quarta-feira, setembro 25, 2013

Não me faças voltar nua pra casa!

Esses namoradinhos que arranjo são fogo, cada um com a sua mania. Será que já não basta fazer amor? Sou tão carinhosa, beijo maravilhosamente, minhas mãos leves deslizam mil favores sobre o corpo de todos eles. Mas de um tempo para cá têm aparecido alguns que me pedem coisas extravagantes. Uns me querem vestidas com roupas hipersensuais, enquanto outros desejam passear abraçados a mim mas acrescentam apenas um detalhe: que eu vá nuinha. Quem lê os meus relatos sabe que já andei pelada pela cidade várias vezes; outro dia, porém, apareceu um que me pediu para sair nua durante o dia.

Durante o dia é demais, reclamei.

Deixo então você vestir um casaquinho, já que a temperatura anda amena.

E veio ele com o casaquinho. Na verdade transformou-se num vestidinho de mangas compridas, curtinho, o problema é que tinha poucos botões.

Será que posso usar um top por baixo?, perguntei.

E lá veio o top, também trazido por ele, na verdade uma tarja de malha da mesma cor do casaco.

Vamos ao cinema, sugeriu.

E fomos, optamos por um dos cinemas do Shopping.

Posso garantir que algumas pessoas observaram com muito interesse o meu minivestido, depois voltavam os olhos para o meu rosto. Algumas até sorriram. Duas adolescentes comentaram alguma coisa depois de me repararem demoradamente. Talvez pensassem que eu lançava uma nova moda.

Eu, com o vestido subindo enquanto caminhávamos para a sala de cinema, não tinha nada a fazer para que voltasse ao comprimento original, pois carregava um imenso saco de pipocas.

Puxa pra mim o casaquinho, vai, bem na barra, pedi ao namoradinho. Eu tentava um mínimo de indiscrição.

Ele fazia de conta que ajeitava para mim.

Assistimos ao filme. Quando saímos, abracei o rapaz e o beijei, fiquei agarrada a ele no estacionamento, bem junto ao nosso carro, um abraço  frente a frente, assim as pessoas não podiam reparar que eu estava nua. Ao mesmo tempo, eu aproveitava o beijo gostoso que trocávamos.

Amor, posso pedir mais uma coisa?, ele, ansioso.

Já sei o que você quer.

Vamos ver se você adivinha.

Agora queres que eu tire o casaco, pronunciei ressaltando a conjugação do verbo.

Queres?, ele repetiu.

Eu quero, tu queres, falei e sorri.

E então?

Desabotoei o casaquinho ainda do lado de fora do automóvel. Já anoitecera, outras pessoas que deixavam o Shopping procuravam seus veículos.

Amor, assim vamos presos, falou preocupado, pedi a você que tirasse o casaco, mas era para desabotoar dentro do carro.

Eu, já nua, atirei o agasalho a ele, apenas a faixa azul marinho me cobria os seios. Encostei então na carroceria e pedi vem, me abraça, assim ninguém repara,

E ficamos ali, um grudado ao outro, por pelo menos um quarto de hora.

No final, acho que eu o despertei ainda mais com uma indevida sugestão:

Amor, só te faço mais um pedido, não me faças voltar nua pra casa!

sexta-feira, setembro 20, 2013

Você gosta de deixar as mulheres nuas

Depois da meia-noite acontecem coisas estranhas. Paquerei um cara durante a semana inteira. Acabei que consegui sair com ele. Conhece o Ilhote Sul? É um restaurante chique, não preciso dizer. Ele me convidou e ofereceu: peça o que quiser. Aproveitei. Bebi vinho italiano, tão caro. Então começou ele uma conversa estranha. Disse que conheceu um ex-namorado meu. Revelou até mesmo alguns segredos meus. Não sei como descobriu que andei nua de madrugada pela cidade. Ele narrava com um arrepio. Não sei se foi o vinho italiano ou se já viera com a intenção. Você vai embora nua?, perguntou. Quando eu era mais nova, duas ou três vezes fui, mas agora, acho que não, respondi. Mas você é tão bonita, acrescentou. Mais bonita vestida, retruquei. Melhor nua, não?, pediu. Estou gorda, não gosto de tirar a roupa depois de comer tanto, já pensou se me flagram com essa barriguinha?, adverti. Até que é sensual?, contra-argumentou. Sensual?, eu quis saber. A sua barriguinha, emendou. Pensei que você fosse dizer que não tenho barriga alguma, debochei. Bem, amor, na verdade afirmo que: você não tem barriga não, mas, continuando, sei que gosta de um presentinho, aliás, toda mulher gosta; que tal uma pulseirinha de ouro?, sugeriu. De ouro?, redargui. Isso, de ouro, assegurou. Mas hoje é tão difícil, quase ninguém dá ouro de presente, acrescentei. Dou e provo, falou e mostrou a pulseira. Era realmente de ouro. Então?, recolocou a pergunta. O que você quer mesmo em troca?, fiz de conta que esquecia. Quero você nua, seus olhos miraram os meus e depois voltaram-se para o mar. Só isso?, minha intenção era ganhar tempo. Claro que não, quero um beijo e alguma coisa a mais, assegurou.

Deixáramos o carro no estacionamento do restaurante. Caminhamos pelo calçamento. Depois do Tropical acaba a praia. Venha comigo, convidou. Andamos cem metros, longe da luz da rua, apenas as estrelas, a lua e, defronte à praia, a vegetação. Quer ainda a pulseira?, perguntou. Acho que sim, duvidei. Por que a incerteza? Não acredita que seja verdadeira?, indagou. Acredito, firmei a voz.

Daí namoramos. Uma hora e um quarto.

No final, falou: não basta só o namoro. Sei disso, retruquei, você gosta de deixar as mulheres nuas. Isso mesmo, comentou, ainda bem que entre nós há o consenso. Me passa a pulseirinha, pedi. Obedeceu. Obedeci também. Sei que você gosta de histórias, falei. Se gosto?, tanto mais no dia seguinte, e na voz de quem deixou a saia nas minhas mãos, sua voz acompanhava a brisa suave da madrugada. Um beijo, vá, desejei. E lá foi ele; e fiquei eu. Apenas a pulseira, a sandália plataforma e a bolsa mínima. Cabe nela um maço de cigarros; cabe junto o celular, caso o maço não esteja cheio.

Portanto, você, que me lê agora, será que pode me ajudar? Traz uma camiseta. Recompenso. Sabe o Tropical? Caminhe na areia da praia, faz de conta que vai pra lagoa. É só. Quando estiver próximo, eu chamo. Mas lembre, não demore. Quero a pulseira, apenas. Não quero complicação.

quarta-feira, setembro 18, 2013

Nua no restaurante

O restaurante estava quente, por isso tirei o agasalho. Meus braços nus surpreenderam quem estava ao redor.

“Você não está com frio?”, perguntou-me o marido.

“Não, estou mesmo é com calor.”

Apesar do inverno, da temperatura baixa lá fora, para mim o restaurante estava muito aquecido. Bom momento para eu mostrar uma pequena parte do meu corpo. Todos estavam vestidíssimos, haviam pousado o casaco no encosto da cadeira, mas o suéter ninguém despira. Eu tirara o casaco e o suéter, vestia apenas uma camisa de algodão de mangas curtas.

Meu marido sorriu, aproveitou para mordiscar mais um pedaço de carne e beber outro gole de vinho. Eu, entre sorrisos e a alegria que todas as férias proporcionam, estava nua. Isso mesmo, nuazinha, ao menos para o momento, ao menos para o lugar. De outra mesa, notei que um homem olhou-me. Discreto, ele. Estava acompanhado. Mas no momento em que segurou a garrafa para despejar um pouquinho do líquido rubro na taça da mulher que o acompanhava, esticou os olhos até os meus braços. Sorriu. Retribuí o sorriso. Não houve nada de mal no incidente, apenas um sorriso de cada lado, depois o mergulho de volta nas nossas vidas. Mas fiquei arrepiada, e o arrepio durou até o fim do jantar. Na cadeira ao lado minha filha de quatro anos comia segurando o garfo de modo enviesado, enquanto meu filho, ao lado do marido, atacava os pedaços de carne e o macarrão, olhava um dos brinquedos em miniatura que colocara sobre a mesa, ao lado do prato.

“Mamãe, aqui não está frio porque tem a lareira, veja como é bonita”, falou a menina com a boquinha manchada de molho da comida.

“Isso, mesmo, Naná, a lareira aquece”, falei, ambas rimos.

“Papai não tirou o agasalho, acho que ele está com frio”, ela completou.

Meu marido sorriu. “Uns sentem mais frio; outros, menos”, concluiu e continuou com mais um gole do vinho.

Em volta todos vestidíssimos. O inverno torna as pessoas elegantes, pensei. Meus braços nus destoavam do ambiente. E, entre todos, apenas o tal homem discreto descobrira-me. Eu quis espichar o rabo do olho à direita, mas ainda não foi naquele momento. Minha filha tinha os olhos e o sorriso em mim, o garoto despertara do seu enlevo lúdico e o marido talvez pensasse qual o próximo prato.

