quarta-feira, novembro 21, 2012

Sempre se tem algum segredo

Estou num pequeno hotel, no centro de Macaé. Vim à cidade com a intenção de resolver um problema na sede local da Petrobras. Sempre quando retorno ao hotel, no fim da tarde, reparo a mulher que sai de uma escola próxima. Ela, muito atraente, corresponde ao meu olhar. No terceiro dia, espero por ela. Como não calcula com a minha atitude, passa ao meu lado quase de cabeça baixa.

“Por favor, não se assuste”, falo, “pensei que eu estivesse agradando.”

Ela sorri; passamos então a caminhar lado a lado.

“Como você se chama?”, é minha a primeira pergunta.

“Sueli.” Desde o começo se mostra econômica nas palavras.

“Você é da cidade?”, tento manter o diálogo.

“Sim”, sorri mais uma vez e interrompe a caminhada.

“Então, aqui parece ser um bom lugar.”

Ela meneia a cabeça, seus cabelos são lisos e seu rosto tem traços de raça índia.

“Cheguei faz dois dias, trabalho na Petrobrás.”

“Aqui?”, surpreende-me a pergunta.

“Não, no Rio, vim para um trabalho especial.”

Não sei se é apenas impressão, mas acho que sua fisionomia apresenta alguma tristeza.

“Que tal irmos a algum lugar?”, sugiro.

“Hoje?”

“Isso, hoje. Que tal?”

“Hoje, não; quem sabe amanhã?”

Volto ao hotel e fico no apartamento vendo televisão. Mais tarde tento telefonar para ela, mas a ligação cai várias vezes na caixa postal.

Ao passar pelo mesmo local em que a vi no dia anterior, olho para a escola. Mas não vejo Sueli. Penso em entrar e perguntar por ela, mas mal sei em que trabalha. Será ela professora? A escola parece atender às primeiras séries. Permaneço no local durante uns bons vinte minutos, mas nada de ela aparecer. Tiro o celular do bolso. Quando estou tentando seu número, vejo que lá adiante vem ela. Seus passos são rápidos, caminha na minha direção. Ao me alcançar para, me cumprimenta e espera que eu tome a iniciativa. Veste um vestido florido, mais curto do que o da véspera, traz sob um dos braços uma bolsa cheia de papéis.

“Vamos?”, pergunto.

Faço sinal ao táxi que está parado junto a um restaurante.

“Aonde vamos?”, pergunta.

“À orla marítima. Que tal comermos e bebermos alguma coisa?”

Nada responde. Interpreto seu silêncio como sinal de aprovação. Entramos no táxi e o motorista dá a partida.

No bar escolhido por ela, podemos apreciar o mar. Está azul e calmo. Como ainda brilha o sol, algumas pessoas andam pela areia, um ou outro se aventura ao banho de mar.

“Você costuma frequentar a praia?”, aponto com face de contentamento.

“Só no verão.”

“Mas está tão quente, até parece verão.”

“Gosto de vir à praia quando estou de férias.”

“Quando você está sem preocupação, com a cabeça leve, não?”

“Isso mesmo.”

“Você vive sozinha?”, o garçom chega com nossas bebidas.

“Tenho filhos, mas moro sozinha. Eles já são adultos.”

Brindamos. Tomo um longo gole do meu chope. Ela antes admira o seu copo cheio; depois, com suavidade, toma um gole.

“Você é professora daquela escola?”

“Sim.”

“É bom ser professora?”

“É melhor namorar”, pela primeira vez abre um largo sorriso. Reparo em seu rosto um certo ar provinciano, que lhe acentua a beleza.

“Você gosta de namorar, então?”

“E quem não gosta?”

O bar tem alguma frequência àquela hora, ela tenta descobrir alguém conhecido.

“Você vem sempre aqui?”, continuo meu interrogatório.

“Vinha quando tive um namorado.”

“E ele se foi.”

“Mais ou menos.”

“Agora, você procura outro”, afirmo em tom de pergunta.

“Mais ou menos.”

“Como se pode ter um namorado mais ou menos?”, termino a frase em tom de deboche.

“Podemos, sim.”

“Já sei, alguém que é e não é namorado ao mesmo tempo”, defino a questão.

“Você é inteligente”, ri, “por isso trabalha na Petrobras.”

“Vou dizer a você algo importante: trabalhar na Petrobras não é tão difícil. O mais difícil hoje é arranjar uma namorada.”

Seu rosto se ilumina mais uma vez.

“Para os homens é mais fácil do que para as mulheres”, diz.

“Você é mulher e parece ter sorte.”

“Tenho sim, sempre aparece alguém.”

O garçom chega com um petisco. Coloca o prato diante de nós e deseja bom apetite. Ela me olha, não quer ser a primeira a beliscar.

“Você tem jeito de que é misteriosa. Acho que tem muitos segredos.”

“Sempre se tem algum segredo. Você também deve ter um”, afirma.

“Eu, um segredo?”

“Tem, sim. Mas fique tranquilo, não precisa me contar.”

“Mas eu gosto de saber segredos. Você me conta o seu?”, pergunto meio indolente.

“É segredo, não posso contar.”

“Se você conta só pra um e este não leva adiante, continua segredo.”

“Verdade. Você promete guardar?”

“Prometo.”

“Promete guardar e não tirar proveito?”

“Guardo, sim; mas não tirar proveito não faz parte do segredo”, falo e depois caímos os dois numa gostosa gargalhada. O garçom traz outro chope para mim, ela diz que tudo está muito gostoso.

“Ok, vou contar o meu segredo. Mas antes observe como está lindo o anoitecer, não é mesmo?”

“Sim, está. Mas o segredo....”

“Escute, então. Esta cidade não é grande nem pequena, você concorda?”, espera a minha resposta para continuar.

“Concordo.”

“Quem vive aqui, conhece muita gente. Todo lugar aonde se vai se encontra um colega, ou mesmo um amigo.”

“Sim”, me mantenho interessado.

“Num lugar assim, já tive dois namorados, ao mesmo tempo, é claro.”

“Este é o seu segredo?”

Ela bebe um gole do chope, pousa o copo sobre a mesa e olha em volta.

“Aqui mesmo, já vi três pessoas conhecidas.”

“Já que você é tão namoradeira, não quer ter o terceiro namorado?”

Ela sorri. “Terceiro, não; agora só tenho paqueras; caso arranje algum, vou ter apenas um.”

Ficamos no jogo de palavras. Eu galanteando a morena, e ela cheia de dengo.

“O que você ensina pras suas crianças?”

“Muitas coisas.”

“Eles parecem muito pequenos.”

“São, sim. É uma turma de alfabetização.”

“E os pais, não reclamam de seus filhos terem uma professora namoradeira?”

“Ah, não. Acho que nem sabem. Além disso, pais e mães também namoram muito, e nem sempre um com o outro. Nessa cidade todos namoram, mesmo os casados e as casadas. Sei cada história de arrepiar. As mulheres que têm cara de santinhas são as piores”, seu sorriso cora mais uma vez a sua face.

Já é noite quando deixamos o restaurante. Faço de tudo para levá-la ao meu hotel, ou mesmo a outro qualquer, mas ela não aceita.

“Não posso ir para hotel algum aqui, quase todos me conhecem, tenho ex-alunos trabalhando em vários lugares, onde menos espero aparece um. Se vou pra um hotel com você, amanhã estou na boca do mundo.”

“Como vocês fazem pra namorar por aqui?”

“Precisa ser em hotel de alguma cidade próxima, e mesmo assim você deve me dizer antes a que hotel vai me levar.”

“Você quer dizer que não podemos dar uma namoradinha...”

“Não é isso, até podemos namorar, passar algumas horas juntos, mas não em hotel.”

“Onde, então?”

Estamos dentro do carro, ainda na orla marítima.

“Tenho mais um segredo pra contar a você”, ela fala.

“Mais um?”

“Quer saber?”

“Conte, por favor.”

“Tive um namorado que adorava que eu fosse nua à praia, de noite.”

“Totalmente nua?

“Eu usava uma saída de praia, dessas bem justinhas e curtas, apenas isso.”

“E como vocês faziam?”

“Íamos pra um recanto de praia que ele descobriu, perto da lagoa, é bem escuro, ninguém podia nos ver.”

“Você não acha isso mais perigoso do que ir a um hotel?”

“Não. Escute mais. Eu deixava o vestidinho no carro e corria com ele pela areia. Lógico que somente eu ficava nua. Tomava até banho de mar noturno. Você não imagina como é gostoso.”

