quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Noite de verão

Levantei da cama.

– Aonde você vai? – perguntou meu namorado.

– Colocar uma música romântica.

Ele beijou meu bumbum quando voltei.

– Vou aplacar seu desejo.

– Aplacar? – repeti.

– Isso; vou fazer você gozar.

– Vai?

– Vou, e desta vez tenho um artifício.

– Qual? – perguntei curiosa.

– Procure suas roupas.

– Minhas roupas?

– Isso mesmo, suas roupas.

Percebi que elas não estavam no lugar de sempre.

– Não sei onde elas estão; você as escondeu?

– Mais do que isso.

– O que você fez com minhas roupas? – estava ficando nervosa.

– Joguei-as fora.

– Não brinca; como? Jogou fora?

– Enquanto você saía do banheiro, não reparou que eu abri a porta e fui até o duto da lixeira?

– Não, não acredito que você tenha feito isso.

– Fiz, já falei, mas é para fazer você gozar?

– Você acha que vai me fazer gozar assim, sabendo que estou pelada na casa de meu namorado e sem ter o que vestir?

– Você já voltou nua pra casa alguma vez?

– Claro que não – respondi irritada.

– Quem sabe hoje você volte? Venha cá vou fazer você gozar...

– Não, vou embora.

– Embora? Mas você está nua...

– Vou embora, não posso chegar em casa depois de minhas filhas; elas vão rir de mim, vou passar a maior vergonha.

– Você vai nua? Vamos trepar mais uma vez?

– Não, seu artifício acabou provocando efeito contrário; agora é que não gozo de jeito nenhum; quero ir embora.

– Nua?

– Não; vou procurar uma roupa sua.

– Minhas roupas são pequenas para você...

Abri o armário e encontrei uma camisa comprida. Vesti-a. Transformou-se num mini-vestido.

– Vamos – falei –, e escute, depois dessa brincadeira não volto mais.

– Venha cá, amor, já que você resolveu o problema da roupa, não precisa se apressar.

– Estou com medo que minhas filhas cheguem antes de mim e me vejam com essa camisa. Vamos, me leve agora.

Descemos e entramos no carro. Ele deu a partida; enquanto dirigia, eu me encolhia a seu lado morta de vergonha.

No momento em que chegávamos à porta de meu prédio, vi minhas filhas entrando. Agachei-me.

– Não pare, por favor, não posso descer agora!

Ele me levou de volta para casa dele.

Ao chegarmos, disse:

– Tenho outra surpresa pra você.

– Não agüento suas surpresas, basta. Vou tentar telefonar para alguma amiga. Talvez alguém me tire dessa situação.

– Não vai ser preciso, escute.

– Está bem, fale rápido, daqui a pouco vai amanhecer.

– Abra aquela parte do armário – apontou para uma das portas.

Abri.

– Pegue o primeiro cabide.

– Minhas roupas! Como você pôde ter feito isso comigo?

– Venha, amor – tirou a camisa que eu vestia e me deitou na cama –, venha, vou fazer você gozar.

Deitei. Devo confessar que gozei.

Só tive um problema. Pela manhã, já em casa, minhas filhas não perguntaram onde eu passara a noite. A pergunta foi outra.

– Mãe, com quem a senhora esteve ontem? – Helena, a mais velha, era a mais curiosa.

– Com o Roberto, é claro, o que você acha?

– Mas nós o vimos passar de carro sozinho, às três da manhã, aqui na porta...

A caçula ainda arremessou:

– Fala a verdade, mãe, com quem a senhora saiu ontem?

– Não é da conta de vocês...

– Ah, viu, Helena, como ela também é esperta!

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Historieta de Carnaval

Divertimo-nos bastante durante o Carnaval. Tanto nos blocos como no sambódromo, tudo foi prazer e alegria. Sempre acontecem alguns imprevistos; ou melhor, fatos que, na verdade, fazem parte dessa festa irresistível e até a tornam mais excitante. Vamos a um deles; mas, por favor, peço ao pé do ouvido: não espalhem!

– Fiquei sem...

Era a frase que soava um tanto furtiva e incompleta na voz de muitas mulheres no final da segunda noite de desfile das escolas de samba do grupo especial. Vinha acompanhada invariavelmente de um movimento desajeito de braços. Tentávamos em vão tapar nossas vergonhas recentes havia muito descobertas. Pairava a seguinte pergunta: "o que fazer agora?"

Durante toda a madrugada, a exibição fora intensa. A bebida, a música, a pouca roupa e o entusiasmo geral fizeram todos explodir de desejo. Imaginem o que pode acontecer num espaço tão pequeno – no camarote a que nos convidaram nossas gotas de suor chegavam a freqüentar vários corpos –, com tantas mulheres quase nuas e ante a foliões excitadíssimos...

Após a passagem da última escola já ao amanhecer, nós, as beldades, nos transformamos nas mais pudicas das criaturas. Percebia-se que a nenhuma restara sequer um minúsculo tapa-sexo. Tínhamos apenas ligeira esperança na boa vontade de alguns cavalheiros que nos poderiam dar abrigo, ainda que provisório...

Dancei o tempo todo na frente do camarote. Quis primeiro exibir os seios. Que tal tirar o top? Não demorei a desvencilhar-me dele. Um folião de bermuda estampada em flores coloridas aproximou-se, estendeu os braços, demonstrou admiração pelo meu corpo e pelo meu desembaraço. Ergui a taça de champanha, saudando-o; tomei um longo gole, entreguei-a a alguém que estava mais atrás. Eu, seminua, com um biquíni que era uma coisinha à toa, empolgava-me e transmitia empolgação. O mesmo folião aproximou-se mais um pouco; primeiro fez cócegas na minha cintura; depois deslizou os dedos e tocou a extremidade de meus laçarotes. Uma nova taça chegou-me às mãos, não demorei a esvaziá-la. Num piscar de olhos, a miss (sim, eu um dia fora miss, portanto jamais se perde a majestade) estava inteiramente nua. E assim me diverti na madrugada de carnaval. Em pêlo! E eles eram tão poucos...

Em plena festa eu e meu companheiro escalamos cumes inacessíveis, atingimos montanhas com recantos ora mornos, ora escaldantes; não deixamos de, por breves instantes, deslizar trôpegos, mas sem despencarmos; ora nos ornava sombra com diadema de vaga-lumes, ora luz intensa – holofote escaldante – vinha nos roubar a pele. Num momento esperado com ansiedade, sentimos que algo inexprimível e incontrolável nos crescia internamente. Então – uma conjunção de astros em noite de eclipse – explodimos! Expelimos gotículas adocicadas, talvez mel e pólen que se misturariam a outros elementos do universo.

Depois, ainda nua, voltei à festa. Atingi de novo o auge do entusiasmo – outro tipo de orgasmo –, mas agora com os últimos tambores, cuja vibração e ritmo seriam capazes de substituir nossos corações caso não os tivéssemos. Só então percebi que a festa acabava. Abateu-me a timidez que se segue ao gozo. Mas não me escapou o encanto. A atmosfera de magia e excitação aos poucos se dissipou e, embora não houvesse cavalheiros prestes a socorrer todas as nuas, encontrei o meu. Não o que me levara o biquíni no bolso da bermuda florida; outro, mais velho e mais charmoso.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Stretch jeans

O fim de tarde enevoado e cinzento contrastava com as cores interiores, com o colorido das pessoas, com meus cabelos louros e meu corpo torneado. Eu passeava com um amigo no Brasília Shopping; vestia um short de stretch jeans, bem pequeno e justo ao corpo, uma curta jaqueta aberta de cor neutra, que acentuava a cintura baixa e deixava à mostra a barriguinha elegante; subindo um pouquinho, o top. Quem me surpreendia, voltava rapidamente os olhos para se certificar se tudo que via era mesmo real. Meu amigo talvez se sentisse lisonjeado; despertava inveja aos que escolheram aquela hora para estarem ali. Naturalmente pensavam que ele era um felizardo e eu, uma mulher embrulhada em pouca fita e estreito papel de presente. Faltavam três dias para o Natal. Sentamos numa das mesas e encomendamos nossos lanches. Para mim, um sanduíche do Marieta, daqueles que vem com tomates secos, rúcula e mussarela de búfala; para beber, suco de abacaxi com agrião. Ele pediu uma baguete à moda romana. Eu sorria, e ele demonstrava enorme satisfação por me ter recebido no aeroporto duas horas atrás. Com sua natural elegância, com o ar sempre despretensioso, insistira para que me hospedasse em sua casa, garantira que eu teria toda a liberdade; caso ainda quisesse, poderia acompanhar-me em alguns passeios. Pensei em contar a ele sobre o homem que conhecera na viagem, estava muito entusiasmada, mas por hora me calei; sabia que meu amigo tinha as mesmas preferências que eu, não disfarçava, mas manteria minha postura de mulher refinada. Durante aqueles momentos que corriam enquanto saboreávamos o alimento frugal, momentos prestes a escorrerem e se manterem eternizados apenas na memória, meus olhos verdes iluminavam os dele; seu rosto refletia discreta felicidade.

Ainda estava na sala de embarque quando observei um homem de terno. Ele tinha à mão um notebook, trabalhava ou consultava seus compromissos. Percebi que vez ou outra arremessava um olhar sorrateiro em minha direção. As poltronas serpenteavam pelo salão; alguns homens conversavam despretensiosos; duas adolescentes olhavam revistas e tomavam refrigerantes; uma mulher mantinha um cigarro apagado entre os dedos (talvez procurasse a área de fumantes); outro homem trazia um pequeno copo de café expresso; e eu carregava um livro, sempre trazia um ou dois na pequena bolsa de mão. Havia alguns momentos eu me desprendera da narrativa, observava o local e o aspecto das pessoas, todas prestes a embarcar, todas trazendo na face uma ponta de satisfação ou mesmo de alegria. Quando pensei em voltar ao livro, mais uma vez o homem do notebook não me desprezava. Ao embarcar, dei com ele à minha frente, íamos para o mesmo destino e, dentro do avião, aconteceu o que eu já esperava: apenas o corredor separava nossos assentos. Após guardar sua maleta na parte de cima, voltou-se para mim e, satisfeito – não poderia ser outra sua reação – sorriu. Durante todo o vôo não levantei os olhos, entretive-me na leitura de uma grande revista que comprara ainda na livraria, antes do embarque. Uma reportagem longa a respeito das mulheres da antiga RDA prendeu-me durante boa parte do vôo. Despertou-me o sorriso congelado da comissária; perguntou se eu aceitava um copo de suco.

Após deixarmos o shopping, meu amigo anfitrião levou-me para um passeio, queria mostrar-me a decoração de natal da cidade. Com seu carro deslizando quase em silêncio, conduzia-me pela esplanada dos ministérios. A noite se insinuava e as luzes recentes, ainda tímidas, piscavam em todas as cores e em várias formas. O ar frio do Planalto Central tocava minha pele, carícias de um amante que estava por vir.

Enquanto ainda transitávamos, mas agora pelo eixo rodoviário – nosso destino era uma das últimas quadras da Asa Norte – comentei de modo sucinto sobre o cavalheiro, o mais recente enamorado, o companheiro de vôo. Meu amigo irônico não perdeu a admiração e o humor:

– Você é uma mulher de sorte; se ele lhe deu o cartão, procure-o; nessa época do ano, todas as espécies de valor que habitam a cidade voam para fora; este, se está por aqui e é assim como você me descreve, não é digno de ser desprezado, é todo seu.


Sorri. Tirei o cartão da bolsa para me certifica de que ainda o tinha. Li o nome: Frederico Lucini.

– Oh, talvez alguém do corpo diplomático! Sorte sua, são ótimos os desse tipo.

Quando telefonei no dia seguinte, descobri que não era o que pensáramos, mas sim um professor da universidade. Não perguntei se era solteiro ou se morava na cidade. Não se deve querer saber tais coisas quando se tem alguém que está à inteira disposição. Marcamos um encontro. Perguntou se me podia apanhar em casa. Aceitei sem demonstrar surpresa.

O dia seguinte era sábado, vinte e dois. Os shoppings se mostravam quase intransitáveis. Filas intermináveis de automóveis, cujos motoristas procuravam onde estacionar, misturavam-se num colorido de início de festa; por incrível que parecesse, toda aquela algaravia não redundava em demais complicações, as pessoas estavam em paz consigo e o espírito das festas as tinha tomado de assalto, proporcionando a cada uma delas uma dose a mais de paciência. Muitos se apressavam para comprar os últimos presentes ou o detalhe que faltava e completaria a noite de natal.

Apanhou-me às nove da noite. Ao seu lado – ele vestia uma linda blusa aviator de listras largas azul e branca, calça clara e sapatos esporte de um marrom suave, perfeitos para o conjunto, trouxera um paletó branco, que ocupava uma parte do banco traseiro do automóvel –, eu observava o trânsito espaçado do eixo, enquanto percorríamos aquelas vias largas. Mais adiante, ele deixou o fluxo principal para fazer um grande contorno que me pareceu nos colocar na direção inversa; sem que nada me perguntasse, parou ante a um restaurante muito bonito, saltando e abrindo a porta para que eu saísse; só então demonstrou que me observava o corpo com mais atenção – eu vestia um vestido de seda fina curtíssimo, frente única.

