domingo, março 06, 2011

Vestido de flores azuis

“Marg, você me empresta aquele seu vestido estampado com flores azuis?”
“Estampado com flores azuis?”
“Isso mesmo, aquele que você usou na festa da Isis.”
“Ah, sei, um que comprei na Exotic.”
“Acho que é de lá sim, Marg. Ele é muito bonito.”
“Mas você, Stela, tem tanta roupa bonita, acho que tem mais bom gosto do que eu.”
“Ah, não diga isso, Marg, posso até ter muita roupa, mais bom gosto do que você é outra história.”
“Empresto, basta ir lá em casa pegar.”
“Ótimo, vou lá quando sairmos daqui.”
“Uma curiosidade, pra que você quer o vestido?”
Stela sorveu o último gole do café, olhou através da vidraça a tarde que caía, algumas pessoas apressadas, jovens conversando, homens de terno.
“Seu vestido dá sorte.”
“Sorte? Como assim?”
“Ajuda a arranjar namorado.”
“Que besteira, Stella, o vestido nem é dos melhores que eu tenho, é comprido...”
“Mas toda vez que você o usa, está ao lado de um homem bonito.”
“Mas acho que a razão não é o vestido.”
“Marg, sei que você é uma pessoa especial, acho que com o seu vestido vou me tornar especial também.”
“Já imaginou se todas as minhas amigas pensarem o mesmo e pedirem minhas roupas? Vou andar nua!”
Stela sorriu, comeu o último biscoito, depois olhou na direção de uma das garçonetes.
“Por favor, poderia me trazer mais um expresso?”
A moça prontamente se dirigiu ao fundo da cafeteria.
“Mas, Marg, as outras amigas não precisam saber, é segredo, você me empresta o vestido e depois eu conto o que aconteceu.”
“Ok. Stela, você quer saber mesmo a razão de eu sempre ter namorado a ponto de precisar evitá-los?”
“Quero, mas não vai me deixar de emprestar o vestido por causa disso.”
“Claro que não. A causa é a seguinte: não fico pensando muito nisso, então eles aparecem naturalmente.”
“Você é uma mulher de sorte, Marg, vive em paz consigo mesma.”
“Acho que você descobriu o segredo. Quando vivemos em paz, quando estamos felizes mesmo sozinhas, os homens aparecem às pencas.”
“Às pencas, que palavra engraçada. Agora me lembrei da Dani. Ela foi a um baile de carnaval e disse que os homens a rodeavam às pencas.”
“A Dani adora bailes de carnaval, e daqueles bem quentes.”
“Já sei, Marg, daqueles em que os homens querem deixar a gente nua.”
“Isso mesmo, pelada.”
“Marg, você também gosta desses bailes, não é mesmo?”
A garçonete chegou com o café de Stela. Ela olhou para moça, sorriu e agradeceu.
“Gosto. Já fui a muitos deles.”
“Não vai mais?”
“Não com antes, mas ainda frequento alguns?”
“E os homens, deixam você nua?”, falou e chegou a rir alto, com a xícara de café na mão.
“Se eu bobear, querem até minha calcinha, de lembrança?”
“E você já namorou no carnaval?”
“Sempre se namora, um a cada dez minutos...”
Stela sorriu e completou.
“Sabe, estou eufórica para usar esse seu vestido!”
“Mas você não vai deixá-lo escapar nas mãos de um desses rapazes mais afoitos, não é mesmo? Quero meu vestido de volta!”
Stela me olhou nos olhos e soltou uma sonora gargalhada...

quinta-feira, março 03, 2011

E viva o Carnaval!

Vivo numa cidade pequena onde o carnaval é festa popular. Vem gente de todo lugar para apreciar a folia.

Os jovens preferem as barracas de acampamento. Varal, redes e mochilas são os objetos que acrescentam à natureza ares de convivência humana. Já os de estilo conservador se hospedam nas pousadas.

Observo tudo e penso: como aproveitar e deixar fluir o meu espírito carnavalesco, já que, para todos aqui, sou recatada? Só há um jeito, brincarei neste carnaval, na rua e nos salões, de máscara. Cada dia, uma máscara diferente.

No sábado, opto pela fantasia de "pantera cor de rosa". Às onze da noite, saio. As beatas da cidade nas varandas, o tititi já fazendo parte do cenário. Mas quem vai imaginar que alguém pacata, daqui, aprontará todas por trás de uma fantasia e de uma máscara? Minha roupa rosa com paetês prateados está um luxo, além das meias e da blusa cacharrel. Ao som de marchinhas, danço sobre o chão de pedra e de paralelepípedos. Todos param para me aplaudir. A exceção são as beatas, que perguntam entre si: “De onde saiu tal devassa?” Bares e restaurantes lotados. A conversa é a mesma: “Viram a pantera cor de rosa? Nossa! Com essa pantera eu vou à loucura, o torneado de suas pernas e o bumbum são de tirar o fôlego. E que seios!” “Esses homens daqui parecem que nunca viram mulher, ficam boquiabertos com uma talzinha que ninguém sabe de onde veio”, falam com despeito as beatas.

No domingo, depois de me recompor do cansaço, das bebidas e das insinuações, visto-me de mulher maravilha. Saio mais cedo. Quero ver se pesco o homem mais tesudo e comprometido da cidade. Afinal, sou a mulher maravilha.

“Hei, paixão! Quer ser o meu super-homem nesta noite?”

“Aceito. Nessa ocasião ninguém é de ninguém.”

Saímos, os dois, de braços dados, e vamos pra debaixo de uma gruta. O som da marchinha chega a nós vindo de longe.

“De onde veio essa mulher maravilha?”

