quarta-feira, agosto 19, 2015

Wimereux

Estive numa praia no norte da França, Wimereux, na cidade de Boulogne-sur-Mer. Que lugar lindo! Apesar do verão europeu, a temperatura estava amena, acho que vinte e um graus. As pessoas divertiam-se. A praia tinha cabines sobre o calçadão, pertenciam aos moradores que vivem no local. Todos têm sua casa e, junto à praia, uma cabine para trocarem de roupa ou guardarem os apetrechos de praia. Aqueles que não moram ali, podem usar as cabines dos hotéis. As areias eram compridas, o mar distante, vez ou outra via-se alguma piscina natural entre a parte baixa da praia e a longínqua maré. As pessoas praticavam esportes, ou sentavam ao sol, conversavam, e havia aquelas que andavam de um lado a outro. Em algum momento, vi uma mulher de biquíni, mas usava um casaco. Engraçada a silhueta, o casaco a cobria até a cintura e, como prolongamento, o biquíni e as coxas nuas. Eu não podia perder aquele momento. Aluguei uma cabine num hotel próximo e troquei de roupa. Saí dali apenas de biquíni. Mas senti um pouquinho de frio, cheguei a cruzar os braços sob os seios. As pessoas, de início, não reparam nada demais em mim, mas percebi que, pouco a pouco, alguns homens levantavam os olhos quando cruzavam comigo. Desci à areia e me pus a caminhar à beira d’água, mas junto à primeira orla, porque a maré mesmo estava muito distante. Após andar uns quinhentos metros, ouvi duas jovens me chamarem.

Ei, venha até nós, fique com a gente; se você sente frio temos uma pequena barraca, pode descansar lá dentro, apontaram areia acima.

Eram duas francesas, e falavam como se eu fosse uma delas. Respondi que sim, ficaria com elas. Perguntaram de onde eu era. Disse que de Paris. Como estudo francês desde criança, consegui fazê-las acreditar. Eram estudantes, mas não moravam em Paris, apenas estudavam na capital.

Você usa um biquíni muito curto, onde comprou?, perguntou Céline, a mais loura.

Comprei em Roma, respondi.

Elas se entreolharam admiradas, chegaram a repetir:

Em Roma, e depois, tre joli, e sorriram.

Você gosta de namorar?, perguntou a outra, que disse chamar-se Ceci.

Gosto, respondi com um largo sorriso.

Virão alguns rapazes, quem sabe?, acrescentou.

Ficamos as três a olhar o mar. As duas não tinham a mesma sensualidade de nós, brasileiras, eram um pouco desajeitadas e brancas de dar dó.

Você é morena, Céline alisou-me a pele.

Uma delas apontou o outro lado do Canal da Mancha:

Veja, a Inglaterra.

Podia-se perceber ao longe a parte sul de uma grande ilha.

Fica a cinquenta quilômetros daqui, acrescentou.

Chegaram os rapazes. Elas os beijaram e fizeram as apresentações. Ele estavam viajando de férias, por toda a França, gostaram de me conhecer. Estabeleceu-se uma conversa vaga.

Eles tinham uma bola de futebol e ficaram jogando durante algum tempo. Nós, mulheres, observamos seus passes, embaixadas e cabeçadas. Depois, o mais alto segurou a bola e os três voltaram-se para nós. Pareciam não ter muito assunto. Um deles tirou o maço de cigarros, ofereceu-nos. Apenas eu aceitei, e tive muita dificuldade para acendê-lo, porque o vento era intenso.

Depois de um quarto de hora, Céline caminhou à barraca. Um dos rapazes a seguiu. A seguir, foi a vez de Ceci. O outro pôs-se a caminhar atrás dela. Sobrou um, que tinha de ser meu. Puxa, nem tive escolha. Mas não levantei, como fizeram as duas, permaneci onde estava, sentada sobre um pano, abraçada às próprias pernas. Ele então sentou ao meu lado e me abraçou. Pelo menos isso, não preciso tomar a iniciativa. Começou a me acariciar. Após um ou dois minutos estirei-me sobre a areia, ele ficou a me bordear o corpo. Que sorte, pensei, saio de minha casa, não conheço ninguém nesse lugar e agora estou nas mãos de um homem bonito e jovem. Ele aproximou-se e me beijou, um longo beijo na boca. Depois soltou o meu top. Continuei deitada, com os seios apontando ao céu, sorria e esperava por ele. Uma das moças veio correndo da barraca, enrolada numa toalha, percebia-se que ela já se despira do biquíni. Falou a mim, atabalhoada.

Venha com a gente, você não pode ficar nua aqui, o pessoal é muito conservador.

Fomos os três à barraca. Ela, à frente, com sua toalha desajeitada a lhe ocultar parte do corpo e eu de peito de fora, atrás dela, ao meu lado vinha o namorado. Foi uma tarde de muito amor. Já fazia tempo que eu não trepava cercada por outras pessoas que também trepavam. Mas foi muito divertido. Quando tudo terminou, a mais loura perguntou onde eu estava hospedada e quantos dias eu ficaria na praia. Respondi a ela.

Vamos buscar você, falou, enquanto estiver aqui vamos sair as três juntas.

Em algumas noites andamos pelas ruas internas de Wimereux, pudemos então apreciar as construções típicas do local, casas elegantes, centenárias, que se enfileiram, todas altas, com dois ou três andares, arcadas, floreiras, tudo muito peculiar. Ceci, a mais interessada na arquitetura do lugar, explicava as características de cada construção e até mesmo sabia a história de algumas casas. Contou sobre o tempo da ocupação nazista, quando os invasores intimaram os moradores a abandonarem o local em duas horas levando consigo o que pudessem, pois não permitiriam que retornassem. Enquanto durou a guerra, os oficiais alemães que ficaram naquela região residiram nas melhores casas. E não é preciso dizer que também as dilapidaram. A moça narrou também a história de uma antiga moradora que viveu a infância em uma delas: quando voltou, muito tempo depois, bateu à porta e pediu para entrar, queria rever os cômodos e o pátio onde vivera seus primeiros anos. Em uma das construções havia a inscrição “Esperanto”, esclareceu-nos que se trata de uma língua, em 1905 ocorreu na cidade o primeiro congresso mundial do idioma; na casa, alguns participantes do evento hospedaram-se. Quando saíamos à noite por aquelas ruas, sempre encontrávamos algum bar onde parávamos para bebermos um refresco, ou mesmo saborear algum coquetel.

Ficamos quinze dias naquela praia, namoramos muito. No dia de ir embora, Céline pediu meu biquíni de presente. Como estávamos na praia, soltei os laços e o entreguei a ela.

S'il vous plaît, vous ne pouvez pas être nue ici!

Rimos muito todas as três.

No dia seguinte, nos despedimos na estação de trens. Eu voltava a Paris; elas, à cidade de origem.

Há ainda um fato interessante, que me lembrei agora. Aconteceu numa das minhas primeiras noites em Wimereux, antes de conhecer as duas mulheres e os rapazes. Queria encontrar o caminho de volta ao meu hotel e não conseguia. Reparei que andava em círculos e acabava sempre numa mesma rua. Resolvi então bater à porta de uma casa e pedir ajuda. Um homem veio atender. Ele tinha uns trinta e poucos anos. Após me ouvir, disse que me levaria ao endereço descrito. Pediu, no entanto, que entrasse e esperasse um pouquinho. Ele fervia água para fazer café. Reparei sobre a mesa um exemplar de Austerlitz, de Sebald, em francês. O homem notou meu interesse pelo livro e perguntou se o havia lido. Disse que sim, e que gostara muito. Ele o estava lendo, afirmou que concordava com Sebald quando este demonstrava certo desgosto pela Bélgica. Sorri. Continuou falando enquanto terminava de fazer o café. “Foram as fortificações que fizeram Sebald virar as costas para o país, foram muitas as guerras, muitos infortúnios, elas transmitem certo ar lúgubre.” No final, trouxe a xícara e ofereceu-me. Bebemos o café em silêncio. Antes de me ensinar o caminho de volta, ele disse que dali a alguns dias precisaria ir à Bélgica, e confessou que o seu sentimento sobre o país era o mesmo de Sebald. Dei a ele o meu endereço de Paris e sugeri "concordo com você, o que importa é que Austerlitz é um grande livro. Quem sabe depois da Bélgica você possa ir a Paris, então conversaremos mais e ainda nos divertiremos." Ele moveu a cabeça como se aceitasse o convite e pousou o meu cartão ao lado do livro.

quarta-feira, agosto 12, 2015

Fogo

A moça respirava modesta, calma. Já esperava que tal surpresa não tardaria. Arriscava-se com frequência e, ultimamente, vinha até mesmo exagerando. Por isso teve tempo de pensar, de examinar suas possibilidades, e a respiração era o que havia de mais importante, seria ela que lhe daria o prumo, a altivez, um sorriso ainda que distante e frio, um nada de mais à nudez às duas da manhã junto ao portão de entrada da própria casa. O homem, na verdade, foi quem demonstrou maior surpresa, uma espécie de susto e êxtase; a princípio, nada conseguiu dizer. Ela sentiu que viria uma pergunta, talvez quisesse saber se ela precisava de ajuda. A resposta, já pronta, seria o silêncio. Ninguém pede ajuda em silêncio. Talvez o pior fosse o correr dos segundos e dos minutos, porque depois do torpor inicial, depois daquela espécie de breve congelamento, o tal sujeito, antes estupefato, perderia pouco a pouco a rigidez e começaria a pensar. Aí então a ponta do iceberg, isto é, do perigo. Não se deve temer as atitudes das pessoas tomadas pela surpresa, mas das pessoas quando pensam. E quando derretesse o cascalho de gelo que cobria o homem, ela já não teria domínio sobre os acontecimentos. Era necessário que tudo se resolvesse em frações de segundos, caso não fosse possível, em meio minuto, daí em diante estaria nas mãos dele. Uma pasta escura a lhe lambuzar o corpo. Não tinha nada pra dizer e sabia que não devia desculpas, pois nada fizera de mal que exigisse tal pedido. O homem, porém, era um homem, da espécie mais masculina, um macho como um cavalo ou mesmo um touro, e para essas espécies as palavras não servem. Talvez ele achasse que teve sorte, que algo caiu do céu a seu favor, era um bem aventurado. E isso tudo sem formulação alguma, nada de conceitos, apenas a pele como entendimento. Despejaria sua macheza assim como despeja as fezes ou a urina, assim como almoça e não precisa saber o nome do prato. Ela era uma estátua que esperava o movimento da casa, mas a casa era escura, quase inabitada e, quem sabe, ela poderia ser tomada por uma ladra que age sem deixar rastros, sem precisar de roupas que soltem fios de algodão e lhe revelem. Virou de frente, encarou o desconhecido. Ele chegou mais perto, cobriu a luz que vinha da rua com seu corpo imenso. A sombra dele subiu pelo ventre de Aparecida. O que houve, moça?, ele não falou mas ela podia ouvir, era o torpor que ainda o cobria. Não merecia resposta. Impávida, as mãos estendidas lateralmente e a expressão de que o nu era ele. Olhe sempre numa direção indefinida, assim nada será presente, ela lembrou um ensinamento básico. O que houve, moça?, repetia a voz inexistente. Ante o silêncio da casa, ante os ruídos longínquos da estrada, ela diria não estamos sós. A resposta o desarmaria por trinta segundos intermináveis, ela tinha certeza. O que tem estar ou não a sós?, ele desejaria saber. Ela moveria os ombros, como se dissesse nada, não tem nada. Você vem comigo, ele sugeriu numa meia ordem, estou lhe oferecendo ajuda. Tirou o paletó e o estendeu diante dela, ocultando a si o corpo da mulher. Mas ela meneou a cabeça em negativa, não precisava de paletós, assim como ele nada podia ofertar a ela, nenhuma ajuda, ninguém na verdade precisa de ajuda, ela chegou a dizer. Ele a empurrou em direção ao pequeno muro. Ela não teve como contrapor, apenas a parede gelada a lhe apalpar as nádegas. Aparecida não queria perder o carteado. Vamos, ligeiro, enquanto há sombra, ela acrescentou. Sempre há uma saída. O homem ocupou todo o espaço, não queria deixar a noite em aberto. E ela sabia dos riscos desde o começo, sabia também que a altivez era um modo de resistência, não podia recuar. Aparecida mostrou os olhos grandes pela primeira vez, encarou o homem com olhos enormes, assustou-o. Venha cá, não fuja, não sou louca. Ele tremeu ante a palavra louca, chegou a retroceder dois passos. Volte aqui, era ela agora quem ordenava. Ou você se abre ou se deixa queimar, tanto é o fogo, disse a si mesma. Reparou, então, que estava só.

