quinta-feira, junho 06, 2013

Se houvesse sol - 2

À noite, fui ao Shopping. Vestia um vestido preto curto, o tecido colado ao corpo, desses que nos deixam torneadas e fazem o olhar dos homens nos acompanhar quando lhes damos as costas. Como a temperatura era de meia estação, calçava uma bota de cano curto mas de salto, da mesma cor do vestido. Olhei algumas vitrines; atraiu-me a da Maria B. Vestidos, saias combinando com blusas verde musgo, manequins bem trajados, suéteres e cachecóis. Num dos corredores, sentei-me num quiosque de café expresso. Havia apenas eu, duas mulheres numa mesa próxima e mais adiante um casal. Tomei um capucino. De onde eu estava, reparei a joalheria Jews. Já que sou apaixonada por joias, tentei lembrar os cordões, colares e pulseiras que sempre ornam sua vitrine. Certa vez um admirador me presenteou com uma medalha. Conheci-o fazia pouco tempo. A medalha, que tinha ares esotéricos, lembrava o sol. Gostei muito dela. Deixei-me conquistar por ele fazendo o seu jogo, mas o relacionamento durou pouco. Chegamos a sair algumas vezes. Certa vez me levou a um restaurante muito chique. Aí vem a parte difícil de contar: ele me agarrou dentro do carro. Alguém que dá uma joia de presente a uma mulher e a seguir  tenta agarrá-la dentro do automóvel é de uma pobreza terrível. Deixei, porém, que me acariciasse. Depois, falei: "vou lhe fazer uma surpresa, feche os olhos." Ele assim obedeceu. "Não pode abrir, viu, porque se abrir perde a graça. Segure isso, está bem?" Ele então falou: "o que você me está dando para segurar?" Respondi: "adivinhe, é de pano e estava sobre o meu corpo, toque com a outra mão o meu pescoço." Ele assim o fez. "Ah, o cordão, você está só de cordão?" "Isso mesmo", falei, "mas não abra ainda, vou sair do carro, quando estiver lá fora dou a ordem para você abrir os olhos." Eu e essa eterna mania de dar ordens, vai que um dia elas não sejam obedecidas. Saí do carro, somente o cordão de ouro e a medalha no pescoço. "Agora abra." Ele se surpreendeu ao me ver pelada na frente do carro. Dobrei os braços, cobri os seios e fiquei olhando-o numa posição sedutora. Não resistiu e veio para o lado de fora. "Não, por favor, volte para dentro do carro, deixe meu vestido sobre o capô e volte. Continue de olhos fechados." Muito a contragosto, ele voltou. Não escutou outra ordem, porque me vesti e fugi dali. Creio que ao reparar o silêncio contínuo à sua volta, abriu os olhos e ficou furioso. Numa outra vez me viu na orla marítima. Mas não pôde fazer nada, estava acompanhada. Para provocá-lo, sorri e dei um adeusinho às escondidas.

Ao sair do café, olhei os cartazes com os filmes da semana. Havia uma comédia muito comentada. Senti vontade de assistir. Mas, uma surpresa, vi o jovem com quem conversara na praia pela manhã. Ele passou rápido, não me reparou. Pelo seu traje, acho que trabalhava em algum dos restaurantes do shopping. Decidi investigar. Rodeei todo o andar com a intenção de verificar os dois restaurantes que ficavam na frente, logo à entrada. Não demorei, mas não mais o vi. Será que se escondera, ou o homem não era ele? Achei melhor não insistir naquela noite. Mais cedo ou mais tarde o veria de novo.

Quando passei novamente em frente às escadas rolantes, vi duas amigas que me acenavam da mesa onde estavam. Tomavam chopes. Apesar de outras pessoas estarem nas proximidades, o local não estava muito cheio. Não é possível nesta cidade uma mulher ficar sozinha, pensei. Logo aparece algum conhecido. Elas eram boas pessoas. Também tinham um fogo terrível, viviam em conversas sobre namorados e sobre como se tornarem cada vez mais sedutoras.

“Ah, acho que vou até lá fora fumar”, falou Gisele. “Oi, Célia, que bom que você está por aqui”, disse ao me ver, “espere um instante, já volto.”

Na mesa ficaram Jussara e Carla, as duas se viraram para mim. Foi Jussara que falou primeiro:

“Como vai, Célia, há quanto tempo, não é mesmo? Nem pra telefonar marcando uma saída com a gente. Estamos sentindo sua falta.”

“Que bom que tenho amigas tão prestativas, que se preocupam sempre em me encontrar”, falei e sorri para elas.

Carla se manifestou:

“Há uma novidade, espere a Gisele voltar que ela vai contar, está achando o máximo o que aconteceu com ela.”

“Já sei”, arrisquei, “arranjou um namorado bem jovem e complicado.”

“Não é tão jovem, mas ela se meteu numa encrenca, e acha ótimo sair por aí contando a todo mundo, tanto mais numa cidade dessas, eu morreria de vergonha, ou então fugiria para bem longe. Mas você sabe como ela é.”

“Então o negócio é bom”, dei meu palpite.

“Para uma mulher do jeito dela, acredito que sim.”

“Olhem, vem ela de volta”, mostrou discretamente Jussara.

“Oi, Gisele, como vai?”

“Estou ótima, estou precisando de alguém para me acompanhar num chope, você aceita?”

“Um só, aceito, não quero engordar, principalmente porque tenho ido à praia nos dias de sol.”

“E tem feito muitos dias de sol, não é mesmo? Com esse corpinho que você tem, acho que não quer deixar de se exibir.”

“Ah, adivinhou, adoro.”

“Gisele”, interveio Jussara, “conta pra ela aquela história.”

“Que história, Jussara?”

“Ah, mulher, não se faça de tola, aquela história que você me contou cheia de sorrisos e achou muito engraçada.”

“Acho que a Jussara gostou mais do que eu do fato que narrei a ela.”

“Eu, Deus me livre, ficar nua na casa de uma desconhecida e ainda por cima estar sob o risco de ser enxotada pelada de lá.”

“Que história é essa?” perguntei surpresa.

“Calma, nem estava prensando mais nisso, mas já que nossa amiga tocou no assunto, conto de novo. Cada vez que relato o que aconteceu acho que a Jussara morre de tesão.”

“Sem comentários”, disse Jussara.

“Vamos para o restaurante da entrada, lá, além de ser melhor, ficamos em evidência. Você, Célia, falou que toma um chope.”

“Está bem, então vamos.”

Caminhamos até a entrada do shopping, do lado esquerdo há um bar muito bonito, todo com mesinhas de mármore. Sentamos e pedimos dois chopes. Jussara pediu uma taça de vinho.

“Sou toda ouvidos”, falei e ri.

Foi a respeito de um homem que me paquerou, saí com ele duas vezes.

“Ah, tinha de ter um namorado no meio, não?”

“Namorado na verdade, não. Foi apenas duas vezes. Mas eis a história. Estava no trabalho, você sabe que atendo o público. Eram mais ou menos três da tarde quando uma mulher de uns quarenta anos, loura, bonita mesmo, sentou diante de mim. Perguntei:

“Em que posso servi-la?”

E respondeu:

“Você trepou com o meu marido.”

Olhei um pouco assustada, achei que era uma brincadeira. Falei séria:

“Nem conheço a senhora, como pode falar assim comigo?”

Ela continuou:

“Mas é verdade, não sou pessoa de fazer escândalo. Mas descobri e vim até aqui para conversar com você.”

Senti um pouco de desconforto com a presença dela, mas acabou falando o nome do marido, o dia, a hora e o lugar aonde eu tinha ido com ele. Lembrei enfim de quem se tratava. Então, eu disse:

“É melhor a gente conversar em outro lugar, aqui preciso atender as pessoas, não vai ficar bem conversar sobre isso agora, vamos marcar para depois do expediente?”

Ela aceitou.

Quando saí, às cinco e trinta, lá estava a mulher aguardando. Sorriu para mim e disse:

“Vamos a um lugar melhor.”

Ela tem carro. Convidou-me a entrar, fiquei morrendo de medo.

“Não precisa ter medo, não vou fazer nada com você, só quero conversar.”

