Vinha correndo, em treinamento, pela Vieira Souto, em Ipanema. Era manhãzinha de sábado, algumas pessoas chegavam à praia. O sol ameno me ajudava no treino. Ao cruzar o Posto Nove, lembrei-me de um homem com quem certa vez marquei um encontro naquele lugar. Mas não apareci, e ele era tão bonito. Não lembro onde o conheci, mas o encontro que falhei não me saiu da cabeça. Alguma das amigas da época deve ter me apresentado o homem. Costumávamos sair à noite, frequentar bares e boates, não faltavam namorados. Fazia mais de dez anos, como o tempo passa rápido. Eu, correndo, será que participo pelo menos da meia maratona? Apenas imaginação, não treino para competições. Mas ao passar pelo Posto Nove, um rapaz sorriu para mim, olhou-me dos pés à cabeça, tenho certeza de que me imaginou nua, totalmente livre da roupa de jogging. Eu correndo, suando, querendo me superar, correr melhor do que nos dias anteriores, do que na semana passada. Quando se pratica algum esporte e se percebe melhor desempenho, o prazer substitui o cansaço, o esforço, a gente não tem vontade de parar. O rapaz ficou para trás. Quem sabe corre também e vem a me seguir. Cheguei a dar uma olhada, depois de duzentos ou trezentos metros. Ninguém. Amélia, uma amiga, adora namorar, acaba não vindo para a corrida por causa dos homens, das noites em branco, pendurada no pescoço deles. Diz que o prazer está em ambas as práticas, a corrida e o amor. Amélia, não é possível passar a noite namorando, mesmo que eles sejam muito gostosos, acordar cedo e vir correr, não há quem aguente. Ah, às vezes dá, sim, ela diz. Eu não consigo, tenho de confessar. Faz tempo que adoro fazer ginástica, correr na praia, ter o corpo em forma, acabo deixando os namorados em segundo plano. Por isso, às vezes, desaparecem, vão nos braços de outra. E eu fico na fixação do meu próprio corpo, namorando a mim mesma, suada, exaurida, mas ainda num último esforço para me superar. Já deixei um namorado dormindo e saí escondida para correr. Não voltei ao apartamento dele naquela manhã, preferi seguir depois para casa. Esqueci alguns pertences, mas ele guardou para mim. Por que não me chamou?, eu iria com você. O namorado saberia meu segredo, o prazer que a corrida me proporciona. Não quis que descobrisse. Vamos namorar à tarde, disse eu certa vez a outro. Ele pensou que eu era casada, era a única hora possível. Depois descobriu, eu era casada, sim, mas com o esporte. Quis me ver correndo, suando, a pele brilhosa, me abraçar quando a água escapava pelos meus poros. Só quando eu parar, amor, caso eu te abrace agora, perco o ritmo. Corri tanto que ele ficou para trás. Não foi possível o abraço. Você corre nua, querida?, perguntou certa vez. Engraçadinho, respondi. Corre nua na esteira, por favor, pediu, choroso. Esses homens e suas taras. Você deixa que, pelo menos, eu prenda os seios com um top? Houve um dia em que ele escondeu minha roupa de corredora, a lycra de jogging. Mas eu tinha uma saia curtinha, branca, o biquininho. Não perdi a manhã.
quarta-feira, maio 04, 2022
quarta-feira, abril 27, 2022
Entusiasmados
Quando eu era mais jovem, ia com o namorado à noite para a floresta. A gente, de dentro do carro, tentava descobrir se havia alguém por perto; em caso negativo, saltávamos; eu, nua; ele, também nu, namorávamos em meio às árvores e toda aquela natureza.
Certa vez percorremos uma distância enorme. Quando demos pela localização, estávamos muito longe do nosso carro. Em certo momento, paramos para descansar, deitamos sobre um gramado e fizemos amor. Depois, penamos um pouco para encontrar a trilha de volta. Cheguei a pensar que não conseguiríamos. Que susto.
Numa outra noite – eu sempre nua –, avistamos um pequeno veículo, bem para dentro, num atalho secundário. Corremos até ele e tentamos olhar se havia alguém do lado de dentro. Um casal se agarrava. Ainda bem que eles não deram por nós. Depois daquilo, senti mais tesão e trepamos também logo ali, quase ao lado do veículo alheio. Tais ações eram perigosas, mas nós nos divertíamos.
