quarta-feira, maio 25, 2016

Não pude deixar de rir

Franzi a testa. Não pude deixar de rir.

“Você é louco”, falei.

“Por quê?”, ele fez de conta que não entendia.

“Você vai me deixar assim, aqui?”

“Assim?, não estou entendendo”, ele queria que eu definisse o que era estar assim.

“De calcinha e sutiã.”

“Ah”, fez uma expressão de satisfação, “de calcinha e sutiã”, repetiu, “não foi você quem sugeriu?”

“Sugeri, mas para namorar com você, não sabia que te excita tanto deixar uma mulher pelada numa praia, de madrugada.”

“Não é só excitação”, ele disse e me abraçou, “achei que você queria experimentar.”

“Experimentar? O que posso experimentar a mais do que estar nua pra você num lugar público?”

“Já vi mulheres que desejaram experimentar uma sensação maior, trata-se de um tipo de desafio.”

“Pode explicar melhor?”

“Claro”, ele me puxou pra junto dele, beijou minha testa, depois continuou, “uma delas me pediu para sair nua do apartamento. Que eu fechasse a porta. Dias depois, escreveu a experiência.”

“Ela ficou nua do lado de fora?”

“Isso mesmo, nua e trancada do lado de fora. Após dois minutos, bateu pra eu abrir. Ela disse, então, que sentiu um calafrio de abandono.”

“Ela escreveu a experiência?”, fiquei curiosa.

“Isso mesmo. Se quiser, trago pra você ler. Mas ela romanceou, as coisas não saíram tão bem como esperava.”

“O que ela esperava?”

“Que eu abrisse logo a porta. Mas não foi o que eu fiz. Deixei a mulher de molho por um bom tempo. Por isso, naquela noite, ela ficou furiosa. Uma ou duas semanas depois, porém, quis ir nua de novo lá fora.”

“Não quero ficar nua durante nem mais um minuto, vamos embora, quero o meu vestido, por favor”, comecei a ficar nervosa. Puxei seu braço com a intenção de voltarmos ao carro.

“Vamos ficar mais um pouco", mostrou-se irredutível. "Você sabe que posso ir embora e deixar você nua.”

“Você não faria isso. Qual o motivo?”

“O motivo?”, repetiu, “não sei, talvez certo prazer.”

“Você sente prazer em me abandonar nua? Isso significa que você gosta de maltratar as mulheres, ou mesmo que não gosta do sexo feminino.”

“Quem sabe”, ele disse em voz baixa.

“Com quem fui me meter”, deixei escapar, “você é louco mesmo. Já saí com muitos homens, nenhum deles me fez passar por uma situação tão constrangedora.”

"Você está constrangida?, foi você que suspirou 'vou descer de calcinha e sutiã, é uma antiga fantasia, ficar nua na praia, de madrugada'.”

“Concordo que falei, mas não sabia que as coisas tomariam outra direção."

"As mulheres sempre querem manipular os homens. Quando a situação fica fora de controle, se tornam desesperadas."

"Você sabe que vou ter problemas caso você me abandone nua aqui. Logo vai chegar alguém. Pega minha roupa, vai, do contrário não quero saber mais de você.”

“Jura? As mulheres adoram correr perigo, e acabam sempre voltando.”

Que loucura! Refleti rápido e conclui que, para sair de modo favorável da tal situação, precisava representar. Sorri falsamente e disse:

"Ok, vamos combinar algo diferente", minha fisionomia passou a ser de deboche, mas por dentro estava morrendo de raiva, "não precisa ir buscar minha roupa." Soltei as alças e abaixei o sutiã,  meus seios se mostraram, virei o fecho pra frente e abri a presilha, "pega, vai, guarda também isso lá", entreguei a peça a ele. Como não esperava por isso, ficou com o sutiã nas mãos, meio envergonhado. "Vou dizer mais uma coisa, continuei, "digamos que não aconteceu comigo, mas com uma amiga. O namorado fez essa mesma brincadeira, deixou a mulher nua e se foi. Sabe o que aconteceu?" Ele continuou olhando, curioso, colocou as mãos pra trás, ainda segurando o sutiã. "Ela conheceu outro homem e foi com ele."

"Verdade?", arregalou os olhos.

"Verdade, e este era muito melhor!", dei minha última carta e aguardei sua reação.

"Espera um instantinho", ele disse, "vou até o carro guardar isto", mostrou meu sutiã e deu as costas.

Enquanto subia a faixa de areia, acompanhei-o sem que ele percebesse. Temia que ele fosse embora. Ao destravar o carro, abri a porta de trás ao mesmo tempo que ele abriu a da frente. Como estava escuro, não notou. Por instinto de sobrevivência, peguei meu vestido enquanto ele lançou a pequena peça sobre o banco do carona. Em seguida, fechou a porta. Tudo aconteceu muito rápido. Depois desceu à praia pra encontrar comigo. Quando chegou ao local onde estivéramos, olhou prum lado e pro outro. Me procurava.

"Ei, estou aqui", falei.

"Ah, pensei que alguém já tinha levado você", me abraçou e me beijou na boca. "Vamos passear um pouco", sugeriu, "Você acha que eu ia mesmo abandonar você nua aqui?"

Eu havia largado o vestido num ponto da areia um pouco acima, antes de ele me avistar. Não queria dar o braço a torcer. Ai, agora é que volto nua pra casa, cheguei a pensar; não faz mal, me animei a seguir, não vai ser a primeira vez. Como eu representava, não era Miriam que desfilava nua, de braço com o namorado, sobre as areias da praia. Mas, digamos, Sílvia. Que bom os muitos cursos de teatro! Franzi a testa. Não pude deixar de rir.

Para lidar com um maluco como esse namorado, só uma mulher como a Sílvia; Além de louca, era muito safada. Mais adiante tirou a calcinha e pediu que ele a guardasse no bolso. E, antes de nascer o sol, gozou duas vezes. Uma trepada de dar gosto.

terça-feira, maio 17, 2016

Nem vou espichar o vestidinho

Estou numa festa, sentadinha na sala, pernas cruzadas, vestido curtinho. Todo cuidado é pouco. Há pessoas conversando, umas riem, outras falam alto, vários assuntos alçam ao espaço, enredam-se. Ao meu lado uma mulher quase grita o sexo é ótimo, outra diz que os homens têm mais fogo do que as mulheres. Não chegam a um acordo. Os desejos são os mesmos, a da ponta alerta olha o preconceito. Nada falo, apenas sorrio discreta. Um garçom com as bebidas, de que o coquetel? Cereja. Delicioso. As mulheres não sabem sobre o meu desejo de sexo. Não adianta afirmarem que somos menos fogosas do que os homens porque o sexo deles é pra fora e o nosso pra dentro. Que absurdo! Os homens, tão poucos na festa, conto nos dedos, olham pra mim. Também, pudera, tão curto o vestidinho. As travestis, uma intervém, têm o maior dos fogos, o fogo dos homens e o das mulheres ao mesmo tempo. Uma gargalhada confortável, o arrepio. Um rapaz aproxima-se, junta-se a nós. Nossa conversa é indecente, acrescenta a terceira do sofá. A música convida, diz a dona da festa. Muita gente quer ver debaixo da minha roupa coladinha ao corpo, o tecido encolhendo, subindo, incluo na conta algumas das mulheres. Dançamos soltas, passos fingidos, movimentos medidos. O namorado quer a menina nua, não aqui nem agora, uma lembrança enquanto sinto as coxas bem arejadas, ele quer levá-la a passear sem peça alguma, ela vai sentada no banco do carona. A dona da festa vem dançar comigo, me toma pela cintura, desce um pouquinho uma das mãos. Já sei, quer saber se estou sem calcinha. Acho que se decepciona. Sabe a Karen, diz ao meu ouvido, olha pra ela, a saia fofa, também muito curta, é um tal de ir ao toalete, completa enquanto dá um passo atrás e faz que vai ao outro canto da sala. Lembra a Dina?, uma das moças vem junto a mim. Dina?, pergunto. Vai dizer que não lembra?, a travesti, afirma peremptória. Ah, finjo surpresa, o que houve? Vem à festa, diz. Que bom, afirmo fria. Dá ultima vez trouxe o namorado, um homão, sorriu, como se concentrasse nele todas as esperanças, ele adora a Dina de vestidinho como o teu, sabia?, ela insiste. Vai ver que compra na mesma loja, chego a dizer. É ousada, pra uma travesti, não sei como consegue, é outra que toda hora vai ao toalete, dá uma risadinha após a última palavra. Gira, continua a dançar, quase me toca com os seios. Reparo os bicos rijos. O garçom traz outro coquetel. Aceito. Sento no sofá, olho as amigas dançando. Duas também aceitam a bebida, vem pra junto de mim. Fogo?, ouço a voz de uma. Fogo, sim, mas nada de metáforas, fogo do isqueiro, ou de um palito de fósforo. Jura?, a primeira faz de conta que não acredita. Ouviu o que ela está dizendo? Não, quero dizer, ouvi fogo, será um incêndio?, brinco. Um incêndio monstruoso, repete a primeira, na verdade um novo método para o amor, ou velho método, não sei, dizem que as mulheres são frias, daí uma chama verdadeira pra aquecer. Ri. Finjo que entendo. Olha quem está chegando, uma aponta, a louca da Ângela. Por que louca?, quero saber. Ela mesma gosta de contar, diz a que está à minha direita, adora trepar em público. Levo o coquetel à boca e penso na Dina. Ela é que está certa, é travesti e tem o homem mais bonito, mais desejado de todas as mulheres, corresponde a todos os desejos dele. Uma fofoca, diz Ângela depois dos cumprimentos, na semana passada fui a uma festa na Teresa, adivinha quem estava lá?, a Dina, ela e o namorado, o vestido tão curtinho que quase pedi pra entrar no toalete com ela, qual o teu segredo?, eu quis perguntar. Todas as quatro mulheres, no cantinho da sala, ficam curiosas e arrepiadas! Uma diz será que a Dina topa a brincadeira? Qual brincadeira, responde a mais atirada. Vamos lhe pedir emprestada a calcinha! Peça também à Ângela, você vai se surpreender, de novo a mais atirada. Riso geral. Essas mulheres não tem outro assunto?, pergunto-me, será que ninguém lê um livro nesta roda?, ou frequenta alguma galeria de arte? Quem sabe... Rio. Posso eu criticá-las? Não vou ao toalete nem vou espichar o vestidinho.

quarta-feira, maio 11, 2016

Há jeito para todas as coisas

Minhas brincadeiras são bobinhas, inofensivas, causam, talvez, um pouco de nervosismo. Quando contei a ele, apenas riu. Um riso que revelava minha infantilidade. Sei que ele poderia ter dito como você pode gostar dessas coisas, ou talvez dissesse não são tão inofensivas, você coloca em risco a sua integridade. A voz dele soaria em tom sentencioso, demonstrando as certezas peculiares aos homens. O que eu poderia fazer, a partir daí, seria me afastar, e não mais me preocupar com o que ele pensava. A vida é perigosa para os mais cautelosos, eu ainda poderia rebater. Mas preferi continuar com minhas brincadeiras bobinhas, que me dão muito prazer.

