sexta-feira, setembro 21, 2012

E o meu corpo a crescer, e o biquíni a se estreitar

Estou no parque tomando sol; o dia, lindo, de repente vejo um dos meus pacientes. É preciso dizer que sou dentista e que nas horas vagas adoro ir ao Olhos D’Água. Esse é o paciente de quem mais gosto. As pessoas não imaginam quantas vezes médicos, dentistas e outros profissionais de saúde se apegam a quem lhes procura. Acho que estou apaixonada por ele. A primeira vez que chegou a meu consultório foi para uma breve consulta. Logo que o vi, pensei, faz tanto tempo não vejo homem tão atraente. Sou mais velha do que ele, seis anos. Nessas consultas acabamos por conversar assuntos que não deveríamos. Mas meu paciente me aparece no parque, de bermuda, camiseta e tênis. Depois segue em caminhada, acho que não me viu. Continuo deitada sobre uma toalha, na grama, na parte em que as pessoas param para tomar sol. Segredinho: estou de biquíni. Sou magra, pequena, mas tenho meu charme, sei que os homens adoram me apreciar. Mas esse meu paciente... Já encostei nele, toques sutis, demonstrações espontânea de afeto. Há quem diga que a relação sexual começa nesses ligeiros movimentos. Quero que ele me veja. Será o primeiro encontro fora do consultório. Poderemos conversar à vontade. Tenho uma amiga que diria o seguinte, “Deus me livre, dar de cara com um paciente, e eu de biquíni, morro de vergonha.” Comigo, porém, nada disso, não tenho o que temer. Ele já insinuou em me convidar para um café. Mas na hora agá recuou, pensou que minha profissão me exige muito. Eu, enfim, preciso descansar. Mal sabe ele de que realmente preciso. Perdida nesses pensamentos, eis que ele volta pelo mesmo caminho em que se foi. Preparo o melhor sorriso. Me vê, acena. Será que virá até aqui?

“Oi, doutora, que surpresa, tudo bem?

“Tudo ótimo.” Minha resposta inclui o lado bom do imprevisto. Acho que percebeu.

“Mais parecia que ia chover quando amanheceu.”

“Não, nada de chuva, o sol e outras coisas boas”, digo. “Fique um pouco. Está com pressa?”

“Não, nada de pressa, hoje não tenho o que fazer.”

“Que bom!, um dia e nada para fazer, não pode haver coisa melhor.”

“E você, vai ao consultório hoje?”

“Mais tarde, tenho dois pacientes depois das quatro.”

“Então, ainda há tempo.”

“Oh, há muito tempo.”

Senta-se ao meu lado.

“Importa-se?”

“Não, sua companhia é um prazer.”

Sorri. Acaba por se deitar.

Sem pensar – porque se a gente pensa não faz essas coisas – encosto no braço dele.

“Você está bronzeado, vem aqui todos os dias?”

“Quase todos.”

Aproxima-se mais um pouquinho. Acho que lembrou os meus sorrisos no consultório, nossas conversas... Um dia falamos tão intensamente sobre um filme, que quase chegou a me convidar para o cinema.

“Venha mais, vamos nos encontrar mais vezes, aqui é melhor para conversar”, dele a proposta.

“Venho, sim, mas isso não significa que você vai embora...”

“Não! Quero aproveitar para lhe falar uma coisa.”

“Então?”, arrisco.

“Arranjei uma namorada.”

“Namorada?” Não consigo ocultar a decepção.

“Não se preocupe, ela está exatamente ao meu lado.”

Rimos ambos, um sorriso envolvente, quase um abraço. E o meu corpo a crescer, e o biquíni a se estreitar...

Me respondam, vocês acham que eu ainda vou ao consultório, hoje? 

quinta-feira, setembro 20, 2012

Vou fingir que acredito

Amor, já que acabamos de tomar o café da manhã, você me ajuda numa tarefa?

Diga, querida.

Um amigo me pediu para revisar um texto dele. É algo que lhe aconteceu há mais de vinte anos, escreveu o episódio por esses dias e deseja publicar.

O que você quer que eu faça?

Preciso que leia o texto e dê sua opinião, principalmente sobre o vocabulário. Ele abusa de algumas palavras que eram comuns há duas ou três décadas, como gírias e maneiras de dizer. Quero que você me diga se soam bem ou não. Veja, ele chama o amigo de bicho, a mulher amada de broto. Acho que estas eram gírias usadas pelo Roberto Carlos, não?

Ok, querida, deixa eu dar uma olhada.

Está aqui o conto, nestas folhas. Enquanto isso, fico aqui no sofá lendo o jornal, quero saber sobre os filmes da semana.

Opa, querida, teu amigo é um homem de sorte, encontrou uma mulher nua na praia às quatro e trinta da manhã de uma sexta-feira.

Ele jura de pés juntos que isso é verídico.

Por isso resolveu escrever.

O interessante, amor, é a história da camiseta.

Estou vendo, parece ser bem legal.

Legal, amor?

É, ele foi gentil com ela, você não acha, querida?

Você já chegou na parte que diz o que ele pede em troca?

Deixe-me ver. Ah, sim, cheguei agora. Ele vinha de uma festa, parou na orla, quis dar uma caminhada à beira mar e se deparou com uma mulher inteiramente nua.

Isso.

De início, fica perplexo. É essa a palavra com que você cismou, perplexo?

Mais ou menos, mas há outras.

Continuo, querida. Ele coloca o pensamento dela no texto, mas é ele quem narra a história.

Ele diz que é uma inovação, parece que alguns autores estão escrevendo assim.

Deixa ver se eu entendi. Embora seja um narrador masculino, de primeira pessoa, também aparecem no texto as inquietações da mulher, como: “ao ver que alguém se aproximava senti um calafrio, mas depois me acalmei, quem sabe eu estava com sorte?” Acho que deve ser colocada uma vírgula depois de aproximava, não?

Depende, querido, se ele deseja mostrar que a mulher está preocupada com a situação, ou mesmo nervosa, não precisa de pausa.

Ele pergunta se ela precisa de alguma coisa. É lógico que precisa, a mulher está nua.

Mas essa deixa, amor, é para ela poder se insinuar, assim talvez  o conquiste e consiga o seu objetivo.

Ele pergunta por que ela está nua. Mas a mulher não responde, apenas sorri, como se fosse agruras da vida.

Agruras?

É o que está escrito, querida.

E o que acontece?

Vou adivinhar: eles namoram...

Mais ou menos.

É a maneira que ela encontrou para fisgá-lo.

Isso, querido, ela precisa dele.

Mas não quer trepar sobre as areias da praia, convida o homem para ir a sua casa, mas antes pede a camiseta dele.

Amor, ela não pode sair nua pelas ruas da cidade, não é mesmo?

Se fosse eu o homem, desconfiaria. Encontrar uma mulher nua nestas circunstâncias é esmola demais para que cego não possa enxergar.

Ele não é cego, querido. Que bom, encontrei um filme ótimo aqui no segundo caderno.

Ela desperta no homem intenso tesão. Abraça-o, faz carinho nele, beija-o, mas quer evitar o principal: que ele goze. Teme que depois do sexo o homem desista dela e vá embora. Não tarda a amanhecer e ele é sua única chance.

Como acaba, querido?

Você não disse que leu, Célia?

Li. Mas leio tanta coisa.

Não sei, não, ainda falta, mas acho que ele vai com ela.

Vai sim, amor, agora lembrei, os homens sempre vão com as mulheres. Você diz que resistiria, mas não deixaria a mulher pelada ali, tanto mais se estivesse só, o dia quase raiando, seria um achado.

É, dependendo das circunstâncias...

E então, amor, o texto está bom?

Acho que sim, não vejo nada de errado nas palavras que ele usa, tanto mais que o conto é ambientado nos anos de 1980.

Foram anos bons, éramos mais jovens.

Prefiro você agora, querida, mesmo com mais vinte e poucos anos de idade e vestidinha como está, Deixo a mulher nua para o seu amigo.

