A mão do recente namorado traça um caminho pelo meu corpo, destacando a ausência de qualquer vestimenta, nem as franjas que mal me cobriam! Sinto-me flutuando, entregue àquele jogo de sedução que ultrapassa os limites do que é visível, pelo menos enquanto durar a festa, enquanto o sonho persistir.

No do final do baile, em meio ao silêncio da banda e misturada ao som das despedidas, minha voz repete o mantra, agora com variação: “por favor, não posso voltar pra casa sem, procure a responsável pelo figurino!”

terça-feira, fevereiro 13, 2024

O vestido e a paquera

Na cidade animada durante o Carnaval, um clube noturno vibrava com a energia contagiante da festa. O som pulsante da música ecoava nas paredes enquanto as pessoas dançavam e celebravam vestidas em fantasias extravagantes. No entanto, a história intrigante girava em torno de um casal, Pedro e Júlia.

Naquela noite, as garotas da turma costumavam namorar num bosque tranquilo, atrás do gramado de um campo próximo ao clube. O ambiente natural oferecia um contraste à agitação da festa, proporcionando um refúgio romântico.

Pedro ficou surpreso quando Júlia sugeriu uma escapada para o bosque. Eles caminharam juntos, compartilhando risos e segredos sob as estrelas. Em um momento de espontaneidade, Júlia, empolgada pelo clima festivo, decidiu ficar apenas de biquíni. Pedro, admirando a ousadia da namorada, não conteve seu sorriso.

– Pode ser arriscado – chegou a dizer.

– Que arriscado nada, gosto de namorar também com o perigo – sorriu ela, arteira.

Agarraram-se com avidez e fizeram tudo que tinham vontade. Beijos, abraços, carícias; rolaram na grama, aconchegaram-se.

Quando decidiram retornar ao clube, Pedro percebeu que o vestido de Júlia havia desaparecido.

– Nossa, e agora? – ela pareceu assustar-se. Sem querer chamar atenção, sugeriu que ele fosse procurar uma camiseta enquanto ela esperava no esconderijo.

– Vista a minha – sugeriu, fez um movimento de que iria tirá-la para entregar à namorada.

– Não pode ser a tua, não, as pessoas vão reparar você sem a camisa e eu vestida com ela, sabe como são as fofocas nessa cidade; vai, rápido.

Pedro demorou um pouco, mas conseguiu voltar trazendo a camiseta. Para sua surpresa, porém, Júlia não estava lá. Ele a procurou ao redor, suspeitou que alguém tivesse aparecido e ela afastara-se para um local mais arborizado, evitando ser flagrada vestindo apenas a parte inferior do biquíni. Depois de olhar todo o local, deu-se por vencido. Quem sabe ela teria conseguido safar-se de outro modo, com a ajuda de uma amiga.

A verdade, no entanto, era outra. Havia tempo que Antônio, um homem alto e bonito que Júlia apreciava, andava à espreita. Quando notou a mulher nua e sozinha aproveitou para aparecer. Acabaram fazendo uma festa. Como ele tinha um apartamento na região, levou Júlia, onde ficaram até o meio-dia.

Júlia, então, ligou para Clara, uma amiga, a quem fez o pequeno relato de suas aventuras e pediu que a acolhesse dali a uma hora; que abrisse a porta da casa assim que ouvisse a buzina do carro do homem que a levava, porque vestia apenas a camiseta emprestada por ele, resultado de tantos exageros cometidos por ela naquela ótima festa.

Ao entrar em contato com Pedro durante a tarde, Júlia lhe explicou que, enquanto ele buscava a camiseta, ela encontrou uma amiga que a ajudou a se esconder. Como ele demorava, a amiga sugeriu outra solução, emprestou o curto chale, parte da fantasia que vestia, que serviu de vestidinho a ela, Júlia.

Pedro, inicialmente confuso e surpreso, acabou rindo da situação e acreditou que Júlia, ajudada por Clara, dormira na casa da amiga.

– Por que você não telefonou? – quis ele saber.

– Se você fosse uma mulher pelada às cinco da madrugada, também não lhe passaria pela cabeça ligar para alguém, mesmo que este fosse o namorado, o noivo ou mesmo o marido.

Pedro aceitou o argumento. Ambos riram e a história se tornou uma anedota entre eles. O Carnaval ficou marcado não apenas pelas festas extravagantes, mas também por essa aventura inesperada e divertida no bosque.

E Antônio? Um conquistador nato. Júlia foi uma de suas conquistas. Ela saiu com ele ainda uma vez, mas logo descobriu que melhor mesmo era ficar com o namorado. A história do bosque e o segundo encontro acabaram como lembranças de arrepiar. Um dia, ela poderia contar tais aventuras às amigas mais íntimas, prova de ousadia e de que gostava de experimentar.

quarta-feira, janeiro 31, 2024

Será ele o inventor da pulseirinha

Vir ao Rio de Janeiro é sempre uma boa escolha. Além de a cidade oferecer muitas opções de compras, com diversos shoppings e lojas de marca, há também a beleza natural, destacando-se as praias, tanto na própria cidade quanto em outros municípios do estado. Desta vez, escolhi ficar hospedada em um hotel no Leme, na zona sul. Como de costume, trouxe um biquíni novo para estrear aqui. Ele é minúsculo, com as tiras laterais feitas de uma espécie de fio de nylon com elástico. Antes, eu nem sabia que algo assim existia. Ao passear pela praia, as pessoas pensam que estou nua, pois as tiras são praticamente imperceptíveis. Somente ao olharem com mais atenção, notam o pequeno triângulo que me cobre na frente e um fiozinho de pano na parte de trás, que quase desaparece.

Ontem, conheci um homem muito atraente, por volta dos trinta anos. Confessou que não foi o biquíni que lhe chamou atenção, mas sim a minha beleza. Vamos acreditar nisso. Ficamos conversando e depois entramos para um mergulho. No entanto, ele não tentou nada mais. Se estivéssemos na minha cidade, tenho certeza de que os rapazes teriam tentado me conquistar. Felizmente, estou longe de lá e não pretendo voltar tão cedo.

Existe algo interessante que sinto ao usar esse biquíni. Ele aperta um pouco, uma sensação excitante me vai tomando aos poucos, chegando quase a um ápice. Acho que, se eu me deitar na cadeira de praia e deixar o sol me aquecer, talvez a sensação se intensifique! No entanto, é melhor aguardar pelo homem que conheci. Preciso ter cuidado, pois tenho amigas que compartilharam histórias que, para algumas, são excitantes, enquanto para outras são um tanto perturbadoras.

Uma dessas amigas se chama Maria Lúcia, veio da mesma cidade onde moro e ficou em Copacabana por três semanas. Maria Lúcia adorou o sol, o mar e o namorado que encontrou. Contou-me que eles mergulharam juntos e o homem a abraçou, ficaram agarradinhos dentro d'água. Em algum momento, ele colocou o pênis dentro do biquíni dela, resultando em uma experiência intensamente prazerosa. Maria Lúcia compartilhou essa história rindo, mencionando que jamais tinha vivido uma sensação tão gostosa.

Já outra amiga, chamada Glória (nome fictício), pediu sigilo porque o recente namorado lhe tirou a parte inferior do biquíni e fez uma pulseirinha. Quem usou a pulseirinha? Ele! Glória conta que, para intensificar a sensação de prazer, ele foi até a areia para conferir algo, deixando-a esperando pela devolução da pulseirinha. Felizmente, ninguém notou a nudez de minha amiga. Perguntei se havia bebido algo antes disso acontecer. "Ah, adivinha", respondeu. "Já sei", completei, "você fica animada com uma caipirinha!" "Mas morro de vergonha depois, quando fico sóbria!", segredou baixinho, quase junto ao meu ouvido. Ainda bem que o pilequinho lhe durou bastante naquele dia.

Estou indo agora para a praia, vou encontrar meu namorado. Será que ele é o inventor da pulseirinha? Que arrepio.

quarta-feira, dezembro 13, 2023

Refuge

J'étais à Búzios, absorbant la tranquillité de la plage, profitant de chaque moment sans être dérangée. La liberté de porter le plus petit bikini, de m'exposer au soleil et de me baigner à ma guise était une expérience libératrice. Ici, personne ne me jugeait.

