segunda-feira, julho 06, 2020

Sisuda

Reparei a mulher de azul, piscou-me de novo. O que seria aquele sinal?, aparentemente eu não a conhecia. Levantou-se e deu a entender que iria ao toalete. Fez outro sinal. Preciso ir ao toalete, falei. Ele olhava a varanda. Levantei e segui a mulher.


Ele disse que sou sisuda. Sei o significado da palavra, mas fui ao dicionário procurar seu sentido perfeito. Sisudo (os dicionários são machistas, sempre o masculino) quem é muito sério, circunspecto. Depois, acrescentou o homem, você precisa ser pelo menos um tantinho transgressora. Ainda o dicionário. Transgredir: 1. ir além de, atravessar; 2. Não seguir determinação de ordem, lei etc. Tinha de me comportar de modo transgressor, isto é, extravagante, romper regras. O namoradinho de ocasião me queria nua, só podia ser.

Conheci-o na praia, vestia eu o menor biquíni. Mas ele não olhou meu bumbum, mas aos meus óculos grandes, redondo, a face, naquele momento, sem sorriso. Veio conversar. No primeiro contato, principalmente quando se trata de um estranho, não dou conversa, finjo mesmo que a pessoa não existe. Mas insistiu o homem. Um, dois, três dias, sempre comprimentos, uma semana, semana e meia e minhas resistências vencidas. Por isso, sisuda. Pagou-me um sorvete. Que ridículo, eu precisava que me pagasse algo? Quase não aceitei, mas, para ser polida, engoli a casquinha com duas bolas.

Semana seguinte. Se você tem interesse em mim, sou sisuda, não tenho como mudar. Pouco a pouco, acostumou-se. Vamos esta noite, sugeriu um dia na praia. Nesta não posso. Fiz mistério, amanhã, taça de ouro para a conquista.

Na noite seguinte, às vinte e uma horas, a sisuda, minissaia preta, blusa branca de mangas compridas com adereços em renda e botas que subiam aos joelhos, esperava o namorado na varanda. Enquanto isso, lembrava Adélia, amiga a quem contara o caso. Eu é que devia ter conhecido esse homem, não ia me chamar de sisuda nem transgressora, você conhece minhas peripécias. Ah, sim, Adélia tinha vasta fama, nem sempre positiva, entre tantas aventuras constava que, certa vez na praia, deixara o biquíni embaraçado nas mãos ágeis de um recente conhecido!

Quando o homem chegou, desci e fui a ele. Beijou-me e, muito gentil, abriu a porta do carro para que eu entrasse. Sobre minhas roupas, nada comentou, pelo menos naquele momento. Guiou até a orla e estacionou numa transversal. Caminhamos lado a lado, e entramos no Ilhote. Às 21h30 o restaurante já estava fervilhando, o vozerio alegre se espalhava pela varanda. Quando entramos, várias pessoas olharam minha saia curta, as botas negras também causavam frisson. Estava pagando para ver como seria a noite. Sentamos quase no meio do restaurante, no lado de dentro. Ele, pelo que pude perceber, adora chamar atenção, nada de cantos, quis o lugar mais chamativo. Tinha uma mulher bonita ao seu lado, era para ser visto, admirado, invejado. Eu me metamorfoseara em sorrisos. Quando o garçom veio perguntar o que iríamos beber, o namorado deu-me o privilégio da escolha. Sabia eu beber vinho? Já tomara algumas taças, as pessoas diziam que os melhores são os franceses. Quem sabe. O homem recebeu com interesse o meu desejo. E o garçom não demorou a aparecer com a garrafa e duas taças.

O que se pode conversar num tal momento, eu me perguntava, não queria tomar a iniciativa, já o fizera quanto ao pedido da bebida. Ele olhava o restaurante, queria mesmo ser observado, viera bem vestido, considerava-se bem acompanhado. Geralmente os engenheiros não têm muitos assuntos quando estão em companhia de mulheres, talvez refletisse, qual seriam as minhas preferências? Resolveu perguntar.

Preferências, repetiu a palavra, deixe-me ver, meu português cuidadoso. Tomei a taça com a mão direita e bebi um gole do vinho antes de responder.

Gosto de passear, de viajar.

Pensei que você gostasse de ler.

Gosto, sim, mas é um gosto particular. Ri pelo efeito que a frase causou. Não gosto da opinião de alguns homens de que a maioria das mulheres nada tem na cabeça, atitude machista e indelicada. Cheguei a mover-me na cadeira, mas não comentei o pensamento com o namorado.

Certa vez passei uma temporada em São Paulo, pesquisa sobre o solo, petróleo no litoral, como aqui. Ia aos bares, só havia homens. Aqui, pelo menos, há mulheres, e muito bonitas. Pareceu sem jeito, apontou a mim mas não deixou de mover os braços como se mostrasse as outras que frequentavam o local.

Uma gafe, as palavras dele, mas quem não as comete? Adélia e suas peripécias, suas gafes, a amiga era puro corpo, esses homens vem com muitas histórias para terminar a noite em cima da gente, por isso nada de muitas delongas. Será que eu deveria pensar do mesmo modo?, melhor os detalhes, as delongas, as pequenas histórias, como um livro bem elaborado, diálogos e descrições, expressões faciais, sustos e deslumbramentos. Por isso talvez chamasse-me sisuda, pouco ou nada transgressora. A voz do homem despertou-me.

Existem pessoas de todos os tipos, a gente conhece durante as viagens. Falava dos amigos, dos conhecidos, mas não se referia às mulheres. Lógico que não falaria de mulheres, nada mais deselegante do que trazer outra mulher para junto da que o acompanha, tanto mais no momento de conquista, não o faria, os homens podem não ter muita cultura, mas não cometem esse tipo de gafe. Saíra com outras mulheres, é claro, eu podia constatar. No restaurante, olhava a varanda, reparava a mesa só de mulheres, bem junto à mureta da calçada. Dali, podiam ser mais paqueradas, mesmo por aqueles que iam do lado de fora, que vinham nos carros; os homens às vezes paravam para vir falar com elas. Ele não era santo. Sozinho, também não as dispensaria, imagine em outras cidades, hospedado em hotéis, sozinho nos bares durante à noite, quantas e quantas na sua cama de hotel. Contar-me-ia mil vantagens, mas nada sobre mulheres, é claro. Sairíamos inúmeras vezes, um dia, de repente, iria embora, alguém o chamava em Curitiba, Santos, ou Vitória. Há petróleo por toda a parte. Não voltaria, quanto a isso tinha certeza. E não duvidava que tivesse mulher e filhos em outra cidade.

Você tem filhos, perguntei solene.

Seu olhar pareceu traí-lo. Filhos. Como ela descobrira?

Não, nem casado sou. Aliás, sou casado com o trabalho, riu depois de fazer uma fisionomia de que parecia alguém a carregar pesado fardo. Vamos pedir o jantar, sugeriu ao ver o garçom. Saiu-se bem do embaraço. Não ia perguntar se era casado, não se faz tal pergunta, estraga a noite. A gente aprende isso rápido.

Vamos de salmão ao molho de abacaxi?

Deve ser uma delícia, acompanhei.

Foi-se o garçom, em meio às outras mesas, uma mulher de vestido azul olhou-me e piscou.

O vinho ia descendo na garrafa, descendo através de nossos lábios, boca, garganta, circulava por nosso sangue tornando-nos soltinhos. Eu e ele.

Sabe que me enganei quando disse que você era sisuda. Senti que não gostou.

Nada, não precisa se preocupar. Acho que é por causa dos óculos, deviam ser mais discretos.

Nada. Foi a primeira impressão, depois passa. Tenho um amigo que não sai do hotel, nessas viagens, disse ele gratuitamente. Acho tão interessante conhecer a cidade, ter contato com outras pessoas. Caso fosse como ele, não teria conhecido você.

Não perdeu grande coisa, falei e caí na gargalhada.

Não fale assim, você é uma joia, e muito reluzente.

Cuidado, podem me sequestrar.

Não, não vou deixar.

Reparei a mulher de azul, piscou-me de novo. O que seria aquele sinal?, aparentemente eu não a conhecia. Levantou-se e deu a entender que iria ao toalete. Fez outro sinal. Preciso ir ao toalete, falei. Ele olhava a varanda. Levantei e segui a mulher.

Você é a Vânia, não?, ela falou.

Sim. Mas não estou me lembrando de você.

Acho que faz muito tempo, trabalhei numa escola com você, faz mais de dez anos, muita confusão naquele tempo.

Hum, já sabia de quem se tratava. Helena, o seu nome. Abraçou-me.

Por que você não foi até a mesa onde estou?, perguntei, curiosa.

Achei que não seria bom. Senti saudades da Vânia daquela época, aproveitamos bem uma ou duas vezes.

Sim, aproveitamos, retruquei, mas já não tenho relações com mulheres, você foi a única. E o homem está me chamando de sisuda. Disse e ri.

Sisuda? Helena caiu na gargalhada. Abraçou ainda uma vez. Tá bom, vá então para os braços do namorado.

É a primeira vez que saímos, andou me azarando na praia, vários dias.

Antes que saísse, puxou-me para junto de si e beijou-me a boca. Não tive como impedir. Seu beijo era doce e, antes que eu partisse, puxou um dos botões de minha blusa e enfiou um pequeno papel dentro do meu sutiã. Era um número de telefone.

Depois que se foi, olhei-me no espelho, ajeitei-me, retoquei o batom. Meu coração ia aos saltos.

Voltei à mesa, creio ter conseguido manter as aparências, nada acontecera, era eu a mulher mais calma do mundo.

Comemos com vontade o salmão. A garrafa de vinho chegou ao final. Que tal uma dose de licor?, ainda sugeriu. Dali em diante, perdemo-nos em conversas banais. Ainda falava sobre o trabalho.

Você não sente falta de livrarias em M?, perguntei.

Pareceu não entender, a enxurrada de casos que vivera pelo Brasil e pelo mundo soterrava-lhe a visão.

Vocês, que trabalham com petróleo, são pessoas importantes, não?, meu lugar comum, toquei sua mão por sobre a mesa.

Não trabalhamos com petróleo apenas, mas com energia. E é ela que move o mundo.

Quando saímos, ele estava eufórico. Todo homem quando está a ponto de levar uma mulher para cama pela primeira vez vem nas nuvens.

