quarta-feira, outubro 14, 2015

Comecei a gostar da situação

Eu voltava da sessão de fotos. Como era minha primeira vez, queria logo entrar no vestiário, me aprontar e ir embora. Mas quando dei dois passos, Henrique me chamou. Espera, não vá já não. Parei e olhei pra ele, não sabia onde pôr as mãos. Entra aqui, apontou uma pequena sala cuja porta estava entreaberta, senta naquele sofá e me espera um pouquinho. Eu quis dizer que precisava das minhas roupas. Ele, parecendo ouvir meus pensamentos, acrescentou vou mandar alguém trazê-las.

Tudo começou havia um mês. Vai haver um desfile, falara ele, que tal? Sorri. Ótimo, eu disse. Um desfile e uma sessão de fotos. Virão  muitas modelos, você pode ser mais uma. Que bom, falei feliz. Ele fez minha inscrição, disse que se responsabilizava. Eu não era de agência, mas ele garantia. Foi assim que começou. Fiz alguns ensaios com uma amiga dele. Ela disse você é bonita, para casos assim tudo se resolve.

O homem está fazendo um livro de fotos de modelos nuas, o corpo como protagonista, tudo muito artístico, ele deseja lançar uma nova grife, ainda que pequena, mas de grande futuro, Henrique garantira.

Ah, que bom, você compreendeu, disse meu protetor, sentadinha e esperando por mim, como pedi. Não tem problema eu desse jeito?, perguntei e insinuei minha nudez. Ele, porém, fingiu não entender, apenas perguntou está com frio?, há um roupão ali no armário, apontou ao fundo. Não ousei levantar. Já pensou se abro e nada encontro? Uma amiga contara algo semelhante. Esses homens gostam de ver mulher nua a correr de um lado a outro. Aliás, adoram descobrir o que fazemos com as mãos vazias. Você compreende essas coisas, não?, disse ele despertando-me, é um pouco complicado, mas damos um jeito, no final não sai de graça, falou como se tratasse de negócios, depois afastou a cadeira e ficou em pé. Levanta, por favor, pediu com certa humildade. Obedeci, deixei o pequeno sofá e me aproximei. Você é bonita, e muito, disse e deslizou ambas as mãos pelos flancos do meu corpo, desde os seios até abaixo do bumbum. Você é quentinha, mesmo no ar condicionado do estúdio, continuou, mas tenho de dizer mais uma coisa, pra que tudo dê certo você precisa ver outra pessoa, sabe, não sai de graça, ele também é de TV. Outra pessoa?, assustei-me. Depois de alguns segundos, Henrique saiu sem fechar a porta.

Um homem gordo, muito gordo mesmo, entrou após um ou dois minutos. Representava alguém com traços de afeto, mas era mal no papel, queria fazer de conta que tudo seria fácil, bastava ele dar a aprovação. Chegou bem junto a mim e abraçou-me. Seu corpo volumoso, porém, não permitiu o abraço completo. A porta está aberta, sussurrei vexada. O que tem a porta?, não há mais ninguém aqui, apenas nós dois. Um frio me gelou o estômago, como não há mais ninguém?, suspirei por Henrique, por minhas roupas que já não sabia onde estavam. Não se preocupe, o homem falou, abaixou as calças e pediu que eu engolisse seu pênis. Foi essa a palavra dele, engolir, disse que era algo mais saboroso do mundo. Hesitei, mas acabei assentindo. Seu sexo, pouco a pouco, foi crescendo dentro da minha boca até quase não poder mais retê-lo. Olhei pra cima, embaraçada com a situação. Não falei a você?, as mulheres adoram. A seguir, ele sentou bem no centro do sofá e pediu que eu viesse sobre seu colo. Seu pênis estava bastante rijo. Isso ele tinha de bom, e acho que percebeu que eu comecei a gostar. Abra bem as pernas. Fiz o que pediu. Não demorou a escorregar pra dentro de mim. Quando estava bastante excitado, começou a girar meu corpo, tendo seu pênis como eixo. Abri o máximo que pude as pernas. Ele me conseguiu girar de ponta a ponta, deu um grito e delirou de prazer. Ao aproximar-se o gozo, retirou o pênis e forçou minha cabeça até seu baixo ventre. Engula, por favor, ele disse. Foi o tempo certo de inundar minha boca com toda a porra. Cuidou pra que eu nada derramasse. Enfim, apertou meus lábio com uma das mãos e esperou que eu engolisse. Após nos desembaraçarmos, pediu vá a copa e traz um cafezinho pra gente.

Depois que o gordo saiu, Henrique demorou a voltar, e quando apareceu, estava de mãos vazias. Minhas roupas?, perguntei. Calma, garota, ainda não acabou, senta ali, agora é a minha vez. Apanhou não sei de onde um gel, colocou um pouco numa das mãos e começou a espalhar sobre o meu corpo. Assim, você fica mais gostosa.

O sexo com ele ocorreu da mesma forma que com o gordo. Pareciam ter combinado os dois. Mas Henrique foi mais elegante, incluindo o cuidado para que eu não me machucasse. Pediu também que eu chupasse o seu pênis até quase gozar, quando então se controlou e sugeriu que eu contasse uma história excitante, porque gostava de narrativas eróticas na voz das mulheres, assim gozaria mais intensamente. Tenho certeza de que você não vai me decepcionar, falou animado. Uma história, fiz de conta que me envergonhava, espera um pouquinho. Sentei no sofazinho, cruzei as pernas, suspirei e disse a ele o que vai a seguir.

Saí de uma boate às quatro da manhã e resolvi ir à praia, você acredita? Logo ali, perto do posto sete. Tirei a roupa escondidinha e mergulhei. A água fria do mar iria me reabilitar, pelo menso era a minha intenção. Jamais me senti tão livre. Só que houve um probleminha. Pensei estar só. Mas apareceu um homem (parei de falar, respirei fundo e esperei com a intenção de criar expectativa, fiz uma fisionomia de que, naquele final de madrugada, me encontrava sem saída). Ele não entrou na água, ficou esperando por mim. Pela paciência que demonstrava, acho que ficaria horas ali. Permaneci de molho por um bom tempo. Como ele não deixava o local, o jeito foi sair da água nua mesmo. Acho que cheguei a mostrar uma ponta de vexo. O homem, no entanto, me surpreendeu. Foi elegante. Gostou do "no entanto"?, sei contar histórias, não? Voltando, ele foi elegante mesmo. Tão logo olhou meu corpo, me deu o maior conforto. Você é bonita mesmo, falou. Agradeci, e permaneci um tantinho de lado pra ele, minha atitude revelava certa indecisão, talvez ele interpretasse que eu tentava me lembrar onde deixara as roupas. Apenas isso. Sei que você pode dizer o homem não te agarrou? Você é que não quer contar! Não agarrou, não, foi elegantíssimo. Eu que, de repente, abracei o homem, ainda molhadinha. Daí em diante, imagine o que aconteceu. Você faz questão que eu conte? Poxa, gosto de ser sutil. Mas, tudo bem, vou fazer sua vontade. Ouça. Comi o homem ali mesmo!

Acabei a historinha rindo bastante. Henrique pediu para eu me aproximar, abaixou e mordiscou meu clitóris. Fiquei toda arrepiada. Depois apontou pra eu chupar de novo seu peru. Fiz com uma vontade louca. Sou o homem que encontrou você nua na praia, lembra? Henrique, enfim, gozou. Três esguichos fortíssimos. Quase engasguei, por um milímetro consegui manter a elegância. Depois fiz que viesse sobre mim e que me fodesse com todo ardor. Apesar de ele já ter gozado, não decepcionou. No final, não sabia que eu ainda era capaz de deixá-lo de pinto durinho. Bastou sussurrar no seu ouvido vai buscar minhas roupas, não posso voltar peladinha pra casa!

terça-feira, outubro 06, 2015

E eu que queria chegar em casa peladinha

Aquela estrada. Meu desejo crescia quando passava por ela.

Ai, gemi.

O quê?, ele quis saber.

Nada, sussurrei.

Cruzei as pernas, o vestido a me escapar. Continuou dirigindo. Apenas nosso carro, faróis cortando a escuridão. Jorge sabia o que significava meus ais. Mas esse namoradinho era inexperiente, acho que cortês demais, sua preocupação era guiar. Cheguei a pensar em pedir que parasse, diria que estava com vontade de fazer xixi, sairia e voltaria nua. Como ele reagiria?

Jorge que era bom, diferente. Mandava eu descer, tomava toda minha roupa. “Espera um pouco que já volto”. Mergulhava na escuridão, adiante. Eu, pra trás; ele cada vez menor, mais distante. Sumiam os faróis. Eu e à noite. Meu coração aos saltos, toda molhada. O gozo. Mas um gozo diferente. Voltava trinta minutos depois. Certa vez demorou uma hora, achei que não vinha. Acabei aprendendo a gostar das situações perigosas. Não podia contar ao namoradinho. Me chamaria de louca, masoquista. O desejo, porém, crescia. E como.

Para um pouco, vamos namorar, sugeri.

Nessa escuridão?, ele.

O que tem?, entra com o carro num atalho.

Tive de ensinar. Pronto, apenas nós e as estrelas. Ficamos a olhar um ao outro. Me puxou pra junto dele. Um beijo na boca. Mãos sob meu vestido.

Você quer transar aqui?, perguntou.

Hã hã, afirmei com cara de safadinha.

Tirou minha roupa.  Restou sutiã e calcinha.

Já cheguei em casa de sutiã calcinha, afirmei.

 Jura?, conta então como foi.

Você gosta de histórias, não? Conto, sim. Mas me tira primeiro a calcinha.

Atendeu. Depois deitou o banco e abriu a calça. Puxei o pinto. Dei uma mordidinha. Subi sobre ele, as pernas bem abertas. Me acertou de primeira.

Espera, viu, não goza não, sei que está gostoso e que você vai por um triz, mas vamos fazer bem demorado. E ainda tem a historinha...

A maioria dos homens são decepcionantes. E eu que queria chegar em casa peladinha!

quarta-feira, setembro 30, 2015

Tímida arrepiada

Oi, Margarida, tenho lido seu blog, você escreve muito bem, seus contos tem muita poesia, gosto do estilo, mas as situações... Será que não contribuem para que os homens se aproveitem e subjuguem as mulheres? Será que não influenciam as mulheres a se arriscarem de modo comprometedor? Não sou moralista nem desejo censurar você, mas seus contos...