“De outras redondezas.”

“Posso provar essa maravilha de mulher?”

“Claro.”

Aos poucos, vou mostrando a mulher maravilhosa que sou. Faço-lhe carícias mil, começo então a apalpar o pênis daquele super-homem. Penso em pedir que o introduza em mim, mas nem preciso dizer palavra alguma, essas coisas se adivinham... A mulher maravilha está quente, jorrando prazer por todos os poros. O homem, impossível de sair da linha durante o resto do ano, naquele momento é meu. Bem feito para a encrenca dele! Enquanto toma conta da vida dos outros, perde o quitute de marido que tem.

Combinamos, na segunda e terça-feira a festa será debaixo de uma velha mangueira. Ficará na história a festa, e também a mangueira.

Bom carnaval pra vocês também!

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Trouxe uma lata de coca-cola e um saco de batatas fritas

A praia do Flamengo naquela época era lotada no dia de domingo, a maioria das mulheres, inclusive eu, usava biquíni minúsculo, e arranjar namorado, pelo menos para aquele dia, era o nosso objetivo principal. Mal chegávamos à praia, tirávamos a camiseta e procurávamos um lugar de destaque onde pudéssemos ser observadas. Eu escolhia homens mais velhos, queria mordomia, geralmente eles pagavam tudo. Um modo de excitá-los era pedir que esfregassem o óleo de bronzear nas nossas costas e bumbum. Lembro que num domingo vivi uma experiência que me deixou a mil. Conheci um senhor, talvez quase trinta anos mais velho do que eu, mas jovial, de porte atlético. Apreciou-me durante muito tempo. Acabei por abordá-lo, pedi um cigarro. Ele me cedeu, com muito prazer, e o acendeu para mim. Ficou ao meu lado e comentou sobre o dia de sol e calor, disse que a praia estava muita cheia e que, entre todas as moças, eu era a mais bonita.


“Você teve tempo de olhar todas?”

“Quase todas.”

“Então fique aqui ao meu lado”, convidei.

Ele sentou. Pedi que espalhasse o creme às minhas costas.

“Como você está pretinha!” Reparou minha pele branca por sob a lateral do top.

“Venho quase todos os dias, no verão", falei.

“Que felicidade, não poderia haver coisa melhor, não é mesmo?”

“Adoro praia, para mim é o que mais conta.”

Depois de alguns minutos já estava deitado ao meu lado, com o rosto coladinho ao meu. Não perdeu tempo e me beijou; a seguir, ainda deitado, segurou uma das minhas mãos. Levei a sua para debaixo da minha barriga, eu estava com as costas para cima. A mãozinha dele ficou bem escondidinha, me aquecendo mais que o sol.

“Você bebe alguma coisa?”, ofereceu.

“Refrigerante.”

Ele foi comprar.

“Ei, cuidado para não se perder de mim, a praia está lotada.”

Sorriu. Demorou a voltar. Cheguei a pensar que me abandonara.

Trouxe uma lata de coca-cola e um saco de batatas fritas.

Lembrei a Gilda, “você fica aceitando tudo desses homens, ainda vai entrar pelo cano, lembra da Cris, foi parar no hospital, o cara, bem, você sabe o que fez com ela, é muito desagradável repetir.”

Mas aceitei as batatas, estavam uma delícia.

“Está enfeitiçada, a mulher que comê-la absorverá um pó mágico e ficará apaixonada por quem a presenteou, por uma semana seguida”, seu sorriso era sincero.

“Não dá pra ser uma mágica que dure um mês?”, perguntei entalada com as batatas.

Ele riu. “Podemos pensar numa mágica mais prolongada.”

Deitamos novamente sob o sol. Será que ele ia descobrir meu ponto fraco? Coloquei a mãozinha dele por sob o meu ventre mais uma vez, puxei um pouquinho até a borda do biquíni, um biquíni raso que só... Vem, vem um pouquinho mais pra baixo, adivinha o que desejo, lógico que apenas pensei.

“Vamos dar um mergulho?”

Aceitei. Corri diante dele, entramos na água. No momento em que mergulhei, o contato do mar frio com o meu corpo quente provocou uma sensação tão gostosa, que não consigo transformá-la em palavras. Acho que o nome mais próximo seria êxtase. O fato de ter alguém ao meu lado e de estar na expectativa do que estaria por vir durante as próximas horas também me fizeram sentir todo aquele arrepio. Procurei um espaço em meio a tanta gente, queria eu e ele, a sós, mas era impossível. Fomos mais um pouco, depois da maioria dos banhistas.

Lembrança da Kelly, dela e do namorado. Experiência viva do primeiro encontro. Ela disse que também atingiu uma espécie de êxtase dentro d'água, mas nomeou-o de orgasmo. O que ele fez? Adivinha. Tocou o biquíni dela. Brincou com os lacinhos. Onde a calcinha foi parar? Nas mãos dele! A Kelly diz que adorou. Jamais sentiu algo igual. E meu namorado? Peguei suas mãos, levei-as ao meu biquíni. Só faltou fazer que segurasse o elástico, aí já era dar mole demais. Ele não entendeu.

De repente, falou:

“Fico com o seu número, vamos amanhã ou depois, à noite, a um lugar reservado.”

