quarta-feira, setembro 26, 2007

Na praia

Foi um namoro de primeira vez. Rolamos pela cama e nos agarramos durante mais de duas horas. Segurava-o e mantinha-me com os lábios colados aos seus. Ele apertava meus seios, depois minhas pernas, acariciava-me de todas as maneiras. Não me deixou incólume. Proporcionou-me o orgasmo duas ou três vezes. Da mesma forma, também usufruiu prazer máximo. Eu soube trabalhá-lo, soube fazê-lo sentir sutilezas inimagináveis. Às vezes, entre um gemido e outro, dizia-lhe: “me leva nua à praia, vamos fazer amor lá” ou “me deita sobre as areias úmidas, quero ter como capa apenas o vapor prateado das estrelas”. Ele então emitia sussurros de gozo e beijava-me, a seguir se soltava e mordia meus seios. Quando demos mostras de exaustão, eu transformara-me num rio caudaloso; queria-o imerso na tepidez de minhas águas.

O mar explodia sobre as areias brancas, entardecia. Eu era uma das poucas remanescentes de um dia azul e luminoso. Perdia-me em pensamentos e olhares em direção às cores multiformes da tarde. A praia pouco a pouco tornava-se rósea, acompanhando a cor dos raios solares; na superfície das águas vez ou outra se via o rebrilhar de algum raio fugidio, diamante perdido que filtrava as últimas luzes do dia. Então ele surgiu. Passou silencioso, parecia ter saído da imensidão. Nestas praias semi-desertas, a extensão litorânea nos faz pensar em espaços infinitos e selvagens. Ele saiu de dentro de uma solidão composta de areias, céu, mar e alguma vegetação mais saliente que insistia em romper terrenos áridos para dar vez a um coqueiro. Passou por mim sem que eu percebesse seu olhar. Continuei fixa, distante, mas pude admirar as curvas sinuosas de seus grandes pés.

O hotel ficava atrás, bastava cruzar uma pequena cerca e atravessar uma ponte sobre um rio de águas escuras e medicinais para se entrar numa área extensa onde predominava a beleza rústica aliada a alguns toques de arquitetura sutil. Viam-se o grande salão, a piscina, o lago com caiaques e pedalinhos, mais adiante o restaurante. Os apartamentos ou chalés se perdiam por toda a extensão da propriedade; alguns tinham vista privilegiada, como voltada para o lago ou para o mar, enquanto outros permaneciam escondidos, quase à sombra, residência temporária àqueles que amam o repouso, ou mesmo desejam estar a sós com a pessoa amada.

Ele cruzou a cerca, atravessou a ponte e se perdeu na tarde que já nos sombreava.

Senti certo pesar ao perceber que devia deixar a paisagem na qual estava imersa havia horas. O funcionário do quiosque sorriu para mim quando passei ainda em trajes de banho, coberta por um discreto chapéu branco e com os óculos escuros a me protegerem ou mesmo a me proporcionarem maior liberdade. Cadeiras e guarda-sóis pouco a pouco ficavam vazios, aguardavam os braços fortes do funcionário que os recolheria.

À noite, após o jantar, sempre era programado algum tipo de festa. O hotel – na verdade era um resort – ficava longe da cidade de Ilhéus, seus administradores procuravam contentar todos os gostos e manter os hóspedes no local. O show programado era uma festa caribenha. Os funcionários montaram um palco ao ar livre e mesas que se estendiam sobre um vasto gramado. Spots e luzes foram acrescentadas às existentes, especialmente para a festa. Os garçons vestiam camisas estampadas acompanhando o tema da noite, serviam a todos com largo sorriso. Os hóspedes consumiam bebidas delicadamente preparadas, muitos pediam tequila e marguerita. As apresentações se iniciaram com as moças dançando música cubana, depois se aventuraram por sons e danças dos países vizinhos. Permaneci em uma das mesas, só, olhando a animação geral. Confesso que em determinados momentos me senti atraída e identificada ao entusiasmo geral. Assustei-me quando alguém, de forma inesperada, aproximou-se. Era o homem que passara por mim na praia ao entardecer. Perguntou se me podia fazer companhia. Trazia uma enorme taça que continha uma bebida colorida, quase rubra.

– Se minha face corou é porque tornou-se espelho de sua taça.

Ele a princípio não entendeu a insinuação, apenas após alguns segundos é que caiu em si e perguntou:

– Por que minha presença provocaria tal reação?

– Mistérios que só pertencem às mulheres...

Apontei-lhe a cadeira. Permanecemos lado a lado apreciando a festa. No final, as pessoas puderam aventurar-se no palco para tentar alguns passos ao lado dos dançarinos profissionais. Muitos jovens não se negaram ao experimento. A diversão foi geral. Meu recente conhecido continuou silencioso. Correspondi-lhe ao temperamento e admirou-me sua quietude. Geralmente nesses lugares aparecem pessoas falantes, logo se põem a perguntar, querem saber proveniência, profissão, fazem observações que invadem a privacidade. Ele, no entanto, permaneceu como as luzes da noite, brilhantes, silenciosas, a dar aos caminhos um manto prateado. Ao levantar para me recolher, percebi suas leves passadas a meu lado. Disse-me que estava só e se tornara amigo de um casal que, como ele, viera de Brasília. Saía a passeios com os dois, mas também caminhava sozinho por todo o litoral. Convidou-me para acompanhá-lo na manhã seguinte.

– Vou ver; tudo vai depender de meu estado de espírito pela manhã; devo estar no mesmo lugar de hoje à tarde; passe lá, pode ser que eu vá.

Deixei um sorriso discreto e desejei-lhe boa-noite.

Durante algum tempo ainda permaneci na varanda de meu chalé; além de poder observar um céu incrustado de estrelas, ouvia o rumor contínuo e indômito do mar. Enfim me despi e mergulhei em sonhos na noite acolhedora.

Na manhã seguinte deixei o café da manhã e atravessei a ponte em direção às areias brancas da praia. Não permaneci no ponto em que havia combinado. Decidi caminhar – em trajes de banho, com o mesmo boné da véspera e os óculos escuros – em direção ao litoral norte. Com passadas pequenas, mergulhei na mais completa solidão. O mar recuara, suas ondas estavam distantes, as espumas chegavam tímidas até a beira d'água. Uma brisa morna aquecia o ar, mas ainda se podia perceber que a madrugada fora fresca e que deixara seus rastros; vez ou outra mudança súbita na temperatura do ar indicava que a friagem das primeiras horas não se dissipara por completo. Nesses sítios, ao se caminhar em estado de total comunhão com a natureza, esquece-se que há à nossa volta todo um mundo constituído de vilas, cidades e países. É como se a realidade não fosse além daqueles limites, aparentemente infinitos, e que não há nada mais do que a paisagem em todo seu estado primitivo; até mesmo uma cabana inesperada que nossos olhos descobrem torna-se um pequeno acidente.

Exausta, após três-quartos de hora descobri uma barraca feita com troncos de árvores, coberta por algumas traves e folhas secas de coqueiro. Mesas rústicas espalhavam-se à frente sobre um pequeno pedaço de areia. Não se via viva alma mas se podia perceber seu interior: a tábua principal estava levantada e algumas bebidas, além de uma velha geladeira, alinhavam-se ao fundo. Sentei-me. Uma mulher de meia idade surgiu sem que eu soubesse de onde. Sorriu e me perguntou se eu desejava alguma coisa. Pedi água de coco. Serviu-ma com seu sorriso enviesado e a com as maneiras do lugar. Sorvi a água enquanto olhava o mar. Um velho cão corria à beira d'água; vez ou outra envolvia-se na areia, saltava, para depois se deixar lavar pelas pequenas ondas.

Surpreendeu-me presença humana que ia além de mim e da mulher da cabana. Alguém se avizinhava com passadas firmes, pernas fortes, um atleta de longo curso; vinha num ritmo de beleza olímpica, corredor grego incumbido de avisar que seu exército venceu a batalha prometida. Era meu admirador da véspera. Ainda corria distante quando pude perceber seu porte viril. Passou pelo ponto em que eu estava sem dar conta de minha presença. Sua marcha possuía movimentos que o irmanavam à paisagem. Seu espectro foi tornando-se cada vez menor. Ainda pude vê-lo ao entrar por uma curva da enseada, banhado de sol e de gotículas de mar.

Só o reencontrei quando mais tarde me deleitava ao sol, diante do hotel, no mesmo lugar onde ele me vira pela primeira vez. Saía do mar e não hesitou em se dirigir a mim.

– Fico feliz por ver você – ouvi sua voz.

Sorri para ele enquanto colocava a espreguiçadeira na posição correta para me sentar. Percebi que suas palavras procuravam deixar ao largo a imprevisibilidade de minha atitude durante a manhã.

– Há uma boa barraca após a próxima enseada; lá, servem um ótimo camarão; aceita o meu convite?

Sorri em assentimento. Pusemo-nos a caminho. Com a manhã já adiantada, a freqüência à praia tornara-se bem maior. Muitos tomavam sol, alguns bebiam no quiosque do hotel, outros jogavam vôlei, enquanto havia aqueles que tomavam banho de mar.

Quando já estávamos na barraca aguardando o prato sugerido por ele, percebi que me apreciava o corpo. Já não sou jovem; mantenho, porém, a beleza da idade madura; talvez uma protuberância aqui, uma marca acolá, mas de modo geral os homens não deixam de me admirar. Embora ele tivesse uma aspecto jovial, mais tarde me diria que beirava os quarenta antos. Tentava manter a forma, os músculos aprumados, mas era consciente de que a beleza física é provisória.

Não pediu bebida alcoólica, ao passo que eu tomei uma caipirinha. Confesso que a bebida trouxe-me uma ponta de excitação. E ele percebeu. Estendeu os olhos sobre meu corpo. Senti meu biquíni ainda menor ante sua insistência. Como conseguiu deixar-me vexada, pedi licença, caminhei a extensão de areia que nos separava do mar e mergulhei nas águas que refletiam um azul brilhante e límpido. Escondi-me ainda que provisória. Ele acabou por me acompanhar. Mergulhou após alguns minutos e se aproximou tanto que chegou a tocar-me. Minha pele estava fria, as águas do mar baixaram-me a temperatura; pude voltar mais tranqüila à barraca. A garçonete acenava: nossos camarões estavam prontos e servidos.

Saboreamos a iguaria. O prato fora preparado com beleza peculiar, acompanhava a rusticidade local. Continuei a bebericar enquanto o ouvia. O homem falava pouco, mas procurava pontuar seu discurso provocando um efeito interessante. Parecia saber contar histórias. De antemão eu soube que era pessoa viajada, trabalhara em várias embaixadas do país no exterior. Perguntei se era embaixador.

– Ainda não – sorriu e bebeu mais um pouco de água mineral.

– Se você está de férias, por que viaja no próprio país?

– As viagens ao exterior no meu caso têm uma ar de trabalho. Já conheço muitos países. Lá fora faço turismo cultural. Quando busco ambientes naturais, prefiro alguma praia do Nordeste, como esta.

Contei de onde eu viera e o que fazia. Escutou-me com bastante atenção. Demonstrou alegria quando eu disse que morava no Rio.

– É uma das poucas cidades onde não tenho muitos amigos. É bom conhecer você porque vai ser um bom motivo para eu visitar a cidade. Gosto muito de lá, mas tenho ido pouco nos últimos anos.

Vivia em Brasília e disse que havia pouco enfrentara uma dolorosa separação. Tinha um filho ainda pequeno, não o via com freqüência, embora gostasse muito dele.

Olhei toda aquela luz que nos dourava a pele, segurei suas mãos e me aproximei dele. Não foi longo o tempo que passou até eu criar uma situação que nos levou a um beijo demorado. Apesar de ainda estarmos na mesa diante da barraca e do mar, do copo com alguma caipirinha, de alguns camarões que nos restavam, e de olhares curiosos sobre duas pessoas de meia-idade que se abraçavam, nosso namoro começou em temperatura elevada. Quando nos desprendemos, acariciei-lhe os ombros.

Após deixarmos o local, em meio à caminhada de volta, mergulhamos num pedaço de mar onde éramos sós. Dentro d'água, agarrei-o com mais insistência. Ele segurou meu corpo, apertou-me, apalpou-me as costas, escorregou as mãos até quase meu bumbum. Mas, enfim, não era homem de avanços imediatos. Ficamos abraçados, com a água a nos escorrer pelos cabelos e rosto. Tive vontade de ficar nua em seus braços. Bem que seria possível, além de nós dois, a praia insistia em não dar mostras de presença humana. Mas contive-me. Como ele parecia tão digno, preferi não me precipitar. Quem sabe assim poderia tê-lo por mais tempo, quem sabe ele não seria a pessoa ideal para se viver.

Ao chegarmos diante do hotel, encontrei minha espreguiçadeira vazia. Deitei-me. Ajeitei o chapéu sobre a cabeça, já que o sol vinha de outra direção. Limpei os óculos na toalha e o coloquei no rosto. Chamei o garçom, que veio atender-me com pronta solicitude.

– Uma caipirinha, por favor.

Meu companheiro sorriu, largou-se a meu lado sentando-se sobre a areia.

A bebida insuflou-me ânimo novo. A tarde já ia com seus raios de sol suaves, o mar pleno de explosões trazia odores de vida e transmitia uma sensação quase de êxtase. Tomei nos braços de novo meu acompanhante e lhe beijei longamente os lábios. Trouxe seu corpo para mais perto; percebi, porém, que ele demonstrou algum desconforto. Alguém passou por ele e com muita discrição cumprimentou-o com um movimento com a cabeça. Depois percebi que era um casal, talvez os amigos que conhecera na viagem.

Quis estar a sós com ele. Sentia-me impelida a abraçá-lo, a pressionar meus seios sobre seu corpo, a percorrer sua pele com meus lábios úmidos de desejo, mas ali não era o lugar propício. Beijei-o de novo.

– Vamos para o meu chalé – sugeri.

Ele sorriu em assentimento e se levantou.

Jantamos juntos no restaurante do hotel. Devido à hora adiantada, muitas mesas já estavam vazias. Os casais que ainda permaneciam conversavam, saboreavam doces ou tomavam café. Os jovens passeavam pela área ao ar livre. As crianças corriam e algumas gritavam. Aconteceria depois das nove outra festa para os adultos; ao passo que para as crianças, recreadores programavam atividades próprias.

Era bom estar diante de meu novo amigo. Já entendêramos que seria difícil desvencilharmo-nos um do outro. Quando conhecemos alguém, sobretudo num local onde o tempo escorre rápido e sabemos que não está longe o dia da partida, desejamos aproveitar todo o tempo da melhor maneira possível; não nos abandona o pensamento de que já éramos antigos namorados e que na verdade nunca estivemos separados. Mas são armadilhas de férias, emboscadas de viagens que nos parecem tirar do mundo, miragens que logo se diluem quando voltamos à vida cotidiana. Passamos então a sentir que aqueles momentos foram um sonho e duvidamos até mesmo que um dia tenham existido.

Andamos sob as luzes das estrelas e da parca iluminação elétrica. Eu vestia apenas uma leve bermuda e um top. Fazia calor. Meu companheiro não perdeu a elegância. Apesar de estarmos num hotel em que se podia ir de short e camiseta durante todo o dia e toda a noite, vestiu-se de modo a despertar a atenção de outras pessoas. Não era nada demais, porém a roupa esporte que usava caía-lhe com perfeição e se podiam perceber os detalhes do corte e do desenho.