quarta-feira, agosto 05, 2015

O melhor de todos

Outro dia, andava eu pela Av. Rio Branco quando ouvi uma voz de mulher às minhas costas: “não sei como essas garotas têm coragem de usar esse tipo de roupa, tão curta para andar pelo centro da cidade.” Depois de vinte segundos, olhei para trás e pude reparar que a mulher falara a um homem jovem. Ambos caminhavam juntos, e a garota do assunto deles era eu. Mal sabem que a garota aqui já beira os quarenta. Continuei o meu caminho e não mais os vi. Depois de atravessar a avenida, reparei que outro homem me olhava. Lembrei-me então de uma amiga de tempos atrás. Ela sempre me falava:

“Não consigo usar roupas tão curtas como você, me sinto nua."

Eu brincava:

"Roupas, que roupas?"

"Essas, como as tuas."

Eu então retrucava:

“No começo isso acontece, mas depois a gente acostuma.”

“Não sei”, ela de novo, “sempre acho arriscado roupa muito curta, quem sabe eu não encontre meu shortinho depois de fazer amor?”

Eu ria.

“Tereza, isso só vai acontecer se você quiser voltar nua pra casa. Nunca vi um short desaparecer.”

“Acontece, sim. Há homens que são tarados. São doidos por deixar a gente pelada.”

“O problema então é outro, Teresa”, continuei, “é preciso saber com quem você está saindo.”

“Mas você mesma diz que às vezes topa sair com um homem no momento que o conhece...”

“Verdade, mas faço isso muito raramente.”

Voltando ao meu passeio pelo centro, senti um frisson. Não sei por quê. Talvez pelas palavras da senhora, talvez pelo olhar dos homens. Fazer amor no primeiro encontro, quem sabe? Lembrei-me de outro fato.

Havia um hotel na Senador Dantas, nem sei se ainda existe. Certa vez fui lá com um namorado. Não se tratava de sexo no primeiro encontro, já estávamos junto fazia um ou dois meses. Ele tirou toda a minha roupa. Era verão, e eu usava também um shortinho. Na época, estava na moda a miniblusa. Eu, quase nua. Almoçamos no apartamento. Ainda ganhamos uma garrafinha de espumante. Acho que meio litro. Era dezembro, época de festas, de ofertas. Sei que a bebida me deixou num fogo... Transamos duas ou três vezes, e o meu fogo não abrandava.

“Estou em brasas”, repeti ao namorado.

“O que você deseja que eu faça?”

“Que comece de novo.”

“Ok”, falava ele e recomeçava.

Em determinado momento, alertou:

“Temos de ir embora, vai acabar o período e não tenho mais dinheiro.”

“Paga com o meu short”, sussurrei no seu ouvido.

“Será que eles aceitam?”, brincou.

“Não sei, mas podemos tentar.”

“E se não aceitarem?”, olhou para mim ansioso.

“Não vamos pensar nisso agora, vem, vem mais uma vez.”

Ele veio. E transamos de novo. Ainda bem que esse namorado tinha uma saúde e tanto.

Quando pedimos a conta, ele olhou pra mim e disse:

“E agora?”

Coloquei as mãos dentro do short e comecei a esticá-lo de um lado e de outro, fazia como se fosse descê-lo.

O namorado chegou a dizer:

“Não, por favor.”

“Não é nada disso”, sorri debochada.

Tirei então uma nota de cinquenta e coloquei na mão dele.

“É pra ajudar a pagar.”

Saímos do hotel e ele me levou pra casa.

Nos dias seguintes fui ao Centro, sozinha. Entrei numa livraria. Fiquei mais de uma hora olhando e folheando alguns livros. No final, percebi um paquera. Ele veio até onde eu estava. O que será que vai falar?, pensei.

Ele me pegou pelo braço:

“Vamos, você chegou cedo hoje.”

Fiz de conta que o conhecia. Saímos da livraria. Namoramos naquela mesma tarde. Nada falamos. Apenas gemidos de ambas as partes.

Foi o melhor de todos.

Você quer o meu shortinho?, pensei mas nada disse.

Ele entendeu.

quinta-feira, julho 30, 2015

Conto de carnaval

Eu era uma deusa consagrada pelas duas da tarde. Uma deusa de máscara.

Ele, surpreso, olhou para mim. Tentava entender o jogo.

“Nunca viu uma mulher de rosto coberto?”, minha voz soou distorcida através do pequeno orifício.

“Já, mas não de máscara e nua por inteiro.”

“Aí é que está a graça”, sorri para ele, que não podia adivinhar o meu sorriso.

“Você gosta de fantasia”, afirmou.

“Claro, não sou prostituta nem estou apaixonada.”

Percebi que minha resposta chegou a ele um tanto enigmática.


A brincadeira começou quando uma amiga pediu para tomar conta da pequena casa. Era por volta do mês de novembro. Toda vez que eu descia à cidade, verificava se tudo andava bem. Aproveitava para descansar, principalmente quando o dia estava quente. Como sempre gostei de me fantasiar, imaginei a tal brincadeira. Arranjaria vários namorados e os levaria àquela casa. Mas para que tudo desse certo, havia dois pontos: que não fossem homens violentos, e que não vissem o meu rosto. Assim, caso dessem comigo na rua não me reconheceriam nem sairiam comentando aos amigos. Contatei uma amiga. Perguntei se gostava de máscaras e de Carnaval.

“Adoro”, foi sua breve resposta.

Ela agenciaria os encontros para mim. Eles, assim, não conheceriam o meu rosto.

“E se um deles lhe arrancar a máscara?”, pareceu preocupada.

“Pode acontecer”, respondi, “mas é o risco que a gente corre para sentir prazer. Talvez isso faça o prazer maior.”

Saímos as duas a campo. Ela também queria experimentar.

“Ninguém pode saber”, adverti, caso contrário estaremos em maus lençóis; quero dizer, sem lençol algum; e nuas! Além disso, a casa não é minha, a proprietária confia em mim.”

“Por que não arranjamos namorado como duas pessoas normais?”

“Você consegue?”, repliquei. “Caso diga que sim, seja feliz.”

Minha amiga riu e entendeu.


Ela começou a andar lá pelos lados da rodoviária, sempre ao amanhecer. Sentava num banco e fingia esperar o ônibus. Quase sempre um homem se aproximava e vinha puxar conversa. Esperava também o seu ônibus. A conversa começava com alguns entraves. Ela não abriria logo o jogo. O primeiro trabalhava como mergulhador nas plataformas de petróleo. Ela se assustou.

“Nossa, que profissão perigosa!”

“Nem tanto”, ele retrucou. “É só o começo, depois não há o que temer.”

Contou também que vinha de longe. Ficava quinze dias no mar. Depois voltava para casa. Naquela manhã estava voltando. Deixou o telefone. Dali a quinze dias esperaria por ela.

Ela me trouxe o número dele.

“Quem sabe, talvez ele seja teu.”

“Como vou fazer?”

“Faça de conta que foi você que conversou com ele na rodoviária. E depois, há a máscara, ele não vai ver o teu rosto.”

“Certo, vou ligar então.”

Ele veio. Aproveitei. E muito. Não era tão dotado nem tão hábil, mas foi uma boa aventura. Além de me comer, chupou a minha buceta.

Minha amiga continuou suas ações. Como acordava cedo, andava pela rodoviária fingindo estar prestes a embarcar. Marcava com os homens. Eles vinham para mim, sem que percebessem o ardil. Depois do mergulhador, veio um operador de guindaste. E que guindaste o homem tinha. Gozei várias vezes. Depois dele, veio um domador de cavalos. Vixe, suspirei, vai que o homem queira me domar. Enganei-me. o homem sabia trepar. E que delicadeza.

Nessas idas e vindas de namorados, chegou o Carnaval.

Será que no carnaval eu precisaria de máscara? Fiz três fantasias. Uma odalisca, uma colombina e, por último, uma baianinha. Todas um amor. Pintei bem o rosto, modifiquei o cabelo e saí me misturando na folia. Não é preciso dizer que as sainhas de todas as fantasias eram minis. Os homens vinham atrás, me seguiam, me queriam abraçar. Mas polidamente eu desconversava. Meu negócio era dançar. Pela manhã, eu ia à praia. Para me enfeitar, arranjei uma rendinha, tipo um vestido de noiva, mas sem forro; por baixo, o biquíni. Toda vez que surgia um bloco na orla, eu acompanhava o ritmo. Num desses momentos de euforia, encontrei a amiga que arranjava os namorados.

“Oi”, ela falou, estava mascarada.

“Por que a máscara?”, perguntei.

“Porque é carnaval.”

“Mas você não tira?”

“Não quero ser reconhecida”, respondeu, “e, além disso, resolvi fazer como você.”

“Hoje, não faço não”, disse convicta, “quero dançar, quero o carnaval.”

Ela escapou em meio ao bloco, um homem a levou pelo braço.

À noite me vesti de baianinha. Entrei num enorme cordão, no centro da cidade. Duas horas depois corri para orla. Outro bloco. Batucada, samba, vozes a cantar, corpos a transpirar sensualidade.

