quinta-feira, abril 09, 2009

De olhos vendados: capítulo 1

A avenida Chile sempre foi uma via de grande importância para muitas pessoas que trabalham no centro do Rio; de alguns anos até os dias de hoje, passou também a ter muita importância para advogados, promotores e demais pessoas que atuam na Justiça do Trabalho. O imponente prédio fica na rua do Lavradio, e a Chile é, para quase todos, passagem obrigatória. Maria Zilda é uma das que freqüentam o local. Poucas vezes vem no próprio automóvel; é mais comum vê-la chegar de táxi. Mas há dias em que prefere vir de metrô, saltar na estação Carioca e percorrer o pequeno trecho, que é agradável, desde que o clima esteja ameno. É bom andar pela avenida, olhar de relance o espaçoso edifício da Petrobrás, o do BNDES, e empreender a caminhada a passos macios, perdida em pensamentos, ainda distante do que terá de enfrentar quando entrar em seu gabinete. Maria Zilda é juíza.
Numa manhã de quarta-feira, optou pelo trajeto a pé. A estação do metrô já ficara para trás e ela margeava a catedral. Reparou um homem dentro de um veículo, que a observava com interesse. O carro era um Citröen, desses novos, de cor vinho. O desconhecido parecia aguardar uma vaga para estacionar, descobriu a mulher elegante, de óculos escuros, roupa sóbria, firmou os olhos nela. Ela continuou seu trajeto sem dar importância.
Gostava de andar furtiva pela cidade, sem que pessoa alguma a reconhecesse. Na maioria das vezes o conseguia. Costumava ir a um café, no subsolo do Edifício Av. Central. Na verdade o local era uma cafeteria que ficava no corredor à direita de quem desce a escada rolante pela entrada da Rio Branco. Ali, acomodava-se em uma das mesas laterais, mais ou menos na metade do salão. A garçonete vinha servir-lhe, trazia um enorme cardápio. Achava aquilo tão engraçado; um cardápio enorme e depois um salgado tão pequeno, de farinha integral, pastel de forno de berinjela. Tomava um chá preto; demorava-se. Vingava-se do dia estafante, de todos os problemas que a circundavam. O lugar era requintado, com pessoas bem trajadas, pessoas com ares de importância.
Já vira o homem do automóvel vinho, tinha certeza, num final de tarde, naquela mesma cafeteria.
Maria Zilda cruzou a entrada do prédio da Justiça sem olhar para ninguém; depois do hall, deu mais alguns passos à esquerda e tomou o elevador exclusivo para os magistrados; subiu sozinha.
O dia-a-dia de um juiz ou juíza não é fácil como parece para a maioria das pessoas. Muitos acham que quem ocupa tal cargo é um privilegiado. Pensamento rasteiro e desprovido de consistência. Esse tipo de profissional sempre se vê às voltas com uma quantidade inumerável de processos. Sua capacidade de leitura precisa ser tamanha que, caso decidisse ler apenas romances, conseguiria-o com desembaraço; leria pelo menos um por dia, e dos grossos. A parafernália jurídica que ocupa o gabinete de muitos juizes seria suficiente para fazer qualquer um desistir de ao menos pensar em seguir o caminho da magistratura. Existem, no entanto, aqueles que são teimosos. Enveredam pelo Direito e não esmorecem enquanto não obtém a aprovação e nomeação para tal cargo. Maria Zilda pertencia a tal estirpe. Inumeráveis pareceres, instruções, ordens, audiências e, por fim, sentenças – estas exigiam sempre muita reflexão – deviam ser emitidos durante um dia. É bem verdade que a uma juíza não é necessário olhar para o acúmulo de compromissos e ser tomada pelo estresse. Sempre se dava um jeito. A justiça é morosa, todos sabem, e, da mesma forma, sabem que precisam esperar. Há ainda os instrumentos jurídicos, que não deixam de avolumar os processos, por mais simples que o caso aparente. Maria Zilda conseguia manter-se dentro dos padrões exigidos pela instância superior à qual devia satisfações. E não decepcionava.
Naquele dia, apenas um fato fez que ela ainda pensasse sobre o dia excessivo. Foi o momento em que um homem – tinha em torno dos trinta anos – dirigiu-lhe diretamente a palavra, com uma inquirição, e de modo grosseiro. Tratava-se de uma pendência com a empresa onde trabalhara. Sem esperar a vez de falar, interpelara a juíza, assim como se falasse com uma pessoa qualquer. Ela, severa, virou-se para o advogado dele, como que o repreendendo. Este cochichou uma ou duas palavras no ouvido do querelante, que de imediato suspirou e nada mais falou.
No final da tarde, ela perdeu-se proposital por algumas ruas do Centro. Onde andavam os outros que tinham cargo de destaque na sociedade? Andariam em automóveis de vidros escuros, sempre escondidos, saindo de um ambiente fechado para outro. Temiam o reconhecimento na via pública. Por que não se encontram juizes e juízas andando a esmo por aí? Qual o local que eles freqüentam? Zilda conhecia alguns restaurantes, ponto certo de magistrados, promotores e até mesmo de advogados. Também sabia daqueles que viviam trancados em suntuosos apartamentos, ou casas de condomínios fechados. Passeavam, mas não muito no Rio de Janeiro. Preferiam outros estados, onde não atuavam, ou mesmo eram partidários de que passear com tranqüilidade era possível apenas no exterior, nas metrópoles do mundo desenvolvido. Ela, porém, não pensava da mesma forma. Saía, ia a vários locais, embora não se mostrasse plena; preferia o disfarce. E tinha-os em grande número.
Maria Zilda sentia-se perfeitamente realizada com a carreira que escolhera. Havia dias, porém, em que cometia algum exagero, uma espécie de compensação para o trabalho exaustivo que o cargo lhe impunha. Uma mulher ao ser percebida com demora por um homem precisa manter a discrição, tanto mais uma juíza. Naquele mesmo dia, só que à tarde, ela deparou-se com o mesmo homem que cravara os olhos nela pela manhã. Só que agora, ela não estava na rua, mas na mesma cafeteria em que o vira dias antes. Ele a estaria seguindo? Às vezes reparava seu olhar acintoso. Maria Zilda escondia-se atrás de óculos grandes, de lentes não tão escuras, mas o suficiente nebulosas para esconder-lhe os olhos. Antes que se sobressaltasse, a garçonete sussurrou algumas palavras no ouvido dela, como que pedindo desculpas, mas o homem insistira tanto; entregou-lhe um pequeno cartão. Ela mal olhou o que estava escrito. Grande descortesia. Levantou-se, deixou algum dinheiro sobre a mesa e se foi. O cartão permaneceu sobre a toalha, quase intocado.
Dali seguiu por algumas ruelas que a levaram ao Centro Velho. A Livraria da Travessa desanuviou seus olhos turvos. Entrou. Estacou diante dos livros de literatura, todos arranjados de modo a despertar o interesse no leitor. Antes de procurar algum título, prestou atenção ao semblante das pessoas. Reparou que aqueles que estavam voltados para os livros não levantavam os olhos para os outros freqüentadores, mesmo que estivessem de frente um ao outro, ou mesmo lado a lado. Assim se sentiu mais confortável.
Entreteve-se com um livro de um escritor inglês. Lera havia muito tempo vários daqueles romances, reparou que agora os livros se apresentavam em nova tradução e de modo mais sofisticado. Mais adiante viu O país das neves, de Yasunari Kawabata, logo abaixo havia A dançarina de Izu. Lembrou que lera ambos, o último tão delicado, tratava-se da história de um jovem que num período de férias escolares viaja para as montanhas e encontra um grupo de atores. Estes vão de aldeia em aldeia apresentando uma peça de teatro. O jovem decide acompanhá-los; um primor, o conto. Passeou por outros nomes e outros títulos, deu-se com Lídia Jorge, A costa dos murmúrios, lembrou que lera outro livro da autora, mas fugia-lhe o nome.
Permaneceu entre as estantes e descobriu a de teatro. Olhou alguns títulos, reparou que vira algumas montagens; depois, dispersou-se mais adiante. Despertou-lhe o café, tão requintado, que havia no lado direito da loja. Sentou em uma das mesas e aguardou que a atendessem. Queria continuar o chá que fora interrompido pelo homem inoportuno. Algumas pessoas conversavam em voz baixa enquanto tomavam café; havia aqueles que após terem comprado algum livro sentavam-se e folheavam-no enquanto aguardavam o garçom. Seria bom que ela estivesse em companhia de alguém. Mas, para uma mulher como ela, ter amigos era uma complicação a mais. Com exceção de duas mulheres e um amigo que na verdade fora empossado como analista judiciário, não se aproximava de outras pessoas. Ao saberem que ela era juíza, olhavam-na de forma diferente. Ao mesmo tempo, sabia Zilda que não poderia ser íntima de muitas pessoas. Isso lhe atrapalhava a vida. Talvez, muitos achem pedantes pessoas do porte de Maria Zilda. A garçonete trouxe o chá.
Duas jovens manuseavam livros nas estantes de filosofia. Pôde apreciar o brilho nos olhos delas ao segurarem algum exemplar de filósofos que, dali de onde ela se sentara, não conseguia distinguir. A filosofia era algo que deslumbrava certas pessoas, parecia revelar segredos de difícil decifração ao comum dos mortais. Lembrou que também vivenciara isso, mas optara pelos livros de Direito. As diversas ramificações da área jurídica e suas peculiaridades fascinaram-na mais do que qualquer outra coisa. No Direito havia mais certezas e, além disso, podia ler os livros de filosofia apenas como hobby.
Viu quando um casal trocou um beijo rápido enquanto via algum livro. Eram namorados, conversavam, olhavam as capas e aproveitaram o momento para ligeiro contato fisco. Zilda, de sua mesa, mostrou um breve sorriso. Aprovava a espontaneidade da juventude.
A noite já se estabelecera quando deixou a livraria. Caminhou novamente pelas pequenas ruas do Centro. Muitas pessoas ainda andavam também por aqueles caminhos. Todos iam em busca de transporte; voltavam para casa após mais um dia de trabalho. Maria Zilda, incógnita, acompanhava toda aquela gente. Quando chegou à Rio Branco, atravessou-a e, quase de imediato, entrou num ônibus especial, desses todo fechado e de ar-condicionado, que ia para o Leblon. Reclinou um pouco a poltrona e pôs-se a olhar as pessoas que estavam no passeio. As janelas vedadas do veículo faziam o lado externo da vida sem som. Ouviam-se apenas os ruídos internos e alguns murmúrios emitidos pelos poucos passageiros que conversavam.
A maioria das mulheres ainda opta pelo casamento, ou mesmo que não se casem, por algum tipo de relacionamento. Ela, no entanto, optara pelo estudo e pela profissão. Às vezes, debruçava-se sobre um livro na maior parte das horas vagas. Por outro lado, em determinadas noites, sentia que precisava sair, aproveitar a vida de uma outra maneira. Talvez estivesse sozinha durante a maior parte do tempo porque não soubesse dosar suas predileções. Na verdade, não gostava de dizer que era uma mulher só. Sentia-se bem consigo mesma. Tentara estabelecer relacionamentos afetivos, mas não conseguira mantê-los. Os homens eram controladores, e ela não se adaptava a isso. Não era do seu feitio dar satisfações, dizer aonde ia ou o que faria; ou mesmo ter de atender telefonemas durante o dia para dizer como passava. Quando os homens percebiam onde pisavam, pouco a pouco diminuíam os convites, até que desapareciam. A partir daí, passou a sair só, mesmo à noite quando ia a um espetáculo ou mesmo quando decidia jantar em um ou outro restaurante refinado. Apareciam-lhe pretendentes? Sim. Ela era uma mulher bonita, ainda jovial, apesar dos quarenta e poucos anos. Passou a flertar através de olhares, de movimentos sutis. Dissimulava, mas gostava de saber que estava sendo admirada. Até que uma idéia estimulou-lhe o dia-a-dia. Alguns dias atrás tivera uma idéia que tal conhecer alguém e nem precisar saber-lhe o nome? Sair com a pessoa uma vez, conversar, assistir a algum filme ou peça de teatro, depois jantar e, quando lhe apetecesse, ter um contato mais íntimo? Mas como seria essa pessoa? Quem seria ela? Pensou em diversas artimanhas para atingir esse objetivo. Talvez encontros casuais com alguém que ela achasse interessante, fazendo chegar a essa pessoa um bilhete com uma intenção. Para aquele que sabe ler, não são necessárias demasiadas metáforas; e as palavras diretas também não são delicadas. Uma vez que as línguas permitem volteios e graças, aproveitaria. Sabia que, ao andar muito sozinha, não seria difícil receber convites. Mesmo naquele momento, em que não predominavam abordagens diretas, os homens conheciam meios de fazer uma mulher receber um cartão, ou um número. Caso ela facilitasse, ao menos com um olhar, ainda que distraído, tudo estaria resolvido. Lembrou do cartão que recebera na cafeteria; não devia tê-lo recusado. Mas precisava ter cuidado, tinha de se mostrar um tanto difícil. Também não desejava ser reconhecida.
Ao chegar em casa decidiu que, àquela noite, sairia. Iria a algum lugar com a finalidade de se divertir. Tomou um copo de suco, sentou-se na ampla cozinha e ficou a reparar a arrumação perfeita que a empregada fizera durante o dia. Tudo era bonito e estava no devido lugar. Arranjara a empregada perfeita, tinha um senso de arrumação muito parecido ao seu. Achou que bastava o pensamento de como queria as coisas dentro de casa para que a mulher atendesse de pronto.
Acendeu um abajur lateral e uma luminária que corria de modo longitudinal o contorno do teto. Não demorou a afundar-se numa das poltronas da sala. Vislumbrou na parede em frente dois quadros que comprara na última visita a uma famosa galeria de arte, em Ipanema. Apresentavam pintura figurativa, mas era preciso um pouco de imaginação para visualizar o que o artista pretendera pintar. Numa pequena mesa lateral, havia dois livros. Pegou-o nas mãos e folheou-o sem que prestasse atenção ao conteúdo. Algumas palavras foram retidas por sua mente. Uma mulher em férias na Bahia conhecera um diplomata, os dois empreendiam uma viagem pelo mundo. Depois deixou o livro no mesmo lugar e pôs-se a imaginar. O outro era uma obra que comentava de modo minucioso o código processual. Folheou-o também; procurou as passagens que tanto a apaixonavam; as minúcias das leis, os trâmites que precisavam seguir. Não era à toa que decidira ser juíza, pois tinha verdadeira paixão por aqueles longos parágrafos, aquelas letras pequeninas. Era como uma investigadora que desvenda um mundo novo, quase uma revelação; e apenas ela tinha aquele conhecimento, poucos iam tão a fundo no estudo de todos os trâmites jurídicos. Após algum tempo, repousou o livro, cuidadosa, no mesmo local de onde o retirara. Voltou-se para os próprios pensamentos. Sairia à noite. Mas disfarçada. A idéia capturou-a de maneira voluptuosa. Fazia isso vez ou outra. Vivia alguns disfarces. Era interessante rodar pela cidade fingindo ser outra pessoa. Arranjava até novos nomes. Além de ser uma juíza importante, sabia que tinha talento para também ser uma atriz. Na verdade, usava máscaras. Sentia-se seduzida, começou a imaginar como faria naquela noite.
O telefone, de repente, soou. Olhou o número de origem e não atendeu. Sabia de quem se tratava, um outro magistrado. Teria alguma dúvida e ligava para ela. Era mais antiga do que ele na função e conhecia certos procedimentos de que ele sempre necessitava. O aparelho continuou no seu lamento. Quando o silêncio voltou a predominar, reparou que o céu estava escuro lá fora, voltou então à questão. Um disfarce, sim, era tudo de que precisava.
Entrou em um táxi às dez e quarenta e cinco. Usava uma peruca de cabelos pretos compridos, óculos de lentes redondas um tanto azuladas, que não deixavam entrever, de todo, os olhos. Vestia um vestido que lhe cobria os joelhos. Mas o tecido era fino e deixava o corpo com curvas sinuosas. O decote era um tanto ousado e permitia que se apreciasse parte dos seios volumosos, além da pele brilhosa. Ascendia aroma de sutilíssimo perfume.
Naquela noite, o Esch Bar apresentava um trio de músicos ingleses. Não havia mesa disponível. Ela não fizera reserva e não desejava ter fornecido um nome falso para tal. Um senhor gordo, porém, ao reparar que a mulher ficara embaraçada porque não fora atendida na solicitação de uma mesa, convidou-a para a sua. Foi o maître que transmitiu o convite a Maria Zilda.
“Muito prazer, Emília”, mentiu Zilda.
“Nelson, encantado”, disse o homem.
“Agradeço a gentileza, acabo de chegar ao Brasil e perdi o costume de ter de reservar um lugar em restaurantes.”
“Oh, que grata surpresa, além de estar encantado, tenho ao meu lado alguém que frequenta as casas mais famosas da velha Europa?”
“Mais ou menos.”
“Qual sua profissão?”
Maria Zilda não se surpreendeu. Estava acostumada a essas perguntas indiscretas. Os homens só pensavam em profissões, negócios, dinheiro. Não tinham discrição suficiente para reparar que alguém poderia ser uma pessoa rica e não precisar trabalhar.
“Atualmente, não preciso trabalhar.”
Como o bar costumava ser frequentado por gente da elite, não temeu proferir a última frase. O homem, porém, olhou para ela com mais interesse.
O som dos músicos que iniciavam a apresentação veio do fundo da sala e fez que as pessoas se voltassem para o pequeno palco. Todos aplaudiram. Durante algum tempo, as pessoas interromperam a conversa e prestaram atenção à exibição dos artistas. Quando iam pela segunda música, Nelson chegou ao ouvido de sua recém-conhecida e sussurrou-lhe demonstrando entusiasmo:
“Eles são bons, não acha?”
Zilda, para ele Emília”, assentiu com a cabeça e sorriu.
Devido à proximidade, pode sorver o perfume da mulher; não era um perfume comum, tinha um componente especial que por segundos assaltou-lhe os sentidos, imergindo-o numa espécie de embriaguez. Desejou possuir aquela mulher naquela mesma noite. Sabia que, no entanto, não seria fácil. Fez que o garçom se aproximasse e pediu uma garrafa de vinho, do mais fino e famoso. Sabia que aquele tipo de mulher tinha um preço alto. Não poderia começar por qualquer bebida.
Os músicos ainda tocavam, aplaudidos vez ou outra por algum grupo mais exaltado, quando o casal tilintou as duas taças e Emília levou aos lábios a sua. Seus olhos brilharam ao mesmo tempo em que a bebida rubra espelhou as luzes frágeis da casa. Nelson percebeu e viu nessa conjunção, além de uma exuberante beleza, uma certa aprovação para suas intenções.
Saíram do bar às duas e trinta da madrugada. Beberam um pouco mais do que de costume, mas tinham-se sob domínio. Emília parecia estar completamente sóbria, apesar do vinho. Nelson ia mais alegre. Pensou em tomá-la pelos braços, mas a achou séria demais. Temia um revés.
“Será que posso levá-la em casa?”
“No seu lugar, eu não me arriscaria?”
Ele pareceu se surpreender e quis saber por quê.
“Moro na Barra, é muito longe daqui. Pego um táxi.”
“Oh, não, absolutamente, para mim nada é longe para estar um pouco mais em sua companhia.”
“Agradeço. Peço que não ínsita. Prefiro ir de táxi.”
Nelson ficou sem saber o que dizer. Tudo estava indo tão bem, estava tão encantado pela sorte que tivera naquela noite, que não imaginava perder a mulher. Mas não quis insistir, seria deselegante e, ao mesmo tempo, não queria humilhar-se.
“Se é assim que você deseja, ajudo a tomar seu táxi.”
Aguardaram. Depois que Emília embarcou, descobriu que não pedira e ela não lhe dera o número do telefone. Bom, essas coisas acontecem. Ao menos tivera ao seu lado durante a noite uma mulher encantadora.
Ao chegar em casa, Zilda estava afogueada. Tirou toda a roupa e deitou-se. Pôs-se a imaginar a impressão que causara no homem e no desejo que despertara nele. Não desejava propriamente a pessoa, mas sentia intenso prazer ao perceber que ocuparia durante algum tempo o pensamento de alguém.