Insisti para que caminhássemos à beira-mar. Atravessamos a pequena ponte e nos deparamos com o mar, que estava bravio àquela hora. As ondas estouravam próximas a areia e vez ou outro o vento nos trazia alguns respingos. Andamos na direção sul. Vimos as luzes do hotel vizinho. Algumas pessoas se divertiam no quiosque externo. Casais abraçavam-se, principalmente os jovens, enquanto uma música romântica vinha inundar a todos. Estaquei, pus-me de frente ao meu homem e procurei seus lábios. Ele de pronto respondeu-me. Beijamo-nos demoradamente. Aproximei-me o mais que pude e o apertei com bastante força. Comprimi meus seios a seu tronco rijo. Depois fui largando-o vagarosa, como se me tivesse tornado exaurida devido ao esforço em retê-lo. Ele deslizou suas mãos entrelaçadas por minhas costas e prendeu-me à altura dos quadris, enquanto eu permanecia com a cabeça recostada sobre um de seus ombros.
Ao voltarmos ao hotel, após nosso passeio de muitos toques e poucas palavras, vimo-nos imersos em grande dúvida. Dormiríamos juntos ou não? É lógico que ambos queríamos permanecer lado a lado durante todo o tempo. Nenhum de nós, porém, aventurou-se a tocar no assunto. Fiz que me despedia. Só então perguntou:

– Não vamos ficar juntos à noite?

– Não sei, ainda nem nos casamos...

Ele riu de minha resposta, mas não se deixou vencer.

– Vejamos se há alguém no hotel que nos possa casar.

Olhei para ele com expressão de susto.

– Você não acha que estamos indo rápido demais?

Virei-me de frente, dei-lhe um beijo ligeiro e disse:

– Quem sabe alguém me convida para conhecer seu castelo?

Ficamos na cama até quase nove da manhã. Daí em diante começamos nosso ritual. Parti para meu chalé com a desculpa de que precisava me preparar para aquele lindo dia que começava. Marcamos encontro no restaurante, para o café da manhã.

Ao terminarmos a rápida refeição, ele falou:

– Tenho uma surpresa para você!

– Não há surpresa melhor e mais inesperada do que ter conhecido você – falei e mandei-lhe um beijo.

– Falo sério, ouça, aluguei um automóvel, vamos passear por outras praias, vamos até Itacaré.

Fiquei muito feliz com o convite.

Preparei-me como sempre de maneira bem leve. Apenas o biquíni, uma saída de praia semi-transparente e a pequena bolsa. Estava pronta para a aventura.

Durante todo o percurso, cerca de cem quilômetros, conversamos muito. Ele falou um pouco mais sobre suas viagens e sua vida profissional. Disse que dentro em breve assumiria um posto na Turquia. Falou muito sobre literatura. Gostava da francesa e da portuguesa. Gostava também dos brasileiros, mas não os colocava em primeiro plano; aliás, apenas dois ou três.

– Aqui no Brasil, dentre a intelectualidade, há esse preconceito; os autores brasileiros quase nunca são colocados na linha de frente quando se trata de literatura universal, mas é um grande equívoco.

Ele olhou para mim um tanto assustado, porque não esperava tal afirmação ou talvez pensara que eu nada entendesse sobre o assunto. Depois disse que eu falava com propriedade.

Cruzamos Ilhéus. A cidade nos pareceu feia. Os prédios, principalmente os públicos, estavam mal conservados e as ruas esburacadas. Tivemos o cuidado de não quebrar a suspensão do carro. Logo conseguimos entrar na estrada que nos levaria a Itacaré e, quando Ilhéus já ficara para trás, pudemos apreciar de novo as belezas naturais. Subimos uma serra. De cima observamos toda a costa: céu e mar repartiam-se e as vagas desfaziam-se em espumas sobre as areias brancas. Quando beirávamos a cidade de destino, entramos em uma pequena praia. Descemos a encosta e paramos o carro. Observamos um restaurante rústico com vários turistas que ocupavam mesas e cadeiras, outros tomavam banho de mar. O restaurante era o único indício de urbanização local. Caminhando pela praia; tanto para um lado como para outro, vislumbrava-se apenas a paisagem natural, composta de mar, areias, algumas dunas e coqueiros. Tirei a pequena canga e a deixei junto a meus pertences, sobre uma das mesas que se enfileiravam até a areia. Corri e mergulhei. Queria fazer uma surpresa a meu namorado. Ele deixou suas poucas coisas junto às minhas e também mergulhou. Nadou até a mim. Pedi que me abraçasse. Ao tocar-me, surpreendeu-se:

–Você está nua.

– Estou.

– Onde você deixou o biquíni?

– Aqui – mostrei-lhe o braço. A pequena peça transformara-se numa pulseira justa.

Ele riu, beijou-me e permanecemos abraçados.

– Você é louca; não tem medo que as outras pessoas descubram que você está nua?

– Não, nunca aconteceu.

– Você faz isso sempre?

– Quase sempre, mesmo quando estou sozinha; me dá imenso prazer.

Em algum momento, coloquei a pulseira em um de seus braços.

– Olha que vou embora e deixo você aí, viu? – ameaçou sorrindo.

– Você vai para a Turquia e vai me deixar pelada numa praia da Bahia? Como eu vou fazer para voltar? – eu o excitava. – Acho que você não tem coragem, é muito gentil para fazer mal a alguém.

Ficamos dentro d'água durante um bom tempo. Ele se manteve muito excitado, tocamo-nos de várias maneiras, mas não fizemos amor ali.

Depois saímos do mar – ele já refeito e eu mais recatada – e pedimos ao garçom que nos trouxesse cerveja e alguma coisa para comer. Passamos toda a manhã admirando um ao outro, olhando a paisagem, tomando goles de cerveja e dando mais algum mergulho eventual.

Seguimos para Itacaré com intenção de almoçar e conhecer as outras praias. Entramos na cidade e alguma coisa lembrou-me Pipa, no Rio Grande do Norte, ou Búzios, no Rio de Janeiro. Cidade bonita, com casas coloridas e baixas, uma juventude saudável nas ruas, alguns estrangeiros, muitos bares, restaurantes naturais, sucos e água de coco. Fizemos pouso em uma praia pequena. Dois bares rústicos serviam comida caseira e bebidas à base de frutas. Na pequena faixa de areia, vimos surfistas bronzeados e suas pranchas; havia também muitas meninas bonitas; bonitas e quase nuas. Mergulhavam, ajeitavam os lacinhos dos pequenos biquínis, sorriam e abraçavam os rapazes. Pus-me a pensar de onde vinha toda aquela gente luminosa e plena de saúde. Entramos num mar mais agitado. Mas as ondas eram uniformes, deslizavam, e a água estava quente. Aproveitamos para nadar.

Voltamos ao entardecer. Novamente passamos por dentro de Ilhéus; quando estávamos prestes a atravessar a ponte, erramos o caminho e demos num bairro à beira-rio, de casas pobres e ruas quase impraticáveis para os veículos. Conseguimos retomar nossa rota e chegamos ao hotel em torno das seis horas.

Jantamos quase às nove. O restaurante já estava prestes a fechar quando o gerente nos viu e acenou para que entrássemos. A maioria dos pratos já fora retirada, mas conseguimos no alimentar. Depois sentamos na área externa e aguardamos uma apresentação de música ao vivo.

Passamos a noite no chalé dele. Em dado momento, disse-me:

– Vou levar você comigo para a Turquia.

De pronto rebati:

– Você ao menos perguntou se eu quero?

– Queira me desculpar, você tem toda a razão.

– Claro que quero, meu amor; como se diz eu te amos em turco?

Caímos na gargalhada.

Numa das tardes seguintes, eu o surpreendi. Estávamos no bosque que havia no hotel; com lago, cachoeiras e muitas trilhas entre as árvores. Anoitecia. Tomamos banho abraçados sob uma das quedas d'água; depois fiz que ele sentasse sobre um dos degraus que havia dentro d'água. Sentei-me de frente a ele, sobre suas coxas. Soltei o biquíni e fizemos amor. Eu dirigia os movimentos, procurava manter as costas eretas, mexia apenas o bumbum e as pernas. A água fria correndo por meu corpo e seu pênis dentro de mim provocavam-me um prazer indescritível.

Quando saíamos, só então reparamos um casal de adolescentes. Abraçados, aproveitavam o banho de cachoeira. Percebi a moça um tanto vexada ao dar conta da nossa presença. Ao passar por eles, sorri. O rapaz retribuiu-me; a moça, porém, escondeu o rosto num dos ombros dele.

– É você adolescente – ouvi de meu namorado.

– Nessa idade eu não era tão envergonhada.

– Não vejo motivo para tanto pudor.

– Você não reparou?, ela está nua.

– Nua? – perguntou e quase instintivamente olhou para trás.

– Não, não olhe; vamos deixá-los em paz.

Os dias que nos restavam arderam nossos corpos na paixão de dois amantes aos quais só existe sob o céu infinito o amor como único alimento. Perdíamo-nos sobre as areias extensas, castigadas por açoite de mar bravio e vento interminável. Éramos dois animais que rolam juntos, mordem-se, envolvem-se, roçam-se e enfim gozam; os corpos cobertos de tênue minério prata granulado. Com a pele viva, intumescida, rósea de dilaceramentos, queria sua seiva, alívio temporário no entreato das estrelas. Seu caule ora aumentava o volume de minhas águas, ora jorrava líquido azulado em minhas entranhas quase rubras, ora untava-me o ventre e os seios com óleo viscoso, tecido único que me cobria, saia de fibras frágeis prestes a esgarçar-se à chama primeira do amanhecer.

Parti um dia antes dele. Na despedida, beijou-me demorado. Ficou com o meu endereço e todos os meus números.

Uma semana depois o esperei no Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio. Ele desembarcou de terno, muito elegante, uma etiqueta italiana. Fomos para minha casa. Mais alguns dias, deixávamos o Brasil.

Minha decisão era arriscada, mas faria uma tentativa. Sentia que sem ele minha vida jamais seria a mesma.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Aeroporto

Tive um namorado que me deixava excitadíssima. Além de saber tocar meu corpo como ninguém, sussurrava palavras mágicas no meu ouvido enquanto fazíamos amor. Foi ele que me introduziu no mundo da fantasia. Gostava que eu me despisse dentro de seu carro. No princípio, eu morria de medo, mas depois me acostumei. Adorava passear nua a seu lado. Ele dirigia e me acariciava as pernas. Íamos dentro de um aquário escuro, como peixes que apreciam o mundo exterior sem a possibilidade de serem capturados. Num belo dia, quando a temperatura começou a esfriar, pediu que eu vestisse apenas o casaco. Passei a sair envolta num manto que me cobria de diversas maneiras; às vezes até as coxas, outras até os joelhos. Ele me presenteou com um suéter que em meu corpo se tornou um micro vestido. Tive vários e multicores agasalhos. Quando o tempo permitia, era tudo o que eu vestia. Ia de cabeça erguida, sem vergonha alguma. Freqüentávamos lugares caros, lugares em que as pessoas são discretas e parecem estar acostumados a qualquer coisa, até a uma mulher nua em público. Certa vez vesti um casaco de botões, desses que se deve abotoar do pescoço até as coxas. Paramos o carro numa viela do centro velho, andamos por ruas escuras e, na reentrância de um muro, entre duas casas antigas, ele soltou os botões e me invadiu o corpo. Que delícia! Caso chovesse ou ventasse, procurava vir com o agasalho adequado, mas sempre chique. O ritual se repetia. Encontrávamos abrigo entre paredes também nuas, ou mesmo em algum jardim público, cuja porta permanecera aberta, esquecida. Ele abria meu casaco e me penetrava. Às vezes eu temia que a temperatura subisse durante as nossas saídas, ou mesmo que amanhecesse e nós ainda não tivéssemos retornado. Evitávamos também lugares quentes, como algumas boates. Certa vez, numa praia, pendurei o agasalho no mastro destinado à rede de vôlei; ele permaneceu lá, esquecido, durante boa parte da noite. Algumas vezes, enquanto fazíamos amor, desejei que alguém o roubasse e me deixasse nua. Mas isso nunca aconteceu. Ainda não vivi essa fantasia. Depois mudei para Bahia e fui morar em Salvador. Arranjei emprego numa sofisticada loja de roupas femininas, no aeroporto. Meu namorado ficou para trás e minha vida mudou.

Fazia seis meses que trabalhava ali quando, num sábado de manhã, indo ao quiosque de café expresso, reparei um homem muito parecido com ele. Cheguei perto, mas constatei que me enganara. Ainda assim o homem ficou a me olhar demoradamente. Estava bem vestido, como acontece à maioria dos viajantes. Quis despistar, mas não consegui. Ele acabou vindo em minha direção. Eu vestia uma calça branca impecável e uma blusa insinuante. A calça era justíssima, deixava bem saliente a marca da calcinha. Naquele momento ainda era cedo, talvez dez horas, e eu havia deixado a loja sozinha. Fora buscar apenas um café e já voltaria. Quando ele ameaçou falar alguma coisa, fiz gesto de que nada pronunciasse, tomei uma de suas mãos e o levei comigo. Ele, carregando apenas uma pequena bolsa, me acompanhou. Eu trazia o homem com uma das mãos e com a outra segurava o copo de plástico, com café; tomava alguns goles enquanto caminhávamos. Não entrei na loja, contornamos o largo corredor de toda a área de embarque. Pudemos apreciar as pessoas que estavam prestes a viajar; algumas olhavam as vitrines, poucas transitavam, outras estavam na livraria, viam jornais e revistas. Uma funcionária que puxava um carrinho de limpeza passou por mim e sorriu; conhecia-me de vista. Atravessamos a área de alimentação, onde já havia um bom número de pessoas. O corredor à esquerda era caminho para a sala de embarque. Junto ao portão, uma mulher com uma criança mostrava o cartão para o funcionário. Dali a algumas horas estariam longe, como acontece a quase todos que passam pelo aeroporto; aconteceria também a meu recém-conhecido. Antes, porém, o levei para um compartimento privativo a funcionários. Nada falei nem permiti que dissesse coisa alguma. Empurrei-o para dentro de um boxe e comecei a tirar minha roupa. Lembrei da loja, mas me tranqüilizei; o aeroporto é um lugar seguro, é certo que nada aconteceria; e a gerente chegaria só depois do meio dia. O homem me olhava meio surpreso e meio desconfiado; talvez tivesse algum temor ante a tanto acaso e facilidade. Já nua, pela única vez sussurrei num de seus ouvidos: “me empresta o casaco”. Ele o tirou e me cobriu o corpo. Depois desabotoei suas calças, manuseei seu pênis, que já se tornara bastante rígido. Sem titubear, fiz que me penetrasse.

Cerca de vinte minutos depois, ao voltar à loja, tudo estava na mais perfeita ordem. Fui ao espelho, retoquei a maquiagem, ajeitei o cabelo, virei de costas e reparei se minha calça branca estava muito escandalosa. Já não aparecia a marca da calcinha. Deixara de lembrança em um dos bolsos do casaco. Lembrança da Bahia.

Lembrança de meu antigo namorado.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Mayna

"Por favor, moço, me ajude, me dê abrigo, aconteceu um problema".
´
Ele permaneceu em silêncio durante alguns segundos, olhava-me com naturalidade. Estendeu enfim um dos braços à mesa lateral e pegou o maço de cigarros, calmamente acendeu um, deu um trago e falou:

"O que houve?"

Eu tentava cobrir minhas vergonhas com as mãos. Resumi a história.

É lógico que naquele momento eu estava muito nervosa, narrei tudo aos atropelos; mas agora posso contar o que aconteceu com mais calma e com mais detalhes.