Tenho um medo que me pelo de que me larguem nua por aí. Jamais aceitarei sair cada dia com um homem diferente. Ouço cada história que me faz ficar de cabelo em pé. Me separei há dois anos. Sempre tive uma vida recatada. Até então, meu ex-marido foi o meu único homem. Tentei ao máximo segurar o casamento, mas chegou a um ponto que não consegui. Fiquei um ano sem transar. Ao conhecer o primeiro homem nessa nova fase, foi um suplício. Que vergonha! Como ele demorou pra conseguir me levar pra cama. Eu arranjava todo tipo de desculpa para não ficar a sós com ele. Ir à casa dele, nem pensar. Não sei como teve tanta paciência, e olha que por aí mulher é o que não falta. Na primeira vez que me deixou nua, suei frio e corri para o banheiro. Fiquei uma hora trancada. Ele até bateu na porta pra perguntar se eu estava me sentindo mal. Com o correr do tempo, fui me entregando. Pena que o namoro não deu certo. Ele era muito legal, mas descobri que tinha pelo menos duas outras mulheres. Tive mais três namorados. Somente com o último foi que consegui manter um relacionamento que dura até hoje. Sempre no começo sinto uma enorme aflição, apenas depois da terceira ou quarta transa que consigo me soltar. Então já sou capaz de não tremer nem enrubescer. Mas no começo é muito difícil. Tenho amigas que são livres e independentes. Não querem ter compromisso com homem algum. Saem casualmente com o homem da vez sem o menor medo nem pudor. Não sei não, acho que não nasci pra uma vida dessas. Uma delas me pediu segredo. Nas saídas com homens alternados, me contou que já passou por situações perigosas. Certa vez, quase passa a maior vergonha. Um deles trepou com ela dentro do carro, que era dela mesmo, depois foi embora levando dentro da pasta toda a sua roupa. E eram quatro e meia da madrugada, faltava pouco pra amanhecer. Disse que foi um sufoco chegar em casa daquele jeito... Mas a safada ainda saiu com ele outras vezes, e pelo tom da sua voz acho que passou a gostar daquelas aventuras! Já pensou, nua na madrugada num lugar público, arriscando-se a ser surpreendida pela polícia? Não quero passar por isso, não. Me casei aos vinte e seis anos, namorava-o desde os dezesseis, pensei que ele seria o meu único homem. Mas não deu. O que fazer? Depois de quinze anos de casada, me separei. Ainda bem que estou com esse outro. Demorei pra encontrá-lo, demorei pra deixar que me despisse. Mas valeu a pena. Outra amiga minha diz que gosta de namorar com o perigo. Será que isso não é uma doença? Sai com o homem às vezes no mesmo dia em que o conhece. Nem toma referências. Diz que nunca aconteceu nada de errado com ela, sua única exigência é trepar de camisinha. Quando contei o caso de minha amiga pelada no automóvel, me disse que já ouviu muitas histórias desse tipo, mas que a maioria é fantasia criada pelas próprias mulheres; na verdade, gostariam de viver a experiência. “Houve um caso”, contou-me, “que aconteceu com uma colega de trabalho. Esse é verdade”, assegurou ela. A mulher conheceu um rapaz na praia, momentos depois ambos entraram na água e fizeram amor. Quando acabaram, o jovem foi pra areia levando o biquíni dela dentro da sunga. Ela não falou nada, ficou excitada com o que pensou ser uma brincadeira dele. Tentava, talvez, criar o clima pra mais uma transa. Ao perceber que ele não voltava, começou a ficar preocupada. Diz que permaneceu duas horas de molho. Um belo senhor ao percebê-la inquieta, aproximou-se. Acabou por resolver-lhe o problema. Muito discretamente. Nos dias sucessivos marcaram alguns encontros tornando-se namorados. Ele até pagou uma viagem à Europa pra ela. Disse que se não fosse a brincadeira juvenil, não teria lucrado tanto com o mais velho. Já pensou se acontece isso comigo, nua na praia? Ai, acho que não consigo esperar nem um minuto. Saio correndo da água. Ainda bem que tenho meu namorado, e ele não pensa nessas coisas. É um homem muito correto!

Marg, apesar de tudo, é verdade que seus contos dão um arrepio... Às vezes me surpreendo sentindo prazer com todas aquelas situações. Mas, por enquanto, apenas na imaginação. Quem sabe, um dia, me permito deixar pelo menos a meia nas mãos de um desconhecido?

terça-feira, setembro 22, 2015

Que profundezas!

Certa vez fui visitar um escritor amigo meu. Era sábado de Carnaval. Como ele escreve contos e romances profundos, que tocam os limites da alma humana, queria perguntar como devia fazer para escrever algo semelhante. Mas ao chegar nem tive tempo de fazer a pergunta. Ele foi logo me pedindo emprestado o vestido que eu trazia sobre o corpo, queria se divertir fantasiado de mulher no bloco das piranhas, que sairia numa rua próxima, naquela mesma tarde. Meu vestido?, repeti, surpresa. Ele acrescentou o que tem de mais?, é carnaval. Fui ao banheiro e tirei a roupa. Quando reparou que eu vestia biquíni, pediu também as duas peças. Mas vou ficar nua... O que há de mal nisso? Você não quer explorar as entranhas da alma humana?, respondeu adivinhando o porquê da minha visita. Além disso, pode ir ao meu quarto e vestir uma camisa de malha à sua escolha, estão todas no armário, completou. Feliz, desceu para o seu Carnaval. E eu fiquei a esperá-lo. Que chá de cadeira ele me deu... Passaram-se duas, três horas e nada de ele voltar. Lembrei-me de uma amiga que teve de ficar sentada nua num escritório durante três horas; o namorado, um advogado, foi a uma audiência e de brincadeirinha levou as roupas dela na pasta. Acabei fazendo o que meu amigo sugerira. Fui ao quarto, abri o armário e vesti uma camiseta. Caiu como um vestidinho. Desci. Lá na rua passava um bloco, e não era o do meu amigo. Logo um rapaz veio ao meu encontro. Me abraçou, me beijou e me puxou pelo braço. Quando dei por mim, brincava com ele. Ai, se descobrem que estou nua, pensei. Carnaval. Aliás, foi assim que passei a gostar de Carnaval. E nunca me diverti tanto como naquele dia. Foi assim que também passei a entender as profundezas da alma humana. E que profundezas, diria meu amigo escritor, diria horas depois o folião apaixonado.

terça-feira, setembro 15, 2015

Gosto de homens que sabem amar

Ela tem olhos redondos, e gosta de andar pela praia, apesar de já entrado o outono. Veste o mesmo biquíni do último verão, mas não o top, cobre seu tronco uma blusa de mangas compridas, blusa quase de homem. Passeia os quatro quilômetros, toda a extensão da praia. São cinco da tarde, o tímido sol ainda possui raios para aquecer-lhe as pernas nuas. Às vezes, ela arrepia-se. Sente-se bem por resistir ao avanço da estação. As casas dos veranistas estão vazias, praticamente todos já se foram. Ela certamente não irá, porque mora naquele lugar. As ondas explodem a alguma distância, ela admira o mar.

Lembra a noite em que o filho de dona Oliva esteve na praia. Um rapaz que partiu para estudar no exterior. Chama-se Marcelo, mas costuma pensar nele como filho de dona Oliva. O rapaz, na verdade já homem feito, a olhou com ar de admiração. Surpreendeu-se ao vê-la de biquíni àquela hora da noite. Quando conversaram, disse que pensou que ela estava nua. Sorri, o que eu podia dizer?, falou no dia seguinte a uma amiga. O que aconteceu?, a amiga demonstrou curiosidade. Nada de mais, retrucou. No entanto, não era verdade. Marcelo a conhecia desde garota, vira-a crescer, correr pela praia, lambuzar-se na areia com o corpo salgado e molhado, agora vendo-a mulher feita, o corpo esguio, transpirando certa sensualidade e de biquíni ao anoitecer, percebeu que poderia haver qualquer coisa entre os dois. Ela riu a ele quando cruzaram-se, eram os únicos entre a paisagem semi-selvagem. Ela, a princípio, seguiu em frente; o rapaz não quis mostrar-se indelicado, retribuiu o sorriso e deu mais alguns passos; mais adiante, porém, estacou e fez de conta que olhava o mar; em seguida voltou-se para onde a moça caminhava, enfim, pôde apreciá-la por trás. Como que adivinhando alguma imanência entre os dois, ela deu meia volta e descobriu-se no campo de visão dele. Ambos sorriram mais uma vez, embora a distância e o cedo entardecer da estação borrasse a ela uma clara visão da  expressão facial de Marcelo. Ele titubeou; iria até ela ou esperaria a aproximação da mulher? Sua indecisão provocou uma expansão do sorriso na face feminina. Ou significava uma expressão de quase júbilo? Ele não poderia ficar a vida toda ali parado. Você não sente frio?, perguntou sem olhar às pernas dela. Estou acostumada, devolveu simpática. Ele encontrou o caminhou mais fácil, talvez o caminho óbvio, de todo homem que se depara com uma mulher e quer iniciar um diálogo. Já nos conhecemos, não é mesmo? Naquele caso era verdade, tinham crescido na mesma cidade, andaram, ela ainda andava, por aquelas praias e areais durante a infância e adolescência, mas também era verdade que jamais aproximaram-se, o círculo de amizade de cada um era distinto. Marcelo abriu um tímido sorriso com um dos cantos da boca, sentiu o ar nos pulmões, ar fresco que também lhe chegava ao estômago provocando-lhe intensa excitação. Ela estirou os braços e enlaçou vagarosa as mãos, um pouco acima do biquíni, chegou a espreguiçar-se, estalou alguns ossos, talvez uma indelicadeza com o rapaz que vinha de fora. Ele, porém, sentiu vontade de abraçá-la. Como ela reagiria? Gritaria ou diria que ele a interpretara mal? Melhor não arriscar, pensou Marcelo. Ela moveu as duas pernas, uma após outra, mais um sorriso. Você esteve fora muito tempo, disse e esperou pela reação dele. Ele talvez pensasse que sua oportunidade passara, ela agora era de outro. Mas onde estaria esse outro em meio à solidão do lugar, à vastidão da praia? Sentiu a respiração pesada, o ar ainda mais frio, olhou a ela ameaçador. Os homens que estudam fora não são os brutamontes que vivem por aqui, falou ela. Marcelo sentiu-se desarmado. Talvez ela quisesse conversar, saber dos assuntos de fora. Foi então que ela deu um passo à frente e lançou-lhe o mais sedutor de todos os sorrisos. Ele a abraçou, e ela aceitou de bom grado o abraço. Ela ainda lembra de uma frase sussurrada ao seu ouvido, não tem certeza se antes ou depois do amor. Você não teme que possa surgir um desconhecido? Apenas manteve o sorriso e suspirou um quem sabe.