Mes pensées dérivèrent vers ma ville natale, M, située à soixante kilomètres au nord. Une communauté conservatrice et pleine de commérages, où chacun connaissait l'autre, menaçait de me priver de ma liberté. Le simple fait de penser à revenir à M dans cet état d'esprit provoquerait des remous et alimenterait les ragots.

Le retour à la plage m'apaisa. Je me délectais du plaisir simple d'être ici. La décision était prise : je ne retournerais pas à M ce jour-là. La nuit me réservait une aventure dans la Rue des Pierres. Peut-être y rencontrerais-je quelqu'un, peut-être sortirais-je avec un homme séduisant, une personne dont je n'aurais pas besoin de connaître tous les détails, juste la chaleur de son corps.

Alors que je contemplais l'horizon, deux jeunes femmes attirèrent mon attention. Elles semblaient profiter pleinement de la vie, entourées de jeunes hommes qui les embrassaient tendrement. L'une d'elles dansait avec une sensualité débordante, exprimant son désir de manière évidente.

Au fil des heures, je n'étais plus seule. Un jeune homme au teint hâlé par le soleil se tenait à mes côtés, caressant doucement mon dos tout en chuchotant à mon oreille une histoire passionnante. La nuit à Búzios promettait des moments excitants, et je me laissais emporter par cette nouvelle aventure, loin des contraintes de ma ville natale.

À mesure que la nuit avançait dans la Rue des Pierres, le mystérieux inconnu et moi nous plongions dans une conversation captivante. Il partageait des histoires qui éveillaient ma curiosité, créant une connexion entre nous. Une attraction magnétique se développait, une sensation de liberté qui transcendait les limites imposées par ma ville natale.

Nous avons décidé d'explorer ensemble les charmes nocturnes de Búzios. Parcourant les rues éclairées par des lumières vibrantes, nous nous sommes immergés dans l'énergie palpitante de la vie nocturne. Passant devant des bars animés et des restaurants accueillants, nous nous sommes laissés emporter par un monde de possibilités, où la liberté et la spontanéité régnaient en maître.

Nous dansions sous les étoiles au bord de la mer, nous perdant dans la musique qui résonnait le long des plages de Búzios. La chimie entre nous était palpable, une évasion nécessaire de la vie contrôlée et des restrictions auxquelles j'étais habituée à M. À ce moment-là, je me permettais de vivre pleinement, sans crainte du jugement extérieur.

La nuit se déroulait avec une atmosphère de romance et de mystère. Mon compagnon et moi avons décidé d'explorer les plages désertes sous la lumière de la lune, où le bruit doux des vagues complétait la syntonie entre nous. Une connexion intense grandissait, défiant les normes et les restrictions qui avaient l'habitude de me limiter la vie.

Alors que l'aube approchait, j'ai réalisé que cette nuit à Búzios représentait bien plus qu'une simple évasion. C'était une expérience libératrice, un chapitre mémorable qui défié les liens d'une vie marquée par les commérages et les conventions sociales. La promesse d'aventures à venir flottait dans l'air, et j'étais déterminée à embrasser chaque moment, savourant la liberté que j'avais trouvée dans ce refuge en bord de mer.

En parlant de refuge, nous avons trouvé une cabane de pêcheurs, vide à ce moment-là. Mon homme m'a déshabillée lentement, savourant chaque parcelle de mon corps chaud. Après des étreintes intenses, l'essentiel s'est produit, l'union de nos corps, un déversement bienheureux, loin de tous les préjugés.Il me libérait de toutes les entraves.

domingo, dezembro 10, 2023

Parceira

A busca por um parceiro tem sido desafiadora. Muitas amigas me dizem: “Eliane, você acabou de entrar nos cinquenta anos, mas mantém uma beleza e juventude que poucas mulheres possuem. Esta cidade onde moramos, digamos que se chame M, com seus trezentos mil habitantes, tem muitos lugares para nos divertirmos, muita possibilidade de paquera, e você, com o seu pequeno apartamento acolhedor, é privilegiada, um local perfeito para o amor.”

Mal sabem elas que, apesar da beleza que insistem em elogiar, sinto um vazio nas noites solitárias. Gosto de fazer amor, mas a conexão certa parece escapar entre os dedos. Foi então que apareceu um amigo de longa data, alguém que prometia ensinar-me algo especial. Ele me conduziu a uma prática única de relaxamento e movimento de energias interiores, algo que despertou minha curiosidade e, quem sabe, um novo prazer. Primeiro, pediu-me que deitasse e largasse todo o peso do corpo sobre o solo. Depois, pouco a pouco, me fez desligar parte por parte, começando pelos pés, a seguir as pernas, os joelhos, coxas etc., até completar todo o corpo. Senti-me flutuando. A partir daí, fez com que eu juntasse energias e as movimentasse desde a cabeça até os pés. Em alguns momentos me senti livre, no ar; em outros, experimentei uma quentura por onde passavam as energias. Foi a vez então de concentrar seus movimentos nos órgãos que nos estimulam o sexo. Não passou muito tempo, senti um gozo enorme.

Decidi praticar as técnicas por conta própria. Saía com amigas, ouvia histórias românticas, mas mantinha segredo sobre minha própria jornada. Ao chegar em casa, entregava-me à "yoga do amor", movimentando energias que traziam um prazer tão intenso que parecia uma dança solitária e mágica.

Numa noite comum, conheci um homem especial. Convidei-o para meu pequeno apartamento, onde conversamos, compartilhamos um bom vinho e, eventualmente, começamos a namorar. Corajosa, pedi-lhe que se deitasse imóvel, enquanto eu explorava as energias interiores. A dança que se seguiu foi intensa, levando-nos a um prazer profundo e prolongado, uma transa que se estendeu por quase duas horas. Seu sexo rijo me penetrava, mas pedia-lhe que não se mexesse, as energias que eu movimentava interiormente refletiam nos meus grandes lábios, que mordiam seu pênis num intervalo de tempo pontual e contínuo.

Os dias transcorreram e ele prometeu um próximo encontro. Em uma noite de sexta-feira, juntei-me às minhas amigas, mantendo uma fachada de normalidade. Optamos por um restaurante à beira-mar, onde desfrutamos de vários coquetéis e saboreamos pratos leves. Conversamos sobre assuntos ligeiros, desde trivialidades até casos divertidos ou surpreendentes relacionados a namorados e paqueras.

Ao nos despedirmos, peguei um táxi de volta para casa, ansiosa pelo encontro com meu namorado. No entanto, ele não apareceu. A desilusão momentânea foi logo substituída por um sentimento de autossuficiência. "Sem problemas", pensei. Sou feliz sozinha, em companhia de mim mesma, como sugerem as terapeutas da mente. Aquela noite solitária não seria um obstáculo, mas uma oportunidade para explorar ainda mais a minha jornada pessoal, um caminho que me proporcionava satisfação independente de qualquer presença externa.

Deitei-me, relaxei e, mais uma vez movimentei as energias interiores. O prazer que experimentei foi profundo, uma celebração da minha própria jornada, uma yoga do amor que me pertencia, independentemente de qualquer outra presença. Num momento de êxtase intenso, tremi involuntariamente, meus grandes lábios latejaram, ávidos, eu não precisava me concentrar, não precisava de nenhum pênis, tudo era muito natural. Meu corpo era o meu próprio prazer. Gozei com ele, gozei por ele, e não foi só uma vez. Planava una e úmida. Alta a noite, senti-me plena, recompensada, como jamais.

quarta-feira, novembro 22, 2023

Fonte

Eu achava bom não ter namorado, ficar sozinha, ter prazer comigo mesma. Mas apareceu mais um homem na minha vida. Foi no aniversário de uma amiga. Ele estava conversando com ela e mais algumas pessoas, quando a aniversariante me chamou para ficar entre eles.  Não passou muito tempo o tal estava me olhando e querendo conversar comigo. Lá pelo meio da festa, andei de um lado a outro, conversei aleatoriamente com outras pessoas, mas sempre acabava dando com ele. Pelas tantas da madrugada, trocamos nossos números para enviarmos mensagens um ao outro. No final da festa, meu recente-admirador se ofereceu para me levar em casa. Recusei e recusei. No entanto, minha amiga aniversariante acabou dizendo vai com ele, Leila, já é tarde, pegar um Uber agora, acho que não é bom. Aceitei a carona, mas me mantive muito séria.

