Acho que essa história aconteceu no final dos anos 80, escutem só, é um arrepio.
Era um domingo ensolarado, decidi ir à praia do Flamengo. Logo ao chegar, reparei que estava lotadíssima. E desde o momento em que pisei na areia, a paquera foi intensa. Naquele verão tínhamos adotado biquínis minúsculos. Em todo lugar em que parávamos, havia homens ou rapazes a nos olhar. Uns iam e vinham, outros estacavam em frente a uma de nós e se demoravam, queriam em troca um sorriso convidativo. Senti naquela manhã um ligeiro frisson. Até as meninas que iam às tendas de sorvetes ou refrigerantes trocavam olhares excitados e não ficavam indiferentes aos rapazes que mediam seus seios e bumbuns.
Eu deitara de costas, olhava uma revista quando percebi um homem junto a mim. Foi além do olhar, perguntou se podia ficar ao meu lado. Nada respondi, mas mesmo assim ele ficou. Continuei a folhear a revista, acho que alguma coisa sobre televisão; em algum momento, lancei de soslaio o olhar na sua direção. Estava me observando. Como também aconteceria uma hora mais tarde, no banho de mar, pude constatar que ele era mestre na arte da captura. Não precisou de amarra alguma para me deixar juntinho dele. Sentou-se ao meu lado e, como se não quisesse nada, pôs-se a olhar em frente, um olhar pleno. Depois lembro que falou alguma coisa.
Conversei com ele, poucas palavras, muitas intenções. Deitou então, também virado de costas, encostando ao meu o seu corpo largo; não demorou a escorregar uma das mãos por baixo do meu ventre e percorrer um caminho que a deixou dois dedos dentro do meu biquíni.
Notou meu arrepio. Continuou pousado ali. Como a praia estava cheia, aquele sarro imprevisto me deixou excitada. Era quase uma transa às escondidas, no meio da multidão. Mexi-me involuntária e, para disfarçar, virei mais uma página da revista.
Evitamos as palavras. Sob o vozerio de domingo, roçamos nossos corpos, tateamos nossos poros...
Após alguns minutos, juntei meus lábios aos seus. Se nossos beijos extravagantes contaminariam outros amantes, não era da nossa conta...
Amoldamo-nos tanto um ao outro que parecíamos namorados de outros tempos.
Sempre quando eu percebia que ele queria me falar, tacava-lhe um beijo e sorria. Eu, que sempre fora exigente nas palavras e nos assuntos, sabia que qualquer investida dele que não fosse ao meu corpo fracassaria. Percebeu que eu não queria vozes nem histórias, apenas seu corpo quente, sua boca plena de volúpia e seus dedos a me descobrir segredos adormecidos.
Quando não mais suportávamos os raios do sol, entramos no mar. Apartamo-nos em mergulhos, a água a escorrer por cabelos e faces. Depois outro beijo e novo mergulho. Ele me abraçava, prendia-me pela cintura e depois soltava. Então suas mãos continuavam o trabalho, submersas nas águas, a me tentar em carinhos caprichados.
Numa das vezes em que dele me soltei, dei impulso como se quisesse nadar de costas. Ele deixou que meu corpo deslizasse por suas mãos, mas quando meus quadris passavam por elas, segurou as pontas dos laçarotes do meu biquíni. Adivinhem o que aconteceu!
Ficamos grudadinhos um ao outro durante muito tempo. Namoramos num extremo êxtase. Acho que nunca senti tanto prazer.
Naquele tempo eu trabalhava à tarde, mesmo no domingo. Quis falar a ele que precisava ir, pois pegava às duas, mas não tive coragem. Estiquei o tempo por mais que pude, sempre pensando em alguma solução que evitasse meu atraso ao serviço.
Quando tive de deixá-lo, dei-lhe o número do meu telefone, disse o que fazia e onde trabalhava. Ele, no entanto, nunca ligou nem me procurou.
Corri para o trabalho direto da praia. Vestia um vestido curto, que usava como saída de praia. Pra disfarçar e não chegar molhada, parei em um local em que havia algumas árvores e onde julgava que as pessoas não dariam por minha presença. Em dois movimentos rápidos tirei o biquíni e o coloquei na bolsa.
Apenas o vestido sobre o corpo vermelho de tanto sol.
Com o corpo ainda salgado e com a pele quente, cheguei ao cinema. Eu era bilheteira. Cumprimentei um ou dois funcionários e corri para o meu lugar. O friozinho do ar-condicionado acalmou o meu ardor.
Trabalhei tranquila, sem que ninguém me incomodasse. Num dos intervalos, fui ao banheiro, ajeite-me, depois voltei.
Quando cheguei em casa tarde da noite, pensei no meu recente namorado. Tudo que vivemos na manhã que ainda ia tão próxima me proporcionou mais um frêmito de prazer.
quinta-feira, março 24, 2011
Sabor dos primeiros tempos
Revendo as postagens mais antigas, encontrei a do link que vai a seguir, vejam como é linda! Ofereço àqueles que não tiveram oportunidade de me acompanhar nos primeiros tempos.
Beijos,
Margarida
quinta-feira, março 17, 2011
Esta vida é muito boa
Tudo começou quando falei ao meu namorado:
“Tenho dezessete anos, me iniciei no sexo com você aos quinze, você praticamente mora aqui em casa e estamos juntos faz mais de dois anos. Não quero que leve a mal o que vou te dizer, mas estamos vivendo praticamente uma vida de casados. Ainda sou muito jovem, preciso ter outras experiências, quem sabe um dia possamos nos encontrar de novo, então já teremos vivido mais e saberemos o que realmente queremos dali pra frente. Se continuarmos juntos, acho que nosso amor não dura muito, não demora vamos dizer que nos conhecemos muito cedo, que éramos inexperientes e não aproveitamos a vida.”
Ele me olhou sem nada dizer, mas acho que já esperava por esse tipo de conversa. Havia muito minha atenção a ele diminuíra. Quando percebeu que eu não tinha mais o que falar, perguntou o que todo homem pergunta nesta hora:
“Você tem certeza de que é isso mesmo que você quer?”
“Nunca se sabe ao certo o que se quer, acho que li isso num livro, mas por enquanto tenho.”
Ele se foi.
