terça-feira, abril 06, 2021

Traição, um conceito, apenas

Outro dia um amigo apareceu e me convidou para tomar um café. Aliás, não era bem amigo, mas colega de trabalho. Conversei com ele várias vezes sobre um projeto, ele achou muito interessante, depois me convidou para tomarmos um café numa cafeteria próxima. Disse a ele que seria melhor convidarmos outras pessoas, irmos juntos e conversarmos sobre o próprio projeto. Ele concordou, mas a ida ao café acabou não acontecendo.

Faz uma semana, o mesmo amigo estava no metrô, voltava para casa. Encontrei-o na plataforma. Conversamos um pouquinho e embarcamos na mesma composição. Quando estávamos quase chegando à estação onde devia saltar, quase esqueci, foi ele quem me lembrou e, por fim, saltou junto comigo. O que você vai fazer aqui, perguntei. Vou andar um pouco com você, convidar você a um café, há um lugar ótimo aqui perto. Ele me convenceu a acompanhá-lo a uma cafeteria. Entramos numa que fica na Santa Clara. Que lugar bonito, eu tinha apenas passado pela rua e observado. Depois de sentarmos e fazermos nossos pedidos a uma garçonete de gravatinha borboleta, olhei meu amigo e senti uma ponta de prazer. Fazia muito tempo que eu não tinha um amigo homem, com quem pudesse conversar e trocar ideias. Ele parecia estar gostando muito da minha companhia. Depois que vieram nossos cafés e dois sanduíches, pensei jamais saí sozinha com um homem depois que me casei, acho que estou traindo meu marido.

Mudemos de parágrafo, para eu falar dele. Meu marido é uma pessoa importante, gerente de uma agência do banco do Brasil. É lógico que não é santo, conhece muita gente, inclusive muitas mulheres. Mas é a profissão dele, precisa encontrar quem compre os produtos do banco, como ele mesmo fala. Às vezes viaja, fica vários dias fora, e não sei o que ele esta fazendo. Mas, quanto a mim, não sei agir da mesma forma. Sou uma mulher fiel, jamais o traí. Sei que toda mulher acha alguns homens atraentes. Mas o que meu marido me proporciona, tenho certeza de que nenhum deles é capaz.

Meu amigo diante de mim, no café, sorria, sorria e bebia seu expresso. Falava alguma coisa, poesia e romances, sei que as pessoas dizem ah isso é literatura, não é verdade, mas o que é a verdade, ele perguntava. O que é a verdade?, e eu não tinha pensado nisso. A verdade precisa das palavras, ele continuava e ninguém melhor do que os escritores para manipulá-las, sobre tudo os ficcionistas. A ficção não tem compromisso com a verdade, por isso os romancistas se sentem bastantes confortáveis com suas histórias, já os historiadores, os memorialistas, os escritores da área do direito sentem vontade de inventar alguma coisa para acertar suas ideias, no momento em que escrevem, porque nenhuma formulação linguística é capaz de dar um sentido completo, apenas a do romancista, porque a formulação deste não tem essa intenção. Comecei a lembrar das histórias contadas por meu marido, histórias oriundas de suas viagens, muitas lacunas, etc. e tal e o que aconteceu depois? Estamos esperando resposta dos superiores, ele diz. Mas jamais ouvi o complemento. Meu amigo falava da incerteza da linguagem, de que somos seres incompletos porque a linguagem é incompleta. Nossa, vou enlouquecer, disse a ele, isso me apavora. Ele segurou minha mão, tome mais um gole de café, o café é a realidade fora da linguagem. Fiz o que me pediu. Ficamos a pensar, eu a querer voltar para a minha realidade com todas as explicações e enunciados. Mas seria possível? Toquei uma das mãos de meu amigo. Elas, tão suaves. Eu, meu marido, meu amigo, somos todos construções linguísticas, porque nos tratamos com as palavras. Impossível sair deste círculo. Talvez a saída seja quando nos tocamos. Aí, a traição pode se tornar também uma construção linguística. Aliás, pode nem ser mais traição, depende de como se conceitue o ato. Ah, meu amigo veio para me embaralhar. Agora, já não sei onde a porta que dá para a rua.

terça-feira, março 30, 2021

Não quis incomodar

Dortothy deve ter sido uma mulher apaixonante. Depois que partiu, muitos homens vêm perguntar se eu tenho alguma informação sobre ela. O que posso dizer é que se mudou para os Estados Unidos. Ela morava no mesmo prédio que eu, ou melhor, no apartamento ao lado. Sempre quando alguém vem procurá-la, como não recebe resposta (seu apartamento está vazio), chama pelo interfone o apartamento mais próximo, que é o meu. Você há de convir, a gente esta aqui neste bar conversando, a cinquenta metros de onde moro, posso afirmar que jamais a vi nestes restaurantes da vizinhança, ou mesmo que tenha trazido namorados para seu apartamento. Aliás, uma vez apenas a vi com um homem. Ela entrava no prédio, era mais de meia-noite, enquanto eu saía. Conversamos algumas vezes, o que sei é através de sua própria voz. Sempre estava sorrindo e falava que os homens viviam atrás dela: veja só, há mulheres que desejam arranjar namorado, enquanto eu tenho de despachá-los, não sei por que tantos homens atrás de mim. Tal conversa pessoal só aconteceu uma vez, nas outras conversamos banalidades, como o preço do aluguel, o que se tinha para fazer num sábado à noite, uma receita de comida espanhola, coisas do gênero. Você pode me fazer um favor?, perguntou certa vez. Claro, respondi. Você pode me dar o número do seu telefone?, você entende, não?, pode acontecer alguma coisa, sou uma mulher sozinha, é bom ter alguém como contato, ela pediu. Deixei meu número. Mas ela nunca me incomodou, nem pessoa alguma me telefonou procurando-a. Sei de mulheres que, quando saem com um homem pela primeira vez, pedem para alguém ficar de sobreaviso. Não sei se era a sua intenção, não perguntei, nem nunca ligou pedindo a mínima coisa que seja. Você sabe, muitas mulheres se aventuram com homens de vários tipos, temem cair nas mãos de um malfeitor. Também não sei o que eu poderia fazer caso me telefonasse de madrugada pedindo qualquer tipo de ajuda. Vá que seja uma roupa pra voltar pra casa, tudo bem, aí posso ir até onde a pessoa está e ajudar, mas mais do que isso, impossível. Acho que existem mulheres que se sentem mais seguras quando tem alguém com quem podem contar. Mas Dorothy jamais me telefonou. Fico impressionada com a quantidade de homens procurando por ela depois que se foi, penso no que poderia ter de excepcional. Não consigo descobrir. Tive uma amiga, faz tempo, que tinha também muitos namorados. Ela não era daqui do Rio, foi numa outra cidade onde trabalhei. Certa vez, ao sair com ela, perguntei o que tinha de mais pra ter tanta audiência. Ela riu, deu de ombros e acabou me contando que os homens a achavam gostosa. E a mulher não era bonita, nem usava roupa curta. Certa vez, alguém me contou algumas coisas sobre ela, mas não acreditei. Em cidade pequena, existe muita fofoca, e o que me contavam não era possível. Acho que tinha um jeito especial de trepar que atraía todos eles. Cheguei a insinuar por que minha amiga não escolhia um deles para ter uma vida regular. Ela riu e disse que assim perdia a graça. Agora, voltando a Dorothy, até ela ir embora, não notei nada de extravagante. No final, veio me falar vou me mudar para os Estados Unidos, conheci um americano que está apaixonado por mim. Você vai mesmo?, ainda perguntei com a entonação de dúvida, de que poderia ser alguma coisa arriscada acreditar num homem e partir tão de repente. Ela disse agora acertei, tive mais de cem namorados, sabe quando você conhece um homem e diz é esse?, então, aconteceu. No dia de partir, perguntei se queria que eu a levasse ao aeroporto. Não, obrigada, já combinei tudo com um motorista. Na despedida, pediu caso alguém me procure, diga que me mudei para os Estados Unidos, só isso. Afirmou que manteria o meu contato, que eu poderia enviar mensagens, mas que não desse o número pra ninguém, agora ela estava comprometida. Riu após suas últimas palavras, antes de me beijar. Recebi uma mensagem dela logo nos primeiros dias, quando chegou, disse estar tudo bem, às mil maravilhas. Depois, silenciou. Quanto a mim, não quis incomodar.

terça-feira, março 23, 2021

O tal vazio

Que boa a sensação! Às vezes é positivo ser pouco lida, posso contar segredos. Ontem, aconteceu algo alucinante. Eu que sempre gostei de vestir-me... Não, melhor contar no final. Estava no centro, tomava um café, sentada numa mesa digna, de cafeteria conhecida. Olhava as pessoas, tão belas, quando vislumbrei o tal homem. De início, não fiz menção de pensar bobagens, principalmente a de me entregar cega nos braços de um homem. Ele passava como as outras pessoas, eu tinha um livro à mesa, acho que ainda permeava minha mente rastros do tal romance. E era bom o livro. Mas o homem voltou. Acho que reparou a tal mulher aérea, diva à espera de sua glória. Fez que iria ao balcão, depois escolheu a mesa, quase ao meu lado, pediu enfim o café. Ouvi sua menção ao garçom. Pouco a pouco, voltou-se para mim, sorriu; depois, tentou cumplicidade através do livro sobre a mesa. Arregalou os olhos como alguém que tenta adivinhar o título. Talvez pensasse numa possível pergunta minha sobre se o tinha lido. Mas permaneci plácida, perdida em minhas questões, distante, acho que do outro lado da rua, onde passava uma mulher de vestido vermelho. O homem insistiu, tomou o café, parecia querer irmanar-se às mesmas minhas atitudes.

Tenho uma amiga que sai de primeira com os homens que conhece. Não podemos ter alguém para algo aquém do sexo?, talvez uma conversa sobre livros (na certa, haverá alguém a dizer que não há nada mais sexual do que este tipo de relação). Existem tão poucas pessoas que falam sobre livros nos dias de hoje. Não, não é possível, ela me afirmou, podemos até mesmo lembrar que elas existam, mas não acaba aí. Ri-me da lembrança.

O homem notou o sorriso, o rosto aberto, desvendou meus pensamentos. Talvez não a conversa com a amiga, mas minha necessidade de conversar sobre livros. Livros são o céu inatingível, disse em voz baixa, por mais que os leiamos jamais conseguiremos alcançar sua totalidade, mesmo escolhendo apenas um ramo do conhecimento. Inteligente ele. Tinha capacidade de levantar véus. Não precisou de muito tempo para me seduzir. Falou sobre literatura. Aliás, não gostava da palavra literatura, preferia livros. Tinha seus motivos.

Minha intenção, a princípio, era conversar no próprio café e, quem sabe, entraria na livraria em frente. A literatura tem o seu peso, concluiria eu depois. Não me bastaria o café e a conversa sobre os escritores preferidos. Não sei se ele estava sendo sincero ou se empregava diversos de seus ardis. Mas sabia de cor alguns trechos de romances, estrofes perdidas de epopeias antigas. Saímos do café; a seguir, como previsto, a livraria. Tão bonita, não? Chegou a encontrar algumas capas atraentes, pérolas de design. Fez de conta que partiria, em dado momento. Acho que me reparou a face triste. Ficaria desprovida de companhia tão interessante. Você tem compromisso, cheguei a afirmar de modo interrogativo. Talvez não, sorriu. Pronto. Depois das poucas palavras, um acordo tácito. Percorremos algumas bancadas, encontramos o livro Se houvesse sol. Bom livro, começou a discorrer, uma escritora promissora; a princípio parece lugar comum, mas pouco a pouco a história vai avançando em duas frentes: batalha pela escrita e contra a solidão; já reparou como há escritores que escrevem sobre a solidão; talvez escrever seja um meio de vencer a solidão; há neste livro uma mulher que parte em busca de um homem, verdadeiro trabalho de detetive; ela, porém, encontra o vazio; isso mesmo, o vazio produzido pela escrita; quanto mais escreve, tanto maior o vazio incontornável; não digo mais, é bom você mesma ler, concluiu.

Há momentos em que uma mulher tem o desejo de se atirar nos braços de um homem. Talvez um caminho de fuga fácil, talvez o instinto suicida, no fundo uma tentativa de equilíbrio sobre corda frágil, dois prédios altíssimos, desertora de uma família de equilibristas. Já tínhamos bebido café, o que eu poderia sugerir, além de andarmos a esmo pelo centro velho, a observar prédios de um ou dois séculos?

