domingo, maio 24, 2020

Lingerie da mesma cor

Marquei de telefonar e encontrar com ele, um homem para quem já trabalhei e sempre se mostrou afetuoso, que me enche de presentes e de algum dinheiro, mas faz dois dias conheci outro cara, que me provocou um arrepio prolongado, por isso não telefonei, optei pela nova aventura. Quando surge alguém que não conheço, vejo a possibilidade de um novo relacionamento, um tipo de namoro, não uma vida conjugal, é claro. Na verdade, uma nova experiência. Surgiu alguém que pode me proporcionar o que ainda não senti com nenhum outro. Esse negócio de desejar novas experiências já me causou alguns sustos. Não é bom sair com um homem de primeira nem com um desconhecido; às vezes, no meio da trepada, eles falam coisas de arrepiar, fico morrendo de medo. Certa vez um deles disse que tinha uma faca na bolsa, que ia me espetar com a ponta, ia fazer pequenos cortes na minha pele, narrava e enfiava o enorme peru dentro de mim. Fiquei morrendo de medo, com o cu apertadinho, como dizem por aí por meio de uma expressão chula mas verdadeira; após gozar, quis saber se o homem tinha a faca mesmo, mas, como não tocou no assunto, não perguntei. Uma amiga, para quem contei a história, tem certeza de que fiquei excitada com a possibilidade da tal da faca, e bem que gostaria de sentir a ponta afiada deslizando sobre meu corpo! Será? Mas este que conheci, que me fez renegar o primeiro, já vem há certo tempo me azarando, acho que não vai haver perigo, não, e parece ser tão gostoso, tem o tipo que possui um pênis longo e grosso. Não é muito alto, acho que quatro dedos a mais do que eu, mas é musculoso, costas largas, bom nadador, o tipo de homem com muita potência. Marquei de encontrar depois de amanhã, após o trabalho. Vamos tomar um copo num bar recém inaugurado, em Botafogo. Nas proximidades há um hotel, por isso já sei o que acontecerá depois. Vou com lingerie nova, calcinha e sutiã da mesma cor. Engraçado, dizem que quando uma mulher sai com um homem, vestindo calcinha e sutiã da mesma cor, é porque está a fim de trepar. Será? Já saí com as duas peças diferentes e mesmo com apenas uma! A tal amiga que deu seu parecer sobre a faca diz que já foi a um forró vestindo apenas um vestido de malha, justinho sobre a pele, nada mais. Você é louca, retruquei, caso algum homem te agarre, não poderá reclamar. É isto mesmo que eu estava querendo, ela disse. Em termos de relacionamentos, cada uma com sua loucura. Sei que muita gente está doidinha pra saber sobre esta minha nova aventura. Mas ainda não aconteceu!, só depois de amanhã. Eu conto, não vou esquecer, todos os detalhes. E o homem pra quem já trabalhei, que me enche de presentes e de algum dinheiro, será que vai ficar a ver navios? Nada disso, tenho a desculpa prontinha. Na última vez que dei bolo, disse que fui assaltada, me roubaram o celular. Ele caiu direitinho. Sempre volta. Meu telefone está tocando! É aquele por quem estou doidinha. Será que vai antecipar nosso encontro? E não estou nem com a lingerie da mesma cor.

domingo, maio 17, 2020

Pendurada no pescoço

Outro dia li uma história interessante. Uma mulher – professora de inglês – seguia no metrô ao apartamento do namorado, era hora do almoço. Ficaria sozinha durante várias horas, no silêncio ou no ligeiro rumor de uma tarde de junho. Ele morava à rua Bulhões de Carvalho, ali entre o Posto e Seis e o Arpoador. O tal namorado trabalhava muito, chegava tarde, quando chegasse ela já teria partido, não sei para uma aula ou para a própria casa. A ida até o local era para descansar, ou ler um livro, horas de prazer que apenas a solidão pode contemplar. Pensei, então, na minha vida. Tenho filha adolescente, minha mãe mora comigo, o apartamento tem dois quartos. Caso arranjasse namorado como a mulher do conto seria o paraíso. Descanso e carinho, ações necessária para uma mulher em plena vida ativa. E, feliz coincidência, sou também professora de inglês.

Ter namorado, grande problema para mim! Talvez isso revele que não sei administrar minha vida privada. Criar sozinha uma filha, dar-lhe educação, cultura, uma boa moral, não é fácil. Por isso acho que os namorados ficaram sempre em segundo plano, o que faz que se afastem, vão em busca de mulheres mais acessíveis. Ninguém quer ficar em segundo plano. Tenho uma amiga que perguntou: por que você não leva o namorado para sua casa? Sinceramente, não sei se seria bom. Causaria um estranhamento, minha filha na certa arregalaria os olhos, “minha mãe com um namorado, já não vai querer saber de mim”, e minha mãe vai dizer que estou procurando homem, coisa que ela nunca fez depois do dia em que ficou viúva. Sou separada desde o nascimento da menina, namorados até hoje só da porta para fora, e muito raramente. Tive um namorado sim, faz três ou quatro anos, a gente se encontrava à tarde, namoro das três às cinco, ou das quatro às seis; eu correndo, como uma louca, de volta para casa. A gente foi a uma casa de chá, no centro, duas vezes ao cinema, e a um hotel, também no centro. Comecei a falhar aos encontros. Problemas domésticos, dizia a ele. Achou que perdi o interesse por ele. Acabamos nos afastando por tanto tempo que ele, provavelmente, arranjou outra, tantas mulheres por aí, mais jovens e mais nuas do que eu. Lá se foi o homem, sem adeus. Um dia desses nos encontramos ao acaso, eu estava com minha filha, dei um rápido aceno a ele e segui meu caminho.

Na escola, há um professor que sempre vem falar comigo, maior delicadeza, me dá a maior importância. Conversamos nos intervalos, às vezes também quando estamos saindo, ele vai a caminho do metrô, eu sigo um pouco mais, ao ponto do ônibus. Seu assunto é sobre cultura: peças de teatro, filmes, um ou outro livro. Minha vida dupla, de professora e dona de casa, não me permite frequentar os eventos enumerados por ele. Seria uma boa amizade o tal professor. Ao descobrir que vive só, achei possível namorá-lo. O destino seria o mesmo do namorado anterior? Não posso ser tão pessimista, e a menina já vai pela adolescência.

Tenho uma amiga que olha os homens recém-apresentados com aquele olhar de volúpia. Não sei dizer outra palavra. Sai com eles de primeira, e diz preferir os casados. Estes não contam para ninguém, são de extrema discrição, e não exigem permanências demoradas. Não é que ela não possa passar longas horas com o namorado, sua filha fica sozinha e ela não tem mãe para morar junto, é porque não deseja que namoro se torne casamento. A palavra a assusta. Podemos usar outra, como namoro, relacionamento durável ou estável, mas ela diz tratar-se de eufemismos. Casamento desgasta. É bom cada um ter a sua independência. Não penso assim, adoraria ter alguém para ficar comigo, morar comigo, alguém carinhoso, dedicado. Diz ela não existir essa pessoa, ou melhor, existe sim, mas na cabeça de mulheres sonhadoras. Discordei, disse ter uma amiga feliz ao lado do marido, ou do eterno namorado, não sei bem. Aparências, diz, tudo aparências. Mas você não acredita naqueles que foram feitos um para o outro? Não, ela afirma, isso é muito difícil.

Volto ao conto, sobre o qual falei lá no começo. A professora de inglês e seu namorado, morador de Copacabana, rua Bulhões de Carvalho, alguns dizem que essa rua fica no Arpoador. Que seja, melhor ainda. Mas ela aparece no conto sozinha, o namorado é alguém distante. Chega ao apartamento, tira a roupa e fica de calcinha. No silêncio e na meia sombra da tarde. Repousa, lê um livro, escuta a campainha, sobressalta-se. A faxineira do apartamento de frente pede, por favor, um saco plástico; mulher alegre, ainda no corredor do sexto andar fala em divertir-se. A professora sorri e entrega o saco. Volta ao silêncio da tarde, senta-se na poltrona e retoma a leitura. O namorado é uma imagem distante. Ela não vai encontrá-lo naquela tarde, nem na noite próxima. Um conto sobre a solidão, dou-me conta.

Teimosa, acredito no amor, nos relacionamentos. Ah, o professor e nossos momentos de intervalos, seu sorrisinho matreiro. Vou lhe enviar um zap, de repente mora num apartamento em Copacabana. Poderei então descansar, libertar-me de todo o stress de dona de casa, quem sabe também sentar nua numa poltrona para ler um livro. E para não ficar apenas na solidão, encontrá-lo vez ou outra, namorá-lo, pendurar-me no seu pescoço.

domingo, maio 10, 2020

A pantera

A quinta-feira ia clara, o Largo do Machado movimentado como sempre, com seus camelôs, passantes, gente sentada à beira do lago e outras aglomeradas na saída do metrô. Nas bordas da praça, idosos aproveitando a hora que antecedia o almoço jogavam cartas. Um amigo atravessava em direção ao metrô. Consegui alcançá-lo,  toquei-lhe o braço.

“Que tal visitarmos o César? Ele está internado numa clínica a dois quarteirões. Ontem enviou mensagem pedindo pra gente dar uma chegadinha lá.”

“O César? O que ele tem?”

“Erisipela, está com a perna muito inchada, o médico decidiu pela internação.”

“Poxa, que chato, hein?”

“Mas a visita só começa  duas da tarde”, dei a sugestão e, ao mesmo tempo, demonstrei certo enfado, teríamos de esperar um longo tempo, duas ou três horas.

“Duas da tarde, é?”, franziu a testa. “O que vamos fazer durante esse tempo todo?”

Confesso que me envergonhei. Não havia pensado nas consequências do convite. Trabalhava com ele, éramos professores na mesma escola, naquele dia só trabalhamos durante a manhã. Teria de sair da situação embaraçosa, mas ele falou primeiro.

“Tenho uma ideia.”

Fiquei a olhá-lo, meus olhos fixos, reparei seus cabelos castanhos que desciam cobrindo-lhe as orelhas. Achei simpática sua face, os fios dos seus cabelos longos eram frágeis, mas lhe davam certo charme.

Entramos na rua das Laranjeiras, caminhamos duzentos metros, sugeriu que parássemos numa lanchonete. O local era desses onde se paga na caixa e se recebe o pedido do funcionário que fica ao lado. Duas jovens trabalhavam. A que buscava o lanche olhou meu amigo com insistência, notava-se claramente que fora tomada, pelo menos durante alguns segundos, por um pensamento de volúpia. Sorri a ela, que pareceu entender meu sorriso. Talvez observar os homens e desejá-los tornasse mais ameno o dia. Senti uma ponta de inveja, era como se tentasse me roubar o homem, ou, pelo menos, uma parte dele. Meu amigo pedira dois copos de suco de maracujá, um para ele outro para mim. Quem sabe a fruta maneirasse meus pensamentos.

Depois da Pinheiro Machado há uma rua que leva a uma biblioteca pública, era para lá que meu amigo tinha a intenção de ir, assim mataríamos o tempo.

“Está muito calor, conheço a biblioteca, lá não há ar-condicionado”, minha fisionomia devia transmitir desânimo, na verdade vinha da escola, não queria saber de livros.

“Livros não são sinônimos de escola, nem de estudo, servem também para o lazer”, acrescentou, adivinhando meus pensamentos.

Sou professora de Inglês, confesso que não estou acostumada a pegar livros emprestados em bibliotecas, nem leio com muita frequência, mas o admirei por isso. Ele procurava nos livros a realização de um prazer, um modo de vida ou, quem sabe, uma filosofia.

“Moro aqui perto, acho que vou pra casa, assim tomo um banho e descanso um pouco”, disse um tanto atabalhoada. Depois, ao refletir, achei que não deveria ter sido tão abrupta.

“Tudo bem”, ele, não sem uma ponta de tristeza, rebateu.

Quando já se preparava para partir, sugeri:

“Não quer ir até lá em casa? Deixe os livros para outra hora.”

Ainda não convidara colega algum da escola para ir a minha casa. Embora o convite tenha sido feito sem muita reflexão, achei que não seria nada demais.