– Será que você não vai sentir frio? – sua voz soou melodiosa.

– Se eu não me engano, há um paletó elegantíssimo no banco de trás.

Entregou as chaves a um manobrista de terno escuro que se encarregou do estacionamento, tomou-me uma das mãos. Entramos.

As mesas eram redondas e as que estavam ocupadas tinham castiçais com velas acesas; pelos cantos, abajures delicados completavam a iluminação, produzindo um efeito sutil; as toalhas e guardanapos eram de uma alvura esplendorosa.

Bebericamos dois dry Martinis, depois uma garrafa de Bordeaux. Enquanto o garçom nos trazia o couvert, composto de frios, pães e algumas pastas, meu amigo, num rosto de continua felicidade, começou a me falar sobre o que fazia e de suas preferências literárias; era especialista em Proust, inclusive tinha estudos e textos publicados sobre o autor francês.

– Você já nadou contra a corrente?

– Não nado muito ultimamente – respondi; levava à boca uma rodela de torrada envolvida em uma pasta verde clara.

– Não falo no sentido de entrar no mar ou num rio propriamente.

– Ah, entendo.

O garçom se aproximou e pôs-se em posição de que aguardava nossos pedidos. Tomei a taça com a mão direita e a levei mais uma vez aos lábios; sorri para o homem que nos aguardava.

Meu recente companheiro pediu-lhe um tempo maior, estendeu o grande cardápio e deixou a mim a escolha do prato principal.

Após eu ter feito o pedido, o garçom se retirou e continuamos a conversa. Foi ele que voltou ao assunto.

– Às vezes todos vão para um lado, mas nós não queremos acompanhá-los, desejamos outro caminho, mesmo que neste envolvam-nos apenas a penumbra da noite, o brilho das estrelas, talvez um ou outro ruído do vento sibilando sobre a vegetação ou o farfalhar de uma ave noturna.

– Ou o prateado de uma lua crescente que surja lá pelas três da madrugada, tendo como cúmplice apenas a brisa tímida e esquiva que nos tateia a pele branca, o corpo por inteiro descoberto...

– Isso, isso, você me compreende – demonstrava entusiasmo.

– Por enquanto – sorri irônica.

– Você fala a mesma língua que eu. Veja, há momentos em que todos parecem estar de acordo com um comportamento, um modo de vestir, ou um modo de se divertir, ou mesmo um modo de ser, mas nós não concordamos, preferimos outros caminhos.

– Isso – assegurei –, preferimos um caminho tão largo que chegam a nos condenar pela escolha; dirigem-se a nós como se estivéssemos tomando atitudes que fariam o mundo desabar sobre nossas cabeças.

Ele riu deliciosamente de minhas últimas palavras; ainda repetiu:

–... atitudes que fariam o mundo desabar sobre nossas cabeças! , essa é ótima, vou anotar...

Com um pequeno garfo, peguei num dos pratos menores uma pequena azeitona e a levei de modo suave à boca. Ele olhava-me com interesse; observava, minucioso, o colorido de meus lábios.

– Você pode dar um exemplo?

– Eu? – fiz-me de dissimulada –, mas são tantos.

Rimos.

– Você também acha que todo ser humano tem um lado... , vamos dizer assim, um lado que poderia ser chamado de escuro? – perguntou-me ao mesmo tempo que percebeu a chegada do garçom com uma enorme bandeja.

– Escuro? Como uma noite em que não há lua nem estrelas, onde só existe o rugir do mar e um vento interminável a nos açoitar?

– Você é ótima, adora poesia, não?

– Oh, adoro, mas isso é má poesia; você falava sobre o lado escuro de cada um, continue, por favor.

Esperou que o homem acabasse de nos servir; colocou mais um pouco do vinho na minha taça, encheu também a sua; quando nos vimos apenas os dois, falou:

– As pessoas condenam determinadas ações, determinados comportamentos; você se sentiria disposta a transgredi-los?

– Já entendi. Você quer saber se eu me sentiria culpada por ir na contramão?

– Isso mesmo, boa palavra, contramão.

– Mas é do que eu gosto mais.

– Uma amiga certa vez me falou – ele continuava –: “há alguns comportamentos que devemos seguir; por exemplo: se estamos num lugar público não será normal eu agarrar você e permanecer grudada à sua boca num beijo demorado enquanto a comida esfria à nossa frente; nem tirarmos a roupa e fazermos amor numa festa diante de outros convidados, ou num salão público, mesmo que a poucas luzes...”

– Sua amiga não sabe o que é viver. Às vezes, o principal é a nudez em público, embora eu confesse que fique um tantinho arrepiada.

Rimos juntos de novo e durante um bom tempo saboreamos a comida em silêncio.

Após uma hora e meia ou duas horas, já estávamos no apartamento dele. Ofereceu-me uma dose de vinho do Porto. A bebida combinou perfeita com o momento. Depois, num longo sofá de cor creme, diante de alguns quadros e estátuas, duas velas sobre dois longos castiçais e a paisagem trêmula, cintilante, que podia ser vista através da varanda, ele me abraçou, deslizou as mãos por minhas costas, aproximou a boca à minha face e me envolveu num longo beijo.

– Sabe o que eu queria mesmo?

– O quê? – esperou-me curioso, com a face franzida, como se eu lhe fosse revelar um grande segredo.

– Eu queria esse beijo entre pratos e talheres, à luz da pequena vela do restaurante de algumas horas atrás.

– Eu também queria uma coisa – disse fingindo intensa frustração –, eu queria que você tivesse vindo nua ao meu encontro...

– Eu sempre estive nua; você não viu o tanto que as pessoas me olhavam? O que elas procuravam? Tentavam enxergar o meu vestido...

Abracei-o, depois o soltei e pedi que fechasse os olhos. Quando voltou a me olhar, terminei a pergunta:

– Veja se elas não tinham razão, você vê alguma roupa sobre meu corpo?

Deixei-o quase louco. Levantou-se, abraçou-me ainda um tanto incrédulo, enquanto eu, também de pé, ia em seus braços somente sobre os sapatos, com a pele suave a roçar-lhe o tecido macio das roupas.

No dia seguinte encontrei-o de novo. Marcamos às onze da noite. Fiz questão que me apanhasse na garagem do prédio onde eu me hospedara. O local era de pouca luz e ao vê-lo parar o carro, escondi-me. Esperei que me procurasse. Bati então na carroceria, no lado do passageiro, surpreendendo-o. Abriu a porta e esticou os olhos sobre meus seios.

– Que roupa linda, você está maravilhosa!

– Só consegue ver o meu vestido quem não tem nenhum pecado.

– Creio que acabo de ser perdoado.

Enquanto sentava e prendia o cinto, perguntei:

– Você ainda traz aquele paletó?

– Está no mesmo lugar.

Olhei entre os bancos, ele jazia sobre o banco traseiro.

– Se esfriar, você me empresta.

Rodamos no silêncio da noite. Ele guiava e às vezes olhava sorrateiro às minhas pernas. Quando paramos, assim que saí do carro, vestiu-me. Um modelo e tanto.

Naquela noite, jantamos num restaurante em que nos serviram pratos plenos de sabores exóticos e taças de champanhe francês, acompanhados de música de piano ao vivo. O ambiente era tão agradável, que não nos demos conta do passar das horas. Vez ou outra eu enlaçava sua cabeça e o beijava na boca; um beijo interminável.

Já na madrugada, quando trafegávamos pelas vias semi-desertas da capital, pedi que namorássemos no frio aconchego de seu automóvel, num dos estacionamentos que ficava diante do prédio de meu anfitrião.

– Acho melhor irmos pra minha casa – disse ele –, lá o conforto é maior e é mais seguro.

– Você não disse que às vezes desejamos nadar contra a corrente, que temos um lado escuro? Então, amor, esse é um dos lados que me põe na contramão!

– Mas isso é perigoso, tanto mais nos dias de hoje...

– Oh, não diga, existe algo mais perigoso do que sair pelada de casa e ficar agarrada ao namorado pelo resto da noite num estacionamento.

– O quê?

– Trepar com um desconhecido logo na primeira ou na segunda saída.

– É; você tem razão.

– E logo com alguém que nem me disse qual é o seu lado escuro...

– Certo, também tenho meu lado escuro, também gosto de, às vezes, ir contra a correnteza.

Logo que estacionamos, pulei sobre ele e falei baixinho:

– Vai, fala, fala qual é o teu lado escuro...

– Tenho uma arma no porta-luvas.

– Uma arma?

– Isso, uma arma!

Pulei para o banco do passageiro, abri o porta-luvas, tomei nas mãos uma pistola, destravei-a e apontei para a cabeça dele.

– Calma, querida, isso pode ser perigoso – sua voz tornou-se quase um balbucio.

– Pra que a arma?, fala! – eu insistia vigorosa.

– Para algumas brincadeiras.

– Que tipo de brincadeiras?

– Não queira saber agora, deixemos para outra hora, e além de tudo já vai amanhecer.

– Que tipo de brincadeira? Vamos, fala! – encostei o cano em uma de suas têmporas.

– A mesma... a mesma que você está fazendo, só que sobre a cabeça de alguma mulher... e também de surpresa... sobretudo se ela ainda estiver vestida...

– Sobretudo? – sorri.

Rápida, coloquei a pistola em suas mãos, saltei sobre seu colo de novo, sôfrega, abri sua calça e deixei que seu pinto, instintivo, me encontrasse. Lânguida, derramei em seu ouvido:

– Vai, fala pra mim o que tu falas pras outras, fala.

– Salta do carro e corre nua!

– Isso, continua, não pare!

– Salta!Salta! Se não, eu atiro!

– Isso, fala, fala; assim me fazes gozar...

– Salta! É sua última chance.

– Goza dentro de mim primeiro, depois atira... – minha voz era um gemido, era quase uma dor; era, enfim, o orgasmo.

– Ah, estou gozando – ele disse. Ao mesmo tempo em que eu sentia seu sêmen quente jorrar dentro de mim, senti o cano frio da arma afastar-se de minha têmpora esquerda. Ouvi em seguida um ligeiro clique; ele travara a pistola.

Desfizemo-nos do abraço e largamo-nos exaustos sobre nossos bancos; exalávamos odores úmidos e nossos corpos pouco a pouco perdiam o calor recente. Em nossas faces, sorrisos pela metade.
Num dos lados do horizonte, um semicírculo de início avermelhado transformava-se numa esfera alaranjada; não demorou a derramar seus primeiros fios d’ouro sobre o recente dia de natal.

domingo, janeiro 06, 2008

Cubra-me

– Que lençol sujo é este? Você trouxe alguém pra cá ontem...

– Como? – ele me perguntou um tanto embaraçado.

– Este lençol sujo, não está vendo?

– Mas fomos nós mesmos que o sujamos.

Já era quase meia-noite, fôramos a um espetáculo e acabávamos de chegar ao apartamento de meu namorado. Ocorreu-me a suspeita no momento em que fui ao banheiro e descobri o cesto de roupas.

– Amor, venha, me abrace, não crie problemas – mostrava-se carinhoso.

– Este lençol não estava na cama na última vez em que estive aqui.

– Você deve estar querendo criar um clima para o nosso namoro de hoje, não é mesmo? – sorriu ao terminar a pergunta.

– Nada disso, você deve estar saindo com outra!

Ele me abraçou, apertou-me junto a seu peito, procurou meus lábios. Acabei cedendo.

Tomou-me nos braços e me levou pra cama.

– Você sabe o que vou fazer com você hoje?

– Nem imagino, mas diga quem é ela – sussurrei dengosa.

– Ela?, não sabia que isso lhe dava tanto tesão; depois digo. Primeiro vou fazer algo que sei que você sempre quis mas nunca teve coragem de dizer. Ou melhor, falou apenas uma vez e por meias palavras.

Deitou-me na cama; rápido, envolveu meus braços e os prendeu à cabeceira com um cordão; depois, sem que eu reagisse, atou-me as pernas deixando-as abertas e laçou os cordões aos pés da cama.

– Assim você não vai conseguir tirar minha roupa – reagi.

– Não vou?, você vai ver...

Assustei-me ao ver uma grande tesoura em suas mãos.

– O que você vai fazer? – minha voz soou nervosa.

– Não se preocupe, não vou machucá-la; vou somente livrá-la desses panos.

Quis gritar, mas senti uma ponta de excitação. Fingi que tremia, fiz de conta que protestava. Cortou a blusa e a saia que eu vestia; depois, minhas peças íntimas.

Estava já nua por inteiro quando gritei a ele:

– Como vou embora nua?

– Não se preocupe, vamos primeiro aproveitar a noite.

