quarta-feira, maio 04, 2022

Esporte

Vinha correndo, em treinamento, pela Vieira Souto, em Ipanema. Era manhãzinha de sábado, algumas pessoas chegavam à praia. O sol ameno me ajudava no treino. Ao cruzar o Posto Nove, lembrei-me de um homem com quem certa vez marquei um encontro naquele lugar. Mas não apareci, e ele era tão bonito. Não lembro onde o conheci, mas o encontro que falhei não me saiu da cabeça. Alguma das amigas da época deve ter me apresentado o homem. Costumávamos sair à noite, frequentar bares e boates, não faltavam namorados. Fazia mais de dez anos, como o tempo passa rápido. Eu, correndo, será que participo pelo menos da meia maratona? Apenas imaginação, não treino para competições. Mas ao passar pelo Posto Nove, um rapaz sorriu para mim, olhou-me dos pés à cabeça, tenho certeza de que me imaginou nua, totalmente livre da roupa de jogging. Eu correndo, suando, querendo me superar, correr melhor do que nos dias anteriores, do que na semana passada. Quando se pratica algum esporte e se percebe melhor desempenho, o prazer substitui o cansaço, o esforço, a gente não tem vontade de parar. O rapaz ficou para trás. Quem sabe corre também e vem a me seguir. Cheguei a dar uma olhada, depois de duzentos ou trezentos metros. Ninguém. Amélia, uma amiga, adora namorar, acaba não vindo para a corrida por causa dos homens, das noites em branco, pendurada no pescoço deles. Diz que o prazer está em ambas as práticas, a corrida e o amor. Amélia, não é possível passar a noite namorando, mesmo que eles sejam muito gostosos, acordar cedo e vir correr, não há quem aguente. Ah, às vezes dá, sim, ela diz. Eu não consigo, tenho de confessar. Faz tempo que adoro fazer ginástica, correr na praia, ter o corpo em forma, acabo deixando os namorados em segundo plano. Por isso, às vezes, desaparecem, vão nos braços de outra. E eu fico na fixação do meu próprio corpo, namorando a mim mesma, suada, exaurida, mas ainda num último esforço para me superar. Já deixei um namorado dormindo e saí escondida para correr. Não voltei ao apartamento dele naquela manhã, preferi seguir depois para casa. Esqueci alguns pertences, mas ele guardou para mim. Por que não me chamou?, eu iria com você. O namorado saberia meu segredo, o prazer que a corrida me proporciona. Não quis que descobrisse. Vamos namorar à tarde, disse eu certa vez a outro. Ele pensou que eu era casada, era a única hora possível. Depois descobriu, eu era casada, sim, mas com o esporte. Quis me ver correndo, suando, a pele brilhosa, me abraçar quando a água escapava pelos meus poros. Só quando eu parar, amor, caso eu te abrace agora, perco o ritmo. Corri tanto que ele ficou para trás. Não foi possível o abraço. Você corre nua, querida?, perguntou certa vez. Engraçadinho, respondi. Corre nua na esteira, por favor, pediu, choroso. Esses homens e suas taras. Você deixa que, pelo menos, eu prenda os seios com um top? Houve um dia em que ele escondeu minha roupa de corredora, a lycra de jogging. Mas eu tinha uma saia curtinha, branca, o biquininho. Não perdi a manhã.

quarta-feira, abril 27, 2022

Entusiasmados

Quando eu era mais jovem, ia com o namorado à noite para a floresta. A gente, de dentro do carro, tentava descobrir se havia alguém por perto; em caso negativo, saltávamos; eu, nua; ele, também nu, namorávamos em meio às árvores e toda aquela natureza.

Certa vez percorremos uma distância enorme. Quando demos pela localização, estávamos muito longe do nosso carro. Em certo momento, paramos para descansar, deitamos sobre um gramado e fizemos amor. Depois, penamos um pouco para encontrar a trilha de volta. Cheguei a pensar que não conseguiríamos. Que susto.

Numa outra noite – eu sempre nua –, avistamos um pequeno veículo, bem para dentro, num atalho secundário. Corremos até ele e tentamos olhar se havia alguém do lado de dentro. Um casal se agarrava. Ainda bem que eles não deram por nós. Depois daquilo, senti mais tesão e trepamos também logo ali, quase ao lado do veículo alheio. Tais ações eram perigosas, mas nós nos divertíamos.

Mais tarde, já morando em M, arranjei um namorado lindo, por quem eu me apaixonei de verdade. Passeávamos muito, tanto na orla da cidade, como em lugarejos menores. Nas férias, viajávamos. Vivi um romance que parecia mais um sonho. Nunca contei a ele sobre outros namorados, muito menos sobre o que fazíamos. Certa vez, indo a um recanto na serra, lembrei do namoradinho e das ações que nos excitavam. Quando voltávamos, pedi que parasse na lagoa. Estava um final de tarde maravilhoso, com o sol avermelhando-se a poente e uma brisa úmida refrescando-nos a pele.

Andamos toda a orla da lagoa, paramos em diversos pontos e fizemos várias fotos. Quando estávamos caminhando de volta para o nosso carro, reparei que a uns cinquenta metros havia outro veículo que não estava lá quando chegamos. E ele estava balançando. Que estranho, um automóvel estacionado mas se movendo. Quis saber o que estava acontecendo. Corri até o local, mas, por precaução, fui pela traseira. Quando faltavam poucos metros, reparei que um homem e uma mulher namoravam sobre o banco do carona. Achei tudo aquilo muito divertido. Meu namorado, que vinha atrás, também se surpreendeu.

Quando íamos voltar, no momento de eu entrar no carro, o namorado pediu você entra nua na lagoa? Agora?, assustei-me. Sim, agora. Mas como volto molhada pra casa? A gente dá um jeito, ele falou. Tirei o vestido e mais o que me restava sobre o corpo, deixei tudo sobre o banco onde eu sentara, corri a uma das margens e entrei nas águas mornas da lagoa. Foi então que reparei. A mulher do outro carro, vinha abraçada ao namorado, ambos caminhavam também para um banho de final de tarde. Só que ela vinha de biquíni. Meu namorado, ao repará-los quase próximos a mim, pensou vir ao meu socorro. Mas ficou apenas no pensamento. O casal não me reparou. Ambos estavam muito entusiasmados para se preocuparem com qualquer outra pessoa.

quarta-feira, abril 20, 2022

Outra história

Em todo lugar, há muitas garotas de dezoito ou vinte anos a fim de arranjar namorados. Por isso, para quem já passou dos trinta, é difícil a competição. Mesmo um homem para sair uma noite ou outra, ir a um bar ou a um restaurante, já é complicado. As mulheres maduras precisam desenvolver vários artifícios para conquistá-los. Um deles é não ser muito fácil. Há mulheres que se oferecem, tem relações com todos que aparecem, acham que agindo assim conseguirão o homem mais bonito do pedaço. No entanto, não é esse o caminho. Quando morei em NY, agia dessa maneira, mas pouco a pouco percebi que era relegada pelas mais jovens. Então, comecei a estudar a situação. Passei a gostar de distrações mais sofisticadas, como ir ao cinema ou ao teatro, conversar com pessoas de maior cultura, mesmo não sendo essa a minha origem. Não consegui namorado, mas aumentei o número de amigos e amigas. Encontrava as mesmas pessoas em todos os lugares e passei a sair com muitas delas. Saídas aqui consistia em ir a um bar depois da sessão, onde quase todos estavam e se podia conversar sobre o espetáculo visto. Às vezes, em meio aos participantes, se encontrava alguém que dava o número do telefone ou marcava um encontro para o dia seguinte.

Dentro da minha nova realidade, apareceu um homem morador próximo a mim, mas de características muito diferentes das que eu estava vivendo. Ele frequentava os bares da comunidade, assistia a jogos de futebol, não ia ao cinema nem ao teatro. Não sei por que, em meio a tantas mulheres jovens, ele veio a mim, e pediu-me para conversar. Não neguei a conversa, mas percebeu que o meu universo era muito diferente do seu. Em um momento, falou: “você vai aos seus espetáculos e encontra comigo depois que chegar, se quiser pode passar lá em casa”. Passar lá em casa significava dormir com ele depois de tudo que eu e ele havíamos vivido, separadamente. Não considerei a proposta de imediato, mas depois pensei nela e lembrei de uma amiga que dizia ao namorado para sair com os amigos e depois aparecer na casa dela, mesmo que já passasse da meia-noite.

Acabei aceitando a proposta, só para experimentar. Fazia o que desejava e, já madrugada, nos encontrávamos para passar a noite juntos. Pela manhã, eu partia, ele ainda ficava dormindo. A relação passou a ser duradoura. Não perguntávamos o que cada um fizera durante o dia. Também não demonstrávamos ciúme algum. Um dia, porém, uma mulher chamada Janina, veio falar comigo. Disse que eu estava dormindo na casa do namorado dela. “Seu namorado?”, surpreendi-me, “ele me convida sempre para passar a noite com ele, não sabia que tinha namorada”.

Daquele dia em diante, não mais apareci na casa do homem. Depois de uma semana, ele veio me procurar. Contei-lhe o encontro com a tal mulher. Disse que era mentira, que iria falar com ela. Mesmo depois de sua afirmação, não voltei a casa dele. Descobri, mais tarde, que eles se casaram.

Hoje, depois de ir a tantos espetáculos, me tornei atriz. Foi simples, fiz um curso de um ano, uma prova de seleção para uma peça. Consegui o papel principal. Mais tarde, me procuraram para fazer um filme. Aceitei. Depois do sucesso do filme, fiz uma série para a TV. É lógico que, no meio desse percurso, me mudei da comunidade onde morava. Passei a viver num bairro próximo à zona sul da cidade.

Minha mudança de vida surtira efeito. Eu me tornara outra pessoa. Quanto a arranjar namorados, isso é outra história.

quarta-feira, abril 13, 2022

Última façanha amorosa

“Márcia, você é fogo, viu, não perde tempo, mal conheceu o homem já foi com ele.”

