quinta-feira, julho 15, 2010

Adorei a surpresa, e eles também!

A ideia foi dele, meu namorado. Estávamos na minha casa. Fica em Macacos, um lugarejo montanhoso próximo a BH, num condomínio fechado. As casas são distantes uma das outras, e durante a semana não há quase ninguém.

Saímos da casa, contornamos pelo lado esquerdo. Nos fundos, há uma rede para se deitar, num espaço entre o corpo da casa e o muro que limita o terreno. Como o dia estava meio ensolarado, cismou que eu tinha de ir de biquíni.

Relutei:

“Aqui não tem piscina, ninguém fica de biquíni.”

“Não faz mal, está sol, você pode até ficar um pouco moreninha, já que é tão branquinha.”

Acabou me convencendo. Experimentei um dos meus biquínis. Achou um pouco grande. Vesti o segundo. Também não gostou. Quando vesti o terceiro, apaixonou-se. Um biquíni minúsculo, raso. Para usá-lo era preciso estar inteiramente depilada, e eu estava.

“Deixe-me procurar algum pano para enrolar o corpo, a casa ainda não tem o muro da frente.”

“Não será necessário”, falou.

“Não será necessário, por quê?”

“Você vai assim mesmo, qualquer problema basta ficar dentro da rede.”

“Tenho muitos amigos e conhecidos, não posso sair assim, sempre aparece alguém.”

“Caso apareça, escondo você.”

“Esconde? Onde? Dentro da rede? Tenho um metro e sessenta e cinco e sessenta e dois quilos. Não é possível que você consiga me ocultar em algum lugar sem que alguém note.”

“Vamos. Não vai chegar ninguém. Ninguém faz visitas às duas da tarde.”

“Não? Você vai ver”, acabei concordando.

Na verdade, senti uma ponta de excitação pelo desejo do namorado. Ele sempre inventava artifícios que me despertavam ardor. Acabei também achando que não chegaria ninguém.

Rodeamos a casa e mergulhamos na rede. Demoramos um pouco até encontrar uma posição confortável. Depois ele me abraçou com mais força, me beijou. Por fim, tirou o meu biquíni.

Quando já íamos lá pelas tantas num namoro frenético e embolado, escutamos a buzina de um automóvel.

“Não falei? E agora, como vamos fazer?”, tentei sair da rede e encontrar o biquíni. Mas depois vi que seria pior. Resolvi permanecer imóvel, deixando a ele, o inventor daquilo tudo, a tarefa de encontrar uma solução.

Saiu da rede sozinho, vestiu rapidamente a bermuda e foi até a frente da casa.

Voltou em menos de vinte segundos.

“São dois homens, disseram que alguém mandou entregar um presente a você, mas é preciso que você mesma o receba.”

“Presente? Não faço aniversário nem há data importante para comemorar.”

“Alguém está te presenteando com um carro”, falou cabisbaixo.

“Um carro? Quem haveria de me dar um carro? Não conheço ninguém que me daria um presente desses.”

“Mas é verdade, e é de um tal de Itamar.”

“Itamar? Não diga? Ele está aí? É você que vai ficar escondido dentro da rede, viu? Vou despachá-lo, fico com o presente e o mando embora. Depois corro pra você de novo.”

“Ei, espere, volte aqui, ele não esta aí, são só os entregadores. Volte aqui, você está nua!”

Corri pra frente da casa. Meu galanteador não estava lá. Mas eu e os entregadores adoramos a surpresa!

quinta-feira, julho 08, 2010

Você está vendo esta pracinha?

Você está vendo esta pracinha e a escadaria ao fundo? A escadaria dá na rua de cima, que se chama Cardeal. Tanto a pracinha como a rua me lembram um acontecimento muito divertido. Tive um namorado que morou aqui, no último prédio da rua que fica à direita da escadaria. Ele morava sozinho e eu vinha aqui namorar com ele. Adorava me ver nua, aliás, como todos os homens. Só que ele tinha suas extravagâncias. Depois de bebermos sempre uma garrafa de vinho, gostava de andar comigo de madrugada por esse lugar. Um dia quis me levar nua para passear. Eu disse: “nua?, mas se aparecer alguém?” Ele insistiu: “não aparece, não, é tarde, já estão todos dormindo.” Eu replicava: “esse lugar é muito movimentado, vai que aparece alguém...” Depois de muitas idas e vindas, chegamos a um acordo. Eu iria vestida apenas com uma camisa social dele transformada numa espécie de minivestido. Com o cinto que eu vestia ao chegar até que fiquei arrumadinha. A camisa, o cinto e a sandália, nada mais. Saímos depois de meia noite. Subimos a escadaria e seguimos pela Cardeal; contornamos uma outra rua e nos metemos por outra ainda mais íngreme. Sabe como é Santa Teresa, um bairro cheio de ladeiras. Encontramos, no caminho, um bar. Estava mais para um botequim; havia homens bebendo cerveja e duas ou três mulheres. Eu e meu namorado entramos, pedimos também uma cerveja. Começamos a beber; ele perguntou com olhar lânguido, como se quisesse descobrir minha nudez por debaixo da camisa: “como você está se sentindo nua?” “Não estou nua”, respondi. “Está sim”, reafirmou. As pessoas conversavam em voz alta. Tentamos ouvir o que falavam. Às vezes riam da inflexão de voz que algum deles emitia. Lembro que um comentou sobre uma peça de teatro. Acho que a haviam assistido naquela mesma noite. Ao acabar de beber, pagamos e saímos. Meu namorado estava louco para me agarrar em algum canto escuro. Dei a mão a ele e nos metemos pelo mesmo caminho, só que de volta. Quando descíamos a escadaria, ele me encostou num dos corrimões e me deu um longo beijo. Depois ficou agarrado comigo sem deixar que eu me mexesse. Então soltou meu cinto e desabotoou minha camisa. Acabou por me deixar nua. Fizemos amor ali mesmo. Imagine, eu nua, no meio daquela escadaria, às duas da madrugada. Posso afirmar que foi ótimo. Depois acabou acontecendo o que ele queria no início. Lembra que falei do desejo dele de que eu saísse nua naquela noite? Pois é, não saí nua, mas voltei. Ele não me deixou vestir. Mas no final deu tudo certo. Quando já estávamos dentro do seu apartamento rimos muito.

quinta-feira, junho 24, 2010

Soltinha

O inverno faz lembrar namoros antigos, aconchegos, toques e roçar de corpos, passeios após o cinema já a madrugada a vingar, rostos colados, fumaça escapando junto a palavras, carícias, casacos macios, abraços e suspiros.

Certa vez, tive um namorado fantasista. Possuía uma imaginação... Fugíamos pela cidade escura, bairros boêmios, carros fechados, orla marítima; corríamos um após o outro até conseguir o abraço incansável, o beijo úmido, nossos hálitos mornos, noturnos. Numa noite de frio intenso, um frio de cortar a pele, de avermelhar os rostos, punhal a contrapelo capaz de suspender o arfar de peitos enamorados, pediu-me ele: “vista o casaco de peles, aquele que desce até abaixo dos joelhos.” “Sim”, comecei com a breve sílaba, respirei: “há muito não o tiro do armário.” “Há mais uma coisa”, continuou. “Qual?”, olhei para ele curiosa. “Vista só o casaco, nada mais, o casaco a roçar a pele lisa.” “Apenas o casaco?”, franzi-me assustada. “Isso, só o casaco, não basta? Com todo esse frio, o casaco e o calor do meu corpo”, sentenciou.

Saímos depois da meia-noite. Foi uma noite longa. Após bater a porta, confesso que tremi. Não de frio, mas devido a uma ponta de arrepio, ansiava pelo que estava por vir. Ia elegante, o corte do tecido acompanhava minha cintura, o casaco não deixava meu corpo indefinido, como normalmente acontece quando vestimos roupa de tecido grosso. Entramos num automóvel, um táxi com destino a um dos bares da Lagoa. “Sentes frio?”, quis saber. “Sou gelo sem as meias.” Enfiou então uma das mãos por entre os botões inferiores.

No bar, bebemos vodca, como os russos fazem no inverno deles. À volta homens e mulheres agasalhados com lã, xales e cachecóis. Olhei para o meu namorado e descobri que ele estava imaginando-me nua, sentada no mesmo lugar, de pernas cruzadas e levando o copo aos lábios para mais um gole de vodca. Ficamos no bar até às três da madrugada. Algumas pessoas entraram, outras saíram. O garçom, depois das duas, nos ofereceu uma mesa melhor, num local interno, onde havia uma mulher tocando piano. “Que tal?”, disse meu namorado. “À esquerda, após a entrada, há um lugar para a senhorita pendurar o casaco.” “Obrigada”, falei sem temor. Não deixei de sorrir. Depois de duas doses de vodca, estava soltinha, deslizando por sob o casaco de peles. Meu namorado não acreditou quando eu mesma sugeri: “Vamos, amor.” Entramos no salão aquecido.

Na volta, ainda no táxi, rimos muito. Tentávamos imitar os olhos arregalados do maître: “ senhorita, por favor, pense na sua saúde, lá fora está muito frio.” Eu a responder, como se fosse a mulher mais vestida do mundo: “mais uma vodca, por favor.”

quinta-feira, junho 17, 2010

Dissimulada

Meu namorado adora me fotografar. Desta vez me pediu algumas poses inéditas. É lógico que já me fotografou nua por inteiro. Mas, na última sessão, ele foi mais criativo. Primeiro bebemos uma garrafa de vinho tinto, de origem francesa. Uma delícia. Beliscamos pequenos cubos de queijo, tudo no mais alto requinte. Depois, começamos. Não esperava que fosse querer fotos naquela noite. Falou, porém:

“Silvia, tire a calça comprida. Fique apenas de blusa e de sandália.”

Eu calçava uma sandália muito requintada, de meio salto. Fui ao banheiro, fiz o que me pediu.

Voltei à sala nuinha do umbigo até os pés. Ele já me esperava com a câmera.

“Fique de pé, virada um pouquinho para a esquerda.”

Atendi. Coloquei-me ereta, mas num meio ângulo em relação à câmera, com as pernas retas, numa ameaça de dobrar um dos joelhos. Sorri para ele. E os braços? Eles são sempre um problema para quem não está acostumada a posar. Podem parecer que estão flutuando, sem que a modelo saiba o que fazer com eles. Não foi, porém, o meu caso. Encostei levemente as mãos nas coxas. A foto ficou uma gracinha. Apesar de eu me mostrar um tantinho voltada à esquerda, é possível ver que estou nua.

Em seguida, me pediu a mesma pose, mas na posição oposta, isto é, agora virada um pouquinho para a direita. A foto saiu tão boa quanto a primeira, só que apoiei as mãos na cintura, um charme a mais.

Pediu que eu ficasse de frente. É bom repetir: sempre nuinha desde o umbigo, apenas a sandália branca a combinar com a blusa curta. Fiz a pose, dobrei levemente o joelho direito, não queria parecer tensa, estática.

Depois me quis agachada. Correspondi. Na primeira, uma pose lateral, aparecendo a parte externa da coxa direita, mostrando que estava nua, mas sem apresentar o principal. Daí, veio a pose apoteótica. O nu frontal, ainda agachada e com as pernas levemente abertas. Um verdadeiro show. Tive o cuidado de manter a coluna bem reta; mostro altivez, elegância e conforto.