A casa era grande e tinha um cão. Mas ele ficou logo meu amigo. Não sei o que fez me olhar como uma pessoa benevolente. Os cães acham certas pessoas benevolentes, alguém que pode lhe acariciar a cabeça, passar uma das mãos pelo seu pescoço e lhe oferecer algo novo. Foi o que aconteceu. No primeiro dia, veio me cheirar. Ficou nisso. Agradei a ele. Seu focinho úmido percorreu minhas pernas, abanou o rabo, o cão paralisado ante as minhas mãos. Passei a visitar a casa todos os dias, às vezes também à noite. O cão sempre atrás de mim, como se eu fosse sua redentora.

Adélia também gosta de algumas brincadeiras. Aliás, foi ela quem me despertou para o prazer que as brincadeiras podem proporcionar. Adélia gosta de ir à praia cedo. Chega com o nascer do sol. Corre pela beira, o mar a lhe molhar os pés. Sua bastante, depois mergulha na água fria. Diz que a sensação é maravilhosa, corre-lhe um arrepio, uma espécie de gozo. Certa vez correu nua e depois mergulhou. Em dobro, o prazer. Repetiu o exercício, repetiu o gozo. Certa vez um homem apareceu à praia, e Adélia nua dentro do mar. O que fazer? Esperar. Mas o homem teve mais paciência do que Adélia. Ela acabou indo com ele. Hoje está bom assim, ela falou, ficamos no olhar, e você até já me beliscou, vamos marcar um encontro para logo mais, tentava ela escapar. O homem concordou. Adélia então fugiu. Não veio mais nadar pela manhã. O que perdeu? O prazer. Há tantas outras praias, disse-lhe eu. Ela começou de novo, na ponta da praia.

A minha aventura, porém, não era na praia. Queria o homem bonito que morava à casa onde eu sempre rodeava. O cão atrás de mim. Eu podia entrar durante a madrugada, como ladra escorregadia. Mas nada queria roubar, ou melhor, talvez um coração, o coração de um homem jovial. Mas eu tinha medo de falar com ele. Teria sido melhor encontrá-lo e expor minhas intenções. Tudo tão simples. Mas a aventura me dava furor. Invadi a casa. Rodeei-a com o cão. Um cão imenso. Deitava com ele na grama do quintal. Meu homem dormia. Que tal subir, ir até ele? O homem poderia não gostar, eu temia. Para alguns tipos as mulheres são perigosas. Lembrei de novo minha amiga nua na praia querendo convencer o homem que ela tinha o direito de nadar nua, ele não poderia tê-la contra a vontade dela. Existe lei, sabia?, Adélia chegou a murmurar. Mas os homens querem saber lá de lei. Ou fazem as leis conforme sua vontade. Ela nada contou, mas é lógico que teve de dar pra ele. E eu que desejava dar, mas meu homem não vinha. Fiquei com o cão enquanto o aguardava. Venha logo, observe-me, cheguei a mandar uma mensagem por sob a porta de entrada, acho que não aguento por tanto tempo. Ele veio. Mas devagar. E trouxe o cão. Fingi que não o conhecia. O cão. Vamos à praia?, sugeriu. Por que não aqui?, tão aconchegante, suspirei. Gosto que minhas namoradas nadem nuas...

Você nada bem, por isso tem esse corpinho, alguns músculos apenas, mas um corpo muito bonito. E ele a me ver nadar. Eu tão longe. Desaparecia o namorado, sumia junto com o cão. Eu boba por ele, pedia pra guardar minhas roupas. Pudera. Fizemos o jogo durante uma semana.

Depois de tanto tempo, fui nadar sozinha. Na ponta da praia. Eu e o mar. Imito minha amiga Adélia?Madrugada ainda, o vermelho de um sol antes de subir o horizonte. Nada de homem, nadar apenas. A pele. Uma semana depois tento convencer o desconhecido a me deixar só, digo a ele que não tem o direito de deitar comigo. Sou virgem, asseguro, como último argumento. Ele não me olha surpreso. Dá-se um jeito, diz. Não espera minha réplica. Há jeito para todas as coisas, completa. Eu, pelada. O homem me puxando pelo braço.

terça-feira, maio 03, 2016

Recatada

Sempre fui uma mulher recatada, visto roupas que destacam o meu corpo, mas nada de saias ou vestidos muito curtos. Pernas de fora, apenas na praia, é o que sempre achei. Mas o meu namorado acabou me convencendo a usar roupas extravagantes.

Se encontro alguém?, pergunto preocupada.

Você faz de conta que é outra pessoa.

Outra pessoa?, assusto-me.


Passei a sair com penteados diferentes, ele me deu dois ou três pares de óculos, dois de lentes escuras. Alguns dias cheguei a cobrir a cabeça com lenços, ou mesmo com uma espécie de véu. Comecei a gostar da brincadeira.

Frequentamos os restaurantes de uma cidade vizinha. Tudo ia às mil maravilhas até que, de repente, avistei uma pessoa conhecida. Ela não me viu, ainda bem. Fiquei tão preocupada que não reparei com quem ela estava. Quem sabe alguém já me avistou e nada falou? Meu namoradinho, porém, se mostrava cada vez mais entusiasmado. A cada entusiasmo dele, minhas saias ou vestidos ficavam mais curtos.

Houve uma época em que pensei um modo de atrair os homens, não imaginava que a roupa produziria tanto frisson. Que ótimo, agora já sei, caso este namorado desapareça, já tenho um método, vou atrair o homem que eu desejar.

Certo domingo ao entardecer ele veio me buscar para mais um passeio.

Tenho uma surpresa, disse.

Tirou de uma sacola um presente. Abri o pacote.

Que camiseta linda!, adorei.

Não é camiseta, sussurrou.

Não? O que é, então?

Um vestidinho.


Gelei. Ele me quereria domingo a passeio com o vestidinho.

Vesti-o apenas para agradá-lo. Vim à sala e disse:

Caso saio assim, só de camiseta, todos os homens vão correr atrás de mim.


Não adiantou minhas ponderações. O namoradinho insistiu tanto, que saí de camiseta.

As pessoas vão pensar que você está de short por baixo, falou.

Veja se há alguém na rua, pedi.

Não tem ninguém na rua, pode vir.


Corri para o carro e entrei. Ele guiou para Rio das Ostras. Durante a viagem ligou o som e escutamos músicas que nos estimulavam. Ele passava a marcha e escorregava a mão direita sobre minhas coxas.

Paramos na Costa Azul. Ventava. Saímos do carro. Ele comprou duas garrafas de cerveja e me deu uma. Descemos à praia.

Ele me abraçou, me beijou e deslizou a mão por baixo da camiseta.

O que foi?, perguntei ao perceber que ele se estava surpreso.

A calcinha?

Ah, eu disse, falta a calcinha.

Por que não me pediu? Eu compraria pra você.

Não estou sem por falta de calcinhas em casa, imagina o motivo.

Ah, sim, que tolo, já imaginei.


Escurecia. Só nós dois na praia. Ele levantou minha camiseta até me deixar de peitos de fora, depois puxou e conseguiu tirá-la de mim. A seguir, arremessou-a no ar e deixou que o vento a levasse.

Não faz mal, afirmou, se desaparecer vou comprar mais três.

Mais três?, repeti. Ah, não esqueça das calcinhas!

terça-feira, abril 26, 2016

O que aconteceu depois?

No momento do amor, ele sussurrou no meu ouvido:

“Conta pra mim o que te excita, vai, diz o que te deixa com tesão, principalmente quando você está sozinha e deseja alguém.”

Continuei agarrada a ele, passava as unhas sobre suas costas.

“Quer saber mesmo?, olha que conto, você vai adorar.”

“Então, conta, adoro ouvir você contar sacanagem.”

“Mas você precisa dizer alguma coisa antes”, afirmei, “algo que eu possa continuar; falar assim direto é difícil pra mim.”

“Tudo bem, começo e você continua, ouça: você adora se disfarçar, vestir uma saia bem curta, ou um vestidinho colado ao corpo, sair à noite, ir a uma boate, fingir que é outra pessoa...”

“Outra pessoa, isso mesmo, fingir que sou outra pessoa, mas preciso de uma máscara, dessas de maquiagem, como a dos atores, coloco a máscara e vou; sabe que tenho uma carteira de identidade com outro nome, achei certa vez a carteira, uma mulher bonita, tão bonita, procurei por ela mas não encontrei, queria devolver o documento, achei uma pena entregar nos correios, coloquei um anúncio e não apareceu ninguém, fiquei com a carteira; às vezes tento ser esta mulher, já fingi três ou quatro vezes, saio à noite, sou Silvia, o nome dela, ando pela cidade, vou a festas, a algum baile, até criei um história, um passado pra Sílvia, quando nasceu, onde morou boa parte da vida, o que estudou e o que faz atualmente, ela é uma mulher adorável, tenho tudo escrito; ela usa a saia curtinha, é atirada, sabe, sai com um homem de primeira, não pensa nos perigos, aliás para ela perigos não existem; adorável Sílvia.”

O namorado estava muito excitado, um toque a mais gozava.

“Assim você não vai saber a história de Sílvia”, falei em seu ouvido “relaxe.”

Ele soltou meu tronco, afastou o rosto e sorriu.