“Ok, vamos fazer assim, então.”

“Você precisa arranjar um carro.”

“Arranjo.”

“Amanhã, então, a gente se encontra de novo.”

“Onde?”, pergunto. Meu coração se acelera por causa do relato.

“Você me pega em casa?”

“Pego.”

“Então vou escrever o endereço. Ok, não perca. Você não imagina como as mulheres gostam de andar nuas.”

“Imagino, sim. Pego você às sete, tá?”
  

Sueli entra no carro com o vestidinho justo sobre o qual falou no restaurante. Como as pessoas são imprevisíveis, penso, uma mulher com jeito de equilibrada, uma professora da prefeitura com alunos e ex-alunos por toda parte, mas que sente prazer em andar nua pela cidade.

“Nua pela cidade, não, apenas na praia”, diz como se tivesse ouvido meus pensamentos.

“Você vai entrar na água?”, pergunto quando já caminhamos na areia.

“Depende, se a água do mar não estiver muito fria...

“Você não tem medo de encontrar alguém, você com essa roupa curta...”

“Você não está gostando?”

“Estou adorando, mas você disse que conhece muita gente.”

“Não vai aparecer ninguém, não; venha, me abrace", a seguir se despe e pede que eu guarde sua saidinha de praia no carro.

Será que preciso contar o desfecho dessa história?

Sueli se mostra uma mulher quentíssima, transborda prazer, geme bastante e dá a impressão de que goza várias vezes. Trepamos pela primeira vez logo que chegamos. Quando acabamos, ela vai até a beira d’água, espera que as espumas toquem seus pés, olha para mim e ri. Depois corre e mergulha de cabeça. Após alguns minutos, sai da água e vem ao meu encontro. Me abraça e me beija. Trepamos mais uma vez. A água do mar a torna mais delirante. No final, sempre nua, caminha para o mar. Dessa vez, anda lentamente e espera que a água lhe invada o corpo, depois se abaixa e fica apenas com a cabeça de fora.

Não digo a ela que também tenho o meu segredo. Na verdade, toda mulher gosta de homens um pouquinho tarados. Muitas, por causa disso, vão além do arrepio. Também gosto de mulheres nuas ao meu lado em lugares abertos, assim como o seu ex-namoradinho gostava, mas dou um passo à frente (ou um passo para igualá-lo, vá la saber). Depois de transar com Sueli duas vezes, sinto vontade de me esconder enquanto ela se banha, fazer de conta que fui embora. Quero observar a sua reação.

Mas eis ela a correr de novo, a se chegar junto a mim, a colocar os braços em volta do meu pescoço, a me beijar...

"Tenho outro segredo pra te revelar", diz.

"Já sei. Seu namoradinho fugiu e deixou você peladinha aqui na praia", arrisco.

"Isso mesmo. Mas tem mais uma coisa.

"O quê?"

"O que aconteceu depois; você não quer saber?"

"Claro, estou ansioso. Conte, por favor."

"Conto amanhã", sorri, "ou depois de amanhã", puxa-me pelo pescoço, "ou quem sabe qualquer dia desses", mais um beijo, e sempre o sorriso luminoso, astro prateado a completar o risco incerto da lua sobre a maré alta.

quinta-feira, novembro 15, 2012

O que eu queria mesmo?

Súbita ereção! E num momento impróprio. Para um homem, algo muito natural. Mas para uma travesti, nada mais terrível. Por que não me submeto à cirurgia? Não posso privar os homens daquilo que eles mais gostam. Além disso, há outra coisa. Por ser travesti, faço mais sucesso do que a maioria das mulheres. Vamos, porém, à inesperada ereção.

Sempre fui muito controlada. Posso usar roupa curtíssima, o vestido mais ousado. Ou mesmo sair quase nua, apenas a sainha. Nada por baixo. Mantenho-me cool. Eles se aproximam, tocam-me, querem mexer no meu pinto. Ficam doidinhos. Algo, então, me percorre o corpo por dentro, um tipo diferente de calor. Porém, sou toda comando. Tudo acontece como se eu tivesse a pele sob toalha molhada em água fria. Mas ontem...

Foi numa boate. Aqui em Barcelona as coisas fervem. Eu dançava num canto, sozinha, um show de bolso, particular. Então... Então surgiu ele.

Melhor dizer, nunca o tinha visto. Cabelos pretos, curtos, olhos maliciosos, gravata rubra. Subiu-me a quentura, senti um espasmo. Depois... Depois a incontrolável ereção! E a saia tão curtinha. Dei as costas. Veio ele. Senti suas mãos subindo minhas coxas, levantando-me a roupa...

“Não, por favor”, deixei escapar.

“Você está quente”, sua voz de barítono.

“Se fosse só isso”, suspirei envergonhada.

“O que mais?”

“Quer saber mesmo?”

“Já percebi.”

“Gostas?”, murmurei.

“Por que não?”

“Nunca aconteceu.”

“Verdade?”

“Durinho assim, não.”

“Sempre há a primeira vez.”

“O que faço, agora?”

“Permita-me ajudá-la.”

“Mas segurando nele? Assim é que não volta ao tamanho original.”

“Vamos experimentar, tudo depende da qualidade da mão.”

Começamos um jogo. No início eu ia inibida, mas pouco a pouco me fui soltando. Meu pênis, cada vez maior, cada vez mais rijo. O homem abaixou-se, colocou o rosto pertinho. Continuou, porém, todas as manobras. Naquele momento, senti-me inteiramente nua, toda arrepiada. Quando pensei que estava em lugar público, cheguei a ter outro espasmo, agora de terror. Uma mulher nua, vá lá; mas uma do meu tipo, onde guardar tamanha preciosidade?

“Não se preocupe, tudo vai ficar bem, e você ainda mais sarada”, acho que lia meus pensamentos.

“Sarada? Como assim?”, eu não perguntava, gemia.

“Não vai querer outra vida”, ele quase a beijar o meu pinto.

Em meio à música alta, cheguei a gritar:

“Nunca gozei pela frente.”

Então, mergulhou o meu dote na sua boca macia e quente. Em frações de segundo eu pisava o fio da navalha, e pisava descalça.

“Você é uma pena, deixe o vento levá-la às alturas”, ele me adivinhava.

Seu sussurro me fez ganhar altitude, me ascendeu a céu jamais alcançado por qualquer aventureiro. Planei incólume durante vários minutos, os cabelos soltos, a pele sensível à variada temperatura, do sopro matinal que produz arrepios ao suor provocado pelo sol a pino. De repente, meus setenta e dois quilos, meu metro e setenta e oito, enfim, todo o meu corpo iniciou uma curva vertiginosa. Era a lei da gravidade, o anúncio da queda, o tombo... Não, aquilo não era o tombo, era a febre, uma febre seguida de explosão que me transformou em milhões de partículas prateadas. Faltou pouco para eu lhe derramar goela abaixo toda a minha alma. Não posso contar mais. O gozo não é feito de palavras. Eu estava tortinha, transpirava.

Depois do prazer inesperado, o que eu queria mesmo? Ah, sim, que voltasse ao tamanho original!

quinta-feira, novembro 08, 2012

Você veio de maiô?

Eu queria mesmo era aproveitar a noite. E, como estava calor, sugeri a meu namorado: “que tal um banho de mar?” Ele apenas falou: “vinda de você, a proposta não me surpreende".

Sempre gostei de tomar banho de mar. À noite, então, nem se fala, me faz ficar toda arrepiada. Posso entrar nua no mar.

Descemos à areia no Remanso. Ele deixou o carro perto de um quiosque, havia algumas pessoas tomando cerveja e conversando. Peguei meu namorado pelo braço e fizemos o caminho inverso. Não queria ninguém nos vendo entrar pelo escurinho da praia.

Quando chegamos à beira, ele perguntou: “você veio de maiô?”

Sorri para ele, dei-lhe um beijo sobre uma das bochechas, levantei o vestido e o tirei pela cabeça. Pedi que o segurasse, corri, mas antes de entrar na água voltei e lhe entreguei também a calcinha. Achei melhor ir nua, minha fantasia predileta. E tão poucas vezes realizada.