quinta-feira, abril 02, 2009

Vestida de noiva

Sempre fui muito corpo. Toda vez que arranjo um namorado, quero que ele me acaricie continuamente; desejo sentir seus dedos sobre minha pele; peço que percorra minhas costas, o bumbum, as pernas e que não esqueça de tocar meus pequenos pés. Quando estou prestes a fazer amor, imploro-lhe carícias maiores. Ofereço-lhe meus lábios, que não esqueça de mordiscá-los antes do beijo; só depois mergulhe sua língua, inundando-me a boca. De arrepio em arrepio, de pequenas em pequenas explosões, marcho inflamando-me, até culminar num grande abalo sísmico, onde não dou mais conta dos meus atos.

Nas últimas semanas, porém, conheci um homem dois anos mais velho que eu, experiente. Além de adivinhar todo o mecanismo que me excita, introduziu-me em experiência mais vasta. Agora, além do corpo, despertou meu espírito.

Numa das primeiras vezes, perguntou baixinho, em meu ouvido:

“Você usa só o corpo, ou também a mente?”

“A mente? Como assim?”, pensei tratar-se de alguma experiência que ia além do físico.

“A imaginação.”

“Como, a imaginação?”

“Você pensa em alguma coisa ao fazer amor ou se concentra apenas nos aspectos táteis que o corpo pode proporcionar?”

“Às vezes penso numa coisa...”

“O quê, por exemplo?”

“Ah, agora não digo, tenho vergonha.”

“Então vou contar algo mais; você vai delirar de prazer.”

“Deixa para amanhã; hoje me toca daquele jeito especial, que só tu conheces.”

Naquela noite trepamos de forma avassaladora. Meu corpo vibrou sob seus dedos ágeis. Dirigia-me ora com sutileza ora com toda a energia; executava uma sinfonia em que durante vários movimentos me fez beirar o êxtase.

No encontro seguinte, no apartamento dele, quando já me encontrava nua e pedia sua aproximação, ele começou a tatear meu corpo como sempre, mas, ao mesmo tempo, passou a sussurrar-me algo excitante. Era uma pequena história.

Conto com minhas palavras.

Eu estava numa praia deserta, passava da meia-noite, e ia nua, isso, nuinha; esperava alguém. O vento me tocava a pele, como mão de um homem que faz pequenas carícias. Aí apareceu meu amante. Saiu de dentro da noite e rolou comigo sobre manto estendido sobre as areias. Ao longe ouvíamos o mar. Quando terminamos, pediu-me que entrasse n’água e, depois do mergulho, de lá saísse como princesa das águas, pronta para mais um encontro. Tremi, mas fui. Ao sair, dei-me com a escuridão e o vazio. Não vi o homem que me aguardaria. Minhas próprias mãos percorreram meu corpo trêmulo. Apalpei-me, procurei tapar minha nudez envergonhada. Quando me desesperava, ele apareceu. Envolveu-me seus braços largos. Meu corpo úmido percorrido por seus dedos hábeis provou outros tremores, agora de prazer maior. Fizemos amor mais uma vez. Ao lampejo de uma estrela tardia, ele disse que precisava partir. “Como vou embora?”, eu estava ansiosa por saber, pois não havia rastros de como chegara ali, se nua ou vestida, ou mesmo onde morava. Sorrateiro, antes de desaparecer, sua voz soou tal canto de navegante homérico: “És a musa desse lugar, estás em tua própria casa”, e se foi. Pensei comigo: ‘logo será dia, onde estou? Para onde irei?’ Eis que momentos de inquietude se dissiparam ante a chegada de um príncipe com seu automóvel. “Vou levá-la, rainha, esperam-na trajes de majestade.” Beijei-lhe uma das faces, entrei em seu carro temerosa. Um conversível, sob as luzes da cidade. Antes de chegados ao destino, paramos em um amplo descampado, à beira de uma outra praia, de ondas estrondosas, seculares. Ali, sobre meu corpo, fez o mesmo trajeto de todos os outros. Depois me carregou ainda nua, abriu a mala e quis vestir-me com um vestido de noiva, descomunal. Apenas o tecido sobre a pele, rendas e mais rendas. Sua voz chegou-me como carícia: “essa noite, o casamento!” Ainda digo: “casamento? Nem te conheço, como casamento? E além de tudo, não estou pura, olha meus cabelos, minha pele salgada, e nem trago nada além do vestido que me dás.” Ele completa: “vou banhar-te em água doce! E o casamento é só por uma noite!” Carregou-me até uma nascente em que espirarrava um jorro flácido; banhou-me, esfregando o corpo com sabonete de rosas.

Essa foi a narrativa.

Antes de fazermos amor, ou mesmo durante, meu namorado passou a me contar a cada noite uma nova história; levou minha imaginação a extremos, proporcionando-me o gozo em dobro.

Em suas narrativas eu saía cada noite com uma roupa insinuante. Ora elegante, ora provocante, ora seminua. Ele, ou mesmo alguém incumbido por ele, conduzia-me. Durante a madrugada, mesmo que por alguns momentos minhas roupas desapareciam. Às vezes minha nudez passava despercebida, eu ultrapassava peripécias como se fosse uma mulher invisível; outras, devia tramar para ludibriar olhares acintosos. Tínhamos cuidado de voltar antes do amanhecer. Os vidros escuros do veículo sempre estavam a me salvar. Certa vez roubei a festa. Fui a um noivado e terminei na cama do noivo. Apenas muitos meses depois, ele notou que tivera em seus braços a mulher trocada.

Numa outra noite, disse a meu narrador e namorado: “Lembra uma vez que senti vergonha de te contar minha fantasia? Escuta, agora, é tua vez de delirar.”

Isso se deu faz dois meses. Deixei-me seduzir por um homem que conhecera naquele mesmo dia. Estávamos numa praia deserta. Ficamos agarradinhos, namorando de pé durante um bom tempo. Então ele desfez os lacinhos do meu biquíni; me deixou nua! Apesar de não ter ninguém por perto, eu senti uma vergonha imensa. Morri de medo que alguém aparecesse.

Depois ele me sentou sobre suas coxas, de frente, uma perna para cada lado. Eu tremia muito. Achei que ia sentir dor, mas seu pênis escorregou fácil para dentro de mim. Ouvi sua voz, bem junto ao meu ouvido, quase um sussurro: "relaxe, não vai haver problema algum", naquele momento pude sentir um pouco de prazer.

Quando acabamos, eu estava de novo com muita vergonha; nunca tivera uma relação sexual numa praia às quatro da tarde. Ele ainda disse: "você fica linda nua, acho que vou pedir pra você desfilar um pouquinho".

Lembrei-me de uma amiga que se viu em apuros depois de fazer amor com um homem que conhecera momentos antes. Pensei que poderia acontecer o mesmo comigo; as circunstâncias eram muito parecidas.

Continuou: "ainda não vi os seus seios".

Olhei em volta e, diplomática, propus: "deixo você ver, mas me devolva primeiro o biquíni".

"Vou pensar", ele falou.

Cruzei as mãos, instintiva, sobre meus poucos pelos. Esperei cerca de um minuto. De repente, falei:

"Hoje vou me casar"

"Casar?".