“Tem que ser assim, Sônia, vamos que ele desapareça no dia seguinte.”

“Desapareça?”

“Isso mesmo, tem tanta mulher tarada por aí.”

Sônia riu sem discrição, não fazia parte das mulheres taradas.

“Márcia, eu reparei bem, vocês estavam dentro do táxi, ele era bem mais jovem do que você.”

“E o que há de mal nisso? Quanto mais jovem, melhor; há algo que apenas os jovens têm”, revirei os olhos depois da última palavra. Sônia entendeu o que eu queria dizer.

“Ele era um amigo do meu filho.”

“Por favor, mãe, não conte para ninguém, se meus amigos souberem, passo vergonha.”

Estava preocupado, ele tem 22 anos; o amigo, 24, e a mãe, 45, namorada do amigo.

“Por mim, tudo bem, mas fale isso também para ele”, encerrei o assunto.

No dia seguinte, fui com o namoradinho a um passeio. Ele dirigia, eu olhava a estrada. Subimos uma serra, a vista era bonita lá de cima. Chegamos a um vilarejo onde a maioria das casas era de madeira. Estacionou. Fomos até uma das casas. Um restaurante parecido a um chalé suíço.

“Que lugar lindo, não conhecia”, falei.

“Fico contente que você tenha gostado.”

“Verdade, não sabia que, há duas horas do Rio, existe um lugar desses.”

A dona do restaurante veio falar com a gente, trouxe um cardápio comprido. Havia comidinhas da região, peixes de rio, arroz com açafrão. Não faltou a caipirinha.

Em um determinado momento, saí para fumar. Ele permaneceu à mesa. A dona voltou e comentou com ele algo que não consegui ouvir. Fiquei fumando e olhando a pequena praça que distava uns duzentos metros de onde eu estava. Passou, vagarosa, uma perua, que estacionou um pouquinho antes da praça, trazia uma canoa na capota. Uma moça saltou do carro pela porta do motorista. Vestia uma camiseta super curta e estava de biquíni. Achei estranho uma mulher quase nua num local de montanha, mas depois me lembrei da canoa, logo, o rio, daí o minúsculo traje. Ela veio até onde eu estava.

“Você tem um cigarro para me emprestar?”, pediu.

Ofereci. Acendeu no meu isqueiro, agradeceu dizendo que se eu quisesse ela tinha canabis, e o fumo do lugar era ótimo. A moça morava logo na segunda casa a seguir. Agradeci, disse que iria pensar no caso.

“Não pense, não, pegue logo comigo, depois você pode não me encontrar.”

Aceitei. Ela foi até a casa e voltou com um longo cigarro de maconha.

“Não se preocupe, disse, aqui todos fumam, faz bem para a saúde e para a economia local.”

Sorriu depois da frase, como uma expert em economia.

Voltei para o restaurante, não falei nada ao namorado. Comemos e bebemos durante uma hora e meia. Tomei duas caipirinhas e comi alguns camarões.

“Engraçado ter camarões aqui”, afirmei.

“Tem tudo que a gente quiser.”

“Será?”, fiz uma cara de deboche, tentando deixar no rapaz uma ponta de desconfiança sobre o que eu desejava.

Andamos um pouco, saímos do vilarejo e chegamos a um platô, uma altitude acima do conjunto de casas.

Tirei o baseado da bolsa e acendi. O namorado nada falou. Depois de alguns tragos, passei a ele, que fumou com prazer.

“Vi quando a moça te chamou e foi pegar pra você”, disse e apontou o cigarro.

“Não sabia que as coisas aqui são tão fáceis, ela nada me cobrou.”

“Os moradores são afáveis, e vivem de um modo diferente da gente lá de baixo.”

Descemos por uma trilha, chegamos a uma das margens do rio. O baseado não demorou a acabar. Eu me sentia plena de amor para dar. O namoradinho notou.

Tirei toda a roupa e a coloquei no sopé de uma árvore. Entrei no rio. A água fria me provocou arrepios e um pouco mais de tesão. O namorado veio atrás, mas não teve coragem de ficar nu. Abracei-o de frente. A corrente d’água me impregnava de frisson, uma ou outra ave passava e emitia o seu som, o farfalhar do vento sobre as copas, um ou outro barulho no meio do mato, tudo me provocava. Eram coisas maravilhosas para uma mulher da cidade grande, que não sabe o prazer que há em lugares assim.

Não sei quanto tempo permaneci agarrada a ele. Também não sei descrever a intensidade do prazer que eu sentia. Me lembro que pensei: que bom meu namoradinho de 20 anos. Caso eu arranjasse um de 40, tenho certeza, não estaria nua dentro de um rio, banhada por aquelas águas que vinham ainda selvagens de uma cachoeira que não estava muito longe de nós.

Dormimos numa pousada que ficava sobre o mesmo restaurante onde almoçáramos. Ao acordar, na manhã seguinte, encontrei um bilhete do namorado, que eu o encontrasse no rio, no mesmo lugar da véspera. Não perdi tempo, vesti-me sumariamente e corri até o local. Estavam dentro d’água, ele e a dona do restaurante. Acenaram para que eu mergulhasse e me juntasse a eles. Antes, porém, ele apontou a árvore onde ambos haviam deixado suas roupas.

Não contei a Sônia sobre o passeio nem sobre aquela relação a três, de amor ou de amizade, como ele definiu. Foi tão bom que podia dar azar. Nunca é bom falar demais. Acho também que ela não entenderia. Suas histórias de amor são um tanto atrapalhadas. Ela também gosta de andar nua, contou que certa vez foi como viera ao mundo no banco do carona, no carro do namorado. Quando a encontrei, ela quis que eu contasse tudo, mas eu apenas disse adivinhe!, e sorri, um sorriso dissimulado. Ela, para romper o silêncio, contou a sua última façanha amorosa.

quarta-feira, abril 06, 2022

Mulher em dobro

Você tem um pênis enorme, ele me disse.

Como posso ter um pênis?, sou uma mulher.

Também não sei, acho que surgiu de ontem pra hoje, repare, apalpe você mesma.

Verdade, mas como?


Estávamos os dois deitados, ele nu, eu de camiseta, apenas.

Veja, até que é interessante, uma mulher com um pênis, vou me divertir em dobro, disse ele.

Você fala sério?

Claro, será mais estimulante.


Ele me virou, na cama, tirou minha camiseta, segurou onde dizia estar meu peru.


Repare como ele cresce, e você ainda tem a vagina, bonita como sempre. Só existe um problema, não para ser resolvido agora: como você vai usar aquele minúsculo biquíni que veste para ir à praia?, e a minissaia?, acho que um peru deste tamanho vai escapar, um escândalo.

Dou um jeito, falei animada, há jeito pra tudo nessa vida, tanto mais quando se tem um pênis exagerado, mas confesso, apesar do pênis gosto mesmo dos homens.

Não importa, o que vale é estarmos juntos, o pênis é um dado a mais, você vai gozar em dobro, aliás, vou fazer você gozar em dobro.

Então, comece, estou adorando, vou ser uma mulher em dobro, uma mulher com pênis, que goza de duas maneiras diferentes, isso mesmo, estou sentindo, comece assim.

Você vai adorar, disse, mudando de posição, a bunda voltada pro meu rosto.

Continue, amor, estique um pouquinho, segure-o por baixo, estou descobrindo que sou mais sensível aí, isso, devagar, não quero gozar logo.

Que bom, não?, você também pode enfiar, vai ter tal experiência, quero dizer, já está tendo, está gostando, ele dizia enquanto trepávamos.


Entrava uma faixa de sol pela janela.


O que me dá mais tesão é imaginar você vestida de mulher, com esse pênis enorme, duro, embaixo da saia.

Ah, quando sairmos, ele vai ficar pequenino, escondidinho, ninguém vai notar, falei espirituosa.

Mas, se eu roubar tua calcinha?

Não tinha pensado nisso, vixe, de saia e sem calcinha; tenho uma amiga que adora sair sem calcinha, mas não tem pênis; se tem, jamais me falou.

Não deve ter, mas enfia, enfia com gosto, isso, uma mulher com pênis, dá pra gente namorar em dobro, uma mulher que enfia, namoro completo, ele delirava.

Ai, acho que vou gozar, nunca gozei com um pênis, é novidade, como devo fazer?, perguntei sentindo que alguma coisa me escapava.

Não precisa fazer nada, fique quietinha, é natural, funciona como uma planta selvagem, cresce sozinha.

Ai, parece que tenho uma torneira entre as pernas, nunca senti nada igual.

Teu jato é quente, continue, continue, isso, não pare.

Ai, ter pênis é trabalhoso, gozei, não sei mais o que faço, só sei que estou morrendo de vergonha, é assim mesmo, depois do gozo a vergonha?

Não, no teu caso, nada de vergonha, agora abra as pernas, abra bem, vou fazer você gozar pela boceta!


Vânia, prestou atenção na história que acabei de te contar ou está pensando em outra coisa?

Prestei, sim.

O que achou?

Quero ver teu pênis.

Jura?

Juro, vai, mostre.

Primeiro é necessário sentir.

Sem ver?

Isso mesmo, insisti, você precisa sentir.

Minha amiga abaixou a calça.

Isso, fique de costas, primeiro sinta, depois deixo que veja.

Ana, nunca transei com mulher.

Não sou mulher, agora, mas um homem, isso, assim, quietinha.

Ah, estou sentindo, um peru enorme.

Abre bem as pernas, apoie no encosto do sofá, isso, apesar de você de costas estou tentando meter na frente.

Isso, Ana, continue, não pare, não sabia que isso era possível, como você é gostosa, ou gostoso, não sei, não pare, estou toda molhada, não demora gozo, ai, mais fundo, isso, ai ai ai, que gozo, que gozo, não para, mas não goza, não, Ana, deixa eu gozar sozinha, você não, por favor, você não.