Mergulhei. As pessoas de modo geral temem o mar à noite, acho que por causa da escuridão, ou mesmo porque pensam que podem ser atacadas por algum peixe maior. Mas não tenho esse temor. Os peixes se afastam quando sentem as pessoas próximas. Cortei várias ondas, o mar estava bravio. Cheguei a nadar até após a primeira arrebentação. Fiquei a flutuar naquele pedaço de mar. Sempre que alguma onda se levantava, eu me abaixava ou a cortava. Havia correnteza em direção ao oceano, sabia que para voltar precisaria esperar um pouco e contornar pelo lado esquerdo de onde eu estava. Embora a situação não fosse fácil  a água gelava-me todo o corpo , a sensação era muito prazerosa. Meu corpo inteiramente nu furando as ondas era quase um gozo. O que me preocupou a partir de certo momento não foi o fato de o mar estar batendo ou de eu estar tomando banho de mar nua, mas o pressentimento de meu namorado, por não me poder ver, pensar que eu estivesse em dificuldades. Isso poderia levá-lo a dar o alarme. Então, algumas pessoas viriam me procurar. Comecei achar melhor voltar à praia. Como não conseguia nadar em linha reta devido à corrente, fiz um contorno que me custou uns quinze minutos. Ao ver que poderia chegar à areia, dei mais algumas braçadas e peguei uma onda, surf de peito. As pessoas não sabem como é gostoso praticar esse tipo de esporte, tanto mais pelada. Outro gozo. Quando senti meus pés tocarem o fundo, caminhei e saí d’água. Mas... Cadê meu namorado?

O local estava escuro, era possível perceber o pessoal no quiosque, lá longe, mas sobre as areias não havia ninguém. Agachei à espera. O vento frio me fustigava a pele. Como dentro d’água a sensação era de uma temperatura mais amena, tive vontade de voltar ao mar. Porém avistei alguém correndo em minha direção. No começo, temi. Quem sabe um desconhecido? As batidas de meu coração se aceleraram. O homem abraçou-me não se importando com o meu corpo molhado, beijou minha boca e depois falou: "sua fantasia é tomar banho de mar nua, a minha é transar com você nas areias da praia".

Deitou-me e subiu sobre o meu corpo. Depois de gozar duas vezes dentro d’água, quem iria negar que não era o momento? E, agora, com alguém dentro de mim.

"Tenho também minhas fantasias", sussurrou, "e uma delas sempre foi encontrar uma mulher nua na praia. Vou levar você pra minha casa", beijou-me e concluiu: "peladinha." 

sábado, novembro 03, 2012

E acho que até não vai ser mal

Comecei a percorrer os lugares de que Mariana me falara.

“O importante não são apenas as praias, as montanhas, a estrada deserta, mas o que ele me pedia”, contou-me.

Quando tocou no assunto pela primeira vez, fiquei impressionada. Mas, depois, comecei a sentir curiosidade sobre tudo que me dizia.

“Você não teme que lhe possa acontecer algo de ruim?”, perguntei.

“O risco é que faz as coisas ter graça”, falou, e sua face se iluminou num sorriso brando.

Dirigi primeiro até a Praia da Joana. Faltava pouco para o sol se pôr. O mar estava liso, apenas vez ou outra alguma espuma deslizava, um véu de noiva que se alongava frágil. Não havia pessoa alguma no local. Era possível sentir a umidade e o sal presentes no ar. Descobri um quiosque distante; a janela, aberta, porém não vi ninguém. Imaginei como seria andar nua sobre aquela areia fina e depois esconder-me dentro d’água, exatamente como lhe pedira o namorado. Imaginei-me a correr nua, sem destino. Mas primeiro eu tinha de arranjar alguém que me pedisse tal ato. Onde eu guardaria o biquíni? Seria melhor deixá-lo nas mãos do homem. Será que iria embora e me abandonaria nua na praia? Arrepiei-me. Acho que por causa do vento, acho que por causa do desejo. Os homens de verdade não fazem essas coisas, preferem trepar com as mulheres e despejar nelas todo o ardor.

Certa vez perguntei à Mariana: “por que me conta essas coisas tão íntimas?”

“Você tem razão, não devia contar a ninguém.”

Dias depois subi a estrada da Bicuda Grande. Parei no local exato sobre o qual ela me falara. Ultrapassadas algumas curvas, a partir do pequeno povoado, há uma enorme e solitária árvore. Após a ela, contam-se dois pequenos morros. Parei o carro e descobri o riacho que passa pelo local. Suas águas são cristalinas. Saí e molhei os pés. Tive vontade também de ficar nua. Mas não tinha ninguém para me pedir a nudez. Sozinha, achei que não teria graça. Caminhei um pouco mais. Encontrei então o biquíni de Mariana. Bandida, além de ficar nua deixou o biquíni como prova de que não mentia. Estava enroscado num pequeno galho. Era minúsculo, não se podia negar que não fosse seu. No dia em que o deixara ali, os dois treparam quase todo o tempo na margem mais alta; depois ele pediu que ela abandonasse o biquíni. “Eduardo, não posso ir à praia amanhã, pois não tenho outro.” “Não faz mal, amor, vamos primeiro ao shopping, pode escolher o biquíni mais caro.”

“Faltou contar da estrada”, disse-me ontem.

“Estrada?”, fingi surpresa.

“Foi emocionante. Nuazinha à beira da estrada. E esperando por ele.”

“Já imaginei o que aconteceu.”

“Uma encenação. O homem vem só no carro e encontra uma mulher nua, que lhe pede ajuda. Ela entra. Só Deus sabe onde ele vai deixá-la. Caso tenha bom caráter, arranja-lhe uma roupa e leva-a a casa. Mas a maioria vai querer comê-la primeiro. Outra surpresa: a mulher é que deseja comê-lo; depois pede que a mande sair do automóvel, ainda nua. ‘Como você vai fazer?’, ele pergunta. ‘Isso é assunto meu’, ela, altiva.”

Mariana terminou o relato dizendo que nunca viveu situação tão excitante.

“Seu namorado é demais”, falei, “quem dera arranjar um parecido.”

“Tente você agora. Terminamos o namoro ontem.”

“Não acredito.”

“Verdade.”

Acho que é mentira. Mas como sempre foi minha amiga, fiz que acreditei.

Agora falta encontrar com ele. Tenho, no entanto, de me comportar. Não posso deixar que perceba que sei dessas histórias. Caso eu fracasse na representação, acho que vai querer que eu vá nua a seu encontro, a única coisa que minha amiga não fez.

Às vezes me arrependo de ter ouvido os relatos de Mariana. Às vezes me arrependo de ter sido sua amiga. Não sei onde isso pode acabar.

Mas, num rompante, acabo por falar a mim mesma: deixa de ser boba, Dora, o máximo que pode acontecer é você terminar nua num canto desses. E acho que até não vai ser mal!

sexta-feira, outubro 26, 2012

Basta que me permitas a representação

Meu namorado sempre me sussurra ao pé do ouvido quando está prestes a gozar: “vou amarrar você nua sobre a cama e trepar assim durante muito, muito tempo.” Mas toda vez que acabamos, ele não mais toca no assunto. Outro dia, porém, logo que ameaçou afastar-se de mim, falei:

“Quando me vais amarrar?”

Apenas riu.

“Falo sério”, continuei, “falas o tempo todo nisso e não concretizas.”

“Você quer mesmo?”

“Claro, pois não diria à toa.”

Ainda nua, levantei e procurei um cordonete. Voltei ao quarto e o entreguei a ele.

“Você quer agora?”

“Agorinha. Neste mesmo instante.”

Deitei-me e lhe ofereci os punhos. Amarrou-me. Os braços atados forte à cabeceira; as pernas, abertas, presas pelo cordão, que ele enroscou na parte inferior do estrado.

“Ainda falta algo”, sugeri.

“O quê?”, olhou-me curioso.

“Quero que me amordaces.”

Foi ao banheiro e voltou com uma fita larga de esparadrapo. Grudou-a sobre minha boca.

“E agora, o que faço?”, perguntou.

Por meio de “hum, hum", expressei-me. Mas meu olhar, mais convincente, apontou-lhe o pênis.

Começou a brincar sobre o meu corpo. De repente, deu a sugestão.

“Espere, pensei uma coisa mais excitante. Vou sair um pouco e deixar você amarradinha aí.”

Levantou-se e começou a vestir-se. Ao me olhar, quando acabou de calçar o tênis, reparou minha testa franzida.

“Não fique preocupada, volto logo.”

Bateu a porta e saiu.

Fiquei a meditar sobre o que estava tramando. No início até achei boa a ideia, mas com o escorrer dos minutos comecei a ficar preocupada. Como ele poderia ter feito isso comigo? Eu, sem me poder soltar, sem a capacidade de emitir sons, e sozinha em casa.