Passaram-se algumas horas, recebi mensagem dele. Gosta de se fazer de engraçado. Trata-se de alguém com bom humor e umas tiradas intelectuais. No subúrbio, um tipo assim faz sucesso. Pouco a pouco fui correspondendo às suas investidas, marcamos encontro e saímos. Fomos ao cinema, no shopping, e depois a um restaurante. Ele se mostrou divertido, perguntou pelo que eu mais me interessava. Que coisa difícil de se conversar, logo eu que não sou intelectual, que não penso muito nessas coisas. Não me apavorei. Ele conhece alguma coisa, mas não é tanto assim, seu comportamento tem mais pose do que verdade.

O que me fez namorá-lo, porém, não foi isso. Adivinhem! Não queria falar assim, abertamente, mas não tenho outro modo. O que me prende a ele é o sexo. Isso mesmo. De todos os homens com quem tive relações, ele é o mais intenso. Essa é a palavra, vou repetir: intenso. A gente trepa durante um tempo enorme, ele faz algumas encenações, gosta de me penetrar e demora a gozar. Me ensinou mesmo algumas coisas sobre as quais eu jamais pensara. Nenhum homem demora tanto assim no ato sexual, como ele faz comigo. Por isso, minha intenção de ficar sozinha, de gostar de mim mesma e aproveitar a vida sem ter de me preocupar com homem algum, foi por água abaixo.

Por falar em água abaixo, é engraçado. O namorado me excita tanto, que eu me transformo em água. Verdade. Nunca senti nada igual. Consultei mesmo uma médica pensando que eu estava com algum problema. Ela me perguntou quanto tempo você não tem relação sexual com um homem? Respondi. É por isso, você ficou muito tempo sozinha, procurando prazer com a imaginação, o que não é tão eficaz, respondeu.

Continuo com ele, o namoro vai bem, a gente faz mil coisas juntos. Não conto pra ninguém, pode dar azar. E a qualquer momento, quando resolvemos transar, me transformo numa fonte. Isso mesmo, fonte, a palavra certa.

quarta-feira, maio 24, 2023

Encontrei?

Era uma noite quente de verão, e a praia estava deserta. A lua cheia iluminava as areias brancas, enquanto as ondas quebravam suavemente na costa. Eu caminhava pela praia, descalça, deixando as marcas de meus pés na areia. De repente, vi algo brilhando no chão. Aproximei-me e percebi que era um vestido. Peguei-o e reparei que era um vestido de seda verde, com um decote profundo e a parte inferior comprida.

Olhei ao redor, não havia ninguém. Decidi experimentá-lo. Fiquei surpresa ao constatar que se ajustava perfeitamente ao meu corpo, era como se fosse feito especialmente para mim.

Dei mais alguns passos sobre a areia, virei-me par o mar. Será que a dona da tal seda nadava nua em meio as ondas? Não vi ninguém. Voltei-me para a parte alta, onde nasce uma espécie de mato que cobre o chão até junto à estrada. Também não vi ninguém. O silêncio da madrugada só era quebrado pelo marulhar à meia distância da costa.

Deixei minha calça jeans e a blusa que eu vestia sobre um pequeno monte saliente nas areias. Caminhei até a beira d’água e senti a água do mar, fria fria, molhando-me os pés e os tornozelos.

Continuei a caminhar pela praia sentindo-me incrivelmente elegante com o meu novo vestido. Dancei à beira do mar, ouvi música imaginária e ri das minhas próprias bobagens enquanto a brisa soprava suavemente através dos meus cabelos.

O vestido sobre a pele ainda me trouxe a lembrança de um namorado de mais ou menos dez anos passados. Eu morava em outra cidade, também litorânea e menor do que a de agora. Ele teimava que me queria nua, íamos com frequência à beira da praia para namorar. Um dia, não sei o motivo, depois de um intenso corpo a corpo com o rapaz, ao voltarmos ao ponto de chegada, não encontrei o meu leve vestidinho! Que problema... Mas tudo se resolveu a tempo. Ninguém do lugarejo me viu entrando nua em casa. No final, caímos numa gargalhada gostosa. Dias depois, ele me trouxe um vestido novo, de presente, adquirido num shopping da cidade vizinha.

No momento, porém, o vestido verde me intrigava. Quem seria a sua dona? Será que andava nua por aí com o namorado e depois viria procurar pela roupa? Será que eu, ao levar o vestido, a deixava em apuros? Percorri ainda uma distância de mais ou menos quinhentos metros.

Quando tive a intenção de voltar, senti imenso desejo de dar um mergulho. Você já mergulhou à noite, a praia deserta, apenas você e a natureza? Tirei o vestido, dobrei-o com cuidado e corri nua para dentro d´água. Permaneci nadando e mergulhando por um quarto de hora.

Quando voltei à areia, o vestido verde estava no mesmo lugar. Esperei um pouco até secar o corpo e o vesti de novo.

Ao me aproximar do local inicial de minha caminhada, senti alguém me tocar as costas. Que susto! Não ouvira ninguém até então. Uma mulher nua, muito parecida comigo – a única diferença era a cor morena da pele e os cabelos negros – me pediu o vestido de volta.

– Você gostou, não? Posso emprestar – ela disse enquanto eu o tirava e o devolvia.

– Corajosa, você, andando nua por aí, pode aparecer alguém.

– Não aparece, estou acostumada.

– E escapou de ter de voltar nua pra casa – acrescentei.

– E quem sabe se já não voltei – soltou com ar debochado, enquanto terminava de vesti-lo.

Deu-me as costas, disse até logo e se foi.

Só então me dei conta de que, naquele momento, a nua era eu. Corri à procura do monte saliente nas areias onde tinha deixado a calça jeans e a blusinha de renda.

quarta-feira, maio 03, 2023

Nunca fiquei tão solta

Vou te contar, escuta, foi muito excitante, nunca fiquei tão solta. Saí com ele, aquele cara que conheci semana passada, já te falei sobre o homem. Fomos a um bar, entramos, sentamos e começamos a conversar. Papo vai, papo vem, cada um contava um caso, assunto puxa assunto e coisa e tal. Ele olhava pra mim, os olhos brilhantes; eu, pra ele, revelando já certa volúpia, e olha que fui vestidinha, super bem-comportada. A seguir, ele perguntou: você quer beber o quê? Acho que um coquetel. Olhamos o cardápio, cada coquetel que era uma maravilha. Escolhi um composto com gin, de cor azul, lindo. Chamamos o garçom, pedimos. Não passou muito tempo, as duas taças diante de nós. À medida que consumíamos, a conversa ficava mais animada. Ele pediu alguns salgados, muito gostosos por sinal, umas pastas, torradas etc. O garçom voltou, colocou tudo sobre a mesa. Comíamos com delicadeza, a conversa versou sobre teatro, cinema, atores e atrizes. Juro, não sabia que ia ficar tão animada, não conseguia me conter, comecei a rir, às vezes o escutava com tanta atenção, que parecia estar prestes a me fazer uma descoberta.

Lá pelas tantas, sugeriu: vamos beber mais, ok? Como eu já estava rindo à toa, nem respondi. Quando veio o outro coquetel, só ficávamos quietos ao colocar a boca na beirada do copo para tomar mais um gole. Comecei a contar casos que eram segredos, como o que aconteceu com a Luciene, lembra? Conheces a história: era mais de meia-noite quando ela me telefonou, tive de sair às pressas para buscá-la no centro da cidade, levei uma canga para que não voltasse nua pra casa. Ele achou a história muito engraçada. Como uma mulher vai parar num quarto de hotel com o namorado e na hora de ir embora não encontra as próprias roupas? Falei de outras amigas minhas, suas dissimulações. Ele ouvia. Também revelei que estou sozinha há muito tempo.  Permanecemos no bar até as seis da tarde.

Ao nos darmos por satisfeitos, ele pediu a conta e saímos abraçados um ao outro. Andamos um pouco pela rua, pensei de repente: aonde é que nós vamos agora? Ele não me falava nada sobre isso, estávamos ali pelas imediações do Largo. Então, convidei: vamos até lá em casa tomar um café? Ele aceitou.