Houve um verão que passei em uma dessas praias do litoral paulista, o nome não importa, sei que na época era quase deserta. A areia era comprida e do outro lado da rua viam-se poucas casas. Éramos mais jovens e gostávamos muito do local. À noite, íamos à praia para namorar. Cada rapaz ou moça tratava de arranjar seu par, mesmo que fosse apenas para o momento. Então nos agarrávamos num intenso corpo a corpo sobre a areia, um namoro quente no escuro da noite. Às vezes soprava um vento morno, que delícia... Dava vontade de grudar ainda mais no parceiro e fazer tudo o que se podia imaginar. Mas em uma daquelas noites aconteceu algo imprevisto. Eu estava com um rapaz da minha idade, já saía com ele havia vários dias. Ele era carinhoso, me beijava muito e gostava de tirar toda a minha roupa. Eu permitia, deitava com ele inteiramente nua. Estávamos no auge da excitação – eu ardia em fogo invisível – quando percebi um pequeno tumulto. Algumas pessoas começaram a correr, a fugir dali. Eu, a princípio, não entendi o que estava acontecendo; mas aí ouvi alguém que gritou: "é a polícia, fujam, fujam!" Era um tempo em que não existia a chance de se estar à vontade como hoje. Namorávamos às escondidas na praia e em lugares escuros; a polícia, porém, era o que mais temíamos. Meu namorado deu um salto e mergulhou dentro da noite. Tentei recolher minhas roupas, mas de repente me vi sozinha, todos tinham desaparecido, não sabia o que fazer. Então também corri. Mas, ao contrário dos outros, acabei atravessando a pequena estrada. No outro lado, a uma distância de uns trinta metros, vi uma casa; uma luz fraca brilhava no lado de dentro. Corri para lá. Na verdade, invadi a casa. Ao ultrapassar a varanda, descobri um senhor, que via TV. Ele notou que alguém se aproximava e olhou para onde eu surgia. Morri de vergonha. Ao me avistar, no entanto, não demonstrou surpresa alguma.

"Vejamos o que podemos fazer, sente-se, não tenha medo, não vou lhe fazer mal". Apontou-me o sofá.

Eu, sem jeito, não ousei sentar. Continuei com um dos braços tentando cobrir os seios, enquanto o outro, sem rumo, não encontrava pouso. O homem se levantou, parecia que ia a algum lugar, mas estacou.

"Tenho uma piscina de água quente", disse, "você não quer relaxar um pouco? Depois desse susto, creio que não há nada melhor."

"Piscina de água quente?", ainda repeti; animei-me, "é, nada mal".

Levou-me a seguir até a sala de banhos; isso mesmo, a casa tinha uma sala de banhos, que ficava nos fundos. Mostrou-me a pequena piscina de estilo oriental; a água estava quente, uma delícia. Entrei. Só dentro d'água é que soltei os seios. Fiquei de molho durante um bom tempo. Depois ele voltou com uma toalha grande, felpuda. Aí tomei coragem, saí de busto erguido, fui até ele para que me enrolasse nela. Dali em diante, minhas férias foram passear com ele e estar na casa dele. Uma descoberta maravilhosa. E quando acabou a estação, retornamos juntos a São Paulo, onde continuamos a viver nossa temporada de sonhos.

sábado, agosto 11, 2007

A dama de espadas

– Pode me deixar junto àquele poste.

– Mas como, você está nua, são três da manhã, como vou deixá-la assim?

– Pare, foi o que combinamos.

– E suas roupas?

– Não há problema. Durante o dia eu mando alguém pegá-las.

Marinete saltou do automóvel com naturalidade. Pôs-se de pé sobre um sapato de saltos bem altos, carregava uma pequena bolsa a tiracolo que mais parecia um porta maço de cigarros. Ali dentro tinha realmente cigarros e o celular.

– Vamos, dê a partida, – ordenou batendo com uma das mãos na porta, enquanto Manoel hesitava em deixá-la ali naquele estado – depois eu lhe telefono para combinarmos outro programa.

O automóvel partiu vagarosamente. A rua se encontrava às escuras. O local era bastante deserto. Marinete caminhou até uma banca de jornal e agachou-se. Pressionou uma das teclas do celular. Quando atenderam, apenas disse:

– Pode vir. Estou na rua A esquina com a F.

Quinze minutos depois, um Peugeot preto parava no local. Marinete saiu de onde se escondia e entrou.

Esse jogo era uma fantasia que se dava quase que semanalmente. Foi a solução que o próprio marido arranjou para salvar o casamento. Este já ia naufragando, quando ele mesmo teve a idéia.

– Precisamos fazer algo estimulante.

– O que você sugere?

– Que você saia nua pela cidade.

– Como?

– Isso mesmo, ou melhor, você sai vestida, tem seus casos à vontade, mas precisa chegar nua em casa. Se você quiser, eu mesmo vou buscá-la, basta telefonar. Mas lembre-se, tem de estar pelada. A única coisa que eu admito são os sapatos. E de saltos bem altos.

Inicialmente, a mulher resistiu. Já havia muito que não era fiel, teria maior liberdade, mas tal proposta pareceu-lhe perigosa. Pediu uns dias para pensar.

Acabou aceitando a título de experiência. Deu-se a primeira vez. Apesar de trêmula e inundada de um suor frio, gostara. O amante também fora apanhado de surpresa. Não conseguia entender a razão daquela situação e nem ela explicou-lhe. Pouco a pouco, porém, tornava-se cada vez mais excitado. Ela nunca lhe contava como fazia para chegar nua em casa, sem ser percebida. Na verdade, a coisa acabou dando certo pelos dois lados: o amante e o marido passaram a desejá-la mais.

O casamento melhorou em todos os aspectos. A partir do momento em que começaram a praticar tal fantasia, tudo se transformou. O marido se tornou mais carinhoso e lhe era absolutamente fiel. Presenteava-lhe regiamente e cada vez que a resgatava se tornava mais fascinado pela mulher. Ao entrar em casa com a mulher nua, ao colo, apenas de sapatos de salto, atirava-a na cama e faziam um delicioso amor.

Noutra ocasião, surpreendeu-se com uma nova proposta dele:

– Agora, você precisa mudar de par. Cada vez saia com um diferente.

– Olha, você não acha que já estamos indo longe demais?

– Absolutamente, garanto que você vai gostar ainda mais.

Ela teve um trabalho danado para se arranjar nessa nova situação. Havia dois problemas. O primeiro era a surpresa dos homens. Transavam com ela, depois tinham de dirigir com uma mulher nua ao lado e obedecer-lhe sem fazer perguntas. O segundo era a grande quantidade de roupas que perdia. Como as recuperaria? Mas o marido dizia:

– Não faz mal, amanhã compramos outras.

Numa das madrugadas, ao descer do carro, já na garagem do prédio, observou uma carta de baralho deixada sobre o piso. Abaixou-se para pegá-la. Tomou-a nas mãos e a desvirou: era uma dama de espadas.

A figura austera e fria da mulher causou-lhe desconforto. Sentiu um ligeiro tremor.

No apartamento 402 morava uma mulher sozinha. Chamava-se Helenice. Não era feia. Flertara com um homem que morava no apartamento ao lado, homem também sozinho, mas com quem nunca conseguira estabelecer uma relação maior do que a de vizinha. Descobriu, certa vez, Marinete no apartamento dele. Foi um caso único, mas Helenice jurou vingar-se.

Sua estratégia foi acompanhar passo a passo a vida do casal. De início, não reparara nada demais. Em determinado dia, porém, acordou de madrugada e foi à cozinha beber um copo d água. Ouviu um barulho vindo do elevador de serviço. A porta se abriu. Primeiramente saiu o marido, depois a mulher inteiramente nua. Viu tudo pelo olho mágico. Ficou sem entender aquela situação.

Montou guarda quase que diariamente. Passaram-se alguns dias e nada de novo aconteceu. De repente, no mesmo dia, mas na semana seguinte, a cena repetiu-se. A partir de determinada semana, reparou que os episódios passaram a acontecer duas vezes na semana. Elaborou então um plano.

Reparou que nos dias em que a cena se dava, o telefone da casa deles tocava de madrugada, o marido saía só e vinte minutos depois ambos chegavam juntos. Conseguiu ouvir a conversa algumas vezes e não descobriu nada demais. Ouvia apenas o marido dizer: "sim, sim, já estou indo".

Pensou em segui-lo, mas logo concluiu que teria um trabalho terrível. O adiantar da hora fazia qualquer perseguição inviável. Uma brilhante idéia salvou-a. Passou a esconder-se na garagem. Quando eles chegavam, tentava ouvir alguma coisa. Aos poucos, juntando as raras palavras que ouvia, acabou se inteirando da situação. Faltava apenas saber mais uma coisa: de onde vinham. Certa vez teve uma confirmação. Ouviu-o dizer:

– Você precisa tomar mais cuidado. Já apanhei você em todas as esquinas da rua A, e ela anda muito movimentada atualmente, é melhor mudar um pouco.

Helenice não precisou ouvir mais nada.

No dia em que colocou em prática seu plano, o coração pôs-se aos saltos desde o anoitecer. Preocupou-se em se certificar de que Marinete havia saído e não voltara. Ouviu a televisão alta no apartamento deles até altas horas da madrugada. Uma hora antes do horário em que o telefone costumava tocar, Helenice deixou o prédio num táxi. O telefone tocou como de costume:

– Pode vir, estou na rua B com a C.

– Ah, mudou? Que bom! Mas sua voz está diferente, o que houve?

– Estou gripada, e venha logo. Algo deu errado.

Ele sentiu um tremor de excitação ao ouvir a palavra "errado". Saiu em disparada. Quando chegou ao lugar indicado, primeiro não viu ninguém. De repente ouviu um toc-toc na porta do carona. Abriu. Uma mulher inteiramente nua sobre sapatos de salto alto invadiu-lhe o automóvel. Só reparou que não era Marinete, quando ouviu a voz:

– Vamos, meu amor, seu negócio hoje é comigo.

Voltou os olhos, surpreso, para a mulher. Era Helenice, a vizinha.

domingo, julho 29, 2007

Lígia

O sol ardente de fevereiro tornava ouro as lindas serras da Tijuca. Que manhã encantadora. O céu descia do mais puro azul; o verde da relva e da folhagem sussurrava entre gotas de orvalho, refletindo toques de luz. Flocos de névoa, restos da cerração da noite, envolviam ainda as escarpas mais altas da montanha como renda flutuante ao sopro da brisa; tal qual a montanha, a neblina também me envolvia, como manto único e quase transparente.

Havia alguns anos que começáramos a guiar até onde a serra permitia; abeirávamos o caminho de terra e nos agarrávamos primeiro dentro do automóvel, mais tarde fora dele, sobre a vegetação já fria e úmida de sereno. Embrenhávamos inteiramente nus por trilhas e veredas seguras para nós, sítios ocultos no meio da mata, conhecedores que éramos dos espaços às vezes exíguos entre árvores e arbustos. Sentíamo-nos parte do lugar. Vivíamos o ardor da paixão; não perdíamos qualquer oportunidade para nos engolirmos mutuamente. Freqüentadores da floresta em hora tardia, temíamos que alguém nos descobrisse; mas acho que na verdade nos excitávamos ante tal perspectiva. Quando avistávamos outro veículo, ou outro casal que também namorava, tentávamos espioná-lo. Divertíamo-nos.

Até então estivéramos sob o véu da noite, tendo como contorno luminoso apenas os vaga-lumes estelares, piscar alternado de explosões celestes em eras distantes.

Durante o dia, entretanto, era a primeira vez.

Eram sete horas. Apostávamos no amanhecer ainda deserto daquele domingo. Subimos por um atalho novo; pensávamos conhecer todos os caminhos e eis que havia surgido um novo. Tudo incentivava à aventura: a luz forte do sol, a névoa que se dissipava veloz abandonando-nos em pele e pêlo e a vereda recém descoberta.

Caminhamos durante uns bons quinze minutos; adentramos um campo florido, de árvores baixas, tendo ao fundo uma pequena cabana.

Contornamos a rústica construção; íamos cuidadosos. Num primeiro momento, parecia desabitada. Caminhamos para o lado sul e percebemos através de uma das janelas um casal que dormia. O homem e a mulher estavam nus. Os minutos que ficamos a observá-los foram longos e intermináveis. Eu, intempestiva, forcei a porta da sala. Estava aberta. Entrei; procurava ir em silêncio; sentia-me borboleta primaveril que mergulha límpida no ar rarefeito da manhã, sem fazer ruído algum. Deslizei lépida por pequeno corredor. Atravessei a sala e logo me vi no quarto onde dormiam. Tudo era silêncio; podia ouvir a respiração de ambos. Sobre o encosto da cadeira, junto à penteadeira, tomei nas mãos um vestido curto, de cor vinho; parecia roupa própria para noite. Senti a fazenda macia, o corte perfeito, tive vontade de vesti-lo.

Caiu-me na medida. A bela roupa fora cortada e costurada para mim. No corpo, percebi ser um autêntico Versace. Corri a Alberto que me esperava temeroso; não entrara à casa. Surpreendeu-se ao me ver vestida.

– Que roupa linda!

– A mulher tem bom gosto.

– Vai levá-la?

– Claro que não; nunca fui ladra, não haveria de sê-lo agora.

– E por que a veste?

– Para que você me coma vestida com um autêntico Versace.

Alberto encostou-me a uma das paredes externas, levantou o vestido e penetrou-me. Trepamos durante um bom tempo. Trememos quando ouvimos alguém se mover sobre a cama. Quis despir-me e atirar o vestido sobre a mesma cadeira; não queria ser surpreendida naquele estado. Mas, de repente, o silêncio se estendeu de novo; nos mexemos então com mais furor. Tive o cuidado de não sujar a peça valiosa.

– Quem são eles? – perguntou Alberto depois que acabamos.

– Não sei; mas a mulher não me é estranha; e esse vestido não é de qualquer uma.

– Vai ver que aproveitaram a noite e agora dormem.

– Isso – disse eu –, ela não parece com aquela modelo e atriz que se chama Juliana?

– Isso mesmo, bem lembrado, acho que é ela! e então, vai deixá-la nua?

– Já disse que não, vou devolver.

Descemos o trecho da montanha tendo todo o cuidado de não cruzarmos com os primeiros caminhantes. Abaixávamos junto ao córrego que nos acompanhava ou atrás de alguma árvore maior sempre que nos ameaçava algum grupo de jovens que ia aos pontos mais elevados da serra. Mais adiante, seguimos por dentro da mata. Ao chegarmos próximos ao nosso automóvel, reparamos um casal que namorava encostado nele. Fiz voar uma pedra que se chocou contra o solo dez metros à frente. Os namorados se assustaram e partiram.

Como disse, foi a nossa primeira aventura diurna.

E o meu primeiro Versace.

marg_57a@yahoo.com.br

quarta-feira, julho 04, 2007

Carinhosa

Tudo que existe em mim de grave e carinhoso te digo aqui como se fosse ao teu ouvido; nas ondas da praia, nas ondas do mar, quero ser feliz; quero banhar-me nas águas límpidas, quero banhar-me nas águas puras, que apenas me vestem original; como me deixaste na madrugada que ainda ia escura, o corpo a reluzir explosões astrais; minha pele é dourada e vou sob céu de estrela única, à espera de que voltes e deslizes sobre meu ventre teus dedos, pincéis de cores quentes; as ondas do mar me cobrem, são trajes de festa, roupa feita de espumas compridas, véus que se estendem por areias antigas, brancura transformada em diadema real; mas que, súbito, escapam-me, deixam-me nua, tornam plebéia à princesa, loura encoberta apenas por respingos de sal; não demoram as ondas, outra vez são generosas e se apressam a me dar prumo, a lavar-me, a vestir-me noiva generosa que aguarda algum tipo de deus; talvez Apolo a me deixar lívida, ou Marte a me tornar trêmula; mas aí vem Vênus ciumenta que, sem poder roubar-me o namorado toma-me, ainda que por empréstimo, o vestido real.

domingo, junho 17, 2007

Eu e Lu comemos todos eles

Ao entrarmos no carro ainda olhei para Luciana, queria lhe dizer que um mal presságio alfinetava-me. Mas a manhã ia alta, era de sol, o tráfego lento, nada melhor do que uma carona até a praia. Os rapazes eram bonitos, viris, corpos bronzeados pelo sol. Não gostei quando um deles me abriu a canga; alegava querer ver meu biquíni. Depois nos mostrou dois biquínis mínimos. Traziam-nos no porta-luvas. Desconfiei; como dois homens tinham dois biquínis no carro? Não perguntei. Luciana se assanhou. Gostou da cor e do modelo. Ele ofereceu, que o vestisse, não iria olhar. E não é que ela, muito rápida, fez a troca. Me falou em voz baixa:

"Entra todo atrás, na frente foi a conta."