"Isso, o que há de errado?"

"Mas você esteve comigo, agora vai para os braços de outro?".

"Oh, sou livre, encaro o casamento de outra forma; meu noivo sabe disso".

"Então quer dizer que deixei uma noiva nua!"

"Deixou. Agora me devolva a parte de baixo que eu mostro o que desejas, mas depois preciso me vestir e partir. Caso-me às nove da noite. Se não apareço em casa, ou se apareço nua, haverá escândalo; e escândalo é o que mais detesto, morro de vergonha".

Ao ver que eu ainda tremia e que estava muito vexada, ele (como demorou!) me devolveu a p­­­equenina peça. Algumas gotículas d’água escorriam de meu corpo; não sei se ainda a água do mar ou se o suor provocado pela aflição.

Cumpri o que prometera.

Logo após vestir a calcinha, refazendo nas laterais os pequenos laços, tirei o top; e por alguns minutos deixei aquele homem, que eu conhecera não fazia duas horas, apreciar meus seios.

"Como são belos!", sua voz e seu rosto revelaram todo o feitiço em que eu o enredara.

Abracei-o. Senti seu tronco quente; e logo suas mãos tatearam minhas costas, minha cintura, meus quadris e depois de novo estreitaram os laços que me vestiam.

Recomeçamos. Agora, eu sentia mais confiança. E ia nua por inteiro.

Ainda falou:

"Acho que seu casamento vai ter de esperar."

"Que espere, as noivas sempre atrasam...", falei excitada; ele acabara de descobrir o ponto chave de meu corpo.

Quando aquela segunda vez acabou, caminhei nua até a beira d’água para me lavar. Mas ao voltar....

"Não conto o desfecho, deixo-o a ti. Só digo que me foi favorável!"

Não perguntei a meu namorado se imaginou o final da história. Ele estava com o gozo à flor da pele. Prendeu-me voraz; soltou-me somente após despejar-me todo o seu ardor.

Não é preciso dizer que minha vida tornou-se uma aventura errante. No bom sentido, é claro. Como era bom errar em meio à tanta fantasia. Não creio que de hoje em diante me acostumaria com um homem que fosse apenas corpo.

Mas há ainda mais uma coisa.

De tanta fantasia, decidimos colocar algumas em prática. Há quem diga que é perigoso trazer a literatura para vida real. Mas sempre me saí bem. Caso algo desse errado, o que me poderia acontecer? Não seria condenada à morte por querer um gozo a mais.

Dentre tantas aventuras, resumo a mais excitante e arriscada. Fomos a uma boate, lugar de gente distinta. Lá pelas tantas, soltei o tomara-que-caia e o deixei sobre um estofado do fundo; escorreguei-me nua pelo salão escuro. Uma mulher muito branca, porém, gritou: “acendam as luzes, acendam as luzes, há uma mulher nua!.”

Acenderam. Mas como demoraram. Demoraram tanto, que eu já ia vestida; se não dentro da roupa com que chegara, ao menos coberta pelo agasalho do homem que me aguardava!

E ninguém notou.

quinta-feira, março 19, 2009

Inocentes de BH

Estava deitada na grama, no setor do parque em que as mulheres escolhem para tomar sol. Como era véspera de carnaval, aproveitava para bronzear o corpo; fora convidada a algumas festas, queria estar no ponto certo para fazer sucesso. O sol ainda estava morno, eram nove da manhã; deitara-me de bruços e com um chapéu a cobrir-me quase toda a cabeça. Acreditava que não poderia ser reconhecida e, ao mesmo tempo, estaria protegida dos raios do sol. Ia tão longe em pensamentos que não ouvi a primeira vez que alguém me chamou. Parecia uma voz distante, que não fazia parte do lugar onde me encontrava. “Marisa, que biquíni pequeno! O bumbum todo de fora!” Apenas quando me tocou o corpo, percebi que falava comigo. E o toque foi um ligeiro beliscão, bem num dos lados que o biquíni não cobria. “Ai, que susto, é você?” Era Djanira, uma amiga que vez ou outra encontro tomando sol. É mais jovem que eu e também muito bonita. “O que você vai fazer nesse carnaval, Marisa?” “Advinha?” “Desfilar nua, como no ano passado?” Ri: “Não, esse ano estou mais comportada.” “Comportada? Então não te convido para uma festa.” “É mesmo?” “Uma festa de arrepiar!” “Acho que estou um pouco cansada de festas. Não sei ainda. Tenho vários convites, mas queria fazer uma coisa diferente.” “Que, coisa?” “Não sei, acho que estou ficando velha. Queria ficar com alguém, mas não queria tumulto esse ano, Djanira.” “Tumulto?, todos adoram a nossa presença, dizem que enfeitamos e damos sensualidade às festas; caso não comparecêssemos, esses eventos não seriam os mesmos.” “Sei que todos gostam; que também aproveitamos. Mas chega uma hora que cansa. Dançamos, enlouquecemos os homens, bebemos, comemos, namoramos e até, sabe como é, acontecem aquelas coisas das quais tiramos imenso prazer...” “Então? O que se pode querer mais que isso? Temos um corpão para exibir; aparecemos sempre vestidas minimamente; temos os melhores homens para nos apreciar. Só não podemos querer que eles fiquem conosco para o resto da vida. Aqui, entre nós; seria de doer, não é mesmo?” “Acho que você tem razão.” “Você, com essa conversa, parece que está atravessando uma crise existencial. Certa vez contei algo assim à minha terapeuta. Sabe o que ela me disse? ‘Quando você estiver atravessando uma fase assim, tente criar desejo por alguma coisa, por algo que lhe dá extremo prazer; de preferência por uma coisa que a excite’. E você sabe o que me excita, não?” “Ah, imagino.” “Imagina?, pensei que você soubesse. Me deixa deitar do seu lado que tem dois caras nos olhando. Já viu meu biquíni novo? Acho que é menor do que o seu. Vamos enlouquecê-los, só de curtição.” “Você é terrível, Djanira.” “Eu? Por que será que os homens não preferem um prato de chuchu em vez de quererem lamber nossos corpos?” Tive de rir. “Antes que eles se aproximem e tentem falar com a gente, me deixa te contar um fato que aconteceu ontem na festa da Bia.” “Você foi à festa ontem e já está aqui cedo tomando sol?” “O que você acha, Marisa? Não pode ser o meu espírito, pode? E além de tudo, quero ficar pretinha como você... Quero te contar. Foi muito engraçado. Veio uma amiga da Bia, de BH, chama-se Amira. Uma mulher de quase cinqüenta anos, mas de um corpo de vinte. Uma minissaia, uma blusinha, e sem sutiã. Os homens ficaram fascinados. Todos queriam apertá-la, colar o corpo no dela. E ela se entusiasmou. Sabe que na Bia, o calor sobe e a gente acaba dançando de biquíni.” “De biquíni ou de calcinha?” “Ah, Marisa, você sabe de quê. Até a mineira percebeu rapidinho; ela falou que nunca tinha participado de uma festa daquelas, não imaginava que as pessoas eram tão animadas aqui na cidade; ficou empolgadíssima. Acabou dançando também só de calcinha. Sei que no final, um dos rapazes a deixou nuinha; e ela fez de conta que nem percebeu. Quando a festa acabou, ela falou: ‘não faz mal, vou embora pelada, o carnaval aqui é muito bom; volto amanhã’.” “Olha, Djanira, os caras de quem você falou estão ao nosso lado.” “E o que a gente faz?” “Não sei, você não é expert no assunto?” “Eu, Marisa? Sou tão inocente; minha mãe sempre me disse para não conversar com estranhos...” “E você seguiu o conselho dela!” “Claro que não, mas...” “Djanira, vamos fingir que somos de Minas.” “Vamos, Marisa; acho que o da direita estava na festa ontem.” “Djan, você está imaginando coisas.” “Tenho quase certeza.” “Não esqueça, somos mineiras.” “Vamos, tanto que eles não me roubem a blusa...” “Blusa? Você veio de blusa, Djan?” “Vim?, ou não?” “Presta atenção, dizem que Minas é um estado conservador; somos as mulheres mais inocentes do mundo; do mundo, não, do mundo é demais; da cidade...”

sábado, março 07, 2009

Uns braços

O parque Olhos D’água, ao amanhecer, já recebe seus primeiros caminhantes. Chegam quase apressados, prontos para cumprir o percurso planejado. São pessoas que, em sua maioria, desejam uma vida saudável, querem respirar o ar puro da manhã e manter o peso sob controle. Há aqueles que se exercitam porque, na verdade, precisam mesmo emagrecer.

O local possui muitas nascentes e vegetação típica do cerrado; também há um lago numa das extremidades, onde é possível observar muitos peixes e tartarugas; o canto dos pássaros é bastante envolvente. O parque funciona quase como um oásis em meio ao clima seco da região. Nada pode ser tocado, pois trata-se de uma reserva ambiental.

A circulação é silenciosa. Quando alguém reconhece um colega, amigo ou vizinho, faz um leve gesto com a cabeça.

Nas primeiras horas, após o nascer do sol, predomina o ligeiro stress típico das capitais. Os que se põem a andar ou correr trazem na fisionomia a marca da vida agitada e plena de preocupações. Percebem-se os vícios da pressa, o desejo de logo dar por encerrada a atividade física, porque a necessidade de ganhar dinheiro impera. São pessoas que não estão ali, suas mentes já saltaram etapas e vivem por antecipação os possíveis aborrecimentos do dia que começa.

É bom não compactuar com essa gente. Nada melhor do que se deixar levar pela preguiça, pelo sono que sempre é mais intenso ao amanhecer e largar-se na cama por mais uma ou duas horas.

Em torno das nove tomo um ligeiro café e desço ao parque, apreciando a beleza da quadra em que mora a amiga que me hospeda. Cumprimento com um sorriso curto as pessoas que cruzam comigo; reparo de soslaio, por trás das lentes escuras, o rosto bonito de homens e mulheres, joviais e despreocupados. A essa hora da manhã já se foram os caminhantes de hora marcada; predominam a preguiça, um certo desleixo, e a corrida em que há um pouco de prazer em se deixar atrasar. Acho que até mesmo nasce o desejo de ser vencida por um sol que já não se apresenta tão suave. No final de voltas e mais voltas pelo parque, momento em que sobressaem a respiração ofegante e o corpo molhado de suor, vejo expressões que anseiam largar-se sobre os bancos próximos à entrada principal, fechar os olhos e em nada pensar, além de sentir o palpitar do próprio peito. Há ainda outra possibilidade de prazer: atrasar-se mais um pouco junto à carrocinha do vendedor de água de coco.

Não sinto inveja das pessoas que passam lá fora vestidas e refrigeradas dentro dos automóveis.

“Você veste uma tipo de peça engraçada.”

“Como assim?”, perguntei.

“Esse objeto que cobre seus braços.”

“Isso não é objeto, são mangas que funcionam independentes da blusa; na verdade, são elásticas, proporcionam elegância e sensualidade. Você nunca viu ninguém usar isso?”

“Não, você é a primeira.”

“Aprendi no trabalho; às vezes faz parte do uniforme; pode-se optar ou não pelo uso.”

“Qual sua profissão?”, ele quis saber.

“Advinha.”

“É difícil dizer a profissão de uma pessoa como você; não vou arriscar.”

“E eu não vou dizer; só informo que estou de férias.”

“Férias em Brasília?”

“Sim, por que não?”

“Aqui não há nada para fazer.”

“É isso mesmo que desejo, não ter nada para fazer, além de caminhar ou correr nesse parque.”

O diálogo acima foi travado quando eu acabara de caminhar numa manhã de quarta-feira. Um homem alto, ainda jovem, com aspecto de alguém bem-sucedido puxara conversa dias antes e eu aceitara. Encontramo-nos mais duas ou três vezes e nesse dia eu vestia as famosas mangas que me apertavam dos antebraços até quase os punhos.

“Você tem problema de circulação sanguínea?”, ele ainda quis saber, insistindo em descobrir a utilidade do excesso no meu traje.

“Não, não tenho problema algum.”

“Posso convidar você para sair à noite?”

“Poder, pode; mas vou dizer não.”

“Qual o motivo?”

“Já disse, não quero fazer nada nessas férias, além de vir aqui pela manhã e mais tarde ler um bom livro.”

“Você lê Machado de Assis?

“Às vezes, sim.”

“Dizem que ele também escreveu literatura erótica...”

“É verdade, há alguns contos.”

Despedi-me e atravessei em direção à quadra.

Todos os dias pela manhã, durante pelo menos uma semana, frequentei o parque. Descobri que estava sempre sob os olhos daquele admirador do primeiro dia. Se por acaso nossos caminhos se cruzavam em algum trecho, ele meneava a cabeça, fazendo um ligeiro cumprimento. Eu retribuía através de um sorriso discreto.

Houve um dia em que não apareci. Calculo que ele deve ter ficado preocupado. Talvez até tenha pensado que minhas férias houvessem chegado ao fim. Mas voltei ao parque e o encontrei de novo; foi então que aconteceu...

Mas antes quero contar uma outra coisa.

Minha anfitriã convidou-me para sair em determinada noite e foi por isso que não apareci no parque naquela manhã. A história foi mais ou menos assim.

“Carla, vamos a uma festa hoje?”, sugeriu.

“Festa? Não estou disposta; tenho dito que não quero fazer coisa alguma nesses dias, apenas caminhar no parque, ler um livro e descansar.”

“Vamos, por uma vez apenas, depois você volta ao ritmo de não fazer coisa alguma.”

“Que tipo de festa?”

“Uma festa muito especial, escute. Aqui nessa cidade há um grupo de pessoas que não deseja ter relacionamento sério com ninguém, então a gente se reúne uma vez no mês para se divertir. É muito interessante.”