Entramos na rua das Laranjeiras e seguimos em frente. Depois do viaduto, ainda andamos duas quadras e dobramos à direita, na minha rua. Chegamos ao prédio. Subimos.

Logo que entramos, fui a cozinha e coloquei a cafeteira pra fazer o café.  Voltei à sala e me sentei ao lado dele. Em certo momento, não aguentei, era tanto fogo que eu sentia. Nossos rostos estavam próximos, dei-lhe um beijo na boca. Não duvide, fui eu que tomei a iniciativa. Ficamos agarrados, ele me abraçando, até que falei espera um instantinho. Corri ao banheiro, tirei toda a roupa, todinha mesmo, envolvi o corpo numa toalha e voltei pra sala. Pedi pra que ele se levantasse e viesse me dar um abraço. Ele obedeceu. Levantou-se e veio até o centro da sala. Dei-lhe outro beijo na boca, com bastante ímpeto. Abracei-o com força. Ele puxou a toalha, que foi ao chão. fiquei agarradinha a ele, nua por inteiro. Acabou me carregando no colo e me levou pro quarto.

Aí aconteceu, foi uma transa inesquecível. Que loucura. Lembro perfeitamente. Nem colocamos camisinha, nenhuma proteção. Perdi mesmo a cabeça. Ele me acariciou de todas as maneiras. Depois, fez o principal. Que delícia! Ainda ficamos deitados durante umas duas horas.

Quando levantamos, voltei à cozinha e trouxe o café, que ainda não havíamos bebido. Sentamos novamente lado a lado no canapé e bebemos, eu ainda nua. Continuamos a conversar, mas com poucas palavras. Vez ou outra ele me tocava a pele, me beijava o rosto ou os lábios. Em um momento, tocou-me um dos seios. Comecei a sentir de novo uma enorme quentura.

Ele partiu às onze e trinta, tinha de acordar cedo pra trabalhar. Eu, então, comecei a pensar na nova situação, tudo tão de repente. O que vou fazer daqui pra frente? Sei, Glória, pra você as coisas são mais fáceis. Quanto a mim, sou ainda um pouco dura, sem jogo de cintura, como dizem por aí. Além disso, veja a minha idade, já não sou uma garota, não sei se uma nova relação amorosa vai me fazer bem. O amor nos deixa aos sobressaltos. Você acha mesmo? Que bom, vou pensar, tudo bem. Ok, um beijo, amanhã a gente se fala.

segunda-feira, dezembro 19, 2022

Lábios molhadinhos

Tenho um admirador com quem saio vez ou outra. Ele adora me beijar os lábios, diz que eles são molhadinhos, o maior frisson. Mas tenho um segredo, vou contar, não espalhem. Sou casada. Meu bairro é Copacabana, meu marido fica em casa, e eu domingo pela manhã dando beijos na boca de meu admirador. Ele é esperto, sempre convida para o café da manhã. Caminho até a orla ou até o local combinado, encontro com ele e vamos para uma das cafeterias do bairro. Caso meu marido me telefone, estou com a Milena, uma amiga parecidíssima comigo que muita gente pensa que é minha irmã gêmea -, ela adora tomar café. Meu amigo me diz escolhe o que você quiser. Outro dia me disse vamos tomar café da manhã no restaurante do Hotel Tal e Tal. Entrei e saí do hotel com o rabinho entre as pernas, morta de medo de que algum conhecido me reconhecesse, e ao lado de um homem que não é o meu marido! Na despedida, me segurou a cabeça com as duas mãos e beijou meus lábios, úmidos e deliciosos, como sempre diz.

Quando era solteira, tive um namorado que adorava a mesma coisa. Era um sarro. Eu não queria outra vida. Penso por que não ficamos juntos. Não sei. À época, eu saía com tanta gente, muitas festas, muitos homens. A fila anda, eu dizia. Até que parou. Parou no casamento. Será? Você, querido leitor, há de achar que não parou, que continua, e como.

Ah, minhas divagações. Agora, caminho pela Santa Clara, meu amigo ou admirador-amigo-namorado me aguarda. Enquanto desço a Rua, penso na Clara. Ela adora passear sem o marido. Clara, por que você casou, se sai com tanta gente? Márcia, fala sério, você acredita em monogamia? Mono o quê?, tenho vontade de perguntar, só de brincadeira. Não sei, Clara, monogamia é um problema... Então, o que tem a gente passear com amigos, admiradores, colegas etc. e tal? Diz adorar o marido, mas adora mais a vida que leva, portanto as duas ações lhe caem bem. Você apenas, passeia, não é, Clara? O que você acha, Márcia? Sorriu, extasiada. Não sei o que significou o sorriso. Eu não quis insistir no assunto. Certa vez a encontrei vestindo uma saída de praia de rendinha, o biquíni mínimo. Vou encontrar um amigo, disse, ele fica ali no 4, um amigão mesmo, me deu as costas e partiu, de bundinha de fora. Acho que me lembro de Clara, porque faço a mesma coisa que ela!

Ah, é aqui, o local combinado com meu admirador, uma nova cafeteria. Onde, ele? Acho que está atrasado? Envio mensagem. Outro dia foi a Alessandra, disse que ficou uma hora esperando pelo homem. Eu, esperar?, nem pensar, sumo no ato. Alessandra esperou, desculpou-o pelo atraso e depois disse que teve uma tarde maravilhosa. Meu admirador-amigo-namorado já chegou, olhe ele lá, numa mesa, bem no final da varanda. Será verdade o que vejo, está acompanhado? Quem é a mulher? Não é possível, não acredito, é a Milena! E tem os lábios todo molhadinho...

domingo, dezembro 11, 2022

Convite para terça-feira

Eu já imaginava que aquele convite me deixaria numa situação delicada. Era uma terça de janeiro, o telefone tocou; antes de atender, o nome dele já aparecia na tela.

Oi, como vai, tudo bem?, você está aí na Serra?, a voz dele, incisiva, parecia dizer que me desejava encontrar.

Estou, sim, respondi, sei que meu tom de voz revelou algum interesse, como se eu dissesse você vem encontrar comigo?

Vou a M. hoje, gostaria de ver você.

Suspirei. Minha vida estava parada, eu enfurnada em casa em pleno verão...

Você vem a M. mesmo?, quis me certificar.

Vou. E quero encontrar você.

Tudo bem, respondi, vou descer, que hora você chega?

Lá pelas onze.

Depois que desligou, abri o armário e escolhi uma roupa que combinava com o verão. Não sou muito de short, nem de bermuda, preferi uma blusa de malha e uma minissaia. Mas nada extravagante. É preciso dizer que ele, o homem do telefonema, já fora meu namorado, ou mesmo bem mais do que isso. Mas depois de sua partida da cidade, o relacionamento esfriou. Foi quando arranjei o meu atual companheiro. O homem mora comigo, mas deu para ser locutor de uma rádio comunitária, onde permanece bem mais do que em casa. E o pior é que nada ganha, tudo nas minhas costas, salário de professora.

Desci para M. no ônibus de dez e vinte. Fui apreciando a paisagem. O lugar não era feio, mas as pessoas não sabem dar o devido valor ao que possuem. O ar estava fresco. Quando o ônibus acabou de descer a serra e atravessou a rodovia, era possível sentir a brisa que vinha do mar. Sobreveio-me um arrepio. Quem sabe meu antigo namorado vai querer ir à praia, e eu nem trouxe o biquíni.

Às onze e dez cheguei ao local combinado. Não era na rua principal da cidade, mas na rótula, próxima ao Cajueiro. Ele já me esperava.

Beijei-o e sorri ao entrar no carro. Correspondeu ao beijo e ao sorriso. Deu a partida e seguiu na direção de Cavaleiros.

Não vamos a Cavaleiros, por favor, conheço muita gente, vai dar o que falar, sugeri.

Era o preço de viver em lugar pequeno. Sempre uma fofoca. Sempre a saberem quem está traindo quem. E meu objetivo nem era trair. Estava gostando daquele convite inesperado.

Ele tomou a estrada e seguimos na direção de Rio das Ostras.

No meio do caminho, falou:

Sei que você tem parentes em Rio das Ostras, por isso estou pensando em outro lugar, vamos ficar bem protegidos.