No domingo, passei o dia vestida de odalisca. As pernas de fora. Homens querendo-me beliscar. Ai, nada de manchas vermelhas sobre a pele, eu fingia dizer. Lá pelas tantas, acho que passava das três da tarde, um jovem se pôs a me seguir. Como ele dançava bem, conhecia todos os passos. Eu era a estrela principal de uma escola de samba. Pelo menos era assim que eu me sentia. Houve até um turista americano que, de câmera na mão, não nos abandonou. À noite, enquanto tomava um refresco, ainda na orla da praia, encontrei minha amiga mascarada.

“Oi”, falou, “já aproveitei com três.”

“Aproveitou?”, fingi não entender.

“Fiz o que você faz mascarada durante o ano.”

Respondi “oh, parabéns”, enquanto ela escapava nos braços de dois negros fortes. Está dando tudo que não deu há anos, pensei.

Senti um toque nas costas. Era o jovem dançarino. Deslizamos de novo pela avenida principal. Um bloco se aproximava, com todos os tambores.

Na segunda, saí às duas da tarde, vestida de baianinha. A roupa branca, branquinha mesmo, e eu cheia de colares. Logo um soprou no meu ouvido.

“Fofinha, quero levar você pra casa, deixar só os colares sobre essa pele branquinha.”

Tive de rir. E ele dançou comigo. Mas na hora principal, escapei. O homem estava doido para me comer. E lá vinha o dançarino do dia anterior. Gostei dele porque sua vontade era apenas dançar, e demonstrava um enorme entusiasmo. Mais uma vez encantamos corações, arrebanhamos aplausos, e uma legião de fotógrafos atrás de nós.

Não é preciso dizer que, naquela noite, enquanto eu me refrescava com um suco, num quiosque, encontrei a amiga mascarada.

“Você não tira a máscara?”, perguntei.

“Não posso ser reconhecida”, respondeu solene.

“Por quê?”

“Ora, porque já trepei com cinco foliões. E olha que lhe conto um segredo”, acrescentou, “o último tem um pau enorme, quero ficar com ele até o fim do carnaval, nunca vi homem tão bem dotado. Repare de perfil, é aquele ali de copo de cerveja na mão, está com um amigo. Não é bem avantajado?”

Reparei o homem. Era verdade. Parecia que tinha um peru dos grandes. Pela primeira vez naqueles dias e noites de carnaval senti uma fisgada bem no fundo do útero. Era vontade de trepar. Até ali o meu negócio fora apenas a festa. Mas nada falei à minha amiga.

“E onde vocês transam?”, eu, curiosa que só.

“Numa barraca no Pecado. Foi ideia minha. Quando arranjo um, levo pra lá, mas agora só quero com ele.”

Surgiu o rufar de alguns tambores. Alguém me tomou um dos braços e mergulhamos na folia. Minha amiga se perdeu na multidão.

Foi uma noite encantadora. Como não gosto de bebidas alcoólicas, brinquei lúcida e com toda a energia até quatro da manhã. Dancei com muitas pessoas, entrei também num cordão só de mulheres. Bem no meio, uma jovem dançava inteiramente nua!

No último dia, aproveitei para sair num bloco que estava marcado para as dez da manhã. Uma festa muito animada, com bebidas para os integrantes que vestiam o abadá. Fiz da minha um vestidinho muito sexy. Dancei sensualíssima, beijei na boca dois ou três homens. Mas nada de sexo com eles. Às três da tarde, fui procurar a barraca da minha amiga mascarada. Não foi difícil de chegar até lá. Ela estava deitada, descansando. Estava só, sem a máscara e inteiramente nua.

“O que houve com você?”, perguntei. “Não está na folia?”

“Vou daqui a pouco, estou descansando.”

“E a máscara? Você está nua...”

“Lembra o meu paquera avantajado? Emprestei a ele. Disse que ia brincar num bloco onde os homens saem vestidos de mulher. Ele volta daqui a pouco. Quanto à máscara, acabei não resistindo e mostrei o rosto. Agora estou nua duas vezes!”, parecia feliz por ter se revelado.

“Quer dizer que ele foi brincar num bloco vestido de mulher?”, repeti o que ela dissera logo após ter uma brilhante ideia. Lógico que nada comentei a ela. “Isa, e se ele não volta?”, acrescentei.

“Claro que volta. O homem está apaixonado.”

Despedi-me, deixei o Pecado para trás e me enfiei de novo na avenida. Não foi difícil encontrar o bloco de homens desfilando vestidos de mulher. Iam pela altura da Glória. Iam desengonçados dentro de vestidos e roupas de banho femininas. Quando chegavam à Cancela, avistei o namorado de minha amiga. Era um dos mais animados. A roupa de mulher até que lhe caíra bem. Ele batucava um tamborim. Engracei-me ao seu lado, fazendo volteios e sorrindo. Ele se aproximou e passou a batucar cada vez com mais vigor o seu instrumento. Eu dançava como uma passista. Rebolava, descia, subia, mexia o bumbum novamente. O homem ia ao delírio, enlouquecia. Quando a bateria encerrou o desfile, ele me ofereceu uma cerveja. Bebi com ele um ou dois copos. Seus amigos se dispersaram dizendo que voltariam à orla, havia mais dois blocos e a bebida seria grátis. Puxei-o então pelo braço e falei.

“Tenho uma surpresa pra você.”

Ele me acompanhou. Não queria levá-lo para a tal casa que eu tinha a chave, mas não havia outro lugar. Ao chegarmos, tirei toda a roupa e me entreguei a ele. Minha amiga tinha razão, mostrou-se ótimo amante. Ele tinha um peru imenso, parecia um cavalo. E como demorava a gozar. Jamais um homem me proporcionou tamanha satisfação.

“Não vá embora”, falei. “Vamos trepar mais uma vez.”

E assim fizemos. Durante toda a noite. Pela manhã ele se foi. Como o carnaval já terminara, saiu apenas de bermuda. As roupas de Isa, que ele vestira para o tal  bloco, acabaram ficando comigo, mas eu não podia levá-las a ela. Descobriria que eu estivera com seu homem.

Duas semanas depois, a dona da casa veio morar em M. Devolvi-lhe então a chave. A brincadeira das máscaras terminava. Quando encontrei minha amiga, totalmente ao acaso e mais ou menos um mês depois do carnaval, eu disse:

“Que carnaval inesquecível, hein?”

“Nem fala, riu um  tanto envergonhada.”

“E o namorado?”, perguntei fazendo de conta que nada sabia.

“Voltou assim que você se foi. Trepamos a noite inteira. O problema foi que o bandido não me devolveu a fantasia!”, finalizou.

Ainda bem, pensei, Isa sabe mentir. E que bom humor!

quinta-feira, julho 23, 2015

Todas gostamos

Sentada na poltrona, vestida de calça jeans colante, sandália de meio salto,  espero por ele. Falta alguma peça sobre o meu corpo ou esqueço de escrever sobre a blusa? Falta a blusa, sim. Mas é proposital. Tenho o torso nu, uma das mãos e o antebraço a proteger os seios, jogo inocente e, ao mesmo tempo, sedutor. Gosto da nudez, aliás, todas gostamos. Hoje, quero fazer uma surpresa a ele que não demora. Tudo começou numa dessas madrugadas quentes, depois de uma festa na Gávea. Saímos juntos, ele ofereceu-me uma carona. Insistiu para eu ir à sua casa. Quis me fazer difícil, hoje não, quem sabe amanhã? Amanhã é domingo, retrucou. É um dia como outro qualquer, acrescentei. Acabou concordando. Como combinado, o encontro aconteceu, e foi agradável. Comemos uma pizza e tomamos duas taças de vinho. Aliás, uma pizza fina, porque sou elegante. Depois, rumamos à sua casa Assim começou nosso enlevo. Lembro que naquela noite eu vestia um vestido soltinho, o comprimento acima dos joelhos vez ou outra deixava entrever, como um relâmpago a durar meio segundo, uma lasca das minhas pernas. A partir do tal domingo, o namoro foi crescendo. Para não esfriar, sempre ouso, por isso hoje o caso dos seios nus. Ele vai adorar, tenho certeza, quem sabe enlouquecer. Fecho os olhos, ponho-me a imaginar. Corro à beira da praia após ter saído de uma festa às três e trinta da manhã, um  alvoroço, mulheres a gargalhar, alguns rapazes, de repente junto à parede, uma espécie de falésia que separa a praia do calçadão, avisto uma moça, ela tenta esconder-se, permanecer anônima, está nua, os seios sobretudo à mostra, percebo que se assusta com a turba da qual faço parte, não desejo comprometê-la ante o grupo barulhento que me segue, aponto a borda do mar, conduzo todos à direção oposta, deixo-a intacta a nossos olhares, anônima, como antes de chegarmos. Sinto, porém, uma ponta de inveja, melhor fosse eu a nua, e não ligo se me roubam o véu. Abro lentamente os olhos, o abajur lança reflexos suaves sobre a parede. Quero levantar-me, deixar a poltrona, ir à cozinha buscar um copo com água. Adoro a água bem gelada descendo por minha garganta e percorrendo-me as entranhas, chego a sentir um fio frio, cortante, arrepio. Seguro os seios com uma das mãos e deixo que minhas pernas conduzam-me ao objetivo, um copo fino, de cristal. Volto com a água quase a transbordar, o copo suado, minhas mãos trêmulas de excitação. Tomo o primeiro gole. Sinto o gelo até nos bicos dos seios, quase um espasmo. Vou de gole em gole, torno-me úmida, fria e quente ao mesmo tempo, beiro o paroxismo. Repouso o copo sobre a mesinha lateral, as mãos tilintam o cristal, o prazer... Fecho-me de novo sobre a poltrona, os olhos semicerrados, as pernas cruzadas e uma das mãos a segurar o seio esquerdo. O meu homem há de chegar? Luzes da Visconde de Pirajá, as lojas abrem à noite, pairo sobre o bairro, pouso sobre uma das calçadas, voo noturno em pausa, percebo que vou sem a blusa, os seios com os bicos rijos, será que me espreitam?, pouco a pouco me percebo invisível às pessoas, ligeiras passeantes, não dão pela minha presença, o vento morno acaricia-me a pele lisa, uma vitrine de bolsas, loja aberta que me convida, não há viva alma, entro e toco no couro cru, quero a bolsa, saio da loja, percorro outras vitrinas, a bolsa tão leve... serei ladra nua?, ouço um apito, não descubro de onde vem, será a polícia?, as pessoas correm sobre o passeio, um carro freia, já não há a placidez dos primeiros momentos, alguém me esbarra o torso, toca-me a história da moça que atravessou nua a principal avenida de sua cidade, prometeram-lhe dois mil reais pelo desfile, por que a lembrança?, nada ganho e vou tão nua quanto ela. Ah, o arrepio, a poltrona, os seios soltos, cubro-os com as mãos mínimas, como se ainda estivesse na rua; os bicos ainda rijos apontam ao namorado que não chega. Tenho o número dele. Suspiro. Quem sabe ligo? Meu sonho a tornar-se neblina e a ameaça do sol vindouro. Perco-o como uma criança perde o brinquedo impossível, como a moça perde a inocência. Quando era mais nova eu estudava tanto... O sonho, os olhos fechados, um assovio. Quem a chamar? O vizinho de frente? Eu sempre a frequentar seus sonhos. Mas não sou a mulher que lhe proporciona ereções múltiplas. Apesar de minha a face, de meu o corpo, a criação é sua. Descruzo as pernas, levanto-me preguiçosa, são seis passos até a porta da rua, a madeira de três centímetros a separar-me do mundo, a impedir que me descubram nua. Abro a porta e sinto o cheiro do mar, a praia a duzentos metros, os saltos da minha sandália a enfiarem-se na areia, o bico dos meus seios a apontar o navio fundeado em alto mar. Toda mulher deseja uma armada, deseja que a noite dure, deseja que o vento lhe seja morno, deseja que o gozo lhe vá mais à frente...