Meu coração ia adiantado quando ouvi a porta abrir.

“Entre, por favor, espere aqui na sala”, ouvi a voz dele. Nossa! Quer dizer que ele trazia alguém.

“Será que não estou incomodando?”, a outra voz, e de mulher.

“Não, fique um pouco, ela já chega, disse que não ia demorar.”

“Prefiro voltar mais tarde.” Só então reparei que era a vizinha. “Ela me prometeu a receita, mas não é tão urgente.”

“Vou procurar. As coisas dela ficam numa gaveta no quarto, um momentinho”, levantou-se e veio para junto de mim. Sorriu e falou em surdina: “acha melhor chamá-la para vir até aqui?”

Movi a cabeça querendo dizer que não, que a despachasse.

Ele voltou à sala de mãos vazias.

“É melhor eu ir, estou com a comida no fogo. Depois falo com sua mulher.”

“Ok, dou o recado”, ele falou.

“Ouvi a porta bater.”

Voltou então ao quarto. Havia tirado toda a roupa.

“Viu? Deixei você por um triz”, subiu sobre meu corpo. Trepamos.

Eu estava molhadinha, de nervoso e de desejo. Devido à situação, gozei duas vezes. Depois, destapou-me a boca e pediu que eu o chupasse, ainda amarrada. Foi então que gozou,

Só no dia seguinte tocou de novo no assunto:

“Quer que eu amarre você hoje?”

“Claro. E estou a imaginar quem irás trazer dessa vez.”

“Que explicação daremos à visitante?”, ele quis saber.

“Nenhuma. Mas quero que a dispa e a amarre também. Só que na sala.”

"E o que faço caso eu traga um homem?”

“Nada, basta que o mande vir ao quarto no teu lugar.”

domingo, outubro 21, 2012

Como devo fazer para dar a ideia?

Uma amiga me veio falar sobre um namorado.  Contou que ele a obriga a ações extravagantes.

“Obriga?”, pergunto.

“Maneira de dizer. Na verdade ele pede, e eu consinto.”

“Consente? Dê um exemplo.”

“Se você quiser, dou vários, mas escute este.”

Contou que o homem adora sexo ao ar livre.

“Na praia?”

“A praia é um dos lugares favoritos dele. Mas há outros, como no meio ao mato, numa subida de serra, tudo durante a noite. Também adora me deixar nua num trecho escuro da rodovia estadual, partir com o automóvel e voltar um quarto de hora depois para me resgatar.”

“Resgatar?”

“Isso. Me pegar de volta.”

“Mas você não teme que algo possa dar errado?”

“Errado, como assim? Confio tanto nele.”

“Pode acontecer alguma coisa, como um enguiço no carro, ou mesmo um acidente. Como então você faz para voltar?”

“Sabe, Glória, nunca pensei nisso. Acho que quando se está amando, a gente não pensa nessas coisas.”

Terminamos nossa conversa com a chegada de outra pessoa. Logo depois me despeço e vou embora.

No caminho de casa continuo pensando sobre o que ela me contou. Nua na estrada, nua na praia, tudo no escurinho da noite, ou mesmo da madrugada. O importante é estar nas mãos do namorado, segundo ela, o maior frisson.

Os dias se passam, e eu sem namorado. Ao pensar novamente na minha amiga nua, sinto um arrepio. Quem sabe eu consiga um homem assim.

Sem querer, avisto seu namorado quando estou no Shopping. Ele me reconhece e me vem cumprimentar. Ah, se fosse eu a nua!, exclamo em silêncio. Primeiro aperta a minha mão, depois me beija e arregala os olhos, imensos, acho que chega a me desejar.

“Como vai a Isabel?”, pergunto.

“Vai bem. Ela falou que encontrou você um dia desses.”

“É, encontramos sim, lá no calçadão.”

O homem me come com os olhos, e não é impressão. Será que ela lhe falou sobra a conversa que tivemos? Chego a suspeitar.

“Vamos marcar um encontro um dia desses. Eu, Isabel e você. Leve mais alguém, vamos a um bar, na orla, ok?”, sugere.

Imagino nós três bebendo, depois ele levando a Isabel e eu para a rodovia, pedindo para tirarmos a roupa. Saímos então do carro nuas. Oh, minha mente maldosa!

“Não deixe de aparecer, leve o namorado, a gente conversa um pouco, é bom conhecer novas pessoas”, continua.

Despedimo-nos, eu parto. Vou pensando se ele já não está entediado de deixar a namorada nua por aí, pois para sair com ela precisa de outras companhias.

Depois desses dois encontros estou a procurar um namorado. E arrepiadíssima. Nua na estrada, quem dera! E se arranjo alguém, como faço para dar a ideia?

segunda-feira, outubro 15, 2012

Um caso a pensar

“Valdo, por favor, pare com essa brincadeira”.

“Que brincadeira, Valéria?”

“Não posso voltar nua pra Barra Mansa”.

É ótimo dormir com ele. Toda sexta. Ele tem lá suas taras, mas isso é normal nos homens. Valdo me quer nua o tempo todo. Sempre transamos duas ou três vezes na mesma noite. Pela manhã, corro de volta pra minha cidade.

Eu andava na Nossa Senhora de Copacabana. Era uma dessas sextas calorentas que antecipam o verão. Ia de calça justa e blusa curta, a roupa acentuando as minhas curvas. Pernas grossas, seios volumosos. De repente...

“Ei moça, vamos conversar”.

“Verdade?”, mostrei-lhe o rosto.

“Verdade verdadeira”, falou, “mas vamos antes beber alguma coisa”.

“Não sou de beber. Mas quero lhe dizer uma coisa, estou pra um programa, nem cobro tanto”.

“Não calculei que você fosse prostituta”.

“Prostituta?”

“Isso. Como posso chamar você?”

“Valéria”.

“Valéria, não gosto de prostitutas”.

“Quando você me tiver na cama, não falará assim”.

“As prostitutas trepam mecanicamente. Só pensam em acabar logo pra levar o dinheiro do cliente”.

“Se você pensa assim a meu respeito, tchau”.

Dois quarteirões à frente veio ele de novo. Só então reparei que ainda me seguia.

“Qual o preço?”

“Você não vai achar caro”.

“Quanto?”

“Duzentos”.

“Pode ser pela noite toda?”

“Pra quem diz que não gosta de prostitutas...”

“Sim ou não?”

“Não. Preciso voltar pra minha cidade”.

“E se eu dobrar a oferta?”

“É um caso a pensar”.

Acabei aceitando. Fomos ao apartamento dele.

Não costumo ir a apartamentos, frequento apenas os hotéis onde os funcionários me conhecem. Medida de segurança. Mas ele pareceu ser boa pessoa.

“Você é muito bonita. E muito gostosa”, disse assim que acabamos de transar pela primeira vez.

“Ainda me quer pelo resto da noite?”, pensei nos homens que me abandonam assim que gozam.

“Claro, ainda não acabamos”.

“Não?”, fingi surpresa.

Reparei que escondera minhas roupas. Mas nada falei. Transamos novamente. Depois caímos num sono gostoso.

De manhã, acordei ainda nua. Ele dormia ao meu lado. Andei um pouco pelo pequeno apartamento. Quando sentei novamente na cama, Valdo me agarrou pelas costas sem que eu esperasse. Trepamos de novo.

Eram nove da manhã quando falei: “gostei muito de você, mas não posso voltar pelada pra casa”.

Passamos a nos encontrar toda sexta, no mesmo lugar, à mesma hora. Bebemos, comemos e depois subimos ao apartamento.

“Acho que não vou mais cobrar, já somos namorados”, falei ontem.

"Nada disso, nada de namoro, você é minha contratada para toda sexta".

Vesti uma saia curtinha, só pra ele. Ele me trazia um presentinho: calcinha e sutiã.

"Quer que eu vista agora?", sorri mostrando as duas peças.

"Quem sabe", respondeu.

Depois da terceira transa, pediu: "veste o meu presentinho, veste; você vai ficar linda dentro dele”.

“Vou tomar um banho primeiro. Mas não posso voltar pra casa de calcinha e sutiã, Valdo!”

“Quem sabe”, fez cara de safadinho.

quinta-feira, outubro 11, 2012

Amuada

Você jura que não vai me roubar?

Claro; não sou ladrão.

