quinta-feira, agosto 30, 2012

Depois da festa

No domingo eu e meu namorado fomos a um churrasco na casa de um casal amigo. Chegamos por volta da hora do almoço e, para contribuir nas despesas, levamos uma caixa de latas de cerveja. Como estava sol, os donos da casa armaram uma pequena piscina onde as crianças puderam divertir-se.

Conversamos durante boa parte da tarde enquanto bebíamos e comíamos. Eu, como sou muito alegre, diverti-me também com os pequenos. Eles a todo o momento vinham molhar-me com a água da piscina. Aproveitava e os arremessava de volta para dentro d’água. Meu namorado também é uma pessoa alegre e social, relacionou-se muito bem com nossa anfitriã e seu marido. Passamos uma tarde maravilhosa. Não é bem sobre essa parte do dia que quero falar.

Lá pelas seis ou sete da noite nos despedimos. Aproveitamos para dar carona a uma amiga. Depois de deixá-la em casa, seguimos ao apartamento do meu namorado.

Ele se mostrava por demais excitado. Creio que a bebida expandira-lhe o desejo; ainda no carro, pôs-se a me beliscar as pernas.

Após estacionarmos, ainda no elevador abracei-o e pedi que tirasse minhas roupas.

“Mas estamos em lugar público”, falou.

“Não faz mal, estavas a beliscar minhas pernas no carro?, agora quero sentir o que é chegar nua na casa de meu namorado.”

“Mas se alguém nos descobrir?”, perguntou preocupado.

“Não hão de nos descobrir. Uma mulher bêbada e apaixonada jamais é descoberta.”

Ele, então, tirou-me a saia.

“Ainda estou muito vestida”, fiz-me de desentendida.

Tirou minha blusa farejando meus odores.

“Será que já estou pronta para uma boa trepada?”, sussurrei-lhe no ouvido.

O elevador parou no piso correspondente ao apartamento dele. Meu namorado virou-se num sobressalto, mas logo percebeu que não havia ninguém no corredor. Caminhou em direção à porta do apartamento. De nariz empinado, recusando-me até mesmo um passo além de onde estava, falei:

“Ei, volta aqui, ainda não estou nua.”

Ele acabou de me despir e me deu um longo beijo. Permaneci dependurada no seu pescoço.

“Deixe-me encontrar a chave.”

Soltei-o enquanto tirava-a de um dos bolsos da bermuda. Abriu a porta. Fiz que ele entrasse primeiro.

“Fecha, quero que abras especialmente para mim.”

“Mas você vai ficar nua aí fora?”

“O que tem? Já estou nua há tanto tempo...”

Ele fechou. Subi um lance de escada e passeei nua pelo andar de cima. Depois voltei, toquei a campainha e esperei por ele.

Não sei muito bem o que aconteceu daí em diante. Apenas me vêm à mente imagens distorcidas do amor vivido naquela noite. Ele subia no meu corpo e me beijava. Lembro-me de um pedido seu: que eu ficasse de costas. Sempre reluto quando ele me quer por trás, mas como eu estava de pilequinho... Senti algo gelado no meu anus. Era ele lambuzanndo-me com uma pomadinha. Ao começar a me penetrar, gritei muito. Mas de prazer. Pedia que ele jamais parasse. Eu queria que aquela trepada fosse interminável. Gozei várias vezes. Enfim, apaguei.

No dia seguinte, contou, imitando-me a voz:

“Vem, continua, não gozes, fica assim à noite toda. Não quero que isso acabe de maneira alguma.”

Eu ria do jeito como ele tentava representar meus gestos e meu jeito de falar. Enquanto isso, eu bebia muita água, pois a ressaca era forte.

“Você é maravilhosa, jamais fizemos amor com tanto ímpeto”, falou e me beijou.

“Estou horrível, essas bebidas maltratam muito a gente.”

Tomou-me nos braços e me colocou na cama mais uma vez.

“Preciso ir embora”, falei, “minhas filhas devem estar preocupadas.”

“Elas já são adultas.”

“Mas se preocupam comigo.”

Depois de mais uma hora de descanso, levantei e fui ao banheiro. Quando voltei, perguntei:

“Viste minhas roupas?”

“Mas você não chegou nua?”

“Estás brincando...”

“Não lembra que você quis que eu fechasse a porta com você nua lá fora?”

“Ah, sim, acho que lembro, mas e as roupas?”

“Pensei que você as tivesse recolhido.”

“Eu? Ai, e agora? Só me faltava essa!”

“Não core”, disse, vou arranjar um jeito, mas antes venha até aqui.

Aproximei-me. Beijou-me, deitou-me e trepamos ainda uma vez.

Depois, bem, depois ele encontrou uma solução.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Agora conta, vai

Quando aceito conversar com alguém numa festa ou mesmo numa fila de cinema, sou tomada por dois arrepios. O primeiro é por me sentir desejada; o segundo, o mais intenso, é por causa do risco que por ventura eu venha correr nas mãos de um desconhecido. Isso mesmo, sempre me sinto incrivelmente excitada quando penso que eu possa estar namorando um tarado. Não desejo que ele me bata ou me ameace, ou mesmo que me obrigue a sair nua por aí, mas é então que vem o tal arrepio. Um segredo: toda mulher gosta de homens taradinhos.

Quando fui ao Rio, vivi um momento desses. Conheci um homem jovial na fila do cinema Estação. Conversamos um pouco e assistimos ao mesmo filme.

Dois dias depois, fui a sua casa. Achei que não haveria perigo algum, mas me veio o arrepio. Lá pelas tantas, depois de duas taças de vinho, ele sugeriu que eu fosse nua ao lado de fora do seu apartamento. Quase morri de tesão com a proposta. Aceitei na hora. E fui de peitos nus, o que me mata de vergonha. Bati à porta para fingir que chegava nua. Ele demorou a atender. Ao abrir, perguntou:

“O que houve? Você está nua, e batendo aqui, nem a conheço”, e ameaçou fechar a porta.

“Moço, por favor, me dê abrigo”, pedi aflita.

“Só se me contar o que aconteceu.”

“Deixa eu entrar primeiro, pode aparecer alguém”, falei, “estou morta de vergonha.”

Ele afastou a porta para que eu entrasse. Eu cobria os seios com as mãos.

Reparou minha aflição:

“Ok, vou arranjar alguma coisa pra você vestir”, correu ao armário e me trouxe uma camisa polo masculina.

Vesti-a, ficou justa, me cobriu apenas até as coxas, estiquei a malha pra tapar mais um pouquinho minhas pernas de fora.

“Agora conta, vai”, insistiu.

“Você jura que quer saber?”

“Claro, quero saber.”

Cruzei as pernas, a blusa subiu um pouco, meus seios balançaram sob a roupa.

“Mas você não acha melhor sentar aqui ao meu lado?”, me insinuei.

Ele veio.

“Gosta das minhas coxas? São tão grossas.” Descruzei as pernas, a malha subiu mais um pouquinho, acho que dei cineminha.

“São grossas, sim; você, tão gostosa, e nua por aí.”

“Mas estou preocupada”, segurei um de seus braços, “não posso ir embora peladinha, e moro tão longe...”

“Você não vai embora pelada, dou um jeito, arranjo uma roupa mais recatada pra você.”

“Verdade? Não acredito. Depois que vocês gozam, são todos iguais. Vai me mandar embora nua, assim como entrei”, cantei a pedra.

“Quer dizer que foi isso que aconteceu? Você transou com ele. Ele gozou e mandou você andar, pelada. Aí você bateu aqui.”

Fiz cara de dissimulada.

“Você deve estar até meladinha”, fez uma careta.

Comecei a desconfiar de que a situação não ia a meu favor.

“Não, não”, enrubesci, “trepei de camisinha.”

“Então você vai ter de me contar como foi essa trepada.”

Quando falamos de alguma relação anterior, o homem que está conosco fica ainda mais excitado. Ele virou-se para mim, com agilidade tirou minha blusa me deixando toda à mostra.

“Você falou que os homens mandam você embora nua depois do gozo. Se não me contar como foi, mando você antes.”

“Mas estou nua”, me encostei à parede, cobri de novo com as mãos os seios e me curvei um tantinho. Mas o que ele queria mesmo era ouvir sobre minha transa.