Certo, querido, vou fingir que acredito.

quinta-feira, setembro 13, 2012

Nua no automóvel, apenas?

Alguma vez já andaste de carro pelada? Olha, é o maior frisson. Certa vez, um domingo de sol, saí com um cara. Embora ainda longe o verão, ele pediu que eu fosse de biquíni. Atendi. Mas vesti sob a roupa apenas o biquíni mesmo, nada de sutiã. Minha blusa era uma frente única, quase um top. Ele me pegou na porta de casa. Dali, fomos para a Barra. Estacionou um pouco antes do Recreio.

“Você entra na água e me deixa tirar o teu biquíni?”, perguntou.

“Ok.”

Tirei a saia, a blusinha e mergulhei. O rapaz veio imediatamente atrás, me abraçou e puxou minha calcinha. Pensei que ia deixá-la na altura dos joelhos, mas continuou até que me escapasse pelos pés. Em seguida, disse:

“Espera aí que vou guardar lá onde estão as nossas roupas.”

Saiu da água e correu areia acima. Após voltar, ficamos longo tempo agarradinhos, namorando, eu peladinha. A praia, deserta. Mas lembro que passou um homem caminhando pela areia.

O namorado saiu d’água primeiro. Pedi que me trouxesse a toalha. Atendeu. Enrolei-a no corpo, como um vestidinho tomara que caia.

Quando já estávamos no carro, falou: “vamos a um quiosque, que tal comermos e bebermos alguma coisa?”

Depois de dirigir durante alguns minutos, encontramos o quiosque. Ah, esqueci de dizer: ao entrar no carro, ele não me deixou vestir, pegou toda a minha roupa e guardou no bagageiro.

“Pega pelo menos o top, sem ele as pessoas vão reparar que estou nua.”

Demorei a convencê-lo, mas foi buscar a minha blusa.

Sentamos, então, numa das mesas e fizemos nossos pedidos. Ele bebeu cerveja; eu, caipiríssima. Ficamos ali, frente ao mar, durante quase a tarde inteira.

Quando o sol ameaçou se pôr, ele pagou a conta e descemos à areia. O mar estava calmo e distante. Não havia ninguém na praia. Ele me abraçou e me beijou, mas não demorou a me roubar a toalha.

Namoramos durante algum tempo. Como só vestia o top, fiquei excitada demais. O rapaz não custou a perceber, tirou o pênis de dentro da bermuda e começou a introduzi-lo entre as minhas coxas. Logo fiquei molhadinha. Não foi difícil encontrar a posição ideal para que me penetrasse. Ao sentir seu pênis dentro de mim, juntei as pernas, queria-o com toda a intensidade. Depois, ele agachou. Eu o acompanhei.

“Você me deixa gozar na tua boca?”, perguntou.

“Deixo, mas só depois, agora deixa dentro”, sussurrei melosa.

Torcia para que não aparecesse ninguém, pois não teria como me esconder. Além de nua, estava trepando ao ar livre.

Gozamos. Eu, mais de uma vez. Ele, conforme havia pedido.

A seguir, correu até o carro levando a toalha. Com medo de ser vista, sentei na areia. Esperei que ele voltasse. Voltou, mas sem pano algum que me cobrisse. Acabei tendo de caminhar nua até o carro. Entrei e sentei no banco de carona.

“Cadê a toalha?”, perguntei.

“Adivinha.”

“Assim as pessoas vão me ver nua.”

“Joguei a toalha no mato”, falou.

Deu a partida. No início, não tive medo. Mas quando começamos a nos aproximar do perímetro urbano, o número de veículos foi aumentando. Então, comecei a temer que alguém, através dos vidros, me flagrasse sem roupa, principalmente quando parávamos nos sinais.

Percebendo minha aflição, ele falou:

“Cruze as pernas, assim dá pra disfarçar. Caso alguém te veja, vai pensar que você está de biquíni.”

Fiz o que sugeriu, mas acho que não deu muito certo. Atravessamos o túnel Dois Irmãos e chegamos à Gávea. Resolveu dirigir pela orla. Leblon, Ipanema, Copacabana, e eu nua. Mas eu relaxara. Em determinado momento, esqueci que ia nua.

“Acho que vou parar pra você saltar”, falou e sorriu.

“Não brinca”, me arrepiei, “quero ver como vou entrar em casa.”

“Vai entrar peladinha”, sorriu.

“Juras que não me vais deixar vestir?”

Não respondeu, mas continuou com o sorriso nos lábios. De repente, perguntou:

“Você não disse que gosta de homens taradinhos?”

Fiquei em silêncio.

Mas como perguntei lá no começo: já andaste de automóvel pelada? Se não, vai logo, pede a teu namorado, é o maior frisson.

Ah, já sei do teu espanto. Nua no automóvel, apenas?

quinta-feira, setembro 06, 2012

Só queria tornar as coisas mais fáceis para você

Na última quinta, à noite, recém-saída do escritório, caminhava na Av. Paulista em direção a um ponto de ônibus. Vestia um vestido curto, tecido leve, crepe de seda, trazia numa das mãos um agasalho de malha fina. Embora fosse inverno, a temperatura não era baixa. Após atravessar a Augusta, na mesma calçada do Conjunto Nacional, um homem veio em minha direção.

“Senhorita, não deseja passear um pouco, ir a um restaurante, ou mesmo conversar?” Ele era bonito, cinquentão, vestia-se bem.

Tive vontade rir, pois ninguém se dirige a uma mulher dessa maneira nos dias de hoje. Achei que poderia se tratar der uma brincadeira.

“Você está sorrindo, isso significa que gostou das minhas palavras?”

“Não é nada disso. Será que você não percebe que mulher direita não pode aceitar um convite desses?”

“Um convite para conversar, ou para comer algo, o que há de errado nisso?”

“É um preceito básico que mesmo uma menina é capaz de saber, não se deve conversar com estranhos.”

“Mas você está a conversar comigo”, também se pôs a rir.

“Faz tempo que não vejo alguém abordar uma mulher desse modo, por isso o riso, por isso a conversa até agora.”

“Senhorita, não sou qualquer um, sou uma pessoa honesta, tenho trabalho, e até alguma fama.”

“Mas tenho de ir, já não posso continuar, alguém me espera”, menti enquanto chegávamos à guarita do ônibus.

“Uma pessoa do seu nível não deve frequentar transportes coletivos, tanto mais a essa hora.”

Ri mais uma vez.

“Então, como volto para casa?”

“Alguém dotada de tal beleza deve andar de automóvel.” Fez sinal a um táxi, que imediatamente parou. “Por favor, leve esta moça”, apontou para mim e deixou uma nota de cinquenta na mão do motorista.

“Por favor, vou ficar ofendida, dispense o táxi”, pedi.

Ele hesitou, mas acabou deixando o motorista partir, não reparei se pegou o dinheiro de volta.

“Só desejo tornar as coisas mais fáceis para você, falou.”

“Mas quem disse que as coisas são difíceis para mim?”, arrisquei.

“Vejo tantas mulheres bonitas sozinhas, chego a pensar que a solidão é uma grande dificuldade para todas vocês.”

“E você, não vive só? Pela sua conversa, deve ter como amigo apenas o dinheiro”, provoquei.

“O dinheiro? Ah, sim, não deixa de ser um bom amigo.”

“Não é possível comprar todas as mulheres com dinheiro.”

“Claro, nem é isso que desejo em relação à senhorita, apenas acho que a grande chance da vida é ser alguém sempre rodeada de amigos.”

Olhei pela primeira vez seu rosto e pude observar rugas em volta dos olhos. O homem parecia mais velho visto assim tão de perto.

“Quer dizer que você me convida para um drink?”, arrisquei de novo, já envolvida pela necessidade de continuar a conversa.

“Um drink, como se dizia nos velhos tempos”, completou.

A Augusta é uma rua de muitos restaurantes e bares, tem um público jovem, muitos falam alto, bebem cerveja, discutem música, alguns levam instrumentos musicais.

“Essa juventude é adorável”, falou. A seguir apontou um restaurante mexicano. “Conhece este lugar?”