Sorriu. Achou boa a ideia. Na rua o movimento de meio-dia era barulhento, ônibus e muitos carros subiam em direção ao Cosme Velho. Crianças saíam da escola. Meu prédio era no começo da General Glicério.

Quando entramos, não havia ninguém na portaria. Onde estaria o zelador? Melhor, já fazia tempo que não convidava homem algum para subir. O último namorado partira fazia mais de um ano, e fora alvo de olhares desconfiados da vizinhança. Apesar de Laranjeiras ser um bairro da zona sul do Rio, com muitas pessoas escolarizadas, de nível superior, a quantidade de fofoqueiros e fofoqueiras era grande. Saímos do elevador no sexto andar, abri a bolsa e tirei a chave. Logo ao entrar, fui abrir à janela da sala.

“Espere um pouquinho, vou fazer um café”, quis ser delicada.

“Não precisa se preocupar, descanse um pouco”, interveio.

Mesmo assim fui à cozinha e preparei a cafeteira.

“Está muito calor, é melhor ligar o ventilador”, sugeri, o interruptor é o mesmo que o da luz.

Meu amigo levantou-se e acionou o ventilador de teto.

O que conversar num momento como aquele? Desviara-o da biblioteca pública, convidara-o para vir comigo sem segundas intenções. Comecei a pensar se ele falaria para alguém da escola sobe a visita ao meu apartamento. Sou discreta, nada conto sobre minha vida, seria interpretada de modo equivocado.

“Também tenho livros, sabe”, disse eu de repente.

Ele sorriu.

“Que bom, são livros de literatura?”

“Sim, literatura de língua inglesa, é lógico, dou aulas de inglês.”

“Tenho uma amiga que se formou em francês, mas diz não gostar de literatura, estranho, não é mesmo?”

“Não, não é tão estranho, há professores que querem ensinar apenas a língua, o básico para a comunicação, uma língua estrangeira para viajantes”, arregalei os olhos após a última palavra.

“Mesmo entre os professores de literatura são poucos os leitores, tenho observado, não vejo ninguém carregando um romance, ou mesmo falando de um bom livro’”, acrescentou.

Pedi licença e corri à cozinha. A cafeteira fazia seu gargarejo demonstrando o término da preparação do café. Enquanto tirava do armário uma pequena bandeja com duas xícaras, pensei numa amiga que não acreditava na amizade entre homem e mulher. Pessoas de sexo diferentes têm interesses que vão além da amizade. Meu amigo não dava sinal de que estava interessado em mim, pensava mesmo era na biblioteca. Tenho uma amiga não acredita em nada disso. Quando vai à praia, usa um biquíni curtíssimo, a bunda toda de fora. E ela já passa dos cinquenta. Gosto de homens másculos, que me levem pra cama, chego a gritar na hora do prazer, afirma. Também não titubeia ao trepar com um homem de primeira, no mesmo dia em que o conheceu. O perigo me excita, diz.

Meu amigo sentado na sala tirara um livro da mochila quando cheguei com o café. Colocou-o sobre o sofá, ao seu lado, pegou a xícara e bebeu os primeiros goles. Pousei a bandeja sobre a pequena mesa e segurei também minha xícara. Ele tomava o café totalmente amargo.

“Você não quer açúcar?”, pareci assuntada.

Ele disse não, preferia sentir o gosto puro do café. Ah, meu amigo gosta de sentir o gosto original, puro, das coisas. Talvez seja um bom homem. Coloquei meu adoçante e fui bebendo pouco a pouco.

“Você acha a leitura tão importante assim?”, perguntei.

“Não sei, acho importante pra mim, mas para os outros depende de cada um.”

“Tua resposta é sensata, não procura impor o que gosta.”

“Também gosto de outras coisas, como sair por aí, andar em em meio à natureza, conhecer pessoas, conversar, não apenas ler. Mas confesso que a leitura me seduz.”

Levantei e caminhei até a janela, abri-a um pouco mais. Ele se levantou e veio ao meu lado.

“Bonito olhar o bairro daqui de cima.”

“Você acha?”, perguntei, “esse lugar é tão provinciano.”

Virei-me para ele, toquei-lhe um dos braços e sorri. Temi que me achasse uma rua desimpedida, não queria ser vulgar.

“O teu cabelo é tão liso”, reparou, e fez um carinho na lateral do meu rosto.

“Oh, o café vai esfriar”, fingi assustar-me.

“Que esfrie, há coisas mais quentes”, demos uma gargalhada após as palavras dele.

Se fosse outro os tempos, já estaria nua nos braços deles. Mas achei melhor esperar, o terreno era favorável. Sentamos mais uma vez, olhei as horas.

“Ainda é cedo, as visitas começam às duas em ponto”, confirmei.

“Não faz mal, está bom aqui, tua casa é muito legal.”

“Você não quer comer alguma coisa?, tenho tanta comida na geladeira.”

“Não, não me importo, lanchei bastante às dez horas, deixe o tempo passar um pouco, ou, quem sabe, a gente come algo por aí, depois de visitar o César."

Sentada na poltrona, de frente para o sofá, descruzei as pernas e alternei a posição, agora com a direita sobre a esquerda. O que vamos conversar agora?, cheguei a pensar. Ele mergulhara num silêncio demorado, tomou nas mãos o livro que tirara da mochila e olhava a capa. Mas achou indelicado abri-lo, o que fez foi guardá-lo novamente.

“Você se incomoda de ficar sozinho um pouco?, estou com muito calor, acho que vou trocar de roupa”, falei. Nas verdade, eu queria mesmo era tomar uma ducha.

“Fique à vontade, não se preocupe comigo.”

Saí da sala, corri primeiro ao banheiro. Acho que se a gente tivesse bebido vinho ou outra bebida alcoólica as coisas teriam sido diferentes, refletia eu nua, preste a abrir a ducha. Imaginei-me saindo nua do banheiro, ou enrolada numa curta toalha. Tais pensamentos, porém, não iriam se concretizar. O fato de pedir para trocar de roupa já fora uma inciativa ousada. Ele me imaginaria tirando o vestido, procurando por outro, ou mesmo me veria nua em pensamentos ao ouvir o replicar da água da ducha no chão do boxe.

Quando saí do banheiro, corri ao quarto, fechei a porta e comecei a me vestir. Escolhi uma camisa branca com uma estampa em inglês, no lugar da saia optei por uma calça que me deixou com as canelas de fora. Ajeitei o cabelo, esguichei rapidamente um perfume qualquer e voltei à sala. Meu amigo lia seu livro.

“Desculpe, é que não aguentava mais o calor.”

Nada falou, apenas fez um gesto de aprovação com a cabeça. Reparei o nome do livro que ele lia, era em francês: La panthére des neiges, de Sylvan Tesson.

“Que chique, um livro em francês.”

“Sim, é um bom romance, ganhou um dos maiores prêmios de língua francesa.”

“É interessante?”, perguntei.

“Sim, é sobre quatro pessoas que vijam ao Tibete: um fotógrafo, sua companheira, um escritor e um ajudante com jeito de filósofo. Vão em busca de uma pantera, como diz o título, pantera das neves, animal raro, praticamente em extinção, existente apenas naquela região. .

“Hum , deve ser interessante, Tibete, pantera, neve, tudo o que não existe por aqui. Mas fale mais, estou gostando.”

“O objetivo é observar a pantera e fotografá-la. A trama do livro gira em torno dessa situação. Mas não se trata de uma narração sobre o mundo animal nem sobre lugares exóticos. Na verdade, é uma filosofia de vida. Os personagens estão à procura de lugares pelo mundo fora do circuito da mundialização. Por causa da internet, pensamos que tudo e todos os lugares estão ao nosso alcance. Mas isso não é verdade. Na maior parte do tempo os integrantes da expedição vivem situações extremas. A temperatura é de menos 25 graus, a altitude em torno de 5000 metros. O melhor de tudo é descobrir como olhar o mundo ao redor, toda a riqueza que ele possui. A pantera não aparece com facilidade. Muitos exploradores permanecem o inverno inteiro à espera, mas não conseguem descobri-la. O narrador diz que, depois dessa experiência, aprendeu a ver o mundo de modo diferente. Olhar de modo disfarçado ou espionar, em francês, é guetter. Diz que, quando estiver de volta, num ou noutro café de Paris, saberá observar o mundo de modo bem diverso de como fazia antes. O livro não narra uma história sobre ecologia nem sobre animais, é lógico que há a necessidade de preservá-los, mas o que fica é uma reflexão sobre o mundo e o modo de vida contemporâneos. Apesar de ser um romance, a viagem foi verdadeira. Além do livro com a aventura, há outro, publicado pelo fotógrafo, com as fotos da pantera e de outros animais da região.”

“E como acaba a história?”, cheguei a rir, confesso que naquele momento não entendi a importância do assunto.

“Acaba como todo livro acaba, quando chega ao final”, meu amigo entrou no meu jogo e deu uma sonora gargalhada.

“Se um dia você conseguir o livro de fotos, me empreste”, pedi. “Vamos tomar um pouco mais de café e vamos ao hospital. Quando chegarmos lá, acho que já será a hora de visitas.”


Poupemos o leitor da visita ao hospital. Todos já foram visitar algum doente. Muita gente de branco, ou de verde claro (cor que adotaram nos últimos tempos para o pessoal da saúde), médicos, enfermeiras, funcionários diversos, corredores compridos, este higienizados (pelo menos na aparência), salas de espera, equipamentos para cada tipo de enfermidade, camas com encosto levantado, grades, hastes sustentando o soro, agulha nas veias. O que poderia criar imagens mais vivas? Ficamos com o doente mais ou menos três quartos de hora. Agradeceu nossa visita, mas durante a maior parte do tempo ficou olhando suas mensagens no celular.

Na saída, olhei meu amigo e sugeri:

“Que tal comermos algo agora?, estou morrendo de fome.”

“Boa ideia, achei que você ia esquecer.”

“Nada disso, comer é uma das melhores coisas, conheço uma ótima lanchonete, no Largo do Machado.”

Voltamos pela Pinheiro Machado e entramos na Laranjeiras, no sentido de quem desce ao Aterro. Andamos lado a lado.

“Gostei dessa pantera aí do teu livro” falei e segurei sua mão. “Precisamos conversar mais  sobre ela.”

Manteve a mão segurando a minha. Como não quisesse me perder, fechou os dedos, selando a relação.

Tive vontade de beijá-lo, um beijinho no rosto, bem ao lado dos lábios, bastaria virar a face à esquerda e chegar um pouquinho mais. Tive medo que viesse alguém, no caminho sempre circulavam muitas pessoas da escola, outros professore, alunos, quem sabe alguém mais. Resisti ao desejo, torcendo-me dentro das roupas.

Soltamos as mãos apenas na lanchonete, quando tivemos de pegar as esfirras e os refrescos que nos serviriam de lanche.

Daí em diante noites e mais noites, histórias e mais histórias. A pantera.

domingo, maio 03, 2020

Confinamento

Ia contar uma história engraçada, vivida por mim numa praia em Rio das Ostras. Mas por causa do confinamento, resolvi falar de outra coisa, um pouco diferente do que aconteceu na Costa Azul.

Vocês sabem que adoro andar nua. Já saí nua, de carro, várias vezes, sozinha ou ao lado do namorado. É o maior frisson, principalmente no lugar onde moro. O carro na garagem, entro,  ligo e dou a partida. Instalei um portão de garagem eletrônico para poder saltar da varanda ao banco do motorista, assim não preciso descer do carro para, do lado de fora, ter de fechar o portão. Os vizinhos acharam um luxo. Sou preguiçosa, falei, enquanto o tal portão abria e fechava, automático. Não souberam o verdadeiro motivo. Até hoje tudo sempre correu bem, até o dia que resolvi ficar nua, na praia, em Rio das Ostras. Mas não é sobre isso que quero falar agora! É sobre o tal confinamento.