Você é muito gostosa, Vânia, isso, assim, mexe também, estou tentando me segurar, estou tentando, ui ui ui, a gente às vezes consegue, outras nem tanto... ui, Vânia, gostosa...


Acabamos as duas lambuzadas, uma caída pra cada lado, Vânia ainda no sofá, eu aos seus pés.


Ana, agora quero ver teu pênis, mostre, ele é muito gostoso.

O bom é sentir, ver não vai fazer efeito, desculpe se não cumpro minha palavra.

Tapei-me com as duas mãos e corri ao banheiro.


Vânia, você viu minha calcinha?, perguntei, ao voltar.

Rá, rá, rá, se não me mostrar, vai com ele dependurado, debaixo da saia!


Cortei um dobrado. Que mulher tarada!

quarta-feira, março 30, 2022

Fugidinha

Domingo de sol com o namorado. Bebemos refrescos com pedras de gelo. Ao longe, a praia. Olho o celular, uma mensagem. De um admirador. Não posso ler à vontade. O namorado aproxima-se, beija-me, acaricia-me, não tem a intenção de olhar o que me vem pelas antenas. Guardo o telefone. É o Alberto, tenho certeza, gosta de me enviar elogios nos dias de domingo.

Certa vez nos encontramos ao acaso e passeamos pela orla marítima a manhã inteira, eu não tinha compromisso naquele dia. Alberto me olhava, com seu jeito sedutor. Eu, calada. Como toda mulher, gosto de ser apreciada pelos homens. Ele sabia que nosso passeio era apenas pelo passeio mesmo, não poderíamos ir além. Em determinado momento, paramos e ele comprou sorvetes. Não sou muito de sorvetes mas, para agradá-lo, aceitei. Minha boca ficou muito vermelha. Morango é a tentação. Teve vontade de me beijar, em meio ao morango, à temperatura fria do sorvete e ao sol que nos enlouquecia o desejo. Passeamos e passeamos. Delicado, despediu-se no final do dia. Já tive namorados desse tipo, me comiam com os olhos e queriam me levar ao seu apartamento, ou mesmo a um hotel. Alberto, porém, nada falou. A gente se encontra por aí, qualquer dia desses, eu disse. Não mais o vi.

Agora, eu com o namorado e a mensagem de Alberto no celular. O namorado disfarça, tenta respeitar minha independência, mas sinto que o ciúme não lhe abandona. Nenhum homem quer sua mulher recebendo mensagens de outros homens, sejam eles apenas amigos ou mesmo parentes, querem a mulher apenas para si. Como conviver com isso? Vai à cozinha. "Vou pegar uma cerveja", diz. Consulto o celular? Não, não consulto. Ele volta rápido e vai me surpreender. O problema de ter compromisso com um homem implica inconvenientes. Como posso saber o que Alberto tem a me dizer? Deve estar na orla e lembrou-se de mim.

Vem-me à cabeça um domingo de outros tempos, um namoro não me lembro com quem. Estava eu na praia, final do dia, acabei na casa do homem. Acho que o lugar era Mangaratiba. Ou será que cheguei a trepar com Alberto naquele domingo? Não, não era Alberto. A trepada foi boa. O homem me tirou o biquíni e se pôs a me acariciar longamente. Tão longamente que cheguei a cochilar. Estava tão bom. Ao passar a língua sobre os meus lábios, despertei. Eu, nua às cinco e meia da tarde, numa casa de praia, com um homem que conhecera horas antes. Será que há outras pessoas na casa?, cheguei a me preocupar. Quando pensei nisso, senti o seu pênis a me penetrar. Suave, muito suave, escorregadio, abria todas as cancelas. Pingos de leite. Por que a lembrança agora, o que a mensagem de Alberto tem de ver com isso?

O namorado volta com a cerveja. “Você está bebendo refresco, mas tenho certeza de que vai me acompanhar na cerveja”. “Acompanho, claro”. Ainda bem, o pensamento, uma fugidinha. Eu, nos braços de outro, a pele lisa, morango com chantili não combina com cerveja. Engulo o morango.

quarta-feira, março 23, 2022

Essas mulheres mentem que só

Uma amiga contou uma história interessante. Há um homem que gosta dela, disposto a convidá-la aos melhores lugares e, até mesmo, a lhe fazer depósitos mensais na conta bancária. Ela, porém, não mais telefonou para ele. Por quê?, eu quis saber. Não diga pra ninguém, não porque eu não seja capaz de aproveitar tal situação, mas o motivo é que conheci outro homem. Continuei admirada. Minha amiga já namorou mais do que um, aliás, mais do que dois ao mesmo tempo. Mas, Valba (vamos lhe dar um nome), você já foi tão mais atirada... Ela voltou a contar sobre a situação, o novo namorado era um homão de quase dois metros, bonitos, de parar o trânsito (achei engraçada a expressão, tão antiga e usada para casos de mulheres bonitas). Não posso me arriscar, Célia, não posso perder o homem. Por que você o perderia?, não entendo, você sempre tão hábil, capaz de endoidecer todos eles. Valba me olhou com seriedade, não ficou calada: há fases da nossa vida em que temos que pisar no freio. A amiga mostrava-se hábil em metáforas automobilísticas. Ele é muito gostoso, jamais tive um homem assim, você sabe que os homens gozam muito rápido, deixam a gente na saudade, ele consegue se controlar, fica trepando durante horas, não imagina o tanto que eu gozo em uma noite ao lado dele, conto isso apenas a você, nada de espalhar por aí, podem me roubar o namorado. Nada disso, rebati, ele deve ser hábil em namorar mais do que uma ao mesmo tempo. Acabei deixando Valba em dúvida, chamei um Uber e fui embora, tinha um compromisso e já eram seis da tarde.

Depois que cheguei em casa, meu compromisso: o vizinho que vive batendo à minha porta às sete horas, dá boa noite e conta alguma coisa que lhe aconteceu durante o dia, no trabalho. Como surgiu a amizade, como tamanha intimidade? Não lembro, são essas coisas que acontecem na vida da gente e não temos explicação. Quando fui morar no prédio, ele já estava lá. Não se aproximou porque moro sozinha. Há outras mulheres como eu nos outros apartamentos. A preferência dele é por mim. Por outro lado, nunca tentou nada além de uma boa conversa. Já saímos diversas vezes, num sábado ou domingo, para um cinema ou um restaurante. No começo, fiquei desconfiada, achei que ele me levaria para cama. No entanto, nunca criou a oportunidade. Agora, acho que já não há clima para isso. Seria gay? Não. Uma mulher me parou na rua para me dizer que meu namorado é muito gostoso. Namorado?, repeti. Aquele homem que vive com você pra cima e pra baixo, já namorei com ele. Sorri, e não lhe disse a verdade, preferi que pensasse em namorados.

Não é um negão de dois metros, como o namorado de Valba, e não tem o aspecto de que vai trepar com uma mulher a noite inteira provocando-lhe orgasmos múltiplos. A conversa dele é sobre livros, peças de teatros e um ou outro filme.

Deu sete horas, ele bateu pra me cumprimentar. Hoje foi um dia especial, trouxe um presente pra você. Pedi que entrasse. Entrou e me deu uma caixa num papel cheio de flores. Chocolate belga, uma amiga acabou de chegar da Europa e me trouxe alguns presentes, achei que esse se encaixaria muito bem pra você. Sorri, com a caixa de bombons belgas nas mãos. Enquanto ele contava alguma história daquele dia, imaginei Valba na cama com o seu homão, gozando várias vezes. Imaginei Valba a receber várias propostas do homem que lhe levaria a vários lugares chique, que lhe faria depósitos bancários, que ela dispensou. Imaginei-a mastigando bombons belgas. Depois, disse a mim mesma, em pensamento, enquanto meu amigo arrematava sua história: Célia, essas mulheres mentem que só.

quarta-feira, março 16, 2022

E ela beijava tão bem!

Estava num restaurante, na Barão da Torre esquina com a Vinicius de Morais. Era domingo de carnaval. Um carnaval em suspenso por causa do Covid. A quantidade de pessoas tanto do lado de dentro quanto na calçada, onde conversavam em pequenos grupos e aguardavam uma mesa, era grande. Entardecia. Muitos vinham da praia. Homens, mulheres, alguns trazendo crianças, muitos rapazes e moças. Nas mesas, todos bebiam seu chope ou algum drink colorido. As mulheres, principalmente, vestiam roupas curtas, como biquínis ou cangas transparentes, que não escondiam corpos bem delineados.

Não sou do Rio, e sempre achei a cidade aberta a qualquer experiência no modo de vestir ou de ser, por isso eu trajava um maiô que me deixava com metade dos seios de fora, o tipo de roupa de banho presa por uma tira em volta do pescoço que, descendo, apresenta as laterais muito compridas, o que permite a apreciação da massa tão adorada pelos homens. Quando a garçonete nos indicou a mesa, recebi muitos olhares; depois, já sentada, não houve disfarce, tantos os homens acompanhados quanto suas mulheres se voltaram para mim. De certa forma, eu sorria em retribuição, como uma turista maravilhada à recepção calorosa. Já que não há carnaval, há as fantasias, pensei, não há problema eu incentivar. Acompanhavam-me duas mulheres jovens, mais ou menos da minha idade, e um homem, de seus trinta anos, ele estacionara o automóvel nas proximidades e chegara alguns minutos depois de estarmos sentadas.

Pedi um drink, como o faziam algumas pessoas, um coquetel de gim, com alguma fruta vermelha, que tinha como cobertura creme de gengibre. O coquetel aparentava ares de milkshake, só que era alcoólico.

Já comera muito durante o dia, naquele momento belisquei apenas dois pastéis de camarão. Depois de conversarmos sobre o dia, os prazeres da viagem, o apartamento onde estávamos instaladas, percebi que um certo pilequinho me avizinhava. Ah, era o gengibre. Tal raiz é afrodisíaca. Lembrei de uma amiga que fazia chá com ele quando esperava o namorado. É uma extravagância, ela afirmava, não tome isso sozinha. Eu, no Rio, com outras mulheres, e sem namorado. Como iria fazer? Dá-se um jeito, tentei me consolar.