Comecei uma vida nova. Passei a ter muitos amigos e a sair com os mais diversos tipos de pessoas.
Logo conheci um rapaz através de uma amiga. Deixei-o frequentar a minha casa, mas avisei que não queria compromisso, apenas amizade. Caso rolasse alguma coisa, tudo bem, mas ele não poderia dizer que era meu namorado. Como é difícil um homem e uma mulher estarem juntos sem que aconteçam toques e carícias e que estes, enfim, se transformem em sexo. Ficamos juntos por algum tempo. Acabamos transando no meu próprio quarto, num domingo à tarde. Era carnaval. Se eu quisesse, poderia ter ficado com ele por mais tempo. Temerosa de que se repetisse o que aconteceu comigo e meu primeiro namorado, passei a sair mais e a não ter tempo para ele. Percebeu minha indiferença. Sem nada dizer, desapareceu.
Depois de algumas semanas, viajei com uma amiga cuja família tem casa em Cabo Frio. Uma ótima viagem. Só havia mulheres na casa. Resolvemos, numa noite, ir à discoteca. Lá nenhuma de nós ficou sozinha. Ângela, minha amiga e dona da casa, pediu que caso algum dos rapazes nos acompanhassem no fim da noite tudo deveria acontecer na maior discrição. O melhor seria marcar para o dia seguinte, na praia. Cumpri o que ela me pediu, mas as duas outras acabaram levando a tiracolo seus recentes cachos. A situação ficou um pouco confusa. Só lá pelas seis da manhã foi que elas conseguiram despachá-los. Mas partiram felizes, pois conseguiram o que pretendiam.
O rapaz que ficou mais tempo ao meu lado na boate não apareceu na praia. Mas um homem de uns trinta e poucos anos ficou me olhando, até que se aproximou e pediu para me fazer companhia. Permiti, sob os olhares curiosos das minhas outras três amigas. Na verdade, não aconteceu nada além disso. Apenas quando resolvi dar um mergulho, ele me acompanhou. Dentro d’água, tocou o meu corpo. Mas não houve clima para nada mais. À noite, sim, saímos, apenas nós dois. O homem, que se chamava Carlos, me levou a um bar muito bonito. Depois... Bem, depois não preciso contar o que aconteceu. Mas fomos para a casa dele...
Todas essas experiências comprovavam que eu estava certa quando terminei com o meu primeiro namorado. Conhecer novos homens, saber como cada um age, como seguram nosso corpo, o modo como se dirigem a uma mulher, tudo isso é muito importante. Estava no caminho certo. Era mesmo cedo par colar em alguém.
Apareceu, depois, um homem bem mais velho. Esses são ótimos, porque já tem a vida estabelecida. Pagam tudo e nada perguntam. São carinhosos, sabem se relacionar com as mulheres. O mais difícil, porém, é encontrar um que não tenha compromisso. O que conheci podia sair comigo o dia e a hora que eu quisesse, mas descobri que ele tinha uma mulher, e ela era mais velha do que ele. Minha mãe ficou preocupada, porque, apesar de não se meter nos meus relacionamentos, queria que eu terminasse a faculdade e me tornasse uma mulher independente. Em companhia de alguém mais velho, achava que eu sairia prejudicada. Podia me acomodar, viver uma espécie de prostituição entre aspas.
Não demorou e me vi livre dele, apesar de a separação me deixar um pouco triste. Mas as conversas eram outras, os gostos também, e não seria o dinheiro que iria contribuir para que eu tapasse o sol com a peneira.
Então arranjei algumas amigas que não queriam saber de relacionamentos, mas que gostavam muito de transar. Saíam e trepavam naquela mesma noite com o homem recém conhecido, não importava em que lugar se encontravam. Podia ser dentro do carro, na própria boate, em algum hotel, ou até mesmo num banheiro, fossem eles de qualquer local.
Comecei a achar essa atitude um tanto grosseira. Estava acostumada a ter relações sexuais com homens que gostavam de mim, por isso, conhecer alguém e transar na mesma noite, não sentia como algo positivo. Mas resolvi experimentar. Passei a agir um pouco diferente delas: nunca saía com o primeiro que aparecia. Esperava o tempo passar. Quando tudo levava a crer que não mais surgiria homem algum digno de mim, acontecia o contrário. Minhas amigas, que já tinham experimentado os seus e os mandado andar, ficavam furiosas. Diziam: “Stela, você é sortuda pra cacete.”
Passava o tempo e aquela vida até parecia muito agradável. Satisfazia-me e não tinha que ficar aturando homem algum depois. Na verdade, quando se tem a vida organizada, arranjar um namorado acaba acarretando muitos problemas. O namorado jamais pensa como a gente. Às vezes é impossível um acordo, acabamos sempre fazendo o que não desejamos. O homem, mesmo dizendo que não é machista, acaba por impor sua vontade, porque sempre acha que tem razão. É uma questão cultural.
Para aumentar minha satisfação, fiz mais uma descoberta. Não há lugar melhor para se frequentar do que bares e restaurantes de hotéis de luxo. Neles, além de o ambiente ser mais selecionado, os locais para se fazer amor são mais discretos, como a própria suíte de quem nos deseja. E, caso se precise trepar em toaletes, os dos hotéis são vazios, limpos e discretos.
Outro dia, uma colega de faculdade me perguntou: “nesses relacionamentos ocasionais, não pode aparecer algum louco e fazer algum mal a você?” Respondi que sim. O que iria fazer, mentir? Mas nunca aconteceu. Ou melhor, só houve um pequeno problema, disse a ela: “um deles roubou minha calcinha.” Ela riu, e completou: “ah, isso não é nada, uma taradice dessas até que é boa!”
Mas não sei, não. Lembram-se do meu primeiro namorado? Ele se formou e está trabalhando, um emprego ótimo, fez concurso, ganha muito bem. Mais uma coisa, disse-me a minha mãe, que esteve com ele: arranjou uma namorada linda. Parece que não demora e vão casar.
Já se passaram quatro anos desde o dia em que terminei com ele. Será que já está na hora de eu ter um namorado fixo? Acho que ainda é cedo. Mas sábado passado aconteceu uma coisa que me deixou um pouco preocupada. Fiz amor com um homem lindo, que também conheci naquela mesma noite. Estávamos numa festa na casa de uma amiga. Mas o problema foi que nem ele nem eu tínhamos camisinha. Aliás, tentei arranjar com alguma amiga, mas parecia que ninguém tinha camisinha. Trancamo-nos no banheiro. Adivinhem o que aconteceu? Isso mesmo que vocês estão pensando. A carne é fraca.