Olhem só, quer me levar a um lugar reservado. E eu doidinha pra ficar nua ali mesmo... Oh, é um problema namorar homens muito mais velhos. Mas vou dar-lhe uma chance, pensei, leve meu telefone!

sábado, fevereiro 19, 2011

Chame ali a garota do biquíni

Houve um verão em que uns amigos alugaram uma casa na praia. Fui com eles. Quase não choveu naquele período, e eu andava dia e noite vestida com um biquíni estampado e uma camiseta curta. Era conhecida como a garota do biquíni. Muitos não sabiam meu nome, mas diziam, "chame ali a garota do biquíni". Eu acordava tarde, depois de meio dia, vestia o biquíni, procurava a camiseta e saía. Caso houvesse alguma festa à noite, alguma banda, ou mesmo uma musiquinha ao vivo, o que acontecia quase sempre, nem ia em casa. Bebia com os amigos e amigas, conversava e, vez ou outra, acendia um baseado. Foi uma época boa não só para toda a juventude, mas para os mais velhos também. Os coroas aprenderam com a gente a gostar do cheiro e do sabor de uma boa erva.

Certa vez, Alicinha, uma amiga eventual, veio me dizer que havia um homem apaixonado por mim, a moça do biquíni estampado, até o desconhecido assim me nomeava.

"Quem é ele?"

"Você vai adorar", falou, "é gentil, gosta das mesmas coisas que a gente."

O homem ainda vinha longe quando me apontou.

"Já sei quem é, nem me apresente", e corri dali, fui pra outra praia.

O homem, além de ser um caipira, não tinha um dente. A praia era frequentada por outros rapazes, gente queimada de sol, bonita, preferia esperar.

"Mas ele quer ficar com você, e quer que você fique só com ele. Pense bem, Jana, ele tem dinheiro", Alicinha me falou mais tarde.

Eu vivia beijando e abraçando a todos, não queria aquele homem, ele não era do meu agrado e, além disso, eu não precisava de dinheiro.

No dia seguinte, Alicinha veio de novo:

"Jana, você me faz um favor?"

"Se eu puder", respondi acendendo um cigarro e olhando o horizonte. O mar era um lago.

"Sabe o homem que está a fim de você?"

"Que homem? Não vejo homem algum", soltei a fumaça e olhei em volta.

"Não, não é isso, Jana, é aquele de quem te falei ontem."

"Ah, por favor, Alice, não me estrague o dia, mal começou..."

"Não quero estragar..."

"E então?"

"Estou querendo namorar com ele."

"E o que você está esperando?", sorri para ela, aliviada.

"Mas ele gosta mesmo é de você, fala pra todo mundo, falou até para o Cacá."

O Cacá era um primo meu distante.

Não dei motivo para que o assunto continuasse.

"Mas pensei em algo", falou me pedindo um trago do cigarro. "Ele nunca se aproximou de você, nós duas somos parecidas, que tal você me emprestar o biquíni e a camiseta, talvez assim eu consiga, me entende?"

"Lógico que empresto, como podemos fazer?" Queria me ver livre do assunto e do homem.

"Ele está bebendo no Sansiro, ali depois da enseada."

"Onde tiro a roupa?", perguntei apressada.

"Na barraca do Álvaro, você fica me esperando."

"Ficar esperando?"

"Isso."

Foi a única vez que tirei o biquíni. Ela se foi, fazendo de conta que era eu.

"O que você está fazendo aí nua?" Marta me encontrou.

"Emprestei o biquíni pra Alice, tem um cara a fim de mim e ela foi no meu lugar."

Marta caiu na gargalhada. "E você vai ficar nua a tarde inteira, dentro dessa barraca?"

"É, não sei, como devo fazer?"

Voltou com um biquíni vermelho, bem legal.

"Vista, pode ficar, agora você é outra pessoa..."

Vesti. E fui dar um mergulho. A partir daquele momento passei a ser a garota do biquíni vermelho.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Disfarce

Vou ao encontro do meu admirador selvagem, homem rude, mãos ásperas, porém muito sedutor. Ele trabalha num haras onde a vida ao natural é bem convidativa.
Preciso de um disfarce. Lanço mão de uma peruca, uma roupa inédita e óculos.
Ele vai ficar muito surpreso. Jamais imagina que uma pessoa como eu, com a vida tão cronometrada, possa se dar ao luxo de viver uma aventura.

Entro no ônibus como se fosse visitar meus parentes em Macaé. Todos os apetrechos provocantes vão dentro de uma sacola.

Desço próximo ao haras. Tudo é muito deserto e a tarde se finda. Coloco a peruca e os óculos. Subo a ladeira que chega ao curral. Avisto Elias. Ele está levando uma égua até a baia. Ainda não me viu.

Aproveito e dispo o forro do vestido, deixando transparecer o meu corpo através de um tecido rendado. Minha calcinha é cheia de detalhes, fácil para o desnude total. Meus seios serão vistos assim que eu chegar, provocando sensações.

"Quer falar com alguém?"

"Com você mesmo."

"Nossa! Nunca pensei que o meu dia chegaria.”

Largou o que estava fazendo, abaixou, pegou uma mangueira, lavou o rosto e as mãos. Me chamou para o depósito de rações. Elias arrumou uma cama com os sacos, me segurou com seus braços fortes e me beijou intensamente. Tirou toda a minha roupa e abocanhou meus mamilos. Vesti seu pênis, que já estava armado como uma rocha, com uma camisinha. Ele então me acarinhou e fez que o prazer tomasse conta de todo o meu corpo.

"Você é muito gostosa, e com esse disfarce ficou ainda mais apetitosa.”

Gozei feito uma égua. Ele urrou de tanto prazer.

Me vesti do jeito que havia saído de casa e abandonei o local. Eram quase oito da noite.
Prometi voltar outras vezes. Afinal, fome e sede não sentimos só uma vez.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Não se pode é perder o rebolado

Essas meninas são inexperientes, não sabem o que é o carnaval, em meio à música alta e ao êxtase coletivo deixam-se despir pelas mãos dos rapazes e já vão mortas de vergonha.