Minhas amigas e o amigo comeram torresmo. Sério, de onde se faz torresmo? Sou urbana, desculpe a má pergunta. Da barriga do porco, alguém respondeu. Sempre achei porco um animal tão bonitinho, mas nada falei para não estragar a festa.

Ficamos no restaurante durante uma hora e meia. Eu, atirada, bebi dois do tal coquetel. Meu amigo tomou dois chopes. Vou ter de deixar o carro no estacionamento, afirmou. Não faz mal, disse uma das moças, vamos até a Farme de Amoedo, fica aqui perto e é uma rua muito divertida.

Eram nove da noite quando seguimos pela Vinícius, atravessamos a Visconde de Pirajá, dobramos à esquerda e caminhamos até a Farme. O ar noturno, que vinha da orla marítima, me animou. Minhas amigas observavam as pessoas e faziam comentários. Ao chegarmos à esquina da nossa rua pretendida, havia muita gente conversando na beira do meio fio. Muitos seguravam garrafinhas de Heineken, outros fumavam. Homens conversavam com homens, mulheres com mulheres. Percebi, então, que se tratava de um ponto turístico gay, um dos mais famosos do Rio de Janeiro. Saiu numa revista americana que este lugar está entre os cem melhores do mundo, onde os homossexuais podem se sentir à vontade. Caminhamos até um aglomerado de gente na porta de um dos bares. Muitas mulheres conversavam em inglês; adiante, alguns homens também trocavam palavras na mesma língua. O que vamos fazer aqui?, perguntou uma das amigas. Quem sabe, respondeu outra, não viemos para arranjar namorado nem namorada, ela mesma continuou; mas, às  vezes, descobre-se alguma coisa nova. Uma das americanas veio até a mim, olhou meus seios quase de fora e disse Uau, you are in the right place. Tacou-me, então, um beijo na boca. Nem fiz menção de escapar. E ela beijava tão bem!

quarta-feira, março 02, 2022

Nem algodão nem cola

O carnaval é uma festa de prazer, inventamos tantas coisas boas, depois sentimos falta. No último, antes do Covid, vivi uma situação muito engraçada. Ao recordá-la, hoje, morro de rir.

Vestida apenas de biquíni (quem me conhece, já sabe o tamanho; os outros, imaginem) e com dois pequenos pompons de algodão colado nos bicos dos seios, fui desfilar num bloco que saía domingo, na General Osório. O desfile começava em torno das cinco da tarde e durava mais ou menos duas horas. O bloco costumava contornar a praça, seguir por uma rua lateral e entrar na Vieira Souto; dali, avançava até a Joana Angélica, quando então dobrava à direita e voltava pela Visconde de Pirajá. Porém (sempre há um porém na minha vida, ainda bem), aconteceu-me um problema. Logo no início do desfile, antes de entrarmos na orla, alguém veio me avisar que o pompom que cobria o meu seio esquerdo tinha se soltado e eu estava nua. O que há de mau nisso?, perguntei, o algodão já não cobria mesmo quase nada. Continuei dançando. Mas o pessoal da organização veio conversar. Um homem me pediu, com toda a educação, que vestisse a camiseta do bloco, porque ali havia crianças desfilando, não ficava bem para a agremiação apresentar cenas de nudismo às cinco da tarde. Não discuti, vesti a camiseta e continuei a dançar. Muitas pessoas, que assistiam ao desfile, ficaram aborrecidas, queriam continuar a ver-me nua, ao menos pela metade. Azar o delas, eu tentava me desculpar, nem tudo na vida sai como a gente deseja. Desfilei e me diverti muito.

No final, quis devolver a camiseta, mas o homem disse que eu poderia guardá-la, todos os integrantes tinham direito ao tal brinde. Quem me quer como brinde? Gracejei.

Continuei com meu biquininho, entre os amigos, bebia cerveja com eles. Depois de alguns minutos, lembrei-me de que poderia restaurar a minha fantasia original. Colei novos maços de algodão nos seios e pude ficar, novamente, nua. Os homens passavam só para me admirar. Eu fingia que a fantasia era a coisa mais normal do mundo.

Então, aconteceu o inesperado. Um grupo de travestis veio a mim. Todos estavam muito bem fantasiados, ao contrário do que eu apresentava. Você vem com a gente, por favor, precisamos de uma mulher, e bem nua!, exclamou um deles sorrindo. Bem nua?, repeti rindo. Isso mesmo, assegurou. Tomou-me pelo braço e cochichou-me um segredo. Aceitei o convite, mas fiquei temerosa de ter problemas. Garantimos, há toda a segurança do mundo. Você vai fazer o maior sucesso, disseram; não é de graça não, viu, ainda vai ganhar um cachê.

Fui com eles, um baile no Joá, como nos velhos tempos. Você sabe, mulher tem mais liberdade do que nós, segredou-me outro trans. Olhe o que vocês vão me aprontar, disse e caí na gargalhada.

Na festa, eles faziam parte de uma alegoria. Trocaram de fantasia, vestiram roupas super extravagantes, mínimas, tornaram-se mais nus do que eu. Como não eram mulheres, não lhes era permitida a nudez total. Aqui, é que entro em cena. Na primeira apresentação, apareço dançando no meio deles, com uma camiseta, apenas; na segunda, o biquininho, os chumaços de algodão e uma fita a me rodear o pescoço, uma espécie de colar comprido, cor de rosa, com enfeites aqui e acolá. Depois da meia noite, houve o show principal. As trans entravam dançando quase nuas; a seguir, era a minha vez. Uma delas, depois de duas músicas, vinha até a mim e descolava os algodões; depois, vinha outra e me roubava o biquininho; uma outra despia-me da fita cor de rosa e arremessava ao público delirante. Muitos homens me apontaram a lanterna do celular, tentavam, inutilmente, descobrir onde eu escondia o meu pênis! E não precisei de algodão nem cola.

quarta-feira, fevereiro 23, 2022

Não há dúvida

Eu tinha me separado e me mudado para a serra. É assim que a gente fala aqui na região. Há uma diferença entre morar na cidade, que é a sede do município, e a serra, na verdade um distrito, lugar rústico, de clima ameno, cortado por um rio de águas cristalinas permeado por várias quedas d’águas.

Logo nos primeiros meses, fiz amizades, em geral com pessoas bem mais jovens do que eu. Contaram-me sobre as possibilidades de passeios, como caminhadas e escaladas, recantos de onde se pode apreciar uma paisagem muito bonita. O mais interessante, porém, é o período de verão. Muita gente vem tomar banho na cachoeira ou no rio. Há jovens que preferem o banho à noite, quando, da mesma forma que acontece durante o dia, desejam aliviar o calor trazido pelas correntes de ar quentes que envolvem a região.

Com o passar do tempo, no entanto, não custei a descobrir que a frequência ao banho noturno não é desejada apenas para aliviar o calor, mas porque os rapazes aproveitam para tirar a roupa das moças, que mergulham como Evas e nadam nas águas frescas locais. Formam-se casais sem se fazer alarde, o prazer então é maior.

Como sou dez ou quinze anos mais velha do que a maior parte dos jovens, a princípio fiquei com um pé atrás, mas em poucos dias me apareceu um admirador que foi comigo para o tal banho. Arranjamos um local à margem, arborizado, onde eu pudesse me despir à vontade. Depois entramos n’água e aproveitamos. Caso encontrássemos outro casal, tudo permaneceria na maior discrição, como se fôssemos os únicos no local. Meu namoradinho, que é só para essas coisas (nada de ficar no meu pé, já avisei de antemão), no escuro da noite, entre carícias da água morna e de suas mãos, me contou casos muito engraçados da região, dentre eles o de uma frequentadora gostosona que tem um marido muito ciumento.

Ela, durante o dia, estende uma toalha sobre a pedra, abre uma revista e fica tomando sol vestindo o menor biquíni da região. À noite, quando o marido está de plantão, ela reaparece, e não é apenas para o banho. Há quem diga que ela tem cinco amantes. Como o lugar é pequeno, poucas coisas para fazer, é preciso dar um desconto. Ela deve namorar no escurinho da noite com apenas dois, ou mesmo um. Foi o que pude constatar numa das vezes em que me misturava às sombras das árvores, à cata de minhas roupas. Ela sorriu para mim, um sorrisinho cúmplice e levou um dos rapazes pelo braço. Não notou que eu tinha um acompanhante, fez um sinal que eu esperasse, queria me mostrar algo. Fiquei pensando o que uma mulher poderia mostrar a outra num lugar escuro, depois das dez da noite. O que fiz foi namorar, o máximo que pude. Depois disse ao namoradinho vamos lá pra casa, podemos aproveitar. Após ele ter ido embora, fiquei a refletir o que aquela mulher desejava conversar comigo.

No dia seguinte, descobri. Ela foi bater à minha porta para pedir um favor: aqui todos são discretos, conto com você, viu; se meu marido souber, acho que me mata, não fale nada pra ninguém. Contou em seguida sobre as alegrias que vivia na região. No final, ainda confessou: aqui é como o paraíso, namoramos todos, e eles namoram todas, nunca houve um lugar tão feliz: às vezes a bagunça é tão grande, continuou ela, bagunça no bom sentido, você entende, que volta e meia uma de nós volta nua pra casa, só no dia seguinte é que consegue encontrar as peças de roupa, é o maior arrepio!

Não consigo sentir arrepio em ter de voltar pelada pra casa, mas que os garotos são gostosos, não há dúvida.

quarta-feira, fevereiro 09, 2022

Garota das exclamações

! Sou a garota das exclamações! Tanto mais hoje, porque estou em Búzios. Uma garota de 18 anos, livre, e numa cidade onde todos dizem ser o paraíso, pode não querer nada mais na vida. Mas eu quero! E não é mentira. Ao chegar, logo após o meio-dia, as pessoas hospedadas na pousada me olham com o rabo de olho. Admiram meu corpinho de modelo! Entre elas, há um rapaz. Dizem que ele veio com uns amigos, já me informei.