Antes, o máximo que podia acontecer era eu ser surpreendida por estar nua; agora, posso ser surpreendida porque saí de casa. Vejam a contradição. Alguém resolve passear nua por aí, é uma fora da lei. Os bons costumes não permitem a nudez. No entanto andar por aí, passear, olhar o mar, ou a paisagem da montanha que há do lado oposto, agora também é uma falta perante a lei. Estando vestida, é preciso ressaltar. Será que posso suportar isso? Há ainda a multa ou mesmo a prisão. Verdade. Aqui onde moro, à primeira vez surpreendida do lado de fora recebe-se uma advertência; à segunda, uma multa; caso aconteça a terceira, levam o infrator ou a infratora para a delegacia. Razões sanitárias, dizem.

Resolvi burlar a tal lei. Não estou contaminada por este novo vírus, tenho certeza. Moro sozinha, não tive contato com ninguém atualmente. Portanto, decidi que posso sair. Mas como as autoridades da minha cidade são turronas, resolvi sair nua! Burlo a lei em dobro. Azar o deles. Acordei às quatro da manhã, tomei uma ducha e saí. Isso mesmo, as ações foram exatamente essas. Alguém poderia perguntar: ela não descreve mais nada? Como poderia responder se não há mais o que descrever. Nua, isso mesmo, inteirinha sem roupa alguma. Montei a bicicleta e pedalei à praia. Tinha uma hora e meia para viver minha transgressão dupla.

O namorado, que mora em Rio das Ostras, sabe que adoro sair por aí em pelo; melhor, em pele. Mas nem para ele falei. Cavaleiros estava límpida, uma claridade de lua próxima ao horizonte, corri e molhei os pés. A água não estava fria. Lógico que um mergulho me faria tremer um pouquinho, mas tinha a bicicleta, bastava pedalar rapidinho. Bom aquecimento. Lembrei-me de um amiga a quem contara de modo resumido meu amor pela nudez. “Também gosto”, disse ela, “certa vez desci nua do terceiro andar da minha casa e fui até o portão. Na época, eu alugava uma parte independente da casa a uma mulher. Ao chegar lá embaixo, ela estava no portão, parecia esperar alguém. Mas, felizmente, não me viu. Subi os dois lances da escada e bati para o namorado abrir. Tempos depois disse a mim mesma, tenho de parar com essas loucuras, se meus filhos me surpreendem nua lá embaixo vão me internar justificando que a mãe enlouqueceu!” Ambas rimos muito. Quem sabe encontro com ela, também nua, por aí. Seria divertido. Pior se encontrar um homem, o que poderei dizer? Não teria chance alguma de escapar. Mas nem homem nem mulher. Todos em confinamento. Bem que eu gostaria de encontrar um homem, sempre há o desejo, mesmo inconsciente. Na minha cidade todos me conhecem, e sou tão cobiçada. Melhor procurar alguém em outro lugar.

Depois de uma hora e pouco, ao leste apontou um vermelhinho. Montei a bicicleta e pedalei de volta. Não fui pela avenida principal, é lógico. Que arrepio, cheguei toda molhada. Não sei se nervosa ou frisson. Mais provável o frisson.

Em casa, veio-me à mente a tal praia na cidade vizinha. Eu e a mania de tirar a parte de baixo, o biquíni, entregá-lo nas mãos do namorado. Ninguém nota, não; a água é escura, principalmente no fim da tarde. Mas naquele dia decidi fazer o contrário, ao invés da calcinha deixei em suas mãos o top! Ele chegou a dizer a água não esconde os teus seios. E fez a tal brincadeira, levou meu top lá pra cima, guardou-o na minha bolsa. Não deu certo.

Fique em casa.

domingo, abril 26, 2020

Não vai ficar grudada!

Gosto de andar pra lá e pra cá, ver meus amigos e conhecidos, vestindo uma sainha, blusinha ou um macaquinho. O macaquinho é melhor, peça única, por baixo o top, uma faixa branca, as pernas de fora, paisagem ensolarada a ser apreciada. As moscas gostam de se aproximar do mel, de beliscar aqui e ali, até que ficam grudadas, é como se debruçar sobre um precipício. E eu coladinha ao mel, minhas pernas morenas lustrosas.

Que susto! Ainda bem que meu amigo me salvou. E que amigo. Parei na Conselheiro Lafaiete, resolvida, a conversar com o porteiro de um dos prédios. Esses homens adoram uma mulher nua. Aliás, eu não estava nua, mas passou uma menina de biquíni, a caminho da praia. O homem arregalou os olhos. Na falta da menina, que não sabia e continuou não sabendo da existência dele, o porteiro voltou-se pra mim, olhos ainda arregalados, todo aquele sabor de loucura que a possibilidade do sexo traz. Já fazia um tempinho não desgrudava, ameaça latente, perguntou enfim se eu costumava ir a alguma festa. Gosto de forró, disse eu. Imaginem, uma dança quente, o homem agarra a mulher e a leva de um lado a outro, o par sempre grudado, o macho a apertar, a apertar até não poder mais. Tenho uma amiga que goza com isso. O tal porteiro, sangue quente, eu podia perceber, insistia às minhas coxas, apontava. Não sei se se dava conta de que eu me sentia nua. Como vou me cobrir, nuinha no Posto 6? Ensaiei algum movimento, mexi as mãos, ajeitei a parte superior do macaquinho, a bolsa a tiracolo, já acabara o serviço. Se fosse um artista de TV, acho que ia com ele pro apartamento escurinho, o ar desconhecido, cheiro de novidade mesmo em construção antiga.

Uma vez fui a um prédio onde se precisava puxar a grade dourada do elevador, só assim ele subia, não sei por que senti o arrepio, o mergulho no desconhecido. Levava uma roupa a uma senhora. Um homem bonito abriu a porta, disse que eu entrasse. Ai, imaginem.

Falei que tinha de ir, o porteiro piscou os olhos, sentiu que nada poderia fazer em relação ao seu desejo. Às vezes ficamos frustradas, porque nosso desejo não é realizado. No caso da entrega, o homem tão bonito e deixei escapar. No caso do funcionário do edifício, ao contrário, a mulher bonita, pernas de fora, o macaquinho a cobrir-lhe pequena parte do corpo, e ele sem poder fazer nada. Não se agarra uma mulher em Copacabana.

Do outro lado da rua passou o meu amigo. Foi o tempo de eu gritar oi e correr até ele. Este não vai me fazer mal, a praia dele é Ipanema, lá pela Farme de Amoedo. E tão bonito o meu amigo. Melhor com ele do que os olhos invasivos do porteiro.

Depois de me deixar na General Osório, todos os homens estavam a me olhar, e eu a beliscar o mel.

Cuidado Ivânia, não vai ficar grudada!

domingo, abril 19, 2020

Tripa

Tenho ido à praia, no Pecado, um lugar e tanto. Por aqui, o inverno também não se anunciou. Visto o biquíni e vou envolta numa toalha felpuda, atravesso a rua, ando um pouco sobre as areias brancas e pouso, anônima, o vento a me acarinhar a pele, levinho e amoroso, o sol morno, sem maiores pretensões. Ouço o rugir do mar, o explodir contínuo da arrebentação, notas graves intermináveis, como ecos sobrepostos a uma mão esquerda de pianista. Numa das tardes, porque as prefiro às manhãs de vozes infantis e hábitos brancos das babás, surgiu um homem, devia ir lá pelos cinquenta anos. Não demorou a se aproximar. Eu, que sentia o arrepio de estar só e também de ser um ente da natureza, assustei-me. Não é boa a palavra, rompe o precário equilíbrio entre o humano e o que não é o artificioso. Mas, vá lá, surgiu o homem. Bermuda azul, sem camisa, meio sem jeito, veio conversar. Como as palavras destoam da linguagem universal, sal e sol, vento e mar, aceitei a breve companhia. Veio-me à mente as dificuldades em se arranjar namorado. Justo o pensamento? Não sei, mas as mulheres sempre estão na desvantagem. Acendi primeiro um cigarro e conversamos. A princípio, apenas eu falava. Será o homem de pouca conversa? Apontei a beleza do mar, a tranquilidade da tarde etc. e tal. Ele, nada. Olhei, discreta, queria reparar se apontava o pênis por baixo da bermuda. Não que quisesse tê-lo ali, mas talvez o silêncio tivesse como motivação a minha nudez. De uns tempos para cá, passei a vestir um biquíni mínimo, a bunda de fora, e eu estava de costas. Nada achei sob o tecido masculino. Você nada comenta, alertei. Sorriu, foi então que perguntou você não é do Visconde, uma casa de dois andares? Pronto, o homem me tinha nas mãos, além de nua. Sim, resposta econômica. Admiro muito quando passa no campinho. É mesmo?, não me lembro de você. As mulheres não olham para os lados, emendou. Quem te disse?, deixei o argumento. Melhor permitir ao homem vir, o assunto crescer, até chegar onde já sabemos, a cama. Isso mesmo, os homens querem deitar com as mulheres, fazem tudo para que isso aconteça logo. Você frequenta o Arnaldo, do forró?, perguntei. O paquera arregalou os olhos, sorriu, na certa imaginou um copo grande de cerveja a sua frente, disse sim, frequentava. Então, vamos nos encontrar lá, depois de amanhã, pode me esperar, não vou faltar, assegurei. Continuou a me olhar, agachou-se, percebi que esperar dois dias lhe pesaria. Eu não poderia ir com ele naquele momento, nem estava com vontade, o importante para mim era o sol, o mar, o vento brando e o prazer do envolvimento com a natureza, sexo seria num outro momento. Abriu a carteira, tirou a caneta e escreveu um número de telefone. Recebi o pequeno papel e guardei dentro da bolsa. Pode deixar, não vou dar bolo, falei e achei engraçada a expressão. Foi-se o admirador. Lembrei um amigo que amava as possibilidades, dizia que era bom investir, assim poderia escolher mais. O admirador da praia não sabia investir, daí a pobreza de suas palavras. Meu amigo não é rico, mas sempre tem algo a receber. Investiu na semana retrasada, na passada, investe na atual, sempre o lucro, tanto mais quando se trata de mulheres!, gosta de exclamar. Em outro tempo, pode ser que eu me ralaria pelo homem ali mesmo na praia, arranjaria um jeitinho de deixá-lo escalar-me o corpo, ou eu mesma tomaria de repente suas mãos para percorrer minha pele escorregadia, depois afastaria um pouquinho as pernas, ele me roubaria o biquíni, tudo resolvido. Mas já sou escolada, não quero falatório, melhor o forró do Arnaldo. Tinha a praia, depois a dança, e o homem. Gosto de deixar o sol me aquecer o corpo até eu não poder mais, sinto, então, aquele repuxo no ventre, o calor, quase um orgasmo. Quando levantei, nem ajeitei o biquíni, nua a caminho do mar. Mergulhei. Olhei de dentro d’água na direção onde estavam os meus pertences, a praia toda para mim, ao longe uma mulher, depois dois garotos, areia e mais areia, cordões de restinga. Voltei ao guarda-sol, sentei-me sobre a canga, tive vontade de trepar, sim, mas com um amante imaginário, que me fizesse gozar duas horas seguidas, algo impossível a um homem de carne e osso. Uma amiga, certa vez, tocou neste ponto. Os homens gozam rápido, deixam-nos a desejar. Disse que gozava com o próprio corpo. Com o próprio corpo?, perguntei, você se masturba? Não, nada de masturbação, preparo-me, como se fosse deitar com alguém, passo uns cremes sobre a pele, deito-me e ponho-me a imaginar, abro as pernas, com suavidade, estou molhada, minhas mãos deslizam sobre o ventre, minhas coxas, imagino um história excitante, um fato que me deixa a mil, remexo-me um pouquinho, o gozo vem chegando... Isso dá muito trabalho, interrompi. Dá trabalho mas vale a pena, basta ter calma, toda a paciência do mundo, e muita imaginação.