Bem, daqui pra frente o que posso fazer é tentar ter mais cuidado. Mas há uma coisa que digo, sem dúvida alguma: esta vida é muito boa.
quarta-feira, março 09, 2011
Última noite
Calma, calma, sei que você está a mil, mas não se afobe, vamos dançar, me acompanhe:
♫ “Mais que calor ô ô ô ô ô ô, mais que calor ô ô ô ô ô ô, atravessando o deserto do Saara, o sol estava quente e queimou a nossa cara, mas que calor ô ô ô ô ô ô... Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é? Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é? Será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé... Quanto beijo, ó, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão, Pierrot está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão...” ♫
Sei qual é o teu desejo, mas agora vamos nos divertir, depois, quem sabe, eu deixo, mas por enquanto quero só brincar. Vem, me abraça, me beija, pode tocar no meu corpo molhado, suado, você também está acabado em suor, e essa música não nos deixa conversar. Me abraça, vamos que é a última noite, a folia logo acaba, depois... Te atrai o meu corpo magro, te atrai mais ainda o meu biquíni minúsculo, não é mesmo? Não, não faça assim, agora não, já te pedi, depois..., depois, prometo. Claro, verdade, cumpro minha palavra...
♪ “Bandeira branca amor, não posso mais... Tristeza não tem fim, felicidade sim... Lá lá lá lá, lá lá lá lá lá!, lá lá lá lá, lá lá lá lá lá!... Ó jardineira, por que estás tão triste, o que te foi que aconteceu...” Não posso ficar nem mais um minuto com você, sinto muito amor, mas não pode ser... Colombina, onde vai você? Eu vou dançar o iê iê iê... Lá lá lá lá, lá lá lá lá lá!, lá lá lá lá, la lá lá lá lá!... Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil...” ♪
Chega mais perto, amor. Me beija mais uma vez, isso, que bom! Me abraça de novo porque já vai acabar. Você me pediu para vir de noiva, eu vim: o veuzinho e o biquíni. Gostou? Adorou! Fiz a tua vontade. Todas as outras pessoas estão se beijando, mas você quer algo mais, não é mesmo?, e quer agora. Sei que algumas mulheres permitem tudo, mas não é o meu caso, ao menos por enquanto... Vamos depois lá pra fora, há a barraca, lembra, você me deixa nua pelo caminho.
♫ “Cidade maravilhosa...” ♫
Não, aqui não, você quer trepar com uma mulher ou quer deixá-la em maus lençóis? Quero dizer, sem lençol algum? Me devolva! Não, não, não! Assim não te levo comigo... Vai, devolve, não posso sair sem o biquíni por aí... Ah, assim está bom, deixa eu amarrar... Venha, é a última música!
♪ “Cidade maravilhosa... cheia de encantos mil...” ♪
Sei que tenho encantos, tanto é verdade que ficamos juntos dois dias seguidos, e depois da festa estamos aqui de novo, na minha barraca, que preparei para receber o amor de carnaval... Enquanto isso, a cidade lá fora dá os últimos suspiros de folia. Vem, já me deixaste nua, agora podes tudo, sobe sobre mim, me acaricia, isso, assim assim. Você é muito gostoso...
terça-feira, março 08, 2011
É carnaval!
Aqui neste lugarejo, os foliões não deixam escapar sequer um minuto da folia. Entro no ritmo, e na segunda feira sou mais ousada na fantasia. Visto um collant de decote acentuado e fio dental. Bordei a frente com puro brilho, e o visto com uma minissaia de fitilho colorido. Minhas pernas são cobertas somente com purpurinas.
Os blocos de rua já me acham na praça. Todos muito animados, mas mesmo assim as beatas do local se interrogam. Será que aquela devassa ali é a mesma pantera cor de rosa ou a mulher maravilha sem máscara?
Conheço um rapaz que trabalha como barman na praça e começo a contar como é a vida no lugarejo em dia comum.
“E você, por que veio morar aqui, se sua vida neste lugar não tem muito sentido?”
“A gente precisa conhecer outras realidades. Em dias úteis gosto de tranquilidade. Leio, escrevo e uma vez por mês vou receber a pensão que meu falecido, da marinha, deixou para mim. E você, como veio parar aqui?”
“Já estive outras vezes neste local com esse meu negócio. As pessoas daqui bebem muito, por isso venho para cá em época de festas.”
A banda do bloco, barulhenta, não deixa a gente conversar. Aproveito para dar aquele show, na ponta dos pés. Minha sandália alta destaca a marcha da jardineira, e eu canto: “Ô jardineira por que estás tão triste...” O contrário de mim, que estou bastante alegre. É só sair de casa que logo chove na minha horta.
Lico, o barman, deve ser casado, está a serviço e não trouxe a família. Não terá o mesmo sabor ficar com um homem daqui. Mas bem que estas mulheres merecem ser chifradas.
Caminho lentamente com o bloco, mas o capixaba não tira o olho de mim, dos meus cabelos negros e longos. Lico está mesmo é doido para se embalar neles. Se ele topar, depois, no final da noite, eu o levarei para uma barraca armada aqui perto. Pensei em tudo, até no conforto. Aqui não há motel, somente pousada. E sem máscara a fofoca vai pegar fogo.
Me acabo ao som de “Bandeira branca”, “Cabeleira do Zezé” e outras marchinhas.
O dia já está amanhecendo, quase não há mais ninguém na rua. Faço um sinal para o capixaba e ele, mesmo cansado de aturar os foliões, me segue. No caminho, tiro aquele brilho todo com um belo banho de chuveirão. Lico faz o mesmo.
Na barraca, deixei bebida e roupões, próprios para a ocasião. Mas antes disso, já vou nua ao seu lado, além dele apenas as últimas estrelas, que insistem em me acompanhar. Nos deliciamos, os dois, ao som das águas que descem das montanhas.
