quinta-feira, abril 24, 2008

Dilema

Joana entrou na loja, estava um tanto agitada.

– O que há, tudo bem? – perguntei.

– Preciso de umas roupas novas.

– Que bom. Tenho umas coisas ótimas, chegaram ontem à tarde, você vai adorar.

– Quero ver, vou experimentar todas.

– Fico feliz por ver você nesse entusiasmo. Alguma coisa mudou, não? – Perguntei enquanto, um tanto surpresa, olhava em sua direção. Procurei, porém, manter a discrição.

– Muitas coisas mudaram, agora vou ser uma mulher diferente.

Tirei as roupas das embalagens e fui colocando-as diante daquela mulher morena, alta, com expressão intensa.

– Andei adoentada, você soube, não?

– Acho que sim. Você desapareceu.

– Andei fazendo uns tratamentos, até que encontrei o médico certo, uma terapia nova.

– Que bom que você conseguiu.

– Descobri coisas que não enxergava antes. Agora quero explorar minha beleza, ser admirada.

– E sua filha, vai bem?

Ela me olhou de relance e se voltou para as roupas que tomava nas mãos. Temi ter tocado num assunto delicado, mas ela logo respondeu.

– Está tudo bem. Agora está na escola.

Lógico que eu não iria perguntar sobre o marido, já seria ir longe demais. Percebi que todos os problemas que ela vivera e talvez ainda vivesse tinha relação com ele.

– Precisamos nos encontrar fora daqui para conversar. Você vai gostar de me ouvir, aconteceram tantas coisas.

Tomou nas mãos dois vestidos, uma saia e uma blusa de tecido fino.

– Vou experimentar.

Enquanto estava no provador, chamou-me para que eu desse a minha opinião sobre as roupas em seu corpo. Não fiz mais do que elogiar. Vendo aquele corpo bonito de mulher, ainda pensei num outro modelo que achei que cairia melhor nela. Fui até um dos suportes, peguei a roupa e sugeri que ela também a experimentasse. A cor era preta; ela ficou deslumbrante.

– Vou levar tudo.

– Ótimo.

Depois que acertamos a forma de pagamento, ela pegou as embalagens, beijou-me e se foi sorridente.

– Precisamos nos encontrar num final de semana para conversar mais. Vamos marcar – sugeriu.

– Telefone, vai ser ótimo.

Joana era professora. Havia alguns meses que eu não a encontrava. Certa vez telefonei para sua casa com a intenção de lhe dizer sobre as roupas bonitas que recebêramos. Atendeu o marido. Identifiquei-me e disse que desejava falar com ela. Ele respondeu que a mulher andava adoentada, sofria de depressão e não queria falar com ninguém. Chegou a me dizer que ela precisava das amigas, que se pudesse fosse vê-la. Mas nunca fui. Não por não querer, mas devido à minha própria falta de organização.

No final de semana seguinte à sua estada na loja, ela me ligou e marcamos um encontro. Fomos a um dos restaurantes da orla marítima. Ela vestia uma das roupas compradas dias antes.

– Esse vestido ficou ótimo em você.

– Graças a você, amiga, que sempre tem o que é bom e melhor.

– Obrigada.

Ela levara a filha. Quieta, a menina comia um pedaço da pizza.

– Você sabe que estive doente?

– Sim, há alguns meses eu liguei pra você e seu marido me informou. Fiquei de fazer uma visita, mas nunca fui. Desculpe-me.

– Não precisa se desculpar. Sei os compromissos que as pessoas têm hoje em dia, é muito difícil corresponder a tudo.

– Mas se eu fosse mais organizada, poderia ter ido à sua casa fazer uma visitinha.

– Acho você tão organizada, tão, como se diz, tão centrada.

– É só impressão, sou um caos só.

Joana riu. A menina, sentada diante de nós, olhou-nos e sorriu também.

– Não sei o que aconteceu comigo, mas fiquei muito mal. Não sei como consegui me recuperar.

– Hoje essa doença é muito comum. E as mulheres são suas principais vítimas.

– Por que será, hein? – perguntou enquanto bebia um gole do copo de refrigerante.

– Não sei, mas desconfio que os homens sabem aproveitar a vida melhor do que nós. Por isso eles quase não sofrem desse mal.

– Talvez eles sofram, mas conseguem se desviar. Saem com os amigos, às vezes têm um caso extraconjugal, e acabam também por beber demais. Essas coisas servem de paliativo.

Escutava-se o leve marulhar, uma brisa suave chegava até onde nos encontrávamos, na varanda do restaurante. O local estava quase repleto, sobravam duas mesas.

– Eu acho que as mulheres sofrem de depressão porque não se realizam em muitos aspectos – insinuou.

– Como assim?

– Nós ficamos presas a alguém e acabamos por acreditar que somos felizes, enquanto a outra pessoa, na maioria das vezes, começa a deixar esfriar a relação, entende? Deixa cair na rotina. Então nós ficamos tentando, tentando e acho que é isso que adoece. Vou contar pra você porque sei que não vai passar adiante. Eu estava me sentindo muito sozinha, mesmo casada. Acho que isso me fez mal. Passei a fazer terapia, sabe? Ele, o terapeuta, me disse que eu tinha de me valorizar mais, tinha de sair, ter outras opções, que minha vida estava passando e eu estava deixando tudo de lado. Os homens parecem que ficam satisfeitos com seus pequenos afazeres. Nós precisamos talvez de algo mais, não sei.

– Acho que a gente precisa aproveitar, sim. Acho também que não se deve temer o fato de se ficar sozinha. Deve-se procurar graça nos pequenos prazeres.

– Como assim? – Joana mostrava-se curiosa com a minha simplicidade de ver as coisas.

– Por exemplo, adoro tomar café. Então em determinado momento da tarde, vou até a cafeteria próxima e tomo o café. Sorvo-o vagarosa, tento sentir o máximo de sabor. Depois fumo um cigarro. Hoje todos condenam o fumo, mas eu dou alguns tragos e sinto um prazer imenso. Mas veja, é preciso fazer as coisas com gosto. Não mecanicamente, só por costume; aí, nada mais tem graça.

– Acho que você tem muito prazer também em trabalhar, não? Vejo você apanhar as roupas com tanto carinho, arranjá-las de modo admirável. Fico observando você e penso que eu deveria ser assim. Você parece que sente prazer em tudo.

– Realizo-me em muitas coisas, você tem razão.

A menina acabara seu pedaço de pizza e queria mais um pouco de guaraná. Joana pegou o refrigerante e encheu o copo com mais um pouco da bebida.

– Você namora alguém? – perguntou-me Joana.

– Ah, todo mundo me pergunta isso, é impressionante. Acho que namoro todas as coisas.

– Verdade? Mas como você faz?

– Como eu falei, fazendo uma coisa de cada vez e com gosto...

– Mas e namorado, um homem de verdade?

– Não sei se existem homens de verdade. Às vezes prefiro ficar sozinha.

– Como você suporta?

– Não é que eu não tenha ninguém, mas não é nada muito sério, só diversão.

– Sabe, acho que eu deveria ser assim, como você, por isso quis marcar para conversar sobre isso.

– Sobre o quê?

– Sobre isso, sobre desejos, namorados, a vida enfim, não sei...

– Nós não podemos depender dos homens. Há pessoas que dizem que encontraram o par ideal, mas isso é muito difícil, todos têm problemas.

– É verdade – continuou – todas temos problemas. E às vezes é a falta de perspectiva de solução que nos deixa mal. Você nunca sofreu por alguém?

– Já, uma ou duas vezes. Mas passou rápido. Como eu disse, encontro prazer em quase tudo.

– Meu marido é boa pessoa. Gosto dele. Mas não sei o que aconteceu nos últimos tempos, nos afastamos muito.

– Acho que acontece com todo mundo. É difícil que tudo seja sempre como no início. Não quero dizer que isso seja motivo para não se ter ninguém, para se viver na mais completa solidão.

O garçom apareceu e eu pedi uma caipirinha. Joana se surpreendeu.

– A bebida não lhe faz mal?

– Bebo pouco; e caipirinha é melhor porque bebo apenas uma ou duas.

– Você sabe viver. Quem ensinou essas coisas a você?

– Ninguém. Ou melhor, gosto muito de ler. Assim encontro várias personagens, várias idéias, e acabo tirando um grande proveito de tudo. Mas leio romances mesmo, nada de auto-ajuda.

– Você é contra a auto-ajuda?

– Não, mas não gosto.

– Como a leitura ajuda você, então?

– Não leio para obter ajuda; leio porque gosto, por puro prazer. Quando se descobre o prazer que a leitura proporciona, não se quer outra vida. É muito legal.

Joana riu. Um vento mais forte varreu a beira da praia. Algumas pessoas encolheram os braços, outras ajeitaram o agasalho.

– Quando eu era solteira, tive um namorado que vivia lendo. E eu tinha ciúmes por ele encontrar tanto prazer em companhia dos livros. Até disse a ele que um homem não poderia se casar e ler tanto – Joana riu após as últimas palavras. – E olha, acho que ele é igual a você, está solteiro até hoje.

– Esse então também descobriu o segredo da vida – arrisquei e dei um ligeiro sorriso.

– E quando você arranja alguém que não gosta das mesmas coisas que você?

– Normalmente não fico com ninguém que não combina pelo menos em alguma coisa comigo.

– Mas esse seu jeito intelectual acaba por tornar você mais exigente...

– Só se for para um relacionamento mais longo. Quando percebo como o homem é, principalmente se é do tipo possessivo, na segunda ou terceira vez digo que não quero mais.

– E se ele for bom de cama? – Joana perguntou de um modo que a filha não ouvisse.

– Se o problema for esse, conheço muita gente boa de cama, não é preciso que seja um namorado.

Joana pôs-se a rir.

– Você realmente sabe viver, não?

A menina de repente falou:

– Mãe, lá vem o papai.

E realmente vinha.

– Eu disse para ele que estaríamos aqui, espero que você e não se incomode.

– Não, claro que não.

O marido de Joana chegou sorridente. Parecia que já tinha bebido um pouco. Beijou a filha, a mulher e me cumprimentou. Sentou-se e pediu um chope ao garçom que se aproximava.

Dali em diante ficamos algum tempo em silêncio. Depois, Joana pôs-se a lhe contar sobre as roupas que comprara e sobre a loja em que eu trabalhava. No final, deixei-os; aleguei um compromisso para aquela noite ainda. Sorriram. Não me deixaram pagar minha despesa. Joana ainda me beijou e, pelo movimento que fez com os olhos, percebi que sentira atração pelo meu posterior compromisso.

quinta-feira, abril 10, 2008

A galeria

A galeria Carapebus fica no Centro, como quase todos sabem. É um corredor de passagem entre duas importantes ruas. O local alinha lojas famosas, como diversas butiques de roupas masculinas e femininas, uma cafeteria, uma revistaria, uma loja de CDs e DVDs, uma delicatessem e um caixa eletrônico da Caixa Econômica. A galeria ainda recebe as pessoas que vão ao Tropical Plaza, um pequeno shopping que se situa ao lado e também é local de lojas chiques. Quem olha para o alto quando anda sobre o passeio da rua principal, pode observar dois edifícios que completam o conjunto arquitetônico. Nas salas comerciais, há uma variedade de consultórios, escritórios de advogados e de administradores de imóveis; vez ou outra se sabe de algum atelier de artista famoso ou studio reservado a gente talentosa.

Eu trabalhava havia dois anos em uma loja de roupas femininas. Uma das melhores na cidade. Sempre recebia a visita de jovens e de senhoras da sociedade. Experimentavam os modelos, e algumas aguardavam as novidades que vinham do Rio ou de São Paulo. Vez ou outra, recebíamos visitas de homens; sobretudo os de meia-idade. Vinham comprar presentes para as esposas ou mesmo para as amantes. Essas também frequentavam a loja e, com muita discrição, faziam compras cujas somas eram saldadas pelos respeitosos senhores. Eu conhecia quase a todos; e a proprietária, uma mulher educada, acostumada aos sabores vários das relações interpessoais, confiava a mim o atendimento discreto da variada clientela. Sempre sorrindo, sem demonstrar maior intimidade, eu me aproximava dos clientes e atendia todos com esmero.

A cidade em sua extensão e em seus quase duzentos mil habitantes não era uma cidade pequena; os antigos moradores, porém, não deixavam de se cumprimentar e sempre paravam para falar sobre algum assunto. Vivia-se o delicioso mundo das aparências, em que todos se fazem de sóbrios, mas não abandonam a embriaguês provocada pela possibilidade de um relacionamento novo e excitante. Assim nós vivíamos nossa pequena felicidade, entre beijos, abraços, e uma aproximação maior quando era conveniente.

Certa feita eu tive um namorado. O rapaz passava constantemente diante da vitrine e sorria para mim. Fingia apreciar os manequins expostos e, às vezes, entrava para fazer alguma pergunta sobre as mercadorias. Como a loja não tinha roupas masculinas, via-se embaraçado. Quando eu o indagava para quem era o presente, ele pigarreava e inventava pessoas diversas. Na verdade, nada comprava. No dia seguinte, lá estava ele de novo a olhar através do vidro o mundo multicor das roupas femininas.

Uma vez falou:

– Roupa de mulher é coisa bonita, os homens não têm tantas opções...

– São poucos os que pensam assim, você é uma pessoa de sensibilidade.

