quarta-feira, outubro 30, 2013

Sushiman

Para contar essa história, preciso ir devagar, como quem não quer nada. E você para me ouvir, precisa ter toda a paciência do mundo. Vamos a ela.

Tudo começa no Sushi Ipanema. Sabe onde fica? Numa daquelas ruas transversais à Visconde de Pirajá, não sei se a Garcia ou a Aníbal. O restaurante é requintado, parece feito todo de madeira. Há a parte externa, com um pequeno tablado e algumas mesas sobre ele. Depois, o vidro, e o ambiente continua do lado de dentro, com ar-condicionado, mais garçonetes e o balcão do sushiman.

Fui com o meu namorado. Ainda não falei sobre ele, mas com o passar da história você vai conhecendo-o pouco a pouco. Chegamos por volta das dez da noite, uma quinta-feira, um bom dia para namorar. Havíamos, numa outra vez, ficado sobre o tablado, naquela espécie de varanda. Mas, nesta, meu namorado quis entrar. A garçonete desliza a porta e sorri para nós. Não é função das garçonetes observar as roupas das clientes, mas aposto que depois ficam conversando entre si sobre cada uma que frequenta o restaurante, e tenho certeza de que esta irá comentar com suas amigas sobre o comprimento da minha saia. Pois é, visto uma saia curtíssima. Destas que estão na moda. As pessoas olham e pensam que estamos de short, mas na verdade se trata de uma saia. O tecido parece volumoso em algumas partes, o corte não é totalmente regular, estreita-se e sobe um pouco na lateral externa das pernas. É lógico que para sentar com tal roupa é preciso cruzar logo as pernas, pois quanto mais curtas as extremidades tanto mais aparecem nossas coxas. Alguém há de dizer: “que escândalo”, mas é assim que nos vestimos, é assim que nós, mulheres, saímos à noite em Ipanema. A blusa branca de algodão tem alguns detalhes bordados, mas esses detalhes também brancos, em relevo, forçam o olhar das pessoas na minha direção. Ainda digo que essa minha blusa de algodão é muito fina, o branco é quase uma transparência. Assim fico mais em foco, os homens desejam certificar-se se uso ou não sutiã. Para dar mais elegância à minha estatura, venho sobre saltos bem altos, comprados numa loja da Garcia D’Ávila, onde há as melhores marcas. O sapato é revestido de veludo, mas as tiras são de um couro reluzente. Logo que sentamos um funcionário vem em nossa direção. Entrega-nos dois cardápios gigantescos; primeiro a mim, depois ao meu namorado. Olhamos minuciosamente o que vem escrito. Há entradas, pequenas delícias como tira-gostos, depois vem os pratos, uma série deles e, enfim, as sobremesas. As bebidas são oferecidas numa carta à parte. Após percorremos várias páginas do cardápio, optamos pelo sashimi. Tão delicado, o sashimi chega a ser uma refeição sensual. Imagine, estou quase nua, a saia curtíssima e a blusa transparente, o sutiã indefinido sob a roupa, imagine, eu vestida assim a segurar aqueles dois palitos que os japoneses chamam de hashi, a seguir mordiscando o sashimi. Talvez pouca coisa seja tão sensual, ou mesmo sexual, como isso. Aproveito para enfeitiçar ainda mais o homem que está comigo. Não demoram a vir as bebidas. Meu namorado não é muito de bebidas destiladas, prefere cerveja, e nesses lugares elas são das melhores marcas. Não gosto de cerveja, ou melhor, nenhuma mulher deveria gostar de cerveja. É uma bebida deselegante. Além de logo tornar a pessoa aflita para ir ao toalete, não custa para engordar. Uma mulher charmosa, conquistadora, deve beber algo curto e estimulante. Talvez alguma bebida colorida, pouco álcool, apenas para deixá-la um tantinho mais alegre, mais sorridente. Quero uma pequena dose de saquê. Não me esqueço de alertar o garçom para pedir ao barman que borde as extremidades do recipiente com bastante sal, e que suavize a bebida com algumas gotas de limão. Conversamos, eu e o namorado, enquanto esperamos os pedidos. Discreta, observo as pessoas. Há outras mulheres nuas, além de mim. Todas se esforçam para serem muito sensuais, sexy, como se costuma dizer. Uma veio pintada de modo exagerado. Mas a pintura até que lhe cai bem, dá-lhe aparência de personagem em peça expressionista. Outra quase mostra os seios, a blusa cavada, um pouco acima do umbigo, nada de top nem sutiã. De repente, meu namorado faz uma observação.

Você já reparou? As mulheres vestem pouca roupa apenas quando saem de casa tarde da noite, e correm para voltar enquanto dura a madrugada, tentam segurar as últimas sombras, não querem que a claridade do dia as surpreenda.

Isso mesmo, às vezes saímos quase nuas à noite mas temos de voltar antes do nascer do sol. Já pensou, nua ao amanhecer? É a mesma coisa que um homem abrir a porta do nosso quarto enquanto trocamos de roupa.

Já reparou?, volta a falar meu namorado, quando uma mulher sai de casa quase nua pensamos que se trata de um travesti.

É verdade, digo, as travestis gostam de andar mais nuas do que as mulheres.

Nuas ou nus?

Nuas. Porque há travestis muito femininas; conheço uma que ninguém diz que nasceu com pênis.

Tenho um amigo que gosta de sair com travestis. Ele diz para as mulheres mais íntimas que, caso conheçam algum, apresente a ele.

Você sabe que já perdi um namorado assim? Nunca pensei que isso podia acontecer comigo, mas ele acabou indo com a travesti. E ela até aquele dia era minha amiga. Tempos depois me encontrou e pediu desculpas. Mas na verdade ela não teve culpa. Meu namorado era muito bonito e também um exímio conquistador.

Essa história deve ser interessante, diz meu namorado enquanto a garçonete lhe completa o copo de cerveja.

Ela era, e ainda é, verdadeiramente linda. Até a voz é de mulher. E se veste de tal forma, que os homens ficam encantados. Trata-se de uma pessoa de talento, ela é arquiteta. Quando se fala em travesti, logo se imagina alguém extravagante, que vive de prostituição. Ela, ao contrário, tem uma firma, faz desenhos de casas lindíssimas e de interiores, ganha uma fortuna com esse trabalho.

Como você a conheceu?

Num coquetel, e através de uma amiga que a contratou para uma reforma e ampliação da casa.

Ah, interessante.

Todos os homens na tal festa ficaram à sua volta, quase não se conseguia falar com ela.

E como vocês se tornaram amigas?

Depois, no final, a dona da casa me chamou para acompanhá-la na conversa com Suzane, a arquiteta. Então ficamos a sós. Identificamo-nos tanto uma com a outra que marcamos de nos encontrar num dos dias que se seguiram.

E ela, com tanta atribulação, compareceu?

Sim, com atraso de uma hora, mas compareceu. Continuamos saindo. Foi então que um dia tive a infeliz ideia de levar o meu namorado.

Ele gostou dela?

Se gostou? Amou. Logo notei, e na primeira vez. Ainda fiz a asneira de chamá-lo para mais um encontro com ela.

Como é a conversa de um travesti?

Nada de mais. Como a conversa de uma mulher. Primeiro falou sobre o trabalho. Muito depois, reclamou de algum dos homens que teve. Como também ela era extravagante, disse que eles ficam excitadíssimo com o fato de ela usar roupas muito curtas. Falou também que ter um pênis inflama muito o relacionamento.

Dizem que se operam, perdem a graça, observa meu namorado.

É, parece que sim. Contou também sobre homens que se tornam tão excitados, que lhes roubam a calcinha para virem como elas farão para esconder o pênis solto sob a saia.

É mesmo?, meu namorado ri, surpreso.

Verdade. Disse que é preciso saber com quem se está saindo. Caso contrário, há muitos que fazem maldade, espancam a travesti e a deixam nua por aí.

Ela já passou por isso?

Não sei. Se já, não chegou a contar claramente, apenas falou do namorado que lhe roubava a calcinha.

Mas há homens que roubam também a calcinha das mulheres, meu namorado me sorri de novo.

Claro que há,  e um deles está à minha frente. E quer sua namorada apenas de casaco, sem nada por baixo, ou nua por inteiro no banco do automóvel... O que mais mesmo? Mas ouça, fazer isso com uma travesti é deixá-la numa situação constrangedora. Com uma minissaia, assim como esta, onde vai esconder o pinto?, aponto à minha saia.

Eles dão um jeito.

Dão? Então você sabe mais do que eu e ela.

Meu namorado disfarça. Chega o garçom com um pequeno barco pleno de sashimis. Peço mais uma dose de saquê.

Amor, comprei pra você uma lingerie linda, é uma meia inteiriça, do tipo arrastão. Depois quero que você vista, fala ele.

Quer que eu vista aqui, no restaurante?

No restaurante, não. No toalete. As pessoas que já repararam você vão ficar louquinhas, não vão entender nada, ele morde delicadamente um pedacinho de peixe cru.

Amor, já que estamos num jantar tão sensual, quero lhe perguntar uma coisa, falo decidida.

Pois, pergunte.

Não notou nada de extravagante em mim, além da roupa?

Notei, mas não quis falar. Você veio sem, de novo, não?

Isso mesmo.

Você é corajosa...

Além de corajosa, sou muito feminina, você não acha?

Claro, como não achar?

Mordemos os dois, juntinhos, os pedacinhos de peixe cru. Ele empunha o seu hashi, e eu também seguro o meu, minha mão sempre hábil. Sobretudo quando se trata de dois pauzinhos!

quarta-feira, outubro 23, 2013

Estrangeira

Gosto mesmo é de namorar homens estrangeiros. Uma amiga me perguntou a razão.