“Quer dizer que você bate aqui depois de dar pra outro, e nem quer me contar, é mesmo uma sem-vergonha.”

“Vou contar, escute”, e me pus a relatar a história recém-vivida. À medida que minha narração avançava, ele grudava mais em mim.

“Então você me quer agora? Ainda nem acabei o relato. Veja que sorte a sua, eu poderia ter ido à porta de outro, pra você tudo é lucro”, acrescentei.

“Lucro?”

“Isso, lucro” afastei um pouco as pernas, esperava por ele.

Tirou a roupa bruscamente, me enfiou o pênis por entre as coxas. Excitada, falei:

“Vai, me esporra, deixo que você faça sem camisinha.”

Ele encontrou o encaixe perfeito naquela posição. Apenas me levantou e deslizou pra dentro de mim. Chegou a me manter no ar por quase um minuto. Afastei mais as pernas para que ele se movimentasse melhor. Depois nos agachamos devagarinho, até que sentei sobre seu ventre, ainda com seu pênis dentro de mim.

Ao perceber que ele ia gozar, voltou-me o arrepio. Minhas palavras o excitaram mais do que meu corpo. Será que após sua ejaculação aconteceria o que eu mais temia? Seguiu-me o orgasmo. E eu ainda no exercício sobre o seu pênis.

“Vai, goza agora, me encharca, assim, assim, quero ficar toda meladinha...”, sabia que eu iria ao orgasmo mais uma vez, mesmo peladinha e ao lado de fora de seu apartamento.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Bateu-me à porta uma moça aqui do bairro

Outro dia bateu-me à porta uma moça aqui do bairro. Era tarde da noite e ela estava inteiramente nua. Isso mesmo, nuinha. Tenho certeza absoluta de que eu não estava delirando nem se trata de fantasia de quem beira os 70 anos de idade.

Pediu-me para entrar e, percebendo minha assustada fisionomia, não se fez de vexada. Já na sala de estar, perguntou-me em voz baixa: “o senhor deixa eu dar um telefonema?” Sentou-se então na cadeira que fica ao lado da mesinha do telefone, cruzou as pernas, tomou nas mãos o aparelho e se pôs a discar o número desejado, ou necessário, não sei.

Travou breve e quase monossilábico diálogo com a pessoa que estava do outro lado da linha. Num determinado momento, tapou o bocal e me perguntou: “qual o endereço daqui mesmo?” Falei e ela o repetiu para quem a ouvia.

Após desligar, pediu-me mais um favor: “posso ficar aqui uns dez ou quinze minutinhos?”

Assenti com um movimento de cabeça. Perguntei-lhe também se desejava mais alguma coisa.

“O senhor tem uma revista? Assim o tempo passa, não?”

Trouxe-lhe a revista. Era uma dessas semanárias. Ela se pôs a ler com interesse. Ainda mantinha a perna direita sobre a esquerda. Comportava-se como se fosse a pessoa mais vestida do mundo.

“A senhorita não precisa de algo para cobrir-se, quero dizer, uma camisa pelo menos?”, arrisquei.

“Ah!”, foi sua única resposta.

De repente ela abandonou a cadeira, pôs-se de pé, encostou-se à parede e cobriu os seios com um dos braços. Sorrindo, continuou:

“Será que o senhor ainda consegue?”, com a face luminosa, inclinou a cabeça e olhou o próprio corpo.

Aproximei-me, ela segurou-me e começamos quase uma dança, eu ainda vestido. Depois de algum tempo, ela própria abriu-me a calça e puxou o meu pênis. Para não relatar os pormenores, relaciono apenas sua última e destemperada fala:

“Me esporra, me esporra todinha, goza dentro de mim, vamos, goza muito, me deixa encharcada.”

Apesar da minha idade, suas palavras provocaram-me excitação jamais sentida.

Quando terminamos, ela voltou à cadeira, olhou para mim e falou:

“Agora aceito sua camisa”, transmitia uma ponta de vexo.

Dez ou quinze minutos depois, chegou quem ela esperava. Era uma mulher, e trazia-lhe um casaco, desses compridos, quase um sobretudo.

A moça vestiu-o, agradeceu e se foi.

Ainda a vi uma ou duas vezes em alguma rua aqui do bairro. Piscou para mim e sorriu. Tinha a mesma face luminosa daquela noite e, em seus olhos, ainda pude perceber ecos de suas palavras no momento de gozo.

quinta-feira, agosto 09, 2012

Vestidinho prateado

Sempre adorei roupas com brilho, amei mais quando meu namorado me envolveu num vestido prateado. Só que, mais uma de suas ousadias, o vestido era de papel! Isso mesmo, papel prateado, desses que se amoldam ao corpo de uma fruta quando desejamos protegê-la, ao gargalo de um licor, a um pote de doce. Meu namorado fez um tomara-que-caia bastante curto, e me caiu tão bem. Vestidíssima! E para minha elegância tornar-se mais segura, pediu que eu girasse enquanto aplicava sobre o prateado um filme, aquela transparência que usamos para acondicionar mantimentos. Imaginem, o papel brilhoso, bem justo, torneando-me o corpo, e por cima o filme. Quantos reflexos, tantas as luzes a refletir minhas curvas.

“Carol, você está lindíssima, ninguém pensou numa roupa desse tipo antes.”

“Isso, meu amor, és um verdadeiro estilista. As pessoas hão de querer palpites seus no vestuário a partir de hoje, basta que cheguemos logo à tal festa.”

“Carol, aquele nosso segredinho, ok?”

"Qual deles, querido?"

"Nada por baixo."

“Claro, você sabe que adoro andar nua, apenas papel e filme, acho que de hoje em diante me torno atriz.”

Aproximou-se, beijou-me, apertou-me. O vestidinho resistiu. A cada toque de suas mãos, meu corpo era desenho mais perfeito.

Saímos. O inverno nunca me amedrontou.

Na festa? O piscar das luzes tornou-me de todas as cores.  Houve quem parou para me olhar. Os garçons, sem exceção, queriam todos me servir. Em cada momento, meu sorriso abria-se a mais um reflexo prateado, luz nos meus dentes perfeitos. No toalete, várias mulheres perguntaram de quem fora a ideia. Uma disse que dali para frente já sabia como iria sair à noite para todas os convites, para todas as festas, cada dia uma cor, o dia vermelho, o dia verde, o azul, o amarelo, e até mesmo o preto. Todos refletidos pelo filme, ‘espelho mais adequado não há; e pode-se, da mesma forma, optar por outro modelo; comprido; decote em V; frente única; modelinho até os joelhos, o filme contribuindo para formar babados, colado com adesivo transparente’. Outra, próxima, falou à que vestia vermelho: ‘lembra aquela história que você me contou, nua na estrada, deixada pelo namorado, tudo combinado?, se você vestisse saia e blusa desse tipo não teria prejuízo, à noite seguinte já saía com novo enxoval’.

Voltei à dança e ao namorado. Ressorrisos, Redobrados brilhos. Outros homens a me saudar, a saudar meu namorado. Suas mulheres? Tristes, lamentosas, seus amados não possuem o mesmo talento. Não deixei que me roubassem o rapaz, estilista que só...

Partimos às três em ponto. Cinderela nua, desejosa de ainda sobre as areias da praia correr, sentir na pele a carícia do vento que antecipa a aurora, beijar o príncipe fugidio, deixar que goze com a mulher, que estremeça ao invento sedutor.

Gostei tanto do vestidinho, que o guardei para outra vez. Sabia que as invenções continuariam, que iriam mais longe. Mas o primeiro modelito, não queria esquecer.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Sem sutiã

Estava na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, carregava alguns livros para o café quando percebi um homem de meia idade observando-me. Eu vestia calça jeans e blusa de seda cor creme. Mas havia um detalhe, saíra de casa sem sutiã. Repousei os livros sobre a mesa e procurei a garçonete. O local estava tão cheio, que mal consegui avistá-la. O homem, insistente no olhar, permaneceu numa das extremidades do café, segurava uma sacola da livraria.