“São pessoas que não querem ter namorados, namoradas, maridos etc?”

“Isso mesmo, daí há o encontro, assim todos se divertem juntos.”

“Não haverá problema aparecer lá alguém que não faça parte do grupo?”

“Caso seja convidada de um dos participantes, não. E você é minha convidada.”

“Não sei, não estava querendo sair...”

“Vamos, só essa vez.”

“E o que acontece na festa?”

“Há música, conversa e dança; também pode rolar um namoro; mas nada de compromisso.”

“É uma festa recatada?”

Ela sorriu e respondeu:

“Recatada? Bem, mais ou menos."

Acabei aceitando o convite.

Cheguei na festa, curiosa. Como era fevereiro, foi um baile em que todos estavam de máscaras. Eles já se conheciam, mas a fantasia incendiou a imaginação de cada um.

Comecei logo fazendo um certo sucesso. Acho que devido ao fato de eles não me conhecerem e não poderem ver meu rosto, já que o regulamento pedia que não se tirassem as máscaras. Alguns homens começaram a me assediar. Estava calor, fui de roupa curta. Isso contribuiu para as aproximações. Em determinado momento, vi que minha amiga desaparecera; as pessoas estavam dançando e se beijando de forma ardente. Não quis que ninguém me beijasse, mas não consegui escapar de alguns apertos no momento em que estive na pista de dança.

Também houve uma dançarina que apresentou um número especial. Todos a aplaudiram muito. Ela tirou pouco a pouco toda a roupa, ficando apenas de máscara e de biquíni. Depois pediu a dois rapazes que desfizessem seus lacinhos. Quando o biquíni se soltou, as luzes se apagaram e apenas seu rosto, coberto pela linda máscara, ficou iluminado. Após alguns segundos, todo o salão ficou escuro. Quando as lâmpadas laterais voltaram a se acender, a dançarina nua não mais estava ali.

Achei interessante o grupo de pessoas. Uma vez que não tinham parceiros fixos, homens e mulheres podiam revezar-se, namorando numa noite alguém que fora parceiro de outro na festa anterior. Perguntei à minha amiga se havia quem convidasse algum outro participante para sair num outro dia qualquer. Ela me respondeu que sim, havia muitos convites, mas que no encontro mensal ninguém podia se sentir dono de pessoa alguma. Achei que tudo aquilo era uma boa solução para que as pessoas não se sentissem sozinhas; na verdade, era uma tentativa de amor coletivo.

“Você sabe que é a melhor maneira de não se ter compromisso. Caso haja um homem ou mulher que queira um relacionamento convencional, não pode demonstrá-lo nessas festas. Pode-se até fazer amor, mas de um modo bastante livre”, explicou minha amiga.

Recebi muitos convites para sair depois da festa. Houve quem me desse o número do telefone. Tratei todos com bastante gentileza, porém não desejei ninguém. Estava determinada a passar minhas férias do jeito que eu planejara.

No dia seguinte, voltei ao parque. Ainda ficaria na cidade por uma semana. No mesmo dia, conversei de novo com meu admirador.

O diálogo se deu no mesmo lugar em que ocorrera na primeira vez. O dia estava lindo, convidava à caminhada e incentivava ao amor.

“Você não é de Brasília, não é mesmo?”

“Não.”

“E suas férias ainda duram muito?”

“Mais alguns dias.”

“Que pena, não vou ver mais você. Com a sua presença, Brasília passou a ter outro colorido”, riu após pronunciar o nome da cidade.

Também ri.

“Como posso dar colorido a uma cidade?”

“Há mulheres que têm esse poder.”

“Olha, assim você vai me conquistar”, fiz ar de extrema simpatia.

“Vou?, que bom. O que falta, então?”

“Só mais uma palavrinha”, falei.

“Qual?”

“Adivinhar meu nome.”

“Carla.”

“Tenho de entregar os pontos”, avancei sobre ele e mordisquei seus lábios.

Ele me abraçou. Estávamos suados, mas o calor de nossos corpos tornou-se um convite a mais.

Naquela mesma manhã tomamos água de coco juntos. Voltamos também juntos para a quadra. Ele morava no bloco D e eu estava no F.

“Pena que não posso convidar você para tomar um café na minha casa”, falou, “há uma pessoa idosa lá, ela é muito convencional e está doente.”

“Também não posso convidar você, estou na casa de uma amiga.”

“Vamos sair à noite?”, sugeriu.

“Não sei; disse à minha amiga que não ia sair enquanto estivesse aqui. Nem tenho aceito os convites dela para passearmos.”

“Então voltamos ao ponto zero.”

“Voltamos.”

“Tenho uma solução; não sei se você vai aceitar”, disse ele.

“Qual?”

“Passearmos um pouco, agora.”

“Como?”

“Tenho um carro, está na garagem. Vamos?”

“Para onde?”

“Vamos ver...”

Descemos o subsolo do prédio dele. Entramos num automóvel vermelho. Ele deu a partida e demos umas voltas pela cidade. Paramos em uma cafeteria. Ele pediu café; eu, apenas um suco.

Quando voltamos ainda permanecemos dentro do carro. Fui eu que o abracei primeiro. Beijei-o em seguida; um beijo comprido. Ele, então, me recostou sobre seu peito, apertou-me e acariciou meus cabelos.

“Tive uma idéia”, falei.

“Qual?”

“Feche os olhos.”

Ele me obedeceu. Desvencilhei-me dos braços dele, completei:

“Espere dois minutos.”

Saí do carro. Estava escura a garagem. Entrei exatamente dois minutos depois.

“Toque meu corpo”, pedi a ele.

“Você está nua!”, falou sem abrir os olhos, percebendo meu corpo apenas pelo tato.

“Continue de olhos fechados”, ordenei.

Ficamos um junto ao outro por outros longos minutos. Então me tocou os braços.

“Você está vestindo apenas as mangas, não é mesmo? Está nua. Tem apenas os braços cobertos.”

“Isso; agora abra os olhos.”

“Vou despir seus braços.”

“Ai, assim morro de vergonha”, falei sensual, sorrindo de leve e procurando mais uma vez seus lábios.

Fizemos amor dentro do próprio carro. Foi uma única vez.

Alguns dias depois, parti. Não disse nada a ele. Nunca soube minha profissão.

Quando o avião decolou e Brasília ficou para trás, minha voz ecoou pelos autofalantes da aeronave:

“Senhores passageiros, bem-vindos a bordo, este é o voo 1901, com destino ao Rio de Janeiro...”

Mais tarde, ainda durante o voo, uma amiga da tripulação me perguntou:

“Nunca vi você com os braços nus; cadê suas mangas?”

“Ah, nem te conto...”

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Samba, beijos e arrepio

Esse carnaval foi um arraso, me diverti muito. Saí em duas escolas: uma na noite de domingo, outra na de segunda. Nas alas onde as fantasias são mínimas. Que curtição! Não há nada melhor do que ser estrela na avenida, em meio aos holofotes e sob as câmeras dos fotógrafos e de TV.

Mas quero contar algo que vai além disso. Aconteceu na terça. Não satisfeita, aceitei o convite de duas amigas para assistirmos ao desfile das escolas do segundo grupo. Nunca pensei que seria tão animado. Acho que o samba autêntico está nessas escolas; nelas predomina a criatividade e o samba no pé. Dentre todas as alegrias e satisfações de um ótimo carnaval, a melhor se deu já depois de meia-noite, quando os tambores ressoavam e tornavam mais intensas as batidas dos corações.

Um homem ficou por muito tempo me azarando. Eu sambava, cantava com as escolas, fechava os olhos, estava entusiasmadíssima. Ele aproximou-se e beijou minha boca. Uma pessoa qualquer tomaria um enorme susto. Mas mantive a tranqüilidade e agi como se nada tivesse acontecido. Ele continuou junto a mim. Minhas amigas já haviam se misturado a outras pessoas, ou mesmo arranjado namorados.

O recém-chegado ficou a dançar às minhas costas; vez ou outra encostava no meu corpo.

Depois de eu ter andado nos outros dias de fantasia, estava de vestido curtinho. Não é preciso dizer que até as mulheres olhavam para mim e sentiam inveja do meu corpo.

O homem não desistiu. Voltou com um novo beijo, num rodopio que fez com que nos encontrássemos frente a frente. Fui tomada por um terrível frêmito; aceitei o beijo – como ele sabia beijar! – e tocamos nossas línguas. Dali em diante, nosso idioma foi o gingar dos corpos, a sutileza dos abraços e a umidade dos nossos lábios.

Então ocorreu o clímax. Quando vinha a bateria da última escola, ele agarrou-me com mais volúpia. Surpreendeu-me, levantou o meu vestido. Não foram muitos os segundos para que eu sentisse toda a sua vitalidade.

Ainda bem que ninguém reparou. Cada um dos presentes também vivia o seu êxtase: uns com a música; outros com o balanço do corpo; poucos talvez da mesma forma que nós dois.

Queria que aquele momento fosse eterno. Ele soube fazer amor naquela posição desconfortável, como eu jamais experimentara.

Depois que tudo passou, ele também se foi, desapareceu na multidão. Encontrei então minhas amigas. Cada qual contou sua aventura. Eu falei que adorei o desfile, que sambei e me diverti muito naquela última madrugada de carnaval. “Só isso?”, perguntou Soraia. “Só”, foi o que respondi. Mas lógico que elas não acreditaram.

Ainda há um porém. Hoje pela manhã, após dormir quase a quarta inteira, fui à padaria. Quis tomar café quase ao ar-livre, envolta pelo clima de verão. De repente, vejo um homem conversando com outro em uma das mesas. Seria o dos apertos, beijos e tudo mais? Ainda bem que eu estava de óculos escuros e de cabelo preso. Agucei os ouvidos. Falava ao amigo justamente sobre o carnaval e sobre a incrível experiência que tivera.

“Você precisava ver a gata que conquistei. Vestia uma roupa curtíssima.”

“Onde?”, perguntou o amigo.

“No sambódromo, no último dia do desfile.”

“Em que lugar do sambódromo?”

“Na arquibancada especial. Escute só como foi: ela sambava num entusiasmo que não tenho palavras pra descrever. Então me aproximei por trás; de repente, dei um rodopio e beijei a boca da gata.”

“Ela não reagiu?”

“Não, agiu como se eu não existisse. Permaneci atrás dela. Na minha segunda investida, senti sua pele toda arrepiada. Entendi como um sinal verde. Ficamos juntos o resto da noite; beijei-a na boca o tempo todo e, no final, aconteceu...”

“Aconteceu o quê?”

“O principal, ora. Fui levantando de leve o vestidinho dela. Ela pouco a pouco me apertava com mais intensidade, então...”

Paguei meu lanche e fui embora. Temi que ele me reconhecesse.

Sabem como é, amor de carnaval deve ser assim: fugaz. Daí, a gente nunca esquece.

E mais uma coisa: não se deve dizer o nome nem perguntar o do parceiro.

domingo, fevereiro 15, 2009

"Olhem essa foto, eu estava só de camisa!"

Tomávamos vinho na casa de um casal amigo. Era sábado à noite, final de janeiro. Ela, o marido, um amigo e eu. Conversávamos sobre os mais variados assuntos. Predominou, porém, a conversa sobre cinema. Falou-se sobre os principais filmes da temporada. Conforme entrávamos pela noite, tornávamo-nos mais excitados. Bebíamos o vinho e, entre um gole e outro, água mineral.

Minha amiga é escritora, mas de livros sérios. Também viaja muito; ela e o marido. Contava sobre uma viagem que fizeram à Argentina há mais ou menos uns seis anos. Depois os dois já foram a outros lugares, mas aquela, de 2003, parece que marcara a ambos e ao casal que viajara junto; uma das pessoas que compôs o segundo par era o amigo que estava também ali.

Leda – chamemos assim minha amiga escritora – vivia, à época da viagem, o idílio inicial do casamento. Pegara o diário que o grupo escrevera durante os dias em que estiveram em Buenos Aires. Isso mesmo, o grupo tinha um diário, e minha amiga recebera a tarefa de escrevê-lo. Além das observações sobre a cidade, sobre o que faziam durante o dia e a noite, o diário também exibia objetos que os viajantes colaram nas páginas do caderno, como rótulo de cerveja, guardanapo de restaurante, bilhete de metrô, reclame do hotel ou de algum bar, folheto com algum espetáculo que estava em cartaz, entrada do espetáculo etc.

Ela mostrou também muitas fotos em que apareciam além de ela e o marido, o outro casal. Havia cenas de beijos movidos por paixão tempestuosa. Ao remexer na caixa de onde tirara o diário, encontrou algumas outras fotos; não da viagem, mas tiradas em casa ou em festividades com os amigos.

“Olhem essa foto, eu estava só de camisa, devia estar muito doida; olha essa outra, é a Marisa. Também pelo jeito não estava nada sóbria. Lembra o dia em que ela chegou aqui com o vestido rasgado?, estava bêbada. Mas essa em que estou só de camisa, nem lembro, não sei como me fotografaram assim.”

“Tente lembrar e conte pra gente”, sugeri.

“Será que meu marido deixa?”, falou de modo irônico e se voltou para ele.

“Você é quem sabe; será que o Rui também não estava com a namorada?”

“Que eu me lembre, não”, respondeu com presteza o amigo.

“Acho que já sei o que aconteceu”, começou a contar Leda.

“Lembrou muito depressa, amor”, falou o marido enquanto colocava mais um pouco de vinho na própria taça.