"Marg, como você faz?"

"Sou de outros carnavais."

"Mas você só quer saber de pular..."

"É isso o carnaval."

"Noutros tempos você não ia nua?"

"Ia e ainda vou, mas não como vocês."

"Como nós..."

"Envergonhadas."

"Você acha que estou envergonhada?"

"Um tanto vermelhinha."

"Confesso que tenho medo, depois que o baile acabar, o que vai ser..."

"Dance, dance muito, se você pensar não vai aproveitar."

"Mas e depois?"

"Depois a gente vê."

"Jura?"

"Sempre se arranja um jeito. Dance, não se pode é perder o rebolado."

Ah, essas meninas chegam nuas, provocantes, depois vêm com histórias. Houve uma que de tanto segurar as tiras laterais com medo-desejo de ficar sem acabou com a calcinha dividida em dois. Oh, onde meu pareô, ela quis saber. Ia nu o pareô, no encosto de uma cadeira, procurava-se pelo corpo que escapara.

Tão inocentes essas meninas, ainda não acreditam que moça e mulher bonita sempre atraem alguém para vir em seu socorro.

Mas hoje não me deixo nua, não, vou mais recatada, quero só me divertir, e é tão bonito o biquíni pequenino...

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Caldas Novas

Seu olhar era penetrante, não permitia disfarce para quem escolhia como alvo. Já pela segunda vez havia virado o rosto em minha direção. Eu, em máscaras desastradas, não consegui evitar que nossos olhares se cruzassem.

Estava hospedada havia dois dias no Roma, em Caldas Novas, quando reparei aquele homem mais novo do que eu. Não sou jovem, mas ainda mantenho a elegância e um porte físico sensual, sobretudo devido à minha altura e ao biquíni mínimo que sempre teimo em usar. No parque aquático, porém, moças jovens chamavam mais a atenção. Por que ele queria justamente a mim? Outro problema: estava acompanhada, viajara com meu marido, minha filha, o genro e uma neta. Um verdadeiro cortejo. E aquele homem, que eu não sabia se estava sozinho, a me procurar, ao menos com a presença, a sorrir, a fazer alguns movimentos significativos com o rosto. Pensei em dizer que parasse com aquilo, até achei que poderia ser alguém doente a me perseguir. Mas depois me acalmei, tive ideias melhores, reparei que pelo que ele comia e bebia, pelas músicas que apreciava durante o dia ou mesmo no início da noite, pelas pessoas com quem se relacionava, que se tratava de uma pessoa normal.

Meu marido sempre foi uma pessoa agradável, mas nosso casamento tornou-se burocrático. Toda mulher tenta manter a relação, tenta remediar os problemas, procura encontrar motivos para alegria, apesar de todos os desgastes consequentes de um casamento longo. Os homens, de modo geral, sempre acham suas ações as coisas mais normais do mundo, acham que a mulher sempre está pronta para compreendê-los, a amá-los. Assim é João, meu marido. Diz que me ama, me chama para passeios e viagens. Nesse aspecto é ótimo, um marido excelente, dirá a maioria das mulheres. Mas é um fingido de primeira. Pensa que me engana.

A estada em Caldas duraria uma semana. Sete dias de banhos naquelas águas quentes, passeios pelo rio Quente, algumas idas à noite ao centro, restaurantes, cerveja, vinho e caipirinha. Mas logo no segundo dia aquele novo personagem apareceu e não demorou a me acenar. Acabei por encontrar um bilhete seu entre meus pertences: "mulher bonita e elegante", apenas essas palavras. Na piscina, quando eu aparecia, já se espreguiçava no lado oposto. Como eu o descobria? Não sei, acho que começou a existir uma espécie de magnetismo.

Quando eu estava com minha neta, levava-a para a parte rasa. Ela ria e batia palmas em meio a seus brinquedos aquáticos. Inocências da infância. Naquele momento fixava-me apenas nela. Mas ele resolvia passar por perto, e me atraía com uma risadinha. Meu marido? Jogando tênis com o genro. Sempre jogando tênis, o tempo todo.

"As crianças são as pessoas mais fofas do mundo, daria tudo por uma", escutei a voz, vinda de trás, então ele passou, apontando à pequena.

À tarde, minha filha pegou a menina e a levou à recreação. Fiquei só na piscina maior e de águas mais quentes. Ele aventurou-se em meio ao vapor e veio conversar comigo. Apressei em dizer que estava acompanhada. Respondeu-me que já havia jogado uma partida de tênis com o meu marido e que até fizera amizade com ele.

"Bom jogador, o seu marido, não sei como não se profissionalizou, muito bom jogador."

Tive de rir daquela conversa.

"E, você, joga também?"

"Jogar, jogar, não sei, me esforço, mas não consegui vencê-lo, nem o enfrentarei de novo, não sou adversário para ele. Ninguém no hotel ainda conseguiu vencê-lo."

"Acho que nem vão conseguir, joga tênis o tempo todo, chega a ser um aborrecimento."

Pronto. Não sei se entendeu aquilo como uma senha, ou como um desabafo. Lembrei de um amigo que me falava que quando uma mulher reclama do marido é porque está facilitando as coisas.

"Não se aflija, por outro lado é bom que ele seja um jogador talentoso, e que sempre pratique bastante."

"Ele é talentoso", repeti, "ele é muito talentoso", mergulhei deixando-o para trás e apareci do outro lado da piscina. Não mais o vi naquele fim de tarde.

No dia seguinte apareceu de novo. Meu marido continuava no seu périplo, como disputasse algum torneio internacional.