Ao chegar ao passeio, ainda olhei para dentro do restaurante, Helena piscou-me mais uma vez. Senti o papel com o seu número me fazer cosquinha na ponta de um dos seios.

segunda-feira, junho 29, 2020

Todos os homens vão querer

O uso de máscara causa situações hilárias. Acho que é a palavra certa. Num dia desses vinha eu caminhando do supermercado, carregava uma pequena bolsa, quando um homem aproximou-se e disse você tem os lábios lindos. Como já estou acostumada com muitas azarações, principalmente depois de participar da tal telenovela, continuei meu caminho. Ao chegar ao apartamento, pouso as compras na cozinha, lavo as mãos e corro ao espelho que me mostra de corpo inteiro. Olho-me, demoradamente. Não foi brincadeira, meus lábios marcam a brancura da máscara. Esqueci e passei batom antes de vesti-la. Por falar em vestir, lembro-me da Tânia, faz faculdade de comunicação, quer tornar-se repórter de vídeo. Mas por que a lembrança? A mulher usa um batom dos mais vermelhos inventados até hoje, e adora minissaias. Tânia, você não vai poder apresentar o telejornal vestida desse jeito. Claro que sim, no jornal a câmera pega dos seios para cima, nada de pernas, quanto ao batom, bom, deixa que eu maneiro. Outra dia não foi difícil descobri-la na praia, difícil foi encontrar seu biquíni. Minúsculo. O batom sempre vermelho. Como você faz para tomar banho de mar?, o batom..., quis eu saber. Segredo. Outro segredo, apontou-me um rapaz, disse que ele praticava artes marciais. E daí?, perguntei. E daí, pense na arte que ele praticou comigo ontem à noite, ainda estou toda arrepiada. Tânia, as pessoas de TV precisam de seriedade, adverti. Estou deixando de sê-lo? Ela e sua linguagem às vezes vetusta. Olhe, vai ter a festa do beijo, todos que adoram beijar na boca estão convidados, inclusive você. Mas, agora, este vírus, interpelo. Vamos encontrar um modo, nem que seja a um metro e meio do namorado, aliás, todos são nossos namorados. Deixei Tânia sempre nua debaixo de um sol morno de junho e continuei minha caminhada. Volto ao espelho de casa, minha face brilhante. Não posso perder a alegria. Tiro a máscara, a face rosada, quase branca, os lábios desejados. As mulheres adoram andar nuas, diz-me sempre um amigo de longa data, veja o tamanho dos biquínis, a exiguidade das saias. Verdade, a máscara nos torna mais vestidas. Tenho súbita ideia: nua, vestida apenas pela máscara. Sou rápida na arte de despir-me. Passo mais batom, visto minha única peça. O espelho, ou melhor, eu nuazinha diante de mim. Meus lábios vermelhos, a máscara. Todos os homens vão querer trepar comigo.

domingo, junho 21, 2020

No dia seguinte

Fazia uma semana que eu conhecera o homem e já estava no apartamento dele, nua, ou melhor, de calcinha e sutiã. Ele me apertava, me beijava. alisava minha pele. Por favor, pedi humilde, não vamos transar hoje, tenho dificuldade quando saio com alguém recém-conhecido, vamos deixar para a amanhã ou depois. Sorriu, beijou meus lábios, ligeiro estalo, depois passou a língua como se quisesse um tipo de porta aberta, meu lábios nervosos, queria vencer-me os limites da boca. Dei-me livre ao beijo, com sofreguidão. Por que somos tão brutos no ato do amor? Talvez herança ancestral, lá do começo, quando abandonamos a floresta, ou a selva, não sei. Demorou-se no beijo. Ao recuar e olhar meu rosto, admiração, como a uma estátua (eu percebia), disse sim, a gente espera até amanhã, ou até o dia quando você se sentir solta, soltinha. O diminutivo me beliscou o ventre, uma pontadinha de desejo. Mas quero uma coisa hoje, continuou, vou roubar-te a calcinha. Suspirei. Estaria o caminho aberto? Não me deu tempo de responder, repare, vou ficar vestido, assegurou, você não precisa temer. A calcinha desceu minhas coxas, deslizou sobre os joelhos, pelos tornozelos, e escapou vencendo-me os calcanhares. Onde a guardou, tive vergonha de perguntar. Abraçou-me forte, mas não me olhou nua. Morro de vexo sem sutiã. Ele pareceu entender.


Engraçada eu, conheci o homem no bistrô do cinema, ele esperava a hora do filme, perguntei se não estudara na tal faculdade, ou se fazia alguma pós. Respondeu não, a universidade é a mesma, mas sou de outro departamento, letras, afirmou vagaroso. Ah, sim, fiz confusão, tentei dar uma ponta de charme, face de mulher desatenta. Há homens que adoram. Conversamos, depois veio a vez do filme. Assistimos juntos. Era domingo, tarde da noite. Deixou o número do telefone, no final. Também ofereci-me, inteira, quase os mesmos números, ordens diversas. Levo você, já é tarde. Não se deve aceitar carona de um desconhecido, hesitei em pensamentos. Mas isso é para quando se é muito jovem, ou criança. Já passei dos trinta, quase quarenta. Vai ficar fora de mão pra você, tentei ser polida. Não, nada disso, é o carro que vai nos levar.


Investida ousada de minha parte naquela noite, agora, envergonhada sobre a cama, pedia que deixasse o sexo para o dia seguinte.


Rolamos sobre os lençóis. Eu o beijava, um tanto animal. Caso ele tirasse a roupa, eu acabaria abrindo as pernas, mas não tirou. Surpreendeu-me ao dizer que podíamos nos beijar com mais suavidade, teríamos todo o tempo do mundo.


Mais tarde, já em casa, como sou louca, refleti, mal o conheci aceitei a carona, uma semana depois já na cama dele, homem conhecido na rua, ao acaso, sem que alguém me apresentasse. Poderia estar perdida. Trepar teria sido o de menos, pior fosse um sádico, ou mesmo louco. Tive sorte, porém. Ele era gentil. Fiz tudo ao contrário do que aconselhamos às nossas filhas, às pessoas mais jovens. Deu certo. Treparia com ele, como trepei, no dia seguinte.

segunda-feira, junho 15, 2020

A aventura de um beijo

Como falei numa outra história, o confinamento deu o que falar. Aproveitei para uma aventura externa, de madrugada e às ocultas, como narrei num conto anterior. Agora, já na fase de abertura, tenho saído meio sonsa, ido à praia, ou mesmo a um passeio. É engraçado, sempre surgiu a oportunidade de travar novas relações, às vezes, mesmo, um namoro informal, mas depois desse problema da contaminação, todos a usar máscaras, o que acontecerá com os relacionamentos? Será possível beijar?

Outro dia fui à orla marítima, entardecia. Poucas pessoas passeavam. Guardavam a distância regulamentar e usavam máscaras. Vai ser difícil arranjar namorado, vou ter de me contorcer diante da tela do computador, relação sem tempero, requentada pelo circuito dos chips. E de máscara, já não uso batom.

Num determinado ponto do passeio, logo depois que passei o Country, um homem (seus olhos!) veio falar comigo. Aquela velha história: acho que conheço você, não trabalhou não sei onde, não estava na festa de não sei quem? Acho que não, tive a delicadeza de dizer. A obrigatoriedade de usar máscaras, era o que nos faltava, falou. Sempre usamos máscaras, mas nunca nos demos conta, caí na asneira de dizer. O homem saltou de barriga na conversa.

“Oh, você é uma mulher interessante, o que é raro por essas bandas.”

 Quis rebater, mas achei melhor me calar, assim terminaria ali.

“Você tem estilo, essa sua máscara florida...” Não pôde notar a risadinha irônica.

Uma das coisas desagradáveis desses novos tempos é que não podemos mostrar nosso sorriso, qualquer que seja. Despedi-me e continuei a caminhar. Pararia no Ilhote, mas na parte interna, não desejava a exposição.

Apareceu-me Ilana, no fim da praia.

“Agora essa”, falou, “não podemos beijar, se já era difícil arranjar namorado em M, imagine agora”, Ilana e suas costumeiras reclamações.

“Não é possível a transmissão do Covid pelo sexo”, adiantei-me.

“Sério?”, pareceu surpresa, “que bom, será que os homens sabem disso?”

Quando acabou de falar, completei:

“Meu amor, quando os homens querem trepar, não há Corona vírus que impeça.”

Sorriu: “tomara que você tenha razão, vou encontrar umas amigas adiante, na varanda do Ilhote.”

Despediu-se e partiu. Reapareceu o homem.

“Não me apresentei, falou, me chamo Elton, estava esperando sua amiga ir embora.”

“Muito prazer, Célia.”

“Então, conheço você, sim, de uma festa, você não está se lembrando de mim? As pessoas lhe elogiam muito na cidade, dizem que é famosa.”

“Eu, famosa?”, tive de rir, “deve ser porque durante algum tempo escrevi no New Yorker.”

“Isso, o New Yorker, não é pra qualquer um, ou qualquer uma. Vamos beber ou comer algo?”, ofereceu.

Queria ir sozinha ao Ilhote, mas o homem era tão bonito, acabei aceitando. Enquanto caminhávamos, perguntei-me: será que no passado recente já não nos esquentamos atrás de alguma árvore? Entramos no restaurante e ficamos na varanda. O garçom não demorou a surgir, com a amabilidade de sempre, não era dia de muito movimento. Elton pediu um chope de marca alemã, peculiar do local; eu, uma taça de vinho.

“Não, obrigada, não desejo comer por enquanto”, respondi à sua oferta para que eu olhasse o cardápio.

O começo de noite trazia um ventinho fresco, mas estava claro. Ainda bem que trouxe a echarpe.

“Faz algum tempo fui a uma festa numa mansão, acho que ficava na Lagoa, gostei muito, tinha piscina e tudo mais”, observou.

Lembrei-me, então, das festas organizadas por Maria Rita, tais acontecimentos provocavam frisson na cidade, vinham pessoas importantes, tanto daqui como de outros lugares. Mas não eram festas familiares.

“Ah, sim, eram boas as festas, participei também de algumas”, retruquei.

Sorriu, o garçom chegou com as bebidas.

“A epidemia tirou as pessoas das ruas, embora se possa sair atualmente; e quando vemos alguém caminhando, está usando máscara”, ele disse.

Era verdade, nós também as usávamos, mas as tiramos logo que entramos. Abaixara a sua à altura do queixo e deixou-a no local.

“Deve ser por pouco tempo”, tentei ser otimista.

“As festas ainda existem?”

“Não, já faz tempo que terminaram, boa época aquela; a organizadora mudou-se para São Paulo.”

“São Paulo?”, assustou-se.

“Entendo a surpresa, o espírito de Maria Rita combina melhor com o Rio.”

Tomei um gole de vinho, posei a taça sobre a mesa e olhei ao homem de soslaio. Ele não olhava para mim, mas passava a mão direita sobre um ponto da mesa, depois olhou para além dos limites do bar, como se procurasse alguém na rua.

Aquelas festas eram boas, homens bonitos, mulheres nuas, gente das empresas de petróleo, convidados selecionados. Nada de prostituição, mas muito divertimento.

“Lembro uma vez em que as mulheres vestiam biquínis. E era noite!”, observou.

“Normal, tudo acontecia muito à vontade, quase sempre era verão.”

Três mesas depois, próxima à entrada, estava Ilana. Olhou pra mim, deu um sorrisinho maldoso e fez pequeno sinal. Logo eu que disse não estar preocupada em sair com alguém estava bem ali, próxima a ela, com um homem de olhos azuis. Ilana também frequentara algumas das festas, mas era fofoqueira que só, e fazia o papel de mulher pudica. Na verdade, tudo encenação, ninguém mais fácil que ela na cidade, trepava até mesmo dentro de automóveis.

“Você escreve histórias”, trouxe-me de volta para junto de si, “histórias são sempre interessantes. Como elas surgem?”

“Difícil falar nisso. Sou uma autora que não sabe falar do que faz. Acho que surgem naturalmente.”

“Você tem talento”, afirmou, “muitos escritores dizem ter dificuldades diante da folha em branco.”

“Conversa, todo escritor escolheu a profissão porque tem o que dizer. Você quer sabe mesmo como descubro minhas histórias?”

“Adoraria”, seus olhos brilharam na minha direção, segurou a longa tulipa e bebeu mais um gole.

“Às vezes acordo de madrugada sentindo-me angustiada, acredita? Para aliviar a tal angústia, penso no que posso escrever no dia seguinte. Às vezes surgem ótimas histórias. Já aconteceu de acordar, pela manhã, e não lembrar a ideia da madrugada. Então, minha angústia é maior!”

Riu com intensidade, chegou a se balançar na cadeira.

“Você é engraçada, suas histórias devem ter humor.”

“Quem sabe, humor angustiante.”

“Numa cidade como M, você deve conhecer muita gente.”