Minha frase lhe soou como um elogio, e ele passou a me visitar com mais freqüência. Um dia me convidou para tomar café na cafeteria próxima. Passamos então a conversar mais, enquanto eu sorvia um expresso e comia com delicadeza o pequeno biscoito que acompanhava a bebida. Certa vez lhe pedi um cigarro. Assustou-se. Disse que não fumava e admirou-se que eu me prestava a tal vício. Respondi-lhe que não era um vício, mas prazer. Ele ainda insistiu na proibição de fumar em lugares fechados. Devolvi atenuando-lhe a preocupação:

– É que poderíamos conversar mais um pouquinho dando uma volta pela quadra, até atingirmos a outra entrada da galeria.

Depois daquele dia, além do café, completávamos nosso encontro com o pequeno passeio. Um dia ele me convidou para sair à noite.

Notei que tinha idéias estranhas. Estava à procura de alguém para casar. Percebi que fora criado de modo muito conservador; o que não era raro na periferia da cidade. Tinha uma família numerosa e se pôs a contar toda a sua história enquanto caminhávamos pela orla marítima. Reparei também que ele não costumava fazer aquele passeio; conhecia pouco por ali.

Apesar da pouca idade, eu já tivera outros relacionamentos; com jovens e com homens mais velhos. Ele quase não me tocava, então fiquei desconfiada de que não me convidaria para um contato mais íntimo. Não foi o que aconteceu. Saímos naquela mesma noite e ele não era mal; mas, como não tínhamos lugar para ficar, acabei levando-o para minha casa. Antes, porém, enquanto andávamos, nem mesmo me convidou para beber ou comer algo. Fui eu que o alertei que estava com sede e desejava beber água de coco.
Já naquela ocasião, pude perceber que tipo de homem ele era. Daí em diante, planejei me afastar e continuar minha vida de mulher livre.

Nos dias que se seguiram, continuou a aparecer e insinuou certo desejo de posse sobre mim. Tomei mais duas vezes café em sua companhia e fumei o meu cigarro. Não demorei a lhe dizer que não mais iria acompanhá-lo; poderíamos ser amigos, mas que não me assediasse, não desejava passear com ele todos os dias. Creio que ficou decepcionado. Desapareceu por uns quinze dias, até que ressurgiu e me acenou através da vitrine. Correspondi, mas não saí quando acabei de atender a cliente. Depois disso, nunca mais voltou.

Não sei dizer o motivo, mas na maioria das vezes quando estou sozinha, sinto-me a mulher mais feliz do mundo. Não preciso me preocupar com ninguém nem refletir se estou agindo de modo a ferir aquele que estaria ao meu lado. Passei assim uns dois meses. Trabalhava, saía para meu lanche, voltava para a loja, retornava a casa, lia algum livro, ouvia música e nada me incomodava. Às vezes ia à orla marítima, encontrava uma amiga, então sentávamos em algum restaurante para jantar ou mesmo para beber alguma coisa. Aos domingos havia vezes em que todos os meus amigos iam à praia; meu telefone não parava de tocar. Era normal eu não atender; dormia até tarde e só lá pelas três horas eu aparecia na praia. Mas mesmo assim não era para um banho de mar; às vezes para almoçar, outras para tomar um suco. É claro que eu não optava eternamente pela mais completa solidão. Às vezes eu aceitava algum convite para sair à noite ou mesmo me esforçava para acordar cedo, isto é, lá pelas dez, e ir à praia com alguém interessante.

Até que surgiu um senhor cerca de vinte ou vinte e cinco anos mais velho do que eu.

A primeira vez que o vi foi na própria loja. Entrara como todos em busca de uma roupa bonita para presentear alguém. Mostrei-lhe vários modelos. Tratei-o com o profissionalismo que costumo atender os clientes. Notei, porém, algo diferente nele. Olhava-me sorrateiro e não demorei a desconfiar de que ele tinha outro interesse além do presente que procurava. Comprou um vestido longo, traje para noite, um tanto formal, não era o que se usava com freqüência na cidade mesmo em ocasiões especiais. Mas não deixava de ser bonito. Alguns dias depois, voltou para me agradecer. Disse que a pessoa a quem presenteara adorou a roupa. Tentou retribuir-me com algum presente. Eu disse que não poderia aceitar; fizera o meu trabalho e não competia aos clientes pagarem nada a mais do que o preço da mercadoria. Não desistiu. Voltou outras vezes.

Andava sempre bem vestido. Como trabalho com roupas e as conheço, reparei que ele tinha bom gosto. Vestia roupa social de grife; às vezes quando o vi trajando algo mais esportivo, observei que as etiquetas eram de roupas caras, compradas no Rio ou em São Paulo. Era bastante ardiloso em conquistas amorosas. Percebia-se que dificilmente alguma mulher deixaria de cair em suas mãos caso ele assim o desejasse. Apesar de beirar os cinqüenta anos, era jovial; conversava sobre muitos assuntos e demonstrava ser pessoa de alguma cultura. Freqüentava vez ou outra a vida cultural do Rio e mostrava-se sempre atualizado em relação a peças de teatro e a filmes em cartaz naquela cidade.

Não desanimou ante a minha recusa. Continuou a aparecer na loja. Comprou mais alguma coisa e, num final de tarde, enquanto um vento suave acariciava a cidade, fez de conta que me encontrou ao acaso na porta de uma das saídas da galeria e me ofereceu carona. Eu tinha, na época, uma motocicleta, mas naquele dia não viera nela. Acabei por aceitar sua oferta. Foi então que ele me levou para jantar. Eu disse que não tinha fome, que tinha lanchado havia apenas uma hora; ofereceu-me então uma bebida e um passeio de carro pela orla. Levou-me mais tarde ao restaurante mais conceituado do local. Ficamos horas conversando. Percebi que era pessoa agradável. Daí em diante, não mais me mantive na defensiva e passei a tratá-lo com mais carinho.

Passamos a nos encontrar uma vez na semana. Eu não me incomodava, pois também tinha tempo para meus livros e CDs. Num dos encontros, presenteou-me com uma jóia. Olhei-a demoradamente e disse:

– Não posso aceitar seu presente.

– Não faça essa desfeita.

– Não é desfeita; não posso...

– Mas qual o motivo?

– Não posso.

Ele guardou a pequena embalagem em um dos bolsos do paletó e manteve-se como se nada tivesse acontecido. Quando nos despedimos, pela primeira vez tomei a iniciativa de beijá-lo; foi um longo beijo. Ele colocou a mão em um dos bolsos. Creio que tiraria o presente para me ofertar de novo. Mas segurei sua mão e não permiti que ele fosse além da intenção.

A seguir, durante três semanas desmarquei todos os encontros com ele. Ele aparecia na loja um ou dois dias depois ou telefonava, fingia que tudo ia bem e nada falava sobre nossas frustradas saídas.

Depois deixou de me convidar por algum tempo; passava, apenas acenava e seguia o próprio caminho.

– Você despreza uma grande oportunidade – disse-me a dona da loja.

– Você o conhece?

– É gente importante na Petrobras.

– E o que isso tem a ver?

– Qualquer mulher desejaria um homem desses, acho que você perde...

Nunca havia dado satisfações a ela, mas como era uma mulher inteligente, não deixou de observar as investidas dele.

Alguns dias depois, quando estava no mesmo restaurante que fora com ele, mas sozinha, avistei-o. Estava acompanhado de uma mulher muito bonita.

Após alguns dias, surgiu de novo na galeria. Chamou-me e fui tomar café naquela mesma cafeteria. Depois pedi que me acompanhasse até lá fora, porque queria fumar. Agiu com todo o cavalheirismo e acabou por me convidar para sair à noite. Pedi que marcássemos o encontro para o dia seguinte.

O encontro aconteceu, embora ele pensasse que eu não apareceria. Jantamos e bebemos vinho. Ele estava, como sempre, muito bem trajado. Ventava, e trouxera um pulôver verde musgo; sua calça era cinza e, sob o agasalho via-se uma blusa bege com a gola alta circundando o pescoço. Conversamos durante muito tempo. Nada falou sobre sua vida particular ou sobre a família. Também nada perguntei. O assunto girou em torno de uma exposição de livros que ocorria no Rio. Como soubera da minha paixão pela leitura, pôs-se a falar sobre uma infinidade de livros. Quando deixamos o restaurante, lá pelas onze horas, pedi que andássemos um pouco pelo passeio que beirava as areias da praia. A noite estava bonita e algumas pessoas também caminhavam. Ouvia-se o leve marulhar da maré baixa; e a iluminação da avenida, apesar de um tanto sóbria, esticava suas luzes até a beira d’água. Vez ou outro um cordão de restinga substituía as areias e se estendia em direção ao mar. Fomos até o último prédio, que era de um hotel; dali em diante, as areias e o mar enfiavam-se numa escuridão amenizada apenas pelas luzes que vinham do céu. De um lado, o terreno arenoso; de outro, o mar. Resolvi pregar-lhe uma peça. Tirei a sandália e comecei a correr areia adentro em direção ao pedaço da praia que ficava quase na escuridão total. Gritei para que me seguisse. Ele estava muito formal para descer à beira-mar; mas acabou vindo atrás de mim. Pus-me a correr e reparei que ele não me alcançaria. Quando quase tateava na escuridão, agarrei-o por trás e beijei-lhe a nuca. Ele virou-se, me abraçou e procurou com os lábios minha boca. Comecei então a tirar toda a roupa.

– Aqui não, pode ser perigoso.

Quando acabou de falar, eu já estava nua. Namoramos ali mesmo. Eu, sôfrega e ele, um tanto temeroso.
Depois desse dia, passou a vir à loja com mais freqüência. Deu-se quase o mesmo que ocorrera com o rapaz anterior. Comecei a me sentir tolhida. Ele nada falava, mas dava a impressão de que queria ter algum poder sobre mim. Agia como se eu já lhe pertencesse. Saímos mais duas vezes. Na última, eu disse que não queria mais.

– Mas o que está havendo? Você não está gostando de sair comigo? Eu não estou agradando?

– Não é isso, o problema deve ser meu – ainda amenizei.

Ele ficou muito decepcionado.

Um portador veio trazer-me um presente dois dias depois. Não quis receber. Devolvi-o sem olhar o que era e sem ler o bilhete que ele escrevera. Desapareceu por exato dois meses. Ressurgiu depois como se nada houvesse acontecido e me convidando para jantar. Mantive-me fria e resoluta. Disse que tinha outro compromisso.

Um mês e meio depois conheci um alagoano. Chegou sorridente à loja e disse que não desejava comprar absolutamente nada. Entrara porque jamais vira uma mulher tão linda como eu. Palavras dele. Era mergulhador. Trabalhava na exploração de petróleo no fundo do mar. Era um homem jovial e alegre. Convidou-me para um encontro mais tarde. Respondi que não poderia. Não queria aceitar seu convite logo numa primeira vez. Lamentou que só pudesse rever-me quinze dias depois, porque seu trabalho exigia que ele embarcasse no dia seguinte.

– Não há problema, depois, quem sabe, a gente se encontra.

Deixei assim uma porta aberta para o futuro. Ele sorriu debochado e esperançoso; seu rosto trazia uma luminosidade inexistente nos homens que eu conhecera até então. Deixou seu nome e telefone escrito num canto de papel.

– Eu posso telefonar de vez em quando da plataforma, se você quiser; não quero constrangê-la pedindo seu número; caso haja interesse seu, dê uma ligada que eu passo a telefonar.

O sorriso dele encerrou a conversa e a fisionomia altiva demonstrava certeza da conquista amorosa. Ainda sussurrou:

– Você é muito especial, não posso deixá-la escapar.

Mantive-me fria, resoluta; estava sozinha na loja, mas era uma profissional, talvez fosse esse o segredo de meu sucesso. Embora a presença dele e toda sua alegria tenham me contagiado, representei alguém que não se comovera.

Quando ele se foi, recortei o número do pequeno papel e coloquei na agenda.

Sabia que os homens que trabalham no mar, nas plataformas, ficam embarcados pelo menos durante quinze dias. Não quis precipitar-me, por isso deixei passar os primeiros dez dias. Então um dia à noite, telefonei. Alguém atendeu e pediu que eu esperasse um pouco. A mesma pessoa retornou:

– Por favor, deixe o recado, no momento ele não pode atender.

Deixei meu número.

No dia seguinte, ao amanhecer eu rolava ainda na cama, sonolenta, quando a campainha do telefone soou. Demorei a atender. Quando tomei nas mãos o aparelho e respondi, ouvi a voz dele, a mesma voz que me abordara na loja, numa inflexão jovial e alegre; do jeito que ele falava, até parecia estar em férias numa praia do nordeste.

– Oi, amor, como vai essa coisa deslumbrante?

– Coisa o quê? – eu não havia entendido a última palavra.

– Coisa deslumbrante.

– A, sim, se você visse o meu rosto agora, não iria me chamar assim.

– Gata, você é a coisa mais deliciosa desse mundo. Não há comparação. Nem as águas do mar, a luz do sol, o brilho prateado das estrelas são capazes de disputar com você.

– O brilho prateado de quê? – quis fazê-lo repetir.

– Das estrelas! O brilho prateado das estrelas!

– Alguém está ouvindo essa conversa aí?

– A plataforma inteira está exultante, me considera o homem mais feliz do mundo.

– Não diga.

– Eles têm inveja, dizem que eu sou assim porque sou do nordeste e que lá ou se morre de fome ou se vive para amar.

Conversamos durante quinze minutos. Falou então que não demorava a desembarcar e queria ficar comigo bastante tempo.

– Vamos devagar, ainda nem nos conhecemos...