“Mas sobre o quê?”, perguntei, “saí apenas duas vezes com o seu marido, lembro de quem se trata, mas não marcamos mais nenhum encontro nem ele me falou que era casado.”

“Caso ele tivesse falado você sairia com ele?”

“Não sei. Já saí com homens casados, isso não me interessa, mas às vezes temo que aconteçam problemas como esse.”

“É melhor entrarmos no meu carro, vamos”, ela insistiu, “não quero ficar aqui no meio da rua conversando.”

Entramos no carro e saímos dali. Fomos para orla marítima. Paramos e entramos no Ilha Linda Sul. Achei melhor que fosse num lugar público, porque ali conheço algumas pessoas. Ela acabou aceitando. Pedimos, como agora, dois chopes. Até aquele momento não tinha se apresentado. Falou então seu nome, chama-se Mara. Reiniciou a conversa:

“Não quero brigar com você porque saiu com o meu marido. Sabe mesmo o que quero saber?” silenciou, esperando conseguir certo efeito com a pergunta. Intuí que esperava que eu me manifestasse.

“Não.”

“Quero que me explique o que fez para conquistá-lo.”

Sorri enquanto bebia os primeiros goles do meu chope. Ela me acompanhou.

“Mas essas coisas são difíceis de explicar, acontecem naturalmente”, insisti.

“Quero reconquistá-lo. Ele já gostou muito de mim, mas agora acho que perdeu o interesse. Veja como sou bonita, acho que sou mais bonita do que você. Desculpe a comparação.”

Sorri mais uma vez. Olhei bem nos seus olhos, depois o pescoço, os cabelos. Ela tinha realmente os traços muito refinados.

“Veja, vou tentar dizer alguma coisa”, falei, “não sou casada , e isso instiga um pouco os homens. Eles olham e querem me conquistar, desejam uma mulher diferente da que eles têm em casa. Há um ponto que sempre está contra a esposa, mesmo que ela seja bonita: as esposas perdem o fetiche.”

Ela me olhou demonstrando interesse, quis acender um cigarro, mas observou que não era permitido fumar no restaurante. Ficou durante alguns minutos com o cigarro apagado entre os dedos.

“Fetiche? Pode me explicar melhor?”

“É o seguinte, alguma coisa tem que estar escondida. A esposa costuma se abrir demais, isso é ruim, faz seu marido perder o interesse. Preste atenção. Aprendi isso quando era mais jovem. Tive um noivo, como todas as moças da época. Todas tiveram um noivo na juventude e estavam sempre prestes a casar com ele. Muitas até mesmo casaram. Esse meu noivo dizia gostar muito de mim. Mas vivia tomando chope com os amigos e jogando futebol. Aos domingos, era um problema. Ele só aparecia tarde da noite, nem dava para ficarmos juntos. Então imaginei como seria aquele casamento. Quis terminar o noivado, mas primeiro planejei um meio de deixá-lo apaixonado por mim. Depois, terminaria.”

“E o que você fez?”, perguntou ansiosa, balançava uma das pernas, estavam cruzadas.

“Esperei um dia em que tinha certeza de que ele estaria sozinho em casa. Não tínhamos marcado encontro, apareci de repente. Mas não foi só isso.”

“O que mais, então?”

“Apareci nua na casa dele!”

“Nua? Como assim?”

“Pelada, sem roupa alguma. Ele levou o maior susto.”

“O que você disse a ele?”

“Já acabo de contar. Permite que eu vá até lá fora fumar um cigarro?”

“À vontade, mas não demore.”

Podia ter fugido e deixado a mulher no restaurante morrendo de curiosidade, mas não queria fazer isso. Desejava mesmo contar o que aconteceu. Não demorei a voltar.

“Você também não queria fumar?”, perguntei, “vá agora.”

Acabou aceitando a sugestão. Enquanto isso, pedi ao garçom mais um chope.

Logo ela voltou, deve ter apagado o cigarro antes de ter atingido a metade.

“Conte, por favor, estou morta de curiosidade”, sorriu depois da última palavra.

“Continuando: apareci nua na porta dele. Bati, era uma dessas casas que tem muro com um portão que não fica trancado; a gente passa pelo portão, vai até a porta da casa e toca a campainha. Ele veio atender. Ao me ver, arregalou os olhos, ficou assustadíssimo. Perguntou de um só jato o que tinha acontecido. Nada respondi, apenas disse: me dê abrigo, por favor. Você foi assaltada, fizeram alguma coisa com você? Me fale o que aconteceu, ele quis saber. Me dê abrigo, eu dizia, abracei-o, beijei-o na boca e comecei a tirar sua roupa. Ele ainda continuava assustado. Não vai contar o que houve?, perguntou de novo. Depende, eu disse. Tirei sua roupa e trepamos ali mesmo, no chão da sala. Quando acabamos, pedi: você pode me dar um copo de água ou de suco? Vou buscar, mas quero saber direitinho o que aconteceu, falou. Foi à cozinha, mas quando voltou eu já não estava lá. Durante um bom tempo não me deixou em paz. Grudou de tal modo que eu não tive mais liberdade para fazer coisa alguma. Quando me perguntava sobre aquele dia, eu desconversava. Não foi mais tomar chope com os amigos nem jogar futebol aos domingos. Queria ficar comigo o tempo todo, queria trepar comigo o tempo todo. Às vezes, no meio do ato, suplicava: conta, conta sobre aquele dia. Sua família desconfiou de suas atitudes, pensaram que eu estivesse grávida. Depois de um mês, terminei o noivado. Nunca contei a ele por que cheguei nua naquele dia. Acho que até hoje deve deve ser apaixonado por mim. Já não mora na cidade”

“Mas que maldade!”, ela disse.

“Maldade?”, retruquei, “se você acha isso maldade, merece mesmo ser traída.”

Ela fechou a cara. Ficamos ali mais um quarto de hora. Depois me perguntou se eu queria carona para voltar. Respondi que não. Despedimo-nos e ela se foi. Antes, porém, disse:

“Muito obrigada, já sei o que vou fazer.”


“E a história de que você ficou nua na casa dela e que correu o risco de ser posta pra fora sem roupa?”, insistiu Jussara.

“Ah, isso foi num outro dia. Espere, quero mais um chope, também vou até lá fora fumar, depois continuo.”

Gisele saiu durante alguns minutos. Olhei para Jussara que fez um movimento com os olhos e continuou em silêncio. O garçom veio com o chope de Gisele e me perguntou se eu queria mais um.

“Por enquanto não, obrigada.”

Gisele voltou. Olhei para ela com fisionomia de interesse, queria que continuasse contar a sua aventura.

“Num outro dia encontrei-a na rua. Parou para falar comigo e agradeceu muito pelo que ensinei a ela.”

“Ensinei alguma coisa?”, disfarcei.

Ela respondeu: “e como!”

Contou o que fez. Minha história sofreu algumas adaptações na versão dela, que incluía até mesmo dirigir nua. Falou que o marido ficou exultante ao vê-la chegar sem roupa em casa. A princípio, nada perguntou. Pegou-a no colo e foram direto para cama. Depois, quis que ela lhe dissesse o que significava tudo aquilo. Mas ela fechou bem a boca. Nos dias que se seguiram, ele ficou morrendo de curiosidade. Ela continuou em silêncio sobre o assunto. Ele então sugeriu algumas ações semelhantes. Pedia para ela sair, trancava a porta e pedia para que batesse nua. Ela cumpria o que o homem pedia. Depois que entrava, caía em seus braços e inventava uma história para explicar porque chegara nua. Ele sempre tinha a esperança de que dentre tantas histórias ela acabaria contando a daquele primeiro dia. Depois passaram a sair de madrugada. Iam a lugares escuros, para a orla ou mesmo para a rodovia. Ele deixava-a nua por alguns minutos e partia levando toda a roupa da mulher dentro do carro. Um dia não a encontrou, procurou-a a noite inteira, achou a mulher quando já amanhecia, e num local muito distante de onde a deixara. Quis saber o que acontecera. Mas ela silenciou mais uma vez.  Convidou-me para ir até sua casa para continuar contando suas histórias, disse que queria me fazer uma surpresa. Fez um café e depois me pediu para tirar a roupa. Perguntei qual era o motivo. Disse que queria comparar o seu corpo com o meu.

