terça-feira, março 29, 2016

Vou te mostrar pra que serve uma mulher

“Cris, chega aqui que quero lhe pedir um favor.”

“Fala, Lena, o que foi?”

“Você tem uma calcinha pra me emprestar?”

“Uma calcinha, por quê?”

“Ah, Cris, depois te conto, você arranja uma calcinha pra mim?”

“Hum, deixa eu ver, já até imagino o que aconteceu, você com esse vestido coladinho ao corpo e com a fama de namoradeira que só, esses garotos, essa festa concorrida.”

“Vai, Cris, você arranja; se não, tenho de ir embora.”

“Vou procurar no armário de mamãe, no meu quarto vai dar na pinta, tá cheio de gente.”

“Tanto faz, Cris, o importante é você me ajudar.”

Ela se foi e eu fiquei esperando, no corredor que dava acesso à escada do segundo piso. Não via a hora de o Eduardo mostrar minha calcinha para os outros garotos.

Ainda bem, Cris voltou logo.

“Pegue, Lena, foi o que eu consegui.”

“Cris, tua mãe usa calcinhas menores do que a minha.”

“Pois é, o que vou fazer? Minha mãe também gosta de vestidinhos tubinhos, bastante curtos, e deve viver perdendo a calcinha por aí.”

Voltei para junto de alguns convidados. Mas, dessa vez, para a varanda.

Chegaram novas pessoas, dois rapazes e três moças. Elas também usavam roupas extravagantes, saias curtas, tops que mais pareciam uma faixa a cobrir os seios. Como eu já os conhecia, fiquei entre eles. Mas não demorou a surgir o Eduardo.

“Oi”, falou, “você por aqui?”

“Não gostei, Eduardo, não vou mais ficar com você, isso não é brincadeira que se faça.”

“Que brincadeira?”, ele fez de conta que não entendeu.

“Você e seus amigos não gostam de mulher, não sabem aproveitar as garotas, querem apenas disputar entre vocês quem rouba mais calcinhas. Outro dia a mãe do Marcos veio me perguntar se eu também deixava que os rapazes roubassem as minhas. ‘Por quê?’, perguntei a ela. ‘Porque o Gustavo sempre tem uma calcinha guardada na gaveta de roupas dele. Diz que é da namorada’, disse ela com um sorrisinho de escárnio.”

“Vou te dizer uma coisa, bem baixinho”, retomou Eduardo, “não é só você que ficou sem, há três outras meninas na mesma situação.”

“Três outras?”, fiz cara de surpresa.

“Isso mesmo, três, e não duvido que daqui a pouco vai ter quatro ou cinco. Todas como você, todas sem.”

“Quem disse que estou sem?”

“Você agora traz calcinha reserva?”, perguntou com os olhos bem abertos.

“Quem sabe”, dissimulei.

Eduardo pediu licença, chegou a Sheila, também de vestido curtinho.

Fiquei na festa, até aceitei dançar. Os garotos olhavam para mim, para Sheila, para Jéssica, para Carla, não afastavam os olhos nem por um minuto. Num determinado momento, passaram também a assediar a Cris, a dona da festa. Notei nela um sorrisinho irônico.

Algum tempo depois, Eduardo me pegou pelo braço e disse:

“Vem cá rápido, por favor, quero falar com você.”

“O que é dessa vez?”

“Quero devolver tua calcinha?”

“Não precisa, pode ficar, guarde de lembrança.”

“Não, não, quero devolver.”

Sem que eu pudesse reagir ele tirou minha calcinha de um dos bolsos e a colocou na minha mão. Durante alguns segundos fiquei segurando aquele pedacinho de pano vermelho. De repente, virei de costas, e enfiei a calcinha dentro do top, fazendo-a desaparecer como num toque de mágica.

Lá pelas tantas, vi a mãe de Cris. Os garotos também olhavam pra ela com uma intensidade que me causou desconfiança.

“Lena, a Cris está te procurando”, disse Marta.

“Ah, ainda bem que eu te encontrei Lena”, disse Cris, “você precisa me devolver a calcinha, por favor, caso contrário vou ter problemas.”

“O que aconteceu, Cris?”, fiz de conta que não entendi o motivo daquele desespero.

“Sabe como é a minha mãe”, ela ficou com o Gustavo, nos fundos da casa, perto da piscina. Imagina o que aconteceu?”

“Ela também?, Cris.”

“Ela é humana, como qualquer uma de nós. Já teve até um namorado da nossa idade. E foi um namoro sério. Vamos ao banheiro e me devolva, por favor, na gaveta em que eu a peguei tinha apenas essa, que eu te emprestei. Acho que ela não vai querer ficar sem durante toda a festa, vai acabar procurando pela única calcinha que estava na gaveta.”

“Tudo bem, devolvo, mas você pode me dizer algum lugar dessa casa onde eu possa ficar sozinha?”, minha perguntou revelou toa minha ansiedade

“O sótão, ninguém vai lá?”

“Obrigada, mas não fale a ninguém, por favor.”

Fomos ao banheiro. Tirei a calcinha e lhe entreguei. Quando saía do banheiro, encontrei o Eduardo.

“Eduardo, me siga, quero falar uma coisa com você.”

Ele não pensou duas vezes. Entramos os dois no sótão. Tranquei a porta.

“Tire minha roupa, vai, quero trepar. Esse negócio de roubar calcinha não me satisfaz.”

Ele arregalou os olhos como se dissesse é pra já!

“Vou te ensinar pra que serve uma mulher”, soprei no ouvido dele.

quarta-feira, março 23, 2016

Levada

“Olá, tudo bem? Que saudades. Quero encontrar você, dar uma mordidinha. Está assustada com a proposta? Ou com a palavra? Talvez esteja surpresa. Ninguém nunca falou assim? Você sabe o que significa dar (ou levar) uma mordidinha. Deve estar arrepiada, você sempre se desmancha quando envio uma mensagem ou quando ligo, pensa que não sei? Lembra quando nos encontramos ao acaso, naquela tarde de outubro? Estava magra, corpo mignon. Estou fazendo dieta, escutei sua voz, disse que se tratava de um probleminha de saúde. Agora sei que já está bem, não sofre de mal algum, e seu desejo, seu tesão, sempre foi grande, então lembrei a mordidinha. Você vai gostar, tenho certeza, e não será a primeira vez. Uma mulher muito levada, é assim que sempre imagino você. Mas também, pudera. Você lembra, ficou nua na praia, dentro d’água, deixou que eu levasse seu biquíni. Depois voltei para namorarmos, banhados pelas águas do mar. Não se preocupe, eu disse, caso apareça alguém estamos abraçados, você está vestida na frente pelo meu corpo e atrás pelas minhas mãos. Você riu, adorou a brincadeira, nem pensou que poderia ter de sair pelada de dentro d’água. No final, uma pizza. Assanhada, comendo a pizza e o biquíni dentro da bolsa. Agora convido de novo, que tal?, quero dar uma mordidinha, vai ser tão gostoso, garanto que vai gozar muito, muito mesmo, impossível representar com palavra. Num primeiro momento, as mulheres recusam, mas não demoram a deixar que lhes roubem a saia. Vamos fazer assim, você vem à minha cidade, não precisa se preocupar, não haverá custos, tudo por minha conta, e ainda vai ganhar um presente e tanto. No nosso último encontro, você falou sobre seu casamento. Eis as palavras: não temos nada, apenas amizade; além disso, ele fica na casa da serra e eu na da cidade, ele não consegue viver em M., de modo algum, eu é que vou à serra de quinze em quinze dias encontrar com ele, mas apenas para nos vermos e conversarmos um pouquinho; sexo, nem pensar. Portanto, disse eu, nada de consciência pesada, isso não é casamento, e se não é casamento, não há traição. Você riu, me deu razão. Espero você. Sei que está doidinha. Vou te sacudir e vais te renovar, por dentro e por fora. Não há o que o gozo não cure. Às vezes, desconfio, do jeito que você é levada, e como faz muito calor, quem sabe vai a Cavaleiros e lá, dentro do mar, uma mãozinha que sempre paquera você rouba o teu biquíni. E você a sorrir, a gostar, a namorar... Será?”