“A boate era na verdade uma caixa, de tão pequena; havia uma sofá que corria pela lateral e acompanhava toda o perímetro da pequena sala; as pessoas, sentadas, namorados agarrados às namoradas, as saias curtas, malhas que subiam, encolhiam, as mulheres não conseguiam manter as coxas cobertas; no centro, as pessoas dançavam; parei num canto, esperei, não sei por que mas se podia fumar no local, acendi o cigarro; um casal levantou e foi dançar, juntou-se aos outros; sentei no local recém desocupado, traguei o cigarro e soltei a fumaça com a cabeça um pouco inclinada para cima; não demorou um homem apareceu ao meu lado, ofereceu tudo que se vendia ali; recusei, mas ele trouxe uma garrafinha de vodca, acabei aceitando; ficou juntinho a mim, num curto espaço de tempo já estava com um dos braços envolvendo meu pescoço, me puxou para junto dele e me beijou na boca; do homem emanava um perfume adorável, foi o que me vez gostar de ficar coladinha a ele, naqueles momentos não tentou nada além do beijo e de alguns apertos; preferimos ficar curtindo as músicas e namorando, vez ou outra bebericando, nada de muitas palavras; lá pelas tantas levantamos e fomos para o centro da sala, três ou quatro casais dançavam, as luzes misturavam nossas silhuetas, a fumaça nos envolvia, a bebida subia e o pilequinho adiantava o tesão; quando tudo acabou fui com ele, saímos da boate quatro ou quase cinco da manhã; me levou para um hotel; já imaginou, eu nada sabia do homem, ninguém entre meus amigos sabia onde eu estava, eu era Sílvia, mulher que nenhum de meus amigos conhecem, o que fazer caso o homem tentasse algo de mal contra mim?; não pensei mais nisso, pedi apenas para ir ao banheiro, tomei um banho e voltei para o quarto enrolada na toalha.”

“O que aconteceu depois?”, o namorado me agarrou de novo, me beijou, subiu sobre mim.

“Aconteceu o que vai acontecer agora; aliás, agora, você precisa tirar minha calcinha!”

quarta-feira, abril 20, 2016

Virgínia

Vi quando Virgínia atravessou a Galeria do Comércio. Tentei alcançá-la, cheguei a correr, quase tropecei, mas ela entrou pela Gonçalves Dias e desapareceu. Tenho certeza de que também me avistou, mas fingiu não me ver. O que nunca entendi foi o seu desaparecimento.

Estivéramos juntas no último verão e foi ela quem me fez o convite.

“Um ricaço está com um barco ancorado na Marina, quer duas mulheres com ele, você está interessada?”

“Você o conhece?”

“Não, mas a indicação é segura, não há perigo algum.”

“E o que precisamos fazer?”, perguntei antes de levar à boca a xícara de café. Estávamos no salão de chá do CCBB.

“Basta que confirmemos através do telefone; o convite é para estarmos lá por volta das dez da noite.”

“O que você acha, devemos ir?”

“Passar a noite num barco parece ser estimulante, não? E, além disso, o ambiente é suntuoso, teremos uma noite de beleza e prazer.”

O garçom se aproximou e deixou, diante de Virgínia, um bonito pedaço de torta de morango. Eu comia, de garfo e faca, um pão ciabata com mussarela de búfala e tomates secos.

“É para hoje o convite?”, perguntei.

“Amanhã.”

“O que devo vestir?”

“O que quiser; ao chegarmos lá, passaremos antes por uma espécie de vestiário; devemos usar as roupas que ele tiver escolhido.”

“Roupas de que tipo?”

“Não sei, mas devem ser roupas chiques. É um tipo de fantasia que ele tem: gosta de vestir as mulheres."

“E quem as despe?”, sorri eu mesma com a pergunta.

“Ele, também.”

“Ok, combinado.”

No dia seguinte fomos juntas. Peguei um táxi e apanhei Virgínia em Copacabana. Na entrada da Marina, identificamo-nos. De imediato, abriu-se o portão e o táxi nos levou até o local indicado pelo funcionário; este vestia uma espécie de farda azul com botões dourados, muito semelhantes daquelas que vestem os empregados dos hotéis internacionais. Ao sairmos do automóvel, uma recepcionista muito simpática recebeu-nos. Acompanhou-nos até um vestiário. Lá nos entregou roupas boas, muito bem cortadas e costuradas, na verdade roupas de desfile; e, como é comum a esse tipo de roupa, extravagantes, muito curtas e transparentes. Como estou habituada, não me senti desconfortável. Mas Virgínia não reagiu da mesma forma; falou: “Estou nua.”

“Nua, nada, quantas mulheres não gostariam de estar em nosso lugar?”

A recepcionista, que nos acompanhava em tudo, sorriu. Após dizer que estávamos lindas, levou-nos até a embarcação.

Entramos. O leve marulhar proporcionava graça especial. O barco acompanhava os ligeiros movimentos da preamar. Descrevê-lo, por mais preciosas as palavras, seria tentativa vã. Imaginem o que há de melhor arranjado e de mais alto requinte. A mulher deixou-nos. Fomos recebidas por um homem de farta cabeleira grisalha, avantajada para sua idade. Ele era forte, mas um pouco acima do peso; deveria estar por volta dos sessenta anos. Dirigiu-se a nós, apresentou-se educadíssimo.

Virgínia piscou-me os olhos. Entramos na cabine espaçosa. Uma música em inglês soava baixa, voz de mulher, parecia blues nova-iorquino.

“Como estão passando as maravilhosas senhoritas?”, foram as palavras dele.

Apenas sorrimos. Ah, o nome dele era Taylor.

Ofereceu-nos bebida apontando para um bar em que os copos de cristal ficavam encaixados em suportes. Garrafas de todas as bebidas se enfileiravam de modo harmonioso.

“Que tal champanhe para comemorar o gracioso momento?”

“Não é mal”, eu disse.

Abriu uma garrafa especial, segundo ele. Serviu-nos. Tilintamos as taças e bebericamos. Estava uma delícia.

Deslizou uma pequena plataforma que se transformou em mesa. Apareceram vários tipos de salgados. Também havia pastas e pequenos sanduíches. Fez um gesto para que experimentássemos.

Entabulamos conversa sobre os sete mares. Aliás, apenas ele entendia de mares. O máximo que eu e Virgínia podíamos fazer era esticar nossas aventuras litorâneas, enumerar as praias que frequentávamos e aquelas onde, muitas vezes, apenas a água do mar escondera nossa nudez.

Em certo momento, após descansar o copo com uísque sobre o encaixe da mesa – sim, agora ele bebia uísque, eu e minha amiga mantivemo-nos fiéis ao champanhe –, tomou Virgínia pelas mãos, levantou-a e fez que ela desfilasse num ligeiro rodopio, ainda segura por um ou dois dedos dele. Sem demora, soltou-lhe o vestido, que foi ao chão; ela ficou só de calcinha – bem pequena por sinal – mas manteve-se altiva e risonha, fazendo de conta que esperava por aquele gesto. Não houve demora para que chegasse a minha vez. Tomou-me pelas mãos e, em vez de girar-me, conduziu-me até a pequena escada que levava ao passadiço; fez que eu a subisse. Do lado de fora, tirou minha roupa. Deixou que o vento a levasse.

Namorou ambas, quase ao mesmo tempo. Jamais vi homem com tamanho vigor. A noite e a madrugada transcorreram maravilhosas.

Mas lá pela tantas houve um incidente. Virgínia atirou-se ao mar. Ele mergulhou ao perceber que ela não voltava. Veio à tona duas ou três vezes antes de encontrá-la. Quando a trouxe nos braços, gritou para mim:

“Me ajude a tirá-la de dentro d’água.”

Acho que o episódio excitou-o ainda mais. Amou, uma vez mais, cada uma de nós.

Partimos apenas ao amanhecer.

Ele em momento algum mencionou o incidente, e Virgínia também não tocou no assunto.

sexta-feira, abril 15, 2016

Esquentação

Outro dia eu contava a Miriam sobre a francesa com quem aprendi uma boa maneira de esquentar o relacionamento amoroso. O segredo, segundo ela, é a gente arranjar outro homem além do namorado, mas apenas pra conversar, ficar juntinho, passear, pedir uma carona, despertar o seu desejo, mas jamais praticar o principal, o sexo. Este deve ser deixado pra depois, pra hora do encontro principal, com o namorado. Miriam sorriu, acabou dizendo essas francesas são terríveis.

Continuei a falar sobre meus relacionamentos. Sempre quando marco com Jonas, tenho um amigo que me dá carona. Saímos do trabalho juntos e vamos ao estacionamento. Dentro do carro, antes de ele dar a partida, faço carinho num dos braços dele, me aproximo, faço de conta que vou deitar a cabeça no seu ombro, deixo que ele encoste as mãos em mim, mas quando a coisa começa a esquentar me afasto. É muito engraçado. Ele dá a partida e dirige pelas ruas da zona sul. Às vezes coloco uma das mãos sobre sua coxa direita, outras vezes deixo que ele passe a mão, de leve, sobre as minhas pernas. Ao saltar, beijou-o com algum calor. Dali corro para os braços do Jonas, quentinha, ardendo pelo sexo dele.

A francesa tinha um namorado com quem vivia agarrada. Mas antes, era mais atirada do que eu, levava o amigo pra casa, queria que ele a esquentasse antes do namorado chegar, lógico que nada comentava sobre isso, fazia-se de inocente. Houve um dia em que entraram no apartamento e ela pediu licença para ir trocar de roupa. Voltou com uma camisola transparente, falou a ele assim: “você é quase meu irmão, não faz mal me ver nua, não é mesmo?” E sentou do lado dele. Ficaram uma hora e meia tocando um no outro, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Ela conversava, um assunto emendava noutro e as mãos tocavam braços, pernas, coxas, até que... Nada disso, o marido abriu a porta e entrou, beijou a mulher, cumprimentou o amigo e sentou-se numa das poltronas. Ela levantou-se e se acomodou ao seu lado. O amigo, muito sem graça, disse que tinha um compromisso e se foi. A francesa dizia que gozava muito depois de tanto aquecimento.

Miriam parecia arrepiada, cada vez mais surpresa. Será que isso dá certo mesmo?, chegou a perguntar. Conversamos mais um pouco. Lá pelas seis da tarde ela se despediu e foi embora.