“Ah, que besteira, é lógico que você é mais bonita”, disse eu.

Mas acabei aceitando o desafio. Tirei a roupa e comparamos nossos corpos. Ficamos ambas nuas durante algum tempo, as duas sentadas em poltronas da sala, de pernas cruzadas. Quando estava para ir embora, pedi que me deixasse vestir. Devolveu meu vestido. Agradeci, beijei-a e fui embora. É tudo. Sei que seu casamento dura até hoje, e o marido nunca mais me procurou.


“E como você fez?”, Jussara quis saber.

“Já arranjei três amantes depois dele.”

Caímos as três numa gargalhada demorada.

Fomos embora por volta das dez horas, a hora em que as lojas fecham. Quando já estava no estacionamento, vi de novo o rapaz que admirara pela manhã na praia. Acho que me espionava. Mas por que não veio falar comigo? Sou uma pessoa tão aberta. Talvez porque me viu acompanhada de outras mulheres. Depois ainda pude perceber que correu até o estacionamento das motocicletas. Não mais consegui vê-lo, estava escuro e o estacionamento fica num ângulo mais retirado, no pátio coberto do shopping.

Em casa, larguei-me numa das poltronas antes de me despir. Deitei-me. Quis ouvir uma música, mas quando pressionei o controle foi a tela da televisão que brilhou. Cheguei a tomar um susto. Havia apanhado o controle errado. Acabei me distraindo com um filme. Acho que era uma série policial. Devia fazer frio naquele lugar, pois uma mulher usava um vestido de tecido grosso, de mangas compridas, quando saiu em diligência ainda cobriu-se com um sobretudo. Mas foi o vestido da mulher que chamou a minha atenção. Lembrei-me de um vestido semelhante que tivera quando morei em BH. Aconteceu algo muito engraçado quando saí com aquela roupa, a pedido de um namorado de ocasião. Mais uma extravagância. “Você sai de vestido mas sem nada por baixo?”, a voz lânguida revelava seu forte desejo por mim. Ri da proposta. Como ele era encantador, aceitei. Confesso que a ideia também me agradou. O vestido era do mesmo modelo daquele do filme, de botões que iam de cima até embaixo. Os botões e a possibilidade de desabotoá-los o excitavam mais. Saímos lá pelas dez e meia, rodamos por umas ruas onde havia bares e boates. Entramos em um bar e tomamos uma cerveja, comemos uma besteira qualquer. Ele ficou me alisando e, quando podia, me beijando. Fomos os dois ficando excitados. Já passava de meia-noite quando saímos dali. Meu namorado perguntou: “você não conhece um canto escuro para eu desabotoar esse vestido e lhe dar uns beijos?” Sua nova proposta me excitou ainda mais. Nada falei, mas o puxei pela mão e andamos por umas ruas escuras. Encontrei um vão. Era entre uma loja e uma espécie de galpão, um lugar que fazia alguns anos não servia para nada, acho que fora uma pequena fábrica. Ficamos ali, de pé, agarrados um ao outro. “Vai, desabotoa”, incentivei, “suas mãos estão tremendo, quem vai ficar nua sou eu, completei.” Ele me deixou nuazinha. Não lembro onde deixei o vestido. Minha única proteção durante muito tempo foi o corpo dele. Passaram alguns automóveis e eu ali, totalmente nua. Namoramos muito. Após uma meia hora fomos embora. Acabamos nossa transa em casa, numa rede que eu tinha dependurada perto da janela. O andar era o décimo oitavo. Dali dava para ver todo o centro da cidade. Em meio às carícias, ele sussurrou no meu ouvido: “já pensou se te roubam o vestido?” Respondi: “pensei nisso, fiquei ainda com mais tesão!”

Se houvesse sol - 1

A partir de hoje passo a publicar, em capítulos, o meu novo romance. Espero que o apreciem. Agradeço.

Ele passou na faixa de areia entre o mar, que explodia em rendas desfiadas, e a pequena falésia. Era alto e jovem. Eu lia uma revista e ao mesmo tempo tentava dar conta do que acontecia à minha volta. Havia pouca gente na praia, um guarda-sol ou outro, a maioria eram mulheres sozinhas ou acompanhando crianças. Continuou o seu caminho. Não se tratava de uma caminhada de esportista ou de alguém interessado em andar para melhorar a condição física, era alguém que andava por andar, talvez por achar enfadonho permanecer no mesmo lugar. Parecia absorto. Lembro-me ainda que voltou o rosto para o mar uma ou duas vezes; depois, desapareceu. Momentos mais tarde fez o caminho de volta. Suas passadas eram como as da ida. Notou então que eu o olhava. Mesmo que continuasse acompanhando sua marcha, sei que jamais viria falar comigo. Era o jeito dele.

No dia seguinte, voltei à praia. O mesmo sol, quase as mesmas pessoas. A cena se repetiu. Então lhe acenei. Perguntei se tinha fogo. Mas ele não fumava. Ao reparar que eu teria de renunciar ao cigarro, acho que por gentileza pediu que eu aguardasse. Voltou com um isqueiro. Ignoro onde o arranjou. Não acendeu meu cigarro. Apenas emprestou-me o isqueiro. Acendi e devolvi.

Obrigada", meu sorriso pareceu agradá-lo. Embora tenha também sorrido, partiu em seguida.

Demorou uma semana para que eu o visse de novo. Não  lembro se era quarta ou quinta-feira. Acenei num sinal de cumprimento. Sorri. Ele fez os mesmos gestos, mas não parou. Mais ou menos uma hora depois vinha de volta. Como não queria perdê-lo, chamei-o.

“Passeando?”, perguntei.

“Dando umas voltas.”

“Mas a praia é em linha reta”, sorri.

“Como?”, pareceu não entender.

“É uma brincadeira, não me leve a mal.”

Durante o breve diálogo, mantive-me de pé, olhando durante quase todo o tempo para ele.

“Meu nome é Célia, e o seu?”

“Daniel.”

“Você toma banho de mar?”, continuei.

“Tomo.”

“Mas vejo apenas você caminhando...”

“Mergulho mais tarde.”

“Vamos mergulhar?”, sugeri.

“Vamos.”

E fomos nós dois para dentro d’água.

A água do mar estava fria, mas não deixamos de nos divertir. Mergulhamos diversas vezes, cortamos várias ondas. Ao voltarmos à superfície eu sorria para ele enquanto uma enorme quantidade de água escorria pelos nossos cabelos e rostos. Sempre tentávamos observar as ondas para não sermos surpreendidos por uma ou outra de maior tamanho. Meu recente amigo tinha intimidade com o mar, mostrou-se bom nadador.

Voltamos para junto do meu guarda-sol. Enxuguei-me com uma grande toalha e a ofereci a ele. Não desejava esperar que os mornos raios de sol me secassem.

“Fique um pouquinho”, pedi.

Ele olhou para o céu como se consultasse alguma coisa. Acho que se certificou de que o sol ia alto e que não desapareceria. Depois se voltou para mim e sentou-se na areia, ao lado da cadeira onde momentos antes eu sentara.

Durante algum tempo, que me pareceu enorme, ficamos olhando na direção do mar, um vento ainda brando nos acariciava.

“Você vem à praia todos os dias?”, perguntei.

“Tento vir.”

“É bom poder aproveitar a vida à beira-mar, tanto mais numa cidade tranquila como a nossa.”

“Você acha M. tranquila?”

“Pelo número de habitantes, sim. Mas depende também da vida que se leva.”

“É, depende da vida que se leva”, pareceu gostar das minhas últimas palavras. “Você não trabalha?”

“Depende do que se entende por trabalho”, respondi. “Às vezes vir até aqui e permanecer sob o sol é um tipo de trabalho, não é mesmo? Ajuda no que é preciso fazer depois.”

“E o que você faz depois?”

“Espero chegar o dia seguinte.”

Riu.

“Acho que vou ter de ir, tenho um compromisso.”

“Então vá, não há problema algum, a gente se vê depois.”

Despediu-se e se foi. Quando já havia dado alguns passos, falou:

“Estou sempre aqui pela manhã.”

Acenei e sorri antes que me desse as costas.