Começou a acariciar-me e a sussurrar fantasias; acabou por me deixar ainda mais excitada.

– Me desamarre, também quero gozar – pedi.

– Calma, você não perguntou certa vez por um pequeno chicote?

Foi uma trepada super louca. Eu girava na cama, suplicava:

– Goza dentro de mim, vai, goza, derrama todo esse leite no meu útero, bem lá no fundo; você já me deixou nua, já estalou o açoite na minha pele branca; o que vai fazer depois?, vai me botar pelada porta afora, não vai?; ai, essas coisas me matam de tesão.

Virou-me de costas, abriu minhas pernas...

– Está gostoso, não pára, não pára... – eu temia que tudo acabasse logo.

Permanecemos, porém, entrelaçados por uma longa hora. Gritei de dor e de prazer quando gozei. Mas aconteceu o que sempre se sucede após o gozo: fiquei morta de vergonha.

– Como vou fazer pra voltar para casa? – perguntei preocupada.

– Como sempre fazemos; pela manhã levo você.

– Mas estou pelada!

– Até lá a gente dá um jeito.

Ao amanhecer, fiz outra encenação.

– Me abrace, por favor, me abrace, derrame em mim mais um pouco do seu mel; venha, não demore.

– Pensei que você estivesse preocupada em arranjar alguma coisa pra vestir...

– Ainda estou, mas venha; depois eu dou um jeito, ou melhor, damos um jeito; não foi o que você prometeu? Aliás, prometeu mais uma coisa, lembra?

– O quê?

– O nome dela.

– Ela, quem?

– Ela, a mulher que sujou com você aquele lençol! Mas primeiro venha, cubra-me com o seu corpo, espere até eu gritar que estou gozando, então fale alto o nome dela, ouviu?, bem alto...

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Por enquanto

Rua Treze de maio, em frente a um restaurante:

Duas mulheres passam; a chuva e o céu nublado trouxeram de volta as jaquetas; gesticulam, falam alto, as faces expressivas; o que tramam? O amor por algum homem ou o que falta para a ceia de natal?

Homens elegantes, de terno, corte preciso, homens bem vestidos; um deles de repente ao telefone; ah, fala com um amigo; logo, são dois os homens: o visível e o detrás da linha; o que este veste? Será que me despe?

Uma jovem de saia curtinha vai com o namorado; ela é menor que ele, mas tem mais corpo e é bela; vão de mãos dadas; nessa idade, as mãos não suam...

No edifício Avenida Central:

As mulheres são mais elegantes do que os homens; onde encontro os rapazes de corpo torneado que vestem roupas fashion e fazem ponto nas novelas de TV? Na Rio Branco, as mulheres caminham a passos rápidos, sabem combinar blusas e saias, camisetas e calças, vestidos e sandálias; e os homens? Não vão tão preocupados com a beleza, parece que têm pouco esmero aos próprios trajes; ah, uma exceção, desvio os olhos, ainda é cedo; a saída? Vou na contramão.

Uma jovem, loura, de blusa preta e calça jeans carrega a bolsa num ombro e, em uma das mãos, um pequeno jornal; anda devagar; em que pensa? Pára numa banca de revistas e pergunta alguma coisa ao jornaleiro; não ouço sua voz; ela traz meio cigarro entre os dedos e, no rosto, uma vontade imensa de amar.
A livraria Leonardo da Vinci é linda com seus três poemas a ladearem as vitrines; livros em língua nativa, livros em língua estrangeira; filosofia, artes, romances e gastronomia; escritores, escritoras, talvez leitores e o cheiro forte de café da galeria.

Uma loura quarentona de blusa branca e calça justa, nádegas em destaque, passa sozinha; mas é certo que ela tem um namorado.

Entro na livraria da Travessa; dessa vez não para ver os livros, mas a face dourada das pessoas; como são belas! (sou suspeita); aqui há gente elegante; três homens ainda jovens trajando ternos italianos conversam, tomam café e água Perrier; são consultores do mercado financeiro; duas mulheres tagarelam e também bebem café; o espelho em fogos e juventude explode o reflexo da morena.

No centro do Rio, anda-se por ruas estreitas, quase só de pedestres, atravessa-se a avenida, carros multicores e buzinas, mergulha-se de novo em ruelas abarrotadas, pequenas lojas, às vezes uma confeitaria; há também as galerias, passagens passarelas, quiosques, mostruários de perfumes e presentes refinados, corações a palpitar por amores extraviados.

Em meio aos passantes de fim de tarde, um homem quase negro, de gravata, olha-me; estuda meus traços; vermelha a gravata, branca a camisa social; será pastor? Se quiser salvar-me, fujo; se me quiser pôr a perder (ou a ganhar?), vou; vou de bermuda sensual e blusa curta de algodão; vou vestidinha, por enquanto...

quarta-feira, dezembro 12, 2007

São Paulo lá embaixo se estendia múltipla, sedutora, sob um sol frio de fim de tarde

O metal deslizou ligeiro sobre minha pele, chegou a me provocar um arrepio. Virei-me quase por instinto e percebi a face sorridente do homem.

– Moeda, não! Assim você me deixa em apuros.

– Eu ajudo a procurar – ameaçou introduzir uma das mãos na minha calcinha.

Corri, as pernas juntas, com passos rápidos fiz um bailado que acompanhou a música ritmada e as luzes que refletiam no pequeno salão estrelas coloridas. Enfiei-me num reservado que era separado por apenas uma cortina. Encontrei ali a Mel, estava sem o biquíni.

– O que houve? – perguntei enquanto procurava a moeda e segurava duas notas de dez que estavam bem enroladinhas dentro do exíguo pano na parte da frente da calcinha.

– Um boboca me roubou o biquíni, estava esperando alguém aparecer...

– Ajudo você, espera um instante.

Coloquei a moeda entre as notas, fiz com elas um pequeno envelope introduzindo-o no mesmo lugar de onde tirara o dinheiro. Saí para voltar alguns minutos depois com um pano preto transparente, que a Mel enrolou na cintura, provando-o como numa cabine de loja de roupas finas; então me beijou e, antes que voltasse feliz para a pista, sussurrei em seu ouvido:

–Não deixe que o roubem de ti; antes, venda-o!

Riu mais uma vez.

O salão era no Centro. Um local de divertimento para ricaços. E ali acontecia de tudo. Havia certas regras que nós, as mulheres – principais estrelas do espetáculo –, precisávamos respeitar. A circulação de dinheiro era expressamente proibida, mas sempre arranjávamos um meio de burlá-la; não perdíamos qualquer oportunidade de faturar um pouco mais. Os proprietários nos pagavam no fim do dia, ou da noite. Pediam-nos também que não ficássemos nuas no salão. Mas quem conseguia evitar que mãos viciadas e ligeiras nos arrancassem a única peça? Os velhos, principalmente, eram os mais tarados. Ao mesmo tempo que nos enfiavam dinheiro pelas entranhas, queriam nos deixar nuas. E as notas eram sinais para que permanecêssemos mais tempo ao lado deles.

Certa tarde fui chamada pelo gerente. Assustei-me. Mas era apenas um convite. Um freqüentador da casa me queria como companhia fora dali.

– Você é a mais discreta, nada deve comentar sobre a identidade do homem nem sobre o local aonde ele vai levá-la.

Fiz que sim com a cabeça. Vesti-me em três minutos e saí pela porta dos fundos. Um automóvel escuro esperava-me. No interior, apenas o motorista.

Rodamos pelo Centro, depois ele dirigiu em direção a Pinheiros. Pediu então que eu colocasse uns óculos escuros que ele próprio trazia no bolso.

– Não enxergo coisa alguma com esses óculos.

– É por pouco tempo.

Guiou por cerca de trinta minutos. Desceu a garagem de um prédio.

Ao sair do automóvel, disse:

– Segure meu ombro.

Senti-me a própria cega.

Apenas dentro do apartamento é que pude tirar os óculos. A primeira coisa que me surpreendeu foi a paisagem. Estávamos no último andar de um desses prédios suntuosos, provavelmente algum bairro da zona norte. Através das janelas quase contínuas, podia-se observar São Paulo lá embaixo; a cidade se estendia múltipla, sedutora, sob um sol frio de fim de tarde.

Um homem ainda jovem, que não me era desconhecido, apresentou-se a mim. Fazia-o como se fosse a primeira vez. Tive vontade de saudá-lo; minha discrição, no entanto, impôs-se profissional. Levou-me a outra sala, onde me ofereceu um cálice de vinho do Porto. A decoração era discreta; os quadros se não eram originais remetiam a pintores do século XX; no final de uma das paredes, estava dependurado o auto-retrato de uma mulher um tanto tímida, que me chamou a atenção. Ele falou sem embaraço: Anita. Percebi música trazida pelo ar frio. Era preciso apurar os ouvidos para apreciar a melodia; talvez um blues norte-americano. Permaneci sentada em um acolchoado comprido, quase branco, de pureza inigualável.

Entrou então uma mulher muito bonita. Sorria, tinha os cabelos pretos curtos, dirigiu-se a mim e beijou-me as duas faces. Mantive-me séria e compenetrada, procurava não demonstrar surpresa alguma: ela estava nua.

Um garçom regiamente vestido adentrou o ambiente, discretíssimo. Foi-nos servido o antepasto do que seria uma longa e deliciosa refeição. Pusemo-nos a saborear delicados frios, alguma pasta de cor e sabor sofisticados, bebidas coloridas. Tudo no mais absoluto silêncio. Além do silêncio, a música; agora som de piano, mas distante, quase inalcançável. A mulher mantinha a face alegre, não tirava os olhos de mim. Abria a boca delicada e experimentava alguma iguaria; seus lábios pintados de vermelho sobressaíam. O que um homem que tem a seu dispor uma mulher de tamanha beleza deseja ao contratar uma puta?, pensei comigo. Mas já vira muitas fantasias; aguardava o que se seguiria.

Jantamos. A mulher em momento algum demonstrou qualquer desconforto devido à nudez; portava-se sobre as sandálias plataforma como se fosse a pessoa mais vestida do mundo. A refeição estendeu-se pela noite. Serviram-se inúmeros pratos. Comia-se o que se apreciava, ou mesmo se podia nada comer. O que importava era que nossos gestos demonstrassem a máxima satisfação. Fomos até o último gole, ou a ultima sobremesa, um manjar recoberto por açúcar queimado transformado em calda saborosa.

Foi ela quem se aproximou de mim. Tirou-me toda a roupa. Ofereceu-me um cigarro. As duas nuas e mais o homem. Trancaram-se as portas, a música subiu de tom. E nós, os três, pusemos a nos exercitar, de início vagarosos, porém, após os primeiros toques – um óleo composto de essência de flores –, a temperatura subiu e as carícias profissionais tornaram-se amadoras, tão amadoras a ponto de parecermos um trio enamorado desde tempos remotos.

Houve um momento em que fui surpreendida. Ele sentou-se sobre uma cadeira e puxou-me por um dos braços para que eu o atravessasse. Lembrei-me de um antigo namorado: deitava-se nu na rede, que ficava na varanda de minha casa; pedia que eu, de pé, afastasse cada perna sobre o tecido estreito e colocasse meus grandes lábios acima de seu pênis; em movimentos lentos, eu levantava e abaixava meu corpo; então ele me tocava a musculatura das coxas, apalpava-as; elas iam rijas; acariciava-as para que eu enfraquecesse e desabasse sobre ele; assim me penetrava numa inteireza doída e ao mesmo tempo prazerosa. Agora, a intenção do homem era semelhante; minhas pernas apoiadas ao solo num movimento ritmado, os mesmos músculos enrijecidos e ele golpeando-me suave as coxas, como que elogiando minha resistência; eu, emitindo sussurros que não demoraram a se transformar em compassados gemidos e gritos, até desabar ruidosa sobre ele. A mulher? Sentada sobre o estofado, de pernas cruzadas, cigarro à mão, com os olhos cravados em nós, num gozo frio.

Quando tudo acabou, ela, assim como me despira, pediu para me vestir. Antes de partir, beijei-os nas duas faces; e, num último momento, trêmula, ainda tive tempo de balbuciar ao casal agora abraçado – a mulher sempre nua – um último desejo: “até logo”.