“Mamãe, me leva pra fazer xixi”, a menina pediu.

“Levo, sim. Vamos.”

Levantamos. O garçom apontou-nos o toalete. A menina gostou de caminhar entre as mesas, empurrar para o lado a cortininha do banheiro, deslizar a porta corrediça.

“Mamãe, espere aqui, eu sei fazer xixi sozinha.”

“Que bom! Mamãe está feliz por você ser tão espertinha.”

Minha filha saiu do banheiro feliz.

“Vamos mamãe, agora vou pedir a sobremesa.”

Voltamos entre as mesas, algumas pessoas levantaram os olhos. Reparei então o homem discreto. Sua acompanhante tinha os olhos voltados para o bufê. Ele falava-lhe. Mesmo conversando com ela, olhou meus braços nus. Olhou e sorriu.

“Nunca vi uma nua tão bonita”, cheguei a ouvir. Talvez eu tenha captado seu pensamento, ou seu desejo, não sei bem. Mas que sua voz era bonita, não restava dúvida.

Depois de voltarmos ao hotel, de acomodar as crianças nas suas camas, preparei-me para deitar. Estava de dentes escovados, perfumada, envolta numa camisola creme, era uma camisola leve. Mas, antes de entrar sob as cobertas, tirei a camisola. Quando o marido se postou ao meu lado, encostei nele meus braços nus, meu corpo nu.

“Você reparou no restaurante?”, eu disse.

“O quê?”, ele curioso.

“Uma mulher nua.”

“Uma mulher nua? E naquele frio?”, surpreendeu-se.

“Isso, nuazinha. Você é mesmo muito distraído.”

Peguei suas mãos e comecei a deslizá-las sobre o meu corpo. Depois subi sobre ele. Depois namorei meu homem por um bom tempo.

“Amanhã, talvez ela apareça nua de novo”, falei.

“Será?”

“Acho que sim.”

“Então você me mostra?”, propôs.

“Vou pensar.”

Beijei-o. Adormeci. Tão nua, como a mulher no restaurante.

quarta-feira, setembro 11, 2013

Já que você deu a ideia...

Essa história aconteceu lá pelos meados de 2004. Uma mulher que conheci por correspondência resolveu vir ao Rio para conversarmos pessoalmente. Era de Minas, de uma cidade nas adjacências de BH. Ficou por aqui durante uma semana. A princípio adorou a cidade. Nos últimos dias, no entanto, aconteceu o que passo a relatar.

Após termos ido a cinemas, teatros e restaurantes nos primeiros dias após sua chegada, na sexta-feira combinamos ir à praia. Mas a uma praia bem distante. Eleonora, o seu nome, era relativamente jovem e tinha um corpo muito bonito. Mas sentia vergonha de mostrá-lo. Naturalmente não estava acostumada a sair por aí de biquíni, mesmo à beira-mar. Recato das mineiras. Fomos então para a praia mais distante na orla do Rio de Janeiro, bem depois do Recreio dos Bandeirantes.

Ao chegarmos, pousamos nossos pertences e cuidamos de ficar durante um bom tempo debaixo de um grande guarda-sol. Havia um quiosque nas proximidades cujo empregado se prontificou a servir o que desejássemos, inclusive um almoço. Como os frequentadores daquele local eram apenas nós dois, Eleonora pôde, enfim, mostrar o seu corpo.

Lá pelas onze horas chegaram mais algumas pessoas, mas mantiveram discrição e ficaram a uma distância razoável.

Em determinado momento, Eleonora começou a falar sobre uma hipótese.

“Ouça, me veio um pensamento, fiquei preocupada.”

“O que preocupa você numa manhã de sol ameno e numa praia quase particular onde apenas nós dois estamos a usufruir?”

“Exatamente isso. O lugar está muito deserto.”

“Mas não foi você quem pediu uma praia assim? Caso quisesse muita gente, teríamos ficado em Copacabana.”

“A princípio estava sentindo vergonha por ter comprado esse biquíni tão pequeno e ter de usá-lo na frente de outras pessoas, mas pelo pensamento que me ocorre acho que teria sido melhor.”

“O que preocupa você?”

“É o seguinte: o Rio é uma cidade onde ocorrem muitos assaltos. Já pensou se alguém assalta a gente agora? Não há nada a nos proteger.”

Olhei em volta e percebi que para uma pessoa que está acostumada a assistir aos noticiários sobre o Rio, o que ele temia era possível. Mas procurei tranquilizá-la.

“Não se preocupe. Há o quiosque, o funcionário está trabalhando tranquilo. Caso houvesse algum problema, teria nos avisado."

“Mas se aparecer um ladrão aqui, agora, por exemplo, não podemos fazer nada.”

“Não se preocupe. Quando saímos a passeio não pensamos nisso.”

“Sei que vocês não pensam nisso, mas pode acontecer, não?”

“Não tenho ouvido falar sobre assaltos em praias. O que vão nos roubar?”

“Por exemplo: podem nos roubar o carro, com tudo que trouxemos. Já pensou que vergonha caso levem todos os meus pertences e me deixem apenas com esse biquíni mínimo? Como vou voltar pra casa?”

“Ah, que imaginação. Confesso que gostei da ideia de ver você só com esse biquininho sem ter onde se esconder. Acho que vai entrar na água e ficar por lá até que eu arranje uma roupa comprida pra você...”

“Não brinque, pode acontecer, não é mesmo?”

“Acho que você quer mesmo é ficar nua. Se pensou isso, é porque deseja.”

“Eu? Você pensa isso de mim?”

Me aproximei dela e a beijei. Disse no seu ouvido:

“Como tem pouca gente na praia, acho que quem vai deixar você nua sou eu.”

Ela riu.

“Você não teria coragem...”

“Você nem me conhece direito. Lembra que conheci você por correspondência? Já pensou se sou o ladrão?”

“Não brinque com essas coisas, por favor.”

“Já pensou se deixo você nua e vou embora. Como você faz pra voltar pelada pra Minas?”

“Ai, nem pense nisso.”

Aproximou-se de mim e me beijou.

“Quer dizer que você vai me deixar peladinha aqui no Rio de Janeiro, nua, dentro d’água e vai embora com todas as minhas coisas?”, pareceu gostar da suposição.

“Acho que sim, já que você deu a ideia...”

“Então faz, vai, quero ficar pelada no Rio de Janeiro...”

“Puxa, não sabia que as mineiras mudam de ideia tão de repente.”

Levei-a para dentro d’água e tirei o seu biquíni. Parecia uma gata gemendo.

“Você quer mesmo que eu vá?”, eu.

“Você teria coragem?”, ela.

“É você que deseja as sensações...”

Corri areia acima, guardei tudo dela dentro do carro e dei a partida.

Meia hora depois, voltei. Estava tranquila, ainda dentro d’água. Quando me viu, foi a primeira a falar:

“Sabia que você não teria coragem de abandonar uma mulher tão bonita como eu...”

Me abraçou. Namoramos ali mesmo. Ela não mais vestiu a parte inferior do biquíni enquanto esteve dentro d'água.

“Depois que você foi embora, sabe, além de estar molhada pela água do mar, fiquei também molhadinha, mas por outro motivo”, sorriu enquanto bebia um gole de sua caipirinha.

“Você é capaz de escrever isso que estamos vivendo hoje?”, eu queria esconder a excitação, mas acho que não consegui.

“Claro que sim. Mas ponho você como narrador!”

quarta-feira, setembro 04, 2013

Quer voltar lá pra pegar?

Após ter ido à praia num domingo à tarde com um namoradinho de ocasião, acompanhei-o à sua casa, ou melhor, à suíte onde ele dizia morar enquanto trabalhava na cidade. Fizemos, então, um amor muito gostoso. Depois fui tomar banho e fiquei um tempo enorme me refrescando debaixo do chuveiro. Ao acabar, já que viera direto da praia, ameacei vestir novamente o biquíni.

“Não o vista, está molhado”, falou.

Era verdade, segurei as duas peças e pude constatar que seria desconfortável vesti-las após o banho.

“Cubra o corpo apenas com o vestido, já anoiteceu, vou levar você de carro”, completou.

“Tudo bem, não há ninguém na minha casa, todos viajaram, voltam só depois das dez.”

Na verdade era um vestidinho desses bem curtinhos, bem justo ao corpo, que todo mundo sabe que só são usados como saída de praia.

Descemos as escadas e entramos no carro.

Começou a dirigir pela cidade.

“Vamos passear mais um pouquinho”, sugeriu, “ainda é cedo.” Pegou uma via que nos levava à orla marítima.

Estacionou antes do Tênis Clube.

“Que tal tomar alguma coisa? queria um chope”, falou.

Acabei por aceitar. Saímos do carro e entramos num dos bares.

“Está gostando do dia de hoje?”, perguntou.

“Adorando”, sorri para ele.