Anoitece e ela está só. Marcelo já se foi, ao exterior, um lugar distante daquela praia, um lugar difícil de imaginar. Ele nada prometeu a ela. E nem ela viveria de promessas. O vento vem forte, um chicotinho de areia lacera-lhe as pernas. Mas ela gosta, aproxima-se mais da praia, quer tirar a blusa, lembra no entanto que está sem o top por baixo do pano. Talvez um homem vendo-a nua pensará duas vezes antes de acreditar nos próprios olhos. Caso um dos brutamontes da cidade apareça ela terá de se lançar ao mar, ou, quem sabe, entregar-se a ele e pedir tenha cuidado, sou frágil e gosto de homens que sabem amar.

terça-feira, setembro 08, 2015

O mesmo vestidinho

Não suportei, acabei ligando pra ele. Fazia tanto tempo, e a saudade era mais forte. Oi, que bom você ter ligado, falou. Sorri do meu lado, mas sem ele notar, é claro. Vamos marcar um passeio, completou. Um passeio?, demonstrei todo meu desejo na entonação. Isso, um chope, uma taça de vinho, ou uma bebida qualquer. Voltei no tempo, eu agarrada a ele, um beijo, um forte abraço, eu a acariciá-lo. Por que tudo acabou, qual o motivo da distância agora?, pensei. Perdemos as coisas como a água que escorre entre os dedos de nossas mãos. Vamos marcar então, afirmei. Ele disse a data, a hora, a noite. Após desligar, refleti se o telefonema fora boa ação.

Trabalhara para ele durante dois anos. Sempre com um jeitinho ingênuo, sedutor, acabou me conquistando. Nossa relação foi crescendo, ele invadindo o meu corpo e o meu espírito. Até que aconteceu algo inesperado. O sexo entre nós começou a me preocupar. Ele me fez gostar de coisas impensáveis, impublicáveis. E o pior, ou o melhor, não sei, comecei a me apaixonar cada vez mais por ele. Amarra-me, por favor, e bem forte, quero sentir a corda e o gozo, suspirava alucinada. O homem quase ia à loucura. Depois de me deixar em casa, eu sempre pensava, por que não trepamos como duas pessoas normais? O tempo foi passando, e cada noite com ele era caminhar à beira do abismo. E gostávamos do abismo, e eu nua à beira do abismo. O fio da navalha. O ponto culminante do nosso relacionamento aconteceu numa noite em que pedi, isso mesmo, pedi, é preciso ressaltar, leva-me amarrada e nua no banco do carona. Depois reconsiderei, no banco do carona, não, na mala do carro; na estrada escura você para e vou ao teu lado. Na primeira vez, foi um atropelo. Estávamos os dois excitadíssimos. Saí sem me preparar, não me preocupei com a fisionomia, com o cabelo nem com qualquer adorno. Na segunda, já mais experimentada, sugeri ir calçada, uma sandália de meio salto e uma bolsa pequena numa das mãos. O que ia dentro? O maço cigarros, um dinheiro, um pequeno rímel. Saímos da garagem de casa, eu nua na mala. Ele a guiar pelas ruas durante vinte minutos, até que atingiu a rodovia escura, noturna, o mundo era todo nosso. Ele parou, abriu o tampo da mala e me ajudou a sair. Caminhei à porta do carona. Passeávamos, eu saltava, ele fingia partir, acenava um adeusinho pra mim, mas logo voltava, não queria me perder para alguém que viesse a perscrutar a estrada deserta. Que sonho, encontrar uma mulher bonita e nua, roubá-la do namorado. Duas, três, quatro, cinco vezes, e eu nua ao lado dele. Até que falei não preciso gastar mais dinheiro com roupas, basta perfume e tratamento para o cabelo. Na sexta vez ele voltou à cidade e eu nua ao seu lado. Não teme a polícia?, perguntou. Então, tremi; nunca havia pensado em algum obstáculo. Mas não demonstrei, apenas sorri, acendi um cigarro, após dar um longo trago disse não, não temo. Certa vez em sua casa, experimentei outra sensação forte. Ele fez um exercício de relaxamento, e eu o segui; quando estava totalmente inerte, sem sentir o corpo, ele disse espere, volto logo. Voltou, veio com uma pinça e uma pedra de gelo. Vou deslizar a pedra sobre seu corpo e você não vai sentir nenhuma ponta de frio. No começo, a brincadeira deu certo. Ele passou a pedra sobre o meu ventre, sobre os meus seios, desceu até os poucos pelos púbicos de minha vagina. Nada sentia, estava em total estado de alheamento. Mas ao tocar meu clitóris, forte repuxo me veio lá de dentro. Ele desceu mais um pouquinho e beirou-me os grande lábios com o gelo frio, depois empurrou um pouquinho. Senti tremor e gozo inomináveis. Você engoliu a pedra inteira, ele disse. Venha me aquecer, pedi. Subiu sobre mim e me enfiou o longo pênis. Acho que procurava com o sexo o gelo perdido. O calor da penetração esfriou a pedra, e dela sobrou apenas o líquido insosso. Gozamos juntos. Noites depois, fui à sua casa vestindo um vestido de malha, colante e curto, muito curto mesmo. Ao chegar, ele exclamou como você veio assim pela rua? É noite, lembra?, devolvi, e vim de carro. Ele logo me roubou a roupa, e eu nada vestia sob. Outra noite ardorosa. Mas tudo acabou. Por quê? Não sei. Desaparecemos. Cada um foi cuidar da sua vida. E passou o tempo. Agora ligo, ele diz que vem, ou sou eu que vou, não sei.

Há mais uma coisa, e muito engraçada. Certa vez na sua casa, ao acordar, não encontrei meu vestidinho curto, o mesmo que vesti para surpreendê-lo na primeira vez. Você escondeu minha roupa?, perguntei. Ele jurou que não. Então, como pode ter desaparecido?, eu, surpresa. Tenho uma faxineira, sabe, ela deve ter vindo antes de acordarmos, e manda toda a roupa à lavanderia. E como fazemos agora?, assustei-me. Espera, vou dar um jeito. Tomamos café, e ele foi dar o seu jeito. Enquanto o esperava, fui à estante e tirei um livro. Dentro dele encontrei uma folha dobrada, escrita com letra de mulher, uma caligrafia um tanto tremida.

Fiquei morta de vergonha, ele telefonou bem no momento em que o Rui tinha acabado de me deixar nua. Vi o telefone piscando, pensei em não atender, mas não me contive. Quando escutei a voz dele, devo ter enrubescido. Lembrei o que sempre me diz: você dá pra todo mundo, hein? Assim que atendi, me convidou pra tomar um café, naquela mesma tarde. Hoje não posso, depois telefono. Desliguei e continuei nas mãos do Rui. Esse não perguntou nada, já me conhece; o negócio dele é trepar comigo. Às vezes bebemos umas taças de vinho, o que me acende. Quando o efeito começa a passar, morro de vergonha. Tento disfarçar, mas não consigo. E se gozo, nem se fala... Outro dia pedi que me despisse com violência, que arrancasse minha calcinha de modo que não servisse mais. Ele assim o fez. Mas depois que gozei, morri de vergonha. Mesmo sem ter falado nada ele notou. Disse baixinho, junto ao meu ouvido: não fica assim não, a gente dá um jeito. Que jeito?, retorqui, você por acaso tem em casa roupa de mulher? Imaginei abrir o armário e encontrar uma gaveta cheia de roupas íntimas, peças minúsculas. Assim, não me sentiria pelada. Como você tem tudo isso aqui? Rui: elas esquecem, e não ficam nem um pingo avermelhadas. Mas logo caí na real, a tal gaveta não existia. Teria mesmo de voltar nua, ou quase. Foi um desconforto: a saia curtinha, um top à-toa, uma jaquetinha que descia até o umbigo, a sandália de saltos e nada mais. O Rui sugeriu: da próxima vez, você traz outra na bolsa. Respondi: na hora do fogo nem penso nisso, o problema é depois... Eu estava de pé, pronta para ir embora, as mãos escapando de controle, a saia curta insuficiente para cobrir minha nudez.

A mulher morria de vergonha por lhe faltar a calcinha, e eu que estava ali a esperar por um duvidoso vestido?

O namorado voltou duas horas depois, o dia já perdido pra mim. Trouxe um vestido mais curto do que o meu. Pronto, vista, vai ficar uma beleza, falou. Vesti. Ficou uma beleza. Como volto?, é um vestido de noite. Não faz mal, levo você, afirmou. Entrei no carro nua, nua e de vestido. À porta da minha casa, ele quis entrar pela garagem, mas um carro impedia. Tive de saltar ali mesmo e entrar pelada em casa. Mas até que foi divertido. Agora ele vem, ou sou eu que vou, não importa, e visto o mesmo vestidinho, quem sabe.

quarta-feira, setembro 02, 2015

Por falar nisso, onde você escondeu o meu biquíni?

Durante uma semana, fiquei naquele Resort em Ilhéus. Quando faltava um dia para ir embora, me aconteceu o fato que passo a narrar.

Tinha acabado de sair da piscina, subi os degraus que levavam ao bar, mas antes de parar ali para pedir uma bebida, achei melhor ir ao banheiro. Contornei a construção. Ao passar em frente ao corredor dos banheiros, um homem jovem cruzou à minha frente e deu uma piscadela. Assustei-me, pois não percebi de onde ele saíra. Quando voltei ao bar, já aliviada, dei uma olhada em volta. Queria saber se ele ficara na piscina. Como eu usava óculos escuros, me senti protegida enquanto o procurava. Mas nada do homem. Desaparecera.

Sentada junto a uma das mesas, com uma caipirinha às mãos, o vi de novo. Mais uma vez me assustei. De onde saíra ele? Ao perceber que eu olhava em sua direção, caminhou até onde eu estava e parou. Morri de vergonha. Achei que a paquera tinha de acontecer de modo mais discreto. Ele, porém, não abdicou da impetuosidade:

Você é linda. E com esse biquininho mata qualquer um de tesão.

Eu não sabia onde enfiar a cara.

Mas ele mesmo me salvou.

Não precisa ficar tão envergonhada. Aqui, quando dois concordam, reina a paz. Caso a sua pele não esteja arrepiada apenas por causa do calor, me acompanhe. E não tema. Se ficar parada aí, você vai se arrepender.

Acreditei no homem. Levantei. Sempre segurando o copo de caipirinha, fui atrás dele.

Acabamos no seu chalé.

Mas o céu ainda está tão azul, o sol brilha, falei com minha voz cheia de manha.

E vai ficar assim por muito tempo. Daqui a pouco a gente volta, acrescentou.

Nem tive tempo de sentar. O homem me abraçou, e quando soltou meu corpo eu já estava nua.

Trepamos durante uma hora e meia. E que trepada!

No final, falei:

Você tirou minha virgindade...

Muitas mulheres falam isso quando acabam de transar com um desconhecido.

Neste hotel. Me deixa finalizar, ironizei.

Ah, desculpe.

Foi o suficiente para ele me pegar firme e me deixar arrepiada de novo.

Vamos agora para a piscina, convidou. O céu está azul; o sol, intenso.

Vamos, concordei. Mas primeiro, tenho de me vestir. Por falar nisso, onde escondeu o meu biquíni?

Você é tão gostosa. Acho que engoli!

quarta-feira, agosto 26, 2015

Tempestade

Senti na alma uma espécie de calor que só me tomava em ocasiões especiais. O pátio ainda estava úmido do orvalho da madrugada. Olavo, do portão, continuava a me olhar.