“É que foi um dia espantoso, ou melhor, uma noite. Eu e a Lúcia havíamos comprado seis garrafas de champanha. Isso mesmo, seis garrafas. Lembro que o champanha não era para aquele dia. Mais ou menos às quatro da tarde, chegou a Ruth. Ela logo sugeriu: ‘que tal tomarmos um golinho?’ Abri uma garrafa; bebemos em dez minutos. Estava uma delícia. Resolvemos abrir mais uma; de uma em uma, tomamos as seis. Éramos só mulheres em casa, o César disse que chegaria às nove e, quando ele abriu a porta, deu com as mulheres todas nuas num fogo terrível, e eu só de camisa. Ele fez de conta que nem reparou. As mulheres continuaram nuas. Então, ele resolveu abrir uma garra de vinho. Lembro bem, depois falou: ‘que tal irmos com a garrafa lá pra baixo, para o Parque do Flamengo?’. Todas nós concordamos. Só então a Ruth e a Lúcia se deram conta de que estavam nuas. Acabei emprestando uma camisa para cada uma e descemos. Acho que as pessoas nos olharam um tanto incrédulas. Quando estávamos lá, depois de esvaziarmos a garrafa de vinho com a ajuda do César, não foi, amor? ele mesmo tirou a câmera do bolso e fez as fotos. Queria encontrar a outra; há uma ainda mais engraçada. Voltamos para casa e caímos cada uma num sofá. Só acordamos no dia seguinte. Quando levantei, César tinha saído. Mas não demorou a voltar. As meninas, logo que se deram conta da noite que viveram, procuraram muito recatadas suas roupas, vestiram-se e foram embora. Cada foto tem uma história, não é mesmo?”

Continuamos bebendo e conversando.

Entre esses amigos, tenho fama de ser uma mulher comedida, que gosta de ler, de música, de cinema e de espetáculos teatrais. Nada sabem sobre minhas histórias, muitas delas muito mais picantes. É bom que seja assim; cada coisa em seu devido lugar; e em cada lugar uma representação.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Cris e o amor

Não me devasse desse jeito, olhe apenas para o meu rosto. Eu conto o que aconteceu. Os homens adoram essas histórias, principalmente quando elas saem da boca de uma mulher. Foi o seguinte:

Encontrei um homem lindo, parecia ainda rapaz, mas já entrava pelos quarenta; elegante, jovial. Fui eu quem o abordou.

“Você não é da Filosofia, da UFRJ?”

“Não”, ele respondeu, “sou da UFRJ, mas da Letras.”

“Você é muito parecido com um antigo amigo meu da Filosofia; pensei que fosse ele.”

Continuamos a conversar. Estávamos no Espaço de Cinema, era uma tarde de domingo. Ele tinha ido para assistir a um filme espanhol; eu, apenas para sair um pouco de casa.

Comentou sobre o que fazia na universidade. Concluíra um mês antes o mestrado. Falou sobre o tema da pesquisa. Acabou me convidando para assistir ao filme. Aceitei. Era uma comédia, nem lembro mais o nome, mas naquele momento até que nos divertimos.

Quando o filme acabou, ele queria lanchar; acompanhei. Conversamos mais um pouco. Falei sobre mim, sobre o que faço na vida. Ouviu com interesse.

Ao despedirmos, ofereceu uma carona. Contra-argumentei:

“Você vai ter que dar muitas voltas, vou de ônibus, não quero incomodar.”

“Não incomoda, a gente aproveita e conversa mais um pouco.”

Aceitei.

Uma semana depois estávamos namorando. Comecei a freqüentar a casa dele. Um apartamento pequeno, no Centro, muito arrumadinho, cheio de CDs e livros.

O namoro, porém, não durou. Havia um mulheril terrível atrás dele, e aquilo me incomodava.

Ele dizia:

“Não se preocupe, não vou trair você, elas são apenas minhas amigas; não se pode viver sem amigos, não é mesmo?”

Mas não me acostumei com o jeito dele. A maior parte de suas amizades era de mulheres. Fui eu que terminei o namoro.

Um dia, estou sozinha de novo, no Espaço de Cinema, quando o vejo. Mas dessa vez com uma mulher muito bonita. Me escondi, não deixei que ele me descobrisse. Ele não deu por mim.

Então fui tentada a procurá-lo. Telefonei. Marquei. Saímos mais uma vez e depois de tomarmos algumas taças de vinho fomos para casa dele.

“Vi você com aquela sua namorada”, eu disse.

“Namorada?”

“Sim, aquela de cabelo castanho, curto.”

“Ah, sim, é a Rita. Mas não chega a ser uma namorada. Veio de BH, ficou aqui alguns dias, acabou acontecendo alguma coisa entre nós, mas não posso dizer que seja namorada.”

A existência daquela mulher pôs fogo nas minhas entranhas. Acabei por abraçá-lo, beijá-lo e por tirar toda a roupa. Quando já ia nua, falou:

“Vou contar a você uma coisa que aconteceu. A mineira é um tanto louca. Numa das noites, bebi bastante. No momento em que ela acabou de tirar a roupa, pedi: vai até lá fora e toca a campainha, faz de conta que está chegando nua pra me namorar. Ela ainda perguntou: nuazinha? Sim, respondi, nuazinha. Não é que ela foi?”

Então, eu disse a ele:

“Vou também. Sou tão louca quanto ela.”

“Você?”, ainda duvidou.

Saí duas vezes, deixei que ele trancasse a porta e fiquei pelada no corredor do quinto andar. E o corredor era tão iluminado...

Toquei a campainha. Ele demorou para abrir. Cheguei a pensar um pouquinho arrepiada: ‘Será que ele vai me deixar pelada aqui fora?’ Mas ele abriu. Entrei, me agarrei a ele e trepamos imediatamente. Eu que sou difícil de gozar, naquela noite gozei primeiro. Foi isso.

Veja só a maluquice que dá na gente quando se está apaixonada. Sou uma pessoa importante, diretora de uma escola técnica federal. Já pensou se alguém me flagra nua, se sou presa, sei lá. Na hora, esses perigos não me vieram à cabeça.

De lá pra cá me tornei uma mulher mais desinibida, mas às vezes tenho umas recaídas. Morro de vergonha. Agora pode me devassar, pode me apreciar nua. Só não me peça para ir lá fora, por favor...

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Tomara-que-caia

Fui a uma loja no Shopping Leblon e comprei um vestido lindo. Sou um pouco confusa sobre nomes de fazenda, mas é de uma brancura intensa, bem apropriada para combinar com minha pele bronzeada por esse sol de verão. O vestido é um tomara-que-caia. É justo dos seios até os quadris, depois escorrega um pouco larguinho, descendo até alguns centímetros acima dos joelhos. Sentada, com as pernas cruzadas, fica à mostra o lado externo daquele pedaço de coxa que todo homem gosta de apreciar.

Dias antes conheci um desses numa fila de cinema. Estava cansada de muitos livros e resolvi assistir a um filme. Será que não se pode sair sozinha sem que haja alguém a olhar uma mulher bonita? É sempre bom ser admirada, todas as mulheres gostam. Mas o homem soltou algumas palavras. Acabei por corresponder-lhe.
Ele ia a outro filme. E foi. Caso tivesse desistido só para ficar ao meu lado, eu o teria despedido. Naquele momento queria ficar sozinha; eu e meu filme. Havia poucas pessoas na sessão; pude esticar as pernas, recostar quase como se estivesse em casa. Mas na hora de ir embora, eis que o encontro. Esperava-me; estava no bistrô, justo onde parei para tomar um café expresso.

“Gostou do filme?”, perguntou.

“Adorei.”

“Também gostei do meu; se puder não deixe de assistir, é empolgante.”

Tomamos juntos o café. Ele também pedira o seu. Eu apenas sorria, mas aquele sorriso natural, que já faz parte da minha fisionomia.

Falou mais alguma coisa. Perguntou se queria acompanhá-lo à livraria. Entramos e nos pusemos a apreciar alguns títulos. A livraria, embora seja um local de venda de livros usados, é bastante atraente. Ficamos ali por quase trinta minutos.

Fui eu quem disse que precisava ir. Não se opôs. Deu-me um cartão. Disse que esperava encontrar-me de novo.

Liguei dias depois e marcamos no mesmo bistrô. O lugar é tão agradável, que sempre se tem vontade de lá voltar.

Conversamos amenidades. Descobri que ele não era de muita leitura.

Na terceira vez marcamos à noite. Levou-me ao Fiorentina, no Leme. Desconfiei que queria alguma coisa a mais. Bebemos vinho, comemos bem. A comida ali é boa porque não é muita; assim, não prejudica a elegância. Ele riu de minha observação.

Depois acabei indo parar na casa dele. Isso mesmo. Não gosto de ir à casa de alguém logo no primeiro nem no segundo encontro, mas já era o terceiro. O que um homem e uma mulher podem fazer quando saem juntos pela terceira vez? Sempre acho que podemos ter amigos, que é possível sair com gente que faz companhia e proporciona boa conversa. Ele, porém, tinha ar de volúpia.

Ah, esqueci de dizer, quando saímos para o jantarzito, fui com o vestido novo. Levei um xale azul para o caso de uma queda repentina de temperatura. Mas esta permaneceu alta; ou melhor, subiu.

Ele tratou-me com muito cavalheirismo. Acho que foi o que me fez cair em suas mãos. Sentei-me num estofado, acendi um cigarro. Ele ficou a me apreciar.

“Sempre achei que o cigarro dá mais charme às mulheres”, comentou.

Sorri enquanto expelia a fumaça.

“Fumo pouco; apenas quando estou apaixonada”.

Não precisei ir além. Aproximou-se, pois já sabia que o contemplado pela paixão era ele.

Abraçou-me. Depois disse: “seu vestido é tão bonito, mas vai ficar todo amarrotado.”

“O que você sugere?”

“Não sei.”

Então tive eu mesma a idéia. Perguntei:

“Incomodo se me despir?”

“Oh, claro que não”, respondeu demonstrando alegria.

Tirei o vestido e o entreguei a ele.

Segurou como se fora uma preciosidade. Levou-o depois para o quarto; creio que, pelo respeito, pendurou-o em algum lugar de destaque.

Quando voltou, seus braços envolveram-me. Sussurrou-me mil fantasias ao pé do ouvido. A que mais me agradou foi essa: “você parece a Cinderela nua.”

“Eu, Cinderela?”, arrepiei-me.

“Isso mesmo, Cinderela. Aquela que precisa fugir antes da meia-noite, porque caso passe da hora também perderá as roupas de princesa.”

“Acho então que vou então perder as minhas”, falei enquanto procurava-lhe os lábios.

“Quem sabe?”, ainda teve tempo de falar antes do beijo.

“Queres dizer que me vais deixar nuinha?”, tentava-o. “E os trezentos e quarenta que dei pelo vestido?”

“Dou seiscentos e oitenta.”

“Seiscentos e oitenta? Já não sinto desconforto algum em correr nua pra casa.”

Envolvi-o em mais beijos e abraços.

Levou-me no colo para o quarto, depositou-me sobre a cama. Abrasava-me o desejo. Fartou-se com a Cinderela nua...

O vestido... Bem, o vestido...

Querem mesmo saber sobre o vestido? É um tomara-que-caia lindo!

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Aniversário do blog

Faltam poucos dias para meu blog completar três anos de existência. Estou muito feliz por ter cumprido até aqui meu objetivo de publicar pelo menos dois contos por mês. Calculando apenas desde abril de 2008, já recebi quase duas mil visitas. Para um blog particular, praticamente sem divulgação alguma, que se mantém apenas pelo suave rumor das próprias palavras, é um grande sucesso.

Sempre recebo muitas mensagens de congratulações. Todos demonstram grande apreço por mim e por minhas histórias. Agradeço aos queridos leitores e às adoráveis leitoras.

Sei que há quem deseja que eu escreva com mais freqüência e narre mais detalhes da minha vida. Seria pedir demais. Acho a freqüência que escolhi para publicar os contos a melhor possível. Tudo que retrato é baseado em experiências minhas ou de pessoas próximas a mim. Faço muitas coisas interessantes no meu dia-a-dia, mas sou um pouco perfeccionista, não creio que escrevendo diariamente ou mesmo toda semana conseguiria agradar como agradei até aqui.

Acho que as histórias precisam transmitir alegria e privilegiar o prazer que a vida pode proporcionar.

Desejo continuar escrevendo por muito tempo.

Quando alguém, entusiasmado pelo que leu, me procura e deseja a todo custo estar comigo, digo: “cuidado, não vamos transformar a literatura em realidade; essa tentativa pode resultar em algo por demais explosivo.”
Um grande beijo a todos. Que possamos comemorar juntos esse aniversário; dessa vez, de forma pudica, ou se querem uma palavra mais terna: com recato.