Suzana, você tem razão, você e tua amiga francesa, Miriam me falou tempos depois. Ela me beijou e sorriu. Disse que minha conversa ajudou muito. O namoro em que havia se metido estava fervendo. O namorado percebeu que ela andava muito com outro homem, pra todo lado o homem a acompanhava. Então, ela falou da francesa. Primeiro, ele ficou desconfiado, mas depois, ao perceber o ardor da mulher, não quis outra vida. Mas quem não entendeu foi o amigo. Não houve quem lhe tirasse o pensamento de que Miriam não queria nada além daquelas cenas de esquentação. Ela nada falou a ele sobre isso, queria que ele percebesse. Mas o homem não tinha a menor sensibilidade. Não é melhor você ter uma mulher nua ao teu lado do que não ter ninguém?, ela, num momento de irritação, lhe perguntou; amanhã eu posso não estar aqui, é melhor assim, completou. E ficou agarrada a ele, deixando o principal para o verdadeiro namorado. Eu quis saber se Miriam ficara nua ao lado do segundo. Não, fiquei com uma sainha que é uma coisa à toa; o homem passou a mão pelas minhas coxas, conseguiu ir mais longe do que nos dias anteriores; olha, assim não volto amanhã, disse eu, então ele sossegou. Você nunca soube de ninguém que acabou dando pro segundo?, ela me perguntou, de seu rosto emanava um ar de curiosidade.

Uma vez aconteceu, com uma amiga, confessei a ela, mas não foi bom, ela acabou a relação com o segundo, e ficou sem ninguém pra esquentar.

Que pena!, Miriam lamentou; tenho, então, que ser muito inteligente; sabe, Suzana, outro dia quase aconteceu, mas me recompus a tempo, foi por um triz, quase escorreguei, quero dizer, quase ele escorregou, já ia caindo lá dentro.

Ambas demos uma sonora gargalhada. Tudo depende de nós, querida, falei, basta pensar: o que vem depois será muito melhor.

terça-feira, abril 12, 2016

Vestido curtíssimo

Luiana tinha cabelos compridos porém maltratados, rosto suave mas sem nenhum atrativo. À primeira impressão, todos os moços achavam-na feia. Lu, como a família costumava chamá-la, vestia-se com retalhos de tecidos que o amante lhe trazia. A traída era costureira. Lu emendava aqueles pedaços de tecido com muito gosto. Era o que podia esperar daquela situação. Fazia saias e blusas para cobrir seu esculpido corpo. Corpo que Manoel, da cidade vizinha, aproveitava. Ninguém da família sabia deste romance. Com muitos irmãos homens, Luiana tomava o maior cuidado, pois não queria perder o que mais lhe fazia bem: o sexo. Seus irmãos pensavam ter uma irmã ingênua, pura e virgem, sempre falavam: "o cabra que fizer algum mal a mana terá que se ver com os nossos facões afiados". E Lu guardava seus encontros em segredo. Tinha um lugar secreto para se encontrar com o amante. Uma gruta na localidade vizinha. Ela falava para os pais, já velhos, que precisava visitar um abrigo muito longe dali. Adorava crianças, fazia de conta. Na verdade, Lu adorava era ensaiar pra fazer bebê, mas tomava as providências necessárias

Manoel era bom no assunto. Sabia que debaixo daquelas saias tinha uma vagina quente, espumando, à espera de prazeres. Eles se encontravam duas vezes por mês. Luiana, para despistar pais e irmãos, dizia que a coordenadora do abrigo lhe dava os retalhos para costurar também roupas de criança.

Luiana vivia costurando, mas não saía nenhuma roupa infantil. Ela costurava, além de sua roupa, colcha para forrar a relva ou uma pedra, em formato de coração, sobre a qual se deitava com Manoel.

Um dia Luiana estava tão estimulada, que deixou Manoel esfolado. Em casa, ele nem procurava a esposa, vinha esgotado do trabalho, dissimulava ele como desculpa.

A esposa costurava muito, e Manoel dizia vender os retalhos na capital. Ele conseguia dinheiro, mas o usava apostando nas casas de jogo das cidades próximas. Tinha sorte no jogo e, muito mais, no sexo.

Numa determinada tarde, Luiana surpreendeu Manoel, foi ao encontro dele com um vestido curtíssimo, que ela mesma costurou. Vestiu-o antes de entrar na gruta. Fizeram o sexo mais explosivo de todos aqueles encontros. No final, Manoel era o homem mais feliz do mundo. Mas seu coração não aguentou. Luiana saiu correndo deixando lá o corpo do amante. Estava tão assustada que se esqueceu de trocar o vestidinho pelo que costumava usar ao sair de casa.

A viúva jamais encontrou Manoel e pensa que ele está enterrado num mangue bem longe dali. Que foi morto por cobrar aos compradores de retalhos.

Luiana envelheceu com aquela história de amor no coração. Ficou solteira, porém não mais virgem. No seu interior, sentia-se feliz por ter conhecido Manoel e aproveitado o melhor da vida.

terça-feira, abril 05, 2016

Você gosta de ouvir sacanagem?

Eu estava no banheiro de um hotel. No quarto me esperava quem eu mais gosto. E era a primeira vez com ele.

Chegáramos havia uma hora. Durante um bom tempo apenas conversamos. A seguir, olhei o cardápio e pedi um pequeno lanche, que foi entregue após quinze minutos. Comi vagarosa. Ele não quis, almoçara, apenas bebeu um gole do meu suco. Quando acabei e me sentei na cama, senti suas mãos sobre meus ombros. Nada falei naquele momento, deixei que percorressem minhas costas, que me massageassem. Passaram-se alguns minutos. Pedi licença para ir ao banheiro.

Entrei, tranquei a porta, escovei os dentes; depois tirei a roupa e tomei um banho. A água morna me tranquilizou. Saí da ducha e enxuguei todo o corpo. Vesti a calcinha e o top, enrolei-me na toalha, abri a porta e voltei ao quarto.

Deitei na cama ao lado dele. Ele sorriu, me beijou timidamente e começou a me fazer carinho. Aproximou as mãos dos meus peitos e os percorreu com os dedos; apertou-os, cuidadoso, com as palmas das mãos. Pode tirar, falei. Dei as costas, ele soltou as presilhas liberando o sutiã. Meus seios saltaram. Ele os beijou. Soltou a toalha, presa à minha cintura. Fiquei apenas de calcinha. Desceu as mãos pela lateral dos meus seios, do meu abdômen e beliscou as alcinhas da pequena peça. Desceu a calcinha e ficou com ela nas mãos durante alguns segundos. Estava louca que ele deitasse sobre mim, não via a hora de tê-lo sobre meu corpo, de experimentá-lo. Ele largou a calcinha em algum ponto da cama e se achegou a mim. Pouco a pouco foi tirando a roupa. Ele ainda estava vestido! Há mulheres que morrem de vergonha quando estão nuas ao lado e um homem vestido. Mas não é o meu caso. Esperei que tirasse toda a roupa e que deitasse, primeiro ao meu lado, depois sobre mim. Mas não foi uma relação rápida, como marido e mulher. Fizemos várias posições, chupei o seu pênis, virei de costas, deixei que percorresse meu corpo com a língua. Depois sentei sobre ele, quis que me penetrasse. Mais alguns minutos, deitei. Ele veio sobre mim. Foi então que comecei a falar baixinho, no seu ouvido, você gosta de ouvir sacanagem?, vou contar uma porção de coisas. Ele disse sim, conte, adoro ouvir uma mulher dizer sacanagem. Soltei essa: estou ardendo, quer botar no meu cu, quer?, sei que você vai adorar botar no meu cu. Até aquele momento eram só palavras, eu achava que assim o excitava mais e mais. O homem, porém, veio, quero meter nele sim. Espera, eu disse, ainda quero contar mais. Comecei a falar tudo que sempre me vem à cabeça, tudo que todo homem gosta. Até disse que adoro gozar e engolir um pedaço de chocolate ao mesmo tempo, que trouxesse uma caixa de bombons na próxima vez, disse que ficava nua pra ele o tanto que quisesse, que me podia por de castigo, as mãos amarradas atrás da cadeira. Contei a ele que saí de casa nua num dia em que faltou energia, atravessei um campo enorme enquanto estava escuro, mas em determinado momento a luz acendeu, me vi em maus lençóis, quero dizer, sem lençol algum. Ele sorriu, ouviu tudo, tranquilo, me incentivou a contar ainda mais sacanagem. Eu, com minha lábia, desfiava histórias e mais histórias, tudo que gosto, tudo que sempre desejo que os homens façam comigo.

Quando esgotei o repertório, ele falou está ótimo, agora vire que vou enfiar no teu cu! Não dava mais pra eu dizer que tinha falado de brincadeira...

terça-feira, março 29, 2016

Vou te mostrar pra que serve uma mulher

“Cris, chega aqui que quero lhe pedir um favor.”

“Fala, Lena, o que foi?”

“Você tem uma calcinha pra me emprestar?”

“Uma calcinha, por quê?”

“Ah, Cris, depois te conto, você arranja uma calcinha pra mim?”

“Hum, deixa eu ver, já até imagino o que aconteceu, você com esse vestido coladinho ao corpo e com a fama de namoradeira que só, esses garotos, essa festa concorrida.”

“Vai, Cris, você arranja; se não, tenho de ir embora.”

“Vou procurar no armário de mamãe, no meu quarto vai dar na pinta, tá cheio de gente.”

“Tanto faz, Cris, o importante é você me ajudar.”

Ela se foi e eu fiquei esperando, no corredor que dava acesso à escada do segundo piso. Não via a hora de o Eduardo mostrar minha calcinha para os outros garotos.

Ainda bem, Cris voltou logo.

“Pegue, Lena, foi o que eu consegui.”

“Cris, tua mãe usa calcinhas menores do que a minha.”

“Pois é, o que vou fazer? Minha mãe também gosta de vestidinhos tubinhos, bastante curtos, e deve viver perdendo a calcinha por aí.”

Voltei para junto de alguns convidados. Mas, dessa vez, para a varanda.

Chegaram novas pessoas, dois rapazes e três moças. Elas também usavam roupas extravagantes, saias curtas, tops que mais pareciam uma faixa a cobrir os seios. Como eu já os conhecia, fiquei entre eles. Mas não demorou a surgir o Eduardo.