“Foi bom mesmo, não? Praia, amor, chope, e você sem o biquíni.”

“É mesmo, tinha me esquecido, estou nua!”, representei.

“Jura que tinha esquecido?”

“Jurar, jurar, não fica bem, mas digo que sim.”

“Então você está acostumada a sair sem calcinha.”

“Sem calcinha, sim, mas não nua.”

“Você não está nua...”

“Com esse vestido curtinho, estou me sentindo nua.”

O garçom chegou com nossos chopes. Pedimos ainda um petisco.

Acabamos ficando por ali até mais ou menos nove e meia.

Ao sairmos do bar reparei que algumas pessoas olharam para mim. Não dei importância, mas sabia que no dia seguinte alguém iria dizer que me viu na orla etc. e tal.

Quando ele parou o carro na frente de minha casa, havia luz num dos quartos.

“Vou vestir o biquíni”, procurei as duas peças na bolsa. “Não estou encontrando...”

“Será que você não esqueceu lá em casa?”

“Tenho certeza que guardei aqui.”

“Jura?”

“Ah, você com essa mania de juramentos”, demonstrei certa irritação.

“Quer voltar lá pra pegar?”

“Não, boa noite, vou nua mesmo, ainda por cima estou morrendo de vontade de fazer xixi.”

Beijou-me e disse:

“Boa noite”, amanhã te pego de novo.”

“Tá bom”, não resisti à simpatia dele, "amanhã apanho o biquíni.”

Ele deu a partida e se foi. Eu me virei e abri o portão de casa.

quarta-feira, agosto 28, 2013

Não foi traição, mas uma situação de emergência

Naná, quer dizer que você foi parar nua na casa de um desconhecido?

Desconhecido, não, Lana, o homem bem que já de um tempinho me paquerava.

E como foi?

Ah, Lana, nem fala, foi bom, acabei até gostando, mas o Jorge ficou furioso.

Ele soube?

Sim.

Quem contou pra ele, Naná?

Quem? Eu mesma.

Você é louca...

Do modo como aconteceu, ele não poderia deixar de saber.

E qual foi a reação dele?

Assim que soube, falou:

Você não devia ter transado com ele.

Mas como não? Naquela situação..., tentei explicar.

Você devia ter corrido de volta.

E aquela gente toda? Com que cara eu ia ficar?

Eu dava um jeito.

Jeito? Que jeito?

Quer dizer que você preferiu me trair a se expor?

Não foi traição, foi uma situação de emergência.

Emergência?

Sim. Emergência, e dei por encerrada a conversa. Mas, para você entender toda essa situação, Lana, preciso contar o que aconteceu antes.

Então conta, estou curiosíssima.

Nós estávamos na casa de campo, sozinhos. Jorge resolveu, então, me fotografar. Fez dezenas de fotos minhas em meio ao quintal, às árvores, à beira da piscina etc. Quando já estava exausta de tanta pose, sugeriu que eu tirasse a roupa, que ficasse apenas de tênis. Fez então as últimas fotos. Eu, nuinha, apareço andando e sorrindo, como se estivesse num meio rural afastado e não precisasse me preocupar em vestir. Mas foi aí que aconteceu o inesperado. Chegaram dois automóveis repletos de amigos e amigas dele. Souberam que estava no sítio e lhe quiseram fazer uma surpresa. Num primeiro momento corri e me escondi atrás de uma árvore de tronco largo. Ao reparar que os carros se aproximavam, corri para a direita, era o muro que limita a propriedade com a do vizinho. Premida pelo desespero, subi e saltei para o outro lado. Logo que me vi no chão, um cachorro enorme se aproximou e se pôs a latir. Pensei que seria devorada. Depois veio o dono, um homem beirando os sessenta. Sem demonstrar surpresa, afastou o cão e perguntou: “Moça, o que houve?” A única frase que consegui falar naquele momento foi: “Moço, por favor, me dê abrigo”. Ele me levou pra dentro da casa. Ainda bem que morava sozinho e não havia ninguém com ele. Sentei num pequeno sofá, cruzei as pernas, cobri os seios com um dos braços e contei o que acontecera. O homem me deu abrigo. Quer dizer, não apenas abrigo, você entende, não?

Oh, se entendo...

Jorge não saiu logo à minha procura. Ficou com seus amigos e não falou nada sobre mim. Tanto tempo nua junto a um homem, o que poderia acontecer? E tem mais uma coisa, você até podem me chamar de piranha, mas o homem foi de tamanha habilidade, que acho nunca ter dado uma trepada tão gostosa!

quinta-feira, agosto 22, 2013

Amante menor

Manuel Bandeira se dizia um poeta menor. Eu me acho uma amante menor. É verdade. Uma amante que não sabe amar. Ou, quem sabe, uma amante que ama muito pouco. Na verdade, o que sempre quis e quero é sentir prazer. E naquele pequeno aglomerado de casas de frente para o mar, eu ainda não descobrira homem algum a quem pudesse, pelo menos de modo disfarçado, voltar os meus olhos. Como morava pouca gente no lugarejo, era natural que todos se conhecessem. Portanto, uma pessoa estranha como eu, que chegara fazia alguns dias e ocupava sozinha uma casa inteira, soaria estranho à população local.

Mas já no dia seguinte surgiria alguém para me fazer acreditar que assim como Manuel Bandeira jamais foi um poeta menor, eu também não era uma amante menor. O homem, de quase dois metros de altura, despertou-me de um enleio enquanto eu, sob o sol, nas areias da praia, era embalada por quase um sonho, um sonho de claridade e de fundo musical orquestrado pelas pequenas ondas da praia.

“Você não é daqui”, afirmou.

Ainda sonolenta, virei-me em sua direção, e por trás das lentes de sol, falei:

“Quem dera, a vida toda nessa paz, nesse mar”, e me virei para o outro lado.

“A paz também cansa”, falou e se afastou.

Esqueci-me do homem.

À noite ouvi certo alvoroço numa das casas. Parecia uma festa. Alguém veio bater à minha porta.

“Você não quer participar de um festejo?”, era o mesmo homem que aparecera de manhã, na praia.

“Você poderia ter a bondade de pelo menos dizer o seu nome?”, franzi a testa após a última palavra.

Olhou-me, sério. Eu não tinha os óculos escuros para me esconder àquela hora, e também não queria desviar os olhos.

“Enamorado, é o meu nome, mas todos me chamam de Amor.”

Dei uma gargalhada prolongada. Ele completou o meu espalhafato com a sua risada, grave e mais contida.

“Verdade? Enamorado?”, repeti ainda tentando esconder os últimos traços de riso.

“Sim. Mais popular como Amor. Vamos?”, ofereceu-me o braço.

Aceitei.

Como o número de participantes era pequeno, o encontro podia ser chamado de festa mais pela alegria dos presentes do que pela quantidade. Com a minha chegada e a de Amor, completamos oito pessoas na casa. Cinco homens e três mulheres. Ao entrar, recebi sorrisos de todos os lados.

“Você vai gostar da gente”, falou uma mulher.

Um dos rapazes expeliu a fumaça do cigarro para um dos lados e me estendeu a mão. Os outros vieram-me beijar.

Reparei que um dos presentes tocava acordeom.

“Cheguei a aprender quando era criança”, falei.

“Quer”, ele fez o gesto de que me passaria o instrumento.

“Não, por favor, não lembro mais nada.”

“Rodolfo, toca pra gente”, uma das mulheres pediu.

Uma canção argentina começou a sair do instrumento. Em poucos segundos quase todos estavam a dançar. Amor tomou-me por uma das mãos, envolveu-me com seus longos braços e começamos nossos primeiros passos no centro da sala.

Após mais ou menos uma hora, espaço de tempo em que uns beberam cerveja e outros vinho, alguém sugeriu que nos fantasiássemos.

“Há um baú com vários trajes, no quarto dos fundos, são objetos de teatro. Cada um pode se vestir do jeito que quiser, mas deve colocar a máscara, assim não saberemos quem é quem.”

Todos se entusiasmaram com a sugestão. Tiramos a sorte e fomos um a um ao tal quarto. Depois de pronto, cada um saiu pela porta lateral que dava num corredor externo e foi aguardar o restante do grupo nas areias da praia. Desse modo as identidades não foram reveladas.

As fantasias eram as mais engraçadas possíveis. Havia bailarinas, palhaços, princesas, branca de neve, bruxa, dama antiga, super-heróis e uma que era apenas um biquíni mínimo. Adivinhem quem escolheu esta? Lógico que fui eu. Mas todos foram obrigados a vestir as máscaras, assim nos confundiríamos e não saberíamos quem era quem.

De início não consegui descobrir Amor. Muitos vieram a me cortejar, inclusive as mulheres. Ah, ia esquecendo, as máscaras tinham um capuz que nos cobria os cabelos, isso tornou a identificação ainda mais difícil. Até mesmo pelo corpo não foi tão fácil identificar as mulheres. Todos eram ótimos atores. Apenas o músico foi identificado com facilidade porque continuou a tocar no acordeom suas canções ora comoventes ora animadas.