Enquanto não era atendida, abri um dos livros e comecei a folheá-lo. Era um romance de uma autora francesa cujo enredo parecia muito interessante; descrevia um professor de ensino superior considerado um intelectual muito em voga. Mas ele mantinha um caso com uma aluna da universidade onde lecionava. A história não parecia marchar na direção a que costuma seguir esse tipo de narrativa, e era ambientada no tempo da guerra de libertação da Argélia. O personagem, embora francês, fazia coro aos os protestos que desejavam a colônia africana livre. Outro livro, que eu tirara de uma estante de literatura brasileira, tinha a capa muito bonita e acabamento gráfico requintado, chamava-se Hotéis à beira da noite. O mais curioso é que o autor, apesar do nome estrangeiro, Per Johns, é escritor brasileiro. Era a primeira vez que eu descobria um livro seu. O terceiro livro que eu carregava, e de modo mais discreto – não desejava que as pessoas o percebessem comigo – era o da Margarida Nua. Como muitos devem saber, Margarida alcançou muito sucesso nos últimos anos. Seus livros, a princípio, foram classificados erroneamente como literatura erótica, mas, depois, os leitores e a crítica chegaram à conclusão de que se trata de literatura. Suas histórias urbanas, de cunho existencialista, ora curtas, ora mais extensas, abordam o prazer e a surpresa que a vida nos pode oferecer. Naquele livro, há uma história que adoro, é a da mulher que resolve passar a noite nua numa praia deserta à espera do namorado. Ele tem a incumbência de lhe levar roupas, mas ela espera, espera, e ele... , bem, acho melhor não contar, não quero estragar o prazer para quem ainda não conhece o livro.

O homem continuava a me olhar, conseguira uma mesa a três passos de onde eu estava. A garçonete já o atendera e ele tomava um café, apenas.

Pedi café com leite e um croissant. Enquanto aguardava, fixei-me nas páginas do livro. Comecei a pensar sobre o fato de as personagens literárias tornarem-se tão reais. No ato de qualquer leitura de ficção, jamais nos damos conta de que todas aquelas pessoas envolvidas no enredo são criações saídas da cabeça de um homem ou de uma mulher. As personagens da Margarida são tão reais, que é difícil acreditar que elas não esbarrem vez ou outra com a gente cidade afora. Hoje, Margarida Nua é a escritora que consegue de modo mais eficaz criar, sobretudo, mulheres muito verossímeis.

O desconhecido esperou que nossos olhares se cruzassem, então apontou para um dos livros que repousara sobre sua mesa. Era de Foucault, uma edição de capa vermelha, da Martins Fontes, muito bonita por sinal, que eu sempre admirei e ainda desejo comprar. Acabou por me oferecer o livro fazendo um movimento com a cabeça. Acho que notou o meu interesse pelo filósofo francês porque observou que me demorei no olhar ao ver o livro junto a ele. Fiz uma fisionomia reticente e continuei a folhear um dos meus. Mas ele insistiu. Achei que a recusa seria indelicada, melhor falar alguma coisa.

“Numa outra ocasião, agora estou ocupada com este aqui”, apontei o que eu tentava ler.

“Ah, contos da Margarida, são muito bons.”

Não sei se fiquei vermelha ou roxa, pensei que estava lendo naquele momento o livro do Per Johns.

“Não se preocupe”, falou, “não precisa ficar envergonhada, as histórias da Margarida são também foucaultianas, elas nos liberam dos grilhões das convenções sociais, exatamente o que Foucault estuda”, falou enquanto mergulhava nos meus seios.

Ainda descontrolada, deixei escapar um “ah”, e depois voltei os olhos para a página em que eu estava. Mas dali em diante já não foi possível continuar lendo.

O homem permaneceu na sua mesa e não mais me dirigiu a palavra. Tentei voltar à leitura, mas de outro livro, e não percebi quando o desconhecido se foi. Poxa, ele bem que poderia ser mais insistente, aí, quem sabe...

Caso contasse esse breve episódio a alguma amiga, ela diria que eu não sei aproveitar as oportunidades. Mas ali, na Livraria Cultura, achei que ele estava me paquerando apenas porque eu viera sem sutiã. Depois, ao voltar para casa, acabei achando que não seria nada demais um homem admirar uma mulher porque ela está sem sutiã. E eu, pelo menos, devia ter-me apresentado. Ele, em contrapartida, faria o mesmo. Assim, as coisas teriam sido mais fáceis.

Fui embora um pouco triste. Vivo queixando-me de que sou uma pessoa sozinha, quando surge alguém escondo-me. Sei que os contos da Margarida não são de autoajuda, mas preciso ler mais o que ela escreve, acompanhar suas personagens, tudo tão verdadeiro. Amanhã ou depois encontro de novo o mesmo homem, então serei capaz de ter outros olhos para ele.

Quem sabe, saio soltinha por aí.

sexta-feira, julho 27, 2012

O que estará ainda tramando?

Estou amarrada à cama, os dois braços estirados acima da cabeça presos à cabeceira por um grosso cordão de náilon; cordas do mesmo calibre também imobilizam minhas pernas abertas, as pontas das cordas estão atadas à parte inferior do estrado; minha boca amordaçada impede-me a voz. Perdi a noção do tempo, não sei se há horas ou se há quartos de hora permaneço presa. Consigo apenas mover a cabeça, vejo o teto e parte da parede frontal.

Não fui assaltada nem amarrada por homem desconhecido. Tudo é fruto de uma combinação entre mim e meu namorado. Só acho que, dessa vez, ele foi longe demais.

Sua, a sugestão de toda essa amarração. No início, hesitei. Mas depois acabei concordando, pois vivemos tantas fantasias juntos, que tal mais uma, e talvez mais emocionante?

Ele entraria em minha casa como um ladrão, perguntaria por dinheiro e joias. Depois que eu lhe passasse pulseiras, cordões, anéis e algumas notas de cinquenta, olharia surpreso o meu corpo e pediria que eu me despisse.

“Abaixe a arma”, falo, “não há necessidade.”

Vamos para cama. Mas a cama não lhe é suficiente.

“Vou amarrar você”, fala. Óculos escuros e chapéu de caubói disfarçam-lhe o rosto.

“Amarrar? Mas não combinamos isso”, assusto-me.

“Combinamos? Nunca vi você antes, não há combinação entre a gente”, tão convincente o meu homem.

Faz que eu deite. Já inteiramente nua, ele começa a caprichar os nós.

“Ok, estou adorando”, sussurro romântica, “nunca trepei com ninguém amarrada desse jeito, e está tão apertado.”

“Ainda falta uma coisa.” Vai à sala e volta com uma grande fita adesiva à mão.

Ao deduzir o que vai fazer, grito: “não, por favor, isso não, assim você vai me sufocar.” Movo a cabeça de um lado a outro, mostro desespero. Mas ele segura-me firme por trás e gruda uma lasca da tira sobre os meus lábios. Arfo um pouco, mas ao sentir que minhas narinas não estão obstruídas, tranquilizo-me, até mostro ligeiro sorriso.

“Safada”, grita, “gosta de sofrer, não é mesmo? Você vai ver o que vou fazer agora.”

Desembolsa uma faca e começa a percorrer meu corpo com a ponta. Encolho-me quando ele toca determinadas partes do meu ventre, das minhas pernas, chego a prender a respiração. Mas sua ação acaba fazendo-me cócegas. Então, ponho-me a rir.

“Você está rindo?”, grita ainda mais irritado. Vendo que nada me surpreende, pela primeira vez faz algo que me deixa desesperada. Vai à sala e volta com outra tira de fita adesiva. Segura com violência minha cabeça e cola o pedaço de modo a tapar minhas duas narinas.

“Sorria agora, putinha, quero ver, sorria”, fala mostrando-se jubiloso.

Emito grunhidos, já quase sem fôlego.

“Goza aqui na minha mão, goza, quero ver, só tiro a fita se você gozar”, acaba de falar e já está com a mão direita entre as minhas pernas.

Sinto que vou morrer. Ele percebe e destapa-me provisoriamente o nariz.

“Vou te dar mais uma chance”, fala exasperado,  "respire bastante, vou tapar de novo e você vai ter que gozar aqui na minha mão; caso  não consiga, deixo você mortinha.”

Sinto arrepios. A brincadeira inesperada (creio ainda que o seja), descompassou minha respiração, meu coração vai aos saltos.

De novo ele tapa-me o nariz. Continua o discurso: “goza, vamos, quero ver você gozar na minha mão.”