Que e-mail comprido. Ele a me convidar, a querer me deixar nua!, a desconfiar de mim. Que arrepio. Ainda bem que ele não está vendo, morro de tesão, verdade. Quanto a outro, não sei. Bem que, um dia desses, vi um homem tão bonito, não pude controlar meus pensamentos (só os pensamentos?). Voltando ao autor do e-mail, o homem que me faz o convite. Assim que eu estiver na cidade dele e ele me tocar, vou virar os olhos, vai poder fazer comigo o que quiser. Estarei pro que der e vier. Lá ninguém me conhece, posso até sair nua do apartamento. Vou levar minha caixa de surpresas: um vestido curtinho, desses que ficam coladinhos ao corpo; duas calcinhas pequeninas, uns fiapinhos à toa, uma saia de baianinha, uma camiseta curta, e também um vestido de odalisca; um biquíni de praia (fio dental), mas nada de top, apenas a calcinha, pra fechar uma lingerie de corpo inteiro, como uma meia que desce do pescoço às pontas dos pés, pra passear depois da meia noite. Todas essas surpresas pra desfilar pra ele e com ele. Ai, tomara que esse dia chegue logo. Até que enfim vou poder gozar, e gozar muito! Nada de ficar só no conto, quero também o corpo... Às vezes penso, em vez de ir à cidade dele, posso chamá-lo para vir à minha, vamos então pra uma praia deserta e, depois, pra um hotel. Ele vai adorar. Que show!

terça-feira, março 15, 2016

Não mais voltaria nua pra casa

Você devia ter corrido de volta. A frase ressoava em minha mente. Uma amiga, tempos depois, me falaria a mesma coisa. Mas o problema era que eu sentia uma ponta de atração pelo homem, por isso não corri, por isso até mesmo fiquei. E, quem sabe, estaria naquela praia até hoje. Os dias eram tão longos no verão, eram entediantes, a única saída era a praia. Corria para lá e ouvia o murmúrio do mar, sentia na pele o vento, gostava do sol à tarde, depois das quatro e meia. Escolhia um pedaço de areia onde sabia que não seria incomodada. Pra lá do Pecado. Deitada então sobre a toalha, ou sobre as próprias roupas quando ia apenas com as do corpo. Me punha a voar. Isso mesmo, e como era bom o voo. Conseguia alçar sobre as areias, planar junto ao mar, respingos da maré às vezes me chegavam à pele. Como me arrepiava. Mas era um arrepio de prazer. Surgiu, porém, numa dessas tarde o homem. A princípio, ficou a distância. Logo percebi de quem se tratava. Já o vira outras vezes em algum ponto da cidade, ou na noite de sábado, não sei. Ele sentou junto a uma pedra, uma reentrância do mar. De onde estava não dava para saber se me olhava ou não. Talvez imerso nos próprios pensamentos, talvez esperando alguém. Eu preferia a solidão, não queria um ser que atrapalhasse meu prazer, que interrompesse minha comunhão com a natureza. O ser humano, no entanto, não existe sozinho. Precisa de alguém que o observe, que se admire dele. Foi o que começou a acontece comigo. A presença do homem despertou em mim algo que eu não sabia existir nem até então explicar. Ao caminhar para a beira d’água, pensei se me olhava ou não, se suspirava com a minha presença. Os dias foram passando e o homem no mesmo lugar. Eu imaginava se vinha nos dias em que eu não comparecia. Imaginava-o espreitando ao redor, tentando encontrar minha silhueta distante. Quando sentava sobre as areias brancas e já o reparava sobre a mesma pedra, respirava aliviada. Meu admirador não faltara. Mas nada permanece imutável. Sempre há o dia em que algo se move e o mundo fica fora do lugar. Deitei. Já não conseguia alçar voo nem planar sobre a maré, o pensamento do homem a me olhar tirava minha concentração. Na verdade eu planava, mas era outro tipo de voo. Talvez eu deva procurar outra praia, um lugar mais retirado, cheguei a cogitar. Mas o corpo começava a me pesar. Ao passar as mãos sobre o ventre, sobre uma coxa, ou mesmo a abraçar-me contra o possível vento, percebia o desejo. Acho que ele conseguia, mesmo a certa distância, descobrir minhas ânsias. Um dia, não contava com isso, ele conseguiu me assustar. Estava deitada, numa dessas tentativas de me desligar do mundo. Notei uma sombra. Mas não contava que fosse ele, achava que eram minhas pálpebras ofuscadas pela luz do fim da tarde, uma luz que às vezes encontra uma nuvem e muda de cor antes de chegar aos nossos olhos. Estava quase ao meu lado, o homem. Não me movi. Fiz que não o via, fiz como não existisse o invasor. Ele ficaria horas aguardando a minha reação. Eu tentava ignorá-lo, assim como tentei muitas vezes planar sobre as águas. Umas com sucesso, outras sem conseguir sair do chão. Mas ele espreitava. Ao abrir os olhos, ainda estava lá. Sua presença contrastava com o vazio das areias, o silêncio murmuroso da maré, e o grito longínquo de uma ave. Talvez fosse embora, talvez esperasse uma eternidade, não sei. Eu tinha paciência para saber o que aconteceria. Mas anoiteceu. Uma noite súbita, escura, como um eclipse. Eu não quis dar a entender que me assustava. A noite pesava sobre o meu corpo, o vento trazia rajadas de grãos de areia, chicotes finos sobre a pele. Você devia ter corrido de volta, meu pensamento de novo. Mas seria vergonhoso. Depois de tanta coragem, de aguardar o porvir, correr de volta? Qualquer ser humano tem seus momentos de fraqueza, ele entenderia, mas como você não correu, como deixou que a noite pesasse sobre seu corpo, ele percebeu o que deveria fazer, diria uma amiga muito tempo depois. Se conseguiste suportar o peso de uma noite súbita, conseguirias suportar o peso do seu corpo, entendeu como um convite, tanto mais ao perceber que tu estavas nua, ainda a voz da amiga. Mas uma incógnita persiste, eu deveria rebater, apresentar meu argumento, um enigma, eu replicava, ele não apenas subiu sobre o meu corpo, mas quis saber como eu fazia, entende?, o que me atraía tanto no lugar. É porque posso voar, falei simples e rápida, porque posso planar sobre a maré. Planas nua também de volta pra casa?, mostrou-se curioso. Ah, caso queiras o meu corpo, és teu, mas não me faças perguntas que não sei responder. Ele veio, então, mais uma vez. Você devia ter corrido de volta, minha amiga de novo, não é isso o amor, não é isso o sexo. No dia seguinte voltei ao mesmo lugar. Ele não apareceu. E também não voltou nos outros dias. Meus voos, dali em diante, teriam de ser com o corpo pleno, com todo o peso que eu trazia e deslocava, teria de comprimir meu ventre e carregar minhas ânsias. A noite sobre os ombros. Ainda uma aflição. Não mais voltaria nua pra casa.

terça-feira, março 08, 2016

Um, dois, três, quatro, cinco

Não fique tão surpreso nem desconfiado. Você quer saber o que aconteceu? Então ouça. Coisas de namoro.

Nós estávamos esquentando um o outro, aquele esfrega esfrega inicial. Beijos, carícias, palpitações etc. Fui eu que dei a ideia, sabe. Sempre dizem que não é bom dar ideias. Mas me aventurei.

Você gosta de ouvir sacanagem?

Gosto, respondeu.

Falo no teu ouvido.

E derramei a imaginação. O homem foi ficando cada vez mais excitado, mais eufórico, chegou a me penetrar. Pelo vulto que a coisa tomou, a trepada acabava logo, e quem ia ficar no prejuízo era eu. Aliás, as mulheres sempre ficam no prejuízo.

Por favor, pedi, espere um pouquinho, relaxe, vou massagear você.

Ele aquietou, deitou de bruços na cama. Comecei a deslizar minhas mãos sobre sua pele. Às vezes, apertava um pouquinho; em outras, percorria suas costas com um toque sútil, quase uma levitação.

Você é muito gostosa, ele disse voltando à euforia.

Aí dei a ideia.

Espera, falei, vou lá fora nua.

Lá fora?, ele retrucou, o que vai fazer nua lá fora?

Vou fazer de conta que chego pelada pra você; vai dizer que não quer?

Deve ser interessante, replicou, nunca pensei nisso, mas será que não tem perigo você nua lá fora?, não quero te perder pra outro.

Não, é rapidinho; saio, conto até cinco e volto, bato de leve, nada de estardalhaço; você abre, entro e faço de conta que não te conheço; no começo fico em silêncio, mas você quer saber quem sou e o que estou fazendo nua na tua porta; pronto, é o suficiente, conto a minha história; e olha que sei cada uma...

O homem estava transformado, explodindo de tesão.

Calma, por favor, não vá gozar enquanto vou lá fora, viu?, acrescentei.

Levantei, andei até a porta, abri suavemente e me lancei no corredor do prédio, sétimo andar. Eu mesma fechei a porta. Dessas que não abrem por fora.

Contei: um, dois, três, quatro, cinco, como combinado. Bati. Um silêncio de três da madrugada. Contei mais uma vez, um, dois, três, quatro, cinco. Três toques suaves com o nó do dedo médio. Silêncio. O apartamento parecia vazio, ninguém morava ali. O que vou fazer agora?, pensei. Respirei fundo. Esperei e contei novamente. Desta vez para me acalmar: um, dois, três, quatro, cinco. Bati novamente, jurei que era a última vez. O homem não abriu. Estufei o peito e disse:

Ah, não vai abrir, não tem problema.