Outra série. Dessa vez sentada no sofá, ainda nua. Pernas cruzadas, a direita sobre a esquerda, olhando à câmera, ligeiro sorriso, como se estivesse à espera de alguém. Em seguida, quase a mesma posição, só que agora com a perna esquerda sobre a direita, mas o olhar voltado para um ponto fora do visor da câmera, a face séria, mas não inteiramente preocupada.

Outra pose: as pernas ainda cruzadas, lendo uma revista, esquecida de que estou nua, “talvez ainda tenha que esperar um pouco, mas não se impaciente, leia um pouco”, disse ele. Ah, meu namorado e suas fantasias...

Mais uma foto. Ainda sentada sobre o sofá, as pernas não mais cruzadas, mas ligeiramente abertas, como se num momento durante à espera eu esquecesse que deveria disfarçar a nudez e perdesse momentaneamente o controle sobre meu corpo; o olhar vago, já um tanto indagador, o que me acontecerá, terei de esperar nua por muito tempo?

Mais duas fotos para completar a fantasia. A penúltima, depois da seguinte história, contada por ele com voz entrecortada:

“Lembra aquele conto que nós dois lemos? A mulher anda com o marido pela rua, senta num banco à beira mar. A madrugada vai alta, ele lhe tira a saia, e ela, nua, se deixa ficar. Por momentos, deseja estar sem ele por perto, pede que se vá, pois quer experimentar uma aventura. Ele atende. Volta vinte minutos depois. Ela, porém, já não está no mesmo lugar. Aparece em casa de manhã, ainda seminua. Jamais lhe contou o que aconteceu. Fizemos a mesma coisa, lembra? Não foi apenas meu o desejo. Você também achou ótima a ideia.”

Fez então a foto: eu nua, à beira-mar, sentada num banco, sozinha.

“Agora a última. É o desfecho, mas da nossa história”, continuou. Mostrava-se excitado. “Você sentadinha, lívida, naquela sala sóbria. Acabei por ter de ir buscá-la. Estava na mesma posição, como no banco à beira-mar, ainda nua, a face séria, as pernas cruzadas, balançava um dos pezinhos fingindo enfado. Desculpei-me e agradeci a seus benfeitores. Paguei a quantia que pediram e trouxe você, ainda branquinha, nuinha. Você não pronunciou som algum, nenhuma palavra. O bom foi quando chegamos em casa, lembra? Depois de tudo resolvido, como você gritou. Excitadíssima! E ainda havia a foto, feita por eles. Mas você diria que aquela não era você, mas uma mulher muito bonita e parecida. Vamos, faça agora a mesma pose! Mostre a sua verdadeira face: dissimulada!”

quinta-feira, junho 03, 2010

No início fiquei apavorada, mas depois...

Sou de uma pequena cidade do interior do Rio, por isso sempre fui uma mulher recatada. Mas aquela invenção mexeu comigo. De início, fiquei apavorada, mas depois acabei aceitando. Como dizem por aí: foi amor à primeira vista. Portanto, tudo que ele me pedisse eu faria. E fiz.

Vamos do começo. Fui trabalhar numa escola. Um contrato temporário. Sou professora de matemática há bastante tempo, mas nunca trabalhei para o município de M. Alegrou-me a perspectiva da nova experiência. Logo no primeiro dia, me deparei com ele. Disfarcei, mas meus olhos me arrastaram para o local onde ele estava sentado. Não sei se o percebi um tanto entediado, ou triste. O jeito dele, porém, tocou meu coração.
Passaram-se duas semanas. Nos encontrávamos três dias na semana, comentávamos sobre as atividades escolares e as atitudes dos alunos, embora não ensinássemos a mesma matéria. Melhor assim, cada um na sua; falaríamos apenas, caso nos aproximássemos fora dali, sobre o que martelava em nossos corações.

Num belo dia, já quase na hora de ele ir embora, pediu o meu e-mail! Fiquei felicíssima. Falou-me acanhado, como se temesse uma recusa, ou mesmo ouvidos alheios. Senti que não desejava se arriscar, pôr tudo a perder num primeiro momento. Deu certo, encontrávamos a sós na sala dos professores. Ele anotou cuidadoso, conferiu, parecia temer qualquer letra diversa que poderia enviar sua futura mensagem a algum continente perdido.

Na mesma noite, escreveu-me. Não respondi no momento em que li. Precisava pensar. Procurei ganhar tempo, fazer-me de desatenta, “não gosto muito de computador”, ou “não olho minha caixa de correio todos os dias”, seriam minhas palavras quando o encontrasse. O que eu queria, no entanto, era me fazer de difícil. Representar. As mulheres são assim, não podem logo se entregar. Tal atitude pode estragar tudo. Mas vinte quatro horas depois, meu coração já ia descompassado. Eu tinha de responder. Escrevi seca: “ok, obrigada pela atenção”.

Quando nos vimos no dia seguinte, fui eu que me mostrei atabalhoada. Disse logo que o avistei: “recebi sua mensagem, já respondi”, sentei no outro lado da mesa enquanto ele me mostrava um ligeiro sorriso. Outro professor que estava no local – abria um armário – ainda chegou a olhar para ele, depois para mim, mas nada disse.

Um ou dois dias depois recebi outra mensagem.

“Lis, vou ficar na cidade a semana inteira, tenho uma ou duas noites livres. Aceitas tomar um chope comigo, ou mesmo comer uma pizza?”

Meu coração encheu-se de alegria. Era bom saber de alguém que se interessava por mim e me dedicava o pensamento!

Quis fazer-me recatada. Não podia aceitar logo de cara. Demorei quase três dias para responder. Acho que para um e-mail todo esse tempo é uma eternidade. Estava mais ansiosa que ele, no entanto.

Marcamos para o sábado seguinte. Levou-me a um restaurante, na orla. Confesso que, apesar de morar na cidade há muitos anos, nunca tinha ido a tal restaurante. O ambiente estava agradável, as pessoas bonitas, os garçons nos servindo com elegância e, o principal: comidas e bebidas maravilhosas.

Conversamos apenas amenidades. Ele falou sobre um livro que lera recentemente; eu, sobre um filme que desejava ver; comentamos sobre alguns assuntos que aconteceram durante a semana; enfim, nos esforçamos para não falar da gente. Permanecemos ocultos sobre a frágil capa das palavras.

Terminamos lá pelas onze e trinta. Ele deu uma volta de carro por toda a orla, dirigia vagaroso, parecia não querer que chegasse o momento de me deixar à porta de casa.

Ao sair do carro, sorri e beijei-lhe uma das faces. Ainda não foi ali que aconteceria o principal.

Como ele é de cidade grande, achei que desanimaria.

Na segunda vez, não esperei por ele. Disse o tanto que gostara do passeio, da conversa e do jantar. Convidou-me, então, de novo. Mas arriscou. Queria-me durante um dia inteiro de domingo. Iríamos a outra cidade: uma praia e duas cabanas que na verdade eram dois restaurantes rústicos.

Preparei-me. Biquíni novo, short, blusa curta, óculos escuros. Apanhou-me à porta de casa por volta das dez da manhã. Viajamos cerca de trinta quilômetros. Guiava devagar, olhava a paisagem, vez ou outra virava o rosto para mim e sorria. Também usava óculos escuros; no mais, camiseta, bermuda cinza e sandálias.

Ao chegar, escolhemos um pouso sobre a areia num local distante de onde já se encontravam algumas pessoas. A meia estação afastava os turistas. Olhando a longa extensão de areia à direita, podia-se reparar que não havia ninguém por lá, apenas o mar explodindo, a areia branca e, acima, alguma vegetação próxima à pequena estrada de terra.

Ele demorou a tocar o meu corpo. A princípio, pensei que ficaríamos apenas admirando a natureza, tomando banho de sol, de mar e conversando. Ele agia devagar, era cauteloso.

Fui eu que descontraí o ambiente:

“Adoro caipirinha. Naquela noite não pedi porque achei que você fosse fazer mau juízo de mim.”

“Mau juízo, o que é mau juízo?”, seus olhos tinham um ar de ironia.

“Amor, não me leve a mal”, falei a palavra chave sem perceber.

Levantou-se, caminhou até a pequena cabana e voltou com dois copos compridos, plenos, a bebida meio esverdeada e espumante nas bordas.

Sorvi o meu canudo delicada. O líquido chegou-me à boca; a temperatura baixa da bebida misturada ao teor de álcool, o calor de meu corpo e os sussurros do amor excitaram-me. Quando pousei o copo sobre uma pequena banqueta, ele abraçou-me. Era o primeiro beijo. Após quinze ou vinte minutos, nossas bebidas já tinham descido até a metade. Estávamos preparados um para o outro. Abraçamo-nos de novo; seguiu-se um longo beijo. Na posição em que estávamos, meio sentados, meio deitados, nossos corpos se aconchegaram. Completávamo-nos.

O dia foi maravilhoso e excitante. Na praia, não foram muitos os frequentadores. Apenas uma ou duas famílias. Os bares também tiveram pouca frequência, e os empregados nos atenderam com satisfação.

Houve um momento em que entramos n’água e permanecemos abraçados. Ele deslizava a mão pela minha cintura, pelo meu ventre, chegou a tocar o meu bumbum e acariciar as minhas pernas. Quis tanto que ele me deixasse nua! Mas nada falei. Meu coração palpitou mais forte, marcava a timidez que quase sempre me acompanha. Beijamo-mos dentro d’água, agarramo-nos bem apertado.

Lá pelas cinco, o céu já se avermelhava, e éramos apenas dois amantes no fim de tarde. Bebêramos com algum exagero, almoçáramos, e resolvemos caminhar um pouquinho na faixa de areia. Foi então que tudo se tornou mais fácil. Para mim e para ele. No meio da caminhada, encontramos mar adentro uma pedra solitária. Cabia apenas uma pessoa sobre ela.

“Você tira uma foto minha?” apressei-me a correr, entrei n’água e subi na pedra.

Ele fez a foto.

Fiz outra pose, encolhida, como estivesse nua e envergonhada. Clicou de novo.

“Você tem o corpo bonito. Não quer que eu tire uma foto de você nua?”

Sei que o coração dele bateu mais forte ao dizer a última palavra. O meu não deixou de acompanhá-lo.

“Nua, nua?”, repeti titubeante.

“Nua”, confirmou meio sonso, do jeito que eu gosto.

O gostinho das caipirinhas invadiu-me de novo o paladar, minha pele se arrepiou e o desejo expandiu-se dentro do meu corpo.

Nada mais falei. Soltei o top arremessando-o a ele; depois, o biquíni. Fiz a primeira pose sobre a pedra, a mesma que fizera vestida; a seguir, a outra, virada um pouquinho para frente, as coxas flexionadas na direção do tórax, mas deixando escapar o bico de um dos seios.

Depois que desci da pedra, entrei no mar. Pedi, então, que viesse ao meu encontro. Era o exato momento de me entregar. Não me arrependo. Não tive muitos namorados e, até ali, ele me fez sentir algo que jamais experimentara.

A câmera era minha. Levei-a com as fotos. No dia seguinte, mais uma ousadia: enviei-as para o seu e-mail.