Começo a dar sinais de que vou desfalecer.

“Goza, você ainda tem essa chance, estou esperando, vamos, goza!”

Eu consigo apenas emitir sons esporádicos: “hum, hum, argh, hum, hum.”

Ele solta mais uma vez a fita. Sôfrega, absorvo o máximo de ar. Ele, então, me sufoca novamente.

Aí acontece. Não gozo como ele deseja, mas solto um forte jato de mijo, que lhe molha as mãos e espirra na parede.

“Isso”, sorri em êxtase “serve o xixi, serve, vou considerar como se fosse o gozo.”

Arranca a fita de meu nariz, repara que eu ainda tenho lágrimas nos olhos. Mantém-me amarrada e amordaçada. Tira o pênis para fora da calça, sobe sobre o meu corpo e o enfia dentro de mim. Está tão excitado que não demora a gozar. Depois escorrega para o lado e me masturba até perceber que estou gozando.

No final, depois de se recompor e de pegar as joias e o dinheiro, diz: “desculpa, mas não vou desamarrar você.”

Deixa o quarto. Ouço seus passos afastarem-se através da sala. Bate a porta e sai.

Agora estou à espera. O que estará ainda tramando?

sábado, julho 21, 2012

Rita - 3

Rita, o que é isso na mala do seu carro?

É uma bolsa com uma canga, há também um biquíni, ou mesmo uma calcinha reserva.

Pra que você precisa disso?  É para ir à praia de repente?

Pode ser, mas a intenção não é apenas essa. Vamos, Glória, estamos atrasadas e o trânsito deve estar congestionado até a Barra, conto pelo caminho.

Engraçado você guardar sempre uma canga na mala, acho que vou passar a fazer isso.

Não é nada engraçado, às vezes é a solução.

Como, solução?

Escuta, vou te contar. Outro dia saí com um micro-vestido.

Sei, aquele preto, curtíssimo.

Isso mesmo, curtíssimo. Vestido pra noite. Saí às onze, com o Valdo.

Puxa, vocês saem tarde, não?

Às vezes. Naquela noite voltaria até as três ou quatro da madrugada. Mas não foi o que aconteceu. Dormi na casa dele. Como ia voltar com o micro-vestido às sete ou às oito da manhã? Seria um escândalo, você não acha?

Boa ideia. Você voltou enrolada na canga, saiu da casa dele como se fosse à praia.

Me saí bem, não?

Legal, gostei mesmo.

Mas é preciso ter cuidado. Escuta outra coisa que aconteceu.

Saiu de roupa curta e esqueceu a canga?

Mais ou menos. Você já namorou nua no carro?

Cruzes, faz tanto tempo, acho que tinha dezesseis anos.

É porque você não é de ter muitos namorados. Há os que adoram tirar a roupa de uma mulher no carro. Outro dia voltei praticamente nua pra casa.

Você não tem medo?

Às vezes tenho. Faz poucas semanas usei um vestido também minúsculo, esse você ainda não conhece. Acabei dizendo ao cara: não volto pra casa não, fico contigo. Fomos pra casa dele. Quando acordei, adivinha o que aconteceu?

Ele saiu pra trabalhar e te deixou trancada peladinha em casa...

Antes fosse. Ia chegar alguém pra fazer um serviço no apartamento e a gente tinha que sair antes das oito. E qual não foi minha surpresa. Tínhamos saído na noite anterior no carro dele, e eu achando que estava com a canga na mala do carro. Quando lembrei, disse: não vim com meu carro! Ele: claro que não. Eu: e agora, a canga?

E o que ele disse?

O que ele poderia dizer? Nem sabia da história da canga.

E o que você fez?

Nada, voltei com o vestido curtíssimo.

E as pessoas?

Não reparei, coloquei óculos escuros e fiz cara de sonsa.

Rita, você é ótima para essas coisas.

Antes de sair pensei em telefonar pra alguém, alguma amiga, pedir um vestido ou coisa semelhante emprestado. Mas depois falei a mim mesma, quer saber de uma coisa? Isso vai dar o que falar. E voltei do jeito que saí à noite. A única olhadela mais indiscreta foi a do porteiro do meu prédio, mas ele já está acostumado com minhas extravagâncias...

segunda-feira, julho 16, 2012

Tocando piano nua?

Você demorou um tempo enorme pra abrir a porta, e eu pelada lá fora.

Foi você quem disse que queria ir nua lá fora, não?

Sim, mas eu dei o motivo.

E qual era?

Salvar a relação.

Onde já se viu alguém ir pelada lá fora pra salvar uma relação?

Você falou que sua namorada havia ido, eu quis ir também.

Já notei que você tem esse defeito, ou virtude, não sei bem, sempre acha que pode fazer melhor do que as outras. Se eu conto uma travessura de determinada mulher, você parece que sente tesão com o que ouviu e quer tentar também.

Não sei, o que lembro é que você demorou muito tempo pra abrir a porta, e eu pelada lá fora.

O que você sentiu, afinal?

Acho que fiquei aflita.

Eu poderia não ter aberto, sabia? Poderia ter deixado você nua lá fora pelo resto da noite.

Ela dá um sorrisinho.

Fiquei arrepiada.

E acho que você ia gostar.

Eu, gostar?

Por que não? Você gosta de correr riscos.

E eu era diretora da escola, já pensou se alguém me encontra nua? Que vergonha...

Mas foi você que quis ir, eu nem pedi.

Foi para salvar a relação.

Acho que não. Foi porque você não queria se sentir diminuída perto da outra, da minha namorada anterior.

Ah, deixa pra lá. O importante é que depois de tantos anos, estamos juntos de novo.

E qualquer dia desses, você vai de novo nua lá fora.

Ai, acho que não, já chega.

Aposto que vai. Mas dessa vez não vou contar mais nada. Não é bom falar de outras pessoas quando estamos juntos.

Ela se aproxima e lhe dá um beijo.

Mas, sabe, já vi uma mulher tocando piano nua, quer dizer, uma foto.

Tocando piano nua? Nunca pensei nisso. Mas acho que, se você quiser, posso tocar pra você.

Nua?

Nua, peladinha. Caso queira, também pode me fotografar.

Jura?

Oh, se não juro!

quinta-feira, julho 12, 2012

O beijo

Aquele homem já tinha passado por mim duas vezes, e eu sentada debaixo do guarda-sol, de frente para o mar. Como ele era bonito! Por si só não viria falar comigo, tinha certeza, então bolei um plano. Quando passou a terceira vez pela beira d'água, chamei-o. Ele atendeu.

“Acende o meu cigarro?”, perguntei.

“Infelizmente não fumo.”

“Que pena”, eu estava de pernas cruzadas, a revista sobre o baixo ventre. Tomei-a numa das mãos. Ele pôde então apreciar melhor minhas pernas. Notou o meu biquíni mínimo. “Às vezes é bom fumar, sabe, dizem que desenvolve a inteligência.” Ele sorriu, provavelmente pensou que eu era muito burra e tinha mesmo de desenvolver a inteligência. “Você não arranja fogo pra mim?”

“Vou tentar, volto já.”

“Se conseguir, ganha um prêmio”, falei com jeitinho de mulher meiga.

Voltou rápido, trouxe um desses isqueiros e disse que podia ficar, um presente.

“Você também pode ficar, um presente”, repeti.

Ele sentou-se um pouquinho. “Você é daqui?”, perguntou.

“Ninguém é daqui, é?” Ana Clara, de Niterói.

“Eu sou. Jardel, muito prazer.”

“Verdade?”, arregalei os olhos demonstrando surpresa.

“Verdade, verdade mesmo, nasci e fui criado aqui”, afirmou.

“Então você conhece todas as pessoas da cidade.”

“Quase todas, você eu não conhecia.”

Dei mais um trago e soltei a fumaça na direção contrária a que ele estava, mas o vento levou a fumaça até ele.

“Desculpe, devo a você mais essa.”

“Não deve nada”, falou. Ele tinha quarenta e poucos, ou mesmo cinquenta anos.

“E aí?”, sorri e olhei minha revista.

“Você é muito bonita”, sorriu e fez um gesto de que ia me abraçar.

“Você quer me namorar? A cidade toda vai saber disso.”

“Podemos ir a outro lugar”, apontou o carro próximo.