Mais tarde, já morando em M, arranjei um namorado lindo, por
quem eu me apaixonei de verdade. Passeávamos muito, tanto na orla da cidade,
como em lugarejos menores. Nas férias, viajávamos. Vivi um romance que parecia mais
um sonho. Nunca contei a ele sobre outros namorados, muito menos sobre o que
fazíamos. Certa vez, indo a um recanto na serra, lembrei do namoradinho e das
ações que nos excitavam. Quando voltávamos, pedi que
parasse na lagoa. Estava um final de tarde maravilhoso, com o sol avermelhando-se
a poente e uma brisa úmida refrescando-nos a pele.
Andamos toda a orla da lagoa, paramos em diversos pontos e
fizemos várias fotos. Quando estávamos caminhando de volta para o nosso carro,
reparei que a uns cinquenta metros havia outro veículo que não estava lá quando
chegamos. E ele estava balançando. Que estranho, um automóvel estacionado mas
se movendo. Quis saber o que estava acontecendo. Corri até o local, mas, por
precaução, fui pela traseira. Quando faltavam poucos metros, reparei que um
homem e uma mulher namoravam sobre o banco do carona. Achei tudo aquilo muito divertido.
Meu namorado, que vinha atrás, também se surpreendeu.
Quando íamos voltar, no momento de eu entrar no carro, o namorado
pediu você entra nua na lagoa? Agora?, assustei-me. Sim, agora. Mas como volto
molhada pra casa? A gente dá um jeito, ele falou. Tirei o vestido e mais o que me
restava sobre o corpo, deixei tudo sobre o banco onde eu sentara, corri a uma
das margens e entrei nas águas mornas da lagoa. Foi então que reparei. A mulher
do outro carro, vinha abraçada ao namorado, ambos caminhavam também para um
banho de final de tarde. Só que ela vinha de biquíni. Meu namorado, ao
repará-los quase próximos a mim, pensou vir ao meu socorro.
Mas ficou apenas no pensamento. O casal não me reparou. Ambos estavam muito entusiasmados
para se preocuparem com qualquer outra pessoa.
quarta-feira, abril 20, 2022
Outra história
Em todo lugar, há muitas garotas de dezoito ou vinte anos a fim de arranjar namorados. Por isso, para quem já passou dos trinta, é difícil a competição. Mesmo um homem para sair uma noite ou outra, ir a um bar ou a um restaurante, já é complicado. As mulheres maduras precisam desenvolver vários artifícios para conquistá-los. Um deles é não ser muito fácil. Há mulheres que se oferecem, tem relações com todos que aparecem, acham que agindo assim conseguirão o homem mais bonito do pedaço. No entanto, não é esse o caminho. Quando morei em NY, agia dessa maneira, mas pouco a pouco percebi que era relegada pelas mais jovens. Então, comecei a estudar a situação. Passei a gostar de distrações mais sofisticadas, como ir ao cinema ou ao teatro, conversar com pessoas de maior cultura, mesmo não sendo essa a minha origem. Não consegui namorado, mas aumentei o número de amigos e amigas. Encontrava as mesmas pessoas em todos os lugares e passei a sair com muitas delas. Saídas aqui consistia em ir a um bar depois da sessão, onde quase todos estavam e se podia conversar sobre o espetáculo visto. Às vezes, em meio aos participantes, se encontrava alguém que dava o número do telefone ou marcava um encontro para o dia seguinte.
Dentro da minha nova realidade, apareceu um homem morador
próximo a mim, mas de características muito diferentes das que eu estava
vivendo. Ele frequentava os bares da comunidade, assistia a jogos de futebol,
não ia ao cinema nem ao teatro. Não sei por que, em meio a tantas mulheres jovens,
ele veio a mim, e pediu-me para conversar. Não neguei a conversa, mas percebeu
que o meu universo era muito diferente do seu. Em um momento, falou: “você vai
aos seus espetáculos e encontra comigo depois que chegar, se quiser pode passar
lá em casa”. Passar lá em casa significava dormir com ele depois de tudo que eu
e ele havíamos vivido, separadamente. Não considerei a proposta de imediato, mas
depois pensei nela e lembrei de uma amiga que dizia ao namorado para sair com os amigos e depois aparecer na casa dela, mesmo que já passasse da
meia-noite.
Acabei aceitando a proposta, só para experimentar. Fazia o
que desejava e, já madrugada, nos encontrávamos para passar a noite juntos.
Pela manhã, eu partia, ele ainda ficava dormindo. A relação passou a ser duradoura.