Não tardamos a nos encontrar de novo. Eu, mais solta; ele, mais apaixonado!

quinta-feira, maio 27, 2010

Vitrine

Outro dia fui à praia, reparei discretamente os homens, eles me olhavam como se olhassem para uma vitrine, apenas isso, não houve quem se aproximasse. Numa festa, faz uns quinze dias, notei que uma amiga não gostou do que falei a ela. Disse que os homens, mesmo os que estavam acompanhados, olhavam para os meus seios. Sei que depois ela vai comentar com outras pessoas. Mas não ligo, estavam olhando mesmo. Não sei o que acontece comigo, acompanhados ou sozinhos são poucos os que se aproximam, e quando isso acontece é para falar umas bobagens. Está difícil conseguir um namorado. Não, isso não, não crio dificuldades nem sou muito exigente. É lógico que prefiro alguém que more aqui pela zona sul, que tenha um nível de vida semelhante ao meu. Sou bonita, você sabe, sou jovem, mas não tenho tido sorte ultimamente. Sobre aquilo que você me contou. Aquilo, não lembra? Que você teve um namorado que adorava aventuras noturnas, deixava você nua e coisa e tal. Tentei pensar nisso, mas fico toda arrepiada. Tremo que só vendo. Não tenho coragem. Caso me apareça um homem assim, vou correr dele. Nua? Claro que não. Se já vestida eu morro de medo... Mas fala sério, Nete, você fazia aquelas coisas mesmo? Como você permitiu a um homem tirar toda a sua roupa e deixar você nua numa estrada deserta por mais de meia hora? Sei que você falou que tinha um casaco. Mas ele não descia além dos quadris. Você, nua, apenas com o casaco. Não acredito. Foi verdade mesmo? Só você, Nete. E você ainda me diz que não tem dificuldade de arranjar namorados, que sempre tem alguém procurando por você, não é mesmo? Deve ser por isso. Não? Então é por quê? Será que é por causa da história da praia? Qual história? Não foi você mesma que me contou? Aquele namorado que a deixou nua dentro d’água... Ah, foi o mesmo homem do caso da estrada? Mas mesmo assim, não sei como você atrai tantos homens. Lembra que você me contou que sofria de depressão e que saía pela cidade de madrugada e acabava indo até a rodoviária porque lá era um lugar movimentado? Não esqueci também essa. E você arranjou ainda um namorado, e o rapaz era um mergulhador. Mergulho em plataformas de petróleo. Quando desembarcava – não é essa a expressão? – o cara ligava pra você. E lá ia a Nete atrás do homem... Mas eu acabo sendo sempre apenas uma vitrine. Os homens me olham e não se aproximam. Se eu fosse velha, feia, mas não. Tenho uma amiga sessentona que arranjou um cara quatorze anos mais novo. E ele é um gatinho. Outro dia foi com ela a uma festa em que eu estava. Mas ele nem me olhou. Todos os homens que estavam lá me olharam, mesmo os casados, e apreciaram os meus seios. Mas o namorado de minha amiga sessentona nem olhou pra mim. Pensei até que ele fosse gay, mas diz ela que ele trepa que é uma beleza. No final da festa ainda dei um beijinho nele, de despedida. Ele agradeceu, me beijou também. Mas tudo na maior seriedade. Não sei o que faço. Acho que você tiraria a roupa e sairia pelada por aí, não? Não mesmo? Você não precisa porque sempre aparece alguém? Então me diz a fórmula, Nete. E diz logo porque tenho de desligar. Você acha que sou muito preocupada com isso e que a preocupação atrapalha? É mesmo? O quê? Esquecer esse assunto por uns tempos, tentar não pensar nisso e procurar me distrair com outra coisa? Acho então que vou tentar fazer isso. E olha que já tentei de tudo. Até psicanálise... Um beijo, tchau. Pode deixar que não vou esquecer o conselho.

quinta-feira, maio 13, 2010

Máscaras

– O fato, Joana, é que a maioria das mulheres quer casar. Se não fosse isso, não haveria problema.

– Não entendi, Margarida.

– É simples, dou exemplo: se você tem um namorado, sai com ele uma vez na semana e se sente satisfeita, por que há de perguntar o que ele faz nos outros dias?

– Tenho ciúmes.

– Pois o ciúme é fruto dessa tentativa de casamento. Ouça, você marca para sair com ele todo sábado, ou toda quinta. Ele vem, você sai. Ele a leva aos melhores lugares, a espetáculos, restaurantes, hotéis etc., você está plenamente satisfeita. Se você pergunta o que ele faz durante o resto da semana, ou se o quer por todos os dias, aí já vai acontecer algum problema.

– Joana, o raciocínio da Margarida está certo. Qualquer uma de nós que tenha um namorado e o sinta prazeroso não deve fazer perguntas. Não é isso, Margarida?

– Exatamente, Raquel. Certa vez eu tive um namorado que era maravilhoso. Nós nos encontrávamos uma vez, no máximo, duas na semana. Tudo era perfeito. Mas naquele tempo eu não pensava como hoje. Então comecei a investigar a vida dele. Descobri algumas traições, fiquei com ciúmes. Falei com ele sobre o que descobri. Conclusão: perdi o namorado, perdi alguém super-bacana. Não tinha mais ninguém pra sair, pra passear, pra trepar. Fiquei um bom tempo sozinha.

– Margarida, teria sido melhor aproveitar e nada perguntar. E você, Joana, concorda?

– Não sei. Desse jeito a gente vai acabar namorando alguém casado, não é, Marg?

– E o que tem isso? Se você não quer casar com ele e ele lhe causa imenso prazer nas vezes em que vocês estão juntos, nem é necessária essa preocupação. Ouça um exemplo. Nós estamos aqui neste bar, conversando apenas, não estamos interessadas em casamento, ou estamos? Sabemos que o casamento é algo problemático. Depois que o tempo passa, o relacionamento esfria. Então, se o bom é namorar e o homem é maravilhoso, não há de se fazer perguntas. Quando estou com ele, sou a pessoa principal na vida dele e ele é a principal na minha. Nesse caso, tudo está resolvido. Mas se você quer casar, a situação muda. Por isso falei e repito: o problema é que quase todas as mulheres querem casar. Pensando assim, há razão para se ter ciúmes. Mas se o caso for só o namoro, passeios, ou satisfação sexual, tudo está resolvido.

– A Raquel parece concordar com você, Margarida, mas eu não sei...

– Escute uma história interessante, Joana. Acho que nunca contei isso pra você ou pra Raquel. Certa vez tive duas amigas. Conversávamos sobre esse mesmo assunto. Uma delas deu uma idéia muito original. Nós três tínhamos que sair juntas com três homens. Deveríamos aproveitar o máximo e não nos apaixonar por nenhum deles. Traçou um plano muito engenhoso e tudo acabou sendo muito engraçado. Ela disse que conhecia muita gente e se encarregou de convidar os três homens. Primeiro iríamos a um teatro, depois a um restaurante. Tudo ocorreria como se fôssemos amigos. Mas apenas nos relacionaríamos com eles se as três se interessassem. E é claro, se eles também sentissem o mesmo. Ela (a que deu a idéia) produziu um artifício. Ouçam. Enquanto saíamos publicamente, não havia problema. Poderíamos nos portar como casais de namorados. Mas se decidíssemos ter relacionamento mais íntimo com qualquer um deles, deveríamos ir juntas. Já que éramos muito parecidas fisicamente, vestiríamos roupas semelhantes e aparecíamos no local combinado usando máscaras. Os homens também deveriam fazer o mesmo. Então escolheríamos um ao outro de modo aleatório e ninguém saberia sobre ou sob quem estaria. Lógico que não ficaríamos no mesmo quarto. O principal era que todos assumissem o compromisso de em nenhum momento tirar as máscaras. A luz ficava apagada, mas as mascaras não podiam ser tocadas. Ficávamos nuas, mas de máscara. Desse modo, eles sempre tinham dúvidas com quem estavam fazendo amor. E nós, as mulheres, também. Os relacionamentos foram ótimos. Ficamos todos juntos por quase dois anos. Saíamos os seis, transávamos os seis, nem eles nem nós sabíamos com quem estávamos na cama. Às vezes até desconfiávamos, mas não tínhamos certeza. Na vez seguinte, ao nos encontrar em lugares públicos, não fazíamos idéia alguma de quem fora nosso par na vez anterior nem de quem seria naquela noite. A cumplicidade dos seis fazia que não nos apaixonássemos por ninguém. Em conseqüência, não havia ciúmes nem sofrimento. Nunca houve um período tão bom em minha vida.

– Genial, Margarida, nunca ouvi semelhante experiência, é verdade mesmo?

– Claro, Raquel, por que razão eu iria mentir?

– E por que acabou?

– Certo dia um deles não resistiu e deixou uma de nós inteiramente nua, ou melhor, arrancou a máscara da mulher que estava cravada nele e a revelou rubra de vergonha. As máscaras nos incentivavam a narrativas e ações que não ousaríamos de cara limpa. O pacto então foi rompido. Ainda insistimos nos encontros durante algum tempo, mas já não era a mesma coisa.

– Querida amiga Margarida, querida Raquel, confesso que essa história de máscaras despertou em mim um arrepio jamais sentido, algo difícil de dizer. Enquanto alguém não me deixa pelada, isto é, de rosto e olhos nus, acho que tenho fôlego. Conheço alguns rapazes, tenho certeza de que eles vão adorar a idéia. Estou disposta a procurar por eles, que tal?

– Joana! Até que enfim, desabrochou, hein?

quinta-feira, maio 06, 2010

Doidinha pra saber o que vai acontecer

Estava nua na estrada. Pensei: se ele não volta vou ter problemas. Daqui a pouco passa o ônibus, o motorista já demonstrou que sente atração por mim, imagina se me encontra nessa situação. Meu pensamento tornou-se ainda mais instigante: o ônibus das cinco às vezes passa vazio, nenhum passageiro, vem da garagem em direção à estação, primeiro da madrugada, a essa hora também não há cobrador, já até sei o que vai acontecer...

Nunca havia praticado tal brincadeira, se é que se pode chamar isso de brincadeira. Mas meu namorado sempre se mostrou um pouco tarado. Pouco a pouco passei não só aceitar como achar ótimas as atitudes dele. Antes tivera um marido que não se excitava um pingo por mim. Depois da separação, a chegada daquele namorado foi providencial; portanto, suas taradices me atraíam.

A primeira delas foi na praia. Ele me convenceu a tirar o biquíni quando estávamos dentro d’água e entregá-lo em suas mãos. Ora, a cidade é pequena, muitos me conhecem, sabia que não demoraria a aparecer alguém para conversar comigo. Aconteceu. Apareceu uma ex-aluna. Fiquei morrendo de medo que ela descobrisse a situação. Nós ali conversando, e eu nua, coberta apenas pela precariedade de um mar de final de tarde. Meu namorado ficou por perto, já tinha guardado o meu biquíni nos nossos pertences, lá na faixa de areia. Estava nua e sem saída caso alguém percebesse. Mas a moça nada notou, conversamos um pouco e ela foi embora. Ele voltou, mas de mãos vazias.

“Você está gostando, não?”

“Estou”, respondi, “mas meu coração vai aos saltos.”

“Se ele está batendo, é sinal de vida.”