Confessei que jamais o havia observado.

“Vamos experimentar?”

O que eu podia conversar com um estranho às oito e meia da noite, num dia de semana? Éramos duas pessoas sozinhas que subitamente estavam frente a frente, que tentavam algo que não sabiam verbalizar. Talvez ele, melhor do que eu, soubesse de modo mais claro o que desejava naquele momento. Os homens têm muitos ardis para conquistar as mulheres. Ao contrário, uma mulher sempre espera o impossível, para depois constatar que foi burra demais. Não demora, e acredita de novo. Eu acreditei.

“Há pessoas que são muito corpo, você não acha?”, o assunto era perigoso, mas enveredei por ele ao observar mesas com homens e mulheres esbanjando vitalidade, sentido prazer por estarem juntos uns aos outros, se tocavam, falavam alto e transbordavam entusiasmo.

“Corpo?, você tem razão”, falou, enquanto isso o garçom chegou com duas caipirinhas de tequila. “Você já esteve no Rio?”

“Tenho uns amigos lá, sempre me convidam, mas nunca fui”, respondi pesarosa.

“Lá é que eles sabem viver. Quando estive no Rio, mas precisamente na zona sul, reparei que eles se vestem de modo mais simples do que aqui, gostam de ressaltar o corpo; os rapazes musculosos, desses que não largam as academias, andam sem camisa na orla marítima. As mulheres quase não usam sapatos altos”, interrompeu e deu uma ligeira olhada para os meus pés. “Às vezes, no verão, saem da praia sete ou oito da noite e vão para um bar, pode-se ver uma porção de mulheres enroladas em saídas de praia...”

“Cangas”, emendei.

“... isso, é esse o nome; os homens, de sunga, e bebem até dez, onze da noite, é tudo uma grande festa."

“Vamos para lá?”, brinquei.

“Se você me convida, eu aceito, depois não vá fugir, viu?”

"Sempre quis ir ao Rio. Vou contar um segredinho. Sei que não devia dizer isso, mas dois goles de caipirinhas já me tocam fogo. O segredinho: gosto de andar nua,” Pronunciei a última palavra de modo quase inaudível, mas ele riu e completou a frase.

“Todas as mulheres gostam, mesmo que o neguem.”

“O Rio é favorável à nudez!”, soltei uma rápida gargalhada.

Beliscamos alguns petiscos. Ele falou sobre um livro. Depois descobri que era escritor.

“Sua profissão é ótima. Você conhece a natureza humana, pode aplicar esse saber á vida prática”, testei minha ignorância.

“Há um autor que aborda esse tema. Ele diz que o romance é o único local em que se pode observar o ser humano por inteiro. Mas não acredito, dizer isso é uma grande bobagem. Todo personagem de romance é inventado, mesmo que baseado em alguém. Não se pode saber se uma pessoa ‘real’ agiria do jeito que escrevemos. Caso isso fosse verdade, o romancista teria vantagem sobre todas as outras pessoas. Mas não é assim que acontece. Há muito romancista famoso cabeça de bagre.”

“Mas você está em vantagem sobre mim”, arrisquei mais uma vez.

“Em vantagem, como assim?”, perguntou e procurou em volta pelo garçom.

“Veja, você me abordou na rua, veio com uma conversa estranha, conseguiu que eu o ouvisse e acabou me trazendo para este bar. Não se trata de uma grande vantagem?”

“Pode ser, mas acho que há pessoas que não são romancistas e conhecem as mulheres melhor do que eu. Não tenho tanta sorte assim”, virou e pediu outra caipirinha. O garçom me olhou, mas apenas agradeci.

“Você tem muita sorte, sim, sou uma mulher muito especial.”

Riu e completou: “acredito piamente nisso, essa foi à razão de eu ter falado com você naquele ponto de ônibus.”.

“Então, são os olhos de romancista”, atalhei.

“Confesso que vou pensar melhor sobre esse assunto, mas se tenho tal olhar, é inconsciente, jamais falei com alguém pensando no que escrevo, ou tratando as pessoas como se fossem de papel. A natureza humana é muito complicada. Num romance, fazemos simplificações.”

“Como um autor se torna clássico?”

“Clássico? Como assim?”, reiterou.

“Clássico da literatura, muito famoso, quero dizer.”

“Talvez seja devido ao que você falou, talvez seja porque se trata daquele que conseguiu mais aproximar suas personagens da natureza humana. Veja Shakespeare, um dramaturgo que foi mestre na criação de persoangens.”

“Então o romancista consegue ver mais longe do que as outras pessoas...”, emendei.

“Veja bem, ficaram na história os escritores de melhor imaginação.”

“Você deve ser uma pessoa assim”, afirmei.

“Não é possível dizer isso sem ler os meus livros. Você os leu?”

“Não. Mas pela sua conversa, já deduzi que você entende de muita coisa.”

Ficamos durante algum tempo em silêncio. Terminei minha bebida, mas não dei sinal de que desejava outra, temia pelo que viesse pela frente. Tenho uma amiga que diz: 'caipirinha é bom porque logo sobe pelas pernas'. Acho que pelas minhas já tinha subido havia muito tempo. Meu interlocutor puxou novo assunto.

“Onde você mora?”

“No Itaim,”

Belo bairro, eu moro descendo a Brigadeiro, dá até para ir a pé.

“É lá que você escreve seus livros?”

“Às vezes, sim, às vezes não.”

“Os escritores precisam de modelos, assim como os pintores?”, aventurei-me.

“Claro que precisam, mas não da mesma forma. Os escritores devem observar uma pessoa e dali para frente criar. Mas há uma coisa, a maioria das pessoas vive de modo medíocre, não serve para serem personagens de literatura, para isso é preciso alguém de fibra.”

“Acho que vou beber mais uma”, falei ainda duvidosa. Mas ele logo chamou o garçom.

“A moça quer mais uma, por favor.”

“Será que saio daqui com as próprias pernas?”

“Claro, o que é gostoso deve ser saboreado; e se não sair, levo você em casa.”

O garçom voltou com outra tequila, de lima da pérsia. Como eu já estava meio altinha, pude sentir o paladar em todos os seus matizes. Pude também olhar o ambiente e as pessoas com mais detalhes, ouvir pronúncias, perceber com mais vivacidade os traços em seus rostos, também olhei o meu interlocutor e reparei que ele estava mais velho.

“Você tem esposa?”, tentava manter a seriedade.

“Já tive, faz tempo que vivo só.”

“E você gosta de viver só?”

“De certa forma não, mas um escritor nunca está totalmente só, acho que ele sempre está rodeado de gente, tanto quando lê, tanto quando escreve.”

“Mas não é gente de verdade”, falei depois de mais um gole.

“Não diga isso, para um escritor, embora os personagens sejam criações, sejam de papel como eu já disse, eles são tão reais como todas as outras pessoas. Será que Hamlet não é real?”

“E Capitu?”

“Uma moça certa vez me falou que viveríamos felizes sem Capitu. Mas discordei, e provei a ela que a humanidade seria extremamente pobre se Capitu não existisse. Depois de passados cem anos do lançamento de Dom Casmurro, ela é tão real como qualquer outra pessoa que tenha existido em carne e osso. Quase todas essas estão esquecidas, Capitu vive, é eterna.”

“É mesmo, não tinha pensado nisso”, falei, “depois que finda uma época e todos já morreram, os personagens de literatura sobrevivem, passam a ser tão importantes quanto os personagens históricos.”

Saímos do bar em torno de meia-noite. Eu não estava bêbada, mas alegre, sabia que tinha de acordar cedo no dia seguinte, mas não queria me desfazer da companhia.

“E agora, para onde vamos?”, perguntou.

“E agora, para onde vamos?, repeti e caí na gargalhada.