– Nem é preciso; enquanto formos assim, nos amaremos sempre – percebi uma ruidosa gargalhada.

Ri também. E acabei achando que ele tinha razão.

Naquele dia senti, ao sair para trabalhar, que os meus olhos tinham outro brilho.

Após cinco dias, ele apareceu de surpresa na loja. Não telefonara para dizer que já estava em terra, nem havíamos marcado encontro algum.

– Meu amor, minha adorada criatura, estou aqui para lhe dizer que nunca vi uma deusa com tamanha beleza.

Ajoelhou e pôs-se a fazer mesuras.

– Levante-se, se alguém vir você nessa posição vai achar ridículo.

– Pois que ache; o amor na verdade é ridículo, mas não se deixa de amar por causa disso.

Saímos à noite.

Ele era intempestivo. Arranjou um carro com alguém e resolveu guiá-lo por vários lugares. Onde parava tinha um conhecido; ou passava a travar conhecimento imediatamente. Fomos a três lugares antes de pararmos para jantar num restaurante que ele achou adequado para me levar. Então começou a falar em voz baixa, a recitar versos, disse que estudara no ensino médio com um professor que o fizera gostar de literatura; falou-me sobre vários livros e emendava em versos de amor. Se ele já tivesse bebido, creio que diria que estava bêbado, mas não era verdade. Acho que ele possuía uma embriaguês natural. Conversamos, comemos e bebemos. Nessa noite, até exagerei; devido ao seu entusiasmo pela vida, ou mesmo por mim, como não cansava de dizer, acabei por beber um tanto além do que estava acostumada.

– E agora, o que vamos fazer? – perguntou enquanto íamos em busca do seu automóvel, após o jantar demorado.

– Acho que não consigo fazer mais nada – insinuei.

– Tem certeza?

– Acho que sim.

Então ele parou diante de mim, me abraçou e me beijou, num beijo longo e cheio de carinho.

– Temos tempo, não é mesmo?

– Talvez a vida inteira – eu disse.

– Isso, a vida inteira.


Os dias se passavam e nós acabamos por nos encontrar quase toda noite. Cada vez íamos a um local diferente. Comíamos e bebíamos; eu sempre preocupada em não exagerar. Sempre mantivera o equilíbrio na maioria das situações e não seria agora que eu me deixaria arrastar por uma paixão que não sabia até quando iria durar.

Em todas as noites em que saíamos, acabávamos um sobre o outro; às vezes na minha casa, outras em algum hotel. E não foi raro que namorássemos à vontade, ao ar livre, com as estrelas e o negrume da noite a cobrir nossos corpos. Ele me possuía com um ardor que eu jamais vira em outro homem.

No sábado seguinte fizemos um programa mais demorado. Fomos passar o fim de semana em Rio das Ostras, a próxima cidade na direção sul. Chegamos em torno das dez e trinta da manhã, percorremos várias praias, paramos na Costa Azul e resolvemos mergulhar. Depois permanecemos sob o sol; não demorou para que nos abraçássemos e começássemos um namoro, de início comportado. O mar estava calmo, as ondas deslizavam e desfaziam-se em grossas camadas de espuma quase junto à beira-mar. O céu era de um azul intenso, não havia sequer uma nuvem. Quando saí do primeiro mergulho e senti a luz dourada do sol em contato com o meu corpo frio devido à temperatura baixa da água, fui envolta num prazer quase táctil. O prazer foi tanto que eu nada quis beber nem dar alguns tragos no cigarro (não era tabaco) que meu companheiro trazia. Ficamos longos minutos em silêncio, a contemplar toda aquela paisagem. Às vezes, na vida da gente, acontecem alguns momentos que sabemos que ficarão registrados para sempre, por isso queremos aproveitá-los ao máximo.

Deitei num pedaço de areia sobre uma toalha grande. Ele se pôs a espalhar as gotículas que ainda insistiam e escorrer pelo meu corpo. Continuei deitada, os olhos fechados, como se estivesse adormecida e envolta num sonho do qual jamais desejaria despertar. Seus lábios, também frios, procuraram os meus, e nos tornamos mais juntos num beijo molhado, um beijo que comungava com o dia límpido, a água gelada, o sol ainda morno e uma alegria difícil de colocar em palavras. Depois ele tateou minhas costas, escorregou os dedos por minha cintura, margeou-me as ancas e tocou como quem não quer nada (ou quer tudo!) as tiras de meu biquíni. Eu pensei: “ai, meu deus, assim eu morro”.

Uma hora depois fomos para a praia da Joana. As outras pessoas ainda chegavam e o ambiente quase deserto predominava. Alguma barraca aqui, outra ali; mais adiante o vendedor de cerveja e alguns comestíveis; e, olhando na direção do horizonte, o mar infinito. Foi aí que aconteceu, mergulhamos mais uma vez. Éramos as únicas pessoas a nos banhar naquele pedaço de mar. Enfiávamos a cabeça por baixo d’água, procurávamos um ao outro; agarrávamos-nos, escapávamos um do outro, voltávamos a nos encontrar e depois nos separávamos mais uma vez; os cabelos a escorrerem a água quase prateada, nossas faces encharcadas refletiam os raios dourados do sol. Eu era uma sereia em corpo inteiro de mulher; leve, escapulia, deslizava, para logo em seguida ser envolta pelos braços dele. Uma de minhas escapadas foi mais demorada, submergi e, quando voltei à tona, ele me enlaçou de surpresa, mantendo-me atada ao seu corpo; então me deixou nua...

Até as duas horas ficamos ali; ora dentro d’água ora sobre as areias. Quando já estávamos embriagados de amor e da paisagem, ainda compramos algo para beber. Tomei uma caipirinha e ele bebeu cerveja. A bebida ainda nos tornou mais alegres e excitados, e fez que nossos corpos sempre tivessem necessidade de estarem juntos.

À tarde, procuramos um restaurante para saciar nossa fome. Encontramos um, bem de frente para o oceano, onde pudemos ficar num deck que nos proporcionava uma vista magnífica de todo o litoral. Pedi mais uma caipirinha e, em determinado momento, bebi alguns goles do chope dele. A comida, à base de peixe, contribuiu para que o dia continuasse envolto em mil maravilhas.

Quando acabamos, voltamos à praia, mas procuramos um lugar deserto, ou quase, já que o dia de sol havia atraído as pessoas para o banho de mar. Fomos até uma praia chamada Águas Lindas; permanecemos um pouco sobre o sol e depois entramos na água mais uma vez. Tudo o que vivêramos pela manhã se repetiu; naquele momento, no entanto, com mais intensidade, pois a bebida nos ascendera recantos inexplorados. Então ele, como num passe de mágica, fez desaparecer as duas pequenas peças que eu vestia. Em algum momento, sorrindo e adorando a situação, ainda soprei em seu ouvido:

– Quero ver como vou sair pelada daqui.

Ele nada falou, enganchou-me num longo beijo como se dissesse com brandura “tudo será resolvido”. Jamais eu vivera um fim de semana com tal intensidade.


Depois de uma semana, ele disse que tinha um compromisso em outro estado e que precisaria estar fora por alguns dias. Despediu-se aparentando uma terrível desolação por ter de me deixar. Falou que sofreria muito. Após ter conhecido alguém como eu, jamais sua vida seria plena durante o tempo em que estivéssemos afastados.

Animei-me – por louca que me chamem – depois que ele partiu. Assim eu poderia voltar ao normal. Trabalharia com a segurança e a tranqüilidade de sempre e depois teria tempo para me dedicar aos meus prazeres prediletos: ler, caminhar pela praia e ficar sozinha. Apesar de estar gostando muito dele e de sua companhia, não queria ter a minha vida toda modificada. Desejava reger meu destino; lógico que era bom ter um namorado, ou um companheiro, sei lá como nomear, mas, ao mesmo tempo, não desejava que minha vida se transformasse de modo tão avassalador.

Uns dias depois, após fechar a loja, encontrei uma amiga que me convidou para tomar um chá num bistrô recém inaugurado. Chamava-se Marlene.

– Graça, você precisa conhecer o namorado que arranjei! – ela disse entusiasmada.

– Olhe, não saia por aí contando para todo o mundo, dá azar, viu? – enfatizei.

– Não estou contando pra ninguém, só pra você.

– Obrigada pela confiança...

– Escute, estou a mil, nunca vivi um relacionamento assim.

Enquanto ela falava, eu pensava também em meu namorado. Será que ela nos havia visto junto e contava algo só para eu também falar sobre mim? Não falaria nada, apenas ouviria sua história.

– Olha, nunca tive ninguém assim, o cara me faz sentir coisas mirabolantes.

– Mirabolantes? Como? – eu incentivava.

– Nunca falei intimidades minhas para ninguém, porém como você é uma pessoa discreta, vive sempre calada, profissional, nunca se ouve nada a seu respeito, vou contar...

E desfiou uma conversa miúda. Começou pelo relacionamento que tivera antes.

– Lembra do Osvaldo? No começo eu pensei que ele era o homem ideal para mim, mas com tudo o que aconteceu...

– Você não disse que o amava, que era o homem da sua vida?

– Disse, mas me enganei; com o passar do tempo ele mudou, houve aqueles problemas que você sabe, ou já ouviu falar por outras bocas; ele passou a beber em excesso e se tornou um homem violento. Mas deixa eu te contar sobre meu novo namorado.

– Conta então; esqueçamos o passado.

– Isso mesmo. Nunca vi ninguém assim; ele me pega de maneira rude, mas depois se torna tão carinhoso, torna-se o homem mais carinhoso do mundo; e fica dentro de mim um tempo enorme; que prazer eu sinto!

– Que bom que você tenha encontrado alguém à sua altura...

– Isso mesmo, eu mereço um homem assim. E, olha, ele me despertou pra uma coisa que eu nunca tinha pensado.

– O quê? Me conta – eu a fazia falar, desse modo me mantinha incólume.

– Umas fantasias, sei lá; pensei que essas coisas aconteciam apenas em histórias, ou em filmes, mas sinto um enorme tesão quando as praticamos.

– O que, por exemplo?

– Coisas como sair de casa com ele, depois da meia-noite, quase nua!

– É mesmo?

– Isso. Outro dia saí com um vestido curtíssimo; não estou mais em idade de andar nua por aí, até lembrei uma vez quando eu era adolescência e terminei uma noite pelada, sem ter o que vestir. Saí com um vestidinho preto, bem justo ao corpo; e sem nada por baixo. Quase deixei o homem louco!

– E o que mais?

– Ah, são tantas as coisas. De outra vez fomos à praia do Pecado, também de madrugada. E ele me deixou nua... Namoramos sobre as areias, ventava, e quando acabou não encontrei minha roupa; ele disse: “calma, vamos encontrar”, e pôs-se a procurá-la. Quando eu não tinha mais esperança e pensava, ai meu deus, vou ter que voltar nua pra casa!, ele a achou; então me pegou no colo e me penetrou mais uma vez.

– Deve ter sido fascinante.

– Ora, se foi! Mas tem mais uma coisa; tenho um pouco de vergonha de contar; pra você, porém, acho que consigo. Quis que ele realizasse um sonho antigo...

– Qual?

– Escute, quem sabe não seja o sonho de toda mulher. Eu pedi pra que ele me deixasse nua, de madrugada, numa das margens da BR. Paramos o carro lá, uma escuridão só, e eu desci. Nua! Ele percorreria um quilômetro ou mais e voltaria pra me pegar. Fiquei ali, no maior breu; vez ou outra passava um carro ou um caminhão, então eu me abaixava junto ao mato para ficar escondida. Cheguei a pensar: se ele não volta, se se perde de mim, se o carro enguiça? Mas essas coisas me faziam trêmula e excitada. Até que ele voltou; trepamos num recanto em que ele parou. Eu ainda nua, toda molhada de emoção e de prazer; nunca gozei tanto. Só em falar fico excitada.

– Marlene, cuidado com essas coisas. Eu sei que são excitantes, mas se não der certo, se acontecer algum problema, você vai passar maus bocados; a cidade ainda é provinciana e se alguém encontra você nua por aí...

– Ai, isola, isso não vai acontecer. Mas fala de você, também tem alguém, não?

– Tenho. Você sabe como sou. Até gosto de namorar, gosto dessas coisas também; no fundo acho que todas nós gostamos. Porém, mantenho um certo domínio sobre mim mesma, não quero depender física nem emocionalmente de homem algum.

– Você é diferente, não é mesmo?

– Nem tanto, é questão de autocontrole. Gosto de ficar sozinha, de ler, de curtir a natureza em silêncio.

– Mas como te disse, estou a mil e super feliz.

– Fico feliz por você também. Vê se aparece lá na loja.

– Vou sim.

Ela se foi e eu voltei pra casa. Naquela noite acabei de ler um livro de uma escritora inglesa que contava uma história ambientada nos anos de 1960. Na verdade, um período muito mais avançado em matéria de sexo do que a época em que vivíamos.


O tempo passou. Meu namorado voltou outras vezes. Quando ele estava em terra, saíamos e aproveitávamos. Tivemos quase todas as experiências amorosas e sexuais. Fizemos amor nos locais mais improváveis. Talvez se minha amiga soubesse, ficaria de cabelos em pé. Mas nunca contei nada pra ninguém.

Ela viveu o seu romance de modo intenso, mas não conseguiu permanecer com seu homem por muito tempo. Não soube por ela, mas por suas conhecidas; vinham me falar da vida de outras pessoas sem que eu nada perguntasse.