Antes de sair, o mesmo motorista, os mesmos óculos; a escuridão.

sábado, dezembro 01, 2007

Como uma flor

Caminho pela rua do Ouvidor, centro do Rio. A tarde vai quente, o verão se anuncia. Em meio à fileira de lojas e à avalanche de gente que serpenteia, vou em direção à Uruguaiana. Muitas pessoas distribuem panfletos: “compra-se ouro”, “dinheiro rápido e fácil”. Os homens olham em minha direção. Meu vestido curto tomara-que-caia, justo nos seios, desce solto, se abrindo, feito balão. Tenho que segurar uma das barras, porque vez ou outra há o risco de ele subir, descobrir minhas pernas mais do que já vão nuas. Intempestivos esses homens, grande parte tem mulher em casa, talvez filhos, mas não deixam de virar a cabeça, medir minha estatura, voltar-se às minhas nádegas. Alguns até tentariam abordar-me, mas passo rápida, vou alheia. Não deixo de lembrar Alfredo. Penso como tudo aconteceu e acabou. Dizia que me amava, que eu era a melhor mulher do mundo, a mais bonita; e o surpreendo num restaurante com uma mulher vulgar. Depois veio correndo, queria-me dizer que não tinha nada com ela, que não passava de uma colega de trabalho. Ela, porém, mostrou-se digna; disse-me que era sua amante. Nos primeiros dias, mantive-me irresoluta; não mais queria saber daquele homem; traíra-me. Com o passar do tempo, a saudade aumenta e esquecemos o mal a que fomos submetidas. Às vezes tendemos a nos lembrar apenas das coisas boas. Então revivi os dias alegres em que estive ao lado dele. Um filme deslocado rodou em minha cabeça; tínhamos sido bons atores. Sorria e o beijava. Mas eu não podia recuar. Para esquecê-lo, atirar-me-ia nos braços do primeiro que aparecesse.

O sucesso de toda mulher depende muito da roupa que veste e da tinta que usa. Tinta, isso mesmo. Tudo é tinta; maquiagem e cabelo. Outro dia li num desses jornais uma escritora: toda realidade é uma construção. Os homens olham para quase todas as mulheres. A que vá bem trajada e bem maquiada, os cabelos arranjados de forma exuberante, terá todo um império a seus pés, ou toda uma república; questão de geografia.

Lançar-me-ia ao primeiro homem. Mas na rua, temi. Não podia olhar diretamente a alguém porque corria o risco de ser confundida com uma prostituta barata. Eu, que sempre ando de roupa curta, percebi como seria complicado. Optei por um prédio de escritórios. Desses que há em profusão nas pequenas ruas do centro; em que na portaria não se pergunta aonde você vai. Entrei. O elevador ascendeu solto, sem o ascensorista. Às vezes temo pela falta desse profissional; ele nos dá segurança. Quando a gente se vê só dentro da cabine, o coração dispara, o peito dói e falta o ar. Saí num desses andares de corredor comprido, passei por algumas portas trancadas, com placas indicando contadores ou advogados. Eu queria me entregar ao primeiro homem, experimentar o mesmo que Alfredo ao se entregar à primeira mulher. O que é que os homens sentem para se atirarem à primeira mulher que passa? Escorreguei por mais corredores, desci lances de escada.

“Se eu contar, ninguém vai acreditar”, “Não é para contar”, eu sussurrava em seu ouvido enquanto ele ia com as mãos sob minha roupa. “Será que alguém já teve essa sorte, dona?”, “Que dona?, não sou nenhuma dona.” Trepávamos num dos vãos da escada de incêndio. Eu, um degrau acima; ele, tentando me penetrar. Quis tirar o vestido – lembrei-me de uma amiga que tirava toda a roupa antes de bater na porta do namorado, “peladinha, é o segredo”, ela dizia –, mas nossa localização era arriscada; apenas levantei o tecido fino até acima dos seios, queria que ele os apertasse. O rapaz tremeu, “alguém pode encontrar a gente, dona.” “Que dona?, não sou nenhuma dona, e aproveita que você não vai me ver mais.” “Nós podíamos ir para um hotel.” “Nada de hotel; até chegarmos lá, já perdi a vontade; acho que você quer é passear comigo, não ?, quer mostrar a seus amigos que você tem talento.” “Não é isso, dona, é melhor transar numa cama; rola uns beijos e ninguém precisa ter pressa.” “Não sou dona, é a última vez que digo.” Trepamos durante um bom quarto de hora. “Beije-me”, disse eu, “não foi você que falou em beijo?” Tapei a boca do homem com a minha. Ele era na verdade muito jovem, sem experiência alguma. “Vamos, vou fazer você gozar”, falei. “Moça, acho que vem alguém, vão nos pegar no flagra!” “Silêncio, não vai acontecer nada.” Na verdade vinha alguém, mas se deteve ante a porta do elevador. Quando acabamos, abaixei-me para deixar escorrer toda a porra. “Vá embora”, eu disse mantendo-me agachada. “Mas e você?” “Não se preocupe comigo, sei me virar, vá; você não me esperava encontrar nem pensava em trepar com uma mulher bonita às quatro da tarde; desapareça, tenha disso tudo uma boa lembrança.” Beijei-o sobre uma das faces. Ele se foi sem olhar para trás.

Desço rápido. Recomposta. Ando pela mesma rua do Ouvidor. Paro diante de uma loja de roupas. Que vestido lindo! Vai cair em mim como uma flor. O que sente um homem quando vê pela primeira vez uma mulher na rua e dez minutos depois a tem nos braços? Não sei. O que sente uma mulher depois de se abrir a um homem que conheceu há um quarto de hora? Também não sei; difícil dizer. Passadas algumas horas, só sei dizer que não me sinto traída. Coitado do rapaz, nunca vai me esquecer. Nem jamais alguém vai acreditar na história dele...

quinta-feira, novembro 15, 2007

Picardias e paliçadas

Como as águas de uma estação termal, subia-me todo o corpo o vapor das fêmeas erradias; minha pele alva permeada de gotículas transparentes, entrecortada pelo tecido negro do vestido comprido e solto, convidava. Quem se candidataria a percorrer-me o corpo sutil, a irmanar a palma da mão ou a ponta dos dedos a calor que se derramava em febre de desejo? Quem deslizaria sobre o tecido úmido – teclas de bemóis e sustenidos – a melodia hábil de um pianista? Eu era a música, latejava som de orquestra, perdia-me entre cordas e metais. A multidão comprimia-se num espaço de alegria. Corpos de atletas, campeões em provas de outras plagas e de outros deuses, apertavam mulheres seminuas. Afrodites que deixavam escapar sorrisos fugitivos, beijos rubros-violetas, ancas volumosas, abdomens ricos a descobertas. Aportou-me misterioso cavaleiro. Num gesto brusco descobriu-me madura sob o pano. Suas mãos tremeram; era amador em versos femininos. Precisei afastar as pernas. Fiz que escorregava distraída, num passo de mulher desinibida. Depois me recolhi à sua espera; as pernas ainda dois dedos entretidas. Escapou-me perfume e cintilância, umidade de paredes novas, prenúncio de civilizações a encetar viagens e delírios. Senti que a batalha se daria em solo escasso, não dado a escapada ainda que fingida. Sussurrou-me rumores remotos, palavras mágicas, narrativa a precipitar desvarios. Mãos fiéis imobilizaram-me qual estátua, arqueólogo em valorosa descoberta. Uma lança, lembranças de batalhas medievas já vencidas, cortou-me a tez, ranhura primitiva, assalto ao desejo em plena luz de réveillon, chuva adiantada sob vestes transparentes. Segurei-o; queria um segundo golpe, e o queria demorado. O gozo é passageiro, mas perpétuo o entrevero; fantasmas que buscam imanências arriscadas. Luzes circulavam o arrabalde, mulheres proibiam permissivas, paradoxos da volúpia. Eu, recém forjada, a escorar parede de tijolos crus, a roçar picardias e paliçadas, a moldar o próprio corpo em brilho avermelhado, seios nus a espelharem cerâmica de arrepio. Então me atirei a seu alcance. “Ainda não tarda, restitua-me a lança, aplaca-me o desejo”.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Caixa de incêndio

– Você precisava ver, foi um show, jamais pensei que eu ia gostar tanto daquela brincadeira.

– Você deve estar louca; já imaginou se alguém surpreende você?

– Na hora nem pensei nisso; só queria sentir prazer.

– E se alguém encontra a sacola?

– O prazer é intenso, e as incertezas pesam a favor.

As duas conversavam enquanto aguardavam a hora do filme. Eu, que tomava café na mesa ao lado, pegara a conversa pela metade. Pelo que pude entender, falavam sobre um homem que era bem-dotado e estava tendo um caso com a mais jovem. Esta continuou:

– Você precisa ver, todas as mulheres que trepam com ele aparecem lá nuas. Contando ninguém acredita. Tocam a campainha e ele abre. Dizem que às vezes tem até que marcar hora; sempre depois das dez da noite.

– Como assim? Como é possível receber tantas mulheres? Elas não se encontram ao acaso no prédio?

– Não sei, vai ver que até se encontram e nem ligam. Certa vez ele me disse que eu podia ficar escondida e observar. Foi o que fiz. Fiquei surpresa, num espaço de duas horas duas mulheres bateram à porta.

A conversa era estranha. O fato também me despertou o interesse. Queria saber que história era aquela.

– Elas ganham algum dinheiro? – ficou curiosa a que ouvia.

– Não, pelo que pude observar, fazem por prazer; e ele tem uma conversa terrível; não há mulher que não caia na conversa dele.

– Ah, eu não caio; você acha que eu vou chegar nua na casa de um homem? Nem que ele seja o mais rico do mundo, ou mesmo um ator lindo e famoso.

– Você está enganada; se for até lá, acaba cedendo.

Quem seria aquele homem? Comecei a ter vontade de saber. Não podia interromper a conversa e perguntar. A hora do filme se aproximava. Elas levantaram e entraram na fila. Quis segui-las, mas a princípio temi que percebessem.

Ainda ouvi:

– Se você quiser, podemos ir lá hoje. Você vai comprovar com os próprios olhos.

– Não, prefiro a minha tranqüilidade.

– Tranqüilidade? Se você for, não vai querer outra vida.

Só me restava segui-las. Estava sozinha e a conversa excitara-me. Assistiria ao filme; esforcei-me para não as perder de vista.

Às onze e quarenta e cinco, elas cruzaram a porta do Espaço de Cinema e entraram num táxi. Meu carro estava estacionado no outro lado da rua. Atravessei correndo, entrei e dei a partida. Procurei seguir o táxi a distância; temia que o motorista me percebesse. O carro trafegou por algumas ruas de Copacabana até entrar numa pequena transversal e parar junto a uma banca de jornal. Tive dificuldade de estacionar. Enquanto saltavam, escutei a mais esperta falar em voz alta.

– Se você não quer subir, espere-me aqui, mas tome cuidado, está deserto e vou demorar cerca de uma hora. O apartamento é o 602 – apontou o prédio.

As duas acabaram entrando. Corri para alcançá-las. Uma delas ainda segurou a porta do elevador para eu entrar. Talvez pensassem que eu fosse uma moradora. Agradeci e apertei o botão do oitavo andar. Depois desci os dois andares pela escada e escondi-me atrás da mureta.

A mais espevitada tirou rapidamente o vestido deixando-o nas mãos da amiga. Bateu suavemente à porta, que logo foi aberta. Entrou. A outra não demorou a decidir-se. Tirou também a roupa, colocou tudo na bolsa e a escondeu na caixa de incêndio.

Dez minutos depois, nua e com o coração aos saltos, ia eu. Mergulhava às cegas; não sabia se cortaria suave o espelho d’água ou se me esperava o azulejo da piscina vazia.

O que aconteceu dentro do apartamento é difícil descrever. Mas foi a água que me amorteceu o salto. E quente!

domingo, outubro 21, 2007

Aparição

Finja que não me viu, por favor!

Como? Você está nua. São 4:30h da manhã. E atrás de uma árvore em frente a minha casa.

Trata-se de uma brincadeira.

Brincadeira?

Isso. Dentro de alguns instantes um homem vai me resgatar.

Quero ver para acreditar.

Mas é melhor não ficar aí. Se ele vir você, pode não parar.

Mas aqui é minha casa...

Eu sei, mas se esconda. Veja, vem um carro lá. Esconda-se!

E se não for quem você espera?

É sim. Está com o alerta piscando, como combinamos.

Vou me abaixar a seu lado...

Ah, não é ele...

Viu? Você está mentindo...

Não estou. Veja, vem outro carro...

Passou direto. Não era pra você.

Agora é. Vem piscando o alerta.

Passou também. Você está em maus lençóis, ou melhor, sem lençol algum. E já vai amanhecer; olhe aquele pedaço do céu!

Você me ajuda?

Ajudar? Como?

Arranja uma roupa pra mim.

Impossível. Minha mulher está dormindo e ela é muito brava, não pode nem imaginar que conversei com você, dá até tiro.

Não posso voltar nua pra casa.

Você não pensou nisso antes de fazer essa brincadeira?

Não, não pensei. Você tem que me ajudar. Vá até lá dentro e pegue qualquer coisa que possa me cobrir. Por caridade.

Caridade? Negativo. Caridade você vai ter por mim quando minha mulher me avistar ao lado de outra mulher, tanto mais nua! E até logo que ela já vai acordar.

E o que faço?

Não sei. Eu estou fora dessa, tchau!

Você não gosta de uma mulher nua?

Gosto. Mas não gosto de minha mulher brava. Você não a conhece.

Eu não sei o que fazer. Não posso ficar assim.

Se você não me encontrasse, o que faria?