O homem se mostrava mais forte, não me convidaria a ir com ele. Em algum momento, parou e olhou, talvez para o mesmo vazio que encontrara no livro apontado momentos antes. Eu não podia convidá-lo, seria mulher vulgar, sobretudo após um passeio cultural. Convidei-o para mais um café, naquele momento houve uma cafeteria que pareceu abrir-se apenas para nós dois. Pedimos mais dois cafés e continuamos nossa história, preenchida por mais silêncios do que palavras. Descobri, então, o segredo. Não o que ameacei revelar lá no começo, mas o segredo de um relacionamento saudável: muitos os silêncios, poucas as palavras. E fomos assim, como dois cães que se cheiram sem nada dizer, circundam-se sem conhecer o círculo, separam-se sem pensar na saudade, sabem que se encontrarão no semelhante próximo. Estávamos condenados a fazer como estes pequenos animais. E fizemos. De quem a iniciativa? Mais uma vez nossos silêncios ajudaram.

Mas não era esse o segredo. Naquele dia, eu vestia um vestido muito curto. Quanto mais a presença dele crescia, tanto eu me sentia nua. Ele reparou. Mas, no fundo, gostei. Fiquei a pensar como conseguia conciliar literatura e alguma libertinagem. Arrependi-me, há namorados que desejam mais do que a pele por baixo das nossas saias.

O vazio colocado por ele, entretanto, era de outra natureza.

terça-feira, março 16, 2021

Bem fundo

Amor, por favor, não, você sabe que gosto dos meus textos bem escritos, revisados à exaustão, não posso escrever agora, nesta situação. Eu sei que você tem muitas fantasias, inclusive a de me ver escrevendo peladinha uma história, mas é difícil ficar sentada aqui em frente ao computador cheia de tesão, doidinha pra trepar com você, a tentar escrever uma história. Tanto mais com você nu ao meu lado, com esse pinto durinho, eu a dar beijinhos na ponta. Não, por favor, amor, vamos deitar, amanhã escrevo. Lembra aquela vez, contei a você, dois homens me pediram a mesma coisa, era uma aposta, fiquei exausta, acabei escrevendo e publicando na mesma hora, pra interesse deles. Mas foi uma exceção, eu tinha um amigo que morava na Dinamarca, ele me dava tantos presentes, e ganharia a aposta. Acabei cedendo. Tenho uma amiga que me diz Célia, relaxe e goza, os homens estão sempre a te paparicar, a te dar presentes, se eu fosse você não pensava duas vezes. Mas, para quem está do outro lado, em frente ao teclado, não é a mesma coisa. Estou tão excitada. Não, amor, sei que você já me dá mil presentes, não precisa me pagar pra escrever. Não é assim que funciona. As coisas caminham assim nas editoras. Muitas mulheres aceitam qualquer coisa pra publicar um livro. É como na TV, pra conseguir uma vaga tem o teste do sofá, e agora está armado este circo todo, com as atrizes processando os homens por abuso sexual, assédio e até estupro. Amor, compreende, vem, vamos deitar, pronto dei mais um beijinho na ponta do teu pinto, você chega estar quente, e quer me ver escrevendo. Devia me comer, imediatamente, sem perder um minuto. Você gosta de fazer tudo com calma, nada de gozar logo, sei, tanto melhor para as mulheres. Fico pensando nas namoradas que você teve, não souberam aproveitar o homem que tinham junto a si. Ah, adivinhei, elas não era escritoras, caso o fossem e escrevessem peladas às duas e trinta da madrugada estariam com você até hoje! Você só quer namorar escritoras, e vê-las escrevendo nuas, e vendo-as publicar imediatamente após terminar o texto. Mas, amor, um texto nunca está terminado, tanto mais a gente lê, mais encontra algo que não agrada, precisando ser modificado. Quando se publica um conto ou um romance, é porque é preciso sair o livro, caso permitissem a gente ficaria revisando a vida inteira, e sempre acharia ainda o que modificar. Mais um beijinho, abaixe aqui, viu, isso, quero a tua língua, bem gostosa, está quentinha também. É por que você espera pelo meu texto? Não, amor, você precisa ceder, não pode fazer isso com uma mulher, obrigá-la a algo que ela não quer, é como um estupro. Você não entende assim? Verdade. Nada disso de relaxe e goza, comigo não funciona, aliás, só funcionou uma vez, e eu não gosto de falar sobre. Não, claro que não, amor, não vou escrever sobre o que aconteceu. Acho que já até escrevi, não lembro. Talvez se procurar entre todos os meus textos, há alguma referência. Agora quero namorar. Caso escrevesse alguma coisa hoje, seria sobre vir à casa do namorado pra trepar com ele. Escreveria é ótimo ter um namorado que nos convide para ir ao seu apartamento, por isso é importante arranjar namorado que não seja comprometido. Então, no apartamento, ele me serve uma taça de vinho tinto, coloca música; sento, cruzo as pernas e fico olhando a ele. Assanhada. Mas nada de tirar a roupa logo, aguardo. Seria uma história delicada, de amor e carinho. Sem chances de ser diferente. Acho que já escrevi sobre uma vez que deitei na cama de um namorado vestida inteirinha e ele me disse você vai ficar toda amarrotada, deitei mesmo assim, depois de uns apertos e uns beijos fiquei toda amarrotada mesmo! Começamos então a rir, ele disse tenho ferro elétrico se você quiser passar, ou empresto uma roupa minha, as mulheres adoram roupas de homem. Amor, já falei demais, nada de escrever agora, vamos pra cama, já estou levantando, me abraça, adoro quando você me abraça apertado, me encosta na parede, eu nua. Isso, amor, assim, assim, vamos deitar, amor, estou ficando toda molhada, não posso mais resistir. Amanhã. logo ao acordar, escrevo a história pra você, prometo, também publico imediatamente, vou vencer minhas neuras de revisar um texto ao infinito. Agora vem, amor, isso, amor, um carinho bem gostoso, assim, é como gosto, a literatura fica pra depois. Ai, amor, ai, você sabe que gozo várias vezes, não para, não, não para, mete, mete bem fundo...

segunda-feira, março 08, 2021

Não me deixa faltar

Ele me enviou uma mensagem dizendo teu aniversário passou mas não esqueci, ainda é tempo de te dar um presente. Tal namorado (nomeio namorado porque sempre está cheio de amor por mim) só tem uma exigência, que eu vista um vestidinho de tecido fino, minha pele lisa por baixo, apenas, deixando-o cheio de tesão. Outro dia pensei não posso atender seu pedido, tenho minha personalidade, não é meu modo costumeiro de vestir. Além disso, acabo sendo objeto de admiração de todos os outros homens. Às vezes vêm atrás de mim! Mas ele me paga de duzentos a trezentos, apenas para ir com o vestidinho e lhe dar um beijinho na hora de ir embora. O envelope, tira-o do bolso do blazer, branco que só. Abro quando estou sozinha, em casa. Fico numa tremenda dúvida, vou ou não? Leio a mensagem no celular. Houve uma vez quando usei um macaquinho, as pernas morenas de fora, as costas, os ombros morenos leitosos, o homem não aguentou, pude reparar direitinho. Tenho uma amiga que não vê problema nenhum aceitar estes pedidos, diz que tem uma conta no Instagram, entra em contato com os homens, não demora a declarar que está apaixonada, passa uma semana diz que no banco sua conta vai no vermelho, alguém a assedia por causa de uma dívida, será que ele não pode lhe depositar quinhentos reais? De início, o recente namorado se assusta, mas acaba depositando se não o total, pelo menos a metade. Ela envia uma porção de fotos para ele, deitada, sentada, de pé, sempre nua. Outro dia disse vou tomar uma ducha, e logo mandou duas fotos dela nua no banho. O homem esperou com impaciência. Mas quanto a mim, tenho certo receio. Não abri conta no Instagram, me basta o Zap, o Facebook, a quantidade de homens atrás de mim é alta, mas adivinhem o que eles querem. Não posso dar pra todo mundo. Fica chato. E olha que gosto à beça de transar. Este que me gosta de vestidinho leve e fino é tão delicado, tem conversa boa, me leva pra lugares agradáveis. Pena que só trepei com ele uma vez. Não sei por que não saímos mais vezes, acho que falta de oportunidade. Não é tão bom de cama como outros homens que conheci e que conheço, mas adora minhas histórias. No dia em que trepamos, contei uma sacanagem no ouvido dele, o homem ficou logo de pau duro, pediu que eu o chupasse nos intervalos da narração, (contei uma história louca, do dia em que fui à praia em Mangaratiba com um biquíni mínimo do mínimo) acabou gozando dentro da minha boca. Não tive coragem de cuspir sua porra. Até que estava gostoso, tudo no fim me rendeu 500 reais. E o saborzinho pareceu de chocolate! Agora, foi meu aniversário, deixa de bobagem, Zilda, falo comigo mesma, tudo se resolve em quarenta minutos.  Mas dessa vez, se além do presentinho pudermos ir de novo a um hotel, quero que meta lá dentro, bem fundo. Conto a história da Juliana, biquíni de lacinhos, amarradinho no tornozelo do namorado, na praia de Muriqui, os dois dentro d'água, mas pela minha voz a protagonista sou eu e o homem este sobre a cama comigo! O namorado é mais velho que eu doze anos, mas, depois de minhas historias, não vai me deixar faltar.

segunda-feira, março 01, 2021

Pelas próprias mãos

Deitada, penso nele. Melhor assim, a imaginação tem asas, voos diversos e muitas vezes de longo curso. Meu amigo, ouço ainda sua voz, tom de afeto. Quem não vive situação semelhante? Na verdade, os homens são problemáticos. Ter relação estável com algum deles é sinônimo de alguns percalços. O principal é que tendem à infidelidade. Sei que o admirador que me sopra palavras doces não as faz voar apenas a mim. No entanto, escuto-as, finjo que acredito, solto um tantinho a corda. Quando quer marcar encontro, não sei se vou. São sedutores demais. Por mais que digamos não vou me apaixonar, ou tenho domínio sobre mim, não há garantias. Alguns deles parecem dominar os segredos de linguagem, trejeitos complicados, difíceis de perceber. Quando dou por mim, estou cativa. Ou jamais dou por mim – recurso falacioso de negar a captura. Digo que se trata de resultado do meu charme, ou de uma construção voluntária, longa, estudada. Passam-se alguns dias, ou algumas semanas, e pergunto ainda uma vez quando e como me deixei convencer: nua, agarrada a ele. Ana Maria, amiga de longa data, diz que nunca se deu conta de nada. E tantos são os homens. A maioria trepa muito bem, e é isso o que desejo. Pois é, rebato, ou seria melhor dizer replico (sua atitude). Rebato, primeiro. O problema é que me apaixono. O homem diz apaixonado, jamais encontrou uma mulher tão sensível. Sim, sensível, não resisto ao seu tato, sua mão deslizando-me sob a saia; eu, presa insensata a ficar nua pelas próprias mãos. Ana Maria diz que a calcinha deve ser retirada pelo homem. Nua a esperar pelas mãos fugidias que vão lhe fazer desaparecer a derradeira peça. Mas eu não tenho vergonha de confessar, tanta é a paixão que acabo por tirar, além do vestido, calcinha e sutiã. Mas, agora, deitada na minha cama, a coberta a roçar-me o corpo, sinto-me protegida. Longe a paixão súbita, melhor o pensamento. Mexo-me e sinto suas possíveis mãos. Ele disse que tenho alma de artista, que minha voz é suave, jamais um grito. Ah, sim, nada de gritos. Tenho uma filha pré-adolescente, às vezes dou uns gritos a ela. Não sei se é esse tipo de grito a que ele se refere. Como ainda não transamos, acho que não pode ser o grito de orgasmo. Mas, caso ele o espere, não o terá. Não grito na hora agá, ou, explicado: no momento do gozo. Faz alguns anos tive um namoradinho, ele me pedia para gritar. Faça de conta que está num palco. Mas não sou atriz, rebatia eu. Não faz mal, faça de conta. Dei, então, um grito intenso. Assustei a vizinhança. Eu havia saído do banho, o corpo fresco, as mãos do jovem a me acariciar, horas antes estivéramos na praia, nossos corpos traziam ainda o calor do dia de verão, do sol imperial. A vizinha veio bater à porta. Não, não foi aqui, não, retruquei, a porta entreaberta, ela a observar meus ombros. Você está nua, minha filha, vai pegar uma pneumonia. Voltei ao namoradinho. Ele ria e ria, não precisava um grito de tal envergadura. O tal era aprendiz de escritor. A tal envergadura. Vai ver lançou livro e vou, sem saber, como personagem. Tomara que não me tenha largado nua na mão de seus leitores. Deitada ainda, agora de manhãzinha, friozinho, a coberta, edredom fofo, ainda a lembrança do admirador. O tom de voz precisa ser baixo; o namoro, verbal. Do verbo fez-se a vida, lembro. Portanto, o verbo é perigoso, muito perigoso, capaz de gerar mundos. Um mundo meu corpo, maiô inteiriço, cavado atrás. O namorado goza ao me ver de costas, na praia. Assim, arrefece. Não se apresse, dispo-me pelas minhas mãos.

segunda-feira, fevereiro 22, 2021

Fico nua pra você, pronto

 Uma amiga veio conversar comigo.