Enquanto olhávamos um para o outro, reparei que meu vestido era fino, transparente, insuficiente para a madrugada que avançava. Na verdade, já não havia o vestido, eu estava nua, nuinha. Esperava que seu abraço me agasalhasse.HáHáhhhh

quinta-feira, agosto 30, 2012

Depois da festa

No domingo eu e meu namorado fomos a um churrasco na casa de um casal amigo. Chegamos por volta da hora do almoço e, para contribuir nas despesas, levamos uma caixa de latas de cerveja. Como estava sol, os donos da casa armaram uma pequena piscina onde as crianças puderam divertir-se.

Conversamos durante boa parte da tarde enquanto bebíamos e comíamos. Eu, como sou muito alegre, diverti-me também com os pequenos. Eles a todo o momento vinham molhar-me com a água da piscina. Aproveitava e os arremessava de volta para dentro d’água. Meu namorado também é uma pessoa alegre e social, relacionou-se muito bem com nossa anfitriã e seu marido. Passamos uma tarde maravilhosa. Não é bem sobre essa parte do dia que quero falar.

Lá pelas seis ou sete da noite nos despedimos. Aproveitamos para dar carona a uma amiga. Depois de deixá-la em casa, seguimos ao apartamento do meu namorado.

Ele se mostrava por demais excitado. Creio que a bebida expandira-lhe o desejo; ainda no carro, pôs-se a me beliscar as pernas.

Após estacionarmos, ainda no elevador abracei-o e pedi que tirasse minhas roupas.

“Mas estamos em lugar público”, falou.

“Não faz mal, estavas a beliscar minhas pernas no carro?, agora quero sentir o que é chegar nua na casa de meu namorado.”

“Mas se alguém nos descobrir?”, perguntou preocupado.

“Não hão de nos descobrir. Uma mulher bêbada e apaixonada jamais é descoberta.”

Ele, então, tirou-me a saia.

“Ainda estou muito vestida”, fiz-me de desentendida.

Tirou minha blusa farejando meus odores.

“Será que já estou pronta para uma boa trepada?”, sussurrei-lhe no ouvido.

O elevador parou no piso correspondente ao apartamento dele. Meu namorado virou-se num sobressalto, mas logo percebeu que não havia ninguém no corredor. Caminhou em direção à porta do apartamento. De nariz empinado, recusando-me até mesmo um passo além de onde estava, falei:

“Ei, volta aqui, ainda não estou nua.”

Ele acabou de me despir e me deu um longo beijo. Permaneci dependurada no seu pescoço.

“Deixe-me encontrar a chave.”

Soltei-o enquanto tirava-a de um dos bolsos da bermuda. Abriu a porta. Fiz que ele entrasse primeiro.

“Fecha, quero que abras especialmente para mim.”

“Mas você vai ficar nua aí fora?”

“O que tem? Já estou nua há tanto tempo...”

Ele fechou. Subi um lance de escada e passeei nua pelo andar de cima. Depois voltei, toquei a campainha e esperei por ele.

Não sei muito bem o que aconteceu daí em diante. Apenas me vêm à mente imagens distorcidas do amor vivido naquela noite. Ele subia no meu corpo e me beijava. Lembro-me de um pedido seu: que eu ficasse de costas. Sempre reluto quando ele me quer por trás, mas como eu estava de pilequinho... Senti algo gelado no meu anus. Era ele lambuzanndo-me com uma pomadinha. Ao começar a me penetrar, gritei muito. Mas de prazer. Pedia que ele jamais parasse. Eu queria que aquela trepada fosse interminável. Gozei várias vezes. Enfim, apaguei.

No dia seguinte, contou, imitando-me a voz:

“Vem, continua, não gozes, fica assim à noite toda. Não quero que isso acabe de maneira alguma.”

Eu ria do jeito como ele tentava representar meus gestos e meu jeito de falar. Enquanto isso, eu bebia muita água, pois a ressaca era forte.

“Você é maravilhosa, jamais fizemos amor com tanto ímpeto”, falou e me beijou.

“Estou horrível, essas bebidas maltratam muito a gente.”

Tomou-me nos braços e me colocou na cama mais uma vez.

“Preciso ir embora”, falei, “minhas filhas devem estar preocupadas.”

“Elas já são adultas.”

“Mas se preocupam comigo.”

Depois de mais uma hora de descanso, levantei e fui ao banheiro. Quando voltei, perguntei:

“Viste minhas roupas?”

“Mas você não chegou nua?”

“Estás brincando...”

“Não lembra que você quis que eu fechasse a porta com você nua lá fora?”

“Ah, sim, acho que lembro, mas e as roupas?”

“Pensei que você as tivesse recolhido.”

“Eu? Ai, e agora? Só me faltava essa!”

“Não core”, disse, vou arranjar um jeito, mas antes venha até aqui.

Aproximei-me. Beijou-me, deitou-me e trepamos ainda uma vez.

Depois, bem, depois ele encontrou uma solução.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Agora conta, vai

Quando aceito conversar com alguém numa festa ou mesmo numa fila de cinema, sou tomada por dois arrepios. O primeiro é por me sentir desejada; o segundo, o mais intenso, é por causa do risco que por ventura eu venha correr nas mãos de um desconhecido. Isso mesmo, sempre me sinto incrivelmente excitada quando penso que eu possa estar namorando um tarado. Não desejo que ele me bata ou me ameace, ou mesmo que me obrigue a sair nua por aí, mas é então que vem o tal arrepio. Um segredo: toda mulher gosta de homens taradinhos.

Quando fui ao Rio, vivi um momento desses. Conheci um homem jovial na fila do cinema Estação. Conversamos um pouco e assistimos ao mesmo filme.

Dois dias depois, fui a sua casa. Achei que não haveria perigo algum, mas me veio o arrepio. Lá pelas tantas, depois de duas taças de vinho, ele sugeriu que eu fosse nua ao lado de fora do seu apartamento. Quase morri de tesão com a proposta. Aceitei na hora. E fui de peitos nus, o que me mata de vergonha. Bati à porta para fingir que chegava nua. Ele demorou a atender. Ao abrir, perguntou:

“O que houve? Você está nua, e batendo aqui, nem a conheço”, e ameaçou fechar a porta.

“Moço, por favor, me dê abrigo”, pedi aflita.

“Só se me contar o que aconteceu.”

“Deixa eu entrar primeiro, pode aparecer alguém”, falei, “estou morta de vergonha.”

Ele afastou a porta para que eu entrasse. Eu cobria os seios com as mãos.

Reparou minha aflição:

“Ok, vou arranjar alguma coisa pra você vestir”, correu ao armário e me trouxe uma camisa polo masculina.

Vesti-a, ficou justa, me cobriu apenas até as coxas, estiquei a malha pra tapar mais um pouquinho minhas pernas de fora.

“Agora conta, vai”, insistiu.

“Você jura que quer saber?”

“Claro, quero saber.”

Cruzei as pernas, a blusa subiu um pouco, meus seios balançaram sob a roupa.

“Mas você não acha melhor sentar aqui ao meu lado?”, me insinuei.

Ele veio.

“Gosta das minhas coxas? São tão grossas.” Descruzei as pernas, a malha subiu mais um pouquinho, acho que dei cineminha.

“São grossas, sim; você, tão gostosa, e nua por aí.”

“Mas estou preocupada”, segurei um de seus braços, “não posso ir embora peladinha, e moro tão longe...”

“Você não vai embora pelada, dou um jeito, arranjo uma roupa mais recatada pra você.”

“Verdade? Não acredito. Depois que vocês gozam, são todos iguais. Vai me mandar embora nua, assim como entrei”, cantei a pedra.

“Quer dizer que foi isso que aconteceu? Você transou com ele. Ele gozou e mandou você andar, pelada. Aí você bateu aqui.”

Fiz cara de dissimulada.

“Você deve estar até meladinha”, fez uma careta.

Comecei a desconfiar de que a situação não ia a meu favor.

“Não, não”, enrubesci, “trepei de camisinha.”

“Então você vai ter de me contar como foi essa trepada.”

Quando falamos de alguma relação anterior, o homem que está conosco fica ainda mais excitado. Ele virou-se para mim, com agilidade tirou minha blusa me deixando toda à mostra.