Estou preocupada, ouça, nos conhecemos agora, são dez pras duas da madrugada, estamos numa rua deserta, não sei onde estou com a cabeça.

Sobre o pescoço, não?

Não brinque, estou com medo, acho que vou embora.

Mas foi você mesma que me abordou...

Sei, mas estou arrependida, era só uma brincadeira.

Então vá; quer que eu a acompanhe até sua casa?

Não, ainda não, acho que fico mais um pouco.

Como quiser.

Mas jure que não vai me roubar.

Juro, não sou ladrão.

Então vamos no meu carro.

Ok.

Gostou?

Gostei.

Silencioso, não?

Muito.

Vou parar um instantinho, quero faze xixi.

Ei, pra fazer xix não é preciso tirar a roupa toda!

Não consigo fazer xixi vestida.

Já voltou? Você ainda nem se agachou...

Quero pedir uma coisa primeiro.

Peça.

Não vai me roubar, vai?

Ah, já disse que não.

Preste atenção. Estou saindo nua do carro, vou me agachar atrás daquela árvore, o carro é meu e tudo que possuo está aqui dentro, até a roupa do corpo, não vai me roubar, viu?

Que demora, pensei que você não fosse mais voltar...

Foi de propósito, e até estou amuada.

O que foi, alguma coisa deu errado?

Não. Quer dizer, sim.

Fiz algo que feriu você?

Fez.

O quê?

Você não entendeu a brincadeira...

Brincadeira? Que brincadeira?

Não me roubou!

quinta-feira, outubro 04, 2012

No vão da bomba d'água

Estou nua, fora da área da casa, no espaço intermediário entre o muro e a construção. Ouço o ruído de pessoas que se aproximam. Corro para a lateral, agacho e me escondo no estreito vão da bomba d’água. Para não ficar tão aflita, ajo do mesmo modo de quando me vejo em apuros. Começo a pensar em outras coisas. Principalmente coisas excitantes.

Lembro-me de um namorado antigo. Como era carinhoso o homem. Queria namorar durante a maior parte do dia e também me queria nua pela casa. Me fazia vestir apenas sapatos. Eu podia escolher os mais bonitos. Depois desejava me ver com uma bolsa no ombro, ou mesmo numa das mãos caso fosse pequena. Eu fazia de conta que chegava daquele jeito à casa dele. Muitas vezes fui ao lado de fora para bater e ele abrir a porta. Me recebia como se eu fosse a pessoa mais vestida do mundo. Sem demonstrar pejo algum, eu entrava. Ele pedia, então, que eu sentasse. O que eu fazia com elegância; cruzava as pernas e esperava que ele iniciasse a conversa. Perguntava o que eu desejava comer e beber. Após alguns minutos, voltava com uma bandeja de prata, tudo no maior requinte. Tempos bons aqueles.

Outra lembrança que me afogueia é a de um namorado que me levava de carro para passear. Como me admirava muito de roupa curta, pedia que eu saísse de casa quase pelada. Às vezes eu nem tinha coragem de sair do carro. Certa vez acabei indo de biquíni. “Não vou poder sair do carro desse jeito”, falei. Mas, lá pelas três da manhã, comemos num quiosque na orla marítima; ele me emprestou a camisa para eu vestir sobre as duas mínimas peças. Numa outra ocasião, me levou para uma estrada escura. Quis que eu saísse do carro e deixasse as roupas com ele. Senti um friozinho na barriga. “E se aparecer alguém, já imaginou? Você vai me perder pra outra pessoa; eu nem terei como nada negar. O que posso dizer caso alguém me encontre nua numa estada?” E lá fui assim mesmo para lhe satisfazer a vontade.

Então aconteceu... Houve o policial. O que você faz quando um policial lhe surpreende nua? Nada, não é mesmo? Não há nada a fazer nessa situação, a não ser esperar. Eu esperei que ele me levasse presa. Mas não foi esse o final. Ele me levou para sua casa e quis me namorar. Além de namorarmos de todas as maneiras possíveis e impossíveis, tinha mania de investigador. Me soltava nua dentro de um pequena floresta, digamos assim sobre o lugar, e pedia que eu me escondesse. Não é que sempre me encontrava, e bem antes do amanhecer.

Meses depois estava eu vestidíssima, no teatro, assistia à melhor peça da temporada. E ia acompanhada de um ator, que tinha me conquistado num restaurante. O policial? Ficara para trás. Eu e o ator, depois da primeira saída, representamos os mais diversos papéis. Eu ia ora vestida, ora nua. Mas o que valia era minha atuação. Foi tão bom.

Vocês hão de perguntar, por que não permaneci com algum desses namorados se todos sempre são tão adoráveis, carinhosos e me queriam bem. Na verdade eu vivia uma ciranda, saía da mão de um para cair na de outro. Não havia nada melhor.

E agora estou aqui, nua, do lado de fora de casa. Por que esses homens sentem tanto prazer com essas pequenas perversões? E não é que passei também a gostar? Cada um que me faz uma proposta desse tipo, me injeta mais combustível; voo então a mil. Ainda há pouco queria tanto sair por minha conta, nua, às dez da noite, mas foi ele quem me pediu. Aquele que estava na plateia e acabou por me arrebatar. Mas as pessoas que chegaram não estavam no roteiro. E sei que este meu namorado vai oferecer cerveja, vai conversar, e vou mofar aqui, neste vão da bomba d’água... Não fosse meus seios grandes, voltava correndo lá pra dentro, peladinha!

Não posso deixar que se esgote meu estoque de lembranças.

Houve também uma praia, deixei meu biquíni nas mãos de um admirador que conhecera naquela mesma tarde, e eu dentro d’água, meu destino em suas mãos... Ai, não sei por que a sensação do creme hidrante sobre a pele, eu toda molhadinha; quem gostava de me deixar lambuzada assim era aquele lá do começo, que me colocava nua sobre saltos e carregando uma pequena bolsa; eu prestes a tragá-lo; ou, caso quisesse escapar, impossível, tão escorregadia...

quinta-feira, setembro 27, 2012

Suada e doída

O ser humano vive sempre em busca do prazer, e o corpo é o local onde esse prazer realiza-se de modo mais intenso. Há pessoas que o obtêm através de processos positivos, como o contato táctil conhecido como carícia. Neste caso, embora haja o aumento da temperatura e a aceleração da pulsação, tal desequilíbrio no funcionamento do organismo é recebido como um tipo de bem estar. Mas há aqueles que não se satisfazem com o mesmo processo, pois necessitam de desiquilíbrio maior, ou mesmo do rompimento ainda que temporário da estabilidade do funcionamento do organismo, o que produzirá o processo conhecido como dor. Tal subversão é conhecida nos meios psicanalíticos como sadomasoquismo.

Sou adepta do amor e da carícia. Mas outro dia me telefonaram dois homens. Queriam trepar comigo ao mesmo tempo. No início fiquei temerosa, mas como a proposta me era vantajosa aceitei.

Embora sempre tenham ímpetos de violência, quando se relacionam com as mulheres os homens, de modo geral, trepam de modo civilizado. Mas isso não acontece ao se aproximarem das travestis. Pode ser a mais bonita, que mesmo assim desejam logo praticar algum tipo de perversão.

Ao entrar no apartamento combinado, repararam o meu vestido curtinho, minhas pernas compridas e grossas de fora. Pediram que eu não me mexesse. Obedeci. Transformei-me numa estátua. A primeira ação de um deles foi arrancar minha calcinha. Queria se certificar se o meu pênis escaparia pela barra do vestido. Para a alegria deles, escapou. Na maioria das vezes, os homens querem trepar com travestis para fazer sexo oral. A modelo põe a sua masculinidade à mostra e eles mergulham de cabeça. Um deles imediatamente quis me abocanhar. Mas o outro o advertiu: “espera, quero que ela desfile para nós.” Afastou-se e apontou para eu caminhar pela sala. Ainda o vestido curtinho, os saltos bem altos, a bolsa ao ombro e o pênis... de fora. Depois, este entregou minha calcinha para o amigo: “guarda pra você, é uma lembrança.”

Não demoraram a me despir.

“Por favor”, falei com delicadeza, "não posso voltar nua pra casa, não estraguem minha roupa.”

Apenas riram.

Será que preciso descrever o que aconteceu durante todo o tempo em que estivemos juntos? Acho que não, vocês são capazes de imaginar. Mas, no final, quiseram algo inesperado. Que eu me deitasse sozinha na cama e me masturbasse até gozar.