Depois que ele se foi, concentrei-me na leitura de uma revista. Era uma dessas revistas semanais que trazem a vida de modelos e de artistas, objetos e roupas da moda, muita propaganda e história de pessoas famosas. Havia uma página em que uma atriz americana contava o seu primeiro trabalho para um comercial em que tinha de ficar nua da cintura para cima. Eis as palavras da mulher:

Era uma propaganda de jeans e a cena não era difícil, mas como eu não estava acostumada a tirar a roupa na frente de tanta gente, fiquei um pouco nervosa. O diretor dizia: “são todos profissionais, não temos tempo a perder, caso você queira desistir há milhares de garotas que estão dispostas a posar nua de graça.”

Eu estava já sem a blusa, mas envolta numa pequena toalha. Ele continuava: “Vamos, não posso perder tempo, tenho outros compromissos para hoje.”

“Espere um instante, por favor, dê-me mais cinco minutos que eu consigo”, pedi

“Apenas cinco minutos, caso contrário contratamos outra pessoa.”

Voltei desesperada ao camarim. Ele ficava numa caminhonete que tinha cortinas nas janelas. Para me deixar ainda mais nervosa, filmávamos ao ar livre. Um dos assistentes correu atrás de mim e me ofereceu uma dose de uma bebida que naquele momento eu não soube identificar.

“Beba isso, você vai relaxar.”

Depois de alguns minutos, confesso que me senti ótima, totalmente solta. Saí do camarim até mesmo sem o pano que me cobria os seios. O diretor olhou surpreso:

“Vamos, então?”

Sorri e disse sedutora:

“Agora!”

As fotos ficaram lindas. Pedi para escolher qual gostaria que fizesse parte da campanha publicitária. Eles concordaram e acabaram também opinando que a minha escolha era a melhor. Depois, ao me ver na capa dupla das principais revistas com os seios à mostra e vestindo apenas a calça jeans e o sapato preto de salto, senti uma ponta de vergonha. Mas o que há de se fazer? É a minha profissão.

Algumas semanas depois, o mesmo assistente que me dera a bebida telefonou e me convidou para sair. Marcamos o encontro num dia de semana, à noite. Ele me pegou em casa.

“Que bebida foi aquela que você me ofereceu naquele dia?”, perguntei, “me senti tão corajosa.”

“É segredo. Mas se você quiser vamos até lá em casa que eu dou a você mais uma dose.

Aceitei, queria descobrir o segredo.

Não digo o que aconteceu depois. Tomei a bebida e logo tirei a blusa de novo.


Continuei folheando a revista. A mulher não dissera o principal, se trepara ou não com o homem. Mas é lógico que deve ter trepado.

Quando senti o sol já a me queimar, dei mais um mergulho. Esperei meu corpo secar durante cinco ou dez minutos, recolhi o guarda sol e voltei para casa.

quinta-feira, maio 30, 2013

Uma sensação e tanto

Às vezes acontecem coisas que deixam a gente em puro estado de êxtase. Uma delas me ocorreu enquanto andava de bicicleta na ciclovia que margeia a orla marítima, aqui na Zona Sul do Rio. Saí de casa de short e camiseta, comecei o meu passeio e, ao passar pelo Leme, comecei a sentir algo estranho dentro de mim, algo que percorreu as minhas pernas, arrepiou-me, imiscuiu-se nas minhas entranhas e estacionou no baixo ventre. Comecei então a ter aquela sensação que normalmente sinto quando estou na cama fazendo amor. Fiquei toda molhada e, de repente, gozei. Isso mesmo, não tenho outra palavra para expressar o que me aconteceu naquele momento.

Dois dias depois voltei a pedalar na mesma orla, mas dessa vez saí de casa de biquíni, o menor biquíni que possuo. Nem liguei para o que as pessoas pensariam ou falariam de mim, principalmente o porteiro do prédio onde moro. Subi na bicicleta e me pus a pedalar. Depois de alguns minutos, comecei a experimentar a mesma sensação. Então pensei em algo que pudesse me estimular mais, algumas fantasias que todas as pessoas têm na hora do sexo. Pensei no namorado que gostava de me levar nua no banco do carona. A sensação foi aumentando, o tal calor subiu de novo por minhas pernas e percorreu-me o interior do corpo. Fiquei toda molhada de novo. Olhei o mar, as pessoas que estavam na praia, respirei fundo, tremi, agarrei-me com mais força ao guidão da bicicleta e... gozei. Que bom!

Ainda no mesmo passeio, lembrei-me de um amigo com quem conversara certa vez sobre a sensação de êxtase. Ele praticava ioga. Falou que havia exercícios que podiam levar ao gozo sexual sem que se tocasse no parceiro. Mas era preciso muita preparação e cuidado. O sucesso resultaria de uma prática disciplinada, às vezes longa. Quanto ao cuidado, o praticante deveria dar atenção ao seu batimento cardíaco, que sempre se acelera no momento de prazer máximo.

Mas a sensação de gozar pedalando, apesar de me deixar a mil por hora, não agita meu coração mais do que acontece quando estou na cama a namorar alguém. Tudo flui com naturalidade. O que acho de positivo nisso é que a mulher capaz de gozar assim acaba tornando-se até certo ponto autossuficiente. Pode até ter um parceiro, mas terá o prazer à hora que bem entender, o que a tornará muito mais feliz. Vestir um biquíni mínimo é também um fator que facilita muito. Além da sensação de nudez que proporciona, enquanto se pedala ele roça bem lá no fundo. E tem mais uma coisa. Outro dia um homem me olhou tanto, que achei que me flagrava em pleno gozo. Resultado: fiquei molhada em dobro.

sexta-feira, maio 24, 2013

Toda serelepe

Você fala que saí na foto toda serelepe. Gostei da palavra, tão mimosa. De agora em diante vou me portar assim, toda serelepe. Reparou o meu rosto? Não olho na direção da câmera, mas um pouquinho para baixo, como se quisesse observar os pés de quem me fotografa. Então parece que me escondo, parece que não consigo evitar uma ponta de vergonha. Notei também que lhe agradou a minha sandália, bonitinha, não? Vermelha, de meio salto. Tenho certeza de que a pose é encantadora, eu bem esticadinha, as pernas juntas, o braço esquerdo encostado ao corpo. Com o braço direito seguro a coleira de minha cadela, Lana, que aparece à direita. Bonita ela, é jovem, não tem ainda um aninho. Adora passear com a dona. Repare a lateral, à esquerda de quem olha, e o fundo da fotografia. Há o calçamento, um meio muro com plantas; atrás, o jardim de uma casa; é possível também enxergar um homem, ele olha de modo disfarçado para mim. Acho que o surpreendi. Volte os olhos ao meu corpo. Veja a pulseira de contas que uso no pulso direito, acima da mão com que conduzo Lana. Gostou? Ah, outro detalhe, minhas unhas vermelhas combinam com a cor da sandália. O mais interessante, porém, é meu sorriso. Aparento certo vexo. Também não era para menos, você não acha? Que outra expressão eu poderia trazer? Repare os meus seios. Não sou tão narcisista assim, mas os acho tão bonitos, tão – como dizem por aí – bem feitos. Reparou o umbigo? Que delícia, não é mesmo? Desça os olhos mais um pouquinho. E então? Não posso dizer mais. Eu, na rua, de manhãzinha, eu e minha cadela. Precisei ter muita coragem. Como poderia transmitir desenvoltura assim tão... tão...? Repare o pelo da Lana, muito bem tratado; agora volte a vista, me observe de novo. O meu pelo? Não, não tenho pelo... Na verdade, vou em pelo! Por isso a ponta de vexo, por isso, talvez, toda serelepe!

quinta-feira, maio 23, 2013

Escrevi um conto inspirado em você

Tenho um ex que é escritor, e vez ou outra ele envia mensagens para mim. Eis uma conversa por e-mail que tivemos recentemente.

Oi, Beth, tudo bem? Escrevi um conto inspirado em você, quero-lhe enviar colado ao e-mail, mas pergunto antes: posso? Não lhe desejo causar problemas.
Beijos,
Paulo

Não respondi logo, acho que ele chegou a pensar que eu não queria mais assunto. Ontem, porém, escrevi:

Paulo, cadê o conto que você escreveu inspirado em mim? Mande logo. Obrigada!