Não sei, respondi, sinto um tipo especial de atração por eles; na verdade, parecem mais determinados.

E como você faz para arranjar um namorado estrangeiro?, curiosa, ela.

Tenho de frequentar os mesmos locais que eles.

Expliquei então sobre os hotéis e restaurantes onde a gente pode admirar esse tipo de homem. Enquanto eu falava, minha amiga ficou a me olhar. Quando foi embora, desconfiei que passaria a agir como eu. Ah, nenhum problema, falei comigo, há estrangeiros para todas.

Costumo ir à confeitaria Colombo, aquela do forte de Copacabana. Pessoas requintadas sabem dessa tradicional casa, onde se pode tomar café da manha, almoçar, ou saborear um chá à tarde. Prefiro ir em torno do por do sol. Além de o serviço ser ótimo, há uma vista maravilhosa. É possível apreciar toda a praia de Copacabana, o mar, e a extensão de terra que fica do outro lado da baía, as praias de Niterói. Uma mulher bem vestida faz sucesso neste restaurante. Ali há estrangeiros, e quando veem uma mulher sozinha e bonita não perdem tempo, logo se aproximam. Espero para perceber que idioma falam. De início, fico caladinha. Qual cantada vão lançar? Muitos sorriem, tentam ser agradáveis. Surpreendem-se quando reparam que pago a minha parte e não lhes peço coisa alguma.

Pensaste que sou prostituta?, tenho vontade de perguntar, mas apenas sorrio, mexo a cabeça, deixo meus cabelos enfeitiçarem o homem.

Ele se movimenta como se me quisesse convidar para continuar o passeio em outro lugar, mas lhe faltam palavras. Ajudo. Digo que a cidade é bonita, que a temperatura está amena, que tal continuarmos o passeio no calçadão? E lá vamos nós. Calo-me, de novo. Espero pela iniciativa dele.

Fala em inglês, pois lhe esgotaram as palavras que conhece no idioma local. Faço de conta que tenho dificuldade para compreendê-lo, ainda não sabe que domino a língua estrangeira.

Andamos por toda a praia. Convida-me ao seu hotel.

É cedo, reparo, aqui fora está tão agradável.

Fujo dele naquela noite. Sei que dificilmente voltará. São tantas as mulheres, tantas as ofertas. Quero-me casar com um estrangeiro, disse à minha terapeuta. Estrangeiro?, ela repetiu, fingiu não entender. Mudei a conversa.

Mas no dia seguinte, ele procura-me. Surpresa, atendo ao telefone. Quer encontrar comigo de novo. São tantas as ofertas, penso mais uma vez. Logo descubro o motivo de ele me ter procurado. Paguei a minha parte na conta, tanto na Colombo como depois no outro restaurante. Comemos salada e tomamos vinho. Está o homem acostumado a mulheres que o exploram, jamais teve uma namorada brasileira que não lhe tenha tentado esvaziar os bolsos. Disse que admira as mulheres independentes.

Quero casar, digo a ele no encontro seguinte.

Casar?, faz que não entende. Casar, falo e aponto ao dedo, faço de conta que enfio a aliança.

Ele ri. Conversamos sobre casamento, em inglês.

Continua rindo. Veio ao Brasil com uma bolsa de pós-graduação. Ele é da Sérvia, faz uma especialização em cirurgia plástica. No seu país precisam de cirurgiões plásticos.

Você volta?, pergunto.

Sim, pretendo, fala em português, o sotaque pesado.

Pena, lamento.

Quer ir comigo?

À Sérvia? Impossível. Trabalho aqui, sou também da área de saúde.

Em que trabalha?

Sou dentista.

Não quer trabalhar na Sérvia?, pergunta e me espera.

Penso na minha analista. Ela acha que o que lhe digo significa o contrário. Insinua que não quero casar, e que a estrangeira sou eu. Será?

Sérvia é um bom lugar, tem oportunidade para dentista, diz ele com certa lentidão de pronúncia.

Passo a namorá-lo com mais constância e rolo na grande cama do seu quarto de hotel. Algumas vezes o levo ao meu apartamento.

Você usa roupas discretas, diz, as brasileiras usam roupas mais curtas, mais sensuais.

Você está reclamando das minhas roupas?

Não. Só reparo que é elegante.

Ah, sim, entendo.

Tento fazer que o homem decida ficar no Brasil, no Rio de Janeiro especificamente.

Não posso, tenho de voltar, Sérvia me espera, recebi uma bolsa. Ficar é desertar, tenta explicar.

Ah, sim, estrangeiros não desertam. Lembro que pode ser eu a estrangeira.

Você me quer sensual?, pergunto nua em seus braços, na cama de seu hotel.

Sensual, repete e beija meus lábios.

Do jeito das outras brasileiras. Quer a mim como prostituta?, pergunto em meio ao amor.

Prostituta, como assim?, o homem não entende.

Levanto, faço de conta que visto um vestido curtinho, frente única, nada embaixo.

Quer passear comigo? Eu, prostituta, falo e aponto a porta.

Ele olha o relógio, são duas da manhã. Eu nuinha, o vestido invisível. Parece gostar da ideia.

Vamos, diz.

Abre a porta, saímos. Quem sabe? Quero casar. Pode ser que assim ele fique. Estrangeira, eu, e pelada...

terça-feira, outubro 15, 2013

A equilibrista

Ele não sabia aquele meu segredo nem eu estava disposta a o revelar quando começamos o namoro. Falara-lhe apenas, Não saio com homem algum faz um ano. Sorriu, de forma maliciosa, e colocou o braço direito sobre o meu ombro. Mas não era verdade. Quando estou sem namorado, saio sozinha à noite, caminho pela cidade, a esmo. Nada de locais perigosos, nem facilidades para aqueles que me admiram. Ando entre as pessoas, sempre em lugares movimentados. Um desses lugares é o baixo Botafogo, onde há os cinemas. Muita gente se aglomera após as sessões, nos bares da Voluntário. É certo que praticamente não há mulher sozinha, e uma que senta num dos banquinhos e pede uma bebida causa surpresa. Para manter a discrição, prefiro bares onde existem bancos junto ao balcão. Olho os homens, sei que muitos têm seus compromissos, mas não faço perguntas. A princípio não deixo que descubram que os aprecio. Tenho um jeito especial de fazer as coisas. Caso alguém me flagre com o doce na boca, isto é, com os olhos nos seus, tenho de me virar. Terei problemas caso não me agrade; mas, se é bonito, tenho a solução. Ele se aproxima, tenta algumas palavras, quase um contraponto. Sorrio com o canto da boca. Recusar um homem sempre é um problema. Para o caçador, é fácil descobrir a fragilidade da caça. Então, voltando à pergunta do namorado que arranjei faz poucos dias, Não, não saio com ninguém faz um ano. Mentira lavada. Eu tomava um drink, vamos dizer, assim, uma bebida quase branca, meio transparente, bonita. O homem olhou para mm, descobriu que eu ainda segurava o bilhete usado do cinema.

Tinha três dias que eu vivera uma aventura e tanto, como tantas outras que acontecem uma vez na semana. É claro que para isso preciso me deslocar pela cidade, mudar de bairro e de ares. Na semana anterior foi a nota de um chá num café de shopping, Moça, moça, caiu da sua bolsa, veio-me um homem entregar o pedaço de papel. Dali correu o sorriso, o assunto e um apartamento na Marquês de Abrantes. Preciso de uma aspirina, falei assim que me devolveu o papel, Me lateja a cabeça. Tenho remédio melhor, e lá fomos os dois, tudo ardil de minha parte. Faço o jogo, mas o quero a meu favor. Nessas andanças semanais por lugares diversos, amantes inesperados e apartamentos alheios, acontecem muitas surpresas. Então descubro que na maioria das vezes namoro melhor com o perigo. Há aqueles que querem transar apenas, pessoas normais, desejam a mulher nua e sobem sobre ela. Mas também aparecem os que querem sensações maiores. O do papelzinho atirado ao chão queria minhas roupas nas mãos dele. Em troca me deu uma camiseta curta, justíssima, para vestir. A seguir começou a me namorar. Mas não vamos confundir as coisas, falo do homem anterior a esse do cinema, para deixar claro. Vesti a camiseta, apertadinha e um palmo acima do joelho. Quando pensei que o tal namorado começaria a subir as mãos por baixo do pano, ele me convidou para dar umas voltas pela cidade. Sair agora, tão tarde?, falei. Tarde nada, não chegava a dez da noite. Mas aceitei. Entramos num automóvel que estava na garagem do prédio e fomos nós cidade adentro. Você tira a camiseta?, propôs. Vou ter de passear nua?, ainda retruquei. Nunca andaste nua pelas ruas de uma cidade?, ele. Bem, faz algum tempo, pra falar a verdade já saí nua de casa, já voltei nua, mas pensava que esses costumes estavam em desuso. Tirei a tal camiseta que ele não demorou a fazer desaparecer. Lembrei então que o homem poderia me mandar saltar. Me vi nua, em via pública. Pensei nos garotos que fazem filosofia no Largo de São Francisco. Há um tempo que trabalho como substituta naquela faculdade. Eles gostaram de mim logo de primeira. Me convidam para beber, para passear. As noitadas só terminam ao amanhecer. E a preocupação de todos é apenas trepar comigo, aproveitar o meu corpo. Toda semana. Eu sempre sem par fixo. O revezamento se dá com alegria. Mas lá ia eu no banco do carona, nua. O homem teve imenso prazer nisso. Você tem o corpo perfeito, afirmou. Você acha?, eu, ingênua. Trepamos quase ao amanhecer. Numa rua do Jardim Botânico. E do lado de fora do carro.