Ela entregou o outro, o que viera no próprio corpo. Ele tomou nas mãos as duas peças e sussurrou:

"Bonito."

Guardou no mesmo lugar de onde tirara o novo. Olhou então para mim. Fiz que não com a cabeça. Luciana me beliscou.

"Eles querem nos fazer um agrado."

Estava decretada a sentença. As duas, na verdade, nuas com aqueles trajes.

Ao escolhermos um pouso na praia, não fiz menção em desamarrar a canga. Minha amiga dançou natural, era bailarina nativa envolta em névoa de sal.

"Lu, isso pode não dar certo, não os conhecemos."

"Deixa disso, é tudo um grande divertimento."

Ela aceitou o convite do que viera dirigindo e voltou com ele para o carro. Eu e o outro nos estabelecemos num pedaço de areia que parecia esquecido pelas outras pessoas. Não demorou minha amiga e seu par voltaram.

"Não dá para namorar no carro; além do calor, sempre surge alguém, nem nos pudemos tocar."

"Você não acha que é cedo para essas coisas?"

"Não. A proposta dele é irrecusável, e olha que inclui você!"

"Quanto a mim, deixa que eu decido."

"Dá um chute; quanto você acha que eles nos ofereceram?"

"Lu, não somos prostitutas."

"O que é que tem?, é apenas um faz de contas. Mas vai, dá um palpite, fala um valor", ela continuava, sua expressão tinha ar de ironia.

"Olha, Lu, eu vim com a intenção de aproveitar a praia..."

"Posso dizer o valor?"

"Está bem, diz."

"Quinhentos, mesmo que você não queira, caso aceite, a proposta é mil."

Suspirei surpresa.

"Mil?, tem certeza?, eles devem estar de brincadeira."

"Não é brincadeira nem mentira, mil só para começar, ainda podemos ganhar muito mais. Já pensou, a gente vem à praia para tomar sol, dar um mergulho e consegue ganhar ainda essa grana toda."

Um deles se aproximou e sugeriu:

"Que tal um mergulho?"

"Só um momentinho", falou minha amiga.

Ele entendeu e se afastou alguns metros.

"Há um porém", continuou Luciana.

"Um porém?"

"Isso."

"Qual?"

"Não são só os dois."

"Há mais rapazes?"

"Três ou quatro."

Luciana acabou me convencendo, sobretudo quando disse que o que viera ao volante era um parente distante de uma amiga dela e que tinha certeza de que eles não iriam nos fazer mal algum. Me assegurou também que eram ricos.

Mergulhamos e fomos para onde estavam os dois. Começaram a nos tocar de forma sugestiva. Meu par tateou-me a cintura, percorreu a lateral do meu corpo com a ponta do dos dedos, depois deslizou as mãos pelas minhas costas. Segurei-o de forma carinhosa, correspondendo a seus afagos. Não é preciso dizer que logo senti seu membro ereto, que avançava entre minhas pernas. O rapaz puxou meu biquíni por baixo e me penetrou. Reparei que seu pênis estava com camisinha e isso fez a penetração se tornar mais fácil.

"Não seria melhor namorarmos à noite?", sussurrei em um de seus ouvidos, enquanto ele se movia e tentava sentir com mais intensidade meu corpo.

"Por que não agora e também à noite?"

As pessoas que estavam nas proximidades não eram muitas e não se ocupavam conosco. A água estava quente e o mar calmo. Foi uma trepada demorada. O pênis escorregava devido a lubrificação da camisinha e devido à água, o que fazia a fricção um tanto frágil. Ele só gozou quando segurei seu membro pela base e o puxei na direção contrária a que ele me penetrava. Com essa estratégia, ele sentiu intenso prazer.

"Você agora espera um pouco; faz parte do trato."

"Espero".

"Só que tem mais uma coisa", ele falava um tanto sem jeito.

"O quê?"

"Você tem que me dar o biquíni."

"Você vai me deixar nua?"

"Não só você, mas ela também", e apontou a Luciana, que naquele momento se soltara do seu par, "é apenas por algum tempo, depois a gente devolve, sua amiga já sabia disso."

Olhei assustada para Lu. Ela procurou me tranqüilizar.

"É sobre aquilo que eu disse a você", falava e fazia movimentos com os olhos, tentava pedir que eu facilitasse as coisas.

Ela tirou o próprio biquíni e entregou ao rapaz que transara com ela. Como eu hesitava, ela própria avançou sobre mim, desfez meus laços e me deixou nua.

Eles se foram.

"Lu, se esses caras não voltam, nós vamos passar a maior vergonha", falei desesperada.

"Fica calma, tudo vai dar certo."

Logo chegaram outros dois. Depois descobri que os primeiros fizeram uma grande aposta com os amigos e nós, nuas, éramos parte de tudo aquilo.

Trepamos com mais três, cada uma. Todos eles vieram de camisinha, foram trepadas limpas. A cada um que gozava e partia, eu perguntava pelo meu biquíni. Eles não sabiam dizer.

Houve um que me proporcionou muito prazer. Descobriu em meu corpo sutilezas difíceis a um homem comum. Me fez gemer, me fez atingir altitudes impensadas, orbitar em torno de estrela cintilante e só não me perdi porque prendia-me o corpo eixo rígido mas confortável. Quando gozei me arrependi, porque voltei a lembrar que estava inteiramente nua numa praia, num dia de sol.

"Lu, estou exausta, se vier mais alguém acho que desmaio", sentia minhas pernas bambas após a partida do quarto homem."

"Eu acho que os primeiros estão voltando, olha lá."

Voltei-me para a direção a que ela apontara e reparei os rapazes que nos trouxeram de carro.

Ao chegarem, perguntei ao que ficara comigo:

"Cadê meu biquíni?"

"Calma, não vamos deixar vocês nuas", ainda perguntou: "está tudo bem?"

"Só vai estar bem quando eu me sentir vestida e puder descansar um pouco."

Luciana riu das minhas palavras. Nos deram de volta os biquínis, estavam dentro de suas sungas.

Um deles ainda falou com ar de deboche:

"Será que você, laçada por esse biquininho, se sente tão vestida assim?"

Permanecemos deitadas sobre nossas cangas durante um bom tempo. Depois, o que viera ao volante falou:

"Nós vamos pegar vocês às nove da noite, combinado?"

Olhei mais uma vez sem entender para Luciana.

"Combinado", ela disse.

Um deles ainda acrescentou:

"Não precisam se preocupar quanto às roupas; nós vamos vestir vocês.

Deixaram uma parte do dinheiro e se foram. Escreveram num pedaço de papel o endereço onde deveríamos encontrá-los.

Luciana virou-se para mim e falou:

"Não disse?, não precisamos ter medo; hoje é nosso dia de sorte!"

"Só falta eles querem que andemos nuas à noite pela cidade."

O bar principal do Peró estava cheio às nove horas. Esperamos durante algum tempo junto à entrada. Um dos garçons nos chamou e indicou uma das mesas ao lado esquerdo. Os dois estavam lá. Perguntaram o que queríamos comer. Feitos os pedidos, conversamos os quatro. Eles pareciam bastante entusiasmados.

"Quando acabarmos o lanche, vamos levar vocês duas a um lugar que com certeza vão gostar muito."

Eu e Lu insistimos em ficar algum tempo por ali. Tomei uma caipirinha e ela uma taça de vinho. Comemos salada de palmitos e alguns pedaços de carpaccio. Estava tudo muito gostoso.

Eles pediram a conta e depois caminhamos para o carro deles. O que entrou junto ao volante falou:

"Agora, vamos vesti-las."

"Não estamos nuas", falei, "e até que estamos bem vestidas."

"Mas nós temos alguma coisa mais excitante", disse ele.

Fomos até a casa deles. Uma casa imensa, bonita, com gramado e piscina na parte de trás. Ensaiamos um início de namoro. Começamos a correr para que nos pegassem. Desta vez quem me perseguia era o que ficara com a Lu pela manhã. Ao me alcançar, segurou-me com força e me levou para a grande sala. Ali havia um sofá espaçoso. Ele não me despiu, arrancou minhas roupas com violência. Trepamos. Ele mordia-me os seios, apertava-me as costas. Abri as pernas para recebê-lo. Fazíamos movimentos compassados, um balé exato, ensaiado desde tempos imemoriais. Quando íamos adiantados, lembrei-o da camisinha... Ele foi pouco a pouco diminuindo os movimentos, parecia que ia gozar, mas em gestos também lentos, sem me abandonar, dobrou o corpo e tirou não sei de onde o tal objeto. Fez que eu abrisse a boca, quis saber se me era possível conseguir aquela proeza. Rápido, soltou-se e trouxe o pênis à altura de minha cabeça. Eu, com a camisinha à boca, numa posição transversal, vesti-o, de forma exuberante, sem usar as mãos. Voltou então a trazer seu pênis por entre minhas pernas. Gozamos juntos, jorrando fogos de artifícios.

Ainda nua, de bruços sobre o sofá, senti leve tapa nas nádegas. Era Lu, também nua, rindo para mim. " Você precisa ver a roupa que eles vão nos fazer vestir!" , não é preciso dizer que ela não continha o próprio entusiasmo.

Após tomarmos banho, Lu vestiu um tomara-que-caia preto, justíssimo no corpo. Deixava-a com as pernas toda de fora; o comprimento mal ia além da virilha. A mim, cobriu-me um vestidinho de corte camiseta na parte da frente, prateado, também curtíssimo; atrás, a cava era funda, deixava minhas costas despidas; o tecido só se juntava poucos centímetros acima do bumbum, cobrindo-o de forma ainda que precária. As sandálias altas que eu usava destacavam minhas pernas com agressividade. Eram roupas boas, de grife, próprias para modelos. Ofereceram-nos também alguns acessórios, como dois braceletes quadrados para mim e um colar corrente para minha amiga.

Lu falou-me, tinha os olhos brilhantes:

"Você está gostosíssima com essa roupa."

"Roupa, que roupa?", brinquei, "estou pelada."

Ao nos chamarem para sair, fiz um gesto aos rapazes.

"Vocês não acham que falta alguma coisa ?"

Não quis ser deselegante, mas queria dizer que me sentia nua com apenas aquele leve tecido roçando-me o corpo.

Minha amiga riu e fez sinal para que eu não fosse além daquelas palavras. Eles entenderam e o mais desinibido falou:

"Faz parte do trato", e depois de alguns segundos completou: "e da aposta."

Luciana encerrou o diálogo:

"Fique calma, vamos sair ganhando."

Eu queria entender por que os outros não vinham àquela casa e trepávamos ali mesmo, por que tanto deslocamento. Entramos no carro, rodamos durante algum tempo pela cidade e depois pela orla.

"Já está tudo arranjado, vocês não precisam temer, as coisas vão se dar como pela manhã. Os rapazes são os mesmos, invertem-se as mulheres."

Ao saltarmos, deram-nos longos beijos e um até breve.

"Como vamos saber quem são os rapazes?", perguntei um tanto confusa, enquanto segurava a barra do vestido.

"Calma, amiga, não tenha tanto pudor, deixe o vestido solto; quanto aos rapazes, já os conhecemos, não lembra?"

" Nem faço idéia, estava tão nervosa."

Não se atrasaram os dois primeiros. Deitaram sobre a areia da praia, fizeram que agachássemos e nos mexêssemos sobre eles. Depois, meu par levantou-me o vestido até o pescoço e apertou meus seios; queria me fazer gozar, mas eu estava muito nervosa.

"Relaxe, meu amor, por que tremes tanto?", ouvi sua voz e acho que enrubesci; sorte que a noite ia escura.
Ao terminar, acendeu um baseado e me ofereceu. Dei dois tragos seguidos e profundos. Creio que foi o que me acalmou. Dali em diante, tive domínio sobre mim e o temor era alguma coisa distante, quase impossível de me atingir.

O segundo que apareceu era muito carinhoso. Mas já não era na praia que transávamos. Levaram-nos de carro até um campo aberto, o edifício mais próximo parecia o de uma igreja.

"Não precisa se benzer, está desativada", falou enquanto percorria minha pele por baixo do vestido.

Foi um namoro lento. Dali ainda fomos para uma pedra num dos pontais distantes, na orla novamente; ao longe viam-se pescadores, mas não deram por nós. Ele tirou toda a minha roupa. Como estava ventando, procurou uma pedra para que o vestido não se perdesse. O namorado da vez queria me beijar na boca quase sem parar. Tocava-me o corpo, os seios, meus poucos pêlos e tornava a me beijar. Depois de muito tempo, tirou o pênis, cobriu-o com uma camisinha e me penetrou; não demorou, soltou-se, virou-me de costas.

"Não, não, não combinamos isso", falei nervosa e olhei para Lu.

Ela, sem vergonha, já havia muito ia de dorso para cima.

Deixaram-nos no centro. Só dei por minhas roupas curtas quando reparei que as pessoas nos olhavam com insistência. Mas não liguei, fingia que era a mulher mais vestida do mundo.

Pararam dois motociclistas. Descobrimos que eram os dois que faltavam. Subimos. Levaram-nos para um bairro de casas baixas. Quando pararam em uma das ruas, puseram-nos inteiramente nuas. Abri as pernas encostada a um muro branco. Eu e Luciana. Foi uma trepada violenta. Ele se movimentava de modo ríspido, não respeitava minhas limitações; acho que seu pênis era muito grande para mim. Mas suportei tudo com o ardor de uma atriz experiente. Lu também sofreu nas mãos de seu homem, e, mais tarde, quis saber se quando transara comigo pela manhã aquele seu par havia me machucado. Eu disse que não, fora o mais agradável e carinhoso.

Quando terminaram, fizeram-nos subir nuas na garupa. Não tivemos alternativa. Qualquer argumento poderia nos levar ao fracasso. Talvez fizesse parte da aposta, duas mulheres apenas com os sapatos e a pequena bolsa a tiracolo.

Cruzaram o centro duas vezes. À primeira, em alta velocidade; à segunda, mais lentos, atraindo olhares. Pararam enfim no que parecia ser os fundos de um galpão. Abriram a porta e nos instruíram.

"Sigam toda a vida e entrem rápidas na última porta à esquerda. Não dêem atenção a qualquer pessoa que apareça, finjam que ela não existe."

"Mas e nossas roupas?", perguntei.

Lu me puxou pelo braço.

Fizemos o que ordenaram.

Um senhor tentou no deter. Duas mulheres nuas seguindo por um corredor comprido. À medida que chegávamos à tal porta, ouvíamos intenso som. Abrimos e entramos. O senhor que tentara nos impedir a passagem ficou pelo meio do caminho. Nosso percurso terminou no mezanino de uma boate. As luzes convergiam para a pista, onde muitas pessoas dançavam alucinadas. O local reservado a nós era exíguo, e logo que nos situamos, a luz nos acertou em cheio.

"Dance, dance!", gritou Lu para mim.

Dançamos vigorosas e sensuais. Os homens, no piso inferior, deliravam. Saltavam, queriam nos alcançar, mas não conseguiam. Expusemo-nos por três ou quatro músicas, cerca de vinte minutos. Quando as luzes se apagaram, sentimos que alguém nos puxava pelos braços. Eram os rapazes da primeira hora. Chegavam para nos salvar, traziam os vestidos curtos que haviam ficado com os motociclistas.