Oi, Beth, tudo bem? Ainda não tinha enviado porque estava esperando sua concordância. Aí vai.
Beijos,
Paulo

Paulo, nem tudo nesse conto foi inspirado em mim, nunca tive dois namorados ao mesmo tempo. Aqui em Glicério todos me consideram muito. Estou praticamente casada, e o Guilhermino depois que veio morar aqui já fez muitas amizades. Todos os homens falam muito bem de mim pra ele.
Abraços,
Beth

Oi, Beth, desculpe se o conto não corresponde ao que você é. Nem foi essa a minha intenção. Apenas me inspirei em você e criei a história usando a imaginação. As personagens dos contos não precisam corresponder às da vida real.
Beijos,
Paulo

Pouco a pouco minha raiva foi desaparecendo, então li de novo a história e passei a entendê-la de outro modo. Passei até a admirá-la. O que afirmei na mensagem, no entanto, é verdade, jamais namorei dois homens ao mesmo tempo. Mas há outros fatos no conto que me comprometem, e ele poderia tê-los apresentado como argumento mais consistente para questionar a fragilidade do motivo que me levou a ficar aborrecida. Quando namorei o escritor, cometi algumas loucuras que, acredito, nenhuma outra mulher teria coragem de cometer. Caso meu atual marido venha a saber disso, mudará sua opinião sobre mim.

Certa vez ao sairmos de madrugada  eu e esse meu ex , ele me prometeu provocar uma sensação que eu jamais sentira. Parou o carro à beira da estrada, pediu que eu tirasse toda a roupa, a deixasse dentro do carro e saltasse. Como sempre fui destemida, concordei. Ele deu a partida, acelerou e se foi. Ao me ver nua e sozinha, envolvida pela escuridão da noite, percebi a loucura que eu estava fazendo. Fiquei então agitadíssima, o coração a mil por hora. Quando percebi os faróis de outro carro que se aproximava, me atirei no mato, quietinha. Depois que as luzes se foram levantei e descobri que eu estava molhadinha. Mas entre as pernas. Gozei de verdade, e foi um gozo longo, como jamais senti. O namorado voltou vinte minutos depois. Quase pedi que partisse e me deixasse ali mais um pouco. Outra loucura aconteceu na praia. Estávamos dentro d’água quando ele me instigou a tirar o biquíni e entregá-lo em suas mãos. Não demorei a aceitar o novo desafio. Ele levou o meu biquíni e o guardou na bolsa, que ficara na areia; depois voltou e continuamos namorando, eu nua nos seus braços. Também já saí de casa totalmente nua, e por duas ou três vezes. Tanto da minha casa, como do apartamento dele, que fica no Rio. Na minha, desci pelada dois lances de escada; no Rio, saí do apartamento, subi um andar e voltei de elevador; depois bati à porta e esperei um tempo imenso para que ele abrisse.

Oh, todos esses fatos no conto e eu preocupada porque ele sugeriu que namorei dois homens ao mesmo tempo! Querem saber de uma coisa? Acho que nas noites de insônia, é ele quem ainda namoro.

quinta-feira, maio 16, 2013

Você tem um corpão...

“Você tem um corpo e tanto”, o hóspede falou enquanto eu providenciava o jogo de toalhas que a camareira deixara de colocar. É lógico que eu não podia sorrir, estava acostumada a esse tipo de cantada e a seriedade, mesmo que forçada, é sempre golpe poderoso para desarmar os homens.

“Você tem um corpão!”, insistiu agarrando-me o quimono.

Acabei sorrindo, mas de um jeito delicado, não queria que visse na minha atitude um destrato, pois vinha à cidade a trabalho e se hospedava no hotel quase toda semana.

A camareira chegou com o novo jogo de toalhas, entrou e o colocou sobre a cama. Agradeci. Ela pediu licença e se retirou.

“Está bom assim?”, perguntei séria, recomposta.

“Está, mas com você por perto é melhor.”

Sorri mais uma vez, me despedi e saí do apartamento.

Sou gerente do hotel há alguns anos, sempre procuro primar pela eficiência. Queremos manter o cliente, ele é o mais importante para nós.

Quando aquele hóspede desceu e passou por mim – eu estava próxima à recepção –, piscou o olho.

Não mais o vi naquele dia. Mas no seguinte, ao entardecer, a recepcionista procurou por mim: “o hóspede do 803 está à sua procura”. Tive vontade de perguntar o motivo, mas refleti e fiquei em silêncio. Liguei para o 803.

“Alô?”, escutei sua voz.

“Pois não, do que se trata dessa vez?”, perguntei com frieza.

“Você poderia vir até aqui?”

“Não é melhor dizer o que deseja? Subo e resolvo seu problema de uma vez por todas.”

“Ah, que ótimo, vou lhe dizer, então...”

Subi. Ele deixara a porta aberta. Mesmo assim bati de leve com o nó de um dos dedos.

“Entre, por favor.”

”Ok, e então?”, perguntei com uma ponta de sorriso.

“Você tem um corpão...”

“Não é permitido assediar as funcionárias do hotel”, falei.

“Não estou assediando você, mas admirando, já lhe disse, você tem um corpo e tanto.”

“Sabe que posso chamar a polícia e registrar queixa contra você?”

“Sei, mas você não vai fazer isso, não é mesmo?”

“Você sabe quantas vezes por dia ouço esse seu elogio?"

“Imagino”, respondeu com uma dose de alegria.

“Então de agora em diante, exijo que você me respeite. Trabalho aqui faz três anos e nunca dei confiança para hóspede algum.”

“Ok, me desculpe, pensei que estivesse gostando da paquera.”

Dei as costas e desci. Entrei no escritório e sentei. Tirei da bolsa um pequeno espelho, olhei meu rosto, os olhos, a pintura.

Tive uma amiga que dizia a mesma coisa: "você tem um tremendo corpo, se o meu fosse assim eu estava feita." "É mesmo?", eu retrucava. Ela concluía: "Se sem ser tão bonita como você já arranjo uma porção de admiradores, ganho deles tantos presentes, imagine se eu tivesse o corpo como o seu." 

Você tem um corpão... Lembrei a voz do engraçadinho. Se ao menos usasse um pouco de sutileza, quem sabe, até me levava o biquíni. Continuei a me olhar no pequeno espelho. De repente, tomei nas mãos o telefone e liguei para a recepção. Ao ouvir a voz da funcionária, falei: "por favor, Aline, me ligue com o 803. Quando o homem atendeu, falei com uma ponta de ironia:

"Você tem um corpanzil!"

"Corpanzil?", pareceu surpreender-se; talvez por estranhar a palavra, talvez por reconhecer minha voz.

"É como se diz corpão à maneira culta", completei.

Deu uma sonora gargalhada. Quando amainou o riso, concluí:

"Desce ao segundo andar e bate no 201, é o meu escritório, tenho uma coisa pra te mostrar.

quinta-feira, maio 09, 2013

Sobre o sofá da sala de estar

Sobre o sofá da sala de estar, as pernas cruzadas, espero... O que mais posso fazer?  Tudo começou com um jogo. No momento do amor, ele sussurrou-me ao ouvido, sempre com jeito meloso, peculiar a ele:

“Marta, vais ficar o tempo todo nua.”

Pôs-se a me acariciar. Depois do gozo eles esquecem, pensei, nenhum deles cumpre o que disse momentos antes, é como se passassem uma borracha, ou mesmo agissem como se nada tivessem pronunciado. Levantam-se, vestem-se e se vão. Mas este agiu diferente, continuou impetuoso.

“Estás a se aproveitar”, beijei seu rosto depois de lhe soprar essas palavras.

“Eu? Estou a te dar proveito, não é o que desejas?” Alisou-me o ombro, o bico dos seios e o umbigo.

Saltei mais uma vez sobre suas coxas...

“Gosto de brincar, não é mesmo? E tu gostas do esconde-esconde”, falei.

Namorávamos com suavidade voraz.

“Amor, onde a bolsa?”, perguntei.

“Bolsa?”, fez-se de desentendido.

“Deixa pra lá”, fingi que nada acontecia, e eu arrepiada sobre o sofá.

Já arrumado, colocou por último a gravata, beijou-me a boca, despediu-se num muxoxo quase silencioso.