Mas volto ao homem que conheci no bar, na saída do cinema. O bilhete na mão e o nome do filme revelando a minha identidade. Pronto, caso um homem saiba o filme que vi, é o mesmo que me surpreender nua. Roubando-me o bilhete, já sabe tudo sobre mim. Só que com ele não foi trepada de uma noite. Rolou um namoro. Sabia que aquele homem voltaria outras vezes. Por que não vamos juntos ao cinema?, chegou a perguntar um dia. Acho melhor termos segredos próprios, respondi. E fiz a tal revelação, Não namoro ninguém faz um ano. Ele acreditou. Passamos a nos encontrar duas vezes na semana. Mas não desisti das quartas, o dia dos garotos da filosofia. E esse meu novo namorado? Ah, costumes estranhos, sempre um tipo de tara. Mas, cá entre nós, as mulheres gostam de um pouco de tara, gozam melhor com o risco, não é mesmo? Eis o que ele me ensinou que me arrepiou tanto. Na verdade arrepiou a mim e arrepia a ele. Ensinou a me equilibrar nua. Isso mesmo, me equilibrar. Uma nua equilibrista. No sentido denotativo. Me leva à sua casa, estica um cordão bem na sala, me ajuda a subir, uma escada de três degraus, segura as minhas mãos e... lá vou eu, nua, em pele e pelo sobre um cordão. No começo, achei aquilo muito estranho. Mas depois, quando passei a me virar sozinha na tal corda, senti uma sensação e tanto. Imagino que no circo as pessoas adorariam ver nua a equilibrista. Ali, na casa dele, ia eu, com público único, ele, a gozar ao me vir atravessar a sala sobre a corda. Eu, sempre segurando uma vara para me ajudar a manter o equilíbrio. Quando desço do fio fino, meu coração está a palpitar, meu corpo quente. Ele então me toma nos braços e me deita no chão, ali mesmo debaixo da corda, e lá vou eu sobre ele, ou ele sobre mim, outro tipo de equilíbrio. Ah, os garotos da filosofia, será que gostariam de saber que sou equilibrista, ou querem apenas o meu corpo? Ou querem apenas o tênue fio que sustenta as abstrações, a metafísica? Sim, os garotos da filosofia ainda são muito jovens. Outro dia, quando descia do cordão e me atirava nos braços de tal homem, lembrei aquele que me levou nua no banco do carona. Deixei escapar ao recente namorado. Na praia, entre os postes da rede de vôlei, dá pra esticar o cordão. Ele me olhou, me beijou, Você sobe nua na corda? Eu, sentada, de pernas cruzadas, pétrea. Sim.

quarta-feira, outubro 02, 2013

Esperei então por ele

Seu Afonso, o senhor está me oferecendo duzentos reais. Aceito, mas promete não me pedir nada em troca? Trabalho para o senhor, tenho o meu salário, não é justo que me ofereça dinheiro a mais. Pessoas como eu sempre são necessitadas. Não tenho como negar. Se o senhor me oferece, aceito; mas, por favor, não me peça nada em troca.

Seu Afonso me olhou, sorriu e se retirou. Foi para o escritório terminar o que estava fazendo. Voltei à cozinha, pois faltava limpar o fogão.

De uns tempos para cá o patrão começou a me oferecer dinheiro. Contei a uma amiga, que me disse: “todos os homens são iguais, não demora e você vai ter de dar pra ele”.

Quando me ofereceu dinheiro pela primeira vez, dinheiro além do pagamento mensal, eu, surpresa, recusei.

Não preciso, seu Afonso, tenho o meu salário.

Passou uma semana e lá fui eu a ele:

Seu Afonso, já que o senhor ofereceu... Ouça bem, foi o senhor que ofereceu, ainda ressaltei.

Peguei as notas e guardei na bolsa.

No final do mês, quando me pagou o salário, tirei duas cédulas de cem e tentei lhe devolver. Ele deu as costas e se retirou. Fiquei com as mãos abanando. Que eu ficasse com as notas, falou, era um presentinho.

No mês que se seguiu, seu Afonso me deu um embrulho bem pequeno envolto em papel colorido. Abri. Era uma caixinha com um cordão de ouro dentro, a corrente fininha, muito bonita.

Seu Afonso, não é meu aniversário, não é justo que o senhor me dê um presente, isso deve ter sido caro. Não, seu Afonso, não faço desfeita, é que não é justo, o senhor já me paga o salário.

Eu tentava explicar. Mas ele, de novo, deu as costas e se foi.

Duas semanas depois, fui a ele. Estava sem dinheiro nenhum, precisava de um adiantamento.

Seu, Afonso, por favor, o senhor pode me emprestar cinquenta reais? Emprestado, viu?

Ele foi ao quarto, pegou o dinheiro e voltou com a nota de cinquenta.

No final do mês, assim que me pagou, deixei o dinheiro sobre a mesa da sala. Escrevi um bilhete. Agradecia e devolvia os cinquenta reais.

Mas no dia seguinte, logo que entrei, vi a mesma nota sobre a bancada da cozinha. Estava escrito: você esqueceu ontem sobre a mesa.

Tentei falar com ele, mas ele não quis conversa sobre isso.

E assim passaram-se os meses. O patrão sempre me pagando a mais, sempre a me presentear. Uma blusa, um colar, um brinquedo para o meu filho, um dinheiro para inteirar no aluguel.

Você precisa de um aumento, falou no mês passado. Vou aumentar o seu salário.

E passou a me dar vinte por cento a mais.

Mas, seu Afonso, o senhor paga o maior salário de empregada doméstica.

Ele apenas sorriu.

Um mês depois ganhei dois presentes. Um perfume e uma joia; desta vez, uma pulseira.

Seu Afonso, por favor, isso deve ter custado muito.

Ele deu de ombros.

Já não conto sobre os presentes a amiga alguma. Elas colocam olho grande. E dizem que pediriam mais, que se aproveitariam. Mas seu Afonso é legal, me dá tudo isso e não pede nada em troca.

Seu Afonso, falei hoje, o senhor nunca me pediu nada em troca, sorri. O senhor é uma pessoa legal, tem caráter. Se fosse outro...

Não aguentei, fui chegando perto dele. Estava caindo de madura.

Posso beijar o senhor? Ninguém jamais fez tanto por mim.

Ele deixou que eu o beijasse.

Seu Afonso, continuei depois que afastei meus lábios do seu rosto, o senhor espera um instantinho? Quero lhe fazer uma surpresa.

Ele arregalou os olhos, acho que entendeu.

Fui ao quarto de serviço e tirei toda a roupa. Voltei nua. Nua e silenciosa. Caminhei até a sala. Parei a meio metro de onde estava sentado. Mas continuei em pé, as pernas juntas, as mãos cruzadas um pouco abaixo do umbigo. Sorri, um sorriso meio de vergonha e meio de mulher sem-vergonha.

Seu Afonso, suspirei.

Ele olhou o meu corpo.  Sorriu, um sorriso de satisfação.

Esperei então por ele.

quarta-feira, setembro 25, 2013

Não me faças voltar nua pra casa!

Esses namoradinhos que arranjo são fogo, cada um com a sua mania. Será que já não basta fazer amor? Sou tão carinhosa, beijo maravilhosamente, minhas mãos leves deslizam mil favores sobre o corpo de todos eles. Mas de um tempo para cá têm aparecido alguns que me pedem coisas extravagantes. Uns me querem vestidas com roupas hipersensuais, enquanto outros desejam passear abraçados a mim mas acrescentam apenas um detalhe: que eu vá nuinha. Quem lê os meus relatos sabe que já andei pelada pela cidade várias vezes; outro dia, porém, apareceu um que me pediu para sair nua durante o dia.

Durante o dia é demais, reclamei.

Deixo então você vestir um casaquinho, já que a temperatura anda amena.

E veio ele com o casaquinho. Na verdade transformou-se num vestidinho de mangas compridas, curtinho, o problema é que tinha poucos botões.

Será que posso usar um top por baixo?, perguntei.

E lá veio o top, também trazido por ele, na verdade uma tarja de malha da mesma cor do casaco.

Vamos ao cinema, sugeriu.

E fomos, optamos por um dos cinemas do Shopping.

Posso garantir que algumas pessoas observaram com muito interesse o meu minivestido, depois voltavam os olhos para o meu rosto. Algumas até sorriram. Duas adolescentes comentaram alguma coisa depois de me repararem demoradamente. Talvez pensassem que eu lançava uma nova moda.

Eu, com o vestido subindo enquanto caminhávamos para a sala de cinema, não tinha nada a fazer para que voltasse ao comprimento original, pois carregava um imenso saco de pipocas.

Puxa pra mim o casaquinho, vai, bem na barra, pedi ao namoradinho. Eu tentava um mínimo de indiscrição.

Ele fazia de conta que ajeitava para mim.

Assistimos ao filme. Quando saímos, abracei o rapaz e o beijei, fiquei agarrada a ele no estacionamento, bem junto ao nosso carro, um abraço  frente a frente, assim as pessoas não podiam reparar que eu estava nua. Ao mesmo tempo, eu aproveitava o beijo gostoso que trocávamos.

Amor, posso pedir mais uma coisa?, ele, ansioso.

Já sei o que você quer.

Vamos ver se você adivinha.

Agora queres que eu tire o casaco, pronunciei ressaltando a conjugação do verbo.

Queres?, ele repetiu.

Eu quero, tu queres, falei e sorri.

E então?

Desabotoei o casaquinho ainda do lado de fora do automóvel. Já anoitecera, outras pessoas que deixavam o Shopping procuravam seus veículos.

Amor, assim vamos presos, falou preocupado, pedi a você que tirasse o casaco, mas era para desabotoar dentro do carro.