“Oi”, falou, “você por aqui?”

“Não gostei, Eduardo, não vou mais ficar com você, isso não é brincadeira que se faça.”

“Que brincadeira?”, ele fez de conta que não entendeu.

“Você e seus amigos não gostam de mulher, não sabem aproveitar as garotas, querem apenas disputar entre vocês quem rouba mais calcinhas. Outro dia a mãe do Marcos veio me perguntar se eu também deixava que os rapazes roubassem as minhas. ‘Por quê?’, perguntei a ela. ‘Porque o Gustavo sempre tem uma calcinha guardada na gaveta de roupas dele. Diz que é da namorada’, disse ela com um sorrisinho de escárnio.”

“Vou te dizer uma coisa, bem baixinho”, retomou Eduardo, “não é só você que ficou sem, há três outras meninas na mesma situação.”

“Três outras?”, fiz cara de surpresa.

“Isso mesmo, três, e não duvido que daqui a pouco vai ter quatro ou cinco. Todas como você, todas sem.”

“Quem disse que estou sem?”

“Você agora traz calcinha reserva?”, perguntou com os olhos bem abertos.

“Quem sabe”, dissimulei.

Eduardo pediu licença, chegou a Sheila, também de vestido curtinho.

Fiquei na festa, até aceitei dançar. Os garotos olhavam para mim, para Sheila, para Jéssica, para Carla, não afastavam os olhos nem por um minuto. Num determinado momento, passaram também a assediar a Cris, a dona da festa. Notei nela um sorrisinho irônico.

Algum tempo depois, Eduardo me pegou pelo braço e disse:

“Vem cá rápido, por favor, quero falar com você.”

“O que é dessa vez?”

“Quero devolver tua calcinha?”

“Não precisa, pode ficar, guarde de lembrança.”

“Não, não, quero devolver.”

Sem que eu pudesse reagir ele tirou minha calcinha de um dos bolsos e a colocou na minha mão. Durante alguns segundos fiquei segurando aquele pedacinho de pano vermelho. De repente, virei de costas, e enfiei a calcinha dentro do top, fazendo-a desaparecer como num toque de mágica.

Lá pelas tantas, vi a mãe de Cris. Os garotos também olhavam pra ela com uma intensidade que me causou desconfiança.

“Lena, a Cris está te procurando”, disse Marta.

“Ah, ainda bem que eu te encontrei Lena”, disse Cris, “você precisa me devolver a calcinha, por favor, caso contrário vou ter problemas.”

“O que aconteceu, Cris?”, fiz de conta que não entendi o motivo daquele desespero.

“Sabe como é a minha mãe”, ela ficou com o Gustavo, nos fundos da casa, perto da piscina. Imagina o que aconteceu?”

“Ela também?, Cris.”

“Ela é humana, como qualquer uma de nós. Já teve até um namorado da nossa idade. E foi um namoro sério. Vamos ao banheiro e me devolva, por favor, na gaveta em que eu a peguei tinha apenas essa, que eu te emprestei. Acho que ela não vai querer ficar sem durante toda a festa, vai acabar procurando pela única calcinha que estava na gaveta.”

“Tudo bem, devolvo, mas você pode me dizer algum lugar dessa casa onde eu possa ficar sozinha?”, minha perguntou revelou toa minha ansiedade

“O sótão, ninguém vai lá?”

“Obrigada, mas não fale a ninguém, por favor.”

Fomos ao banheiro. Tirei a calcinha e lhe entreguei. Quando saía do banheiro, encontrei o Eduardo.

“Eduardo, me siga, quero falar uma coisa com você.”

Ele não pensou duas vezes. Entramos os dois no sótão. Tranquei a porta.

“Tire minha roupa, vai, quero trepar. Esse negócio de roubar calcinha não me satisfaz.”

Ele arregalou os olhos como se dissesse é pra já!

“Vou te ensinar pra que serve uma mulher”, soprei no ouvido dele.

quarta-feira, março 23, 2016

Levada

“Olá, tudo bem? Que saudades. Quero encontrar você, dar uma mordidinha. Está assustada com a proposta? Ou com a palavra? Talvez esteja surpresa. Ninguém nunca falou assim? Você sabe o que significa dar (ou levar) uma mordidinha. Deve estar arrepiada, você sempre se desmancha quando envio uma mensagem ou quando ligo, pensa que não sei? Lembra quando nos encontramos ao acaso, naquela tarde de outubro? Estava magra, corpo mignon. Estou fazendo dieta, escutei sua voz, disse que se tratava de um probleminha de saúde. Agora sei que já está bem, não sofre de mal algum, e seu desejo, seu tesão, sempre foi grande, então lembrei a mordidinha. Você vai gostar, tenho certeza, e não será a primeira vez. Uma mulher muito levada, é assim que sempre imagino você. Mas também, pudera. Você lembra, ficou nua na praia, dentro d’água, deixou que eu levasse seu biquíni. Depois voltei para namorarmos, banhados pelas águas do mar. Não se preocupe, eu disse, caso apareça alguém estamos abraçados, você está vestida na frente pelo meu corpo e atrás pelas minhas mãos. Você riu, adorou a brincadeira, nem pensou que poderia ter de sair pelada de dentro d’água. No final, uma pizza. Assanhada, comendo a pizza e o biquíni dentro da bolsa. Agora convido de novo, que tal?, quero dar uma mordidinha, vai ser tão gostoso, garanto que vai gozar muito, muito mesmo, impossível representar com palavra. Num primeiro momento, as mulheres recusam, mas não demoram a deixar que lhes roubem a saia. Vamos fazer assim, você vem à minha cidade, não precisa se preocupar, não haverá custos, tudo por minha conta, e ainda vai ganhar um presente e tanto. No nosso último encontro, você falou sobre seu casamento. Eis as palavras: não temos nada, apenas amizade; além disso, ele fica na casa da serra e eu na da cidade, ele não consegue viver em M., de modo algum, eu é que vou à serra de quinze em quinze dias encontrar com ele, mas apenas para nos vermos e conversarmos um pouquinho; sexo, nem pensar. Portanto, disse eu, nada de consciência pesada, isso não é casamento, e se não é casamento, não há traição. Você riu, me deu razão. Espero você. Sei que está doidinha. Vou te sacudir e vais te renovar, por dentro e por fora. Não há o que o gozo não cure. Às vezes, desconfio, do jeito que você é levada, e como faz muito calor, quem sabe vai a Cavaleiros e lá, dentro do mar, uma mãozinha que sempre paquera você rouba o teu biquíni. E você a sorrir, a gostar, a namorar... Será?”

Que e-mail comprido. Ele a me convidar, a querer me deixar nua!, a desconfiar de mim. Que arrepio. Ainda bem que ele não está vendo, morro de tesão, verdade. Quanto a outro, não sei. Bem que, um dia desses, vi um homem tão bonito, não pude controlar meus pensamentos (só os pensamentos?). Voltando ao autor do e-mail, o homem que me faz o convite. Assim que eu estiver na cidade dele e ele me tocar, vou virar os olhos, vai poder fazer comigo o que quiser. Estarei pro que der e vier. Lá ninguém me conhece, posso até sair nua do apartamento. Vou levar minha caixa de surpresas: um vestido curtinho, desses que ficam coladinhos ao corpo; duas calcinhas pequeninas, uns fiapinhos à toa, uma saia de baianinha, uma camiseta curta, e também um vestido de odalisca; um biquíni de praia (fio dental), mas nada de top, apenas a calcinha, pra fechar uma lingerie de corpo inteiro, como uma meia que desce do pescoço às pontas dos pés, pra passear depois da meia noite. Todas essas surpresas pra desfilar pra ele e com ele. Ai, tomara que esse dia chegue logo. Até que enfim vou poder gozar, e gozar muito! Nada de ficar só no conto, quero também o corpo... Às vezes penso, em vez de ir à cidade dele, posso chamá-lo para vir à minha, vamos então pra uma praia deserta e, depois, pra um hotel. Ele vai adorar. Que show!