“Às vezes finjo que não conheço, as pessoas me chamam por isso de besta.”

“Você tem amigas, amigos?”, estava curioso.

“Já tive mais. Hoje, quase sempre, prefiro sair sozinha.”

“Deve ser difícil aqui levar uma vida sozinha.”

“Verdade, melhor seria mudar para o Rio ou São Paulo, cidades onde é possível se viver no anonimato.”

Seu chope chegava ao fim, minha taça de vinho ia pela metade. O garçom aproximou-se e ele pediu mais um. Eu sentia a conversa um pouco travada, e não encontrava nele intenção maior do que ficar ali conversando durante boa parte da noite.

“Certa vez vi um filme sobre um professor de literatura. Ele fez amizade com um aluno. No final, o professor é abandonado pela mulher, perde o emprego e não tem onde morar. Mas encontra o então ex-aluno, ambos passam a andar juntos e sempre encontram motivos para contar histórias. Olham os apartamentos da vizinhança, imaginam seus habitantes e inventam infinitas histórias. Ao tal professor não importa a própria decadência. A literatura estava acima de tudo.”

“Acho que já vi o filme”, rebati, “se não vi, li em algum lugar, mas isso também é história. Na realidade, tal vida seria muito difícil, o homem seria um mendigo. No cinema e, nos maus livros, as coisas se resolvem.”

Pareceu decepcionado. Eu tirara a graça da sua narrativa, de seu pungente personagem. Tentei reverter a situação.

 “Sabe, um dia escrevi uma história em que havia uma mulher nua. Você gosta de mulheres nuas, não?, todos os homens gostam. Ela ia nua, de madrugada, aqui na praia. Acho que veio de casa nua dirigindo o próprio carro. Confesso a você, quando escrevi tive vontade de viver o mesmo; aliás, a história era um substituto ao meu desejo. Mas, imagine, caso eu resolvesse sair nua de casa. Poderia acabar em maus lençóis, ou sem lençol algum! Por isso a história. Entendeu?”

Ficamos conversando durante mais duas horas. Bebi duas taças, no final tomei um sorvete. Ele ficou nos chopes.

Ao sairmos do restaurante, colocamos nossas máscaras e voltamos ao nosso mundo. Ofereceu-me uma carona. Aceitei. Já na porta de casa, deixou-me o cartão, despediu-se e se foi.

Dá próxima vez, vamos à aventura de um beijo.

segunda-feira, junho 08, 2020

Minha amiga eu mesma

“Você é uma mulher muito elegante para dar aulas naquele tipo de escola.”

Escutei de um colega enquanto conversávamos, no começo do dia, numa das escolas onde leciono. O comentário versava sobre as más condições de trabalho no nosso meio profissional, mas senti que ele mostrava sua admiração por mim. Sorri, nada retruquei, nem sei o que fiz depois, devo ter ido até a sala dos professores pegar minhas coisas para a primeira aula.

Será que o tal colega me paquerava? Já não tenho homem faz tempo, minha vida é organizada, trabalho e tenho meus pequenos prazeres. Como já não sou jovem, admirei-me da iniciativa. Há tantas professoras de menos idade, bonitas e cheias de calor.

Faz alguns anos, quando trabalhei numa escola do litoral norte, vivi situações que me deixavam a mil por hora. A cidade era convidativa a muitas paqueras, à frequência à praia durante as horas vagas e a saídas noturnas a vários restaurantes e bares aconchegantes. Lembro que certa vez andava pela praia ao entardecer. Não sei o que me deu – a  acho que fui picada por um desejo recôndito –, tirei o top e passeei pela orla vestida apenas por uma camiseta larga. Um homem passou por mim e sentiu-se surpreso ao reparar meus seios nus!, chegou dar um sorrisinho com o canto da boca. Continuei minha caminhada como se aquela fosse a atitude mais normal do mundo. Na época tive uma amiga que era maluquinha, além de namorar vários homens ao mesmo tempo, ia à praia com um biquíni pequeníssimo, dizia adorar a praia da Joana, onde vez ou outra podia ficar com os seios de fora. Era solícita com todos que se aproximavam, dava seu número e, na maioria das vezes, marcava encontros. Gosto de tomar uma caipirinha, dizia, depois a gente vê o que acontece. E, segundo ela, só aconteciam coisas boas. Uma vez arranjei também um namorado. Você bebe uma taça de vinho?, perguntou. Claro, importado, ressaltei. Fomos a uma adega. Depois... Tenho vergonha de contar. Fiz coisas que ninguém imagina. Pude constatar que a tal amiga tinha razão. Mas nada falei a ela, não queria que me roubasse o namorado.

Volto à escola onde um colega chamou-me de mulher elegante. Fiquei interessada no tal. Quem sabe, seria tão bom a gente sair e passear, talvez uma taça de vinho. Mas levou um tempo enorme para eu estar com ele como gostaria. Toda vez que passávamos um pelo outro nos cumprimentávamos, sorríamos e seguíamos cada um seu caminho. As mulheres, no entanto, tem poderes especiais, não vai demorar ele cairá nas minhas malhas. Lógico que meus artifícios são discretos, mas o sucesso é garantido.

Você sabe, perto da minha casa abriu um bar de cervejas artesanais, uma delícia, disse eu a ele ontem. É mesmo, adoro cerveja artesanal. Caso você queira ir, eu acompanho você. Vamos marcar, então, vamos amanhã, pediu. Ok, ótimo, vamos sim.

Fiquei esperando, vestidinha, na porta de casa. Chegou de táxi, me beijou e fomos ao restaurante. Imaginem a noite mais animada do ano, pelo menos para nós dois. Não preciso dizer que não bebo muito, mas bastaram dois copos. Que calor. Lembrei a camiseta, os seios soltos por baixo, sorri para o homem. Ele, não custa, vai me ver nua!, pensei num momento. Ah, minha amiga professora lá no litoral norte, o namorado tinha uma Mercedes, e ela nua no banco do carona!

Quando a gente fala muito de amiga, quem sabe fala de si própria!

domingo, maio 24, 2020

Lingerie da mesma cor

Marquei de telefonar e encontrar com ele, um homem para quem já trabalhei e sempre se mostrou afetuoso, que me enche de presentes e de algum dinheiro, mas faz dois dias conheci outro cara, que me provocou um arrepio prolongado, por isso não telefonei, optei pela nova aventura. Quando surge alguém que não conheço, vejo a possibilidade de um novo relacionamento, um tipo de namoro, não uma vida conjugal, é claro. Na verdade, uma nova experiência. Surgiu alguém que pode me proporcionar o que ainda não senti com nenhum outro. Esse negócio de desejar novas experiências já me causou alguns sustos. Não é bom sair com um homem de primeira nem com um desconhecido; às vezes, no meio da trepada, eles falam coisas de arrepiar, fico morrendo de medo. Certa vez um deles disse que tinha uma faca na bolsa, que ia me espetar com a ponta, ia fazer pequenos cortes na minha pele, narrava e enfiava o enorme peru dentro de mim. Fiquei morrendo de medo, com o cu apertadinho, como dizem por aí por meio de uma expressão chula mas verdadeira; após gozar, quis saber se o homem tinha a faca mesmo, mas, como não tocou no assunto, não perguntei. Uma amiga, para quem contei a história, tem certeza de que fiquei excitada com a possibilidade da tal da faca, e bem que gostaria de sentir a ponta afiada deslizando sobre meu corpo! Será? Mas este que conheci, que me fez renegar o primeiro, já vem há certo tempo me azarando, acho que não vai haver perigo, não, e parece ser tão gostoso, tem o tipo que possui um pênis longo e grosso. Não é muito alto, acho que quatro dedos a mais do que eu, mas é musculoso, costas largas, bom nadador, o tipo de homem com muita potência. Marquei de encontrar depois de amanhã, após o trabalho. Vamos tomar um copo num bar recém inaugurado, em Botafogo. Nas proximidades há um hotel, por isso já sei o que acontecerá depois. Vou com lingerie nova, calcinha e sutiã da mesma cor. Engraçado, dizem que quando uma mulher sai com um homem, vestindo calcinha e sutiã da mesma cor, é porque está a fim de trepar. Será? Já saí com as duas peças diferentes e mesmo com apenas uma! A tal amiga que deu seu parecer sobre a faca diz que já foi a um forró vestindo apenas um vestido de malha, justinho sobre a pele, nada mais. Você é louca, retruquei, caso algum homem te agarre, não poderá reclamar. É isto mesmo que eu estava querendo, ela disse. Em termos de relacionamentos, cada uma com sua loucura. Sei que muita gente está doidinha pra saber sobre esta minha nova aventura. Mas ainda não aconteceu!, só depois de amanhã. Eu conto, não vou esquecer, todos os detalhes. E o homem pra quem já trabalhei, que me enche de presentes e de algum dinheiro, será que vai ficar a ver navios? Nada disso, tenho a desculpa prontinha. Na última vez que dei bolo, disse que fui assaltada, me roubaram o celular. Ele caiu direitinho. Sempre volta. Meu telefone está tocando! É aquele por quem estou doidinha. Será que vai antecipar nosso encontro? E não estou nem com a lingerie da mesma cor.

domingo, maio 17, 2020

Pendurada no pescoço

Outro dia li uma história interessante. Uma mulher – professora de inglês – seguia no metrô ao apartamento do namorado, era hora do almoço. Ficaria sozinha durante várias horas, no silêncio ou no ligeiro rumor de uma tarde de junho. Ele morava à rua Bulhões de Carvalho, ali entre o Posto e Seis e o Arpoador. O tal namorado trabalhava muito, chegava tarde, quando chegasse ela já teria partido, não sei para uma aula ou para a própria casa. A ida até o local era para descansar, ou ler um livro, horas de prazer que apenas a solidão pode contemplar. Pensei, então, na minha vida. Tenho filha adolescente, minha mãe mora comigo, o apartamento tem dois quartos. Caso arranjasse namorado como a mulher do conto seria o paraíso. Descanso e carinho, ações necessária para uma mulher em plena vida ativa. E, feliz coincidência, sou também professora de inglês.

Ter namorado, grande problema para mim! Talvez isso revele que não sei administrar minha vida privada. Criar sozinha uma filha, dar-lhe educação, cultura, uma boa moral, não é fácil. Por isso acho que os namorados ficaram sempre em segundo plano, o que faz que se afastem, vão em busca de mulheres mais acessíveis. Ninguém quer ficar em segundo plano. Tenho uma amiga que perguntou: por que você não leva o namorado para sua casa? Sinceramente, não sei se seria bom. Causaria um estranhamento, minha filha na certa arregalaria os olhos, “minha mãe com um namorado, já não vai querer saber de mim”, e minha mãe vai dizer que estou procurando homem, coisa que ela nunca fez depois do dia em que ficou viúva. Sou separada desde o nascimento da menina, namorados até hoje só da porta para fora, e muito raramente. Tive um namorado sim, faz três ou quatro anos, a gente se encontrava à tarde, namoro das três às cinco, ou das quatro às seis; eu correndo, como uma louca, de volta para casa. A gente foi a uma casa de chá, no centro, duas vezes ao cinema, e a um hotel, também no centro. Comecei a falhar aos encontros. Problemas domésticos, dizia a ele. Achou que perdi o interesse por ele. Acabamos nos afastando por tanto tempo que ele, provavelmente, arranjou outra, tantas mulheres por aí, mais jovens e mais nuas do que eu. Lá se foi o homem, sem adeus. Um dia desses nos encontramos ao acaso, eu estava com minha filha, dei um rápido aceno a ele e segui meu caminho.