Eu, já nua, atirei o agasalho a ele, apenas a faixa azul marinho me cobria os seios. Encostei então na carroceria e pedi vem, me abraça, assim ninguém repara,

E ficamos ali, um grudado ao outro, por pelo menos um quarto de hora.

No final, acho que eu o despertei ainda mais com uma indevida sugestão:

Amor, só te faço mais um pedido, não me faças voltar nua pra casa!

sexta-feira, setembro 20, 2013

Você gosta de deixar as mulheres nuas

Depois da meia-noite acontecem coisas estranhas. Paquerei um cara durante a semana inteira. Acabei que consegui sair com ele. Conhece o Ilhote Sul? É um restaurante chique, não preciso dizer. Ele me convidou e ofereceu: peça o que quiser. Aproveitei. Bebi vinho italiano, tão caro. Então começou ele uma conversa estranha. Disse que conheceu um ex-namorado meu. Revelou até mesmo alguns segredos meus. Não sei como descobriu que andei nua de madrugada pela cidade. Ele narrava com um arrepio. Não sei se foi o vinho italiano ou se já viera com a intenção. Você vai embora nua?, perguntou. Quando eu era mais nova, duas ou três vezes fui, mas agora, acho que não, respondi. Mas você é tão bonita, acrescentou. Mais bonita vestida, retruquei. Melhor nua, não?, pediu. Estou gorda, não gosto de tirar a roupa depois de comer tanto, já pensou se me flagram com essa barriguinha?, adverti. Até que é sensual?, contra-argumentou. Sensual?, eu quis saber. A sua barriguinha, emendou. Pensei que você fosse dizer que não tenho barriga alguma, debochei. Bem, amor, na verdade afirmo que: você não tem barriga não, mas, continuando, sei que gosta de um presentinho, aliás, toda mulher gosta; que tal uma pulseirinha de ouro?, sugeriu. De ouro?, redargui. Isso, de ouro, assegurou. Mas hoje é tão difícil, quase ninguém dá ouro de presente, acrescentei. Dou e provo, falou e mostrou a pulseira. Era realmente de ouro. Então?, recolocou a pergunta. O que você quer mesmo em troca?, fiz de conta que esquecia. Quero você nua, seus olhos miraram os meus e depois voltaram-se para o mar. Só isso?, minha intenção era ganhar tempo. Claro que não, quero um beijo e alguma coisa a mais, assegurou.

Deixáramos o carro no estacionamento do restaurante. Caminhamos pelo calçamento. Depois do Tropical acaba a praia. Venha comigo, convidou. Andamos cem metros, longe da luz da rua, apenas as estrelas, a lua e, defronte à praia, a vegetação. Quer ainda a pulseira?, perguntou. Acho que sim, duvidei. Por que a incerteza? Não acredita que seja verdadeira?, indagou. Acredito, firmei a voz.

Daí namoramos. Uma hora e um quarto.

No final, falou: não basta só o namoro. Sei disso, retruquei, você gosta de deixar as mulheres nuas. Isso mesmo, comentou, ainda bem que entre nós há o consenso. Me passa a pulseirinha, pedi. Obedeceu. Obedeci também. Sei que você gosta de histórias, falei. Se gosto?, tanto mais no dia seguinte, e na voz de quem deixou a saia nas minhas mãos, sua voz acompanhava a brisa suave da madrugada. Um beijo, vá, desejei. E lá foi ele; e fiquei eu. Apenas a pulseira, a sandália plataforma e a bolsa mínima. Cabe nela um maço de cigarros; cabe junto o celular, caso o maço não esteja cheio.

Portanto, você, que me lê agora, será que pode me ajudar? Traz uma camiseta. Recompenso. Sabe o Tropical? Caminhe na areia da praia, faz de conta que vai pra lagoa. É só. Quando estiver próximo, eu chamo. Mas lembre, não demore. Quero a pulseira, apenas. Não quero complicação.

quarta-feira, setembro 18, 2013

Nua no restaurante

O restaurante estava quente, por isso tirei o agasalho. Meus braços nus surpreenderam quem estava ao redor.

“Você não está com frio?”, perguntou-me o marido.

“Não, estou mesmo é com calor.”

Apesar do inverno, da temperatura baixa lá fora, para mim o restaurante estava muito aquecido. Bom momento para eu mostrar uma pequena parte do meu corpo. Todos estavam vestidíssimos, haviam pousado o casaco no encosto da cadeira, mas o suéter ninguém despira. Eu tirara o casaco e o suéter, vestia apenas uma camisa de algodão de mangas curtas.

Meu marido sorriu, aproveitou para mordiscar mais um pedaço de carne e beber outro gole de vinho. Eu, entre sorrisos e a alegria que todas as férias proporcionam, estava nua. Isso mesmo, nuazinha, ao menos para o momento, ao menos para o lugar. De outra mesa, notei que um homem olhou-me. Discreto, ele. Estava acompanhado. Mas no momento em que segurou a garrafa para despejar um pouquinho do líquido rubro na taça da mulher que o acompanhava, esticou os olhos até os meus braços. Sorriu. Retribuí o sorriso. Não houve nada de mal no incidente, apenas um sorriso de cada lado, depois o mergulho de volta nas nossas vidas. Mas fiquei arrepiada, e o arrepio durou até o fim do jantar. Na cadeira ao lado minha filha de quatro anos comia segurando o garfo de modo enviesado, enquanto meu filho, ao lado do marido, atacava os pedaços de carne e o macarrão, olhava um dos brinquedos em miniatura que colocara sobre a mesa, ao lado do prato.

“Mamãe, aqui não está frio porque tem a lareira, veja como é bonita”, falou a menina com a boquinha manchada de molho da comida.

“Isso, mesmo, Naná, a lareira aquece”, falei, ambas rimos.

“Papai não tirou o agasalho, acho que ele está com frio”, ela completou.

Meu marido sorriu. “Uns sentem mais frio; outros, menos”, concluiu e continuou com mais um gole do vinho.

Em volta todos vestidíssimos. O inverno torna as pessoas elegantes, pensei. Meus braços nus destoavam do ambiente. E, entre todos, apenas o tal homem discreto descobrira-me. Eu quis espichar o rabo do olho à direita, mas ainda não foi naquele momento. Minha filha tinha os olhos e o sorriso em mim, o garoto despertara do seu enlevo lúdico e o marido talvez pensasse qual o próximo prato.

“Mamãe, me leva pra fazer xixi”, a menina pediu.

“Levo, sim. Vamos.”

Levantamos. O garçom apontou-nos o toalete. A menina gostou de caminhar entre as mesas, empurrar para o lado a cortininha do banheiro, deslizar a porta corrediça.

“Mamãe, espere aqui, eu sei fazer xixi sozinha.”

“Que bom! Mamãe está feliz por você ser tão espertinha.”

Minha filha saiu do banheiro feliz.

“Vamos mamãe, agora vou pedir a sobremesa.”

Voltamos entre as mesas, algumas pessoas levantaram os olhos. Reparei então o homem discreto. Sua acompanhante tinha os olhos voltados para o bufê. Ele falava-lhe. Mesmo conversando com ela, olhou meus braços nus. Olhou e sorriu.

“Nunca vi uma nua tão bonita”, cheguei a ouvir. Talvez eu tenha captado seu pensamento, ou seu desejo, não sei bem. Mas que sua voz era bonita, não restava dúvida.

Depois de voltarmos ao hotel, de acomodar as crianças nas suas camas, preparei-me para deitar. Estava de dentes escovados, perfumada, envolta numa camisola creme, era uma camisola leve. Mas, antes de entrar sob as cobertas, tirei a camisola. Quando o marido se postou ao meu lado, encostei nele meus braços nus, meu corpo nu.

“Você reparou no restaurante?”, eu disse.

“O quê?”, ele curioso.

“Uma mulher nua.”

“Uma mulher nua? E naquele frio?”, surpreendeu-se.

“Isso, nuazinha. Você é mesmo muito distraído.”

Peguei suas mãos e comecei a deslizá-las sobre o meu corpo. Depois subi sobre ele. Depois namorei meu homem por um bom tempo.

“Amanhã, talvez ela apareça nua de novo”, falei.

“Será?”

“Acho que sim.”

“Então você me mostra?”, propôs.

“Vou pensar.”

Beijei-o. Adormeci. Tão nua, como a mulher no restaurante.

quarta-feira, setembro 11, 2013

Já que você deu a ideia...

Essa história aconteceu lá pelos meados de 2004. Uma mulher que conheci por correspondência resolveu vir ao Rio para conversarmos pessoalmente. Era de Minas, de uma cidade nas adjacências de BH. Ficou por aqui durante uma semana. A princípio adorou a cidade. Nos últimos dias, no entanto, aconteceu o que passo a relatar.

Após termos ido a cinemas, teatros e restaurantes nos primeiros dias após sua chegada, na sexta-feira combinamos ir à praia. Mas a uma praia bem distante. Eleonora, o seu nome, era relativamente jovem e tinha um corpo muito bonito. Mas sentia vergonha de mostrá-lo. Naturalmente não estava acostumada a sair por aí de biquíni, mesmo à beira-mar. Recato das mineiras. Fomos então para a praia mais distante na orla do Rio de Janeiro, bem depois do Recreio dos Bandeirantes.

Ao chegarmos, pousamos nossos pertences e cuidamos de ficar durante um bom tempo debaixo de um grande guarda-sol. Havia um quiosque nas proximidades cujo empregado se prontificou a servir o que desejássemos, inclusive um almoço. Como os frequentadores daquele local eram apenas nós dois, Eleonora pôde, enfim, mostrar o seu corpo.

Lá pelas onze horas chegaram mais algumas pessoas, mas mantiveram discrição e ficaram a uma distância razoável.