“Vamos ver se ela consegue. Travestis não gozam quando mexem no peru. Já obriguei uma à meia-hora de punheta e não saiu uma gota.”

Pus-me em movimento. E eles torcendo por mim.

Durante bons quinze minutos friccionei o meu pênis com toda a intensidade. Um estorvo.

O mais alto, então, tirou um pequeno chicote da bolsa.

“Não, por favor, assim você vai me marcar”, gelei.

“Vira de lado, vamos, vira. Você vai gozar rapidinho.”

Voltei a bunda para ele. Aplicou-me a primeira lambada.

“Ui”, gemi, “devagar, por favor, bate sem marcar”, acabei por me revelar.

Bateu uma, duas, três, quatro vezes.

A cada chicotada eu tremia num espasmo involuntário.

“Vamos, sua puta, goza, goza rápido.”

Intensifiquei as fricções e comecei a gritar.

“Me bate, vai, mais, mais, não pára, pode me marcar, marca bem, na bunda, estala o chicote”, passei a comandar o espetáculo. “Vai, mais, mais, mais...” E o homem em ação.

Depois de alguns minutos, aconteceu. Meu sêmen enfim jorrou. Nunca ejaculei tanto.

No final, o que estava de espectador disse: “Alcides, olha como ficou o lençol. Isso não tava previsto.”

Suada e doída, não escondi o riso.

sexta-feira, setembro 21, 2012

E o meu corpo a crescer, e o biquíni a se estreitar

Estou no parque tomando sol; o dia, lindo, de repente vejo um dos meus pacientes. É preciso dizer que sou dentista e que nas horas vagas adoro ir ao Olhos D’Água. Esse é o paciente de quem mais gosto. As pessoas não imaginam quantas vezes médicos, dentistas e outros profissionais de saúde se apegam a quem lhes procura. Acho que estou apaixonada por ele. A primeira vez que chegou a meu consultório foi para uma breve consulta. Logo que o vi, pensei, faz tanto tempo não vejo homem tão atraente. Sou mais velha do que ele, seis anos. Nessas consultas acabamos por conversar assuntos que não deveríamos. Mas meu paciente me aparece no parque, de bermuda, camiseta e tênis. Depois segue em caminhada, acho que não me viu. Continuo deitada sobre uma toalha, na grama, na parte em que as pessoas param para tomar sol. Segredinho: estou de biquíni. Sou magra, pequena, mas tenho meu charme, sei que os homens adoram me apreciar. Mas esse meu paciente... Já encostei nele, toques sutis, demonstrações espontânea de afeto. Há quem diga que a relação sexual começa nesses ligeiros movimentos. Quero que ele me veja. Será o primeiro encontro fora do consultório. Poderemos conversar à vontade. Tenho uma amiga que diria o seguinte, “Deus me livre, dar de cara com um paciente, e eu de biquíni, morro de vergonha.” Comigo, porém, nada disso, não tenho o que temer. Ele já insinuou em me convidar para um café. Mas na hora agá recuou, pensou que minha profissão me exige muito. Eu, enfim, preciso descansar. Mal sabe ele de que realmente preciso. Perdida nesses pensamentos, eis que ele volta pelo mesmo caminho em que se foi. Preparo o melhor sorriso. Me vê, acena. Será que virá até aqui?

“Oi, doutora, que surpresa, tudo bem?

“Tudo ótimo.” Minha resposta inclui o lado bom do imprevisto. Acho que percebeu.

“Mais parecia que ia chover quando amanheceu.”

“Não, nada de chuva, o sol e outras coisas boas”, digo. “Fique um pouco. Está com pressa?”

“Não, nada de pressa, hoje não tenho o que fazer.”

“Que bom!, um dia e nada para fazer, não pode haver coisa melhor.”

“E você, vai ao consultório hoje?”

“Mais tarde, tenho dois pacientes depois das quatro.”

“Então, ainda há tempo.”

“Oh, há muito tempo.”

Senta-se ao meu lado.

“Importa-se?”

“Não, sua companhia é um prazer.”

Sorri. Acaba por se deitar.

Sem pensar – porque se a gente pensa não faz essas coisas – encosto no braço dele.

“Você está bronzeado, vem aqui todos os dias?”

“Quase todos.”

Aproxima-se mais um pouquinho. Acho que lembrou os meus sorrisos no consultório, nossas conversas... Um dia falamos tão intensamente sobre um filme, que quase chegou a me convidar para o cinema.

“Venha mais, vamos nos encontrar mais vezes, aqui é melhor para conversar”, dele a proposta.

“Venho, sim, mas isso não significa que você vai embora...”

“Não! Quero aproveitar para lhe falar uma coisa.”

“Então?”, arrisco.

“Arranjei uma namorada.”

“Namorada?” Não consigo ocultar a decepção.

“Não se preocupe, ela está exatamente ao meu lado.”

Rimos ambos, um sorriso envolvente, quase um abraço. E o meu corpo a crescer, e o biquíni a se estreitar...

Me respondam, vocês acham que eu ainda vou ao consultório, hoje? 

quinta-feira, setembro 20, 2012

Vou fingir que acredito

Amor, já que acabamos de tomar o café da manhã, você me ajuda numa tarefa?

Diga, querida.

Um amigo me pediu para revisar um texto dele. É algo que lhe aconteceu há mais de vinte anos, escreveu o episódio por esses dias e deseja publicar.

O que você quer que eu faça?

Preciso que leia o texto e dê sua opinião, principalmente sobre o vocabulário. Ele abusa de algumas palavras que eram comuns há duas ou três décadas, como gírias e maneiras de dizer. Quero que você me diga se soam bem ou não. Veja, ele chama o amigo de bicho, a mulher amada de broto. Acho que estas eram gírias usadas pelo Roberto Carlos, não?

Ok, querida, deixa eu dar uma olhada.

Está aqui o conto, nestas folhas. Enquanto isso, fico aqui no sofá lendo o jornal, quero saber sobre os filmes da semana.

Opa, querida, teu amigo é um homem de sorte, encontrou uma mulher nua na praia às quatro e trinta da manhã de uma sexta-feira.

Ele jura de pés juntos que isso é verídico.

Por isso resolveu escrever.

O interessante, amor, é a história da camiseta.

Estou vendo, parece ser bem legal.

Legal, amor?

É, ele foi gentil com ela, você não acha, querida?

Você já chegou na parte que diz o que ele pede em troca?

Deixe-me ver. Ah, sim, cheguei agora. Ele vinha de uma festa, parou na orla, quis dar uma caminhada à beira mar e se deparou com uma mulher inteiramente nua.

Isso.

De início, fica perplexo. É essa a palavra com que você cismou, perplexo?

Mais ou menos, mas há outras.

Continuo, querida. Ele coloca o pensamento dela no texto, mas é ele quem narra a história.

Ele diz que é uma inovação, parece que alguns autores estão escrevendo assim.

Deixa ver se eu entendi. Embora seja um narrador masculino, de primeira pessoa, também aparecem no texto as inquietações da mulher, como: “ao ver que alguém se aproximava senti um calafrio, mas depois me acalmei, quem sabe eu estava com sorte?” Acho que deve ser colocada uma vírgula depois de aproximava, não?

Depende, querido, se ele deseja mostrar que a mulher está preocupada com a situação, ou mesmo nervosa, não precisa de pausa.

Ele pergunta se ela precisa de alguma coisa. É lógico que precisa, a mulher está nua.

Mas essa deixa, amor, é para ela poder se insinuar, assim talvez  o conquiste e consiga o seu objetivo.

Ele pergunta por que ela está nua. Mas a mulher não responde, apenas sorri, como se fosse agruras da vida.

Agruras?

É o que está escrito, querida.

E o que acontece?

Vou adivinhar: eles namoram...

Mais ou menos.

É a maneira que ela encontrou para fisgá-lo.

Isso, querido, ela precisa dele.

Mas não quer trepar sobre as areias da praia, convida o homem para ir a sua casa, mas antes pede a camiseta dele.

Amor, ela não pode sair nua pelas ruas da cidade, não é mesmo?

Se fosse eu o homem, desconfiaria. Encontrar uma mulher nua nestas circunstâncias é esmola demais para que cego não possa enxergar.

Ele não é cego, querido. Que bom, encontrei um filme ótimo aqui no segundo caderno.

Ela desperta no homem intenso tesão. Abraça-o, faz carinho nele, beija-o, mas quer evitar o principal: que ele goze. Teme que depois do sexo o homem desista dela e vá embora. Não tarda a amanhecer e ele é sua única chance.