A festa transferiu-se para as areias, com o mar a acompanhar com seu leve murmúrio o nosso alarido. Dançamos, ainda sob o som do acordeom. Algum tempo depois, cada um de uma vez tinha de fazer uma imitação para ser descoberta pelos demais.

A festa prosseguiu à beira mar com todos cantando e dançando. Mais bebida surgiu, trazida por uma mulher que não fazia parte do grupo. Era uma espécie de batida de várias frutas. Não passou muito tempo para que começássemos a nos agarrar. Mas não foi uma tentativa de formar casais. Ora recebíamos beijos que pareciam de homem, ora de mulher. Namoramos a três, a quatro e até mesmo a cinco.

A festa não terminou, ao menos pelo que me lembro. As duas mulheres logo ficaram nuas. Depois de beber demais, acabei dormindo, e acho que os outros também.

Acordei com os primeiros raios de sol. Dois ou três já haviam se retirado, mas os outros permaneciam desmaiados sobre areia, e quase agarrados entre si. Reparei que alguém me havia tirado a máscara e o top, mas eu ainda vestia o biquíni de fantasia.

Levantei-me e ouvi imediatamente:

“Amor está pronto para cobri-la de beijos.”

Bocejei, minha cabeça doía. Tapei instintivamente os seios.

“Cobri-la?”, repeti enquanto respirava fundo e olhava na direção do mar tentando-me refazer.

“Cobri-la. Gostou da erudição? Aqui todos somos clássicos, no idioma e no teatro”, completou.

“Então, despir-me-ei”, eu disse. Soltei os seios, fiz descer o biquininho e o larguei sobre a areia. Corri e mergulhei no mar. A água estava quente.

Depois? Ah, depois... Cada um que use a sua imaginação. Lembram o início? Sempre me considerei uma amante menor!

sexta-feira, agosto 16, 2013

À beira d'água

Depois de vários dias de chuva um sol tímido, ainda metade escondido entre as nuvens, deu o ar de sua graça, mulher que, entre lençóis, deixa escapar um lado do ombro nu. Enquanto eu permanecia deitada, o imperceptível movimento da moldura da janela sobre a cama marcava o avançar das horas..

Eram quinze para as dez quando desci à praia. Havia pouca gente na areia. O mar bravio explodia, transbordava e alfinetava-me com gotículas de gelo, devido à ressaca. Mesmo assim soltei a canga e me preparei para o mergulho. Meus pés já iam envoltos na breve e irregular espuma da beira d’água quando uma amiga segurou-me por um dos braços.

Oi, Ana, quanto tempo, falou satisfeita por me ter encontrado.

Era Alice. Quis saber como eu estava passando, o que fazia ultimamente e se assistira a determinados filmes. Conversamos durante uns dez ou quinze minutos. De quando em quando eu fazia menção de que não demoraria a correr para o mergulho. Ela, porém, puxava um pouco mais de conversa. Alice vestia bermuda e camiseta. Aparentemente não viera à praia para o banho de mar. Após suas últimas palavras, o beijo de despedida e um até breve, vi-me desimpedida.

Ia já correr para o mergulho, mas reparei um homem a me olhar. Na verdade, um rapaz. Pela insistência do seu olhar, acho que já me acompanhava desde que eu chegara. Talvez meu corpo enxuto e meu biquíni mínimo cor de terra houvessem despertado nele o pensamento de que, como a praia era de poucos frequentadores, poderia vir conversar comigo, ou mesmo deitar-se ao meu lado. De início sua ostensiva presença assustou-me. Senti até algum temor. Mas, pouco a pouco, olhei para o mar, para as ilhas distantes, reparei o horizonte, corri e mergulhei nas águas frias e agitadas.

Mesmo com o mar revolto, senti prazer em meio às ondas e espumas que me cercavam. O sol iria se firmar, eu tinha certeza, e com a sua presença o mar depois de um ou dois dias retornaria à calma costumeira. Outro prazer que sinto no banho de mar é que ao mergulhar o meu biquíni se estreita, fica ainda menor, provocando a sensação de que estou nua. Os homens. ao observarem a estreita tirinha de pano, ficam doidinhos. Aquele meu admirador matinal também ficou enfeitiçado. Se já ao me descobrir sobre a areia mostrou-se tão excitado, imaginem ao me vir molhadinha e com o bumbum à flor d' água.

Depois, enquanto retornava à areia, reparei que ele continuava a me devorar com os olhos. Ainda por cima, eu estava toda arrepiada. Percebi que ele queria aproximar-se, mas não teve coragem. Meu corpo bem torneado, com o biquíni ressaltando-me a nudez, deixou-o tonto.

Comecei andar pela beira d’água na direção do Arpoador. Caminhei mais ou menos cinquenta metros e reparei que ele já não me acompanhava. Quem sabe tocaríamos nossos corpos enamorados, caso ele estivesse ainda a me seguir? Então estaquei mais uma vez, deixei cair a canga, que eu trazia nas mãos. Olhei o mar. Lembrei que nos dias de sol daquela temporada as moças insistiam em tirar o top. Eu não aderira ao modismo. Mas tal prática atraiu à praia muita gente que vinha só para ver as mulheres com os peitos de fora. E elas faziam de conta que nem estavam aí para quem as espreitava. Permaneciam sob sol, liam alguma revista, comportavam-se com a maior naturalidade. Pela primeira vez, ali sozinha, tive vontade de nadar como as moças de veraneio, apenas a pele a me servir de agasalho.

Mergulhei de novo. Só então reparei que as espumas acariciavam-me, estendiam-se a princípio como um véu anônimo para logo em seguida transformarem-se num homem de mãos suaves, esguias, fugidias. Ele tocava-me a pele, imantava-me ao seu corpo, despia-me das duas pequeninas peças que eu não ousara deixar sobre a areia. Pensei em reagir, gritar, pedir socorro, mas meu corpo falou mais alto. Ardi e explodi de desejo.  

Como sair de dentro d'água após tamanho prazer? Como correr de volta ao apartamento? Voltei-me para a extensa faixa de areia à minha direita, à esquerda, mas já não descobri o meu homem. Ele desfizera-se como as últimas espumas à beira d'água, perdera-se no vazio da manhã de quarta feira.

Quando voltei para casa naquele dia, o sol já deixara de lado sua timidez inicial, tornara-se um jovem galante que começa a acariciar as mulheres para logo em seguida nos tirar toda a roupa.

Saí do chuveiro e me apreciei inteira no espelho do guarda-roupas. De repente, algo inesperado. Meus olhos tornaram-se os olhos do rapaz que me fez sair nua da praia. Ele viera comigo, entrara no apartamento, no meu quarto, e me aguardava. Não demoraria deitaríamos os dois, na mesma cama onde horas antes eu amanhecera sozinha.

domingo, agosto 11, 2013

Amor, perdi a cabeça

Por uma mulher, os homens sempre perdem a cabeça. Mas esperem um pouco até chegar lá. Vou do início.

Arranjei um namorado num desses sites de relacionamento. Como morava perto, não demorou a me vir visitar. Conversamos no primeiro dia enquanto andamos nas ruas da minha pequena cidade. Como é um vilarejo de veraneio e quase ninguém o visita nos dias de inverno, tivemos muita liberdade. Depois fomos à minha casa, onde ele ficou hospedado. Adorou minhas três árvores, a horta e o cão. Isso mesmo, também tenho um cão. Mas na hora de dormir...

A hora de dormir sempre é a hora do amor, principalmente se estamos no começo do namoro. Eu tinha servido umas torradas com chá numa louça de porcelana, uma pintura. Logo que acabamos, ele me abraçou e beijou. Eu disse então:

“Não quero ser pretensiosa, mas sei um jeito especial de namorar.”

Esperou, queria que eu fizesse a demonstração.

“É um jeito suave, a gente se agarra a noite inteira, se acaricia, mas não acaba logo, entendeste?”, falei amorosa.

Aceitou a sugestão. Fui a um dos quartos e me despi por completo. Apareci diante dele. Surpreendeu-se.

“Prefiro eu mesma tirar a minha roupa, gostas assim?”

“Estou adorando”, falou baixinho.

Abraçamo-nos, de pé, ele ainda vestido.

“Não, não te dispas já, espera.” Continuei agarrada a ele, nuinha. Comecei a sussurrar no seu ouvido: “gostas de histórias, não? Todo homem gosta de histórias, sobretudo na voz das mulheres. Vê, sou toda tua, mas fica assim agarradinho a mim e imagina. Estou correndo nua só pra ti, lá na beira da praia. É noite, só nós dois.

“Vamos lá”, então?, sugeriu.

“Não, não é pra ir, é só pra imaginar.”

“Ah, sim...”, suspirou com ar de decepção.