quinta-feira, julho 16, 2015

Até o fim

Esperei duas semanas, até que não mais suportei, telefonei então pra ele. Ao ouvir sua voz, gelei. Sempre sentimos ligeiro arrependimento ao perceber que estamos numa posição inferior. Por que não deixei o homem de lado? Bastaria esquecê-lo e sair por aí a bater pernas, não demoraria a aparece outro, e talvez mais galante. Mas ele já estava na linha, e pareceu gostar de ouvir minha voz. Deu um risinho. Achei que estava de deboche. Ameacei colocar o fone no gancho. Mas logo ouvi hei, onde você está? Eu quis ficar em silêncio, deixar que ele imaginasse, porém o silêncio contínuo poderia fazê-lo pensar que a ligação caiu. Ligar duas vezes já seria demais. Oi, devolvi. E você como, está?, ele. Bem. Que bom, retomou o diálogo. Eu ia dizer uma bobagem, mas preferi silenciar, quem sabe ele continuava. Respirei fundo, tapei o telefone para que ele não ouvisse o arfar de meus pulmões. Que tal um encontro?, sugeriu. Eu não poderia aceitar de primeira, principalmente depois do que aconteceu. Nada falei, apenas repeti em tom de interrogação, um encontro? É melhor não, falei. Foi uma tentativa de reconquistar o terreno perdido, já que fora eu a autora da ligação. Ele retrucou por que então o telefonema? E agora, o que eu diria. Esperei um pouquinho. Não sei, apenas senti vontade de conversar, afirmei. Que bom!, pelo menos isso, ele aceitou minha réplica com alegria. Você é bonita, acrescentou, caso queira vir, não falemos no que passou, vamos conversar outros assuntos, tudo fora de nós dois, completou. Como vamos agir assim?, perguntei a mim mesma, em silêncio, enquanto esperava que ele acrescentasse algo. Ele, no entanto, permaneceu à minha espera. Esperei também. E tudo se tornou muito demorado, o tempo não passava, ou se arrastava, eram duas pessoas segurando dois telefones pesadíssimos. Hoje quase não se telefona, quebrou o gelo, manda-se mensagem, pelo zap. Ah, o zap, repeti, é mesmo, talvez haja mais silêncio daqui pra frente, ousei continuar. Não vamos estragar tudo, ele interferiu, estava também com saudades, ia ligar. Por que não ligou?, eu quis saber. Estava esperando as coisas esfriarem, respondeu. As coisas esfriarem, expressão interessante, pensei comigo, então quer dizer que alguma coisa estava queimando as mãos dele, e fora eu a vítima, talvez estivesse sentindo-se arrependido. Sei que não foi nada demais, acrescentou, mas você ficou uma fera. Não foi nada demais, não consegui ficar em silêncio, você acha que não foi nada demais? Não sei, foi uma brincadeira, ele. Brincadeira?, tive mil problemas depois do que você me causou, tive de dizer. Mil problemas, não exagere, ele chegou a rir depois das palavras, e achei que estava de novo a achar engraçado a situação em que ele me colocara. Nada repliquei, apenas esperei que continuasse. Você quer que eu peça desculpas?, perguntou numa pretensa gentileza. Não, não precisa, tudo o que aconteceu teve minha concordância, retruquei, sou tão culpada quanto você. Afinal de contas ninguém morreu, ele queria concluir a questão. Como não morreu?, cheguei a repetir suas palavras, quero dizer, ninguém morreu fisicamente, mas algo se perdeu, além de tudo, dizíamos que não conversaríamos sobre o passado, viu, por isso não dá pra encontrar você. É, acho justo, você tem razão, ele acrescentou. Ok, vamos então desligar. Ok, ele concordou, vamos, talvez num dia melhor, quem sabe. Isso mesmo, num dia melhor, ainda estou muito ferida, nem eu mesma sabia disso. Ok, então um beijo, ligo daqui a um tempo, falou. Tchau, desliguei. Sentei na poltrona e me pus a imaginar a noite em que brigamos. Uma brincadeira besta, uma brincadeira que eu concordara, e depois a confusão toda. Passaram-se cinco minutos, me levantei e peguei o livro que repousava sobre a mesinha lateral, um livro em francês. Tentei continuar a leitura que começara antes de dar o telefonema. Mas não consegui me concentrar. O diálogo recém-encerrado deixara rastros de sobressalto em meu espírito. Então fui ao quarto, abri a porta do armário e me olhei no espelho. Sorri, um sorriso de início acolhedor, a seguir mais envolvente, depois com uma ponta de volúpia. Naquele momento, me tornei a mulher mais feliz do mundo. Enfim, voltei ao livro. Dali em diante consegui ir até o fim.

quinta-feira, julho 09, 2015

Situação

Oi, Renan, tudo bem? Tudo. Não sé assuste não, sei que um telefonema a essa hora deixa as pessoas preocupadas, desculpe, é que preciso de um favorzinho seu, e não posso esperar até o amanhecer. Como você parece entender das coisas, veja se consegue me tirar desta situação. Sabe a casa da Amelinha? A do interior. Isso mesmo, Paty. É, sei que é complicado, você está no Rio, um pouco distante. Então deixa, acho que vou ter de tentar outra pessoa. O que é? Não adianta eu falar agora, vai ser perda de tempo, você não vai poder me ajudar. Quem sabe, pode? Mas vai demorar, são muitos quilômetros. Você insiste, não? Curioso, você. Se estou nua no lado de fora da casa, como você fazia comigo? Você gozava com aquilo, não é mesmo? Sempre pensa nisso. Adivinhou. Sabe, não posso contar aquelas histórias pra homem algum, eles enlouquecem, muitos dizem que nunca haviam pensado nisso, que realmente é um tesão, e querem que eu faça pra eles o que fiz pra você. Juro, com todos são assim, e nunca apareceu alguém mais ousado do que você, ou melhor. Deixe-me dizer... Por isso telefonei. Amelinha me emprestou a casa, não há ninguém lá. Por que não digo aqui? Escute. Não há ninguém lá, pelo menos não vai haver até amanhã cedo. O tal homem, aquele a quem contei o que você fazia comigo, me pediu algo ainda mais extravagante. Lembra aquela vez quando o motorista de ônibus que já me paquerava havia um tempo me encontrou de madrugada naquela situação? Isso, ele me salvou, sei que não ia morrer por causa da minha ousadia, mas seria um escândalo, você entende, a brincadeira começou a partir de você. Não, não estou nua numa estrada como aquela, claro que não, por aqui as estradas são estreitas, não como aquele trecho de rodovia onde saltei do seu carro. Você me levou até ali vestida, lembra? O problema aqui é outro. Já vai adiantada a hora, e o tal admirador já me trouxe no carro dele como queria. Você vai sair comigo nuazinha, ele insistiu durante vários dias enquanto me namorava. Será que não basta esta trepação diária?, rebati. Mas ele tanto insistiu, que cedi! O problema não foi sair nua, nem ser largada nua aqui tarde da noite. O problema é que não sei onde ele me deixou. Aceitei sair nua com uma venda nos olhos, e me afastei do lugar onde ele combinou me pegar. Nem sei se viria me pegar. Agora não consigo voltar até onde ele me deixou, nem conheço o caminho de volta pra casa da Amelinha. Quando venho a esta região quase não saio, nem para ir à cidade. Percorri duas ou três centenas de metros, uma escuridão terrível, então encontrei uma rua, um muro alto, acho que alguma mansão de homem rico, escutei até relinchos de cavalo do outro lado do muro, acho que se trata de um haras, esses lugares onde criam cavalos de raça. Então, você quer saber como fiz para te ligar? Quase um milagre, isso mesmo. Como poderia haver um orelhão logo num lugar desses? Uma rua de paralelepípedos, um muro branco, relinchos de cavalos ao longe... Um trote? Por que eu faria isso? Sei que ainda me deseja, não precisaria agir assim pra ver você morrendo de tesão por mim. Ouça, não é brincadeira, não; é a mais pura verdade. Sei que deve me achar muito tranquila para estar vivendo a história que estou contando. As mulheres bonitas não se veem durante muito tempo num beco sem saída, logo surge alguém pra ajudar. E você sabe o tanto de prazer que senti quando você me levou nua no seu carro pela primeira vez. Acho que por isso estou recorrendo a você. Preste atenção, voltando à situação em que me enfronhei hoje. Não, ninguém ainda deu pela minha presença, há uma luz num poste distante, mas só sombras. Tive uma ideia, um desses lampejos que não acontecem sempre. Já que você está longe e mesmo querendo não vai conseguir chegar a tempo, de repente você contata um amigo e ele vem me resgatar. O quê? Ficou com ciúmes? O que tem demais? Já fiquei nua pra tantos homens, já perdi a calcinha pra dezenas deles. O importante é que me leve de volta pra casa da Amelinha. É fácil, todos a conhecem por aqui e sabem onde ela mora. O cara vai querer trepar comigo? Também não vejo problema nisso. Melhor com um conhecido seu do que com um estranho. O que vale é estar salva antes do amanhecer. E olha que depois te conto, sei que você adora uma historinha. Então, como você parece entender das coisas, acho que pode me tirar desta situação. Há uma árvore de tronco largo, vou ficar agachada atrás. Fale pro seu amigo apagar o carro todo e piscar o farol três vezes, aí vou até ele, combinado?