Nos deixaram no mesmo bar do início da noite. Eu e Luciana nos despedimos deles. Pagaram-nos além do combinado. Após partirem, lembramo-nos de nossas roupas que ficaram na casa deles; mas era tarde.

Estávamos famintas. Olhamos o cardápio e pedimos um jantar para nós duas. Um prato que vinha com frango, batatas cozidas e salada de alface.

A comida estava boa. Bebemos dois chopes. Ao acabarmos, no momento em que vinha retirar pratos e talheres, a garçonete deixou um bilhete junto a mim.

Tomei-o nas mãos. Estava escrito num inglês confuso, mas entendi do que se tratava. Numa mesa mais adiante, sentavam-se dois homens, que mais tardes viríamos a descobrir serem dinamarqueses. Quando os olhei, um deles me fez sinal. Com alguma dificuldade traduzimos o que estava escrito. É lógico que queriam sair conosco, nos levar a algum lugar e dar uma boa trepada. Mas havia uma exigência.

"Queremos levar de lembrança suas calcinhas."

A frase fez que eu me sentisse mais uma vez inteiramente nua.

"E agora?", perguntei à minha amiga; acrescentei com voz insegura: "você não acha que já ganhamos o suficiente?, não demora amanhece e nós estamos quase nuas, vai ser outro escândalo."

"Calma, hoje é nosso dia de sorte, não podemos perder a oportunidade. Se houver algum problema, deixa que eu resolvo. Vou combinar para que nos deixem em casa depois que lhes prestarmos o serviço", falou com certo sarcasmo, seus olhos brilhavam.

Vi minha amiga fazer sinal para que aguardassem um pouco. A seguir, ela disfarçou e se dirigiu a uma mesa onde três moças adolescentes conversavam. Após alguns minutos, levantou-se e foi seguida por uma delas em direção ao banheiro.

Não passou muito tempo, Lu apareceu junto a mim.

"Está tudo resolvido, levante-se e vá até o banheiro, uma das moças seguirá você."

"E por quanto saiu isso, Lu?", não era hora para perguntas, mas me escapou.

"Não saiu caro, garanto, e elas até acharam tudo muito divertido."

sexta-feira, junho 01, 2007

Sol de outono

O sol da tarde perdia-se em afagos sobre nossos corpos. As areias brancas se estendiam até encontrarem dois rochedos onde, ora com fúria ora com desleixo, ondas faziam-se espumas. À esquerda, a praia dava num costado de vegetação marinha, cordões de restinga. Mais adiante percebiam-se as últimas casas de uma vila, casario de veranistas, pareciam desertas quando fora de estação. Pedíamos que a luz quase crepuscular nos fosse generosa; queríamos a pele dourada e o corpo aquecido, apesar do vento de outono.

Foi então que ele apareceu. Surgiu sorrateiro, sem que o percebêssemos, e só demos por sua presença quando estava próximo aos rochedos. Trazia as mãos às costas, destacava-se nele o casaco marrom. Caminhava como se não tivesse visto viva alma, depois parou e pôs-se a olhar um ponto no oceano. Permaneceu assim durante longos minutos. E nós, ali, quase nuas...

Já havíamos estado naquele lugar em uma noite de verão, eu e Cecília, bêbadas e acompanhadas de dois homens. Entramos nuas no mar. Ao voltarmos à areia, com o corpo ainda a escorrer água salgada vestimos a mesma camisa de um deles. Devia ser engraçado e estranho a visão de duas mulheres dentro de um camisão: ora ficávamos frente a frente, seios contra seios; ora uma costeava a outra fingindo um sarro gostoso; ora roçávamos nossas nádegas. Braços e pernas faziam-se em dobro pelas mangas e barra da camisa; às vezes eu levantava a parte que a cobria deixando seu bumbum de fora; depois ela revidava fazendo o mesmo comigo. Fingíamos então um pudor que não tínhamos. A cabeça de cada uma escapulia pela mesma fresta apertada. Transformamo-nos em pequeno monstro. Mas monstro que não perdia o poder sedutor. Quando me atirei nos braços de um deles, pedi que me penetrasse com esmero e plenitude, queria senti-lo rígido. Depois, sussurrei que guardasse o gozo, deixasse para despejá-lo em minha boca; queria comer aquele homem como num ritual indígena, quando o bravo oponente é ingerido para tornar mais forte o herói vencedor; seu sêmen seria parte de meu sangue.

“Tô morrendo de vergonha, só de calcinha...”, a voz de Cecília chegou a meus ouvidos e continuou adiante, levada pelo vento. “Deixa de frescura, vai dizer que você não está gostando?”, redargüi. “Eu não estava preparada”, ainda teve tempo de dizer. Levantei-me, também seminua, meus seios saltaram, foi a única vez que o vi olhar em nossa direção. Depois, como chegou, desapareceu, enquanto nos refazíamos do ligeiro tremor, rastro de sua presença.

No final da tarde, ainda os afagos do sol, mas menos tácteis, distantes, não mais se importando conosco; assim como o estranho, que fez pouco caso de nossa nudez.

marg_57a@yahoo.com.br

sexta-feira, maio 25, 2007

Piano

Visitei uma amiga que mora num desses prédios imensos, em Copacabana, construção típica do bairro. Ao nos despedirmos, ela falou em voz baixa:

"Quando você dobrar o corredor e passar na frente do apartamento que fica logo à direita, não olhe nem pare, o homem que mora ali é perigoso."

"Como assim?" quis saber.

"Já tentou agarrar várias mulheres."

"Ah, que besteira; segrede-me, será que você não gostaria de ser agarrada?"

"Sim, só que não por ele; é nojento."

Segui em direção ao elevador. Ao passar pela porta proibida, fisgou-me intensa curiosidade. Dizem que nas despedidas não se deve olhar para trás, e que, da mesma forma, deve-se passar ao largo de algo que nos tenta. Mas, como gosto de aventuras, quis mergulhar em mais uma.

Na verdade, o que pude ver em primeiro plano foi um piano. Estaquei junto à porta e admirei o nobre instrumento musical. A seguir, percebi que a casa era arrumada ao extremo: um pequeno sofá, uma mesa, dois quadros na parede de fundo. Pensei não haver ninguém. Quem sabe o perigoso ser masculino saíra e esquecera a porta aberta, ou mesmo armara o alçapão.

"Que deseja a belíssima senhora?"

Apareceu-me o homem. E era belo. Alto, um tanto desgastado na face pelos anos, mas os cabelos eram branquíssimos e limpos. Refiz-me da surpresa.

"Desejo uma música."

"Tenha a bondade", conduziu-me aposento adentro, ofereceu-me cadeira confortável.

"Alguma preferência?", perguntou sério.

"Comecemos pelos clássicos: Chopin!", pronunciei com entusiasmo.

"Comecemos?", repetiu, "então teremos um tipo de concerto".

"És um cavalheiro", completei.

As teclas soaram graves, seus dedos percorreram a parte baixa do instrumento para depois se esmerarem nos sons mais altos. Reparei que as mãos do pianista eram grandes e largas, pareceriam grosseiras se fossem admiradas longe dali. Mas sobre marfim quase níveo, intercalado de bemóis e sustenidos, corria ligeira, hábil, percebia-se que ele fora talhado para tal arte. Ouvi com prazer a primeira peça. Ao terminá-la, sugeri:

"Que tal fecharmos a porta? Assim o concerto se torna mais reservado."

"Oh, queira me desculpar", de pronto levantou-se, fechou a porta e voltou à banqueta. Espraiou as mãos e esperou nova sugestão.

"Beethoven", sussurrei.

"Não seria um tanto trágico?"

"Depende do momento e da peça", sentenciei.

Suas mãos deslizaram de novo, lançando-me à deriva, imersa num mundo de som e cor.

Quando terminou, perguntou:

"Que tal Evans?"

"O Bill?"

"Sim, ele; as big bands eram compostas de pessoas alegres, viviam em estado de contínuo êxtase", fez a observação enquanto investiu com rapidez no teclado.

Executou uma série de peças de jazz; ao terminar, ensaiou uma de Jobin.

Não hesitei em aplaudir aquele homem, que tocava com honestidade.

"Quero oferecer à senhora um café", lembrou-se a tempo: "à senhora que nem mesmo sei o nome..."

"Ah, queira me desculpar, não me apresentei. A seu dispor e ao dispor de sua arte: Margarida."

"Oh, uma flor!"

"E talvez das menos nobres", completei.

Caímos na gargalhada.

"Não diga isso, todas as flores são nobres."

Desapareceu em direção à pequena cozinha. Fiquei a admirar a cortina e a paisagem exterior. Daquele décimo andar via-se uma floresta de edifícios. Pude perceber também os ruídos externos que a música deixara escondidos.

"Cara Margarida", pronunciou com ligeiro sorriso enquanto me entregava uma xícara de porcelana. Acompanhava o café, prato de sobremesa com alguns biscoitos champanha.

"Seu apartamento é muito aconchegante."

"Agradeço a sua boa vontade, sei que as coisas por aqui precisam ser melhoradas, mas, a senhora me entende, vida de aposentado...", e fez um gesto vago com as mãos. Acompanhou-me no café.

Após alguns segundos de silêncio e expectativa, sua voz, como música melodiosa, soou suave:

"A senhora me entende, não leve a mal a maledicência dos vizinhos; talvez algo de negativo a meu respeito já tenha chegado a seus ouvidos", repousou a xícara e por fim sorriu.

"Não se preocupe, também segundo alguns não tenho boa fama."

"Veja", continuou "estou velho; o que me resta? Talvez a música e a companhia de poucos amigos."

"Se tens tudo isso, és um felizardo; a música e amigos. É tudo que muita gente deseja."

"Tenho alguma tristeza, pois pouca gente me dá atenção."

"Pois não acabaste de dizer que tens amigos?"

"Poucos, na verdade, coisa de dois ou três."

"É tudo e, se pensas bem, não precisas de atenção, és um concertista, as pessoas é que perdem por não atentarem em ti."

"Mas vez ou outra sou abatido por intensa melancolia, aí fico sem tocar, às vezes até esqueço algumas peças."

Voltei-me à parede, percebi um bonito diploma emoldurado. Levantei, queria ver seu conteúdo.

"Oh, bons tempos, toquei com a orquestra sinfônica."

"A do teatro?", perguntei.

"Esta; entre outras; mas o diploma é da do teatro."

"Não há razão para sofreres, és músico, és feliz."

"E a respeito das mulheres..."

"Que tem as mulheres?", interrompi.

"São raras e distantes."

"Como as flores...", falei e ri de novo. Ele gostou do argumento.

"Como a senhora me inspira!"

"Não sou eu, tens fonte de inspiração própria."

Demonstrei intenção de partir.

"Oh, não vá, sua presença me causou extremo ânimo e felicidade."

"Podemos nos ver mais vezes; virei visitá-lo."

"Deixe que eu lhe ofereça mais uma música."

"Então eu canto", falei.

"Que surpresa!, também cantas?"

"O que não faço nessa vida?", atalhei, "mas... deixa que eu começo."

Pus-me a cantar Smile, aquela velha canção imortalizada por Sinatra, que tem entre seus autores Charles Chaplin. Iniciei à capela, logo depois seguida pelo correr suave de suas mãos sobres as teclas. Confesso que foi o ponto alto do fim de tarde. Ao terminarmos a canção ele, contagiado, aplaudiu-me.

Ao levantar-me para partir, pronunciou em voz baixa, quase um segredo:

"Não demore a voltar, sofro muito."

"No seu lugar, eu não sofreria. És um artista, tocas de modo maravilhoso, vestes-te bem, podes freqüentar bons lugares."

"Sabe, a presença da senhora me fez pensar em algo novo. De agora em diante, tentarei encarar a vida de modo positivo. Veja o que me aconteceu em pleno sábado à tarde; surge-me, não sei de onde, a senhora, que é tão bonita, que parece demonstrar intensa paixão pela vida, alguém que possui luz interior, e que ainda canta maravilhosa, na verdade uma flor..."

"A vida é boa, é bela, basta que se saiba viver; muitas pessoas perdem essa oportunidade; quando se tem esse espírito, as outras coisas vêm como acréscimo", eu disse e lhe beijei a face. Deixei sobre a pequena mesa o número do meu telefone.

Dali em diante, encontramo-nos várias vezes. Em algumas ocasiões, sob o som do piano; em outras, em restaurantes aconchegantes, na Zona Sul.

Nunca pude comprovar o que minha amiga dissera. Se havia alguma pessoa perigosa nessa história não era ele, mas eu. Um verdadeiro vulcão.

sexta-feira, maio 11, 2007

Sobre a poltrona

Certa vez arranjei um namorado empolgante. Saímos para jantar várias vezes. Ele era culto, tinha uma conversa fascinante, mas tive de esperar um tempo enorme para que me levasse para cama. Cheguei a pensar que ele não gostasse de mulher. Quando me convidou à sua casa, adorei. Ele era aquele tipo de homem que adora fantasiar; como também amo uma fantasia... Logo que entramos, atirei-me sobre o grande sofá da sala de estar e lhe disse "deita comigo". Ele retrucou "você vai ficar toda amarrotada". Sentei-me, tirei o vestido e lhe entreguei para que o colocasse sobre a poltrona próxima. Foi a vez de ele investir "sabe o que senti vontade de fazer?" e sem esperar resposta continuou "vou amarrar você!" Então repliquei "pode amarrar, eu adoro". Atou-me com um cordão forte, acho mesmo que já o tinha usado outras vezes, quem sabe com outras mulheres. Arrepiei-me de corpo pleno. Ao sentir os laços fortes, apareceu em suas mãos uma fita adesiva grossa, e sem que eu pudesse reagir, grudou-ma à boca. Consegui manter o controle, queria saber aonde ele pretendia chegar. Desapareceu então por alguns momentos, retornando com uma enorme faca. Gelei. "Não se preocupe, não vou partir você ao meio" falou sarcástico, em voz baixa. Desejei correr dali, mas estava amarrada também ao estofado. Daí em diante, ele passou a lâmina sobre meu corpo, em alguns pontos chegou a me beliscar com a ponta, tocou-me o clitóris e viu que me excitava. A seguir deixou a faca de lado e pulou sobre meu corpo; primeiro livrou-me os lábios "quero te beijar" foi o que ouvi, pensei em mordê-lo com força, mas arrefeci; o corpo dele estava tão quente... Não só aceitei o beijo, como sussurrei em um de seus ouvidos "liberte minhas pernas, também quero gozar". Foi uma trepada e tanto, gozei com o perigo. Passei a freqüentar a casa dele uma vez na semana. E sempre havia novidades. Uma outra vez, prendeu-me os braços, laçou-me o pescoço, colocou-me sobre um pequeno banco e ameaçou durante todo o tempo derrubá-lo, caso eu não me mostrasse úmida por inteiro. Tremi, mas mantive a pose. Então ele subiu no mesmo banco e trepamos ali mesmo. Eu de pernas abertas e ainda com a corda no pescoço, temendo que o banco virasse ou se partisse. Mas ele gozou antes que isso acontecesse. Uma semana depois, ardeu-me as pernas com pequeno candeeiro. Eu imóvel, ele fazendo que me queimava, aquecendo-me as entranhas. Apesar do calor, eu tinha de me manter molhada; se não o conseguisse, queimaria-me todos os pêlos. Gozamos também a tempo. Da última vez que o encontrei, não preparou ardil algum. Desconfiei. Antes de recebê-lo nos braços, porém, vi que meu vestido ia em suas mãos. Recuou dois passos e escutei o rasgar da roupa fora do alcance dos meus olhos, em seguida vi que ele segurava uma tesoura e uma nesga da fazenda. Enquanto gozávamos, ele sussurrava "hoje, vou deixar você peladinha, vou guardar de lembrança algumas tiras da sua seda". Eu suspirei, ele ainda continuou "não adianta choramingar, agora já está feito". Deve haver uma saída, pensei. Mas não demorou e reagi: tomara que desta vez não haja saída alguma; senti que a fantasia me excitara. Voei por sobre o corpo dele e tentamos mais uma escalada sobre camadas de lava incandescente. Transamos maravilhosamente. Eu nada dizia, ele soprava episódios delirantes em meus ouvidos. Confesso que jamais conheci outro homem de tamanha imaginação. A iminência de estar nas mãos de alguém desconcertante sempre me excitara. Gozei descontrolada. Ao acabarmos, corri ao banheiro. O ardor mais brando, imaginei o que seria de mim dali em diante, nua na madrugada. Enquanto me ensaboava e me lavava com água quente, calculava minhas chances.