Desci um andar. Portanto, bati no 602,  teu apartamento. Esta é a história! Me deixa entrar, vai, não é nenhuma armadilha não.

quarta-feira, março 02, 2016

Deixe as coisas acontecerem

Os óculos escuros? Foi você mesmo quem pediu, e as lentes combinam com a minha pele, são da mesma cor, reparou? Além disso, protegem os olhos e me mantêm anônima. Sei que em alguns momentos, sobretudo durante a noite, chamam a atenção. Por que uma mulher de óculos escuros a esta hora? Talvez pensem que sou cega ou, quem sabe, cantora de blues. As pessoas a me pedirem autógrafos. Caso você me queira sem os óculos, estarei nua. Você ri? Verdade. Vou chamar ainda mais atenção. Você diz que não estou nua, que uso o vestidinho. Mas é tão curto, colado ao corpo, uma coisinha à toa, é como andar nua. Lembro a primeira vez que me pediu para usar os tais óculos. Eu estava na praia, “este óculos vão ficar o máximo em você”, ofereceu; “não, obrigada, não estou interessada”, devolvi pensando que fosse um vendedor de óculos; “é de graça, experimente”, você, as mãos estendidas, os óculos abertos, pronto para o meu rosto. A amiga, ao meu lado, namoradeira que só, quase saltou sobre o teu pescoço. Mas era apenas pra mim que você os oferecia. Ela, a ver navios. Olhei pro mar e pensei, quem sabe toda essa água sirva pra apagar o fogo que ferve dentro dela. Você conversou comigo, depois me deu o número do telefone, permaneceu um bom tempo ao meu lado. Começou assim nosso chamego. Saímos duas ou três vezes, você a me pedir o vestido curtinho, coladinho ao corpo, e os óculos, sempre os óculos. Agora, quanto à foto, morro de vergonha, nunca posei pra ninguém do jeito que você deseja. Se eu não aceitar, você chama minha amiga? Olha que ela vem em um minuto, e vem quase pelada, nem precisa pedir, já até dirigiu nua por aí, à cata do namorado, acredita?, é louca, mas como se diverte. Ficou excitado? Não se pode contar nada das mulheres para os homens, eles não resistem. Não duvide, chamo sim, já sei o que vai acontecer. Ela vai tirar toda a roupa, a saia bem curtinha, vai fazer todas as poses que você quiser e mais as que ela inventar, depois, bem, depois você sabe a continuação da historinha. Posso fazer ainda o seguinte, fico escondida enquanto você a fotografa, surrupio então a roupinha dela. Mesmo tendo que voltar nua, ela nem vai se importar, o melhor será conquistar você. Sabe que isso já aconteceu? Não, claro que não foi com você, mas com outro, e não fui eu quem lhe furtou a roupinha. Ela mesma contou. Agora, quanto a mim, sou um pouco travada, pra ficar nua pruma foto, vai demorar. Posso cruzar as pernas, o vestido subindo, você faz a foto. Depois, daqui a umas semanas, quem sabe, poso pra tal foto que você deseja. Nuinha, apenas os óculos escuros. Vamos passear agora, você prometeu me ensinar a dirigir o seu lindo automóvel. E aceitei vir com o tal vestidinho. Depois a gente vai a um bar, e bebo uma caipirinha, que me deixa doidinha, você já percebeu aquele dia na praia. Não me peça nada agora, por favor, deixe as coisas acontecerem...

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Quebra galho

Na casa noturna da dona Efigênia havia muitas damas trabalhando. Todas de alto gabarito. Merillin era loira, cintura fina, pele suave, olhos castanhos claros e outras habilidades que agradavam aos homens que por ali passavam. Nilda, uma morena com corpo violão de chamar atenção dos clientes. Maura, baixinha, meio japonesa, com seios salientes. Débora, uma afrodescendente com cabelos tratados que mais pareciam miojos. Cíntia, bonequinha loira de olhos azuis. Todas à disposição dos fregueses. Numa sexta feira chuvosa, chegou do interior uma mocinha ingênua que fora tentar a sorte na cidade grande. Seus pais tinham muitas filhas e aquela que completasse 18 anos era posta ao relento para se virar e sustentar-se. Jaqueline tentou de início ser diarista, mas como era tempo de crise muitos já não podiam obter este luxo. Trabalhou numa lanchonete, mas o dono se engraçou com ela e ela foi embora. Dormia num corredor que havia entre o balcão e o banheiro.

Quando Jaqueline chegou, ficou de boca aberta. Nunca tinha visto tanto luxo, ficou até meio envergonhada com seu traje. Ela precisava de um banho de loja, cabeleireiros ao seu dispor, sapatos decentes, maquiagem e outros apetrechos de mulher para trabalhar naquele lugar. Foi logo ao encontro da dona Efigênia, que se mantinha o tempo todo num camarote de onde podia visualizar todo movimento do seu estabelecimento. Como ainda era muito cedo, atendeu a moça. Jaqueline não sabia em que serviço dona Efigênia poderia encaixá-la. Esta ficou horas tentando explicar o que aquelas moças bonitas faziam naquele lugar. Jaqueline era virgem e sempre sonhou encontrar um rapaz por quem se apaixonasse para se casar e aí, sim, fazer sexo. D. Efigênia resolveu investir em Jaqueline. Ela ficou linda. D. Efigênia prometeu que poderia ficar no bordel somente para acrescentar beleza àquele lugar. Caso aparecesse algum rapaz por quem ela se interessasse e que tocasse seu coração, deveria decidir-se se iria ou não aos finalmentes. Pediu que ela servisse as bebidas. O gay que trabalhava fazendo o serviço tinha pedido as contas, enrabichou-se por um dos clientes que também  gostavam daquela fruta e se arrumou na vida. As outras moças não viam Jaqueline com bons olhos, e a chamavam de Quebra Galho. Os clientes sempre pediam a dona Efigênia Jaqueline. Carne nova no lugar era festa para os homens que mais pareciam urubus. Dona Efigênia, porém, dizia: não, a moça trabalha no bar, não está disponível. As outras ficavam ainda mais intrigadas com aquela situação. Elas sempre como segunda opção.

Dona Efigênia sempre conversava com Jaqueline sobre casamentos. Dizia que as cerimônias mais lindas muitas vezes acabavam em tragédia. Contou muitos casos de casamentos fracassados, vividos por ex-funcionárias, e que sonho é muito bonito mas a realidade é outra. Jaqueline ouvia tudo e continuava a observar que os frequentadores dali eram sempre os mesmos. Um dia apareceu um rapaz que dava para perceber que nunca tinha ido a lugares como aquele. Falou com dona Efigênia que só queria se distrair um pouco. Parecia triste, talvez tivesse passado por alguma desilusão amorosa. Nos intervalos, ele se dirigiu à Jaqueline que, ao vê-lo, sentia o coração aos saltos. Manteve-se comportada, mas com vontade de contar à dona Efigênia o acontecido. Jeferson todos os dias ia à casa para conversar com Jaqueline. As outras moças não entendendo o comportamento do rapaz sempre comentavam: Olha a Quebra Galho! Jaqueline ficou tão apaixonada por Jeferson quanto ele por ela. Os olhos dos dois brilhavam quando se encontravam. Jaqueline contou a ele sua história e ele numa data especial a pediu em casamento.

A festa foi lá, e com dona Efigênia como madrinha. A primeira noite de Jaqueline lá no bordel foi de estremecer o prédio. Jeferson fez tudo com muita classe e Jaqueline se tornou uma mulher, uma mulher casada. No domingo de manhã, viajaram. Na volta, ela iria para casa do Jeferson e não mais para aquele puteiro de luxo.

terça-feira, fevereiro 16, 2016

Paisagem romântica

Fui ao Rio encontrar um namorado. Depois de alguns dias o convenci a vir comigo a BH. Moro no edifício JK, em Lourdes, um prédio desenhado por Oscar Niemeyer e construído quando JK governou Minas Gerais. Ao entrarmos no apartamento, o namorado se dirigiu à janela, quis admirar a paisagem, do 18º andar.

Que bonito, não imaginava que este lugar fosse tão atraente, ele disse.

Gostou?, sorri.

Ele se voltou a mim, me abraçou e me beijou, um longo beijo na boca.

É realmente uma paisagem romântica, acrescentou.

Nos agarramos e ficamos a namorar durante muito tempo.

À noite, antes de sairmos para beber e comer alguma coisa, ele me fez um pedido especial.

Você veste uma roupa que ressalte suas pernas, que valorize a sensualidade de seu corpo?

Claro, nem precisa pedir; além disso, vou fazer uma surpresa, falei.