quinta-feira, julho 02, 2015

Fez até uma cosquinha

Se eu levasse em conta o meu código de conduta e minhas tentativas de leis, o mundo seria totalmente diferente. Quando querem o vermelho, prefiro o verde; quando me desejam de verde, vou... isso mesmo, vocês já sabem, saio pra passear nuinha. E ainda arranjo um homem, sempre com propostas ousadas, excitantes, como meu recente namorado. Ele tem um casaco de meia estação, desses que se amoldam ao corpo, parece aquele papel prateado com que envolvemos uma fruta. Só que a fruta sou eu. E que fruta! Querem mordiscá-la, sentir o sabor, experimentar o sumo? Esperem, o dia de cada um há de chegar. E ele trouxe a peça, pediu que a vestisse. Não demorei a moldá-la sobre os meus ombros. Não, nada disso, não se deve vestir o agasalho desse modo, afirmou. Tirei-o e lho devolvi. Como se veste um casaco de meia estação?, ingênua eu, que sei apenas andar nua, nua e sorrindo. Vista-o sobre a pele, ordenou. Apenas, ressaltei. Meus dentes felizes e brancos. Fácil, não?, compreender os desejos de um homem. Um casaquinho sobre a pele, apenas, repeti. Não o fiz sob a vista dele. Fui ao quarto, a porta fechada. Voltei à sala. Não me toque, asseverei, caso contrário desmancho. Assim como a glacê de um bolo fugaz, acrescentou. E põe fugaz nisso, completei. Ele, o namorado, regozijou-se. Não temo a palavra. Foi exatamente assim que aconteceu. Um regozijo; a princípio eufórico, depois contido. E me pegou pelo braço, e me puxou porta afora, e me levou a passeio. O sol se punha, as pessoas iam e vinham. Não posso dizer que não gostei. Se falo lá em cima do meu código de conduta e de minhas leis às avessas, que mal há em passear nua à noite, ou quem sabe, até durante boa parte da madrugada? E as pessoas, acaso se surpreenderão? As pessoas não se surpreendem numa cidade como a minha. Não olham para o lado. Estão ensimesmadas. Essa mesma a palavra, bonita, não? Ensimesmada. Talvez pensem no namorado, no marido displicente, num filho que não vai bem na escola, ou mesmo não sabem no que pensam. Ninguém nota a mulher nua sob um casaquinho de meia estação. Vocês já sonharam que vão nuas ou nus pela rua? É tão engraçado. Ninguém nota a gente, não é mesmo? No sonho é assim; se acreditamos, as pessoas nada sabem. Então, o passeio com esse meu namorado foi parecido. Ninguém notou. E eu podia ir nua. Mas à vontade, impossível. Disse a ele que não queria o automóvel. Vamos caminhar pela orla de Ipanema, sugeri. Paramos num quiosque. Quero água de coco, sussurrei. Lá veio o empregado do quiosque com o coco e um canudo. Sorvi o mundo inteiro pelo canudo. Caso eu queira fazer xixi, afirmei, que bom, já estou pelada. Continuamos a andar de braços, sobre a calçada larga e bem iluminada. O vento que vinha do mar soprava por baixo da barra do agasalho, e eu, como podia me estar sentindo? Arrepiadíssima. Mas não esmoreci. Pelada ao vento, pelada à brisa marítima, pelada à beira-mar. Descemos à praia. Foi minha a sugestão. Ei, aonde você vai?, perguntou ele enquanto eu corria abandonando a sandália. Não imagina, lancei-lhe ao vento. Oh, sim, arremessei-lhe as palavras e o casaquinho. Depois, num salto, mergulhei. Só me resta a bronca da cabeleireira. O que fazes de teu cabelo, mulher?, ela sempre se assusta quando apareço no salão. Minha resposta silenciosa é um sorriso amarelo. Meu homem, preocupado, procura-me com os olhos baços. Não mais me tem à mão, apenas segura o casaquinho de meia estação. Lembro-me de minha amiga Elizabeth, enquanto movo braços e pernas tentando acostumar à temperatura fria da água. Quando me contou, eu já praticara a tal aventura, só que com desfecho diferente. Elizabeth saiu do carro peladinha, às três da manhã. O namorado partiu e ela ficou. Ficou a ver navios. Sério, o cenário ao fundo era de navios ancorados próximos à costa, aquela noite. Mas ela não queria saber deles e sim do banho de mar. Sua fantasia: mergulhar como viera ao mundo. E ninguém por perto. Nem o namorado. Que se fosse, que voltasse meia hora ou uma hora depois. Ela ficou escondida, ou melhor, sob as rendas desfiadas das poucas ondas que, suaves, iam e vinham. Se ele não volta, vejo o que faço, falou a si mesma. Era o jogo; assim ficavam excitados. O problema não foi ele não ter voltado, mas os olhos apurados de um pescador. Isso mesmo, um pescador experiente, que sabia discernir entre rendas desfiadas. Este a fisgou. Não usou rede nem molinete. Até disse que ela não era a primeira. Como eu deveria me comportar, então?, minha amiga chegou a me perguntar. Não esperou, no entanto, resposta. Saí com ele, isso mesmo, ali na beirinha d’água, e você sabe o significado do verbo sair, nessa situação; o problema não foi a saidinha, mas eu estava temerosa de que meu homem voltasse, acrescentou. E ele voltou?, eu, curiosa. Nem te conto... E se foi Elizabeth. Quanto ao meu homem, com o casaquinho nas mãos, esperava-me lá nas areias. Nadei ainda mais vinte minutinhos. Quando corri a ele, meu casaquinho, por favor, pedi. Casaquinho?, você entrou n’água com ele. Será?, fingi não me surpreender. Bandido, pensei, tal qual o namorado de Elizabeth, que, escondido, deve ter apreciado a mulher trepar com o pescador. Você viu o homem?, insinuei, meio afoita. Homem?, que homem?, franziu o cenho. O que levou o meu casaquinho, acrescentei, fez até uma cosquinha!

quinta-feira, junho 25, 2015

Sensível, sensível

Sensível, sensível, é o que ele diz. E tem razão. Basta o leve suspiro de um homem a passar junto a mim, o arfar mais forte de sua respiração, ou um ligeiro golpe de olhos, para eu me arrepiar. Percorre-me o corpo uma mão invisível que deixa meus pelos eriçados. Se a mão é real, nem pensar. Sensível, sensível, o vestido a me roçar a pele nua, eu eriçada de novo. Tenho amigas que se entregam ao primeiro toque; outras dissimulam, fingem que nada acontece; há ainda aquelas que desistiram dos homens, sugerem-me ler um livro. Qual deles?, pergunto. Literatura, verdadeira literatura, a que propõe questões, não respostas. Assim minha sensibilidade irá em outra direção. Sério. Exemplo, uma mulher aluga uma suíte de hotel, uma tarde inteira, para ler um livro. Às vezes chora; outras, sorri. Os escritores não pensam nos leitores quando escrevem. Chego a acreditar que a boa literatura é a crueldade. Os seres humano é que são cruéis, dizem-me. Mas a leitora ama tanto, que chega a se ver muito bem amarrada a uma cadeira. Por mais que queira soltar-se, impossível. Queres de mim alguma coisa?, pergunta, embora se veja só. Sim! A voz emana do livro, não a amarro apenas por luxo, quero algo, sim. Estou pronta, corajosa anuncia. Amordaça-a, a tal voz não quer perguntas. Silencioso, o quarto. Ela nua, amarrada, amordaçada. A porta bate, alguém se vai. O livro ao lado da mulher, aberto numa página estrangeira. Passam-se minutos intermináveis, verdadeiras horas. Ninguém volta. A mulher, a corda, a mordaça; ela na cadeira.

Sensível, sensível, desejo a sorte da mulher? Um livro dentro de outro livro. E sorte é destino. Vou à rua, vestido solto, tecido leve, esvoaçante. Qual dos homens são sensíveis mas não a ponto de trazer-me uma corda? Prescruto-os por trás dos óculos. O namorado, mas à moda antiga.  Na verdade, enamorado. Ao contrário de vestidos soltos, vou travada.

Sensível, sensível, é o que fala, e me oferece ouro, uma pulseira larga. Tomo-a nas mãos, examino-a como um ourives. Enquanto a sinto nos dedos finos e provocantes, sussurra-me ao ouvido. Quero algo em troca. O quê?, afoita, chego a arfar. Quero-te nua!, arremata. Respiro fundo, quase sem saída. Ele leva-me a um hotel, desses que ficam no centro da cidade, aluga a suíte mais alta. Deixa o quarto escuro, peço-lhe quase em silêncio. Apenas isso, a sombra e eu nua. Algo a mais, acrescento, espera, quem sabe amanhã. Ele é paciente, dorme ao lado de uma mulher nua sob lençóis. Tem certeza de que virá o amanhã. Então, outra pulseira. Visto as duas. Apenas. E, em pé, meio sem graça, sorrio, um dos joelhos dobra-se involuntário, de leve. Quero esconder o impossível. Agora deita, vem, insinua. Primeiro me abraça, suspiro, depois o sexo. Abro devagar as pernas. Compras a mulher com duas pulseiras, choro-lhe ao ouvido. Vales três ou quatro, talvez cinco, ele devolve. O enamorado sobe sobre meu corpo. Latejo, suo. Sou travada, chego a dizer. Trouxe todas as ferramentas, retruca.

Beatriz, uma amiga tão atirada (as aparências e os nomes enganam), diz que não faz por interesse, mas pelo gozo. Gozar, a melhor coisa do mundo, afirma. Travada?, ele repete e ri da palavra. Deixa ver, acrescenta Beatriz, já viste a cor e o peso do ouro, ou a flor da orquídea? Demoro a entender. O namorado ressona, foi tanto o sexo. Levanto-me e ando pelo quarto, apenas as duas pulseiras sobre a pele. Caminho de um lado a outro, vou à janela e olho a rua, o sol se põe no Rio de Janeiro, muitos os edifîcios, altos, não vejo ninguém às janelas dos outros prédios, não me arrisco olhar mais detalhes, escondo-me, escapa-me apenas os olhos no vão da cortina, um pano pesado, de cor azul, deixo cair o tecido, a cortina ou minhas roupas a voarem do décimo segundo andar?, o apartamento escurece de todo, volto-me, dois ou três passos e dou no extremo oposto, a porta, penso abri-la, espiar o silêncio exterior, tenho coragem?, giro a chave, abro uma pequena fresta, está escuro também lá fora, quem sabe aventuro-me nua ao corredor?, loucura, a porta bate e não abre por fora, e então?, temo tocar a campainha, vou despertar a todos, e eu nua, no centro do Rio às cinco e trinta da tarde, o que houve, senhorita, uma voz masculina, olhos desconhecidos, eu colada à parede. Pensamentos? O quarto vasto, o homem ressona. Leva-me nua em seus sonhos? Já sei, sonha em trazer mais presentes, um cordão de ouro, delicado, e uma medalhinha, o sol, às cinco e trinta da tarde. Ei, vem aqui, deita ao meu lado, a voz dele, temos todo o tempo do mundo. O que queres de mim? pergunto transtornada. Quero você deitada ao meu lado, ele responde. Deitada?, como?, conheço-te apenas de vista. Lúcia, venha cá. Não sou Lúcia, a voz escapa-me, incontrolável, Sou Beatriz, ouviu?, Beatriz. Ah, entendi, ele fala, Beatriz, a amiga de Lúcia, Beatriz, você reluz a ouro, está quase transparente, há uma palavra pra isso, diáfana, você está diáfana, vem aqui, Beatriz, quero umedecer meus lábios nos teus, estou louco de sede, ele continua, venha me salvar. Sento na única cadeira que há no quarto, junto as pernas, cruzo as mãos por trás do encosto, lanço-lhe um olhar feroz e digo amarre-me, amarre-me bem forte. Como um bom ator, finge não se surpreender. Levanta-se e vem até a mim, como se já esperasse pelo pedido.

quarta-feira, junho 17, 2015

Expresso

Estou peladinha e sentada numa cadeira de ferro, dessas de mesa de bar. Na sala há a mesa e mais três outras cadeiras. De repente me vem à mente as fotos em que apareço nua. Foram três ou quatro namorados que me pediram para posar. Aceitei. Mas sempre acabo deixando as fotos com eles. Às vezes fico pensando o que fizeram delas. Mas este último com quem estou namorando já faz um tempinho não me pediu apenas fotos, quis também que eu ficasse na cadeira de ferro, nua e de pernas cruzadas. Disse para eu esperá-lo que logo voltaria.