Na escola, há um professor que sempre vem falar comigo, maior delicadeza, me dá a maior importância. Conversamos nos intervalos, às vezes também quando estamos saindo, ele vai a caminho do metrô, eu sigo um pouco mais, ao ponto do ônibus. Seu assunto é sobre cultura: peças de teatro, filmes, um ou outro livro. Minha vida dupla, de professora e dona de casa, não me permite frequentar os eventos enumerados por ele. Seria uma boa amizade o tal professor. Ao descobrir que vive só, achei possível namorá-lo. O destino seria o mesmo do namorado anterior? Não posso ser tão pessimista, e a menina já vai pela adolescência.

Tenho uma amiga que olha os homens recém-apresentados com aquele olhar de volúpia. Não sei dizer outra palavra. Sai com eles de primeira, e diz preferir os casados. Estes não contam para ninguém, são de extrema discrição, e não exigem permanências demoradas. Não é que ela não possa passar longas horas com o namorado, sua filha fica sozinha e ela não tem mãe para morar junto, é porque não deseja que namoro se torne casamento. A palavra a assusta. Podemos usar outra, como namoro, relacionamento durável ou estável, mas ela diz tratar-se de eufemismos. Casamento desgasta. É bom cada um ter a sua independência. Não penso assim, adoraria ter alguém para ficar comigo, morar comigo, alguém carinhoso, dedicado. Diz ela não existir essa pessoa, ou melhor, existe sim, mas na cabeça de mulheres sonhadoras. Discordei, disse ter uma amiga feliz ao lado do marido, ou do eterno namorado, não sei bem. Aparências, diz, tudo aparências. Mas você não acredita naqueles que foram feitos um para o outro? Não, ela afirma, isso é muito difícil.

Volto ao conto, sobre o qual falei lá no começo. A professora de inglês e seu namorado, morador de Copacabana, rua Bulhões de Carvalho, alguns dizem que essa rua fica no Arpoador. Que seja, melhor ainda. Mas ela aparece no conto sozinha, o namorado é alguém distante. Chega ao apartamento, tira a roupa e fica de calcinha. No silêncio e na meia sombra da tarde. Repousa, lê um livro, escuta a campainha, sobressalta-se. A faxineira do apartamento de frente pede, por favor, um saco plástico; mulher alegre, ainda no corredor do sexto andar fala em divertir-se. A professora sorri e entrega o saco. Volta ao silêncio da tarde, senta-se na poltrona e retoma a leitura. O namorado é uma imagem distante. Ela não vai encontrá-lo naquela tarde, nem na noite próxima. Um conto sobre a solidão, dou-me conta.

Teimosa, acredito no amor, nos relacionamentos. Ah, o professor e nossos momentos de intervalos, seu sorrisinho matreiro. Vou lhe enviar um zap, de repente mora num apartamento em Copacabana. Poderei então descansar, libertar-me de todo o stress de dona de casa, quem sabe também sentar nua numa poltrona para ler um livro. E para não ficar apenas na solidão, encontrá-lo vez ou outra, namorá-lo, pendurar-me no seu pescoço.

domingo, maio 10, 2020

A pantera

A quinta-feira ia clara, o Largo do Machado movimentado como sempre, com seus camelôs, passantes, gente sentada à beira do lago e outras aglomeradas na saída do metrô. Nas bordas da praça, idosos aproveitando a hora que antecedia o almoço jogavam cartas. Um amigo atravessava em direção ao metrô. Consegui alcançá-lo,  toquei-lhe o braço.

“Que tal visitarmos o César? Ele está internado numa clínica a dois quarteirões. Ontem enviou mensagem pedindo pra gente dar uma chegadinha lá.”

“O César? O que ele tem?”

“Erisipela, está com a perna muito inchada, o médico decidiu pela internação.”

“Poxa, que chato, hein?”

“Mas a visita só começa  duas da tarde”, dei a sugestão e, ao mesmo tempo, demonstrei certo enfado, teríamos de esperar um longo tempo, duas ou três horas.

“Duas da tarde, é?”, franziu a testa. “O que vamos fazer durante esse tempo todo?”

Confesso que me envergonhei. Não havia pensado nas consequências do convite. Trabalhava com ele, éramos professores na mesma escola, naquele dia só trabalhamos durante a manhã. Teria de sair da situação embaraçosa, mas ele falou primeiro.

“Tenho uma ideia.”

Fiquei a olhá-lo, meus olhos fixos, reparei seus cabelos castanhos que desciam cobrindo-lhe as orelhas. Achei simpática sua face, os fios dos seus cabelos longos eram frágeis, mas lhe davam certo charme.

Entramos na rua das Laranjeiras, caminhamos duzentos metros, sugeriu que parássemos numa lanchonete. O local era desses onde se paga na caixa e se recebe o pedido do funcionário que fica ao lado. Duas jovens trabalhavam. A que buscava o lanche olhou meu amigo com insistência, notava-se claramente que fora tomada, pelo menos durante alguns segundos, por um pensamento de volúpia. Sorri a ela, que pareceu entender meu sorriso. Talvez observar os homens e desejá-los tornasse mais ameno o dia. Senti uma ponta de inveja, era como se tentasse me roubar o homem, ou, pelo menos, uma parte dele. Meu amigo pedira dois copos de suco de maracujá, um para ele outro para mim. Quem sabe a fruta maneirasse meus pensamentos.

Depois da Pinheiro Machado há uma rua que leva a uma biblioteca pública, era para lá que meu amigo tinha a intenção de ir, assim mataríamos o tempo.

“Está muito calor, conheço a biblioteca, lá não há ar-condicionado”, minha fisionomia devia transmitir desânimo, na verdade vinha da escola, não queria saber de livros.

“Livros não são sinônimos de escola, nem de estudo, servem também para o lazer”, acrescentou, adivinhando meus pensamentos.

Sou professora de Inglês, confesso que não estou acostumada a pegar livros emprestados em bibliotecas, nem leio com muita frequência, mas o admirei por isso. Ele procurava nos livros a realização de um prazer, um modo de vida ou, quem sabe, uma filosofia.

“Moro aqui perto, acho que vou pra casa, assim tomo um banho e descanso um pouco”, disse um tanto atabalhoada. Depois, ao refletir, achei que não deveria ter sido tão abrupta.

“Tudo bem”, ele, não sem uma ponta de tristeza, rebateu.

Quando já se preparava para partir, sugeri:

“Não quer ir até lá em casa? Deixe os livros para outra hora.”

Ainda não convidara colega algum da escola para ir a minha casa. Embora o convite tenha sido feito sem muita reflexão, achei que não seria nada demais.

Sorriu. Achou boa a ideia. Na rua o movimento de meio-dia era barulhento, ônibus e muitos carros subiam em direção ao Cosme Velho. Crianças saíam da escola. Meu prédio era no começo da General Glicério.

Quando entramos, não havia ninguém na portaria. Onde estaria o zelador? Melhor, já fazia tempo que não convidava homem algum para subir. O último namorado partira fazia mais de um ano, e fora alvo de olhares desconfiados da vizinhança. Apesar de Laranjeiras ser um bairro da zona sul do Rio, com muitas pessoas escolarizadas, de nível superior, a quantidade de fofoqueiros e fofoqueiras era grande. Saímos do elevador no sexto andar, abri a bolsa e tirei a chave. Logo ao entrar, fui abrir à janela da sala.

“Espere um pouquinho, vou fazer um café”, quis ser delicada.

“Não precisa se preocupar, descanse um pouco”, interveio.

Mesmo assim fui à cozinha e preparei a cafeteira.

“Está muito calor, é melhor ligar o ventilador”, sugeri, o interruptor é o mesmo que o da luz.

Meu amigo levantou-se e acionou o ventilador de teto.

O que conversar num momento como aquele? Desviara-o da biblioteca pública, convidara-o para vir comigo sem segundas intenções. Comecei a pensar se ele falaria para alguém da escola sobe a visita ao meu apartamento. Sou discreta, nada conto sobre minha vida, seria interpretada de modo equivocado.

“Também tenho livros, sabe”, disse eu de repente.

Ele sorriu.

“Que bom, são livros de literatura?”

“Sim, literatura de língua inglesa, é lógico, dou aulas de inglês.”

“Tenho uma amiga que se formou em francês, mas diz não gostar de literatura, estranho, não é mesmo?”

“Não, não é tão estranho, há professores que querem ensinar apenas a língua, o básico para a comunicação, uma língua estrangeira para viajantes”, arregalei os olhos após a última palavra.

“Mesmo entre os professores de literatura são poucos os leitores, tenho observado, não vejo ninguém carregando um romance, ou mesmo falando de um bom livro’”, acrescentou.

Pedi licença e corri à cozinha. A cafeteira fazia seu gargarejo demonstrando o término da preparação do café. Enquanto tirava do armário uma pequena bandeja com duas xícaras, pensei numa amiga que não acreditava na amizade entre homem e mulher. Pessoas de sexo diferentes têm interesses que vão além da amizade. Meu amigo não dava sinal de que estava interessado em mim, pensava mesmo era na biblioteca. Tenho uma amiga não acredita em nada disso. Quando vai à praia, usa um biquíni curtíssimo, a bunda toda de fora. E ela já passa dos cinquenta. Gosto de homens másculos, que me levem pra cama, chego a gritar na hora do prazer, afirma. Também não titubeia ao trepar com um homem de primeira, no mesmo dia em que o conheceu. O perigo me excita, diz.

Meu amigo sentado na sala tirara um livro da mochila quando cheguei com o café. Colocou-o sobre o sofá, ao seu lado, pegou a xícara e bebeu os primeiros goles. Pousei a bandeja sobre a pequena mesa e segurei também minha xícara. Ele tomava o café totalmente amargo.

“Você não quer açúcar?”, pareci assuntada.

Ele disse não, preferia sentir o gosto puro do café. Ah, meu amigo gosta de sentir o gosto original, puro, das coisas. Talvez seja um bom homem. Coloquei meu adoçante e fui bebendo pouco a pouco.

“Você acha a leitura tão importante assim?”, perguntei.

“Não sei, acho importante pra mim, mas para os outros depende de cada um.”

“Tua resposta é sensata, não procura impor o que gosta.”

“Também gosto de outras coisas, como sair por aí, andar em em meio à natureza, conhecer pessoas, conversar, não apenas ler. Mas confesso que a leitura me seduz.”

Levantei e caminhei até a janela, abri-a um pouco mais. Ele se levantou e veio ao meu lado.

“Bonito olhar o bairro daqui de cima.”

“Você acha?”, perguntei, “esse lugar é tão provinciano.”

Virei-me para ele, toquei-lhe um dos braços e sorri. Temi que me achasse uma rua desimpedida, não queria ser vulgar.

“O teu cabelo é tão liso”, reparou, e fez um carinho na lateral do meu rosto.

“Oh, o café vai esfriar”, fingi assustar-me.

“Que esfrie, há coisas mais quentes”, demos uma gargalhada após as palavras dele.

Se fosse outro os tempos, já estaria nua nos braços deles. Mas achei melhor esperar, o terreno era favorável. Sentamos mais uma vez, olhei as horas.

“Ainda é cedo, as visitas começam às duas em ponto”, confirmei.

“Não faz mal, está bom aqui, tua casa é muito legal.”

“Você não quer comer alguma coisa?, tenho tanta comida na geladeira.”

“Não, não me importo, lanchei bastante às dez horas, deixe o tempo passar um pouco, ou, quem sabe, a gente come algo por aí, depois de visitar o César."