“Não estou aqui porque você me fez um sinal. Mas porque gostei muito de você. As pessoas precisam deixar de vez em quando a capa em que se escondem durante o ano, e você sabe fazer isso muito bem”
“Nossa, Lico! Dizem que amor de carnaval é passageiro.”
“Comigo, não. Sou solteiro, e hoje, no último dia do carnaval, iremos nos fantasiar de noivos, você topa? E se quiser conhecer minha cidade, será um prazer.”
domingo, março 06, 2011
Vestido de flores azuis
“Marg, você me empresta aquele seu vestido estampado com flores azuis?”
“Estampado com flores azuis?”
“Isso mesmo, aquele que você usou na festa da Isis.”
“Ah, sei, um que comprei na Exotic.”
“Acho que é de lá sim, Marg. Ele é muito bonito.”
“Mas você, Stela, tem tanta roupa bonita, acho que tem mais bom gosto do que eu.”
“Ah, não diga isso, Marg, posso até ter muita roupa, mais bom gosto do que você é outra história.”
“Empresto, basta ir lá em casa pegar.”
“Ótimo, vou lá quando sairmos daqui.”
“Uma curiosidade, pra que você quer o vestido?”
Stela sorveu o último gole do café, olhou através da vidraça a tarde que caía, algumas pessoas apressadas, jovens conversando, homens de terno.
“Seu vestido dá sorte.”
“Sorte? Como assim?”
“Ajuda a arranjar namorado.”
“Que besteira, Stella, o vestido nem é dos melhores que eu tenho, é comprido...”
“Mas toda vez que você o usa, está ao lado de um homem bonito.”
“Mas acho que a razão não é o vestido.”
“Marg, sei que você é uma pessoa especial, acho que com o seu vestido vou me tornar especial também.”
“Já imaginou se todas as minhas amigas pensarem o mesmo e pedirem minhas roupas? Vou andar nua!”
Stela sorriu, comeu o último biscoito, depois olhou na direção de uma das garçonetes.
“Por favor, poderia me trazer mais um expresso?”
A moça prontamente se dirigiu ao fundo da cafeteria.
“Mas, Marg, as outras amigas não precisam saber, é segredo, você me empresta o vestido e depois eu conto o que aconteceu.”
“Ok. Stela, você quer saber mesmo a razão de eu sempre ter namorado a ponto de precisar evitá-los?”
“Quero, mas não vai me deixar de emprestar o vestido por causa disso.”
“Claro que não. A causa é a seguinte: não fico pensando muito nisso, então eles aparecem naturalmente.”
“Você é uma mulher de sorte, Marg, vive em paz consigo mesma.”
“Acho que você descobriu o segredo. Quando vivemos em paz, quando estamos felizes mesmo sozinhas, os homens aparecem às pencas.”
“Às pencas, que palavra engraçada. Agora me lembrei da Dani. Ela foi a um baile de carnaval e disse que os homens a rodeavam às pencas.”
“A Dani adora bailes de carnaval, e daqueles bem quentes.”
“Já sei, Marg, daqueles em que os homens querem deixar a gente nua.”
“Isso mesmo, pelada.”
“Marg, você também gosta desses bailes, não é mesmo?”
A garçonete chegou com o café de Stela. Ela olhou para moça, sorriu e agradeceu.
“Gosto. Já fui a muitos deles.”
“Não vai mais?”
“Não com antes, mas ainda frequento alguns?”
“E os homens, deixam você nua?”, falou e chegou a rir alto, com a xícara de café na mão.
“Se eu bobear, querem até minha calcinha, de lembrança?”
“E você já namorou no carnaval?”
“Sempre se namora, um a cada dez minutos...”
Stela sorriu e completou.
“Sabe, estou eufórica para usar esse seu vestido!”
“Mas você não vai deixá-lo escapar nas mãos de um desses rapazes mais afoitos, não é mesmo? Quero meu vestido de volta!”
Stela me olhou nos olhos e soltou uma sonora gargalhada...
quinta-feira, março 03, 2011
E viva o Carnaval!
Vivo numa cidade pequena onde o carnaval é festa popular. Vem gente de todo lugar para apreciar a folia.
Os jovens preferem as barracas de acampamento. Varal, redes e mochilas são os objetos que acrescentam à natureza ares de convivência humana. Já os de estilo conservador se hospedam nas pousadas.
Observo tudo e penso: como aproveitar e deixar fluir o meu espírito carnavalesco, já que, para todos aqui, sou recatada? Só há um jeito, brincarei neste carnaval, na rua e nos salões, de máscara. Cada dia, uma máscara diferente.
No sábado, opto pela fantasia de "pantera cor de rosa". Às onze da noite, saio. As beatas da cidade nas varandas, o tititi já fazendo parte do cenário. Mas quem vai imaginar que alguém pacata, daqui, aprontará todas por trás de uma fantasia e de uma máscara? Minha roupa rosa com paetês prateados está um luxo, além das meias e da blusa cacharrel. Ao som de marchinhas, danço sobre o chão de pedra e de paralelepípedos. Todos param para me aplaudir. A exceção são as beatas, que perguntam entre si: “De onde saiu tal devassa?” Bares e restaurantes lotados. A conversa é a mesma: “Viram a pantera cor de rosa? Nossa! Com essa pantera eu vou à loucura, o torneado de suas pernas e o bumbum são de tirar o fôlego. E que seios!” “Esses homens daqui parecem que nunca viram mulher, ficam boquiabertos com uma talzinha que ninguém sabe de onde veio”, falam com despeito as beatas.
No domingo, depois de me recompor do cansaço, das bebidas e das insinuações, visto-me de mulher maravilha. Saio mais cedo. Quero ver se pesco o homem mais tesudo e comprometido da cidade. Afinal, sou a mulher maravilha.
“Hei, paixão! Quer ser o meu super-homem nesta noite?”
“Aceito. Nessa ocasião ninguém é de ninguém.”
Saímos, os dois, de braços dados, e vamos pra debaixo de uma gruta. O som da marchinha chega a nós vindo de longe.
“De onde veio essa mulher maravilha?”
“De outras redondezas.”
“Posso provar essa maravilha de mulher?”
“Claro.”