"Karina, minha filha (ai, ela só tem dezessete anos, que vergonha!), venha urgente e com algum vestido dobrado dentro da bolsa, depois explico o que aconteceu; anote o endereço; isso, pode ser, serve a canga; e corra que já amanhece, ou você e outros tantos verão a mãe louca chegando nua em casa. Não fale pra ninguém, viu; e, por favor, não demore!"

Seria a última vez que o veria, tinha de partir, aquelas brincadeiras já estavam ficando perigosas demais e eu sabia aonde tudo aquilo iria chegar...

Mas como a tentação sempre é maior, o desfecho teria sido outro se não acontecesse o que vai a seguir.

Ao sair do banheiro, voltando ao quarto, que decepção! Minha aventura noturna acabara. E cedo. Meu vestido jazia fácil sobre a mesma poltrona do começo da noite! Intacto. O que ele rasgara? Até hoje não sei.

sexta-feira, abril 20, 2007

Amores físicos em tempo real

Hoje vamos à aventura em tempo real. Munida dos mais recentes avanços da tecnologia, tento viver experiências de amor físico e relatá-las ao mesmo tempo. O local é Copacabana. Apesar de a praia ser muito iluminada, há um trecho onde a areia é comprida e permite a quem fica próximo ao mar algum esconderijo. É bem ali, por contraditório que possa parecer, diante do Meridien. Vou daqui a pouco, em torno da uma da madrugada. Quero viver fantasias, correr riscos. Algumas amigas chamam-me louca; talvez o seja, ao menos em parte, quem sabe...
posted by Margarida57 at 12:03 am

Já estou no local que, como ensaiei, me deixa anônima. Os encontros já foram agendados; são três os candidatos; que tenham sorte e sucesso. É possível ver as pessoas que andam sobre o calçadão, mas creio que não conseguem avistar-me. Sobre o corpo, trago apenas ligeira canga, que também há de me servir de forro, pois não quero grãos de areia pregados a meu corpo. Desenrolo o pano e sento-me sobre. Vento fresco alisa-me a pele enquanto espero amante que não tarda. O marulhar suave embala-me em doce modorra. Céu de estrelas fugidias derrama luz azulada. Ao me aconchegar nas sombras, surpreende-me voz masculina. Boa noite. Boa noite, respondo; morango?, dou a senha. Com chantilly, ele devolve. É este. Transamos. Antes me unta o corpo com óleo que diz afrodisíaco, depois desliza a ponta dos dedos sobre meu ventre, acaricia-me os seios, morde meus lábios e não demora a penetrar-me. Sinto-o quente, vibrante. Ele demora sobre meu corpo, pulsa pesado e enfim despeja-me líquido de homem pleno, viril. Beija-me uma das faces, toca-me o queixo; quer me pagar. Não sou prostituta, transo por prazer, às vezes por amor. Ele se vai; antes pergunta por outro encontro, talvez num apartamento suntuoso. Digo que vou pensar; não sei, não é bom repetir. Agora espero o próximo, virá às duas e meia.
posted by Margarida57 at 1:01 am

À hora marcada, descortino um vulto. Não cumprimenta. Morango?, pergunto. Com chantilly. É ele. Apresenta-se violento. Atira-me sobre a areia. Pega-me pelo meio das pernas, estica meus poucos pêlos, morde-me um dos ombros. Vaca, me xinga. Quero rir, mas não consigo. Acerta-me tapa vigoroso. Dou a outra face. Salpica-me areia, penetra-me áspero, me arranha. Perco a pele, sou carne viva. Sinto que não demora a explodir. A violência, porém, arrebata-me. Quero acompanhá-lo; sou amazona que cavalga atrasada sobre potro bravio, percorro terreno pedregoso, penetro densas florestas, salto obstáculos, protejo-me de galhos salientes, de armadilhas ocultas; quando o alcanço, arremesso-me, assalto-lhe as rédeas, emano meu rastro sobre seu corpo luzidio, lava de mulher madura, raras e provisórias pérolas violáceas que logo se dissolvem em líquido prateado, rio caudaloso que reflete o gozo das estrelas. Depois de satisfeito, parte abrupto. Leva-me a canga. Ei, volte aqui, não foi esse o combinado. Combinado?, só o preço. Lança as notas e foge. Não faço sexo por dinheiro, tento dizer, mas ele não escuta; como surgiu, desaparece. Às três e meia tenho outro. Espero? Não tenho alternativa.
posted by Margarida57 at 2:37 am

Às três horas vejo aproximar-se um jovem; deve ter pouco mais de vinte anos. Boa noite. Boa noite, digo. Morango? Ele parece não entender. Você gosta de morango?, insisto. Oh, prefiro abacaxi. Tento me conter; trata-se de um visitante imprevisto. Você está nua, diz. Parece, tento ser natural. E o que você faz aqui, nua? É melhor você não saber, vá embora, caso contrário a coisa pode ficar feia para o seu lado. Feia, como?, quer saber. Não vou dizer, aqui não é o seu lugar, espero um homem terrível, e tenho de estar assim, pelada, se ele descobrir algum estranho a meu lado é capaz de matá-lo, por favor, vá embora, não quero que você corra riscos. Ele olha amedrontado, vira-se tentando descobrir alguém que lhe venha pelas costas. Ainda insisto: vá, saia, agora; e fique calado. Ele se afasta.
posted by Margarida57 at 3:02 am

Transo com o terceiro da noite após as identificações de praxe. Ele sua. Parece que o fato de me ter encontrado nua o tornou mais excitado. Nada comenta sobre os arranhões ou a vermelhidão de meu rosto. Escala-me e permanece longo tempo. Gostou de me encontrar melada e suja de areia. Faz movimentos lentos, parece estar cavalgando. Sorri. Depois que goza, escorrega. Acende um cigarro, chega a chama do isqueiro próxima à minha cabeça, arranja-me os cabelos em desalinho. Quer pagar, chega a tirar o dinheiro. Não aceito, transo por paixão à vida, às vezes por amor a algum homem. Do jeito que você está, vai precisar de algum dinheiro. Sou rica, respondo. Sorri. Peço-lhe a camisa. A camisa?, não posso. Não tenho outra; arremessa longe o cigarro e parte. Não sei se o assustei.
posted by Margarida57 at 3:47 am

A madrugada se esvai. Não tenho mais ninguém programado. Sinto frio o estômago. Como faço para ir embora? Não posso voltar para casa andando nua pelas ruas de Copa, nem correr em direção ao calçadão e gritar aos caminhantes que já esporádicos aparecem: meu reino por uma calcinha! O jeito é não me desesperar; já saí de situações piores. Respiro fundo, tento controlar-me, ainda tenho algum tempo.
posted by Margarida57 at 4:27 am

Eis que reaparece o garoto das três horas. Ei, diz, quero falar com você. Você de novo?, finjo surpreender-me. Ele já se foi, você espera mais alguém? Não, venha cá. Ele se aproxima e eu o abraço, beijo-lhe a boca; sinto sua temperatura alta, seu coração se acelera. Você quer namorar comigo? Quero, responde animado. Então venha. Excito-o, solto-lhe o cinto, tiro-lhe as calças e agarro seu pinto. Está mais do que duro. Brincamos, esfregamo-nos. Ele quer me penetrar a todo custo. Deixa eu botar, quero gozar, diz. Seguro seu membro com firmeza. Sinto que ele não demora a ejacular; prendo-lhe então a extremidade com o polegar e tapo-lhe o canal por onde jorrará o seu prazer. Não posso deixar que ele goze, caso isso aconteça estarei perdida. Você quer ter uma transa completa comigo?, pergunto melosa. Quero. Então vamos lá pra casa, faço o convite. Eu já estou quase gozando e com você assim, nua, fico ainda mais louco. Sou sua pelo tempo que você quiser, mas vamos lá pra casa; minhas palavras soam imperiosas. Concorda. Onde estão suas roupas?, pergunta. O gato comeu, digo e lhe mordo carinhosa o lábio inferior. Ele treme mais excitado e avança sobre meu corpo. Minha destemperança quase põe tudo a perder; tento equilibrá-lo, disfarço. Me empresta a camisa, vai, me empresta e vamos. Ele, enfim, atende. Estou salva. Vamos, amor, guarde sua excitação, digo já vestida enquanto espero que ele abotoe as calças; depois, levo-o pelo braço. Não demoramos. No horizonte, já é possível notar que o amanhecer, róseo, se anuncia.
posted by Margarida57 at 5:23 am

Em meu apartamento, tentei conter-lhe o ímpeto viril e pedi que me ajudasse no banho. Ensinei a ele como uma mulher deve ser acariciada, como torná-la ferina, como levá-la ao máximo delírio. Pedi que me percorresse a pele, que ajudasse na remoção dos grãos de areia e que cuidasse da vermelhidão de meu rosto. Depois lhe dei as costas, as nádegas à flor d'água, pedi que me massageasse. As partes que me ardiam foram pouco a pouco se tornando entradas vulneráveis, portais por onde trafegavam a sensação de bem-estar e gozo. Sobre a cama, ao desfazer-me de toalha rica em algodão, rolamos juntos; ele inteiramente nu recendendo a macho voraz; eu, exalando perfume original, embebida em seiva que me amenizava as feridas. Tateou-me então por entre as pernas e encontrou aquele filete sempre em carne viva. Mergulhamos em oceano vasto e profundo, povoado de peixes inomináveis, mar abundante em cores sutis, cortinas translúcidas possíveis a olhos de amantes e poetas. Quando partiu, deixou-me em sonhos de menina recatada.

Acordei apenas no meio da tarde. Sobre a mesinha, largou poema original: o nome, endereço e telefone.

sexta-feira, abril 13, 2007

Desata-me

"Ah, sabes como eu sei, a dor é tão saborosa...
mais a ampulheta eu via fatal se esgotar,
mais sentia a tortura áspera e deliciosa"
Baudelaire

Tens meus braços atados, algemas prateadas, presos por sob meu dorso. Assim não me dás chance alguma. Exibes-me nua, mulher ainda encoberta, mas por manto que é apenas a noite que foge, sombra que se apressa a ocidente. Desata-me, prometo que não fujo; quero os braços para cobrir-me; se houver luz, tenho minhas vergonhas; se quiseres posso usá-los para te abraçar. Ah, por que me queres nua, por que tomas meu vestido curto? Tenho apenas essas duas peças. Na verdade não as desejas? É só para utilizá-las contra mim? Para ter razão ao me prenderes? Sei que me proíbes andar nua sob céu de estrelas, sobre areias prateadas; mas, vê, uma coisa é ser nua provisória, mesmo que estreitos os panos e a poucos metros das mãos; outra, é ter como capa apenas o lampejar dos vaga-lumes, tecido de gotas nervosas que transpiro toda trêmula ante o porvir. Põe-te no meu lugar, imagina o vexo que vou passar. Queres-me prisioneira, e depois? Nada roubei, apenas instantes de prazer em uma praça que à noite é deserta. Dizes que terei como castigo uma cela, mulheres estranhas em companhia, rolarei nua entre suas mãos, como troféu; deverei luzir sob sol revelador, sob dia que me haverá de roubar a fantasia, que mostrará as marcas em minhas nádegas avantajadas. Levar-me-ás nua ao distrito, mas não poderei de lá sair sem fibra a me cobrir o corpo; caso o faça, cometerei nova infração. Se tiver sorte, poderei ligar a alguém – é o que dizes –, tentativa vã de obter seda escarlate alugada, porque a que vai em tuas mãos já não mo pertence, deporá contra mim. Vai, desata-me, deixa que eu parta; prometo que te darei prazer maior, moro só; prometo que sempre serei perfume para que me sorvas, licor para que te embriagues... Permito que me tortures, sei que gostas de ouvir o estalar do açoite sobre o corpo níveo, mas não me deixes marcas; só a dor é saborosa... A dor e a ameaça de me levares prisioneira, mas apenas a ameaça. Vê meus seios: apontam intumescidos à espera de prazer maior. Vem, apalpa-me, sou úmida, sou portas abertas para teu desejo, escorrega... Se ainda quiseres, deixo em tuas mãos minhas duas peças; mas como lembrança. Vem, também transpiras, tens a respiração ofegante, o pescoço sangüíneo. Desata-me!