“A praia está tão boa, não quero ir para lugar nenhum agora”, fiz um jeitinho de manhosa.

“Não vamos para casa, mas a um lugar tranquilo.”

“Mais tranquilo do que aqui, não há”, falei.

Ele se chegou juntinho a mim. Ofereci os lábios.

“Você é oferecida”, debochou.

“Não se diz isso a uma mulher, posso ficar aborrecida.”

“Mas você não liga, não é mesmo?, quer aproveitar a vida.”

“Quero mesmo, e aproveitar bem.”

“Vamos ou não?”, insistiu mais uma vez.

“Para onde?”, foi minha vez de debochar.

“Você quer saber mesmo?”

“Não precisa dizer, já sei.”

“Então?”, ele, que não desistia.

“Vou ficar aqui, volte depois, aí, quem sabe...”, resolvi tornar-me difícil.

“Você me chamou e agora está me despedindo?”

“Vamos fazer uma coisa, troquemos objetos, fico com algo seu e deixo com você uma coisa minha. Já que você não quer ficar aqui ao meu lado, assim está garantido que vamos esperar um pelo outro”, ele se animou com a minha proposta.

“Vejamos, o que posso levar de você?", fez cara de que desejava algo muito especial.

"Você é quem deve dizer..."

"Quero o seu biquíni", falou decidido.

"O meu biquíni? Mas assim você vai me deixar nua", adiantei-me, cobri minhas vergonhas com as pequenas e insuficientes mãos, era a mulher mais pelada do mundo.

"Mas você não falou que era eu quem devia dizer?"

“Ok, dou o biquíni, vamos até ali", apontei para dentro d'água. Ele me seguiu. Tire você mesmo, mostrei os lacinhos. Fico aqui te esperando”, sorri desembaraçada.

Por essa ele não esperava.

“E agora, o que vamos fazer?”, falei enquanto ele permanecia parado, coberto pela água do mar até a cintura, à minha frente e com meu biquini dependurado numa das mãos.

De repente se deu conta da rídicula situação e o escondeu dentro da sunga. Fez um movimento como se fosse embora.

Ei, espere, falei, lembra?, você tem que deixar comigo uma coisa sua.

Puxou-me então pela cintura bem junto a seu corpo e me tacou um longo beijou na boca.

Nessas horas não pisco, e meus olhos sempre brilham.

“Volto já, viu", virou-se abrupto e partiu.

Biquínis, sempre tive muitos, mas, confesso, um beijo como aquele foi o único.

quinta-feira, julho 05, 2012

Perdi a cabeça

Sinto tantas saudades de um namoradinho. Faz alguns anos que não o vejo.  Outro dia, revendo uma foto minha, despertei para as sensações que ele me proporcionou no curto período em que estivemos juntos. Lembro que fui apresentada a ele por uma amiga. Fazíamos um curso juntas. Ela já tinha viajado à cidade onde ele morava, no interior do Rio. Não perguntei se viveram um romance. Ela apenas me falou que se tratava de alguém muito interessante, e me passou o número do seu telefone. Liguei num domingo à noite. Fui atendida com muita cordialidade. Ficamos de conversar nos dias que se seguiram. Não passou muito tempo, viajei ao o Rio.

“O que você gostaria de fazer?”, Carlos me perguntou na primeira noite.

“Não conheço nada por aqui, é melhor você escolher”, respondi.

Embora morasse a duzentos quilômetros da capital, ele dirigiu até o Rio para me levar ao teatro, o Maison de France.

Depois jantamos num restaurante da Zona Sul. Lá pela uma da madrugada, sempre carinhoso, me levou para um hotel na Praia do Flamengo.

“Você é muito bonita, deixa eu fazer algumas fotos suas”, pediu.

“Você é fotógrafo?”

“Mais ou menos.”

“Como alguém pode ser mais ou menos um fotógrafo?”, eu quis saber.

“É que não trabalho profissionalmente com fotografia, mas sempre trago a câmera para clicar o que acho belo.”

“Então quer dizer que sou bela?”

“Belíssima”, sentenciou.

No apartamento do hotel, fiz várias poses para ele. Não pediu para me fotografar nua, mas, como já tinha bebido e estava soltinha, sugeri a foto mais ousada. Sentei-me comportadíssima, de pernas cruzadas, mas inteiramente nua. Meu braço direito cobria parte dos seios, e eu sorria. Ficou linda a foto. Logo depois ele me mandou por e-mail.

Naquela mesma noite namoramos destemperadamente. Como Carlos me deu prazer! Conforme fui ficando excitada, comecei a gritar: "ai, vou perder a cabeça, vou perder a cabeça, não aguento mais; ai, estou perdendo, estou perdendo a cabeça, estou nas tuas mãos; por favor, não perde a tua, te segura, não goza dentro, por favor; ai... ai... ui... ui... estou gozando, estou gozaaaaannnndo". Ele foi cavalheiro, me fez gozar três vezes; só depois vestiu a camisinha, me penetrou mais uma vez e gozou.

No dia seguinte voltamos à sua cidade. Ali há uma praia linda. Mesmo não sendo verão, fomos tomar sol e banho de mar. Ficamos o dia inteiro passeando. Almoçamos num restaurante rústico e depois voltamos para a praia. Então ele me pediu algo que me deixou primeiro temerosa, mas depois arrepiada. Queria que eu tirasse o biquíni dentro d’água e desse a ele para guardar lá no guarda-sol, junto aos nossos pertences. 

O arrepio durou  uns cinco minutos, e os saltos do meu coração mais ou menos dez. Enfim, aceitei. Tirei o biquíni e entreguei a ele.

Como foi bom a partir daí. Nuazinha dentro d'água pelo resto da tarde. Carlos ora ao meu lado, ora à minha frente, ora às minhas costas. Perdi a cabeça mais uma vez. Nem tremi quando uma moça e um rapaz passaram junto a nós. Transar naquela praia foi demais.

À noitinha fomos para casa, e não conseguimos parar de trepar.

Veio o domingo, era meu último dia na cidade. Viajamos quarenta minutos até Búzios. Achei a cidade encantadora.

No final da tarde, pedi outra foto a ele:

“Você me fotografa nua, nessa praia?”

“É pra já”, suspirou de alegria.

Mesmo com pessoas aqui e ali, tirei as duas peças e pedi que ele agisse rápido. Acho que pensaram que eu era atriz. Apenas um garoto se aproximou ao constatar que eu estava nua, mesmo assim ficou a uma boa distância.

À noite, parti de volta à minha cidade. Tinha de voltar, não havia jeito. Muitas promessas da parte dele e cara de choro a minha. Mesmo assim tive ideia para mais uma ousadia. Esqueci (de propósito) o biquíni na torneira do chuveiro. Minutos antes, eu perdera a cabeça mais uma vez. Aliás, perdemos os dois.

A foto que me apanhou nua na praia, lembrança boa dele, lembrança boa daquele final de semana. Por que não fiquei com o homem?

Acho que perdia a cabeça.

quinta-feira, junho 28, 2012

Mãos, músculos e sexo

Lenilda entrou no ônibus e misturou-se aos passageiros. Tornava-se novamente anônima em meio a tantas pessoas. E, para completar sua tranqüilidade, a linha era a mesma que usava para voltar a casa. John ficara para trás, ela nem mesmo virou a cabeça para sorrir a ele. O veículo seguiu seu caminho, pouco a pouco foi deixando as avenidas do centro para arrastar-se pelas ruas do subúrbio.

O copo de bebida refletia a cor vermelha. Sempre quisera saber que bebida era aquela, mas nunca perguntara. Quando John lhe oferecia, recusava com polidez e simpatia. Mas o vermelho da bebida girava em sua cabeça, transformava-se num mundo novo, cidades distantes com pessoas por todos os lados, lojas, restaurantes, hotéis e aeroportos.

Uma peça de roupa, um presente. Ela sorriu e agradeceu. Mas não poderia levar, não estava acostumada a chegar em casa com um presente sem que todos pedissem para ver o que ela carregava. A não ser que... A não ser que vestisse ali mesmo o presente. Ninguém saberia o que ela ganhara, não era o tipo de presente para ficar à mostra.