Margarida

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Réveillon

Muitas pessoas circulavam no Shopping Nacional; era 30 de dezembro. Eu vestia uma blusa verde de algodão com pequenas estrelas pretas, calça jeans e sandália plataforma. Parei num quiosque de café expresso, no terceiro piso. Acabara de ver vitrines de roupas femininas. Cada modelo lindo. Os manequins ainda estavam vestidos para o Natal. As vendedoras tentavam capturar mulheres como eu, que adoram roupas bonitas. O clima de fim de ano, com a perspectiva de um réveillon maravilhoso, contagiava a todos, a beleza em volta ajudava no entusiasmo. Ao levar meu café à boca, notei num banquinho do lado oposto uma mulher mais jovem que eu. Parecia ter chorado. Também tomava café, mas suas mãos estavam trêmulas. Colocou a xícara sobre o pires e, com uma das mãos, tapou o rosto. A seguir, reparei que lhe escorreu uma lágrima. Fui até ela.
“Você precisa de ajuda?”
Parece que minha aproximação fez que se comovesse mais. Apoiou a mão direita sobre um dos meus braços e pôs-se a chorar com mais intensidade.
“Aconteceu alguma coisa com você, ou com alguém de sua família?”, perguntei.
“Comigo”, falou entre um soluço e outro.
Usei meu argumento principal para esses momentos:
“Se ninguém morreu, é possível encontrar solução para qualquer coisa.”
“O que aconteceu foi uma besteira, mas me feriu profundamente.”
“Olhe, acho que você perdeu um grande amor”, disse e sorri.
“Antes fosse isso, mas nem amor chegou a ser.”
“Vamos fazer o seguinte”, sugeri, “aqui, outras pessoas já nos repararam, vamos para outro lugar.”
Ela concordou. Paguei nossos dois cafés e caminhamos em meio às amplas galerias. Descemos a escada rolante, encontramos um banco grande, de madeira, que estava vazio e à espera de nossa companhia. Sentamos.
Já se mostrando mais animada, falou:
“Não foi nada demais, é que conheci um homem hoje”, interrompeu um tanto sem jeito e olhou-me. “Besteira, não?”
“Claro que não. O que pode haver melhor do que um homem?”
“Acho que você me compreende.”
“Compreendo, mas acabe de contar.”
Começou a narrar uma história que acontecera havia pouco; uma situação um tanto tortuosa.
“Conheci um homem hoje. Estou há tanto tempo sozinha, que pensei: que sorte minha, e trata-se de alguém com certa beleza. Almoçamos juntos, acredita? Almoçamos naquele restaurante aconchegante que fica numa das extremidades do terceiro piso. Me tratou com tanta elegância, que pensei que ele seria o homem da minha vida. É Carlos o nome dele. Mas ouça só o que se deu depois. Quando acabamos, ele ainda me ofereceu um café. Aceitei. Fomos ao café da livraria, ali perto de onde você me viu chorando. Depois descemos ao estacionamento. Ele disse que tinha de fazer algumas coisas importantes Perguntou se eu podia ir com ele. Fiz um pouco de encenação, disse que tinha um compromisso. Ele insistiu. Acabei por dizer que o acompanharia. Prometeu-me levar depois a um lugar maravilhoso. Não queria dizer de antemão para não estragar a surpresa. Entramos no carro dele. É um desses carros grandes, de aspecto robusto, tinha os vidros escuros. Do lado de fora, não dava para se perceber coisa alguma lá dentro. Logo que fechou a porta, me beijou. Um beijo tão gostoso. Depois começou a me acariciar. Ainda falei: 'você vai se atrasar no seu compromisso'. Mas nada respondeu. Continuou a me fazer carinho, a avançar com as mãos sobre o meu corpo, até que começou a tirar minha roupa. Falei um pouco preocupada: 'olha, aqui há outras pessoas'; ele, porém, foi rápido na resposta: 'ninguém pode nos ver'. Fiquei um tanto apavorada. O homem tirava minhas roupas, as pessoas passavam em direção a seus carros e nem davam por nós."
“Já passei por uma situação dessas”, interrompi.
“Já? E como foi?”
“Foi ótimo.”
Ela abriu um ligeiro sorriso. Falou:
“Você é desinibida, não?”
“Apenas desinibida?”
“Parece.”
“Mas continue. Sua história é uma delícia”, queria que ela retomasse.
“Então ele me deixou peladinha.”
“Peladinha peladinha?”
“Isso. Tirou minha roupa toda. Fizemos amor. Foi ótimo. Após acabarmos, falou com ternura ao meu ouvido: ‘você pode me esperar um instante? Tenho que pagar o estacionamento, mas prefiro que não fique no carro’. Eu disse que não havia problema, iria ao banheiro enquanto ele procurava o guichê.”
“Ao voltar ao local, não mais o encontrei. Já se passaram duas horas. Acho que depois que gozou, cansou de mim.”
“Será que você não errou a referência?”
“Não, tenho certeza do local. Conheço bem aqui.”
“Não se entristeça por isso. Você aproveitou, passou por momentos de prazer que não esperava. O que deseja, além disso?”
“Quero o homem para mim.”
“Desculpe-me, mas deixe de ser ingênua. No final, tudo ia dar num grande aborrecimento.”
“Como você sabe?”
“Apenas os amores passageiros são eternos; sobrevivem na nossa lembrança. Já passei por situações semelhantes. Vou fazer um convite a você: venha amanhã encontrar comigo. Vou a uma festa de réveillon no apartamento de uma amiga. Uma cobertura na asa norte. Lá vão estar pessoas interessantes. E já que o seu negócio é casar, pode ser que conheça alguém que também tenha as mesmas intenções.”
“Você jamais desejou alguém para conviver?”
“Já, mas acho mais interessante o modo como vivo hoje.”
Despedimo-nos, beijei-a.
Encontramo-nos à noite, no dia seguinte.
E ela, ao menos para o réveillon, descobriu seu príncipe encantado.

domingo, dezembro 21, 2008

Sob um céu que não nos queria sós

É noite de domingo, estou na casa daquele por quem me apaixonei faz algumas semanas. E estou sem a blusa! Isso mesmo, nua da cintura para cima, com um fogo terrível, e sem o menor acanhamento. Ele está sentado à minha frente, numa cadeira de espaldar alto, olhando-me e sorrindo.

Encontramo-nos às quatro da tarde. Eu disse que queria ver uma árvore que flora apenas de duas em duas décadas; lera sobre ela nos jornais. A bela e vistosa árvore fica no Parque do Flamengo. Andamos grande parte do parque, entre muitos que passeavam ou andavam de bicicleta. Havia recantos vazios, convidativos ao namoro. Mas até ali ainda éramos simples amigos – conhecemo-nos há dois meses num evento sobre artes. Era a primeira vez que saíamos juntos. Quando já ia o sol adiantado, mas ainda claro o dia e de calor envolvente, descobri o grande tronco, os galhos fortes, as folhas rígidas e elegantes e, enfim, as flores. Tinham a beleza lustrosa, ousada, arrepiante, própria das mulheres.. Flores mais belas, jamais as vi...
Tudo resplandecia em êxtase, proporcionava prazer que não queríamos que tivesse fim. Quando ia quase em espasmos de alegria, senti um beijo úmido na nuca. Era ele que, de surpresa, me proporcionava prazer em dobro: a vegetação luminosa e o amor...

Dali em diante caminhamos sob um céu que não nos queria sós. A brisa marinha invadiu a costa e tornou nossos corpos temperados, abertos a arrepios que destemperam o coração. Por fora senti um calafrio gostoso; por dentro, ardia nas chamas de um sol de quase verão.

Tornamo-nos, sem precisar de palavras, namorados quase que antigos, amantes que mantém o fogo sempre aceso e que tem nos toques e beijos o idioma capaz dos mais sutis sonetos e mais complexas epopéias.

Quando a noite começou a cobrir os passeantes e todos se regozijavam com a frescura das horas altas de verão, fomos a um café.

O lugar era de arquitetura antiga, um tipo de palácio transformado em jardim público, museu, restaurante e bistrô. Bebemos devagar, envolvidos na magia do fim de tarde, em harmonia com a felicidade daqueles que também queriam a alegria.

Meu recente namorado beijou-me novamente. Carícia mais demorada e indiferente aos olhares desejosos de prazeres semelhantes. A garçonete sorriu. Imaginei que pensasse no namorado, estivesse ele próximo ou distante; ou mesmo o criasse em pensamento caso não o tivesse.

Quando a noite adentrava a oitava hora, fomos embora. Destino: a casa dele. O passeio findava deixando resquícios de saudade antecipada. Mas se avizinhava hora ainda mais calorenta, hora de corpos que se tocam.

Logo que entramos ele acendeu uma luminária lateral, colocou uma música suave e me ofereceu uma pequena garrafa de cerveja holandesa. Não consegui recusar. Tomamos. Ele também abriu uma garrafinha. O liquido gelado inundou-me; não demorou a me aquecer até às profundezas. Já vinha embriagada pelas flores, pela beleza do dia, pelo constante êxtase, pelo amor e, naquele momento, a cerveja holandesa completava-me o incêndio.

“Que calor terrível”, foi o que falei.
Ele levantou-se; quis ligar o ar-condicionado.
“Não, não precisa”, insisti.
Após deixá-lo sem palavras, irrompi:
“Vou tirar a blusa, posso?”
Assentiu sem se surpreender.
E agora, voltando ao início, estou sem a blusa!


Boas festas de fim de ano. Que em 2009 sejam muitas as realizações. E também muitas as fantasias!

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Vestido curtinho

Ia eu no Plaza, em Botafogo, numa quarta-feira à tardinha. De repente encontro a Vera.

“Oi, que bom encontrar você! Precisava mesmo lhe contar uma novidade. Que vestido lindo que você está usando! E é curtinho...”, falou.

Abraçamo-nos e trocamos beijos.

“Gostaste do meu vestido?”

“Adorei; agora está na moda, não é mesmo? Antes se usava com calças leg por baixo. Mas agora, distância das calças”, sorriu, tocou meu rosto, como se quisesse ajeitar uma mecha do meu cabelo.

“E a novidade que vais me contar? Sabe que adoro histórias.”

“Vamos sentar então na cafeteria do segundo piso”, sugeriu.

Caminhamos lado a lado, ela segurando um dos meus braços. Também estava elegantemente vestida. Os rapazes não a desprezavam; como toda mulher, caminhava vaidosa.

Na cafeteria, começou a contar:

“Olha, conheci um cara, estou com ele faz um mês. É show; me leva pra cada lugar... E eu deixo ele louco. Aprendi aquelas coisas com você.”

“Que coisas?”

“Ah, não se faça de inocente, foi você quem me ensinou.”

“Queres dizer que então estás feliz?”

“Felicíssima”, falou.

“E como ele é?”

“Alto, elegante, educado; e tem trinta anos.”

“Trinta?, que bom.”

“Vou comprar um vestidinho que nem o seu; onde foi?”, perguntou e tocou no tecido, que mal me cobria as coxas. “Vou deixar o homem louco. Esse vestido ressalta bem as pernas de fora!”, sorriu e levou aos lábios a pequena xícara de café.

“Vais dizer que não tens uma roupa curta parecida?”

“Tenho, mas esse seu está tão lindo...”

“Digo a loja e ajudo a escolher.”

“Você é maravilhosa.”

“Ainda proponho mais”, continuei. “Queres andar por aí com ele um pouquinho? Temos o mesmo corpo, empresto.”

“Empresta? Como?”

“Empresto, agora. Quem sabe arranjas mais um namorado?”

“Ah, Margarida, você é maravilhosa. Aceito a oferta. Como vamos fazer?”

Acabamos nossos cafés e fomos a um dos banheiros. Trocamos de roupa. Meu vestido ficou lindo sobre seu corpo. Como ela é talvez um centímetro mais alta que eu, ele ficou um tantinho mais curto. Vesti a calça comprida que ela usava e a blusinha bege.

Quando passamos de novo em frente à cafeteria, a garçonete nos olhou surpresa. Creio que reconheceu nossas roupas invertidas.

Os homens a admirá-la tornaram-se mais numerosos.

“Estás fazendo o maior sucesso, vou deixá-lo com você, depois passo na tua casa e o pego de volta.”

“Jura, Marg?”

“Juro”.

“Você é ótima; adoro você”, ela me beijou num êxtase de alegria.

Despedimo-nos. Ela estava com o corpo quente; ia excitada com a nova roupa.

“Quando você passa lá em casa?”

“Amanhã ao entardecer está bom?”

“Está! Até lá vou fazer o maior sucesso”, sorriu e apertou meus braços com as duas mãos, num último sinal de carinho e alegria.

“Então vá.”

“Tchau, depois de conto.”

“Ah, adivinhaste; vou querer saber tudinho.

Ela riu mais uma vez, virou-se, antes de desaparecer ainda me deu um adeusinho.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Três coisas importantes

A noite começou com três coisas importantes. Em primeiro lugar um namorado lindo; em segundo, um vestido curtíssimo, mais parecia um suéter que não passava da metade das coxas, nem mesmo me permitia levantar os braços; em terceiro, bem deixemos o terceiro pra mais tarde...

Entramos no carro e seguimos pela estrada litorânea. Já escurecera, uma brisa fresca nos refrescava provocando às vezes até mesmo um frêmito de frio. A música do aparelho de CD se espalhava alta. Ele, fugidio, olhava para mim nos momentos em que a estrada permitia. Outros automóveis vinham em sentido contrário, seus faróis eram dois olhos que invadiam prateados a noite recente.

Quando uma longa reta aparecia, meu namorado colocava a palma da mão direita sobre minhas pernas, enquanto segurava o volante com a esquerda. Permanecemos fazendo esse jogo durante boa parte da viagem. Quando avistamos o lugarejo a que ele me prometera levar, um mar ainda claro apareceu banhado por uma lua em fins de crescente. Ele contornou a enseada, parou o carro ante a um restaurante rústico, saltamos e entramos.

Na verdade, o restaurante era uma pequena casa voltada para as areias da praia. Seu interior estava iluminado por velas em castiçais. Uma moça veio nos dar as boas vindas e deixou uma espécie de cardápio, que tinha o formato de uma grande folha de coqueiro.

Lembrei-me da leitura de um capítulo de romance em que havia uma casa de praia e um restaurante parecidos.

Pedimos duas caipirinhas. Meu namorado escolheu camarões graúdos; preferi uma casquinha de siri; depois, talvez, comesse patas de caranguejo.

Olhamos na direção do mar. Escutávamos a explosão das ondas, víamos de relance as espumas, mas a praia estava escura; vez ou outra aparecia o reflexo luminoso de alguma embarcação longínqua, talvez pescadores à espera de um cardume, talvez navios que faziam alguma rota estrangeira.

Na varanda, onde estávamos, não havia mais ninguém; na parte, interna, um casal mantinha-se num namoro inquieto.