Acho que não há problema se alguém nos vir juntos, somos amigos, sorri no final.

No meio do caminho, aconteceu o que eu não esperava. Fez o retorno e entrou num hotel. Desses à beira da estrada.

Poxa, não sabia que você iria me levar para um lugar assim, cheguei a me queixar.

Não vou fazer nada contra a sua vontade, ok? Quero apenas ficar com você, e um pouco de tranquilidade.

O hotel era daqueles antigos, onde se dirige até à varanda do apartamento. Saímos do carro e entramos. Algo me surpreendeu. Bem ao lado do quarto havia uma piscina, e para o tamanho do local era enorme.

Está calor, não?, sorriu.

Sentamos e conversamos amenidades. Pediu um serviço de quarto. Para ele uma cerveja, para mim um suco com espumante. Lembrou a tal bebida que sempre apreciei. Num determinado momento, tirou a camisa, viera de bermuda.

Você não repara, vou entrar na piscina, está calor, só que não trouxe roupa de banho, sorriu ao terminar a frase.

Foi a banheiro, tirou a roupa e voltou enrolado na toalha. Depois, à beira da piscina, ficou de costas para mim, soltou a toalha e entrou n’água. O gesto dele me provocou um arrepio.

Você não quer entrar?, sugeriu.

Não sei, estou pensando.

Ele ficou dentro d’água, o copo à beira da piscina, ele com a cabeça de fora.

Acho que vou entrar, falei a mim mesma, em pensamento.

Pedi licença, fui ao banheiro e voltei enrolada na outra toalha. Fiz a mesma encenação dele, virei de costas, deixei a toalha ao lado e entrei n’água, não sem fazer alguma agitação na superfície que estava tão plácida. Continuamos a conversar como se tudo aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

Aproximou-se de mim.

Por favor, não me toque, não quero praticar um adultério.

Adultério?, repetiu. Achou a palavra muito engraçada.

Estou com você como amigo, não quero trair meu atual companheiro, eu disse. Mas estava ardendo de desejo. O pior é que queria negar que tinha tesão pelo homem bem ali à minha frente.

Tudo bem, não vou tocar você. Como já falei, não vou fazer nada que você não queira.

Mas lá pelas tantas fui eu que toquei nas costas dele. Virou para mim cheio de entusiasmo, mas adverti:

Não, não, foi apenas uma brincadeira, nada disso.

Vou apenas segurar na tua cintura, falou em tom de pedido.

Acabei deixando, ficamos os dois ali, um olhando para o outro, como caras de bobo.

Você veio a M. apenas para me ver?, perguntei interessada.

Digamos que sim.

Então, ainda gosta de mim.

Sim.

E você tem interesse em transar comigo, mesmo eu já não sendo aquelas coisas. Estou ficando velha.

Lembro você, corajosa, a circular nua ao meu lado, pela cidade, nua na estrada, na praia. Sinto tesão nisso.

Então você gosta do passado, afirmei.

Também do presente, você está nua à minha frente e tem muito charme. Acho que vou deixar você em casa, peladinha, como da outra vez.

Sorri.

Nada disso, onde moro há uma porção de gente.

Naquele tempo também havia.

Continuou com as mãos na minha cintura, aproximou-se, quase roçando minha pele.

Acho legal você ter vindo, venha outras vezes, venho ver você, disse dissimulada.

Então desfile pra mim, vai, sai da piscina e desfile.

Ah, tenho vergonha, ri.

Vergonha de quê? Só há nós dois aqui.

Espere, tenho de me preparar.

Afastei-me dele, apoiei na escadinha e saí da água, de costas. Peguei a toalha e fiz um curto tomara que caia. Virei para ele e sorri. Tocava uma música romântica na rádio. Comecei o desfile a passos curtos. No ponto mais distante dele, deixei cair a toalha.

Quando acabei o desfile, corri para junto dele.

À tarde, deixou-me no ponto, o mesmo onde eu saltara pela manhã. O dia ainda estava claro, fazia calor, mas fora eu que pedira para ir embora. Voltava satisfeita com tudo que vivera, mas sempre quando está próxima a noite a gente sente a consciência um pouco pesada. Realizar um desejo não é pecado, mas muitas vezes nos deixa com a pulga atrás da orelha. Afinal, traem-se uns aos outros não apenas com homens e mulheres, mas também com coisas, com trabalho, com algum jogo, ou mesmo com um amigo em uma mesa de bar. O resultado daquilo tudo era simples: as pessoas sempre estão se enganando, cada uma na verdade é a primeira a colocar chifres em si próprio.

Abri a porta e entrei. Do quarto ouvia-se o correr do riacho, bem aos fundos da casa. Tive vontade de ir até lá, de tirar de novo a roupa e namorar as águas do rio, faria de conta que estava com aquele homem que agora ia longe, em algum trecho da estrada. Lembrei-me, então de Gerson, homem que aparecera em Glicério nos tempos em que eu ainda não conhecera meu atual companheiro. Gerson, na verdade, queria trepar comigo.  Entardecia e eu tomava banho de rio, junto às pedras, onde se forma uma pequena queda d’água. Como uma mulher surpreendida nua por um homem pode fugir dele, tanto mais quando a nudez é motivada pelo puro tesão?

O mesmo aconteceu àquela tarde. Como uma mulher nua dentro da piscina de um quarto de motel ia escapar do ex-namorado? Tanto mais depois que ele passou um creme sobre o meu corpo.

domingo, dezembro 04, 2022

Paixão, desejo e consciência

Certa vez conheci um homem na antessala de um teatro. Como ele estava sozinho e eu também, não foi difícil iniciarmos um diálogo. Falamos, de início, da peça que estávamos prestes a assistir; depois, sobre teatro em geral. Quando entramos na sala, fomos procurar nossos acentos.

Após o término do espetáculo, reencontramo-nos. Eu estava doidinha para que isso acontecesse. Ele também tinha o mesmo sentimento. A peça fora tão interessante, que não nos faltaria assunto. Dali, ainda ficamos um pouco pelos arredores. Fomos a um bar, onde tomou uma taça de vinho e eu um suco. Como era dia de semana, não demoramos a nos despedir, deixando um com o outro o número dos nossos telefones.

Passaram-se alguns dias e marcamos um encontro. Encontramo-nos em torno de 19 horas. Assistimos a uma sessão de cinema. O filme era interessante, uma produção polonesa onde um homem visitava pessoas ricas para lhes tratar a alma e o corpo. Não era médico nem religioso, mas alguém que trabalhava com as mãos e com as ideias. A questão do clima também era abordada, já que, no local, nevava bem menos do que outrora. Após a sessão, pegamos um táxi e fomos a um restaurante, no Leme, local conhecido por reunir, já tarde da noite, muitos artistas.

Ainda nada disse sobre ele, chamava-se Léo e, desde o início, demonstrou ser pessoa extremamente delicada, sempre dando muita importância a tudo que eu falava. Passei mesmo a tomar cuidado com minhas opiniões, já que o homem as escutava com atenção.

Sempre quando conheço alguém, fico na defensiva. Não posso me revelar de primeira, pode ser algo perigoso, principalmente porque o conheci num lugar público. Quando alguém me apresenta um amigo ou colega de trabalho, é outra coisa, mas em relação a alguém que surge quase ao acaso, sinto certa preocupação. Fiquei mais tranquila quando me disse que trabalhava na Petrobras, chegou mesmo a mostrar sua identificação.

Jantamos na tal cantina. Comi um prato de massa e tomei também uma taça de vinho, o que me deixou bem mais à vontade. Ele queria que pedíssemos uma garrafa. Não, por favor, só aguento uma taça, afirmei.

Depois que terminamos, perguntou se eu queria fazer mais alguma coisa. Quando alguém recém-conhecido faz tal pergunta, é porque quer me levar ao seu apartamento. Não sei se acontece o mesmo com minhas amigas, porque pouco converso sobre isso quando estamos juntas, mas meu coração acelera mais do que o normal quando vou pela primeira vez ao apartamento do namorado. Não sei se é fruto de algum temor, ou se se trata da perspectiva dos possíveis momentos de prazer que vem pela frente.