O bar do Arnaldo fica na Riviera. Não é um setor vulgar da cidade. Em dois quarteirões está a praia. Há casas bonitas na vizinhança, prédios altos, carros e mais carros na beira da rua, estacionados. O Arnaldo teve de preparar o isolamento acústico do local, caso contrário teria de fechar. Conseguiu. Do lado de fora, não se escuta a música, não se acredita que se trata de um local barulhento e dançante. Forró é dança quente, animada, o homem segura a mulher pela cintura, pressiona-a na direção do seu corpo. Dança-se encostado um ao outro, sente-se calor, deseja-se sexo, é quase uma antecipação do prazer que está por vir. Não há homem ou mulher que, ao dançar forró, não se imagine numa intensa relação carnal. Como era de se esperar, mantive-me nos braços e nos passos de meu par, o homem surgido nas areias da praia, queria senti-lo mais e mais, acabar a noite numa espécie de comunhão de corpos, bem presa a ele, seu sexo dentro de mim. Num salão de forró, o bom é ficar o tempo todo com o namorado, não se deve parar de dançar, caso isso aconteça acaba-se nos braços de outro. Eu queria meu admirador da praia, até mesmo não me importaria de partir mais cedo para senti-lo frequentar minhas entranhas.

Após toda a loucura proporcionada pela dança, acabamos na minha casa, na minha cama. Nem havíamos bebido muito, melhor a embriaguez de nossas altas temperaturas. Muitas coisas na vida não acontecem como a gente imagina. Queria eu estar nua, o homem a me invadir, sem piedade. Ao sair do Arnaldo avistei Marion e Arlete sentadas a uma das mesas próximas à porta, vestidos curtinhos, uma porção de homens a olhar para elas. Dizem que Marion, depois de duas ou três horas de dança, vai ao banheiro e despe a calcinha, os homens adoram, ficam beirando a mesa, querem se certificar.

Tirei a roupa, quase enlouquecida, fiquei apenas de biquíni. Esperei por ele. Veio vagaroso. Despiu-se de costas para mim, quando apresentou-se nu, de frente, demonstrou uma ponta de vexo. Um homem vexado!, quase caí na gargalhada. Mas ele tinha seus motivos. Só então percebi. Seu pênis não enrijecera, uma tripa comprida escorrendo sobre o saco. Num primeiro momento, achei que vinha nervoso, há homens que reagem assim. Mas por que nervosismos? Aproximei-me, segurei seu pinto, acariciei, todo o cuidado do mundo. Nenhuma reação. Abracei o namorado, abrir as pernas, deixei que se aconchegasse. Nada. O peru na mesma posição. Afastei-me um pouquinho, toquei seus testículos, enfie o pênis inteiro na minha boca. Chupei o homem, tentei todas as maneiras. Nada. A tripa permaneceu imóvel.


Dias depois estive com um amigo, aliás, um ex-namorado que me acha gostosa e não deixa de me vir visitar. Fiquei nua pra ele; ele, nu pra mim. Seu peru durinho. Você já passa dos sessenta, está muito bem, falei, outro dia tentei trepar com um homem de cinquenta e poucos, o peru não ficou duro de jeito nenhum, chupei e tudo mais, nada conseguiu. O sexo do meu amigo endureceu mais com minha história. Comeu-me, com muito gosto. Uma delícia. Bom pra esquecer o dia em que fiquei na saudade. O importante foi também que gozei. Que história!, o homem e a tal tripa. O importante, naquele momento, era o pênis durinho do meu amigo!

domingo, abril 12, 2020

Toda arrepiada

Você me diz não fique tão nervosa, Anete, não se deixe levar pelas opiniões dos outros, não se deve temer o que as pessoas vão pensar da gente. Mas, Theó, moramos numa cidade onde muita gente se conhece. Sei que a situação mudou um pouco de uns anos para cá, mas as famílias que são daqui se conhecem, sim, fazem comentários. Depois, o comentário se espalha e somos vistas como piranhas. Se eu vivesse em Niterói ou no Rio, tenho certeza de que não seria assim, lá muitas pessoas moram sozinhas, predomina um individualismo que não se tem tempo para reparar o que o outro faz ou aonde vai. Aqui, não é assim. Outro dia comprei um maiô novo, sei que você vai achar ridículo eu usando um maiô, mas é o meu costume. Só que este é um tanto cavado, parecido com o que esteve na moda no carnaval passado, entrando atrás, a bunda um pouco de fora. Imagine, duas horas depois já tinha gente me olhando com aquele sorrisinho de deboche. E não foi na praia, não, mas no centro, não sei como já sabiam da novidade. Às vezes tenho vontade de mudar daqui, de ir embora mesmo. Não sei como você consegue, Théo, sai por aí, vai à praia, usa o menor biquíni da cidade e não liga pra que os outros dizem. Você mesma reconhece que não é tão bonita, nem tem um corpão assim de parar o trânsito, mas sempre está com namorado, ou de caso com alguém, quase toda semana tem um convite pra ir a algum lugar, uma festa, um restaurante, passeios e coisas assim. Você diz pra mim, Anete, basta não ligar pra essa gente, são pessoas frustradas. Eu sei, são frustradas, sim, com certeza, mas me incomodam, e muito. Queria ser assim como você, anda nua por aí, as pessoas olham, falam e você não liga, acha até engraçado. Caso te chamem de piranha, desdenha ainda mais de todas elas ou de todos eles. Uma vez você me convidou pra ir àquela praia, lembra?, fui com você. Foi a única vez que usei biquíni, e usei o teu! Você vestiu o meu maiô. Até que ficou bem em você o maiô; o biquíni, em mim, não sei. Serelepe do jeito que você é, logo apareceu um homem para conversar com a gente. Essa conversa vai longe, pensei, vai parar lá na cidade. Porque de Arraial até aqui não é muito longe, você há de concordar. Sei que naquele dia, até me soltei um pouquinho. Mas, depois, quando cheguei, comecei a achar um olhar estranho em todas as fisionomias, como se todos soubessem do meu segredo, do que aconteceu naquela ida à praia. Fiquei morrendo de vergonha de ir lá de novo, de encontrar o tal homem. E olha que ele me telefonou várias vezes. Isso mesmo, Théo, sei como é, você age assim, uma curtição, mas quanto a mim não sei. Adoro quando você me conta como os caras se aproximam, como falam com você, o modo como você os recebe, acho também engraçadas as situações em que você se mete. Lembra aquela vez, dois homens no mesmo dia, você sem saber o que fazer, o primeiro já tinha ido embora, mas, de repente, resolveu voltar, você já nas mãos do outro, ou nos lábios, ou dependurada, não sei. Muito divertido. O primeiro fez uma cara, mas não teve mais chance. Ainda bem que o segundo não percebeu o tal, e nem soube que você tinha dado uma namoradinha com ele uma hora antes! Você está me convidando para ir a Búzios, Théo, numa praia em que ninguém me conhece? Onde não há possibilidade de encontrar ninguém daqui? Será que existe mesmo esse lugar? Lembra a Júlia? A que mudou pra Icaraí. Era totalmente louca, adorava Búzios, dizia a mesma coisa, ia a uma praia onde ninguém a conhecia. Mas arranjava mil namorados aqui também. Dizem as más línguas que ela saiu uma vez nua, de carro, ao lado do namorado, foi pra um motel, desses da estrada. Corajosa, ela. Mas pode ser invenção, esse povo fala muito. Vou pensar no teu convite, Théo, um passeio a Búzios. A gente vai sexta e volta no domingo? Sério mesmo? Deve ser muito legal. O biquíni? Ah, tudo bem, você me empresta, ou chegando lá eu compro um, quem sabe. Espere um ou dois dias pra eu dar a resposta. Escuta, agora eu tenho de desligar, amanhã ou depois te telefono, a gente marca. Dessa vez a tentação é muito grande. Um final de semana em Búzios, uma pousada, a praia deserta. Quem sabe, a praia nem tão deserta assim! Você está rindo, não é?, engraçadinha. Sabe, fiquei toda arrepiada. Tchauzinho, amor, beijinho.

domingo, abril 05, 2020

As pessoas têm mais o que fazer!

Chego ao apartamento do namorado, são 12h30m , abro a porta e entro. Que bom, tenho a chave, ele me cedeu logo no início do relacionamento, pode vir quando quiser, mesmo eu não estando em casa. Bom, esse namorado. Descanso a bolsa e sento no canapé. Está escuro, a temperatura é agradável. No trabalho o homem, só chega lá pelas sete da noite. Já não estarei, dou aula à noite. Vida de professora. Depois vou a minha casa, vejo-o na sexta e ficamos juntos até a segunda de manhã. Às vezes, num intervalo de meio de semana, também nos encontramos. Tiro a roupa. A primeira coisa que desejo quando entro na casa dele, mesmo sozinha, é ficar nua. Corro ao quarto e estendo meu vestido sobre a cama, onde ele costuma dormir. Volto à sala, de calcinha. Será que alguém do prédio de frente me espiona, entre as cortinas? Não acredito, as pessoas têm mais o que fazer.

Lembro uma amiga distante, de outra cidade, onde trabalhei. Ela trepava com o namorado às onze da manhã, morava num terceiro andar. Ele mostrava que era possível serem vistos de outras casas, dos terraços vizinhos. As pessoas têm mais o que fazer, ela dizia, cheia de tesão.

Na sala, de novo, o canapé. Arrepio. Bom andar nua. Bom também o namorado, ótimo quando senta no canto da cama, com o peru duro que só,  e pede vem cavalgar, vem. Aproximo-me, vamos devagar, será que vai doer?, brinco. Ele passa a mão nos meus grandes lábios, ainda estão secos, repara. Calma, dois minutos e tudo será goiabada com catupiry. Ele ri. Ri e me come. Uma vara que não esmorece. O homem me ama, sou morena, ou negra, não sei, sei que me ama.

Sozinha, no canapé, lembranças me deixam no arrepio. Não preciso me tocar, pego um livro, abro e começo a leitura. Vou nua dentro das páginas. Uma mulher é sequestrada por três homens. No começo, um apenas. Quer ser tatuado. Ela sabe marcar, e marca bem. Ele a quer na sua casa, ela recusa. Marcaram encontro num bar, ela não o conhece. No final, ele acaba convencendo-a. Ela precisa de dinheiro, ele paga o dobro. Chegam os outros dois. Violência pura. Mas o narrador dá indício de que há algo por trás. A história vai acabar mal para os três capangas.

Em cidade pequena, quando se tem namorado, dá até pra sair nua, ou apenas um paninho leve sobre o corpo. Ele para num canto escuro da estrada, me come, voluptuoso. Vou adorando a incerteza. Uma vez saí nua do carro, fiquei molhadinha, antes mesmo que me tocasse. Noutra levou, de lembrança, minha calcinha. Mas o namorado do apartamento é sério, trepa bem, como gente normal, e não vou dar ideia.

Cruzo as pernas, sobre o canapé, dentro da leitura. Por que gosto de ler nua? Deve haver uma explicação. Treze e trinta. Largo o livro, ainda sem saber o fim da tatuadora, vou à cozinha. A fome, fome nua. Comida na geladeira. Há o micro-ondas. Tudo muito fácil. Ui, a campainha. Susto. Olho no olho mágico. É a vizinha. Acho que a diarista da vizinha. Já estive com ela uma vez, fazia a faxina e me pediu um saco plástico, estava de biquíni! Agora vem vestidinha. Abro a porta. Oi, como vai. Bem. Desculpe incomodar, é que vi a luz acesa, aí nunca tem ninguém. Sorrio. Ela continua é você, a gente já conversou, tudo bem? Tudo bem, digo. Dessa vez não quero nada, só vim dar um oi. Oi. Sorrio. Não deixo que me veja nua. Mas a mulher tem bom faro. É bom esperar o namorado, preparada. Acaba a frase e dá uma grande gargalhada. Não tenho resposta. O jeito é rir junto com ela. O namorado hoje é o apartamento. Homem, só à noite, e não vou estar. Ela ri também. Sempre se dá um jeito, há muitos homens por aí, completa e se vai. Tchauzinho. Volto ao apartamento. Que mulher enxerida, e logo em Copacabana, onde as pessoas são discretas, na Bulhões de Carvalho.