“Por que você não veio mais cedo? Ou mesmo ontem à noite?”, perguntei enquanto levantava a trava do portão, mas sem demonstrar que ia em brasas por causa dele.

“Eu bem que tentei, mas as estradas estão intransitáveis, a tempestade... Não foi por mal.”

“Sei dos estragos, vi na TV, os prejuízos são grandes, há muitos desalojados, parece que foram levados para as escolas. Dizem que duas pessoas morreram.”

“É o que estão comentando na estação de trens.”

“Foi bom você ter vindo, mesmo a essa hora, as crianças estão dormindo.”

“Então, é melhor eu não entrar, não quero incomodar”, ele fez de conta que partiria.

Não, por favor, entre, você não incomoda. Eu queria receber você em grande estilo, sozinha em casa, ter uma noite inteira para nós dois. Separei uma garrafa de vinho. Quando percebi que você não chegaria, peguei as crianças na casa da Vânia.”

“Então vamos beber o vinho agora”, falou e sorriu.

“Entre, por favor.”

Passamos pela porta de vidro, atravessamos a sala e fomos para a cozinha. Olavo sentou numa cadeira que havia na copa, mais adiante ficava a área de serviço.

“Não está gelado, aí?”, perguntei.

“Não. Para quem veio lá de fora, está uma maravilha”, ele esticou os braços e cerrou os olhos, um gesto de quem se descontraía..

“Você não prefere café, no lugar do vinho?”

“Não. O vinho, por favor.”

Depois que servi duas taças, um pouco de queijo e umas rodelas de pão, perguntei sobre seu trabalho.

“E a composição?, uma sonata, não?”

“Ah, está caminhando. Nesses dias conturbados não foi possível ir adiante. Mas assim que as coisas estiverem nos devidos lugares acho que conseguirei terminar.”

“Que bom”, sorri, “sempre adorei sua música.”

“Você é minha musa inspiradora”, ele deu dois passos até onde eu estava, me beijou e voltou para a cadeira.

“Musa, eu? Com quase quarenta anos, dois filhos pré-adolescentes?”

“Isso não a impede de ser minha musa.”

Ri de novo. Que bom você pensar assim. Espero que seja verdade.

“Está a duvidar de mim?”

“Não sei. Aprendi a desconfiar dos homens.”

“Depois vou ao piano e você canta aquela ária da Tosca? Pra mim, você sempre foi a melhor nisso”, ele demonstrou certa ansiedade no final da pergunta.

“A área da Tosca?”, é muito triste. Para eu cantar o trecho, preciso de inspiração, fechei os olhos e fingi que me compenetrava.”

“Espere, vamos beber primeiro”, Olavo alertou.

“Sei, não vou cantar agora, na verdade nem sei se consigo cantar em meio à catástrofe.”

“Catástrofes sempre vão ocorrer. Eu estava pensando quando saltei na estação: daqui a cinquenta anos mais da metade das pessoa vivas hoje estarão mortas; mais cem anos e ainda haverá pessoas caminhando por essas ruas, mas o restante das que vivem hoje também estarão mortas, inclusive nós.”

“Que conversa interessante”, ironizei. “Você se tornou um filósofo existencialista depois do nosso último encontro?”

“Não. O que digo, porém, é verdade”, sentenciou.

“Quer uma história engraçada para animar o  ambiente, enquanto terminamos o vinho?”

“Engraçada?”

“Isso mesmo, e põe engraçada nisso; vamos nos divertir um pouco. Sábado passado, a vizinha aqui do lado chegou pelada em casa.”

“Verdade?”

“Claro, por que eu mentiria?”, olhei para Olavo e levei minha taça à boca.

“O que aconteceu?”

“Não sei, e ela não estava triste. Saiu do carro, abriu o portão e correu para a porta de casa. Ainda mandou um beijo para quem lhe deu carona.”

“Seria uma aposta?”, Olavo insinuou.

“Não sei. O que percebo é que se trata de uma pessoa muito atirada.”

“Então foi isso, ela atirou as roupas fora.”

“Quem sabe? Certa vez ouvi falar de uma mulher que gostava de ser deixada nua na estrada. Seu namorado dava umas voltas e depois voltava para buscá-la. Acontecia sempre à noite.”

“Vai ver o namorado não voltou. E ela teve de recorrer a outra pessoa. Talvez a um estranho.”

“Mas e o beijo? Ela lançou um beijo ao homem, toda animada.”

“É, então há um enigma”, Olavo falou enquanto tomava o último gole de vinho.

“Vamos esperar as crianças acordarem, aí você senta ao piano e eu canto a ária.”

“Ok. Que tal mais uma taça?”, Olavo levantou a garrafa e encheu a sua, depois derramou mais vinho na minha.

“E então?", queria ainda saber sobre a vizinha.

“Não sei, não a vi mais. Mas é lógico que não vou ter coragem de perguntar sobre isso.”

“Fique a espreita, quem sabe acontece outra vez?”

“Não, nada disso, não gosto de tomar conta da vida dos outros. Eu a vi por mero acidente. E ela nem deu pela minha presença. Vamos deixar a mulher andar nua o tanto que quiser!”

Brindamos a última taça. Sentei no colo de Olavo.

“A boa arte é sempre séria”, acrescentei, “por isso esse seu pensamento existencialista, enquanto caminhava pela estação. Quem sabe você aproveita e compõe uma de suas músicas, será bastante trágica”, sorri.

“Nada de mulher pelada dentro da noite. nem conversas comezinhas à beira do fogão”, acrescentou.

Rimos os dois e nos beijamos.

quarta-feira, agosto 19, 2015

Wimereux

Estive numa praia no norte da França, Wimereux, na cidade de Boulogne-sur-Mer. Que lugar lindo! Apesar do verão europeu, a temperatura estava amena, acho que vinte e um graus. As pessoas divertiam-se. A praia tinha cabines sobre o calçadão, pertenciam aos moradores que vivem no local. Todos têm sua casa e, junto à praia, uma cabine para trocarem de roupa ou guardarem os apetrechos de praia. Aqueles que não moram ali, podem usar as cabines dos hotéis. As areias eram compridas, o mar distante, vez ou outra via-se alguma piscina natural entre a parte baixa da praia e a longínqua maré. As pessoas praticavam esportes, ou sentavam ao sol, conversavam, e havia aquelas que andavam de um lado a outro. Em algum momento, vi uma mulher de biquíni, mas usava um casaco. Engraçada a silhueta, o casaco a cobria até a cintura e, como prolongamento, o biquíni e as coxas nuas. Eu não podia perder aquele momento. Aluguei uma cabine num hotel próximo e troquei de roupa. Saí dali apenas de biquíni. Mas senti um pouquinho de frio, cheguei a cruzar os braços sob os seios. As pessoas, de início, não reparam nada demais em mim, mas percebi que, pouco a pouco, alguns homens levantavam os olhos quando cruzavam comigo. Desci à areia e me pus a caminhar à beira d’água, mas junto à primeira orla, porque a maré mesmo estava muito distante. Após andar uns quinhentos metros, ouvi duas jovens me chamarem.

Ei, venha até nós, fique com a gente; se você sente frio temos uma pequena barraca, pode descansar lá dentro, apontaram areia acima.

Eram duas francesas, e falavam como se eu fosse uma delas. Respondi que sim, ficaria com elas. Perguntaram de onde eu era. Disse que de Paris. Como estudo francês desde criança, consegui fazê-las acreditar. Eram estudantes, mas não moravam em Paris, apenas estudavam na capital.

Você usa um biquíni muito curto, onde comprou?, perguntou Céline, a mais loura.

Comprei em Roma, respondi.

Elas se entreolharam admiradas, chegaram a repetir:

Em Roma, e depois, tre joli, e sorriram.

Você gosta de namorar?, perguntou a outra, que disse chamar-se Ceci.

Gosto, respondi com um largo sorriso.

Virão alguns rapazes, quem sabe?, acrescentou.

Ficamos as três a olhar o mar. As duas não tinham a mesma sensualidade de nós, brasileiras, eram um pouco desajeitadas e brancas de dar dó.

Você é morena, Céline alisou-me a pele.

Uma delas apontou o outro lado do Canal da Mancha:

Veja, a Inglaterra.

Podia-se perceber ao longe a parte sul de uma grande ilha.

Fica a cinquenta quilômetros daqui, acrescentou.

Chegaram os rapazes. Elas os beijaram e fizeram as apresentações. Ele estavam viajando de férias, por toda a França, gostaram de me conhecer. Estabeleceu-se uma conversa vaga.

Eles tinham uma bola de futebol e ficaram jogando durante algum tempo. Nós, mulheres, observamos seus passes, embaixadas e cabeçadas. Depois, o mais alto segurou a bola e os três voltaram-se para nós. Pareciam não ter muito assunto. Um deles tirou o maço de cigarros, ofereceu-nos. Apenas eu aceitei, e tive muita dificuldade para acendê-lo, porque o vento era intenso.

Depois de um quarto de hora, Céline caminhou à barraca. Um dos rapazes a seguiu. A seguir, foi a vez de Ceci. O outro pôs-se a caminhar atrás dela. Sobrou um, que tinha de ser meu. Puxa, nem tive escolha. Mas não levantei, como fizeram as duas, permaneci onde estava, sentada sobre um pano, abraçada às próprias pernas. Ele então sentou ao meu lado e me abraçou. Pelo menos isso, não preciso tomar a iniciativa. Começou a me acariciar. Após um ou dois minutos estirei-me sobre a areia, ele ficou a me bordear o corpo. Que sorte, pensei, saio de minha casa, não conheço ninguém nesse lugar e agora estou nas mãos de um homem bonito e jovem. Ele aproximou-se e me beijou, um longo beijo na boca. Depois soltou o meu top. Continuei deitada, com os seios apontando ao céu, sorria e esperava por ele. Uma das moças veio correndo da barraca, enrolada numa toalha, percebia-se que ela já se despira do biquíni. Falou a mim, atabalhoada.

Venha com a gente, você não pode ficar nua aqui, o pessoal é muito conservador.

Fomos os três à barraca. Ela, à frente, com sua toalha desajeitada a lhe ocultar parte do corpo e eu de peito de fora, atrás dela, ao meu lado vinha o namorado. Foi uma tarde de muito amor. Já fazia tempo que eu não trepava cercada por outras pessoas que também trepavam. Mas foi muito divertido. Quando tudo terminou, a mais loura perguntou onde eu estava hospedada e quantos dias eu ficaria na praia. Respondi a ela.

Vamos buscar você, falou, enquanto estiver aqui vamos sair as três juntas.