 – Lena, como você tem sorte, não estou colocando olho grande, não, mas você sempre está com namorado. – Ela estava segurando um pacote, algo que tinha comprado numa loja do centro, passa sempre pela minha casa, é seu caminho. Eu estava saindo, ela aproveitou para me segurar um pouco.

– Posso te perguntar mais uma coisa, você não fica aborrecida? – insistiu.

– Claro, pergunte.

Passou um carro, o motorista diminuiu a velocidade, buzinou e me deu um adeusinho.

– Então – continuou, – você já namorou tanta gente aqui na cidade, e permanece amiga dos homens, não tem nenhuma vergonha.

– O que você quer me perguntar mesmo? – alertei.

– É isso. Você não tem vergonha quando encontra os homens com quem você já saiu, já namorou?

– Não. Por que teria vergonha?

– Não sei, mas eles já viram você nua, já transaram com você.

– Eu também já os vi nus, já transei com eles!

Ela arregalou os olhos

– Mas para uma mulher, é diferente.

–Você acha? – demonstrei curiosidade.

– Acho, não consigo, juro, morro de vergonha quando encontro um ex-namorado.

Ela falou mais algumas bagatelas e se foi. Carregava com cuidado o pacote, acho que um presente.

No dia seguinte, encontrei ao acaso Edivaldo, no calçadão. Ele me beijou e foi logo falando:

– Mulher mesmo é você, tenho saudades do tempo em que fomos namorados.

– Verdade?, mas foi você que terminou. Tem tesão por garotas, eu já sou velha pra você.

– É verdade, escute só essa história.

Começou a contar sobre sua nova namorada de vinte e um anos. Ele tem cinquenta.

– A garota me pede tudo. Cem, duzentos, quinhentos reais. Acho que já deixei uns três mil na mão dela. Um mês de namoro.

Dei uma grande gargalhada.

– Mulher jovem é assim mesmo, é preciso pagar.

– O problema não é tanto esse, é lógico que despesa demais me atrapalha, o caso é que ainda não consegui trepar com ela – falava baixo, olhou ao redor para ver se alguém nos escutava.

– Jura?

– Por que iria mentir? A gente sai, passeia, vai a todos os locais, na hora de trepar, ela inventa uma desculpa.

– Vai ver é virgem.

– Sabe que já pensei nisso? – ele me olhou com certa convicção. – Não se pergunta essas coisas a uma mulher, não é mesmo?

– Depende, caso se pague tanto, você tem direito de fazer algumas perguntas. – Ri, ele também.

– Outro dia aconteceu uma coisa estranha. Falei com ela que assim não era possível, ficar nessa história, como dois adolescentes. Começou então a chorar. Ela anda sempre com roupas curtíssimas, até perguntou se eu não me incomodo. Não, claro que não, respondi. Ela vestia uma minissaia e camiseta. Chorou e chorou. Enfim, disse, você quer mesmo é me ver nua. A gente estava no carro, voltávamos de Búzios, tínhamos passado o dia na cidade. Tirou então a saia e ficou de calcinha, no banco do carona. Pare o carro, por favor, pediu. Parei. Ela acabou de tirar a roupa, lançou todas as peças no banco de trás. Fico nua pra você, pronto, dirija agora, me leve nua pra nossa cidade. Mas te peço um favor, não quero transar hoje. Chegou-se pertinho de mim, pegou uma das minhas mãos e colocou sobre sua perna, aproximou o rosto e me beijou na boca. Vai dirige, pediu.

– Tenha um pouco de paciência, quem sabe ela esteja com receio, de repente ainda não despertou para o sexo, você sabe, as mulheres demoram.

– Ah, sim, isto é certo. Mas quando aprendem, há algumas que dão pra todo mundo – disse olhando pra mim.

– Todo mundo?, ah, quem dera, há aqueles que me acham velha, não consigo dar pra todo mundo.

– Não, desculpe, não foi isso que eu quis dizer.

– Não foi, mas disse. Vá procurar sua namorada, ensine a ela alguma coisa boa, ela vai cair como uma manga madura nas tuas mãos.

– Você acha? – perguntou animado.

– Não sei, acabei de dizer isso, mas, na verdade, acho que ela quer o teu dinheiro, vai aproveitar enquanto pode. Convide a mulher para uma viagem, uma viagem de avião, um lugar bem longe. Quem sabe você assim consegue.

– Sabe – olhou e aproximou o rosto para se despedir, tentando me beijar, – foi bom conversar com você. Vou pensar nisso. E, olha, se precisar de mim pra alguma coisa, é só telefonar, como aquela vez. Lembra? Às três da madrugada, no Hotel Prata, fui buscar você, mas até hoje não me disse o que aconteceu. 

– Ah, deixa isso pra lá, você adora essa conversa, obrigada mais uma vez.

Ele partiu, feliz em dobro, com a namorada por sabê-la fresca e jovem; comigo, porque lhe dou tanta atenção.

segunda-feira, fevereiro 15, 2021

Me agacho e fico escondidinha

Tenho um namorado que me conta histórias no momento do amor. Muitas mulheres já viveram experiências semelhantes e muitas ficariam envergonhadas caso escrevessem o que ouviram. Como tais histórias sempre mexem comigo, despertam-me sensações que não viveria sem elas, acho importante narrá-las.

Certa vez, no trabalho, tive uma amiga que dizia que contava sacanagem no ouvido do namorado no momento do sexo. Por isso, não havia homem capaz de deixá-la. Caso quisesse, poderia ainda estar com todos os homens que conheceu, tal era o poder que suas histórias exerciam sobre eles. “Minhas histórias são uma varinha de condão, deixo todos enfeitiçados, sem elas não tenho poder algum. O pior que me poderia acontecer seria não mais poder contá-las.”

Uma das histórias que meu namorado contou tinha a ver com uma bolsa de butique, na qual sempre me traz presentes. Como sabe o ponto fraco das mulheres, está sempre no shopping a me comprar roupas e outros objetos. Eu estava vendo um programa de TV, olhe que vestido lindo. Na semana seguinte, lá veio ele com o vestido dentro da bolsa. Olhe que chapéu delicioso. Dois dias depois, o chapéu sobre minha cabeça. Olhe o foulard, maravilhoso. Não demorou três horas eu o recebi.

Acho que essa bolsa é encantada, disse eu, tem sempre coisa bonita dentro. O que a tornou assim tão plena de magia?

Ele vem, então, me beijar. Beijo demorado; eu, segurando a bolsa.

Vou te fazer uma surpresa, disse a ele. Você me dá tantos presentes, me conta tantas histórias estimulantes, logo merece uma surpresa bem excitante.

Chegou o dia da minha façanha. Agarrei o homem e comecei a beijá-lo, a apertá-lo. Tirei a roupa, me atirei nua no colo dele. Meu corpo quente eu esfregava no dele. Tirou a roupa e deitamos. No meio da quentura do amor, falei você não quer me levar pelada pra passear? Pelada?, a tal surpresa.

Ele, que me dá tantos presentes, ia me levar nua por aí. Acho que chegou a refletir se era uma atitude sensata.

Amor, vou nua, mas levo a roupa na bolsa de butique.

Façamos melhor, ele estava eufórico. Você vai nua, eu trago a bolsa com roupas novas.

Namoramos com mais entusiasmo. Deixei que gozasse dentro de mim, tão excitada eu estava.

Chegou o dia de passear nua. Saí da casa para o quintal e dali para a garagem. Corri à direção do carro. Estava como vim ao mundo, só que vinte e três anos depois. Depois de me abrir a porta do passageiro, deu a volta e entrou. Não vi a bolsa em suas mãos, mas nada perguntei.

Dirigiu à orla marítima de M. Deu várias voltas. Vamos saltar, falou quando chegamos ao final da praia. Como estava escuro, descemos até perto da beira d’água. Sua estatura maior cobria minha nudez. Ficamos agarrados um ao outro por vários minutos.

"Amor, pegue a bolsa, pode aparecer alguém, nesse lugar sempre aparece algum desavisado."

"Bolsa, que bolsa?"

"A de butique, com minhas roupas novas dentro."

"Amor, ainda preciso comprá-las", falou achando que era a proposta da tal aventura.

Confesso que depois de suas últimas palavras, fiquei molhadinha.

"Amor, toca aqui, sente o que aconteceu."

Ele não resiste. Lógico que não tira a roupa, mas põe o pênis para fora e, ali mesmo, me penetra.

"Mete, amor, mete bem, depois que acabarmos vamos ao shopping, não tem problema, me agacho e fico escondidinha dentro do carro", falo enquanto ele me come.

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

Por isso não se arrependem

Não adiantou, não tive escapatória, tive de dar pra ele. Não que se tratasse de estupro. Longe disso. A responsável por tudo fui eu. Dei muita confiança, aceitei vários presentes. Quando chegou a hora agá, não havia mais saída. Uma amiga diz que sempre há como sair de um relacionamento indesejado. Mas não é tão fácil. E o relacionamento com ele não é indesejado, mas agradável, bom, ou muito bom. O que eu queria é que as coisas acontecessem de outro modo. Toda mulher gosta de dirigir o relacionamento. Pensei que tudo ia sob o meu comando. Quando dei conta da situação, estava sendo conduzida. Foi isso o que mais me aborreceu. Certa vez uma amiga contou que chorou muito após transar com um homem. Na época não entendi, mas agora sei o que ela passou. O tal homem a convidava para restaurantes, passeios pela cidade, presenteou-a com pulseiras e cordões. Ela aceitava. Sorria e agradecia. Pensou que ia ficar só nisso. Um dia ele insistiu no convite para um passeio de barco. O homem tinha um iate ancorado na Marina da Glória. Ela aceitou. Uma tarde linda, sol de outono. Saíram os dois às três da tarde a navegar pelas cercanias do litoral carioca. No meio do passeio, ele serviu doses de uísque com castanha do caju. Ela disse não costumo beber uísque, mas hoje abro uma exceção. Acabou não abrindo apenas a exceção. Quando tudo terminou e me vi nua no camarote, às seis da tarde de uma quarta-feira, morri de arrependimento, sou casada, você sabe, tenho filhos ainda adolescentes, completou. Tratando-se do meu caso não foi muito diferente. Quando o homem me tirou a calcinha, senti a mesma coisa, mas disse a mim mesma quero aproveitar a vida. Ele não era o meu tipo, muito mais velho, veste roupas antiquadas, mas também me presenteia. Toda mulher gosta de ganhar presentes. Toda mulher gosta de atenção, de saber que ainda seduz. Fui com ele. Um restaurante à luz de velas, um jantar requintado, uma garrafa de vinho, outra de espumante. Quando saímos pelas ruas do centro, ele de braço comigo, estava soltinha. Reparei então que ia nua. Isso mesmo, nua. Porque é assim que a gente se sente ao ver vencidas todas as resistências. As mulheres são assim, disse a mim mesma numa tentativa de comunhão com o resto da humanidade, principalmente com as mulheres. Um modo de me confortar. Deixei-me ser conduzida por ruelas do centro. Entramos por aqui, por ali e ele falou vamos subir aqui um instantinho, é um escritório de um amigo. Tomamos o elevador. Corredor comprido, sem uma viva alma. Ele tinha a chave. Abriu a porta. Havia um sofazinho, uma estante com livros, um mesa, duas ou três cadeiras, dois quadros na parede em frente. Acionou um pequeno aparelho e começou a tocar um tango argentino. Isso mesmo, era o que faltava. Ele me abraçou. E eu me desmanchei nos braços dele. O que há de mais nisso?, você pergunta. Não sei. Talvez não haja nada de mais. Mas me arrependi depois. Não me relaciono com homens faz tempo. Não tinha necessidades sexuais. Mas ele até me fez gozar. Isso foi o principal. Ao invés de me sentir feliz, me vi como uma prostituta. É porque gosto de pureza. Me sentia pura, uma mulher em paz com o mundo. Mas veio esse homem, que me pôs em conflito. Agora não sei mais o que faço. Tenho vontade de sair mais vezes com ele, trepar com ele, mas ao mesmo tempo me sinto imunda. Talvez seja a religião. Minha família foi sempre muito religiosa. Você dirá mas você não é casada, nem tem filhos, mora sozinha, o que há de mal ter um namorado, que seja uma amante? Não sei. O que sinto é um conflito terrível. E ao mesmo tempo morro de vontade de trepar com o homem. Quando bebo então nem se fala. Me entrego totalmente. Mas, depois, ao me dar conta que tudo passou, me sinto mal, uma espécie de nojo de mim mesma. Tomo banho, me esfrego intensamente, mas a sujeira não sai. O quê? Você também acha que não é sujeira? Você acha que o importante é termos bom coração? Pode ser. Mas ainda não acostumei a pensar assim. E ainda tem mais uma coisa. Na hora da transa nem me lembro de perguntar se ele trouxe camisinha. Trepamos três vezes, todas elas pele com pele. Sabe, acho que só vou me sentir bem no dia em que eu me casar. Então não vou mais me arrepender. Mas não gosto deste homem a ponto de querer casar! Você diz que casamento estraga a relação, que o bom é ficar desse jeito? Ah, é o que todo mundo fala, mas não quero pensar assim. Acho que esse é o jeito de viver das prostitutas. O que, as prostitutas não gozam? Deve ser por isso então que não se arrependem...