"Bom dia!", falou alto, parecia entusiasmado. Foi logo perguntando: "vão ficar no hotel até quando?"

"Bom dia", respondi educada, "acho que mais dois ou três dias."

"Parto amanhã", falou eliminando o sorriso, "não posso continuar, o trabalho me espera."

"Que pena", falei. Depois achei que cometi uma gafe, ou, sei lá, um ato falho. Minhas palavras foram suficientes para que ele voltasse a ter a face iluminada pelo sorriso de sempre.

"O que se pode aproveitar em tão pouco tempo? Vou dar mais alguns mergulhos e à noite passear pela cidade. Vou tomar umas caipirinhas."

"Caipirinhas?"

"Isso, você também gosta, já vi você bebendo duas", sorriu mais uma vez, apontando o bar que ficava à beira d'água.

"Ah, sou fraca em relação ao álcool, só bebo nas férias."

"É mesmo?" Pediu licença porque teria de se ausentar por alguns minutos. Mas falou para que eu não fosse embora, voltaria em instantes.

Apareceu em menos de dez minutos. Trazia duas caipirinhas. Uma era de lima da pérsia, meu sabor predileto.

"Obrigada, vou aceitar para não fazer desfeita", falei.

"Estamos de férias, não se preocupe, e creio que seu marido não vai se aborrecer caso você tenha arranjado um amigo."

"Lógico que não", respondi, "tenho muitos amigos", disfarcei enquanto sorvia o primeiro gole.

Naquela última manhã de sua hospedagem ficamos conversando durante muito tempo. Bebi aquela e mais outra, acabou vencendo minha rigidez e conversamos com franqueza. Ele disse que já tinha se separado duas vezes e que vivia sozinho nos últimos tempos.

"Sou operador na bolsa de São Paulo", falou.

Sempre achei que quem exercia essa profissão eram as pessoas mais chatas do mundo. Mas ele desmentiu meu preconceito. Era um homem culto, entendia de muita coisa, e até de poesia.

"Como é possível um operador de bolsa de valores entender de poesia?", cheguei a levantar a questão.

Ele sorriu e falou:

"Na vida se aprende de tudo, até poesia", e caiu na gargalhada. Continuou: "e é uma das melhores coisas da vida, acredite."

Não fomos além daquele dia, nem daquela conversa. Pediu meu e-mail.

"E-mail?, nem entendo de computador. Sou dona de casa, não cuido de computadores. Mas vou lhe dar meu endereço."

Agora voltamos à nossa vida de sempre. As férias acabaram, tudo voltou ao normal. Ao normal? Não sei o que vai acontecer daqui em diante. Com meu endereço nas mãos, não perdeu tempo. Logo entrou em contato. Na carta resposta, dei o número do telefone daqui de casa. Ele ligou, disse que viria para uma visita, pediu que avisasse ao meu marido. Marcamos a visita. Ele vem amanhã, vem para o jantar. Meu marido? Sabe que ele vem, mas descobriu que logo amanhã joga uma partida de tênis inadiável, no clube do qual somos sócios.

"Fique conversando com seu amigo, peça desculpas em meu nome, acho que não vai se incomodar", falou..

domingo, fevereiro 06, 2011

E não é que o homem é tão gostosinho...

Tenho um amigo que adora me provocar. Sabe que escrevi alguns contos para o site da Margarida, então fica me pedindo que eu escreva mais, porque, ainda segundo ele, minhas histórias são muito excitantes. Quando soube que eu viria a Rio das Ostras nas férias, logo me escreveu: faça de novo aquela experiência de entrar na água do mar e ficar nua; na outra vez você deixou a parte inferior do biquíni nas mãos de seu namorado, agora enrole-a no pulso como se fosse uma pulseira, ou peça a um estranho para segurá-la.

Este meu amigo tem imaginação, até mesmo mais do que eu, veja só o que ele quer, eu pelada e meu biquíni nas mãos de um estranho! Será que faço sua vontade?

Entrei no mar. Ainda é cedinho, poucas as pessoas. Adoro acordar cedo, sinto intensa paixão pelo ar virgem da manhã. Dentro d’água então nem se fala. Quase ninguém caminha pela orla. Ao longe, um barco volta da pescaria. As casas, no lado contrário ao mar, parecem dormir.

Ainda bem que onde moro ninguém se mete na minha vida, nem minha mãe, sabe que gosto de acordar cedo, não faz perguntas. Ela dorme muito, vai até às nove e meia, se deixar às dez.

A água está tão fria! Acho que não tem graça tirar o biquíni nessa situação, mais valeria depois das onze, quando a praia está cheia de gente. Mas vamos fazer parte da vontade de meu amigo, quero depois lhe enviar a história, muito bem contadinha. Tiro a parte de baixo do biquíni.

Para quem gosta de ficar nua, asseguro, dentro d’água ninguém nota, mesmo a praia estando cheia. Uma senhora de mais de cinquenta anos foi quem me deu a dica. De início, duvidei. Mas depois constatei que era verdade. Me disse que sempre tirava o biquíni e sentia uma sensação incrível. Quando perguntei se ninguém nunca notara, apressou-se em responder: “não!”

Faço o mesmo. Transformo o meu biquíni numa pulseira, bem amarradinha, os lacinhos tão bem arrumados que nem parecem que aquele paninho era a calcinha. Fico a mergulhar para lá e para cá com a pulseirinha num dos braços. Do jeito que a praia está deserta, posso correr até a areia, deixar a pulseira por lá e voltar para dentro d’água que ninguém vai perceber. Será que tenho coragem? Acho que já estou querendo ir longe de mais... Melhor deixar essa travessura para amanhã!