Sentada na poltrona, de frente para o sofá, descruzei as pernas e alternei a posição, agora com a direita sobre a esquerda. O que vamos conversar agora?, cheguei a pensar. Ele mergulhara num silêncio demorado, tomou nas mãos o livro que tirara da mochila e olhava a capa. Mas achou indelicado abri-lo, o que fez foi guardá-lo novamente.

“Você se incomoda de ficar sozinho um pouco?, estou com muito calor, acho que vou trocar de roupa”, falei. Nas verdade, eu queria mesmo era tomar uma ducha.

“Fique à vontade, não se preocupe comigo.”

Saí da sala, corri primeiro ao banheiro. Acho que se a gente tivesse bebido vinho ou outra bebida alcoólica as coisas teriam sido diferentes, refletia eu nua, preste a abrir a ducha. Imaginei-me saindo nua do banheiro, ou enrolada numa curta toalha. Tais pensamentos, porém, não iriam se concretizar. O fato de pedir para trocar de roupa já fora uma inciativa ousada. Ele me imaginaria tirando o vestido, procurando por outro, ou mesmo me veria nua em pensamentos ao ouvir o replicar da água da ducha no chão do boxe.

Quando saí do banheiro, corri ao quarto, fechei a porta e comecei a me vestir. Escolhi uma camisa branca com uma estampa em inglês, no lugar da saia optei por uma calça que me deixou com as canelas de fora. Ajeitei o cabelo, esguichei rapidamente um perfume qualquer e voltei à sala. Meu amigo lia seu livro.

“Desculpe, é que não aguentava mais o calor.”

Nada falou, apenas fez um gesto de aprovação com a cabeça. Reparei o nome do livro que ele lia, era em francês: La panthére des neiges, de Sylvan Tesson.

“Que chique, um livro em francês.”

“Sim, é um bom romance, ganhou um dos maiores prêmios de língua francesa.”

“É interessante?”, perguntei.

“Sim, é sobre quatro pessoas que vijam ao Tibete: um fotógrafo, sua companheira, um escritor e um ajudante com jeito de filósofo. Vão em busca de uma pantera, como diz o título, pantera das neves, animal raro, praticamente em extinção, existente apenas naquela região. .

“Hum , deve ser interessante, Tibete, pantera, neve, tudo o que não existe por aqui. Mas fale mais, estou gostando.”

“O objetivo é observar a pantera e fotografá-la. A trama do livro gira em torno dessa situação. Mas não se trata de uma narração sobre o mundo animal nem sobre lugares exóticos. Na verdade, é uma filosofia de vida. Os personagens estão à procura de lugares pelo mundo fora do circuito da mundialização. Por causa da internet, pensamos que tudo e todos os lugares estão ao nosso alcance. Mas isso não é verdade. Na maior parte do tempo os integrantes da expedição vivem situações extremas. A temperatura é de menos 25 graus, a altitude em torno de 5000 metros. O melhor de tudo é descobrir como olhar o mundo ao redor, toda a riqueza que ele possui. A pantera não aparece com facilidade. Muitos exploradores permanecem o inverno inteiro à espera, mas não conseguem descobri-la. O narrador diz que, depois dessa experiência, aprendeu a ver o mundo de modo diferente. Olhar de modo disfarçado ou espionar, em francês, é guetter. Diz que, quando estiver de volta, num ou noutro café de Paris, saberá observar o mundo de modo bem diverso de como fazia antes. O livro não narra uma história sobre ecologia nem sobre animais, é lógico que há a necessidade de preservá-los, mas o que fica é uma reflexão sobre o mundo e o modo de vida contemporâneos. Apesar de ser um romance, a viagem foi verdadeira. Além do livro com a aventura, há outro, publicado pelo fotógrafo, com as fotos da pantera e de outros animais da região.”

“E como acaba a história?”, cheguei a rir, confesso que naquele momento não entendi a importância do assunto.

“Acaba como todo livro acaba, quando chega ao final”, meu amigo entrou no meu jogo e deu uma sonora gargalhada.

“Se um dia você conseguir o livro de fotos, me empreste”, pedi. “Vamos tomar um pouco mais de café e vamos ao hospital. Quando chegarmos lá, acho que já será a hora de visitas.”


Poupemos o leitor da visita ao hospital. Todos já foram visitar algum doente. Muita gente de branco, ou de verde claro (cor que adotaram nos últimos tempos para o pessoal da saúde), médicos, enfermeiras, funcionários diversos, corredores compridos, este higienizados (pelo menos na aparência), salas de espera, equipamentos para cada tipo de enfermidade, camas com encosto levantado, grades, hastes sustentando o soro, agulha nas veias. O que poderia criar imagens mais vivas? Ficamos com o doente mais ou menos três quartos de hora. Agradeceu nossa visita, mas durante a maior parte do tempo ficou olhando suas mensagens no celular.

Na saída, olhei meu amigo e sugeri:

“Que tal comermos algo agora?, estou morrendo de fome.”

“Boa ideia, achei que você ia esquecer.”

“Nada disso, comer é uma das melhores coisas, conheço uma ótima lanchonete, no Largo do Machado.”

Voltamos pela Pinheiro Machado e entramos na Laranjeiras, no sentido de quem desce ao Aterro. Andamos lado a lado.

“Gostei dessa pantera aí do teu livro” falei e segurei sua mão. “Precisamos conversar mais  sobre ela.”

Manteve a mão segurando a minha. Como não quisesse me perder, fechou os dedos, selando a relação.

Tive vontade de beijá-lo, um beijinho no rosto, bem ao lado dos lábios, bastaria virar a face à esquerda e chegar um pouquinho mais. Tive medo que viesse alguém, no caminho sempre circulavam muitas pessoas da escola, outros professore, alunos, quem sabe alguém mais. Resisti ao desejo, torcendo-me dentro das roupas.

Soltamos as mãos apenas na lanchonete, quando tivemos de pegar as esfirras e os refrescos que nos serviriam de lanche.

Daí em diante noites e mais noites, histórias e mais histórias. A pantera.

domingo, maio 03, 2020

Confinamento

Ia contar uma história engraçada, vivida por mim numa praia em Rio das Ostras. Mas por causa do confinamento, resolvi falar de outra coisa, um pouco diferente do que aconteceu na Costa Azul.

Vocês sabem que adoro andar nua. Já saí nua, de carro, várias vezes, sozinha ou ao lado do namorado. É o maior frisson, principalmente no lugar onde moro. O carro na garagem, entro,  ligo e dou a partida. Instalei um portão de garagem eletrônico para poder saltar da varanda ao banco do motorista, assim não preciso descer do carro para, do lado de fora, ter de fechar o portão. Os vizinhos acharam um luxo. Sou preguiçosa, falei, enquanto o tal portão abria e fechava, automático. Não souberam o verdadeiro motivo. Até hoje tudo sempre correu bem, até o dia que resolvi ficar nua, na praia, em Rio das Ostras. Mas não é sobre isso que quero falar agora! É sobre o tal confinamento.

Antes, o máximo que podia acontecer era eu ser surpreendida por estar nua; agora, posso ser surpreendida porque saí de casa. Vejam a contradição. Alguém resolve passear nua por aí, é uma fora da lei. Os bons costumes não permitem a nudez. No entanto andar por aí, passear, olhar o mar, ou a paisagem da montanha que há do lado oposto, agora também é uma falta perante a lei. Estando vestida, é preciso ressaltar. Será que posso suportar isso? Há ainda a multa ou mesmo a prisão. Verdade. Aqui onde moro, à primeira vez surpreendida do lado de fora recebe-se uma advertência; à segunda, uma multa; caso aconteça a terceira, levam o infrator ou a infratora para a delegacia. Razões sanitárias, dizem.

Resolvi burlar a tal lei. Não estou contaminada por este novo vírus, tenho certeza. Moro sozinha, não tive contato com ninguém atualmente. Portanto, decidi que posso sair. Mas como as autoridades da minha cidade são turronas, resolvi sair nua! Burlo a lei em dobro. Azar o deles. Acordei às quatro da manhã, tomei uma ducha e saí. Isso mesmo, as ações foram exatamente essas. Alguém poderia perguntar: ela não descreve mais nada? Como poderia responder se não há mais o que descrever. Nua, isso mesmo, inteirinha sem roupa alguma. Montei a bicicleta e pedalei à praia. Tinha uma hora e meia para viver minha transgressão dupla.

O namorado, que mora em Rio das Ostras, sabe que adoro sair por aí em pelo; melhor, em pele. Mas nem para ele falei. Cavaleiros estava límpida, uma claridade de lua próxima ao horizonte, corri e molhei os pés. A água não estava fria. Lógico que um mergulho me faria tremer um pouquinho, mas tinha a bicicleta, bastava pedalar rapidinho. Bom aquecimento. Lembrei-me de um amiga a quem contara de modo resumido meu amor pela nudez. “Também gosto”, disse ela, “certa vez desci nua do terceiro andar da minha casa e fui até o portão. Na época, eu alugava uma parte independente da casa a uma mulher. Ao chegar lá embaixo, ela estava no portão, parecia esperar alguém. Mas, felizmente, não me viu. Subi os dois lances da escada e bati para o namorado abrir. Tempos depois disse a mim mesma, tenho de parar com essas loucuras, se meus filhos me surpreendem nua lá embaixo vão me internar justificando que a mãe enlouqueceu!” Ambas rimos muito. Quem sabe encontro com ela, também nua, por aí. Seria divertido. Pior se encontrar um homem, o que poderei dizer? Não teria chance alguma de escapar. Mas nem homem nem mulher. Todos em confinamento. Bem que eu gostaria de encontrar um homem, sempre há o desejo, mesmo inconsciente. Na minha cidade todos me conhecem, e sou tão cobiçada. Melhor procurar alguém em outro lugar.

Depois de uma hora e pouco, ao leste apontou um vermelhinho. Montei a bicicleta e pedalei de volta. Não fui pela avenida principal, é lógico. Que arrepio, cheguei toda molhada. Não sei se nervosa ou frisson. Mais provável o frisson.

Em casa, veio-me à mente a tal praia na cidade vizinha. Eu e a mania de tirar a parte de baixo, o biquíni, entregá-lo nas mãos do namorado. Ninguém nota, não; a água é escura, principalmente no fim da tarde. Mas naquele dia decidi fazer o contrário, ao invés da calcinha deixei em suas mãos o top! Ele chegou a dizer a água não esconde os teus seios. E fez a tal brincadeira, levou meu top lá pra cima, guardou-o na minha bolsa. Não deu certo.

Fique em casa.

domingo, abril 26, 2020

Não vai ficar grudada!

Gosto de andar pra lá e pra cá, ver meus amigos e conhecidos, vestindo uma sainha, blusinha ou um macaquinho. O macaquinho é melhor, peça única, por baixo o top, uma faixa branca, as pernas de fora, paisagem ensolarada a ser apreciada. As moscas gostam de se aproximar do mel, de beliscar aqui e ali, até que ficam grudadas, é como se debruçar sobre um precipício. E eu coladinha ao mel, minhas pernas morenas lustrosas.