Aos poucos, vou mostrando a mulher maravilhosa que sou. Faço-lhe carícias mil, começo então a apalpar o pênis daquele super-homem. Penso em pedir que o introduza em mim, mas nem preciso dizer palavra alguma, essas coisas se adivinham... A mulher maravilha está quente, jorrando prazer por todos os poros. O homem, impossível de sair da linha durante o resto do ano, naquele momento é meu. Bem feito para a encrenca dele! Enquanto toma conta da vida dos outros, perde o quitute de marido que tem.
Combinamos, na segunda e terça-feira a festa será debaixo de uma velha mangueira. Ficará na história a festa, e também a mangueira.
Bom carnaval pra vocês também!
quinta-feira, fevereiro 24, 2011
Trouxe uma lata de coca-cola e um saco de batatas fritas
A praia do Flamengo naquela época era lotada no dia de domingo, a maioria das mulheres, inclusive eu, usava biquíni minúsculo, e arranjar namorado, pelo menos para aquele dia, era o nosso objetivo principal. Mal chegávamos à praia, tirávamos a camiseta e procurávamos um lugar de destaque onde pudéssemos ser observadas. Eu escolhia homens mais velhos, queria mordomia, geralmente eles pagavam tudo. Um modo de excitá-los era pedir que esfregassem o óleo de bronzear nas nossas costas e bumbum. Lembro que num domingo vivi uma experiência que me deixou a mil. Conheci um senhor, talvez quase trinta anos mais velho do que eu, mas jovial, de porte atlético. Apreciou-me durante muito tempo. Acabei por abordá-lo, pedi um cigarro. Ele me cedeu, com muito prazer, e o acendeu para mim. Ficou ao meu lado e comentou sobre o dia de sol e calor, disse que a praia estava muita cheia e que, entre todas as moças, eu era a mais bonita.
“Você teve tempo de olhar todas?”
“Quase todas.”
“Então fique aqui ao meu lado”, convidei.
Ele sentou. Pedi que espalhasse o creme às minhas costas.
“Como você está pretinha!” Reparou minha pele branca por sob a lateral do top.
“Venho quase todos os dias, no verão", falei.
“Que felicidade, não poderia haver coisa melhor, não é mesmo?”
“Adoro praia, para mim é o que mais conta.”
Depois de alguns minutos já estava deitado ao meu lado, com o rosto coladinho ao meu. Não perdeu tempo e me beijou; a seguir, ainda deitado, segurou uma das minhas mãos. Levei a sua para debaixo da minha barriga, eu estava com as costas para cima. A mãozinha dele ficou bem escondidinha, me aquecendo mais que o sol.
“Você bebe alguma coisa?”, ofereceu.
“Refrigerante.”
Ele foi comprar.
“Ei, cuidado para não se perder de mim, a praia está lotada.”
Sorriu. Demorou a voltar. Cheguei a pensar que me abandonara.
Trouxe uma lata de coca-cola e um saco de batatas fritas.
Lembrei a Gilda, “você fica aceitando tudo desses homens, ainda vai entrar pelo cano, lembra da Cris, foi parar no hospital, o cara, bem, você sabe o que fez com ela, é muito desagradável repetir.”
Mas aceitei as batatas, estavam uma delícia.
“Está enfeitiçada, a mulher que comê-la absorverá um pó mágico e ficará apaixonada por quem a presenteou, por uma semana seguida”, seu sorriso era sincero.
“Não dá pra ser uma mágica que dure um mês?”, perguntei entalada com as batatas.
Ele riu. “Podemos pensar numa mágica mais prolongada.”
Deitamos novamente sob o sol. Será que ele ia descobrir meu ponto fraco? Coloquei a mãozinha dele por sob o meu ventre mais uma vez, puxei um pouquinho até a borda do biquíni, um biquíni raso que só... Vem, vem um pouquinho mais pra baixo, adivinha o que desejo, lógico que apenas pensei.
“Vamos dar um mergulho?”
Aceitei. Corri diante dele, entramos na água. No momento em que mergulhei, o contato do mar frio com o meu corpo quente provocou uma sensação tão gostosa, que não consigo transformá-la em palavras. Acho que o nome mais próximo seria êxtase. O fato de ter alguém ao meu lado e de estar na expectativa do que estaria por vir durante as próximas horas também me fizeram sentir todo aquele arrepio. Procurei um espaço em meio a tanta gente, queria eu e ele, a sós, mas era impossível. Fomos mais um pouco, depois da maioria dos banhistas.
Lembrança da Kelly, dela e do namorado. Experiência viva do primeiro encontro. Ela disse que também atingiu uma espécie de êxtase dentro d'água, mas nomeou-o de orgasmo. O que ele fez? Adivinha. Tocou o biquíni dela. Brincou com os lacinhos. Onde a calcinha foi parar? Nas mãos dele! A Kelly diz que adorou. Jamais sentiu algo igual. E meu namorado? Peguei suas mãos, levei-as ao meu biquíni. Só faltou fazer que segurasse o elástico, aí já era dar mole demais. Ele não entendeu.
De repente, falou:
“Fico com o seu número, vamos amanhã ou depois, à noite, a um lugar reservado.”
Olhem só, quer me levar a um lugar reservado. E eu doidinha pra ficar nua ali mesmo... Oh, é um problema namorar homens muito mais velhos. Mas vou dar-lhe uma chance, pensei, leve meu telefone!
sábado, fevereiro 19, 2011
Chame ali a garota do biquíni
Houve um verão em que uns amigos alugaram uma casa na praia. Fui com eles. Quase não choveu naquele período, e eu andava dia e noite vestida com um biquíni estampado e uma camiseta curta. Era conhecida como a garota do biquíni. Muitos não sabiam meu nome, mas diziam, "chame ali a garota do biquíni". Eu acordava tarde, depois de meio dia, vestia o biquíni, procurava a camiseta e saía. Caso houvesse alguma festa à noite, alguma banda, ou mesmo uma musiquinha ao vivo, o que acontecia quase sempre, nem ia em casa. Bebia com os amigos e amigas, conversava e, vez ou outra, acendia um baseado. Foi uma época boa não só para toda a juventude, mas para os mais velhos também. Os coroas aprenderam com a gente a gostar do cheiro e do sabor de uma boa erva.
Certa vez, Alicinha, uma amiga eventual, veio me dizer que havia um homem apaixonado por mim, a moça do biquíni estampado, até o desconhecido assim me nomeava.
"Quem é ele?"