sexta-feira, março 30, 2007

Um passeio no Centro do Rio

Como é agradável ir pela avenida Rio Branco, no centro do Rio. No começo do dia há homens e mulheres a passos rápidos; não desejam perder a hora. Vestem ternos da moda, vestidos elegantes, altos os saltos. As calçadas vicejam, os automóveis e coletivos trafegam vagarosos, despejam aqui e ali pessoas sérias, que ainda guardam o sorriso para momento mais adiantado, talvez momento de maior descontração. Ando no trecho entre a rua da Assembléia e Sete de Setembro, faltam quinze para as dez. Resolvo entrar na Koppenhagen. Que casa comercial agradável! Sinto o perfume do chocolate e o aroma forte do café. Um homem sério, de meia-idade, em terno marrom e sapatos de verniz, olha-me com discrição, enquanto repousa a pequena xícara sobre o balcão. Sobre meu corpo, aperta-me os seios vestido vermelho tomara-que-caia, que desce justo até a cintura, para aí se soltar e me cobrir as pernas; nos pés, sapatos brancos finíssimos de meio-salto. Duas mulheres, uma de vestido cinza e outra de tailleur, tomam café. Peço o meu expresso com creme. Através do vidro, vejo uma menina e uma mulher, provavelmente mãe e filha, passam apressadas sobre o passeio; a pequena está de blusa branca e saia curta verde. Viro-me de novo para minha garçonete, ela atende alguns homens, talvez executivos do centro financeiro. Escuto deles algum gracejo, não dirigido a mim, mas ao amigo próximo, sobras de noturna aventura amorosa. Olho as embalagens de cherry brandy, o bombom molhado em licor. Sinto arrepios ao imaginar chocolate e líquido celestiais a percorrerem minha boca e mergulhar-me envolto em mel de amante recente... Madame, ouço-lhe a voz, é o senhor dos sapatos de verniz, reaparece e me oferece um presente. Madame, peço-lhe perdão, mas não pude resistir a impulso que há muito não me abate, aceite, por favor. E deixa-me nas mãos um coração de cherry. Quando penso em agradecer ou talvez recusar, meus olhos instintivos voltam-se para a caixa envolta em fita vermelha. Olho o homem de novo; ele faz ligeira reverência, sorri e sussurra: nunca vi mulher tão bela. Creio que percebi algum sotaque em sua voz. Ele entrega-me um cartão e se retira. Aventuro-me a seguir pelas ruas excitadas do Centro. Mas, neste dia, nada de extravagâncias. Às vezes, ligeiro frisson percorre meu corpo deixando-me trêmula; lembranças de artimanhas de amigas soltas por aquelas ruas, amores casuais: Maria da Glória nua num escritório; conhecera seu sedutor minutos antes, no elevador, durante o percurso de vinte seis andares; Fátima, de vestido justo, agarrada a um homem negro de quase dois metros, no subsolo de um desses velhos edifícios do Castelo, as pernas úmidas. Segundo ela, o garanhão além de lhe proporcionar prazer jamais experimentado, engolira-lhe a calcinha. Mas hoje, Margarida, apenas passeio, passeio e admiração. Entro na Dior; a vendedora já me é velha conhecida. Sorri e me beija as duas faces. Um pouco de conversa, depois me mostra as novidades. Cada peça de roupa exuberante, modelos lindíssimos. Deixo reservados vestidos, saias e um blazer listrado. Voltarei à tarde. Continuo em desfile: Elle e Lui, Office, Maria Zaida, Follic, etc. Visto, provo, me apaixono. Como é boa a vida, como é sábio aproveitá-la! Ao almoço, agora. Num edifício próximo a Maison de France há um restaurante elegante. É preciso subir à cobertura. Homens e mulheres quase todos em trajes de passeio completo assomam-se às mesas, servem-lhes garçons experientes. A vista é deslumbrante. É possível apreciar desde as aeronaves que pousam e decolam do Santos Dumont, a paisagem do outro lado da baía, até o Pão de Açúcar, passando pela enseada de Botafogo e os barcos do Iate Clube. O céu azul e o sol com seus raios amenos completam o quadro. Sento-me sozinha, seduzida. Sou servida conforme ritual tradicional. Tomo um cálice de vinho do Porto; depois, a entrada: carppacio de salmão, salada de palmito, pequenas folhas e molho à moda parisiense. Servem-me o prato principal dois antigos funcionários da casa; trazem-me arroz, champignon e posta de robalo; bebo água mineral. É possível fazer a refeição lentamente, saboreando as iguarias bem preparadas. O chef me vem à mesa, quer minha opinião. Não preciso dar meu parecer, querido, sabes tudo, aprendeste com os melhores de France. Ele sorri e me deixa de presente uma flor. De sobremesa não hesito: um häagen-dazs de macadâmia com bombons de chocolate belga, amoras e licor. Antes de partir, repouso durante quarto de hora no lounge do restaurante, ouço blue. Já à rua, aventuro-me no clima morno pós-uma da tarde. Deslizo por ruas apinhadas do Castelo, lembro-me então de uma exposição no Paço. Custa-me poucos segundos chamar um táxi. Ao descer, talvez três quadras adiante, avisto a construção que abrigou a família real. Viajo no tempo; vejo baronesas, princesas e um magnífico cavaleiro de farda azul sobre indômito potro negro. Ao cruzar o portal da construção, gravura de um filme de Almodóvar me traz de volta ao presente. No pequeno cinema, mulheres andaluzas desfilam. No salão do segundo andar, os quadros em exposição lançam-me em horizontes infinitos e em explosões de cores. Seguindo através de naves envoltas em silêncio quase sepulcral, guardadas por homens de terno negro, deleito-me num abrasivo mundo pictórico, envolta por ar frio que me tempera calor medieval. Talvez a digestão adiantada me faça avançar por espaços onde apenas minha silhueta se delineia. Desejo caverna secreta, gancho de ferro antigo em que possa pendurar a roupa provisória e, em seguida, saltar nua sobre o corpo de cavaleiro mascarado; delírios de mulher só em horas de nenhum pejo. Não sinto o tempo correr, a arte fascina-me. Às quatro horas lembro-me das compras e ponho-me em retirada; antes, tomo o café da tarde no bistrô do Paço. Volto às lojas, recolho os trajes que deixei em reserva. Apresso-me. As pessoas agora já são outras; algumas querem terminar o dia e voltar para casa, enquanto outras aguardam o momento de alegria e combustão, quando encontrarão, nos bares dourados, amigos, amigas ou amantes. Tenta-me ligeiro desejo de permanecer; atendo, no entanto, a chamado maior. Quero estar sozinha em casa, ouvir alguns CDs, ler um pouco, deitar lânguida à meia-luz. Embarco em um táxi. Zona Sul, Lagoa Rodrigo de Freitas. Quando abro a bolsa, encontro o cartão do homem da manhã, o dos sapatos de verniz; leio: serviço diplomático, consulado geral da Dinamarca. Será ele o cônsul em pessoa? Vou fazer charme, não ligo hoje. Amanhã, quem sabe, terei um namorado europeu.

quinta-feira, março 15, 2007

Águas do entardecer

O mar denunciava-me através do seu rugir milenar. Estava sentada sobre a pedra, as costas rijas, os braços como grosso cordão envolvendo as pernas, os joelhos encostados aos seios; tentativa vã e provisória de esconder minha nudez. À direita, algumas crianças corriam sobre as areias num jogo à péla; à esquerda, embarcação sem tripulantes tinha a popa sacudida pelo ir e vir das vagas. Ligeiro arrepio correu-me o corpo: ora o saliente respingar das espumas que explodiam num começo de maré alta, ora a incerteza dos momentos seguintes; brilho de pérola ao luzir do sol, imagem de marinheiro antigo a avistar-me, miragem de ilha perdida, voz plena de sal a desvendar mantos invisíveis. Frio intenso gelou-me o estômago, intenso ardor desceu-me ao baixo ventre, músculos vicejaram em descontrole, escorrer de água mais densa banhou-me. Por momentos desejei submergir e esconder-me sob a capa das águas do entardecer. Mas não tive tempo. Mão vigorosa tocou meu corpo. E num susto repentino, soltei os braços, afastei um pouco os joelhos e deixei meus seios explodirem. Eram duas rosas que desabrochavam, ou duas pequenas montanhas que convidavam à escalada. Tremi. Como um gigante que atemorizava navegantes doutros tempos e doutros mares, tomou-me nos braços e levou-me, incógnita e sob seda que era apenas sua pele curtida pelo sol. Fui colocada na embarcação fria e sacolejante. Ali mesmo, em meio ao cheiro forte de maresia e sobre chão banhado de pequenas línguas d'água que escorrendo de um lado a outro procuravam o caminho de volta ao oceano, abriu minhas pernas e penetrou-me. Meus gemidos, misturados aos estouros cada vez mais vigorosos da preamar, demoraram a se extinguir. Como a luz, que resistia às primeiras sombras da noite.

quinta-feira, março 01, 2007

Carnaval

"Oh, meus seios, sol em que te embriagas, bêbedo de líquido azul, calor da combustão em que te afogo...", e foi assim que começaste naquele sábado. A música levava a turba, os tambores ecoavam nossas trepidações interiores. Após desfilarmos alegria, descemos escondidos uma viela rústica; e foi entre um automóvel antigo e uma mangueira. Despiste-me cedo, bebeste-me rubra.

À noite, fui eu que te fiz vítima; algoz atroz, imperdoável. Enquanto nos levava a orquestra, salão à luz de séculos perdidos, minhas garras afiadas não te perdoaram; listras escarlates traçadas em dorso lívido, unhas de Penélope sôfrega vinte anos. Mas te vingaste a tempo: descoseste meus fios, desataste meus laços e me escondeste entre tuas pernas. Quando eu menos esperava, explodiste; jorraste vapores e lavas, tepidez trágica de amor a deusa olímpica proibida.

Na manhã seguinte, acordamos enquanto a maré baixa lavava nossos corpos, carícias plenas sobre tecido natural, afago perdido de lobo esguio. E caminhamos trôpegos, sob olhares avançados de foliões enfeitiçados pela nudez de havaiana de outros trópicos. Quando me livraste da exposição crua e me envolveste em seda de tear estrangeiro, fantasia roubada a sultana dançarina desatenta, conduziste-me sob afagos a desfile em que eu era estrela primeira.

Muitas vezes me despiste, outras tantas escalei-te; nos levaram blocos e cordões; gozamos intrépidos, mas sempre disfarçados.

Na segunda desapareceste. Foi, então, que te traí a tempo exíguo. Vaqueira. Chapéu e botas que me subiam os tornozelos. Mascarado, saído de filme mexicano, zorro esporádico, laço hábil sobre animal inquieto, minhas mãos por sobre as nádegas atou. Violento, arrancou-me o biquíni negro, amou-me na sombra, sob capa protetora. Às primeiras luzes, libertou-me; como recompensa, apenas as mãos soltas. Disse sobre a nova fantasia: "fada nua encabulada..."

Na terça ressurgiste; nada perguntavas ao me encontrares nua... Beijaste-me rubro, excitado, não mais me precisavas despir. Após explosões estelares, últimos acordes de sinfonia ligeira, de novo te tornaste invisível.

Quando na quarta a festa acabou, as amigas sussurram-me: "estás perdida, nua e abandonada." Mas foi aí que reapareceste e contigo me levaste; me querias mesmo nua, mesmo arranhada de outras unhas, exausta, a exalar suor apaixonado de quatro dias...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Glorinha

Era uma daquelas manhãs que parecem suspensas no ar. Antônia virou-se na cama e manteve-se quieta. Sonolenta, preferia a imobilidade. Glorinha dormia na outra cama. Pôde percebê-la pelo leve respirar. Ah, que bom que existe a casa de Glorinha, uma casa tão simpática, o quarto acolhedor, sobretudo para os momentos de perigo. O que vivera na véspera não poderia ser classificado como momentos de perigo, mas era algo que a comprometia, que lhe deixaria abalada a reputação. Sentiu que naqueles primeiros momentos de languidez que seguem o despertar seria inútil procurar em si a urgência de ontem. Mas a amiga salvara-lhe a pele, o fato de terem combinado voltarem juntas do baile fora providencial. E a mãe nem implicara, pois conhecia a mãe de Glorinha. Ela, Antônia, ficara com uma marca, era verdade. Uma nódoa. Dependia, porém, dela mesma para ser eliminada. As outras pessoas divertiam-se, estavam mais preocupadas em aproveitar a noite o máximo que podiam. Apenas duas ou três voltaram-se e a repararam no momento mais crítico. E quem sabe não estavam do mesmo modo comprometidas? Poderiam rir se o que viam refletia a si mesmas? Apenas Glorinha mantivera a aura dourada ao lado do namorado. Pela amiga que a acolhia colocaria a mão no fogo.

Fora tomada por um tipo diferente de excitação desde que percebera a possibilidade de participar daquele baile. Como queria freqüentá-lo para depois contar às amigas todos os pormenores! E falavam cada coisa!, nos anos anteriores ouvira histórias de arrepiar. O clube tinha a fama de promover os melhores e mais picantes bailes de carnaval da cidade, e até mesmo nos dias que antecediam a grande festa realizava os pré-carnavalescos, que da mesma forma davam o que falar. Quando viu os convites e teve a aprovação da mãe, exultou. A mãe a aconselhava. Não devia dar confiança aos homens. Quanto menos atenção, mais eles a procurariam. Disse que mantivesse discrição, estaria lá para se divertir, e como é boa a vida quando se sabe aproveitá-la. O pai não precisava saber de nada. Ficaria em casa, veria televisão e quando perguntasse pela filha a resposta estaria pronta: foi passar a noite na casa de uma amiga, divertem-se juntas.

Antônia preparou a fantasia. Queria-a mínima. Glorinha a orientara. Vista-se com um tipo de manto. Faça uma fantasia que tenha capa larga e comprida. Lá pelas tantas, quando o calor estiver insuportável, a gente dá um jeito. Gostava das soluções práticas da amiga. E assim fez, um manto reluzente, trabalhado, de cetim, mas por baixo a surpresa: um biquíni que jamais vestira, tão mínimo que se perdia no próprio corpo, este com uma polegada a mais no bumbum e nas coxas, uma ponta de charme segundo as amigas.

Antônia mantinha-se quieta na cama. Ah, que vergonha, não queria nem pensar. Glorinha ainda dormia, mas o que diria ao despertar? A própria Antônia atribuía a culpa a uma taça de champanhe. Sim, o champanhe deixara-a excitada. Dançavam no camarote. Ela só, e Glorinha com o namorado. Mantinha-se fechada, envolta na capa, mas fazia tanto calor. E depois alguém já a paquerava, fizera sinal para que abrisse a roupa, que ficasse mais à vontade. E as outras meninas? Dançavam alucinadas, só de biquíni, algumas sem o top, não demonstravam vergonha nenhuma, às vezes abraçavam-se aos seus pares e permaneciam encobertas por eles. Glorinha lhe pediu licença, desceria um pouco com o namorado. Ela não queria vir?, então ficasse e aproveitasse. Foi então que aconteceu. Uma presença que na hora saudou como providencial. Um lindo homem, de juventude exuberante. E era louro. Dançou com ele no camarote largo. Ele se aproximava, mas não a tocava. Depois trouxe a taça de champanhe. Deu a ela. De novo dançavam, mas ele não a tocava. Depois de repousar a taça vazia em um dos cantos, ela própria o puxou para mais perto. Sentiu o corpo do homem. Foi aí que ele a tocou por debaixo do manto. A pele que deveria estar quente era fria, mas arrepio e calor súbito envolveram-lhe todo o corpo. Deixou a capa escorregar pelas costas e seu corpo brilhou, apenas o biquíni mínimo. O paquera percebeu que ela insinuava-se. Não mais se livraria dele.

E foi assim a noite toda. Suou, deixou gotículas de seu corpo no corpo do homem, o coração batia forte. Reparou que Glorinha a admirava e sorria. A fantasia da amiga era mais recatada, mas a deixava também muito sensual. Antônia dançou a madrugada inteira; tinha o calor das bacantes que traziam para a Grécia o culto a um novo deus. Só que as bacantes dançavam nuas... E por pouco ela também não dançara. Os seios escaparam algumas vezes; o top cedia nos momentos de maior euforia. E ela fingia não reparar. Mas só durante alguns segundos. Depois recompunha-se. Foi assim até os últimos acordes da orquestra. E era uma pena que o baile acabava. Essas festas nunca deveriam terminar. Quando deu por si alegre, prateada de suor, beijou na boca o namorado da noite. Chegou então a hora de partir. De repente, corou. Lembrou que viera coberta por uma capa, um manto largo e comprido. Mas onde estaria ele?

Quando Glorinha acordou e Antônia quis falar alguma coisa, a amiga tapou-lhe a boca. Esqueça. Acontecem coisas piores.

Laura

– Quem está aí?

– Sou eu.

– Eu, quem?

– Uma mulher.

Ele entreabriu a porta e reparou que eu estava nua. Afastou a tranca; escorreguei quarto adentro.

– A recepcionista?

– Não, a irmã dela.

– O que houve?

– Nada, ela me mandou em seu lugar – respondi quase envergonhada, sem saber onde colocar as mãos.

– Por que a máscara?

– Hoje é carnaval, lembra?

– Você não vai me roubar, vai?

– Só uma música – disse enquanto o abraçava.

– Música?

– O baile. Estão todos na cidade, vamos fazer o nosso.

Ele demorou mas, enfim, entendeu.

Quando o homem chegou sábado à tarde querendo se hospedar naquele lugarejo, experimentei sensação especial. Era um ator, já o tinha visto em algum filme na TV, e como era belo!, só não lembrava seu nome. A pousada ficava junto ao posto de combustível, o único na pequena cidade de Cianópolis, sudoeste de Goiás. Na verdade, eu fazia tudo naquela pequena hospedaria: varria, arrumava, lavava e passava a roupa de cama e servia o café da manhã. O local era freqüentado por motoristas de caminhões que seguiam para Mato Grosso. Nunca, porém, dera confiança a nenhum deles. Mas naquele dia... o homem era um ator, apesar de vir numa pequena camioneta, e era sábado de carnaval...

Tratei-o com cortesia e lhe ofereci o que havia de melhor.

– O quarto é simples, mas possui ventilador. Os dois banheiros são localizados na área externa; como hoje não há ninguém hospedado, creio que você terá mais conforto. Aqui no hall, você pode ver TV até a hora que desejar, e na geladeira há água à vontade. Se quiser, pode levar uma garrafa.