Que susto! Ainda bem que meu amigo me salvou. E que amigo. Parei na Conselheiro Lafaiete, resolvida, a conversar com o porteiro de um dos prédios. Esses homens adoram uma mulher nua. Aliás, eu não estava nua, mas passou uma menina de biquíni, a caminho da praia. O homem arregalou os olhos. Na falta da menina, que não sabia e continuou não sabendo da existência dele, o porteiro voltou-se pra mim, olhos ainda arregalados, todo aquele sabor de loucura que a possibilidade do sexo traz. Já fazia um tempinho não desgrudava, ameaça latente, perguntou enfim se eu costumava ir a alguma festa. Gosto de forró, disse eu. Imaginem, uma dança quente, o homem agarra a mulher e a leva de um lado a outro, o par sempre grudado, o macho a apertar, a apertar até não poder mais. Tenho uma amiga que goza com isso. O tal porteiro, sangue quente, eu podia perceber, insistia às minhas coxas, apontava. Não sei se se dava conta de que eu me sentia nua. Como vou me cobrir, nuinha no Posto 6? Ensaiei algum movimento, mexi as mãos, ajeitei a parte superior do macaquinho, a bolsa a tiracolo, já acabara o serviço. Se fosse um artista de TV, acho que ia com ele pro apartamento escurinho, o ar desconhecido, cheiro de novidade mesmo em construção antiga.

Uma vez fui a um prédio onde se precisava puxar a grade dourada do elevador, só assim ele subia, não sei por que senti o arrepio, o mergulho no desconhecido. Levava uma roupa a uma senhora. Um homem bonito abriu a porta, disse que eu entrasse. Ai, imaginem.

Falei que tinha de ir, o porteiro piscou os olhos, sentiu que nada poderia fazer em relação ao seu desejo. Às vezes ficamos frustradas, porque nosso desejo não é realizado. No caso da entrega, o homem tão bonito e deixei escapar. No caso do funcionário do edifício, ao contrário, a mulher bonita, pernas de fora, o macaquinho a cobrir-lhe pequena parte do corpo, e ele sem poder fazer nada. Não se agarra uma mulher em Copacabana.

Do outro lado da rua passou o meu amigo. Foi o tempo de eu gritar oi e correr até ele. Este não vai me fazer mal, a praia dele é Ipanema, lá pela Farme de Amoedo. E tão bonito o meu amigo. Melhor com ele do que os olhos invasivos do porteiro.

Depois de me deixar na General Osório, todos os homens estavam a me olhar, e eu a beliscar o mel.

Cuidado Ivânia, não vai ficar grudada!

domingo, abril 19, 2020

Tripa

Tenho ido à praia, no Pecado, um lugar e tanto. Por aqui, o inverno também não se anunciou. Visto o biquíni e vou envolta numa toalha felpuda, atravesso a rua, ando um pouco sobre as areias brancas e pouso, anônima, o vento a me acarinhar a pele, levinho e amoroso, o sol morno, sem maiores pretensões. Ouço o rugir do mar, o explodir contínuo da arrebentação, notas graves intermináveis, como ecos sobrepostos a uma mão esquerda de pianista. Numa das tardes, porque as prefiro às manhãs de vozes infantis e hábitos brancos das babás, surgiu um homem, devia ir lá pelos cinquenta anos. Não demorou a se aproximar. Eu, que sentia o arrepio de estar só e também de ser um ente da natureza, assustei-me. Não é boa a palavra, rompe o precário equilíbrio entre o humano e o que não é o artificioso. Mas, vá lá, surgiu o homem. Bermuda azul, sem camisa, meio sem jeito, veio conversar. Como as palavras destoam da linguagem universal, sal e sol, vento e mar, aceitei a breve companhia. Veio-me à mente as dificuldades em se arranjar namorado. Justo o pensamento? Não sei, mas as mulheres sempre estão na desvantagem. Acendi primeiro um cigarro e conversamos. A princípio, apenas eu falava. Será o homem de pouca conversa? Apontei a beleza do mar, a tranquilidade da tarde etc. e tal. Ele, nada. Olhei, discreta, queria reparar se apontava o pênis por baixo da bermuda. Não que quisesse tê-lo ali, mas talvez o silêncio tivesse como motivação a minha nudez. De uns tempos para cá, passei a vestir um biquíni mínimo, a bunda de fora, e eu estava de costas. Nada achei sob o tecido masculino. Você nada comenta, alertei. Sorriu, foi então que perguntou você não é do Visconde, uma casa de dois andares? Pronto, o homem me tinha nas mãos, além de nua. Sim, resposta econômica. Admiro muito quando passa no campinho. É mesmo?, não me lembro de você. As mulheres não olham para os lados, emendou. Quem te disse?, deixei o argumento. Melhor permitir ao homem vir, o assunto crescer, até chegar onde já sabemos, a cama. Isso mesmo, os homens querem deitar com as mulheres, fazem tudo para que isso aconteça logo. Você frequenta o Arnaldo, do forró?, perguntei. O paquera arregalou os olhos, sorriu, na certa imaginou um copo grande de cerveja a sua frente, disse sim, frequentava. Então, vamos nos encontrar lá, depois de amanhã, pode me esperar, não vou faltar, assegurei. Continuou a me olhar, agachou-se, percebi que esperar dois dias lhe pesaria. Eu não poderia ir com ele naquele momento, nem estava com vontade, o importante para mim era o sol, o mar, o vento brando e o prazer do envolvimento com a natureza, sexo seria num outro momento. Abriu a carteira, tirou a caneta e escreveu um número de telefone. Recebi o pequeno papel e guardei dentro da bolsa. Pode deixar, não vou dar bolo, falei e achei engraçada a expressão. Foi-se o admirador. Lembrei um amigo que amava as possibilidades, dizia que era bom investir, assim poderia escolher mais. O admirador da praia não sabia investir, daí a pobreza de suas palavras. Meu amigo não é rico, mas sempre tem algo a receber. Investiu na semana retrasada, na passada, investe na atual, sempre o lucro, tanto mais quando se trata de mulheres!, gosta de exclamar. Em outro tempo, pode ser que eu me ralaria pelo homem ali mesmo na praia, arranjaria um jeitinho de deixá-lo escalar-me o corpo, ou eu mesma tomaria de repente suas mãos para percorrer minha pele escorregadia, depois afastaria um pouquinho as pernas, ele me roubaria o biquíni, tudo resolvido. Mas já sou escolada, não quero falatório, melhor o forró do Arnaldo. Tinha a praia, depois a dança, e o homem. Gosto de deixar o sol me aquecer o corpo até eu não poder mais, sinto, então, aquele repuxo no ventre, o calor, quase um orgasmo. Quando levantei, nem ajeitei o biquíni, nua a caminho do mar. Mergulhei. Olhei de dentro d’água na direção onde estavam os meus pertences, a praia toda para mim, ao longe uma mulher, depois dois garotos, areia e mais areia, cordões de restinga. Voltei ao guarda-sol, sentei-me sobre a canga, tive vontade de trepar, sim, mas com um amante imaginário, que me fizesse gozar duas horas seguidas, algo impossível a um homem de carne e osso. Uma amiga, certa vez, tocou neste ponto. Os homens gozam rápido, deixam-nos a desejar. Disse que gozava com o próprio corpo. Com o próprio corpo?, perguntei, você se masturba? Não, nada de masturbação, preparo-me, como se fosse deitar com alguém, passo uns cremes sobre a pele, deito-me e ponho-me a imaginar, abro as pernas, com suavidade, estou molhada, minhas mãos deslizam sobre o ventre, minhas coxas, imagino um história excitante, um fato que me deixa a mil, remexo-me um pouquinho, o gozo vem chegando... Isso dá muito trabalho, interrompi. Dá trabalho mas vale a pena, basta ter calma, toda a paciência do mundo, e muita imaginação.


O bar do Arnaldo fica na Riviera. Não é um setor vulgar da cidade. Em dois quarteirões está a praia. Há casas bonitas na vizinhança, prédios altos, carros e mais carros na beira da rua, estacionados. O Arnaldo teve de preparar o isolamento acústico do local, caso contrário teria de fechar. Conseguiu. Do lado de fora, não se escuta a música, não se acredita que se trata de um local barulhento e dançante. Forró é dança quente, animada, o homem segura a mulher pela cintura, pressiona-a na direção do seu corpo. Dança-se encostado um ao outro, sente-se calor, deseja-se sexo, é quase uma antecipação do prazer que está por vir. Não há homem ou mulher que, ao dançar forró, não se imagine numa intensa relação carnal. Como era de se esperar, mantive-me nos braços e nos passos de meu par, o homem surgido nas areias da praia, queria senti-lo mais e mais, acabar a noite numa espécie de comunhão de corpos, bem presa a ele, seu sexo dentro de mim. Num salão de forró, o bom é ficar o tempo todo com o namorado, não se deve parar de dançar, caso isso aconteça acaba-se nos braços de outro. Eu queria meu admirador da praia, até mesmo não me importaria de partir mais cedo para senti-lo frequentar minhas entranhas.

Após toda a loucura proporcionada pela dança, acabamos na minha casa, na minha cama. Nem havíamos bebido muito, melhor a embriaguez de nossas altas temperaturas. Muitas coisas na vida não acontecem como a gente imagina. Queria eu estar nua, o homem a me invadir, sem piedade. Ao sair do Arnaldo avistei Marion e Arlete sentadas a uma das mesas próximas à porta, vestidos curtinhos, uma porção de homens a olhar para elas. Dizem que Marion, depois de duas ou três horas de dança, vai ao banheiro e despe a calcinha, os homens adoram, ficam beirando a mesa, querem se certificar.

Tirei a roupa, quase enlouquecida, fiquei apenas de biquíni. Esperei por ele. Veio vagaroso. Despiu-se de costas para mim, quando apresentou-se nu, de frente, demonstrou uma ponta de vexo. Um homem vexado!, quase caí na gargalhada. Mas ele tinha seus motivos. Só então percebi. Seu pênis não enrijecera, uma tripa comprida escorrendo sobre o saco. Num primeiro momento, achei que vinha nervoso, há homens que reagem assim. Mas por que nervosismos? Aproximei-me, segurei seu pinto, acariciei, todo o cuidado do mundo. Nenhuma reação. Abracei o namorado, abrir as pernas, deixei que se aconchegasse. Nada. O peru na mesma posição. Afastei-me um pouquinho, toquei seus testículos, enfie o pênis inteiro na minha boca. Chupei o homem, tentei todas as maneiras. Nada. A tripa permaneceu imóvel.