Apesar de gostar muito de meu namorado, sempre procurei manter minha independência e individualidade. Mesmo nos dias que ele passava na minha casa. Também nunca perguntei nada o que fazia quando estava longe de mim. Ele, do mesmo modo, vivia apenas o momento; nada de interrogatórios ou atitudes que demonstrassem ciúme. Creio que foi isso que o manteve e o mantém junto a mim.

Amamo-nos muito, mas antes de tudo e em primeiro lugar, amamos a nós mesmos.

quarta-feira, março 26, 2008

Segredo

Nua, sento-me na cama e olho o quarto. À meia-luz, cruzo os braços sobre os seios. Ele já se foi. A sacola que trouxera chamara-me a atenção. Dessas sacolas esportivas, de grife. Parecia um atleta. Lembro quando me avistou na rua há algumas horas. Sorriu, fez que me olhava sorrateiro. Eu conversava com a Lúcia. Pedia a ela um favor. Acho que ele ouviu nossa conversa. Excitou-se. E na rua tinha tanta gente. Ele sabia de mim, e sabia tudo. Lúcia ainda procurou na bolsa o que eu pedira. Deixa pra depois, falei. Não queria perder o homem. Tão bonito. Acabamos num quarto de hotel. Foi uma festa. Acho que teve medo de que eu olhasse o que havia dentro de sua sacola. Manteve-a próxima de si. Nem me aproximei. Tirou minha roupa. A saia curta e a blusa justa. Por falar em blusa, nem consigo encontrá-la agora; vejo apenas a saia jogada no chão, junto aos meus sapatos. Deslizou então as mãos por sobre o meu ventre. Pareceu adivinhar. Arrepiei-me. As mulheres como eu ainda se arrepiam? Claro, embora muitos pensem que não. Disse que eu era cheirosa. E como! Perfume francês. Massageou meus ombros, tocou de leve minhas costas, apalpou-me. Afastei as pernas. Comporte-se, ouvi-o dizer. Quase enrubesci. Sentei-me, cruzei as pernas, tapei os seios e esperei. Ele escalou-me cuidadoso. Quando me tocou decidido, eu disse: sou virgem e estou morrendo de vergonha. Rimos, rimos muito. Não ceda agora, ouvi-o de novo. Você é linda quando faz o papel de uma garota nova, ainda fresca, com as pernas cruzadas, duvidosa do que a espera. Ri de novo. Então ele me levantou. Como era forte! Não se deite, vejamos se você suporta; as garotas não gostam da primeira vez. Vou adorar, insinuei. Eu sei, rebateu, mas não me conte seu segredo. Não resisti, abri-me. Flor noturna que se escamoteia ao admirador mas não deixa de exalar perfume verdadeiro, ou mesmo aroma de Afrodite. Você está se desmanchando em mel, falou baixinho ao meu ouvido. E você nem experimentou, retruquei. As prostitutas não são como você. Quem falou que sou prostituta?, fiz-me de gata morena manhosa. É, tem razão, prostitutas não saem para trabalhar sem a calcinha. Trepamos por uma hora inteira. Quando acabou, sorriu, vestiu-se, pegou a mala e se foi. Um sonho, como poucas vezes acontece. O preço? Não perguntou, mas deixou mais do que devia. Apenas uma coisa me tornou curiosa: a sacola. Agarrou-se a ela como se ali residisse todo o segredo dele. O importante é que tudo foi tão bom... Agora, tenho que encontrar minha blusa.

domingo, março 16, 2008

Na verdade eu queria estar vestida como você; é só por alguns minutos

Eu ia de blusa fina de alcinha e mini-saia, abraçada ao meu namorado, no terceiro piso do Botafogo Praia Shopping. De repente, olhei para um homem que vinha na direção contrária. Estava só, apesar da meia-idade era jovial, usava óculos e seus cabelos eram compridos, presos em forma de rabo de cavalo. Ele olhou para mim e se admirou – tenho certeza – da saia muito curta e de minha pele bronzeada; percebeu também que eu o observava. Não sei por que, mas tocou-me lá no fundo, despertou-me desejo recôndito. Meu namorado nada notou. Pensei como seria bom estar só com aquele homem e tê-lo por alguns instantes, em silêncio, mesmo sem saber seu nome. Mas eu tinha meu namorado; e era noite de sábado. Lá fora o ar estava quente; dentro do shopping, o ar-condicionado aplacava o calor da noite e talvez a fome de nossos desejos. Eu nada podia reclamar; ia ao lado de um homem jovem, de corpo torneado em academias da moda, de pele dourada e vestido com roupas de grife, muito elegantes. Aonde íamos? Não lembro. Passeávamos. Creio que a ver vitrinas, a admirar a beleza colorida e estampada aqui e ali, ou a observar alguém que nos cruzasse o caminho; e mesmo a comentar às claras, um ao outro, o que nos instigava seu olhar. Havia ainda os cinemas. Talvez observássemos alguns cartazes e, caso algum filme nos interessasse, mergulharíamos na sala escura, na tela plena de luz, num mundo de imagens e fantasia. Depois, já tarde da noite, pararíamos em algum bar da moda, ou mesmo num restaurante chique. O vinho e alguma comida mais rubra tingiriam o ardor em nossas faces, estimulariam algum tipo de aceleração, nossos lábios queimariam numa noite de amor. Então eu já não precisaria da mini-saia...

Mas àquela noite de verão algo diferente aconteceu. Meu namorado levou-me a um lugar inusitado, depois do instigante passeio.

– Onde estamos? – perguntei curiosa.

– Espere para ver – falou ao entrarmos em uma sala admiravelmente refrigerada, repleta de quadros, de estofados modernos e com uma recepcionista elegante como uma modelo, que nos aguardava junto a uma mesa de vidro inteiramente transparente.

– Sejam bem vindos – sua voz era discreta e demonstrava prazer pelo trabalho que fazia –, fiquem à vontade.

– Onde estás a me trazer? – perguntei graciosa a ele.

– Ficas adorável imitando uma portuguesinha.

– Desconheço tal lugar em minha própria terra; será aqui um salão de artes?

– Talvez; creio que você vai gostar.

O ambiente era acolhedor; o que destoava era a temperatura excessivamente baixa; mas convidava a abraços mais justos. Ouvi música no ar, som de piano e clarineta.

– Vocês já estiveram aqui ou é a primeira vez?

Meu namorado foi quem respondeu. Enquanto travava o pequeno diálogo com a recepcionista, pus-me a observar os quadros à meia-luz, na parede defronte. Só então reparei que ao fundo, caminhando em direção aonde deveriam estar as janelas (pois tudo era acortinado e encarpetado), percebi um pequeno bar. Tinha as madeiras torneadas, brilhosas e espelhos ao fundo. Senti-me abraçada, voltei-me e dei com ele já ao meu lado, começando a me explicar o local.

– Aqui, trata-se de um clube.

– Um clube?

– Isso, um clube especial, e esse bar é o primeiro momento para tomarmos alguma coisa e relaxarmos.

– É bonito...

– Bonito e composto por bebidas estrangeiras.

– Ainda não há ninguém no clube? – perguntei.

– Há; basta que entremos. Você vai gostar, pelo que a conheço.

– Será? – fiz-me de ingênua.

– Podemos escolher entre diversos salões – ele me explicava –, pode-se apenas conversar, conhecer outras pessoas, e é possível também se ter mais intimidade...

– Mas já não somos suficientemente íntimos?

– Não entre nós, compreende?, intimidade com outras pessoas.

– Ah!..., entendi... – sussurrei.

– Percebeu que tipo de clube é este?

– Percebi, mas não sabia que existia um assim aqui na zona sul.

– Existe até mais de um.

Entramos numa sala onde a luz era baixa. Apenas abajures nas extremidades, longos estofados vermelhos, alguns homens tomando uísque e mulheres conversando em pequenas rodas.

Permanecemos sós, mas logo recebemos sorrisos de outros visitantes. Uma senhora se aproximou e convidou-nos a fazer parte de seu grupo. Vestiam-se bem, roupas de festas, vestidos compridos.

– Sejam bem-vindos, creio que ainda não os vimos por aqui.

– Oh creio que não – disse meu namorado –, é a primeira vez.

– Acho que a primeira vez é sempre a mais emocionante.

Ela sorria, seus olhos brilhavam, virou-se para mim e acrescentou:

– Não está com frio? Você não veste quase nada...

– Se ele me dissesse antes aonde viríamos, não vestiria tão pouco...

– Oh, ele quis fazer uma surpresa! Mas não faz mal a pouca roupa, logo você se verá aquecida – e exprimiu um ar malicioso. – Há muito que freqüento este clube, é algo encantador, creio que vocês depois do que experimentarem aqui não desejarão outra vida.

Um garçom aproximou-se com a bandeja plena de bebidas. Vi copos grandes com doses de uísque, batidas, caipirinhas e duas taças de uma bebida cor de cereja. Peguei a caipirinha, enquanto meu noivo segurou um copo de uísque. Reparei que a senhora que se dirigira a nós aceitou a bebida escarlate, que lhe combinava ao vestido.

– Venha cá, por favor – acenou-me –, fique à vontade, estou notando que você tem uma ponta de vexo.

– Não se preocupe, daqui a pouco serei a mulher mais desinibida da festa!

As mulheres riram.

Reparei as outras pessoas que chegavam ou já se encontravam ali. Grande parte era de meia idade, embora houvesse dois ou três casais jovens. Todos conversavam animadamente, as faces eram alegres e muitos beiravam o entusiasmo. Após cerca de vinte minutos em que permanecemos apreciando o ambiente, mordiscando o que nos era servido e bebendo mais algum aperitivo, todos foram convidados a passar para outro salão. Ao entrarmos, reparei que nas paredes havia quadros lindíssimos, povoados por musas nuas que, em posições desinibidas, mostravam as grandes nádegas, ou mesmo a barriga com alguns quilos a mais. Davam mostras de serem quadros de gosto setecentista. Uma música vinha do fundo, onde uma mulher tocava um grande piano. Logo depois se podia perceber que era acompanhada por exímio violinista.

Os casais puseram-se a conversar, e só então eu entendi do que se tratava.

– Você precisa escolher alguém, ou deixar que alguém a escolha.

– Como assim? – fiz-me inocente.

– Será que você já não reparou que tipo de clube é este?

– Ah, creio que não... – e dei um beijo em meu namorado. – Creio que sentirei saudades de você – disse sorrindo a ele.

– Será por pouco tempo – assegurou.

– Quem sabe? – fiz-me ouvir enquanto ele se afastava.

Optei por não me dirigir a pessoa alguma. Não se passaram muitos minutos para que um senhor de paletó escuro, sem gravata, que devia beirar os sessenta anos, se aproximasse de mim.

– Como chama a flor encantadora?

– Meu nome é mesmo de uma flor, apesar de não das mais raras.

Deu uma gargalhada contida e me adivinhou o nome.

– Vejo que você é entusiasta de práticas não tão costumeiras – ele disse.

– Eu? Na verdade me contagia o prazer, e ainda o amor.

– Oh, o amor, motivo das mais belas histórias, dos mais cativantes romances, de peças literárias que ficaram na história como exemplos de sentimento e virtude.

– Virtude? Mas o sexo também é bom... – virei-me a ele, fiz que explodiria num riso intenso; talvez eu disfarçasse a surpresa e a conseqüente insegurança.

Os casais já não eram os mesmos do momento em que chegáramos. Todos arranjaram novos pares; parecia que a entrada não era permitida a pessoas sozinhas. Nas laterais havia salas reservadas. O ambiente sempre era envolto em pouca luz e instigava a que nos aconchegássemos sobre os estofados de veludo. Meu novo acompanhante continuava com sua enumeração de prazeres, de situações em que as mulheres eram o que havia de mais precioso sobre a face da Terra, e ainda dizia que, na verdade, nada havia que as superasse em beleza e virtude. Confesso que senti saudades do meu namorado. Ainda o procurei, apenas com os olhos, na penumbra, mas não mais o vi. Encontrei mulheres que tinham a aparência caricata, maquiadas ao extremo, vestidas de hipocrisia.

Passamos a outro recinto onde os casais já se acariciavam, mas com discrição.

– É mais interessante irmos a um reservado – disse meu par, que não deixou meus olhos passarem em branco, enquanto ele levava o copo de uísque à boca.

– Pelo que vejo, não é permitida a nudez fora dos reservados – quis mostrar-me atrevida.

– Não, na verdade o regulamento não permite a nudez coletiva, nem o sexo em grupo.

– Oh, é uma pena; pensei que as pessoas aqui fossem mais avançadas.

– Não se trata de ser ou não avançado. Repare que o público é de classe A, são pessoas de responsabilidades sociais, não ficaria bem se essa festa acontecesse de modo vulgar.

– Responsabilidades sociais, modo vulgar! – enfatizei.

– É preciso que tudo ocorra dentro de um padrão de beleza.

Aceitamos mais uma bebida. O garçom se manteve impávido enquanto nos servia.

– Os funcionários são muito discretos – observei.

– Discretíssimos.

Meu acompanhante convidou-me a um reservado, mostrava-se um tanto impaciente. Ainda relutei.

– Você não veio acompanhado?

– Claro.

– E ela?

– Diverte-se por aí, assim como nós vamos nos divertir. E lhe digo mais: foi ela que descobriu este lugar, desde então vivemos maravilhosamente.

– Verdade?

– Por que iria mentir?

Entramos numa saleta em que se poderia optar por uma iluminação discreta, de abajur, ou por luz de velas.