Pediria ajuda a alguém. Então, vai, me ajude.

Peça ajuda a outro, moça, tchau.

Ai, não, ele se foi... E eu peladinha. Mas não há de ser nada; não vou morrer por causa disso. E acho que até pode ser divertido.

sábado, outubro 06, 2007

Estupefata

– Pra você que é homem é fácil, basta ir até lá em baixo, chamar uma mulher e trazê-la para cá.

– Você pensa que é assim que eu faço? Será que você não acha isso um tanto absurdo?

– Pode ser absurdo e até perigoso, do jeito que as coisas andam hoje em dia...

– Não é isso, não faço amor com qualquer uma, só trago para meu apartamento quem eu gosto.

– E você gosta de mim?

– O que você acha?, por acaso eu a teria convidado caso nada sentisse por você?

Ele olhou-me nos olhos e sorriu. Eu não sabia a causa de tal discussão. De repente, interrompeu meus pensamentos.

– Acho que quando você fala sobre isso é porque tem vontade de estar nessa situação.

– Que situação? - perguntei.

– Essa, de ser alguém que passa pela rua e é abordada por um estranho que acaba conseguindo convencê-la a acompanhá-lo.

– Eu, ora... não é bem assim – tentei disfarçar –, tenho minhas fantasias, mas...

– Peguei você de surpresa, não foi? – falou enquanto me abraçava.

– Como ia dizendo, tenho minhas fantasias, se você quiser até conto uma, mas essa agora me deixou estupefata.

– Estupefata?, gostei; mas continue, conte sua fantasia.

– Ouça, é interessante, pode ser que depois... quer dizer, primeiro ouça. Eu passava sozinha umas férias numa casa de veraneio no litoral norte. E num típico fim de tarde que se segue a um dia quente e ensolarado de verão, resolvi caminhar pela beira da praia. Começava a ventar e algumas nuvens rumavam do oceano em direção ao continente. Em determinado momento, senti um desejo incontrolável de ficar nua. Nesse dia eu vestia um lindo maiô azul-claro, estampado com flores rosas e vermelhas. Não resisti, acabei despindo-me. Fora de meu corpo, aquele céu úmido e florido tornou-se mínimo; escondi-o na reentrância de uma rocha. Durante um bom quarto de hora, percorri as areias brancas da beira-mar com os pés cobertos pelas espumas que se revezavam após a explosão de cada onda. Gozava os primeiros indícios do entardecer imersa em toda aquela paisagem natural, sentia as lufadas de vento fresco sobre o corpo liso. Mas ao voltar ao esconderijo, não encontrei o maiô. Não sei se fora levado por língua d'água mais saliente, ou por admirador que me costeava e em algum momento me assaltaria, desejando apenas deslizar a ponta dos dedos sobre meu corpo níveo. Permaneci imóvel. Após alguns minutos, porém, abateu-me excitação incontrolável. A incerteza quanto ao que se seguiria aqueceu-me as entranhas. Toda mulher tem o desejo latente de andar nua e de correr riscos. Naquele fim de tarde, mergulhei em pele no crepúsculo do litoral norte. O que eu mais temia ou queria não aconteceu. Viva alma não se arriscaria a vento que logo se pôs a me açoitar, obrigando-me a contorções de dançarina exótica sob afiado chicote de areia. Forte estrondo assustou-me, veias azuladas cortaram o céu. Agachei-me e por algum tempo busquei proteção inútil; grossas gotas de chuva despencaram abruptas. Trôpega, corri na noite recente; invisível, atravessei a estrada. À porta de casa fui surpreendida: não por homem erradio ou visitante inoportuno, mas por meu cão; saltou carente e alegre sobre meu corpo molhado; lambeu-me os seios.

– Gostei; linda história, e contada por você tornou-se ainda melhor; mas você disse no começo “pode ser que depois”, o que quis dizer com isso?

– “Pode ser que depois” quer dizer: pode ser que agora eu ponha em execução a outra fantasia.

– Qual?

– Descer até a rua principal para ser abordada por um estranho e, enfim, acompanhá-lo...

– Você teria coragem?

– Já que você tocou no assunto, acho que sim.

– Mas e nosso namoro?

– Não há problema, é só uma brincadeira, depois conto tudo a você; acho que vai ser muito excitante.

Ele abriu o armário e fez um gesto de que retirava alguma coisa.

– Tome, vista isto.

– Isto? Não estou entendendo...

– É um mini-vestido, foi de uma ex-namorada.

– Ela chegou aqui nua?

– Mais ou menos; mas não percamos tempo, vista-se.

– Acompanhei-o na fantasia.

– Vamos, já passa de uma da madrugada – ele disse.

– Estou morrendo de vergonha.

– Não há muita gente a esta hora, apenas aqueles que tem interesse por prostitutas.

Saímos. Ele abraçou-me enquanto percorríamos as duas quadras que nos separavam da rua principal. Então me beijou e desejou boa sorte.

– Esqueci de dizer a você uma coisa – ainda falou uma última vez –, dê umas voltas, mas sou eu que vou abordá-la.

Fiz que concordava, porém escapei.

Não passou muito tempo para que um Honda cinza-metálico parasse. Por trás do vidro que desceu vagaroso, vi um senhor; parecia bastante digno.

Jamais voltei ao meu namorado. Descobri-me atriz. Meu papel favorito era a prostituta. Uma vez na semana, sempre em lugares diferentes e vestida de modo muito elegante, vivia meu teatro. Nunca tive problemas, ou melhor, tive um, e foi na primeira vez; o motivo: o impalpável mini-vestido que ele me oferecera. Enquanto durou a madrugada, ainda tive como capa os sutis vapores das estrelas, mas os primeiros indícios do amanhecer revelaram a Cinderela nua...

quarta-feira, setembro 26, 2007

Na praia

Foi um namoro de primeira vez. Rolamos pela cama e nos agarramos durante mais de duas horas. Segurava-o e mantinha-me com os lábios colados aos seus. Ele apertava meus seios, depois minhas pernas, acariciava-me de todas as maneiras. Não me deixou incólume. Proporcionou-me o orgasmo duas ou três vezes. Da mesma forma, também usufruiu prazer máximo. Eu soube trabalhá-lo, soube fazê-lo sentir sutilezas inimagináveis. Às vezes, entre um gemido e outro, dizia-lhe: “me leva nua à praia, vamos fazer amor lá” ou “me deita sobre as areias úmidas, quero ter como capa apenas o vapor prateado das estrelas”. Ele então emitia sussurros de gozo e beijava-me, a seguir se soltava e mordia meus seios. Quando demos mostras de exaustão, eu transformara-me num rio caudaloso; queria-o imerso na tepidez de minhas águas.

O mar explodia sobre as areias brancas, entardecia. Eu era uma das poucas remanescentes de um dia azul e luminoso. Perdia-me em pensamentos e olhares em direção às cores multiformes da tarde. A praia pouco a pouco tornava-se rósea, acompanhando a cor dos raios solares; na superfície das águas vez ou outra se via o rebrilhar de algum raio fugidio, diamante perdido que filtrava as últimas luzes do dia. Então ele surgiu. Passou silencioso, parecia ter saído da imensidão. Nestas praias semi-desertas, a extensão litorânea nos faz pensar em espaços infinitos e selvagens. Ele saiu de dentro de uma solidão composta de areias, céu, mar e alguma vegetação mais saliente que insistia em romper terrenos áridos para dar vez a um coqueiro. Passou por mim sem que eu percebesse seu olhar. Continuei fixa, distante, mas pude admirar as curvas sinuosas de seus grandes pés.

O hotel ficava atrás, bastava cruzar uma pequena cerca e atravessar uma ponte sobre um rio de águas escuras e medicinais para se entrar numa área extensa onde predominava a beleza rústica aliada a alguns toques de arquitetura sutil. Viam-se o grande salão, a piscina, o lago com caiaques e pedalinhos, mais adiante o restaurante. Os apartamentos ou chalés se perdiam por toda a extensão da propriedade; alguns tinham vista privilegiada, como voltada para o lago ou para o mar, enquanto outros permaneciam escondidos, quase à sombra, residência temporária àqueles que amam o repouso, ou mesmo desejam estar a sós com a pessoa amada.

Ele cruzou a cerca, atravessou a ponte e se perdeu na tarde que já nos sombreava.

Senti certo pesar ao perceber que devia deixar a paisagem na qual estava imersa havia horas. O funcionário do quiosque sorriu para mim quando passei ainda em trajes de banho, coberta por um discreto chapéu branco e com os óculos escuros a me protegerem ou mesmo a me proporcionarem maior liberdade. Cadeiras e guarda-sóis pouco a pouco ficavam vazios, aguardavam os braços fortes do funcionário que os recolheria.

À noite, após o jantar, sempre era programado algum tipo de festa. O hotel – na verdade era um resort – ficava longe da cidade de Ilhéus, seus administradores procuravam contentar todos os gostos e manter os hóspedes no local. O show programado era uma festa caribenha. Os funcionários montaram um palco ao ar livre e mesas que se estendiam sobre um vasto gramado. Spots e luzes foram acrescentadas às existentes, especialmente para a festa. Os garçons vestiam camisas estampadas acompanhando o tema da noite, serviam a todos com largo sorriso. Os hóspedes consumiam bebidas delicadamente preparadas, muitos pediam tequila e marguerita. As apresentações se iniciaram com as moças dançando música cubana, depois se aventuraram por sons e danças dos países vizinhos. Permaneci em uma das mesas, só, olhando a animação geral. Confesso que em determinados momentos me senti atraída e identificada ao entusiasmo geral. Assustei-me quando alguém, de forma inesperada, aproximou-se. Era o homem que passara por mim na praia ao entardecer. Perguntou se me podia fazer companhia. Trazia uma enorme taça que continha uma bebida colorida, quase rubra.

– Se minha face corou é porque tornou-se espelho de sua taça.

Ele a princípio não entendeu a insinuação, apenas após alguns segundos é que caiu em si e perguntou:

– Por que minha presença provocaria tal reação?

– Mistérios que só pertencem às mulheres...

Apontei-lhe a cadeira. Permanecemos lado a lado apreciando a festa. No final, as pessoas puderam aventurar-se no palco para tentar alguns passos ao lado dos dançarinos profissionais. Muitos jovens não se negaram ao experimento. A diversão foi geral. Meu recente conhecido continuou silencioso. Correspondi-lhe ao temperamento e admirou-me sua quietude. Geralmente nesses lugares aparecem pessoas falantes, logo se põem a perguntar, querem saber proveniência, profissão, fazem observações que invadem a privacidade. Ele, no entanto, permaneceu como as luzes da noite, brilhantes, silenciosas, a dar aos caminhos um manto prateado. Ao levantar para me recolher, percebi suas leves passadas a meu lado. Disse-me que estava só e se tornara amigo de um casal que, como ele, viera de Brasília. Saía a passeios com os dois, mas também caminhava sozinho por todo o litoral. Convidou-me para acompanhá-lo na manhã seguinte.

– Vou ver; tudo vai depender de meu estado de espírito pela manhã; devo estar no mesmo lugar de hoje à tarde; passe lá, pode ser que eu vá.

Deixei um sorriso discreto e desejei-lhe boa-noite.

Durante algum tempo ainda permaneci na varanda de meu chalé; além de poder observar um céu incrustado de estrelas, ouvia o rumor contínuo e indômito do mar. Enfim me despi e mergulhei em sonhos na noite acolhedora.

Na manhã seguinte deixei o café da manhã e atravessei a ponte em direção às areias brancas da praia. Não permaneci no ponto em que havia combinado. Decidi caminhar – em trajes de banho, com o mesmo boné da véspera e os óculos escuros – em direção ao litoral norte. Com passadas pequenas, mergulhei na mais completa solidão. O mar recuara, suas ondas estavam distantes, as espumas chegavam tímidas até a beira d'água. Uma brisa morna aquecia o ar, mas ainda se podia perceber que a madrugada fora fresca e que deixara seus rastros; vez ou outra mudança súbita na temperatura do ar indicava que a friagem das primeiras horas não se dissipara por completo. Nesses sítios, ao se caminhar em estado de total comunhão com a natureza, esquece-se que há à nossa volta todo um mundo constituído de vilas, cidades e países. É como se a realidade não fosse além daqueles limites, aparentemente infinitos, e que não há nada mais do que a paisagem em todo seu estado primitivo; até mesmo uma cabana inesperada que nossos olhos descobrem torna-se um pequeno acidente.

Exausta, após três-quartos de hora descobri uma barraca feita com troncos de árvores, coberta por algumas traves e folhas secas de coqueiro. Mesas rústicas espalhavam-se à frente sobre um pequeno pedaço de areia. Não se via viva alma mas se podia perceber seu interior: a tábua principal estava levantada e algumas bebidas, além de uma velha geladeira, alinhavam-se ao fundo. Sentei-me. Uma mulher de meia idade surgiu sem que eu soubesse de onde. Sorriu e me perguntou se eu desejava alguma coisa. Pedi água de coco. Serviu-ma com seu sorriso enviesado e a com as maneiras do lugar. Sorvi a água enquanto olhava o mar. Um velho cão corria à beira d'água; vez ou outra envolvia-se na areia, saltava, para depois se deixar lavar pelas pequenas ondas.