Em algumas noites andamos pelas ruas internas de Wimereux, pudemos então apreciar as construções típicas do local, casas elegantes, centenárias, que se enfileiram, todas altas, com dois ou três andares, arcadas, floreiras, tudo muito peculiar. Ceci, a mais interessada na arquitetura do lugar, explicava as características de cada construção e até mesmo sabia a história de algumas casas. Contou sobre o tempo da ocupação nazista, quando os invasores intimaram os moradores a abandonarem o local em duas horas levando consigo o que pudessem, pois não permitiriam que retornassem. Enquanto durou a guerra, os oficiais alemães que ficaram naquela região residiram nas melhores casas. E não é preciso dizer que também as dilapidaram. A moça narrou também a história de uma antiga moradora que viveu a infância em uma delas: quando voltou, muito tempo depois, bateu à porta e pediu para entrar, queria rever os cômodos e o pátio onde vivera seus primeiros anos. Em uma das construções havia a inscrição “Esperanto”, esclareceu-nos que se trata de uma língua, em 1905 ocorreu na cidade o primeiro congresso mundial do idioma; na casa, alguns participantes do evento hospedaram-se. Quando saíamos à noite por aquelas ruas, sempre encontrávamos algum bar onde parávamos para bebermos um refresco, ou mesmo saborear algum coquetel.

Ficamos quinze dias naquela praia, namoramos muito. No dia de ir embora, Céline pediu meu biquíni de presente. Como estávamos na praia, soltei os laços e o entreguei a ela.

S'il vous plaît, vous ne pouvez pas être nue ici!

Rimos muito todas as três.

No dia seguinte, nos despedimos na estação de trens. Eu voltava a Paris; elas, à cidade de origem.

Há ainda um fato interessante, que me lembrei agora. Aconteceu numa das minhas primeiras noites em Wimereux, antes de conhecer as duas mulheres e os rapazes. Queria encontrar o caminho de volta ao meu hotel e não conseguia. Reparei que andava em círculos e acabava sempre numa mesma rua. Resolvi então bater à porta de uma casa e pedir ajuda. Um homem veio atender. Ele tinha uns trinta e poucos anos. Após me ouvir, disse que me levaria ao endereço descrito. Pediu, no entanto, que entrasse e esperasse um pouquinho. Ele fervia água para fazer café. Reparei sobre a mesa um exemplar de Austerlitz, de Sebald, em francês. O homem notou meu interesse pelo livro e perguntou se o havia lido. Disse que sim, e que gostara muito. Ele o estava lendo, afirmou que concordava com Sebald quando este demonstrava certo desgosto pela Bélgica. Sorri. Continuou falando enquanto terminava de fazer o café. “Foram as fortificações que fizeram Sebald virar as costas para o país, foram muitas as guerras, muitos infortúnios, elas transmitem certo ar lúgubre.” No final, trouxe a xícara e ofereceu-me. Bebemos o café em silêncio. Antes de me ensinar o caminho de volta, ele disse que dali a alguns dias precisaria ir à Bélgica, e confessou que o seu sentimento sobre o país era o mesmo de Sebald. Dei a ele o meu endereço de Paris e sugeri "concordo com você, o que importa é que Austerlitz é um grande livro. Quem sabe depois da Bélgica você possa ir a Paris, então conversaremos mais e ainda nos divertiremos." Ele moveu a cabeça como se aceitasse o convite e pousou o meu cartão ao lado do livro.

quarta-feira, agosto 12, 2015

Fogo

A moça respirava modesta, calma. Já esperava que tal surpresa não tardaria. Arriscava-se com frequência e, ultimamente, vinha até mesmo exagerando. Por isso teve tempo de pensar, de examinar suas possibilidades, e a respiração era o que havia de mais importante, seria ela que lhe daria o prumo, a altivez, um sorriso ainda que distante e frio, um nada de mais à nudez às duas da manhã junto ao portão de entrada da própria casa. O homem, na verdade, foi quem demonstrou maior surpresa, uma espécie de susto e êxtase; a princípio, nada conseguiu dizer. Ela sentiu que viria uma pergunta, talvez quisesse saber se ela precisava de ajuda. A resposta, já pronta, seria o silêncio. Ninguém pede ajuda em silêncio. Talvez o pior fosse o correr dos segundos e dos minutos, porque depois do torpor inicial, depois daquela espécie de breve congelamento, o tal sujeito, antes estupefato, perderia pouco a pouco a rigidez e começaria a pensar. Aí então a ponta do iceberg, isto é, do perigo. Não se deve temer as atitudes das pessoas tomadas pela surpresa, mas das pessoas quando pensam. E quando derretesse o cascalho de gelo que cobria o homem, ela já não teria domínio sobre os acontecimentos. Era necessário que tudo se resolvesse em frações de segundos, caso não fosse possível, em meio minuto, daí em diante estaria nas mãos dele. Uma pasta escura a lhe lambuzar o corpo. Não tinha nada pra dizer e sabia que não devia desculpas, pois nada fizera de mal que exigisse tal pedido. O homem, porém, era um homem, da espécie mais masculina, um macho como um cavalo ou mesmo um touro, e para essas espécies as palavras não servem. Talvez ele achasse que teve sorte, que algo caiu do céu a seu favor, era um bem aventurado. E isso tudo sem formulação alguma, nada de conceitos, apenas a pele como entendimento. Despejaria sua macheza assim como despeja as fezes ou a urina, assim como almoça e não precisa saber o nome do prato. Ela era uma estátua que esperava o movimento da casa, mas a casa era escura, quase inabitada e, quem sabe, ela poderia ser tomada por uma ladra que age sem deixar rastros, sem precisar de roupas que soltem fios de algodão e lhe revelem. Virou de frente, encarou o desconhecido. Ele chegou mais perto, cobriu a luz que vinha da rua com seu corpo imenso. A sombra dele subiu pelo ventre de Aparecida. O que houve, moça?, ele não falou mas ela podia ouvir, era o torpor que ainda o cobria. Não merecia resposta. Impávida, as mãos estendidas lateralmente e a expressão de que o nu era ele. Olhe sempre numa direção indefinida, assim nada será presente, ela lembrou um ensinamento básico. O que houve, moça?, repetia a voz inexistente. Ante o silêncio da casa, ante os ruídos longínquos da estrada, ela diria não estamos sós. A resposta o desarmaria por trinta segundos intermináveis, ela tinha certeza. O que tem estar ou não a sós?, ele desejaria saber. Ela moveria os ombros, como se dissesse nada, não tem nada. Você vem comigo, ele sugeriu numa meia ordem, estou lhe oferecendo ajuda. Tirou o paletó e o estendeu diante dela, ocultando a si o corpo da mulher. Mas ela meneou a cabeça em negativa, não precisava de paletós, assim como ele nada podia ofertar a ela, nenhuma ajuda, ninguém na verdade precisa de ajuda, ela chegou a dizer. Ele a empurrou em direção ao pequeno muro. Ela não teve como contrapor, apenas a parede gelada a lhe apalpar as nádegas. Aparecida não queria perder o carteado. Vamos, ligeiro, enquanto há sombra, ela acrescentou. Sempre há uma saída. O homem ocupou todo o espaço, não queria deixar a noite em aberto. E ela sabia dos riscos desde o começo, sabia também que a altivez era um modo de resistência, não podia recuar. Aparecida mostrou os olhos grandes pela primeira vez, encarou o homem com olhos enormes, assustou-o. Venha cá, não fuja, não sou louca. Ele tremeu ante a palavra louca, chegou a retroceder dois passos. Volte aqui, era ela agora quem ordenava. Ou você se abre ou se deixa queimar, tanto é o fogo, disse a si mesma. Reparou, então, que estava só.

quarta-feira, agosto 05, 2015

O melhor de todos

Outro dia, andava eu pela Av. Rio Branco quando ouvi uma voz de mulher às minhas costas: “não sei como essas garotas têm coragem de usar esse tipo de roupa, tão curta para andar pelo centro da cidade.” Depois de vinte segundos, olhei para trás e pude reparar que a mulher falara a um homem jovem. Ambos caminhavam juntos, e a garota do assunto deles era eu. Mal sabem que a garota aqui já beira os quarenta. Continuei o meu caminho e não mais os vi. Depois de atravessar a avenida, reparei que outro homem me olhava. Lembrei-me então de uma amiga de tempos atrás. Ela sempre me falava:

“Não consigo usar roupas tão curtas como você, me sinto nua."

Eu brincava:

"Roupas, que roupas?"

"Essas, como as tuas."

Eu então retrucava:

“No começo isso acontece, mas depois a gente acostuma.”

“Não sei”, ela de novo, “sempre acho arriscado roupa muito curta, quem sabe eu não encontre meu shortinho depois de fazer amor?”

Eu ria.

“Tereza, isso só vai acontecer se você quiser voltar nua pra casa. Nunca vi um short desaparecer.”

“Acontece, sim. Há homens que são tarados. São doidos por deixar a gente pelada.”

“O problema então é outro, Teresa”, continuei, “é preciso saber com quem você está saindo.”

“Mas você mesma diz que às vezes topa sair com um homem no momento que o conhece...”

“Verdade, mas faço isso muito raramente.”

Voltando ao meu passeio pelo centro, senti um frisson. Não sei por quê. Talvez pelas palavras da senhora, talvez pelo olhar dos homens. Fazer amor no primeiro encontro, quem sabe? Lembrei-me de outro fato.

Havia um hotel na Senador Dantas, nem sei se ainda existe. Certa vez fui lá com um namorado. Não se tratava de sexo no primeiro encontro, já estávamos junto fazia um ou dois meses. Ele tirou toda a minha roupa. Era verão, e eu usava também um shortinho. Na época, estava na moda a miniblusa. Eu, quase nua. Almoçamos no apartamento. Ainda ganhamos uma garrafinha de espumante. Acho que meio litro. Era dezembro, época de festas, de ofertas. Sei que a bebida me deixou num fogo... Transamos duas ou três vezes, e o meu fogo não abrandava.

“Estou em brasas”, repeti ao namorado.

“O que você deseja que eu faça?”

“Que comece de novo.”

“Ok”, falava ele e recomeçava.

Em determinado momento, alertou:

“Temos de ir embora, vai acabar o período e não tenho mais dinheiro.”

“Paga com o meu short”, sussurrei no seu ouvido.

“Será que eles aceitam?”, brincou.

“Não sei, mas podemos tentar.”

“E se não aceitarem?”, olhou para mim ansioso.

“Não vamos pensar nisso agora, vem, vem mais uma vez.”

Ele veio. E transamos de novo. Ainda bem que esse namorado tinha uma saúde e tanto.

Quando pedimos a conta, ele olhou pra mim e disse:

“E agora?”

Coloquei as mãos dentro do short e comecei a esticá-lo de um lado e de outro, fazia como se fosse descê-lo.

O namorado chegou a dizer:

“Não, por favor.”

“Não é nada disso”, sorri debochada.

Tirei então uma nota de cinquenta e coloquei na mão dele.

“É pra ajudar a pagar.”

Saímos do hotel e ele me levou pra casa.