– O que preferes? – perguntou.

– Velas.

O garçom deixou sobre a pequena mesa a garrafa de uísque, que fora solicitada pelo homem e, para mim, outra caipirinha.

– Temos de tirar a roupa? – indaguei provocante.

– Não é preciso tanta pressa – respondeu em meio a um amável sorriso.

– Minhas roupas vão ficar amarrotadas – disse a ele em tom de preocupação.

– Não há necessidade de preocupação, há uma camareira que poderá cuidar de tudo. Mas, por enquanto, mantenha-se vestida.

Passamos a escutar a música ambiente. Havia um aparelho que permitia a troca de canais; além de podermos continuar a ouvir a música da pianista, havia outras opções.

Pouco a pouco ele se pôs a acariciar meus cabelos, meu pescoço e logo me beijou. Aceitei tudo com extrema naturalidade. Confesso, porém, que sentia falta de meu namorado. O ambiente era muito artificial para o meu gosto e se ele me tivesse perguntado antes, eu não teria optado por tal lugar. Tramei para escapar.

– Gostaria de ir ao toalete.

Havia um no reservado, mas fingi que não o vi e saí à procura de outro no salão principal. Ele tentou alertar-me, mas acabou por desistir quando reparou que eu já ia porta afora. O banheiro que ficava ao fundo do salão tinha a presença de algumas mulheres; retocavam a maquiagem e conversavam em voz baixa. Ainda ouvi de uma delas:

– Eu dizia a ele: “se você me traiu, agora merece ser traído”; então passei a trazê-lo aqui; no início relutou, mas depois creio que passou a gostar. Sabe que estou nos braços de outro; ele também vai estar nos de outra, mas sei que assim está traindo a amante.

– Genial, você é bastante ardilosa! – soou a voz de outra.

A seguir todas caíram na gargalhada; quando deram por minha presença, abaixaram um pouco o tom do riso.

Depois que saí do banheiro, tentei a porta de saída do clube, mas reparei que não era permitido deixar sozinha o local.

Tive uma idéia. De início fiquei temerosa, mas depois a achei ótima. Aproximei-me da recepcionista – aquela que nos recebeu – e disse que desejava falar-lhe. Ela atendeu-me solícita.

– Preciso de um favor seu. É um pedido de meu acompanhante – disse então o nome dele. – Ele parece ser bem conhecido aqui; diz que gostaria de, sabe como é, ter relação com uma das recepcionistas, mas sabe que não é permitido, então sugeriu que eu me vestisse como uma delas; aqui entre nós, ele paga bem. Será que você poderia me ajudar?

– Como assim?

– Na verdade eu queria estar vestida como você; é só por alguns minutos.

– Você gostaria de trocar de roupa comigo para agradar seu par, é isso?

– Sim.

– É impossível, pode custar meu emprego.

– Ninguém vai saber, a hora já vai adiantada, e você pode ganhar mais pelo trabalho de hoje.

– Mas...

– É rápido, eu prometo!

– Rapidinho? – perguntou informal.

– Isso, bem rápido.

Trancafiamo-nos no toalete das funcionárias. Vesti a roupa dela. Dei a ela as minhas.

– Volto logo, e trago sua gorjeta.

– Não demore – ainda falou.

– Obrigada – beijei-a. Ela sorriu.

Confesso que com aquela roupa eu mais parecia uma comissária de empresa aérea. Dirigi-me então à portaria.

– Preciso comprar cigarros para um cliente – disse ao homem de terno que tomava conta da entrada.

– Não temos cigarros no bar?

– Não dos que ele fuma.

Deixei uma nota de dez em suas mãos.

– Ele mandou pra você.

Deixou-me passar.

Ganhei as escadas e logo me vi na rua. Desci a Siqueira Campos em direção à praia. Deixei o voluptuoso senhor a me esperar e uma recepcionista em apuros. Coisas da vida...

Quando cheguei à Avenida Atlântica, reparei que uma orquestra sinfônica se apresentava num enorme palco montado sobre as areias da praia. Misturei-me às pessoas, enquanto os músicos e o coro executavam a nona de Beethoven.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Noite de verão

Levantei da cama.

– Aonde você vai? – perguntou meu namorado.

– Colocar uma música romântica.

Ele beijou meu bumbum quando voltei.

– Vou aplacar seu desejo.

– Aplacar? – repeti.

– Isso; vou fazer você gozar.

– Vai?

– Vou, e desta vez tenho um artifício.

– Qual? – perguntei curiosa.

– Procure suas roupas.

– Minhas roupas?

– Isso mesmo, suas roupas.

Percebi que elas não estavam no lugar de sempre.

– Não sei onde elas estão; você as escondeu?

– Mais do que isso.

– O que você fez com minhas roupas? – estava ficando nervosa.

– Joguei-as fora.

– Não brinca; como? Jogou fora?

– Enquanto você saía do banheiro, não reparou que eu abri a porta e fui até o duto da lixeira?

– Não, não acredito que você tenha feito isso.

– Fiz, já falei, mas é para fazer você gozar?

– Você acha que vai me fazer gozar assim, sabendo que estou pelada na casa de meu namorado e sem ter o que vestir?

– Você já voltou nua pra casa alguma vez?

– Claro que não – respondi irritada.

– Quem sabe hoje você volte? Venha cá vou fazer você gozar...

– Não, vou embora.

– Embora? Mas você está nua...

– Vou embora, não posso chegar em casa depois de minhas filhas; elas vão rir de mim, vou passar a maior vergonha.

– Você vai nua? Vamos trepar mais uma vez?

– Não, seu artifício acabou provocando efeito contrário; agora é que não gozo de jeito nenhum; quero ir embora.

– Nua?

– Não; vou procurar uma roupa sua.

– Minhas roupas são pequenas para você...

Abri o armário e encontrei uma camisa comprida. Vesti-a. Transformou-se num mini-vestido.

– Vamos – falei –, e escute, depois dessa brincadeira não volto mais.

– Venha cá, amor, já que você resolveu o problema da roupa, não precisa se apressar.

– Estou com medo que minhas filhas cheguem antes de mim e me vejam com essa camisa. Vamos, me leve agora.

Descemos e entramos no carro. Ele deu a partida; enquanto dirigia, eu me encolhia a seu lado morta de vergonha.

No momento em que chegávamos à porta de meu prédio, vi minhas filhas entrando. Agachei-me.

– Não pare, por favor, não posso descer agora!

Ele me levou de volta para casa dele.

Ao chegarmos, disse:

– Tenho outra surpresa pra você.

– Não agüento suas surpresas, basta. Vou tentar telefonar para alguma amiga. Talvez alguém me tire dessa situação.

– Não vai ser preciso, escute.

– Está bem, fale rápido, daqui a pouco vai amanhecer.

– Abra aquela parte do armário – apontou para uma das portas.

Abri.

– Pegue o primeiro cabide.

– Minhas roupas! Como você pôde ter feito isso comigo?

– Venha, amor – tirou a camisa que eu vestia e me deitou na cama –, venha, vou fazer você gozar.

Deitei. Devo confessar que gozei.

Só tive um problema. Pela manhã, já em casa, minhas filhas não perguntaram onde eu passara a noite. A pergunta foi outra.

– Mãe, com quem a senhora esteve ontem? – Helena, a mais velha, era a mais curiosa.

– Com o Roberto, é claro, o que você acha?

– Mas nós o vimos passar de carro sozinho, às três da manhã, aqui na porta...

A caçula ainda arremessou:

– Fala a verdade, mãe, com quem a senhora saiu ontem?

– Não é da conta de vocês...

– Ah, viu, Helena, como ela também é esperta!

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Historieta de Carnaval

Divertimo-nos bastante durante o Carnaval. Tanto nos blocos como no sambódromo, tudo foi prazer e alegria. Sempre acontecem alguns imprevistos; ou melhor, fatos que, na verdade, fazem parte dessa festa irresistível e até a tornam mais excitante. Vamos a um deles; mas, por favor, peço ao pé do ouvido: não espalhem!

– Fiquei sem...

Era a frase que soava um tanto furtiva e incompleta na voz de muitas mulheres no final da segunda noite de desfile das escolas de samba do grupo especial. Vinha acompanhada invariavelmente de um movimento desajeito de braços. Tentávamos em vão tapar nossas vergonhas recentes havia muito descobertas. Pairava a seguinte pergunta: "o que fazer agora?"

Durante toda a madrugada, a exibição fora intensa. A bebida, a música, a pouca roupa e o entusiasmo geral fizeram todos explodir de desejo. Imaginem o que pode acontecer num espaço tão pequeno – no camarote a que nos convidaram nossas gotas de suor chegavam a freqüentar vários corpos –, com tantas mulheres quase nuas e ante a foliões excitadíssimos...

Após a passagem da última escola já ao amanhecer, nós, as beldades, nos transformamos nas mais pudicas das criaturas. Percebia-se que a nenhuma restara sequer um minúsculo tapa-sexo. Tínhamos apenas ligeira esperança na boa vontade de alguns cavalheiros que nos poderiam dar abrigo, ainda que provisório...

Dancei o tempo todo na frente do camarote. Quis primeiro exibir os seios. Que tal tirar o top? Não demorei a desvencilhar-me dele. Um folião de bermuda estampada em flores coloridas aproximou-se, estendeu os braços, demonstrou admiração pelo meu corpo e pelo meu desembaraço. Ergui a taça de champanha, saudando-o; tomei um longo gole, entreguei-a a alguém que estava mais atrás. Eu, seminua, com um biquíni que era uma coisinha à toa, empolgava-me e transmitia empolgação. O mesmo folião aproximou-se mais um pouco; primeiro fez cócegas na minha cintura; depois deslizou os dedos e tocou a extremidade de meus laçarotes. Uma nova taça chegou-me às mãos, não demorei a esvaziá-la. Num piscar de olhos, a miss (sim, eu um dia fora miss, portanto jamais se perde a majestade) estava inteiramente nua. E assim me diverti na madrugada de carnaval. Em pêlo! E eles eram tão poucos...

Em plena festa eu e meu companheiro escalamos cumes inacessíveis, atingimos montanhas com recantos ora mornos, ora escaldantes; não deixamos de, por breves instantes, deslizar trôpegos, mas sem despencarmos; ora nos ornava sombra com diadema de vaga-lumes, ora luz intensa – holofote escaldante – vinha nos roubar a pele. Num momento esperado com ansiedade, sentimos que algo inexprimível e incontrolável nos crescia internamente. Então – uma conjunção de astros em noite de eclipse – explodimos! Expelimos gotículas adocicadas, talvez mel e pólen que se misturariam a outros elementos do universo.

Depois, ainda nua, voltei à festa. Atingi de novo o auge do entusiasmo – outro tipo de orgasmo –, mas agora com os últimos tambores, cuja vibração e ritmo seriam capazes de substituir nossos corações caso não os tivéssemos. Só então percebi que a festa acabava. Abateu-me a timidez que se segue ao gozo. Mas não me escapou o encanto. A atmosfera de magia e excitação aos poucos se dissipou e, embora não houvesse cavalheiros prestes a socorrer todas as nuas, encontrei o meu. Não o que me levara o biquíni no bolso da bermuda florida; outro, mais velho e mais charmoso.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Stretch jeans

O fim de tarde enevoado e cinzento contrastava com as cores interiores, com o colorido das pessoas, com meus cabelos louros e meu corpo torneado. Eu passeava com um amigo no Brasília Shopping; vestia um short de stretch jeans, bem pequeno e justo ao corpo, uma curta jaqueta aberta de cor neutra, que acentuava a cintura baixa e deixava à mostra a barriguinha elegante; subindo um pouquinho, o top. Quem me surpreendia, voltava rapidamente os olhos para se certificar se tudo que via era mesmo real. Meu amigo talvez se sentisse lisonjeado; despertava inveja aos que escolheram aquela hora para estarem ali. Naturalmente pensavam que ele era um felizardo e eu, uma mulher embrulhada em pouca fita e estreito papel de presente. Faltavam três dias para o Natal. Sentamos numa das mesas e encomendamos nossos lanches. Para mim, um sanduíche do Marieta, daqueles que vem com tomates secos, rúcula e mussarela de búfala; para beber, suco de abacaxi com agrião. Ele pediu uma baguete à moda romana. Eu sorria, e ele demonstrava enorme satisfação por me ter recebido no aeroporto duas horas atrás. Com sua natural elegância, com o ar sempre despretensioso, insistira para que me hospedasse em sua casa, garantira que eu teria toda a liberdade; caso ainda quisesse, poderia acompanhar-me em alguns passeios. Pensei em contar a ele sobre o homem que conhecera na viagem, estava muito entusiasmada, mas por hora me calei; sabia que meu amigo tinha as mesmas preferências que eu, não disfarçava, mas manteria minha postura de mulher refinada. Durante aqueles momentos que corriam enquanto saboreávamos o alimento frugal, momentos prestes a escorrerem e se manterem eternizados apenas na memória, meus olhos verdes iluminavam os dele; seu rosto refletia discreta felicidade.