“Mais vale a imaginação”, insisti. “Continuas a me olhar e eu danço para ti. Uma dança sensual. Mas, de repente, como num passe de mágica, desapareço. E logo já estás a me procurar. ‘Como essa mulher sumiu assim tão, tão súbita?’, dizes. Isso, súbita, é a palavra certa. Eu nua e súbita. Sais a me procurar pela areia, pelas vagas da praia, pensas até em pedir ajuda, mas a praia é só das estrelas e está deserta. Então, ainda súbita, apareço atrás de ti, envolvo-te com meus braços. De início te surpreendes, depois, porém, percebes minhas mãos plenas de tato, de carícias. Despes, rápido, toda a roupa, e te queres atirar sobre mim. Mas peço, não, ainda é cedo, faz teu gozo e o meu durar mais horas na noite.”

Volto agora ao presente, ao homem dentro da sala que me ouve as histórias.

“Sinto que estás excitado. Já queres me penetrar, sei de tudo. Não é, todavia, o momento. Deita, vamos os dois sobre o tapete, como os antigos persas, uma viagem. Deita, isso, tira também a roupa, Mas não toca já o meu corpo.”

Embarcamos numa aventura aérea, apenas as mãos entrelaçadas, levemente, e eu a lhe narrar histórias, a fugir nua através de cidades imaginárias, a escapar de nobres, de magos e de plebeus, para cair numa casa vazia, os muros altos. Ele, então, que está ao meu lado, meu cavaleiro, sequestra-me nua, leva-me na garupa do cavalo.

“Come a mulher que deita ao teu lado”, sussurro com a voz alterada, “já vai amanhecer. Não, não, não é para me comeres agora, é ainda parte da história, falta o principal, o breve desfecho. Não, não percas a cabeça, farei que tu gozes com mais ardor, solta-me, não, tu não me podes agarrar. Tira os braços de mim, sê justo!”, chego a gritar.

“Por favor, já não aguento, você me incendiou”, argumenta trêmulo.

“Calma, respira fundo, bem fundo. Isso, assim. Deita, pensa que tu te equilibras, é um fio fino, tênue, mas consegues. Volta à corda, segura o sarrafo, estás a resgatar teus impulsos, as secreções que estiveram próximas a te escapar. Assim, isso, agora já vais conseguir. Melhor, já conseguiste. Mais um suspiro e tudo estará sob teu domínio.”

Duas horas depois ainda navegávamos num mar de erotismo. E o homem enfeitiçado por minhas histórias.

“Deixa agora, amor”, pede, “você está me maltratando, deixa agora, se você não quer não gozo dentro, deixa apenas sentir você.”

"Deixo, e podes ficar bastante tempo, Mas na hora de gozar, tira e goza na minha boca, compreendes?"

"Você gosta?"

"Se gosto. Adoro. Mas te peço, ainda mais uma vez, controla-te, não gozes dentro. Não vás perder a cabeça.

Voltamos às carícias. Ele, já sobre mim, logo escorregou mar adentro. Tanto mais ligeiro, gritou-me:

“Amor, amor!”

“O que foi?”

“Amor, perdoa-me.”

“Perdoar-te? Que mal praticaste?"

“Perdi a cabeça...

Do lado de fora, lá no quintal, latiu-me o cão.

domingo, agosto 04, 2013

Estava boa a marguerita?

Subíamos a rua do hotel Mercure, a Ramiro Barcelos, numa tarde de quarta-feira. Como estava frio, eu e Lana vestíamos casacos bem grossos. Lana é uma menininha ótima, adora passear, e quando sai toda agasalhada, de toca e de luvas, fica uma gracinha. Após uma quadra do hotel, reparei um homem de cabelos castanhos. Não consegui imaginar qual seria sua idade, mas ele me olhou e sorriu. Retribuí o sorriso. Continuamos o nosso caminho, eu e Lana. É comum a gente ouvir que não se deve sorrir para os homens, corremos o risco de eles nos seguirem. Dei um beijinho na minha pequerrucha e a entreguei à mãe quando chegamos à porta do seu prédio. A menina e a mãe também me beijaram.

Nesse inverno Porto Alegre está um horror, nunca vi tanto frio, falou a mãe de Lana.

É verdade, está muito frio, eu disse. Despedi-me e parti.

Naquele dia meu trabalho de babá estava feito. Só devia pegar a menina dois dias depois. Enquanto estou de férias da UFRGS, aproveito para ganhar um dinheirinho.

Entrei na Independência e parei no primeiro ponto para esperar o ônibus. Qual surpresa! O homem para quem sorri estava lá, e olhava um mapa. Num primeiro momento, ele não deu por mim. Mas, depois, ao olhar ao redor, esbarrou na minha súbita presença. Surpreendeu-se, assim como eu momentos atrás. Sorriu mais uma vez. Mas como éramos poucos ali e já estava escuro, não correspondi. Passaram alguns ônibus, inclusive o que me servia. Mas não dei sinal. O homem também permaneceu no ponto. Ora olhava o mapa, ora se certificava das direções, ora tentava estabelecer cumplicidade comigo. Vai ver está tramando como se aproximar de mim, pensei.

Não passou muito tempo para eu ouvi-lo:

Moça, boa noite.

Boa noite, respondi.

Você poderia me dar uma informação?

Sim, desta vez tornei minha fisionomia séria.

Estou perdido, acho, queria ir ao shopping Bourbon, será que estou no ponto certo?

Sim. Aqui mesmo há o ônibus para lá.

Ameacei voltar ao meu silêncio, mas estava doidinha para que ele continuasse a conversa.

Quero ir à Livraria Cultura, falou.

Conheço, correspondi.

É uma boa livraria?, ele quis saber.

É ótima.

Você já a visitou muitas vezes?

Às vezes vou lá. Como estudo na universidade federal, preciso sempre ver alguns livros.

Ah, que interessante, fez de conta que se surpreendeu, universidade federal, que bom, exclamou. Você passou de mão dada com uma menina, não?, continuou ele.

Sim. É Lana, trabalho cuidando dela para a mãe fazer compras e trabalhar, principalmente em época de férias.

Você é esperta, não?, sorriu.

Achou positiva minha iniciativa de trabalhar para manter meus estudos.

Estou faz algum tempo precisando ir à Cultura, dei a ficha.

Então, que tal?

Acabei indo com ele. Não preciso contar como é um shopping, tanto mais o Bourbon, bem pegado ao Iguatemi, com todas aquelas lojas, vitrines sedutoras, luzes, escadas rolantes e cores.

Ele adorou a livraria. O homem era do Rio. Disse que estava gostando muito de Porto Alegre, uma cidade muito limpa e organizada.

Você veio a turismo?, arrisquei.

Sim e não.

Como alguém pode responder sim e não ao mesmo tempo?, mostrei-me curiosa.

É porque faço um tipo de turismo diferente. Viajo a passeio mas faço algumas anotações, escrevo algumas coisas.

Você é escritor?, mirei direto seus olhos.

Sim e não, respondeu novamente. Depois completou: não gosto de falar do meu trabalho, algumas pessoas dizem que sou vaidoso demais. Tento vencer esse ponto.

Ok, respondi e me calei por alguns minutos.

Entramos num café, no próprio Shopping. Perguntou o que eu desejava.

Um cappuccino.

Ele pediu para si um café expresso. Tirou da sacola o livro que comprou e ficou olhando a capa demoradamente. Depois passou as duas primeiras páginas e leu alguma coisa. Você gosta de ler?, perguntou-me.

Gosto.

Que tipo de livro.

Antes eu lia literatura, mas agora com os trabalhos da faculdade...

O que você estuda na faculdade, ele quis saber.

Biologia.

Interessante, uma estudante de biologia que diz gostar de romances.

Não só de romances, mas de peças de teatro.

Você costuma ir ao teatro?

Ao teatro vou raramente. Mas gosto de ler as peças.

Pareceu satisfeito mais uma vez com minhas respostas. Alguma coisa em algum dos três livros que comprara o entreteve.

Conversamos amenidades. Passaram-se quinze minutos. Nossos assuntos foram sobre lazer, passeios, comidas, cidades da preferência de cada um de nós e viagens de férias.

Você é muito sério para ser do Rio, falei espevitada.

Você acha?

Acho. Conheço algumas pessoas do Rio. Elas são muito extrovertidas. Acho que algumas chegam a ser loucas, falei sorrindo, você é muito silencioso. Ele não reagiu.

Saímos do Shopping. Perguntou onde eu morava. Queria me levar em casa. Naquele momento, acho que comecei a gostar dele, do seu jeito meigo e discreto. Imaginei que não mais o veria. Vai ver vai embora amanhã cedo e vou ficar a ver navios, pensei. Acabei perguntando sobre o tempo de sua permanência na cidade.

Tenho de ir embora amanhã.

Tão rápido assim?, mostrei meus olhos grandes como sinal de surpresa.

Já estou aqui faz três dias.

Ah, que pena, deixei escapar de propósito.

Vamos ficar juntos mais um pouco, então? Convidou e olhou para mim com certo interesse.

Vamos.

Você deseja ir aonde?