segunda-feira, fevereiro 01, 2021

Outras necessidades

Você ainda dá pra todo mundo?, ele me perguntou, não sei se achou que eu ia ficar aborrecida; sorri, dou, você sabe que adoro trepar. Lembro daqueles tempos, quando você conhecia alguém ia logo se aproximando, deixava os homens maluquinhos, trepava no mesmo dia que os conhecia. Ainda trepo, caso isso aconteça, o problema é o homem adivinhar que é possível, porque não vou sair convidando, ele vai pensar que sou piranha. Veio à minha cabeça uma história que você contou, na época pensei que fosse uma invenção sua. Que história? Aquela em que você estava esperando o ônibus, o homem parou o carro e te chamou, ofereceu carona, te levou, parou na pracinha do Alto e você trepou com ele, dentro do carro, que tinha vidros escuros. Hum, deixa ver se lembro, acho que já fiz isso mais de uma vez, ah, sim, eu estava de bermudinha, a minha única exigência foi que transássemos de camisinha, ele tinha camisinha, sim, mas você não imagina quantas vezes já saí com homens depois de uma carona, já trepei também voltando de festas, de chopes, de cinema, prefiro que me levem pra um hotel, não gosto de namorar dentro de carro, mas, em último caso, é a solução. Nunca aconteceu nada, com você?, não é perigoso? É perigoso, sim, mas eu não ligo, acabo convivendo com o perigo, teve uma vez que trepei nua, fora do carro, achei que o homem fosse embora me deixando pelada, foi na época em que a orla do recreio era mais deserta, não tinha tantos prédios, agora não dá mais, uma vez conheci um homem na praia e deixei que ele tirasse meu biquíni, fizemos amor dentro d'água, mas confesso que não é muito agradável, bom mesmo é conhecer um homem na praia mas que tenha apartamento próximo, a gente acaba indo pra lá no fim do dia e faz um amor muito gostoso. E como você faz pra voltar pra casa de biquíni, já tendo ficado de noite? Isso não é problema, levo uma minissaia na bolsa, uma vez voltei de biquíni mesmo, nem liguei; já que você falou de perigos, houve um que pediu pra me amarrar, eu deixei, e foi gostoso, ele não só me amarrou, mas colocou um esparadrapo cobrindo minha  boca, jamais gozei tanto, no auge da trepada ele disse que ia me deixar amarrada enquanto desceria pra comprar cigarros, eu só conseguia falar hum, hum, e o homem se vestindo, eu hum, hum, mas ele acabou não indo, ainda bem que eu fumava e tinha cigarros pra dar a ele, gozei muito, a loucura incentivou. Você, então, já passou por tudo. Tudo, não, ninguém nunca me bateu, nem me machucou, nem me largou nua por aí, e mais uma coisa, a camisinha; tenho uma amiga que diz pode faltar a calcinha, mas não a camisinha. Ah, sei, mas como o homem precisa fazer pra trepar com você, como ele precisa falar? Ah, cada um tem seu jeito, uns falam, outros vem abraçando, outros querem logo tirar minha roupa. eu digo calma, deixa que eu me dispo; tenho muito cuidado com o que visto, porque não tenho tanto dinheiro pra ficar comprando roupas novas. Hum, entendi, e se o homem te perguntar, direto você trepa comigo?, o que você reponde? Não sei, na hora eu vejo, mas na maioria das vezes eu rio, e abraço o homem, já sei o que eles querem, não acontece como agora, entre mim e você, porque sei que você é meu amigo, não está aqui com a intenção de trepar. Não tenha tanta certeza, quem sabe. Você quer transar?, sério?, não acredito, e olha que já não trepo faz mais de um mês; mas somos amigos, não vamos estragar nossa amizade, uma trepada não vale mais do que uma amizade verdadeira. Isso, você tem razão. É verdade, a amizade é mais difícil de se manter, nunca consegui ficar amiga de homem nenhum com quem trepei, e veja, já trepei com mais de duzentos, trezentos, sei lá; quanto a você, somos amigos faz duas décadas, não é mesmo?, jamais trepamos, e sempre nos procuramos pra outras necessidades.

segunda-feira, janeiro 25, 2021

Troféu

A gente lembra das pessoas e sente saudades. Esses tempos de quarentena aproveitei para arrumar algumas coisas e encontrei as fotos. Éramos cinco. Eles e eu. Quero dizer, quatro homens e uma mulher. A casa, em Búzios. Isso mesmo, eles tinham uma bela casa, nos fundos uma quadra de vôlei. Adoravam jogar. Formamos um time misto, quatro homens e uma mulher, faltava sempre um, ou uma. Não importa, diziam, a gente arranja alguém para completar. E sempre ganhávamos. Mesmo que o sexto não jogasse bem, ocupávamos os espaços dele. Jogávamos nas areias da praia, nos fundos de casa, no clube local. Todas as vezes que estávamos na cidade, vinham nos convidar. Vôlei e mais vôlei. No final da tarde, eu mergulhava, exausta. A água do mar me revigorava. Saíamos à noite, sempre juntos, sempre os cinco.

Preciso um parágrafo à parte para as noites. Imaginem uma casa com quatro homens e apenas eu de mulher. Uma mulher quente, como sempre sou. Dormia na sala. Estendia um colchão, cobria com um lençol e deitava nua dentro de uma camiseta. Eles me conheciam. Não demorava, no escuro da madrugada, sentia um deles encostado a mim. Eu, de costas, curvada; ele, a contornar minhas curvas, a completar meus vazios. No dia seguinte, amanhecia sozinha, toda preguiça, eles corriam nas areias da praia. Não preciso de tanto exercício, murmurava, sou levantadora. Na noite seguinte, alguém de novo às minhas costas, e eu sempre nua, mulher de todos. Nunca nada comentamos.

 

A foto: um time de vôlei, quatro homens e uma mulher. Na hora da foto, o que completava não aparecia. Éramos uma equipe ímpar.


Certa vez me virei de frente. Vou descobrir meu namorado de hoje. Mas eles eram hábeis, conseguiam esconder a face. E eu, na verdade, não me esforçava para saber quem era. Amava todos e não desejava estragar a relação. Minhas mãos e minha boceta conheciam todos os perus. Sabia eu também seus movimentos. Mas como saber de quem era durante o dia se todos iam de calções, shorts, bermudas? E não se mexiam sob a luz do sol como na hora do sexo.

Passamos o verão inteiro vencendo todas as partidas. Completávamos noites e madrugadas também vencendo no amor, sobre o colchão. Uma das vezes, na praia, mergulhamos os cinco, abracei e beije a todos, estava tão feliz. E eles me carregaram nua, como se tivessem conseguido uma sereia. Ou, quem sabe, o troféu de todo o campeonato.

segunda-feira, dezembro 21, 2020

Prostitutos

Estava na praia, acho que era uma sexta ou sábado, mês de abril. O mar ia calmo, poucas pessoas, o sol morno. Foi então que vi uma menina, digamos assim. Não era criança, mas alguém de seus vinte anos. Era bonita, magra, porém tinha bundinha, o biquíni curtinho, todo entrado atrás. Sou vinte anos ou vinte e poucos anos mais velha do que ela, tenho meu charme, mas depois de tanto tempo não dá pra manter um corpinho assim. Uso também o biquíni curtinho, a bunda de fora, embora a dela esteja mais exposta. Fiquei a olhá-la caminhar pela beira d’agua e pensei na dificuldade para alguém de quarenta ou cinquenta anos arranjar um namorando, não apenas aqui nesta cidade, mas em todo lugar. A moça logo vai estar nos braços de alguém. Não errei. Passaram-se dez ou quinze minutos, lá vinha ela com um rapagão. Ele, alto, magro também, desajeitado, como todo jovem, porém bonito, esbanjando a seiva dos vinte anos.

Uma amiga disse um dia desses: aqui, em M, é difícil arranjar um homem, e quando a gente consegue, ele quer mandar na gente, repare, faz alguns meses arranjei alguém, comecei a conversar, dias depois foi lá em casa, ficamos juntos, acabou rolando alguma coisa, descobri sobre a vida dele, embora não me interessasse; só não quero confusão, ok?, falei, você pode vir aqui vez ou outra, ficar comigo; não demorou o homem queria saber aonde eu ia, que horas eu saía, que roupa eu vestia; assim não dá, transbordei, você tem a vida toda enrolada, fica comigo duas horas por semana, nem sei o que faz por aí, e quer se meter na minha vida?, acabei por terminar; seria bom arranjar macho apenas pra trepar, nada de gente no meu pé; mas eles desenvolvem um sentimento pernicioso de posse. E essa minha amiga faz a vontade de todos os namorados, realiza a fantasia de cada um deles. Até já saiu nua no banco do carona. Olha que pérola o tal perdeu.

Voltando à praia, meia hora depois chegou um homem, que já conheço e vive de olho em mim, queria conversar. Mas sei da mulher dele, não quero confusão. Diz que moram juntos, porém não têm mais relação sexual. Não acredito em histórias da carochinha. Ele se pôs a falar sobre um amigo que viajou aos Estados Unidos, o que o amigo fez, por onde passeou, a namorada que arranjou, contou que a mulher nem deixava o homem falar, era só a vontade dela, e ele aceitou. Virei-me de frente (estava de costas, sobre a canga), disse que queria beber um refrigerante. Correu para comprá-lo. Essa é uma coisa boa entre os homens, pagam na esperança de me ter na cama.

Voltou depois de alguns minutos, trouxe um guaraná para mim e um copo de caipirinha para ele. Quero a caipirinha, cheguei a falar. Você gosta?, ofereceu. Bebi um gole, ele ficou com o guaraná. Seus olhos, de modo disfarçado, procuravam minhas coxas. Não há nada de mais transar com ele, mas sempre alguém acaba sabendo e as fofocas circulam rapidamente na cidade. Ainda ficou perto de mim durante vinte minutos; pediu licença, disse que tinha de ir, prometeu telefonar qualquer hora dessas, vamos a um restaurante, comer e beber do melhor, sugeriu.

Outras pessoas já se aglomeravam na faixa de areia e a praia já não tinha o charme de que gosto, vazia, inteirinha pra mim. Mas o que há de se fazer? Em torno de onze e meia apareceu um jovem que eu jamais vira na região. Pediu-me um cigarro. Mas você, de uma aparência tão rica, pedindo cigarro a uma mulher, falei e ri. Disse que não conseguia comprar cigarros em lugar algum, que já andara a praia toda. Apontei a ele a barraca, na ponta, perto do entroncamento com Cavaleiros, onde se vendia cigarros, e não só desses que você está me pedindo. O homem sorriu. Vou até lá. Queria que ficasse, arrependi-me da sugestão dada, o homem partiria, quem sabe seria uma boa conversa, ou mesmo algo a mais. Não demorou, voltava ele, com uma carteira de cigarros inteirinha pra mim, a marca que fumo. Não, por favor, cheguei a dizer, mas ele não me deixou recusar. Sentou, então, ao meu lado.