Na outra vez, convenceu-me a sair com ele às três da manhã e ficar nuinha na estrada, junto ao mato. Mas cadê ele que não vinha? Por aquele caminho não demoraria a passar o meu motorista admirador. Fiquei molhadinha. Ah, isso não vai dar certo, pensei.

Mas voltou o meu namorado. Voltou de carro, sem as minhas roupas dentro. Me levou nua pra casa dele. Para fazermos amor. Confesso que gostei muito. Gostei de ter ficado naquela situação e gostei da transa depois de tremer mais que vara de bambu. Confesso que jamais senti tamanha excitação. Não sei qual a palavra exata para exprimir o meu interior naquele final de madrugada.

Mas me ficou na cabeça o motorista que poderia ter-me encontrado nua. Pensei com insistência no que aconteceria caso meu namorado não voltasse. Refleti sobre todas as possibilidades. Depois lhe falei sobre o meu admirador.

“Quer dizer que você tem um admirador?”

“Um só não, vários, e caso me encontrem nua, você já sabe o que vai acontecer.”

“O quê, precisamente?”

“Preciso dizer?”

Não sei se meu namorado ficou excitado com tal possibilidade. Notei, porém, um fio de tremor em seus gestos.

“Você acha o que sobre mim? Estou quarentona mas ainda desperto desejos em muita gente?”

Um dia desses, depois de brigarmos, decidi que tomaria uma atitude. O namoro no começo estava ótimo. Mas com o passar do tempo começaram a acontecer umas confusões, uns problemas de origem nada fácil de descobrir. Aí, ele me deixava por uns dias.

Então, como estava com o desejo à flor da pele, saí sozinha, de bicicleta. No mesmo lugar em que me deixou nua na outra vez, parei. Escura a noite. Tirei toda a roupa, enfiei-a numa bolsa e a arremessei à outra margem do rio. Com as roupas por perto, a sensação não seria a mesma.

Agora só me resta esperar pelo motorista do ônibus. Doidinha para saber o que vai acontecer!

quinta-feira, abril 29, 2010

De sobreaviso

Eu não aceito, não, mas tenho amigas que dizem sim. Acho perigoso sair com um homem na primeira vez, tanto mais quando o conheço numa boate. Já sei para onde quer me levar e o que pretende. Mas tenho amigas que aceitam. Se você quiser, eu apresento uma ou duas a você. Caso achem você bonito, agradável, nem pensam duas vezes. É normal que, primeiro, queiram aproveitar a boate até a hora em que a festa acaba. Mas depois concordam em sair. Os homens de modo geral oferecem cerveja, colocam-se prontos para satisfazer o desejo de cada uma de nós, vão ao bar e voltam com uma porção de coisas. Tenho amigas que aproveitam. Vêm à boate, não pagam para entrar nem compram nada. Eles é que pagam. Mantenho certa reserva, porque você sabe como é; quando aceitamos, pode saber que vão querer algo em troca. No final, acham que já é certo nos levarem para cama. Às vezes, uma amiga que aceita sair com um desses tipos num primeiro encontro, diz: “Júlia, você fica de sobreaviso?” É lógico que fico. Para elas é uma questão de segurança. O que é ficar de sobreaviso? É ajudar, caso aconteça alguma coisa. Você tem razão, em situações que envolvam risco de vida, ou mesmo em caso de espancamento, não será possível nem a mim nem a pessoa alguma ajudar. Essas coisas, porém, dificilmente acontecem. E as mulheres, quando saem com alguém, não contam com isso. Acham que o homem que está diante dela quer apenas namorar. Então não pensam nessas coisas. Mas elas pedem esse favor porque às vezes pode acontecer que se vejam em apuros. Aí, a que ficou de sobreaviso é chamada. Já ajudei duas amigas em momentos diferentes. Faz algum tempo. Os rapazes agora estão mais comportados, mais solícitos. Uma vez uma me telefonou para ir apanhá-la num lugar distante. O homem com quem saíra a abandonou num trecho perigoso da cidade. Ela não conseguia pegar condução para casa. Uma outra me pediu para levar roupas num hotel. Seu recente amante, num momento de maior excitação, rasgou-lhe o vestido. Lá fui eu, então. Não posso deixar uma amiga voltar nua pra casa, não é mesmo? Mas, de modo geral, os tempos estão calmos; há muito que nada de mal acontece. Você está me convidando para sair? Ficou excitado com o que contei, não? Já falei, não costumo sair na primeira vez. Quem sabe, amanhã ou depois. Quer que o apresente a uma amiga? Não? Só serve eu? Nem sou tão bonita... Você quer ir a um lugar para bebermos? Mas já estamos bebendo aqui, no bar da boate. É melhor você não insistir. Vamos dançar e esquecer isso. Depois, perto do final, caso você ainda esteja comigo, prometo que faço uma surpresa. Qual? Não vou dizer agora. Se digo, deixa de ser surpresa. Aposto que você vai adorar. Se eu vou deixar alguém de sobreaviso? Esqueça isso. Vamos dançar!

quinta-feira, abril 15, 2010

Chocolate

Meu namorado adora me ver comendo chocolate. Ele traz bombons e mais bombons, uma delícia, todos das marcas mais caras e sofisticadas. Faz apenas uma exigência: que eu os coma nua. Isso, nuinha! É muito engraçado. Claro que aceito, ele é tão interessante, tão carinhoso, que não deixo de atender aos seus desejos. Como bombons ou pequenas barras de chocolate depois de tirar toda a roupa. Sento-me na cama, ou no sofá que há na sala, cruzo as pernas e me ponho a morder e mastigar as barras marrons. Lambuzo-me toda, mastigo demoradamente. Pelos movimentos do maxilar e dos músculos de meu pescoço, ele me observa comendo. Ao engolir o último pedaço, já sei o que devo dizer: “ah, que delícia”. Então, ele vem me beijar. Não importa se o interior de minha boca está escuro, com o sabor do presente que acabou de me introduzir. Depois me leva pra cama, ou me recosta ali mesmo no sofá...
Certa vez, trouxe-me chocolate importado, creio que suíço. Pediu que eu comesse a caixa inteira.
“Inteira?”, repeti assustada.
“Sim, todas as barras, faça isso por mim, amor, morro de tesão ao ver você morder e saboreá-las."
“Certo”, respondi, “mas não me responsabilizo pelo que possa acontecer depois.”
“Não vai acontecer nada.”
“Não? Será?”
Ainda insistiu:
“Não importa, estarei ao seu lado, aconteça o que acontecer.”
“Jura?”
“Juro."
E assim foi, comi a caixa inteira. Lógico que bem devagar, mordendo com delicadeza, mexendo com a boca, engolindo tudinho...
“Você não vai engordar por causa de uma caixa de bombons, vai?”
“O problema não é engordar; você sabe que não engordo. Faço exercícios e não é uma caixinha dessas que vai me deixar uns quilinhos mais gorda.”
“O que é então?”
“Chocolate é afrodisíaco, morro de tesão após comê-los, mas ainda há um outro probleminha...”
“Ah, então vou pedir para você comer duas caixas.”
“Duas?”
“A seguir vou deitar você e acariciar levemente seu ventre, bem no lugar para onde foram os chocolates.”
“Acaricie com cuidado, caso contrário...”
“Sei que morro de desejo vendo você nua antes, durante e depois dos chocolates. E caso aconteça alguma coisa devido ao excesso, não haverá problema, acho que até gozo duas vezes.”
“Jura?”
“Lógico.”
“Logo, como, mas...”
“Não há problema; quando lhe peço para comer bombons, conto com todas as possíveis consequências.”
“Ok, então vamos.”
“Ah, mais uma coisa, vou filmar você comendo.”
“Que bom, vai ficar ótimo. Mas me responda uma coisa. Vais me filmar nuinha, não?”
“Claro, nuinha, e comendo todos os chocolates!”
“Mas assim que eu acabar de comer o último, desligue a câmera, por favor!”
“Claro.”
“Você tem bom gosto, amor!”

sexta-feira, abril 02, 2010

Meu poeta me deixou nua!

Estava tomando o café da manhã no restaurante do hotel Ibis, no centro do Rio. Tinha viajado com a grife, de BH; durante dois dias participamos do Fashion Rio. Os desfiles atingiram incrível sucesso. Na última noite, arranjara um admirador. Não é de se espantar que eu sempre tenha muitos enamorados, mas o mais recente dizia ser poeta. Dali a pouco iríamos embarcar de volta para BH, mas enquanto o transporte para o aeroporto não chegava...

É Fábio o seu nome, diz ter assistido a todos os nossos desfiles, e que ficou apaixonadíssimo (foi essa a palavra usada por ele) ao me ver entrar e sair, cada vez com uma roupa diferente. É sua a canção: “a partir daquele momento já não consegui tirar-lhe os olhos, toda vez que deixava a passarela meu coração palpitava desejando vê-la mais uma vez, altiva e galharda”. Galharda? Há quanto tempo não ouvia essa palavra. Talvez num poema de Gregório de Matos, ainda nos bancos escolares.

Após o dia de desfile, enquanto aguardava o momento de voltar ao hotel, tal homem, digamos jovial, me abordou. Trazia em uma das mãos um ramalhete de flores amarelas. Desculpava-se por tê-lo comprado às pressas de um vendedor que cercava casais apaixonados. Aceitei o mimo. O extravagante poeta pôs-se a declamar veemente uns versos feitos em minha homenagem. Sou uma mulher desinibida, mas não nego que suas palavras cheias de ênfase me fizeram corar. A chegada do veículo interrompeu o idílio. Tivemos de entrar logo e partir, pois havia um enorme congestionamento nas cercanias.

Na porta do hotel, após saltar do automóvel, vi-me cercada de novo por ele. Apareceu não sei de onde. Disse em voz melódica: “Para tão longo amor tão curta a vida”. Apressou-se em completar: “é Camões, mas gostaria que fosse meu.” Enquanto a equipe e as outras modelos entravam no hotel, permaneci no passeio, sob um céu coberto de estrelas e uma lua em minguante. “Não vá se atrasar, Lena, amanhã partimos às 8;30h”, soltou melíflua uma das responsáveis pelo pessoal da grife. Seus olhos tinham uma ponta de escárnio. Oh, como se o assédio masculino aos nossos calcanhares e pernas já não nos fosse peculiar. Meu poeta, porém, era diferente. Seus olhos expressavam uma melancolia jamais vista; seu amor brotava de corações renascentistas apaixonados, homens que não tinham alternativa senão amar em silêncio suas senhoras, embora nem mesmo elas se soubessem muitas vezes objetos de ardores insuperáveis.

Em qualquer outro lugar, deixaria o apaixonado a ver navios, mas no Rio, apesar de cidade à beira mar, preferi navegar com ele em um mar liso, em que as estrelas nos apontavam o norte, ou o sul. Já não sei.

“O que propões? Não te demores, já que me custa o tempo, ainda que falemos ao modo do teu poeta maior, cantor de idílios e de viagens impossíveis.”

“Campos cheios de prazer, vós que estais reverdecendo, já me alegrei em vos ver; agora tenho a temer que entristeçais em me vendo.”

“Saiamos já daqui, leva-me, mas cuida, que sou louça fragílima.”

Entramos pela rua da Carioca. Meu poeta tomou de um táxi, embarque inesperado, visava estratégias inenarráveis.