Surpreendeu-me presença humana que ia além de mim e da mulher da cabana. Alguém se avizinhava com passadas firmes, pernas fortes, um atleta de longo curso; vinha num ritmo de beleza olímpica, corredor grego incumbido de avisar que seu exército venceu a batalha prometida. Era meu admirador da véspera. Ainda corria distante quando pude perceber seu porte viril. Passou pelo ponto em que eu estava sem dar conta de minha presença. Sua marcha possuía movimentos que o irmanavam à paisagem. Seu espectro foi tornando-se cada vez menor. Ainda pude vê-lo ao entrar por uma curva da enseada, banhado de sol e de gotículas de mar.

Só o reencontrei quando mais tarde me deleitava ao sol, diante do hotel, no mesmo lugar onde ele me vira pela primeira vez. Saía do mar e não hesitou em se dirigir a mim.

– Fico feliz por ver você – ouvi sua voz.

Sorri para ele enquanto colocava a espreguiçadeira na posição correta para me sentar. Percebi que suas palavras procuravam deixar ao largo a imprevisibilidade de minha atitude durante a manhã.

– Há uma boa barraca após a próxima enseada; lá, servem um ótimo camarão; aceita o meu convite?

Sorri em assentimento. Pusemo-nos a caminho. Com a manhã já adiantada, a freqüência à praia tornara-se bem maior. Muitos tomavam sol, alguns bebiam no quiosque do hotel, outros jogavam vôlei, enquanto havia aqueles que tomavam banho de mar.

Quando já estávamos na barraca aguardando o prato sugerido por ele, percebi que me apreciava o corpo. Já não sou jovem; mantenho, porém, a beleza da idade madura; talvez uma protuberância aqui, uma marca acolá, mas de modo geral os homens não deixam de me admirar. Embora ele tivesse uma aspecto jovial, mais tarde me diria que beirava os quarenta antos. Tentava manter a forma, os músculos aprumados, mas era consciente de que a beleza física é provisória.

Não pediu bebida alcoólica, ao passo que eu tomei uma caipirinha. Confesso que a bebida trouxe-me uma ponta de excitação. E ele percebeu. Estendeu os olhos sobre meu corpo. Senti meu biquíni ainda menor ante sua insistência. Como conseguiu deixar-me vexada, pedi licença, caminhei a extensão de areia que nos separava do mar e mergulhei nas águas que refletiam um azul brilhante e límpido. Escondi-me ainda que provisória. Ele acabou por me acompanhar. Mergulhou após alguns minutos e se aproximou tanto que chegou a tocar-me. Minha pele estava fria, as águas do mar baixaram-me a temperatura; pude voltar mais tranqüila à barraca. A garçonete acenava: nossos camarões estavam prontos e servidos.

Saboreamos a iguaria. O prato fora preparado com beleza peculiar, acompanhava a rusticidade local. Continuei a bebericar enquanto o ouvia. O homem falava pouco, mas procurava pontuar seu discurso provocando um efeito interessante. Parecia saber contar histórias. De antemão eu soube que era pessoa viajada, trabalhara em várias embaixadas do país no exterior. Perguntei se era embaixador.

– Ainda não – sorriu e bebeu mais um pouco de água mineral.

– Se você está de férias, por que viaja no próprio país?

– As viagens ao exterior no meu caso têm uma ar de trabalho. Já conheço muitos países. Lá fora faço turismo cultural. Quando busco ambientes naturais, prefiro alguma praia do Nordeste, como esta.

Contei de onde eu viera e o que fazia. Escutou-me com bastante atenção. Demonstrou alegria quando eu disse que morava no Rio.

– É uma das poucas cidades onde não tenho muitos amigos. É bom conhecer você porque vai ser um bom motivo para eu visitar a cidade. Gosto muito de lá, mas tenho ido pouco nos últimos anos.

Vivia em Brasília e disse que havia pouco enfrentara uma dolorosa separação. Tinha um filho ainda pequeno, não o via com freqüência, embora gostasse muito dele.

Olhei toda aquela luz que nos dourava a pele, segurei suas mãos e me aproximei dele. Não foi longo o tempo que passou até eu criar uma situação que nos levou a um beijo demorado. Apesar de ainda estarmos na mesa diante da barraca e do mar, do copo com alguma caipirinha, de alguns camarões que nos restavam, e de olhares curiosos sobre duas pessoas de meia-idade que se abraçavam, nosso namoro começou em temperatura elevada. Quando nos desprendemos, acariciei-lhe os ombros.

Após deixarmos o local, em meio à caminhada de volta, mergulhamos num pedaço de mar onde éramos sós. Dentro d'água, agarrei-o com mais insistência. Ele segurou meu corpo, apertou-me, apalpou-me as costas, escorregou as mãos até quase meu bumbum. Mas, enfim, não era homem de avanços imediatos. Ficamos abraçados, com a água a nos escorrer pelos cabelos e rosto. Tive vontade de ficar nua em seus braços. Bem que seria possível, além de nós dois, a praia insistia em não dar mostras de presença humana. Mas contive-me. Como ele parecia tão digno, preferi não me precipitar. Quem sabe assim poderia tê-lo por mais tempo, quem sabe ele não seria a pessoa ideal para se viver.

Ao chegarmos diante do hotel, encontrei minha espreguiçadeira vazia. Deitei-me. Ajeitei o chapéu sobre a cabeça, já que o sol vinha de outra direção. Limpei os óculos na toalha e o coloquei no rosto. Chamei o garçom, que veio atender-me com pronta solicitude.

– Uma caipirinha, por favor.

Meu companheiro sorriu, largou-se a meu lado sentando-se sobre a areia.

A bebida insuflou-me ânimo novo. A tarde já ia com seus raios de sol suaves, o mar pleno de explosões trazia odores de vida e transmitia uma sensação quase de êxtase. Tomei nos braços de novo meu acompanhante e lhe beijei longamente os lábios. Trouxe seu corpo para mais perto; percebi, porém, que ele demonstrou algum desconforto. Alguém passou por ele e com muita discrição cumprimentou-o com um movimento com a cabeça. Depois percebi que era um casal, talvez os amigos que conhecera na viagem.

Quis estar a sós com ele. Sentia-me impelida a abraçá-lo, a pressionar meus seios sobre seu corpo, a percorrer sua pele com meus lábios úmidos de desejo, mas ali não era o lugar propício. Beijei-o de novo.

– Vamos para o meu chalé – sugeri.

Ele sorriu em assentimento e se levantou.

Jantamos juntos no restaurante do hotel. Devido à hora adiantada, muitas mesas já estavam vazias. Os casais que ainda permaneciam conversavam, saboreavam doces ou tomavam café. Os jovens passeavam pela área ao ar livre. As crianças corriam e algumas gritavam. Aconteceria depois das nove outra festa para os adultos; ao passo que para as crianças, recreadores programavam atividades próprias.

Era bom estar diante de meu novo amigo. Já entendêramos que seria difícil desvencilharmo-nos um do outro. Quando conhecemos alguém, sobretudo num local onde o tempo escorre rápido e sabemos que não está longe o dia da partida, desejamos aproveitar todo o tempo da melhor maneira possível; não nos abandona o pensamento de que já éramos antigos namorados e que na verdade nunca estivemos separados. Mas são armadilhas de férias, emboscadas de viagens que nos parecem tirar do mundo, miragens que logo se diluem quando voltamos à vida cotidiana. Passamos então a sentir que aqueles momentos foram um sonho e duvidamos até mesmo que um dia tenham existido.

Andamos sob as luzes das estrelas e da parca iluminação elétrica. Eu vestia apenas uma leve bermuda e um top. Fazia calor. Meu companheiro não perdeu a elegância. Apesar de estarmos num hotel em que se podia ir de short e camiseta durante todo o dia e toda a noite, vestiu-se de modo a despertar a atenção de outras pessoas. Não era nada demais, porém a roupa esporte que usava caía-lhe com perfeição e se podiam perceber os detalhes do corte e do desenho.

Insisti para que caminhássemos à beira-mar. Atravessamos a pequena ponte e nos deparamos com o mar, que estava bravio àquela hora. As ondas estouravam próximas a areia e vez ou outro o vento nos trazia alguns respingos. Andamos na direção sul. Vimos as luzes do hotel vizinho. Algumas pessoas se divertiam no quiosque externo. Casais abraçavam-se, principalmente os jovens, enquanto uma música romântica vinha inundar a todos. Estaquei, pus-me de frente ao meu homem e procurei seus lábios. Ele de pronto respondeu-me. Beijamo-nos demoradamente. Aproximei-me o mais que pude e o apertei com bastante força. Comprimi meus seios a seu tronco rijo. Depois fui largando-o vagarosa, como se me tivesse tornado exaurida devido ao esforço em retê-lo. Ele deslizou suas mãos entrelaçadas por minhas costas e prendeu-me à altura dos quadris, enquanto eu permanecia com a cabeça recostada sobre um de seus ombros.
Ao voltarmos ao hotel, após nosso passeio de muitos toques e poucas palavras, vimo-nos imersos em grande dúvida. Dormiríamos juntos ou não? É lógico que ambos queríamos permanecer lado a lado durante todo o tempo. Nenhum de nós, porém, aventurou-se a tocar no assunto. Fiz que me despedia. Só então perguntou:

– Não vamos ficar juntos à noite?

– Não sei, ainda nem nos casamos...

Ele riu de minha resposta, mas não se deixou vencer.

– Vejamos se há alguém no hotel que nos possa casar.

Olhei para ele com expressão de susto.

– Você não acha que estamos indo rápido demais?

Virei-me de frente, dei-lhe um beijo ligeiro e disse:

– Quem sabe alguém me convida para conhecer seu castelo?

Ficamos na cama até quase nove da manhã. Daí em diante começamos nosso ritual. Parti para meu chalé com a desculpa de que precisava me preparar para aquele lindo dia que começava. Marcamos encontro no restaurante, para o café da manhã.

Ao terminarmos a rápida refeição, ele falou:

– Tenho uma surpresa para você!

– Não há surpresa melhor e mais inesperada do que ter conhecido você – falei e mandei-lhe um beijo.

– Falo sério, ouça, aluguei um automóvel, vamos passear por outras praias, vamos até Itacaré.

Fiquei muito feliz com o convite.

Preparei-me como sempre de maneira bem leve. Apenas o biquíni, uma saída de praia semi-transparente e a pequena bolsa. Estava pronta para a aventura.

Durante todo o percurso, cerca de cem quilômetros, conversamos muito. Ele falou um pouco mais sobre suas viagens e sua vida profissional. Disse que dentro em breve assumiria um posto na Turquia. Falou muito sobre literatura. Gostava da francesa e da portuguesa. Gostava também dos brasileiros, mas não os colocava em primeiro plano; aliás, apenas dois ou três.

– Aqui no Brasil, dentre a intelectualidade, há esse preconceito; os autores brasileiros quase nunca são colocados na linha de frente quando se trata de literatura universal, mas é um grande equívoco.

Ele olhou para mim um tanto assustado, porque não esperava tal afirmação ou talvez pensara que eu nada entendesse sobre o assunto. Depois disse que eu falava com propriedade.

Cruzamos Ilhéus. A cidade nos pareceu feia. Os prédios, principalmente os públicos, estavam mal conservados e as ruas esburacadas. Tivemos o cuidado de não quebrar a suspensão do carro. Logo conseguimos entrar na estrada que nos levaria a Itacaré e, quando Ilhéus já ficara para trás, pudemos apreciar de novo as belezas naturais. Subimos uma serra. De cima observamos toda a costa: céu e mar repartiam-se e as vagas desfaziam-se em espumas sobre as areias brancas. Quando beirávamos a cidade de destino, entramos em uma pequena praia. Descemos a encosta e paramos o carro. Observamos um restaurante rústico com vários turistas que ocupavam mesas e cadeiras, outros tomavam banho de mar. O restaurante era o único indício de urbanização local. Caminhando pela praia; tanto para um lado como para outro, vislumbrava-se apenas a paisagem natural, composta de mar, areias, algumas dunas e coqueiros. Tirei a pequena canga e a deixei junto a meus pertences, sobre uma das mesas que se enfileiravam até a areia. Corri e mergulhei. Queria fazer uma surpresa a meu namorado. Ele deixou suas poucas coisas junto às minhas e também mergulhou. Nadou até a mim. Pedi que me abraçasse. Ao tocar-me, surpreendeu-se:

–Você está nua.

– Estou.

– Onde você deixou o biquíni?

– Aqui – mostrei-lhe o braço. A pequena peça transformara-se numa pulseira justa.

Ele riu, beijou-me e permanecemos abraçados.