Aproxima-se um homem, ele olha para mim. Acho que não vai ser tão cara de pau de vir até aqui para conversar comigo. É um senhor, e eu o conheço. Ah, esses senhores, adoram garotas novas, tanto mais uma garota travessa, e ele bem sabe da minha fama. Já me viu algumas vezes de biquininho. Adorou, babou. Viu que estou sozinha. Vem até a beira da água, sorri. Estou a uns trinta metros dele. Não resiste, se dirige a mim como quem não quer nada:

“A água está muito fria?”

O que vou responder? Se digo não, que está quentinha, é capaz de mergulhar e vir até aqui, dei conversa, vai querer puxar assunto; caso diga sim, é capaz de afirmar: sou macho, gosto de água fria. Minha demora faz que ele mesmo tome a decisão:

“Vou eu mesmo experimentar.” Mergulha.

O que faço? Desamarro a pulseira e a transformo de novo no biquíni? Mas são tantos os lacinhos, acho que vou me embaralhar, e ele ainda me pega com a mão na massa.

Está demorando a aparecer. Ai, que susto, veio à tona quase ao meu lado. Será que me descobriu pelada? Pelo jeito, acho que não. Nada falou, e o mar está tão escuro, ainda o sol fraquinho. Mergulho eu, mas com cuidado, o bumbum não pode vir à tona, caso isso aconteça incendeio o homem. Tento me afastar. Mas ele se chega, juntinho. Será que minha amiga cinquentona não tem razão? Quero continuar a brincadeira. Faço a pergunta fatal:

“Como vai dona Mara?” Sei que é a mulher dele, me convidou para fazer um lanche um dia desses.

“Ah, a Mara”, emenda sem graça, “já deve estar vindo aí, adora a praia de manhã bem cedo.”

Sinto que estraguei o seu humor. O bom velho se afasta sacudindo a cabeça e deixando escorrer água pelo rosto. Continuo nua sem que ele note. Sinto pena dele por causa da situação embaraçosa que criei. Quero recuperá-lo, dar-lhe outra chance. Chamo o homem de volta, ele nem é feio.

“Faz um favor pra mim?”

“Faço”, responde reanimado.

“Segure um instantinho isso?”

“O que é?”, quer saber.

“Essa pergunta é proibida, trata-se de um segredo, só entre nós dois, tá? Nem dona Mara pode saber, é uma coisa que não morde”, instigo.

Ele aceita. Entrego, então, em suas mãos, minha pulseirinha!

Dona Mara é que vai gostar do seu bom velhinho, depois de vinte minutos fiz ele ficar vinte anos mais jovem. E não é que o homem é tão gostosinho...

Meu amigo, que me pediu essa historieta, vai me perguntar se ela é verdadeira ou se é imaginação minha. Não digo sim. Mas também não digo não.

Sei que o velhinho já se foi. E eu, aqui. Peladinha.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Livre para voar

Hospedada aqui neste hotel paradisíaco, só me vem à mente conhecer alguém que atenda às minhas fantasias sexuais.

Vejo um homem de aparência tranquila sentado sozinho no canto do restaurante. Olha para mim com olhos de cachorro sem dono, me faz um sinal, talvez por ter notado a ausência de uma companhia masculina ao meu lado, ou de uma aliança num dos dedos de minha mão esquerda.

Sento à mesa sempre acompanhada de uma menina de dez anos e um casal.

Finjo ir ao toalete e desapareço. Noto que o homem faz o mesmo. A sobremesa deste almoço será, com certeza, mais interessante do que a dos três.

Ando sob o sol forte. Quando paro à sombra de uma árvore e olho para cima, imagina quem vejo? Um gato trepado no galho mais alto chamando-me para subir, para não dizer trepar.

Aceito o desafio.

"Estou de vestido" (na verdade é uma saidinha de praia).

"Não tem problema."

Escalando o tronco, chego perto dele.

"Quem é você, deusa dos ares?"

"Sou Ágata, e vim a este lugar para descansar dos problemas comuns do dia-a-dia. E você, como se chama?"

"Meu nome é Caio. Gostei de você quando a vi no restaurante. Também venho tentando esquecer algo, e este é um ótimo lugar para isso. Vamos falar de coisas interessantes?"

"O que você sugere?"

"O que você mais gosta de fazer?"

"Esta pergunta é um pouco excitante para nós que estamos nos conhecendo agora", respondo.

“Você gosta muito de fazer sexo?"

"Gosto muito."

“Vejo através do seu tecido semitransparente um corpo escultural e prazeroso."

"Só de você falar assim meus hormônios começam a se agitar. Estou bastante tempo sem, não encontro ninguém com quem valha à pena arriscar."

"Nossa, a sua história se parece muito com a minha. Acho que se você topar, vou gozar antes de lhe penetrar."

“Topo. Coloque a camisinha para você perceber o quanto sou quente. A portinha da minha vagina é estreita."

Caio deixa escapar o pênis pela abertura da bermuda e veste-o com a camisinha.

Me livro do biquíni já molhadinho, ali mesmo. Ele cai como um pára-quedas no galho de baixo. Nos deliciamos com o encontro de nossos sexos.

"Nunca experimentei um enrosca-enrosca em cima de uma árvore", digo.

"Para mim também é inédito."

"Vamos concluir esta transa em outro lugar?"

Descemos e vamos atrás de outro lugar ainda não experimentado por nós. O biquíni? Esqueço-o. Sou toda prazer, penso apenas no sexo do meu recente namorado.

sábado, janeiro 29, 2011

Passeio no bosque

Minha amiga de Glicério enviou mais uma história excitante, ela viajou nas férias para um hotel fazenda, e registrou tudinho em seu diário...