Nos dias seguintes fui ao Centro, sozinha. Entrei numa livraria. Fiquei mais de uma hora olhando e folheando alguns livros. No final, percebi um paquera. Ele veio até onde eu estava. O que será que vai falar?, pensei.

Ele me pegou pelo braço:

“Vamos, você chegou cedo hoje.”

Fiz de conta que o conhecia. Saímos da livraria. Namoramos naquela mesma tarde. Nada falamos. Apenas gemidos de ambas as partes.

Foi o melhor de todos.

Você quer o meu shortinho?, pensei mas nada disse.

Ele entendeu.

quinta-feira, julho 30, 2015

Conto de carnaval

Eu era uma deusa consagrada pelas duas da tarde. Uma deusa de máscara.

Ele, surpreso, olhou para mim. Tentava entender o jogo.

“Nunca viu uma mulher de rosto coberto?”, minha voz soou distorcida através do pequeno orifício.

“Já, mas não de máscara e nua por inteiro.”

“Aí é que está a graça”, sorri para ele, que não podia adivinhar o meu sorriso.

“Você gosta de fantasia”, afirmou.

“Claro, não sou prostituta nem estou apaixonada.”

Percebi que minha resposta chegou a ele um tanto enigmática.


A brincadeira começou quando uma amiga pediu para tomar conta da pequena casa. Era por volta do mês de novembro. Toda vez que eu descia à cidade, verificava se tudo andava bem. Aproveitava para descansar, principalmente quando o dia estava quente. Como sempre gostei de me fantasiar, imaginei a tal brincadeira. Arranjaria vários namorados e os levaria àquela casa. Mas para que tudo desse certo, havia dois pontos: que não fossem homens violentos, e que não vissem o meu rosto. Assim, caso dessem comigo na rua não me reconheceriam nem sairiam comentando aos amigos. Contatei uma amiga. Perguntei se gostava de máscaras e de Carnaval.

“Adoro”, foi sua breve resposta.

Ela agenciaria os encontros para mim. Eles, assim, não conheceriam o meu rosto.

“E se um deles lhe arrancar a máscara?”, pareceu preocupada.

“Pode acontecer”, respondi, “mas é o risco que a gente corre para sentir prazer. Talvez isso faça o prazer maior.”

Saímos as duas a campo. Ela também queria experimentar.

“Ninguém pode saber”, adverti, caso contrário estaremos em maus lençóis; quero dizer, sem lençol algum; e nuas! Além disso, a casa não é minha, a proprietária confia em mim.”

“Por que não arranjamos namorado como duas pessoas normais?”

“Você consegue?”, repliquei. “Caso diga que sim, seja feliz.”

Minha amiga riu e entendeu.


Ela começou a andar lá pelos lados da rodoviária, sempre ao amanhecer. Sentava num banco e fingia esperar o ônibus. Quase sempre um homem se aproximava e vinha puxar conversa. Esperava também o seu ônibus. A conversa começava com alguns entraves. Ela não abriria logo o jogo. O primeiro trabalhava como mergulhador nas plataformas de petróleo. Ela se assustou.

“Nossa, que profissão perigosa!”

“Nem tanto”, ele retrucou. “É só o começo, depois não há o que temer.”

Contou também que vinha de longe. Ficava quinze dias no mar. Depois voltava para casa. Naquela manhã estava voltando. Deixou o telefone. Dali a quinze dias esperaria por ela.

Ela me trouxe o número dele.

“Quem sabe, talvez ele seja teu.”

“Como vou fazer?”

“Faça de conta que foi você que conversou com ele na rodoviária. E depois, há a máscara, ele não vai ver o teu rosto.”

“Certo, vou ligar então.”

Ele veio. Aproveitei. E muito. Não era tão dotado nem tão hábil, mas foi uma boa aventura. Além de me comer, chupou a minha buceta.

Minha amiga continuou suas ações. Como acordava cedo, andava pela rodoviária fingindo estar prestes a embarcar. Marcava com os homens. Eles vinham para mim, sem que percebessem o ardil. Depois do mergulhador, veio um operador de guindaste. E que guindaste o homem tinha. Gozei várias vezes. Depois dele, veio um domador de cavalos. Vixe, suspirei, vai que o homem queira me domar. Enganei-me. o homem sabia trepar. E que delicadeza.

Nessas idas e vindas de namorados, chegou o Carnaval.

Será que no carnaval eu precisaria de máscara? Fiz três fantasias. Uma odalisca, uma colombina e, por último, uma baianinha. Todas um amor. Pintei bem o rosto, modifiquei o cabelo e saí me misturando na folia. Não é preciso dizer que as sainhas de todas as fantasias eram minis. Os homens vinham atrás, me seguiam, me queriam abraçar. Mas polidamente eu desconversava. Meu negócio era dançar. Pela manhã, eu ia à praia. Para me enfeitar, arranjei uma rendinha, tipo um vestido de noiva, mas sem forro; por baixo, o biquíni. Toda vez que surgia um bloco na orla, eu acompanhava o ritmo. Num desses momentos de euforia, encontrei a amiga que arranjava os namorados.

“Oi”, ela falou, estava mascarada.

“Por que a máscara?”, perguntei.

“Porque é carnaval.”

“Mas você não tira?”

“Não quero ser reconhecida”, respondeu, “e, além disso, resolvi fazer como você.”

“Hoje, não faço não”, disse convicta, “quero dançar, quero o carnaval.”

Ela escapou em meio ao bloco, um homem a levou pelo braço.

À noite me vesti de baianinha. Entrei num enorme cordão, no centro da cidade. Duas horas depois corri para orla. Outro bloco. Batucada, samba, vozes a cantar, corpos a transpirar sensualidade.

No domingo, passei o dia vestida de odalisca. As pernas de fora. Homens querendo-me beliscar. Ai, nada de manchas vermelhas sobre a pele, eu fingia dizer. Lá pelas tantas, acho que passava das três da tarde, um jovem se pôs a me seguir. Como ele dançava bem, conhecia todos os passos. Eu era a estrela principal de uma escola de samba. Pelo menos era assim que eu me sentia. Houve até um turista americano que, de câmera na mão, não nos abandonou. À noite, enquanto tomava um refresco, ainda na orla da praia, encontrei minha amiga mascarada.

“Oi”, falou, “já aproveitei com três.”

“Aproveitou?”, fingi não entender.

“Fiz o que você faz mascarada durante o ano.”

Respondi “oh, parabéns”, enquanto ela escapava nos braços de dois negros fortes. Está dando tudo que não deu há anos, pensei.

Senti um toque nas costas. Era o jovem dançarino. Deslizamos de novo pela avenida principal. Um bloco se aproximava, com todos os tambores.

Na segunda, saí às duas da tarde, vestida de baianinha. A roupa branca, branquinha mesmo, e eu cheia de colares. Logo um soprou no meu ouvido.

“Fofinha, quero levar você pra casa, deixar só os colares sobre essa pele branquinha.”

Tive de rir. E ele dançou comigo. Mas na hora principal, escapei. O homem estava doido para me comer. E lá vinha o dançarino do dia anterior. Gostei dele porque sua vontade era apenas dançar, e demonstrava um enorme entusiasmo. Mais uma vez encantamos corações, arrebanhamos aplausos, e uma legião de fotógrafos atrás de nós.

Não é preciso dizer que, naquela noite, enquanto eu me refrescava com um suco, num quiosque, encontrei a amiga mascarada.

“Você não tira a máscara?”, perguntei.

“Não posso ser reconhecida”, respondeu solene.

“Por quê?”

“Ora, porque já trepei com cinco foliões. E olha que lhe conto um segredo”, acrescentou, “o último tem um pau enorme, quero ficar com ele até o fim do carnaval, nunca vi homem tão bem dotado. Repare de perfil, é aquele ali de copo de cerveja na mão, está com um amigo. Não é bem avantajado?”

Reparei o homem. Era verdade. Parecia que tinha um peru dos grandes. Pela primeira vez naqueles dias e noites de carnaval senti uma fisgada bem no fundo do útero. Era vontade de trepar. Até ali o meu negócio fora apenas a festa. Mas nada falei à minha amiga.

“E onde vocês transam?”, eu, curiosa que só.

“Numa barraca no Pecado. Foi ideia minha. Quando arranjo um, levo pra lá, mas agora só quero com ele.”

Surgiu o rufar de alguns tambores. Alguém me tomou um dos braços e mergulhamos na folia. Minha amiga se perdeu na multidão.

Foi uma noite encantadora. Como não gosto de bebidas alcoólicas, brinquei lúcida e com toda a energia até quatro da manhã. Dancei com muitas pessoas, entrei também num cordão só de mulheres. Bem no meio, uma jovem dançava inteiramente nua!

No último dia, aproveitei para sair num bloco que estava marcado para as dez da manhã. Uma festa muito animada, com bebidas para os integrantes que vestiam o abadá. Fiz da minha um vestidinho muito sexy. Dancei sensualíssima, beijei na boca dois ou três homens. Mas nada de sexo com eles. Às três da tarde, fui procurar a barraca da minha amiga mascarada. Não foi difícil de chegar até lá. Ela estava deitada, descansando. Estava só, sem a máscara e inteiramente nua.

“O que houve com você?”, perguntei. “Não está na folia?”

“Vou daqui a pouco, estou descansando.”

“E a máscara? Você está nua...”

“Lembra o meu paquera avantajado? Emprestei a ele. Disse que ia brincar num bloco onde os homens saem vestidos de mulher. Ele volta daqui a pouco. Quanto à máscara, acabei não resistindo e mostrei o rosto. Agora estou nua duas vezes!”, parecia feliz por ter se revelado.

“Quer dizer que ele foi brincar num bloco vestido de mulher?”, repeti o que ela dissera logo após ter uma brilhante ideia. Lógico que nada comentei a ela. “Isa, e se ele não volta?”, acrescentei.

“Claro que volta. O homem está apaixonado.”

Despedi-me, deixei o Pecado para trás e me enfiei de novo na avenida. Não foi difícil encontrar o bloco de homens desfilando vestidos de mulher. Iam pela altura da Glória. Iam desengonçados dentro de vestidos e roupas de banho femininas. Quando chegavam à Cancela, avistei o namorado de minha amiga. Era um dos mais animados. A roupa de mulher até que lhe caíra bem. Ele batucava um tamborim. Engracei-me ao seu lado, fazendo volteios e sorrindo. Ele se aproximou e passou a batucar cada vez com mais vigor o seu instrumento. Eu dançava como uma passista. Rebolava, descia, subia, mexia o bumbum novamente. O homem ia ao delírio, enlouquecia. Quando a bateria encerrou o desfile, ele me ofereceu uma cerveja. Bebi com ele um ou dois copos. Seus amigos se dispersaram dizendo que voltariam à orla, havia mais dois blocos e a bebida seria grátis. Puxei-o então pelo braço e falei.

“Tenho uma surpresa pra você.”