Sento no sofá, o prato e o garfo nas mãos. Minha amiga trepando no terraço. As pessoas têm mais o que fazer! Meia hora depois, ainda minha amiga.  Perco, como ela, a vergonha.

sexta-feira, março 27, 2020

Fogosa

Tenho amigas que falam que sou fogosa e hábil para arranjar namorados. Muitas mulheres, aqui em M, reclamam que não há homens na cidade, que é difícil encontrar um ser do sexo masculino mesmo para conversar, não entendem como me veem sempre acompanha pelos homens. Às vezes penso ser inveja ou olho grande. Será que me desejam sozinha, reclamando como elas? Tenho facilidade para arranjar namorado, é verdade, mas isto não significa sucesso absoluto entre os homens. Há mesmo quem eu deseje mas não me dá a mínima. Tenho mais sucesso do que fracasso, não posso negar. Porém, não existem receitas para arranjar namorado. Não me venham perguntar como se comportar para ter olhos masculinos (não apenas os olhos, é lógico) sobre si.

Outro dia encontrei uma amiga dos velhos tempos. Disse estar soltinha, como eu. A comparação foi dela. Achei engraçada a palavra – soltinha. Será que consegue voar? Deve se sentir leve, aberta, e põe aberta nisso. Já arranjei dois namorados este ano, falou com ar de segredo. Uma vez, na Costa Azul, um namorado lhe desamarrou os lacinhos do biquíni. Ela, soltinha, derretendo-se de tesão. Ótimo, retruquei, assim é que se deve ser. Soltinha. Ela foi-se, uma canarinha a planar sobre cabeças masculinas.

Janete, mais uma mulher, veio ter comigo. Foi logo dizendo encontrei com aquele teu ex, que mora na Serra, ainda gosta de você. Sim, o homem gosta de mim, mas não larga aquela Serra por nada desse mundo. Eu gosto de passear aqui na cidade. Não lhe disse que o tal, além de não me acompanhar nos meus passeios, era impotente. Sobre essas coisas, a gente fica quieta.

Mas a fogosa, qualidade que as amigas me dão, não é porque tive um namorado que negava a ereção. Elas já me viram na praia, biquininho, bumbum de fora, toda serelepe. O problema delas é que escolhem muito. Não saio com qualquer homem, mas gosto de dar chance a todos.

Certa vez veio um de cabelos brancos, achei que seria idoso, também impotente. Ficou a conversar comigo, na praia. Voltou várias vezes, dias seguidos, à mesma hora. Marcamos de sair, uma noite de quinta-feira. Na hora de trepar, surpresa. Ele tinha um peru bem duro, que não vacilava. Adorei o namoro. Não disse pra ninguém, queria aquele pênis por mais tempo. Caso comentasse, logo aparecia uma para tirar proveito. Além de demorar na foda, o homem me lambuzava toda. Nem gosto de escrever desse modo, mas quanto a ele não encontro outras palavras. Passaram-se alguns meses, ele foi embora, trabalhava numa empresa de petróleo e precisavam dele em outro lugar. Foi jorrar em outra região. Ele e o petróleo.

Não demorou, apareceu outro, e mais outro. Por isso, nada de tristeza, vou logo dizendo não posso ter compromisso, também não me venha com perguntas. Saímos, tenho mesmo uma agenda. Se quisesse, poderia ganhar dinheiro, mas trepo por prazer. Às vezes um ou outro me chama pra jantar, pra passear em outra cidade, me dão um presentes. Não faço desfeita, aceito.

Lourdes, uma moradora do Aeroporto, tem as carnes ultrapassando o biquíni minúsculo que ela usa em Cavaleiros. Está sempre cheia de óleo, a pele brilhando, sorrindo para os homens, convidando-os em pensamento, e mesmo tocando neles quando começam a conversar. Qualquer coisa que dizem, cai na gargalhada. Ela revela que consegue muitos namorados, mas só conto pra você, viu, porque sei que não vai sair falando por aí. Lourdes tem as coxas grossas, os lacinhos do biquíni convidando, bumbum extravagante. Não espalha, por favor, acrescenta, quando trepo sei dar uma mordidinha gostosa, enfeitiço os homens. Outro dia apareceu um que diz conhecer o Jorge, um namorico meu, ela me falava, notei que o homem estava caidinho, não sei por quê, mas seu olhos revelavam. O que você fez?, eu, curiosa. O que eu poderia ter feito? Imagine. Ela sorriu, prendeu os cabelos, beijou-me. Tenho um compromisso pra mais tarde, completou e se foi. O tal sorrisinho.  Seu ônibus vinha contornando a pracinha. Outra fogosa. E também soltinha.

domingo, março 22, 2020

Como arranjar namorado

Tenho amigas que acham difícil arranjar namorado. Apesar de não ser jovem como muitas delas, sempre que desejo namorado, consigo. O segredo? A atitude mental. Parece besteira, ou mesmo uma brincadeira, mas ela é muito importante. Por exemplo, não me visto ou me dispo com o objetivo de conhecer um homem, ou de arranjar alguém para aquele momento. Visto-me bem porque gosto de viver. Outra dica: sempre estou alegre, sorrindo, procurando não pensar negativamente sobre os homens. Nada de pensar que eles são egoístas, que não desejam o nosso bem e só desejam tirar proveito. Isto já se torna um impedimento. Na verdade, quem tira mais proveito somos nós.

É bom estar vazia interiormente. Como fazer? Não é aconselhável se perder em pensamentos, mas estar em harmonia com o dia que segue, com o sol, com a imensidão do mar, com os animais, aliás, com toda a natureza, e também com as pessoas que nos rodeiam, sentir a vida como algo maravilhoso, uma espécie de espetáculo. Assim, estaremos abertas a tudo que surgir. A receptividade atrai coisas boas, entre elas namorados!

Certa vez fui passear na orla marítima, na minha cidade. Caminhei de um lado a outro. Sentia-me feliz, nenhuma preocupação, parecia que eu nascia ali, ou, para dizer melhor, que surgia pela primeira vez. Surpreendia-me com o que via, o mundo era uma descoberta constante, tudo sempre novo. Podem ter certeza, caso consigam essa postura, o restante será fácil, inclusive a aproximação de homens leais. Não acreditam? Claro que existem, às vezes eles se tornam difíceis de encontrar porque não conseguimos enxergá-los. O importante é nos livrarmos dos preconceitos. Em outras palavras: estar nua interiormente. Um exemplo: a roupa é uma espécie de invólucro, ela transmite nossa opinião, nossos gostos, nossa maneira de pensar e de ser. Quando se está nua, não há o que refletir senão o próprio ser original. Surgiu-me durante meu passeio à orla um homem de cinema. Mesmo que quisesse me valorizar, não pude, entreguei-me inteira.

Conto uma história. Tenho uma amiga, assanhada como ninguém, que desce todo fim de semana de Glicério para a praia. Ela faz um truque com o minúsculo biquíni, que enlouquece qualquer homem. Quando a encontro na praia, sempre acho que está pelada, embora ela afirme, altiva, que seu biquíni é muito recatado. Num dia desses, ao entardecer, ela estava deitada na cadeira de praia vestindo a tal roupinha de banho que só ela consegue enxergar quando surgiu um homem. Que maravilha!, exclamou silenciosa. Encantou-se o recém-enamorado. Aproximou-se. De início fez-se de entediada, três quartos de hora depois abriu-se. Diz que passou dias saborosos (o adjetivo é ela) ao lado dele, quentinha. Quem agir assim – isto é, andar nua por aí – é certo que sairá vencedora, haverá mesmo uma carreira de homens caminhando ao seu encontro. Mas, sabemos, que tal postura tem suas desvantagens. Minhas dicas, no entanto, são outras. Vou pela nudez interior, a outra será mera consequência.

“Eduarda, sempre vejo você com homens bonitos”, muitas chegam a exclamar. “Não quero botar olho não”, disse outra, “mas você anda com cada bonitão, conta o segredo, vai.” Do jeito que as amigas comentam, até parece que saio com todos os homens da cidade. Isso não é verdade. Mas, voltando ao tal receituário, não há segredos, basta a atitude mental.

Nos meus contos não é assim que acontece, alguém poderá observar, “você é muito levada, sempre está nua em algum lugar da cidade, sobretudo durante a noite.” Vocês têm toda razão. Mas não ajo assim para arranjar namorado, trata-se apenas do tal arrepio. E sobre isso, a gente conversa numa outra hora.

segunda-feira, março 09, 2020

Lambida

Às vezes sinto saudades dos tempos em que vivi em M, uma cidade muito divertida, que não tinha tanta gente como essa onde vivo agora e onde era possível fazer mil extravagâncias. Passeava pela orla, ia vez ou outra à praia. Como havia muita gente de fora, era um ótimo lugar para arranjar namorado. Um arrepio. Lembro os anos de faculdade. Entre os alunos e alunas, a maioria era mulher, mas eu namorava mesmo era com os professores. Verdade. Eles pediam não conta pra ninguém, não fica bem um professor sair com as alunas. Havia aulas pela manhã e à noite. À tarde, eu descansava, ia a um café próximo ao Centro, frequentava a biblioteca e a loja de uma amiga. Eu tinha, então, 21 anos. Foi quando conheci um professor, dos mais entusiasmados, dos mais ousados, me convidava para acompanhá-lo a todos os lugares. Quando o vi pela primeira vez, passei a sentar na fila da frente, usava saias ou vestidos curtinhos, pernas cruzadas, olhava em direção a um ponto neutro, nunca a ele. Não demoraram os convites. Íamos a recepções, passeios, excursões, praias e restaurantes. Impossível não ser notada ao lado daquele homem. Com o tempo, já não era problema outras pessoas saberem sobre nosso relacionamento.

Ele tinha um apartamento num bairro conhecido como Riviera. Não é preciso dizer que acabávamos quase todas as noites naquela morada ajeitadinha, a ouvir música e a beber champanhe. O homem adorava champanhe.

Num certo sábado, resolvemos visitar as cidades da região serrana. Uma amiga de lá daquelas bandas nos acompanhou. Ela conhecia tudo e ia mostrando os lugares. Tomamos banho numa cachoeira e num rio, acabei achando que ela se insinuava para o meu professor. Ria, dissimulada, tomou banho quase nua. Por aqui não tem homem, disse, só matuto, e uma porção de veados, é difícil achar namorado, quando quero um desço à praia, a Cavaleiros ou mesmo à Costa Azul.

Ficamos o dia inteiro juntos, ela a apontar serra tal, gruta tal, rio com este nome, cachoeira com aquele, eram tantos, nem lembro mais, contava casos engraçados, como os de um lugar onde as moças e os rapazes que moravam nas redondezas namoravam. Elas, principalmente, tinham um fogo enorme, diziam não querer chegar aos finalmentes, mas é lógico que não aguentavam. Ela narrava e ria. Meu namorado dizia todo local tem dessas coisas.  No final da tarde, a amiga pediu para descer a serra com a gente, ia passar o final de semana com uma amiga. Seria amiga mesmo? Sorriu, aquele sorrisinho de quem não lembra onde deixou a calcinha.

Nos finais de semana eu e o namorado passeávamos por todo o litoral. Começávamos a beber vinho branco, terminávamos o dia bebendo champanhe, às vezes uma caipirinha, ou, quem sabe, uma dose de uísque. Havia praias extensas, caso tomássemos a direção do litoral sul. Éramos apenas nós debaixo do guarda-sol, deitados na espreguiçadeira. Em determinada ocasião, cheguei a dormir mais de uma hora, o marulhar distante e o sol de fim de tarde. Cheguei a sonhar. Um namoradinho de ocasião, numa praia que não era nenhuma das que existiam nas redondezas, num momento de entusiasmo pediu para eu ficar nua. Nua numa praia! Não demorei a decidir. Tirei o biquíni e ele me abraçou, disse você esta vestida com o meu corpo, senti então seu pênis crescendo entre minhas pernas. Acordei. O vento mais forte me desarrumava os cabelos e levantava vez ou outra um chicotinho de areia. Vamos embora, pedi. Vamos mergulhar primeiro. Dentro d’água, nos divertimos muito, o professor agarrado a mim. Depois conclui, o sonho fora resultado da influência da amiga assanhada lá da Serra, vivia a me telefonar pra falar dos homens.

Na semana seguinte a encontrei no centro da cidade. Ela ia a uma loja trocar uma peça de roupa, pediu-me que a acompanhasse, queria contar um caso que, segundo ela, me dizia respeito.

Sabe o teu namorado, começou a história, com as pupilas no canto dos olhos, gosta de deixar as mulheres nuas.