Em determinado momento, Eleonora começou a falar sobre uma hipótese.

“Ouça, me veio um pensamento, fiquei preocupada.”

“O que preocupa você numa manhã de sol ameno e numa praia quase particular onde apenas nós dois estamos a usufruir?”

“Exatamente isso. O lugar está muito deserto.”

“Mas não foi você quem pediu uma praia assim? Caso quisesse muita gente, teríamos ficado em Copacabana.”

“A princípio estava sentindo vergonha por ter comprado esse biquíni tão pequeno e ter de usá-lo na frente de outras pessoas, mas pelo pensamento que me ocorre acho que teria sido melhor.”

“O que preocupa você?”

“É o seguinte: o Rio é uma cidade onde ocorrem muitos assaltos. Já pensou se alguém assalta a gente agora? Não há nada a nos proteger.”

Olhei em volta e percebi que para uma pessoa que está acostumada a assistir aos noticiários sobre o Rio, o que ele temia era possível. Mas procurei tranquilizá-la.

“Não se preocupe. Há o quiosque, o funcionário está trabalhando tranquilo. Caso houvesse algum problema, teria nos avisado."

“Mas se aparecer um ladrão aqui, agora, por exemplo, não podemos fazer nada.”

“Não se preocupe. Quando saímos a passeio não pensamos nisso.”

“Sei que vocês não pensam nisso, mas pode acontecer, não?”

“Não tenho ouvido falar sobre assaltos em praias. O que vão nos roubar?”

“Por exemplo: podem nos roubar o carro, com tudo que trouxemos. Já pensou que vergonha caso levem todos os meus pertences e me deixem apenas com esse biquíni mínimo? Como vou voltar pra casa?”

“Ah, que imaginação. Confesso que gostei da ideia de ver você só com esse biquininho sem ter onde se esconder. Acho que vai entrar na água e ficar por lá até que eu arranje uma roupa comprida pra você...”

“Não brinque, pode acontecer, não é mesmo?”

“Acho que você quer mesmo é ficar nua. Se pensou isso, é porque deseja.”

“Eu? Você pensa isso de mim?”

Me aproximei dela e a beijei. Disse no seu ouvido:

“Como tem pouca gente na praia, acho que quem vai deixar você nua sou eu.”

Ela riu.

“Você não teria coragem...”

“Você nem me conhece direito. Lembra que conheci você por correspondência? Já pensou se sou o ladrão?”

“Não brinque com essas coisas, por favor.”

“Já pensou se deixo você nua e vou embora. Como você faz pra voltar pelada pra Minas?”

“Ai, nem pense nisso.”

Aproximou-se de mim e me beijou.

“Quer dizer que você vai me deixar peladinha aqui no Rio de Janeiro, nua, dentro d’água e vai embora com todas as minhas coisas?”, pareceu gostar da suposição.

“Acho que sim, já que você deu a ideia...”

“Então faz, vai, quero ficar pelada no Rio de Janeiro...”

“Puxa, não sabia que as mineiras mudam de ideia tão de repente.”

Levei-a para dentro d’água e tirei o seu biquíni. Parecia uma gata gemendo.

“Você quer mesmo que eu vá?”, eu.

“Você teria coragem?”, ela.

“É você que deseja as sensações...”

Corri areia acima, guardei tudo dela dentro do carro e dei a partida.

Meia hora depois, voltei. Estava tranquila, ainda dentro d’água. Quando me viu, foi a primeira a falar:

“Sabia que você não teria coragem de abandonar uma mulher tão bonita como eu...”

Me abraçou. Namoramos ali mesmo. Ela não mais vestiu a parte inferior do biquíni enquanto esteve dentro d'água.

“Depois que você foi embora, sabe, além de estar molhada pela água do mar, fiquei também molhadinha, mas por outro motivo”, sorriu enquanto bebia um gole de sua caipirinha.

“Você é capaz de escrever isso que estamos vivendo hoje?”, eu queria esconder a excitação, mas acho que não consegui.

“Claro que sim. Mas ponho você como narrador!”

quarta-feira, setembro 04, 2013

Quer voltar lá pra pegar?

Após ter ido à praia num domingo à tarde com um namoradinho de ocasião, acompanhei-o à sua casa, ou melhor, à suíte onde ele dizia morar enquanto trabalhava na cidade. Fizemos, então, um amor muito gostoso. Depois fui tomar banho e fiquei um tempo enorme me refrescando debaixo do chuveiro. Ao acabar, já que viera direto da praia, ameacei vestir novamente o biquíni.

“Não o vista, está molhado”, falou.

Era verdade, segurei as duas peças e pude constatar que seria desconfortável vesti-las após o banho.

“Cubra o corpo apenas com o vestido, já anoiteceu, vou levar você de carro”, completou.

“Tudo bem, não há ninguém na minha casa, todos viajaram, voltam só depois das dez.”

Na verdade era um vestidinho desses bem curtinhos, bem justo ao corpo, que todo mundo sabe que só são usados como saída de praia.

Descemos as escadas e entramos no carro.

Começou a dirigir pela cidade.

“Vamos passear mais um pouquinho”, sugeriu, “ainda é cedo.” Pegou uma via que nos levava à orla marítima.

Estacionou antes do Tênis Clube.

“Que tal tomar alguma coisa? queria um chope”, falou.

Acabei por aceitar. Saímos do carro e entramos num dos bares.

“Está gostando do dia de hoje?”, perguntou.

“Adorando”, sorri para ele.

“Foi bom mesmo, não? Praia, amor, chope, e você sem o biquíni.”

“É mesmo, tinha me esquecido, estou nua!”, representei.

“Jura que tinha esquecido?”

“Jurar, jurar, não fica bem, mas digo que sim.”

“Então você está acostumada a sair sem calcinha.”

“Sem calcinha, sim, mas não nua.”

“Você não está nua...”

“Com esse vestido curtinho, estou me sentindo nua.”

O garçom chegou com nossos chopes. Pedimos ainda um petisco.

Acabamos ficando por ali até mais ou menos nove e meia.

Ao sairmos do bar reparei que algumas pessoas olharam para mim. Não dei importância, mas sabia que no dia seguinte alguém iria dizer que me viu na orla etc. e tal.

Quando ele parou o carro na frente de minha casa, havia luz num dos quartos.

“Vou vestir o biquíni”, procurei as duas peças na bolsa. “Não estou encontrando...”

“Será que você não esqueceu lá em casa?”

“Tenho certeza que guardei aqui.”

“Jura?”

“Ah, você com essa mania de juramentos”, demonstrei certa irritação.

“Quer voltar lá pra pegar?”

“Não, boa noite, vou nua mesmo, ainda por cima estou morrendo de vontade de fazer xixi.”

Beijou-me e disse:

“Boa noite”, amanhã te pego de novo.”

“Tá bom”, não resisti à simpatia dele, "amanhã apanho o biquíni.”

Ele deu a partida e se foi. Eu me virei e abri o portão de casa.

quarta-feira, agosto 28, 2013

Não foi traição, mas uma situação de emergência

Naná, quer dizer que você foi parar nua na casa de um desconhecido?

Desconhecido, não, Lana, o homem bem que já de um tempinho me paquerava.

E como foi?

Ah, Lana, nem fala, foi bom, acabei até gostando, mas o Jorge ficou furioso.

Ele soube?

Sim.

Quem contou pra ele, Naná?

Quem? Eu mesma.

Você é louca...

Do modo como aconteceu, ele não poderia deixar de saber.

E qual foi a reação dele?

Assim que soube, falou:

Você não devia ter transado com ele.

Mas como não? Naquela situação..., tentei explicar.

Você devia ter corrido de volta.

E aquela gente toda? Com que cara eu ia ficar?

Eu dava um jeito.

Jeito? Que jeito?

Quer dizer que você preferiu me trair a se expor?

Não foi traição, foi uma situação de emergência.

Emergência?

Sim. Emergência, e dei por encerrada a conversa. Mas, para você entender toda essa situação, Lana, preciso contar o que aconteceu antes.

Então conta, estou curiosíssima.

Nós estávamos na casa de campo, sozinhos. Jorge resolveu, então, me fotografar. Fez dezenas de fotos minhas em meio ao quintal, às árvores, à beira da piscina etc. Quando já estava exausta de tanta pose, sugeriu que eu tirasse a roupa, que ficasse apenas de tênis. Fez então as últimas fotos. Eu, nuinha, apareço andando e sorrindo, como se estivesse num meio rural afastado e não precisasse me preocupar em vestir. Mas foi aí que aconteceu o inesperado. Chegaram dois automóveis repletos de amigos e amigas dele. Souberam que estava no sítio e lhe quiseram fazer uma surpresa. Num primeiro momento corri e me escondi atrás de uma árvore de tronco largo. Ao reparar que os carros se aproximavam, corri para a direita, era o muro que limita a propriedade com a do vizinho. Premida pelo desespero, subi e saltei para o outro lado. Logo que me vi no chão, um cachorro enorme se aproximou e se pôs a latir. Pensei que seria devorada. Depois veio o dono, um homem beirando os sessenta. Sem demonstrar surpresa, afastou o cão e perguntou: “Moça, o que houve?” A única frase que consegui falar naquele momento foi: “Moço, por favor, me dê abrigo”. Ele me levou pra dentro da casa. Ainda bem que morava sozinho e não havia ninguém com ele. Sentei num pequeno sofá, cruzei as pernas, cobri os seios com um dos braços e contei o que acontecera. O homem me deu abrigo. Quer dizer, não apenas abrigo, você entende, não?

Oh, se entendo...