Ainda estava na sala de embarque quando observei um homem de terno. Ele tinha à mão um notebook, trabalhava ou consultava seus compromissos. Percebi que vez ou outra arremessava um olhar sorrateiro em minha direção. As poltronas serpenteavam pelo salão; alguns homens conversavam despretensiosos; duas adolescentes olhavam revistas e tomavam refrigerantes; uma mulher mantinha um cigarro apagado entre os dedos (talvez procurasse a área de fumantes); outro homem trazia um pequeno copo de café expresso; e eu carregava um livro, sempre trazia um ou dois na pequena bolsa de mão. Havia alguns momentos eu me desprendera da narrativa, observava o local e o aspecto das pessoas, todas prestes a embarcar, todas trazendo na face uma ponta de satisfação ou mesmo de alegria. Quando pensei em voltar ao livro, mais uma vez o homem do notebook não me desprezava. Ao embarcar, dei com ele à minha frente, íamos para o mesmo destino e, dentro do avião, aconteceu o que eu já esperava: apenas o corredor separava nossos assentos. Após guardar sua maleta na parte de cima, voltou-se para mim e, satisfeito – não poderia ser outra sua reação – sorriu. Durante todo o vôo não levantei os olhos, entretive-me na leitura de uma grande revista que comprara ainda na livraria, antes do embarque. Uma reportagem longa a respeito das mulheres da antiga RDA prendeu-me durante boa parte do vôo. Despertou-me o sorriso congelado da comissária; perguntou se eu aceitava um copo de suco.

Após deixarmos o shopping, meu amigo anfitrião levou-me para um passeio, queria mostrar-me a decoração de natal da cidade. Com seu carro deslizando quase em silêncio, conduzia-me pela esplanada dos ministérios. A noite se insinuava e as luzes recentes, ainda tímidas, piscavam em todas as cores e em várias formas. O ar frio do Planalto Central tocava minha pele, carícias de um amante que estava por vir.

Enquanto ainda transitávamos, mas agora pelo eixo rodoviário – nosso destino era uma das últimas quadras da Asa Norte – comentei de modo sucinto sobre o cavalheiro, o mais recente enamorado, o companheiro de vôo. Meu amigo irônico não perdeu a admiração e o humor:

– Você é uma mulher de sorte; se ele lhe deu o cartão, procure-o; nessa época do ano, todas as espécies de valor que habitam a cidade voam para fora; este, se está por aqui e é assim como você me descreve, não é digno de ser desprezado, é todo seu.


Sorri. Tirei o cartão da bolsa para me certifica de que ainda o tinha. Li o nome: Frederico Lucini.

– Oh, talvez alguém do corpo diplomático! Sorte sua, são ótimos os desse tipo.

Quando telefonei no dia seguinte, descobri que não era o que pensáramos, mas sim um professor da universidade. Não perguntei se era solteiro ou se morava na cidade. Não se deve querer saber tais coisas quando se tem alguém que está à inteira disposição. Marcamos um encontro. Perguntou se me podia apanhar em casa. Aceitei sem demonstrar surpresa.

O dia seguinte era sábado, vinte e dois. Os shoppings se mostravam quase intransitáveis. Filas intermináveis de automóveis, cujos motoristas procuravam onde estacionar, misturavam-se num colorido de início de festa; por incrível que parecesse, toda aquela algaravia não redundava em demais complicações, as pessoas estavam em paz consigo e o espírito das festas as tinha tomado de assalto, proporcionando a cada uma delas uma dose a mais de paciência. Muitos se apressavam para comprar os últimos presentes ou o detalhe que faltava e completaria a noite de natal.

Apanhou-me às nove da noite. Ao seu lado – ele vestia uma linda blusa aviator de listras largas azul e branca, calça clara e sapatos esporte de um marrom suave, perfeitos para o conjunto, trouxera um paletó branco, que ocupava uma parte do banco traseiro do automóvel –, eu observava o trânsito espaçado do eixo, enquanto percorríamos aquelas vias largas. Mais adiante, ele deixou o fluxo principal para fazer um grande contorno que me pareceu nos colocar na direção inversa; sem que nada me perguntasse, parou ante a um restaurante muito bonito, saltando e abrindo a porta para que eu saísse; só então demonstrou que me observava o corpo com mais atenção – eu vestia um vestido de seda fina curtíssimo, frente única.

– Será que você não vai sentir frio? – sua voz soou melodiosa.

– Se eu não me engano, há um paletó elegantíssimo no banco de trás.

Entregou as chaves a um manobrista de terno escuro que se encarregou do estacionamento, tomou-me uma das mãos. Entramos.

As mesas eram redondas e as que estavam ocupadas tinham castiçais com velas acesas; pelos cantos, abajures delicados completavam a iluminação, produzindo um efeito sutil; as toalhas e guardanapos eram de uma alvura esplendorosa.

Bebericamos dois dry Martinis, depois uma garrafa de Bordeaux. Enquanto o garçom nos trazia o couvert, composto de frios, pães e algumas pastas, meu amigo, num rosto de continua felicidade, começou a me falar sobre o que fazia e de suas preferências literárias; era especialista em Proust, inclusive tinha estudos e textos publicados sobre o autor francês.

– Você já nadou contra a corrente?

– Não nado muito ultimamente – respondi; levava à boca uma rodela de torrada envolvida em uma pasta verde clara.

– Não falo no sentido de entrar no mar ou num rio propriamente.

– Ah, entendo.

O garçom se aproximou e pôs-se em posição de que aguardava nossos pedidos. Tomei a taça com a mão direita e a levei mais uma vez aos lábios; sorri para o homem que nos aguardava.

Meu recente companheiro pediu-lhe um tempo maior, estendeu o grande cardápio e deixou a mim a escolha do prato principal.

Após eu ter feito o pedido, o garçom se retirou e continuamos a conversa. Foi ele que voltou ao assunto.

– Às vezes todos vão para um lado, mas nós não queremos acompanhá-los, desejamos outro caminho, mesmo que neste envolvam-nos apenas a penumbra da noite, o brilho das estrelas, talvez um ou outro ruído do vento sibilando sobre a vegetação ou o farfalhar de uma ave noturna.

– Ou o prateado de uma lua crescente que surja lá pelas três da madrugada, tendo como cúmplice apenas a brisa tímida e esquiva que nos tateia a pele branca, o corpo por inteiro descoberto...

– Isso, isso, você me compreende – demonstrava entusiasmo.

– Por enquanto – sorri irônica.

– Você fala a mesma língua que eu. Veja, há momentos em que todos parecem estar de acordo com um comportamento, um modo de vestir, ou um modo de se divertir, ou mesmo um modo de ser, mas nós não concordamos, preferimos outros caminhos.

– Isso – assegurei –, preferimos um caminho tão largo que chegam a nos condenar pela escolha; dirigem-se a nós como se estivéssemos tomando atitudes que fariam o mundo desabar sobre nossas cabeças.

Ele riu deliciosamente de minhas últimas palavras; ainda repetiu:

–... atitudes que fariam o mundo desabar sobre nossas cabeças! , essa é ótima, vou anotar...

Com um pequeno garfo, peguei num dos pratos menores uma pequena azeitona e a levei de modo suave à boca. Ele olhava-me com interesse; observava, minucioso, o colorido de meus lábios.

– Você pode dar um exemplo?

– Eu? – fiz-me de dissimulada –, mas são tantos.

Rimos.

– Você também acha que todo ser humano tem um lado... , vamos dizer assim, um lado que poderia ser chamado de escuro? – perguntou-me ao mesmo tempo que percebeu a chegada do garçom com uma enorme bandeja.

– Escuro? Como uma noite em que não há lua nem estrelas, onde só existe o rugir do mar e um vento interminável a nos açoitar?

– Você é ótima, adora poesia, não?

– Oh, adoro, mas isso é má poesia; você falava sobre o lado escuro de cada um, continue, por favor.

Esperou que o homem acabasse de nos servir; colocou mais um pouco do vinho na minha taça, encheu também a sua; quando nos vimos apenas os dois, falou:

– As pessoas condenam determinadas ações, determinados comportamentos; você se sentiria disposta a transgredi-los?

– Já entendi. Você quer saber se eu me sentiria culpada por ir na contramão?

– Isso mesmo, boa palavra, contramão.

– Mas é do que eu gosto mais.

– Uma amiga certa vez me falou – ele continuava –: “há alguns comportamentos que devemos seguir; por exemplo: se estamos num lugar público não será normal eu agarrar você e permanecer grudada à sua boca num beijo demorado enquanto a comida esfria à nossa frente; nem tirarmos a roupa e fazermos amor numa festa diante de outros convidados, ou num salão público, mesmo que a poucas luzes...”

– Sua amiga não sabe o que é viver. Às vezes, o principal é a nudez em público, embora eu confesse que fique um tantinho arrepiada.

Rimos juntos de novo e durante um bom tempo saboreamos a comida em silêncio.

Após uma hora e meia ou duas horas, já estávamos no apartamento dele. Ofereceu-me uma dose de vinho do Porto. A bebida combinou perfeita com o momento. Depois, num longo sofá de cor creme, diante de alguns quadros e estátuas, duas velas sobre dois longos castiçais e a paisagem trêmula, cintilante, que podia ser vista através da varanda, ele me abraçou, deslizou as mãos por minhas costas, aproximou a boca à minha face e me envolveu num longo beijo.

– Sabe o que eu queria mesmo?

– O quê? – esperou-me curioso, com a face franzida, como se eu lhe fosse revelar um grande segredo.

– Eu queria esse beijo entre pratos e talheres, à luz da pequena vela do restaurante de algumas horas atrás.

– Eu também queria uma coisa – disse fingindo intensa frustração –, eu queria que você tivesse vindo nua ao meu encontro...

– Eu sempre estive nua; você não viu o tanto que as pessoas me olhavam? O que elas procuravam? Tentavam enxergar o meu vestido...

Abracei-o, depois o soltei e pedi que fechasse os olhos. Quando voltou a me olhar, terminei a pergunta:

– Veja se elas não tinham razão, você vê alguma roupa sobre meu corpo?

Deixei-o quase louco. Levantou-se, abraçou-me ainda um tanto incrédulo, enquanto eu, também de pé, ia em seus braços somente sobre os sapatos, com a pele suave a roçar-lhe o tecido macio das roupas.

No dia seguinte encontrei-o de novo. Marcamos às onze da noite. Fiz questão que me apanhasse na garagem do prédio onde eu me hospedara. O local era de pouca luz e ao vê-lo parar o carro, escondi-me. Esperei que me procurasse. Bati então na carroceria, no lado do passageiro, surpreendendo-o. Abriu a porta e esticou os olhos sobre meus seios.

– Que roupa linda, você está maravilhosa!

– Só consegue ver o meu vestido quem não tem nenhum pecado.

– Creio que acabo de ser perdoado.

Enquanto sentava e prendia o cinto, perguntei:

– Você ainda traz aquele paletó?

– Está no mesmo lugar.

Olhei entre os bancos, ele jazia sobre o banco traseiro.

– Se esfriar, você me empresta.

Rodamos no silêncio da noite. Ele guiava e às vezes olhava sorrateiro às minhas pernas. Quando paramos, assim que saí do carro, vestiu-me. Um modelo e tanto.

Naquela noite, jantamos num restaurante em que nos serviram pratos plenos de sabores exóticos e taças de champanhe francês, acompanhados de música de piano ao vivo. O ambiente era tão agradável, que não nos demos conta do passar das horas. Vez ou outra eu enlaçava sua cabeça e o beijava na boca; um beijo interminável.

Já na madrugada, quando trafegávamos pelas vias semi-desertas da capital, pedi que namorássemos no frio aconchego de seu automóvel, num dos estacionamentos que ficava diante do prédio de meu anfitrião.

– Acho melhor irmos pra minha casa – disse ele –, lá o conforto é maior e é mais seguro.

– Você não disse que às vezes desejamos nadar contra a corrente, que temos um lado escuro? Então, amor, esse é um dos lados que me põe na contramão!

– Mas isso é perigoso, tanto mais nos dias de hoje...

– Oh, não diga, existe algo mais perigoso do que sair pelada de casa e ficar agarrada ao namorado pelo resto da noite num estacionamento.

– O quê?

– Trepar com um desconhecido logo na primeira ou na segunda saída.

– É; você tem razão.

– E logo com alguém que nem me disse qual é o seu lado escuro...

– Certo, também tenho meu lado escuro, também gosto de, às vezes, ir contra a correnteza.

Logo que estacionamos, pulei sobre ele e falei baixinho:

– Vai, fala, fala qual é o teu lado escuro...

– Tenho uma arma no porta-luvas.

– Uma arma?

– Isso, uma arma!

Pulei para o banco do passageiro, abri o porta-luvas, tomei nas mãos uma pistola, destravei-a e apontei para a cabeça dele.

– Calma, querida, isso pode ser perigoso – sua voz tornou-se quase um balbucio.

– Pra que a arma?, fala! – eu insistia vigorosa.

– Para algumas brincadeiras.

– Que tipo de brincadeiras?

– Não queira saber agora, deixemos para outra hora, e além de tudo já vai amanhecer.

– Que tipo de brincadeira? Vamos, fala! – encostei o cano em uma de suas têmporas.

– A mesma... a mesma que você está fazendo, só que sobre a cabeça de alguma mulher... e também de surpresa... sobretudo se ela ainda estiver vestida...

– Sobretudo? – sorri.

Rápida, coloquei a pistola em suas mãos, saltei sobre seu colo de novo, sôfrega, abri sua calça e deixei que seu pinto, instintivo, me encontrasse. Lânguida, derramei em seu ouvido:

– Vai, fala pra mim o que tu falas pras outras, fala.

– Salta do carro e corre nua!

– Isso, continua, não pare!

– Salta!Salta! Se não, eu atiro!

– Isso, fala, fala; assim me fazes gozar...

– Salta! É sua última chance.