“Você falou que os homens mandam você embora nua depois do gozo. Se não me contar como foi, mando você antes.”

“Mas estou nua”, me encostei à parede, cobri de novo com as mãos os seios e me curvei um tantinho. Mas o que ele queria mesmo era ouvir sobre minha transa.

“Quer dizer que você bate aqui depois de dar pra outro, e nem quer me contar, é mesmo uma sem-vergonha.”

“Vou contar, escute”, e me pus a relatar a história recém-vivida. À medida que minha narração avançava, ele grudava mais em mim.

“Então você me quer agora? Ainda nem acabei o relato. Veja que sorte a sua, eu poderia ter ido à porta de outro, pra você tudo é lucro”, acrescentei.

“Lucro?”

“Isso, lucro” afastei um pouco as pernas, esperava por ele.

Tirou a roupa bruscamente, me enfiou o pênis por entre as coxas. Excitada, falei:

“Vai, me esporra, deixo que você faça sem camisinha.”

Ele encontrou o encaixe perfeito naquela posição. Apenas me levantou e deslizou pra dentro de mim. Chegou a me manter no ar por quase um minuto. Afastei mais as pernas para que ele se movimentasse melhor. Depois nos agachamos devagarinho, até que sentei sobre seu ventre, ainda com seu pênis dentro de mim.

Ao perceber que ele ia gozar, voltou-me o arrepio. Minhas palavras o excitaram mais do que meu corpo. Será que após sua ejaculação aconteceria o que eu mais temia? Seguiu-me o orgasmo. E eu ainda no exercício sobre o seu pênis.

“Vai, goza agora, me encharca, assim, assim, quero ficar toda meladinha...”, sabia que eu iria ao orgasmo mais uma vez, mesmo peladinha e ao lado de fora de seu apartamento.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Bateu-me à porta uma moça aqui do bairro

Outro dia bateu-me à porta uma moça aqui do bairro. Era tarde da noite e ela estava inteiramente nua. Isso mesmo, nuinha. Tenho certeza absoluta de que eu não estava delirando nem se trata de fantasia de quem beira os 70 anos de idade.

Pediu-me para entrar e, percebendo minha assustada fisionomia, não se fez de vexada. Já na sala de estar, perguntou-me em voz baixa: “o senhor deixa eu dar um telefonema?” Sentou-se então na cadeira que fica ao lado da mesinha do telefone, cruzou as pernas, tomou nas mãos o aparelho e se pôs a discar o número desejado, ou necessário, não sei.

Travou breve e quase monossilábico diálogo com a pessoa que estava do outro lado da linha. Num determinado momento, tapou o bocal e me perguntou: “qual o endereço daqui mesmo?” Falei e ela o repetiu para quem a ouvia.

Após desligar, pediu-me mais um favor: “posso ficar aqui uns dez ou quinze minutinhos?”

Assenti com um movimento de cabeça. Perguntei-lhe também se desejava mais alguma coisa.

“O senhor tem uma revista? Assim o tempo passa, não?”

Trouxe-lhe a revista. Era uma dessas semanárias. Ela se pôs a ler com interesse. Ainda mantinha a perna direita sobre a esquerda. Comportava-se como se fosse a pessoa mais vestida do mundo.

“A senhorita não precisa de algo para cobrir-se, quero dizer, uma camisa pelo menos?”, arrisquei.

“Ah!”, foi sua única resposta.

De repente ela abandonou a cadeira, pôs-se de pé, encostou-se à parede e cobriu os seios com um dos braços. Sorrindo, continuou:

“Será que o senhor ainda consegue?”, com a face luminosa, inclinou a cabeça e olhou o próprio corpo.

Aproximei-me, ela segurou-me e começamos quase uma dança, eu ainda vestido. Depois de algum tempo, ela própria abriu-me a calça e puxou o meu pênis. Para não relatar os pormenores, relaciono apenas sua última e destemperada fala:

“Me esporra, me esporra todinha, goza dentro de mim, vamos, goza muito, me deixa encharcada.”

Apesar da minha idade, suas palavras provocaram-me excitação jamais sentida.

Quando terminamos, ela voltou à cadeira, olhou para mim e falou:

“Agora aceito sua camisa”, transmitia uma ponta de vexo.

Dez ou quinze minutos depois, chegou quem ela esperava. Era uma mulher, e trazia-lhe um casaco, desses compridos, quase um sobretudo.

A moça vestiu-o, agradeceu e se foi.

Ainda a vi uma ou duas vezes em alguma rua aqui do bairro. Piscou para mim e sorriu. Tinha a mesma face luminosa daquela noite e, em seus olhos, ainda pude perceber ecos de suas palavras no momento de gozo.

quinta-feira, agosto 09, 2012

Vestidinho prateado

Sempre adorei roupas com brilho, amei mais quando meu namorado me envolveu num vestido prateado. Só que, mais uma de suas ousadias, o vestido era de papel! Isso mesmo, papel prateado, desses que se amoldam ao corpo de uma fruta quando desejamos protegê-la, ao gargalo de um licor, a um pote de doce. Meu namorado fez um tomara-que-caia bastante curto, e me caiu tão bem. Vestidíssima! E para minha elegância tornar-se mais segura, pediu que eu girasse enquanto aplicava sobre o prateado um filme, aquela transparência que usamos para acondicionar mantimentos. Imaginem, o papel brilhoso, bem justo, torneando-me o corpo, e por cima o filme. Quantos reflexos, tantas as luzes a refletir minhas curvas.

“Carol, você está lindíssima, ninguém pensou numa roupa desse tipo antes.”

“Isso, meu amor, és um verdadeiro estilista. As pessoas hão de querer palpites seus no vestuário a partir de hoje, basta que cheguemos logo à tal festa.”

“Carol, aquele nosso segredinho, ok?”

"Qual deles, querido?"

"Nada por baixo."

“Claro, você sabe que adoro andar nua, apenas papel e filme, acho que de hoje em diante me torno atriz.”

Aproximou-se, beijou-me, apertou-me. O vestidinho resistiu. A cada toque de suas mãos, meu corpo era desenho mais perfeito.

Saímos. O inverno nunca me amedrontou.

Na festa? O piscar das luzes tornou-me de todas as cores.  Houve quem parou para me olhar. Os garçons, sem exceção, queriam todos me servir. Em cada momento, meu sorriso abria-se a mais um reflexo prateado, luz nos meus dentes perfeitos. No toalete, várias mulheres perguntaram de quem fora a ideia. Uma disse que dali para frente já sabia como iria sair à noite para todas os convites, para todas as festas, cada dia uma cor, o dia vermelho, o dia verde, o azul, o amarelo, e até mesmo o preto. Todos refletidos pelo filme, ‘espelho mais adequado não há; e pode-se, da mesma forma, optar por outro modelo; comprido; decote em V; frente única; modelinho até os joelhos, o filme contribuindo para formar babados, colado com adesivo transparente’. Outra, próxima, falou à que vestia vermelho: ‘lembra aquela história que você me contou, nua na estrada, deixada pelo namorado, tudo combinado?, se você vestisse saia e blusa desse tipo não teria prejuízo, à noite seguinte já saía com novo enxoval’.

Voltei à dança e ao namorado. Ressorrisos, Redobrados brilhos. Outros homens a me saudar, a saudar meu namorado. Suas mulheres? Tristes, lamentosas, seus amados não possuem o mesmo talento. Não deixei que me roubassem o rapaz, estilista que só...

Partimos às três em ponto. Cinderela nua, desejosa de ainda sobre as areias da praia correr, sentir na pele a carícia do vento que antecipa a aurora, beijar o príncipe fugidio, deixar que goze com a mulher, que estremeça ao invento sedutor.

Gostei tanto do vestidinho, que o guardei para outra vez. Sabia que as invenções continuariam, que iriam mais longe. Mas o primeiro modelito, não queria esquecer.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Sem sutiã

Estava na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, carregava alguns livros para o café quando percebi um homem de meia idade observando-me. Eu vestia calça jeans e blusa de seda cor creme. Mas havia um detalhe, saíra de casa sem sutiã. Repousei os livros sobre a mesa e procurei a garçonete. O local estava tão cheio, que mal consegui avistá-la. O homem, insistente no olhar, permaneceu numa das extremidades do café, segurava uma sacola da livraria.