Logo que bateu a porta, pensei em procurar a bolsa. Onde ele a escondera? Será que fizera como na última vez quando a deixara no box junto à escada, no lado de fora do apartamento? Daria uma rápida corrida, mesmo nua, e a traria de volta. Mas... abateu-me intensa preguiça. Passou pouco tempo e escutei alguém a empurrar o carrinho. Lá se vai o zelador, falei comigo, lá se vai a bolsa, talvez alguém aproveite alguma das peças, tudo tão caro, tudo pelos olhos da cara.

“Amor, te trarei um presente logo mais”, falara ele no momento áureo do amor.

“Presente?”, choraminguei em meio às suas carícias.

“O vestido...”, não o deixei completar, minhas mãos impuseram-lhe mais ardor.

E lá se vai o homem que zela pela limpeza do edifício, não sabe que deixa nua uma mulher. Tudo fruto de um jogo entre mim e o namorado, um tipo de esconde-esconde a nos provocar arrepios. E eu sentada, de pernas cruzadas, sobre o sofá da sala de estar.

quinta-feira, maio 02, 2013

Mastiga com vontade

– Por quanto tempo ainda você vai me deixar nesse canto da sala, apenas de calcinha? Já posei para as fotos que você pediu.

– Lena, por que as mulheres sempre escondem os seios quando nuas diante de um homem?

– Ora, porque é onde sentem mais vexo.

– Já deixo você se vestir, mas ouve primeiro esta história, ok? É de alguém que também posou aqui neste mesmo apartamento. Ela escreveu um livro de contos, e dedicou um deles a mim.

– A você?

– A mim, Lena, verdade. Ouve. Faz das minhas palavras as delas.


Ele deixou um bombom ao meu lado e disse: “quando estiveres prestes a gozar, me avisa, vou colocar o bombom na tua boca, mastiga então com vontade e engole tudo. Quero-te gozando também com o chocolate.”

Apenas ao escutar o pedido já fiquei arrepiada. Mas vamos do começo.

Cheguei à região dos Jardins às quatro da tarde. Não demorei a encontrar o endereço. Ao bater, veio atender uma espécie de governanta uniformizada.

“Pois não?”

Falei a senha.

“Por favor”, abriu caminho e me mandou seguir. Atravessamos o corredor comprido. Chegamos ao pátio, havia um jardim bem no centro.

“Atravesse o jardim e entre por aquela porta”, apontou à outra extremidade.

Segui em frente. Não deixei de observar as flores, que estavam tão vívidas. Ao atingir a porta desejada, bati. Ela fez sinal para eu mover a maçaneta. Obedeci e entrei.

Na antessala havia um aviso: tire toda a roupa e a pendure no cabide. Olhei para o interior do cômodo. Meus olhos demoraram a se acostumar à meia luz. Passei a mão nos meus próprios seios. Mesmo antes de me despir já me senti nua. Avancei dois passos, mas parei e olhei de novo o cabide vazio dependurado numa espécie de apoio transversal. Novamente li o bilhete: “tire toda a roupa...”

Um tanto vexada, cumpri o que me era pedido. Mantive os sapatos e a bolsa dependurada ao ombro. Sabia que devia continuar em frente, meu dever era entrar e explorar todos os cômodos. Após descobrir um dos toaletes e o quarto de dormir, entrei numa espécie de escritório. Uma das paredes abrigava várias prateleiras com livros que subiam até o teto. Uma escada de três degraus estava ao lado, era para os livros que estavam mais acima. Quando me voltei, vi um enorme livro de arte sobre a mesa. Tomei-o nas mãos, sentei na poltrona e o abri. De repente, brilhou a luz de um flash.

“Fotos não estão no acordo”, falei sem tirar os olhos do livro.

Apareceu um homem vestido de terno. Sorriu, baixou a máquina.

“Você será recompensada muito além do que espera.”

“Será?” Disfarcei minha nudez com uma parte do livro, depois o abracei como um agasalho que me salvaria do frio.  Com o sorriso, teci um manto para disfarçar a ponta de vexo que a falta das roupas me provocava.

“Gosta de chocolate?”, ele soube contornar a situação.

“Na maioria das vezes, sim”, respondi sorridente.

“Sirva-se”, apontou o pote com bombons, “chocolates servem como agasalho”, observou meu corpo arrepiado.

“São tantos, acho que vou me esconder debaixo de um cobertor”, vagarosa, mastiguei dois. O homem me esperava.

“Uma boa ginástica também serve de aquecimento”, apontou outra porta e fez sinal para que o seguisse. Entramos numa espécie de mini academia.

Antes de entrar no cômodo, reparei a porta. Era toda trabalhada com esculturas em baixo relevo. Retratavam mulheres nuas nas mais diversas posições. Ao ver que eu admirava a obra de arte, perguntou:

“Será que você consegue imitá-las no exercício?”

Entrei sem nada responder. Sentei num aparelho que se usa para aumentar o volume muscular das pernas. Fiz os primeiros movimentos.

“Ótimo, não sabia que você é tão boa nisso.”

Depois de alguns minutos, subi na bicicleta.

“Sempre quis pedalar nua”, sorri na direção dele.

“Então você vai querer vir aqui muitas vezes.”

“Quem sabe”, envolvi-o de novo na minha simpatia enquanto aumentava a velocidade.

“Ai, acho que vou perder a cabeça”, falei em meio às acelerações. “Acho que hoje a perco de vez.”

“Espere um pouco,  ainda há algo mais excitante”, apontou-me outra sala.

“Estou tão bem aqui sobre a bicicleta...”

“Deixe-a para outra hora, controle-se e venha comigo.”

Antes de atravessar a próxima porta, tive de me banhar num pequeno chuveiro manual. Ele fez questão de direcionar a chuveirada de água morna na minha direção. Entramos numa sala de banho. No meio, havia o ofurô, a banheira japonesa.

“A água está escura”, observei.

“Chocolate com uma pitada de licor, você não aprecia?”

“Chocolate?”

“Isso. Você entra primeiro. Eu vou depois e me banho junto com você.”

Enquanto ele se despia, falei de um ex-namorado.

“Ele deixou um bombom ao meu lado e disse: ‘quando estiveres prestes a gozar, me avisa. Vou colocar o bombom na tua boca, mastiga então com vontade e engole tudo. Quero-te gozando também com o chocolate.”

“Aqui faremos o mesmo, mas vamos tomar o chocolate todo, até deixar a banheira sequinha.”

“Jura?”, fiquei assustadíssima.

“Oh, se juro.”

Entramos. Em poucos segundos me tornei negrinha, a toca na cabeça me salvava os cabelos. Não tive de sorver todo o chocolate da banheira, pois morreria afogada. Mas os dois, bebemos boa parte. Depois lambemos um ao outro. E, no final, perdi a cabeça... Deixei que ele gozasse dentro de mim. Como não havia mais jeito, ainda mergulhei de boca no seu pênis, tudo misturado ao chocolate.


– E então, Lena, o que achaste?

– Não sei. Mas vou destapar os seios e estender os braços para aceitar um bombom de chocolate!

quinta-feira, abril 25, 2013

O ovo e a galinha

Meu namorado adora cozinhar, e eu adoro comer o que ele prepara. Enquanto ele terminava de arrumar numa enorme travessa a salada, eu separava os molhos. No fogo, uma massa; à parte, os acompanhamentos. Entre eles havia champignon. Se eu pudesse, mergulhava no pote.

Quero que me atenda em um pedido, falou.

Estou toda entregue a ti.

Verdade?

Olhou para mim enquanto suas mãos ágeis trabalhavam as verduras.

Abre a geladeira e traz dois ovos cozidos.

Fui até lá e fiz o que pediu, trouxe os ovos num prato de sobremesa.

Às ordens, eu disse depois de entregá-los. Junto lhe deixei um beijinho numa das faces.

Há mais uma coisa, ele disse. Olhou na minha direção enquanto colocava os ovos, sem cortá-los, numa posição que decorava a travessa.

Sim?, eu aguardava o pedido.

Você fica nua durante o jantar?

Nua? Como assim?

Nua, ora, você senta nua à mesa e janta comigo.

Sim, mas vou fazer melhor. Permites que eu vista uma miniblusa?, é quase um top, acho que fica mais elegante; te prometo que tenho ainda outra surpresa.