Cinco da tarde, praia da Ferradurinha, perto do centro, uma fila de homens de todas as idades vira a cabeça quando passei de biquíni. Laura, você não deveria vir com um biquíni como esse, diria minha amiga Dina. Por quê? Porque vão achar que você é bem piranha. Mas em Búzios! Eu exclamaria. Em Búzios e em todos os lugares, eles sempre pensam que somos piranhas, concluiria. É isso que eu desejo, deixe-os pensar que sou uma mulher que dá pra todo mundo! Mas, engraçado, na Ferradurinha, ninguém se aproximou. Em M, logo aparece alguém, quer fogo para acender o cigarro, uma informação, histórias de que estão há pouco tempo na cidade, dicas de restaurantes e bares badalados. Não sou guia turística, afirmo sorridente. Uma vez dei informações a um dinamarquês; quando ele foi ao bar, quem estava lá? Euzinha, aqui! Búzios é uma cidade onde as pessoas são discretas. Quem é interiorano, não vem para cá. Os rapazes nos olham de longe, ficam sonhando com uma boa trepada. Muitos ficam apenas no sonho! Eu não quero sonhar. Há um jovem lindo, de bermuda florida. Levanto, caminho até a beira d’água, perto dele. Está fria!, exclamo. Ele ri. Gosto do Nordeste, porque lá a água do mar é sempre quente, falo, quase em segredo. Ele me olha, sorri, quer dizer alguma coisa, apenas repete: sempre? Isso. Outra coisa, para arranjar namorada é bom, porque há muitas mulheres!, falo. Sério?, arregala os olhos. Sério, afirmo, mas há um lugar melhor do que lá para isso, continuo. Onde?, ele parece interessado. Em Búzios. Em Búzios?, repete em forma de pergunta, dando bastante entonação. Em Búzios, repito. Aqui, então, ele confirma. É lógico que é aqui, idiota, penso mas não chego a dizer. Perco a vontade de abraçá-lo. Afasto-me. Tenho certeza de que pensou que sou eu quem deseja arranjar namorada. Quando estou dentro d’água, outro rapaz se aproxima dele. Os dois trocam algumas palavras sobre mim, tenho certeza.

À noite, em Búzios. Não fale, a noite em Búzios é uma loucura. Não vá com ninguém antes das duas da madrugada, me aconselhou Dina. Por quê?, quis eu saber. Porque você vai perder o melhor da noite. Não posso perder e ganhar?, eu sempre querendo compensar. Como assim?, ela é esperta, mas prefere me escutar. Conheço um às onze, outro à meia-noite, outro a uma da madrugada, fico com um, com outro etc.; depois, às 2h30, o principal. E se o primeiro não te largar?, ela quis saber. Sou eu que vou largá-lo... Às vezes não é assim que as coisas acontecem!, exclamou.

As moças andam de shorts, ou mesmo de biquínis, não há muita diferença. Como sempre, o número de mulheres é maior, muitos homens juntos também. Oi, você está na minha pousada, escuto de um rapaz. Ele é bonito. Mas ainda são 22h00. Tenho vontade de dizer me procure depois das duas, mas mantenho a linha. Estou, sim, na sua pousada. Ele me toca as mãos. Vamos beber uma cerveja, diz. Prefiro Absolut! Ele arregala os olhos. Absolut? Movo a cabeça, faço um movimento de face que diz é óbvio. Ela bebe e a levo para cama, adivinho seu pensamento. Mas é ele quem bebe uma Heineken, fica altinho e vai com os amigos.

Moça, você é muito bonita, precisamos de mulheres jovens e bonitas, para uma festa numa mansão; você vem com a gente? Três garotas no banheiro me convidam. Uma festa particular, com piscina, open bar... Isso mesmo, diz a mais espevitada. Mas como vou saber que vocês não vão me dar um golpe, que não se trata de armadilha? Tais pensamentos me afastam da magia do local. A do meio diz: ela não conhece a gente, é um pouco difícil decidir, eu ficaria também na dúvida. O que pode acontecer?, pergunto-me. As moças são tão bonitas. Logo, a seguir, respondo: vou! Não há perigo em Búzios, é o paraíso, reflito. Quero fazer duas perguntinhas, tudo bem?, peço. Pergunte, diz a mais alta. Vocês conhecem os donos da festa? Conhecemos, é um velho amigo. E bota velho nisso, diz a menor, sempre sorrindo. Agora, a segunda pergunta: O máximo que pode acontecer é a gente ter de ficar nua, não é mesmo! No lugar da pergunta, exclamo. As três riem, a mais alta diz: você parece ser uma mulher experiente!

quinta-feira, janeiro 27, 2022

Minha conhecida e seu namorado

Outro dia encontrei um ex-namorado e senti uma ponta de inveja. Ele, agora, namora uma conhecida minha. Foi ela quem veio me dizer. Já estão junto faz um tempo. Vou contar a história do início.

Quando vim trabalhar aqui em M, ele foi uma das primeiras pessoas que conheci. Tinha uns quarenta anos, mas a aparência era de alguém mais jovem. Comecei a ficar ao lado dele, a ir almoçar sempre com ele, até que me convidou para sair à noite. Naquela época, eu tinha acabado de me separar, por isso tudo se encaixou. Ele também estava sozinho, contava uma mesma história de separação.

Quando vi minha conhecida na semana passada, tive vontade de perguntar se ele faz com ela as coisas que fazia comigo. Mas não me veio a coragem. Pode ser que a mulher pensasse que sou louca.

À época, trabalhávamos aqui em M, mas ele tinha um apartamento no Rio. Nos finais de semana, viajávamos para lá, frequentávamos cinemas e teatros, além de bares e restaurantes. Uma vida e tanto. Mas havia um problema, ou melhor, um problema no início, depois deixou de sê-lo, porque passei a gostar da situação. Depois de dormirmos juntos algumas vezes como pessoas normais, ele pediu se podia me amarrar. Quando ouvi a palavra, me assustei. Seria o homem um tarado e eu não havia percebido? No entanto, acabou conseguindo seu intento. Num dia em que eu estava mais excitada, permiti seus nós e laços, deixando-me atada à cama. Então subiu sobre mim e trepamos. Eu, imobilizada; ele dizia relaxa, relaxa e goza. Numa outra vez, além de amarrada, acabei amordaçada, e a trepada foi ainda mais intensa. Não posso perder esse homem, eu pensava. As ousadias dele foram se multiplicando. Uma outra noite, além de amarrada e amordaçada, senti a ponta de uma tesoura a percorrer-me a pele; depois, cortou um pouco dos meus pentelhos; a seguir, pegou o aparelho de barbear e me depilou por inteira. Que situação! No momento de vir sobre mim, ele disse espere um pouquinho. Afastou-se, notei que levava minhas roupas e a maleta onde estava o restante dos meus pertences. Quis perguntar o que fazia, mas o esparadrapo grudado à minha boca impediu-me. Voltou após alguns segundos, subiu sobre mim e começamos a transar. Eu não sabia se me entregava ou se tentava perguntar o que estava acontecendo, dava uns grunhidos, o significado era que ele me deixasse falar. Mas tudo que consegui foi escutar sua voz: relaxa e goza, não se preocupe, levei suas roupas e sua bagagem para o corredor do prédio, vamos ver se alguém acha; caso isso aconteça, você vai ficar pelada, sem ter o que vestir, mas as mulheres bonitas sempre dão um jeito. Passei a saltar sobre a cama, levantando as costas e as nádegas, do modo que podia, queria me soltar das cordas e dos laços que me atavam e ir lá fora recuperar minhas coisas. Ao me ver tão desesperada, disse não se preocupe, você é uma professora de literatura, entende de linguagem figurada, vamos aproveitar a noite. Lembrei-me então de que muitas vezes ele falava algo que significava o contrário. Comecei a achar que se tratava de mais uma de suas brincadeiras. Fui me acalmando, transamos muito gostoso e gozei em meio a todas aquelas metáforas.  Dei pela situação real quando ele me soltou. Corri, abri a porta. Onde minhas roupas e bagagem? Hoje, muitos anos depois, com tudo resolvido, dá até para rir.

Minha conhecida que o namora atualmente vive também isso tudo ou será que ele já amainou o fogo? Desconfio que não, ela tem cara de sapeca. E, nessa cidade, já ouvi falar de mulheres que saem à noite nuas, ao lado do namorado.

Quando cheguei a casa, olhei o meu marido vendo TV. Conheci-o quando ainda estava com o tal das cordas e laços. Senti uma ponta de desgosto. Homem sem imaginação, este marido.

Ah, minha conhecida e seu namorado, onde estão agora, o que fazem? Que inveja.

terça-feira, dezembro 21, 2021

Paredes

Eu estava subindo pelas paredes. Como tenho um amigo para essas horas, telefonei para ele. Antes eu entrava num site, e procurava alguém. Mas, um dia, houve um incidente, por isso, por segurança, passei a preferir o amigo.

Você quer aproveitar?, perguntei pelo telefone, aproveite, assim como eu, mas não vá se apaixonar, viu.

Nada disso, meu amigo é profissional. Veio no mesmo dia. Recebi-o vestidinha, disfarçando o fogo. Às vezes, eu dava um suspiro.

Lembrei-me, então , de uma amiga. Ela diz ter umas lingeries lindas, tudo presente do namorado. Visto para ele tirar. Adorável, um namorado que dá calcinhas de presente. Quando ela quis saber se o meu não era semelhante ao seu, ao menos em relação aos presentes, eu disse num tremelique de lábios: ah, o meu leva minhas calcinhas de lembrança, volto pelada pra casa.

Meu amigo conversou um pouco, contou umas histórias, rimos, bebemos cada um uma taça de vinho. Depois, pediu-me que encostasse a uma das paredes.

Quero ver você subir.

Não!, alertei, pedi que você viesse aqui para evitar que eu as escalasse.