terça-feira, março 15, 2016

Não mais voltaria nua pra casa

Você devia ter corrido de volta. A frase ressoava em minha mente. Uma amiga, tempos depois, me falaria a mesma coisa. Mas o problema era que eu sentia uma ponta de atração pelo homem, por isso não corri, por isso até mesmo fiquei. E, quem sabe, estaria naquela praia até hoje. Os dias eram tão longos no verão, eram entediantes, a única saída era a praia. Corria para lá e ouvia o murmúrio do mar, sentia na pele o vento, gostava do sol à tarde, depois das quatro e meia. Escolhia um pedaço de areia onde sabia que não seria incomodada. Pra lá do Pecado. Deitada então sobre a toalha, ou sobre as próprias roupas quando ia apenas com as do corpo. Me punha a voar. Isso mesmo, e como era bom o voo. Conseguia alçar sobre as areias, planar junto ao mar, respingos da maré às vezes me chegavam à pele. Como me arrepiava. Mas era um arrepio de prazer. Surgiu, porém, numa dessas tarde o homem. A princípio, ficou a distância. Logo percebi de quem se tratava. Já o vira outras vezes em algum ponto da cidade, ou na noite de sábado, não sei. Ele sentou junto a uma pedra, uma reentrância do mar. De onde estava não dava para saber se me olhava ou não. Talvez imerso nos próprios pensamentos, talvez esperando alguém. Eu preferia a solidão, não queria um ser que atrapalhasse meu prazer, que interrompesse minha comunhão com a natureza. O ser humano, no entanto, não existe sozinho. Precisa de alguém que o observe, que se admire dele. Foi o que começou a acontece comigo. A presença do homem despertou em mim algo que eu não sabia existir nem até então explicar. Ao caminhar para a beira d’água, pensei se me olhava ou não, se suspirava com a minha presença. Os dias foram passando e o homem no mesmo lugar. Eu imaginava se vinha nos dias em que eu não comparecia. Imaginava-o espreitando ao redor, tentando encontrar minha silhueta distante. Quando sentava sobre as areias brancas e já o reparava sobre a mesma pedra, respirava aliviada. Meu admirador não faltara. Mas nada permanece imutável. Sempre há o dia em que algo se move e o mundo fica fora do lugar. Deitei. Já não conseguia alçar voo nem planar sobre a maré, o pensamento do homem a me olhar tirava minha concentração. Na verdade eu planava, mas era outro tipo de voo. Talvez eu deva procurar outra praia, um lugar mais retirado, cheguei a cogitar. Mas o corpo começava a me pesar. Ao passar as mãos sobre o ventre, sobre uma coxa, ou mesmo a abraçar-me contra o possível vento, percebia o desejo. Acho que ele conseguia, mesmo a certa distância, descobrir minhas ânsias. Um dia, não contava com isso, ele conseguiu me assustar. Estava deitada, numa dessas tentativas de me desligar do mundo. Notei uma sombra. Mas não contava que fosse ele, achava que eram minhas pálpebras ofuscadas pela luz do fim da tarde, uma luz que às vezes encontra uma nuvem e muda de cor antes de chegar aos nossos olhos. Estava quase ao meu lado, o homem. Não me movi. Fiz que não o via, fiz como não existisse o invasor. Ele ficaria horas aguardando a minha reação. Eu tentava ignorá-lo, assim como tentei muitas vezes planar sobre as águas. Umas com sucesso, outras sem conseguir sair do chão. Mas ele espreitava. Ao abrir os olhos, ainda estava lá. Sua presença contrastava com o vazio das areias, o silêncio murmuroso da maré, e o grito longínquo de uma ave. Talvez fosse embora, talvez esperasse uma eternidade, não sei. Eu tinha paciência para saber o que aconteceria. Mas anoiteceu. Uma noite súbita, escura, como um eclipse. Eu não quis dar a entender que me assustava. A noite pesava sobre o meu corpo, o vento trazia rajadas de grãos de areia, chicotes finos sobre a pele. Você devia ter corrido de volta, meu pensamento de novo. Mas seria vergonhoso. Depois de tanta coragem, de aguardar o porvir, correr de volta? Qualquer ser humano tem seus momentos de fraqueza, ele entenderia, mas como você não correu, como deixou que a noite pesasse sobre seu corpo, ele percebeu o que deveria fazer, diria uma amiga muito tempo depois. Se conseguiste suportar o peso de uma noite súbita, conseguirias suportar o peso do seu corpo, entendeu como um convite, tanto mais ao perceber que tu estavas nua, ainda a voz da amiga. Mas uma incógnita persiste, eu deveria rebater, apresentar meu argumento, um enigma, eu replicava, ele não apenas subiu sobre o meu corpo, mas quis saber como eu fazia, entende?, o que me atraía tanto no lugar. É porque posso voar, falei simples e rápida, porque posso planar sobre a maré. Planas nua também de volta pra casa?, mostrou-se curioso. Ah, caso queiras o meu corpo, és teu, mas não me faças perguntas que não sei responder. Ele veio, então, mais uma vez. Você devia ter corrido de volta, minha amiga de novo, não é isso o amor, não é isso o sexo. No dia seguinte voltei ao mesmo lugar. Ele não apareceu. E também não voltou nos outros dias. Meus voos, dali em diante, teriam de ser com o corpo pleno, com todo o peso que eu trazia e deslocava, teria de comprimir meu ventre e carregar minhas ânsias. A noite sobre os ombros. Ainda uma aflição. Não mais voltaria nua pra casa.

terça-feira, março 08, 2016

Um, dois, três, quatro, cinco

Não fique tão surpreso nem desconfiado. Você quer saber o que aconteceu? Então ouça. Coisas de namoro.

Nós estávamos esquentando um o outro, aquele esfrega esfrega inicial. Beijos, carícias, palpitações etc. Fui eu que dei a ideia, sabe. Sempre dizem que não é bom dar ideias. Mas me aventurei.

Você gosta de ouvir sacanagem?

Gosto, respondeu.

Falo no teu ouvido.

E derramei a imaginação. O homem foi ficando cada vez mais excitado, mais eufórico, chegou a me penetrar. Pelo vulto que a coisa tomou, a trepada acabava logo, e quem ia ficar no prejuízo era eu. Aliás, as mulheres sempre ficam no prejuízo.

Por favor, pedi, espere um pouquinho, relaxe, vou massagear você.

Ele aquietou, deitou de bruços na cama. Comecei a deslizar minhas mãos sobre sua pele. Às vezes, apertava um pouquinho; em outras, percorria suas costas com um toque sútil, quase uma levitação.

Você é muito gostosa, ele disse voltando à euforia.

Aí dei a ideia.

Espera, falei, vou lá fora nua.

Lá fora?, ele retrucou, o que vai fazer nua lá fora?

Vou fazer de conta que chego pelada pra você; vai dizer que não quer?

Deve ser interessante, replicou, nunca pensei nisso, mas será que não tem perigo você nua lá fora?, não quero te perder pra outro.

Não, é rapidinho; saio, conto até cinco e volto, bato de leve, nada de estardalhaço; você abre, entro e faço de conta que não te conheço; no começo fico em silêncio, mas você quer saber quem sou e o que estou fazendo nua na tua porta; pronto, é o suficiente, conto a minha história; e olha que sei cada uma...

O homem estava transformado, explodindo de tesão.

Calma, por favor, não vá gozar enquanto vou lá fora, viu?, acrescentei.

Levantei, andei até a porta, abri suavemente e me lancei no corredor do prédio, sétimo andar. Eu mesma fechei a porta. Dessas que não abrem por fora.

Contei: um, dois, três, quatro, cinco, como combinado. Bati. Um silêncio de três da madrugada. Contei mais uma vez, um, dois, três, quatro, cinco. Três toques suaves com o nó do dedo médio. Silêncio. O apartamento parecia vazio, ninguém morava ali. O que vou fazer agora?, pensei. Respirei fundo. Esperei e contei novamente. Desta vez para me acalmar: um, dois, três, quatro, cinco. Bati novamente, jurei que era a última vez. O homem não abriu. Estufei o peito e disse:

Ah, não vai abrir, não tem problema.

Desci um andar. Portanto, bati no 602,  teu apartamento. Esta é a história! Me deixa entrar, vai, não é nenhuma armadilha não.

quarta-feira, março 02, 2016

Deixe as coisas acontecerem

Os óculos escuros? Foi você mesmo quem pediu, e as lentes combinam com a minha pele, são da mesma cor, reparou? Além disso, protegem os olhos e me mantêm anônima. Sei que em alguns momentos, sobretudo durante a noite, chamam a atenção. Por que uma mulher de óculos escuros a esta hora? Talvez pensem que sou cega ou, quem sabe, cantora de blues. As pessoas a me pedirem autógrafos. Caso você me queira sem os óculos, estarei nua. Você ri? Verdade. Vou chamar ainda mais atenção. Você diz que não estou nua, que uso o vestidinho. Mas é tão curto, colado ao corpo, uma coisinha à toa, é como andar nua. Lembro a primeira vez que me pediu para usar os tais óculos. Eu estava na praia, “este óculos vão ficar o máximo em você”, ofereceu; “não, obrigada, não estou interessada”, devolvi pensando que fosse um vendedor de óculos; “é de graça, experimente”, você, as mãos estendidas, os óculos abertos, pronto para o meu rosto. A amiga, ao meu lado, namoradeira que só, quase saltou sobre o teu pescoço. Mas era apenas pra mim que você os oferecia. Ela, a ver navios. Olhei pro mar e pensei, quem sabe toda essa água sirva pra apagar o fogo que ferve dentro dela. Você conversou comigo, depois me deu o número do telefone, permaneceu um bom tempo ao meu lado. Começou assim nosso chamego. Saímos duas ou três vezes, você a me pedir o vestido curtinho, coladinho ao corpo, e os óculos, sempre os óculos. Agora, quanto à foto, morro de vergonha, nunca posei pra ninguém do jeito que você deseja. Se eu não aceitar, você chama minha amiga? Olha que ela vem em um minuto, e vem quase pelada, nem precisa pedir, já até dirigiu nua por aí, à cata do namorado, acredita?, é louca, mas como se diverte. Ficou excitado? Não se pode contar nada das mulheres para os homens, eles não resistem. Não duvide, chamo sim, já sei o que vai acontecer. Ela vai tirar toda a roupa, a saia bem curtinha, vai fazer todas as poses que você quiser e mais as que ela inventar, depois, bem, depois você sabe a continuação da historinha. Posso fazer ainda o seguinte, fico escondida enquanto você a fotografa, surrupio então a roupinha dela. Mesmo tendo que voltar nua, ela nem vai se importar, o melhor será conquistar você. Sabe que isso já aconteceu? Não, claro que não foi com você, mas com outro, e não fui eu quem lhe furtou a roupinha. Ela mesma contou. Agora, quanto a mim, sou um pouco travada, pra ficar nua pruma foto, vai demorar. Posso cruzar as pernas, o vestido subindo, você faz a foto. Depois, daqui a umas semanas, quem sabe, poso pra tal foto que você deseja. Nuinha, apenas os óculos escuros. Vamos passear agora, você prometeu me ensinar a dirigir o seu lindo automóvel. E aceitei vir com o tal vestidinho. Depois a gente vai a um bar, e bebo uma caipirinha, que me deixa doidinha, você já percebeu aquele dia na praia. Não me peça nada agora, por favor, deixe as coisas acontecerem...

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Quebra galho

Na casa noturna da dona Efigênia havia muitas damas trabalhando. Todas de alto gabarito. Merillin era loira, cintura fina, pele suave, olhos castanhos claros e outras habilidades que agradavam aos homens que por ali passavam. Nilda, uma morena com corpo violão de chamar atenção dos clientes. Maura, baixinha, meio japonesa, com seios salientes. Débora, uma afrodescendente com cabelos tratados que mais pareciam miojos. Cíntia, bonequinha loira de olhos azuis. Todas à disposição dos fregueses. Numa sexta feira chuvosa, chegou do interior uma mocinha ingênua que fora tentar a sorte na cidade grande. Seus pais tinham muitas filhas e aquela que completasse 18 anos era posta ao relento para se virar e sustentar-se. Jaqueline tentou de início ser diarista, mas como era tempo de crise muitos já não podiam obter este luxo. Trabalhou numa lanchonete, mas o dono se engraçou com ela e ela foi embora. Dormia num corredor que havia entre o balcão e o banheiro.