Ok, combinado, a miniblusa, falou amoroso e me beijou antes de levar a travessa até a mesa. Depois voltou ao fogão para acabar de preparar a massa.

Fui ao quarto e voltei vestida com a miniblusa.

Você não fez o que eu pedi, veio também de saia, observou amuado. Pedi que viesse nua, disse ao mesmo tempo que tirava a massa do forno.

Calma, amor, é para criar um clima. Vesti a minissaia mas tiro já, assim que a mesa estiver posta.

Ajudei-o a trazer copos, pratos e talheres para a sala de jantar. Depois peguei uma garrafa de vinho tinto no bar, que fica logo depois da porta de entrada.

O macarrão está delicioso, falou.

Voltei à cozinha e peguei os temperos.

E então?, perguntou.

Então?

Virei de costas e tirei a saia. Deixei que ele me apreciasse o bumbum. Depois a arremessei a uma cadeira. Fiquei de frente e andei até ele.

Após longos segundos num abraço bastante fofo, sentamos para o jantar. A massa, já pela aparência, era uma delícia; os acompanhamentos, ainda melhores. Meu namorado serviu o vinho. Achei o nome engraçado: Corvo. Segundo ele, era de origem italiana. Brindamos e tomamos os primeiros goles. Eu, sentadinha, de pernas cruzadas, o friozinho do estofado excitando a minha pele nua.

Experimente o palmito, ofereceu.

Começamos a comer, saboreamos a salada, depois assaltamos o macarrão.

Amor, lembra os ovos que cozinhei, onde estão?, perguntou.

Tchan, tchan, tchan, tchan..., respondi.

Como assim?

A surpresa!, falei.

Surpresa? Você os fez desaparecer?

Lembras uma vez que me sussurraste ao ouvido que sou tua galinha fofinha?

Você, minha fofinha?, falou ainda mastigando e saboreando a comida.

Isso mesmo, galinha, franguinha.

E o que tem?

Já vais saber. Acho que tudo combina com esta noite, e como me pediste para ficar peladinha, melhor.

Fui até o tapete.

Amor, vem até aqui, pedi.

Sentei de cócoras.

O que você vai fazer?, sua pergunta mostrava surpresa.

Não é nada disso que estás pensando. Perguntaste pelos ovos, não? Coloca uma das mãos bem entre as minhas pernas.

Ele começou a achar excitante os meus movimentos.

Pronto, agora... Pari um dos ovos, bem sobre a palma de sua mão.

Que maravilha!, estupefação da parte dele.

Calma, amorzinho, não esqueças que eram dois.

Coloquei para fora o segundo. Começamos então a saboreá-los.

Depois? Depois ele mergulhou dentro de mim. E eu engoli tudinho.

segunda-feira, abril 22, 2013

Mais uma vez, por favor

Valdo sentou na cadeira e eu me coloquei de pé, as pernas abertas sobre suas coxas. Pouco a pouco fui abaixando, numa ligeira flexão, os músculos das coxas tensionados, todo o meu peso concentrado neles. Com facilidade consegui que me penetrasse. A sensação de prazer foi tanta, que tornou menor o meu esforço para sustentar o próprio corpo. Repeti os movimentos ascendentes e descendentes, ora engolia o seu pênis inteiro, ora permitia que escapasse até a extremidade. Cada vez que o empurrava de novo para dentro, eu emitia um gemido de prazer. Ao perceber próximo o gozo de meu namorado, intensifiquei os movimentos, queria o êxtase junto com ele. Durante alguns segundos imprimi tanta velocidade, que era certo ter os músculos doloridos no dia seguinte. Mas o prazer que eu sentia naquele momento compensava.

"Valdo, ainda bem que já mandei a crônica para o jornal, já passa das oito, achei que não voltarias,"

Ele nada retrucou, como era seu costume, apenas me beijou na boca, um beijo longo e saboroso.

"Por que demoraste tanto? Já estava desesperada."

"Tinha um assunto a resolver."

"E precisavas ter levado as minhas roupas?"

"Assim estaria mais perto de ti."

"Por que não me levaste junto?"

"Não podia, assunto de homens."

"Por que não me deixaste lá embaixo, eu a passear, a ver alguma vitrine?", sugeri.

"Queria ter certeza de que faria amor com você."

"Quase não consegues, estava prestes a alçar voo. A janela é larga."

"Mas você permaneceu pousada."

"Verdade. Mas agora quero minhas roupas, preciso ir embora. Gostaste da resistência de meus músculos?"

"Gostei de todos os teus músculos. Mas você ainda treme, o que há?"

"É o risco. Vi que entraste com as mão vazias."

"Verdade. O que você vai fazer?", sorriu e me soprou um beijo.

"Me come mais uma vez, vai, estou trêmula e arrepiada. Me come, assim fico calma. Depois dou um jeito."

quinta-feira, abril 18, 2013

Vamos a uma festa?

Quando fui estudar Letras na PUC de BH, logo que cheguei ao campi da universidade uma amiga me apontou o alojamento dos estudantes do Centro Tecnológico:

“Aqui moram os rapazes da engenharia, eles são completamente loucos. Fazem festas toda semana, convidam as garotas, vivem bêbados. Quando uma de nós passa em frente ao CT, eles gritam como se nunca tivessem visto uma mulher. E, além de tudo isso, possuem um varal de calcinhas. Não me pergunte a quem pertenciam porque não sei dizer.”

Ouvi a história e achei tudo muito engraçado.

Dias depois, após o começo das aulas, tive de passar algumas vezes em frente ao alojamento desses rapazes. Eles, na verdade, agiam exatamente como minha amiga me contara. Gritavam, falavam besteiras, apontavam para o citado varal e perguntavam se eu não queria participar da próxima festa que estavam preparando.

Transcorreram-se alguns dias até que conheci Aline, uma caloura recém-chegada de Vitória. Era o tipo da pessoa animada para qualquer coisa, sempre aberta a todo tipo de novidade. Após sairmos de uma aula, ela falou: 

“Você já reparou os rapazes do CT? São tão bonitos.”

“Não se aproxime deles”, alertei assustada, “dizem que são terríveis, e depois será você que ficará com má fama.”

“Má fama?”, ironizou.

No sábado, Aline me telefonou.

“Vamos a uma festa?”

“Onde?”, eu quis saber.

“Adivinha?”

“Não é a dos rapazes do CT?”

“Claro que não”, assegurou.

Fomos as duas. Eu vesti um vestido estampado soltinho, de fazenda leve, que descia até um pouquinho acima dos joelhos. Já Aline usou um desses vestidinhos super curtos, coladinho ao corpo.

A festa ficava num bairro um tanto distante da universidade. Tivemos de pegar um ônibus. Chegamos lá pelas onze da noite, à hora combinada.

A casa, local da festa, estava toda decorada. Logo que entrei cutuquei minha amiga:

“Aline, só estou vendo homens, cadê as moças?”

“Ah, que bom que só existem homens por aqui”, ela sorriu muito animada.

Depois de algum tempo chegaram as garotas. Mas a grande maioria dos convidados era composta por rapazes. Alguns deles se aproximaram e se mostraram muito afetuosos. Um logo me conquistou. Aline também não demorou a arranjar um par.

A festa ocorreu num clima de muita música, muita bebida e azaração. Lá pelas tantas era difícil encontrar alguém sóbrio. Eu e Aline nos juntamos a outras meninas e dançamos repetidas vezes, chegamos até a ensaiar alguma coreografia. A festa acabou lá pelas quatro da manhã. Alguém nos levou para o meu pequeno apartamento, no centro da cidade. Mas nem eu nem minha amiga sabemos dizer quem.