Não sei por que estou sempre a me lembrar de minhas amigas atuais e das que já se mudaram e que não vejo faz tempo. Veio-me à cabeça a Deia. Diz que é perigoso falar com desconhecidos. Pode até conversar, mas não sai com eles logo. Engraçado, ela ainda me contou que adora tirar o biquíni quando entra n’água. Procura um lugar pouco frequentado, despe-se e faz a calcinha de pulseira, diz que sente enorme tesão nisso. Sei lá, cada maluca com sua mania. Acho muito melhor ter um homem pra me abraçar, pra tirar o meu biquíni. Não dentro d’água, é claro, mas numa boa cama. É bom criar expectativa, provocar arrepio, fazer o homem sonhar que tem a gente nua nos seus braços, um incentivo para a conquista. E o que eles fazem pra conseguir nos comer! Não posso pensar muito nisso, chego a ficar molhada.

O homem jovem disse o mar aqui é muito bonito, é a primeira vez que venho. Não quis interrompê-lo, nem nada falar sobre mim, deixei-o divagar sobre a natureza. Depois de ficar alguns segundos em silêncio, levantei-me e fiz menção de que daria um mergulho. Estava calor, precisava me molhar. Foi atrás de mim. Entramos n’água, molhei a cabeça, depois mergulhei e nadei vinte ou trinta metros, distante da beira d’água. Ele me acompanhou, ficamos flutuando e sorrindo um ao outro. O que se pode pensar em tal situação? É lógico que não iria agarrá-lo, nem pedir que me abraçasse. Caso ele viesse, será que eu permitiria? O tesão é grande, mas a vulgaridade nos rebaixa. Não me tocou. A temperatura baixa da água nos atiçava. Nadamos mais um pouco, ouvimos o suave marulhar, o vento a perder-se sobre nossas cabeças, a sensibilidade do corpo ao mar. Senti vontade de lamber os braços, fazia isso quando criança, o gosto de sal me incentivava. Mas só foram pensamentos. Pouco a pouco fomos voltando à beira, enfiei mais uma vez a cabeça dentro d’água, a água a me escorrer os cabelos. Voltamos ao ponto de partida, à canga onde eu me sentei.

Certa vez disse eu a Wanda, vou pagar pra um homem me comer, não é possível viver assim. Ela riu, não acreditou. Quando foi embora (estávamos na minha casa e tomávamos um chá), comecei a procurar se havia sites de prostitutos. Há muitos deles, mas não aqui na cidade. Todos são no Rio, ou em São Paulo. Transar com um prostituto deve ser bom, porque trepo, gozo, pago e o homem vai embora, não se mete na minha vida. Se morasse na capital, faria isso, ninguém no meu pé.

Quanto tempo você vai ficar aqui em M?, perguntei, ele sentando diretamente na areia, ao meu lado. Vou pra arraial à tarde, falou. Arraial?, perguntei. Lá é ótimo, não quer ir também?, sugeriu. É, até que seria bom, sussurrei; você bebe algo?, elevei a voz. Ele levantou e foi até o quiosque comprar duas caipirinhas. A minha pede de vodca, por favor, soprei na direção, minhas palavras levadas pelo vento.

Todos sabem o efeito das bebidas alcoólicas. Embora não seja muito de beber, na praia acabo cometendo alguma extravagância. A bebida me deixa solta, falo coisas que não falaria num estado de total sobriedade. Minhas amigas não bebem, muitas dizem que o álcool faz mal à saúde. Também acho, mas uma bebida vez ou outra não vai matar. O limão com aquela ponta de vodca, o sol e o mar me provocam mais que arrepios. Não posso nem me mexer muito, para não dar na pinta. Meu amigo voltou com os dois copos, segurei o meu e experimentei o primeiro gole. Ele não era de falar muito, um cara de espírito contemplativo, refleti. Falei sobre a cidade, onde ele estava pela primeira vez, o que havia para fazer, tanto durante o dia como à noite, as praias, os pontos turísticos e alguns problemas locais, sobre estes falei pouco, não queria estragar a beleza do dia. Conheço uma porção de gente aqui, M tem duzentos e pouco mil habitantes, mas quem nasceu aqui ou mora na cidade há muito tempo conhece muita gente, às vezes é impossível ficar sozinha, sempre aparece alguém conhecido, e não se tem privacidade. Eu falava e falava. Parei para acender um cigarro. Perguntou se podia acender seu cigarro, mas não era um cigarro comum, comprei no mesmo lugar do maço de cigarros que trouxe para você, explicou. Lógico, pode acender, sim, e deixa eu dar uns tragos. Fumamos os dois, eu alternava uma tragada do meu cigarro outra no dele. Divertimo-nos no troca-troca, ele também fumou do meu cigarro.

Bebemos, pouco a pouco, as caipirinhas. É lógico que me tornei ainda mais excitada; ele, apesar de sua beatitude original, tornou-se também. Soube que vinha de um subúrbio do Rio, mudara-se para Niterói e se formara na universidade local. Não falou sua especialidade, também não perguntei. Disse que tinha um jipe, mas antigo, apontou na direção da orla, mostrando onde o deixara ao chegar pela manhã.

Após uma hora ou pouco mais, entramos n’água mais uma vez. A temperatura baixa das águas do mar provocava arrepios, mas refrescava o calor do sol das treze horas. Mergulhei e nadei durante alguns minutos. Meus cabelos compridos molhados escorriam às minhas costas, não sei por que senti naquele momento uma imensa alegria, talvez fosse o resultado de vários fatores, como o dia bonito, o homem jovem e sonhador a minha frente, a caipirinha e tudo que poderia vir pela frente. Ele aproximou-se de mim, esticou os braços e me enlaçou, mantendo suas mãos cruzadas atrás das minhas costas. Aproximei-me do seu tórax e o abracei. Ficamos ali, durante um tempo que, no momento parecia extenso; lembrando, porém, tempos depois, parecia passado num piscar de olhos.

Quando saímos d’água, estava convencida que iria com ele a Arraial. Deitamos ainda sob o sol durante um longo tempo. Aproveitei para escutar o som da natureza. O marulhar das ondas era o mais presente, depois vinha o vento, sempre contínuo, incansável, ruídos da presença humana, como a voz de alguém ao longe, ou o marchar do motor de algum carro mais barulhento que passava na pequena rua junto à orla marítima. Quando íamos lá pelas duas horas senti um pouco de fome. Em situações normais, eu voltaria para casa, mas com meu novo amigo deitado ao meu lado, de olhos bem fechados, como se visitasse outros planos naquele momento não tive coragem de partir. Poderia mesmo me levantar e me retirar, silenciosa, ele não notaria. Desci sozinha à beira e entrei no mar novamente. Havia mais pessoas naquele momento, mas a distância entre elas e eu era grande. Aproveitei para me refrescar bastante. Apesar da meia estação, o calor estava forte. O banho de mar me excitou ainda mais, senti uma vontade incrível de trepar. Enfiei a mão por dentro do biquíni para procurar meu clitóris, mas o biquíni era curto e tão apertado que resolvi baixá-lo até os joelhos. A água do mar a invadir de forma mais direta o local que momentos antes era coberto pelo tecido aumentou-me o desejo. Toquei, enfim, o clitóris, pressionei-o, friccionei-o. Quem sabe, chegando ao orgasmo perderia o desejo de acompanhar o homem a Arraial. Quando avançava na masturbação, a ponto de sentir meu coração se agitar, percebi alguém atrás de mim. Era meu amigo. Você mergulhou sem me chamar, disse. Ele pareceu não notar que eu me masturbava. Disfarcei. Você parecia dormir profundamente, respondi. Dormia mesmo, mas a tua falta me despertou. Ele veio me abraçar; eu, com o biquíni acima dos joelhos!

O jipe dele era bonito, tinha alguns adesivos. E ventava terrivelmente. Olha, alertei, você está me levando para Arraial, mas repare bem, estou nua, não tenho, nada a vestir além do biquíni e dessa canga semitransparente, é preciso que me traga de volta, está bem? Claro que trago você, ele disse, quando quiser basta pedir, arraial é a quarenta e cinco minutos de M.

Quando chegamos, estava morrendo de fome. Almoçamos numa cabana rústica, junto à praia. Não sei se foi por causa da fome, mas achei a comida deliciosa, tinha mesmo arroz e feijão, comida que quase não faço em casa. Comemos também filé de peixe, batatas cozidas e uma salada de alface. Bebemos uma cerveja, das grandes, depois descemos à praia. Andamos um pouco pela beira d’água, o sol ia mais suave. Houve um momento em que ele apontou um grupo de casas após uma pequena envergadura do mar, disse que estava hospedado ali. Estou mesmo é precisando tomar um banho de água doce e deitar um pouco, cheguei a dizer. Vamos, então, sugeriu, você vai poder descansar bastante. Andamos ainda na areia por dez ou quinze minutos, quando atravessamos a pista estreita e rumamos para o local das casas.

Não preciso dizer que fiquei pelada dentro da casa dele. Não tinha o que vestir. Saí enrolada na toalha, fui até a uma pequena área atrás da parte construída, onde havia um fio de estender roupa, dependurei minhas duas peças e a canga, depois entrei. Ele perguntou se eu queria uma camiseta. Ótima ideia. Vesti-a e me atirei na cama. Engraçado, quando deitei veio-me à cabeça a ideia que eu tivera de contratar homens para trepar comigo, homens que não teriam relação alguma além da sexual. Naquele momento tudo acontecia de maneira muito diversa, com alguém que poderia mesmo vir a gostar de mim. Seria ele possessivo? Pelo seu caráter zen, não.

Acordei, olhei meu telefone, eram onze e meia da noite. Virei ao lado e abracei meu recente namorado. Ele despertou, percebeu minhas intenções, abraçou-me também e rolamos sobre a cama. Beijei-o na boca, um longo beijo. Após alguns segundos, sentei-me e tirei a camiseta. Mesmo no escuro, ele apreciou minha nudez. Apertou-me os seios, puxou-me para junto dele, subiu sobre meu corpo. Lembrou-se que estava de bermuda. Não demorou a despir-se. Abraçamo-nos, cada um sentia o calor do corpo do outro. Ficamos assim durante longos minutos, beijando-nos, apertando-nos, enfim, explorando tecidos desconhecidos, pele inexplorada, promontórios escondidos. Senti-me excitada diante da ereção que ele mantinha. Um pênis que se conservava em todo seu esplendor durante o tempo que eu desejava. Ajoelhei-me e comecei a mordiscá-lo. Pouco a pouco deixei que penetrasse minha boca, depois avancei e pude senti-lo tocar-me os limites entre boca e garganta. Se esse homem esguicha seu sêmen, será que vou engasgar?, cheguei a pensar. O gozo me vinha lento, prazeroso, desejava mantê-lo o máximo possível. Minha estada ao seu lado, naquela casa, a loucura de ter deixado minha cidade e vindo praticamente nua a Arraial, tudo me excitava muito. Pensei no meu biquíni mínimo dependurado na corda, na canga transparente, será que ainda estavam lá? Será alguém os furtaria para me deixar ainda mais nua? Não me importei, o homem daria um jeito, grande parte dos homens sempre dão um jeito. Após alguns minutos, deixei minha boca escorregar, soltei seu pênis e sentei-me sobre o namorado. Adoro cavalgar. Mas primeiro era necessário encaixar seu peru, deixar que, com vagar, escorregasse pra dentro de mim. Comecei suave, apenas a ponta a beirar-me a vagina, quando senti que me molhava por dentro e por fora pressionei-o. Perdi o controle, percebi que me penetrava fundo, cheguei a gritar. Parti para o cavalgamento, era amazona a fugir de inimigo poderoso; ou , quem sabe, a atacá-lo com flechas certeiras, derrubando-os um a um. Mas naquela cama de fim de mundo, na verdade era eu a receber a flecha, a ponta anatômica mais perfeita que a natureza produziu, capaz de proporcionar gozo às mulheres. Esquecemos a camisinha, disse, não goza, não, por favor, me deixa perder a cabeça sozinha, sussurrei próxima ao seu ouvido. Gozei, ele gozou também. Ambos éramos, naquele momento, o homem e a mulher mais felizes do mundo.