Fiquei algum tempo no quarto e, de repente, apareci na sala. Vestia uma minissaia (bem pra lá de mini) e um top, na verdade uma faixa azul a me cobrir os seios.

Que beleza, suspirou satisfeito.

Como a temperatura tende a cair durante a noite, cobri-me com um meio-sobretudo. Ele me abraçou. Descemos, ganhamos a rua às dez da noite. Caminhamos em direção à praça que fica à direita da primeira transversal. Trata-se de um local muito arborizado, onde as pessoas aproveitam para ler o jornal pela manhã, mas à noite é deserto. Íamos pela calçada da direita quando cruzamos com dona Hemengarda, mulher alta, de traços duros, face que sempre transmite ar de reprovação. Sua aparência espelha condenação; para ela, aproveitar a vida é um pecado. Lancei-lhe um ligeiro boa noite. Ela, porém, não respondeu, olhou-me com os olhos bem abertos e fixos, como se enxergasse por baixo do meu casaco. O namorado nada comentou.

Seguimos e entramos à primeira rua à esquerda, avistamos um bar e paramos para beber alguma coisa.

Você não prefere procurar um lugar mais distante da sua casa?, perguntou com seu ar matreiro.

Por quê?, devolvi, vamos andar mais e ficar cansados mais cedo, aqui é um bom lugar e, depois, tenho a tal surpresa pra você!

Logo que sentamos, percebi o casal da terceira mesa adiante. Tratava-se de um homem com quem saí certa vez, e de sua namorada, que eu conhecia havia pouco. Lógico que à época a namorada dele era eu. Enquanto meu namorado entabulava uma conversa de elogio a viagens, ao contato com pessoas de outras cidades (elas enriquecem nossas vidas, dizia ele), eu observava o casal, tentava descobrir as palavras que saiam da boca do homem. Mas o barulho me impediu. O namoradinho continuava seu discurso no qual eu já não prestava atenção. Eu já sabia para onde iria o casal após deixar o bar. O homem gosta de aventura, e ela vai nas águas dele.

Ficamos ali por mais de uma hora. Bebemos duas caipirinhas cada. Quando decidimos andar um pouco, o tal homem e a mulher já haviam desaparecido. Antes de levantar, disse ao namorado:

Segure isto aqui, guarde no seu bolso?

O que é?, ele pareceu não entender.

A primeira parte da surpresa.

Surpresa?

Minha saia.

Subimos a rua Rio Grande do Sul em direção à praça Raul Soares. Estava escuro, o céu estrelado mas sem lua, a temperatura amena. O namorado me abraçou, roubou-me um beijo e disse:

Peladinha.

O quê?, fiz que não entendi.

Nua, ele confirmou.

Sorri. Tenho o casaco, redargui.

Não vai ser por muito tempo, completou.

Tenho agora a segunda parte da surpresa, mantive-me na dianteira.

Pegamos a Amazonas, que não tinha muito movimento àquela hora. Passava de meia-noite.

Chegamos à praça. Puxei-o pelo braço obrigando-o a seguir-me na travessia da avenida.

A praça é deserta esta hora, ele disse.

Por isso mesmo, repliquei, vamos a ela.

Procurei o lado onde a luz era menos intensa.

Sabe, continuei, sempre quis namorar aqui, mas nunca tive ninguém que me trouxesse, os namorados querem logo me levar pra cama, sorri.

Ele me abraçou de novo e me beijou na boca, sentamos num dos bancos. O namorado enfiou a mão por dentro do meu casaco.

Tira, tira, falei cheia de fogo.

Mas aqui?, perguntou preocupado.

É uma fantasia antiga, afirmei, não demora, vai.

Ele me puxou para trás de uma das árvores, do lado de dentro do jardim. Ali era possível ficarmos ocultos. Desabotoou meu casaco e o deixou num dos galhos. Pensei em me abaixar, mas não foi preciso. Eu ouvia os motores dos automóveis que trafegavam pela Amazonas, mas não era o risco de ser descoberta que mais me excitava. Eu estava de sandália, com a bolsa a tiracolo e de top, era tudo o que me restava. O namorado me abraçou forte, tirou o pênis pra fora e começou a enfiá-lo entre as minhas pernas.

Espera, espera, pedi entre gemidos, vamos devagar, primeiro tira também meu top, depois quero que você me leve pra andar um pouquinho pela praça, pedi.

Mas você está nua, alguém pode chegar, ele rebateu.

Não tem problema, moro nesta cidade e conheço a região, ninguém vai nos ver.

Você vai pegar um resfriado, ele acrescentou.

Não se você me abraçar com força.

Ele me obedeceu. Demos uma volta inteira na praça. Pouco a pouco eu ficava cada vez mais excitada. No ponto oposto onde havíamos deixado o casaco, peguei o namorado pelo braço e fiz que ele deitasse sobre mim num dos bancos. Foi uma trepada e tanto.

Quando acabamos, ele disse:

Vamos, namoramos mais uma vez no apartamento.

Mas ao chegarmos à arvore onde deixáramos meu meio-sobretudo, inesperada surpresa. Ele havia desaparecido. O namorado assustou-se.

Como vamos fazer agora?, perguntou.

Calma, sou eu que estou nua, disse a ele. Com os meus botões (aliás, não tinha botão algum), pensei, foi ele, o homem que estava na outra mesa com a namorada, ficou com raiva porque faço com outro o que costumava fazer com ele.

Você guardou meu top e minha saia, lembrei a ele.

Mas você continua pelada com essa roupinha, constatou.

Que outra solução você tem?, perguntei como se estivesse com raiva. Quer ir lá em casa buscar algo mais comprido pra eu vestir? Se aparecer um homem enquanto eu estiver sozinha, na certa me come, falei e fiz como se desse uma mordida.

Vocês, mulheres de BH, são loucas, bem que me disseram, já aconteceu de uma ir passar um final de semana no Rio e não ter roupa para voltar, acrescentou.

Será que não fui eu?, indaguei com o sorriso mais abeto do mundo. Vamos contar com a sorte, veja bem, duas luzes da avenida apagaram e na Rio Grande do Sul não há ninguém essa hora, vamos, venha.

Segurei o homem firme com a mão direita e corri com ele pro meu prédio. Na portaria, quem encontro. Dona Hemengarda. Mas dessa vez ela já não podia adivinhar minha nudez por baixo do meio-sobretudo.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Vinte e quatro horas em exposição

Você sabe, essas coisas são de arrepiar. Há quem diga que sou louca. Mas isso não é verdade. É consenso dizer que as mulheres gostam de se exibir. Se usamos pouca roupa, é porque gostamos de andar nuas. Não tenho nenhum problema quanto a isso. Ando nua e não sinto a menor vergonha. Quando tenho algum namorado que pede para me fotografar, faço logo a pose. Peço que tire uma boa foto. Se poso nua? O que você acha? Claro, e bem nua, em pelo, ou sem eles, sei lá. E acabo sempre deixando as fotos com eles. Uma amiga perguntou se não tenho medo de que um desses caras me chantageie. Não compreendo como um homem poderá me chantagear se meu estado natural é andar nua. Às vezes olho esses sites cheios de mulheres peladas só para ver se há alguma foto minha. Até hoje não encontrei. Quando estou deitada à noite, fico a pensar se algum ex-namorado está a olhar o meu rosto e, sobretudo, o meu corpo naquele momento.

Tenho uma amiga que diz: “eu morreria caso algum homem tivesse alguma foto minha nua, Já pensou, seria como estar pelada o tempo todo no meio de um monte de gente." Digo que não é nada disso, e que gosto cada vez mais de escapulir nua por aí. Ela ainda retruca: “Lúcia, você sabe que já fiquei nua num daqueles bailes de carnaval de antigamente, mas não aconteceu só comigo, tinha muitas outras mulheres junto. Os rapazes resolveram botar o mulheril todo nu, e até que foi engraçado. Mas tudo terminou de manhã, quando entrei em casa. Agora, ficar o tempo todo nua, vinte e quatro horas diárias em exposição, é de matar."

Contraponho: “Angélica, deixa os rapazes se divertirem. Eles adoram as mulheres nuas. Quando eles não as têm ao vivo, as possuem em fotos. E quem lá vai assegurar que sou eu a fotografada? Posso dizer que é montagem. Mas lógico que não vou desconversar. Adoro que me admirem. E cá entre nós, sou muito bonita...”

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Ainda bem que existe a Margarida

"Você gosta de sair sozinha à noite, vai vestida, recatada, todos os acessórios, mas ao chegar a C., entra no Shopping e, num dos toaletes começa a se preparar. A saia comprida, bem enrolada, é colocada na bolsa, a blusa transforma-se num vestido curto, justo e colado ao corpo. A seguir, a maquiagem na textura exata, um pouco de exagero apenas no batom. Para não chamar a atenção, coloca uma manta, que disfarça a falta de pano do vestidinho. Enfim, você sai à caça."