O apartamento de Léo era muito bonito. Numa rua de Botafogo, de frente. Da janela da sala, dava para apreciar a copa das árvores; ao longe, outros prédios e algum comércio. Do lado de dentro, não havia muita coisa: um pequeno sofá, uma mesa com duas cadeiras, estante com poucos livros e um abajur num dos cantos da sala, próximo à janela. Lembrei-me de uma amiga que tinha a chave do apartamento do namorado. Adorava ir para lá na parte da tarde. Dizia que descansava em silêncio, adorava a luz do dia que vinha de fora; para completar, tirava toda a roupa.

Ele foi à cozinha e voltou com uma garrafa de vinho, abriu-a e derramou um pouquinho nas taças. Por favor, alertei, para mim apenas um dedinho, quero sentir o sabor. Obedeceu, brindamos e bebemos. A seguir, ligou o som, que tipo de música você gosta?, quis ele saber. Perguntei se tinha música instrumental, como jazz. Sim, é o que mais tenho, sorriu. O ambiente, então, se tornou mais relaxado, bebemos o vinho, ouvimos a música e namoramos.

Quando começo a sair com alguém, sinto vergonha de trepar na primeira vez. Quis dizer isso a ele, e esperei pelo momento certo. Depois de uma hora ou hora e meia, quando fomos para o quarto, sussurrei no seu ouvido você fica aborrecido se a gente não transar hoje? Tudo  bem, mas por que esta preocupação?, quis saber. É porque a primeira vez é difícil pra mim, ri depois destas últimas palavras. Ele pareceu compreender. Fiquei deitada na cama, ao lado dele, depois agarrada a ele, de calcinha e sutiã. Em determinado momento, dormi. Não sei se por causa da bebida ou pelo cansaço, mas isso não era importante naquele momento. Ele mantinha os olhos fechado, mas acariciava o meu ventre.

Quando acordei pela manhã, ele não estava no quarto, senti cheiro de café, que vinha da cozinha. Só então reparei que estava nua! Teria ele tirado minha roupa enquanto eu dormia? Não sei, jamais saberia. Posso dizer que, a partir daquele momento, eu pude trepar com ele com desejo, paixão e consciência.

domingo, novembro 27, 2022

Fiquei um pouco mais do que arrepiada

Tenho um paciente que é uma gracinha. Vem ao meu consultório e fica o tempo todo me paquerando. Mesmo quando acaba o tratamento dentário, volta para me cumprimentar. Abro a porta e lá vem ele, intrujão, a me beijar. Esta semana voltou ele. Mas para fazer um reparo num bloco partido. Bastou acabar de atendê-lo para ele perguntar se eu ainda tinha algum outro paciente à hora seguinte. Caí na asneira (será?) de dizer que não, ele era o último daquela tarde ainda ensolarada. Convidou-me então para um café, numa cafeteria bonita que fica na sobreloja. Sem pensar, aceitei. Disse que antes teria de pegar o formulário de um convênio num escritório das proximidades. Ele me acompanhou.

Quando voltávamos ao prédio para tomar o café, vi um vestido lindo numa vitrine. Entrei na loja. Ele entrou junto comigo. Falei com a vendedora e ela foi buscar o tal vestido. Examinei-o e disse a ela: “não vou comprar hoje, amanhã volto para experimentar.” Ela assentiu e agradeceu.

Saímos de novo para a rua e caminhamos até a cafeteria. Muitas pessoas circulavam pelo centro. Suas fisionomias não espelhavam cansaço, mas o ar alegre que o mês de janeiro incute em cada um de nós.

Chegamos à cafeteria. Fica num corredor, rodeada de livrarias. A garçonete veio nos atender. Não demorou a trazer tudo o que pedíramos.

Meu amigo, de repente, perguntou:

“Você gostou daquele vestido?”

“Gostei.”

“Vai comprar mesmo?”

“Vou”, arregalei os olhos em sinal de interesse, “amanhã venho à cidade e passo na loja.”

Ele, então, me surpreendeu:

“Telefona pra mim quando você sair de casa. Venho encontrar com você. Quero lhe dar o vestido de presente.”

“O que é isso, Paulo?”, fiz ar de surpresa.

“O que tem de mais eu lhe dar um presente?”, insistiu.

“Não tem nada a ver. Eu mesma vou comprar o vestido.”

Sorriu. Não parecia aborrecido. Tomamos nossos cafés e conversamos sobre amenidades.

Quando acabamos, me beijou e disse:

“Volto semana que vem, no horário marcado.”

“Ok, combinado.”

“Espero que eu seja o último paciente. Assim poderemos passear de novo.”

Ri e falei.

“Paulo, você é fogo, viu, sempre querendo passear comigo.”

“Você é bonita. Qualquer homem gostaria de passear pelo centro tendo você como companhia.” Silenciou durante alguns segundos, depois completou: “não esqueça, caso queira o presente, basta me ligar.”

Ri mais uma vez. Ele se foi. Voltei ao consultório para arrumar algumas coisas e esterilizar o equipamento.

Não escondo o que me aconteceu após ele me oferecer o vestido. Fiquei um pouco mais do que arrepiada...

terça-feira, novembro 15, 2022

Dois dias e duas noites

Tranco-me no quarto, deixo a toalha sobre a poltrona lateral e deito-me. O que penso? Saí do banho há pouco, está na hora de dormir; a casa, em silêncio. Minha filha, no seu quarto, distrai-se com o celular. É hora do meu prazer maior do mundo. Procuro algum namorado do passado, alguém que me tenha dado intenso prazer; vou também à procura do namorado do futuro, mas este virá devagar, com o correr da noite, depois do gozo com o primeiro. Este é alguém que me deu um biquíni de presente, desses muito curtos, usados pelas garotas adolescentes. Elas vão à praia vestidas no paninho estreito e não pensam muito em sexo. Para pessoas como elas, a nudez é normal. Para mim, ou para a minha geração, já não é assim que sentimos. Num primeiro momento, achamos que a praia toda está a nos olhar, a nos explorar a pele, os centímetros de corpo ainda cobertos. Depois, porém, chegamos à conclusão de que não somos a estrela do local; é certo que há quem nos olhe, mas, de modo geral, as pessoas têm mais o que fazer. Vou à praia dentro do tal biquíni, uma praia onde ninguém me conhece. Sobre a areia, sentada na cadeira ou deitada sobre a toalha, sou a mulher mais desinibida do mundo. O namorado, a tarde já avançada, gosta de me levar a um motel. Cada um mais bonito do que o outro. Amor, não posso chegar à noite em casa, nua, não vai ficar bem. Você não está nua, mas de biquíni, ele rebate. Estou nua, você não sabe olhar. Houve um dia em que esquecemos, fiz ele ir ao shopping comprar um vestido, enquanto eu esperava no estacionamento, nua dentro do carro. Por que o namoro não durou? Não lembro, acho que ele foi trabalhar em outra cidade, lá conheceu alguém e casou.

E quanto ao namorado do futuro? Esse é alguém que conheço. Mas estamos apenas na fase dos cumprimentos e sorrisos, conversarmos respeitosamente. Engraçada a expressão, conversas respeitosas. Um acaso, encontramo-nos no centro da cidade, numa rua onde há hotéis turísticos. Por falar nesse tipo de hotel, certa vez um amigo me falou sobre hotéis turísticos do centro velho. Eu pensava que todos eram hotéis de viração, amantes de hora do almoço ou trepadas ocasionais quando não se sabe nem se quer saber o nome do parceiro ou da parceira. Meu namorado do futuro, o tal homem dos cumprimentos, encontra-me na Senador Dantas, ou na Presidente Vargas, quem sabe na Alcindo Guanabara. Estou sozinha à porta do hotel, o guarda-chuva aberto protege-me de chuviscos. Estava passando, um consultório por perto onde frequento, digo sem graça. Ele levanta os olhos e repara o letreiro: Hotel. Pego-o pelo braço, puxo para o saguão. É pequeno o local. Você jura que não fala pra ninguém?, sopro-lhe no ouvido. O homem da recepção encara-nos. Pergunta o tipo de apartamento que desejamos, o tempo que vamos ficar. Onde as malas? Já vão chegar, retruco. Dois dias, digo, dois dias de estadia. Meu namorado recente me olha sem demonstrar surpresa. Gosto dos hotéis dessa região, declara. Sétimo andar. Subimos. Dentro do apartamento, o mundo tornou-se mágico. O namorado do futuro (ainda estou na minha cama, gozando com a história) pede para sair um instante, precisa resolver um problema, volte logo, não vá embora, por favor, peço. Já vi vários filmes semelhantes. Não vai voltar. Deito-me nua na cama do hotel, minha roupa dentro do armário, arrumada. Esqueci de trazer peças íntimas! Telefono-lhe, envio-lhe mensagens, compre-me um par de calcinha, por favor.