Não fui embora no dia seguinte. Continuei o dia inteiro de biquíni, com meu homem, na praia, no quiosque próximo a beber um coquetel, na cama por mais duas ou três vezes. Escrevendo hoje, não lembro se parti num domingo ou numa segunda-feira. E vejam que são dias bem distintos, fáceis de serem demarcados. Nossa loucura foi tanta, que os dias se misturaram e vivemos a maior parte do tempo sob as sensações dos nossos corpos.

Depois daqueles dias não o vi mais. Ele voltou a sua cidade. Telefonou, enviou mensagens, falou comigo pelo videofone, sempre viajando, sempre em cidades diferentes. Jamais perguntei em que trabalhava. Ficou um dia de aparecer.

terça-feira, dezembro 15, 2020

Refúgio

No final de Cavaleiros, quando havia o quebra-mar, certa vez encontrei um refúgio. Ficava a cinquenta metros do que seria o entroncamento com a Praia do Pecado, e dois metros abaixo da calçada. Quem passeava pelo local não dava por sua existência, porque a tendência era olhar na direção da beira da praia. Acho que houve, ali, um quiosque, por isso alguém escavou a parede, talvez com a intenção de guardar garrafas ou outro tipo de mercadoria. Quando o encontrei, estava deserto. Como estou sempre ali, num canto tranquilo da praia, onde tomo sol e posso ler revistas e livros, acabei descobrindo-o. Fui investigar. Quem o utilizou chegou a fazer uma entrada lateral, esculpiu dois degraus na pedra. No total devia ter nove metros quadrados. Havia ainda uma espécie de entrada de luz, na verdade uma fenda na pedra. Caminhantes que olhassem de longe só o descobririam se muito meticulosos. Era preciso aproximar-se, agachar-se, só então se descobriria a entrada.

Algumas amigas perguntam o meu local predileto da praia, se em Cavaleiros ou no Pecado. Evito revelar. Quando muito, digo que tomo banho de mar em frente ao Country. Mas não é verdade. Não quero ninguém a me perturbar. Amo a liberdade, a beleza do mar e o calor do sol, principalmente na meia estação. Por isso, estou sempre sozinha. Às vezes, aparece alguém para conversar, contar um caso, ou destilar suas mágoas. Permaneço, porém, impávida, não falo nada de mim, não conto meus desejos nem o que faço. Lógico que observo se há alguém que me agrade. Quem sabe um homem para apreciar de longe, ou um namorado sem grandes envolvimentos. Tenho conhecidas que falam demais, contam seus problemas e frustrações. Há mesmo quem conte seus casos com os homens, como Nara. Diz que já trepou com não sei quantos, aqui da cidade. Procura manter as aparências, tem cara de quieta, mas age de modo contrário. Seu último namorado era um homem casado. Vinha apanhá-la na praia, levava-a a um hotel e depois a devolvia à mesma praia. Quando o tempo muda e começa a ventar e não é possível mais a praia?, cheguei a perguntar. Aí tenho de me virar. Talvez ela, caso descubra o esconderijo, entre nele com um homem. Para namorar, é claro. Sorrio e volto à minha leitura.

Entrei no refúgio e pude verificar se estava sujo, ou cheio de areia. Havia areia, sim, trazida pelos dias de vento forte, mas, para quem ama a liberdade, era possível esconder-se, guardar algo, ou mesmo trocar de roupa.

Numa quarta-feira cheguei à praia às seis e trinta da manhã, para caminhar e dar um mergulho. Depois de andar de uma ponta a outra, fui ao esconderijo. Queria saber se alguém estivera lá. Qual minha surpresa quando descobri uma bolsa de butique, num dos cantos, dessas que se ganha quando se faz a compra de uma roupa cara. Abri-a com cuidado, temendo qualquer armadilha. Encontrei um vestido, de fazenda fina, acho que da mesma marca escrita na bolsa. Fiquei a imaginar quem o poderia ter deixado ali, correndo o risco de ser encontrado e levado. Mas não o levei. Enfiei-o de volta na bolsa e a coloquei no mesmo lugar. Pensei esconder-me e ficar à espreita da visitante que viria buscá-lo. Mas não pude, e acho que não teria paciência. Mergulhei, na parte da praia onde começa o Pecado. Depois, juntei minhas coisas e parti. Tinha de trabalhar.

Numa quinta-feira, por volta de meia-noite, eu deixava o Ilhote, onde havia encontrado uma amiga. Comemos, bebemos e colocamos nossos assuntos em dia. Ela viera de carro e eu também. Na hora de partir, porém, decidi ir ao tal esconderijo. Seria perigoso? Se fosse, eu não levava em conta o tal perigo. Dirigi até a ponta da praia. Ao parar, permaneci ainda dentro do carro durante um bom tempo, queria me certificar se havia alguém ao redor. Saí do automóvel, todo o cuidado era necessário. A lâmpada de um poste, a cinquenta metros, orientava o caminho, mas, ao mesmo tempo, revelaria minha presença. Caminhei na direção contrária, onde as sombras eram mais densas e me protegiam. Agachei-me quando cheguei junto ao refúgio, olhei mais uma vez em volta e coloquei a cabeça na pequena entrada. Não havia viva alma. Iluminei o celular e entrei. Verifiquei todos os recantos. Vi a bolsa, mas era outra, menor, e a loja estampada no papel era de roupas de banho. Direcionei a luz ao interior da bolsa e descobri o que ela guardava. Um biquíni de praia, duas peças, muito pequenas, manequim talvez 40 ou 42. Caberia no meu corpo, poderia tê-lo tomado para mim, estava ainda envolto naquele papel fino que as vendedoras utilizam para proteger a peça. Mas deixaria suspeita. Alguém teria descoberto o esconderijo. O jogo terminaria. Deixei tudo no local e parti. As conclusões ficariam para o dia seguinte.

Passaram-se duas semanas. Vieram várias frentes frias, o tempo fechou, choveu durante vários dias. No primeiro dia de sol, o calorzinho da manhã convidou-me à praia. Primeiro, a caminhada; depois, o mergulho. Mas não fui ao esconderijo. Sentei e li uma revista. Um homem veio me pedir fogo. A noite de quinta-feira, no entanto, aprontou-me duas surpresas. A primeira: a amiga que marcou encontro comigo no Ilhote não apareceu. Telefonei continuamente, mas o telefone dava caixa postal. Fiquei sozinha no restaurante. Tal atitude despertou interesse numa mesa onde quatro homens jantavam. Um deles, duas dezenas de minutos depois, passou por mim e tentou falar algo em meu ouvido. Como não dei atenção, foi embora. Depois, alguém deixou um pedaço de papel. Não cheguei a abri-lo. Os homens eram barulhentos e gesticulavam muito, tinham aspecto de que trabalhavam nas empresas de petróleo. A cidade, à noite, fica cheia deles, nos bares e restaurantes. Quando foram embora, permaneci mais um pouco, tentei ainda falar com Marília, a tal amiga, mas continuei sem resposta. Tomei ao todo duas taças de vinho tinto e fiquei apenas na entrada, carpáccio de salmão. Quando decidi partir, lembrei-me do refúgio. Como já estivera lá numa noite, resolvi dar outra olhada. Agi da mesma forma como da primeira vez. Estacionei o carro num local escuro, desci à areia pelo lado contrário à iluminação da rua, andei próxima ao muro de proteção à maré alta. Assim, ninguém me veria. Quem vem na calçada tem a tendência de olhar à beira d’água e não para baixo. Ao chegar perto do refúgio, o poste próximo ficou às escuras. Dei a volta, até a pequena fenda de entrada de ar. Escutei, então, gemidos de mulher. Depois, pude distinguir o que ela dizia. Senta, vai ser melhor assim, pedia, deixa que eu vou por cima, cavalgo sobre você, isso, assim, assim, mas, puta merda, você não trouxe a camisinha, isso não pode acontecer, mas vai, tenta não gozar dentro, por favor, isso, ai, está bom assim, que gostoso, olha que vou perder a cabeça, mas você não perde, não, por favor, sem camisinha é um problema, mas vai, vai, se segura. A voz dela era clara, cheia de desejo, o homem nada dizia. Afastei-me trinta metros e deitei-me sobre a areia. Quando saíssem, queria saber de quem se tratava. Mas, dez ou quinze minutos depois, apenas o homem saiu. Escutei-o subir ao calçadão e desaparecer na escuridão. Depois, ao longe, o motor de uma moto mostrava que ele se afastava. A mulher só, lá dentro, deixava-me curiosa. Caminhei de novo e olhei pela fenda. Ela fumava, a claridade do cigarro produzia algumas sombras e dava para ver o seu perfil, ainda estava nua. Em um momento se levantou, deu dois passos e chegou à saída do refúgio. Atirei-me para trás, encolhida. Ela caminhou até a beira e entrou na água. Tinha o cabelo muito curto e pareceu mesmo nadar um pouco. Num ímpeto, entrei no refúgio, olhei o que havia lá dentro. Nada. A mulher ficara sozinha, e sem o que vestir. Voltei-me e escapei. Deitei-me novamente no mesmo lugar onde me escondera assim que chegara. Depois de um quarto de hora, ela voltou ao refúgio. Foi então que decidi partir. Ela vivia uma situação perigosa, e eu não queria me misturar a tudo aquilo. Cheguei a correr dali, atingi o local onde estava o meu carro, ofegante.

Enquanto dirigia de volta, pensei que poderia ter ido a ela e oferecido ajuda. Mas será que ela estava em dificuldades, será que desejava ajuda? Há gente para tudo nesta vida. Decidi esquecer a tal história.

No dia seguinte, Marília me telefonou, pediu mil desculpas por ter faltado ao encontro, disse que depois me contaria o que aconteceu. Uma ou duas semanas mais tarde, encontrei-a ao acaso, no calçadão, estava bonita, sempre de cabelo bem curto, parecia um rapaz. Desculpou-se mais uma vez, mas não tocou no assunto.

Meses depois começaram as obras de remodelação da orla marítima de M. O tal refúgio não demorou a desaparecer.

segunda-feira, dezembro 07, 2020

Vem comer meu pão de ló

Fui eu a culpada, numa das últimas mensagens a ele escrevi aproveita pra me telefonar porque vou me casar, depois não quero mais conversar com outros homens. A mensagem deu a entender que eu ainda queria falar com ele, mas ele nada respondeu. O homem foi alguém muito especial pra mim durante um bom período. Namoramos, chegamos a viver juntos. Depois cada um seguiu sua vida. Faz uns três ou quatro anos, nos reencontramos. Ele telefonou algumas vezes, chegou a vir aqui. Em todas, acabamos fazendo amor. Não consigo resistir às histórias que ele conta, na verdade são cantadas, caio em todas elas direitinho, muito sedutor o homem. Na última vez, veio resolver um problema aqui na cidade, depois passou na minha casa, ficamos conversando um bom tempo. Num momento, resolvi lhe mostrar um vídeo onde eu estava nua. Ele logo falou você está tão bonita. Que nada, estou gorda, já não sou jovem. Não, não, você é muito bonita e gostosa, acrescentou. Cinco minutos depois, eu estava nua, ele fazendo carinho nas minhas costas, uma espécie de massagem. Que tesão! Daquele dia pra cá, nos falamos apenas por mensagens, ele sempre dizendo você é muito gostosa. Agora tenho namorado, rebatia, nada de se engraçar pro meu lado, viu? Precisei de dinheiro, pedi a ele. Depositou trezentos e cinquenta reais na minha conta. Quando for aí, te faço um carinho. Nada disso, retruquei, agora tenho namorado, quero ficar apenas com ele. Então, mesmo eu já tendo enviado duas mensagens, ele não mais entrou em contato. Acho que foi por causa da tal mensagem lá no começo. É importante não definir as coisas, não se sabe o dia de amanhã, é o que diz uma amiga. Pode ser que esteja certa. Vamos supor que amanhã eu volte a estar sozinha, ele vem aqui e a gente pode dar uma namoradinha. Quando me olho nua no espelho, penso nele, você é muito gostosa, mesmo com essa barriguinha. Barriguinha?, você acha mesmo que isso é barriguinha? O problema é que, agora, estou com a maior vontade, e meu namorado anda longe, trabalhando em outra cidade. Os homens aqui me paqueram, mas não vou trepar com um deles, logo fico mal falada. Mas o meu amigo, caso aparecesse, até que seria uma solução. Por que fui cair na besteira de enviar a tal mensagem? Você é muito confusa, Nete, diz minha irmã, não sabe aproveitar as oportunidades. Às vezes conto das minhas pra ela. "Se eu tivesse alguém como esse teu ex-namorado, que até faz depósito na tua conta quando você pede, não pensava duas vezes, tratava o homem a pão de ló." Tão engraçada a expressão, será que alguém ainda faz pão de ló? Vou fazer um, vou chamar o homem pra vir aqui em casa, deito nuinha e coloco o tal pão de ló sobre minha barriga. Vem, meu amor, vem comer meu pão de ló!

segunda-feira, novembro 30, 2020

Passei a fazer sua vontade

Numa cidade pequena, é fácil conseguir formar clientela, principalmente quando a gente é simpática. Comecei a trazer roupas de grife, de São Paulo. No começo, eram para mim as roupas, mas as amigas me encontravam e perguntavam onde eu tinha comprado a tal saia, o vestido, o biquíni. Como todas adoram andar na moda, mesmo num lugar onde quase não se tem aonde ir, prometi trazer uns modelos novos na minha próxima viagem. E assim foi, arrisquei além da conta, mas o mulheril acabou com tudo em dois dias.