O trecho acima ouvi de um namorado. Como descobriu?, pensei assustadíssima. Teria de mudar meus planos, meu segredo ia quase água a baixo. Mas suas palavras foram ditas na hora do amor, naquele momento de paroxismo, em que perdemos a cabeça. Dois ou três dias depois, ao escapar para mais uma das minhas investidas noturnas, preocupei-me em observar se alguém me seguia. Mudei de condução, de ruas e avenidas, mas não percebi pessoa alguma no meu encalço. Suspirei aliviada. Minhas amigas vieram-me à cabeça. Apenas uma delas têm necessidade de escapar noite a dentro, escorregar por ruas escuras, correr certo perigo, procurar a aproximação de alguém do sexo masculino. Chama-se Margarida. Até hoje não descobri o que me leva a isso. Ela também não sabe explicar. O que diz é, assim como os homens, as mulheres também têm suas taras, acrescenta: acima de tudo, precisamos viver todo esse prazer.

Gosto, também, de uma boa conversa, de alguém que tenha lido um livro e que saiba falar sobre ele, alguém que entenda de filosofia, rico em ideias e em pensamentos. Parecem polos opostos, não?, de um lado o corpo, de outro o espírito. Sinto, no entanto, que se complementam. E como me arrepiam. O namorado, que pensei ter descoberto meu segredo, é de grande imaginação, às vezes quase chega ao cerne do meu modo de vida, daria um bom escritor. Será que penetra nos meus pensamentos? Certa vez sugeri a ele escrever um livro. Mas disse que o mundo prático lhe é mais importante.

Outro dia trouxe-me mais um presente, uma roupa nova, roupa mínima, que as pessoas chamam de macaquinho. Uma peça inteiriça, que termina como um short, deixando as pernas de fora. Vesti para ele. Ficou excitadíssimo, apenas o tal macaquinho sobre minha pele, lisa que só, e sua mão a deslizar sobre a lividez do meu corpo. Não demorou eu estava nua, a pequenina peça abandonada sobre o estofado da sala. Namoramos até duas da madrugada. Quando saiu, senti ligeiro arrepio, o macaquinho olhava para mim. Tomei-o nas mãos e o vesti. Fui ao espelho e admirei-me dentro do pouco pano. Joguei uma capa sobre o corpo e investi no que restava da madrugada. Não é preciso dizer que a capa, um tecido negro que cobria o macaquinho, deixava certa transparência. Aonde ir depois das duas, faltando pouco para o amanhecer? Entrei num táxi e pedi que me deixasse na porta do hotel mais chique da zona sul. O motorista olhou-me um tanto desconfiado. Na certa se trata de uma acompanhante de luxo, deve ter suspeitado. Não me molestou, deixou-me no local depois de vinte minutos. Na porta do hotel, o funcionário de plantão abriu a porta do táxi para eu sair. Cumprimentou e encaminhou-me ao hall, como se tudo estivesse combinado. Premeu o número 18 num dos elevadores e disse que alguém me esperava logo que a porta se abrisse. Há um engano, pensei, mas fiquei quieta, a situação me favorecia. Sempre preferi locais abertos, onde teoricamente tenho mais espaço de manobra, mas, num hotel famoso como aquele, achei que não me fariam mal.

Como avisara, um homem me esperava à porta do elevador. Tomou-me pela mão, sorriu e me conduziu ao um dos apartamentos. Uma mulher inteiramente nua abriu a porta. “Esta noite, mandaram duas, querem me agradar, uma espécie de cortesia”, o homem disse para ela, ainda sorrindo. A mulher nua despiu-me, levou meu macaquinho e minha capa para uma espécie de armário, ao fundo do quarto. Como não estou acostumada ao sexo coletivo, fiquei meio sem graça. Ela logo notou e perguntou você não é profissional? Nada respondi. O homem foi quem me deixou mais à vontade. Beijou-me um dos seios, abraçou-me e viu que eu fechava os olhos. Ela aproximou-se por trás e abraçou-me. Ficamos os três a sentir o volume de nossos corpos. Podem começar, ele ordenou. Ela virou-me devagar, abraçou-me de frente e deu os primeiros passos, uma espécie de dança. Acompanhei-a. Era um pouco mais baixa que eu, mas bastante hábil. Desceu uma das mãos pelas minhas costas e acariciou-me o bumbum. Depois me virou e pressionou-me por trás. O homem empunhou um pênis de borracha e sinalizou que eu abrisse as pernas. Assustei-me a princípio, mas tive de representar. Minhas pernas portaram-se obedientes, enquanto aos poucos ele o introduzia. Fez que eu agachasse e que minha companheira viesse por baixo. Agora, ela era o meu homem.

Não consigo precisar quanto tempo ficamos naquele jogo. Foram muitas as posições. O homem, sempre nos olhando, admirava nossa performance. Precisamos de muito preparo físico para satisfazermos seus caprichos. Apenas no final, veio trepar com uma de nós. A que sobrava devia acariciar qualquer parte do seu corpo, mesmo com a boca, com beijos e lambidas. Quando estava prestes a gozar, mudava de mulher. Após o prazer, adormeceu. A mulher, então, perguntou quem eu era. Você não é profissional, ela reparou. Como descobriu?, retruquei. Fácil, as amadoras trepam com paixão. Qual o problema de eu não ser profissional?, eu quis saber. O hotel não aceita amadoras, é melhor você ir, caso o chefe descubra aqui uma mulher fora do seu controle, tanto você quanto eu vamos ter problemas, vá embora, não demore. Quando acabou de falar, ouvimos duas pancadas fortes à porta. Minha companheira correu e foi abrir. Não deixou que eu escutasse a conversa. Do lado de fora, ainda nua, entabulou uma conversa rápida. Escutei apenas o rastro de uma voz masculina. Quando voltou, disse que jurou ao homem que no quarto só havia ela, e que nosso parceiro ia ficar bravo caso se sentisse incomodado. Vá embora, mesmo que nua, você corre perigo.  Nua?, assustei-me. Ela foi ao armário e jogou o macaquinho sobre o meu corpo. Vista lá fora, disse, pegue a bolsa e os sapatos, desça pelas escadas. Rápida, saí do apartamento. Vesti a pequena peça entre um andar e outro, ajeitei-me e consegui me ver na rua após descer 18 andares. Só então percebi que me faltava a capa de renda, que servira para disfarçar minhas pernas grossas, agora de fora. Ainda bem, um táxi.

O motorista, ao reparar minha nudez, me cantou o tempo todo. Disse que eu era linda, que nunca vira uma mulher tão assim... assim... charmosa, afirmou que eu não precisava pagar a corrida se o levasse ao meu apartamento. Preferi descer longe de casa, duas quadras. Ele me deixou, não sem demonstrar imensa insatisfação. Para contentá-lo, pedi seu cartão, afirmei que, numa outra hora, ligaria.

Corri para casa. Não encontrei conhecido algum na rua, ainda bem. Ao abrir a porta do apartamento, descobri o namorado que me presenteara com o macaquinho. Ele resolvera voltar e não me achara. Onde você estava?, perguntou preocupado. Na casa da Margarida, respondi. Franziu a testa como se não acreditasse. Ela estava em apuros e me telefonou, afirmei. Em apuros?, repetiu. É uma longa história, deixa eu descansar que depois conto, concluí. Tirei a roupa e deitei, ele veio mais uma vez sobre mim. Ainda bem que há a Margarida, pensei. Vez ou outra, eu contava a ele algumas aventuras de minha amiga.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Le Match

Paul foi um namoradinho ousado. É o que eu sempre acho quando penso nele. Outro dia, ao dirigir pela península de Ashby e fazer o retorno, parei diante do Le Match, um antigo bar que hoje mantém apenas a arquitetura de quinze anos atrás e serve agora de galpão.  Paul pedira para sairmos aquela noite de primavera, queria que eu dirigisse devagar pela orla de Tom e depois parasse diante do antigo bar. Se fosse apenas essa a sugestão, nada demais. O namoradinho, no entanto, me queria de biquíni à noite. Perguntei se eu não morreria de frio, pois apesar da primavera a temperatura resistia a subir.

“Você vai de casaco e de biquíni”, insistiu.

Acabei por lhe fazer a vontade, e o biquíni que vesti era dos menores, de laçarotes, que entrava todo atrás. Joguei o casaco sobre o corpo, descia até parte das pernas, e nos aventuramos ao exterior.

“Você não me permite ao menos um par de meias?, dessas que sobem acima dos joelhos”, pedi.

Ele moveu a cabeça, concordando. Fomos então passear, de carro, uma espécie de furgão. Eu de casaco, biquíni, as meias e um par de botas.

“Você esta charmosa”, soprou sorridente, soltou o ar quente pela boca.