Não perguntávamos o que cada um fizera durante o dia. Também não demonstrávamos
ciúme algum. Um dia, porém, uma mulher chamada Janina, veio falar comigo. Disse
que eu estava dormindo na casa do namorado dela. “Seu namorado?”, surpreendi-me,
“ele me convida sempre para passar a noite com ele, não sabia que tinha namorada”.
Daquele dia em diante, não mais apareci na casa do homem.
Depois de uma semana, ele veio me procurar. Contei-lhe o encontro com a tal
mulher. Disse que era mentira, que iria falar com ela. Mesmo depois de sua
afirmação, não voltei a casa dele. Descobri, mais tarde, que eles se casaram.
Hoje, depois de ir a tantos espetáculos, me tornei atriz. Foi
simples, fiz um curso de um ano, uma prova de seleção para uma peça. Consegui o
papel principal. Mais tarde, me procuraram para fazer um filme. Aceitei. Depois
do sucesso do filme, fiz uma série para a TV. É lógico que, no meio desse percurso,
me mudei da comunidade onde morava. Passei a viver num bairro próximo à zona
sul da cidade.
Minha mudança de vida surtira efeito. Eu me tornara outra
pessoa. Quanto a arranjar namorados, isso é outra história.
quarta-feira, abril 13, 2022
Última façanha amorosa
“Márcia, você é fogo, viu, não perde tempo, mal conheceu o
homem já foi com ele.”
“Tem que ser assim, Sônia, vamos que ele desapareça no dia
seguinte.”
“Desapareça?”
“Isso mesmo, tem tanta mulher tarada por aí.”
Sônia riu sem discrição, não fazia parte das mulheres taradas.
“Márcia, eu reparei bem, vocês estavam dentro do táxi, ele
era bem mais jovem do que você.”
“E o que há de mal nisso? Quanto mais jovem, melhor; há algo
que apenas os jovens têm”, revirei os olhos depois da última palavra. Sônia entendeu
o que eu queria dizer.
“Ele era um amigo do meu filho.”
“Por favor, mãe, não conte para ninguém, se meus amigos
souberem, passo vergonha.”
Estava preocupado, ele tem 22 anos; o amigo, 24, e a mãe, 45,
namorada do amigo.
“Por mim, tudo bem, mas fale isso também para ele”, encerrei
o assunto.
No dia seguinte, fui com o namoradinho a um passeio. Ele dirigia,
eu olhava a estrada. Subimos uma serra, a vista era bonita lá de cima. Chegamos
a um vilarejo onde a maioria das casas era de madeira. Estacionou. Fomos até
uma das casas. Um restaurante parecido a um chalé suíço.
“Que lugar lindo, não conhecia”, falei.
“Fico contente que você tenha gostado.”
“Verdade, não sabia que, há duas horas do Rio, existe um
lugar desses.”
A dona do restaurante veio falar com a gente, trouxe um
cardápio comprido. Havia comidinhas da região, peixes de rio, arroz com
açafrão. Não faltou a caipirinha.
Em um determinado momento, saí para fumar. Ele permaneceu à
mesa. A dona voltou e comentou com ele algo que não consegui ouvir. Fiquei
fumando e olhando a pequena praça que distava uns duzentos metros de onde eu
estava. Passou, vagarosa, uma perua, que estacionou um pouquinho antes da
praça, trazia uma canoa na capota. Uma moça saltou do carro pela porta do
motorista. Vestia uma camiseta super curta e estava de biquíni. Achei estranho uma
mulher quase nua num local de montanha, mas depois me lembrei da canoa, logo, o
rio, daí o minúsculo traje. Ela veio até onde eu estava.
“Você tem um cigarro para me emprestar?”, pediu.
Ofereci. Acendeu no meu isqueiro, agradeceu dizendo que se
eu quisesse ela tinha canabis, e o fumo do lugar era ótimo. A moça morava logo
na segunda casa a seguir. Agradeci, disse que iria pensar no caso.
“Não pense, não, pegue logo comigo, depois você pode não me
encontrar.”
Aceitei. Ela foi até a casa e voltou com um longo cigarro de
maconha.
“Não se preocupe, disse, aqui todos fumam, faz bem para a
saúde e para a economia local.”
Sorriu depois da frase, como uma expert em economia.
Voltei para o restaurante, não falei nada ao namorado. Comemos
e bebemos durante uma hora e meia. Tomei duas caipirinhas e comi alguns
camarões.