Bebemos nossas caipirinhas e logo um fogo interno alçou-nos a vôo mais arrojado. Agarramo-nos e beijamos um ao outro intensamente. Ele enfiou uma das mãos por entre minhas pernas. Permaneceu com a palma estacionada ali durante algum tempo. Quando terminávamos um beijo longo, pleno de volúpia, chegaram os camarões.

Comemos nossos pratos com entusiasmo; tudo estava muito gostoso. Pedimos outras duas caipirinhas. Quando cada um de nós bebeu a metade, o fogo que ardia tornou-se ainda mais intenso e, num momento de excitação, meu namorado arrancou-me a calcinha.

“Ai, você destruiu minha calcinha, coloquei só pra você, e ela era tão bonita”, falei em tom de choro.

“Não se preocupe, vou comprar muitas outras amanhã.”

“Será que vou agüentar sem calcinha tanto tempo?”, perguntei e acabei explodindo numa risada debochada, aconchegando-me mais ao seu lado. Ele me acariciava de todos os modos possíveis. Suas mãos me percorriam e me deixavam cada vez mais excitada.

“Vou tirar seu agasalho.”

“Que agasalho?”, perguntei encolhida.

“Esse vestido-agasalho.”

“Será que a garçonete não vai chamar nossa atenção?”

“Não; acho que aqui não tem problema. As pessoas não vêm aqui só pra jantar, esse lugar é favorável para que se devorem uns aos outros."

Foi então que ele me deixou nua. Pela primeira vez eu fiquei nua num restaurante. Juntei as pernas aos seios e deixei que ele me abraçasse. A garçonete desaparecera no negrume da casa. Acho que para nos deixar mais à vontade.

Embora estivesse escuro e o casal próximo não quisesse saber de nós, senti um pouco de vergonha. Pensei que podia parar um carro com faróis altos, saltar uma porção de gente e me surpreender nua num lugar público.

Meu namorado levantou o braço; chamava a garçonete.

“Não faça isso”, ainda tive tempo de dizer.

Mas ela veio rápido.

“Mais uma caipirinha, por favor.”

“A senhora também quer mais uma?”, perguntou-me; olhou natural, como se eu fosse a mulher mais vestida do mundo.

“Não, obrigada”, acho que deixei transparecer uma ponta de vergonha, mas o que há de se fazer? Ainda tomei um último gole. Encolhi-me mais. Pedi que ele me tateasse a pele. Estava tão gostoso.

Foi então que aconteceu a terceira coisa. Veio vindo lá do fundo, um orgasmo tão intenso, algo que eu jamais sentira, uma espécie de gozo, mesmo sem penetração. Sussurrei:

“Ai, nunca senti o que estou sentindo agora, uma coisa tão boa, me aperta mais, vai.”

Ele me apertou. Peguei uma de suas mãos e a encostei naquela parte em que as mulheres sentem mais desejo.

Depois, dentro do carro, antes de deixarmos aquele lugar maravilhoso, ele me deitou no banco, escalou meu corpo, abriu meu sexo e permaneceu lá dentro, quente, muito quente...

terça-feira, novembro 18, 2008

Certa vez me pediste que eu viesse nua a teu encontro

Bons são aqueles motéis em que se entra com o automóvel, percorre-se uma via estreita até encontrar o boxe desejado, e logo que se salta abaixa-se o toldo, ficando o carro às escondidas. Caso se decida por um deles já a noite escura ou madrugada, é possível lá chegar nua por inteiro. Ninguém terá o prazer de reparar, mesmo que o automóvel tenha vidros transparentes.

Certa vez tive um namorado que gostava de encontros em motéis desse tipo. Então, decidi fazer-lhe uma surpresa. Já saíramos juntos outras vezes, namoramos em hotéis do litoral; viajamos a fazendas, envolvemo-nos ambos nus, namoros secretos noturnos. Mas agora estávamos numa cidade grande. Mesmo assim aventurei-me a surpreendê-lo.

Marcamos num motel dos arrabaldes. Como as mulheres sempre se atrasam, não quis portar-me diferente. Ao chegar, ele já me esperava; e ia impaciente.

“Pensei que não mais viesses”, falou-me um tanto taciturno; mas recobrou-se ao ver que nada me cobria a pele. “Como vieste nua?”

Tapei-lhe a boca, cobri-lhe a voz com mil beijos atrasados.

“Onde estão tuas roupas?”

“Em casa”, respondi; rolei sobre ele, abracei-lhe e procurei seu sexo excitada.

“Em casa?”, repetiu minhas palavras; demonstrava mais interesse pela história do que pela mulher nua ao lado.

“Não mais queiras saber coisa alguma”, abracei seu corpo com mais força e o aprisionei em outro longo beijo.

Abri-me tal qual flor de Andaluzia. Escorregou sem impedimentos, deslizou entre meus óleos naturais. Permanecemos unidos; eu mordia-lhe o pênis fazendo contrações com o músculo do meu sexo, não era preciso movimento além.

Durante hora e meia amamo-nos calorosos; de ruídos, apenas nossa respiração, parcos gemidos e suspiros de prazer.

Quando acabamos, ou melhor, essas coisas nunca se acabam, interrompem-se para logo após reiniciarem-se. Mas quando demos conta de que não poderíamos viver ali uma vida inteira, aprontamo-nos. Quer dizer, ele aprontou-se. Eu ainda ia nua. Sem dizer palavra alguma, levantou-se e por mim esperou. Acompanhei-o até o pequeno toldo. Meu carro ficara debaixo do toldo do boxe ao lado.

“Ainda bem que ninguém reclamou pelo apartamento ao lado, teríamos de interromper nosso namoro”, ele disse.

Beijei-o e corri para meu carro; sentei-me no banco do motorista; bati a porta e deslizei meio vidro para que ele viesse me beijar uma vez mais.

Até ali, tentou não demonstrar surpresa alguma. Mas, de repente, deixou escapar:

“Não acredito que não tens o que vestir.”

Percorreu os bancos com os olhos, depois falou:

“Deixa ver a mala.”

Não lhe dei tal permissão.

“Duvido que não trouxeste ao menos um curto vestido”, falou em voz embargada de desejo.

“Pensa como quiseres; certa vez não pediste que eu viesse nua a teu encontro? Devias estar satisfeito.”

“Claro que estou; mas estou também preocupado. Se te descobrem nua a caminho?”

“Não te preocupes; tenho meus recursos; e a noite sempre foi amiga das mulheres apaixonadas.”

Beijei-lhe ainda uma vez, dei a partida e mergulhei na madrugada nua.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Copacabana

A avenida Nossa Senhora de Copacabana é uma via atraente. Não só a taxistas que trafegam lentos, quase acompanhando o pedestre distraído, mas também a homens ou mulheres que vão às compras ou a passeio. Várias lojas alinham-se disformes, múltiplos os tamanhos, e às vezes há as galerias. Exibem de preferência roupas, mas se este não for o desejo, encontra-se todo tipo de produto. Poucos olham acima; e se o fazem surpreendem-se com os altos edifícios. Onde o céu?, onde o sol?, mas não é impossível a claridade. Esta vai no brilho dos olhos das mulheres e dos jovens, para quem são transparentes as torres de concreto. Perto do Posto Seis, nas ruas que atravessam a avenida, predomina uma atmosfera de bairro rico, morada de senhores e senhoras filhos da fortuna. Descendo, seguindo em busca do comércio popular e de corpos de maior temperatura, o bairro arrefece, encontra o homem comum, o passeante solitário, a mulher freqüentadora dos pequenos salões de beleza, os bares sempre cheios, o incógnito bebedor de cerveja. E no espaço aéreo, amontoa-se em conjugados o sangue quente, o pulsar constante. Andando pelo Posto Quatro é preciso ter cuidado. As tentações são várias, as cores se multiplicam, sente-se na boca amálgama lustroso, licor tentador que embriaga e embaraça. Então a roupa torna-se leve, sobretudo à mulher lívida; a saia ou o vestido sobe, o tecido parece que foge, e às vezes não se resiste a mergulho repentino em teia disfarçada e envolvente. Desliza-se da rua movimentada a prédios de corredores compridos, confunde o labirinto de portas e escadas; elevadores lentos, de sons arranhados, transportam a universos perfumados. Então não se sabem nomes, identidades ou procedências; mãos ávidas procuram a pele branca, os poucos pêlos, desfazem as amarras; e corpos antecipando suores, em meio a lâmpadas de dourado arredio, embebedam-se de caldo andaluz, vinho pleno de volúpia. Mas a rua me dá remate de sobrevida; meu coração, em ritmo de dançarina eslava, transpõe o primeiro obstáculo, vitória ainda que precária; deixo para despejar enzimas acre-doces em hora de mais valia. Um café expresso detém-me próxima à entrada de um hotel. Desfraldam-se as bandeiras sobre as marquises, um funcionário em traje a rigor abre a grande porta de vidro à comitiva estrangeira. Delicio-me na bebida de pó escuro, encorpada, quase amarga. Levanto os olhos em meio a sorrisos e espelhos, aprecio a silhueta de ator americano. Deixo-o em meio a fitas de outros tempos e, sobre o passeio, sou levada por torvelinho de rapazes sorridentes; cuido da bolsa e da carteira, mas sei que desperto interesses submersos. O ar da praia!, agora o percebo, chega-me em boa hora, aguça-me os sentidos, excita-me. Uma dúvida feliz arrebata-me. O que faço?, rumo à beira-mar?, ou engalfinho-me nos arredores urbanos da noite que se anuncia? Desfaço-me das dúvidas diante de loja requintada. Modelos e fazendas escarlates sobem-me como caldo que incendeia. Observo a blusa de fazenda leve, talvez algodão quase transparente. Visto uma saia comprida, argolas como cinto, dourada de espelhos. No pescoço, não dispenso um colar que parece fantasia, mas arrebata-me artesanato em ouro. Sou outra pessoa. Não mais desejo mergulhar no novelo urbano da ante-noite, mas na suíte de meu hotel. Aconchegada, sobre tapete de pétalas, envolta em cortinas e ar-fresco, na entre-sombra que antecede o crepúsculo, quero olhar-me no espelho. Depois, de roupa nova luzidia, inundar-me do calor próprio dos amantes, enquanto diplomata estrangeiro admira-me entre as mesas do salão de chá, no hotel que tem nome de palácio.

sábado, outubro 25, 2008

Coisa de cinema

O bar era em Pinheiros, pequeno mas chique. No interior, muitos copos e taças de cristal; bebidas diversas; revestimento todo em madeira; mesas pequenas, cada uma com um abajur; o balcão comprido com vários bancos ou cadeiras, todos altos e, do lado de dentro, um discreto e atencioso barman. Era para este local a que eu me dirigia todas as tardes, a partir das quatro horas. De lá era possível observar a rua através dos pequenos quadrados de vidro emoldurados pela porta de madeira. Quem passava lá fora via o contorno das poucas luzes sobre a decoração impecável. Sempre eu encontrava duas mulheres, que já estavam bebendo, de preferência uísque; cumprimentavam-me com cordialidade, mas jamais me convidaram para sentar junto a elas. O funcionário, jovem e bonito, compenetrado em seu trabalho, sempre me sorria e não se demorava a trazer-me a bebida que eu pedira nos dois primeiros dias, conhaque diluído em menta.

Um senhor de mais de 70 anos estreou no ambiente numa tarde de quarta-feira. Trajava um terno impecável. Seus cabelos eram brancos e tinha o rosto rosado. Chegou-se ao balcão e pediu uma dose dupla de uísque. Bebeu-a de uma vez. Em seguida, pediu outra. Levantou de novo o belo copo, como se talvez bebesse água, e fez o líquido dourado desaparecer suave em meio a seus lábios. Só então, tranqüilo, pousou o copo e disse algumas palavras. Todas dirigidas ao barman. Este o ouvia impávido, silencioso, para logo depois expressar ligeiro sorriso, voltando a seguir à fisionomia inicial. O senhor, já com a terceira dose nas mãos, lançou os olhos através do bar e descobriu, um tanto surpreso, as três mulheres que compunham a clientela até aquele momento. Sorriu para todas e recebeu em retribuição expressões semelhantes. As duas que sentavam à mesma mesa ainda se demoraram em seus sorrisos convidativos. Aguçando o ouvido era possível escutar, já que o bar era silencioso, a história que o senhor começara contar ao empregado.

Inicialmente perguntou: “o senhor é barman aqui há muito tempo?” esperou alguns instantes para o homem responder através de um movimento de cabeça. “Conhece então todos os clientes?” “Os habituais”, foi a resposta que obteve. “Procuro uma mulher, há alguns dias a vi sair daqui”. Explicou com poucas palavras como era a mulher. O funcionário entortou um tanto a cabeça enquanto passava álcool em alguns copos. “Não sei, talvez seja alguém que tenha vindo aqui uma única vez”. O senhor terminou de beber e colocou o copo sobre o balcão. “Pena, procuro-a há muitos anos; fui seu amigo, era uma mulher esplêndida”. Abriu a carteira e colocou sobre o balcão uma nota de valor elevado. Antes que o barman a apanhasse, pediu mais uma dose dupla. Foi atendido com presteza. Bebeu-a quase de um gole só; não quis troco.

No dia seguinte, a cena se repetiu. Apenas eu me acomodava na mesinha de costume, o senhor entrou de novo. Vinha trajado ainda impecável, de gravata borboleta preta. Sentou-se no mesmo banco de véspera. O barman lhe sorriu e despejou no copo a mesma bebida. “Como o senhor é atencioso! Nem precisei me manifestar! Como adivinhou que eu pediria uísque?” “As pessoas dificilmente mudam; os pedidos quase sempre são os mesmos”. Depois de alguns minutos indagou: “Gostaria de saber se a senhora sobre quem lhe falei ontem apareceu por aqui”. “Não, infelizmente”. “O senhor como é um barman deve ouvir muitas histórias. Vou contar-lhe em particular mais uma. Essa mulher representou muito para mim, gostei muito dela; tudo aconteceu vinte anos atrás...”