Demos várias voltas pela orla de Tom, depois pelo cais de Ashby e, enfim, fizemos o retorno. Paramos diante do Le Match, onde havia àquela hora poucas pessoas. Eram dez da noite. Parecia que os jovens estavam em alguma das boates que ficavam depois de Ashby. Pedimos duas bebidas, a minha de morango e vodca. Ele tomou um Scotch e comeu amendoins. Ficamos em silêncio durante algum tempo ouvindo a música abafada que vinha dos autofalantes do bar. Uns homens jogavam sinuca no andar de cima. Após a segunda dose, Paul sugeriu que saíssemos e caminhássemos até as dunas, a quinhentos metros dali.

Do lado de fora, apesar da baixa temperatura, o céu estava claro.

“Por que as dunas?”, perguntei.

“Nada demais, apenas um passeio.”

Quando atingimos o ponto mais alto, pudemos apreciar toda a orla das praias da península. Apesar da noite, o contorno do litoral se delineava claramente.

“Então, você atendeu o meu pedido”, ele disse, “veio de biquíni.”

“O que há de mal nisso?”, cheguei a perguntar.

“Que tal você tirar toda a roupa?”, insinuou.

“Acho que não posso, vou adoecer”, falei.

“Então tire o biquíni”, sugeriu mais uma vez.

Dei de ombros. Com as mãos sob agasalho, desfiz os laços. Ele sorriu quando viu o biquíni nas minhas mãos. Entreguei a ele, que o guardou num dos bolsos.

“Você está gostando”, suspirou.

“Quem sabe”, devolvi.

Veio me abraçar. Suas mãos frias percorreram minha pele branca e gelada, dentro do casaco.

“É melhor voltarmos para casa”, eu disse.

“Vamos ao Le Match, quero mais uma dose”, ele rebateu.

Descemos as dunas e entramos mais uma vez no bar. Naquele momento havia mais pessoas. Avistei, entre três rapazes, Diana, uma velha amiga. Ela logo me viu e se aproximou.

“Que casaco bonito, deixa eu vestir um pouquinho”, foi logo dizendo.

“Não posso”, afirmei.

“Como não pode?”

“Depois te conto”, acrescentei.

Ela deslizou as mãos sobre minhas costas e sorriu.

“Depois tenho também uma coisa pra te contar”, disse e me beijou, voltando pro meio dos rapazes.

Eles estavam alegres, espelhavam muito vigor.

“Seria bom se ficássemos com eles”, disse a Paul.

Ele deu de ombros, pediu mais uma dose e sentou num dos bancos. Diana ria muito, logo abraçou o que estava à sua direita e, de lá, deu uma piscadela para mim.

Não sei como aquela noite terminou. Acho que voltamos ao carro e ficamos nos agarrando antes de eu dirigir de volta. Pode ser também que eu tenha dirigido de volta para casa, nua, pois fizera isso algumas vezes para agradá-lo.

O bar ficou na minha memória, o letreiro ainda é o mesmo, mas o fim que a construção passou a ter de uns anos para cá não é mais o de reunir jovens ávidos por bebidas, músicas e aventuras com as mulheres.

terça-feira, janeiro 26, 2016

Uma viagem inesquecível

O ônibus deu a partida e Lucilene já estava acomodada em seu lugar. As bagagens no bagageiro. De repente um rapaz, na casa dos vinte anos, pediu licença, sentou ao lado dela e começou a conversar. Lucilene vive só e nåo tem com quem falar uma só palavra. Ele se chamava Pedro, passou a contar passagens tristes de sua vida. Disse que nåo queria mais conhecer ninguém pra namorar e diminuía muito as mulheres. Narrou sua vida junto à família e afirmou que também não queria voltar às raízes. Lucilene, pessoa  vivida, deu vários conselhos a Pedro. Sugeriu que voltasse a estudar e que levasse a vida com menos rancores no coração. Ela já tivera experiências com diversos homens, mas também achou que jamais fora feliz. Ronaldo gostava de homens. Justino, um cabra safado de muitas mulheres, quando estava com ela parecia exausto. Estevão era idoso e só servia pra manter o luxo dela. Depois de ouvir muito Pedro, começou também a se lamuriar. Contou sua vida. Ele, que era tåo jovem, disse: posso ser uma pessoa diferente na sua vida. Mas você acabou de dizer que não quer mais ninguém pra namorar..., ela interpôs. No teu caso é diferente, ouça, ele retomou a palavra, divide o dinheiro do Estevåo comigo e me torno teu namorado, você vai sentir o que jamais sentiu, tenho uma pica de quase 25 cm, prometo te penetrar bem devagar, fazer carinhos em todo o teu corpo, você vai se deliciar com um gozo que ainda não sentiu. Lucilene pediu pra ele falar baixo, estavam num ônibus. Ele passou a lhe sussurrar ao pé do ouvido. Na primeira parada para o lanche, os dois, que só carregavam cada um uma mochila, procuraram repouso em uma pousada perto da lanchonete. O motorista, antes de partir, perguntou pelos dois passageiros desaparecidos a quem sentava nas proximidades. Um senhor idoso, da poltrona atrás de onde estivera o casal, pediu que ele se aproximasse e lhe cochichou poucas palavras. O motorista sorriu com o canto dos lábios, retornou a condução do ônibus e seguiu sem o casal. O destino dos dois estava traçado. A noite foi plena de gemidos. E Lucilene nem se preocupou com os outros hóspedes. Quase todos caminhoneiros que, nos quartos próximos, tentavam repousar da dura vida nas estradas.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Clariciana?

Precisar é sempre o momento supremo. E eu senti que ele precisava. Desde o começo, quando me olhara com extrema acuidade – um olhar capaz de grandes descobertas –, percebi que ele precisava. E eu tão nua.

"Por que a nudez sob a saia?", ele quis saber.

"Nunca ninguém reparou", afirmei.

"Jura?"

"Claro, e por que jurar?, já ando assim faz tempo, caso pudesse andaria nua, mas teria de resolver dois problemas, o primeiro na ordem do sentido: quando se esconde algo, cria-se certa curiosidade; o segundo, é que sair nua levar-me-ia na certa à prisão; portanto, ficaríamos longe um do outro."

"Você achou melhor facilitar as coisas", ele tentou interpretar.

"Nem tanto", interrompi, "lógico que a leveza de determinados tecidos e alguma possível transparência contribuíram, mas o que me leva à nudez sob as saias ou vestidos é uma certa alergia."

"Alergia?", surpreendeu-se.

"Isto mesmo", revirei os olhos, "e o conselho foi de minha médica: 'abandone as calcinhas por um bom período', assim o fiz."

"Nunca ninguém notou?", a pergunta de todos os homens.

"Não, jamais, apenas você. Ah, meu amor, as coisas são muito delicadas", tive de dizer.

Ele mostrou-se meticuloso.

"Delicadas", repetiu e enfatizou, "e você se acostumou", interessado, ele.

"Acostumei-me. No início me senti nua, preocupada, mas depois me acostumei, e até gostei. Enfim, lingerie apenas para os momentos de grande exaltação."

Ele comprou-me a lingerie para os momentos de grande exaltação.

"Lembre-se, amor, só posso vestir essas roupas por quinze minutos, a alergia", eu alertava.

"Oh, sim, não vou esquecer", sua fazenda nobre me dava garantias.

Alguns minutos a mais, ou a menos, e lá ia eu sem o tecido provocante.

Os homens respiram o fetiche. E a mulher anda nua. Talvez o calor. Ou, quem sabe, o desejo, sempre o desejo. E eles querem o momento supremo.

"Caso um dia nos separemos você vai continuar saindo assim?", respirou esbaforido.

"Assim?", fiz que não entendi.

"Assim, tão assim...", não conseguiu completar.

"Já sei", retruquei, "assim tão sem..."

"Isso, você definiu bem, tão sem", abraçou-me.

"Sabe", quis incendiar-lhe, "tive um namorado que me dava bombons na hora do amor, pedia-me para engolir o chocolate recheado no momento supremo do gozo."

"E você assim o fez", sua voz procurava o equilíbrio, mas vi suor em seus poros.

"Fiz, e quis mais, mais e mais", afirmei solícita.

"E não lhe fez mal, a alergia..."

"Gozar nunca é mal", assegurei, "e a alergia é apenas a calcinhas."

Dias de depois, trouxe-me um líquido que estranhei a princípio. Mas logo deduzi do que se tratava.

"Gosto", meus dentes brancos mergulharam num sorriso longo, "gosto muito."

E já sem as saias e blusas, nunca a roupa debaixo, me veio com o líquido na hora do gozo. Ele o deixara no copo, próximo à cabeceira; quando anunciei o supremo momento, entornou-me à boca a substância.

"A essência do ser... Só se conhece a coisa quando a gente se torna a própria coisa", sentenciou."