Na segunda seguinte, ao passar em frente ao CT, reconheci alguns dos rapazes que estiveram na festa. Ao me verem, começaram a gritar e a fazer a maior algazarra. Um deles apontou para o varal das calcinhas, que alguém colocara na janela, em destaque. Um rapaz louro gritou que nele havia mais duas. Todos os outros fizeram coro. Ai, não tive onde enfiar a cabeça.

quinta-feira, abril 11, 2013

Ficou uma coisa tua aqui

Eu estava no apartamento de João, mas achava que não deveria ter aceitado o convite. Sentada no estofado para duas pessoas, eu olhava para ele, que se acomodara numa cadeira junto à mesa. Pilhas de livros se espalhavam em vários pontos da sala, e a mesa não era exceção. Meu rosto revelava a aparência de uma mulher vencida, uma mulher que se deixa levar pelas sensações. Era quase o mesmo que, lá embaixo, na rua principal, ter concordado acompanhar um desconhecido. Lembrei-me do tempo em que era mais jovem: não demorava a aceitar fazer sexo com qualquer rapaz bonito. Mas como já passei dos quarenta, pensei já ter superado a fase dos namoros tentadores. Embora estivesse ali por vontade própria, meu sentimento era de frustração. Fôramos ao cinema duas vezes, a algum bar ou restaurante, depois conversamos muito pelo telefone nas três que se seguiram. Apesar de já sentir uma ponta de paixão por ele, não era minha intenção transar, pelo menos tão cedo.

Quer beber alguma coisa?, perguntou.

Acho que não, já bebemos não faz muito tempo, respondi afoita.

Vou tomar uma cerveja, tenho na geladeira, falou.

Ele foi até a cozinha e voltou com a garrafa e dois copos. Pedi que não colocasse para mim. Encheu um dos copos e tomou um longo gole, olhou na minha direção e sorriu. Continuei séria, ressentida, embora esse sentimento fosse comigo mesma. Acho que se eu não tivesse tomado a iniciativa ele teria permanecido no mesmo lugar, sentado junto à mesa e bebendo sua cerveja durante toda a noite. Tocava uma música instrumental no aparelho de som.

Está gostando de ter vindo?, perguntou.

É, ainda está cedo, o que faríamos depois do restaurante?

Por isso convidei para subir um pouquinho, depois levo você em casa, falou e sorriu.

Acho que sorri também, Não sei o que deu em mim, mas levantei e ultrapassei o biombo que separa o quarto da sala, entrei no quarto e me atirei na cama.

João, venha até aqui, pedi.

Ele primeiro parou à beira da cama, me apreciou deitada numa posição transversal à cabeceira.

Venha me abraçar, falei séria, voltada para ele.

João deitou ao meu lado, me abraçou, mas não demorou a dizer:

Você vai ficar toda amarrotada.

Foi então que tirei o vestido e entreguei nas mãos dele.

Ele saiu do quarto e voltou pouco depois, deitou-se sobre mim e começamos um namoro gostoso. Meu corpo quente me fez esquecer tudo que pensara antes. Entreguei-me a ele. Como fazia tempo que não transava com pessoa alguma, quando comecei a sentir o pênis de João tive um pouco de medo. Cheguei a falar:

Você é muito grande para mim.

Mas ele foi vagaroso e paciente. Pouco a pouco meus gemidos foram vencidos e eu o aconchegava dentro de mim.

Duas horas depois ainda estávamos um sobre o outro, mas cochilávamos.

Quando me dei conta das horas, entrávamos pela madrugada. Lembrei-me de novo do momento inicial, quando estivera sentada no estofado. A sensação de mulher de aluguel voltou-me. Como o momento do ardor sexual já havia passado, comecei a sentir uma ponta de arrependimento. Apesar de tudo ter sido tão bom, achei que as coisas poderiam ter caminhado mais devagar. Do jeito que aconteceu, ele teria pleno domínio sobre mim. Não queria ter cedido com tanta facilidade. Acho que o esforço para a conquista torna a relação mais duradoura.

Sentei na cama, cruzei as pernas e olhei para João. Ele parecia adormecido.

Preciso ir, já está muito tarde, vou chamar um táxi, falei.

Um táxi?, repetiu.

Isso.

Levo você.

Não precisa, chamo um táxi.

Fique até amanhã, falou ainda sonolento.

Levantou-se e sentou ao meu lado. Aproveitou para me abraçar e me dar um beijo no rosto.

Não posso, minhas filhas vão chegar de uma festa.

O que tem isso? Elas já são quase adultas.

Não insista, preciso ir, pegue o meu vestido, por favor.

Ele se levantou e saiu do quarto. Mas voltou de mãos vazias.

Você vai mesmo embora?

Vou. E é melhor eu mesma chamar o táxi.

Calcei a sandália, caminhei até a sala e peguei o celular dentro da bolsa. Liguei para uma cooperativa de táxis. Depois levantei, pendurei a bolsa no ombro e caminhei até a porta. Eu não voltaria, estava decidida.

Ei, espere, Glena, acho que ficou uma coisa tua aqui, falou.

Abri a porta e saí. Não podia ficar ali nem mais um minuto. O que quer que eu deixava para trás seria para sempre.

quinta-feira, abril 04, 2013

O importante foi que ele...

Faz algum tempo, estava caminhando pela orla marítima quando vi uma jovem de short e camiseta branca. Ela corria, uma corrida de atleta, mas reparei que ia sem sutiã, seus seios e mamilos estavam bem nítidos na semitransparência do tecido. Lembrei que eu, em certa ocasião, ao vir correr e caminhar na praia, às vezes também não vestia o top, apenas a blusinha. Em certos dias corria tanto que me punha a suar. Então caminhava até a beira d’água e, se o  dia fosse de poucos banhistas, tirava rapidinho a blusa e mergulhava. Depois esperava a oportunidade de sair da água. Corria então até onde havia deixado a camiseta. Era boa a sensação de correr e manter a forma, mas melhor mesmo o mergulho, sentir a água fria tomando meu corpo, os meus seios nus, era quase como fazer sexo, mas com o toque sutil do mar, o deslizar das espumas e o frisson provocado pela expectativa do que estava por vir. Alguém me descobriria nua sob o frágil manto de espumas? Alguém pensaria que a camiseta era uma peça esquecida sobre a areia e a levaria consigo? Meu coração acelerava. Eu tinha vontade de ficar nua por inteiro. Mas sempre consegui voltar a tempo, vestir-me e continuar a caminhada; naquele momento já refrescada, livre do calor e do suor. E a mocinha, será até onde ia? Também mergulharia seminua, no final da praia?

Ao voltar a vista para o calçadão, percebi um homem a me olhar. Depois, sorriu; mais adiante me seguiu. Por que ele não acompanhou a jovem que ia sem sutiã? Eu tão vestida... uma bermuda de lycra que descia até os joelhos, a blusa de ginástica e por baixo o top, dos grandes. O admirador acabou por vir falar comigo.

“Conheço você, não? Da academia de musculação.”

E não é que conhecia mesmo? Fiquei a falar com ele. Andamos juntos. Convidou-me para um passeio de bicicleta.

“Que tal? É tão bom. E tenho logo duas.”

Fomos ao encontro das bicicletas. Pedalamos os dezesseis quilômetros de orla. Enquanto seguíamos, vez ou outra eu olhava o mar. Estava bravio. Poucos os banhistas, e um ou outro atleta. No fim da praia, voltava a moça que eu vira sem sutiã. Atrás dela um jovem. Quem sabe a seguia? Sorri para o meu companheiro, que nada sabia daquela história nem nada conhecia sobre meus tempos de tomar banho de mar nua.

No fim da manhã, ele me convidou para uma festa que aconteceria à noite.

“Uma festa?”, ainda repeti. “Mas você não acorda cedo para vir correr e pedalar?”, insisti.

“Uma vez ou outra não é nada demais.”

Só não lembro se o namorei depois da festa, pois sempre tive muitos namorados. Houve até um que me pediu para correr nua, de madrugada, na beira da praia. Não é que corri? Ele ficou tão eufórico que chegou a dizer: “não devia ter deixado você se vestir. É tão bonita nua.” Será que ele deixou mesmo eu me vestir?

Às vezes essas coisas acontecem. Uma amiga me contou que certa vez, após terminar de transar com um cara, não encontrou sequer uma peça das próprias roupas.

“Rosa, o homem era tarado”, falou.

“E você, o que fez?”

“O que eu podia fazer?”, respondeu com um sorriso nervoso. “Ainda tive sorte de sair viva.”

“Ah, não exagere”, falei, “você me contou que saiu com esse homem mais de uma vez.”

“Será?, não lembro.

“Mas eu lembro. E sei que você ainda espalhou por aí: ‘o importante foi que ele me fez gozar!’.”