Dias depois estive com um amigo, aliás, um ex-namorado que me acha gostosa e não deixa de me vir visitar. Fiquei nua pra ele; ele, nu pra mim. Seu peru durinho. Você já passa dos sessenta, está muito bem, falei, outro dia tentei trepar com um homem de cinquenta e poucos, o peru não ficou duro de jeito nenhum, chupei e tudo mais, nada conseguiu. O sexo do meu amigo endureceu mais com minha história. Comeu-me, com muito gosto. Uma delícia. Bom pra esquecer o dia em que fiquei na saudade. O importante foi também que gozei. Que história!, o homem e a tal tripa. O importante, naquele momento, era o pênis durinho do meu amigo!

domingo, abril 12, 2020

Toda arrepiada

Você me diz não fique tão nervosa, Anete, não se deixe levar pelas opiniões dos outros, não se deve temer o que as pessoas vão pensar da gente. Mas, Theó, moramos numa cidade onde muita gente se conhece. Sei que a situação mudou um pouco de uns anos para cá, mas as famílias que são daqui se conhecem, sim, fazem comentários. Depois, o comentário se espalha e somos vistas como piranhas. Se eu vivesse em Niterói ou no Rio, tenho certeza de que não seria assim, lá muitas pessoas moram sozinhas, predomina um individualismo que não se tem tempo para reparar o que o outro faz ou aonde vai. Aqui, não é assim. Outro dia comprei um maiô novo, sei que você vai achar ridículo eu usando um maiô, mas é o meu costume. Só que este é um tanto cavado, parecido com o que esteve na moda no carnaval passado, entrando atrás, a bunda um pouco de fora. Imagine, duas horas depois já tinha gente me olhando com aquele sorrisinho de deboche. E não foi na praia, não, mas no centro, não sei como já sabiam da novidade. Às vezes tenho vontade de mudar daqui, de ir embora mesmo. Não sei como você consegue, Théo, sai por aí, vai à praia, usa o menor biquíni da cidade e não liga pra que os outros dizem. Você mesma reconhece que não é tão bonita, nem tem um corpão assim de parar o trânsito, mas sempre está com namorado, ou de caso com alguém, quase toda semana tem um convite pra ir a algum lugar, uma festa, um restaurante, passeios e coisas assim. Você diz pra mim, Anete, basta não ligar pra essa gente, são pessoas frustradas. Eu sei, são frustradas, sim, com certeza, mas me incomodam, e muito. Queria ser assim como você, anda nua por aí, as pessoas olham, falam e você não liga, acha até engraçado. Caso te chamem de piranha, desdenha ainda mais de todas elas ou de todos eles. Uma vez você me convidou pra ir àquela praia, lembra?, fui com você. Foi a única vez que usei biquíni, e usei o teu! Você vestiu o meu maiô. Até que ficou bem em você o maiô; o biquíni, em mim, não sei. Serelepe do jeito que você é, logo apareceu um homem para conversar com a gente. Essa conversa vai longe, pensei, vai parar lá na cidade. Porque de Arraial até aqui não é muito longe, você há de concordar. Sei que naquele dia, até me soltei um pouquinho. Mas, depois, quando cheguei, comecei a achar um olhar estranho em todas as fisionomias, como se todos soubessem do meu segredo, do que aconteceu naquela ida à praia. Fiquei morrendo de vergonha de ir lá de novo, de encontrar o tal homem. E olha que ele me telefonou várias vezes. Isso mesmo, Théo, sei como é, você age assim, uma curtição, mas quanto a mim não sei. Adoro quando você me conta como os caras se aproximam, como falam com você, o modo como você os recebe, acho também engraçadas as situações em que você se mete. Lembra aquela vez, dois homens no mesmo dia, você sem saber o que fazer, o primeiro já tinha ido embora, mas, de repente, resolveu voltar, você já nas mãos do outro, ou nos lábios, ou dependurada, não sei. Muito divertido. O primeiro fez uma cara, mas não teve mais chance. Ainda bem que o segundo não percebeu o tal, e nem soube que você tinha dado uma namoradinha com ele uma hora antes! Você está me convidando para ir a Búzios, Théo, numa praia em que ninguém me conhece? Onde não há possibilidade de encontrar ninguém daqui? Será que existe mesmo esse lugar? Lembra a Júlia? A que mudou pra Icaraí. Era totalmente louca, adorava Búzios, dizia a mesma coisa, ia a uma praia onde ninguém a conhecia. Mas arranjava mil namorados aqui também. Dizem as más línguas que ela saiu uma vez nua, de carro, ao lado do namorado, foi pra um motel, desses da estrada. Corajosa, ela. Mas pode ser invenção, esse povo fala muito. Vou pensar no teu convite, Théo, um passeio a Búzios. A gente vai sexta e volta no domingo? Sério mesmo? Deve ser muito legal. O biquíni? Ah, tudo bem, você me empresta, ou chegando lá eu compro um, quem sabe. Espere um ou dois dias pra eu dar a resposta. Escuta, agora eu tenho de desligar, amanhã ou depois te telefono, a gente marca. Dessa vez a tentação é muito grande. Um final de semana em Búzios, uma pousada, a praia deserta. Quem sabe, a praia nem tão deserta assim! Você está rindo, não é?, engraçadinha. Sabe, fiquei toda arrepiada. Tchauzinho, amor, beijinho.

domingo, abril 05, 2020

As pessoas têm mais o que fazer!

Chego ao apartamento do namorado, são 12h30m , abro a porta e entro. Que bom, tenho a chave, ele me cedeu logo no início do relacionamento, pode vir quando quiser, mesmo eu não estando em casa. Bom, esse namorado. Descanso a bolsa e sento no canapé. Está escuro, a temperatura é agradável. No trabalho o homem, só chega lá pelas sete da noite. Já não estarei, dou aula à noite. Vida de professora. Depois vou a minha casa, vejo-o na sexta e ficamos juntos até a segunda de manhã. Às vezes, num intervalo de meio de semana, também nos encontramos. Tiro a roupa. A primeira coisa que desejo quando entro na casa dele, mesmo sozinha, é ficar nua. Corro ao quarto e estendo meu vestido sobre a cama, onde ele costuma dormir. Volto à sala, de calcinha. Será que alguém do prédio de frente me espiona, entre as cortinas? Não acredito, as pessoas têm mais o que fazer.

Lembro uma amiga distante, de outra cidade, onde trabalhei. Ela trepava com o namorado às onze da manhã, morava num terceiro andar. Ele mostrava que era possível serem vistos de outras casas, dos terraços vizinhos. As pessoas têm mais o que fazer, ela dizia, cheia de tesão.

Na sala, de novo, o canapé. Arrepio. Bom andar nua. Bom também o namorado, ótimo quando senta no canto da cama, com o peru duro que só,  e pede vem cavalgar, vem. Aproximo-me, vamos devagar, será que vai doer?, brinco. Ele passa a mão nos meus grandes lábios, ainda estão secos, repara. Calma, dois minutos e tudo será goiabada com catupiry. Ele ri. Ri e me come. Uma vara que não esmorece. O homem me ama, sou morena, ou negra, não sei, sei que me ama.

Sozinha, no canapé, lembranças me deixam no arrepio. Não preciso me tocar, pego um livro, abro e começo a leitura. Vou nua dentro das páginas. Uma mulher é sequestrada por três homens. No começo, um apenas. Quer ser tatuado. Ela sabe marcar, e marca bem. Ele a quer na sua casa, ela recusa. Marcaram encontro num bar, ela não o conhece. No final, ele acaba convencendo-a. Ela precisa de dinheiro, ele paga o dobro. Chegam os outros dois. Violência pura. Mas o narrador dá indício de que há algo por trás. A história vai acabar mal para os três capangas.

Em cidade pequena, quando se tem namorado, dá até pra sair nua, ou apenas um paninho leve sobre o corpo. Ele para num canto escuro da estrada, me come, voluptuoso. Vou adorando a incerteza. Uma vez saí nua do carro, fiquei molhadinha, antes mesmo que me tocasse. Noutra levou, de lembrança, minha calcinha. Mas o namorado do apartamento é sério, trepa bem, como gente normal, e não vou dar ideia.

Cruzo as pernas, sobre o canapé, dentro da leitura. Por que gosto de ler nua? Deve haver uma explicação. Treze e trinta. Largo o livro, ainda sem saber o fim da tatuadora, vou à cozinha. A fome, fome nua. Comida na geladeira. Há o micro-ondas. Tudo muito fácil. Ui, a campainha. Susto. Olho no olho mágico. É a vizinha. Acho que a diarista da vizinha. Já estive com ela uma vez, fazia a faxina e me pediu um saco plástico, estava de biquíni! Agora vem vestidinha. Abro a porta. Oi, como vai. Bem. Desculpe incomodar, é que vi a luz acesa, aí nunca tem ninguém. Sorrio. Ela continua é você, a gente já conversou, tudo bem? Tudo bem, digo. Dessa vez não quero nada, só vim dar um oi. Oi. Sorrio. Não deixo que me veja nua. Mas a mulher tem bom faro. É bom esperar o namorado, preparada. Acaba a frase e dá uma grande gargalhada. Não tenho resposta. O jeito é rir junto com ela. O namorado hoje é o apartamento. Homem, só à noite, e não vou estar. Ela ri também. Sempre se dá um jeito, há muitos homens por aí, completa e se vai. Tchauzinho. Volto ao apartamento. Que mulher enxerida, e logo em Copacabana, onde as pessoas são discretas, na Bulhões de Carvalho.

Sento no sofá, o prato e o garfo nas mãos. Minha amiga trepando no terraço. As pessoas têm mais o que fazer! Meia hora depois, ainda minha amiga.  Perco, como ela, a vergonha.

sexta-feira, março 27, 2020

Fogosa

Tenho amigas que falam que sou fogosa e hábil para arranjar namorados. Muitas mulheres, aqui em M, reclamam que não há homens na cidade, que é difícil encontrar um ser do sexo masculino mesmo para conversar, não entendem como me veem sempre acompanha pelos homens. Às vezes penso ser inveja ou olho grande. Será que me desejam sozinha, reclamando como elas? Tenho facilidade para arranjar namorado, é verdade, mas isto não significa sucesso absoluto entre os homens. Há mesmo quem eu deseje mas não me dá a mínima. Tenho mais sucesso do que fracasso, não posso negar. Porém, não existem receitas para arranjar namorado. Não me venham perguntar como se comportar para ter olhos masculinos (não apenas os olhos, é lógico) sobre si.

Outro dia encontrei uma amiga dos velhos tempos. Disse estar soltinha, como eu. A comparação foi dela. Achei engraçada a palavra – soltinha. Será que consegue voar? Deve se sentir leve, aberta, e põe aberta nisso. Já arranjei dois namorados este ano, falou com ar de segredo. Uma vez, na Costa Azul, um namorado lhe desamarrou os lacinhos do biquíni. Ela, soltinha, derretendo-se de tesão. Ótimo, retruquei, assim é que se deve ser. Soltinha. Ela foi-se, uma canarinha a planar sobre cabeças masculinas.

Janete, mais uma mulher, veio ter comigo. Foi logo dizendo encontrei com aquele teu ex, que mora na Serra, ainda gosta de você. Sim, o homem gosta de mim, mas não larga aquela Serra por nada desse mundo. Eu gosto de passear aqui na cidade. Não lhe disse que o tal, além de não me acompanhar nos meus passeios, era impotente. Sobre essas coisas, a gente fica quieta.

Mas a fogosa, qualidade que as amigas me dão, não é porque tive um namorado que negava a ereção. Elas já me viram na praia, biquininho, bumbum de fora, toda serelepe. O problema delas é que escolhem muito. Não saio com qualquer homem, mas gosto de dar chance a todos.

Certa vez veio um de cabelos brancos, achei que seria idoso, também impotente. Ficou a conversar comigo, na praia. Voltou várias vezes, dias seguidos, à mesma hora. Marcamos de sair, uma noite de quinta-feira. Na hora de trepar, surpresa. Ele tinha um peru bem duro, que não vacilava. Adorei o namoro. Não disse pra ninguém, queria aquele pênis por mais tempo. Caso comentasse, logo aparecia uma para tirar proveito. Além de demorar na foda, o homem me lambuzava toda. Nem gosto de escrever desse modo, mas quanto a ele não encontro outras palavras. Passaram-se alguns meses, ele foi embora, trabalhava numa empresa de petróleo e precisavam dele em outro lugar. Foi jorrar em outra região. Ele e o petróleo.

Não demorou, apareceu outro, e mais outro. Por isso, nada de tristeza, vou logo dizendo não posso ter compromisso, também não me venha com perguntas. Saímos, tenho mesmo uma agenda. Se quisesse, poderia ganhar dinheiro, mas trepo por prazer. Às vezes um ou outro me chama pra jantar, pra passear em outra cidade, me dão um presentes. Não faço desfeita, aceito.