"Também sou clariciana", borbulhei, os olhos fechados.

Mais tarde, antes de dormir, voltei ao líquido, tomei mais dois grandes goles: banana com aveia!

"Clariciana?", quis ele saber.

"Lispector", endossei.

terça-feira, dezembro 22, 2015

Mulher Maravilha

“Mas você veio nua!”

“Vamos, essa hora sou invisível.”

“Invisível?”

“Isso mesmo, depois te conto.”

Caminhamos pela 312 Norte, passamos dois blocos de comércio. Entre dois restaurante, o Maranello e outro de nome também italiano, havia quatro apartamentos, Marcos tentou a fechadura do 308.

“Encontrei antes tua irmã”, falou.

“Irmã?”

“Uma moça muito parecida contigo, chamei por ela como se chamasse você.”

“Ah, a Mayara, é muito parecida comigo.”

“Isso. Ela disse não, não sou a Maristela, todos fazem confusão entre nós duas.”

“Acredita que já saímos uma trocada pela outra?” 

“Como assim?”

“Vê se primeiro consegue abrir a porta, depois conto, lembre que temos pouco tempo.”

“Já vou conseguir, falta testar apenas mais duas chaves.” 

“O homem não te explicou sobre qual delas?”

“Explicou”, falou e olhou para mim num átimo de segundo, logo enfiou mais uma das chaves na porta e escutamos a fechadura girar.

“Ainda bem”, falei.

Entramos.

“Quer dizer que você e a Mayara trocam de identidade?”

“Só aconteceu uma vez.”

Terminamos de subir os dois lances de escada. A porta do apartamento foi aberta com mais facilidade do que a da entrada do prédio.

“Veja, há até um sofá”, deixei escapar minha surpresa.

“Ele me falou sobre isso, o morador anterior deixou o sofá, quem vem aqui pode usá-lo. Mas espere.”

Tirou um lenço do bolso, foi até o banheiro e voltou com ele molhado, passou sobre o vinil.

“Agora pode sentar, está limpo.”

“Obrigada.”

“Mayara nada me falou sobre isso, e já conheço ela faz um tempinho”, afirmou.

“Coisa de namorados e paqueras, o cara ficou em cima de mim o tempo todo, até que falei a ela quer sair com um carinha?, ele até é bonitinho. Jura? Foi a resposta dela, sempre em forma de pergunta, a Mayara adora efeitos de linguagem. Quando ele telefonou passei a ela, então marcaram e saíram. Disse cuidado, Mayara, essa noite você se chama Maristela. E ela foi, adorou, encontrou o cara mais duas vezes, depois não sei mais o que aconteceu."

“Será que não casou com ele?”

“Não, caso isso acontecesse teria me convidado.”

Deitei no pequeno estofado. Marcos começou a me fazer carinho.

“Você é bonita, sabe?”

“Sei.”

Puxei seu pescoço e o beijei no rosto.

“Venha, suba sobre mim, já te falei que temos pouco tempo, e estamos nos perdendo em conversas paralelas.”

“Conversas paralelas?”, riu.


Antes de sairmos, perguntou:

“Você não tem vergonha?”

“Vergonha de quê?”

“Muitas morrem de vergonha quando acabam.”

Quando acabam?

Depois que gozam.

“Ah, entendi. Não, não tenho vergonha.”

“Mulher corajosa, e veio nua...”

“Lembra que sou a Mulher Maravilha? Gosto de aventuras, apenas isso.”

“Temos ainda quantos minutos?”

“Ah! Nossa, um minuto, isto é, cinqüenta segundos, vamos”, gritei.

“Espere.”

“Sou invisível por apenas mais trinta, tenho que chegar ao carro, tchau.”

Despenquei escada abaixo, e ele embaralhado nas chaves.

terça-feira, dezembro 15, 2015

Suas mãos beliscavam o meu bumbum

Oh como era bom estar de volta, realmente de volta, sorri satisfeita. Eram quinze para as cinco da manhã, o ar fresco, o céu ainda escuro. Sentei numa das poltronas e cruzei as pernas. Minha aventura fora demorada, um tanto precipitada, sentia-me, porém, reconfortada. Há momentos em que a gente vê tudo prestes a ruir. Mas a madrugada acabava bem. Ao menos para mim. Faltava-me apenas o descanso, o sono ligeiro, mais repousante, no meu caso sempre ao amanhecer. Fechei os olhos e me veio à mente Marina. Gostava de encontrar o amante à hora do almoço, sempre no mesmo hotel. Ela entrava primeiro. A recepcionista, já de longa data, a conhecia. Marina subia alguns degraus, bom dia, o sorriso discreto. A empregada entregava-lhe a chave, o mesmo apartamento. Voltava alguns passos e entrava no elevador. Saía no sexto andar. O homem chegava um quarto de hora depois, sempre pronto a lhe dar muitos beijos. Ele podia ficar apenas duas ou três horas; ela permanecia mais um pouco, adormecia sozinha. Gostava de adormecer sozinha num quarto de hotel, ia embora ao entardecer. Certa vez, depois do amor, antes que o homem partisse, resolveu pregar-lhe uma peça. Pegou a própria roupa, bem enrolada, e a enfiou na pasta dele, uma valise para transportar algum livro e papéis. Você é louca?, ele lhe diria horas depois, pensou que eu poderia não ter voltado?, você nua neste centro de cidade grande. Marina apenas sorriu e o abraçou. Fizeram amor mais uma vez. A partir daquele dia, antes de sair, ele olhava dentro da valise, depois a beijava. Oh como é bom estar de volta, realmente de volta, sorri satisfeita voltando à poltrona onde eu sentava. Descruzei as pernas e inverti a posição, a direita agora sobre a esquerda. A chave do carro ainda estava ao meu lado, dei-me conta de que saíra sem documento algum. E que ainda precisaria pedir que buscassem o carro. Dirigira dentro da noite, incógnita, ninguém a poder provar minha identidade. Poderia eu fazer acreditar outra pessoa quem sou? O passeio durante a madrugada, ou a perspectiva dele, sempre me excitava, mesmo antes de começar a praticá-lo. Sair com o carro da garagem e dar umas voltas pelos quarteirões, quadras de filme americano. Às vezes vou mais longe, tomo confiança com a distância. Até a rodovia estadual. Mas lá, vez ou outra, mesmo durante a madrugada, vê-se um automóvel, um caminhão. A placa a revelar o meu condado, talvez a minha identidade. Por que o temor?, alguém perguntaria. Não se trata de temor, um meio de resguardar a individualidade, a privacidade, coisas assim. Pode-se fazer qualquer coisa incógnita dentro de casa, mas não pelas ruas da cidade. Sempre há alguém conhecido, sempre alguém a levantar véus, a nos desnudar. E por falar em véus, no princípio queria ir sem eles, em pele, mas o tremor. Isso mesmo, o tremor impedia-me de pisar os pedais, e era preciso dirigir, ir e voltar. Depois de algumas semanas, a primeira experiência; a seguir outra e mais outra. Até que foi possível sair de casa apenas o automóvel, sua lataria, vestido discreto, cor de prata envolto na noite. Quem dirá não? Por que uma mulher não pode usar como vestido a carroceria de seu automóvel ? Não me fure um dos pneus! Tão novos, seguros. O tanque, sempre cheio. Mas há a bomba de gasolina. Por que fora falhar logo naquele dia? Na verdade, o acaso pode trazer surpresas agradáveis. O combustível não passava, e eu a duas milhas da minha poltrona. Então, o garoto, dezoito ou dezenove anos. Um militar. Você vai para as forças armadas?, minha pergunta, já abrigada no seu carro. Ainda bem que vinha sozinho. Vou, é minha última noite. Ainda bem, pensei, ele não terá tempo de contar pra ninguém. E a senhora?, ele quis saber. Senhora?, quase ri. Onde foram parar suas roupas? Ali, apontei o carro. Por que não veste?, ele. Por que é muito pesada, respondi. Quer entrar?, perguntei quando parou seu automóvel junto ao meu jardim. Acompanhou-me à porta, beliscou-me o bumbum. Trepamos na garagem. Ali há um colchonete. Ele se lavou na torneira que há do lado de fora. Depois se despediu. Desejei que tivesse sucesso nas forças armadas. Onde? Primeiro o treinamento, disse, depois alguma base. Que não seja no Afeganistão, falei temerosa. Mas ele era o homem mais corajoso do mundo. Venha mais uma vez, nunca se sabe o amanhã. Preciso ir, está quase na hora, passei a noite acordado porque sei que não conseguiria dormir, mas volto, prometo, falou com dignidade e com muita segurança. Quem sabe, pensei. Quis lhe falar que também não dormira. Meu motivo era outro. Mas não consegui. Oh como era bom estar de volta, realmente de volta, sorri satisfeita. Quanto ao soldado, nunca se sabe. Eu volto, prometo, sua voz ressoava na minha cabeça, suas mãos beliscavam o meu bumbum.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Chá e biscoitos

“Você não comeu nada”, disse Ana, ofendida, ao reparar os biscoitos intactos.