Sábado à noite as pessoas vão à única pizzaria da cidade, ou aos quiosques de churrasquinhos ou cachorro quente, mas não deixam de vestir a melhor roupa. As mulheres, então, nem se fala, sempre vivem na expectativa de conhecer o homem de suas vidas, alguém de fora que veio à cidade ao acaso para visitar um amigo ou um parente, para um trabalho que a gente não sabe que existe. É o momento em que todas as peças são retiradas dos armários, de bustiês a casaquinhos, passando por minissaias e vestidos compridos, calças e  blusas, camisas de abotoar. Caso faça calor, as costas vão nuas, as pernas de fora; caso o tempo ande fresco, quem sabe um pouquinho mais de fazenda. E quem é a responsável pela revolução em M? Eu, Célia. O sucesso foi tanto, que abri uma pequena loja. O sucesso avançou, atravessou as divisas da cidade e a fama chegou aos lugares mais distantes. Tenho encomendas de todos os tipos.

Não consigo viver sozinha. Sempre há alguém a me procurar. Outro dia apareceu uma mulher estranha, disse ter um vício. Ouvi, com atenção, o que tinha a me falar.

“Tenho muitas roupas, sabe, viajo muito e compro muita coisa, tenho além do que preciso. Não faz mal, ainda assim vou comprar algo com você. Mas quero te contar sobre o tal vício, do qual não consigo me libertar” Fiquei curiosa, ela embromava, embromava e não falava. Até que, depois de tanto rodeio, contou-me:

“Adoro andar nua”.

“Todas gostamos, ninguém explica o motivo, não é mesmo?”

“Não, mas não falo neste sentido. Gosto de sair nua, mesmo. Acordo de madrugada, entro no carro nua e saio a passear pela cidade. Nua mesmo, nenhuma peça.”

“Isso não é perigoso?”, fiz fisionomia de preocupada.

“Sim, claro que é, mas acho que é por isso que gosto.”

“Alguém sabe disso?”

“Não creio. Já me viram de carro, uma vez ou outra, mas não puderam notar que estava nua!”

“E o que você acha que eu posso fazer para te ajudar?”

“Não, não estou pedindo ajuda, apenas contei, acho que, assim, fico mais leve.”

“Mas se acontecer alguma coisa com você, não vai dizer que fui eu que contei.”

“Não. Sei que você não vai contar a ninguém. Você é boa comerciante, e bons comerciantes são calados. Meu avô foi bom comerciante.”

“Está bem, você procurou só pra me contar isso?”

“Não, quero fazer uma encomenda.”

Ela encomendou um biquíni caríssimo. Bom para mim.

Quando veio buscar, no mês seguinte., contou-me uma história.

Certa vez, tive um namorado aqui da cidade, sabe? Mas ele já foi embora, abriu um negócio em outro estado. Às vezes ainda me telefona, me convida para ir encontrar com ele. Fui uma única vez, fiquei de voltar, mas ainda não voltei. Ele foi o único que me descobriu nua. Estava eu na beira da lagoa, bem escondida, não tinha levado nem uma calcinha. Ele me descobriu por causa do carro. Não se consegue esconder um carro, não é mesmo?, tanto mais numa cidade pequena. Todo mundo sabe que o carro é de fulano, de sicrana, de beltrana. Ele viu o meu carro e ficou preocupado. Ficou de plantão bem ao lado, e eu lá embaixo, na areia, sem que ele soubesse que eu estava lá. Meu Deus, como vou voltar com esse homem de plantão? Daqui a pouco amanhece, não posso voltar nua à luz do dia. O pior foi que ele entrou no carro e virou a chave, ligou o motor. Ah, não, vão roubar o carro, agora é que estou perdida. Confesso que a possibilidade me deixou arrepiada. Você está pensando que saí correndo, querendo sabe quem era o homem? Não, nada disso. Resisti, firme. Você sabe que sei assobiar forte? Quer ver? Viu, dá até dor no ouvido. O homem acabou descendo à areia. Fiquei sentadinha. Ele procurando de quem era o assovio. Fiu, fiz de novo. Ele me viu, mas não reparou que eu estava nua. Quando chegou perto, eu estava com as pernas cruzadas e o braço cobrindo os seios, ele ainda não notou. Só quando soltei os braços, que ele perguntou o que aconteceu, você foi assaltada? Claro que não, nesta cidade não tem ladrões, cheguei a dizer. Mas você está nua. Dei então uma grande gargalhada. E lhe contei a história. Acabamos namorados. E te confesso que, algumas vezes, saí nua ao lado dele, no banco do carona. Mas ele não gostava. Preferia que eu vestisse as melhores roupas. Passei a fazer sua vontade.

“Mas você continua saindo nua. Tem vontade que outro homem te descubra?”

“Não sei. Às vezes, sim. Mas fico molhadinha quando estou nua, de madrugada, na borda da lagoa. Não sei se um homem vai estragar tudo.”

Ainda ficou algum tempo conversando, falou de algumas amigas, da paquera no único restaurante da cidade. Depois marcamos o dia de receber a encomenda, e ela foi embora. Ainda me disse:

“Conto com a tua discrição, viu, sei que és uma pessoa séria. Meu avô foi comerciante.”

segunda-feira, novembro 23, 2020

Peitos de fora

Nesta cidade existe uma porção de fofoqueiros, se a gente sai com um homem hoje e com outro semana que vem fica logo com má fama, imagine ficar com os seios de fora quando se vai à praia. A conversa aconteceu na casa da Dorita, e foi ela quem disse sentir imenso prazer ao ir à praia e ficar sem o sutiã, um orgasmo.

Não sei por que me lembrei dela, eu estava em frente ao Country, trecho onde ficam as pessoas mais ricas. Quando reparei a Lilian, resolvi caminhar um pouco mais e parar no início da praia do Pecado. Ela não me viu, pelo menos é o que acho. Não queria falar com ela, sua conversa é a mesma de sempre, só fala de homens, de namorados, das festas que foi, e dos convites recebidos, gesticula e gosta de mostrar a bunda, o biquíni cada vez menor, o corpinho mignon. É bonita, mas como é convencida disso.

Acho que ela e muita gente têm inveja de mim porque sou uma pessoa bem sucedida. Meu consultório sempre está cheio. Quando falam em dentista, na cidade, falam de mim. Mas muita gente pensa que uma dentista não tem vida própria, que está sempre a trabalhar e nada mais tem pra fazer. Não é bem assim, gosto de sair, dos restaurantes durante a noite e da praia nos dias de folga. Não posso. porém, permanecer em lugares muito frequentados, logo aparece alguém pra conversar, e mesmo pra me pedir pra dar uma olhadinha num dente. Como é possível a pessoa abrir a boca em plena praia e querer mostrar um dente pra eu examinar?

Houve um tempo em que ia a Búzios, porque aqui não era possível frequentar a praia. Pros lados do Pecado, fico sossegada, não vejo nenhum conhecido. Armei o guarda-sol, abri a cadeira e sentei. Tinha levado uma revista e um livro, comecei a olhar primeiro a revista. Depois de algum tempo, passou um rapaz vendendo cerveja, dessas que estão na moda, Heineken, acho. Comprei duas, deixei uma dentro de uma bolsa térmica e abri a outra. Que delícia! A cerveja tem outro sabor quando se está na praia. Depois de trinta minutos, tive de entrar n'água, tanto era o calor. Mergulhei, fiquei de molho por uns vinte minutos. A água não estava fria totalmente, como é o costume aqui, mas dava um arrepio gostoso. Depois que voltei ao guarda-sol, sentei novamente e continuei minha leitura, Em determinado momento, abri a segunda cerveja. Poucas pessoas passavam pelo local, e eu não dava importância a isso. Um homem passou bem rente ao guarda-sol. acho que foi a única maneira pra me despertar do torpor que o sol e a revista me colocavam. Ele era realmente bonito, não tenho como fazer reparação alguma.

Nesses momentos, é difícil começar a estabelecer um contato, apesar de termos vontade. Como se deve fazer? Chamar? Ei, venha aqui, você é muito bonito, quero te namorar. Não fica bem. E ele, caso seja tímido, como deve se aproximar? Estamos num tempo em que o assédio às mulheres é condenável, por isso muitos homens apenas nos olham e nada mais têm a fazer. Ele venceu sua timidez ao passar rente ao guarda-sol, com a praia vazia, e não mais tentou ação alguma. Aliás, o que fez foi parar trinta metros adiante, olhar o mar e vez ou outra voltar os olhos pra mim. Eu jamais fui a primeira a falar com um homem, mesmo achando-o muito bonito e simpático.

Continuei a ler a revista, vez ou outra olhava por cima, para ver se ele ainda estava lá. Tive a ideia de dar um novo mergulho, quem sabe se tirasse o top o homem viria até a mim, com mais facilidade. Mas se eu não chegava a dar a primeira tacada, como iria ficar de peitos de fora? Resisti ao mergulho ainda durante dez minutos. Levantei-me, ele ainda estava lá, naquele momento olhava o mar. Caminhei lentamente, molhei os pés, esperei um pouco, depois, ainda vagarosa, entrei até o nível da água ultrapassar meu ventre. Mergulhei, nadei um pouco na direção das ondas. O mar não estava violento, mas tinha ondas. Venci duas delas e permaneci atrás da arrebentação. Ele mergulhou, não sei se estimulado por mim. Nadou um pouco, foi além do ponto onde eu estava e manteve sempre a distância de uns trinta metros. Num momento, tive a impressão de que sorria para mim. Permaneci nas imediações durante uns quinze minutos, depois voltei para o guarda-sol. Quando sentei ao sol e me voltei para o mar, ele ainda estava no mesmo lugar, era possível repará-lo a cortar as ondas.

Se fosse Lilian, será que tentaria estabelecer um contato? Talvez, ela adora pessoas diferentes, gente que jamais viu na cidade. Mas, quanto a mim, não é o meu costume. Ele poderia vir, perguntar se eu tinha fogo para acender um cigarro, ou mesmo perguntar algo sobre a cidade, dizendo que era de fora e nada conhecia por aqui. Mas não foi assim que as coisas aconteceram.

O que me salvou, ou melhor, nos salvou, foi o vento. Sério, quando conto, ninguém acredita. Um forte vento começou a soprar e tudo começou a voar, nesse tudo, levou as minhas coisas. O homem voltou à areia e correu pra onde eu estava, recolheu o que pode, ajudando-me, inclusive conseguiu ir atrás e recuperar o guarda-sol, que se soltara como alguém que se revira de pernas para o ar. Quando tudo estava em ordem, rimos um pouco. Ele ajudou-me a levar os objetos para o carro.

Apresentou-se, Fernando. Maria Célia, retribuí. Você é da cidade?, perguntei. Não, e me disse o motivo de sua temporada no local, do seu trabalho, o que fazia. Fiquei calada, esperei que pedisse pra que falasse sobre mim. Assim começou nosso namoro. Achei melhor, dali em diante, encontrar com ele em R O, onde a poderíamos ficar à vontade, porque a possibilidade de encontrar conhecidos era menor.