Quando Jaqueline chegou, ficou de boca aberta. Nunca tinha visto tanto luxo, ficou até meio envergonhada com seu traje. Ela precisava de um banho de loja, cabeleireiros ao seu dispor, sapatos decentes, maquiagem e outros apetrechos de mulher para trabalhar naquele lugar. Foi logo ao encontro da dona Efigênia, que se mantinha o tempo todo num camarote de onde podia visualizar todo movimento do seu estabelecimento. Como ainda era muito cedo, atendeu a moça. Jaqueline não sabia em que serviço dona Efigênia poderia encaixá-la. Esta ficou horas tentando explicar o que aquelas moças bonitas faziam naquele lugar. Jaqueline era virgem e sempre sonhou encontrar um rapaz por quem se apaixonasse para se casar e aí, sim, fazer sexo. D. Efigênia resolveu investir em Jaqueline. Ela ficou linda. D. Efigênia prometeu que poderia ficar no bordel somente para acrescentar beleza àquele lugar. Caso aparecesse algum rapaz por quem ela se interessasse e que tocasse seu coração, deveria decidir-se se iria ou não aos finalmentes. Pediu que ela servisse as bebidas. O gay que trabalhava fazendo o serviço tinha pedido as contas, enrabichou-se por um dos clientes que também  gostavam daquela fruta e se arrumou na vida. As outras moças não viam Jaqueline com bons olhos, e a chamavam de Quebra Galho. Os clientes sempre pediam a dona Efigênia Jaqueline. Carne nova no lugar era festa para os homens que mais pareciam urubus. Dona Efigênia, porém, dizia: não, a moça trabalha no bar, não está disponível. As outras ficavam ainda mais intrigadas com aquela situação. Elas sempre como segunda opção.

Dona Efigênia sempre conversava com Jaqueline sobre casamentos. Dizia que as cerimônias mais lindas muitas vezes acabavam em tragédia. Contou muitos casos de casamentos fracassados, vividos por ex-funcionárias, e que sonho é muito bonito mas a realidade é outra. Jaqueline ouvia tudo e continuava a observar que os frequentadores dali eram sempre os mesmos. Um dia apareceu um rapaz que dava para perceber que nunca tinha ido a lugares como aquele. Falou com dona Efigênia que só queria se distrair um pouco. Parecia triste, talvez tivesse passado por alguma desilusão amorosa. Nos intervalos, ele se dirigiu à Jaqueline que, ao vê-lo, sentia o coração aos saltos. Manteve-se comportada, mas com vontade de contar à dona Efigênia o acontecido. Jeferson todos os dias ia à casa para conversar com Jaqueline. As outras moças não entendendo o comportamento do rapaz sempre comentavam: Olha a Quebra Galho! Jaqueline ficou tão apaixonada por Jeferson quanto ele por ela. Os olhos dos dois brilhavam quando se encontravam. Jaqueline contou a ele sua história e ele numa data especial a pediu em casamento.

A festa foi lá, e com dona Efigênia como madrinha. A primeira noite de Jaqueline lá no bordel foi de estremecer o prédio. Jeferson fez tudo com muita classe e Jaqueline se tornou uma mulher, uma mulher casada. No domingo de manhã, viajaram. Na volta, ela iria para casa do Jeferson e não mais para aquele puteiro de luxo.

terça-feira, fevereiro 16, 2016

Paisagem romântica

Fui ao Rio encontrar um namorado. Depois de alguns dias o convenci a vir comigo a BH. Moro no edifício JK, em Lourdes, um prédio desenhado por Oscar Niemeyer e construído quando JK governou Minas Gerais. Ao entrarmos no apartamento, o namorado se dirigiu à janela, quis admirar a paisagem, do 18º andar.

Que bonito, não imaginava que este lugar fosse tão atraente, ele disse.

Gostou?, sorri.

Ele se voltou a mim, me abraçou e me beijou, um longo beijo na boca.

É realmente uma paisagem romântica, acrescentou.

Nos agarramos e ficamos a namorar durante muito tempo.

À noite, antes de sairmos para beber e comer alguma coisa, ele me fez um pedido especial.

Você veste uma roupa que ressalte suas pernas, que valorize a sensualidade de seu corpo?

Claro, nem precisa pedir; além disso, vou fazer uma surpresa, falei.

Fiquei algum tempo no quarto e, de repente, apareci na sala. Vestia uma minissaia (bem pra lá de mini) e um top, na verdade uma faixa azul a me cobrir os seios.

Que beleza, suspirou satisfeito.

Como a temperatura tende a cair durante a noite, cobri-me com um meio-sobretudo. Ele me abraçou. Descemos, ganhamos a rua às dez da noite. Caminhamos em direção à praça que fica à direita da primeira transversal. Trata-se de um local muito arborizado, onde as pessoas aproveitam para ler o jornal pela manhã, mas à noite é deserto. Íamos pela calçada da direita quando cruzamos com dona Hemengarda, mulher alta, de traços duros, face que sempre transmite ar de reprovação. Sua aparência espelha condenação; para ela, aproveitar a vida é um pecado. Lancei-lhe um ligeiro boa noite. Ela, porém, não respondeu, olhou-me com os olhos bem abertos e fixos, como se enxergasse por baixo do meu casaco. O namorado nada comentou.

Seguimos e entramos à primeira rua à esquerda, avistamos um bar e paramos para beber alguma coisa.

Você não prefere procurar um lugar mais distante da sua casa?, perguntou com seu ar matreiro.

Por quê?, devolvi, vamos andar mais e ficar cansados mais cedo, aqui é um bom lugar e, depois, tenho a tal surpresa pra você!

Logo que sentamos, percebi o casal da terceira mesa adiante. Tratava-se de um homem com quem saí certa vez, e de sua namorada, que eu conhecia havia pouco. Lógico que à época a namorada dele era eu. Enquanto meu namorado entabulava uma conversa de elogio a viagens, ao contato com pessoas de outras cidades (elas enriquecem nossas vidas, dizia ele), eu observava o casal, tentava descobrir as palavras que saiam da boca do homem. Mas o barulho me impediu. O namoradinho continuava seu discurso no qual eu já não prestava atenção. Eu já sabia para onde iria o casal após deixar o bar. O homem gosta de aventura, e ela vai nas águas dele.

Ficamos ali por mais de uma hora. Bebemos duas caipirinhas cada. Quando decidimos andar um pouco, o tal homem e a mulher já haviam desaparecido. Antes de levantar, disse ao namorado:

Segure isto aqui, guarde no seu bolso?

O que é?, ele pareceu não entender.

A primeira parte da surpresa.

Surpresa?

Minha saia.

Subimos a rua Rio Grande do Sul em direção à praça Raul Soares. Estava escuro, o céu estrelado mas sem lua, a temperatura amena. O namorado me abraçou, roubou-me um beijo e disse:

Peladinha.

O quê?, fiz que não entendi.

Nua, ele confirmou.

Sorri. Tenho o casaco, redargui.

Não vai ser por muito tempo, completou.

Tenho agora a segunda parte da surpresa, mantive-me na dianteira.

Pegamos a Amazonas, que não tinha muito movimento àquela hora. Passava de meia-noite.

Chegamos à praça. Puxei-o pelo braço obrigando-o a seguir-me na travessia da avenida.

A praça é deserta esta hora, ele disse.

Por isso mesmo, repliquei, vamos a ela.

Procurei o lado onde a luz era menos intensa.

Sabe, continuei, sempre quis namorar aqui, mas nunca tive ninguém que me trouxesse, os namorados querem logo me levar pra cama, sorri.

Ele me abraçou de novo e me beijou na boca, sentamos num dos bancos. O namorado enfiou a mão por dentro do meu casaco.

Tira, tira, falei cheia de fogo.

Mas aqui?, perguntou preocupado.

É uma fantasia antiga, afirmei, não demora, vai.

Ele me puxou para trás de uma das árvores, do lado de dentro do jardim. Ali era possível ficarmos ocultos. Desabotoou meu casaco e o deixou num dos galhos. Pensei em me abaixar, mas não foi preciso. Eu ouvia os motores dos automóveis que trafegavam pela Amazonas, mas não era o risco de ser descoberta que mais me excitava. Eu estava de sandália, com a bolsa a tiracolo e de top, era tudo o que me restava. O namorado me abraçou forte, tirou o pênis pra fora e começou a enfiá-lo entre as minhas pernas.

Espera, espera, pedi entre gemidos, vamos devagar, primeiro tira também meu top, depois quero que você me leve pra andar um pouquinho pela praça, pedi.

Mas você está nua, alguém pode chegar, ele rebateu.

Não tem problema, moro nesta cidade e conheço a região, ninguém vai nos ver.

Você vai pegar um resfriado, ele acrescentou.

Não se você me abraçar com força.

Ele me obedeceu. Demos uma volta inteira na praça. Pouco a pouco eu ficava cada vez mais excitada. No ponto oposto onde havíamos deixado o casaco, peguei o namorado pelo braço e fiz que ele deitasse sobre mim num dos bancos. Foi uma trepada e tanto.

Quando acabamos, ele disse:

Vamos, namoramos mais uma vez no apartamento.

Mas ao chegarmos à arvore onde deixáramos meu meio-sobretudo, inesperada surpresa. Ele havia desaparecido. O namorado assustou-se.

Como vamos fazer agora?, perguntou.

Calma, sou eu que estou nua, disse a ele. Com os meus botões (aliás, não tinha botão algum), pensei, foi ele, o homem que estava na outra mesa com a namorada, ficou com raiva porque faço com outro o que costumava fazer com ele.

Você guardou meu top e minha saia, lembrei a ele.

Mas você continua pelada com essa roupinha, constatou.

Que outra solução você tem?, perguntei como se estivesse com raiva. Quer ir lá em casa buscar algo mais comprido pra eu vestir? Se aparecer um homem enquanto eu estiver sozinha, na certa me come, falei e fiz como se desse uma mordida.

Vocês, mulheres de BH, são loucas, bem que me disseram, já aconteceu de uma ir passar um final de semana no Rio e não ter roupa para voltar, acrescentou.

Será que não fui eu?, indaguei com o sorriso mais abeto do mundo. Vamos contar com a sorte, veja bem, duas luzes da avenida apagaram e na Rio Grande do Sul não há ninguém essa hora, vamos, venha.