Ele me acompanhou. Não queria levá-lo para a tal casa que eu tinha a chave, mas não havia outro lugar. Ao chegarmos, tirei toda a roupa e me entreguei a ele. Minha amiga tinha razão, mostrou-se ótimo amante. Ele tinha um peru imenso, parecia um cavalo. E como demorava a gozar. Jamais um homem me proporcionou tamanha satisfação.

“Não vá embora”, falei. “Vamos trepar mais uma vez.”

E assim fizemos. Durante toda a noite. Pela manhã ele se foi. Como o carnaval já terminara, saiu apenas de bermuda. As roupas de Isa, que ele vestira para o tal  bloco, acabaram ficando comigo, mas eu não podia levá-las a ela. Descobriria que eu estivera com seu homem.

Duas semanas depois, a dona da casa veio morar em M. Devolvi-lhe então a chave. A brincadeira das máscaras terminava. Quando encontrei minha amiga, totalmente ao acaso e mais ou menos um mês depois do carnaval, eu disse:

“Que carnaval inesquecível, hein?”

“Nem fala, riu um  tanto envergonhada.”

“E o namorado?”, perguntei fazendo de conta que nada sabia.

“Voltou assim que você se foi. Trepamos a noite inteira. O problema foi que o bandido não me devolveu a fantasia!”, finalizou.

Ainda bem, pensei, Isa sabe mentir. E que bom humor!

quinta-feira, julho 23, 2015

Todas gostamos

Sentada na poltrona, vestida de calça jeans colante, sandália de meio salto,  espero por ele. Falta alguma peça sobre o meu corpo ou esqueço de escrever sobre a blusa? Falta a blusa, sim. Mas é proposital. Tenho o torso nu, uma das mãos e o antebraço a proteger os seios, jogo inocente e, ao mesmo tempo, sedutor. Gosto da nudez, aliás, todas gostamos. Hoje, quero fazer uma surpresa a ele que não demora. Tudo começou numa dessas madrugadas quentes, depois de uma festa na Gávea. Saímos juntos, ele ofereceu-me uma carona. Insistiu para eu ir à sua casa. Quis me fazer difícil, hoje não, quem sabe amanhã? Amanhã é domingo, retrucou. É um dia como outro qualquer, acrescentei. Acabou concordando. Como combinado, o encontro aconteceu, e foi agradável. Comemos uma pizza e tomamos duas taças de vinho. Aliás, uma pizza fina, porque sou elegante. Depois, rumamos à sua casa Assim começou nosso enlevo. Lembro que naquela noite eu vestia um vestido soltinho, o comprimento acima dos joelhos vez ou outra deixava entrever, como um relâmpago a durar meio segundo, uma lasca das minhas pernas. A partir do tal domingo, o namoro foi crescendo. Para não esfriar, sempre ouso, por isso hoje o caso dos seios nus. Ele vai adorar, tenho certeza, quem sabe enlouquecer. Fecho os olhos, ponho-me a imaginar. Corro à beira da praia após ter saído de uma festa às três e trinta da manhã, um  alvoroço, mulheres a gargalhar, alguns rapazes, de repente junto à parede, uma espécie de falésia que separa a praia do calçadão, avisto uma moça, ela tenta esconder-se, permanecer anônima, está nua, os seios sobretudo à mostra, percebo que se assusta com a turba da qual faço parte, não desejo comprometê-la ante o grupo barulhento que me segue, aponto a borda do mar, conduzo todos à direção oposta, deixo-a intacta a nossos olhares, anônima, como antes de chegarmos. Sinto, porém, uma ponta de inveja, melhor fosse eu a nua, e não ligo se me roubam o véu. Abro lentamente os olhos, o abajur lança reflexos suaves sobre a parede. Quero levantar-me, deixar a poltrona, ir à cozinha buscar um copo com água. Adoro a água bem gelada descendo por minha garganta e percorrendo-me as entranhas, chego a sentir um fio frio, cortante, arrepio. Seguro os seios com uma das mãos e deixo que minhas pernas conduzam-me ao objetivo, um copo fino, de cristal. Volto com a água quase a transbordar, o copo suado, minhas mãos trêmulas de excitação. Tomo o primeiro gole. Sinto o gelo até nos bicos dos seios, quase um espasmo. Vou de gole em gole, torno-me úmida, fria e quente ao mesmo tempo, beiro o paroxismo. Repouso o copo sobre a mesinha lateral, as mãos tilintam o cristal, o prazer... Fecho-me de novo sobre a poltrona, os olhos semicerrados, as pernas cruzadas e uma das mãos a segurar o seio esquerdo. O meu homem há de chegar? Luzes da Visconde de Pirajá, as lojas abrem à noite, pairo sobre o bairro, pouso sobre uma das calçadas, voo noturno em pausa, percebo que vou sem a blusa, os seios com os bicos rijos, será que me espreitam?, pouco a pouco me percebo invisível às pessoas, ligeiras passeantes, não dão pela minha presença, o vento morno acaricia-me a pele lisa, uma vitrine de bolsas, loja aberta que me convida, não há viva alma, entro e toco no couro cru, quero a bolsa, saio da loja, percorro outras vitrinas, a bolsa tão leve... serei ladra nua?, ouço um apito, não descubro de onde vem, será a polícia?, as pessoas correm sobre o passeio, um carro freia, já não há a placidez dos primeiros momentos, alguém me esbarra o torso, toca-me a história da moça que atravessou nua a principal avenida de sua cidade, prometeram-lhe dois mil reais pelo desfile, por que a lembrança?, nada ganho e vou tão nua quanto ela. Ah, o arrepio, a poltrona, os seios soltos, cubro-os com as mãos mínimas, como se ainda estivesse na rua; os bicos ainda rijos apontam ao namorado que não chega. Tenho o número dele. Suspiro. Quem sabe ligo? Meu sonho a tornar-se neblina e a ameaça do sol vindouro. Perco-o como uma criança perde o brinquedo impossível, como a moça perde a inocência. Quando era mais nova eu estudava tanto... O sonho, os olhos fechados, um assovio. Quem a chamar? O vizinho de frente? Eu sempre a frequentar seus sonhos. Mas não sou a mulher que lhe proporciona ereções múltiplas. Apesar de minha a face, de meu o corpo, a criação é sua. Descruzo as pernas, levanto-me preguiçosa, são seis passos até a porta da rua, a madeira de três centímetros a separar-me do mundo, a impedir que me descubram nua. Abro a porta e sinto o cheiro do mar, a praia a duzentos metros, os saltos da minha sandália a enfiarem-se na areia, o bico dos meus seios a apontar o navio fundeado em alto mar. Toda mulher deseja uma armada, deseja que a noite dure, deseja que o vento lhe seja morno, deseja que o gozo lhe vá mais à frente...

quinta-feira, julho 16, 2015

Até o fim

Esperei duas semanas, até que não mais suportei, telefonei então pra ele. Ao ouvir sua voz, gelei. Sempre sentimos ligeiro arrependimento ao perceber que estamos numa posição inferior. Por que não deixei o homem de lado? Bastaria esquecê-lo e sair por aí a bater pernas, não demoraria a aparece outro, e talvez mais galante. Mas ele já estava na linha, e pareceu gostar de ouvir minha voz. Deu um risinho. Achei que estava de deboche. Ameacei colocar o fone no gancho. Mas logo ouvi hei, onde você está? Eu quis ficar em silêncio, deixar que ele imaginasse, porém o silêncio contínuo poderia fazê-lo pensar que a ligação caiu. Ligar duas vezes já seria demais. Oi, devolvi. E você como, está?, ele. Bem. Que bom, retomou o diálogo. Eu ia dizer uma bobagem, mas preferi silenciar, quem sabe ele continuava. Respirei fundo, tapei o telefone para que ele não ouvisse o arfar de meus pulmões. Que tal um encontro?, sugeriu. Eu não poderia aceitar de primeira, principalmente depois do que aconteceu. Nada falei, apenas repeti em tom de interrogação, um encontro? É melhor não, falei. Foi uma tentativa de reconquistar o terreno perdido, já que fora eu a autora da ligação. Ele retrucou por que então o telefonema? E agora, o que eu diria. Esperei um pouquinho. Não sei, apenas senti vontade de conversar, afirmei. Que bom!, pelo menos isso, ele aceitou minha réplica com alegria. Você é bonita, acrescentou, caso queira vir, não falemos no que passou, vamos conversar outros assuntos, tudo fora de nós dois, completou. Como vamos agir assim?, perguntei a mim mesma, em silêncio, enquanto esperava que ele acrescentasse algo. Ele, no entanto, permaneceu à minha espera. Esperei também. E tudo se tornou muito demorado, o tempo não passava, ou se arrastava, eram duas pessoas segurando dois telefones pesadíssimos. Hoje quase não se telefona, quebrou o gelo, manda-se mensagem, pelo zap. Ah, o zap, repeti, é mesmo, talvez haja mais silêncio daqui pra frente, ousei continuar. Não vamos estragar tudo, ele interferiu, estava também com saudades, ia ligar. Por que não ligou?, eu quis saber. Estava esperando as coisas esfriarem, respondeu. As coisas esfriarem, expressão interessante, pensei comigo, então quer dizer que alguma coisa estava queimando as mãos dele, e fora eu a vítima, talvez estivesse sentindo-se arrependido. Sei que não foi nada demais, acrescentou, mas você ficou uma fera. Não foi nada demais, não consegui ficar em silêncio, você acha que não foi nada demais? Não sei, foi uma brincadeira, ele. Brincadeira?, tive mil problemas depois do que você me causou, tive de dizer. Mil problemas, não exagere, ele chegou a rir depois das palavras, e achei que estava de novo a achar engraçado a situação em que ele me colocara. Nada repliquei, apenas esperei que continuasse. Você quer que eu peça desculpas?, perguntou numa pretensa gentileza. Não, não precisa, tudo o que aconteceu teve minha concordância, retruquei, sou tão culpada quanto você. Afinal de contas ninguém morreu, ele queria concluir a questão. Como não morreu?, cheguei a repetir suas palavras, quero dizer, ninguém morreu fisicamente, mas algo se perdeu, além de tudo, dizíamos que não conversaríamos sobre o passado, viu, por isso não dá pra encontrar você. É, acho justo, você tem razão, ele acrescentou. Ok, vamos então desligar. Ok, ele concordou, vamos, talvez num dia melhor, quem sabe. Isso mesmo, num dia melhor, ainda estou muito ferida, nem eu mesma sabia disso. Ok, então um beijo, ligo daqui a um tempo, falou. Tchau, desliguei. Sentei na poltrona e me pus a imaginar a noite em que brigamos. Uma brincadeira besta, uma brincadeira que eu concordara, e depois a confusão toda. Passaram-se cinco minutos, me levantei e peguei o livro que repousava sobre a mesinha lateral, um livro em francês. Tentei continuar a leitura que começara antes de dar o telefonema. Mas não consegui me concentrar. O diálogo recém-encerrado deixara rastros de sobressalto em meu espírito. Então fui ao quarto, abri a porta do armário e me olhei no espelho. Sorri, um sorriso de início acolhedor, a seguir mais envolvente, depois com uma ponta de volúpia. Naquele momento, me tornei a mulher mais feliz do mundo. Enfim, voltei ao livro. Dali em diante consegui ir até o fim.