Os braços de John, como eram fortes; ela não estava acostumada, jamais se relacionara com um homem tão robusto, ele podia levantá-la com apenas uma das mãos, ele podia acariciá-la com a ponta dos dedos. Mas temia toda aquela força. No começo, tudo é de uma intensa doçura, mas com o passar do tempo, quem sabe, ele podia usar toda aquela força contra ela. Portanto, ela não se entregaria totalmente.

A suíte estava escura, melhor assim. Não, por favor, não acenda a luz, fiquemos na penumbra, também não vamos conversar, deixemos o diálogo a cargo de nossos corpos. Fora mesmo ela que dissera tais palavras? Na verdade, ouvira-as numa telenovela, e das mais vulgares, talvez de bom apenas as palavras. Mas as mãos de John, como eram aveludadas.

Maria Alice. Isso, onde estava agora a falsa amiga? Contava cada história, episódios arriscados, escapadas espetaculares. Seria tudo verdade? Maria Alice mostrou um retrato em que estava nua. Quem tirara? Um dos namorados. E ela os tinha às pencas. E o marido? Ah, ele não queria saber de nada, e ela divertia-se tanto... Maria Alice. Mas seriam verdadeiras as histórias? Pode ser que as inventava para que ela contasse as suas. Talvez tudo fosse mentira, queria, isto sim, saber as suas verdades; caso deixasse escapar alguma das aventuras, tudo estaria perdido. Lenilda apenas ouvia, ouvia, ouvia. As histórias tinham contradições. Um dia descobriu o livro de onde Maria Alice tirava aqueles relatos. Tudo literatura.

Não existe amigo nem amiga, todos estão na mais completa solidão. Não há a quem se dirigir, todos são suspeitos. Tudo que falamos pode se voltar contra nós. Lenilda guardava a própria angústia. John não era seu amigo, não era seu amante, era um homem que uma vez por semana a deixava nua, subia sobre seu corpo, gozava e lhe fazia gozar.

Havia a imagem de um rio. Sua cidade, porém, não possuía nenhuma espécie de rio, nem mesmo um córrego. Mas a imagem do rio sempre lhe vinha à mente. Talvez um sonho, talvez em uma viagem ficara a fixação. Mas ela jamais viajara.

A praia não era distante, John queria levá-la até lá. Mas ela só podia se fosse no começo da noite. Combinado. Foram até a praia. Mas um vento forte não deixou que eles caminhassem sobre as areias por muito tempo. E John queria despi-la ali mesmo. Estás louco? Queres me deixar nua? Repetiu as duas frases. Você gosta de aventura, foi o que ele falou, você gosta de aventura, repetiu. Olhe lá, uma jovem com o namorado, está muito à vontade, por que você não pode estar também como ela? Por quê? Lenilda correu, queria ir embora. Mas John alcançou-a, segurou-a com um beijo. Lenilda dizia que os beijos de John causavam-lhe paralisia. Está bem, acabara por concordar, tire toda a minha roupa, mas vou morrer de frio.

Não morreu de frio, o corpo musculoso do amante serviu-lhe de anteparo.

Lenilda, vem comigo, teu marido tem mais trinta anos que você, vem comigo Lenilda, mesmo que seja nua.

Abraçaram-se, beijaram-se, perderam-se no tempo. Não puderam ouvir o sussurro do casal de namorados. Mas eles não sussurravam, apenas mãos, músculos e sexo.

O ônibus entrou no bairro em que Lenilda morava.

quinta-feira, junho 21, 2012

Naquela noite ele não apareceu

Nunca fale ao seu namorado sobre seus exs. É um preceito elementar. Mas o pior é descrever alguma loucura que você tenha feito com um deles. 

Fui cair na besteira de contar que um ex-namorado me deixou nua numa rodovia, disse ainda que, no final, acabei gostando da brincadeira. Meu atual namorado, embora tentasse não demonstrar, fixou-se na situação. Não passaram muitas horas para que ele voltasse ao assunto.

“Você não pensou no perigo que corria?”

“Sim,  pensei, mas na hora não sei onde estava com a cabeça.”

“Ele poderia não ter voltado.”

“Cheguei a temer que isso acontecesse”, falei.

“Um homem que inventa essas brincadeiras é infantil, ou não gosta de mulher.”

“O problema não é ele gostar ou não de mulher, mas a mulher gostar da brincadeira.”

“E você gostou?”

“Naquele momento, sim. Já falei sobre isso.”

“Então a ideia dele não foi tão má assim.”

“Claro que não.”

“Iria outra vez?”

“Acho que agora, não. Tenho medo.”

“Medo de quê?”

“Você quer me fazer passar por isso outra vez, não?”, sugeri.

“Só se você quiser.”

“Não, não quero, minha época de loucuras já acabou.”

Não tocamos mais no assunto. Mas sempre ao estar a seu lado no carro na mema rodovia, que também utilizávamos em dias alternados para ir de uma cidade a outra, ele ficava agitado.

Uma semana depois, enquanto voltávamos tarde da noite para casa, perguntou:

“Você já falou sobre aquilo a outra pessoa?”

“Sobre o quê?”

“De ter ficado nua na rodovia.”

“Vem você de novo, parece que ficou tarado com esse fato.”

“Falou ou não falou?”, olhou para mim rapidamente enquanto dirigia.

“Não, não falei.”

“Jura?”

“Juro. Falei só pra você?”

“Então não há perigo.”

“Perigo de quê? Não me bote curiosa.”

“Perigo da coisa se espalhar.”

“Espalhar, como assim?”

“Alguém dizer que a viu nua por aí, ou que você chegou pelada em casa, de madrugada.”

“Não, ninguém vai poder falar de mim, e esse caso já aconteceu faz um bom tempo.”

“Então está bom”, falou enquanto reduzia a marcha onde há uma faixa para travessia de pedestres. Mas não havia pedestre algum para atravessar.

“Você teria coragem?”

“Coragem de quê, Mário.”

“De atravessar a faixa de pedestre.”

“Atravessar para quê? Não é o meu caminho.”

“Atravessar nua.”

“Você está querendo mesmo isso, não? Fui contar, agora estou frita.”

“Frita?”

“Já que você ficou morrendo de tesão depois que contei e já não fala em outra coisa, vou satisfazer a sua vontade. Encoste ali”, pedi.

Ele manobrou.

“Vamos fazer direito. Tiro toda a roupa, deixo dentro do carro e você parte. Faça o retorno daqui a dois quilômetros e volte para me buscar, ok?”

“Você vai tirar toda a roupa?”

“Não é isso que você quer?”

“É, pode ser”, sua voz chegou a embargar.

“Então, vamos, combinado?”

Fiquei nua, entreguei o vestido, cumpri o prometido.

Ele? Não apareceu. Pelo menos naquela noite.

quinta-feira, junho 14, 2012

Olímpica

Queres todo o serviço, não? Conto, com vagar e pouco a pouco. Nada deixarás de saber.

As mulheres adoram andar nuas. Verdade. Pode aparecer alguma que o negue. Mas mente. Todas amam a pele apenas, e ao arrepio.

Já saí nua sentada no banco do carona. Na primeira vez, lógico que tremi, transpirei, o ventre e as pernas molhados de suor. E nem era verão. Mas, depois, com uma ponta de gozo, a excitação súbita, veio a compensação. Só o sapato e uma bolsa mínima, imagina. Saí do carro, sim. Saí do carro assim... Tremes só em pensar, juras? Mas como foi bom, nua e sob o sereno, amar.

Há namorados mais conservadores. Alguns me querem de vestido. Derradeira peça a me cobrir. E como gelam ao acariciar-me a pele. Sutil, não?

E houve aquele que me levou embrulhada num grosso casaco de peles. Apenas coberta pelo pano pesado e o liso forro a roçar meu corpo leve, nada mais. Se ele roubou-me o agasalho? Claro, que mais poderia levar?

Já dirigi também vestida apenas pelo carro. Saia e blusa de metal e vidros. Estes, pouco transparentes. Percorri 15 km ao encontro do amante.

Se já corri nua surpreendida pelo sol, finda a madrugada? Várias vezes. É meu o recorde olímpico!

Lembrei também aquele que me fez esperar quinze minutos ante à porta da rua. Batia, batia e ele, nada. E eu, nua!

Sempre em público, sempre externa, nada mais me surpreende. Achas as mulheres loucas? Os homens muito mais! Aguentam-se as suas loucuras e se terá o namorado perfeito.