Tirou minha roupa. Senti o frio da alvenaria sobre os seios, eu de costas para ele. A seguir, me suspendeu, e me penetrou a boceta, como os cães fazem com as cadelas. Permaneci alguns segundos suspensa, colada à parede, como uma aranha, equilibrada na ponta do seu pênis.

A posição me excitava. Gritei forte. E nunca gozei tanto. Ele teve de abafar o som.

O síndico vai chamar a polícia, vai pensar que alguém está te matando, sussurrou no meu ouvido.

Me mata, me mata de tesão, quero morrer assim, gritava eu cada vez mais alto.

Depois me levou para cama, onde o enlevo foi mais suave. Mesmo assim, meus orgasmos se multiplicaram. No final, fechei os olhos e dormi.

Quando acordei, ele já tinha partido. Ainda bem, eu ainda nua. Nessa hora é bom estar sozinha. Morro de vergonha depois do gozo.

terça-feira, dezembro 14, 2021

Enroladinha

Outro dia li uma história onde havia uma personagem feminina que, ao ver um homem forte, másculo, bonito, molhava a calcinha. Verdade, ficava a mil e não conseguia evitar o gozo. Aliás, gostava mesmo da sensação, sexo a flor da pele. Lembrei algumas vezes em que senti a mesma coisa. Quando vou à praia vestindo um biquíni mínimo, daqueles que deixam meu bumbum todo de fora, não chego a molhá-lo devido a um eventual orgasmo, mas atinjo as bordas. Quando ando, sinto o tecido apertado, todo entrado atrás, a pressão por baixo da minha vagina, os músculos da minha bunda mexendo-se e atraindo olhares. Da primeira vez que usei um biquíni desses, senti-me nua, mas pouco a pouco me fui acostumando, imagino mesmo comprar um menor. Há mulheres que andam de biquíni no calçadão da orla marítima, fazem o maior sucesso. Nós, que vivemos aqui, não chegamos a tanto, caso precisamos ir ao calçadão vestimos a saidinha de praia. Estive conversando com uma amiga que não via fazia tempo. Ela costuma ir  à orla apenas de biquíni, pede para quem está próxima para tomar conta de suas coisas. Perguntei se não achava esquisito ir passear praticamente nua na calçada. Que nada, é gostoso, respondeu, os homens ficam olhando, sinto que me comem com os olhos, além disso, a gente arranja namorado com facilidade. Perguntei se ficava excitada. É um gozo, chegou a dizer. Outra que molhava o biquíni. 

Certa vez gozei na praia, tenho de confessar. Mas não foi sozinha. Tive um namoradinho que entrava na água comigo. Então, acontecia. Deixei uma ou duas vezes que tirasse o meu biquíni. A gente nadava até um ponto onde havia poucas pessoas e... acontecia! Uma transa e tanto. 

Sempre achei que, para gozar, seria preciso alguém a me tocar, a me acariciar, um grande pênis a me penetrar. Mas, através de histórias, e depois de conversa com amigas, descobri que não é bem assim. Uma me contou que já gozou ao mergulhar numa praia. A água estava tão fria, que a fez chegar ao orgasmo. Há outra que me narrou uma aventura arriscada, mas adorável. 

Saía à noite com o namorado e realizava algumas fantasias. Na verdade, gozava com as fantasias. Uma das vezes veio à praia depois da meia-noite. Entrou na água e tomou banho de mar nua. Um gozo. Outra vez pediu para ele levá-la a passear nua. Mais um orgasmo. Mas o principal aconteceu numa madrugada de outono. Ele parou o carro numa estrada escura, os dois desceram e ficaram namorando do lado de fora. Ela despiu-se. Ficou vestida apenas com o casaco que lhe descia até a cintura e uma bota de cano curto. Namoraram encostados na lataria do carro, a seguir sobre o mato, próximo à estrada. Antes de irem embora, pediu que ele desse uma volta de carro e voltasse depois para buscá-la, que demorasse uns quinze minutos. Mas você está nua!, ele. Por isso mesmo, ela. O namorado aceitou. Quando ele partiu, ela ficou molhadinha. Gozo jamais sentido. Não perguntei se ele voltou! 

Desde então tenho pensado nisso, gozar com minhas fantasias. Uma delas é ir a uma cidade próxima, que dista trinta quilômetros daqui, onde não conheço pessoa; ir vestida como se fosse outra mulher, criar na verdade uma personagem. Conhecer alguém, trepar, não dizer meu nome nem saber o dele. Antes de voltar, deixar-lhe um presente. A calcinha. Enroladinha.

terça-feira, dezembro 07, 2021

Você acha isso normal?

Já que você fica me pedindo pra contar minhas aventuras, escute, então. Veja como os meus mamilos estão durinhos, como estou arrepiada, acho que é a batida de maracujá. A história envolve algo que me aconteceu e que me agradou, o problema é que acho absurdo ter gostado do tal fato. Tive um namorado que me queria nua ao seu lado, sentada no banco do carona, a passear com ele de automóvel. Posso ser presa, eu disse. Não, aqui nesta cidade já não tem polícia de dia, imagine à  noite. Acabei fazendo-lhe a vontade. Além de sair pelada, como estou agora nesta poltrona, também saltei do carro num trecho da rodovia estadual. Pedi pra ele dar uma voltinha e depois retornar pra me buscar. Ele deu a partida, e fiquei ali, nua, nua. De repente, me senti molhadinha entre as pernas! Às vezes vinha um carro ao longe, eu me agachava dentro do mato, ao lado do acostamento. Depois de um quarto de hora ele voltou, entrei no carro e fomos pra sua casa. Trepamos durante o que restava da noite. Você sabe, toda vez que passo pelo local, sinto saudade do ex-namorado, daquela madrugada, sinto falta de tudo que aconteceu. Você acha isso normal?

Vocês, homens, acham tudo muito normal. Outra história, aconteceu alguns anos antes da que acabei de contar. Conheci um homem no cinema. Ele era bonito, fui eu que o abordei. Sabe aquela velha história, conheço você de algum lugar? Ele caiu direitinho. Ficamos conversando, vimos o mesmo filme, lado a lado, e deixei pegar a minha mão. Na saída, me ofereceu carona. Moro no Meyer, vou de ônibus. Ele insistiu, acabei aceitando. Pra encurtar, marcamos de nos encontrar na semana seguinte, acho que um sábado no final da tarde. O encontro foi em frente ao cinema Odeon. Ficamos conversando, fomos a um café, depois me convidou pra ir à casa dele. Morava no centro. Enquanto caminhávamos, pensei se esse homem for louco? Mas o desejo de estar com ele era maior. O apartamento era pequeno, havia uma saleta e um quarto com uma cama de casal. Que bom, tão difícil arrumar namorado nos dias atuais. Passaram alguns minutos e a gente começou a se agarrar. Naquele tempo eu era mais tímida do que hoje, pedi que tivesse paciência comigo. Fiquei então de calcinha e sutiã. Beijei-o com muito ardor. Após uma hora daquele agarramento, insistiu pra me tirar o sutiã. Acabei permitindo. Ele me abraçava, a gente rolava na cama, e eu de calcinha. Não fomos além, tenho certeza, só trepamos uma ou duas semanas depois. É uma história diferente, não? Eu, super tímida, de calcinha, cobrindo os seios com as mãos!

Me dá um cigarro, vai, acende pra mim, te conto mais uma. Ah, que gostoso. Só fumo nessas ocasiões. Certa vez fui a Búzios. Eu e uma amiga. Quando a gente viaja a um lugar onde ninguém nos conhece, é ótimo, não temos preocupação alguma. Ficamos em uma pousada. Um fim de semana prolongado. Fomos a várias praias, bebemos demais, ríamos à toa. Minha amiga se chamava Iracema, veja que engraçado, quase ninguém se chama Iracema hoje, deve estar agora beirando os cinquenta anos. A gente pintou e bordou. Conhecemos de cara dois sujeitos. Eu disse não fala onde estamos hospedadas. Entramos de biquíni no carro deles. Adivinhe o que aconteceu. Isso mesmo o que você está pensando, logo de primeira, não tinha nem duas horas que estávamos na cidade. Pedimos, depois, que nos deixassem numa determinada praia. Eles nos atenderam, mas ainda ficaram com a gente um tempo enorme. Queriam marcar encontro à noite, a cidade tem uma ótima vida noturna, disse um deles. Mas desconversamos, não queríamos ficar presas a eles. Eu disse de repente a gente se encontra ao acaso. Eles concordaram e foram embora. À noite, colocamos vestidos leves e soltos, fomos à tal rua das Pedras. Não passou muito tempo, paramos num bar bem movimentado, dois ingleses vieram conversar. Nem conto o resto, você pode imaginar. Não foi logo de primeira, como à tarde, mas depois das duas da madrugada, onde eles estavam hospedados. Havia outras pessoas, um hostel, fiquei achando que chegaria alguém e me surpreenderia nua. Mas acabou tudo bem. Trepei com dois homens num espaço de doze horas. E Iracema (que alegria!), também nua, em dia com seus orgasmos, dizia: me ajuda a encontrar o vestidinho.

Agora, estou com você, que gosta de ouvir minhas aventuras. Isto é normal? Traz mais uma batida pra mim, por favor.

quinta-feira, dezembro 02, 2021

Aproveitando

Na minha cidade, somos muitas e todas queremos arranjar namorados. Não precisa ser nada sério, mas mesmo assim não é fácil. Já faz tempo que perdi as esperanças. O último que frequentou meus lençóis, ouviu de minha voz um segredinho: não demora você vai me trocar por garotas mais jovens, elas são muitas aqui na cidade. Passaram-se algumas semanas, ele se foi. Poxa, por que não ficou comigo e com a moça de 18 anos, que desfila de biquininho na principal praia da cidade? M não é uma vila, mas, mesmo assim, todas nos conhecemos. De um tempo para cá, começaram a aparecer moças muito jovens, não sei se por causa da universidade, ou se vieram acompanhando pai ou mãe que passaram a trabalhar nas empresas de petróleo. O que é certo: uma delas roubou-me o namorado. Mas é a vida, e ele tem o livre arbítrio.