Como acaba, querido?

Você não disse que leu, Célia?

Li. Mas leio tanta coisa.

Não sei, não, ainda falta, mas acho que ele vai com ela.

Vai sim, amor, agora lembrei, os homens sempre vão com as mulheres. Você diz que resistiria, mas não deixaria a mulher pelada ali, tanto mais se estivesse só, o dia quase raiando, seria um achado.

É, dependendo das circunstâncias...

E então, amor, o texto está bom?

Acho que sim, não vejo nada de errado nas palavras que ele usa, tanto mais que o conto é ambientado nos anos de 1980.

Foram anos bons, éramos mais jovens.

Prefiro você agora, querida, mesmo com mais vinte e poucos anos de idade e vestidinha como está, Deixo a mulher nua para o seu amigo.

Certo, querido, vou fingir que acredito.

quinta-feira, setembro 13, 2012

Nua no automóvel, apenas?

Alguma vez já andaste de carro pelada? Olha, é o maior frisson. Certa vez, um domingo de sol, saí com um cara. Embora ainda longe o verão, ele pediu que eu fosse de biquíni. Atendi. Mas vesti sob a roupa apenas o biquíni mesmo, nada de sutiã. Minha blusa era uma frente única, quase um top. Ele me pegou na porta de casa. Dali, fomos para a Barra. Estacionou um pouco antes do Recreio.

“Você entra na água e me deixa tirar o teu biquíni?”, perguntou.

“Ok.”

Tirei a saia, a blusinha e mergulhei. O rapaz veio imediatamente atrás, me abraçou e puxou minha calcinha. Pensei que ia deixá-la na altura dos joelhos, mas continuou até que me escapasse pelos pés. Em seguida, disse:

“Espera aí que vou guardar lá onde estão as nossas roupas.”

Saiu da água e correu areia acima. Após voltar, ficamos longo tempo agarradinhos, namorando, eu peladinha. A praia, deserta. Mas lembro que passou um homem caminhando pela areia.

O namorado saiu d’água primeiro. Pedi que me trouxesse a toalha. Atendeu. Enrolei-a no corpo, como um vestidinho tomara que caia.

Quando já estávamos no carro, falou: “vamos a um quiosque, que tal comermos e bebermos alguma coisa?”

Depois de dirigir durante alguns minutos, encontramos o quiosque. Ah, esqueci de dizer: ao entrar no carro, ele não me deixou vestir, pegou toda a minha roupa e guardou no bagageiro.

“Pega pelo menos o top, sem ele as pessoas vão reparar que estou nua.”

Demorei a convencê-lo, mas foi buscar a minha blusa.

Sentamos, então, numa das mesas e fizemos nossos pedidos. Ele bebeu cerveja; eu, caipiríssima. Ficamos ali, frente ao mar, durante quase a tarde inteira.

Quando o sol ameaçou se pôr, ele pagou a conta e descemos à areia. O mar estava calmo e distante. Não havia ninguém na praia. Ele me abraçou e me beijou, mas não demorou a me roubar a toalha.

Namoramos durante algum tempo. Como só vestia o top, fiquei excitada demais. O rapaz não custou a perceber, tirou o pênis de dentro da bermuda e começou a introduzi-lo entre as minhas coxas. Logo fiquei molhadinha. Não foi difícil encontrar a posição ideal para que me penetrasse. Ao sentir seu pênis dentro de mim, juntei as pernas, queria-o com toda a intensidade. Depois, ele agachou. Eu o acompanhei.

“Você me deixa gozar na tua boca?”, perguntou.

“Deixo, mas só depois, agora deixa dentro”, sussurrei melosa.

Torcia para que não aparecesse ninguém, pois não teria como me esconder. Além de nua, estava trepando ao ar livre.

Gozamos. Eu, mais de uma vez. Ele, conforme havia pedido.

A seguir, correu até o carro levando a toalha. Com medo de ser vista, sentei na areia. Esperei que ele voltasse. Voltou, mas sem pano algum que me cobrisse. Acabei tendo de caminhar nua até o carro. Entrei e sentei no banco de carona.

“Cadê a toalha?”, perguntei.

“Adivinha.”

“Assim as pessoas vão me ver nua.”

“Joguei a toalha no mato”, falou.

Deu a partida. No início, não tive medo. Mas quando começamos a nos aproximar do perímetro urbano, o número de veículos foi aumentando. Então, comecei a temer que alguém, através dos vidros, me flagrasse sem roupa, principalmente quando parávamos nos sinais.

Percebendo minha aflição, ele falou:

“Cruze as pernas, assim dá pra disfarçar. Caso alguém te veja, vai pensar que você está de biquíni.”

Fiz o que sugeriu, mas acho que não deu muito certo. Atravessamos o túnel Dois Irmãos e chegamos à Gávea. Resolveu dirigir pela orla. Leblon, Ipanema, Copacabana, e eu nua. Mas eu relaxara. Em determinado momento, esqueci que ia nua.

“Acho que vou parar pra você saltar”, falou e sorriu.

“Não brinca”, me arrepiei, “quero ver como vou entrar em casa.”

“Vai entrar peladinha”, sorriu.

“Juras que não me vais deixar vestir?”

Não respondeu, mas continuou com o sorriso nos lábios. De repente, perguntou:

“Você não disse que gosta de homens taradinhos?”

Fiquei em silêncio.

Mas como perguntei lá no começo: já andaste de automóvel pelada? Se não, vai logo, pede a teu namorado, é o maior frisson.

Ah, já sei do teu espanto. Nua no automóvel, apenas?

quinta-feira, setembro 06, 2012

Só queria tornar as coisas mais fáceis para você

Na última quinta, à noite, recém-saída do escritório, caminhava na Av. Paulista em direção a um ponto de ônibus. Vestia um vestido curto, tecido leve, crepe de seda, trazia numa das mãos um agasalho de malha fina. Embora fosse inverno, a temperatura não era baixa. Após atravessar a Augusta, na mesma calçada do Conjunto Nacional, um homem veio em minha direção.

“Senhorita, não deseja passear um pouco, ir a um restaurante, ou mesmo conversar?” Ele era bonito, cinquentão, vestia-se bem.

Tive vontade rir, pois ninguém se dirige a uma mulher dessa maneira nos dias de hoje. Achei que poderia se tratar der uma brincadeira.

“Você está sorrindo, isso significa que gostou das minhas palavras?”

“Não é nada disso. Será que você não percebe que mulher direita não pode aceitar um convite desses?”

“Um convite para conversar, ou para comer algo, o que há de errado nisso?”

“É um preceito básico que mesmo uma menina é capaz de saber, não se deve conversar com estranhos.”

“Mas você está a conversar comigo”, também se pôs a rir.

“Faz tempo que não vejo alguém abordar uma mulher desse modo, por isso o riso, por isso a conversa até agora.”

“Senhorita, não sou qualquer um, sou uma pessoa honesta, tenho trabalho, e até alguma fama.”

“Mas tenho de ir, já não posso continuar, alguém me espera”, menti enquanto chegávamos à guarita do ônibus.

“Uma pessoa do seu nível não deve frequentar transportes coletivos, tanto mais a essa hora.”

Ri mais uma vez.

“Então, como volto para casa?”

“Alguém dotada de tal beleza deve andar de automóvel.” Fez sinal a um táxi, que imediatamente parou. “Por favor, leve esta moça”, apontou para mim e deixou uma nota de cinquenta na mão do motorista.

“Por favor, vou ficar ofendida, dispense o táxi”, pedi.

Ele hesitou, mas acabou deixando o motorista partir, não reparei se pegou o dinheiro de volta.

“Só desejo tornar as coisas mais fáceis para você, falou.”

“Mas quem disse que as coisas são difíceis para mim?”, arrisquei.

“Vejo tantas mulheres bonitas sozinhas, chego a pensar que a solidão é uma grande dificuldade para todas vocês.”

“E você, não vive só? Pela sua conversa, deve ter como amigo apenas o dinheiro”, provoquei.

“O dinheiro? Ah, sim, não deixa de ser um bom amigo.”

“Não é possível comprar todas as mulheres com dinheiro.”

“Claro, nem é isso que desejo em relação à senhorita, apenas acho que a grande chance da vida é ser alguém sempre rodeada de amigos.”

Olhei pela primeira vez seu rosto e pude observar rugas em volta dos olhos. O homem parecia mais velho visto assim tão de perto.