Mas sinto que tu me queres pelo avesso. Aonde vais com a câmera? Já me desces o liso  ventre. Poucos meus pelos pubianos, constatas; na verdade, quase nulos. Mas me invades com a extremidade fria do vitral!

Queres filmar-me por dentro? Oh, você, nunca vi nada igual! Avança, com vagar, mas avança. Assim já alcanças.

Olhas no monitor? Aprecia! Tão comprido o mar... Vê, logo hás de nele mergulhar.

quinta-feira, junho 07, 2012

Ele está logo ali

Esse biquíni vermelho cai bem em você.

Você acha, mas vou te contar, quase já o perdi, sabia?

Perdeu, como?

Vamos parar aqui nesse quiosque pra tomar uma água de coco, já te conto.

Algum homem veio atrás de você e uau, arrancou o biquíni...

Não foi bem assim. Quer um pouco da água? Está uma delícia.

Não se preocupe, Teresa, vou comprar uma também. Mas vai, conta como você quase ficou sem.

Um cara, até muito bonitinho, mas não aconteceu aqui na praia, foi na casa dele.

Hum, na casa dele.

Isso, acabei aceitando o convite, você compreende, não?

Oh, como compreendo.

Eu estava aqui pertinho, ali naquela parte da areia; ele foi conversar comigo; aceitei o papo; no final estava louquinha pra trepar com ele.

Então, na casa dele e no mesmo dia.

Isso. Saímos daqui direto pra lá. Namoramos até tarde de noite. Foi ótimo. E quando eu fui embora, uau...

Ele mordeu seu bumbum e o biquíni ficou nos dentes dele.

Não foi bem assim. Sabe como é, homem tá difícil, e ele é tão gostoso, tive de arranjar um artifício.

Artifício?

Isso, Sônia, artifício, adivinha qual?

O biquíni.

Acertou. Esqueci de propósito no apartamento dele. E a minha camiseta era tão curta.

Você estava de camiseta curta?

Cobria só um tantinho pra não me deixar nua. É daquelas que fazem os homens olhar pra trás procurando a calcinha. Joguei sobre o meu corpo e dei um bye-bye. Ele me beijou e eu saí. Lógico que eu vestia o top, por isso deve ter pensado que eu também estava com o biquíni por baixo. Mas o deixei na torneira do chuveiro.

E depois?

Depois? Ele me procurou no dia seguinte. Na praia, no mesmo lugar. Me convidou a voltar lá pra pegar.

Aí você voltou.

Voltei. Uma gostosura o homem, tão saboroso como essa água de coco.

Água de coco, Teresa?

Isso mesmo, essa que nós estamos bebendo. Mas é lógico que trepar sempre é melhor.

Quer dizer que você andou por essas ruas só de camiseta.

Andei, juro, mas era noite, e em minha portaria não há ninguém depois das onze.

Acho que vou experimentar, Teresa, andar só de camiseta.

Não, Sônia, melhor experimentar o homem. Eu mostro quem é, e ele está logo ali... 

sexta-feira, junho 01, 2012

Tênis vermelho cano longo

Corro na orla, mais de duas da madrugada. Um carro me segue, sei que alguém dentro dele me está filmando. Minhas passadas são firmes, resistentes, calço tênis vermelho cano longo. O início de outono me acaricia a pele, mas não sinto frio, o calor do meu corpo em movimento basta para me manter aquecida. Até agora não cruzei com ninguém. Não fosse o automóvel atrás, a vinte ou trinta metros, estaria totalmente só.

Sei que o tênis cano longo cobrindo os pés e os tornozelos de uma mulher é um fetiche, e o homem que a olha nua, apenas de tênis, há de achá-la a mulher mais gostosa do mundo. Já fiz fotos assim. Foi o maior sucesso. Posei em pé, sentada sobre um banquinho, no chão em posição de lótus, deitada. Mas sempre me cobrindo os pés e os tornozelos o tênis cano longo.

Até que meu namorado me convenceu a correr na orla da praia, alta a madrugada. Sempre corri, disse a ele, tenho bom preparo físico. Ele, porém, acrescentou: correr vestida apenas de tênis cano longo.

Há meninas que usam minissaia com esse tipo de tênis. Ficam umas gracinhas. E não há homens que não se voltem para elas.

Passeamos no carro dele. Paramos no Leblon para comer sushi. Comida sensual, o sushi, acompanhado de caipirinha de saquê, maravilha. A bebida logo produz efeito, sobe pelas pernas. Ai, que vontade de ficar nua. Que vontade de transar.

Saímos do restaurante ainda contagiados pela arrumação artística e pelo sabor dos pratos da culinária japonesa. Já no carro, meu namorado envolve minhas pernas com suas mãos, salta às minhas coxas.

Espere, eu mesma tiro. Sem a saia; a seguir, sem a blusa. Vou apenas de tênis cano longo. Me abrace, me beije, sussurro.

Você está linda, vamos andar um pouco. Ele começa a guiar pela orla marítima. Você gosta mesmo de andar nua, não é mesmo?, sua voz baixa soa amorosa.

Adoro.

Será que faz frio lá fora?

Vou experimentar.

Isso mesmo; nos seus olhos há uma ponta de euforia; vamos pensar positivo, não vai aparecer ninguém, diz.

Ele pára. Saio do carro e faço ligeiro aquecimento.

Você é boa atleta, há de conseguir correr os quatro quilômetros.

Mesmo depois das duas caipirinhas, sorrio para ele.

De repente a vontade louca de escapar, correr sozinha, ninguém atrás de mim. Depois subir a pedra na ponta da praia, nua.

quinta-feira, maio 24, 2012

Deleuziana

A tarde cai, também crepuscular o ambiente na faculdade. Seria bom ter sempre gente para debater assuntos como filosofia, literatura, pensamento contemporâneo, a escrita dos franceses sobre a tênue fronteira entre a palavra e o que ela representa etc. Mas não é tão fácil. Muitos estão aqui apenas para receber o diploma no fim do curso e com ele ganhar dinheiro. O debate sobre a produção da cultura humana, sobre até que ponto se pode chegar ao requinte de se elaborar fios de pensamentos representados por palavras, artifícios mais delicados do que uma teia quase transparente, é difícil de se concretizar, a não ser durante alguns fugazes minutos numa defesa de tese de aluno brilhante. Mas o mundo é assim mesmo, sempre o palpável é o caminho mais fácil, a vereda dos sentidos. Concreto é sentir fome, sede, necessidade de sexo. Até mesmo experimentar o fino paladar de uma taça de vinho raro já não é para qualquer um. Imagine as abstrações e suas representações. No mundo de hoje existem  pseudo-abstrações extremamente vendáveis; dão esperança de uma vida melhor a muitas pessoas, induzem ao pensamento de que obstáculos são fáceis de serem superados. Emagrecer, eliminar a depressão, superar o temor, viver feliz sem namorado, estar satisfeita dentro da própria casa etc. A tarde vai caindo, vou deixando para trás o campi da universidade. Entro no mundo dos comuns. Uma aluna disse a outra que adoro tomar cerveja. Esta observou que sou magra, talvez mesmo o exemplo atual de mulher bonita, como poderia então tomar cerveja? Não sei, voltou à carga a primeira, ouvi falar que ela entorna. Ri da expressão. Quer dizer que entorno... Não comentei nada com ninguém, achei tudo tão engraçado. A conversa chegou ao meu ouvido por vias transversas. Vá lá, acho que ela tem um pouco de razão. Mas não entorno. Caso o fizesse, teria pelo menos um pouquinho de barriga. A causa do comentário deve ter sido a festa na boate. Alunos sempre acabam sabendo. Não chegam a eles nossas ideias básicas, nossa linha de raciocínio, o que publicamos no último artigo na revista da universidade. Mas o que bebemos na última festa. Seria bom que comentassem sobre minha principal pesquisa, sobre os conceitos que se originam nos franceses a respeito de territorialização, fronteira, entrelugar, estranhamento. Tudo isso fica ao largo, à deriva em mar de escolhos. Dão valor apenas ao que aconteceu na boate e ao tanto que bebi. Por falar em fronteira, em entrelugar, pode ser que acidentalmente comentem sobre isso, mas não devido à leitura atenta dos conceitos deleuzianos. Algumas pessoas reparam que gosto de dançar, que num fugaz momento enquanto vou voraz no ritmo de uma canção alguém me toca as costas e acaba deixando a mão. Não entendem que precisamos relaxar após o dia intenso de leitura e de pesquisa. É por isso que nos largamos em boates ou mergulhamos em copos de cerveja vez ou outra. Mas aquela mão me toca com tanto carinho, com tanto cuidado, que a permito sem me dar conta da pessoa. Um professor admirador? Algum aluno? Alguém desconhecido? A mão é de uma mulher. Deixo a mulher continuar. Faço de conta que nada sinto. Ouço vozes, a Ana é muito bonita, mas acho que gosta de mulher. A Ana é lésbica. Oh! exclamam quase todos. Talvez uma aluna mais sofisticada se manifeste, a Ana às vezes deixa seu território e passa para território vizinho. O lugar de mulher é deixado ao largo para que ela adentre outro em que não está claro a quem pertence, se a homem ou a mulher, talvez seja essa a definição de poesia da qual ela tanto gosta. Pau é pedra; pedra é pau. Simultaneamente. Palavras são reflexos luminosos frágeis, que mais criam situações do que definem experiências humanas. Não existissem as palavras, impossíveis as situações. De quem a razão? Platão, Aristóteles, Kant, Hegel ou Lacan? Deleuze detonou a psicanálise apresentando a tese de que o Édipo é apenas um pó ante as inúmeras situações que marcam a proibição. O lugar da Ana Lídia é altamente volátil, está diluído numa microfísica de poder em que não se encaixa a formulação de filósofos que trazem teorias totalizantes. Ufa! Tudo isso por causa de um desregramento na boate. Mas atravessaria apenas mentes privilegiadas. Para homens e mulheres comuns: lésbica. Quem estuda o entrelugar, o lugar extremamente volátil, aquele espaço móvel em que não se sabe se está nua ou vestida, é alguém que possui o espírito sutil. Não sei se palavras como espírito e sutil são adequadas, mas vamos a elas para o bom entendimento. Preciso ser didática nesse ponto. Vestido curto, soltinho (sempre o calor), sandália rasteira, dou a volta pelo estacionamento, vou ao copo. Quem na mesa pode discutir territorialização e espaço tênue entre fronteiras? Homem ou mulher? Não importa. Alguém. Conversa também é afeto.