Passei, então, nos dias de folga, a viajar para outra cidade, passear, aproveitar a vida. Num feriadão, fui a Cabo Frio. Para quem mora na região, o local não é dos melhores. Mas serve para variar, para conhecer novas pessoas. Fiquei num pequeno hotel, a praia quase em frente. Naqueles dias, hospedava-se no mesmo hotel um grupo de rapazes. Acabei amiga de alguns deles.

Você está sozinha?, o mais atirado perguntou. Não se fica sozinha na maturidade, cheguei a dizer, sempre há alguém no nosso pé. Ele riu. Fosse mais perspicaz, perguntaria onde estava meu pé.

Não quis, logo de primeira, dar mole para um deles, não ficaria bem, tenho o dobro da idade. Mas eles me acharam bonita, chegaram a me chamar de gostosona. Tive de rir. Aquele grupinho devia ir pelos vinte e poucos anos.

Em M, tenho uma amiga que adora trepar com garotos jovens. Diz que o peru deles é bem duro, e fica assim por muito tempo. Há apenas um problema: eles precisam entender o que ela deseja. Durante o tal feriadão, a imagem de minha amiga de quase cinquenta anos trepando com um rapaz de vinte três não me saía da cabeça. Apesar de não jovem, ela tem seus artifícios. Certo dia, quando foi despi-la, o moço descobriu que ela estava sem a calcinha. Você nunca reparou?, perguntou com cara de sapeca, já saí tantas vezes com você só com o vestido sobre a pele. Ela consegue, com suas artimanhas, manter o namoradinho. As garotas jovens não sabem nada disso, me diz em segredo.

Numa das noites, fui a um restaurante com música ao vivo. Era a única sozinha em uma das mesas. Os homens estavam acompanhados. Havia também muitas mulheres sós. Bebiam, riam e tentavam se entender entre a algazarra da noite. Pedi uma caipivodca. Lá pelas tantas, avistei meus amigos, os jovens que estavam no mesmo hotel. Dois deles vieram sentar à minha mesa. Os demais tinham outras expectativas. Bebiam cerveja, estavam muito alegres. Vestiam bermudas e camisas coloridas. Quando levantei e fui dançar com um deles, repararam que eu trajava minissaia. Meu par gostou de dançar coladinho. Como havia muitas mulheres, eles todos se arranjaram. O que ficou comigo também se arranjou. Adivinhem com quem? Caso você queira acompanhar seus amigos, não faça cerimônia, cheguei a sussurrar no seu ouvido. Mas ele não foi, permaneceu ao meu lado, acabou me abraçando, me beijando e voltamos juntos para o hotel. Seus amigos perderam-se pela cidade nos braços de moças fresquinhas, recém-saídas da adolescência.

Meu namoradinho me acompanhou depois que deixamos o tal restaurante com música ao vivo. Caminhamos até a beira da praia. Além de nós dois, ninguém no local. Abracei-o. Continuou agarrado a mim. Você não gosta de mergulhar, que tal entrarmos n’água? Riu e disse: você é muito doida.

No hotel, passou a última noite no meu quarto.

Não conte pros teus amigos, viu, vão ficar com inveja, duvido que aproveitaram tanto.

terça-feira, novembro 23, 2021

Ao modo deles

Vocês sabem, a Margarida deixa a gente escrever aqui, é super legal, por isso vou contar uma história divertida e diferente das que vocês costumam ler.

Para uma mulher, as coisas já não são fáceis, imaginem em relação a mim, que pareço mulher mas não sou. Quem me observa a princípio engana-se, mas pouco a pouco acaba descobrindo a verdade. Para quem gosta de travestis, sou um prato cheio. Minha voz é de mulher, e sou  discreta, o que tranquiliza muito os homens.

Aliás, quase tudo em mim é de mulher, menos o pênis. Amigos e amigas perguntam por que não me submeto à cirurgia. Não quero. Gosto de ser do jeito que vim ao mundo. Não por uma questão de natureza, mas porque sinto prazer assim.

Quando arranjo namorado, ele pensa que sou como todas as outras, que gosto de trepar por trás. Mas não é o meu desejo. Me visto de mulher, tenho todo o jeito de mulher, gosto de namorar homens muito masculinos, mas no momento do sexo sou diferente. Mesmo trepando com homens, beijando-os, acariciando-os, peço para segurarem meu pênis. Sinto prazer imenso quando atendem. Há um modo de tocá-lo e de acariciá-lo que me dá muito prazer, preciso mesmo me segurar para não gozar no primeiro momento. Geralmente, os namorados dizem: "os travecos gostam de trepar com o cu, você quer ser diferente, por que não namora mulher?" Tenho então de explicar mais uma vez. Gosto de homens, não de mulheres, o local por onde gozo é outra história. Por isso, na maioria das vezes, estou sozinha.

Arranjar um homem que respeite meu jeito de ser é complicado. Caso queira, posso fazer sexo anal com ele, mas sou eu que vou enfiar o pinto no seu cu. A maior parte não quer assim. Há um nome para pessoas de preferência sexual como eu, mas não gosto das classificações, elas são elaboradas pela medicina.

"Existem muitas maneiras de namorar, e proporcionam imenso prazer", tento explicar para o recente namorado.

Vamos ver se este vai querer ficar comigo depois da tal conversa.

“Mas você nunca trepou por trás?”, quer ele saber, pensa que sou virgem, talvez, quem sabe, será o primeiro a experimentar, que prazer...

“Já, claro, já trepei por trás e ainda trepo, mas não tenho gosto, o que me dá prazer mesmo é quando o namorado acaricia o meu pinto, tanto melhor por baixo.”

Um candidato ao namoro disse-me que os travestis não gostam que encostem no peru deles, porque a ereção, quando acontece, produz hormônios masculinos e isso lhes causa problemas. Quanto a mim, tal ação não me afeta. Quando estou nos braços dos homens, tenho ereção, o que não acontece quando me vejo entre as mulheres, mesmo que estejam nuas à minha frente.

Às vezes, para arranjar namorado que aceitem meu jeito de ser, crio algumas fantasias. Os homens adoram fantasias. Sabem a história do travesti de minissaia ou vestido curto mas sem calcinha? Viajo na maionese contando casos no ouvido deles.  Com a voz um tantinho trêmula, descrevo minhas aventuras pela cidade. Querem saber como faço para meu pinto não escapar pela barra da minissaia. “Ah, é segredo, um produto ajuda a segurar, mas às vezes vai soltinho...” Ficam loucos, loucos de tesão.

Tive um namorado que me pediu para sair apena de camisa, dessas que descem até as coxas. Claro que aceitei. Vesti a tal roupa e coloquei um cinto estreito; a bolsa vermelha a tiracolo e o sapato combinando, um show. “Viu, não é só do jeito que você quer trepar que conta”, falei baixinho.

Quando fui com ele à praia, perguntou:

"Como você faz para usar um biquíni tão pequeno?"

"Ah, não posso contar, segredinho."

Dentro d'água, tentou desfazer os meus lacinhos!

Assim, vou levando os relacionamentos. Mas é preciso cuidado. Não é bom sair com qualquer um, tanto mais de primeira, precisa-se conversar bastante. Muitos homens ainda vivem à moda antiga, querem tudo ao modo deles!

segunda-feira, novembro 15, 2021

Não dá pra ser tudo como a gente quer

Tenho um namorado que adora me levar à praia e me deixar nua. Sério. No começo, achei aquilo estranho. Quem sabe, estou me relacionando com um tarado. Com o passar do tempo, no entanto, passei a gostar da brincadeira. E, a partir de então, não há vez em que não peço a ele pra tirar a parte inferior do meu biquíni. A gente entra n’água e procura um local pouco frequentado. Ele me tira a pequena peça e guarda dentro da bermuda. Não vai perder, alerto. Às vezes, sai d’água e guarda meu biquíni lá onde estão nossas coisas. Nesses momentos, o frisson é intenso. Esses fatos me fazem lembrar também de outra relação, que terminei não faz muito tempo, acho que há um ano e pouco. Era outro tipo de homem, jamais me sugeriu tais brincadeiras quando íamos à praia. Acho que nunca pensou nisso. Era diferente o homem. O bom era quando chegávamos a casa. Esperava que eu tomasse banho. Quando eu saía, pedia que o esperasse na cama, sem me vestir. Tomava também uma ducha e vinha deitar ao meu lado. Adorava minha pele ainda quente e bronzeada. Me fazia mil carinhos. Quando sentia que eu ia a mil por hora, metia seu enorme pênis dentro de mim. Não era como normalmente são os homens, preocupados com o próprio prazer, sempre prestes a derramar aquela quantidade imensa de porra dentro da gente. Esperava, vinha vagaroso. No sexo, há algo de selvagem, grande parte das pessoas deixa transparecer seu lado animal. Aquele homem, não, dominava todos os seus gestos, gostava de prolongar o gozo. Até então, sempre que eu deitava com alguém, pedia que ficasse o máximo de tempo dentro de mim. Certa vez cheguei a falar fica a noite inteira, por favor. Mas àquele namorado, não era preciso palavra alguma, nenhum alerta, ele me compreendia, acho que conhecia a natureza das mulheres. Talvez por isso não namoramos durante muito tempo. Era assediado por todo o tipo de mulher, eu mesma descobri. Ficava comigo a maior parte do tempo, mas elas não o largavam. Ele, como homem, não negava. Caso eu o quisesse num relacionamento sério e estável, teria de compartilhá-lo com outras mulheres, ao contrário ficaria chupando o dedo. E foi o que aconteceu. Quando tenho alguém, quero só pra mim.