– Goza dentro de mim primeiro, depois atira... – minha voz era um gemido, era quase uma dor; era, enfim, o orgasmo.

– Ah, estou gozando – ele disse. Ao mesmo tempo em que eu sentia seu sêmen quente jorrar dentro de mim, senti o cano frio da arma afastar-se de minha têmpora esquerda. Ouvi em seguida um ligeiro clique; ele travara a pistola.

Desfizemo-nos do abraço e largamo-nos exaustos sobre nossos bancos; exalávamos odores úmidos e nossos corpos pouco a pouco perdiam o calor recente. Em nossas faces, sorrisos pela metade.
Num dos lados do horizonte, um semicírculo de início avermelhado transformava-se numa esfera alaranjada; não demorou a derramar seus primeiros fios d’ouro sobre o recente dia de natal.

domingo, janeiro 06, 2008

Cubra-me

– Que lençol sujo é este? Você trouxe alguém pra cá ontem...

– Como? – ele me perguntou um tanto embaraçado.

– Este lençol sujo, não está vendo?

– Mas fomos nós mesmos que o sujamos.

Já era quase meia-noite, fôramos a um espetáculo e acabávamos de chegar ao apartamento de meu namorado. Ocorreu-me a suspeita no momento em que fui ao banheiro e descobri o cesto de roupas.

– Amor, venha, me abrace, não crie problemas – mostrava-se carinhoso.

– Este lençol não estava na cama na última vez em que estive aqui.

– Você deve estar querendo criar um clima para o nosso namoro de hoje, não é mesmo? – sorriu ao terminar a pergunta.

– Nada disso, você deve estar saindo com outra!

Ele me abraçou, apertou-me junto a seu peito, procurou meus lábios. Acabei cedendo.

Tomou-me nos braços e me levou pra cama.

– Você sabe o que vou fazer com você hoje?

– Nem imagino, mas diga quem é ela – sussurrei dengosa.

– Ela?, não sabia que isso lhe dava tanto tesão; depois digo. Primeiro vou fazer algo que sei que você sempre quis mas nunca teve coragem de dizer. Ou melhor, falou apenas uma vez e por meias palavras.

Deitou-me na cama; rápido, envolveu meus braços e os prendeu à cabeceira com um cordão; depois, sem que eu reagisse, atou-me as pernas deixando-as abertas e laçou os cordões aos pés da cama.

– Assim você não vai conseguir tirar minha roupa – reagi.

– Não vou?, você vai ver...

Assustei-me ao ver uma grande tesoura em suas mãos.

– O que você vai fazer? – minha voz soou nervosa.

– Não se preocupe, não vou machucá-la; vou somente livrá-la desses panos.

Quis gritar, mas senti uma ponta de excitação. Fingi que tremia, fiz de conta que protestava. Cortou a blusa e a saia que eu vestia; depois, minhas peças íntimas.

Estava já nua por inteiro quando gritei a ele:

– Como vou embora nua?

– Não se preocupe, vamos primeiro aproveitar a noite.

Começou a acariciar-me e a sussurrar fantasias; acabou por me deixar ainda mais excitada.

– Me desamarre, também quero gozar – pedi.

– Calma, você não perguntou certa vez por um pequeno chicote?

Foi uma trepada super louca. Eu girava na cama, suplicava:

– Goza dentro de mim, vai, goza, derrama todo esse leite no meu útero, bem lá no fundo; você já me deixou nua, já estalou o açoite na minha pele branca; o que vai fazer depois?, vai me botar pelada porta afora, não vai?; ai, essas coisas me matam de tesão.

Virou-me de costas, abriu minhas pernas...

– Está gostoso, não pára, não pára... – eu temia que tudo acabasse logo.

Permanecemos, porém, entrelaçados por uma longa hora. Gritei de dor e de prazer quando gozei. Mas aconteceu o que sempre se sucede após o gozo: fiquei morta de vergonha.

– Como vou fazer pra voltar para casa? – perguntei preocupada.

– Como sempre fazemos; pela manhã levo você.

– Mas estou pelada!

– Até lá a gente dá um jeito.

Ao amanhecer, fiz outra encenação.

– Me abrace, por favor, me abrace, derrame em mim mais um pouco do seu mel; venha, não demore.

– Pensei que você estivesse preocupada em arranjar alguma coisa pra vestir...

– Ainda estou, mas venha; depois eu dou um jeito, ou melhor, damos um jeito; não foi o que você prometeu? Aliás, prometeu mais uma coisa, lembra?

– O quê?

– O nome dela.

– Ela, quem?

– Ela, a mulher que sujou com você aquele lençol! Mas primeiro venha, cubra-me com o seu corpo, espere até eu gritar que estou gozando, então fale alto o nome dela, ouviu?, bem alto...

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Por enquanto

Rua Treze de maio, em frente a um restaurante:

Duas mulheres passam; a chuva e o céu nublado trouxeram de volta as jaquetas; gesticulam, falam alto, as faces expressivas; o que tramam? O amor por algum homem ou o que falta para a ceia de natal?

Homens elegantes, de terno, corte preciso, homens bem vestidos; um deles de repente ao telefone; ah, fala com um amigo; logo, são dois os homens: o visível e o detrás da linha; o que este veste? Será que me despe?

Uma jovem de saia curtinha vai com o namorado; ela é menor que ele, mas tem mais corpo e é bela; vão de mãos dadas; nessa idade, as mãos não suam...

No edifício Avenida Central:

As mulheres são mais elegantes do que os homens; onde encontro os rapazes de corpo torneado que vestem roupas fashion e fazem ponto nas novelas de TV? Na Rio Branco, as mulheres caminham a passos rápidos, sabem combinar blusas e saias, camisetas e calças, vestidos e sandálias; e os homens? Não vão tão preocupados com a beleza, parece que têm pouco esmero aos próprios trajes; ah, uma exceção, desvio os olhos, ainda é cedo; a saída? Vou na contramão.

Uma jovem, loura, de blusa preta e calça jeans carrega a bolsa num ombro e, em uma das mãos, um pequeno jornal; anda devagar; em que pensa? Pára numa banca de revistas e pergunta alguma coisa ao jornaleiro; não ouço sua voz; ela traz meio cigarro entre os dedos e, no rosto, uma vontade imensa de amar.
A livraria Leonardo da Vinci é linda com seus três poemas a ladearem as vitrines; livros em língua nativa, livros em língua estrangeira; filosofia, artes, romances e gastronomia; escritores, escritoras, talvez leitores e o cheiro forte de café da galeria.

Uma loura quarentona de blusa branca e calça justa, nádegas em destaque, passa sozinha; mas é certo que ela tem um namorado.

Entro na livraria da Travessa; dessa vez não para ver os livros, mas a face dourada das pessoas; como são belas! (sou suspeita); aqui há gente elegante; três homens ainda jovens trajando ternos italianos conversam, tomam café e água Perrier; são consultores do mercado financeiro; duas mulheres tagarelam e também bebem café; o espelho em fogos e juventude explode o reflexo da morena.

No centro do Rio, anda-se por ruas estreitas, quase só de pedestres, atravessa-se a avenida, carros multicores e buzinas, mergulha-se de novo em ruelas abarrotadas, pequenas lojas, às vezes uma confeitaria; há também as galerias, passagens passarelas, quiosques, mostruários de perfumes e presentes refinados, corações a palpitar por amores extraviados.

Em meio aos passantes de fim de tarde, um homem quase negro, de gravata, olha-me; estuda meus traços; vermelha a gravata, branca a camisa social; será pastor? Se quiser salvar-me, fujo; se me quiser pôr a perder (ou a ganhar?), vou; vou de bermuda sensual e blusa curta de algodão; vou vestidinha, por enquanto...

quarta-feira, dezembro 12, 2007

São Paulo lá embaixo se estendia múltipla, sedutora, sob um sol frio de fim de tarde

O metal deslizou ligeiro sobre minha pele, chegou a me provocar um arrepio. Virei-me quase por instinto e percebi a face sorridente do homem.

– Moeda, não! Assim você me deixa em apuros.

– Eu ajudo a procurar – ameaçou introduzir uma das mãos na minha calcinha.

Corri, as pernas juntas, com passos rápidos fiz um bailado que acompanhou a música ritmada e as luzes que refletiam no pequeno salão estrelas coloridas. Enfiei-me num reservado que era separado por apenas uma cortina. Encontrei ali a Mel, estava sem o biquíni.

– O que houve? – perguntei enquanto procurava a moeda e segurava duas notas de dez que estavam bem enroladinhas dentro do exíguo pano na parte da frente da calcinha.

– Um boboca me roubou o biquíni, estava esperando alguém aparecer...

– Ajudo você, espera um instante.

Coloquei a moeda entre as notas, fiz com elas um pequeno envelope introduzindo-o no mesmo lugar de onde tirara o dinheiro. Saí para voltar alguns minutos depois com um pano preto transparente, que a Mel enrolou na cintura, provando-o como numa cabine de loja de roupas finas; então me beijou e, antes que voltasse feliz para a pista, sussurrei em seu ouvido:

–Não deixe que o roubem de ti; antes, venda-o!

Riu mais uma vez.

O salão era no Centro. Um local de divertimento para ricaços. E ali acontecia de tudo. Havia certas regras que nós, as mulheres – principais estrelas do espetáculo –, precisávamos respeitar. A circulação de dinheiro era expressamente proibida, mas sempre arranjávamos um meio de burlá-la; não perdíamos qualquer oportunidade de faturar um pouco mais. Os proprietários nos pagavam no fim do dia, ou da noite. Pediam-nos também que não ficássemos nuas no salão. Mas quem conseguia evitar que mãos viciadas e ligeiras nos arrancassem a única peça? Os velhos, principalmente, eram os mais tarados. Ao mesmo tempo que nos enfiavam dinheiro pelas entranhas, queriam nos deixar nuas. E as notas eram sinais para que permanecêssemos mais tempo ao lado deles.

Certa tarde fui chamada pelo gerente. Assustei-me. Mas era apenas um convite. Um freqüentador da casa me queria como companhia fora dali.

– Você é a mais discreta, nada deve comentar sobre a identidade do homem nem sobre o local aonde ele vai levá-la.

Fiz que sim com a cabeça. Vesti-me em três minutos e saí pela porta dos fundos. Um automóvel escuro esperava-me. No interior, apenas o motorista.

Rodamos pelo Centro, depois ele dirigiu em direção a Pinheiros. Pediu então que eu colocasse uns óculos escuros que ele próprio trazia no bolso.

– Não enxergo coisa alguma com esses óculos.

– É por pouco tempo.

Guiou por cerca de trinta minutos. Desceu a garagem de um prédio.

Ao sair do automóvel, disse:

– Segure meu ombro.

Senti-me a própria cega.

Apenas dentro do apartamento é que pude tirar os óculos. A primeira coisa que me surpreendeu foi a paisagem. Estávamos no último andar de um desses prédios suntuosos, provavelmente algum bairro da zona norte. Através das janelas quase contínuas, podia-se observar São Paulo lá embaixo; a cidade se estendia múltipla, sedutora, sob um sol frio de fim de tarde.

Um homem ainda jovem, que não me era desconhecido, apresentou-se a mim. Fazia-o como se fosse a primeira vez. Tive vontade de saudá-lo; minha discrição, no entanto, impôs-se profissional. Levou-me a outra sala, onde me ofereceu um cálice de vinho do Porto. A decoração era discreta; os quadros se não eram originais remetiam a pintores do século XX; no final de uma das paredes, estava dependurado o auto-retrato de uma mulher um tanto tímida, que me chamou a atenção. Ele falou sem embaraço: Anita. Percebi música trazida pelo ar frio. Era preciso apurar os ouvidos para apreciar a melodia; talvez um blues norte-americano. Permaneci sentada em um acolchoado comprido, quase branco, de pureza inigualável.

Entrou então uma mulher muito bonita. Sorria, tinha os cabelos pretos curtos, dirigiu-se a mim e beijou-me as duas faces. Mantive-me séria e compenetrada, procurava não demonstrar surpresa alguma: ela estava nua.

Um garçom regiamente vestido adentrou o ambiente, discretíssimo. Foi-nos servido o antepasto do que seria uma longa e deliciosa refeição. Pusemo-nos a saborear delicados frios, alguma pasta de cor e sabor sofisticados, bebidas coloridas. Tudo no mais absoluto silêncio. Além do silêncio, a música; agora som de piano, mas distante, quase inalcançável. A mulher mantinha a face alegre, não tirava os olhos de mim. Abria a boca delicada e experimentava alguma iguaria; seus lábios pintados de vermelho sobressaíam. O que um homem que tem a seu dispor uma mulher de tamanha beleza deseja ao contratar uma puta?, pensei comigo. Mas já vira muitas fantasias; aguardava o que se seguiria.

Jantamos. A mulher em momento algum demonstrou qualquer desconforto devido à nudez; portava-se sobre as sandálias plataforma como se fosse a pessoa mais vestida do mundo. A refeição estendeu-se pela noite. Serviram-se inúmeros pratos. Comia-se o que se apreciava, ou mesmo se podia nada comer. O que importava era que nossos gestos demonstrassem a máxima satisfação. Fomos até o último gole, ou a ultima sobremesa, um manjar recoberto por açúcar queimado transformado em calda saborosa.