quinta-feira, maio 17, 2012

Naco de amor

Blusa de algodão; saia de malha, preta, curta, solta, corte em diagonal; meias arrastão descendo até entrarem pelas botas de cano longo. Apenas. Se faz frio, o casaco cinza escuro. À noite vou pelas travessas do centro velho. Vielas de luz escassa. Um ou outro bar. Homens, que sempre se enganam, julgam-me prostituta. Represento. Se já tive algum problema. Teria, se minha defesa não fosse o ataque. Polícia? O que há de mais perigoso. A cidade tem suas luzes esmaecidas. Perco-me em meio às sombras, sob o tímido brilho das estrelas do céu urbano. Espero o prazer. Ainda que barato. Sozinha, na indigência dos resíduos que escorrem do dia findo. Enfio-me num beco. Nova York? Letreiro de loja apagada, esquecida à hora tardia. Riscos nas paredes. Grafite rasurado. Alguém me quer sem as meias, sem a saia, sem a blusa surrada. Agarra-me num beco, beija-me a boca, roça meu corpo. Tira seu sexo e tenta encaixá-lo entre a costura esgarçada de minhas pernas. Gozo eu? Talvez.

Abandona-me nua, encolhida, os braços apenas de abrigo, sussurro-lhe ao ouvido.

Escondo-me. Procuro outros vãos, reentrâncias, silêncios. Até quando a fragilidade do fio suportará o peso do equilibrista?

Leva-me nua, digo a outro em meio ao burburinho seco da noite vazia, deita-me ainda que sobre a soleira de qualquer porta, não me deixes escapar sem que eu umedeça teus lábios, sem que te deixe o sexo molhado.

Aventura. Que mulher não está disposta? Basta-lhe leve indício de sobrevivência. À beira do abismo, porém. O fio da vida quase partido. Momento do orgasmo. Não temes? Alguém há de perguntar. Temer?, repito o verbo. Temem a mim. Sou eu a fera. Primeiro, mansa, os braços soltos a deslizar sobre os alheios, homens rasos, noturnos, desconhecidos. Não sei nem interessa a mim de onde vêm, aonde irão. Como tremem! Ante a mulher nua que anda na via pública, amante que lhes oferta o corpo suado de volúpia.

quinta-feira, maio 03, 2012

Assuntos profissionais

Essa história que você conta não é do meu agrado. Não gostaria que viesse um homem conversar comigo no final da madrugada para depois despedi-lo e levar apenas o número do telefone. O melhor seria conhecê-lo cedo, no início da festa, ficar com ele a maior parte do tempo e depois namorá-lo em algum lugar privado, até o amanhecer. Ou, quem sabe, dormir com ele na sua própria casa, acordar e beijá-lo muitas vezes. Sair de uma festa sozinha significa um fracasso. Você me disse que dias depois o encontrou para um negócio, algo profissional, e que ganhou um bom dinheiro, as tais fotos que você fez como modelo para uma grife famosa. Ótimo. Mas quando se sai para diversão, não se deve pensar em trabalho, e sim em prazer. Às vezes é possível unir as duas pontas, não é mesmo? Mas é difícil. Um evento musical num lugar como Cabo Frio é o momento certo para se divertir. A cidade sempre está em clima de festa. A Carlinha foi criticada por muita gente, e até hoje falam nisso. Só porque no fim da noite foi à beira da praia para namorar um dos rapazes. E ficou nua. Mas ela estava certa, deve ter aproveitado bastante. Eu fui àquela comemoração. Carla esteve nos braços de três ou quatro homens, e não foi apenas para dançar, a roupa que usava, um vestidinho curtíssimo e transparente, também foi motivo de críticas por parte das garotas fofoqueiras. Ainda bem que ela nem ligou para o que falaram. E o mais importante: continua a mesma. Não só os rapazes gostaram, mas, aposto, as garotas queriam estar no lugar dela. Quando falam muito é porque sentem inveja. Eu, porém, não gosto de transar em lugar público, mas aí já é problema particular de quem gosta. Certa vez, acho que já faz dois anos e pouco, foi no mês de janeiro, viajei a Angra dos Reis. Ali, sim, tive muita sorte. Fiquei com um homem lindo. Não era um rapaz, não, mas um homem mesmo, devia ter seus quarenta anos. Disse que era engenheiro numa grande empresa de petróleo. Precisava ver como me tratou. Meu amor pra cá, meu amor pra lá... Além da festa, me levou a um restaurante lindíssimo. Depois, fomos ao barco dele. Tinha na verdade um iate, passamos a noite juntos. Nunca havia namorado num iate. Foi ótimo. Ele tirou toda a minha roupa e fizemos amor num dos camarotes. Não tive preocupação alguma. Pena que depois não continuei com ele. Propôs que morássemos juntos. Mas achei cedo. Tenho o meu emprego, e é um bom emprego, você sabe. Ele queria, porém, que eu me demitisse para casar com ele. Não achei aquilo bom, temi que mais tarde não desse certo. Mas não sei, às vezes me arrependo das minhas decisões. Sou muito pele, todos percebem isso, quero (deixa falar baixinho) gozar muito, não penso em muitas responsabilidades. Também não me apetece ficar na dependência de um homem. E se eu sentir desejo por outro? Você me entende; quando a gente tem por fim o prazer, não conta muito a pessoa a quem se está ligada. Já tive quase todas as experiências, muitas delas já contei a você. Só não tive a que viveu a Carlinha. Amanhecer nua numa praia, nunca aconteceu comigo. Também conheci vários tipos de homem. Mas acho que ultimamente estou sem sorte. Acabar uma festa e ter de voltar sozinha pra casa é muito azar, não acha? Sou muito bonita, me cuido, vou ficar bonita sempre, tenho certeza, penso que mereço o melhor, mas não se deve exigir demais. Por isso é que digo: se me aparecesse um homem como esse de quem você acabou de falar, eu não ia, pelo menos a princípio, tratar de assuntos profissionais.