Não sei, faça como achar melhor, eu disse.

Quando o táxi parou na entrada do prédio, eu ainda não sabia para onde ele me levava. Mas logo reparei o seu hotel, o mesmo por onde passei com Lana.

Vamos ouvir um pouco de música. Tenho um Ipad bastante carregado.

Subimos ao décimo segundo andar.

O apartamento em que ele estava hospedado era muito acolhedor. Logo após a entrada havia uma pequena cozinha americana; depois o balcão que dividia a cozinha da pequena sala. Já do lado da sala, dois bancos altos aprumavam a elegância do local. Uma porta de vidro à direita dava acesso à pequena varanda. Ao fundo do sala, o pequeno corredor com um lavatório abria caminho ao quarto.

Ele apontou o sofá bege e pediu que eu sentasse. Olhei à minha esquerda e pude apreciar, através do vidro, a paisagem lá fora. Era possível ver grande parte da cidade. Prédios se alternavam em tamanho. O céu, apesar da noite, não estava escuro.

Você quer beber alguma coisa?, perguntou enquanto acionava o pequeno computador com as músicas prometidas.

Pensei em algo extravagante para comemorar tudo que me estava acontecendo naquela noite. Uma marguerita, você tem?, sugeri.

Vou pedir ao serviço de quarto. Foi ao telefone e ligou para a recepção.

Reparei uma quantidade grande de livros sobre a mesa.

Você lê bastante, afirmei, trouxe todos com você?, apontei os livros.

Alguns sim, outros comprei nas cidades por onde passei.

São quase todos de literatura.

Sim, a leitura desses livros também faz parte do meu trabalho.

Você vive mais o universo da imaginação do que o da vida real, provoquei.

A imaginação também faz parte da vida real, retrucou, levantou-se e foi até o balcão da cozinha apanhar algo para servir.

Sabe que sou boa em contar histórias?, afirmei.

Verdade?, fez ar de surpresa. Conte então uma história para mim?

Conto, respondi com entusiasmo. Qual tipo de história você deseja?

Uma história sobre você, e tem de ter algo especial.

Especial?, fiz-me de inocente. Como assim?

Todos nós somos especiais, você não acha? acrescentou.

Ah, entendi, algo especial, deixe-me ver...

Já que você pediu uma bebida tão estimulante, acho que sua história terá algo muito especial!

Sorri e fiz cara de boba. Cruzei as pernas. Olhei mais uma vez a paisagem.

A campainha soou. Ele foi abrir. Um empregado do hotel trazia a minha marguerita. Meu recente admirador pegou o copo e o colocou sobre a mesinha, bem junto a mim. Depois foi até a geladeira e abriu uma cerveja para si. Brindamos.

Agora, a sua história, por favor, pediu.

Você está acreditando tanto nela, que já estou até envergonhada.

Nada de vergonha, foi você que afirmou ser uma boa contadora de histórias.

Ok, vou contar. Tudo que contamos tem relação conosco, mas digamos, esse fato aconteceu com uma amiga, sabe, dessas amigas meio loucas. Ela sempre me diz Anita, quando um homem me agrada, faço tudo para sair com ele no mesmo dia, ou melhor, na mesma hora, não gosto de deixar para o dia seguinte, algo pode dar errado, é melhor sairmos logo. E lá foi ela. Conheceu no Barra Sul, um shopping da zona sul. Não fica muito longe. Estava na praça de alimentação, de noite, fazia um lanche. Não havia lugar para ela sentar. Então, avistou um homem sozinho numa das mesas. Perguntou posso sentar aqui? Ele respondeu lógico, é um prazer. E lá ficaram os dois, um em frente ao outro. Trocaram algumas palavras. Sabe como acontecem essas coisas, palavra puxa palavra, um assunto traz outro e, em poucos minutos, pareciam que já se conheciam havia anos. Não demorou saíram dali e puseram-se a andar pelo shopping. Depois de trinta minutos, ela propôs estou com o carro aqui no shopping, quer que eu te leve a algum lugar? O homem aceitou. Disse que bom andarmos um pouco de carro. Anita, ela falou pra mim, o homem tinha um jeito especial, parecia artista de TV. Rodaram e rodaram por aí, primeiro a Zona Sul, depois o Centro. Ele pediu que ela parasse num posto e encheu o tanque de gasolina do carro dela. Depois ele lhe disse pena que já está tarde, porque queria comprar uns presentes para você. Ela respondeu não faz mal, compre amanhã, aliás, nem precisa comprar, não estou com você por interesse. Continuaram o passeio de automóvel. Enfim pararam onde ele morava e subiram ao apartamento. Anita, ela me falou, você precisava ver onde o homem mora, quase perguntei se era artista, mas fiquei na minha, achei melhor mostrar indiscrição. Bom, terminaram a noite no maior amor. Mas agora é que vem o surpreendente: o homem tinha lá uns costumes estranhos. Primeiro pediu que ela tirasse o casaco; depois a blusa e a calça; a seguir, que ficasse nua na varanda. Anita, estava um frio terrível, mas mesmo assim fui nua para a varanda. Então, ele acendeu a luz. Os apartamentos dos outros prédios todos escuros, e eu ali nua, como num palco onde todos pudessem me admirar. Depois que ele puxou a porta corrediça e a convidou para o quarto, lhe fez mil carinhos. Mas duas horas depois, quando ela já ia embora, outra surpresa. Ele pediu que ela vestisse apenas um suéter, queria vê-la dentro daquela roupa. Anita, falou, você precisava ver, o suéter caiu justíssimo no meu corpo, e curtíssimo!, ele pediu para eu ir embora vestida daquele jeito, parecia um minivestido de mangas compridas. Descemos até o carro, então ele me fez o último pedido: tire o suéter, por favor. O que, você vai me deixar nua? ela fingindo desespero. Não, quero ver apenas você nua como motorista. Ela tirou o suéter e o entregou nas mãos dele. O homem, então, a presenteou com um cheque de dois mil reais. Bem, já que você tem tanta literatura sobre a mesa, adivinhe o final da história, principalmente depois que ela ficou nuinha ao volante, concluí.

Meu recente namorado beijou o meu rosto furtivamente. Estava boa a marguerita?, perguntou.

Fiz que sim com a cabeça. Ele, então, me pegou no colo e me levou para o quarto.


Dois dias depois, quando passei de novo de mãos dadas com Lana pelo hotel onde ele se hospedara, senti uma ponta de saudade. Mas não fiquei triste pelo homem já ter partido. Fora ótima a aventura. Mas, estou certa, acontecerão mutias outras, aparecerão muitos outros. Eles sempre com suas histórias. E eu, ainda melhor, com as minhas.

segunda-feira, julho 29, 2013

Olha que quando fico bêbada tiro toda a roupa

O shopping sábado, logo após a hora do almoço, é um local agradável para quem está sozinha, sempre há muito para se observar nas vitrines, e as pessoas que transitam pelos corredores refrigerados ainda não incomodam, pois aparecem em pouca quantidade, pode-se até mesmo observar, de forma sorrateira, o que cada uma tem de interessante.

Eu caminhava pelo Iguatemi quando, de fronte a uma vitrine de vestidos, observei pelo espelhar do vidro um homem parado em meio ao corredor. Ele olhava o pulso, talvez se certificasse das horas e, quem sabe, lamentasse o atraso da pessoa que esperava. Dei alguns passos à esquerda e fiz de conta que apreciava o vestido marrom localizado mais ao fundo. O homem continuou no mesmo lugar, mas movimentara-se e se punha agora de costas. Calçava sapato social, vestia calça preta e camisa de mangas de tecido fino, de cor verde, seu cabelo era preto. Devia medir em torno de metro e oitenta. Pouco a pouco ele foi completando uma volta, quase no mesmo lugar, a seguir olhou para a vitrine onde eu hesitava. Da posição em que me encontrava pude observá-lo de frente de modo mais nítido. Ele não percebia que eu o espreitava. Lembrei-me de uma amiga que sempre diz: “o importante é ter bastantes amigos”. O tal homem, naquela tarde, bem que poderia aproximar-se e tentar comigo um início de diálogo, mas ele parecia preocupado. Olhou para um lado, para o outro e ainda uma vez mais se certificou das horas no pequeno relógio de pulso. Olhei-o de novo através do espelho e conclui que de nada adiantaria ficar numa espécie de jogo de gato e rato, ou de gata e rato. Sim, era eu a caçadora. Virei-me. Quando olhei seu rosto ele levantava a face, tentava esquecer o relógio, as horas. Naquele momento nossos olhares cruzaram-se, momentos suficientes para darmos conta da existência de um e de outro; eu, mais interessada, lhe sorri. Ele notou o campo aberto, só não avançaria se não quisesse.