Deslizamos, a princípio sem destino. O motorista, tal qual a guiar coche com moço disfarçado a ponto de tornar mulher moça última e breve, não ousou dizer palavra. Trafegava como navegante cordato e solitário.

“Se desejos fui já ter, serviram de atormentar-te?”, soou a voz apaixonada de meu raptor.

“Não me atormentas, embrutece-me o espírito a fome, e mancha-me a alma alguma vulgaridade.”

O veículo escorregava ligeiro por vias que nos levavam a céu aberto e com o mar à borda. Numa das transversais, meu poeta sinalizou, o homem entrou à direita, depois subiu uma rampa e nos deixou na antessala do que seria um restaurante. Feriram-me os olhos lustres altos e pingentes de cristal.

“A vida, si; que uma áspera mudança não me deixa viver tanto um coração”, atirou-me.

Devolvi-lhe:

“Se hei de viver, enfim forçadamente, para que quero a glória fugitiva duma esperança vã que me atormente?”

“Em mim podeis, Senhora, ir começando, que claro se conhece bem se entende amar-vos quanto devo e quanto posso”, ainda não foi aí que me tomou nos braços, mas o primeiro beijo fui eu a precipitar-lhe.

O jantar transcorreu ao tilintar vagaroso dos talheres. Coube a mim escolher apenas antepasto. Adoro salame, saboreei-o junto a poucos legumes em conserva. Molhou-me os lábios uma taça de champanha. Meu acompanhante, ainda ao gosto clássico, também comeu pouco e o que mais fez foi deleitar o olhar em direção à justa mulher.

Na saída, o mesmo automóvel veio a nos levar. Passeamos pela orla marítima. Relembramos raptos e piratas. Mas meu recente enamorado não me tocou. Em contrapartida, quis presenteá-lo com mais beijos. O vinho nos havia contaminado, mas disfarçávamos o desejo.

“Aflige-me, senhora, vossos olhos, esquecê-los não já me será amor.”

“Queres tocar-me?”, ainda arrisquei quase numa penumbra de silêncio.

“Desejaria-vos, por inteiro, entre meus braços e desejos.”

Sussurrei:

“Beija-me, pois não teremos muito tempo.”

“Levar-lhe-ei como clandestina.”

“Parto cedo, não ouso acompanhar-te, tens tempo ainda em movimento.”

Não devo relatar o que vivemos na noite curta. Mas foi intenso o ardor. Convenceu-me a pequeno apartamento. Após subirmos alguns degraus, deixei escapar a roupa, os braços, as pernas. Ele, pleno, contentou-me o desejo. Meu corpo era leite quente entre mãos trementes.

Às três e trinta entrei em meu hotel por porta de serviço, arquitetura de miragens. Não houve homem na vigia, dormia talvez, nem soou algum tipo de alarme. Antes, porém, na despedida, meu amante pediu-me mais um mimo.

“Já te ofertei todas as posses, pirata arredio, de que mais queres despojar-me?”

“A lembrança, senhora; sereis estátua de Afrodite em terra imerecida. Piedade! Antes, o mestre grego e seu ideário me contentavam; agora, já nada sei de meu triste fado.”

“Oferto-te minha pele rósea, fibra de puro algodão; experimenta-a; deposito-a sob tua guarda.”

“Não posso deixá-la desprotegida, minha senhora, nem pretendo-a em apuros.”

“Há quem pense que a uma mulher basta-lhe o corpo; mas é preciso que lhe sobre a alma.”

A seguir, soou sua voz de bardo:

“No mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida.
Na terra tanta guerra e tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida.
Onde pode ocultar-se o fraco humano?
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?”

“Lena, só falta você, a bagagem já está embarcada”, ouvi a voz da nossa responsável enquanto ainda sorvia a xícara de café. Levantei-me, deixei sobre a mesa o gole derradeiro.

sexta-feira, março 19, 2010

Então tá!

“Ai, fiquei pelada!”, disse ao atravessar a Prudente de Morais, perto da Texeira de Melo. Um sopro de ar quente vindo da tubulação subterrânea me pegou de surpresa e levantou meu vestido. Na verdade ninguém teve tempo de prestar atenção nas minhas pernas de fora, mas a indiscrição na voz fez meu namorado sorrir.

“Até parece que você não gosta de ficar pelada...”

“Adoro, mas não de modo inesperado.”

“Lembra o início do nosso namoro?”

“Claro que lembro, amor”, respondi dengosa.

“Me conta então como foi.”

“Namorávamos muito à vontade, e algumas vezes cheguei à sua casa inteiramente nua.”

“E você nunca me contou como fazia para as pessoas não perceberem”, sua voz soou plena de desejo e curiosidade.

“É segredo”, sussurrei.

“Você me contou sobre um outro homem, disse que ele nunca viu você vestida, é verdade mesmo?”

“Já vem você de novo introduzindo outro homem entre nós dois.”

“É apenas curiosidade, nada mais; gostaria tanto que você me contasse.”

“Já contei”, sorri com certa malícia.

“Não contou o principal; nada falou sobre o dia em que você perdeu a hora. Queria tanto saber o final verdadeiro...”

“Conto, mas há um pequeno problema.”

“Qual?”, perguntou ainda mais curioso.

“Se de tanto falar nesse homem eu sentir falta dele, você sabe que vou procurá-lo, aí você não vai poder reclamar.”

“Sei que você me ama, isso não vai acontecer”, sentenciou como um magistrado.

“Vou contar mais uma vez, mas vamos do começo.”

“Mais uma vez e com o verdadeiro final.”

“Sobre o final, mais adiante decido. A história foi a seguinte. Escute, já que você sente tanto tesão nisso. Eu sempre passeava por aquela rua quando descobri aquele homem jovial e muito bonito. Pensei num artifício para tentar conquistá-lo. Em primeiro lugar observei-o chegar em casa durante uns dias; certifiquei-me sobre seu apartamento, investiguei se ele morava com alguém. Ao concluir que tudo ia a meu favor, comecei a investir. Certo dia, em torno da uma hora da manhã, vinte minutos após ele ter entrado em casa, subi pela escada e bati à sua porta. Quando abriu, pude notar que soube disfarçar a estupefação que ameaçou explodir em seu rosto. Houve uma ponta de vexo em seus olhos, enquanto era eu quem chegava nua. Vestia apenas botas pretas até os joelhos, um colar que imitava perolas e uma pequena bolsa de verniz. Mais nada. ‘Posso entrar?’, perguntei sorrindo. ‘Não se surpreenda, não vou lhe fazer mal’, completei. Permitiu que eu entrasse. Pegou uma bebida, acho que uísque, ofereceu-me. Já não lembro o que conversamos, mas o assunto foi animado. Em apenas um quarto de hora já estávamos excitadíssimos, apenas devido à conversa, porém. Não perguntou como nem por que eu chegara nua em seu apartamento. Naquele dia não fizemos nada. Nem nos tocamos. Aliás, beijei-o antes de ir embora, exatamente às quatro da manhã. Não se surpreendeu ao me ver sair da mesma forma que entrei. Nem me ofereceu roupa alguma. Não combinamos outro encontro. Dois dias depois, voltei. Tudo se deu de modo semelhante. Ele ficou muito feliz com o meu retorno. Voltei da mesma forma: nua. Você mesmo já disse, jamais apareci vestida na frente daquele homem. Na segunda visita, namoramos e fizemos amor. Parti às cinco, antes que o sol nascesse. E sempre nua. Os encontros se repetiram durante dois meses, mais ou menos duas vezes na semana. Nosso namoro entrou por um viés muito romântico. Bebíamos vinho, comíamos no mais alto requinte. Demonstrávamos estar apaixonadíssimos. Acho que adorou a minha invenção. O fato de chegar e partir nua, sempre no começo e no final da madrugada, fez que nosso namoro se mantivesse na sua casa. Jamais me convidou para ir a lugar fora dali, nem insinuei outro programa. Numa madrugada de sexta, lembro-me bem, adormeci em seus braços. Quando acordamos eram sete horas da manhã. Perdêramos a hora. ‘Como você vai fazer?’, perguntou apontando o meu corpo. Foi a única vez que fez esse gesto. ‘Não se preocupe’, respondi, ‘resolvo; e vou como vim’. Três dias depois ficou surpreso ao me ver chegar nua de novo. Namoramos muito naquela noite. Mas foi a última. Parti no horário costumeiro, ainda sob um restinho de sombras. Nem me perguntou como fizera para deixar sua casa com o sol já alto dias antes. Então conheci você, lembra? Apareci também nua, mas depois me vesti. E estou aqui, feliz e ao seu lado.”

Beijei-lhe uma das faces. Chegávamos à avenida Viera Souto. Atravessamos e sentamos num quiosque. Pedi à garçonete água de coco.

“Mas você não contou o principal”, lembrou insatisfeito.

“O principal?”, fiz-me desentendida.

“Como você fez para ir embora nua da casa dele às sete a manhã...”

“E como fiz nas outras vezes tanto para chegar como para sair?”

“Era de noite e, além disso, você também nunca quis contar.”

“Já não queres saber?”

“Quero, sobretudo o fato que se deu sob a luz do sol.”

“Agora nada posso dizer, é meu segredo, é assim que enfeitiço os homens.”

“Você iria lá de novo?”

“Sentes tesão nisso?”

“Sinto”

“E se eu não voltar?”

“Não tem problema. Acompanho você até as proximidades, tira a roupa e a deixa comigo.”

“Queres me deixar nua?”

“Quero você apenas com o pequeno cordão de ouro que vou colocar em volta do seu pescoço. O cordão, as botas negras e a carteira transparente.”

“Nua e com um cordão de ouro?" Pergunto mais uma vez: "e se eu não voltar?”

“Não faz mal, pode deixar que não vou atrás de você.”

“Jura?”

“Juro.”