Ele demonstrou muita satisfação. Entreguei-lhe a chave.

– Devo ficar um ou dois dias – disse antes que eu o conduzisse ao aposento.

– Você deve pagar adiantado – avisei.

Ele tirou duas notas do bolso e me entregou, depois enfiou-se no quarto.

À noite, permaneceu vendo o carnaval pela TV até depois da uma da madrugada. Fiquei escondida na sala reservada a empregados; fiz como se não houvesse pessoa alguma na casa. Quando ele desligou o aparelho e foi para o quarto, eu já estava totalmente nua, apenas pequena máscara cobria-me os olhos. Aí fiz o que jamais pensara: fui primeiro até a entrada do pequeno hotel, pisei o passeio e senti no corpo o ar fresco da noite; depois, desliguei a luz externa e tranquei a porta. Então corri até ele.

Dançamos: músicas de um rádio de pilha. Após algum tempo, ele me segurou com força e me levou para cama. Era um homem rude, do jeito que eu gosto. Não lembro de ter transado com outro ator.
Só morri de vergonha, quando, sorrateiro, roubou-me a máscara!
De manhã, sussurrou alegre num de meus ouvidos:

– Hoje ainda é carnaval!

E me pediu que lhe servisse o café da manhã. Nua.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Linda

O corpo de alguém que nos deseja é sol que aquece, mesmo à noite e em céu de poucas estrelas.

A madrugada envolvia minha nudez. Cheguei à sala, aproximei-me do sofá onde ele dormia e deitei a seu lado. A princípio mantive-me quieta, depois o envolvi em um abraço cheio de desejo. Num primeiro momento, ele se assustou e tentou desvencilhar-se. Então sussurrei carinhosa em um de seus ouvidos: "sou eu, Linda, não era isso que você queria?". Aí mergulhei sob o lençol, lhe tirei toda a roupa e o abracei de novo; meus lábios úmidos procuravam os seus.

Quando aquele homem chegou em minha casa numa tarde de dezembro, percebi sem demora que não o deixaria escapar. Talvez tenha sido esse meu pensamento que o manteve sempre com a atenção voltada para mim. Ele era de outro estado, veio com a prima de meu marido e uma criança, um menino de sete anos. Viajavam, vinham de Brasília e, no dia seguinte, iriam para o sudoeste de Goiás. Passariam a noite em minha casa, em Goiânia. Foram, havia algumas anos, marido e mulher, mas, segundo ela, não tinham mais relações. Eram grandes amigos. Ele sempre vinha no período de férias para ficar com o filho. Ela o hospedava e o levava de um lado a outro junto com o menino. Aquilo soava estranho para muitos familiares, mas eu acreditava nela. Não dormiam juntos.

Conversamos após o almoço. Ele olhava tudo e não se surpreendeu quando mostrei que trabalhava num anexo a casa, um salão de beleza que eu construíra para completar a renda familiar.

Minha vida até ali sempre fora cheia de problemas e sofrimentos: o marido, trabalhando à noite, dormindo de dia, ganhando pouco e com problemas de saúde, não tinha quase contato comigo; o dinheiro sempre curto, para se conseguir qualquer coisa era necessário um sacrifício enorme.

Aliás, esse era um assunto sobre o qual eu não gostava de falar. Mas eles eram discretos, não fizeram perguntas a respeito.

Por volta do entardecer, saíram. Na verdade eu os acompanhei. Fomos todos visitar uma tia bastante idosa e um pouco adoentada. Durante todo o trajeto, fui no banco da frente. Orientava o itinerário à prima, que dirigia. Ele ia atrás, com o filho. Notei que me olhava e fazia perguntas sobre a cidade, pois estivera ali havia alguns anos e não mais lembrava os locais que visitara. Eu procurava responder tudo que estava a meu alcance. Mostrou-se muito alegre e simpático.

Durante a visita, quando foi servido o café, reparei que ele me olhava sorrateiro. Mostrou certo embaraço quando o surpreendi. Depois saiu e brincou no quintal com o menino.

Na volta, continuamos a conversar animadamente. Acabei convidando a todos para visitar uma feira de artesanato que acontece todas as quartas nas imediações de minha casa, e onde há também comidas típicas. Andamos toda a rua, já apinhada de gente àquela hora. Compraram alguns produtos e insistiram em levar bolos, salgados e doces para o jantar.

Quando chegamos em casa, preparei a mesa e completei com refrescos e refrigerantes. Comemos e continuamos conversando. Depois de algum tempo, ele foi para a sala e, enquanto olhava a TV, falava e brincava com o filho. Mais ou menos às dez horas, a prima foi para o quarto e levou o garoto, que despediu-se do pai beijando-o e lhe desejando boa-noite. Entreguei a ele, que ficou na sala, a roupa de cama, também desejando que dormisse bem.

Ainda sob o lençol, procurei facilitar para que ele me penetrasse. Girei depois de algum tempo e permaneci sob seu corpo. Senti vontade de chorar, mas a necessidade de prazer era maior. Cheguei a emitir alguns gemidos. Ele tapou-me a boca, pois temia que eu acordasse uma de minhas filhas, que chegara tarde após o dia de trabalho e de aula na faculdade. Jamais gozei como naquela noite. No final, lhe pedi desculpas. Ele pareceu não entender. Mas, no fundo, acho que era eu que pedia desculpas a mim mesma por aquele ato intempestivo. Algum tempo depois, pensando melhor, passei a crer que eu mereci aquela noite. Permaneci ao lado dele até as primeiras luzes do dia. Antes de deixá-lo, agachei-me e o beijei. Um beijo untado por lábios e línguas, que durou longos segundos. Só então, ainda nua, corri para o meu quarto.

No café da manhã, olhei sem temor na direção de meu recente amante. Ele sorriu. Suspeitei que a prima tivesse desconfiado. Mas ao partirem, deduzi que não.

Ela me beijou com suavidade e afeto. Ele fez menção de apenas apertar minha mão, mas ofereci o rosto. Beijou-me.

Pedi a eles que voltassem sempre.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Dayse

O Park shopping estava movimentado naquela tarde de terça. Dayse saíra da loja havia vinte minutos. Trajava vestido muito curto, de fazenda leve. Era difícil haver alguém que não a observasse, mesmo do sexo feminino. Gostava de chamar a atenção e tinha certeza que causaria forte impressão na pessoa que aguardava. Não tinha dúvida de que, embora estivesse atrasada, quem a esperava não desistiria. Caminhava graciosa; a pequena bolsa a tiracolo. Olhou algumas vitrines, sobretudo a da joalheria mais famosa. Apreciou pulseiras e colares e se apaixonou por uma pequena medalha que se encontrava bem abaixo de um cordão de ouro reluzente.

Quando ainda trabalhava, antes das quatro, tentou não perder de vista o homem elegante que vestia impecável terno marrom e apreciava os perfumes. Quando ele entrou e se dirigiu a ela, perguntou se a loja tinha o Kenzo. Claro que temos, respondeu, e do tradicional. Esse mesmo, foi o que ouviu dele. Tentou ainda vender alguma coisa a mais. Ele, porém, relutou, disse que estava muito satisfeito com o produto e com a vendedora. Ela sorriu, entregou-lhe o cartão, não sem tocar com muita suavidade uma de suas mãos. O homem, sempre sorrindo, entendeu o que ela desejava. Deu também o seu cartão e falou que andaria ainda pelo shopping, tinha tempo. A moça deixou escapar a resposta antecipada: aceitava conversar, o mínimo que fosse. Ele saiu com o pequeno embrulho dentro da bolsa que estampava o nome da loja. Esperaria.

Dayse agora andava pelo shopping. Deslizava delicada. As outras vendedoras a conheciam, tinha colegas por toda a parte, não queria que elas desconfiassem. Mas a roupa curta e a necessidade de transitar através de corredores cheios de gente provocavam efeito contrário, colocando-a em evidência a quem ela não desejava. A vitrine da joalheria era um lugar impessoal, diante dela se manteria anônima; além disso, as funcionárias não a conheciam e eram mais discretas.

Quando menos esperava, sentiu alguém lhe tocar um dos ombros. Voltou-se convicta. Era ele. Beijou-a sobre uma das faces, sorriu. Ela também não escondeu ligeiro sorriso. Vamos, foi o que ouviu da voz do homem. Deixaram o shopping em um Corola cinza metálico. Ela não perguntou onde iam. O automóvel, silencioso, deslizou pelas avenidas largas de Brasília. Dayse reparava o fim de tarde. Seu admirador mais recente, enquanto guiava, girava às vezes a cabeça à direita e lhe dirigia a face sorridente.
Vamos beber alguma coisa? Café com creme, ela respondeu. Não bebe champanha?, ele sugeriu com naturalidade, enquanto contornava o estacionamento do Mercure. Não está cedo para tanto?, ela procurava ser autêntica.

Um dos funcionários do hotel veio abrir a porta do carro para a moça saltar. Agradeceu, enquanto o acompanhante a segurava por um dos braços e lhe aguardava os passos; ela equilibrava-se, ágil, sobre grandes saltos. Aqui há uma cafeteria ótima, ele disse em voz baixa. Entraram sem precisar tocar porta alguma. Subiram ao terraço panorâmico e se sentaram. Uma garçonete de uniforme azul veio atendê-los. Entregou dois grandes cardápios e esperou.

Dayse tomou seu café e saboreou um crepe de muzzarella, rúcula e tomates secos. Ele experimentou licor de amêndoas. Conversaram sobre banalidades. Nenhum deles revelou-se.

Avizinhava-se a noite, o clima era temperado e o vestido da moça mostrou-se um tanto inoportuno. Toda arrepiada, tornou-se sensual; mostrava-se mais nua do que nunca e sua pele reluziu aos últimos raios de um sol quase de outono. Simulou breve abraço ao próprio corpo; queria proteger-se do vento frio e ao mesmo tempo esconder a quase nudez. Vamos, foi o que ouviu mais uma vez.

A suíte presidencial do Mercure era algo inimaginável para uma moça como ela. Apesar de ser vivida, de já ter freqüentado outros hotéis, não contava com todo aquele luxo. O homem a acariciava, mostrava-se terno, percorria-lhe os ombros nus com a ponta dos dedos. Dayse ainda trajava o leve vestido. Então ele decidiu despi-la, mas com muito cuidado, como desembrulhasse algo frágil e precioso. Depois a conduziu até a cama de casal, bastante larga, e a depositou no centro, com toda a suavidade do mundo. Namoraram durante boa parte da noite. Ele preocupou-se com ela o tempo todo, quis proporcionar-lhe o máximo prazer. A moça, por sua vez, o achou maravilhoso. Às onze da noite, abriram uma garrafa de champanha e, para acompanhar, comeram queijos gorgonzola e camembert. Em seguida, tiveram mais uma sessão de intenso amor. Dayse jamais sonhara com dia e noite tão esplêndidos, parecia conto de fadas.

No dia seguinte e no outro, não foi trabalhar. Ligou alegando doença. Ficou em casa lembrando aqueles momentos que acreditava mágicos e que dificilmente se repetiriam; ao menos com alguém de tal educação, como aquele homem.

Não esqueceria o momento de despedida. Amanhecia, ele a beijou dentro do automóvel. Um beijo longo e elegante; a seguir, a surpresa: o homem envolveu-lhe o pescoço com o cordão e a medalha que ela apreciara na joalheria. Sentiu-se tão feliz que quis retribuir o presente. Então teve a idéia...
Dayse desceu na quadra de casa. O único momento de aflição foi quando se apressou para não ser percebida: ia na verdade nua e com o corpo ainda quente.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Peixes

No verão de 99, aluguei uma casa no alto de Ponta Negra, em Natal. A localização permitia-me ver toda a extensão da praia, cerca de seis quilômetros, onde predominava apenas areia, mar, e o céu. Era possível apreciar, nas madrugadas, a partida silenciosa dos pescadores, homens que enfrentam o mar bravio em embarcações rústicas, frágeis; homens que seguram firme o leme enquanto o vento intrépido infla as velas. De madrugada eu descia e, escondida – não queria causar alarde ou mal-estar entre eles –, observava o momento em que começavam a deslizar os barcos desde a parte superior das areias até entrarem n'água e se atirarem, rudes, em busca do peixe de cada dia. Depois – apenas a pele morena, tingida pela luz impetuosa dos trópicos – descia sozinha e caminhava debaixo de uma noite quase sempre pesada em estrelas. Então eles já iam longe, mas não perdia de vista suas velas, e me impressionava o saltar constante e corajoso dos barcos contra vagas ricas em espumas. Para aqueles pescadores, o mar era razão de vida, talvez cometa azul em céu de desventura. Enquanto eu, turista de estação, tentava me familiarizar com o local e fazer dele minha morada natural; depois de algumas semanas, já me sentia parte dali, como se tivesse sempre vivido ante aquele mar bravio e sob céu que refletia namoros estelares na paisagem marinha. Andava então longa extensão de areia, respirava o ar úmido de sal, de mar. Envolvia-me o êxtase da estação quente, mas tépida à noite. Gostava de estar sozinha, em estado de total deleite. Era pérola que desprendia faíscas, diálogo luminoso entre astros prateados. Certa vez notei que uma das naus voltava antes do previsto. Quis correr, esconder-me, procurar arbusto que me cobrisse. Mas não há mal maior do que emboscada vil que nos surpreenda, lanterna invasora que nos revele nua. Permaneci estática, nem me dei ao luxo de recostar sobre a areia convidativa; o máximo que me permiti foi cobrir os seios, recurso ineficaz: como as águas de preamar, transbordavam fartos às minhas mãos exíguas. Embora a noite fosse clara, consegui permanecer envolta nas sombras. Dois homens, um deles parecia ser bem jovem, desembarcaram e empurraram o barco areia acima; depois, desprenderam as velas. Ouvi a voz do mais velho: "vá agora". O garoto ainda tentou algum argumento para permanecer ali, mas o outro impôs sua autoridade. O remanescente desembarcou os peixes e, por meio de uma grande faca, começou a limpá-los. Vi que era hábil. Abria a parte inferior, tirava as vísceras e as enterrava na areia; ia amontoando os peixes limpos em um cesto. Foi então que me chamou. Surpreendi-me. Voltei a ouvir sua voz; pedia para que me aproximasse. Obedeci. Mas ele continuou seu trabalho; a princípio, não me dirigiu o olhar. Após algum tempo a seu lado, estática, foi a vez de ele se por de pé; tirou então a camisa e a colocou em uma de minhas mãos. Vesti-a; estava úmida, cheirava a mar, mas sobretudo ao corpo de homem em constante movimento. Seu odor de suor, que poderia causar repugnância a pessoas mais sensíveis, deixou-me excitada; e não consegui esconder o que me acontecia. Talvez o mesmo prazer sintam as rosas no momento em que desabrocham. Disfarcei. Agachei-me e lhe pedi a faca. Pus-me a limpar-lhe os peixes. Assistia a tudo impávido, como se minha presença fosse algo natural, rotineiro. O tocar nos peixes deixou-me ainda mais ruborizada. Era o momento de união entre a ação do pescador, seu cheiro que se espalhava sobre meu corpo e o fruto de seu trabalho. Cortei o último em pequenos filetes; mordisquei um deles enquanto olhava o homem do mar. Ele voltou-se para o suporte de madeira. Peguei outro filete e lhe ofereci. Comemos juntos. O sabor era como licor em noite de fantasias; o calor me assaltava, minhas entranhas ardiam... Foi então que aconteceu. Uma de suas mãos tocou-me por sob a blusa e misturou-se ao mel do meu desejo. Amamo-nos com toda a rudeza dos navegantes que há muito desejam aportar...

Antes de partir, ainda lhe disse: "amanhã volto; quero lhe devolver a blusa".