Foi ela quem se aproximou de mim. Tirou-me toda a roupa. Ofereceu-me um cigarro. As duas nuas e mais o homem. Trancaram-se as portas, a música subiu de tom. E nós, os três, pusemos a nos exercitar, de início vagarosos, porém, após os primeiros toques – um óleo composto de essência de flores –, a temperatura subiu e as carícias profissionais tornaram-se amadoras, tão amadoras a ponto de parecermos um trio enamorado desde tempos remotos.

Houve um momento em que fui surpreendida. Ele sentou-se sobre uma cadeira e puxou-me por um dos braços para que eu o atravessasse. Lembrei-me de um antigo namorado: deitava-se nu na rede, que ficava na varanda de minha casa; pedia que eu, de pé, afastasse cada perna sobre o tecido estreito e colocasse meus grandes lábios acima de seu pênis; em movimentos lentos, eu levantava e abaixava meu corpo; então ele me tocava a musculatura das coxas, apalpava-as; elas iam rijas; acariciava-as para que eu enfraquecesse e desabasse sobre ele; assim me penetrava numa inteireza doída e ao mesmo tempo prazerosa. Agora, a intenção do homem era semelhante; minhas pernas apoiadas ao solo num movimento ritmado, os mesmos músculos enrijecidos e ele golpeando-me suave as coxas, como que elogiando minha resistência; eu, emitindo sussurros que não demoraram a se transformar em compassados gemidos e gritos, até desabar ruidosa sobre ele. A mulher? Sentada sobre o estofado, de pernas cruzadas, cigarro à mão, com os olhos cravados em nós, num gozo frio.

Quando tudo acabou, ela, assim como me despira, pediu para me vestir. Antes de partir, beijei-os nas duas faces; e, num último momento, trêmula, ainda tive tempo de balbuciar ao casal agora abraçado – a mulher sempre nua – um último desejo: “até logo”.

Antes de sair, o mesmo motorista, os mesmos óculos; a escuridão.

sábado, dezembro 01, 2007

Como uma flor

Caminho pela rua do Ouvidor, centro do Rio. A tarde vai quente, o verão se anuncia. Em meio à fileira de lojas e à avalanche de gente que serpenteia, vou em direção à Uruguaiana. Muitas pessoas distribuem panfletos: “compra-se ouro”, “dinheiro rápido e fácil”. Os homens olham em minha direção. Meu vestido curto tomara-que-caia, justo nos seios, desce solto, se abrindo, feito balão. Tenho que segurar uma das barras, porque vez ou outra há o risco de ele subir, descobrir minhas pernas mais do que já vão nuas. Intempestivos esses homens, grande parte tem mulher em casa, talvez filhos, mas não deixam de virar a cabeça, medir minha estatura, voltar-se às minhas nádegas. Alguns até tentariam abordar-me, mas passo rápida, vou alheia. Não deixo de lembrar Alfredo. Penso como tudo aconteceu e acabou. Dizia que me amava, que eu era a melhor mulher do mundo, a mais bonita; e o surpreendo num restaurante com uma mulher vulgar. Depois veio correndo, queria-me dizer que não tinha nada com ela, que não passava de uma colega de trabalho. Ela, porém, mostrou-se digna; disse-me que era sua amante. Nos primeiros dias, mantive-me irresoluta; não mais queria saber daquele homem; traíra-me. Com o passar do tempo, a saudade aumenta e esquecemos o mal a que fomos submetidas. Às vezes tendemos a nos lembrar apenas das coisas boas. Então revivi os dias alegres em que estive ao lado dele. Um filme deslocado rodou em minha cabeça; tínhamos sido bons atores. Sorria e o beijava. Mas eu não podia recuar. Para esquecê-lo, atirar-me-ia nos braços do primeiro que aparecesse.

O sucesso de toda mulher depende muito da roupa que veste e da tinta que usa. Tinta, isso mesmo. Tudo é tinta; maquiagem e cabelo. Outro dia li num desses jornais uma escritora: toda realidade é uma construção. Os homens olham para quase todas as mulheres. A que vá bem trajada e bem maquiada, os cabelos arranjados de forma exuberante, terá todo um império a seus pés, ou toda uma república; questão de geografia.

Lançar-me-ia ao primeiro homem. Mas na rua, temi. Não podia olhar diretamente a alguém porque corria o risco de ser confundida com uma prostituta barata. Eu, que sempre ando de roupa curta, percebi como seria complicado. Optei por um prédio de escritórios. Desses que há em profusão nas pequenas ruas do centro; em que na portaria não se pergunta aonde você vai. Entrei. O elevador ascendeu solto, sem o ascensorista. Às vezes temo pela falta desse profissional; ele nos dá segurança. Quando a gente se vê só dentro da cabine, o coração dispara, o peito dói e falta o ar. Saí num desses andares de corredor comprido, passei por algumas portas trancadas, com placas indicando contadores ou advogados. Eu queria me entregar ao primeiro homem, experimentar o mesmo que Alfredo ao se entregar à primeira mulher. O que é que os homens sentem para se atirarem à primeira mulher que passa? Escorreguei por mais corredores, desci lances de escada.

“Se eu contar, ninguém vai acreditar”, “Não é para contar”, eu sussurrava em seu ouvido enquanto ele ia com as mãos sob minha roupa. “Será que alguém já teve essa sorte, dona?”, “Que dona?, não sou nenhuma dona.” Trepávamos num dos vãos da escada de incêndio. Eu, um degrau acima; ele, tentando me penetrar. Quis tirar o vestido – lembrei-me de uma amiga que tirava toda a roupa antes de bater na porta do namorado, “peladinha, é o segredo”, ela dizia –, mas nossa localização era arriscada; apenas levantei o tecido fino até acima dos seios, queria que ele os apertasse. O rapaz tremeu, “alguém pode encontrar a gente, dona.” “Que dona?, não sou nenhuma dona, e aproveita que você não vai me ver mais.” “Nós podíamos ir para um hotel.” “Nada de hotel; até chegarmos lá, já perdi a vontade; acho que você quer é passear comigo, não ?, quer mostrar a seus amigos que você tem talento.” “Não é isso, dona, é melhor transar numa cama; rola uns beijos e ninguém precisa ter pressa.” “Não sou dona, é a última vez que digo.” Trepamos durante um bom quarto de hora. “Beije-me”, disse eu, “não foi você que falou em beijo?” Tapei a boca do homem com a minha. Ele era na verdade muito jovem, sem experiência alguma. “Vamos, vou fazer você gozar”, falei. “Moça, acho que vem alguém, vão nos pegar no flagra!” “Silêncio, não vai acontecer nada.” Na verdade vinha alguém, mas se deteve ante a porta do elevador. Quando acabamos, abaixei-me para deixar escorrer toda a porra. “Vá embora”, eu disse mantendo-me agachada. “Mas e você?” “Não se preocupe comigo, sei me virar, vá; você não me esperava encontrar nem pensava em trepar com uma mulher bonita às quatro da tarde; desapareça, tenha disso tudo uma boa lembrança.” Beijei-o sobre uma das faces. Ele se foi sem olhar para trás.

Desço rápido. Recomposta. Ando pela mesma rua do Ouvidor. Paro diante de uma loja de roupas. Que vestido lindo! Vai cair em mim como uma flor. O que sente um homem quando vê pela primeira vez uma mulher na rua e dez minutos depois a tem nos braços? Não sei. O que sente uma mulher depois de se abrir a um homem que conheceu há um quarto de hora? Também não sei; difícil dizer. Passadas algumas horas, só sei dizer que não me sinto traída. Coitado do rapaz, nunca vai me esquecer. Nem jamais alguém vai acreditar na história dele...

quinta-feira, novembro 15, 2007

Picardias e paliçadas

Como as águas de uma estação termal, subia-me todo o corpo o vapor das fêmeas erradias; minha pele alva permeada de gotículas transparentes, entrecortada pelo tecido negro do vestido comprido e solto, convidava. Quem se candidataria a percorrer-me o corpo sutil, a irmanar a palma da mão ou a ponta dos dedos a calor que se derramava em febre de desejo? Quem deslizaria sobre o tecido úmido – teclas de bemóis e sustenidos – a melodia hábil de um pianista? Eu era a música, latejava som de orquestra, perdia-me entre cordas e metais. A multidão comprimia-se num espaço de alegria. Corpos de atletas, campeões em provas de outras plagas e de outros deuses, apertavam mulheres seminuas. Afrodites que deixavam escapar sorrisos fugitivos, beijos rubros-violetas, ancas volumosas, abdomens ricos a descobertas. Aportou-me misterioso cavaleiro. Num gesto brusco descobriu-me madura sob o pano. Suas mãos tremeram; era amador em versos femininos. Precisei afastar as pernas. Fiz que escorregava distraída, num passo de mulher desinibida. Depois me recolhi à sua espera; as pernas ainda dois dedos entretidas. Escapou-me perfume e cintilância, umidade de paredes novas, prenúncio de civilizações a encetar viagens e delírios. Senti que a batalha se daria em solo escasso, não dado a escapada ainda que fingida. Sussurrou-me rumores remotos, palavras mágicas, narrativa a precipitar desvarios. Mãos fiéis imobilizaram-me qual estátua, arqueólogo em valorosa descoberta. Uma lança, lembranças de batalhas medievas já vencidas, cortou-me a tez, ranhura primitiva, assalto ao desejo em plena luz de réveillon, chuva adiantada sob vestes transparentes. Segurei-o; queria um segundo golpe, e o queria demorado. O gozo é passageiro, mas perpétuo o entrevero; fantasmas que buscam imanências arriscadas. Luzes circulavam o arrabalde, mulheres proibiam permissivas, paradoxos da volúpia. Eu, recém forjada, a escorar parede de tijolos crus, a roçar picardias e paliçadas, a moldar o próprio corpo em brilho avermelhado, seios nus a espelharem cerâmica de arrepio. Então me atirei a seu alcance. “Ainda não tarda, restitua-me a lança, aplaca-me o desejo”.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Caixa de incêndio

– Você precisava ver, foi um show, jamais pensei que eu ia gostar tanto daquela brincadeira.

– Você deve estar louca; já imaginou se alguém surpreende você?

– Na hora nem pensei nisso; só queria sentir prazer.

– E se alguém encontra a sacola?

– O prazer é intenso, e as incertezas pesam a favor.

As duas conversavam enquanto aguardavam a hora do filme. Eu, que tomava café na mesa ao lado, pegara a conversa pela metade. Pelo que pude entender, falavam sobre um homem que era bem-dotado e estava tendo um caso com a mais jovem. Esta continuou:

– Você precisa ver, todas as mulheres que trepam com ele aparecem lá nuas. Contando ninguém acredita. Tocam a campainha e ele abre. Dizem que às vezes tem até que marcar hora; sempre depois das dez da noite.

– Como assim? Como é possível receber tantas mulheres? Elas não se encontram ao acaso no prédio?

– Não sei, vai ver que até se encontram e nem ligam. Certa vez ele me disse que eu podia ficar escondida e observar. Foi o que fiz. Fiquei surpresa, num espaço de duas horas duas mulheres bateram à porta.

A conversa era estranha. O fato também me despertou o interesse. Queria saber que história era aquela.

– Elas ganham algum dinheiro? – ficou curiosa a que ouvia.

– Não, pelo que pude observar, fazem por prazer; e ele tem uma conversa terrível; não há mulher que não caia na conversa dele.

– Ah, eu não caio; você acha que eu vou chegar nua na casa de um homem? Nem que ele seja o mais rico do mundo, ou mesmo um ator lindo e famoso.

– Você está enganada; se for até lá, acaba cedendo.

Quem seria aquele homem? Comecei a ter vontade de saber. Não podia interromper a conversa e perguntar. A hora do filme se aproximava. Elas levantaram e entraram na fila. Quis segui-las, mas a princípio temi que percebessem.

Ainda ouvi:

– Se você quiser, podemos ir lá hoje. Você vai comprovar com os próprios olhos.

– Não, prefiro a minha tranqüilidade.

– Tranqüilidade? Se você for, não vai querer outra vida.

Só me restava segui-las. Estava sozinha e a conversa excitara-me. Assistiria ao filme; esforcei-me para não as perder de vista.

Às onze e quarenta e cinco, elas cruzaram a porta do Espaço de Cinema e entraram num táxi. Meu carro estava estacionado no outro lado da rua. Atravessei correndo, entrei e dei a partida. Procurei seguir o táxi a distância; temia que o motorista me percebesse. O carro trafegou por algumas ruas de Copacabana até entrar numa pequena transversal e parar junto a uma banca de jornal. Tive dificuldade de estacionar. Enquanto saltavam, escutei a mais esperta falar em voz alta.

– Se você não quer subir, espere-me aqui, mas tome cuidado, está deserto e vou demorar cerca de uma hora. O apartamento é o 602 – apontou o prédio.

As duas acabaram entrando. Corri para alcançá-las. Uma delas ainda segurou a porta do elevador para eu entrar. Talvez pensassem que eu fosse uma moradora. Agradeci e apertei o botão do oitavo andar. Depois desci os dois andares pela escada e escondi-me atrás da mureta.

A mais espevitada tirou rapidamente o vestido deixando-o nas mãos da amiga. Bateu suavemente à porta, que logo foi aberta. Entrou. A outra não demorou a decidir-se. Tirou também a roupa, colocou tudo na bolsa e a escondeu na caixa de incêndio.

Dez minutos depois, nua e com o coração aos saltos, ia eu. Mergulhava às cegas; não sabia se cortaria suave o espelho d’água ou se me esperava o azulejo da piscina vazia.

O que aconteceu dentro do apartamento é difícil descrever. Mas foi a água que me amorteceu o salto. E quente!