Jorge não saiu logo à minha procura. Ficou com seus amigos e não falou nada sobre mim. Tanto tempo nua junto a um homem, o que poderia acontecer? E tem mais uma coisa, você até podem me chamar de piranha, mas o homem foi de tamanha habilidade, que acho nunca ter dado uma trepada tão gostosa!

quinta-feira, agosto 22, 2013

Amante menor

Manuel Bandeira se dizia um poeta menor. Eu me acho uma amante menor. É verdade. Uma amante que não sabe amar. Ou, quem sabe, uma amante que ama muito pouco. Na verdade, o que sempre quis e quero é sentir prazer. E naquele pequeno aglomerado de casas de frente para o mar, eu ainda não descobrira homem algum a quem pudesse, pelo menos de modo disfarçado, voltar os meus olhos. Como morava pouca gente no lugarejo, era natural que todos se conhecessem. Portanto, uma pessoa estranha como eu, que chegara fazia alguns dias e ocupava sozinha uma casa inteira, soaria estranho à população local.

Mas já no dia seguinte surgiria alguém para me fazer acreditar que assim como Manuel Bandeira jamais foi um poeta menor, eu também não era uma amante menor. O homem, de quase dois metros de altura, despertou-me de um enleio enquanto eu, sob o sol, nas areias da praia, era embalada por quase um sonho, um sonho de claridade e de fundo musical orquestrado pelas pequenas ondas da praia.

“Você não é daqui”, afirmou.

Ainda sonolenta, virei-me em sua direção, e por trás das lentes de sol, falei:

“Quem dera, a vida toda nessa paz, nesse mar”, e me virei para o outro lado.

“A paz também cansa”, falou e se afastou.

Esqueci-me do homem.

À noite ouvi certo alvoroço numa das casas. Parecia uma festa. Alguém veio bater à minha porta.

“Você não quer participar de um festejo?”, era o mesmo homem que aparecera de manhã, na praia.

“Você poderia ter a bondade de pelo menos dizer o seu nome?”, franzi a testa após a última palavra.

Olhou-me, sério. Eu não tinha os óculos escuros para me esconder àquela hora, e também não queria desviar os olhos.

“Enamorado, é o meu nome, mas todos me chamam de Amor.”

Dei uma gargalhada prolongada. Ele completou o meu espalhafato com a sua risada, grave e mais contida.

“Verdade? Enamorado?”, repeti ainda tentando esconder os últimos traços de riso.

“Sim. Mais popular como Amor. Vamos?”, ofereceu-me o braço.

Aceitei.

Como o número de participantes era pequeno, o encontro podia ser chamado de festa mais pela alegria dos presentes do que pela quantidade. Com a minha chegada e a de Amor, completamos oito pessoas na casa. Cinco homens e três mulheres. Ao entrar, recebi sorrisos de todos os lados.

“Você vai gostar da gente”, falou uma mulher.

Um dos rapazes expeliu a fumaça do cigarro para um dos lados e me estendeu a mão. Os outros vieram-me beijar.

Reparei que um dos presentes tocava acordeom.

“Cheguei a aprender quando era criança”, falei.

“Quer”, ele fez o gesto de que me passaria o instrumento.

“Não, por favor, não lembro mais nada.”

“Rodolfo, toca pra gente”, uma das mulheres pediu.

Uma canção argentina começou a sair do instrumento. Em poucos segundos quase todos estavam a dançar. Amor tomou-me por uma das mãos, envolveu-me com seus longos braços e começamos nossos primeiros passos no centro da sala.

Após mais ou menos uma hora, espaço de tempo em que uns beberam cerveja e outros vinho, alguém sugeriu que nos fantasiássemos.

“Há um baú com vários trajes, no quarto dos fundos, são objetos de teatro. Cada um pode se vestir do jeito que quiser, mas deve colocar a máscara, assim não saberemos quem é quem.”

Todos se entusiasmaram com a sugestão. Tiramos a sorte e fomos um a um ao tal quarto. Depois de pronto, cada um saiu pela porta lateral que dava num corredor externo e foi aguardar o restante do grupo nas areias da praia. Desse modo as identidades não foram reveladas.

As fantasias eram as mais engraçadas possíveis. Havia bailarinas, palhaços, princesas, branca de neve, bruxa, dama antiga, super-heróis e uma que era apenas um biquíni mínimo. Adivinhem quem escolheu esta? Lógico que fui eu. Mas todos foram obrigados a vestir as máscaras, assim nos confundiríamos e não saberíamos quem era quem.

De início não consegui descobrir Amor. Muitos vieram a me cortejar, inclusive as mulheres. Ah, ia esquecendo, as máscaras tinham um capuz que nos cobria os cabelos, isso tornou a identificação ainda mais difícil. Até mesmo pelo corpo não foi tão fácil identificar as mulheres. Todos eram ótimos atores. Apenas o músico foi identificado com facilidade porque continuou a tocar no acordeom suas canções ora comoventes ora animadas.

A festa transferiu-se para as areias, com o mar a acompanhar com seu leve murmúrio o nosso alarido. Dançamos, ainda sob o som do acordeom. Algum tempo depois, cada um de uma vez tinha de fazer uma imitação para ser descoberta pelos demais.

A festa prosseguiu à beira mar com todos cantando e dançando. Mais bebida surgiu, trazida por uma mulher que não fazia parte do grupo. Era uma espécie de batida de várias frutas. Não passou muito tempo para que começássemos a nos agarrar. Mas não foi uma tentativa de formar casais. Ora recebíamos beijos que pareciam de homem, ora de mulher. Namoramos a três, a quatro e até mesmo a cinco.

A festa não terminou, ao menos pelo que me lembro. As duas mulheres logo ficaram nuas. Depois de beber demais, acabei dormindo, e acho que os outros também.

Acordei com os primeiros raios de sol. Dois ou três já haviam se retirado, mas os outros permaneciam desmaiados sobre areia, e quase agarrados entre si. Reparei que alguém me havia tirado a máscara e o top, mas eu ainda vestia o biquíni de fantasia.

Levantei-me e ouvi imediatamente:

“Amor está pronto para cobri-la de beijos.”

Bocejei, minha cabeça doía. Tapei instintivamente os seios.

“Cobri-la?”, repeti enquanto respirava fundo e olhava na direção do mar tentando-me refazer.

“Cobri-la. Gostou da erudição? Aqui todos somos clássicos, no idioma e no teatro”, completou.

“Então, despir-me-ei”, eu disse. Soltei os seios, fiz descer o biquininho e o larguei sobre a areia. Corri e mergulhei no mar. A água estava quente.

Depois? Ah, depois... Cada um que use a sua imaginação. Lembram o início? Sempre me considerei uma amante menor!

sexta-feira, agosto 16, 2013

À beira d'água

Depois de vários dias de chuva um sol tímido, ainda metade escondido entre as nuvens, deu o ar de sua graça, mulher que, entre lençóis, deixa escapar um lado do ombro nu. Enquanto eu permanecia deitada, o imperceptível movimento da moldura da janela sobre a cama marcava o avançar das horas..

Eram quinze para as dez quando desci à praia. Havia pouca gente na areia. O mar bravio explodia, transbordava e alfinetava-me com gotículas de gelo, devido à ressaca. Mesmo assim soltei a canga e me preparei para o mergulho. Meus pés já iam envoltos na breve e irregular espuma da beira d’água quando uma amiga segurou-me por um dos braços.

Oi, Ana, quanto tempo, falou satisfeita por me ter encontrado.

Era Alice. Quis saber como eu estava passando, o que fazia ultimamente e se assistira a determinados filmes. Conversamos durante uns dez ou quinze minutos. De quando em quando eu fazia menção de que não demoraria a correr para o mergulho. Ela, porém, puxava um pouco mais de conversa. Alice vestia bermuda e camiseta. Aparentemente não viera à praia para o banho de mar. Após suas últimas palavras, o beijo de despedida e um até breve, vi-me desimpedida.

Ia já correr para o mergulho, mas reparei um homem a me olhar. Na verdade, um rapaz. Pela insistência do seu olhar, acho que já me acompanhava desde que eu chegara. Talvez meu corpo enxuto e meu biquíni mínimo cor de terra houvessem despertado nele o pensamento de que, como a praia era de poucos frequentadores, poderia vir conversar comigo, ou mesmo deitar-se ao meu lado. De início sua ostensiva presença assustou-me. Senti até algum temor. Mas, pouco a pouco, olhei para o mar, para as ilhas distantes, reparei o horizonte, corri e mergulhei nas águas frias e agitadas.

Mesmo com o mar revolto, senti prazer em meio às ondas e espumas que me cercavam. O sol iria se firmar, eu tinha certeza, e com a sua presença o mar depois de um ou dois dias retornaria à calma costumeira. Outro prazer que sinto no banho de mar é que ao mergulhar o meu biquíni se estreita, fica ainda menor, provocando a sensação de que estou nua. Os homens. ao observarem a estreita tirinha de pano, ficam doidinhos. Aquele meu admirador matinal também ficou enfeitiçado. Se já ao me descobrir sobre a areia mostrou-se tão excitado, imaginem ao me vir molhadinha e com o bumbum à flor d' água.

Depois, enquanto retornava à areia, reparei que ele continuava a me devorar com os olhos. Ainda por cima, eu estava toda arrepiada. Percebi que ele queria aproximar-se, mas não teve coragem. Meu corpo bem torneado, com o biquíni ressaltando-me a nudez, deixou-o tonto.