O final é diferente dos filmes americanos que eu costumava a ver. O namorado do futuro me come dois dias e duas noites seguidas. Tanto o prazer. Nenhum problema. O par de calcinhas, onde você guardou? Arrepio.

domingo, novembro 13, 2022

O marido de Milena

O marido de Milena adora me paquerar, onde quer que me encontre, está a me dizer elogios, a me olhar de um jeito apaixonado. Antes dela, ele me namorou, inventava uma porção de artifícios para a nossa relação se tornar cada vez mais ardorosa. Subia a ladeira onde moro, eu aparecia à porta, saía para a calçada, ele me abraçava, me beijava e dizia vamos apreciar essa paisagem maravilhosa, tão atraente como você. Depois, entrávamos. Nosso ardor caminhava pela sala, cozinha e terminava no quarto. Minhas poucas roupas espalhadas pela casa. Às vezes, me convidava para passear, alugava um desses carros grandes, com motorista, me levava então pela orla marítima: Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon etc. Um dia, porém, fez a pergunta crucial: Márcia, quer casar comigo? Não, por favor, casamento, não. Ele não entendeu a minha negativa. Não era pelo casamento ser com ele, mas com qualquer um. Por mais que eu falasse, faltavam-me argumentos para fazê-lo acreditar. Pouco a pouco, diminuiu suas vindas à minha casa, até que um dia, aproximou-se, me beijou e disse tenho uma coisa para te dizer. Esperou minha reação. Continuei olhando-o, como se quisesse que falasse logo. Disse vou me casar com a Milena.

Não posso afirmar que não fiquei triste com a notícia. Pouco a pouco, no entanto, passei a lhe estimular. A Milena é minha amiga, deve estar muito feliz. Veio ela à minha casa, com o convite de casamento, me informou que eu seria a madrinha. Aceitei. Preparamos nossos vestidos para a cerimônia. O dela, de noiva, é lógico; o meu, muito parecido, mais discreto no entanto.

Aconteceu o casamento. A festa foi ótima. Muita bebida e comida, uma delícia. Adoro champanhe. No final, ela veio falar comigo, disse você continue amiga do meu marido, viu, ele vai ficar muito feliz, vamos aproveitar porque a vida é breve, completou.

Depois que a vida de marido e mulher se estabeleceu entre os dois, ele quase sempre passava lá em casa antes de ir para junto da Milena. A gente conversava e conversava, ele me abraçava, me apertava e me beijava na boca. Sempre nos beijamos na boca, não iríamos interromper por causa do casamento. Ele tinha um jeito todo especial de me excitar, nada mudou em seu comportamento, e eu não iria dizer que um homem casado não podia praticar tal e tal ação com uma mulher que não fosse a esposa.

Numa sexta-feira, ele e Milena vieram me buscar, me levaram com eles para passear. Milena disse temos os mesmos direitos, eu e minha madrinha! Ficamos as duas agarradas ao homem; ela, muito contente. Jantamos, dançamos e namoramos os três. Já passava da meia-noite quando me deixaram em casa.

Ele, sempre quando vinha ao meu encontro, ficava mais de meia hora; depois, ia embora todo excitado. Gostava de fazer as preliminares comigo antes de ir à Milena. Não me importava, porque me dava muito prazer. Eu dizia toma cuidado, não vai gozar comigo e deixar a Milena na mão, aqui é apenas o esquenta. Ele ria, e me beijava, todo fagueiro. Algumas vezes, quando nos agarrávamos dentro da minha casa, estava vestida com um minivestido, ou minissaia, ele introduzia sua mão por entre as minhas pernas e passava um gel na altura da minha vagina. Que delícia a sensação, o tal produto começava geladinho, depois ia esquentando, esquentando, até que eu não podia mais. Então introduzia seu pênis, me deixando doidinha. Eu não demorava a gozar. Ele mantinha o controle, me dava prazer sem perder o seu, ia embora porque sabia que Milena queria a parte dela.

Mas num dia desses a gente namorava a toda prova, o gel fazendo maior efeito, esquentando, eu a mil por hora. De repente, eu disse hoje fica mais um pouco, não vai agora, não. Deitamos na minha cama, mais conforto do que namorar na sala, ele sempre sobre mim. No final, uma explosão. Quando me senti toda meladinha, perguntei Oswaldo, quer que eu ligue pra Milena? Aposto que ela vai compreender.

quinta-feira, novembro 03, 2022

Pedi uma Coca-Cola

Uma amiga  faz alguns dias  contou-me uma história vivida por ela há dez anos.

“Como eu sempre gostei de praia, não hesitava em pensar duas vezes nos dias de sol”, começou ela a historieta, “certa vez um homem me convidou para acompanhá-lo, iria a um ponto distante na longa orla, onde poderíamos desfrutar de tranquilidade e privacidade. Achei engraçadas as duas palavras: tranquilidade e privacidade. Como sempre gosto de novidades, aceitei. Esperei por ele à porta de casa. Ao chegarmos à tal praia, observei que ele tinha razão, não havia sequer uma pessoa no local, o mar e a natureza estavam ali apenas para nós. O explodir das ondas ecoava, às vezes intimidava, devido à sua força selvagem; próximo à areia, formara-se uma banheira, consequência das ondas noturnas que explodiram continuamente sobre o local. Após me aquecer sob o sol, entrei naquele trecho de mar, uma espécie de pequena lagoa que podia fazer o papel de divertimento para crianças. Meu enamorado perguntou se eu tinha coragem de tomar banho de mar nua. Por que não?, respondi. Desfiz-me das duas peças e entrei. Adorei.”

Na véspera o namorado visitou-me, tivemos uma ótima noite de amor. Como é muito carinhoso, desmanchei-me nos seus braços. Mas pela manhã, ele partiu, precisava trabalhar. Eu, apesar de todas aquelas horas passadas ao seu lado, ainda sentia uma ponta de excitação.

Saí de casa às 7h30 e desci à praia. Foi então que lembrei a voz da amiga e da história acima. Só que na minha cidade, o mar bate contínuo, violento, selvagem. Quem deseja enfrentá-lo precisa aprender a disciplina das artes marciais, sobretudo as orientais. Andei pela linha d’água, vez ou outra respingos das ondas bravias molhavam-me o rosto e a canga violeta que eu enrolara no corpo. Após caminhar cerca de quinhentos metros na direção norte, descobri um pedaço de praia onde as ondas não estavam tão intensas. Despi-me do tecido e mergulhei. A temperatura da água estava ótima, talvez um pouco fria, mas eu gostava assim. Pensei de novo na amiga, a tomar banho de mar nua numa praia distante. Tive a mesma vontade, mas permaneci vestida pelas minhas duas peças. Depois de uns quinze ou vinte minutos, saí da água. O vento envolveu-me másculo, quase a me convidar, como jovem amante. Naquele momento descobri algo que me agradaria. Nada de andar nua à beira-mar. Enrolei a canga no meu corpo, um modo de me aquecer e de escapar do chicotinho de areia levantado de surpresa pelo mesmo vento. Mas resolvi tirar a calcinha do biquíni. Isso mesmo, permaneci de top e com o pano a me cobrir. Continuei a caminhar só, sobre as areias da praia ancestral. As mulheres são insaciáveis, vocês hão de dizer. Apesar do namorado e da noite anterior, eu procurava aventura. Algum leitor deve estar imaginando que surgiu um homem fenomenal, indescritível na beleza, atleta invencível. Nada disso. Surgiu sim, mas um pescador local, que por sinal eu conhecia. O homem cumprimentou-me respeitoso e continuou em frente. Satisfazer uma mulher é sempre muito difícil, pensei ao me ver sozinha de novo. Voltei, vagarosa, olhava toda aquela paisagem sempre envolvente. Ainda na praia, quando me aproximava do ponto próximo ao acesso à rua onde moro, comecei a sentir certa quentura entre as pernas. Já passara por aquela sensação, na maioria das vezes acontecia de modo involuntário. Caso eu tentasse provocar a tal sensação, não conseguia. Ela foi crescendo, crescendo, meu coração agitando-se, até que fui tomada de uma alegria indescritível. Parei de caminhar, pousei os braços sobre as coxas e esperei o que viria a seguir. Um orgasmo e tanto. Que me deixou trêmula. Respirei fundo para me refazer, voltei-me ao mar e apreciei o horizonte. Não segui para casa naquele momento. Permaneci na faixa de areia e caminhei na direção sul. Sentia-me molhadinha entre as pernas. E não era por causa das águas do mar. Ao chegar ao Remanso, dei-me com algumas pessoas. Pelas suas fisionomias, adivinhava-se que desejavam aproveitar o sol e o mar. Senti sede. Subi ao calçadão e encontrei um dos quiosques aberto. Pedi, então, uma Coca-Cola.