Segurei o homem firme com a mão direita e corri com ele pro meu prédio. Na portaria, quem encontro. Dona Hemengarda. Mas dessa vez ela já não podia adivinhar minha nudez por baixo do meio-sobretudo.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Vinte e quatro horas em exposição

Você sabe, essas coisas são de arrepiar. Há quem diga que sou louca. Mas isso não é verdade. É consenso dizer que as mulheres gostam de se exibir. Se usamos pouca roupa, é porque gostamos de andar nuas. Não tenho nenhum problema quanto a isso. Ando nua e não sinto a menor vergonha. Quando tenho algum namorado que pede para me fotografar, faço logo a pose. Peço que tire uma boa foto. Se poso nua? O que você acha? Claro, e bem nua, em pelo, ou sem eles, sei lá. E acabo sempre deixando as fotos com eles. Uma amiga perguntou se não tenho medo de que um desses caras me chantageie. Não compreendo como um homem poderá me chantagear se meu estado natural é andar nua. Às vezes olho esses sites cheios de mulheres peladas só para ver se há alguma foto minha. Até hoje não encontrei. Quando estou deitada à noite, fico a pensar se algum ex-namorado está a olhar o meu rosto e, sobretudo, o meu corpo naquele momento.

Tenho uma amiga que diz: “eu morreria caso algum homem tivesse alguma foto minha nua, Já pensou, seria como estar pelada o tempo todo no meio de um monte de gente." Digo que não é nada disso, e que gosto cada vez mais de escapulir nua por aí. Ela ainda retruca: “Lúcia, você sabe que já fiquei nua num daqueles bailes de carnaval de antigamente, mas não aconteceu só comigo, tinha muitas outras mulheres junto. Os rapazes resolveram botar o mulheril todo nu, e até que foi engraçado. Mas tudo terminou de manhã, quando entrei em casa. Agora, ficar o tempo todo nua, vinte e quatro horas diárias em exposição, é de matar."

Contraponho: “Angélica, deixa os rapazes se divertirem. Eles adoram as mulheres nuas. Quando eles não as têm ao vivo, as possuem em fotos. E quem lá vai assegurar que sou eu a fotografada? Posso dizer que é montagem. Mas lógico que não vou desconversar. Adoro que me admirem. E cá entre nós, sou muito bonita...”

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Ainda bem que existe a Margarida

"Você gosta de sair sozinha à noite, vai vestida, recatada, todos os acessórios, mas ao chegar a C., entra no Shopping e, num dos toaletes começa a se preparar. A saia comprida, bem enrolada, é colocada na bolsa, a blusa transforma-se num vestido curto, justo e colado ao corpo. A seguir, a maquiagem na textura exata, um pouco de exagero apenas no batom. Para não chamar a atenção, coloca uma manta, que disfarça a falta de pano do vestidinho. Enfim, você sai à caça."

O trecho acima ouvi de um namorado. Como descobriu?, pensei assustadíssima. Teria de mudar meus planos, meu segredo ia quase água a baixo. Mas suas palavras foram ditas na hora do amor, naquele momento de paroxismo, em que perdemos a cabeça. Dois ou três dias depois, ao escapar para mais uma das minhas investidas noturnas, preocupei-me em observar se alguém me seguia. Mudei de condução, de ruas e avenidas, mas não percebi pessoa alguma no meu encalço. Suspirei aliviada. Minhas amigas vieram-me à cabeça. Apenas uma delas têm necessidade de escapar noite a dentro, escorregar por ruas escuras, correr certo perigo, procurar a aproximação de alguém do sexo masculino. Chama-se Margarida. Até hoje não descobri o que me leva a isso. Ela também não sabe explicar. O que diz é, assim como os homens, as mulheres também têm suas taras, acrescenta: acima de tudo, precisamos viver todo esse prazer.

Gosto, também, de uma boa conversa, de alguém que tenha lido um livro e que saiba falar sobre ele, alguém que entenda de filosofia, rico em ideias e em pensamentos. Parecem polos opostos, não?, de um lado o corpo, de outro o espírito. Sinto, no entanto, que se complementam. E como me arrepiam. O namorado, que pensei ter descoberto meu segredo, é de grande imaginação, às vezes quase chega ao cerne do meu modo de vida, daria um bom escritor. Será que penetra nos meus pensamentos? Certa vez sugeri a ele escrever um livro. Mas disse que o mundo prático lhe é mais importante.

Outro dia trouxe-me mais um presente, uma roupa nova, roupa mínima, que as pessoas chamam de macaquinho. Uma peça inteiriça, que termina como um short, deixando as pernas de fora. Vesti para ele. Ficou excitadíssimo, apenas o tal macaquinho sobre minha pele, lisa que só, e sua mão a deslizar sobre a lividez do meu corpo. Não demorou eu estava nua, a pequenina peça abandonada sobre o estofado da sala. Namoramos até duas da madrugada. Quando saiu, senti ligeiro arrepio, o macaquinho olhava para mim. Tomei-o nas mãos e o vesti. Fui ao espelho e admirei-me dentro do pouco pano. Joguei uma capa sobre o corpo e investi no que restava da madrugada. Não é preciso dizer que a capa, um tecido negro que cobria o macaquinho, deixava certa transparência. Aonde ir depois das duas, faltando pouco para o amanhecer? Entrei num táxi e pedi que me deixasse na porta do hotel mais chique da zona sul. O motorista olhou-me um tanto desconfiado. Na certa se trata de uma acompanhante de luxo, deve ter suspeitado. Não me molestou, deixou-me no local depois de vinte minutos. Na porta do hotel, o funcionário de plantão abriu a porta do táxi para eu sair. Cumprimentou e encaminhou-me ao hall, como se tudo estivesse combinado. Premeu o número 18 num dos elevadores e disse que alguém me esperava logo que a porta se abrisse. Há um engano, pensei, mas fiquei quieta, a situação me favorecia. Sempre preferi locais abertos, onde teoricamente tenho mais espaço de manobra, mas, num hotel famoso como aquele, achei que não me fariam mal.

Como avisara, um homem me esperava à porta do elevador. Tomou-me pela mão, sorriu e me conduziu ao um dos apartamentos. Uma mulher inteiramente nua abriu a porta. “Esta noite, mandaram duas, querem me agradar, uma espécie de cortesia”, o homem disse para ela, ainda sorrindo. A mulher nua despiu-me, levou meu macaquinho e minha capa para uma espécie de armário, ao fundo do quarto. Como não estou acostumada ao sexo coletivo, fiquei meio sem graça. Ela logo notou e perguntou você não é profissional? Nada respondi. O homem foi quem me deixou mais à vontade. Beijou-me um dos seios, abraçou-me e viu que eu fechava os olhos. Ela aproximou-se por trás e abraçou-me. Ficamos os três a sentir o volume de nossos corpos. Podem começar, ele ordenou. Ela virou-me devagar, abraçou-me de frente e deu os primeiros passos, uma espécie de dança. Acompanhei-a. Era um pouco mais baixa que eu, mas bastante hábil. Desceu uma das mãos pelas minhas costas e acariciou-me o bumbum. Depois me virou e pressionou-me por trás. O homem empunhou um pênis de borracha e sinalizou que eu abrisse as pernas. Assustei-me a princípio, mas tive de representar. Minhas pernas portaram-se obedientes, enquanto aos poucos ele o introduzia. Fez que eu agachasse e que minha companheira viesse por baixo. Agora, ela era o meu homem.

Não consigo precisar quanto tempo ficamos naquele jogo. Foram muitas as posições. O homem, sempre nos olhando, admirava nossa performance. Precisamos de muito preparo físico para satisfazermos seus caprichos. Apenas no final, veio trepar com uma de nós. A que sobrava devia acariciar qualquer parte do seu corpo, mesmo com a boca, com beijos e lambidas. Quando estava prestes a gozar, mudava de mulher. Após o prazer, adormeceu. A mulher, então, perguntou quem eu era. Você não é profissional, ela reparou. Como descobriu?, retruquei. Fácil, as amadoras trepam com paixão. Qual o problema de eu não ser profissional?, eu quis saber. O hotel não aceita amadoras, é melhor você ir, caso o chefe descubra aqui uma mulher fora do seu controle, tanto você quanto eu vamos ter problemas, vá embora, não demore. Quando acabou de falar, ouvimos duas pancadas fortes à porta. Minha companheira correu e foi abrir. Não deixou que eu escutasse a conversa. Do lado de fora, ainda nua, entabulou uma conversa rápida. Escutei apenas o rastro de uma voz masculina. Quando voltou, disse que jurou ao homem que no quarto só havia ela, e que nosso parceiro ia ficar bravo caso se sentisse incomodado. Vá embora, mesmo que nua, você corre perigo.  Nua?, assustei-me. Ela foi ao armário e jogou o macaquinho sobre o meu corpo. Vista lá fora, disse, pegue a bolsa e os sapatos, desça pelas escadas. Rápida, saí do apartamento. Vesti a pequena peça entre um andar e outro, ajeitei-me e consegui me ver na rua após descer 18 andares. Só então percebi que me faltava a capa de renda, que servira para disfarçar minhas pernas grossas, agora de fora. Ainda bem, um táxi.

O motorista, ao reparar minha nudez, me cantou o tempo todo. Disse que eu era linda, que nunca vira uma mulher tão assim... assim... charmosa, afirmou que eu não precisava pagar a corrida se o levasse ao meu apartamento. Preferi descer longe de casa, duas quadras. Ele me deixou, não sem demonstrar imensa insatisfação. Para contentá-lo, pedi seu cartão, afirmei que, numa outra hora, ligaria.

Corri para casa. Não encontrei conhecido algum na rua, ainda bem. Ao abrir a porta do apartamento, descobri o namorado que me presenteara com o macaquinho. Ele resolvera voltar e não me achara. Onde você estava?, perguntou preocupado. Na casa da Margarida, respondi. Franziu a testa como se não acreditasse. Ela estava em apuros e me telefonou, afirmei. Em apuros?, repetiu. É uma longa história, deixa eu descansar que depois conto, concluí. Tirei a roupa e deitei, ele veio mais uma vez sobre mim. Ainda bem que há a Margarida, pensei. Vez ou outra, eu contava a ele algumas aventuras de minha amiga.