Comecei andar pela beira d’água na direção do Arpoador. Caminhei mais ou menos cinquenta metros e reparei que ele já não me acompanhava. Quem sabe tocaríamos nossos corpos enamorados, caso ele estivesse ainda a me seguir? Então estaquei mais uma vez, deixei cair a canga, que eu trazia nas mãos. Olhei o mar. Lembrei que nos dias de sol daquela temporada as moças insistiam em tirar o top. Eu não aderira ao modismo. Mas tal prática atraiu à praia muita gente que vinha só para ver as mulheres com os peitos de fora. E elas faziam de conta que nem estavam aí para quem as espreitava. Permaneciam sob sol, liam alguma revista, comportavam-se com a maior naturalidade. Pela primeira vez, ali sozinha, tive vontade de nadar como as moças de veraneio, apenas a pele a me servir de agasalho.

Mergulhei de novo. Só então reparei que as espumas acariciavam-me, estendiam-se a princípio como um véu anônimo para logo em seguida transformarem-se num homem de mãos suaves, esguias, fugidias. Ele tocava-me a pele, imantava-me ao seu corpo, despia-me das duas pequeninas peças que eu não ousara deixar sobre a areia. Pensei em reagir, gritar, pedir socorro, mas meu corpo falou mais alto. Ardi e explodi de desejo.  

Como sair de dentro d'água após tamanho prazer? Como correr de volta ao apartamento? Voltei-me para a extensa faixa de areia à minha direita, à esquerda, mas já não descobri o meu homem. Ele desfizera-se como as últimas espumas à beira d'água, perdera-se no vazio da manhã de quarta feira.

Quando voltei para casa naquele dia, o sol já deixara de lado sua timidez inicial, tornara-se um jovem galante que começa a acariciar as mulheres para logo em seguida nos tirar toda a roupa.

Saí do chuveiro e me apreciei inteira no espelho do guarda-roupas. De repente, algo inesperado. Meus olhos tornaram-se os olhos do rapaz que me fez sair nua da praia. Ele viera comigo, entrara no apartamento, no meu quarto, e me aguardava. Não demoraria deitaríamos os dois, na mesma cama onde horas antes eu amanhecera sozinha.

domingo, agosto 11, 2013

Amor, perdi a cabeça

Por uma mulher, os homens sempre perdem a cabeça. Mas esperem um pouco até chegar lá. Vou do início.

Arranjei um namorado num desses sites de relacionamento. Como morava perto, não demorou a me vir visitar. Conversamos no primeiro dia enquanto andamos nas ruas da minha pequena cidade. Como é um vilarejo de veraneio e quase ninguém o visita nos dias de inverno, tivemos muita liberdade. Depois fomos à minha casa, onde ele ficou hospedado. Adorou minhas três árvores, a horta e o cão. Isso mesmo, também tenho um cão. Mas na hora de dormir...

A hora de dormir sempre é a hora do amor, principalmente se estamos no começo do namoro. Eu tinha servido umas torradas com chá numa louça de porcelana, uma pintura. Logo que acabamos, ele me abraçou e beijou. Eu disse então:

“Não quero ser pretensiosa, mas sei um jeito especial de namorar.”

Esperou, queria que eu fizesse a demonstração.

“É um jeito suave, a gente se agarra a noite inteira, se acaricia, mas não acaba logo, entendeste?”, falei amorosa.

Aceitou a sugestão. Fui a um dos quartos e me despi por completo. Apareci diante dele. Surpreendeu-se.

“Prefiro eu mesma tirar a minha roupa, gostas assim?”

“Estou adorando”, falou baixinho.

Abraçamo-nos, de pé, ele ainda vestido.

“Não, não te dispas já, espera.” Continuei agarrada a ele, nuinha. Comecei a sussurrar no seu ouvido: “gostas de histórias, não? Todo homem gosta de histórias, sobretudo na voz das mulheres. Vê, sou toda tua, mas fica assim agarradinho a mim e imagina. Estou correndo nua só pra ti, lá na beira da praia. É noite, só nós dois.

“Vamos lá”, então?, sugeriu.

“Não, não é pra ir, é só pra imaginar.”

“Ah, sim...”, suspirou com ar de decepção.

“Mais vale a imaginação”, insisti. “Continuas a me olhar e eu danço para ti. Uma dança sensual. Mas, de repente, como num passe de mágica, desapareço. E logo já estás a me procurar. ‘Como essa mulher sumiu assim tão, tão súbita?’, dizes. Isso, súbita, é a palavra certa. Eu nua e súbita. Sais a me procurar pela areia, pelas vagas da praia, pensas até em pedir ajuda, mas a praia é só das estrelas e está deserta. Então, ainda súbita, apareço atrás de ti, envolvo-te com meus braços. De início te surpreendes, depois, porém, percebes minhas mãos plenas de tato, de carícias. Despes, rápido, toda a roupa, e te queres atirar sobre mim. Mas peço, não, ainda é cedo, faz teu gozo e o meu durar mais horas na noite.”

Volto agora ao presente, ao homem dentro da sala que me ouve as histórias.

“Sinto que estás excitado. Já queres me penetrar, sei de tudo. Não é, todavia, o momento. Deita, vamos os dois sobre o tapete, como os antigos persas, uma viagem. Deita, isso, tira também a roupa, Mas não toca já o meu corpo.”

Embarcamos numa aventura aérea, apenas as mãos entrelaçadas, levemente, e eu a lhe narrar histórias, a fugir nua através de cidades imaginárias, a escapar de nobres, de magos e de plebeus, para cair numa casa vazia, os muros altos. Ele, então, que está ao meu lado, meu cavaleiro, sequestra-me nua, leva-me na garupa do cavalo.

“Come a mulher que deita ao teu lado”, sussurro com a voz alterada, “já vai amanhecer. Não, não, não é para me comeres agora, é ainda parte da história, falta o principal, o breve desfecho. Não, não percas a cabeça, farei que tu gozes com mais ardor, solta-me, não, tu não me podes agarrar. Tira os braços de mim, sê justo!”, chego a gritar.

“Por favor, já não aguento, você me incendiou”, argumenta trêmulo.

“Calma, respira fundo, bem fundo. Isso, assim. Deita, pensa que tu te equilibras, é um fio fino, tênue, mas consegues. Volta à corda, segura o sarrafo, estás a resgatar teus impulsos, as secreções que estiveram próximas a te escapar. Assim, isso, agora já vais conseguir. Melhor, já conseguiste. Mais um suspiro e tudo estará sob teu domínio.”

Duas horas depois ainda navegávamos num mar de erotismo. E o homem enfeitiçado por minhas histórias.

“Deixa agora, amor”, pede, “você está me maltratando, deixa agora, se você não quer não gozo dentro, deixa apenas sentir você.”

"Deixo, e podes ficar bastante tempo, Mas na hora de gozar, tira e goza na minha boca, compreendes?"

"Você gosta?"

"Se gosto. Adoro. Mas te peço, ainda mais uma vez, controla-te, não gozes dentro. Não vás perder a cabeça.

Voltamos às carícias. Ele, já sobre mim, logo escorregou mar adentro. Tanto mais ligeiro, gritou-me:

“Amor, amor!”

“O que foi?”

“Amor, perdoa-me.”

“Perdoar-te? Que mal praticaste?"

“Perdi a cabeça...

Do lado de fora, lá no quintal, latiu-me o cão.

domingo, agosto 04, 2013

Estava boa a marguerita?

Subíamos a rua do hotel Mercure, a Ramiro Barcelos, numa tarde de quarta-feira. Como estava frio, eu e Lana vestíamos casacos bem grossos. Lana é uma menininha ótima, adora passear, e quando sai toda agasalhada, de toca e de luvas, fica uma gracinha. Após uma quadra do hotel, reparei um homem de cabelos castanhos. Não consegui imaginar qual seria sua idade, mas ele me olhou e sorriu. Retribuí o sorriso. Continuamos o nosso caminho, eu e Lana. É comum a gente ouvir que não se deve sorrir para os homens, corremos o risco de eles nos seguirem. Dei um beijinho na minha pequerrucha e a entreguei à mãe quando chegamos à porta do seu prédio. A menina e a mãe também me beijaram.

Nesse inverno Porto Alegre está um horror, nunca vi tanto frio, falou a mãe de Lana.

É verdade, está muito frio, eu disse. Despedi-me e parti.

Naquele dia meu trabalho de babá estava feito. Só devia pegar a menina dois dias depois. Enquanto estou de férias da UFRGS, aproveito para ganhar um dinheirinho.

Entrei na Independência e parei no primeiro ponto para esperar o ônibus. Qual surpresa! O homem para quem sorri estava lá, e olhava um mapa. Num primeiro momento, ele não deu por mim. Mas, depois, ao olhar ao redor, esbarrou na minha súbita presença. Surpreendeu-se, assim como eu momentos atrás. Sorriu mais uma vez. Mas como éramos poucos ali e já estava escuro, não correspondi. Passaram alguns ônibus, inclusive o que me servia. Mas não dei sinal. O homem também permaneceu no ponto. Ora olhava o mapa, ora se certificava das direções, ora tentava estabelecer cumplicidade comigo. Vai ver está tramando como se aproximar de mim, pensei.

Não passou muito tempo para eu ouvi-lo:

Moça, boa noite.

Boa noite, respondi.

Você poderia me dar uma informação?

Sim, desta vez tornei minha fisionomia séria.

Estou perdido, acho, queria ir ao shopping Bourbon, será que estou no ponto certo?

Sim. Aqui mesmo há o ônibus para lá.

Ameacei voltar ao meu silêncio, mas estava doidinha para que ele continuasse a conversa.

Quero ir à Livraria Cultura, falou.

Conheço, correspondi.

É uma boa livraria?, ele quis saber.

É ótima.

Você já a visitou muitas vezes?

Às vezes vou lá. Como estudo na universidade federal, preciso sempre ver alguns livros.

Ah, que interessante, fez de conta que se surpreendeu, universidade federal, que bom, exclamou. Você passou de mão dada com uma menina, não?, continuou ele.