“Então ta!”

quinta-feira, março 11, 2010

Arrepio

Vou contar a você. Na verdade, é um arrepio. No começo a gente fica meio temerosa, mas depois toma confiança. Chega um dia em que não se vive mais sem isso. Eles começam com algum tipo de galanteio e não demoram a fazer o convite. Primeiro, finjo que não entendi; mas, com o passar das horas, dependendo de como agem, aceito. Quando saí pela primeira vez com um homem que conhecera momentos antes, tremi de medo. Hoje, tremo, mas por outros motivos. O normal é eles nos levarem para um hotel, desses que nem são muito caros mas permitem o prazer. Ouça como é a primeira vez com um estranho, já que você diz não ter coragem. Deixei a boate às quatro. Me despedi das amigas. Beijei uma delas. “Não vai querer que eu fique de sobreaviso?”, perguntou arregalando um pouquinho os olhos.“De que adianta?”, perguntei, “salvarás minha vida?” Ela riu e insinuou: “às vezes não é a vida que corre perigo, mas outro imprevisto que se pode contornar com um simples telefonema.” Não pensei mais no que ela falou. Agarrei-me ao homem e fui com ele. Acho que todo ser humano tem tendência a confiar em alguém. Ninguém imagina que está ao lado de um fora da lei, de um tarado ou mesmo de um maníaco. Entrei com ele no hotel. Já no elevador, tacou-me um beijo na boca e apertou meus seios. Queria arrancar minha roupa antes de entrarmos na suíte. “Calma, vamos devagar”, falei preocupada. “Você vai fazer tudo o que eu pedir?”, perguntou ainda eufórico. “Não sei”, fiz charme, “só se não doer”. “Às vezes uma dorzinha é bom”, completou. Tremi um pouquinho. Será que me machucaria? Tirou toda a minha roupa. Nem me preocupei onde a colocou. Depois, ao contar para umas amigas, reparei que muitas têm preocupação com suas roupas, temem não encontrá-las após tudo acabar. Mas nem pensei nisso. Deixei que me envolvesse com seus grandes braços; permiti que fizesse tudo que desejava. Foi ótimo. Naquela noite nada se insinuou que me despertasse algum temor. Adorei seus afagos e beijos. Nas vezes seguintes, sempre que saía com alguém que conhecera momentos antes em alguma boate ou em outros lugares como restaurante, casa de espetáculo ou cinema, só sentia uma ponta de temor no começo, depois lhe depositava inteira confiança. Mas houve uma ocasião em que um deles rasgou minha roupa. Acho que fez aquilo porque vira num filme. A diferença é que, no filme, a mulher tinha um casaco comprido para sair do hotel. Eu, imagina, tive de sair nua. Se eu não deixara alguém de sobreaviso? Não, não deixara. Como fiz? Depois conto, mas ouça só. De início, jurei de pés juntos que a partir daquele dia (ou daquela noite, sei lá), não mais me deixaria seduzir por nenhum desconhecido. Mas quem disse que consegui cumprir o prometido? Não passou uma semana e já estava sentindo a maior falta. Confesso que o primeiro que apareceu me despertou temor. Mas, em seguida, senti uma certa atração pelo perigo. Hoje, continuo saindo, nunca mais me aconteceu nada de mal. O arrepio, porém, não deixa de estar presente. Ouça mais uma coisa, é sobre a Lurdinha, lembra dela? Com a Lurdinha aconteceu e continua a acontecer coisas muito engraçadas. Ela conheceu um fazendeiro, do interior de São Paulo. Viajou para a fazenda do homem. Parece que está apaixonadíssima. Ela não é como eu: é um pouco mais louca. Me contou que ele gosta de levá-la para passear inteiramente nua, à noite, calçada apenas de botas que vão até os joelhos. Aí ele pede a ela para dirigir o jipão deles até algum lugar deserto, manda-a saltar, passa ao volante e arranca com o automóvel deixando-a nua e só. Acaba sempre voltando para resgatá-la. Ela conta que certa vez pregou-lhe uma peça. Durante uma madrugada inteira escondeu-se no mato e não permitiu que ele a encontrasse. Voltou para a fazenda pela manhã, ainda nua e muito feliz. O homem a amarrou e ameaçou chicoteá-la caso não contasse o que fizera durante toda noite. Ela não abriu a boca. E diz que até gozou quando via a ponta do chicote prestes a estalar sobre seu corpo de mulher madura. Os dois continuam apaixonadíssimos. As brincadeiras não acabaram depois disso, não. Diz ela que até se multiplicaram!

quinta-feira, março 04, 2010

Um homem a me olhar

Em dias normais já gosto de andar nua, no Carnaval então nem se fala! Vou pelo Posto Seis, em Copacabana, atravesso a Joaquim Nabuco. Reparo um homem a me olhar, mira com insistência na direção das minhas pernas. São quase oito da noite, o sol ainda permanece, a claridade do dia insiste em nos iluminar. Em meio a um ambiente intensamente urbano, visto apenas um biquíni mínimo, cintura baixíssima, e o top. O restante vai numa minúscula carteira plástica transparente que trago amarrada num dos ombros. Sigo ao meu apartamento. Não para encerrar-me e terminar o dia. Apenas para descansar um pouquinho e depois me aprontar para sair de novo, pois a folia e um amor novo me esperam.

Na verdade, a surpresa instalou-se a partir das duas da tarde de hoje, sábado de Carnaval. Um estrangeiro aproximou-se e falou comigo, em inglês. Pensei que ele fosse americano, desses que desejam mulheres brasileiras fáceis. Mas tratava-se de um australiano. Reparei quando percorreu com um golpe de vista meu corpo magro, quase nu, e o desejou. Não me importei caso quisesse apenas o corpo, porque eu poderia fazer o mesmo em relação a ele. Duas estátuas louras em pé de igualdade sob um sol que não nos perdoava. Conversamos. Entendeu-me perfeitamente, apesar do longo silêncio a que meu inglês estivera confinado. Falou alguma coisa sobre seu país. Lá também há belas praias, bonitas mulheres, as pessoas são interessantes e bebe-se muito. Admirou-se do colorido do Rio; de Copa e de Ipanema; da alegria das pessoas; das faces juvenis sorridentes; e da quantidade de latas de cerveja que todos aqui consomem. Perguntou-me se não entraria na água. Respondi que preferia ficar sob o sol. Mergulhou mas não demorou a voltar. Comprou duas latas de cerveja e me ofereceu uma. Não aceitei; desculpei-me, mas não queria começar a beber àquela hora. Gostei da companhia dele. É bonito, chama a atenção, é possível perceber que é estrangeiro. As pessoas olhavam para ele e depois para mim. Às cinco horas me convidou a acompanhá-lo. Disse estar hospedado no Sofitel. Acenou com a perspectiva de comermos alguma coisa, bebermos, enfim. Ele disse que tinha tudo que precisava e que podíamos usufruir juntos. Acabei por acompanhá-lo. Na rua, ao me ver caminhar apenas com os mesmos trajes da praia, admirou-se de que em nossa cidade uma mulher pode andar nua sobre o passeio. “Não estou nua, estou de biquíni, assim você me deixa constrangida”, é lógico que falei em inglês. Ele riu e ajudou-me a lembrar a palavra “constrangida” em sua língua. Depois sorriu e se desculpou. Apontei outras pessoas que caminhavam vestindo somente trajes de banho. Também sorriu, mas descobri o que ele pensava: “você é mais nua do que todos as outras mulheres”.

Não tive dificuldade em subir com ele ao último andar do Sofitel. A gerência do hotel se ocupa com coisas mais importantes. A suíte em que está hospedado é de frente para a praia de Copacabana. Permanecemos um pouco na varanda. Foi até a geladeira e voltou com uma garrafa de uísque. Trouxe dois copos, apenas um com gelo. “Vocês não bebem uísque puro, não é mesmo?” Acenei que não movimentando a cabeça. Sorri. Bebemos contemplando a praia, o céu, todo o colorido da orla, as pessoas felizes lá embaixo.

Após encerrarmos a primeira dose, senti um de seus braços por trás do meu corpo. Abraçou-me, virou-me de frente e me beijou na boca. Com toda aquela paisagem paradisíaca às minhas costas, pegou-me no colo e me levou para cama. Acariciou-me demoradamente, percorreu grande parte do meu corpo com os lábios e a língua. De repente estava nua e subjugada à sua total vontade. Mordeu meus seios com tal impetuosidade que cheguei a tomar um ligeiro susto. Mais algumas carícias e procurou meu sexo, primeiro com a boca, num movimento vigoroso de sucção. Senti tudo que havia em meu ventre querer saltar e se transferir para dentro dele. Depois subiu vagaroso, até que defrontamo-nos rosto a rosto. Beijamo-nos mais uma vez; seu sexo procurou o meu, natural e confortável. Absorvi-o como uma das maravilhas da natureza. Meu australiano também era fã de mágicas e fetiches. Quando sacolejávamos à deriva, sem o anúncio de qualquer tipo de vela ou leme que nos levassem a porto seguro, reparei o meu raso biquíni em uma de suas mãos: num movimento rápido, levou-o por inteiro dentro da boca, mastigou-o com esmero. Fechei os olhos, o coração a bater mais acelerado; nada falei nem protestei, apesar de não ter nada mais do que aquele minguado paninho para voltar para casa. Namoramos durante mais uma boa meia hora, Ao acabarmos nossa dança sensual, pediu pelo telefone uma refeição para dois. O alimento requintado repôs todas as energias que deixáramos para trás tanto na praia como no exercício duplo do amor.

Agora atravesso a Joaquim Nabuco, caminho rápido, quero chegar logo em casa. Vou pegar algumas roupas, todas bem curtinhas e sensuais, entre elas mais alguns biquínis – exigências dele num inglês de sotaque asiático meridional. Vou ficar todo o Carnaval no Sofitel. Convidou-me. Vamos à praia, a diversos blocos e em tudo mais que aparecer. Sei que se trata de um amor de Carnaval. Mas, quem sabe, no mundo de hoje o longe é um lugar que não existe. Mesmo quando se trata da Austrália.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Ah, o Carnaval!

Ah, o Carnaval foi ótimo! Cometi algumas loucuras, alternei entre sensações de arrepio e friozinho na barriga, mas nada tenho a reclamar. Na segunda-feira logo depois do desfile do bloco, subi ao apartamento do Rui. Meu telefone tocou no momento em que ele tinha acabado de me deixar nua. Vi a luz piscando, pensei em não atender, mas não me contive. Quando escutei a voz do Leonardo, pensei no que ele sempre me diz: “Você dá pra todo mundo, hem?” Assim que percebeu que eu dissera alô, me convidou pra tomar um chope e brincar na General Osório, defronte do Belmonte. Respondi: “agora não posso, daqui a duas horas talvez, telefono.” Desliguei e continuei nas mãos do Rui. Esse não perguntou nada. Já me conhece, o negócio dele é fazer amor comigo. Me acha muito gostosa. Às vezes, quando tomo algumas taças de vinho, fica mais apaixonado, porque ardo em brasas. Ainda se alguém telefona, algum namorado, ou mesmo amigo que sabe que estou nua e nas mãos dele, não tenho palavras para definir sua excitação. Cheguei com uma fantasia mínima, um biquíni raso, cintura baixíssima, quase nua. Pedi através de beijos e sarros que me deixasse pelada, que podia arrancá-lo com violência. Depois, trepamos com uma avidez... Não demorei a deixar que escorregasse para dentro de mim, úmida úmida; alternei todas as posições, nossa respiração ofegava, gozamos três vezes. Então perguntei: “Rui, você tem em casa roupa de mulher?” Respondeu: “de mulher, não”. Ainda complementou: “você não me disse uma vez que já terminou nua todas as noites de Carnaval? Quando perguntei como você fez para voltar pra casa, você falou: não estou aqui com você hoje? É sinal que dei um jeito.” O fato de eu ter ficado sem, excitava o homem. “Vejamos, podemos dar um jeitinho”, completou, “tenho uma camisa da banda, você quer?” Assenti, dengosa, movendo a cabeça. Vesti a camisa. “Você está ótima, a camisa está curta mas cobre seu corpo deixando você muito tesuda!” Descemos ainda nos agarrando no elevador. Na rua, entrei na multidão e me perdi dele. Uma hora depois, encontrei o Leonardo. Agarrou-me e me beijou. Estava tão bêbado que não notou que eu estava sem calcinha. Aliás, ninguém notou!

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Simpatia é quase amor

Ela:

O Rio de Janeiro é maravilhoso. E neste verão surgiu uma nova moda: a de tomar banho de mar à noite, já o sol posto. Mesmo após as oito horas, a praia continua cheia de gente. Muitos mergulham; outros namoram; há quem cante e batuque; e há também os que ficam simplesmente conversando. Como durante a noite não há calor excessivo, a estada à beira mar torna-se muito confortável.