Eu entreouvia a conversa. Às vezes o tilintar dos copos das duas mulheres, ou algum ruído que o barman deixava escapar na sua furiosa ação de dar brilho às taças que lhe estavam pela frente, ou mesmo algum vestígio do som da cidade fervilhando lá fora não permitiam que a voz do homem chegasse a mim. Em síntese: tratava-se de uma mulher que, no passado, traía o marido todas as tardes; ela achava que casos extraconjugais ajudavam a manter o casamento; e o marido era verdadeiro em seu amor por ela. Apenas uma pessoa soubera de seus passos furtivos; o senhor que, agora, conversava com o barman. Este funcionava como uma espécie de psicanalista de boêmios ou alcoólicos; estava acostumado a histórias diversas e ainda pôde demonstrar surpresa pelo que ouvia, pela figura excêntrica de alguém que se portara, ao menos em aparência, de forma tão pudica e, mesmo ao se expor a ações tão transgressoras, conseguira se sair incólume. “Vou revelar uma coisa ao senhor. Já que confiou em mim e que está a se tornar um cliente habitual, vá ao Hotel Degar, ela reside ali. Procure-a pelo mesmo nome que o senhor me deu”. Já havia tomado duas doses duplas. Pediu ainda uma terceira e deixou sobre o balcão, sem esperar troco, outra nota de valor maior.

Na tarde do dia seguinte, eu ia com interesse ao mesmo bar. Queria saber a continuidade da história. Mas uma amiga me deteve nas imediações do Centro. Tivera um problema e pediu que a ajudasse. Interei-me do assunto; e o que ela queria eu tinha de reserva na bolsa. Agradeceu-me e se foi, pois precisava terminar de preparar-se caso não quisesse perder o dia. A aventura anterior, aliás, um verdadeiro despropósito, praticada sem os cuidados inerentes à profissão, quase a deixara em apuros. Desci do metrô, andei duas quadras e entrei um tanto perplexa e esbaforida no bar. O empregado sorriu quando me viu e trouxe a bebida de sempre. Nessa tarde, não vi nem as mulheres nem o senhor de terno.

Só na segunda-feira as encontrei mais uma vez; e, no balcão, o senhor impecavelmente vestido. Quando entrei, todos me olharam em sinal de cumprimento e aprovação. Creio que, como já fazia parte da clientela vespertina, sentiam a minha falta. Ele continuava a contar sua história ao barman. Creio que já bebera duas doses duplas e uma terceira jazia ante seus olhos. Ouvi-o, enquanto eu acendia um cigarro, “Consegui marcar um jantar a dois, eu e ela; ocorreu no sábado, no restaurante de um desses hotéis para turistas estrangeiros. Quis um reservado. Mas ouça-me, a coisa não se deu tão bem como eu esperava. Hoje ela é outra mulher, ou seja, uma mulher arrependida. E ainda se martiriza com uma dúvida”. O barman o olhava sério, sempre estava a fazer algo, como lustrar algum copo, ou arranjar o lugar apropriado a uma garrafa deslocada. “Dúvida?”, ainda repetiu, “mas não era tão atirada?”. “Isso, boa essa palavras, é das antigas: atirada. Ela era tão atirada! Sempre voltava antes do marido para casa, mas era atirada. Eis a dúvida: acha que o marido ao morrer sabia de suas artimanhas. Ela desconfia de que um amigo revelou a ele o segredo. E sabe de quem? De mim. Diz que eu era o único que sabia de sua história e que era amigo de ambos. Ora, veja... Mais um duplo, por favor!”

Pus-me a admirar aquele homem. Embora velho e solitário, encontrava sentido para a sua vida. Naquela tarde, antes de ele se retirar, ainda uma vez ouvi sua voz. “Disse então a ela: ‘veja estou velho, sou alcoólatra, mas mantenho a alegria de viver’. Ela levantou-se, derrubou a taça de vinho, algum talher e se retirou. Mas como ainda é bela!”.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Em suas mãos

Eu estava em casa, tinha acabado de almoçar, quando o telefone tocou.

“Oi, Marli?”

“Sim, sou eu.”

“Aqui é o R., tudo bem?”

“Oi, R, como vai?, quanto tempo...”

“Tudo, quanto tempo, não? Acho que vou aceitar aquele seu convite, continua de pé?”

“Que convite?”, perguntei com falsa ingenuidade.

“Aquele que você me fez há seis meses; passar alguns dias com você aí, em Guarapari.”

“Ah, claro que está de pé, terei imenso prazer em receber você.”

Marcamos os dias, conversamos mais algumas amenidades e desligamos. Ele chegaria numa quinta e ficaria até domingo.

É preciso dizer que eu e R. fomos namorados em outros tempos. Quando o conheci eu já não era tão jovem, mas tinha o mesmo ímpeto de uma garota nova. Ele adorava tirar toda a minha roupa; extasiava-se quando eu ia de saia curta e permitia que ele me roubasse a calcinha. O que fez aquele homem dez anos mais jovem do que eu atraído sempre por mim foi, no entanto, uma história que contei a ele.

Certa vez, enquanto fazíamos uma caminhada pela orla marítima no Rio, numa manhã de sol, narrei um fato que me acontecera.

“Sabe, desde muito jovem sempre gostei de usar biquíni, e desses bem pequenos.”

Ele me olhou demonstrando mais interesse.

“Um dia mergulhei de uma pedra, no tempo em que a praia do Flamengo era mais propícia ao banho; ao romper a superfície e deslizar sob as ondas, a temperatura fria da água do mar em contato com meu corpo quente provocou em mim tamanha excitação, que me levou ao orgasmo.”

Ele riu.

“Não acredita?, é sério, gozei com a temperatura da água; nunca tinha sentido aquilo antes. Foi tão bom!”

“Você estava sozinha?”

“Estava; eu morava perto da praia.”

“Então toda vez que você entrava na água isso acontecia?”

“Não, só aconteceu aquela vez. E olha que eu tentei muitas outras, tirava até o biquíni pra ver se conseguia, mas não gozei de novo daquela maneira.”

“Tirava o biquíni?”

“Isso, tirava ele todo.”

“As pessoas não reparavam que você estava nua?”

“Não, se a gente tirar só a parte de baixo ninguém repara.”

“E onde você o guardava?”

“Enrolava no braço, feito uma pulseira.”

Ele me olhou um tanto excitado, depois disse:

“Quando viermos à praia para tomar banho de mar, quero que você faça isso. Aí, roubo sua pulseira.”

“Não vou deixar. Até tiro o biquíni, mas não dou em suas mãos.”

Ele riu mais uma vez.

“Vou dizer a você”, continuei, “voltando ao assunto, por mais que eu tirasse o biquíni, nunca mais consegui o prazer que senti naquele dia. Foi uma vez única, nunca me esqueci. Até hoje tiro o biquíni, mas não com essa intenção. Acostumei ficar nua no mar.”

“As pessoas nunca te descobriram nua?”, perguntou de novo, muito interessado.

“Não, já disse. Nunca ninguém reparou. Até já conversei nua com um homem. Ele nem notou.”

Alguns dias depois, ao namorarmos na casa dele, ouvi sua voz, quase um sussurro:

“Qualquer dia desses vou levar você à Floresta da Tijuca, vou tirar toda a sua roupa, então vamos trepar. Quero também que você caminhe nua sobre a relva.”

Naquele momento, fui eu que fiquei excitada.

R. gostava que eu gritasse ao atingir o gozo. Eu já tinha esse costume, mas com ele gritava mais alto.

Uns dias depois saímos novamente. Fomos a vários lugares. Mas ele esqueceu sobre o passeio à Floresta. Então falei:

“Você não cumpriu sua promessa.”

“Que promessa?”, perguntou esquecido.

“De me deixar nua na Floresta!”

Olhou um tanto surpreso, depois falou:

“Assim que pudermos, iremos lá.”

Acreditei, mas nunca aconteceu.

A vida complicou-se, separamo-nos, deixei o Rio de Janeiro e passamos a falar um com o outro poucas vezes. Arranjei um namorado com quem fiquei por uns tempos. Há seis meses, quando fui ao Rio, encontrei R. novamente; fiz então o convite.

Guarapari é uma cidade bonita, tem muitas praias e alguns lugares desertos que podemos fazer passar por florestas. E tenho muitos biquínis, cada vez menores. Todos prontos a transformarem-se em pulseiras. Mas dessa vez entro n’água primeiro, não falo nada, deixo que ele descubra que estou nua. Depois, coloco a pulseira num dos braços dele e digo:

“Sou sua; estou inteira nas suas mãos!”

sexta-feira, outubro 03, 2008

Ilha Joaquina

As primeiras luzes do amanhecer já despontavam numa parte do céu. Miriam disse para mim:

“Ai, meu deus, se não formos nesse barco, vamos ter muitos problemas, é melhor não esperarmos mais.”

“Quer ir assim mesmo?", perguntei.

“Vamos”, ela afirmou.

Quando o homem encostou a pequena lancha no ancoradouro, mostrou-se a princípio sério, pois provavelmente era pessoa experiente e já se deparara com diversas situações semelhantes, mas depois estampou um meio sorriso malicioso, como se dissesse: “ah, essas mulheres...”

Miriam subiu na embarcação abraçada a mim. Num primeiro momento, alguém que a olhasse não notaria nada de estranho. Ela trajava saia preta que ia até um pouco acima dos joelhos e botas compridas, muito bonitas, que lhe cobriam os tornozelos.

“Você acha que alguém vai notar?”

“Claro que não, ainda está escuro, e ao chegarmos do outro lado entramos logo num táxi.”

“E como vou subir assim no meu prédio?”

“Vamos para minha casa, lá não há problema algum.”

Miriam fora convida para uma festa numa famosa ilha. O figurão que fizera o convite acrescentara: “traga uma amiga, será também muito bem recebida.”

No lugar, rodeado por praias lindíssimas, havia apenas duas residências; eram verdadeiras mansões. A vegetação cobria uma delas, enquanto a outra tinha um dos flancos que podia ser apreciado desde o momento em que pisávamos em terra. Além de usufruirmos uma noite belíssima, cheirosa, com o paladar de vinhos e champanhe franceses, teríamos à nossa disposição homens dos mais variados. O convite não falava explicitamente sobre uma exigência de praxe naquele tipo de festa: as mulheres, logo que desembarcavam, tinham de entregar a blusa numa barraquinha próxima; recebíamos uma pulseira com um pequeno número. Dali para frente, caso despíssemos outras peças, tínhamos de tomar conta. Não se podia vestir sutiã nem top, ou qualquer outro tipo de cobertura. Quaisquer roupas eram permitidas, desde que se estivesse com os seios à mostra. Como eu e minha amiga já éramos experientes em festas mais ousadas, fomos com muita animação.

A exibição foi intensa. Todas tinham muito orgulho em mostrar os seios. É lógico que a essas festas só comparecem mulheres que estão com tudo em cima, ou quase tudo. As mais jovens, no começo, demonstraram uma ponta de vexo, às vezes mesmo inconscientemente faziam algum gesto como se quisessem esconder os seios atrás das mãos, mas, depois de uma ou duas taças de vinho, soltavam-se e não tinham mais vergonha alguma. As mais velhas faziam questão de mostrar que possuíam os seios bastante rijos, mesmo que em conseqüência de algum tipo de cirurgia plástica; assim eles haviam voltado à posição de alguns anos atrás. Também vi algumas mulheres com os seios avantajados; ofereciam-nos aos rapazes mais jovens, que os tocavam sem embaraço.

Dançamos muito; namoramos principalmente; comemos e bebemos sem ter nada a reclamar. Houve várias entradas, canapés, pães, pastas, e um jantarzinho depois da meia-noite. Um entendimento era implícito: as pessoas não deviam circular totalmente nuas nem deviam fazer sexo dentro dos salões; nas varandas e na parte externa, porém, tudo era permitido.

À uma e trinta houve a eleição da mulher que tinha os seios mais bonitos. Todas as pessoas podiam votar e a todas as mulheres era permitido concorrer. Ganhou uma amiga nossa, a adorável Júlia, que estava na casa dos trinta anos. As mais jovens morreram de inveja.

Lá pelas duas da madrugada escolhi um bonitão, que me deixou nuazinha. Trepamos no jardim; eu sobre a grama e ele sobre mim, foi uma delícia. Depois fez que eu passeasse nua ao lado dele por toda a ilha. Encontramos, num trecho da praia, três jovens também despidas por inteiro, mas elas trepavam com apenas dois homens. Chamaram-nos; ficaram então quatro mulheres para três deles. Um dos rapazes, ao me ver, correu e me agarrou. Sussurrou no meu ouvido: ”adoro mulheres sem pêlos”.

Miriam também se perdeu pela ilha com vários bonitões. Disse ter cometido algum exagero. Sempre falou que normalmente não gosta de sexo anal, mas naquela noite, depois de três taças de champanha, acabou deixando um rapaz fazer amor com ela do jeito que ele queria; contou que gritava a ele: “por favor, não goza, fica mais tempo, não goza!”.

Lá pelas quatro e meia, após muita música, bebida, comida e namoro, resolvemos sair à cata de nossas roupas. Houve apenas um problema, Miriam perdeu a pulseira e, para recuperar a blusa na tal barraquinha, ela era necessária. A funcionária de plantão no local nos informou que, sem a senha, seria preciso esperar até que todas as mulheres tirassem as suas blusas.

Só que Miriam começou a ficar nervosa; viu que não demorava a amanhecer.

Então resolvemos ir embora assim mesmo.

Mas, no balanço final, valeu a pena. Adoramos a festa!