Sim. É Lana, trabalho cuidando dela para a mãe fazer compras e trabalhar, principalmente em época de férias.

Você é esperta, não?, sorriu.

Achou positiva minha iniciativa de trabalhar para manter meus estudos.

Estou faz algum tempo precisando ir à Cultura, dei a ficha.

Então, que tal?

Acabei indo com ele. Não preciso contar como é um shopping, tanto mais o Bourbon, bem pegado ao Iguatemi, com todas aquelas lojas, vitrines sedutoras, luzes, escadas rolantes e cores.

Ele adorou a livraria. O homem era do Rio. Disse que estava gostando muito de Porto Alegre, uma cidade muito limpa e organizada.

Você veio a turismo?, arrisquei.

Sim e não.

Como alguém pode responder sim e não ao mesmo tempo?, mostrei-me curiosa.

É porque faço um tipo de turismo diferente. Viajo a passeio mas faço algumas anotações, escrevo algumas coisas.

Você é escritor?, mirei direto seus olhos.

Sim e não, respondeu novamente. Depois completou: não gosto de falar do meu trabalho, algumas pessoas dizem que sou vaidoso demais. Tento vencer esse ponto.

Ok, respondi e me calei por alguns minutos.

Entramos num café, no próprio Shopping. Perguntou o que eu desejava.

Um cappuccino.

Ele pediu para si um café expresso. Tirou da sacola o livro que comprou e ficou olhando a capa demoradamente. Depois passou as duas primeiras páginas e leu alguma coisa. Você gosta de ler?, perguntou-me.

Gosto.

Que tipo de livro.

Antes eu lia literatura, mas agora com os trabalhos da faculdade...

O que você estuda na faculdade, ele quis saber.

Biologia.

Interessante, uma estudante de biologia que diz gostar de romances.

Não só de romances, mas de peças de teatro.

Você costuma ir ao teatro?

Ao teatro vou raramente. Mas gosto de ler as peças.

Pareceu satisfeito mais uma vez com minhas respostas. Alguma coisa em algum dos três livros que comprara o entreteve.

Conversamos amenidades. Passaram-se quinze minutos. Nossos assuntos foram sobre lazer, passeios, comidas, cidades da preferência de cada um de nós e viagens de férias.

Você é muito sério para ser do Rio, falei espevitada.

Você acha?

Acho. Conheço algumas pessoas do Rio. Elas são muito extrovertidas. Acho que algumas chegam a ser loucas, falei sorrindo, você é muito silencioso. Ele não reagiu.

Saímos do Shopping. Perguntou onde eu morava. Queria me levar em casa. Naquele momento, acho que comecei a gostar dele, do seu jeito meigo e discreto. Imaginei que não mais o veria. Vai ver vai embora amanhã cedo e vou ficar a ver navios, pensei. Acabei perguntando sobre o tempo de sua permanência na cidade.

Tenho de ir embora amanhã.

Tão rápido assim?, mostrei meus olhos grandes como sinal de surpresa.

Já estou aqui faz três dias.

Ah, que pena, deixei escapar de propósito.

Vamos ficar juntos mais um pouco, então? Convidou e olhou para mim com certo interesse.

Vamos.

Você deseja ir aonde?

Não sei, faça como achar melhor, eu disse.

Quando o táxi parou na entrada do prédio, eu ainda não sabia para onde ele me levava. Mas logo reparei o seu hotel, o mesmo por onde passei com Lana.

Vamos ouvir um pouco de música. Tenho um Ipad bastante carregado.

Subimos ao décimo segundo andar.

O apartamento em que ele estava hospedado era muito acolhedor. Logo após a entrada havia uma pequena cozinha americana; depois o balcão que dividia a cozinha da pequena sala. Já do lado da sala, dois bancos altos aprumavam a elegância do local. Uma porta de vidro à direita dava acesso à pequena varanda. Ao fundo do sala, o pequeno corredor com um lavatório abria caminho ao quarto.

Ele apontou o sofá bege e pediu que eu sentasse. Olhei à minha esquerda e pude apreciar, através do vidro, a paisagem lá fora. Era possível ver grande parte da cidade. Prédios se alternavam em tamanho. O céu, apesar da noite, não estava escuro.

Você quer beber alguma coisa?, perguntou enquanto acionava o pequeno computador com as músicas prometidas.

Pensei em algo extravagante para comemorar tudo que me estava acontecendo naquela noite. Uma marguerita, você tem?, sugeri.

Vou pedir ao serviço de quarto. Foi ao telefone e ligou para a recepção.

Reparei uma quantidade grande de livros sobre a mesa.

Você lê bastante, afirmei, trouxe todos com você?, apontei os livros.

Alguns sim, outros comprei nas cidades por onde passei.

São quase todos de literatura.

Sim, a leitura desses livros também faz parte do meu trabalho.

Você vive mais o universo da imaginação do que o da vida real, provoquei.

A imaginação também faz parte da vida real, retrucou, levantou-se e foi até o balcão da cozinha apanhar algo para servir.

Sabe que sou boa em contar histórias?, afirmei.

Verdade?, fez ar de surpresa. Conte então uma história para mim?

Conto, respondi com entusiasmo. Qual tipo de história você deseja?

Uma história sobre você, e tem de ter algo especial.

Especial?, fiz-me de inocente. Como assim?

Todos nós somos especiais, você não acha? acrescentou.

Ah, entendi, algo especial, deixe-me ver...

Já que você pediu uma bebida tão estimulante, acho que sua história terá algo muito especial!

Sorri e fiz cara de boba. Cruzei as pernas. Olhei mais uma vez a paisagem.

A campainha soou. Ele foi abrir. Um empregado do hotel trazia a minha marguerita. Meu recente admirador pegou o copo e o colocou sobre a mesinha, bem junto a mim. Depois foi até a geladeira e abriu uma cerveja para si. Brindamos.

Agora, a sua história, por favor, pediu.

Você está acreditando tanto nela, que já estou até envergonhada.

Nada de vergonha, foi você que afirmou ser uma boa contadora de histórias.

Ok, vou contar. Tudo que contamos tem relação conosco, mas digamos, esse fato aconteceu com uma amiga, sabe, dessas amigas meio loucas. Ela sempre me diz Anita, quando um homem me agrada, faço tudo para sair com ele no mesmo dia, ou melhor, na mesma hora, não gosto de deixar para o dia seguinte, algo pode dar errado, é melhor sairmos logo. E lá foi ela. Conheceu no Barra Sul, um shopping da zona sul. Não fica muito longe. Estava na praça de alimentação, de noite, fazia um lanche. Não havia lugar para ela sentar. Então, avistou um homem sozinho numa das mesas. Perguntou posso sentar aqui? Ele respondeu lógico, é um prazer. E lá ficaram os dois, um em frente ao outro. Trocaram algumas palavras. Sabe como acontecem essas coisas, palavra puxa palavra, um assunto traz outro e, em poucos minutos, pareciam que já se conheciam havia anos. Não demorou saíram dali e puseram-se a andar pelo shopping. Depois de trinta minutos, ela propôs estou com o carro aqui no shopping, quer que eu te leve a algum lugar? O homem aceitou. Disse que bom andarmos um pouco de carro. Anita, ela falou pra mim, o homem tinha um jeito especial, parecia artista de TV. Rodaram e rodaram por aí, primeiro a Zona Sul, depois o Centro. Ele pediu que ela parasse num posto e encheu o tanque de gasolina do carro dela. Depois ele lhe disse pena que já está tarde, porque queria comprar uns presentes para você. Ela respondeu não faz mal, compre amanhã, aliás, nem precisa comprar, não estou com você por interesse. Continuaram o passeio de automóvel. Enfim pararam onde ele morava e subiram ao apartamento. Anita, ela me falou, você precisava ver onde o homem mora, quase perguntei se era artista, mas fiquei na minha, achei melhor mostrar indiscrição. Bom, terminaram a noite no maior amor. Mas agora é que vem o surpreendente: o homem tinha lá uns costumes estranhos. Primeiro pediu que ela tirasse o casaco; depois a blusa e a calça; a seguir, que ficasse nua na varanda. Anita, estava um frio terrível, mas mesmo assim fui nua para a varanda. Então, ele acendeu a luz. Os apartamentos dos outros prédios todos escuros, e eu ali nua, como num palco onde todos pudessem me admirar. Depois que ele puxou a porta corrediça e a convidou para o quarto, lhe fez mil carinhos. Mas duas horas depois, quando ela já ia embora, outra surpresa. Ele pediu que ela vestisse apenas um suéter, queria vê-la dentro daquela roupa. Anita, falou, você precisava ver, o suéter caiu justíssimo no meu corpo, e curtíssimo!, ele pediu para eu ir embora vestida daquele jeito, parecia um minivestido de mangas compridas. Descemos até o carro, então ele me fez o último pedido: tire o suéter, por favor. O que, você vai me deixar nua? ela fingindo desespero. Não, quero ver apenas você nua como motorista. Ela tirou o suéter e o entregou nas mãos dele. O homem, então, a presenteou com um cheque de dois mil reais. Bem, já que você tem tanta literatura sobre a mesa, adivinhe o final da história, principalmente depois que ela ficou nuinha ao volante, concluí.

Meu recente namorado beijou o meu rosto furtivamente. Estava boa a marguerita?, perguntou.

Fiz que sim com a cabeça. Ele, então, me pegou no colo e me levou para o quarto.


Dois dias depois, quando passei de novo de mãos dadas com Lana pelo hotel onde ele se hospedara, senti uma ponta de saudade. Mas não fiquei triste pelo homem já ter partido. Fora ótima a aventura. Mas, estou certa, acontecerão mutias outras, aparecerão muitos outros. Eles sempre com suas histórias. E eu, ainda melhor, com as minhas.