Enquanto não era atendida, abri um dos livros e comecei a folheá-lo. Era um romance de uma autora francesa cujo enredo parecia muito interessante; descrevia um professor de ensino superior considerado um intelectual muito em voga. Mas ele mantinha um caso com uma aluna da universidade onde lecionava. A história não parecia marchar na direção a que costuma seguir esse tipo de narrativa, e era ambientada no tempo da guerra de libertação da Argélia. O personagem, embora francês, fazia coro aos os protestos que desejavam a colônia africana livre. Outro livro, que eu tirara de uma estante de literatura brasileira, tinha a capa muito bonita e acabamento gráfico requintado, chamava-se Hotéis à beira da noite. O mais curioso é que o autor, apesar do nome estrangeiro, Per Johns, é escritor brasileiro. Era a primeira vez que eu descobria um livro seu. O terceiro livro que eu carregava, e de modo mais discreto – não desejava que as pessoas o percebessem comigo – era o da Margarida Nua. Como muitos devem saber, Margarida alcançou muito sucesso nos últimos anos. Seus livros, a princípio, foram classificados erroneamente como literatura erótica, mas, depois, os leitores e a crítica chegaram à conclusão de que se trata de literatura. Suas histórias urbanas, de cunho existencialista, ora curtas, ora mais extensas, abordam o prazer e a surpresa que a vida nos pode oferecer. Naquele livro, há uma história que adoro, é a da mulher que resolve passar a noite nua numa praia deserta à espera do namorado. Ele tem a incumbência de lhe levar roupas, mas ela espera, espera, e ele... , bem, acho melhor não contar, não quero estragar o prazer para quem ainda não conhece o livro.

O homem continuava a me olhar, conseguira uma mesa a três passos de onde eu estava. A garçonete já o atendera e ele tomava um café, apenas.

Pedi café com leite e um croissant. Enquanto aguardava, fixei-me nas páginas do livro. Comecei a pensar sobre o fato de as personagens literárias tornarem-se tão reais. No ato de qualquer leitura de ficção, jamais nos damos conta de que todas aquelas pessoas envolvidas no enredo são criações saídas da cabeça de um homem ou de uma mulher. As personagens da Margarida são tão reais, que é difícil acreditar que elas não esbarrem vez ou outra com a gente cidade afora. Hoje, Margarida Nua é a escritora que consegue de modo mais eficaz criar, sobretudo, mulheres muito verossímeis.

O desconhecido esperou que nossos olhares se cruzassem, então apontou para um dos livros que repousara sobre sua mesa. Era de Foucault, uma edição de capa vermelha, da Martins Fontes, muito bonita por sinal, que eu sempre admirei e ainda desejo comprar. Acabou por me oferecer o livro fazendo um movimento com a cabeça. Acho que notou o meu interesse pelo filósofo francês porque observou que me demorei no olhar ao ver o livro junto a ele. Fiz uma fisionomia reticente e continuei a folhear um dos meus. Mas ele insistiu. Achei que a recusa seria indelicada, melhor falar alguma coisa.

“Numa outra ocasião, agora estou ocupada com este aqui”, apontei o que eu tentava ler.

“Ah, contos da Margarida, são muito bons.”

Não sei se fiquei vermelha ou roxa, pensei que estava lendo naquele momento o livro do Per Johns.

“Não se preocupe”, falou, “não precisa ficar envergonhada, as histórias da Margarida são também foucaultianas, elas nos liberam dos grilhões das convenções sociais, exatamente o que Foucault estuda”, falou enquanto mergulhava nos meus seios.

Ainda descontrolada, deixei escapar um “ah”, e depois voltei os olhos para a página em que eu estava. Mas dali em diante já não foi possível continuar lendo.

O homem permaneceu na sua mesa e não mais me dirigiu a palavra. Tentei voltar à leitura, mas de outro livro, e não percebi quando o desconhecido se foi. Poxa, ele bem que poderia ser mais insistente, aí, quem sabe...

Caso contasse esse breve episódio a alguma amiga, ela diria que eu não sei aproveitar as oportunidades. Mas ali, na Livraria Cultura, achei que ele estava me paquerando apenas porque eu viera sem sutiã. Depois, ao voltar para casa, acabei achando que não seria nada demais um homem admirar uma mulher porque ela está sem sutiã. E eu, pelo menos, devia ter-me apresentado. Ele, em contrapartida, faria o mesmo. Assim, as coisas teriam sido mais fáceis.

Fui embora um pouco triste. Vivo queixando-me de que sou uma pessoa sozinha, quando surge alguém escondo-me. Sei que os contos da Margarida não são de autoajuda, mas preciso ler mais o que ela escreve, acompanhar suas personagens, tudo tão verdadeiro. Amanhã ou depois encontro de novo o mesmo homem, então serei capaz de ter outros olhos para ele.

Quem sabe, saio soltinha por aí.

sexta-feira, julho 27, 2012

O que estará ainda tramando?

Estou amarrada à cama, os dois braços estirados acima da cabeça presos à cabeceira por um grosso cordão de náilon; cordas do mesmo calibre também imobilizam minhas pernas abertas, as pontas das cordas estão atadas à parte inferior do estrado; minha boca amordaçada impede-me a voz. Perdi a noção do tempo, não sei se há horas ou se há quartos de hora permaneço presa. Consigo apenas mover a cabeça, vejo o teto e parte da parede frontal.

Não fui assaltada nem amarrada por homem desconhecido. Tudo é fruto de uma combinação entre mim e meu namorado. Só acho que, dessa vez, ele foi longe demais.

Sua, a sugestão de toda essa amarração. No início, hesitei. Mas depois acabei concordando, pois vivemos tantas fantasias juntos, que tal mais uma, e talvez mais emocionante?

Ele entraria em minha casa como um ladrão, perguntaria por dinheiro e joias. Depois que eu lhe passasse pulseiras, cordões, anéis e algumas notas de cinquenta, olharia surpreso o meu corpo e pediria que eu me despisse.

“Abaixe a arma”, falo, “não há necessidade.”

Vamos para cama. Mas a cama não lhe é suficiente.

“Vou amarrar você”, fala. Óculos escuros e chapéu de caubói disfarçam-lhe o rosto.

“Amarrar? Mas não combinamos isso”, assusto-me.

“Combinamos? Nunca vi você antes, não há combinação entre a gente”, tão convincente o meu homem.

Faz que eu deite. Já inteiramente nua, ele começa a caprichar os nós.

“Ok, estou adorando”, sussurro romântica, “nunca trepei com ninguém amarrada desse jeito, e está tão apertado.”

“Ainda falta uma coisa.” Vai à sala e volta com uma grande fita adesiva à mão.

Ao deduzir o que vai fazer, grito: “não, por favor, isso não, assim você vai me sufocar.” Movo a cabeça de um lado a outro, mostro desespero. Mas ele segura-me firme por trás e gruda uma lasca da tira sobre os meus lábios. Arfo um pouco, mas ao sentir que minhas narinas não estão obstruídas, tranquilizo-me, até mostro ligeiro sorriso.

“Safada”, grita, “gosta de sofrer, não é mesmo? Você vai ver o que vou fazer agora.”

Desembolsa uma faca e começa a percorrer meu corpo com a ponta. Encolho-me quando ele toca determinadas partes do meu ventre, das minhas pernas, chego a prender a respiração. Mas sua ação acaba fazendo-me cócegas. Então, ponho-me a rir.

“Você está rindo?”, grita ainda mais irritado. Vendo que nada me surpreende, pela primeira vez faz algo que me deixa desesperada. Vai à sala e volta com outra tira de fita adesiva. Segura com violência minha cabeça e cola o pedaço de modo a tapar minhas duas narinas.