A proximidade do carnaval com seus blocos que desfilam nos finais de semana (agora no Rio, o carnaval dura mais ou menos um mês) faz que muitos se divirtam e, depois, aproveitem para dar um mergulho. A brisa noturna e a água fresca acabam transformando-se numa rápida injeção de energia. Relaxa-se e já se está pronto para novos embalos, arrepios e aventuras.

Hoje, domingo, fui ao desfile do Simpatia, aqui na Vieira Souto. Assim que os tambores silenciaram, em torno das nove da noite, aproveitei e desci para a areia da praia. Surpreendi-me com a grande quantidade de pessoas que pensaram a mesma coisa. Mas não reclamei, gosto de companhia. Jovens, mulheres e até alguns idosos aproveitam para refrescar-se sob a luz do luar.

Estou no posto nove. Entrei na água com uma roupa de banho de apenas uma peça: um maiô estampado, vermelho e branco, o qual vesti para o desfile do bloco. Logo ao sentir a água fria, tive vontade de tomar banho nua. No escurinho não seria nada difícil. Acabei não resistindo. Tirei o maiô e o enrosquei bem pequenino em uma das mãos. Durante o desfile bebi duas ou três caipiríssimas, ainda estou queimando por dentro. Várias pessoas passam por mim, sorriem, mas nada reparam. A um rapaz simpático, talvez lá pela casa dos vinte e poucos anos, peço: “você pode me fazer um favor? Guarde isso junto àquela pequena sacola.” Aponto para o local, e ele prontamente me atende. Entrego-lhe o maiô bem enroladinho e mergulho virando-me na direção do oceano. O escurinho da noite, a água um tantinho gelada, a brisa marítima e o corpo nu me dão um prazer todo especial, difícil de descrever. É um fim de noite maravilhoso. Estou de molho. E nua. Aconteça o que acontecer, a sensação de prazer é inigualável.


Ele:

Que domingo maravilhoso! Encontro com os amigos, vôlei de praia, chope à beira mar, desfile de bloco, enfim, carnaval, e ainda, à noitinha, quando o final de semana parecia se despedir, a surpresa: uma mulher maravilhosa.

Pela primeira vez resolvi tomar banho de mar à noite. Durante o verão tenho passeado pela praia após o pôr do sol; observo aquele monte de gente que continua ali, sem arredar o pé. Permanecem por duas ou mesmo três horas, já a noite escura; mergulham com mais frescor e alegria.

A mulher maravilhosa que conheci não me disse seu nome. Chamou-me quando vim à tona após eu dar um mergulho quase ao seu lado. Pediu para que eu guardasse junto a seus pertences algo que segurava minimamente em uma das mãos. Após lhe atender e deixar o objeto onde apontara, perguntei a mim mesmo: “o que deve ser isso?” Pensei um pouco e não demorei a descobrir. Voltei para onde ela estava. Ela não se incomodou com a minha presença, até mesmo gostou. Não se vexou ao perceber que descobri o essencial: ela estava nua! Falou baixinho, um dos dedos junto aos lábios: “psiu, não fale pra ninguém.” Nada comentei, apenas sorri. Pediu para eu me aproximar dela. Aceitei. E foi ela quem me abraçou. Devo contar o resto? Vocês podem imaginar o que acontece quando um homem encontra uma mulher nua, tanto mais nessas condições. Namoramos, namoramos e namoramos. E quando duas pessoas adultas namoram, todos já podem imaginar o que acontece. No final, beijei-a longamente. Achei melhor não lhe perguntar o nome nem o número. Ela agiu da mesma forma. Despediu-se de mim como seu eu fosse seu velho amigo, ou mesmo o namorado efetivo. Ainda permanece dentro d’água após eu me retirar. Caminho para a areia, olho para trás e aceno. Ela sorri, sorri intensamente, agita um dos braços dando-me adeus, manda-me muitos beijos. Ao passar pelos seus pertences, vejo o objeto confiado a mim. Apaixonei-me tanto pela mulher... Abaixo-me, tomo seu maiô em uma das minhas mãos. Olho novamente em sua direção, mas ela está virada para o outro lado. Tenho um motivo para um dia desses procurá-la. Do jeito que ela é alegre, não vai se incomodar. Acho que nua, vai até ser mais feliz!

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

No desfile da Banda de Ipanema

Todos sabem que se eu pudesse andaria a maior parte do tempo nua. Como o carnaval se aproxima, é o momento de sair bem à vontade. No sábado passado, cumpri a sina. Aproveitei um dos desfiles pré-carnavalescos da Banda de Ipanema e fui para a praça General Osório. Vesti apenas um levíssimo maiô. Isso mesmo, maiô. Alguém poderia perguntar: por que não fostes de biquíni, ou mesmo vestida com uma das suas saias curtíssimas? Mas aí é que está o segredo. Mais ou menos no início de janeiro, fui apresentada a um tecido que jamais vira. Tecido italiano. Uma amiga em viagem pela Europa o trouxe de presente, especialmente para mim. Disse-me: “Marg, você não vai acreditar, este tecido ainda se encontra em experiência, é criação recente, mas consegui uma peça para você. Quando soube de sua existência, pensei: é ideal para a Margarida. Veja como é fino; quando estamos envoltas por ele, não o sentimos no corpo, ou melhor, sentimo-nos nuas. Asseguro, porém, uma coisa: ainda não é possível comprá-lo em loja alguma.”

Com o tal fruto da mais moderna tecnologia nas mãos, não pensei duas vezes, pus-me a confeccionar um belo maiô. O pano é estampado, flores e listras, verde e vermelho, e alguns outros matizes. Não preciso dizer que ficou lindo. Minha habilidade de artesã – que ainda vigora plena – e a sutileza do tecido puseram-me entre as maravilhas da cidade.

E lá fui eu para a banda. Apenas o maiô, sandálias de salto e um chapéu bege largo cheio de charme. Ao descer do prédio em que moro, após dar os primeiros passos na rua, quase enrubesci (ao menos imagino), pois senti que não levava roupa alguma sobre a pele. Pouco a pouco, no entanto, acostumei-me. Ao chegar em meio à banda, caí no samba.

“Que maiô lindo, Marg”, diziam as pessoas, “que beleza, onde você o comprou?” Respondia que mais tarde revelaria.

Caso alguém tocasse meu corpo, percebia tanto quanto eu que aparentemente minha pele estava nua; não era possível sentir o pano. Se arranjo um paquera e ele me toca sobre o maiô, vou ter problemas, pensei sorrindo. Mas esse seria um problema que toda mulher bonita gostaria de ter.

Surgiu, então, o primeiro candidato. Em meio à multidão e à alegria geral, aproximou-se; exibia-se semelhante a experiente passista.

Dançamos, demos belo show durante muito tempo. As pessoas nos observavam, admiravam-nos, aplaudiam. Aconteceu depois de três quarto de hora, na mais completa exaltação e alegria: o homem tocou-me a pele junto ao ombro direito. Continuou nos seus passos afrodescendentes, mas senti que franziu a testa. Apenas sorri. Continuamos a nos esparramar pela larga rua interditada para o desfile, em meio a outros carnavalescos e sempre sob o som arrebatador da banda. Em algum momento, meu recente par aproximou-se de meu rosto, sem perder o ritmo, e tentou falar junto ao meu ouvido: “a madame está nua?” Apenas sorri e dei de ombros, como se nada pudesse fazer.

Diverti-me muito. Com ele e com outros. Encontrei vários amigos e amigas. Transitei por entre as pessoas. Fui focalizada e filmada pela TV; vejam só, apareci no jornal local. Nada me intimidou. Continuei em plena exaltação, sempre desejando que aquela festa não terminasse. Caso alguém me tocasse sobre o tecido, logo perguntava: “Marg, você está nua, o seu corpo está somente pintado, não? Sabia que ia aprontar uma surpresa para nós.”

Numa das calçadas da praça, vi uma menina vestida de fada que disse para mãe: “Olha, mãe, que moça feliz; não fala pra ninguém, mas acho que ela está pelada!” Mandei um beijinho para a garotinha. Ela me acenou com a varinha e também sorriu. Ouvi ainda a voz entusiasmada da mãe: é carnaval, é carnaval!

Surgiram, de presente, duas taças de champanha. Um dos presenteadores disse que abriu a garrafa especialmente para mim.

Tentei não me exibir demais, não chamar a atenção. A festa é do Rio, a festa é de todos. Quando o alvoroço se concentrava à minha volta, dava um jeito de sair dançando com alguém e desaparecer da curiosidade geral.

No final da festa, encontrei meu primeiro par. Ele, sim, portou-se como verdadeiro carnavalesco. Acompanhado ou só, não saía do tom, não perdia o ritmo; sua alegria não diminuía nem ele se cansava, apesar dos inúmeros copos de cerveja. Dançamos de novo. E dessa vez até o final. Não mais se preocupou com minha possível nudez; sua tarefa era levar avante toda essa tradição de samba que uma cidade inteira herdou. Pessoas como ele, caso encontrem uma mulher nua ou de maiô finíssimo, o que não deixa de ser quase a mesma coisa, têm como preocupação maior a música, a dança, enfim, a alegria geral.

Após extraviar-me, já de noitinha, entre pessoas fantasiadas, extasiadas, e carrocinhas que vendiam cerveja, reparei que o dançarino não me seguiu nem me pediu o endereço. Misturou-se entre os seus. Não abandonou sua arte.

Ele entende o que é o Carnaval!

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Uma surpresa

Na primeira foto, como você pode ver, fiz uma pose junto ao portão de casa. Estou segurando na base do muro, antes da grade que permite antever a fachada. Meu corpo está inclinado para frente, os braços atrás, o que sobressai é o rosto. Repare a pele, os olhos azuis, as sobrancelhas e, principalmente, os cabelos. Estão caídos à minha esquerda, as mechas castanho claro que escorreriam à direita penteadas por cima da cabeça dando-me um charme todo especial. Olhe agora minhas roupas: blusa preta de mangas compridas e decote avantajado (nessa pose as mangas parecem três quartos); calça jeans de um azul bem claro; cinto de couro estreito. Ótimo, não? É possível ver o cordão de ouro que me envolve o pescoço e o enfeite retangular de madeira com metal incrustado ao centro, como se fosse uma espécie de medalha.

Veja essa outra foto. Estou um pouquinho inclinada para a direita. Os cabelos continuam sobressaindo, já que ficaram em primeiro plano; o penteado é o mesmo da foto anterior; também se destaca a coxa esquerda, é possível observar o contorno do meu bumbum, a calça é justa e, apesar de eu ser magra, ele ficou em relevo. Naquele momento não era minha intenção que isso acontecesse, mas gostei do resultado. Outra coisa que se pode reparar é o pequeno relógio quadrado com a pulseira estreita preta, no braço esquerdo, combina perfeitamente com o cinto; no braço direito, o bracelete dourado. Tudo muito bonito, não?

Nessa terceira estou de frente. Todas as fotos foram feitas no mesmo lugar. Ora virei para um lado, ora para outro, ora uma ligeira inclinação. Mas o que aparece em primeiro plano aqui é minha barriga, que está de fora. Levantei um pouquinho a blusa e mostrei o umbigo. A pele branquinha é bonita, não? Repare a cintura baixa da calça. Olhando para o meu rosto, preste atenção à posição de minha mão esquerda, o braço dobrado, a mão apoiando os cabelos por atrás da orelha esquerda.