Nos segundos que se passaram, lembrei-me de minha diarista, uma negra magra e nem tão bonita, mas assanhada que só. Outro dia disse que conhecera na condução um fotógrafo espanhol. Deu-lhe o número do telefone e passou a encontrá-lo quase todo o final de dia quando saía da minha casa. Foi-lhe fácil conversar, fazer amizade e quem sabe o que mais. Vai ver ele já até tem a foto dela nua. Segui para a praça de alimentação. O dado estava jogado.Caso ele quisesse arriscar, bastava seguir-me.

Sentei-me no Viena, pedi à garçonete café expresso e bolo de laranja. Olhei ao redor, mas não vi o homem. Que pena, não entendeu meus sinais, foi-se, logo num sábado, dia ideal para uma conversa, um namoro ou mesmo algo mais. As pessoas que estavam em volta comiam e bebiam sem observar umas às outras. Quem estava sozinho (ou sozinha), parecia mergulhado em si mesmo. Quem vinha em companhia mantinha a conversa alegre, de mútuo interesse. Vi um homem caminhando para a mesa ao lado, um adolescente o acompanhava. Talvez pai e filho, desses pais divorciados que saem com o filho aos sábados. Sentaram-se e começaram a tomar cada um sua coca-cola. Lá, além, ao lado de uma bombonier, quem vejo? O homem dos espelhos. Ele mesmo, ainda sozinho, tinha o ar preocupado. Alguém lhe faltara o compromisso? Esperava ainda por companhia? Pensei em chamar sua atenção, em despertar-lhe o interesse, mas eu estava longe, não ficaria bem fazer alvoroço. Tive uma amiga que se declarava aos homens. Mas no final o relacionamento não dava certo. Tudo que é muito fácil não é valorizado. Continuei sorvendo meu café e torcendo para que ele olhasse para onde eu estava. Que viesse para as minhas bandas. “Dona Márcia, por que a senhora não perguntou pelo menos as horas?”, diria minha diarista. “Quando percebo que alguém me interessa, pergunto logo as horas, mesmo que não tenha o relógio no pulso”, continuaria ela. Não percebi quando outro homem passou rente a mim. Ouvi apenas sua voz.

“Moça, posso sentar aqui?”, perguntou e olhou para a cadeira vazia, à minha frente.

“Sim, claro”, falei.

Não tinha a mesma elegância do meu admirador dos espelhos, mas também não era de se jogar fora.

“Está cheio o local”, falou enquanto segurava o garfo. Pôs-se a comer um salgado.

Apenas sorri. Quando acabei, ameacei levantar, ia pedir licença. Aconteceu, no entanto, o inesperado. Vi o namorado original. Sim, ele já era meu namorado, porque namorado vem de “estar em amor”, e era como me sentia naquele momento.

“Ei, venha até aqui”, gritei para ele, “guardei um lugar para você.”

Olhou para mim meio desconcertado. Sorri, e disse: “não está me reconhecendo, venha até aqui.”

O homem que sentara à minha frente, gentil, cedeu o lugar a ele.

“Não, não precisa”, cheguei a dizer. Mesmo assim levantou-se, observou um lugar na mesa ao lado e mudou-se para lá. O outro aproximou-se meio sem jeito: “é que espero uma pessoa, não estou reconhecendo você.”

“Espere por ela aqui, enquanto isso eu esclareço. Você não estudou engenharia na UNB?”

“Não, não sou eu. Estudei no Rio, na Puc.”

“Poxa, a PUC é boa, não? Desculpe se lhe incomodo. Acho que me enganei.”

“Não era você que estava olhando uma vitrine, no segundo andar?”

“Sim, era”, falei alegre, como se ele tivesse descoberto a pólvora.

“Estou reconhecendo.”

“Então, já nos conhecemos de algum lugar”, completei.

Ele deu uma meia risada. Pela primeira vez o vi livre da preocupação que estampava no rosto. Não demoraria para eu descobrir que ele esperava uma mulher.

“Às vezes as coisas não acontecem como a gente quer, não é mesmo?”, falei.

“É, isso mesmo”, fez menção de que iria pedir um café. Acabou decidindo-se por chocolate quente.

“Se atrapalho, me retiro”, fiz cara de que incomodava.

“Não, por favor, fique, não há problema algum. Acho que nada acontece por acaso.”

“Não?”, perguntei maliciosa.

“Acho que não”, ele logo teve a xícara de chocolate nas mãos.


Entramos no cinema. Ele nada mais falou sobre o seu encontro. Vimos o filme sobre o início da carreira de Renato Russo. Ele adorou. Quando o filme acabou, era outro homem.

“Bom, não é mesmo?”, perguntou. “Isso é fibra, alguém que acredita nos seus ideais e persiste”, falou como se o músico houvesse salvado o mundo.

“Gostei muito”, também afirmei, “e ele que era tão frágil.”

Passeamos pelos corredores, quase a esmo. Percebi que não queria ir embora, não desejava despedir-se.

“E agora?”, arrisquei.

“Você tem algum compromisso?”

“Tenho”, arrisquei e fiz uma expressão de que sentia pena.

“Ia convidar você para dar mais uma volta.”

“Ok, vou ver se consigo ficar mais tempo. Preciso fazer uma chamada”, recolhi-me a um canto menos movimentado do shopping e fingi que telefonava. Falei, gesticulei. Tudo representação. Depois voltei a ele. “Resolvido, vamos passear mais um pouco."

“Já ouviu falar de Kierkegaard?”, perguntou de repente.

“O filósofo?”

“Esse.”

“Na época de estudante, tive um professor de filosofia que era apaixonado por esse pensador. Dizia que foi o primeiro a introduzir o sujeito no conceito de ser, se não me engano.”

“Isso mesmo, é um filósofo apaixonante.”

“Por que ele agora?”, eu quis saber.

“Há um livro sobre ele na Cultura, queria comprar...”

“Vamos lá, então.”

Depois de feita a compra, quando saíamos da livraria, uma mulher jovem parou diante dele.

“Você? Agora?”, ele perguntou surpreso.

“O que tem? Por que não me esperou?”

Antes que respondesse, ela mesma continuou:

“Quem é ela?”, apontou para mim e esperou resposta.

Ele não respondeu. Os segundos que se seguiram pareceram eternos. A mulher deu as costas e entrou na livraria. Ele teve o intuito de segui-la. Antes que o fizesse, olhou-me indeciso.

“Não vá, ela telefonará para você amanhã ou depois”, falei. “Se você segui-la, fará isso a vida toda.”

“Como posso ter certeza de que ela me telefonará?”

“Certeza, não sei, mas ela acabará telefonando. Venha”, puxei o homem pelo braço e saímos dali.

Deduzi que era a mulher por quem ele esperava.

Caminhamos para fora do shopping.

“Não tínhamos combinado em continuar nosso passeio?, perguntei.’

“Sim, vamos continuar”, sorriu e seguimos até onde havia estacionado o carro. Entardecia, o céu avermelhava-se, no horizonte acentuava-se aquela sensação de encontro entre o céu e o mar que o por do sol de Brasília sempre sugere, um mar distante e ilusório que a vastidão do planalto central impõe àqueles que vêm do litoral e ainda não se acostumaram à nova paisagem.

Entramos num automóvel cinza metálico, muito luxuoso. Ele deu a partida. Deixamos para trás o shopping, o estacionamento e começamos a seguir em direção ao Lago Norte.

Ficamos em silêncio enquanto ele conduzia o veículo pelas largas vias dos arredores da capital federal. Sugeri que fôssemos ao Iate Clube.

“Iate?”, assustou-se, “o que tem lá?”

“É um clube, além de haver lá um um bonito bar, pode-se apreciar um céu maravilhoso.”

“Você possui um barco?”, arregalou os olhos.

“Não é bem meu, mas da família.”

“Você pilota barcos?”

“Assim como seu Kierkegaard tentava pilotar o eu.”

A única coisa que ele pôde fazer foi sorrir. Saiu da via principal e começou a beirar outra, mas de menor importância. Como não estava frio, vimos muita gente nas imediações do lago e do setor de clubes.

“Onde estacionamos?”

“Dentro do clube, eu mostro.”

Atravessamos a entrada de veículo. Apresentei a minha identificação e expliquei que levava um convidado. O funcionário agradeceu a nossa presença, disse que ficássemos à vontade, mas que havia uma festa em determinado setor onde só se poderia ter acesso através de convite.

Estacionamos e descemos para as proximidades do ancoradouro. Paramos um pouco à beira d’água, depois seguimos ao bar. Propus que, no início, tomássemos alguma coisa, poderia ser café, ou mesmo refrescos, que deixássemos a bebida alcoólica para mais tarde.

“A garota era sua namorada?”, falei sobre o inesperado encontro com a moça, no shopping.

“Mais ou menos.”

“Ela ficou furiosa quando me viu ao seu lado.”

“Você observou?”

“Sim.”

Um garçom veio atender a nossa mesa.

“Quero um café com um pingo de leite”, pedi.

“Pra mim também”, falou ao garçom. “Nós vamos ao seu barco?”

“Sim, mas conversemos antes um pouco.”

“Você tem namorado?”

“Tenho vários.”

“Verdade?”