Nos vimos pela primeira vez na cafeteria onde trabalho, cafeteria de muito requinte. Ele vai sempre para tomar um expresso. Enquanto eu vou à máquina para preparar o café, ele me deixa nua. Sério, nuazinha. Depois, enquanto bebe, puxa conversa comigo. Frequenta a loja já de várias semanas. E sempre gosta de me trazer um presente. Uma blusinha, tal qual a que eu uso por baixo do avental, um perfume, uma bijuteria. "Achei que ia ficar bem em você", ele fala. Quando me convida para sair, digo: "só posso na sexta". Ele vem de carro, e me leva para passear na orla marítima. "Aqui é você quem será servida", diz, e vem o garçom a nos atender. Após o jantar, lá pelas onze e tanto da noite, dirige até a sua casa. Uma gracinha o local. Entra-se numa garagem, sobe-se uma escadinha, e já aparece a porta do apartamento, um quarto e sala grande, banheiro e cozinha, tudo muito amplo e claro. À noite, com a janela aberta, é possível ver o céu cheio de estrelas.

Namoramos com muito gosto. E é então quando ele me deixa peladinha pela primeira vez. Antes havia sido com os olhos; agora é de verdade. Ele me seduz de tal modo, que fico louquinha. Não age com aquele instinto animal que a maioria dos homens tem, quando chegam a ser brutos; mas com delicadeza. Espera que eu esteja pronta para escorregar para dentro de mim, tudo com a maior naturalidade.

Penso que ele de repente pode desaparecer. Todos sabem como são os homens; assim que conseguem o que querem, partem para outras aventuras. Ele, porém, sempre volta. E me traz uma pulseirinha. Naquela noite me leva para passear de novo. Um novo jantar, outro restaurante. "Quero que você conheça todos os lugares bonitos dessa cidade", fala. Jantamos. Bebemos uma garrafa de vinho. E a seguir, de novo no seu apartamento acolhedor, o amor.

Passamos a sair pelo menos duas vezes na semana. Partimos para aventuras mais estimulantes. Como são essas aventuras? Ah, é difícil descrever. Mas ele tem razão; que elas nos excitam, não resta dúvida. Chega o dia em que pede para eu sair com ele vestida apenas com a pulseirinha. "E como vamos fazer? Será que não vou presa?", fico um pouco assustada. Para me tranquilizar, ele diz: "nada disso, deixa que resolvo todos os problemas." Sinto que posso confiar nele. Faço como ele pede. Entro no carro vestida apenas com a pulseira de ouro, um pulseira sútil, bem delicada. Dirige de Macaé a Rio das Ostras. Ai, com fico arrepiada, nua no banco do carona. Dias depois, comento com uma amiga. Uma amiga mesmo, quase irmã. Ela fala que há homens que inventam muitas coisas legais, e que também tem passado por isso, mas na praia; seu namorado a deixa pelada dentro d'água; no final da brincadeira, ela está morrendo de tesão. Paramos em Rio das Ostras. Ele sai do carro para comprar algo para comermos e bebermos. Adiante, num local mais escuro, também desço do carro. Caminhamos de mãos dadas até a beira da praia. Ficamos um tempo enorme namorando. Sussurro no ouvido dele: "caso apareça alguém, você me empresta tua camisa, ok?". "Combinado", responde. Mas não precisa, fico nua a noite inteira. Depois voltamos para o apartamento dele, e namoramos com a maior vontade.

Mas, voltando a esse momento em que escrevo, me pergunto: por quanto tempo vou esperar por ele? Estou nua. Dessa vez ele colocou minhas roupas numa pequena bolsa e disse: "tenho de fazer um trabalho rápido, você me espera?" Fiz que sim com a cabeça. Ele me beijou e se foi. Será mais uma ação dele para ficarmos excitados? Depois que bateu a porta, comecei a pensar, e se aparece alguém, se entra aqui outra pessoa? Ainda para mais me angustiar: e se ele não volta? Há homens capazes de tudo.

Mas meu namorado não é assim, não. Desde que nos conhecemos, na cafeteria, ele se tem mostrado muito afetuoso, e tem razão quando diz: "você vai sentir cada coisa, namorando comigo...." E não é verdade? Estou a esperar por ele, e muito arrepiada. Não queria dizer, porque não gosto de vulgaridade, mas estou até mesmo molhadinha. Agora, só falta ele voltar!

Mais um pequeno detalhe. Ainda que nua, sempre tenho frieza para algum argumento. É sobre o que acabo de escrever. Pode ser que pensem: "não é possível uma garçonete escrever tão bem; não seria garçonete, mas escritora." Quem sabe. Tive um professor que sempre me dizia: você escreve muito bem, você é uma verdadeira escritora!

segunda-feira, junho 08, 2015

Conto de inverno

Jeane anda pela galeria comercial mais famosa de sua cidade, aproxima-se o inverno e ela quer comprar um casaco. As lojas enfileiram-se com aquele visual colorido e alegre, em algumas delas pode-se sentir o cheirinho das roupas, tão atraentes e tão fofas, como um carinho que se está prestes a receber. Ela olha os casaquinhos, pois, afinal, em sua cidade não faz tanto frio assim. Após a opinião da vendedora e de alguma reflexão, compra um de cor verde, de malha, que se amolda perfeito ao seu corpo. Ele desce um pouquinho além da cintura. Jeane até mesmo lembra que, num inverno anos atrás, saiu para namorar vestindo apenas um casaco, mas isto é outra história. A vendedora embrulha a peça, e mantém-se sorridente durante todo o tempo em que Jeane fica na loja; depois coloca o embrulho numa bolsa bonita e lhe entrega. Ela sai da loja pensando em quando estreará o agasalho, sabe que faz bater mais forte o coração dos seus admiradores onde quer que passe. Há também aquele senhor que sempre está à porta de casa, na mesma rua onde ela mora. Ele a olha com olho gordo. Acha engraçada a expressão "olho gordo", não é criação sua, mas de uma amiga da vizinhança.

A amiga de Jeane usava a expressão "olho gordo" porque quando via um tipão, ficava doida pra ir pra cama com ele. Jeane era devagar, demorava aceitar a aproximação de qualquer homem, fosse ele o mais bonito de todos. Isso contribuía para provocar seus admiradores. Todos a paqueravam, apesar de Jeane não corresponder a quase nenhum deles. Mas a amiga do olho gordo via em Jeane um jeito diferente de amar, descobrira uma porta que se forçada de modo adequado poderia ficar escancarada. Por isso, não desistia de buzinar suas ideias na cabeça da mulher.

Jeane sai da galeria comercial e põe-se a caminhar pelo passeio da rua principal da cidade. Olha mais algumas vitrines e cumprimenta de longe duas amigas que passam apressadas. Duas quadras adiante, ao dobrar uma das ruas que leva ao bairro onde mora, vê um casal passar agarradinho. O coração de Jeane sobressalta-se, o homem que vem agarrado à moça parece o seu ex-namorado, o tal que veio namorá-la e a encontrou esperando por ele vestida apenas com o casaquinho. Ela não consegue ter certeza se é mesmo ele que desfila com a namorada pelo calçadão da cidade. Mas aquela presença súbita reaviva nela a lembrança do dia em que foi mais ousada. Ela confessou a si mesma que a ideia de encontrar com ele vestindo apenas o casaquinho foi interessante. Ele havia ligado dizendo que estava com saudades. Ela, então, quis inovar em suas atitudes. Banhou-se em água quente com sais e ervas afrodisíacas. Após sair do banho e enxugar-se, hidratou o corpo com um creme especial e um óleo muito cheiroso, depois vestiu o tal casaco. Como estava frio e ela gostava de tomar um chazinho, leite morno e caldos, preparou tudo com esmero. Por último, acendeu a lareira. Ficou esperando o namorado preparada, num ambiente fofo e bem aconchegante. Todos esses detalhes revelavam que ela estava com muita vontade. Quando ele chegou, foi atender a porta com o seu casaquinho verde, sem calcinha e sem sutiã. Seus seios estavam fáceis de serem vistos, e pediam para serem tocados. Quando se cumprimentaram, o namorado percebeu sua pele lisa e gostosa. Suas mãos percorreram todo o corpo de Jeane, encontrando uma xereca raspada e apetitosa. Os dois rolaram no tapete macio que havia na sala, e se deliciaram num só gozo.

Depois de caminhar três quadras, Jeane entra na rua onde mora. A primeira pessoa que vê é o senhor que a paquera. Posicionado quase em frente a casa dela, ele permanece encostado a uma árvore. Quem sabe, ela pensa, depois de reviver o passado até que estou mordida... e ele merece uma chance, pelo menos é persistente. Entra em casa já convicta de que não deve viver só de lembranças. Não tranca a porta. Prepara-se do mesmo modo como no dia em que se encontrou com o namorado. O banho de sais, o creme, o óleo cheiroso sobre o corpo. Depois ferve água e faz chá de ervas, acrescenta uma pitadinha de gengibre ralado. A bebida torna-a mais excitadinha. Enfim, acende a lareira e olha através da janela do segundo andar. Avista lá embaixo o senhor. Ele ainda a espera, igual a um cachorro sem dono. Ela chega à sacada e faz um sinal para ele entrar. Aguarda-o deitada no tapete. O homem não acredita estar vendo aquela cena, mas avança sobre Jeane como se fosse um touro. Ele adora a novidade, e Jeane revive o passado. Mas desta vez não por meio de lembranças, seu corpo transborda prazer.

segunda-feira, junho 01, 2015

A bebida de cor vermelha

“Vou a M. na próxima quinta, quem sabe  seja possível um encontro?”, ao escutar a voz de Mário, Deli arrepiou-se. Não sabia se era excitação ou certo desconforto. Havia lembranças que desejava esquecer. Mas a voz do homem, que chegava através do telefone, provocou-lhe um frisson difícil de controlar. Suspirou, chegou a respirar fundo e acabou dizendo que sim, ia ver se seria possível o encontro. Depois de guardar o telefone na bolsa, avaliou mais uma vez as perdas e ganhos de ter de novo aquele homem ao seu lado. Afinal, o ex-namorado, com seu jeito de conquistador experiente, ainda lhe fazia bater forte o coração, era impossível esquecer suas investidas furiosas, o modo como ele a segurava no momento do abraço e de seu vigor durante o sexo. Recordava também os passeios com ele nas cercanias da cidade, dos banhos de mar em praias distantes e desertas. Ele a estimulava, e ela tornara-se ousada, como na manhã em que correra nua do carro de Mário até às águas da praia, dera um belo mergulho e nadara ao natural durante boa parte do dia. Lembranças é que não faltavam. Havia uma que sempre lhe fazia sentir um friozinho na barriga. Foi numa madrugada de temperatura baixa, ela resolveu sair do automóvel em que iam os dois, pediu que ele parasse o carro e saltou apenas de casaco. O tal agasalho mal lhe atingia a cintura. Ao voltar ao carro ele lhe disse que as roupas dela haviam desaparecido. No final, uma boa trepada. E, agora, o telefonema, ele viria na próxima quinta-feira. Comeriam uma pizza, era uma boa ideia, e no restaurante preferido de ambos.