Já nessa outra, uma surpresa: os braços cruzados sobre os seios; em destaque, o relógio e o bracelete. Mais uma vez sobressaem o cinto estreito, a barriguinha à mostra e a cintura baixa da calça. Talvez seja possível observar melhor o brinco dependurado na orelha esquerda ou, quem sabe, o cordão. Ele quase não aparece, não é mesmo? Sei que você não olha para nada disso, mas se fixa no fato de eu estar sem a blusa! Isso mesmo, nua da cintura para cima. Mais uma coisa: deixei escapar o bico de um dos seios. O fotógrafo, na verdade um amigo, sugeriu que eu me despisse. Hesitei a princípio; depois, porém, como não passava ninguém pelo local e as fotos iam ficar apenas entre nós, aceitei. Mas só tirei a blusa, viu? Mais nada. Visto a mesma calça e os mesmos adereços, mas estou abraçada a mim mesma, como querendo esconder o impossível de ser escondido. Ah, olhe ainda para o meu rosto, aprecie o ligeiro sorriso.

Aqui, mantenho o mesmo charme, mas há uma diferença. A foto foi feita privilegiando meu lado direito. Virei um pouco a cabeça também para a direita, pela primeira vez meus olhos escapam da câmera e atingem um campo externo. Minha expressão é de ligeira preocupação, como se à procura de alguém, um intruso talvez que pudesse às escondidas me vigiar, descobrir minha seminudez. Mas a foto ficou ótima, não?

Agora, pedi para que ele se aproximasse, uma espécie de zoom. Aparecem a barriga, os braços ainda cruzados, e meu rosto. Sobressaem os mesmos objetos das outras fotos: o relógio, o cordão, o bracelete Parece que estou nua por inteiro, não? Isso, no entanto, não aconteceu. Foi apenas um truque. E ainda continua a me escapar, lembra de quê? Um dos seios!

Eis a última foto. Repare as letras no cinto, uma fivela com as iniciais do meu nome: MNG. Posei a mão esquerda atrás da nuca, criativo, não? O braço esquerdo levantado mostra que estou depiladíssima. Mais uma surpresa entretanto: soltei os seios. Aparecem os dois, nus, por inteiro, e estão rijos, interessante, não é mesmo? Esbeltos, eretos e apetitosos.

Gostaria de experimentar meus seios? Você é incisivo, não? Ficou excitado? Acho que permito. Espere, porém, mais um pouco. Quer me deixar nua por inteiro? Calma. Nuazinha é demais, conheci você ontem. Vamos combinar uma coisa: faça como meu amigo, nua nua, não. Mas deixo – do mesmo modo que permiti a ele depois da sessão de fotos – roubar-me a blusa, combinado? Quer saber o que senti ao estar seminua à frente dele ainda por mais de uma hora depois que guardou a câmera? Ah, sou uma mulher corajosa, saiba. E, lembre-se, estava à porta de minha casa; apenas encenei alguns gestos, depois entrei. Você quer esta blusa? Mas ela é tão bonita... Gostou muito? Quer levá-la só por uma noite? Jura então que me entrega amanhã? Vou pensar um pouquinho. Ainda há de se levar em cota o seguinte: estou numa situação diversa, acho que até mesmo desfavorável: não estou à porta de casa, como na foto, mas distante dela quinze quilômetros!

Deixa pra lá. Apesar de todos os riscos, como já disse, sou uma mulher corajosa. E, além disso, você é tão convincente!

sábado, janeiro 23, 2010

Buenos Aires

Fui visitar meu namorado em Buenos Aires. Faz três anos que tenho esse homem maravilhoso. Duas vezes por ano ele vem ao Rio para me ver. Dessa vez, fui eu que decidi ir à sua cidade. O convite já era antigo, mas sempre dava uma desculpa adiando minha ida. Neste mês, aproveitei e viajei. Já no avião, pude observar o charme que é visitar uma cidade portenha. Várias pessoas elegantes mostravam-se sorridentes e felizes, porque estavam prestes a aterrizar num lugar maravilhoso. Quando saí da sala desembarque com minha bagagem, meu namorado surgiu junto às pessoas que aguardavam parentes e amigos. Beijou-me, um afago longo, em meio ao caminho. Os outros passantes só tiveram a desviar e a nos sorrir.

Adalberto tem um carro novo, grande. Tomou minhas malas e guardou-as cuidadoso. Pusemo-nos a trafegar em direção ao centro. Atravessamos a avenida Nove de Julio e a Corrientes. Mostrou-me alguns edifícios que dão imponência à capital. Levou-me depois direto ao seu apartamento; queria que eu descansasse e tomasse alguma bebida típica. Namoramos já na grande sala. Era possível, da janela do terceiro andar, ver grande parte do bairro, as avenidas largas, alguns ônibus, autos e ruas menores que cortam a principal.

Tirei o blazer, permitindo que me acarinhasse o ventre e os seios. Agarramo-nos um ao outro em longos beijos, como casal que há muito necessita da mútua presença. Aprontou-me uma bebida composta de laranja, rum e uma colherinha de açúcar. Que delícia! Serviu-me um pequeno sanduíche de salame. Do sofá onde estava, observei melhor o apartamento. Havia uma parede inteira com prateleiras, livros e mais livros. Adorei. Seus móveis e adornos despertaram minha atenção; senti atração pela sutileza dos detalhes. Havia cadeiras e poltronas antigas, mas suntuosas.

“Vamos a Caminito, à noite”, convidou-me.

Jamais pensei que o bairro fosse tão atrativo. Trata-se de uma quadra que fica no coração de La Boca, povoada por artistas de rua e casas de tango. Numa delas, também um bonito restaurante, pude aproveitar a música típica do país. Como pulsam os corações diante de tal espetáculo. Homens e mulheres exercitam-se em ritmo e movimentos alucinantes. Fomos muito bem servidos por garçons e maîtres. Bebe-se muito, e nós não éramos exceção. Ante a música envolvente, não perdíamos tempo e nos beijávamos constantemente. No escuro do local, meu namorado tocou-me primeiro nos joelhos; depois, um pouco mais acima. Eu vestia um vestido preto reluzente e meias finas.

“Quero sentir tua pele”, exclamou.

“Calma, daqui a pouco tiro a meia.”

Comemos pequenos e decorados quitutes, bebemos uísque. Não sei dançar tango, mas sob sua orientação e já entusiasmada por duas doses da bebida escocesa não foi difícil aventurar-me. Outros casais cruzavam o salão, numa maravilhosa sensualidade.

Era cerca de meia noite quando deixamos o restaurante. Desejávamos outras aventuras.

“Aonde vamos?”, perguntei.

“Ao Bosque de Palermo”, falou ao meu ouvido antes de mais um beijo.

Um bosque, a essa hora, pensei. Como que ouvindo meu pensamento, completou:

“É um local muito agradável, visita-se tanto durante o dia quanto durante a noite; também possui restaurantes e discotecas.”

Entramos com o automóvel, estacionamos e começamos a caminhar. A princípio, percebi jovens ruidosos. Iam às discotecas. Mais adiante, no entanto, próximo a alguns restaurantes de aparência luxuosa, o ambiente era mais discreto, com casais de meia idade ou grupos de homens e mulheres que pareciam comemorar alguma data especial. Como não estava frio, sentamos na varanda de um deles. Um homem de terno, muito solícito, veio-nos receber. Apresentou-nos suas saudações e nos trouxe dois aperitivos. Ficamos a ler os enormes cardápios. Pedimos, enfim, carne de carneiro. Não esquecemos de encomendar uma garrafa de champanha.

Poucas vezes comi num lugar semelhante. A luz era baixa, sentia-se o frescor da brisa noturna; a paisagem externa, composta de árvores e jardins, ficava na penumbra, mas sua presença anunciava-se através de pequenas luzes que cintilavam através dos diversos caminhos. Dentro do restaurante, um homem tocava piano. Permanecemos ali até às duas da madrugada. Meu namorado recitou-me alguns poemas: “Hay tanta soledad em ese oro. / La luna de las noches no es la luna / que vio el primer Adán. / Los largos siglos / de la vigilia humana la han colmado / de antiguo llanto. Mirala. Es tu espejo.” Eu não queria outra vida. Sussurrava-os ao meu ouvido, vez ou outra, beijando-me. Sabia de memória grande parte da lírica portenha. Senti uma paixão ainda maior por ele.

Quando nos retiramos e caminhávamos pelo bosque, quis fazer-lhe uma surpresa. Ele percebeu e falou:

“Já sei, vai tirar as meias.”

“Feche os olhos, sente-se aqui”, apontei-lhe um dos bancos em meio a uma grande árvore. “Abra-os apenas quando eu mandar”.

Voltei dois minutos depois.

“Não abra os olhos ainda, primeiro toque-me o ombro”.

Obedeceu-me.

“Não desça as mãos, espere. Isso, agora as deslize até meu ventre, devagar, atravesse meus seios.”

“Você está sem a blusa”, balbuciou.

“Calma, não fale nada, ponha as duas mãos nas laterais de minha cintura. Assim, isso mesmo. Deixe-as escorregar até minhas coxas”.

“Mas você está nua por inteiro.”

“Isso mesmo, pode abrir os olhos.”

Adalberto ficou excitadíssimo com minha ousadia. Agarrou-me, beijou-me, queria fazer amor comigo ali mesmo.

“Calma, vamos para dentro do carro”, falei.

“E o seu vestido, o que fez com ele?”

“Será que amanhã você me traz aqui para eu pegá-lo de volta?”

“Claro, mas será que não vão encontrá-lo?, é muito bonito.”

“Não se preocupe, acho que não; caso alguém o ache tenho muitos outros e, além disso, deixo a pessoa morrendo de tesão!”

Meu namorado pareceu não entender minhas últimas palavras. Corremos para o carro. Namoramos um pouco no estacionamento. Coloquei-me por cima dele e puxei seu sexo para fora. Depois de terminarmos, deixei que se ajeitasse e pedi que ele pusesse o automóvel em movimento.

Cheguei a seu apartamento peladinha. Muito rápido, livrei Adalberto de toda a roupa e fiz que se sentasse sobre uma das cadeiras estilo século XVIII; depois, sempre nua, sentei-me sobre ele, frente a frente; soltei o corpo, senti seu sexo escorregar fundo dentro de mim. Acho que esse homem jamais vai me esquecer. Imaginem o tanto que namoramos naquela madrugada.

À tarde, no dia seguinte, voltamos ao parque com a intenção de recuperar o meu vestido. Estava lá, escondidinho, como eu o guardara.
Minhas primeiras horas em Buenos Aires foram inesquecíveis. Qualquer dia desses, narro os dias restantes. Vocês sentirão muitos arrepios!

***
Hoje meu blog completa quatro anos de existência. Que bom que vocês estão presentes. Vou comemorar o aniversário com amigas e amigos. Sei que preparam uma festa: vamos a um bistrô que funciona até às duas da madrugada, depois me levam a um terraço. Continuem acompanhando minhas postagens. Obrigada a todos e muitos beijos!