Mas é tudo que nós queremos, falei-lhe ao pé do ouvido.

Mas a coisa é em outro sentido, continuou. Ele gosta de levar as mulheres nuas no carro dele, depois, sabe com é, pede para elas saltarem, namora encostado na lataria, faz que elas vibrem de tesão.

Escutei toda a louca história, na verdade queria mesmo era atrapalhar o meu namoro.

O que ele fez antes, não me importa, o que vale é que agora está comigo, e se mostra apaixonado. Sorri após a última palavra. Ainda há mais uma coisa, acrescentei, adoraria estar no lugar dessa tal, nua encostada na lataria, na beira de uma estrada, de madrugada. Vou dar a ideia a ele.

Não faça isso, você não sabe o que pode te acontecer. Vou contar a verdade. Já saí com ele, não comente, por favor.

Arregalei os olhos.

Foi por isso toda aquela insinuação no dia em que passamos na serra, agora entendo.

Desculpe, ela disse, não consegui disfarçar, o homem me deixou nua, de madrugada.

Sério?, fiz que não acreditava.

Juro, não vou mentir com essas coisas. Não vou contar agora como o conheci, é uma história complicada, uma festa e coisa e tal. Namoramos uns dois meses, numa noite ele me pediu pra eu encontrar com ele vestindo uma peça, um vestidinho fino, nada  mais. Parou à beira da rodovia, começou a me abraçar, me beijar, acabou por me tirar o vestido, depois pediu pra eu descer do carro, atravessar a estrada e esperar por ele do outro lado.

Olhou para mim com cara de safada.

E não é que aceitei?

Como é essa história?

Isso mesmo, nua na estrada, às duas da madrugada. Ele partiu, falou que voltava, levou meu vestidinho dentro do carro. E eu nua, imagine, pelada, esperando cinco, dez, quinze, vinte minutos e nada. Ele não voltava. Como não voltou. Só o vi três dias depois, passando de carro pelo centro.

Você não prestou queixa à polícia?

Não, nada de polícia, não queria escândalo.

E como você se safou?

Não me safei, tive que recorrer a alguém, que me deu uma carona e amainou as coisas. Mas em troca tive de trepar com o cara; além disso, chegar nua em casa.

Ela seguiu seu caminho. Continuei por um tempo com o professor, meu namorado, ex-namorado de minha amiga. Até que, um dia, ele me fez o tal pedido, sair apenas coberta por um vestidinho fino, como ela me contara.

Ele marcou pra hoje a tal aventura, falei assustada à amiga ao telefone. O que você acha?

Acho que vou mandar o tal homem que me resgatou naquela noite buscar você.

Você namora com ele?

Quem sabe?, mas não sou ciumenta.

Caímos ambas não apenas em armadilhas, mas numa gostosa gargalhada.


A história me fez ficar toda arrepiada.

Que saudade dos tempos em que vivi em M.

sábado, fevereiro 22, 2020

Adesivo

Umas amigas me convidaram para planejar suas fantasias de Carnaval.

Como assim?, perguntei.

“Você tem mais experiência do que a gente, fomos convidadas para o desfile do principal bloco da cidade, no sábado; depois, a um baile, segunda-feira à noite. Que tal nos ajudar, principalmente em relação às fantasias?”

Elas são mais jovens do que eu, mas estão sempre à espreita, gostam das minhas ideias, das soluções que invento.

“Bem, vamos de biquíni, não é mesmo?”

“Claro, Célia, sem você não somos nada.”

“Não exagerem.”

“Vamos confeccionar biquínis pretos, rasos, curtos, sensuais, meias arrastão; para cobrir os seios, um top também preto, quem quiser pode optar por adesivos; assim, quando de costas, parecerão nuas. Escolhemos franjas prateadas para disfarçar a pequenez dos biquínis.”

“Ótimo”, falou a mais espevitada, e suspiraram todas.

“Há também um tecido tipo rede”, continuei, “como meia arrastão, mas para o torso, veste-se como uma blusa, os seios, o mesmo top, ou o mamilo apenas tapado com o tal adesivo.”

“Os homens vão enlouquecer!”, gritou Miriam.

“Vão”, afirmei, “mas nós não, seremos as mulheres mais equilibradas deste carnaval. Atenção, meninas”, falei afetuosa, “não se deve namorar no período de Carnaval. Não acreditam? A folia é um grande divertimento. Deixemos os homens loucos, mas queremos apenas diversão. Depois que passar a festa, aqueles que nos paqueraram  e aparecerem a nossa procura merecem uma recompensa. Portanto, nada de namoro no Carnaval, ok? Ah, mais uma coisa, vamos sensuais, capazes de virar a cabeça de qualquer homem, não é mesmo? Porém, nada de nudismo além do que a fantasia nos permite. A gente brinca, dança, aproveita, assim são os quatro dias de folia. Não vamos dar vexame.”

Nos dias que se seguiram, aprontamos nossas fantasias. Experimentamos. Acertamos os pequenos defeitos. Eu e Sara optamos pela renda inteira, a meia e o torso em rede, tudo tipo arrastão. Por baixo o biquíni. Miriam, Sônia e Eulália vestiam apenas os biquínis com franjas, meias arrastão e o torso nu, com os adesivos cobrindo os mamilos.

Antes que chegasse a inauguração do Carnaval, alertei:

“Sei que é complicado, mas como vocês me pediram para liderar o grupo, ouçam: nada de mãos masculinas a nos bolinar, afastem todas, com sorriso e diplomacia. Outro alerta: todas aqui conhecem a Eduarda não é mesmo?, aquela que mora em Glicério, na Serra. Ela vai sair no bloco e vai também ao baile, já me informaram. É a mulher mais escandalosa da região, gosta de competir, tanto mais, comigo. No ano passado, sua fantasia foi de baianinha, uma baianinha com saia de dois palmos. E a mulher é alta que só, vocês sabem. Até aqui tudo bem, mas havia um segredo que não demorou para ser descoberto: ela era uma baiana sem calcinha. Imaginem o escândalo, pensem no assédio. Depois do baile, ela mesma alardeou aos quatro cantos que transou com dois homens na mesma noite, ainda apontou o local, atrás do quiosque, usava biquíni adesivo e renda e branca por cima, fantasia que, ainda segundo ela, deu de presente a um dos seus rala-ralas. Caso ela se misture a nós, nada temos a temer, não a imitemos. Deixem os homens ir com ela. Sei que contando essa história, algumas de vocês podem ficar excitadas. Mas vamos nos divertir, deixemos o sexo pra depois.


São nove da manhã, o céu está claro, brilha o sol, o dia promete. Os instrumentistas começam a ensaiar seus primeiros acordes, o bloco começa a desfilar dentro de meia-hora e já fazemos o maior sucesso, todas juntas, brilhosas e prateadas, biquínis a desaparecer na imensidão dos nossos corpos. Eduarda, de lingerie branca transparente e um tapa-sexo triangular sobre a xereca, está provocando o maior frisson. Ela vem com a gente. Depois conto mais.

domingo, fevereiro 09, 2020

Noite de verão

O verão é uma estação instigante, no litoral, então, nem se fala, a gente chega à praia com aquele afã de aproveitar o sol, o mar, e tudo mais que seja possível. A pele sente o ardor, há o arrepio e a vontade louca de amar. Neste réveillon, viajei do sul do país a uma praia no Rio de Janeiro. Logo no primeiro dia vesti um biquíni branco, pequenino, debaixo de uma saída de praia de renda transparente. A roupinha, na verdade, uma tela sobre o quase nada, atraía diversos e animados olhares. Continuei com a roupa ao entardecer, entrei num bar, pedi uma bebida. Os homens se surpreenderam. Minha pouca roupa os fazia vibrar a mil. Uma mulher nua na mesa ao lado!, é o que diziam, mesmo sem palavras. Alguns, ainda que acompanhados, não esconderam o desconforto, tiveram de olhar com o rabo do olho. Se não me deixam nua pelas mãos, pelos olhos foi mais fácil. Por falar em olhos, lembro-me de umas férias na praia, mas no litoral de Santa Catarina.

Sempre adorei biquínis mínimos, e também gosto de andar nua. Naquela ocasião aluguei uma casa em frente à praia, um local deserto, ninguém a me incomodar. Não tinha ainda a saidinha de praia de tela branca, descia às areias apenas com a roupa de banho. Como sempre gostei de apreciar a manhã, alguns dias eu acordava muito cedo. Num deles, pensei ir nua, mas achei exagero, podia aparecer alguém, sei lá, um nativo, ou alguém da colônia de pescadores. Vesti, então, apenas uma camiseta sobre o corpo, descia-me até as coxas. Caminhei até a beira d’água sob a vermelhidão do amanhecer. Como não é costume no local, a água estava quente, mais quente do que eu. Senti vontade louca de mergulhar. Tirei a única peça, enrolei deixando-a escondida na areia. Corri e entrei n’água. Um orgasmo o contato de minha pele com as águas. Sem me preocupar com as horas, permaneci ali indefinidamente. Quando reparei, um homem passeava pela areia. Ai, meu Deus, tomara não encontre minha camiseta. Depois me acalmei e achei normal estar nua, a natureza convidava. Mas ele não demorou, nem sei se me viu. Quando resolvi sair de dentro d’água, onde a camiseta? Subi nua à casa alugada. Ainda bem, todos dormiam. Tomei uma ducha e me deitei de novo. Ah, quem sabe, sonho de uma noite de verão. À noite fomos à cidade, eu vestindo apenas uma peça, camisa de mangas três quartos, não chegava aos joelhos. Que férias!

No Rio de Janeiro a coisa é outra, os sonhos são fortes, vigorosos, pura realidade. Logo vem alguém conversar, um assédio e tanto. Para quem é livre ao namoro, tudo bem, o paraíso. Mas é preciso cuidadinho; ao contrário, perde-se a graça. Os homens oferecem bebidas, comidas, passeios, mas não sai de graça. Vou com a saidinha de renda, a tal tela transparente. Depois, digo preciso ir ao hotel, tenho de me trocar, espere um instantinho. Quero fugir. Mas você está tão linda com essa roupa, não se troca não, o Rio é praia noite e dia. Vou na conversa do recente namorado. Ele, doidinho, pra me ver apenas com a telinha sobre o corpo. Ainda que fosse só isso. Mais, não conto; vale a discrição.

Segredinho: não posso subir nua ao apartamento, tanta gente, as pessoas não param de ir de um lado a outro. O namorado adora a brincadeira. É apenas o começo, uma noite de verão.

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Equilibradinha

Me perguntaram se já me equilibrei nua. Respondi sim, equilibradinha, mas sentada numa poltrona. Explico, antes de insistirem. No mês de dezembro sempre fazemos compras, logo precisamos de dinheiro. Ele havia telefonado, quer ganhar um presente? Jamais recuso. Claro, um presente, falei sem demonstrar tesão. Em dinheiro, completou. Continuei muda, porém arrepiada. O homem havia sido meu patrão, sempre regalos. Marcamos o encontro.

As ruas movimentadas, não seria preciso dizer, mas como é recomendável dar o ar local à história, vá lá. Caminhava eu na Gonçalves Dias, quase esquina com a Carioca, três da tarde. Veio o homem ao meu encontro. Beijos, sorriso, bolsas nas duas mãos, o short, como o nome diz, muito curto. Onde podemos realizar a transação? Lógico que ninguém perguntou isso, mas era o que se procurava resolver. Numa tarde de fim de primavera, as ruas quentes, as pessoas procurando andar pela sombra, homens olhando as saias curtas. Onde resolver o problema do desejo? Onde o do dinheiro? Andamos um pouco a esmo. Vamos a um ar condicionado, propôs. Entramos num bistrô. Veio a garçonete, olhou-me com olhar de também quero, depois de admirar o homem, será que ele paga quinhentos?, li nos olhos da mulher, que soube disfarçar. Sorvete de café, boa ideia, ele disse, uma taça de champanhe. Será verdade?, eu queria acreditar. Enquanto esperávamos, voltei o tempo, à época em que pedia: o senhor pode me emprestar duzentos? Passavam-se os meses, eu nunca quitava a dívida; ele não cobrava. Um dia o homem me deixa nua. Ah, a garçonete, sorvete ao lado da taça de champanhe. Vamos trocar?, brinquei. Traga outra taça, sorriu à mulher. Sabor, quase da minha cor, só um pouquinho mais escuro; ah, a champanha me deixou arrepiada, ainda. A pasta gelada entrava pela minha pequena boca, lábios, língua, garganta e desaparecia nas minhas vias interiores. Oh, como é bom o calor, como são bobos os homens. Vamos aos negócios. Sim, bebo também champanhe.