"Você vai adorar", falou, "é gentil, gosta das mesmas coisas que a gente."
O homem ainda vinha longe quando me apontou.
"Já sei quem é, nem me apresente", e corri dali, fui pra outra praia.
O homem, além de ser um caipira, não tinha um dente. A praia era frequentada por outros rapazes, gente queimada de sol, bonita, preferia esperar.
"Mas ele quer ficar com você, e quer que você fique só com ele. Pense bem, Jana, ele tem dinheiro", Alicinha me falou mais tarde.
Eu vivia beijando e abraçando a todos, não queria aquele homem, ele não era do meu agrado e, além disso, eu não precisava de dinheiro.
No dia seguinte, Alicinha veio de novo:
"Jana, você me faz um favor?"
"Se eu puder", respondi acendendo um cigarro e olhando o horizonte. O mar era um lago.
"Sabe o homem que está a fim de você?"
"Que homem? Não vejo homem algum", soltei a fumaça e olhei em volta.
"Não, não é isso, Jana, é aquele de quem te falei ontem."
"Ah, por favor, Alice, não me estrague o dia, mal começou..."
"Não quero estragar..."
"E então?"
"Estou querendo namorar com ele."
"E o que você está esperando?", sorri para ela, aliviada.
"Mas ele gosta mesmo é de você, fala pra todo mundo, falou até para o Cacá."
O Cacá era um primo meu distante.
Não dei motivo para que o assunto continuasse.
"Mas pensei em algo", falou me pedindo um trago do cigarro. "Ele nunca se aproximou de você, nós duas somos parecidas, que tal você me emprestar o biquíni e a camiseta, talvez assim eu consiga, me entende?"
"Lógico que empresto, como podemos fazer?" Queria me ver livre do assunto e do homem.
"Ele está bebendo no Sansiro, ali depois da enseada."
"Onde tiro a roupa?", perguntei apressada.
"Na barraca do Álvaro, você fica me esperando."
"Ficar esperando?"
"Isso."
Foi a única vez que tirei o biquíni. Ela se foi, fazendo de conta que era eu.
"O que você está fazendo aí nua?" Marta me encontrou.
"Emprestei o biquíni pra Alice, tem um cara a fim de mim e ela foi no meu lugar."
Marta caiu na gargalhada. "E você vai ficar nua a tarde inteira, dentro dessa barraca?"
"É, não sei, como devo fazer?"
Voltou com um biquíni vermelho, bem legal.
"Vista, pode ficar, agora você é outra pessoa..."
Vesti. E fui dar um mergulho. A partir daquele momento passei a ser a garota do biquíni vermelho.
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
Disfarce
Vou ao encontro do meu admirador selvagem, homem rude, mãos ásperas, porém muito sedutor. Ele trabalha num haras onde a vida ao natural é bem convidativa.
Preciso de um disfarce. Lanço mão de uma peruca, uma roupa inédita e óculos.
Ele vai ficar muito surpreso. Jamais imagina que uma pessoa como eu, com a vida tão cronometrada, possa se dar ao luxo de viver uma aventura.
Entro no ônibus como se fosse visitar meus parentes em Macaé. Todos os apetrechos provocantes vão dentro de uma sacola.
Desço próximo ao haras. Tudo é muito deserto e a tarde se finda. Coloco a peruca e os óculos. Subo a ladeira que chega ao curral. Avisto Elias. Ele está levando uma égua até a baia. Ainda não me viu.
Aproveito e dispo o forro do vestido, deixando transparecer o meu corpo através de um tecido rendado. Minha calcinha é cheia de detalhes, fácil para o desnude total. Meus seios serão vistos assim que eu chegar, provocando sensações.
"Quer falar com alguém?"
"Com você mesmo."
"Nossa! Nunca pensei que o meu dia chegaria.”
Largou o que estava fazendo, abaixou, pegou uma mangueira, lavou o rosto e as mãos. Me chamou para o depósito de rações. Elias arrumou uma cama com os sacos, me segurou com seus braços fortes e me beijou intensamente. Tirou toda a minha roupa e abocanhou meus mamilos. Vesti seu pênis, que já estava armado como uma rocha, com uma camisinha. Ele então me acarinhou e fez que o prazer tomasse conta de todo o meu corpo.
"Você é muito gostosa, e com esse disfarce ficou ainda mais apetitosa.”
Gozei feito uma égua. Ele urrou de tanto prazer.
Me vesti do jeito que havia saído de casa e abandonei o local. Eram quase oito da noite.
Prometi voltar outras vezes. Afinal, fome e sede não sentimos só uma vez.
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Não se pode é perder o rebolado
Essas meninas são inexperientes, não sabem o que é o carnaval, em meio à música alta e ao êxtase coletivo deixam-se despir pelas mãos dos rapazes e já vão mortas de vergonha.
"Marg, como você faz?"
"Sou de outros carnavais."
"Mas você só quer saber de pular..."
"É isso o carnaval."
"Noutros tempos você não ia nua?"
"Ia e ainda vou, mas não como vocês."
"Como nós..."
"Envergonhadas."
"Você acha que estou envergonhada?"
"Um tanto vermelhinha."
"Confesso que tenho medo, depois que o baile acabar, o que vai ser..."
"Dance, dance muito, se você pensar não vai aproveitar."
"Mas e depois?"
"Depois a gente vê."
"Jura?"
"Sempre se arranja um jeito. Dance, não se pode é perder o rebolado."
Ah, essas meninas chegam nuas, provocantes, depois vêm com histórias. Houve uma que de tanto segurar as tiras laterais com medo-desejo de ficar sem acabou com a calcinha dividida em dois. Oh, onde meu pareô, ela quis saber. Ia nu o pareô, no encosto de uma cadeira, procurava-se pelo corpo que escapara.
Tão inocentes essas meninas, ainda não acreditam que moça e mulher bonita sempre atraem alguém para vir em seu socorro.
Mas hoje não me deixo nua, não, vou mais recatada, quero só me divertir, e é tão bonito o biquíni pequenino...
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
Caldas Novas
Seu olhar era penetrante, não permitia disfarce para quem escolhia como alvo. Já pela segunda vez havia virado o rosto em minha direção. Eu, em máscaras desastradas, não consegui evitar que nossos olhares se cruzassem.