Que linda manhã!

Ontem até chegar aqui foi estressante. Engarrafamentos, acidentes na estrada e pedágios fizeram parte deste meu trajeto.

Estou com o meu diário em mãos, para não deixar escapar sequer uma vivência neste paraíso.

Minha filha, neta e genro ficaram dormindo.

Saio pelos arredores do hotel. Passo por inúmeros hóspedes. Todos com a aparência transbordando felicidade. Lógico, aqui se hospedam pessoas que não fazem parte da massa que sobrevive do mísero salário mínimo do governo.

Descubro que ao redor do hotel há um parque. Caminho sem destino, percorro trilhas entre árvores, troncos, pontes e bancos. Tento descrever a beleza do lugar.

Quando eu voltar das férias, terei o que contar aos meus colegas, direi o quanto pude relaxar.

As frutas geralmente nos causam sensualidade, e o aroma matinal me proporciona um intenso arrepio.

O imprevisível acontece. Avisto a peça inferior de um biquíni, pendurada num dos galhos de uma mangueira. Paro, olho para os lados. Todos que ali passeiam estão distantes e jamais irão perceber que observo aquela parte íntima tão peculiar às mulheres.

Não é comum estar ali. A pessoa que a desprezou está sem, em algum lugar, fazendo algo muito estimulante. Só de imaginar morro de tesão.

Não hesito. Pego a pequena peça e a coloco como marcador do meu diário.

Nem sei o porquê de agir assim. Possuo uma coleção de calcinhas de biquínis, mas aquela será especial, fruto do pecado de alguém que talvez poderá ser o meu. O forte do ser humano é experimentar sensações.

Chegando ao hotel darei um jeito de desinfetar esta preciosidade. Se alguém perceber me chamará de louca, porém estarei louca é por uma trepada.

No hotel encontro o pessoal já acordado. Me viram passar em frente ao salão de chá. Fui direto para o quarto que divido com minha neta. A aventura seria mais interessante se a menina não chegasse.

"Vó, vamos passear no bosque?"

Enfurnei o objeto e saímos.

Quando caminho de novo entre as árvores, é impossível retomar a aventura. Fica apenas o registro no meu diário.

domingo, janeiro 23, 2011

Aniversário

Hoje meu blog completa cinco anos de existência. Agradeço a todos vocês, leitoras e leitores. Que possamos estar sempre juntos, e que vocês continuem apreciando minhas histórias. Um grande beijo,
Margarida

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Beliscadela

Estou pelada, daqui a pouco vai chegar alguém, portanto tenho pouco tempo para lhe contar. É sobre a foto que você quer saber, não? Tirei há duas semanas. Pedi a um amigo. Fiquei ótima, sei disso. Estou nua na foto, mas não ficou vulgar. Você disse que estou com cara de pimenta, de mulher que não tem vergonha de dizer sobre o próprio desejo. Você falou mais uma coisa, uso suas próprias palavras: uma mulher que não tem medo de gozar. Essa expressão já está ultrapassada. Acho que faz tempo que as mulheres querem gozar, e não é só no final, mas durante todo o tempo. Você comparou a foto com uma que você tem, tirada há oito anos. Diz você: nesta você está com cara de envergonhada. Não sei, não. Eu? Com cara de pejo? Acho difícil. Mas como você parece entender das coisas, vá lá. Naquela época eu saía menos que hoje. Achava ruim sair sozinha. Essas coisas que algumas mulheres pensam, sempre precisam chamar uma amiga, ou estar em grupo porque caso isso não aconteça ficam em casa vendo televisão. Veja, ver televisão... Se ainda fosse lendo um livro. Isso, porém, já é outra história. Voltando ao assunto. Comecei a sair só. Passei a conhecer uma porção de pessoas. Homens e mulheres. Me convidavam para ir a muitas festas, a peças de teatro, a outros espetáculos e a tudo mais. Comecei a encontrar muita gente. Mas evitava sair em grupo para não criar compromisso de estar sempre com aquelas pessoas. Num determinado dia conheci um cara. Não vou dizer que não transei com ele. Transei e foi muito bom. Não pela própria relação em si, mas pelo que me sugeriu. Sempre fui uma mulher altiva, desinibida, você sabe que já andei até nua pela cidade, de noite. Na cama, no entanto... Isso mesmo, no entanto... eu era um tantinho envergonhada, digamos assim. Esperava pelos homens, achava sempre que a iniciativa tinha de ser deles. Por isso, talvez, na foto antiga eu, nua, esteja sugerindo um certo ar de envergonhada. Até então. Porque o tal homem me ensinou umas coisas. Disse que as mulheres têm músculos que precisam ser dominados, que se eu conseguisse o domínio de um certo músculo, se o movimentasse adequadamente, iria enlouquecer todos os homens dali em diante. Não preciso dizer mais sobre isso, não é mesmo? Você já deve estar imaginando do que se trata. Ele sussurrou no meu ouvido, no momento do amor: "agora, tente, é como um pequeno beliscão, mas não é com os dedos, vai, mexa, pense primeiro, você vai conseguir, e nem é preciso muito esforço." Daquele momento em diante, aconteceu. Ouvi da parte dele: "isso, assim mesmo, viu?, aprendeu rápido", e me beijou terrivelmente. Não fiquei com ele por muito tempo. Continuei com as minhas saídas, e quando me sentia atraída por algum homem você já sabe o que acontecia. Dali em diante, coloquei em prática aquela beliscadela. Os homens enlouqueciam. Todos eles. Sem exceção. Por isso acho que agora saio com essa cara no retrato, cara de pimenta. Era isso que eu queria falar a você sobre a foto. Agora tenho que correr ao banheiro para me vestir porque alguém está chegando. Aqui na pousada há também uma porção de gente hospedada. Se eu não correr me pegam pelada. Um beijo, tchau, depois falo com você de novo.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Quer saber mesmo?