“É que estou surpresa”, repliquei.

“Surpresa?”

“Sim”, falei ainda olhando a foto. “Se ele mostra a alguém?”

“E o que os outros têm a ver comigo?”, respondeu sorridente, apanhando um dos biscoitos e mordiscando.

“Não sei, mas poderia causar algum prejuízo a você.”

“Nada disso, não preciso de ninguém, tenho meu próprio negócio e isso jamais me prejudicaria.”

Devolvi-lhe a foto. Ela a pousou sobre a mesa, ao lado do pratinho de biscoitos. Pegou sua xícara e tomou um pouco do chá.

Imaginei a situação em relação a mim. Jamais teria coragem de me deixar fotografar naquela pose. Ana estava de pé, na foto, num gramado, ao lado do tronco de uma pequena árvore. Vestia apenas o top, as mãos cruzadas abaixo do umbigo cobriam seu sexo. Andei durante muito tempo à procura de um namorado, não acho que com aquela atitude facilitaria as coisas. Minha amiga, no entanto, era espevitada. Tudo para ela era motivo de alegria.

“E como estão vocês agora?”, eu quis saber.

“Estamos ótimos.”

“Tomara que vocês nunca briguem.”

“E se brigarmos, o que tem?”, ela me olhou com o rosto desafiador.

“Ele pode chantagear você.”

“Bobagem”, acrescentou tranquila, “hoje as mulheres estão cansadas de andar nuas por aí.”

Suspirei e fiquei quieta no meu canto. Segurei a xícara e bebi um gole de chá, comi um dos biscoitos.

“Não quer ir com a gente, no Carnaval?”, sugeriu com ar de expectativa.

“Aonde?”

“Angra dos Reis.”

“Só se você deixar ele tirar uma foto minha, assim como essa que você mostrou?”, falei com ar de pilhéria.

“Jura?, ela arregalou os olhos. “Deixo, caso você permita que posemos junto.”

“Brincadeira, Ana, e quanto ao meu trabalho? Se o juiz me vir nua é capaz de me transferir.”

“Mas aposto que antes ele te convida para um hotel.”

“Você acha mesmo, Ana? Ele é tão bonito.”

“Claro que sim. Se eu fosse você, não perderia tempo. E o que é que tem trabalhar em outra seção?”

“Vou com vocês. Mas no pictures”, acrescentei.

“Ok.” Seus olhos grandes sempre me contagiavam. Senti uma coceirinha. Eu acabaria também tirando a roupa? Ela comeu mais um biscoito.

“Tem mais uma coisa, Ana, vou sair esta noite com o namorado que fez a foto”, ela disse.

“O que tem de mais nisso?”, olhei enquanto segurava a xícara.

“É que vou nua.”

“Nua?”, assustei-me.

“Nua, pelada, sem roupa alguma.”

“Mas, Ana, logo você uma mulher tão elegante...”

“É que ele afirmou um dia desses que poucas são as mulheres bonitas quando se mostram nuas por inteiro, e eu sou uma delas”, interrompeu.

“Você já não sabia disso?”

“Claro, mas nas palavras dele é outra coisa.”

“E como você vai fazer?”

“Surpresa!”, sorriu.

“E se alguém encontra você, Ana?”

Não encontra, não, Vera, e a cidade é pequena; as estradas, escuras. Quem sabe como um cachorro quente na Serra?, sorriu de novo após a sugestão.

“Você é louca.”

“Nada disso, prefiro que você diga que eu sei aproveitar a vida.”

“Talvez, mas eu não aceitaria sair nua por aí. Ele sabe ou é surpresa?”

“Sabe, foi ele quem pediu”.

“Cuidado, Ana. Se ele te larga pelada por aí?”

“Se isso acontecer, é ele quem sai perdendo”, ela deu uma imensa gargalhada e comeu o último biscoito.

terça-feira, dezembro 01, 2015

Ela diz que isso se chama fetiche

Val, eu sei que é difícil a gente consolar alguém. Só cada um sabe o que sente na pele. Um segredinho, viu, isso que você acabou de me contar também já aconteceu comigo. Há coisas que supomos que só nós experimentamos, mas, acredite, também já aconteceram com muitas outras mulheres. Não menosprezo o teu sofrimento. Ele passa; depois as pessoas esquecem. Quero dizer, você e as pessoas. Posso te contar a minha história. É praticamente a mesma, só que aconteceu faz uns três anos, quando eu ainda morava em M., e o final foi um pouquinho diferente. Na época, até conversei sobre o assunto com uma amiga minha que é psicóloga. Ela tem consultório e uma porção de pacientes. Ouça, por favor.

Há pessoas que preferem a imaginação à vida real, foi o que ela me falou. Era o caso daquele meu namorado. Ele me fizera um pedido que a maioria das mulheres relutaria em aceitar. Mas, assim como você, aceitei. Eu achava que não deveria recusar desafios, precisava viver novas experiências, a adrenalina alta e coisa e tal, como beber demais ou experimentar pela primeira vez alguma droga. Saltei nua do carro dele, às duas da madrugada de um sábado de verão, na rodovia que leva a Glicério. Estava escuro e, naquele momento, não passava veículo algum. Ele pediu que eu o esperasse agachada, em meio à vegetação do lado esquerdo de quem sobe a serra. Disse que logo estaria de volta. Acelerou o carro e se foi. Ao contrário do que prometeu, não voltou. Ou melhor, apareceu quinze horas depois, porém na minha casa, me convidando para comer uma pizza. Não falou por que não cumpriu a palavra. Estava excitado, curioso para saber o que tinha me acontecido durante o resto da noite. Nada respondi. Apenas sorri, um sorriso enigmático, expressão de quem gostou da experiência. E até que gostei mesmo, sabia? Não consegui dormir um instante se quer, ele disse, fiquei a madrugada inteira pensando o que poderia estar acontecendo contigo, acrescentou. Será que eu ainda tinha esperança de que ele voltaria para me apanhar ou estava escondida, trêmula, ante a perspectiva do amanhecer, que me revelaria nua e indefesa?, foram as palavras dele. Muito engraçado, não? Ou ainda: algum homem me havia encontrado e me levado em seu carro; será que eu estaria transando com ele naquele momento? Acho que meu namorado gozou apenas ao imaginar o que estaria acontecendo comigo. Foi o que acabei concluindo. Minha amiga psicóloga tem razão. Ela diz que isso se chama fetiche. É como se um homem, no lugar de gozar com a namorada, gozasse com a calcinha dela. Há homens que saem com a gente e roubam a nossa calcinha, não é mesmo? Você já deve ter passado por isso. Aceitei a pizza, mas nada relatei. Se já gozara com a imaginação, não precisava gozar por intermédio da minha narrativa. O namoro durou mais alguns meses, e eu jamais mencionei a tal noite. Deixei o homem maluquinho. Quando ele insistia em saber o que havia acontecido, eu apenas perguntava o que você acha? Além da minha amiga psicóloga, nunca falei sobre isso a ninguém. Estou contando pela primeira vez a você. Quer saber o final dessa história? Não tenho problema nenhum em te contar. Minha amiga psicóloga também quis saber o final. Consegui ligar a um amigo. Apesar de sair nua do carro, não esqueci o celular. Esclarecendo, o homem não era bem um amigo. Era um cara casado com quem eu já saíra algumas vezes. Acho que a mulher dele também tinha um amante e não se preocupava com o que ele fazia durante as madrugadas quando andava ausente de casa. Ele veio me buscar. Contei a verdade a ele. Ficou surpreso, a princípio. Acabou achando a história engraçada e disse que eu era um tanto louca. Transamos naquela mesma noite, dentro do carro, numa saída da rodovia em que não há asfalto. Depois ele começou a pensar como me ajudaria para eu não chegar nua em casa. Tirou a camisa e me ofereceu. Foi isso. Cheguei em casa pela manhã, ainda estava todo mundo dormindo. Ao contrário do que aconteceu a você, ninguém me surpreendeu nua. Ele ainda esperou até que eu lhe telefonasse de dentro de casa dizendo que estava tudo bem.

É isso, Val, o tempo passa e a gente esquece. As pessoas também esquecem. Sei que saiu um pouco caro pra você, que teve até de se mudar para um bairro onde ninguém te conhece. Eu acho que não teria feito isso; ninguém tem nada a ver com a minha vida. Agora, quanto a ti, não há mais com que te preocupar. E também existem namorados normais. Você pode arranjar um. Mas será que nós, mulheres, somos normais, Val? É engraçado, não? No fundo, é a pura verdade.