Estava hospedada havia dois dias no Roma, em Caldas Novas, quando reparei aquele homem mais novo do que eu. Não sou jovem, mas ainda mantenho a elegância e um porte físico sensual, sobretudo devido à minha altura e ao biquíni mínimo que sempre teimo em usar. No parque aquático, porém, moças jovens chamavam mais a atenção. Por que ele queria justamente a mim? Outro problema: estava acompanhada, viajara com meu marido, minha filha, o genro e uma neta. Um verdadeiro cortejo. E aquele homem, que eu não sabia se estava sozinho, a me procurar, ao menos com a presença, a sorrir, a fazer alguns movimentos significativos com o rosto. Pensei em dizer que parasse com aquilo, até achei que poderia ser alguém doente a me perseguir. Mas depois me acalmei, tive ideias melhores, reparei que pelo que ele comia e bebia, pelas músicas que apreciava durante o dia ou mesmo no início da noite, pelas pessoas com quem se relacionava, que se tratava de uma pessoa normal.
Meu marido sempre foi uma pessoa agradável, mas nosso casamento tornou-se burocrático. Toda mulher tenta manter a relação, tenta remediar os problemas, procura encontrar motivos para alegria, apesar de todos os desgastes consequentes de um casamento longo. Os homens, de modo geral, sempre acham suas ações as coisas mais normais do mundo, acham que a mulher sempre está pronta para compreendê-los, a amá-los. Assim é João, meu marido. Diz que me ama, me chama para passeios e viagens. Nesse aspecto é ótimo, um marido excelente, dirá a maioria das mulheres. Mas é um fingido de primeira. Pensa que me engana.
A estada em Caldas duraria uma semana. Sete dias de banhos naquelas águas quentes, passeios pelo rio Quente, algumas idas à noite ao centro, restaurantes, cerveja, vinho e caipirinha. Mas logo no segundo dia aquele novo personagem apareceu e não demorou a me acenar. Acabei por encontrar um bilhete seu entre meus pertences: "mulher bonita e elegante", apenas essas palavras. Na piscina, quando eu aparecia, já se espreguiçava no lado oposto. Como eu o descobria? Não sei, acho que começou a existir uma espécie de magnetismo.
Quando eu estava com minha neta, levava-a para a parte rasa. Ela ria e batia palmas em meio a seus brinquedos aquáticos. Inocências da infância. Naquele momento fixava-me apenas nela. Mas ele resolvia passar por perto, e me atraía com uma risadinha. Meu marido? Jogando tênis com o genro. Sempre jogando tênis, o tempo todo.
"As crianças são as pessoas mais fofas do mundo, daria tudo por uma", escutei a voz, vinda de trás, então ele passou, apontando à pequena.
À tarde, minha filha pegou a menina e a levou à recreação. Fiquei só na piscina maior e de águas mais quentes. Ele aventurou-se em meio ao vapor e veio conversar comigo. Apressei em dizer que estava acompanhada. Respondeu-me que já havia jogado uma partida de tênis com o meu marido e que até fizera amizade com ele.
"Bom jogador, o seu marido, não sei como não se profissionalizou, muito bom jogador."
Tive de rir daquela conversa.
"E, você, joga também?"
"Jogar, jogar, não sei, me esforço, mas não consegui vencê-lo, nem o enfrentarei de novo, não sou adversário para ele. Ninguém no hotel ainda conseguiu vencê-lo."
"Acho que nem vão conseguir, joga tênis o tempo todo, chega a ser um aborrecimento."
Pronto. Não sei se entendeu aquilo como uma senha, ou como um desabafo. Lembrei de um amigo que me falava que quando uma mulher reclama do marido é porque está facilitando as coisas.
"Não se aflija, por outro lado é bom que ele seja um jogador talentoso, e que sempre pratique bastante."
"Ele é talentoso", repeti, "ele é muito talentoso", mergulhei deixando-o para trás e apareci do outro lado da piscina. Não mais o vi naquele fim de tarde.
No dia seguinte apareceu de novo. Meu marido continuava no seu périplo, como disputasse algum torneio internacional.
"Bom dia!", falou alto, parecia entusiasmado. Foi logo perguntando: "vão ficar no hotel até quando?"
"Bom dia", respondi educada, "acho que mais dois ou três dias."
"Parto amanhã", falou eliminando o sorriso, "não posso continuar, o trabalho me espera."
"Que pena", falei. Depois achei que cometi uma gafe, ou, sei lá, um ato falho. Minhas palavras foram suficientes para que ele voltasse a ter a face iluminada pelo sorriso de sempre.
"O que se pode aproveitar em tão pouco tempo? Vou dar mais alguns mergulhos e à noite passear pela cidade. Vou tomar umas caipirinhas."
"Caipirinhas?"
"Isso, você também gosta, já vi você bebendo duas", sorriu mais uma vez, apontando o bar que ficava à beira d'água.
"Ah, sou fraca em relação ao álcool, só bebo nas férias."
"É mesmo?" Pediu licença porque teria de se ausentar por alguns minutos. Mas falou para que eu não fosse embora, voltaria em instantes.
Apareceu em menos de dez minutos. Trazia duas caipirinhas. Uma era de lima da pérsia, meu sabor predileto.
"Obrigada, vou aceitar para não fazer desfeita", falei.
"Estamos de férias, não se preocupe, e creio que seu marido não vai se aborrecer caso você tenha arranjado um amigo."
"Lógico que não", respondi, "tenho muitos amigos", disfarcei enquanto sorvia o primeiro gole.
Naquela última manhã de sua hospedagem ficamos conversando durante muito tempo. Bebi aquela e mais outra, acabou vencendo minha rigidez e conversamos com franqueza. Ele disse que já tinha se separado duas vezes e que vivia sozinho nos últimos tempos.
"Sou operador na bolsa de São Paulo", falou.
Sempre achei que quem exercia essa profissão eram as pessoas mais chatas do mundo. Mas ele desmentiu meu preconceito. Era um homem culto, entendia de muita coisa, e até de poesia.
"Como é possível um operador de bolsa de valores entender de poesia?", cheguei a levantar a questão.
Ele sorriu e falou:
"Na vida se aprende de tudo, até poesia", e caiu na gargalhada. Continuou: "e é uma das melhores coisas da vida, acredite."