quarta-feira, outubro 26, 2022

Adivinhe por onde

Ele me queria de pernas juntas. Muito engraçado, eu nua, sentada na poltrona, e de pernas juntas. Por que não posso cruzá-las, a direita sobre a esquerda? Sentia um friozinho no estômago, o calor de uma perna sobre a outra me ajudaria, ficaria mais tranquila. Que bobagem, você dirá, apenas vocês dois, na sala do apartamento, ele te servindo um copo de cerveja, foi você quem escolheu, havia vinho, uísque, caipirinha ou caipivodca, você com a bebida dourada numa das mãos, fazendo de conta que não sentia nenhuma vergonha. Eu sei, Roberta, mas prefiro um quarto escuro, nua debaixo das cobertas, ele vindo por cima. Nua na sala, em meio aos quadros, mesa, cadeiras e o sofá, não é pra qualquer uma. Você é diferente, lembro a história que você certa vez me contou, saiu pra passear nua, de madrugada, sentadinha no banco do carona, o namorado ao lado, dirigindo, falando com você como se conversasse com a pessoa mais vestida do mundo, muita naturalidade. E você, tranquila, nem uma tremura. O namorado devia mesmo gostar de você, pelo menos não precisava dar roupas de presente. Você pedia perfumes, viu como não esqueci? E dos mais caros. Engraçado, apenas o perfume sobre o corpo. Acho que sem as roupas o bom odor se perde, mas você diz que não. Eu não teria coragem de sair pelada. A gente às vezes compra uma roupa mais ousada, para ir a uma boate, ou para uma ocasião especial, mas nua por inteiro, do lado de fora da casa, acho que vou ficar tão nervosa que me mijo toda. Por outro lado, gosto tanto das minhas roupas, não sairia sem elas. E se acontece alguma coisa, um enguiço do carro, um pneu furado, uma barreira policial? Imagine, uma barreira policial, e eu nua no banco do carona. Os caras iam querer me comer. Nem pensar. Você é louca, Roberta, ainda diz que o perigo te deixa mais excitada. Mas volto ao sofá, eu bebendo a cerveja e comendo pequenos pedaços de queijo, o namorado ao meu lado, vestido, roupas elegantes, uma camisa linda, de uma loja de grife. Queria mesmo que me levasse para o quarto, que metesse bem gostoso. Esse negócio de ficar no fetiche não é muito comigo, mas cada um tem seu gosto, e a gente, pelo menos uma vez ou outra, precisa respeitar. Ele foi à cozinha, foi buscar um salgadinho pra me servir. Uma coxinha. Adoro. A cena, eu nua comendo coxinha! Não precisa, não quero engordar. Não engorda, não, você é magrinha, gostosinha. Quando voltou, eu estava de pernas cruzadas, um dos braços com o copo cobria um dos seios. Pelo menos, me faço de gostosa. Outro dia, ele inventou algo novo, ainda não te contei, Roberta. Adora me dar bombons. Bombons é chocolate, é doce, falei. Ele trouxe bombons sem açúcar, gostoso, uma caixa linda. Acredite, ele pediu pra eu sentar no mesmo sofá, lógico que nua, e em cima de um dos bombons. Vou fazer uma lambança, cheguei a dizer. Não faz mal, respondeu, vale a façanha. Aproveitou pra me fazer cosquinha com o celofane da embalagem. Não aguentei, a sensação foi tão gostosa No início, como que no automático, cruzei as pernas, depois, porém, voltei a ficar com elas juntas, mas para que a tal operação desse certo, tive de abri-las, e o tanto que pude. Engole o bombom, por favor, ele pediu, excitadíssimo, engole que depois deixo você ficar de pernas cruzadas. Engoli, inteirinho. Adivinhe por onde? Ficou arrepiada, Roberta?, pede ao namorado, você, que é tão desinibida.

quinta-feira, outubro 20, 2022

Milena, por favor

Estava num café em Copacabana com um amigo numa manhã de domingo. Ainda era cedo, talvez nove horas. Meu telefone tocou. Olhei a tela e apareceu o nome: Carlos. Não é possível, esse homem não me larga, cismou que sou sua namorada, onde quer que eu vá ele está a me telefonar. Pedi licença e, sentada diante do meu amigo, atendi. Onde você está?, quis saber. Tomando café com uma amiga, respondi com uma ponta de constrangimento, a Milena. Depois de dizer o nome da mulher, mantive os olhos baixos durante muitos segundos. Continuei escutando o que tinha a dizer. A Milena?, opôs, desconfiado, acabei de passar por ela agora, me deu mesmo bom dia, ele disse. Não pode ser, pensei comigo, ainda os olhos na mesa. Como saio dessa?

Histórias minhas e da Milena se misturam. Uma está sempre pronta a ajudar a outra. Ela diz que vai lá para casa e sai com alguém. Envio uma mensagem para ela e digo o que vou fazer, ela já sabe sua missão, me proteger. Missão muitas vezes espinhosa que só. Moramos numa ladeira, vista para o mar, muitas casas, alguns amigos e muitos homens dando em cima, paquerando, querendo trepar comigo, com ela. Certa vez, saí de madrugada para ajudá-la. Naquele tempo, como namorava um homem meio bravo, precisou muito de mim. Estava de cacho com ele e, ao mesmo tempo, com um rapazinho que dizia ser muito gostoso, não largava o garoto, contava que o peru dele ia lá no fundo, onde o dos outros não chegava. Uma noite, porém, o tal namorado bravo ficou na porta da casa do rapaz – não sei como chegara àquela conclusão – esperando a Milena sair. Que problema. Mas nada aconteceu. Porque ajudei minha amiga. Sabendo da história, fui para lá e convidei o tal para tomar uma cerveja comigo no Adão. Estou tão sozinha, choraminguei no ombro dele. No início, não aceitou, mas depois acabou cedendo. Eu vestia uma saia super curta e me insinuava. Resultado: muitos beliscões nas coxas até às quatro da manhã. No final, ele me pediu: bico fechado, nada de comentar com a Milena. Quando a encontrei, nada falei. Disse que tomamos apenas uma cerveja e pronto. Apesar de intempestivo, ela gostava dele. E foi ele quem terminou. Arranjou-se com uma ainda adolescente, dezoito aninhos, só porque ela concorreu e venceu o concurso de Miss aqui do bairro.

Não pode ser, disse eu, a Milena está aqui comigo, como pode ter passado por você, te dado bom dia?, afirmei veemente. Ao acabar a frase, pensei ele vai querer falar com ela. Foi o que aconteceu. Por que eu tinha de dar tanta satisfação se ele não era meu namorado? Será que por que trepei com o homem duas vezes? Carlos, por favor, estamos tomando café, não tenho o dever de fazer isso. Depois te telefono. Beijos. Desliguei sem que meu amigo, que parecia absorto, percebesse. Mas eu sabia que tinha notado, percebera toda a trama. Só faltava ele me perguntar se eu o chamaria de Milena. Não aconteceu. Ele, que sempre me convida para o café da manhã aos domingos, é um homem discreto, refinado, leitor de muitos livros. Quem sabe, ele se antecipa e escreve essa história: Uma mulher, um carretel.

Milena, por favor, preciso da tua ajuda, depois do almoço vai até o Carlos e lhe diga que não era você a pessoa que falou com ele hoje cedo!