Você sabe, existe gente para tudo. Depois que ele me deu aquele beijo e, sobretudo, depois do que me falou – acho que um poema – senti uma terrível vontade de estar nua nas mãos dele. Lembrei, então, o que a Kelly me contou algum tempo atrás: não resistiu e pediu ao homem que recém conhecera que a deixasse inteiramente nua, que a fizesse se sentir muito assustada e, enfim, que a acariciasse intensamente.

Minha amiga me olhou um pouco desconfiada, mas nada falou. Continuei.

Nunca teve essa sensação, Alice? Acho que toda mulher ao menos uma vez na vida já passou por isso. Você vem caminhando num sábado, ainda é de manhã, bem cedo, vem o homem dos seus sonhos na sua direção, é lógico que até ali você ainda nada sabe sobre isso. Você continua pelo mesmo caminho, no canto esquerdo da calçada, apenas ele e você àquela hora da manhã, mas ele não desvia, vem pelo mesmo lado em que você está, como se fosse lhe dar um grande esbarrão. Ora, sou mulher, o homem é que deve desviar. Mas ele não dá o menor sinal de que vai sair da frente. Então, quando tudo leva a crer que vai haver um choque entre vocês dois, ele lhe dá um beijo. Tive de rir. Isso mesmo, acabei rindo. E também, confesso, arrepiada. O homem me deixou com desejo de sexo às sete e meia da manhã, Alice, e era primeiro de janeiro.

Ela sorveu mais um gole de café, senti que desejava saber a continuidade da história.

Parei e olhei para ele. Isso mesmo. Parei e olhei de modo desafiador. Sabe quando uma mulher enfrenta um homem, olha com tremenda raiva, como se ele tivesse cometido um grande mal? Tudo fingimento, é claro. Mas foi assim que o olhei. Pensei que iria virar de frente e continuar o seu caminho. Eu demonstrava intensa indignação. Mas ele não se foi. Chegou bem perto. Não temeu que eu o agredisse. Sussurrou quase juntinho do meu ouvido: eu te amo. Suas palavras me pegaram de surpresa, me desconcertaram. Já pensou o que é um desconhecido chegar perto de você e dizer que te ama, e isso do modo mais caloroso do mundo? Muda tudo. Sério. Suas palavras mudaram o curso das coisas. Como pode um homem se declarar assim, de primeira, a uma mulher? Sei que existem vários tipos de cantadas, e que certamente aquela seria uma delas. Mas suas palavras soaram como jamais a de nenhum outro homem. O que aconteceu pode ser explicado da seguinte maneira: me senti como se ele tivesse me deixado nua sem que eu esperasse. Ainda rindo, perguntei: o que você quer de mim? Ele me respondeu, mas não o que eu esperava, disse apenas: acho que nos encontramos, e já te espero há tanto tempo. Ri de novo. Me espera há tanto tempo? Como assim? Não sei explicar, falou, mas tínhamos de ser um do outro, tínhamos de nos conhecer hoje. Naquele momento entendi o que é o amor. Mesmo que tivesse virado as costas e caminhado para longe dali, minha vida já não seria a mesma. O que fazemos, então?, perguntei. Não sei, acho que não precisamos fazer mais nada, falou.
A curiosidade mata, Alice. Já ouviu o ditado? Mata, sim. Pura verdade. Quer saber mesmo? Fiquei nua. Isso mesmo, inteiramente nua. Na mesma hora. Qual poderia ter sido minha atitude, senão essa, e logo no ano novo?

Elevador das ilusões

Há um tempo tinha medo de andar de elevador, mesmo para ir ao vigésimo andar preferia subir as escadarias. Parecia estar pagando promessa.

Quando tinha acabado de perder o medo, aceitei o desafio de ir ao último andar do prédio em que meu namorado mora. Hoje ex, porém amigo e confidente.

Ir ao último andar me pareceu fácil, mas ir lá excitada e preocupada se vou ser vista nua por algum morador é loucura.

Na primeira vez tive a ilusão de que nenhum morador iria me ver. Apenas meu parceiro já tinha me visto.

No embalo do prazer, saí. Sandália alta, bolsa no ombro e mais nenhum acessório. Poderia ter colocado uma daquelas perucas e óculos fantasia, mas não me veio à mente. Estava ansiosa para cumprir o combinado e voltar para a culminância final, gozar loucamente.

"Meu amor, vai que eu te espero."

Ele fechou a porta do apartamento. Senti um calafrio de abandono. Apertei o botão chamando o elevador. Entrei e determinei onde queria chegar.

Quem mora no último andar é o síndico do prédio, homem sério, que talvez não se ligue nessas fantasias sexuais. Imaginem este homem circulando pelo prédio e vendo uma mulher que ele conhecia ou até mesmo julgava ser uma pessoa de respeito andando nua de madrugada, namorada de um mestre quase doutor em literatura brasileira? Ia ter um daqueles chiliques, chamar a polícia ou jogar água gelada para que ela acordasse do delírio.

Mas, desta vez, tudo deu certo. Pelo menos é o que parece. Será que o síndico até hoje não se delicia com a gravação da câmera de segurança do prédio e goza escondido da esposa?

O meu corpo é naturalmente escultural. Provoca prazer. O da esposa dele já não lhe causa mais tanto tesão. A cara do síndico e seu jeito demonstram que ele precisa tocar punheta em frente a uma revista Playboy, porque a mulher já deu o que tinha que dar.