– Você é louca; não tem medo que as outras pessoas descubram que você está nua?

– Não, nunca aconteceu.

– Você faz isso sempre?

– Quase sempre, mesmo quando estou sozinha; me dá imenso prazer.

Em algum momento, coloquei a pulseira em um de seus braços.

– Olha que vou embora e deixo você aí, viu? – ameaçou sorrindo.

– Você vai para a Turquia e vai me deixar pelada numa praia da Bahia? Como eu vou fazer para voltar? – eu o excitava. – Acho que você não tem coragem, é muito gentil para fazer mal a alguém.

Ficamos dentro d'água durante um bom tempo. Ele se manteve muito excitado, tocamo-nos de várias maneiras, mas não fizemos amor ali.

Depois saímos do mar – ele já refeito e eu mais recatada – e pedimos ao garçom que nos trouxesse cerveja e alguma coisa para comer. Passamos toda a manhã admirando um ao outro, olhando a paisagem, tomando goles de cerveja e dando mais algum mergulho eventual.

Seguimos para Itacaré com intenção de almoçar e conhecer as outras praias. Entramos na cidade e alguma coisa lembrou-me Pipa, no Rio Grande do Norte, ou Búzios, no Rio de Janeiro. Cidade bonita, com casas coloridas e baixas, uma juventude saudável nas ruas, alguns estrangeiros, muitos bares, restaurantes naturais, sucos e água de coco. Fizemos pouso em uma praia pequena. Dois bares rústicos serviam comida caseira e bebidas à base de frutas. Na pequena faixa de areia, vimos surfistas bronzeados e suas pranchas; havia também muitas meninas bonitas; bonitas e quase nuas. Mergulhavam, ajeitavam os lacinhos dos pequenos biquínis, sorriam e abraçavam os rapazes. Pus-me a pensar de onde vinha toda aquela gente luminosa e plena de saúde. Entramos num mar mais agitado. Mas as ondas eram uniformes, deslizavam, e a água estava quente. Aproveitamos para nadar.

Voltamos ao entardecer. Novamente passamos por dentro de Ilhéus; quando estávamos prestes a atravessar a ponte, erramos o caminho e demos num bairro à beira-rio, de casas pobres e ruas quase impraticáveis para os veículos. Conseguimos retomar nossa rota e chegamos ao hotel em torno das seis horas.

Jantamos quase às nove. O restaurante já estava prestes a fechar quando o gerente nos viu e acenou para que entrássemos. A maioria dos pratos já fora retirada, mas conseguimos no alimentar. Depois sentamos na área externa e aguardamos uma apresentação de música ao vivo.

Passamos a noite no chalé dele. Em dado momento, disse-me:

– Vou levar você comigo para a Turquia.

De pronto rebati:

– Você ao menos perguntou se eu quero?

– Queira me desculpar, você tem toda a razão.

– Claro que quero, meu amor; como se diz eu te amos em turco?

Caímos na gargalhada.

Numa das tardes seguintes, eu o surpreendi. Estávamos no bosque que havia no hotel; com lago, cachoeiras e muitas trilhas entre as árvores. Anoitecia. Tomamos banho abraçados sob uma das quedas d'água; depois fiz que ele sentasse sobre um dos degraus que havia dentro d'água. Sentei-me de frente a ele, sobre suas coxas. Soltei o biquíni e fizemos amor. Eu dirigia os movimentos, procurava manter as costas eretas, mexia apenas o bumbum e as pernas. A água fria correndo por meu corpo e seu pênis dentro de mim provocavam-me um prazer indescritível.

Quando saíamos, só então reparamos um casal de adolescentes. Abraçados, aproveitavam o banho de cachoeira. Percebi a moça um tanto vexada ao dar conta da nossa presença. Ao passar por eles, sorri. O rapaz retribuiu-me; a moça, porém, escondeu o rosto num dos ombros dele.

– É você adolescente – ouvi de meu namorado.

– Nessa idade eu não era tão envergonhada.

– Não vejo motivo para tanto pudor.

– Você não reparou?, ela está nua.

– Nua? – perguntou e quase instintivamente olhou para trás.

– Não, não olhe; vamos deixá-los em paz.

Os dias que nos restavam arderam nossos corpos na paixão de dois amantes aos quais só existe sob o céu infinito o amor como único alimento. Perdíamo-nos sobre as areias extensas, castigadas por açoite de mar bravio e vento interminável. Éramos dois animais que rolam juntos, mordem-se, envolvem-se, roçam-se e enfim gozam; os corpos cobertos de tênue minério prata granulado. Com a pele viva, intumescida, rósea de dilaceramentos, queria sua seiva, alívio temporário no entreato das estrelas. Seu caule ora aumentava o volume de minhas águas, ora jorrava líquido azulado em minhas entranhas quase rubras, ora untava-me o ventre e os seios com óleo viscoso, tecido único que me cobria, saia de fibras frágeis prestes a esgarçar-se à chama primeira do amanhecer.

Parti um dia antes dele. Na despedida, beijou-me demorado. Ficou com o meu endereço e todos os meus números.

Uma semana depois o esperei no Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio. Ele desembarcou de terno, muito elegante, uma etiqueta italiana. Fomos para minha casa. Mais alguns dias, deixávamos o Brasil.

Minha decisão era arriscada, mas faria uma tentativa. Sentia que sem ele minha vida jamais seria a mesma.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Aeroporto

Tive um namorado que me deixava excitadíssima. Além de saber tocar meu corpo como ninguém, sussurrava palavras mágicas no meu ouvido enquanto fazíamos amor. Foi ele que me introduziu no mundo da fantasia. Gostava que eu me despisse dentro de seu carro. No princípio, eu morria de medo, mas depois me acostumei. Adorava passear nua a seu lado. Ele dirigia e me acariciava as pernas. Íamos dentro de um aquário escuro, como peixes que apreciam o mundo exterior sem a possibilidade de serem capturados. Num belo dia, quando a temperatura começou a esfriar, pediu que eu vestisse apenas o casaco. Passei a sair envolta num manto que me cobria de diversas maneiras; às vezes até as coxas, outras até os joelhos. Ele me presenteou com um suéter que em meu corpo se tornou um micro vestido. Tive vários e multicores agasalhos. Quando o tempo permitia, era tudo o que eu vestia. Ia de cabeça erguida, sem vergonha alguma. Freqüentávamos lugares caros, lugares em que as pessoas são discretas e parecem estar acostumados a qualquer coisa, até a uma mulher nua em público. Certa vez vesti um casaco de botões, desses que se deve abotoar do pescoço até as coxas. Paramos o carro numa viela do centro velho, andamos por ruas escuras e, na reentrância de um muro, entre duas casas antigas, ele soltou os botões e me invadiu o corpo. Que delícia! Caso chovesse ou ventasse, procurava vir com o agasalho adequado, mas sempre chique. O ritual se repetia. Encontrávamos abrigo entre paredes também nuas, ou mesmo em algum jardim público, cuja porta permanecera aberta, esquecida. Ele abria meu casaco e me penetrava. Às vezes eu temia que a temperatura subisse durante as nossas saídas, ou mesmo que amanhecesse e nós ainda não tivéssemos retornado. Evitávamos também lugares quentes, como algumas boates. Certa vez, numa praia, pendurei o agasalho no mastro destinado à rede de vôlei; ele permaneceu lá, esquecido, durante boa parte da noite. Algumas vezes, enquanto fazíamos amor, desejei que alguém o roubasse e me deixasse nua. Mas isso nunca aconteceu. Ainda não vivi essa fantasia. Depois mudei para Bahia e fui morar em Salvador. Arranjei emprego numa sofisticada loja de roupas femininas, no aeroporto. Meu namorado ficou para trás e minha vida mudou.

Fazia seis meses que trabalhava ali quando, num sábado de manhã, indo ao quiosque de café expresso, reparei um homem muito parecido com ele. Cheguei perto, mas constatei que me enganara. Ainda assim o homem ficou a me olhar demoradamente. Estava bem vestido, como acontece à maioria dos viajantes. Quis despistar, mas não consegui. Ele acabou vindo em minha direção. Eu vestia uma calça branca impecável e uma blusa insinuante. A calça era justíssima, deixava bem saliente a marca da calcinha. Naquele momento ainda era cedo, talvez dez horas, e eu havia deixado a loja sozinha. Fora buscar apenas um café e já voltaria. Quando ele ameaçou falar alguma coisa, fiz gesto de que nada pronunciasse, tomei uma de suas mãos e o levei comigo. Ele, carregando apenas uma pequena bolsa, me acompanhou. Eu trazia o homem com uma das mãos e com a outra segurava o copo de plástico, com café; tomava alguns goles enquanto caminhávamos. Não entrei na loja, contornamos o largo corredor de toda a área de embarque. Pudemos apreciar as pessoas que estavam prestes a viajar; algumas olhavam as vitrines, poucas transitavam, outras estavam na livraria, viam jornais e revistas. Uma funcionária que puxava um carrinho de limpeza passou por mim e sorriu; conhecia-me de vista. Atravessamos a área de alimentação, onde já havia um bom número de pessoas. O corredor à esquerda era caminho para a sala de embarque. Junto ao portão, uma mulher com uma criança mostrava o cartão para o funcionário. Dali a algumas horas estariam longe, como acontece a quase todos que passam pelo aeroporto; aconteceria também a meu recém-conhecido. Antes, porém, o levei para um compartimento privativo a funcionários. Nada falei nem permiti que dissesse coisa alguma. Empurrei-o para dentro de um boxe e comecei a tirar minha roupa. Lembrei da loja, mas me tranqüilizei; o aeroporto é um lugar seguro, é certo que nada aconteceria; e a gerente chegaria só depois do meio dia. O homem me olhava meio surpreso e meio desconfiado; talvez tivesse algum temor ante a tanto acaso e facilidade. Já nua, pela única vez sussurrei num de seus ouvidos: “me empresta o casaco”. Ele o tirou e me cobriu o corpo. Depois desabotoei suas calças, manuseei seu pênis, que já se tornara bastante rígido. Sem titubear, fiz que me penetrasse.

Cerca de vinte minutos depois, ao voltar à loja, tudo estava na mais perfeita ordem. Fui ao espelho, retoquei a maquiagem, ajeitei o cabelo, virei de costas e reparei se minha calça branca estava muito escandalosa. Já não aparecia a marca da calcinha. Deixara de lembrança em um dos bolsos do casaco. Lembrança da Bahia.

Lembrança de meu antigo namorado.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Mayna

"Por favor, moço, me ajude, me dê abrigo, aconteceu um problema".
´
Ele permaneceu em silêncio durante alguns segundos, olhava-me com naturalidade. Estendeu enfim um dos braços à mesa lateral e pegou o maço de cigarros, calmamente acendeu um, deu um trago e falou:

"O que houve?"

Eu tentava cobrir minhas vergonhas com as mãos. Resumi a história.

É lógico que naquele momento eu estava muito nervosa, narrei tudo aos atropelos; mas agora posso contar o que aconteceu com mais calma e com mais detalhes.

Houve um verão que passei em uma dessas praias do litoral paulista, o nome não importa, sei que na época era quase deserta. A areia era comprida e do outro lado da rua viam-se poucas casas. Éramos mais jovens e gostávamos muito do local. À noite, íamos à praia para namorar. Cada rapaz ou moça tratava de arranjar seu par, mesmo que fosse apenas para o momento. Então nos agarrávamos num intenso corpo a corpo sobre a areia, um namoro quente no escuro da noite. Às vezes soprava um vento morno, que delícia... Dava vontade de grudar ainda mais no parceiro e fazer tudo o que se podia imaginar. Mas em uma daquelas noites aconteceu algo imprevisto. Eu estava com um rapaz da minha idade, já saía com ele havia vários dias. Ele era carinhoso, me beijava muito e gostava de tirar toda a minha roupa. Eu permitia, deitava com ele inteiramente nua. Estávamos no auge da excitação – eu ardia em fogo invisível – quando percebi um pequeno tumulto. Algumas pessoas começaram a correr, a fugir dali. Eu, a princípio, não entendi o que estava acontecendo; mas aí ouvi alguém que gritou: "é a polícia, fujam, fujam!" Era um tempo em que não existia a chance de se estar à vontade como hoje. Namorávamos às escondidas na praia e em lugares escuros; a polícia, porém, era o que mais temíamos. Meu namorado deu um salto e mergulhou dentro da noite. Tentei recolher minhas roupas, mas de repente me vi sozinha, todos tinham desaparecido, não sabia o que fazer. Então também corri. Mas, ao contrário dos outros, acabei atravessando a pequena estrada. No outro lado, a uma distância de uns trinta metros, vi uma casa; uma luz fraca brilhava no lado de dentro. Corri para lá. Na verdade, invadi a casa. Ao ultrapassar a varanda, descobri um senhor, que via TV. Ele notou que alguém se aproximava e olhou para onde eu surgia. Morri de vergonha. Ao me avistar, no entanto, não demonstrou surpresa alguma.