“Verdade. Mas não significa que tenho de ficar ao lado deles. Eles é que me namoram e não eu a eles.”

“Você é engraçada.”

“Daqui a pouco vai dizer que trabalho no circo,”, revidei.

“Não foi isso que eu quis dizer. Estou achando você uma pessoa muito alegre.”

“As pessoas sempre dizem isso de mim, acho que de agora em diante vou fazer cara de furiosa”, ri.

“Em relação a essa mulher que você conheceu, as coisas não são tão alegres nem pacíficas. Ela é muito radical.”

“As pessoas radicais são fáceis de serem dobradas.”

“Quanto a isso, não posso concordar com você”, disse ele, “ela não é fácil, não. E sobre o que aconteceu hoje, sei que ela não vai mais querer saber de mim.”

“Aí é que você se engana.”

“Verdade?”, mostrou preocupação.

“Tenho certeza. Digo que sempre há uma maneira de se chegar às pessoas.”

“Em relação a ela, não há. Sei que não vou conseguir. Ela não mais pensará em mim.”

“As pessoas sempre têm uma porta aberta, basta descobrir onde tal porta está”, afirmei com a mais absoluta certeza.

“Não acredito que será possível reconquistá-la, não digo isso porque estava com você e ela nos viu, mas o problema é anterior.”

“Você se engana; caso queira, será possível. A primeira estratégia a seguir é acreditar que você vai conseguir. Mas há um ponto: você precisa analisar se esse relacionamento amoroso vale a pena.”

“Eu gosto dela.”

“Você acabará como uma espécie de serviçal dela. Há homens que bajulam o  tempo todo, enchem a mulher de presentes, fazem tudo o que ela pede. Mas não sei se um relacionamento assim é compensador.”

“Você acredita nisso?”, parecia ansioso.

“Acredito. Sou mulher.”

“Não íamos ao barco?”, ele pareceu desinteressar-se pela conversa, demonstrava querer outros ares.

Segui pelo ancoradouro e apontei a embarcação.

“É muito grande”, pareceu surpreender-se.

“Você pensou que fosse um barquinho a remo?”

“Não, mas não imaginava um iate desse porte.”

“Aqui é apenas um lago, você sabe, não se pode ir muito longe.”

“Para conduzir uma embarcação dessa é preciso ter experiência”, olhou para mim desconfiado.

“Não se preocupe, não vamos navegar, tenho duas garrafas de vinho na cabine, e há espaço pelo barco onde podemos ter apenas o céu sobre nossas cabeças. Não tenho mesmo é nada para comer, mas podemos arranjar no bar um pedaço de queijo e alguns pães”, sorri ante o imprevisto.

Já dentro do barco, perguntei:

“Que tal o nosso pique-nique?”

“Não esperava que ia viver isso tudo hoje.”

“Você esperava por sua namorada.”

“Não vamos falar mais nisso.”

“Vamos falar sobre algo mais atemorizante. Não conheço você, quem sabe me vai fazer algum mal?”, falei e caí na gargalhada.

“Isso mesmo. Sou um homem mal, um sequestrador...”

“Acho que fui eu quem sequestrou você. Sou eu quem sei fazer andar essa joça.”

“Você tem razão.”

Brindamos o vinho.

“Brindaremos a quê?”, perguntou.

“Brindemos por nos termos conhecido”, falei e o abracei.

“Você sempre traz os seus namorados aqui?”, perguntou um tanto sem jeito.

“Que indelicadeza. Isso é pergunta que se faça? Convidei você porque o achei especial”, apesar do tom sério no início, minhas palavras não soaram em tom de advertência. Acabei rindo no final.

É difícil terminar uma história, sempre há algo que nos lança adiante. Mas enquanto bebíamos o vinho, tornamo-nos pouco a pouco amantes, Ainda lembro que falei:

“Olha que quando fico bêbada tiro toda a roupa.”

O que ele podia dizer? Riu, apenas. Depois, aproveitamos o resto da noite. Só aquela noite. Porque no dia seguinte, logo cedo, eu tinha certeza, ele procuraria pela namorada.

segunda-feira, julho 22, 2013

Será que devo ficar tão alarmada assim?

Reli meu escrito e estou alarmada. Não quero que suspeitem que sentei aqui para escrever um dos meus contos. Afinal, trabalho no setor de vendas de acessórios numa revendedora de automóveis da R. Mas vamos ao texto.

Estava sentada aqui faz um tempinho quando vi um homem passar para a sala de espera. Ali há uma máquina com vários tipos de café, TV e cadeiras estofadas. É para onde encaminhamos os clientes quando precisam aguardar o atendimento. O homem entrou na sala e parou diante da máquina de café. De lá olhou para mim, e eu estava ainda olhando para ele. Disfarcei. Mas quando voltou após tomar o café, me esqueci e o olhei de novo. Ele arregalou os olhos e sorriu para mim. Embora as pessoas achem que não, ainda tenho um pouco de pudor. Confesso que fiquei envergonhada. Ele continuou a seguir em frente, depois dobrou à esquerda e foi para o pátio esperar pelo seu automóvel. Deixei passar cinco minutos. Então me levantei e segui para onde ele provavelmente estaria. Atravessei o pátio e fui fumar um cigarro na área externa. Lá é o único lugar onde se pode fumar. Dali, olhei mais uma vez para ele. Apesar de estarmos longe um do outro, talvez uns quarenta metros, acho que percebeu a minha olhadela. A partir daí não mais tirou os olhos de mim.

Minhas amigas dizem que sou muito esportiva, que com o meu corpo mignonzinho, sempre vestida de calça de liga e camiseta, sou a modelo de mulher que os homens desejam. Quanto ao meu gosto pelos homens, é um pouco diferente do delas. Gosto de homens meio relaxados com a roupa. Aprecio muito os meio hippies, cabelo grande, barba por fazer, uma camisa sobre a outra, calça jeans desbotada e surrada. O homem que aguardava o automóvel era assim.

Fumei vagarosamente o meu cigarro. Ao voltar para o meu local de trabalho, o aquário onde ficam as vendedoras de acessórios, ele não estava mais no pátio. Acho que alguém o chamara para lhe entregar o automóvel. Fiquei a pensar como faria para estabelecer contato com ele. Se ele tivesse se aproximado e falado comigo, eu daria o meu cartão. Quem sabe quisesse comprar algum acessório? Mas caso eu descobrisse o telefone dele, poderia ligar oferecendo os acessórios. Afinal, estivera na Revendedora apenas para a revisão do automóvel. Do acessório paro o principal, que seria dar uma namoradinha com ele, eu não estava muito distante.

Sempre quando saio com algumas das minhas amigas a conversa gira em torno de namorados e da minha ousadia. Elas dizem: “Juliana, você é muito piranha”. Eu respondo que não é bem assim. “Não sou piranha, não”, rebato. Não tenho namorado fixo porque não quero. Gosto de sair com amigos e de transar com quem me atrai. Quem sabe um dia vou me apaixonar por alguém? Mas, por enquanto, prefiro esta vida. Não preciso dos homens por causa de dinheiro. Tenho o meu emprego e ganho bem. Trepo por prazer. Basta eu gostar de um homem, que não é difícil ele me levar para cama. Mas minhas amigas são cheias de pudor, plenas de treme-treme. Contei a duas delas sobre um cara que conheci num bar. Ficamos eu e ele conversando até duas da madrugada. Depois me convidou ao seu apartamento, na Gávea. E não é que o cara era médico? Uma logo disse: “Juliana, por que você não ficou com o homem? Eu não perderia uma oportunidade dessas”. Respondi que queria mesmo era transar, uma transa bem louca, bem funda, sei lá, bem gostosa. Contei que o homem era cheio de preâmbulos. Talvez não seja essa a  palavra. Mas era do tipo conquistador, falava uma porção de galanteios. Depois me despiu com o maior cuidado. Foi tirando peça por peça e pousando-as delicadamente no encosto de uma cadeira. Quando me deixou nua por inteiro, perguntou, “você quer beber ou comer alguma coisa? Tenho cada coisa gostosa na geladeira”. Eu queria mesmo era trepar com ele. Mas como agia com tanta delicadeza e demonstrava tamanho gosto pelas coisas, perguntei: “você tem pudim de leite condensado?”. “Claro”, respondeu. Foi à cozinha e voltou trazendo um pratinho de sobremesa com o pudim e uma colher pequena. Contando assim parece hilário, mas até que foi bem legal. Eu sentada no pequeno sofá da sala, nua, de pernas cruzadas, a comer pudim de leite condensado. Depois trepamos, e posso confessar que a trepada foi maravilhosa. Se eu já não tivesse compromisso marcado para o dia seguinte com um amigo, teria saído de novo como o tal médico.

Mas, agora, paro de escrever para sair à cata do número do homem que passou por mim e ficou a me olhar. Tenho certeza de que vou conseguir. Basta eu ir até a manutenção.

E sobre o meu conto, o que vocês acham? Será que devo ficar tão alarmada assim?