Deli gostava dos fatos no passado, as lembranças sempre são melhores, dizia a si mesma. Por isso, tempos depois, escreveu o encontro com Mário. Leria-o sempre; tanto mais o tempo passasse, melhor.

Eram seis e meia da noite, encontrei-o à porta da faculdade onde ele trabalhou durante muitos anos. Entrei no seu carro e ele dirigiu à orla marítima. O ar estava fresco, a temperatura convidava a encontros.

Você tem problemas de horário?, perguntou.

Não, nenhum problema.

Ele sorriu e percebeu que eu abria várias portas.

Já no restaurante, vi uma mulher duas mesas adiante tomando uma bebida de cor vermelha. Perguntei ao garçom o que era. Campari, respondeu. Pedi a bebida. Meu acompanhante, que tomava um chope, olhou-me surpreso, logo eu que me negava a bebidas alcoólicas. Começamos a colocar a conversa em dia. O tempo foi passando e a cada gole eu tornava-me mais faladeira, contei tudo que acontecia na cidade, sobre as pessoas amigas e sobre mim. Acabou surgindo o assunto sobre meu marido. Falei o que devia e o que não devia. Quando reparei, a bebida estava no fim. Repeti a dose.

Saímos do restaurante passavam das dez.

Onde você quer ficar?, perguntou.

Não quero ficar, ou melhor, quero passear. Por falar nisso, lembra dos nossos passeios? Estiquei o braço esquerdo e toquei o seu ombro. Pôs o carro em movimento, contornou toda a orla e entrou na rodovia estadual.

Pare ali, no acostamento, pedi.

Ele obedeceu. Enfim, desligou o carro. Envolvi-o num longo abraço. Como bom conquistador, abraçou-me e nada falou.

Quero uma coisa, eu disse.

O quê?

Acho que não preciso entrar em detalhes.

Mergulhei direto no pênis de Mário. Abri sua calça e o coloquei inteiro na boca. Ainda nem estava rijo quando o introduzi, mas pouco a pouco seu volume foi aumentando até atingir minha garganta. Eu o chupava de todos os modos, numa gulodice de fazer inveja. Fui tão habilidosa que ele não demorou a gozar. Não deixei escapar  uma gota sequer, engoli tudo demonstrando um ar de sacana que só eu sei representar. Ele demonstrou que ainda tinha fôlego para uma trepada. Tirei toda a roupa e saltei sobre o seu ventre. Ficamos naquele local até depois de meia noite.

Ainda estava nua quando pedi para que ele dirigisse. Mário ligou o automóvel e o pôs em movimento. Pouco a pouco foi aumentando a velocidade. Antes de chegar à rodovia federal, pedi que parasse novamente.

Quero saltar, falei.

Ele nada disse, apenas me beijou e sorriu.

Desci do carro, levava apenas o telefone, a pequena bolsa e a sandália. Sempre achei muito deselegante andar descalça. Dei a volta pela frente, curvei-me à janela do motorista e o beijei, a seguir disse a ele:

Pode ir.

Ele não demonstrou surpresa. Beijou-me mais uma vez, acelerou e partiu.

Depois daquela madrugada não mais atendi seus telefonemas. Tenho certeza de que deseja me encontrar de novo, e também saber como me virei para chegar nua em casa. Gosto de fantasias, da imaginação... Mas deixo registrado aquele final de madrugada.

Telefonei a meu marido. Ele sabia das minhas aventuras pretéritas com Mário, inclusive a história da estrada. Na ocasião em que contei, nada falou, mas percebi sua excitação no momento do sexo. Revivia o episódio e lhe oferecia de presente. A bebida de cor vermelha dera-me coragem.

segunda-feira, maio 25, 2015

Carta à mãe

Tenho tudo o que sonho, escreveu imediatamente à mãe, pronta a registrar mais um dado. Mas é claro que não contaria o principal. Gostara da nova cidade, do namorado que lhe surgira ao acaso, mas não queria falar sobre isso. A mãe já ficaria feliz ao saber que ela estava bem, que andava satisfeita com a vida. Os pormenores na nova cidade, as descobertas que fazia no dia a dia, não precisava relatar. Tinha muito o que contar, mas era necessário ser econômica, não se estender nas palavras como sempre lhe ocorria. Que facilidade para escrever, contar histórias. O ritmo da nova vida era alucinante. Tinha vontade de escrever cartas longas, descrever os detalhes da cidade, da casa onde morava, o jardim, a rua, a alegria de alguns jovens que moravam nas proximidades. Não se inibia no momento de compor o texto. Mas, para a mãe, escreveu apenas mais algumas linhas e achou que estava bom assim. O importante era mandar notícias, aproveitava para convidá-la a vir passar alguns dias na cidade. Logo, porém, sentiu um sobressalto. E se a mãe resolvesse vir e ficar muito tempo, ou mesmo não ir mais embora? Se lhe atrapalhasse a vida? Estava tão feliz. Também não queria que soubesse do namorado. Bem, nem mesmo ela própria sabia profundamente sobre ele. O homem seria mesmo seu namorado? Ah, que diferença fazem as palavras. Não perguntara a ele se tinha outra mulher, ou mesmo se um dia as tivera. Não eram perguntas que se faziam. Claro que um dia as tivera, pois era bonito, trazia no rosto a marca de quem sabia conquistá-las. Elas, por conta própria, deviam viver atrás dele. Tirariam a roupa antes de baterem à sua porta. Sentia-se uma felizarda por ter caído nas graças de criatura tão disputada. Quase se perdeu nesses pensamentos quando lhe veio à mente a imagem da mãe. Era por causa dela, do que lhe escrevia, que pensara no namorado. Convidou-a a vir, mas de modo discreto, num pós scriptum. Caso ela aceitasse, passeariam pela cidade, tomariam um sorvete, e depois diria das ocupações assumidas, dos compromissos, falaria que precisava deixá-la só durante algumas horas do dia. A mãe entenderia, sempre fora inteligente. E quanto ao namorado, agiria com naturalidade. Terminou de escrever, dobrou o papel e o enfiou num envelope. No dia seguinte o levaria ao correio. Chegou à janela e olhou a praça de fronte. Era uma paisagem atrativa, muitas pessoas passeavam, algumas levavam os filhos, observou duas jovens conversando. Eram bonitas, muito bonitas. A visão das duas trouxe-lhe à mente de novo a imagem do namorado. Quem sabe não o roubariam dela? O que deveria fazer para mantê-lo junto a si?, pensou enquanto permanecia como uma estátua, olhando na direção das mulheres. Ora, se ele estava sempre por perto era porque gostava dela, era porque se sentira atraído pelas suas qualidades. Ah, como era bom viver na cidade grande, ninguém a incomodá-la, ninguém a lhe bisbilhotar a vida. Lembrou-se de um namorado que tivera em sua cidadezinha. Tremia toda vez que transavam. Mesmo que fosse num motel distante. Não gostava que a vissem junto a ele. As mulheres mais velhas falavam logo em casamento. Depois ouviu uma história contada pela tia. Dizia que os homens da cidade eram tarados. Queriam as mulheres apenas para lhes roubar as roupas de baixo, depois mostravam as calcinhas aos amigos, disputavam entre si com quantas haviam trepado e a quem pertencera as peças. A tia falava e olhava de soslaio para ela. Levantava, dizia que tinha de estudar e saía. Até que passara no concurso público, mudara para o Rio, e fora morar em Ipanema. Da janela ainda olhava as outras jovens, elas ainda conversavam, uma arte a da conversa. Tinha inveja, pois nãos tinha amigas e achava que não sabia conversar. Mas para que amigas? Iriam roubar-lhe o namorado. E tudo ia tão bem, era inacreditável. Com exceção de um ponto, isso mesmo, pequenina nódoa que a fez refletir. Ele lhe falara sobre outra mulher, dissera que o fato sucederá a um amigo. Ela, no entanto, desconfiara, já contará histórias protagonizadas por si própria como se a atriz fosse uma amiga qualquer. Não se deve comentar sobre relacionamentos anteriores com a mulher que se namora hoje. É um preceito básico. Uma conhecida, que estudara psicologia, lhe falara muito sobre relacionamentos. Eles estão ótimos quando os dois se bastam, afirmava. Nada de trazer outras pessoas para junto dos dois amantes. Como trazer outra pessoa? Estamos sempre os dois juntos, e eram apenas palavras... Não entendera a lição. As palavras proporcionam a presença, acrescentara a psicóloga. Ah, sussurrara, as palavras então têm poder de materialidade. E o pequeno deslize do namorado fora contar sobre outra mulher, tornara-a real diante dela. E a história era de amargar. Nem queria lembrar. Mas a narrativa vez ou outra lhe martelava a cabeça. Para se livrar da obsessão resolveu escrever. Ele, o atual namorado, chegara em casa com a outra. Os dois bêbados. Ou melhor, ela vinha mais bêbada do que ele. Depois de abrirem a porta do apartamento, tirarem as roupas e se esparramarem na cama ele sugeriu à mulher passar-lhe um creme, e logo onde. Vocês podem imaginar. As palavras, ainda da narradora. A mulher permitiu o creme. Daí em diante foi uma festa. Ela de bruços, na cama, ele por cima. Ela gemia, pedia que ficassem daquele modo durante toda a noite. Fim da narrativa. Será que ele pediria o mesmo a ela? Jamais havia bebido e percebera que ele se frustrava quando ela nada aceitava, nem mesmo uma taça de vinho. O vinho é sagrado, ele dissera no primeiro encontro. Ela resistira. Quem sabe, apenas uma taça, hoje à noite ou amanhã. Mas e se ele viesse com a sugestão, o creme, ela também de bruços? Perderia o namorado, a conta era certa. Continuou a olhar pela janela. As duas jovens que antes conversavam já haviam desaparecido. Uma mulher trazia duas crianças pelos braços, deveriam ser seus filhos, um menino e uma menina. Ambos arrastavam seus brinquedos. A noite caía devagar. O céu rosado à oeste. Ali seria o mar? Não fazia ideia. Era péssima para direções. Ah, lá vinha ele, o namorado, sorridente, trazia uma sacola de supermercado. Quem sabe queijos e vinhos? Mas ela não beberia. Tremeu involuntariamente. Sairia da janela. Não demonstraria que o esperava. Não podia demonstrar ansiedade. Uma de suas armas. Não demonstraria excesso de interesse. Apenas um beijo, e o sorriso frio. Estudara inglês, aprendera etiqueta com os ingleses. E quanto às palavras, tomaria cuidado, não eram um terreno tão seguro. Em língua alguma. E tinha mais uma coisa, esconderia a carta que escrevera à mãe. Não queria o relacionamento perturbado por outra pessoa. Melhor o silêncio. Melhor o mistério. Assim, tornava-se mais interessante.

segunda-feira, maio 18, 2015

Você chegou nua!