"Vejamos o que podemos fazer, sente-se, não tenha medo, não vou lhe fazer mal". Apontou-me o sofá.

Eu, sem jeito, não ousei sentar. Continuei com um dos braços tentando cobrir os seios, enquanto o outro, sem rumo, não encontrava pouso. O homem se levantou, parecia que ia a algum lugar, mas estacou.

"Tenho uma piscina de água quente", disse, "você não quer relaxar um pouco? Depois desse susto, creio que não há nada melhor."

"Piscina de água quente?", ainda repeti; animei-me, "é, nada mal".

Levou-me a seguir até a sala de banhos; isso mesmo, a casa tinha uma sala de banhos, que ficava nos fundos. Mostrou-me a pequena piscina de estilo oriental; a água estava quente, uma delícia. Entrei. Só dentro d'água é que soltei os seios. Fiquei de molho durante um bom tempo. Depois ele voltou com uma toalha grande, felpuda. Aí tomei coragem, saí de busto erguido, fui até ele para que me enrolasse nela. Dali em diante, minhas férias foram passear com ele e estar na casa dele. Uma descoberta maravilhosa. E quando acabou a estação, retornamos juntos a São Paulo, onde continuamos a viver nossa temporada de sonhos.

sábado, agosto 11, 2007

A dama de espadas

– Pode me deixar junto àquele poste.

– Mas como, você está nua, são três da manhã, como vou deixá-la assim?

– Pare, foi o que combinamos.

– E suas roupas?

– Não há problema. Durante o dia eu mando alguém pegá-las.

Marinete saltou do automóvel com naturalidade. Pôs-se de pé sobre um sapato de saltos bem altos, carregava uma pequena bolsa a tiracolo que mais parecia um porta maço de cigarros. Ali dentro tinha realmente cigarros e o celular.

– Vamos, dê a partida, – ordenou batendo com uma das mãos na porta, enquanto Manoel hesitava em deixá-la ali naquele estado – depois eu lhe telefono para combinarmos outro programa.

O automóvel partiu vagarosamente. A rua se encontrava às escuras. O local era bastante deserto. Marinete caminhou até uma banca de jornal e agachou-se. Pressionou uma das teclas do celular. Quando atenderam, apenas disse:

– Pode vir. Estou na rua A esquina com a F.

Quinze minutos depois, um Peugeot preto parava no local. Marinete saiu de onde se escondia e entrou.

Esse jogo era uma fantasia que se dava quase que semanalmente. Foi a solução que o próprio marido arranjou para salvar o casamento. Este já ia naufragando, quando ele mesmo teve a idéia.

– Precisamos fazer algo estimulante.

– O que você sugere?

– Que você saia nua pela cidade.

– Como?

– Isso mesmo, ou melhor, você sai vestida, tem seus casos à vontade, mas precisa chegar nua em casa. Se você quiser, eu mesmo vou buscá-la, basta telefonar. Mas lembre-se, tem de estar pelada. A única coisa que eu admito são os sapatos. E de saltos bem altos.

Inicialmente, a mulher resistiu. Já havia muito que não era fiel, teria maior liberdade, mas tal proposta pareceu-lhe perigosa. Pediu uns dias para pensar.

Acabou aceitando a título de experiência. Deu-se a primeira vez. Apesar de trêmula e inundada de um suor frio, gostara. O amante também fora apanhado de surpresa. Não conseguia entender a razão daquela situação e nem ela explicou-lhe. Pouco a pouco, porém, tornava-se cada vez mais excitado. Ela nunca lhe contava como fazia para chegar nua em casa, sem ser percebida. Na verdade, a coisa acabou dando certo pelos dois lados: o amante e o marido passaram a desejá-la mais.

O casamento melhorou em todos os aspectos. A partir do momento em que começaram a praticar tal fantasia, tudo se transformou. O marido se tornou mais carinhoso e lhe era absolutamente fiel. Presenteava-lhe regiamente e cada vez que a resgatava se tornava mais fascinado pela mulher. Ao entrar em casa com a mulher nua, ao colo, apenas de sapatos de salto, atirava-a na cama e faziam um delicioso amor.

Noutra ocasião, surpreendeu-se com uma nova proposta dele:

– Agora, você precisa mudar de par. Cada vez saia com um diferente.

– Olha, você não acha que já estamos indo longe demais?

– Absolutamente, garanto que você vai gostar ainda mais.

Ela teve um trabalho danado para se arranjar nessa nova situação. Havia dois problemas. O primeiro era a surpresa dos homens. Transavam com ela, depois tinham de dirigir com uma mulher nua ao lado e obedecer-lhe sem fazer perguntas. O segundo era a grande quantidade de roupas que perdia. Como as recuperaria? Mas o marido dizia:

– Não faz mal, amanhã compramos outras.

Numa das madrugadas, ao descer do carro, já na garagem do prédio, observou uma carta de baralho deixada sobre o piso. Abaixou-se para pegá-la. Tomou-a nas mãos e a desvirou: era uma dama de espadas.

A figura austera e fria da mulher causou-lhe desconforto. Sentiu um ligeiro tremor.

No apartamento 402 morava uma mulher sozinha. Chamava-se Helenice. Não era feia. Flertara com um homem que morava no apartamento ao lado, homem também sozinho, mas com quem nunca conseguira estabelecer uma relação maior do que a de vizinha. Descobriu, certa vez, Marinete no apartamento dele. Foi um caso único, mas Helenice jurou vingar-se.

Sua estratégia foi acompanhar passo a passo a vida do casal. De início, não reparara nada demais. Em determinado dia, porém, acordou de madrugada e foi à cozinha beber um copo d água. Ouviu um barulho vindo do elevador de serviço. A porta se abriu. Primeiramente saiu o marido, depois a mulher inteiramente nua. Viu tudo pelo olho mágico. Ficou sem entender aquela situação.

Montou guarda quase que diariamente. Passaram-se alguns dias e nada de novo aconteceu. De repente, no mesmo dia, mas na semana seguinte, a cena repetiu-se. A partir de determinada semana, reparou que os episódios passaram a acontecer duas vezes na semana. Elaborou então um plano.

Reparou que nos dias em que a cena se dava, o telefone da casa deles tocava de madrugada, o marido saía só e vinte minutos depois ambos chegavam juntos. Conseguiu ouvir a conversa algumas vezes e não descobriu nada demais. Ouvia apenas o marido dizer: "sim, sim, já estou indo".

Pensou em segui-lo, mas logo concluiu que teria um trabalho terrível. O adiantar da hora fazia qualquer perseguição inviável. Uma brilhante idéia salvou-a. Passou a esconder-se na garagem. Quando eles chegavam, tentava ouvir alguma coisa. Aos poucos, juntando as raras palavras que ouvia, acabou se inteirando da situação. Faltava apenas saber mais uma coisa: de onde vinham. Certa vez teve uma confirmação. Ouviu-o dizer:

– Você precisa tomar mais cuidado. Já apanhei você em todas as esquinas da rua A, e ela anda muito movimentada atualmente, é melhor mudar um pouco.

Helenice não precisou ouvir mais nada.

No dia em que colocou em prática seu plano, o coração pôs-se aos saltos desde o anoitecer. Preocupou-se em se certificar de que Marinete havia saído e não voltara. Ouviu a televisão alta no apartamento deles até altas horas da madrugada. Uma hora antes do horário em que o telefone costumava tocar, Helenice deixou o prédio num táxi. O telefone tocou como de costume:

– Pode vir, estou na rua B com a C.

– Ah, mudou? Que bom! Mas sua voz está diferente, o que houve?

– Estou gripada, e venha logo. Algo deu errado.

Ele sentiu um tremor de excitação ao ouvir a palavra "errado". Saiu em disparada. Quando chegou ao lugar indicado, primeiro não viu ninguém. De repente ouviu um toc-toc na porta do carona. Abriu. Uma mulher inteiramente nua sobre sapatos de salto alto invadiu-lhe o automóvel. Só reparou que não era Marinete, quando ouviu a voz:

– Vamos, meu amor, seu negócio hoje é comigo.

Voltou os olhos, surpreso, para a mulher. Era Helenice, a vizinha.

domingo, julho 29, 2007

Lígia

O sol ardente de fevereiro tornava ouro as lindas serras da Tijuca. Que manhã encantadora. O céu descia do mais puro azul; o verde da relva e da folhagem sussurrava entre gotas de orvalho, refletindo toques de luz. Flocos de névoa, restos da cerração da noite, envolviam ainda as escarpas mais altas da montanha como renda flutuante ao sopro da brisa; tal qual a montanha, a neblina também me envolvia, como manto único e quase transparente.

Havia alguns anos que começáramos a guiar até onde a serra permitia; abeirávamos o caminho de terra e nos agarrávamos primeiro dentro do automóvel, mais tarde fora dele, sobre a vegetação já fria e úmida de sereno. Embrenhávamos inteiramente nus por trilhas e veredas seguras para nós, sítios ocultos no meio da mata, conhecedores que éramos dos espaços às vezes exíguos entre árvores e arbustos. Sentíamo-nos parte do lugar. Vivíamos o ardor da paixão; não perdíamos qualquer oportunidade para nos engolirmos mutuamente. Freqüentadores da floresta em hora tardia, temíamos que alguém nos descobrisse; mas acho que na verdade nos excitávamos ante tal perspectiva. Quando avistávamos outro veículo, ou outro casal que também namorava, tentávamos espioná-lo. Divertíamo-nos.

Até então estivéramos sob o véu da noite, tendo como contorno luminoso apenas os vaga-lumes estelares, piscar alternado de explosões celestes em eras distantes.

Durante o dia, entretanto, era a primeira vez.

Eram sete horas. Apostávamos no amanhecer ainda deserto daquele domingo. Subimos por um atalho novo; pensávamos conhecer todos os caminhos e eis que havia surgido um novo. Tudo incentivava à aventura: a luz forte do sol, a névoa que se dissipava veloz abandonando-nos em pele e pêlo e a vereda recém descoberta.

Caminhamos durante uns bons quinze minutos; adentramos um campo florido, de árvores baixas, tendo ao fundo uma pequena cabana.

Contornamos a rústica construção; íamos cuidadosos. Num primeiro momento, parecia desabitada. Caminhamos para o lado sul e percebemos através de uma das janelas um casal que dormia. O homem e a mulher estavam nus. Os minutos que ficamos a observá-los foram longos e intermináveis. Eu, intempestiva, forcei a porta da sala. Estava aberta. Entrei; procurava ir em silêncio; sentia-me borboleta primaveril que mergulha límpida no ar rarefeito da manhã, sem fazer ruído algum. Deslizei lépida por pequeno corredor. Atravessei a sala e logo me vi no quarto onde dormiam. Tudo era silêncio; podia ouvir a respiração de ambos. Sobre o encosto da cadeira, junto à penteadeira, tomei nas mãos um vestido curto, de cor vinho; parecia roupa própria para noite. Senti a fazenda macia, o corte perfeito, tive vontade de vesti-lo.

Caiu-me na medida. A bela roupa fora cortada e costurada para mim. No corpo, percebi ser um autêntico Versace. Corri a Alberto que me esperava temeroso; não entrara à casa. Surpreendeu-se ao me ver vestida.

– Que roupa linda!

– A mulher tem bom gosto.

– Vai levá-la?

– Claro que não; nunca fui ladra, não haveria de sê-lo agora.

– E por que a veste?

– Para que você me coma vestida com um autêntico Versace.

Alberto encostou-me a uma das paredes externas, levantou o vestido e penetrou-me. Trepamos durante um bom tempo. Trememos quando ouvimos alguém se mover sobre a cama. Quis despir-me e atirar o vestido sobre a mesma cadeira; não queria ser surpreendida naquele estado. Mas, de repente, o silêncio se estendeu de novo; nos mexemos então com mais furor. Tive o cuidado de não sujar a peça valiosa.

– Quem são eles? – perguntou Alberto depois que acabamos.

– Não sei; mas a mulher não me é estranha; e esse vestido não é de qualquer uma.

– Vai ver que aproveitaram a noite e agora dormem.

– Isso – disse eu –, ela não parece com aquela modelo e atriz que se chama Juliana?

– Isso mesmo, bem lembrado, acho que é ela! e então, vai deixá-la nua?

– Já disse que não, vou devolver.

Descemos o trecho da montanha tendo todo o cuidado de não cruzarmos com os primeiros caminhantes. Abaixávamos junto ao córrego que nos acompanhava ou atrás de alguma árvore maior sempre que nos ameaçava algum grupo de jovens que ia aos pontos mais elevados da serra. Mais adiante, seguimos por dentro da mata. Ao chegarmos próximos ao nosso automóvel, reparamos um casal que namorava encostado nele. Fiz voar uma pedra que se chocou contra o solo dez metros à frente. Os namorados se assustaram e partiram.

Como disse, foi a nossa primeira aventura diurna.

E o meu primeiro Versace.

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