Certa vez eu já não trabalhava para ele, não resisti e telefonei. Marcamos no mesmo centro. Vou levar você a um hotel, ele, sem meias palavras. O que se faz num hotel? Abriu a porta do apartamento; eu, como se fosse a primeira vez, não encontrava lugar para minhas mãos. A disfarçar, peguei o telefone, pedi que me trouxessem um lanche. Como demorou. Pude, então, me preparar. Bebi uma Fanta e comi um sanduíche, juro, que pobreza, não sabia à época que podia pedir champanhe. Quando eu já ia nua, antes de treparmos, sente na poltrona, pediu, equilibradinha, isto é, cruze as pernas e fique um pouquinho sem se mexer. Como é difícil ficar sem se mexer.

Tirou do bolso um envelope. A garçonete me olhava de longe, tenho certeza, mesmo sem vê-la sei que me espionava. É para você, o presente. Sorri, contida, guardei o envelope dentro da bolsa. Não vai abrir? Ah, sei que és generoso, não preciso olhar agora. Seus olhos escaparam, minhas pernas brilharam. O shortinho. Respirei, nua. O dinheiro me aliviava. A garçonete veio recolher minha taça de sorvete vazia, o champanhe ia ainda pela metade. O que se pode conversar numa hora dessas? Como vai a empresa?, perguntei. Meneou a cabeça. Como sempre, mais triste sem você. Estou aqui, sempre que me telefonar, rebati, como uma boa rebatedora de uma bola difícil, jogo de tênis. Confesso que nunca pratiquei o esporte.

No mês de dezembro, próximo o dia de Natal, há clima para o convite a um hotel? Ele, elegante, não tocou no assunto. Sabia que haveria outros dias. Aliás, antes da despedida, antes mesmo de me beijar, soube se expressar: vocês, mulheres, sempre dão um jeito, esse calor, vão quase nuas, que bom. Minhas pernas. De novo, o shortinho. A garçonete, tenho certeza, ter-lhe-ia proposto o hotel, equilibradinha.

sábado, dezembro 14, 2019

Veio sentar ao meu lado

Essas aventuras são tão boas, que se deseja permanecer no enlevo, como se o momento fosse eterno. O namorado me olhava, eu pensava. Meus seios. Conheci-o fazia algumas semanas. Passeávamos, apenas. Eu, como já não sou jovem – digamos, vou pela meia idade –, deveria ser um tanto mais atirada? Acho o motivo inconsciente, ou mesmo porque sou escolada. Já passei por tantas situações, melhor a precaução. Mas como a precaução diante do impulso amoroso, sexual? A paixão sempre vence. Caso o resultado fosse o contrário, o mundo seria outro, menos conflituoso. Insensatez dizer que sempre deve vencer a razão. É o que desejamos, ou melhor, o que quer o conjunto das opiniões. Cada um, no entanto, arrefece diante da sua tentação. Não há, aqui, vencedor. O namorado me olhava. Eu sorria. Havíamos passeado durante a tarde, um parque arborizado, imenso, verdejante. A primavera. Procurava eu uma árvore, isso mesmo, estranho num lugar de tanta vegetação eu procurar precisamente uma árvore específica. Explicação: florescia pouco, por isso a raridade. As flores tão bonitas. Andamos de norte ao sul, leste a oeste. Onde a árvore? Descobrimos várias, mas não tive certeza se era a dita. Tantas flores sobre muitas. No final, entardecia. O namorado abraçou-me. Que tal um café, ou um suco, um copo d’água, não sei? Procuramos, encontramos numa das extremidades, a pequena cantina, digamos assim. Tão bom o ar, sussurrei ao seu ouvido. Beijou-me. Não sou beijada em público faz tempo. Beijo demorado, bocas, línguas. As pessoas envolvidas nos seus prazeres não tinham tempo de nos olhar. Melhor assim. Andamos pela avenida, anoitecia, ruídos de automóveis, pessoas a passear, famílias a terminarem o domingo, felizes. Entramos numa rua transversal, atravessamos, pessoas nas calçadas. Voltávamos. Que tal descansarmos lá em casa?, sugeriu. Sim. Estava calor, anunciava o verão. Seria quente o verão. O namorado conduzia-me, mãos dadas, beijos ocasionais, sorrisos cúmplices. Como arranjara o homem? Ah, uma palestra, sobre filosofia. As pessoas procuram a filosofia, querem explicações. Eu também procurava. Ele pesquisava. O sentido da vida? Não sei. Não há sentido para a vida. Não há explicação ao amor. Eu vinha num namoro comigo mesma, mas apareceu o homem. Que tal a tentativa? Desafiei-me. Aceitei. Pensei na Deia nua, envolvida pelas próprias mãos. Chegamos ao prédio onde morava o homem. Um edifício alto. Dois elevadores. Oitavo andar. O ruído de chave a destravar a fechadura, a porta aberta, uma saleta. Sentei no estofado de dois lugares. Você mora aqui, exclamei. Aconchegante. Trouxe uma garrafa d’água, o vidro suado, dois copos. Ou seriam dois corpos? Enchi o meu até a metade. Adoro ficar nua, pensei sem motivo. Quem sabe o motivo? Todas gostamos de ficar nuas. Não ia, no entanto, tirar a roupa na casa do namorado, de repente, à primeira vez. Mas estava tanto calor. Ele trouxe o ventilador, apertou uma tecla, o vento começou a rondar da esquerda à direita, da direita à esquerda, procurava-me, movimentos mecânicos. O homem continuou premendo teclas. Agora, o aparelho de som, música instrumental. Posso tirar a blusa?. Ele deu de ombros. Surpreso. Feliz. Tirei-a. Livrei-me também do sutiã. Calça comprida, apenas, deixara o tênis à entrada. Seios nus. Fiz de conta que era a coisa mais natural do mundo. Meus seios de fora, não sei se são caídos ou rígidos, depende de quem olha, depende do ponto de vista. Nua da cintura para cima. Grande prazer. Pus-me a rir. Por que você está rindo? Não sei, estou tão feliz, feliz mesmo. Meus seios apontaram à face do namorado, espelho da minha felicidade. Veio sentar ao meu lado.

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Torce por mim

Oi, Janete, tudo bem? Você tá acostumada às minhas mensagens escritas, mas agora achei melhor gravar, é mais rápido. Sempre me contas tuas paqueras, não é mesmo? Hoje aconteceu uma coisa boa comigo, acho que estou com sorte. Escuta, vou tentar resumir, depois te conto melhor, pessoalmente. Vim à praia, aqui atrás da pousada, sabes qual é. Uma praia deserta, o mar, o céu e, principalmente, o sol. Então, aconteceu. Surgiu um homem. Lembra aquele que gerou a história do cavaleiro negro, num baile de máscaras, no verão, acho que faz uns dois anos? O tal que surgiu aqui, parecidíssimo, achei que fosse o mesmo. Nas areias, o homem imenso, de bermuda e sem camisa. Eu quietinha no meu canto. Sabe quando a gente sente um frio no estômago, não se imagina o que pode acontecer, ao mesmo tempo teme e deseja? Que situação. Ele, a distância; eu, com minha revista. Não parecia ser perigoso, lógico que o homem não ia me agarrar. Búzios é lugar civilizado, você conhece. Não demorou, veio falar comigo, perguntou se me podia fazer companhia. Imagine se preciso de companhia. Lógico que não disse assim a ele. Entonou a frase com uma ponta de formalidade. Pois não, respondi, tentei fazer aquela fisionomia de enfado, de quem não quer ser incomodada. Depois me arrependi, achei que podia entender como uma recusa definitiva. Escutei o que tinha a dizer e, pouco a pouco, abri ligeiro sorriso. Você deve estar doidinha pra saber o que ele disse, e mesmo o que aconteceu, não? Não disse nada de mais, apenas que estava naquela praia pela primeira vez, achava tudo muito bonito, queria comprar uma bebida mas não sabia onde. Dei a dica, atrás, perto da pousada, uma venda. Mas ele não foi imediatamente. Agradeceu, olhou demorado na direção do mar, não imaginava que aqui fosse assim, tão encantador. Achei encantador mesmo o homem, porque, você sabe, com a praia já estamos acostumadas. Disse volto já e subiu na direção da rua. Desapareceu. Quando eu já me distraía de novo com a revista, ele voltou, quase de repente, não cheguei a me assustar, mas foi por pouco. Trazia uma garrafinha de suco, disse que estava fresca, eu não tinha aparência de beber refrigerante, com a pele tão bonita, bem tratada. Elogios. Imagine, não precisava se incomodar, sorri, bebi um gole. Uma mulher acenou pra ele lá de cima. Ah, não, uma mulher, vai ver o homem tem compromisso. Me senti furiosa. Ele atendeu, mas voltou rápido, com uma bebida vermelha nas mãos. A moça também prepara coquetéis, mirou o copo. Ah, que bom, não era conhecido na cidade, eu podia aproveitar. O que fazer, dali pra frente? Se eu der confiança, ele me escapa, conheço os truques. Trabalho no Rio, não vivo quase aqui, pareceu sincero. Ficou calado durante alguns minutos. Será tão, assim, sem assunto? Eu também não queria assunto, você me conhece, sabe mais que ninguém o que desejo. Mas melhor me manter comportada. Lembra minha aventura com o motociclista? Foi numa praia mais pra baixo. Faz dois meses. Te contei. Fui passar o dia e conheci o cara. Acabei saindo com ele, dar umas voltas de moto, de biquíni, na garupa. Meus pertences na praia, minha preocupação. Não tem problema, aqui ninguém pega nada dos outros, falou. Passeamos e passeamos, que tonta eu, logo fica noite, eu pelada na garupa. É lógico, o homem não me quis só pra passear. Viver a mesma coisa agora, não. Mesmo ardida como sou. Se venho à praia, é pela praia, eu tentando me convencer. Conversamos, sim. Acabamos encontrando assunto. Fumou um cigarro, me ofereceu. Se fumo? Fumei. Bebi um gole do seu segundo coquetel. Comecei a ficar soltinha. Reparei o volume do pênis dentro da bermuda. Minhas carnes todas tremeram. Ui, quase perco o controle. Mesmo tendo molhado o biquíni, consegui me segurar. Hoje, se dou alguma coisa, é só o número do telefone. Nada mais.  Entrei n’água, saí d’água, ele comigo. Não me tocou. Mais elegante, assim. Ele também se controlava. Os outros querem logo deslizar as mãos. À tardinha, me despedi. Agora, vou esperar ele telefonar. Acho que telefona, sim. Melhor, não é mesmo? Comportada. Até estou me desconhecendo. Este não tinha moto. Mesmo que tivesse, não ia, bastou aquela vez. Quem sabe aparece à noite. Hoje ou amanhã. Mais certo amanhã. Prometeu. Beijo, Janete. Desculpe ter partido a mensagem em três ou quatro. Mas foi o jeito que arranjei pra te contar. Torce por mim, viu. A gente se encontra.

domingo, novembro 17, 2019

Fila

Ele me pediu para escrever um texto excitante e lhe enviar como mensagem. Você acha essas histórias mais instigantes na narrativa de uma mulher, afirmei. Isso mesmo, retrucou, as mulheres tem mais força narrativa. Os homens são assim, adoram uma mulher falando sacanagem. Você quer então transar pelo telefone, isso é coisa antiga, sabia?, provoquei. Ele disse que sim e, como estávamos ali um ao lado do outro, cheguei a dizer será que não basta a gente transar num quarto de hotel, ou mesmo em seu apartamento, como temos feito? Deu de ombros e fez uma fisionomia alegre, mas sem um sorriso propriamente. Lembrei então de um rapaz que eu conhecera, fora meu estagiário numa das empresas em que trabalhei, sabia fazer a mesma cara, transmitia alegria sem sorrir. Sua fisionomia impressionava outras mulheres, queriam ficar o tempo todo junto dele. Logo uma delas começou a provocá-lo.