“Sorria agora, putinha, quero ver, sorria”, fala mostrando-se jubiloso.

Emito grunhidos, já quase sem fôlego.

“Goza aqui na minha mão, goza, quero ver, só tiro a fita se você gozar”, acaba de falar e já está com a mão direita entre as minhas pernas.

Sinto que vou morrer. Ele percebe e destapa-me provisoriamente o nariz.

“Vou te dar mais uma chance”, fala exasperado,  "respire bastante, vou tapar de novo e você vai ter que gozar aqui na minha mão; caso  não consiga, deixo você mortinha.”

Sinto arrepios. A brincadeira inesperada (creio ainda que o seja), descompassou minha respiração, meu coração vai aos saltos.

De novo ele tapa-me o nariz. Continua o discurso: “goza, vamos, quero ver você gozar na minha mão.”

Começo a dar sinais de que vou desfalecer.

“Goza, você ainda tem essa chance, estou esperando, vamos, goza!”

Eu consigo apenas emitir sons esporádicos: “hum, hum, argh, hum, hum.”

Ele solta mais uma vez a fita. Sôfrega, absorvo o máximo de ar. Ele, então, me sufoca novamente.

Aí acontece. Não gozo como ele deseja, mas solto um forte jato de mijo, que lhe molha as mãos e espirra na parede.

“Isso”, sorri em êxtase “serve o xixi, serve, vou considerar como se fosse o gozo.”

Arranca a fita de meu nariz, repara que eu ainda tenho lágrimas nos olhos. Mantém-me amarrada e amordaçada. Tira o pênis para fora da calça, sobe sobre o meu corpo e o enfia dentro de mim. Está tão excitado que não demora a gozar. Depois escorrega para o lado e me masturba até perceber que estou gozando.

No final, depois de se recompor e de pegar as joias e o dinheiro, diz: “desculpa, mas não vou desamarrar você.”

Deixa o quarto. Ouço seus passos afastarem-se através da sala. Bate a porta e sai.

Agora estou à espera. O que estará ainda tramando?

sábado, julho 21, 2012

Rita - 3

Rita, o que é isso na mala do seu carro?

É uma bolsa com uma canga, há também um biquíni, ou mesmo uma calcinha reserva.

Pra que você precisa disso?  É para ir à praia de repente?

Pode ser, mas a intenção não é apenas essa. Vamos, Glória, estamos atrasadas e o trânsito deve estar congestionado até a Barra, conto pelo caminho.

Engraçado você guardar sempre uma canga na mala, acho que vou passar a fazer isso.

Não é nada engraçado, às vezes é a solução.

Como, solução?

Escuta, vou te contar. Outro dia saí com um micro-vestido.

Sei, aquele preto, curtíssimo.

Isso mesmo, curtíssimo. Vestido pra noite. Saí às onze, com o Valdo.

Puxa, vocês saem tarde, não?

Às vezes. Naquela noite voltaria até as três ou quatro da madrugada. Mas não foi o que aconteceu. Dormi na casa dele. Como ia voltar com o micro-vestido às sete ou às oito da manhã? Seria um escândalo, você não acha?

Boa ideia. Você voltou enrolada na canga, saiu da casa dele como se fosse à praia.

Me saí bem, não?

Legal, gostei mesmo.

Mas é preciso ter cuidado. Escuta outra coisa que aconteceu.

Saiu de roupa curta e esqueceu a canga?

Mais ou menos. Você já namorou nua no carro?

Cruzes, faz tanto tempo, acho que tinha dezesseis anos.

É porque você não é de ter muitos namorados. Há os que adoram tirar a roupa de uma mulher no carro. Outro dia voltei praticamente nua pra casa.

Você não tem medo?

Às vezes tenho. Faz poucas semanas usei um vestido também minúsculo, esse você ainda não conhece. Acabei dizendo ao cara: não volto pra casa não, fico contigo. Fomos pra casa dele. Quando acordei, adivinha o que aconteceu?

Ele saiu pra trabalhar e te deixou trancada peladinha em casa...

Antes fosse. Ia chegar alguém pra fazer um serviço no apartamento e a gente tinha que sair antes das oito. E qual não foi minha surpresa. Tínhamos saído na noite anterior no carro dele, e eu achando que estava com a canga na mala do carro. Quando lembrei, disse: não vim com meu carro! Ele: claro que não. Eu: e agora, a canga?

E o que ele disse?

O que ele poderia dizer? Nem sabia da história da canga.

E o que você fez?

Nada, voltei com o vestido curtíssimo.

E as pessoas?

Não reparei, coloquei óculos escuros e fiz cara de sonsa.

Rita, você é ótima para essas coisas.

Antes de sair pensei em telefonar pra alguém, alguma amiga, pedir um vestido ou coisa semelhante emprestado. Mas depois falei a mim mesma, quer saber de uma coisa? Isso vai dar o que falar. E voltei do jeito que saí à noite. A única olhadela mais indiscreta foi a do porteiro do meu prédio, mas ele já está acostumado com minhas extravagâncias...

segunda-feira, julho 16, 2012

Tocando piano nua?

Você demorou um tempo enorme pra abrir a porta, e eu pelada lá fora.

Foi você quem disse que queria ir nua lá fora, não?

Sim, mas eu dei o motivo.

E qual era?

Salvar a relação.

Onde já se viu alguém ir pelada lá fora pra salvar uma relação?

Você falou que sua namorada havia ido, eu quis ir também.

Já notei que você tem esse defeito, ou virtude, não sei bem, sempre acha que pode fazer melhor do que as outras. Se eu conto uma travessura de determinada mulher, você parece que sente tesão com o que ouviu e quer tentar também.

Não sei, o que lembro é que você demorou muito tempo pra abrir a porta, e eu pelada lá fora.

O que você sentiu, afinal?

Acho que fiquei aflita.

Eu poderia não ter aberto, sabia? Poderia ter deixado você nua lá fora pelo resto da noite.

Ela dá um sorrisinho.

Fiquei arrepiada.

E acho que você ia gostar.

Eu, gostar?

Por que não? Você gosta de correr riscos.

E eu era diretora da escola, já pensou se alguém me encontra nua? Que vergonha...

Mas foi você que quis ir, eu nem pedi.

Foi para salvar a relação.

Acho que não. Foi porque você não queria se sentir diminuída perto da outra, da minha namorada anterior.

Ah, deixa pra lá. O importante é que depois de tantos anos, estamos juntos de novo.

E qualquer dia desses, você vai de novo nua lá fora.

Ai, acho que não, já chega.

Aposto que vai. Mas dessa vez não vou contar mais nada. Não é bom falar de outras pessoas quando estamos juntos.

Ela se aproxima e lhe dá um beijo.

Mas, sabe, já vi uma mulher tocando piano nua, quer dizer, uma foto.

Tocando piano nua? Nunca pensei nisso. Mas acho que, se você quiser, posso tocar pra você.

Nua?

Nua, peladinha. Caso queira, também pode me fotografar.

Jura?

Oh, se não juro!

quinta-feira, julho 12, 2012

O beijo

Aquele homem já tinha passado por mim duas vezes, e eu sentada debaixo do guarda-sol, de frente para o mar. Como ele era bonito! Por si só não viria falar comigo, tinha certeza, então bolei um plano. Quando passou a terceira vez pela beira d'água, chamei-o. Ele atendeu.

“Acende o meu cigarro?”, perguntei.

“Infelizmente não fumo.”

“Que pena”, eu estava de pernas cruzadas, a revista sobre o baixo ventre. Tomei-a numa das mãos. Ele pôde então apreciar melhor minhas pernas. Notou o meu biquíni mínimo. “Às vezes é bom fumar, sabe, dizem que desenvolve a inteligência.” Ele sorriu, provavelmente pensou que eu era muito burra e tinha mesmo de desenvolver a inteligência. “Você não arranja fogo pra mim?”

“Vou tentar, volto já.”

“Se conseguir, ganha um prêmio”, falei com jeitinho de mulher meiga.

Voltou rápido, trouxe um desses isqueiros e disse que podia ficar, um presente.