O namorado que gosta de me deixar nua dentro d’água, na praia, não é como ele. Quando me penetra, a transa não vai muito longe, goza logo, não espera, nem tem tal preocupação. Demora a me devolver o biquíni, isso sim, diz que tenho de sair nua de dentro d’água. Um dia desses chegou a subir até o quiosque para comprar uma cerveja, me deixou de molho, só de top. Mas, no final, tudo acabou bem. O único problema é que, como falei, goza muito rápido. Conversamos sobre isso, tento lhe mostrar que é possível prolongar seu prazer. Mas acho que seu prazer mesmo é me deixar nua na praia! Na vida, não dá pra ser tudo como a gente quer.

terça-feira, novembro 09, 2021

Pingar mel em uma fatia de pão

Entrei no apartamento dele, segui o curto corredor, logo estávamos na sala. Um sofá de dois lugares, a mesa, três cadeiras, um pequeno aparelho de som e, na parede, um quadro a grafite, um homem numa cidade, talvez Amsterdã, o casario, um canal e pessoas passando ao fundo. Que tipo de música você gosta?, perguntou. Alguma de ritmo lendo, instrumentos perfazendo notas longas, ou coisa parecida, falei. Sentei-me no pequeno estofado, a música não demorou a inundar o ambiente. Ele desapareceu para voltar após menos de um minuto com a garrafa de vinho. Duas taças, o tira-rolhas, dois pequenos pratos. Arrumou tudo sobre a mesa. Havia um livro sobre ela, numa das pontas. Afastou-o para um suporte lateral, desdobrou a toalha que – só então reparei – ficara enrolada num dos cantos, como um logo canudo. Não quer conhecer o restante do apartamento?, perguntou enquanto abria a garrafa. Temos tempo, pronunciei em voz baixa as duas palavras. Experimente, ele pediu. Provei o vinho, aprovei com breve sorriso. Completou um pouquinho mais a taça, brindamos e bebemos os primeiros goles.

    O apartamento do namorado trouxe-me à memória um homem com quem me relacionei fazia alguns anos. Tudo era muito parecido. Será que não era o mesmo, que voltava e eu, desligada que sou, não reparava? Nada disso, a cidade era outra, o bairro à beira-mar. E naquele tempo aconteceu algo engraçado. Sim, uma coisa divertida. Eu, que não sou de muitos sorrisos, principalmente no começo de um namoro, perguntara ao homem se poderia tirar a blusa. Na época, mesmo com o mar próximo, fazia um terrível calor, anoitecia, a hora em que parecem refluir todos os raios do sol irradiados durante o dia. Claro, dissera. Tirei a blusa e o top, sentei-me na poltrona, apenas de bermuda. Agora, não fazia calor, e eu, de um tempo para cá, passei a ter crises de vexo. Sério, depois dos trinta e cinco, uma mulher que sente vergonha é coisa rara. Mas o que há de se fazer?

    

    A música expandia-se com novos instrumentos, não se ouvia voz, apenas o som de cordas e metais, talvez um jazz um tanto mais animado. Ele sentou-se ao meu lado. Você sabe recitar poemas, sugeriu, bem perto dos meus ouvidos. Têm livros de poesia?, perguntei olhando em volta, encontrei uma pequena pilha deles sobre a mesinha lateral, onde também havia uma luminária. Tomou nas mãos alguns deles, Rimbaud, Carlos Drummond, Bandeira, Florbela Espanca, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos. Ulisses, de Joyce. Nossa, acho que vou ler este, peguei o grosso volume, é prosa mas cheio de poesia. Riu. Você tem um charme e tanto ao falar assim, acrescentou. Não, não é charme, ou o charme não é meu, mas da literatura. Folheei o começo do Joyce. O homem foi acho que à cozinha, voltou com dois tipos de queijo, uma garrafa de água mineral, abaixou o volume da música. Você sabe que eu morria de vergonha de ler em voz alta, na época da escola?, encarei-o depois da minha confidência. As meninas eram as mais atiradas no meu tempo de escola, disse ele. Ah, sim, atiradas, mas em outro sentido, intervi. Riu mais uma vez, gostou da insinuação, mas não tinha maldade no pensamento. Morria de vergonha, verdade, continuei, depois me tornei atirada, como você diz; mas, agora, depois dos trinta, sinto vergonha de novo, não para ler umas páginas do Ulisses, é claro.

    “Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba [arregalei os olhos instintivamente e olhei para o namorado]. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:

– Introibo ad altare Dei.

Parado, ele perscrutou a escada sombria de caracol e gritou asperamente:

– Suba, Kinch! Suba, seu temível jesuíta!”

    Pronunciei a última frase com entonação teatral. O namorado arregalou os olhos, como se dissesse continue, continue. Mergulhei nas páginas seguintes. Durante vários minutos, enveredei pela trilha do autor dublinense.

    “Toda Irlanda é lavada pela corrente do golfo – disse Stephen enquanto deixava pingar mel em uma fatia de pão.”

    Após essas últimas palavras da leitura, olhei a mesa, como se procurasse o pão com algum mel para derramar sobre. Genial, genial mesmo, revelou-se entusiasmado, me vi no teatro, a maior viagem, acrescentou, seu vocabulário não correspondia notadamente ao de Joyce. Está ótimo, continuou, adorei, e olha que as atrizes não se sentem envergonhadas. Levantou-se e foi cortar umas fatias de pão. Você quer mesmo o mel?, quis saber. Quem sabe, irônica, deixei o livro de lado.

    Depois de duas rodelas da baguete, do queijo com mel, e de eu ter bebido uma taça de vinho quase inteira, ele veio sentar-se ao meu lado. Você disse que se tornou envergonhada, não é mesmo? Talvez, respondi, sucinta. As mulheres são assim mesmo, sentenciou. Eu não teria tanta certeza, conheço uma que chega à casa do namorado e, a primeira coisa que faz, é ficar pelada. Ela não lê versos de poemas?, ele, sarcástico. Talvez leia, ou melhor, pode ser que peça para o homem ler, mas a literatura do corpo dela. Literatura do corpo, repetiu, não deve ser tão bela como a de Joyce. Não sei, eu não teria tanta certeza, finalizei. Naquele momento, senti sua mão apertar-me os seios nus, seus lábios procurarem os meus.

segunda-feira, novembro 01, 2021

Aqui já é outra a história

As roupas que eu usava eram mais sensatas que as da maior parte das mulheres. Elas trajavam saias curtas ou vestidos justas, não traziam meias sobre a pele. Eu vestia calça comprida e, caso viesse de saia ou vestido, o comprimento ia até os joelhos. As mulheres, principalmente as mais jovens, não tinham dificuldades para arranjar namorados. Nós, entretanto, que já passávamos dos trinta anos, devíamos ter atrativos a mais; caso isso não acontecesse, eles preferiam as mais jovens. Eu não me preocupava com essas coisas, vivia ao meu modo. Quando aparecia um homem que me olhava, eu não sorria, fazia apenas uma expressão lívida; evitava a frieza, mas a lividez leva os homens a certa curiosidade, mantém-nos interessados.

Ao completar uma semana naquele hotel de montanha, reparei dois homens a me observarem no do café da manhã. O salão amplo espalhava as pessoas pelos mais diversos lugares. Eu procurava sentar sempre à mesma mesa. Caso estivesse ocupada, ficava numa próxima. Os pretendentes cumprimentavam-me, sorriam e quando voltavam do buffet olhavam-me de novo. É preciso dizer que não estavam juntos, não se conheciam nem sabiam que desejavam a mesma mulher.

Às vezes eu ficava na varanda lendo uma revista. Isso mesmo, o hotel tinha uma lindíssima varanda, que dava para uma espécie de bosque. Eu virava as páginas e olhava as árvores, a mata, o verde deslumbrante. Procurava inflar os pulmões e sentir o aroma do entardecer. Um dos admiradores já conhecia este meu hábito de ler na varanda. Aparecia e me desejava boa tarde, chegava a parar, mas nada falava. Isso durou três dias. Quando pensei que viria falar comigo, deparei com um homem mais jovem, acho que cinco ou mesmo dez anos mais novo do que eu.

Você não quer ir comigo a uma festa hoje à noite?, convidou-me.

Vou, respondi sem titubear.

Olhou a paisagem tal qual um filósofo. Pareceu-me que encontrava naquilo tudo uma grande verdade. Não falou nada a mais. Depois descobri que não era filósofo, mas um artista, e estava de férias.

Fui com ele à festa. Dançamos. Não permitiu que ninguém se aproximasse de mim. Não me queria longe de seus braços. Depois de várias músicas, saímos um pouco ao ar fresco. Entramos num jardim, que estava às escuras. Reparamos, aqui ou ali, outros casais. Andamos poucos metros e paramos sob uma grande árvore. Ele me abraçou.

Perdoe-me, falou, você é tão encantadora.

Gostei do modo como me tratava. Sorri. Sinal de que estava tudo bem, podia ir em frente. Os abraços continuaram.

Há algo que torna você mais encantadora do que as outras mulheres, nesta estação de férias, ele disse.

Sim?, meus poucos fonemas aguardavam uma explicação a mais.

Você sempre está muito bem vestida, observou.

Continuamos abraçados. Eu, realmente, muito bem vestida.

As outras andam nuas, falei.

E nem por isso atraem, concluiu ele.

Voltamos ao salão. Dançamos mais algumas músicas e bebemos refrigerantes e refrescos. Às onze, voltamos ao hotel.

Você está acompanhada?, ele quis saber.

Não, só se for por você.

Sorriu.

Você também está acompanhado, mas é por mim, não?

É claro, mas não vi outra mulher sozinha em todo o hotel, há quem esteja acompanhada ao menos por uma amiga. Agora quanto aos homens, é normal...

Tentou acrescentar  algo, mas sentiu-se embaraçado e não terminou o pensamento.

Isso não importa, livrei-o da situação desconfortável. Ainda segurava um dos seus braços. E até agora não ficou provado que sou uma mulher, completei.

Ambos caímos numa intensa gargalhada. Depois fomos aos nossos apartamentos. De madrugada, então...

Bom, aqui já é outra a história.