Abri os olhos pesados de sono sentindo o copo nas mãos, mas fechei-os de novo com um sorriso confortável de cansaço. Ele, então, aproximou-se. Primeiro tocou meu ombro direito, a seguir foi descendo uma das mãos trazendo junto com ela a alcinha da blusa que eu usava. Com a esquerda, soltou a outra alça. Fiz de conta que nada percebia. Agora eu usava um tomara-que-caia levemente sustentado pela fragilidade dos meus pequenos seios. Você traz mais um pouco de suco para mim?, pedi. Ele foi até a cozinha e voltou com a jarra. Completou o copo. Bebi dois ou três goles e voltei à mesma posição. Após um ou dois minutos, pousei o copo sobre o descanso que estava sobre a mesa. Ele aproximou-se e me abraçou. Permanecemos sentados na poltrona. Eu cruzara as pernas, as pontas de meus joelhos insinuavam a nudez que ele desejava. Por fim, um longo abraço nos manteve unidos, uma espécie de enredamento. Parecíamos entorpecidos e presos por um cordão que não se acabava. Quando nos soltamos, meus seios apontaram. Eu estava sem a blusa. Você tem o corpo de lutadora, falou. Eu?, fiz que me surpreendia, deve ser porque malho muito. Então é isso, completou. Você não gosta?, interpelei. Ah, claro, gosto muito. Ele saiu para ajeitar alguma coisa, não sei se foi levar minha blusa para o quarto ou se foi à cozinha apagar a luz. Logo voltou e deitou-se sobre mim. Eu ainda estava de saia. Sua roupa não vai amarrotar?, perguntou. Se você não soltá-la com cuidado, insinuei. Despiu-me. Não lançou minha saia ao chão nem deixou-a sobre a poltrona, teve o cuidado de levá-la ao quarto e pendurá-la num cabide. Ao voltar eu disse você pode agora amarrotar a mim. Ele riu da expressão e rebateu que eu tinha de ser tratada com cuidado. Novamente se colocou sobre o meu corpo. Fizemos amor.

Quando acabamos, ainda ficamos durante muito tempo abraçados. Tomei a inciativa de levantar e ir até a cozinha. Estava com sede. Ele perguntou o que eu queria. Falei que não se preocupasse, buscaria um copo d'Água. Percebi então como ele era detalhista na arrumação. Que nada soubesse sobre mim, a mulher mais bagunceira do mundo. Vi então que não combinaríamos. Depois de algum tempo o homem provavelmente não me suportaria, com tanta falta de cuidado que carrego comigo. Voltei com o copo ainda cheio. Sentei no sofá e cruzei as pernas. Ele cobrira-se com a manta do estofado. Eu permanecia nua.

Às cinco da manhã, pedi pegue minhas roupas, preciso ir. Ele falou roupas?, você chegou aqui nua! Caímos ambos na gargalhada. Lembrei-me de um namoradinho que fazia a mesma brincadeira. Adorava me deixar nua e demorava pra devolver minhas roupas. Certa vez insistiu tanto pra me enrolar numa manta, que não me fiz de rogada, não só deixei que me envolvesse com o pano transparente como também voltei pra casa vestida daquele jeito. O rapaz se apaixonou por mim. Mas o de agora foi mais suave, o negócio dele era trepar comigo. E lógico que nada falei sobre outros homens. Depois de rirmos muito, namoramos de novo. Naquele dia, não voltei pra casa.

quarta-feira, maio 13, 2015

Deixo que me fotografe

Essas viagens ao exterior são emocionantes, principalmente quando se viaja sozinha. Estou em Santiago do Chile, num hotel muito bom. Um prédio alto, de entrada luxuosa, com um balcão comprido revestido de madeira e aço, luminárias prateadas, funcionários solícitos. No foyer há várias poltronas ao lado direito de quem entra, enfileiram-se até a parte mais interna do prédio. Neste mesmo lado, localiza-se a entrada do bar e restaurante do hotel. Ao fundo do corredor há os elevadores e à esquerda é possível ver a escada que conduz a uma espécie de mezanino, onde se situa um dos centros de convenção, mas o que se percebe à primeira vista é uma cabine com vários computadores, todos para uso dos hóspedes. O hotel possui ainda piscina e academia, no décimo oitavo andar, de onde se tem uma vista panorâmica do bairro e de parte da cidade.

Observo as pessoas com a liberdade de uma aventureira, e posso até sorrir para os homens. Todos correspondem. Um deles olha para mim no momento em que saio do café da manhã. Aproveito então para sentar por alguns minutos numa das poltronas. Começamos a travar um animado diálogo. Ele quer saber de onde venho. Respondo-lhe. Diz adorar o meu país, já o visitou diversas vezes.

Estás a turismo?, pergunta.

Viajei com a intenção de descansar.

Muito importante descansar, completa numa mistura de português e espanhol. Não vai passear, fazer city tour?

Não sei, ainda não decidi.

Estou a trabalho, mas quando venho a Santiago não deixou de visitar o centro histórico, é muito interessante. Há também bairros boêmios, com muitos bares e vida cultural.

Sorrio e agradeço a sugestão. Digo que preciso subir, despeço-me desejando-lhe boa estada na cidade.

No quarto aproveito para relaxar, ler algumas páginas do livro que trago comigo e lembrar-me do homem recente. Ele deu mostras de interesse por mim. Por que não ajo como as garçonetes, ou as camareiras de hotel? Sei que todas elas são mulheres de respeito, mas encantam-se quando se descobrem amadas por um homem, seja ele quem for. E aproveitam. Gostam de presentes, cada um mais caro que o outro. Numa conversa recente, uma amiga falou-me de sua empregada doméstica. Esta lhe contou como faz em relação aos homens que a desejam. Trabalhou certa vez num hotel. Gostou do serviço, mas o patrão cismou com ela. Não ficou muito tempo. Mas enquanto trabalhou deu-se bem nas finanças e no amor. Ganhava gorjetas dos hóspedes e, quando eles a apreciavam... Adivinha? Certo dia um deles pediu que ela fosse até o quarto onde estava hospedado. Queria que ela o fotografasse. Um pedido até certo ponto surpreendente. Pegou a câmera, ensinou-lhe o manejo e fez várias poses. Depois perguntou se ela gostaria de aparecer em uma ou duas fotos. A mulher respondeu que nas horas vagas era modelo.

Modelo?, realçou a palavra o homem surpreso.

Isso mesmo, modelo. Não reparou como tenho o corpo perfeito?

Ah, acho que não reparei devido à roupa de funcionária do hotel, ele desculpou-se.

Deixo que me fotografe, ela afirmou.

Ele fez as duas fotos.

O senhor não deseja se certificar de já fui modelo mesmo?

Gostaria, mas não sabia como lhe pedir.

Não precisa pedir, espere um instantinho só.

Ela entrou no banheiro e saiu de lá enrolada numa toalha.

Pode deixar que depois trago outra para o senhor, ela disse.

Não, não há problema, pode usar a toalha o tanto que quiser.

O homem fez várias fotos da mulher. No final, ela soltou a toalha e posou nua.

Contou à patroa que os dois fizeram uma festa. E o homem, antes que ela batesse a porta do quarto e retomasse o trabalho, ainda lhe enfiou no bolso do vestido duas notas de cem dólares.

Após ler durante uma hora e meia, decido sair pela cidade. Não sou camareira nem garçonete, mas tenho o fogo das mulheres que gostam de amar. Num city tour, e ainda mais com um estrangeiro, quem sabe?

terça-feira, maio 05, 2015

Vestido de noiva

Meu namorado trouxe uma roupa muito sexy para mim. Um vestido curto, mas feito em formato de rede, tipo meia-arrastão. Tranquei-me no quarto e voltei de lá vestidinha. Por baixo, o top negro e a calcinha. Desfilei pela sala. Depois sentei no colo dele.

“Tenho mais uma surpresa para você”, falou baixo, amoroso, junto ao meu ouvido.

“Mais uma?”, curiosa, eu.

“Aliás, duas.”

“É mesmo, não diga?”

Entregou-me outro presente. Abri, era uma caixa pequena, e dentro havia uma pulseira.

“Que lindo”, coloquei no braço esquerdo e lhe dei um beijo na boca. “Você falou que tinha outra surpresa?”

“Ah, sim, adoro passear, você já sabe.”

“Que bom! Também quero sair.”

“Mas você vai assim”, apontou à minha roupinha.

“Assim?”, quase um tremor.

“Assim, sim, com o minivestido.”

“Mas estou pelada!”

“Não faz mal, você vai gostar de passear peladinha.”

Depois de alguma negociação, aceitou que eu levasse um forro. Então me envolvi num tecido negro, de cetim, que já tenho faz tempo, e coloquei o vestidinho por cima.

Descemos no elevador de serviço, entramos no carro e saímos.

Foi um passeio tão bom. Primeiro me levou para jantar. Restaurante lindo, comida ótima. Tinha até vista para o mar. Depois, descemos até a praia. Encontramos outros casais que passeavam à beira-mar. Uma mulher estava de biquíni, e eram onze da noite.

Meu namorado fez o pedido. Eu não poderia negá-lo. Sempre me proporciona os maiores prazeres, os melhores presentes. Faz tudo o que peço e o que não peço.

“Tira o forro”, falou.

Olhei as outras pessoas. Elas não estavam interessadas em nós. Melhor.

“Tira você”, minha sugestão o pegou de surpresa.

“Eu?”

“Isso mesmo, você, basta puxar por baixo.”

Tão delicado o meu namorado. Puxou. Surpresa! Eu só tinha o vestidinho de redinha sobre o corpo.

“Você está pelada”, quis me enrolar com o tecido.

“Nananinanão!”, exclamei.

Vocês estão doidinhos para saber como acaba essa historinha, não é mesmo? Na verdade, não aconteceu nada demais. Passeamos pela areia, fomos até a beira d’água. Apenas uma mulher nos olhou enviesada. Depois subimos à calçada, entramos no carro e voltamos pra casa.

O minivestido ficara para trás. Ou melhor, dobrado e guardado junto com o forro, no porta luvas do carro. Voltei pelada! E assim que entramos em casa... Ah, acho que já não preciso contar.

Vocês merecem saber, sim. No centro da sala havia uma caixa enorme. E dentro dela, o que tinha mesmo?

Um vestido de noiva!