“Quer dizer que você me convida para um drink?”, arrisquei de novo, já envolvida pela necessidade de continuar a conversa.

“Um drink, como se dizia nos velhos tempos”, completou.

A Augusta é uma rua de muitos restaurantes e bares, tem um público jovem, muitos falam alto, bebem cerveja, discutem música, alguns levam instrumentos musicais.

“Essa juventude é adorável”, falou. A seguir apontou um restaurante mexicano. “Conhece este lugar?”

Confessei que jamais o havia observado.

“Vamos experimentar?”

O que eu podia conversar com um estranho às oito e meia da noite, num dia de semana? Éramos duas pessoas sozinhas que subitamente estavam frente a frente, que tentavam algo que não sabiam verbalizar. Talvez ele, melhor do que eu, soubesse de modo mais claro o que desejava naquele momento. Os homens têm muitos ardis para conquistar as mulheres. Ao contrário, uma mulher sempre espera o impossível, para depois constatar que foi burra demais. Não demora, e acredita de novo. Eu acreditei.

“Há pessoas que são muito corpo, você não acha?”, o assunto era perigoso, mas enveredei por ele ao observar mesas com homens e mulheres esbanjando vitalidade, sentido prazer por estarem juntos uns aos outros, se tocavam, falavam alto e transbordavam entusiasmo.

“Corpo?, você tem razão”, falou, enquanto isso o garçom chegou com duas caipirinhas de tequila. “Você já esteve no Rio?”

“Tenho uns amigos lá, sempre me convidam, mas nunca fui”, respondi pesarosa.

“Lá é que eles sabem viver. Quando estive no Rio, mas precisamente na zona sul, reparei que eles se vestem de modo mais simples do que aqui, gostam de ressaltar o corpo; os rapazes musculosos, desses que não largam as academias, andam sem camisa na orla marítima. As mulheres quase não usam sapatos altos”, interrompeu e deu uma ligeira olhada para os meus pés. “Às vezes, no verão, saem da praia sete ou oito da noite e vão para um bar, pode-se ver uma porção de mulheres enroladas em saídas de praia...”

“Cangas”, emendei.

“... isso, é esse o nome; os homens, de sunga, e bebem até dez, onze da noite, é tudo uma grande festa."

“Vamos para lá?”, brinquei.

“Se você me convida, eu aceito, depois não vá fugir, viu?”

"Sempre quis ir ao Rio. Vou contar um segredinho. Sei que não devia dizer isso, mas dois goles de caipirinhas já me tocam fogo. O segredinho: gosto de andar nua,” Pronunciei a última palavra de modo quase inaudível, mas ele riu e completou a frase.

“Todas as mulheres gostam, mesmo que o neguem.”

“O Rio é favorável à nudez!”, soltei uma rápida gargalhada.

Beliscamos alguns petiscos. Ele falou sobre um livro. Depois descobri que era escritor.

“Sua profissão é ótima. Você conhece a natureza humana, pode aplicar esse saber á vida prática”, testei minha ignorância.

“Há um autor que aborda esse tema. Ele diz que o romance é o único local em que se pode observar o ser humano por inteiro. Mas não acredito, dizer isso é uma grande bobagem. Todo personagem de romance é inventado, mesmo que baseado em alguém. Não se pode saber se uma pessoa ‘real’ agiria do jeito que escrevemos. Caso isso fosse verdade, o romancista teria vantagem sobre todas as outras pessoas. Mas não é assim que acontece. Há muito romancista famoso cabeça de bagre.”

“Mas você está em vantagem sobre mim”, arrisquei mais uma vez.

“Em vantagem, como assim?”, perguntou e procurou em volta pelo garçom.

“Veja, você me abordou na rua, veio com uma conversa estranha, conseguiu que eu o ouvisse e acabou me trazendo para este bar. Não se trata de uma grande vantagem?”

“Pode ser, mas acho que há pessoas que não são romancistas e conhecem as mulheres melhor do que eu. Não tenho tanta sorte assim”, virou e pediu outra caipirinha. O garçom me olhou, mas apenas agradeci.

“Você tem muita sorte, sim, sou uma mulher muito especial.”

Riu e completou: “acredito piamente nisso, essa foi à razão de eu ter falado com você naquele ponto de ônibus.”.

“Então, são os olhos de romancista”, atalhei.

“Confesso que vou pensar melhor sobre esse assunto, mas se tenho tal olhar, é inconsciente, jamais falei com alguém pensando no que escrevo, ou tratando as pessoas como se fossem de papel. A natureza humana é muito complicada. Num romance, fazemos simplificações.”

“Como um autor se torna clássico?”

“Clássico? Como assim?”, reiterou.

“Clássico da literatura, muito famoso, quero dizer.”

“Talvez seja devido ao que você falou, talvez seja porque se trata daquele que conseguiu mais aproximar suas personagens da natureza humana. Veja Shakespeare, um dramaturgo que foi mestre na criação de persoangens.”

“Então o romancista consegue ver mais longe do que as outras pessoas...”, emendei.

“Veja bem, ficaram na história os escritores de melhor imaginação.”

“Você deve ser uma pessoa assim”, afirmei.

“Não é possível dizer isso sem ler os meus livros. Você os leu?”

“Não. Mas pela sua conversa, já deduzi que você entende de muita coisa.”

Ficamos durante algum tempo em silêncio. Terminei minha bebida, mas não dei sinal de que desejava outra, temia pelo que viesse pela frente. Tenho uma amiga que diz: 'caipirinha é bom porque logo sobe pelas pernas'. Acho que pelas minhas já tinha subido havia muito tempo. Meu interlocutor puxou novo assunto.

“Onde você mora?”

“No Itaim,”

Belo bairro, eu moro descendo a Brigadeiro, dá até para ir a pé.

“É lá que você escreve seus livros?”

“Às vezes, sim, às vezes não.”

“Os escritores precisam de modelos, assim como os pintores?”, aventurei-me.

“Claro que precisam, mas não da mesma forma. Os escritores devem observar uma pessoa e dali para frente criar. Mas há uma coisa, a maioria das pessoas vive de modo medíocre, não serve para serem personagens de literatura, para isso é preciso alguém de fibra.”

“Acho que vou beber mais uma”, falei ainda duvidosa. Mas ele logo chamou o garçom.

“A moça quer mais uma, por favor.”

“Será que saio daqui com as próprias pernas?”

“Claro, o que é gostoso deve ser saboreado; e se não sair, levo você em casa.”

O garçom voltou com outra tequila, de lima da pérsia. Como eu já estava meio altinha, pude sentir o paladar em todos os seus matizes. Pude também olhar o ambiente e as pessoas com mais detalhes, ouvir pronúncias, perceber com mais vivacidade os traços em seus rostos, também olhei o meu interlocutor e reparei que ele estava mais velho.

“Você tem esposa?”, tentava manter a seriedade.

“Já tive, faz tempo que vivo só.”

“E você gosta de viver só?”

“De certa forma não, mas um escritor nunca está totalmente só, acho que ele sempre está rodeado de gente, tanto quando lê, tanto quando escreve.”

“Mas não é gente de verdade”, falei depois de mais um gole.

“Não diga isso, para um escritor, embora os personagens sejam criações, sejam de papel como eu já disse, eles são tão reais como todas as outras pessoas. Será que Hamlet não é real?”

“E Capitu?”

“Uma moça certa vez me falou que viveríamos felizes sem Capitu. Mas discordei, e provei a ela que a humanidade seria extremamente pobre se Capitu não existisse. Depois de passados cem anos do lançamento de Dom Casmurro, ela é tão real como qualquer outra pessoa que tenha existido em carne e osso. Quase todas essas estão esquecidas, Capitu vive, é eterna.”

“É mesmo, não tinha pensado nisso”, falei, “depois que finda uma época e todos já morreram, os personagens de literatura sobrevivem, passam a ser tão importantes quanto os personagens históricos.”

Saímos do bar em torno de meia-noite. Eu não estava bêbada, mas alegre, sabia que tinha de acordar cedo no dia seguinte, mas não queria me desfazer da companhia.

“E agora, para onde vamos?”, perguntou.

“E agora, para onde vamos?, repeti e caí na gargalhada.

Enquanto olhávamos um para o outro, reparei que meu vestido era fino, transparente, insuficiente para a madrugada que avançava. Na verdade, já não havia o vestido, eu estava nua, nuinha. Esperava que seu abraço me agasalhasse.HáHáhhhh