Não fomos além daquele dia, nem daquela conversa. Pediu meu e-mail.
"E-mail?, nem entendo de computador. Sou dona de casa, não cuido de computadores. Mas vou lhe dar meu endereço."
Agora voltamos à nossa vida de sempre. As férias acabaram, tudo voltou ao normal. Ao normal? Não sei o que vai acontecer daqui em diante. Com meu endereço nas mãos, não perdeu tempo. Logo entrou em contato. Na carta resposta, dei o número do telefone daqui de casa. Ele ligou, disse que viria para uma visita, pediu que avisasse ao meu marido. Marcamos a visita. Ele vem amanhã, vem para o jantar. Meu marido? Sabe que ele vem, mas descobriu que logo amanhã joga uma partida de tênis inadiável, no clube do qual somos sócios.
"Fique conversando com seu amigo, peça desculpas em meu nome, acho que não vai se incomodar", falou..
domingo, fevereiro 06, 2011
E não é que o homem é tão gostosinho...
Tenho um amigo que adora me provocar. Sabe que escrevi alguns contos para o site da Margarida, então fica me pedindo que eu escreva mais, porque, ainda segundo ele, minhas histórias são muito excitantes. Quando soube que eu viria a Rio das Ostras nas férias, logo me escreveu: faça de novo aquela experiência de entrar na água do mar e ficar nua; na outra vez você deixou a parte inferior do biquíni nas mãos de seu namorado, agora enrole-a no pulso como se fosse uma pulseira, ou peça a um estranho para segurá-la.
Este meu amigo tem imaginação, até mesmo mais do que eu, veja só o que ele quer, eu pelada e meu biquíni nas mãos de um estranho! Será que faço sua vontade?
Entrei no mar. Ainda é cedinho, poucas as pessoas. Adoro acordar cedo, sinto intensa paixão pelo ar virgem da manhã. Dentro d’água então nem se fala. Quase ninguém caminha pela orla. Ao longe, um barco volta da pescaria. As casas, no lado contrário ao mar, parecem dormir.
Ainda bem que onde moro ninguém se mete na minha vida, nem minha mãe, sabe que gosto de acordar cedo, não faz perguntas. Ela dorme muito, vai até às nove e meia, se deixar às dez.
A água está tão fria! Acho que não tem graça tirar o biquíni nessa situação, mais valeria depois das onze, quando a praia está cheia de gente. Mas vamos fazer parte da vontade de meu amigo, quero depois lhe enviar a história, muito bem contadinha. Tiro a parte de baixo do biquíni.
Para quem gosta de ficar nua, asseguro, dentro d’água ninguém nota, mesmo a praia estando cheia. Uma senhora de mais de cinquenta anos foi quem me deu a dica. De início, duvidei. Mas depois constatei que era verdade. Me disse que sempre tirava o biquíni e sentia uma sensação incrível. Quando perguntei se ninguém nunca notara, apressou-se em responder: “não!”
Faço o mesmo. Transformo o meu biquíni numa pulseira, bem amarradinha, os lacinhos tão bem arrumados que nem parecem que aquele paninho era a calcinha. Fico a mergulhar para lá e para cá com a pulseirinha num dos braços. Do jeito que a praia está deserta, posso correr até a areia, deixar a pulseira por lá e voltar para dentro d’água que ninguém vai perceber. Será que tenho coragem? Acho que já estou querendo ir longe de mais... Melhor deixar essa travessura para amanhã!
Aproxima-se um homem, ele olha para mim. Acho que não vai ser tão cara de pau de vir até aqui para conversar comigo. É um senhor, e eu o conheço. Ah, esses senhores, adoram garotas novas, tanto mais uma garota travessa, e ele bem sabe da minha fama. Já me viu algumas vezes de biquininho. Adorou, babou. Viu que estou sozinha. Vem até a beira da água, sorri. Estou a uns trinta metros dele. Não resiste, se dirige a mim como quem não quer nada:
“A água está muito fria?”
O que vou responder? Se digo não, que está quentinha, é capaz de mergulhar e vir até aqui, dei conversa, vai querer puxar assunto; caso diga sim, é capaz de afirmar: sou macho, gosto de água fria. Minha demora faz que ele mesmo tome a decisão:
“Vou eu mesmo experimentar.” Mergulha.
O que faço? Desamarro a pulseira e a transformo de novo no biquíni? Mas são tantos os lacinhos, acho que vou me embaralhar, e ele ainda me pega com a mão na massa.
Está demorando a aparecer. Ai, que susto, veio à tona quase ao meu lado. Será que me descobriu pelada? Pelo jeito, acho que não. Nada falou, e o mar está tão escuro, ainda o sol fraquinho. Mergulho eu, mas com cuidado, o bumbum não pode vir à tona, caso isso aconteça incendeio o homem. Tento me afastar. Mas ele se chega, juntinho. Será que minha amiga cinquentona não tem razão? Quero continuar a brincadeira. Faço a pergunta fatal:
“Como vai dona Mara?” Sei que é a mulher dele, me convidou para fazer um lanche um dia desses.
“Ah, a Mara”, emenda sem graça, “já deve estar vindo aí, adora a praia de manhã bem cedo.”
Sinto que estraguei o seu humor. O bom velho se afasta sacudindo a cabeça e deixando escorrer água pelo rosto. Continuo nua sem que ele note. Sinto pena dele por causa da situação embaraçosa que criei. Quero recuperá-lo, dar-lhe outra chance. Chamo o homem de volta, ele nem é feio.
“Faz um favor pra mim?”
“Faço”, responde reanimado.
“Segure um instantinho isso?”
“O que é?”, quer saber.
“Essa pergunta é proibida, trata-se de um segredo, só entre nós dois, tá? Nem dona Mara pode saber, é uma coisa que não morde”, instigo.
Ele aceita. Entrego, então, em suas mãos, minha pulseirinha!
Dona Mara é que vai gostar do seu bom velhinho, depois de vinte minutos fiz ele ficar vinte anos mais jovem. E não é que o homem é tão gostosinho...
Meu amigo, que me pediu essa historieta, vai me perguntar se ela é verdadeira ou se é imaginação minha. Não digo sim. Mas também não digo não.
Sei que o velhinho já se foi. E eu, aqui. Peladinha.
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