Lourdes, uma moradora do Aeroporto, tem as carnes ultrapassando o biquíni minúsculo que ela usa em Cavaleiros. Está sempre cheia de óleo, a pele brilhando, sorrindo para os homens, convidando-os em pensamento, e mesmo tocando neles quando começam a conversar. Qualquer coisa que dizem, cai na gargalhada. Ela revela que consegue muitos namorados, mas só conto pra você, viu, porque sei que não vai sair falando por aí. Lourdes tem as coxas grossas, os lacinhos do biquíni convidando, bumbum extravagante. Não espalha, por favor, acrescenta, quando trepo sei dar uma mordidinha gostosa, enfeitiço os homens. Outro dia apareceu um que diz conhecer o Jorge, um namorico meu, ela me falava, notei que o homem estava caidinho, não sei por quê, mas seu olhos revelavam. O que você fez?, eu, curiosa. O que eu poderia ter feito? Imagine. Ela sorriu, prendeu os cabelos, beijou-me. Tenho um compromisso pra mais tarde, completou e se foi. O tal sorrisinho.  Seu ônibus vinha contornando a pracinha. Outra fogosa. E também soltinha.

domingo, março 22, 2020

Como arranjar namorado

Tenho amigas que acham difícil arranjar namorado. Apesar de não ser jovem como muitas delas, sempre que desejo namorado, consigo. O segredo? A atitude mental. Parece besteira, ou mesmo uma brincadeira, mas ela é muito importante. Por exemplo, não me visto ou me dispo com o objetivo de conhecer um homem, ou de arranjar alguém para aquele momento. Visto-me bem porque gosto de viver. Outra dica: sempre estou alegre, sorrindo, procurando não pensar negativamente sobre os homens. Nada de pensar que eles são egoístas, que não desejam o nosso bem e só desejam tirar proveito. Isto já se torna um impedimento. Na verdade, quem tira mais proveito somos nós.

É bom estar vazia interiormente. Como fazer? Não é aconselhável se perder em pensamentos, mas estar em harmonia com o dia que segue, com o sol, com a imensidão do mar, com os animais, aliás, com toda a natureza, e também com as pessoas que nos rodeiam, sentir a vida como algo maravilhoso, uma espécie de espetáculo. Assim, estaremos abertas a tudo que surgir. A receptividade atrai coisas boas, entre elas namorados!

Certa vez fui passear na orla marítima, na minha cidade. Caminhei de um lado a outro. Sentia-me feliz, nenhuma preocupação, parecia que eu nascia ali, ou, para dizer melhor, que surgia pela primeira vez. Surpreendia-me com o que via, o mundo era uma descoberta constante, tudo sempre novo. Podem ter certeza, caso consigam essa postura, o restante será fácil, inclusive a aproximação de homens leais. Não acreditam? Claro que existem, às vezes eles se tornam difíceis de encontrar porque não conseguimos enxergá-los. O importante é nos livrarmos dos preconceitos. Em outras palavras: estar nua interiormente. Um exemplo: a roupa é uma espécie de invólucro, ela transmite nossa opinião, nossos gostos, nossa maneira de pensar e de ser. Quando se está nua, não há o que refletir senão o próprio ser original. Surgiu-me durante meu passeio à orla um homem de cinema. Mesmo que quisesse me valorizar, não pude, entreguei-me inteira.

Conto uma história. Tenho uma amiga, assanhada como ninguém, que desce todo fim de semana de Glicério para a praia. Ela faz um truque com o minúsculo biquíni, que enlouquece qualquer homem. Quando a encontro na praia, sempre acho que está pelada, embora ela afirme, altiva, que seu biquíni é muito recatado. Num dia desses, ao entardecer, ela estava deitada na cadeira de praia vestindo a tal roupinha de banho que só ela consegue enxergar quando surgiu um homem. Que maravilha!, exclamou silenciosa. Encantou-se o recém-enamorado. Aproximou-se. De início fez-se de entediada, três quartos de hora depois abriu-se. Diz que passou dias saborosos (o adjetivo é ela) ao lado dele, quentinha. Quem agir assim – isto é, andar nua por aí – é certo que sairá vencedora, haverá mesmo uma carreira de homens caminhando ao seu encontro. Mas, sabemos, que tal postura tem suas desvantagens. Minhas dicas, no entanto, são outras. Vou pela nudez interior, a outra será mera consequência.

“Eduarda, sempre vejo você com homens bonitos”, muitas chegam a exclamar. “Não quero botar olho não”, disse outra, “mas você anda com cada bonitão, conta o segredo, vai.” Do jeito que as amigas comentam, até parece que saio com todos os homens da cidade. Isso não é verdade. Mas, voltando ao tal receituário, não há segredos, basta a atitude mental.

Nos meus contos não é assim que acontece, alguém poderá observar, “você é muito levada, sempre está nua em algum lugar da cidade, sobretudo durante a noite.” Vocês têm toda razão. Mas não ajo assim para arranjar namorado, trata-se apenas do tal arrepio. E sobre isso, a gente conversa numa outra hora.

segunda-feira, março 09, 2020

Lambida

Às vezes sinto saudades dos tempos em que vivi em M, uma cidade muito divertida, que não tinha tanta gente como essa onde vivo agora e onde era possível fazer mil extravagâncias. Passeava pela orla, ia vez ou outra à praia. Como havia muita gente de fora, era um ótimo lugar para arranjar namorado. Um arrepio. Lembro os anos de faculdade. Entre os alunos e alunas, a maioria era mulher, mas eu namorava mesmo era com os professores. Verdade. Eles pediam não conta pra ninguém, não fica bem um professor sair com as alunas. Havia aulas pela manhã e à noite. À tarde, eu descansava, ia a um café próximo ao Centro, frequentava a biblioteca e a loja de uma amiga. Eu tinha, então, 21 anos. Foi quando conheci um professor, dos mais entusiasmados, dos mais ousados, me convidava para acompanhá-lo a todos os lugares. Quando o vi pela primeira vez, passei a sentar na fila da frente, usava saias ou vestidos curtinhos, pernas cruzadas, olhava em direção a um ponto neutro, nunca a ele. Não demoraram os convites. Íamos a recepções, passeios, excursões, praias e restaurantes. Impossível não ser notada ao lado daquele homem. Com o tempo, já não era problema outras pessoas saberem sobre nosso relacionamento.

Ele tinha um apartamento num bairro conhecido como Riviera. Não é preciso dizer que acabávamos quase todas as noites naquela morada ajeitadinha, a ouvir música e a beber champanhe. O homem adorava champanhe.

Num certo sábado, resolvemos visitar as cidades da região serrana. Uma amiga de lá daquelas bandas nos acompanhou. Ela conhecia tudo e ia mostrando os lugares. Tomamos banho numa cachoeira e num rio, acabei achando que ela se insinuava para o meu professor. Ria, dissimulada, tomou banho quase nua. Por aqui não tem homem, disse, só matuto, e uma porção de veados, é difícil achar namorado, quando quero um desço à praia, a Cavaleiros ou mesmo à Costa Azul.

Ficamos o dia inteiro juntos, ela a apontar serra tal, gruta tal, rio com este nome, cachoeira com aquele, eram tantos, nem lembro mais, contava casos engraçados, como os de um lugar onde as moças e os rapazes que moravam nas redondezas namoravam. Elas, principalmente, tinham um fogo enorme, diziam não querer chegar aos finalmentes, mas é lógico que não aguentavam. Ela narrava e ria. Meu namorado dizia todo local tem dessas coisas.  No final da tarde, a amiga pediu para descer a serra com a gente, ia passar o final de semana com uma amiga. Seria amiga mesmo? Sorriu, aquele sorrisinho de quem não lembra onde deixou a calcinha.

Nos finais de semana eu e o namorado passeávamos por todo o litoral. Começávamos a beber vinho branco, terminávamos o dia bebendo champanhe, às vezes uma caipirinha, ou, quem sabe, uma dose de uísque. Havia praias extensas, caso tomássemos a direção do litoral sul. Éramos apenas nós debaixo do guarda-sol, deitados na espreguiçadeira. Em determinada ocasião, cheguei a dormir mais de uma hora, o marulhar distante e o sol de fim de tarde. Cheguei a sonhar. Um namoradinho de ocasião, numa praia que não era nenhuma das que existiam nas redondezas, num momento de entusiasmo pediu para eu ficar nua. Nua numa praia! Não demorei a decidir. Tirei o biquíni e ele me abraçou, disse você esta vestida com o meu corpo, senti então seu pênis crescendo entre minhas pernas. Acordei. O vento mais forte me desarrumava os cabelos e levantava vez ou outra um chicotinho de areia. Vamos embora, pedi. Vamos mergulhar primeiro. Dentro d’água, nos divertimos muito, o professor agarrado a mim. Depois conclui, o sonho fora resultado da influência da amiga assanhada lá da Serra, vivia a me telefonar pra falar dos homens.

Na semana seguinte a encontrei no centro da cidade. Ela ia a uma loja trocar uma peça de roupa, pediu-me que a acompanhasse, queria contar um caso que, segundo ela, me dizia respeito.

Sabe o teu namorado, começou a história, com as pupilas no canto dos olhos, gosta de deixar as mulheres nuas.

Mas é tudo que nós queremos, falei-lhe ao pé do ouvido.

Mas a coisa é em outro sentido, continuou. Ele gosta de levar as mulheres nuas no carro dele, depois, sabe com é, pede para elas saltarem, namora encostado na lataria, faz que elas vibrem de tesão.

Escutei toda a louca história, na verdade queria mesmo era atrapalhar o meu namoro.

O que ele fez antes, não me importa, o que vale é que agora está comigo, e se mostra apaixonado. Sorri após a última palavra. Ainda há mais uma coisa, acrescentei, adoraria estar no lugar dessa tal, nua encostada na lataria, na beira de uma estrada, de madrugada. Vou dar a ideia a ele.

Não faça isso, você não sabe o que pode te acontecer. Vou contar a verdade. Já saí com ele, não comente, por favor.

Arregalei os olhos.

Foi por isso toda aquela insinuação no dia em que passamos na serra, agora entendo.

Desculpe, ela disse, não consegui disfarçar, o homem me deixou nua, de madrugada.

Sério?, fiz que não acreditava.

Juro, não vou mentir com essas coisas. Não vou contar agora como o conheci, é uma história complicada, uma festa e coisa e tal. Namoramos uns dois meses, numa noite ele me pediu pra eu encontrar com ele vestindo uma peça, um vestidinho fino, nada  mais. Parou à beira da rodovia, começou a me abraçar, me beijar, acabou por me tirar o vestido, depois pediu pra eu descer do carro, atravessar a estrada e esperar por ele do outro lado.

Olhou para mim com cara de safada.

E não é que aceitei?

Como é essa história?

Isso mesmo, nua na estrada, às duas da madrugada. Ele partiu, falou que voltava, levou meu vestidinho dentro do carro. E eu nua, imagine, pelada, esperando cinco, dez, quinze, vinte minutos e nada. Ele não voltava. Como não voltou. Só o vi três dias depois, passando de carro pelo centro.

Você não prestou queixa à polícia?

Não, nada de polícia, não queria escândalo.

E como você se safou?

Não me safei, tive que recorrer a alguém, que me deu uma carona e amainou as coisas. Mas em troca tive de trepar com o cara; além disso, chegar nua em casa.

Ela seguiu seu caminho. Continuei por um tempo com o professor, meu namorado, ex-namorado de minha amiga. Até que, um dia, ele me fez o tal pedido, sair apenas coberta por um vestidinho fino, como ela me contara.

Ele marcou pra hoje a tal aventura, falei assustada à amiga ao telefone. O que você acha?

Acho que vou mandar o tal homem que me resgatou naquela noite buscar você.

Você namora com ele?

Quem sabe?, mas não sou ciumenta.

Caímos ambas não apenas em armadilhas, mas numa gostosa gargalhada.


A história me fez ficar toda arrepiada.

Que saudade dos tempos em que vivi em M.