“Você também pode ficar, um presente”, repeti.

Ele sentou-se um pouquinho. “Você é daqui?”, perguntou.

“Ninguém é daqui, é?” Ana Clara, de Niterói.

“Eu sou. Jardel, muito prazer.”

“Verdade?”, arregalei os olhos demonstrando surpresa.

“Verdade, verdade mesmo, nasci e fui criado aqui”, afirmou.

“Então você conhece todas as pessoas da cidade.”

“Quase todas, você eu não conhecia.”

Dei mais um trago e soltei a fumaça na direção contrária a que ele estava, mas o vento levou a fumaça até ele.

“Desculpe, devo a você mais essa.”

“Não deve nada”, falou. Ele tinha quarenta e poucos, ou mesmo cinquenta anos.

“E aí?”, sorri e olhei minha revista.

“Você é muito bonita”, sorriu e fez um gesto de que ia me abraçar.

“Você quer me namorar? A cidade toda vai saber disso.”

“Podemos ir a outro lugar”, apontou o carro próximo.

“A praia está tão boa, não quero ir para lugar nenhum agora”, fiz um jeitinho de manhosa.

“Não vamos para casa, mas a um lugar tranquilo.”

“Mais tranquilo do que aqui, não há”, falei.

Ele se chegou juntinho a mim. Ofereci os lábios.

“Você é oferecida”, debochou.

“Não se diz isso a uma mulher, posso ficar aborrecida.”

“Mas você não liga, não é mesmo?, quer aproveitar a vida.”

“Quero mesmo, e aproveitar bem.”

“Vamos ou não?”, insistiu mais uma vez.

“Para onde?”, foi minha vez de debochar.

“Você quer saber mesmo?”

“Não precisa dizer, já sei.”

“Então?”, ele, que não desistia.

“Vou ficar aqui, volte depois, aí, quem sabe...”, resolvi tornar-me difícil.

“Você me chamou e agora está me despedindo?”

“Vamos fazer uma coisa, troquemos objetos, fico com algo seu e deixo com você uma coisa minha. Já que você não quer ficar aqui ao meu lado, assim está garantido que vamos esperar um pelo outro”, ele se animou com a minha proposta.

“Vejamos, o que posso levar de você?", fez cara de que desejava algo muito especial.

"Você é quem deve dizer..."

"Quero o seu biquíni", falou decidido.

"O meu biquíni? Mas assim você vai me deixar nua", adiantei-me, cobri minhas vergonhas com as pequenas e insuficientes mãos, era a mulher mais pelada do mundo.

"Mas você não falou que era eu quem devia dizer?"

“Ok, dou o biquíni, vamos até ali", apontei para dentro d'água. Ele me seguiu. Tire você mesmo, mostrei os lacinhos. Fico aqui te esperando”, sorri desembaraçada.

Por essa ele não esperava.

“E agora, o que vamos fazer?”, falei enquanto ele permanecia parado, coberto pela água do mar até a cintura, à minha frente e com meu biquini dependurado numa das mãos.

De repente se deu conta da rídicula situação e o escondeu dentro da sunga. Fez um movimento como se fosse embora.

Ei, espere, falei, lembra?, você tem que deixar comigo uma coisa sua.

Puxou-me então pela cintura bem junto a seu corpo e me tacou um longo beijou na boca.

Nessas horas não pisco, e meus olhos sempre brilham.

“Volto já, viu", virou-se abrupto e partiu.

Biquínis, sempre tive muitos, mas, confesso, um beijo como aquele foi o único.

quinta-feira, julho 05, 2012

Perdi a cabeça

Sinto tantas saudades de um namoradinho. Faz alguns anos que não o vejo.  Outro dia, revendo uma foto minha, despertei para as sensações que ele me proporcionou no curto período em que estivemos juntos. Lembro que fui apresentada a ele por uma amiga. Fazíamos um curso juntas. Ela já tinha viajado à cidade onde ele morava, no interior do Rio. Não perguntei se viveram um romance. Ela apenas me falou que se tratava de alguém muito interessante, e me passou o número do seu telefone. Liguei num domingo à noite. Fui atendida com muita cordialidade. Ficamos de conversar nos dias que se seguiram. Não passou muito tempo, viajei ao o Rio.

“O que você gostaria de fazer?”, Carlos me perguntou na primeira noite.

“Não conheço nada por aqui, é melhor você escolher”, respondi.

Embora morasse a duzentos quilômetros da capital, ele dirigiu até o Rio para me levar ao teatro, o Maison de France.

Depois jantamos num restaurante da Zona Sul. Lá pela uma da madrugada, sempre carinhoso, me levou para um hotel na Praia do Flamengo.

“Você é muito bonita, deixa eu fazer algumas fotos suas”, pediu.

“Você é fotógrafo?”

“Mais ou menos.”

“Como alguém pode ser mais ou menos um fotógrafo?”, eu quis saber.

“É que não trabalho profissionalmente com fotografia, mas sempre trago a câmera para clicar o que acho belo.”

“Então quer dizer que sou bela?”

“Belíssima”, sentenciou.

No apartamento do hotel, fiz várias poses para ele. Não pediu para me fotografar nua, mas, como já tinha bebido e estava soltinha, sugeri a foto mais ousada. Sentei-me comportadíssima, de pernas cruzadas, mas inteiramente nua. Meu braço direito cobria parte dos seios, e eu sorria. Ficou linda a foto. Logo depois ele me mandou por e-mail.

Naquela mesma noite namoramos destemperadamente. Como Carlos me deu prazer! Conforme fui ficando excitada, comecei a gritar: "ai, vou perder a cabeça, vou perder a cabeça, não aguento mais; ai, estou perdendo, estou perdendo a cabeça, estou nas tuas mãos; por favor, não perde a tua, te segura, não goza dentro, por favor; ai... ai... ui... ui... estou gozando, estou gozaaaaannnndo". Ele foi cavalheiro, me fez gozar três vezes; só depois vestiu a camisinha, me penetrou mais uma vez e gozou.

No dia seguinte voltamos à sua cidade. Ali há uma praia linda. Mesmo não sendo verão, fomos tomar sol e banho de mar. Ficamos o dia inteiro passeando. Almoçamos num restaurante rústico e depois voltamos para a praia. Então ele me pediu algo que me deixou primeiro temerosa, mas depois arrepiada. Queria que eu tirasse o biquíni dentro d’água e desse a ele para guardar lá no guarda-sol, junto aos nossos pertences. 

O arrepio durou  uns cinco minutos, e os saltos do meu coração mais ou menos dez. Enfim, aceitei. Tirei o biquíni e entreguei a ele.

Como foi bom a partir daí. Nuazinha dentro d'água pelo resto da tarde. Carlos ora ao meu lado, ora à minha frente, ora às minhas costas. Perdi a cabeça mais uma vez. Nem tremi quando uma moça e um rapaz passaram junto a nós. Transar naquela praia foi demais.

À noitinha fomos para casa, e não conseguimos parar de trepar.

Veio o domingo, era meu último dia na cidade. Viajamos quarenta minutos até Búzios. Achei a cidade encantadora.

No final da tarde, pedi outra foto a ele:

“Você me fotografa nua, nessa praia?”

“É pra já”, suspirou de alegria.

Mesmo com pessoas aqui e ali, tirei as duas peças e pedi que ele agisse rápido. Acho que pensaram que eu era atriz. Apenas um garoto se aproximou ao constatar que eu estava nua, mesmo assim ficou a uma boa distância.

À noite, parti de volta à minha cidade. Tinha de voltar, não havia jeito. Muitas promessas da parte dele e cara de choro a minha. Mesmo assim tive ideia para mais uma ousadia. Esqueci (de propósito) o biquíni na torneira do chuveiro. Minutos antes, eu perdera a cabeça mais uma vez. Aliás, perdemos os dois.

A foto que me apanhou nua na praia, lembrança boa dele, lembrança boa daquele final de semana. Por que não fiquei com o homem?

Acho que perdia a cabeça.