Acho que Dorita está certa, talvez um dia eu consiga seguir seu exemplo. Se tem vontade de ficar com os peitos de fora, ninguém nada com isso.

segunda-feira, novembro 16, 2020

A bolsa

À noite, sonhei com ele. Acordei envergonhada. Não por ter estado nua ao seu lado, mas por me ter tornado mulher de fácil conquista. Está pronta para o nosso passeio?, perguntou enquanto me oferecia uma bolsa de butique. Tomei-a nas mãos, reparei que estava vazia.


Sempre que passava pela porta daquele homem, recebia seu olhar malicioso. Ele é velho, disse a mim mesma, em silêncio. Cidade pequena é fogo, todo mundo conhece a gente, e qualquer escapada é logo descoberta. Não podia ficar perguntando pra uma ou pra outra quem era o tal que me paquerava. As mulheres daqui, quando querem beber de outra caneca, pulam pra cidade vizinha, a cinquenta quilômetros. No dia seguinte, ele me chamou.

"Meu nome é Manoel, e o seu?"

Parei, por educação, e me apresentei.

"Reparo que você passa sempre aqui", disse ele.

Bem que eu queria falar passo sim, e você está sempre a me comer com os olhos, porque acho que o peru já não funciona. Mas arrefeci. Me fiz de boazinha.

"Verdade."

"Aceite um café, entre, moro sozinho, vamos tomar uma xícara."

Declinei do convite, pedi desculpas e segui em frente.

Nos dias que se seguiram, evitei passar em frente à sua casa. Segui outro caminho naquele meu passeio matinal, sempre à procura de tomar um pouco de ar e comprar algo para o almoço.

Dois dias depois, como por coincidência, ouvi dizer que o tal gostava de mulher jovem, e pagava bem. Uma amiga chegou a dizer:

"Acho que vou me oferecer ao Manoel, dizem que distribui dinheiro."

"Verdade? Sabe que nunca reparei esse homem.", tentei mostrar surpresa. "O que será que deseja em troca?"

"Ah, imagine", ela moveu a cabeça, "o óbvio".

"Mas ele é tão velho, será que ainda consegue."

Ele se satisfaz ao modo dele, completou a amiga.

Quis perguntar se já tinha entrado pra tomar café, mas preferi o silêncio. Enquanto voltava pra casa, pensei no tal dinheiro que o homem devia distribuir. Eu, sempre devendo, sempre precisando de pagar uma prestação, as dívidas se alongando.

Voltei a trilhar o tal caminho, Manoel parecia estar esperando-me.

Hoje, você vai tomar um café.

Sim, vou.

Foi o suficiente. Ele sabe fazer um café muito gostoso. Elogiei. Olhou pra mim, queria dizer que a gostosa era eu. Bebemos, em silêncio. Após alguns minutos, começou a contar uma história. Não era a dele, ainda bem.

Nos dias que se seguiram, não saí de casa. Aproveitei para organizar alguns papéis. Na semana seguinte, quando passei em frente a casa dele, ouvi:

"Sumida, fiz café todos os dias e você não apareceu."

Dei um ligeiro sorriso, aceitei o café.

"Caso você precise de alguma coisa, fale comigo, sou um homem generoso."

"Alguma coisa?", eu quis saber que coisa.

Ah, imagine.

Dois dias depois, parei de fronte à sua casa. Ele não estava. Achei estranho. Será que aconteceu alguma coisa? Quis entrar, olhar lá dentro. Sabia que encontraria a porta sem tranca, mas não tive coragem. As janelas estavam abertas, via-se a sala arrumada, mas ele não apareceu. Evitei bater. Será que contava a mesma história a todas as mulheres que passavam ali em frente? Vai ver estava com uma delas na cama. Atravessei o portão do quintal e fui, sorrateira, olhar o quarto através da janela. Mas não havia sinal de vida. Temendo ser surpreendida, corri pra fora. Antes de partir, encontrei uma bolsa de butique, estava encostada à porta, do lado de fora, como esperasse ser levada por alguém. Tomei-a nas mãos e reparei que continha roupas de mulher.

Na semana seguinte, aconteceu. Estava sentada na poltrona; ele, no pequeno sofá. Bebíamos café. Você sabe fazer café muito bem, ele disse, segurava a xícara e olhava os meus peitos nus. Além do café, você tem o corpo bonito, uma mulher bonita fazendo café, e me fazendo feliz. Tomou mais um gole e sorriu. Descruzei as pernas e mudei de posição, numa das mãos a pequena xícara; na outra, o pires. Não tive outra saída senão rir. Vi, como num filme, tudo o que vivemos até àquele momento. Me surpreendi, não era nada mais do que uma mulher fácil. Mas o que fazer? Era generoso o homem; eu, cheia de dívidas. Quando me levantei para levar a xícara vazia à cozinha, sabia que ia me apreciar pelas costas. Ao voltar à sala, parei diante dele e cruzei os braços sob os seios: "será que vim só pra tomar café e passear nua?", falei em tom de galhofa.

"Claro que não."

Manuel, então, me comeu. Comeu profundamente. Quanto à bolsa, melhor não perguntar.

segunda-feira, novembro 09, 2020

Plantando bananeira

Gosto de ir à praia cedo, tanto mais depois que vim morar pertinho, na Riviera. O apartamento é pequeno, mas a proximidade do mar, a brisa matinal e vesperal me causam enorme prazer. Há dias em que saio arrepiada de casa. Outra vantagem de tomar sol e banho de mar bem cedo, é que não há ninguém na praia, quando muito uma ou outra pessoa a caminhar ou a fazer algum tipo de ginástica. Ainda não houve, por aqui, ninguém a me incomodar, a tentar puxar conversa ou a pedir alguma coisa. Quando morei na Costa Azul, tive um problema, aliás, não sei se posso nomear assim o que aconteceu, mas o fato me incomodou um pouquinho.

Jovens não gostam de acordar de madrugada, mas o costume de sair cedo de casa já me era comum à época. As primeiras horas da manhã são também comuns a pessoas mais velhas. Um senhor, então, começou a me observar. No começo, gostei. Toda mulher gosta de ser admirada e paquerada. Ele acabou vindo falar comigo. Começou com aqueles assuntos sobre o tempo, sobre a beleza do mar, da paisagem etc.. Passou a aparecer todos os dias, pontualmente. Como sempre usei biquínis mínimos, o homem me comia com os olhos. Os dias se passavam e ele não avançava. Lembro uma semana em que choveu todos os dias. À manhã do primeiro sol, estava o tal na praia a minha espera. Voltou aos seus assuntos. 

Se continuar assim, vamos nos tornar amigos, não haverá mais clima, pensei. Normalmente é isso que acontece. Quando conhecemos alguém, as intenções precisam vir no segundo ou terceiro encontro, caso isso não aconteça a relação torna-se amizade. Não que amizade não seja boa coisa, mas os homens geralmente querem mesmo o meu corpo.

Falava da cidade, dos prédios públicos, da política local, do jornal que só existia para trazer anúncios, como é possível um jornal sem notícia alguma? As notícias são as mercadorias, cheguei a sugerir dando de ombros. Meus seios balançaram. Ele riu. Num dia, convidei-o ao banho de mar. Surpreendeu-se. Jamais me vira dentro d’água. Segurei seu braço, me ajude, por favor, não posso me afogar. Num determinado momento, abraçou-me pelas costas. Fiz de conta que não percebia, ou que talvez fosse a ação mais natural do mundo. Ele se demorou no abraço; depois ainda escorregaram as mãos pelo meu ventre, tocou nas tirinhas do meu biquíni. Dissimulada, eu, olhos de ressaca. Ressaca do mar e da taça de vinho da véspera.

Dias depois, uma senhora veio falar comigo. Eu estava bolinando o marido dela. Engraçada a palavra, bolinando. Como soube da minha relação com seu marido? Não sei, jamais descobri. Pediu-me que não fizesse mais isso, a cidade era pequena e todos iriam comentar. Engraçado, a mulher não se mostrava incomodada pela traição, mas pelo que os outros iriam dizer. Não tive palavras para responder. Escutei, cumprimentei-a e parti. Acho que o máximo que falei foi tudo bem. De que valeria explicar que a investida foi dele, que a cada dia vinha com um assunto diferente, que me comia com os olhos. Achei melhor o silêncio. Desapareci daquela praia por algum tempo, ou passei a frequentá-la em outros horários, não sei. Nada de confusão.

Além de ter de mudar os meus hábitos, não valeu a pena a rápida relação. Uns dias antes de estar com a mulher dele, o homem me convidou a uma casa, ali mesmo na praia. Era uma casa de veraneio. Disse que a bela construção pertencia a ele. Entramos, serviu-me alguma coisa. Na parte de trás, havia uma piscina, bem pequena. Para resumir a situação. O homem quis trepar comigo, eu nua dentro da tal piscina. Tudo bem. Meu costume de responder às questões dizendo tudo bem. Ele veio me tocar, me fazer carinho. Onde o biquininho? Estou procurando até hoje. Tive de plantar bananeira para ver se ele conseguia uma ereção. Conseguiu? Apesar de ela saber, devia ter contado à mulher dele.

terça-feira, novembro 03, 2020

Valeu a pena

Aquele meu amigo já estava me deixando louca. Não sei por que toda vez que via uma mensagem sua no Zap, eu me arrepiava. Melhor ainda se a tal mensagem fosse de voz. Ouvia-o durante várias vezes. O arrepio aumentava, tinha vontade de ficar nua! Não pense que não é possível a uma mulher tornar-se excitada de repente. Comigo acontece, e lembro dos verões no litoral, quando eu fingia ler uma revista mas observava os homens por baixo das páginas. Meu amigo me trazia não só essa lembrança, mas rememorações de outros tempos, juventude em boates, sainhas, perninhas de fora.

Volto aos dias de hoje. Com a reunião pelo Zoom então, nem pensar, onde será que ele está?, fico a imaginar seu quarto, sua cama que não é possível avistar por trás de sua face sempre alegre. Por falar em alegria, ele não dever pensar na vida, digamos, na condição humana. Uma pessoa que está sempre com o sorriso nos lábios não é capaz de pensar que vamos envelhecer e morrer um dia. Ou talvez achem essas coisas naturais. Natural a efemeridade da vida, o escapar das horas e dos momentos que desejávamos eternos.

Meu amigo é casado, não posso negar. Mas não ligo, o importante é que me dá atenção como nenhum outro, ou nenhuma outra. Também não demonstra intenção de me paquerar. Verdade. Não é que eu queria a tal paquera? É bom quando alguém demonstra interesse pela gente. Ele demonstra, mas não de que eu seja sua amante. Que palavra pesada, muitos dirão: amante. Está fora de moda.

Houve uma época em que todos (ou quase) tinham amantes, tantos os homens como as mulheres. Tive um. Encontrávamos uma vez por semana no centro da cidade, tomávamos um café, numa cafeteria bonita, e depois corríamos ao hotel próximo, na Senador Dantas, ainda com o gosto do café na boca. Outro dia passei por lá, o hotel ainda existe. Quanto ao amante... Bem, não dá para se ter um amante a vida inteira, acontecem muitas coisas. Além disso, o amante (ou a amante) não é o principal na vida de uma pessoa, é para quando há uma brechinha de tempo.

Como justificar um amante em nossas vidas?, eis a resposta. Na França, muitos têm amantes, serve para esquentar o relacionamento do casal, quero dizer, do casal de marido e mulher. Há quem diga que na França não é mais assim. Agora, as pessoas são verdadeiras (é possível a verdade?). Não faz mal, no Brasil as coisas chegam um pouquinho atrasadas.

Mas meu amigo me viu deitada na cama. Sério. Meu amigo estava participando da mesma reunião virtual que eu e me viu na minha cama. Você estava deitada, falou, descansando. Ri, esqueci de desligar a câmera, disse a ele. Engraçadas as reuniões virtuais, acontecem coisas indiscretas. Ainda bem que não estava nua. Caso fosse apenas para ele me apreciar, bem que não me incomodaria. Mas não para o escritório inteiro!

Certa vez, domingo pela manhã, ele me enviou uma mensagem: estou caminhando pela orla, resolvi enviar esta mensagem para te dizer sobre aquilo que você me perguntou ontem, complementar a minha resposta. O que perguntei mesmo? Nem lembrava. Acho que foi num dia em que estava ardida, resolvi então criar uma dúvida para ouvir a voz dele. Fantasias. A voz veio meia hora depois, e eu gozei. Lógico que não foi assim tão de repente, mas imaginem como uma mulher goza. Às vezes, dá algum trabalho. Mas na tal noite (esqueci de dizer que o sol já ia pela outra banda), fiquei molhadinha. Valeu a pena.