“Acho que ele não vai querer”, eu lhe dissera, “quem sabe queira se manter apenas profissional, sem se envolver com alguém aqui na empresa?”

“Vai ver o homem é gay, e você tentou sair com ele mas não conseguiu.”

“Nada disso, não podemos fazer uma afirmação dessas, caso ele saiba poderá até nos processar.”

Minhas palavras pareceram assustar a candidata.

“Vou tentar mesmo assim, quem sabe consigo”, insistiu.

Na semana seguinte a mulher voltou a conversar sobre aquele meu estagiário.

“Saí com ele, quero dizer, saímos.”

“Saímos?”, indaguei curiosa.

“Isso mesmo, eu, Dora e Silvana.”

“Então foram apenas a um bar, uma happy hour.”

“Nada disso”, ela retomou, “fomos a um hotel.”

“Um hotel?”, surpresa na minha voz e acho que no meu rosto.

“Isso mesmo, ele aceitou, você precisava ver, nós três nuas agarradas ao homem.”

“Mas, isso é uma vergonha, o que ele vai pensar de vocês, da nossa empresa?”

“Nada disso, o homem é cabeça feita, um ótimo amante, e uma coisa é trabalho, outra sexo.”

“Mas três mulheres com um homem, não é normal”, afirmei.

“Mara, o que é normal hoje em dia, sobretudo aqui na nossa empresa?”, ela terminou e se foi.

Fiquei pensando no sobretudo que ela pronunciou.

Por que você está tão calada?, perguntou meu amigo, acho que eu ficara hipnotizada com a lembrança. Nada, com essa sugestão sua, lembrei uma história de alguns anos atrás. De tanto insistir, contei a história. Sabe que já aconteceu comigo?, veio ele com o contraponto, sério, foi numa escola, eu tentava ser professor, também era estagiário, e no ensino médio; o professor me apresentou à turma, com toda a seriedade, este é o nosso estagiário, vai ajudar a tirar as dúvidas de vocês e vez ou outra vai dar algumas aulas; fomos assim por um semestre; perto do final do estágio, duas delas me convidaram para uma festa; aceitei, mas não era bem uma festa, havia cinco ou seis delas que queriam trepar comigo, sério, cinco ou seis, fizeram até fila, apenas pedi que eu trepasse sozinho com cada uma enquanto as outras esperariam do lado de fora do quarto, mas fiz uma exigência inusitada, que me deixava excitado e capaz de me dar fôlego para transar com todas; que ficassem nuas, em fila, na porta do quarto; quando saísse uma, a seguinte deveria entrar, e eu precisava ver todas nuas e em fila, repeti; elas se mostraram obedientes, assim como eram na escola, e tudo terminou muito bem; uma boa lembrança que não esqueço. Como você quer então transar comigo por mensagens de celular, algo tão comportado diante de uma história dessas?, eu estava curiosa. Ora, essa experiência, a de trepar por mensagens de celular, eu nunca tive; ah, outra coisa, você tem de dizer que está inteiramente nua, seu único artefato será o telefone, ok?

domingo, novembro 03, 2019

Você dá pra todo mundo

Ele fala que eu dou pra todo mundo, mas não é verdade. De um tempo pra cá ando mais levada, ardida, é verdade, mas sei me segurar. O problema é que o tempo passa rápido e a gente quer aproveitar o que há de melhor. Outro dia mudou um homem pra aqui perto de casa, fica me olhando com cara de convite, sorrisinho sonso, olhos embotados na minha bunda. Ainda não me aproximei, mas já sei o que vou fazer. Certa vez namorei um vizinho. Não sei se foi boa coisa, o homem grudou, queria me comer dia sim e o outro também. No começo, foi bom, mas com o passar do tempo não dava, não sei viver com um homem o tempo todo no meu pé. Para me livrar dele, arranjei um coroa duas ruas adiante, um velho sempre a me cantar, a querer mesmo pagar pra trepar comigo. Era ótima a trepada com o tal vizinho, com o coroa um pouco menos, embora cheio de romantismos. O vizinho descobriu e se afastou. O coroa me adora, até hoje me engambela, basta eu aparecer por lá. Foi ele que, muito delicadamente, disse por outras palavras você dá pra todo mundo, isso não é bom. Volto ao homem que mudou pra aqui ao lado. Tem corpão, um metro e noventa. E eu com apenas um sessenta. Será que morde? Deu uma piscadinha hoje quando atravessei a rua. Esses homens são bons para descobrir meus segredos De repente numa conversa de bar alguém pronuncia Lucinda. Pra quem mora por perto sou mesmo Lucinda, meu nome de identidade, mas pra lá depois do bairro, pelas bandas de Cavaleiros, sou Nete, a fabulosa. Alguém me chamou assim após tirar meu biquíni. Homens verdadeiros não ficam por aí comentando com quem treparam, vai que amanhã me encontram de novo e querem mais uma. Se silenciosos, aceito. Não sei, não é bom dar pra todo mundo! Lógico que crio pequena dificuldade, vou ter de sair, minha tia tá doente, deixa pra logo mais, quem sabe. Eles esperam. Eu volto e zapt, a mordida no lugar certo. O novo vizinho me viu atravessar de camisão. Adoro uma camisa comprida, dessas que descem até acima dos joelhos. Os homens ficam na dúvida, não sabem se vestido ou camisa, pensam que esqueci o restante da roupa, querem me descobrir nua através do tecido. Alguns conseguem. Tracei o plano pra conquistar o tal vizinho. Fica pra sábado a tentativa. Convidá-lo pra subir, não vai ter graça. Comprei um vestidinho rosa, com um cintinho branco, sandália também branca meio salto. A tal roupinha, justa na cintura, depois cai soltinha, o cinto mostrando meu talhe estreito, tecido quase transparente. Experimentei várias vezes, desfilei dentro do quarto, na sala. Lembrei uma amiga que adora desfilar com as roupas novas, pede a minha opinião, tudo bem justinho ao corpo, um tesão a mulher, pode trepar com quem quiser. Depois tira a roupa e desfila nua, fazendo pose, outro dia me passou o celular pra eu lhe tirar umas fotos. O novo vizinho tem um carrão, acho que ainda não tirei a roupa dentro de um carro daqueles. Vou passar ao lado dele, dar um sorrisinho. Ele vai adivinhar, deve estar toda meladinha. Quem sabe passo antes na casa do coroa, o homem me dá tanto dos presentes que merece me ver de vestidinho novo. Tenho andado tão cheia de tesão, que tal uma esquentadinha. Ele vai pensar Lucinda antes de dar pra todo mundo passa aqui primeiro. E vai sorrir.

domingo, outubro 20, 2019

A gente nem sempre consegue

Estava doidinha pra trepar, era quase meia-noite. Às vezes desconfio dos namorados, quem sabe colocaram alguma coisa na minha bebida, dessas poções afrodisíacas que dão vontade de tirar a roupa antes de chegar à casa. Como estávamos na Tijuca, convidei-o à casa de minhas filhas, onde eu me hospedava durante alguns dias. Tratava-se de um vasto apartamento, um andar inteiro. Quando chegamos havia muita gente, parecia uma festa. A mais velha me beijou e contou que estavam com uma porção de amigos e amigas, logo sairiam a um encontro no Grajaú. Sorri, mas disfarcei, não podia demonstrar que ficara alegre porque eu e o namorado teríamos o apartamento inteiro. Fiquem à vontade, acrescentou, voltariam apenas ao amanhecer. Conversamos, eu e o namorado, enquanto os últimos se despediam e foram saindo, sorridentes, plenos de desejo pela noite que se anunciava. Olhei meu homem e o beijei, também plena de desejo, queria era mesmo tirar a roupa todinha, nuazinha na sala de estar. Que tal uma taça de vinho?, sugeri. Eu mesma peguei duas taças e fui buscar a garrafa. Ele abriu e as encheu. Sentamos lado a lado e começamos a nos acariciar. Após alguns minutos fiquei apenas de calcinha, minhas roupas espalhadas sobre os estofados. Melhor irmos ao quarto, não?, sugeriu. Nada disso, venha atrás de mim. Andei pela sala, saleta, cozinha, área de serviços, quartos, a todos os lugres eu o puxava pelo braço e o beijava na boca. Quando entramos no meu quarto, mexi com os quadris, dei as costas pedindo que me tirasse a calcinha. Obedeceu, depois tirou a calça, seu pênis estava duro que só. Sentou na beira da cama, eu fiquei por cima, cavalgando. Como já estava molhada demais, foi fácil a penetração. Já pensou se ainda há alguém na casa?, sussurrou no meu ouvido. Não sei se para me assustar ou para dizer que eu também namorasse com o perigo. Lembrei minhas roupas espalhadas pela casa, não posso trepar sossegada, caso chegue alguém vai se surpreender com roupas de mulher esquecidas sobre o estofado da sala, até mesmo o sutiã! Mas continuei meus movimentos cadenciados, queria mesmo era o prazer. Enfia mais, vai, quero gozar, estou doidinha de vontade. Ele me tomou pelas pernas, me levantou e, devagar, queria prolongar seu gozo. Isso, vai, devagar, enfia esse peru duro dentro da minha boceta. Eu gemia, sempre quero bem fundo. O prazer era muito.

Foi então que lembrei, não sei bem o motivo, do verão em que tive um namorado no litoral paulista. Hospedávamos numa pousada, numa das ilhas, em São Vicente, à noite saímos e pegávamos emprestado um barco a remo, eu cismava de ir nua, amarrávamos o barco do outro lado, numa ilhota onde não habitava viva alma. Ele me comia. A trepada durava toda a eternidade, jamais experimentei trepadas tão longas.

Vamos trepar mais, sim, disse após o primeiro orgasmo, mas espere, interrompi o cavalgamento, tenho de juntar minhas roupas que ficaram na sala, nem sabemos se ainda há alguém no apartamento. Dei as costas, corri do quarto, nua, à cata das roupas. Quando acabo de juntar todas as peças e viro de frente dou com um homem de quase dois metros de altura, vestido com um blazer lindo. O tal me olhou interessado, interessado e desconfiado. Ah, que bom, quero dizer, que susto você me deu! Ele riu. Venha comigo, falei intempestiva. Nem sabia de onde o homem saíra e eu já o puxava pelo braço. Explico tudo, sei que me conhece, sou mãe da dona da casa. Tranquei o banheiro, eu e o homem dentro. Sentei na borda da banheira, uma perna para dentro outra para fora, olhei o homem vestido. Até ali ele não dissera palavra. Estou à espera, minha a voz. Pouco a pouco, refeito da surpresa, tirou a roupa. Quem seria? Alguém que desistira da festa, ou o namorado de alguma das moças? Arrepiei de susto ao pensar que poderia ser o homem de alguma de minhas filhas. Não, nada de pensamentos negativos. Quem sabe um segurança?, isso, o guardião do prédio, ou do apartamento. Os tempos são perigosos. Ao reparar o tamanho do pênis, segurei-o e trouxe imediatamente à boca. Alguns minutos de delírio, para nós dois. Não importa quem seja você, quero que meta este peru dentro de mim, o mais fundo possível. Troquei de lugar com ele. A senhora não está acompanhada?, ouvi-o dizer. Senhora? Não era hora para respostas. Ele sentou na borda da banheira e foi a minha vez de ir por cima. Controlava os movimentos, subia e descia numa cadência quase melódica. Depois de alguns minutos, alguém bateu à porta. Congelamo-nos. Você está bem, amor?, a voz do namorado, viera a minha procura. Estou ótima, espere lá no quarto, por favor, pedi e sorri para aquele que tinha o pênis dentro de mim. Continuamos, mais abrasados pelo risco. Eu queria gozar o máximo possível, prolongar o orgasmo que tivera momentos antes, com o namorado. Por favor, não goza dentro, não, deixe-me perder a cabeça sozinha. A senhora fala bonito (senhora, de novo), vou tentar cumprir o pedido, mas, a madame há de compreender, nem sempre a gente consegue.