quinta-feira, julho 09, 2015

Situação

Oi, Renan, tudo bem? Tudo. Não sé assuste não, sei que um telefonema a essa hora deixa as pessoas preocupadas, desculpe, é que preciso de um favorzinho seu, e não posso esperar até o amanhecer. Como você parece entender das coisas, veja se consegue me tirar desta situação. Sabe a casa da Amelinha? A do interior. Isso mesmo, Paty. É, sei que é complicado, você está no Rio, um pouco distante. Então deixa, acho que vou ter de tentar outra pessoa. O que é? Não adianta eu falar agora, vai ser perda de tempo, você não vai poder me ajudar. Quem sabe, pode? Mas vai demorar, são muitos quilômetros. Você insiste, não? Curioso, você. Se estou nua no lado de fora da casa, como você fazia comigo? Você gozava com aquilo, não é mesmo? Sempre pensa nisso. Adivinhou. Sabe, não posso contar aquelas histórias pra homem algum, eles enlouquecem, muitos dizem que nunca haviam pensado nisso, que realmente é um tesão, e querem que eu faça pra eles o que fiz pra você. Juro, com todos são assim, e nunca apareceu alguém mais ousado do que você, ou melhor. Deixe-me dizer... Por isso telefonei. Amelinha me emprestou a casa, não há ninguém lá. Por que não digo aqui? Escute. Não há ninguém lá, pelo menos não vai haver até amanhã cedo. O tal homem, aquele a quem contei o que você fazia comigo, me pediu algo ainda mais extravagante. Lembra aquela vez quando o motorista de ônibus que já me paquerava havia um tempo me encontrou de madrugada naquela situação? Isso, ele me salvou, sei que não ia morrer por causa da minha ousadia, mas seria um escândalo, você entende, a brincadeira começou a partir de você. Não, não estou nua numa estrada como aquela, claro que não, por aqui as estradas são estreitas, não como aquele trecho de rodovia onde saltei do seu carro. Você me levou até ali vestida, lembra? O problema aqui é outro. Já vai adiantada a hora, e o tal admirador já me trouxe no carro dele como queria. Você vai sair comigo nuazinha, ele insistiu durante vários dias enquanto me namorava. Será que não basta esta trepação diária?, rebati. Mas ele tanto insistiu, que cedi! O problema não foi sair nua, nem ser largada nua aqui tarde da noite. O problema é que não sei onde ele me deixou. Aceitei sair nua com uma venda nos olhos, e me afastei do lugar onde ele combinou me pegar. Nem sei se viria me pegar. Agora não consigo voltar até onde ele me deixou, nem conheço o caminho de volta pra casa da Amelinha. Quando venho a esta região quase não saio, nem para ir à cidade. Percorri duas ou três centenas de metros, uma escuridão terrível, então encontrei uma rua, um muro alto, acho que alguma mansão de homem rico, escutei até relinchos de cavalo do outro lado do muro, acho que se trata de um haras, esses lugares onde criam cavalos de raça. Então, você quer saber como fiz para te ligar? Quase um milagre, isso mesmo. Como poderia haver um orelhão logo num lugar desses? Uma rua de paralelepípedos, um muro branco, relinchos de cavalos ao longe... Um trote? Por que eu faria isso? Sei que ainda me deseja, não precisaria agir assim pra ver você morrendo de tesão por mim. Ouça, não é brincadeira, não; é a mais pura verdade. Sei que deve me achar muito tranquila para estar vivendo a história que estou contando. As mulheres bonitas não se veem durante muito tempo num beco sem saída, logo surge alguém pra ajudar. E você sabe o tanto de prazer que senti quando você me levou nua no seu carro pela primeira vez. Acho que por isso estou recorrendo a você. Preste atenção, voltando à situação em que me enfronhei hoje. Não, ninguém ainda deu pela minha presença, há uma luz num poste distante, mas só sombras. Tive uma ideia, um desses lampejos que não acontecem sempre. Já que você está longe e mesmo querendo não vai conseguir chegar a tempo, de repente você contata um amigo e ele vem me resgatar. O quê? Ficou com ciúmes? O que tem demais? Já fiquei nua pra tantos homens, já perdi a calcinha pra dezenas deles. O importante é que me leve de volta pra casa da Amelinha. É fácil, todos a conhecem por aqui e sabem onde ela mora. O cara vai querer trepar comigo? Também não vejo problema nisso. Melhor com um conhecido seu do que com um estranho. O que vale é estar salva antes do amanhecer. E olha que depois te conto, sei que você adora uma historinha. Então, como você parece entender das coisas, acho que pode me tirar desta situação. Há uma árvore de tronco largo, vou ficar agachada atrás. Fale pro seu amigo apagar o carro todo e piscar o farol três vezes, aí vou até ele, combinado?

quinta-feira, julho 02, 2015

Fez até uma cosquinha

Se eu levasse em conta o meu código de conduta e minhas tentativas de leis, o mundo seria totalmente diferente. Quando querem o vermelho, prefiro o verde; quando me desejam de verde, vou... isso mesmo, vocês já sabem, saio pra passear nuinha. E ainda arranjo um homem, sempre com propostas ousadas, excitantes, como meu recente namorado. Ele tem um casaco de meia estação, desses que se amoldam ao corpo, parece aquele papel prateado com que envolvemos uma fruta. Só que a fruta sou eu. E que fruta! Querem mordiscá-la, sentir o sabor, experimentar o sumo? Esperem, o dia de cada um há de chegar. E ele trouxe a peça, pediu que a vestisse. Não demorei a moldá-la sobre os meus ombros. Não, nada disso, não se deve vestir o agasalho desse modo, afirmou. Tirei-o e lho devolvi. Como se veste um casaco de meia estação?, ingênua eu, que sei apenas andar nua, nua e sorrindo. Vista-o sobre a pele, ordenou. Apenas, ressaltei. Meus dentes felizes e brancos. Fácil, não?, compreender os desejos de um homem. Um casaquinho sobre a pele, apenas, repeti. Não o fiz sob a vista dele. Fui ao quarto, a porta fechada. Voltei à sala. Não me toque, asseverei, caso contrário desmancho. Assim como a glacê de um bolo fugaz, acrescentou. E põe fugaz nisso, completei. Ele, o namorado, regozijou-se. Não temo a palavra. Foi exatamente assim que aconteceu. Um regozijo; a princípio eufórico, depois contido. E me pegou pelo braço, e me puxou porta afora, e me levou a passeio. O sol se punha, as pessoas iam e vinham. Não posso dizer que não gostei. Se falo lá em cima do meu código de conduta e de minhas leis às avessas, que mal há em passear nua à noite, ou quem sabe, até durante boa parte da madrugada? E as pessoas, acaso se surpreenderão? As pessoas não se surpreendem numa cidade como a minha. Não olham para o lado. Estão ensimesmadas. Essa mesma a palavra, bonita, não? Ensimesmada. Talvez pensem no namorado, no marido displicente, num filho que não vai bem na escola, ou mesmo não sabem no que pensam. Ninguém nota a mulher nua sob um casaquinho de meia estação. Vocês já sonharam que vão nuas ou nus pela rua? É tão engraçado. Ninguém nota a gente, não é mesmo? No sonho é assim; se acreditamos, as pessoas nada sabem. Então, o passeio com esse meu namorado foi parecido. Ninguém notou. E eu podia ir nua. Mas à vontade, impossível. Disse a ele que não queria o automóvel. Vamos caminhar pela orla de Ipanema, sugeri. Paramos num quiosque. Quero água de coco, sussurrei. Lá veio o empregado do quiosque com o coco e um canudo. Sorvi o mundo inteiro pelo canudo. Caso eu queira fazer xixi, afirmei, que bom, já estou pelada. Continuamos a andar de braços, sobre a calçada larga e bem iluminada. O vento que vinha do mar soprava por baixo da barra do agasalho, e eu, como podia me estar sentindo? Arrepiadíssima. Mas não esmoreci. Pelada ao vento, pelada à brisa marítima, pelada à beira-mar. Descemos à praia. Foi minha a sugestão. Ei, aonde você vai?, perguntou ele enquanto eu corria abandonando a sandália. Não imagina, lancei-lhe ao vento. Oh, sim, arremessei-lhe as palavras e o casaquinho. Depois, num salto, mergulhei. Só me resta a bronca da cabeleireira. O que fazes de teu cabelo, mulher?, ela sempre se assusta quando apareço no salão. Minha resposta silenciosa é um sorriso amarelo. Meu homem, preocupado, procura-me com os olhos baços. Não mais me tem à mão, apenas segura o casaquinho de meia estação. Lembro-me de minha amiga Elizabeth, enquanto movo braços e pernas tentando acostumar à temperatura fria da água. Quando me contou, eu já praticara a tal aventura, só que com desfecho diferente. Elizabeth saiu do carro peladinha, às três da manhã. O namorado partiu e ela ficou. Ficou a ver navios. Sério, o cenário ao fundo era de navios ancorados próximos à costa, aquela noite. Mas ela não queria saber deles e sim do banho de mar. Sua fantasia: mergulhar como viera ao mundo. E ninguém por perto. Nem o namorado. Que se fosse, que voltasse meia hora ou uma hora depois. Ela ficou escondida, ou melhor, sob as rendas desfiadas das poucas ondas que, suaves, iam e vinham. Se ele não volta, vejo o que faço, falou a si mesma. Era o jogo; assim ficavam excitados. O problema não foi ele não ter voltado, mas os olhos apurados de um pescador. Isso mesmo, um pescador experiente, que sabia discernir entre rendas desfiadas. Este a fisgou. Não usou rede nem molinete. Até disse que ela não era a primeira. Como eu deveria me comportar, então?, minha amiga chegou a me perguntar. Não esperou, no entanto, resposta. Saí com ele, isso mesmo, ali na beirinha d’água, e você sabe o significado do verbo sair, nessa situação; o problema não foi a saidinha, mas eu estava temerosa de que meu homem voltasse, acrescentou. E ele voltou?, eu, curiosa. Nem te conto... E se foi Elizabeth. Quanto ao meu homem, com o casaquinho nas mãos, esperava-me lá nas areias. Nadei ainda mais vinte minutinhos. Quando corri a ele, meu casaquinho, por favor, pedi. Casaquinho?, você entrou n’água com ele. Será?, fingi não me surpreender. Bandido, pensei, tal qual o namorado de Elizabeth, que, escondido, deve ter apreciado a mulher trepar com o pescador. Você viu o homem?, insinuei, meio afoita. Homem?, que homem?, franziu o cenho. O que levou o meu casaquinho, acrescentei, fez até uma cosquinha!