“Engraçado ter camarões aqui”, afirmei.
“Tem tudo que a gente quiser.”
“Será?”, fiz uma cara de deboche, tentando deixar no rapaz
uma ponta de desconfiança sobre o que eu desejava.
Andamos um pouco, saímos do vilarejo e chegamos a um platô,
uma altitude acima do conjunto de casas.
Tirei o baseado da bolsa e acendi. O namorado nada falou.
Depois de alguns tragos, passei a ele, que fumou com prazer.
“Vi quando a moça te chamou e foi pegar pra você”, disse e
apontou o cigarro.
“Não sabia que as coisas aqui são tão fáceis, ela nada me
cobrou.”
“Os moradores são afáveis, e vivem de um modo diferente da
gente lá de baixo.”
Descemos por uma trilha, chegamos a uma das margens do rio. O
baseado não demorou a acabar. Eu me sentia plena de amor para dar. O namoradinho
notou.
Tirei toda a roupa e a coloquei no sopé de uma árvore. Entrei
no rio. A água fria me provocou arrepios e um pouco mais de tesão. O namorado veio
atrás, mas não teve coragem de ficar nu. Abracei-o de frente. A corrente d’água me impregnava de frisson, uma ou outra ave passava e emitia o seu som, o
farfalhar do vento sobre as copas, um ou outro barulho no meio do mato, tudo me
provocava. Eram coisas maravilhosas para uma mulher da cidade grande, que não
sabe o prazer que há em lugares assim.
Não sei quanto tempo permaneci agarrada a ele. Também não
sei descrever a intensidade do prazer que eu sentia. Me lembro que pensei: que
bom meu namoradinho de 20 anos. Caso eu arranjasse um de 40, tenho certeza, não
estaria nua dentro de um rio, banhada por aquelas águas que vinham ainda
selvagens de uma cachoeira que não estava muito longe de nós.
Dormimos numa pousada que ficava sobre o mesmo restaurante
onde almoçáramos. Ao acordar, na manhã seguinte, encontrei um bilhete do namorado,
que eu o encontrasse no rio, no mesmo lugar da véspera. Não perdi tempo,
vesti-me sumariamente e corri até o local. Estavam dentro d’água, ele e a dona
do restaurante. Acenaram para que eu mergulhasse e me juntasse a eles. Antes,
porém, ele apontou a árvore onde ambos haviam deixado suas roupas.
Não contei a Sônia sobre o passeio nem sobre aquela relação a três, de amor ou de amizade, como ele definiu. Foi tão bom que podia dar azar. Nunca é bom falar demais. Acho também que ela não entenderia. Suas histórias de amor são um tanto atrapalhadas. Ela também gosta de andar nua, contou que certa vez foi como viera ao mundo no banco do carona, no carro do namorado. Quando a encontrei, ela quis que eu contasse tudo, mas eu apenas disse adivinhe!, e sorri, um sorriso dissimulado. Ela, para romper o silêncio, contou a sua última façanha amorosa.
quarta-feira, abril 06, 2022
Mulher em dobro
Repare como ele cresce, e você ainda tem a vagina, bonita como sempre. Só existe um problema, não para ser resolvido agora: como você vai usar aquele minúsculo biquíni que veste para ir à praia?, e a minissaia?, acho que um peru deste tamanho vai escapar, um escândalo.
Entrava uma faixa de sol pela janela.
O que me dá mais tesão é imaginar você vestida de mulher, com esse pênis enorme, duro, embaixo da saia.
Cortei um dobrado. Que mulher tarada!
quarta-feira, março 30, 2022
Fugidinha
Domingo de sol com o namorado. Bebemos refrescos com pedras de gelo. Ao longe, a praia. Olho o celular, uma mensagem. De um admirador. Não posso ler à vontade. O namorado aproxima-se, beija-me, acaricia-me, não tem a intenção de olhar o que me vem pelas antenas. Guardo o telefone. É o Alberto, tenho certeza, gosta de me enviar elogios nos dias de domingo.
Certa vez nos encontramos ao acaso e passeamos pela orla
marítima a manhã inteira, eu não tinha compromisso naquele dia. Alberto me
olhava, com seu jeito sedutor. Eu, calada. Como toda mulher, gosto de ser apreciada
pelos homens. Ele sabia que nosso passeio era apenas pelo passeio mesmo, não
poderíamos ir além. Em determinado momento, paramos e ele comprou sorvetes. Não
sou muito de sorvetes mas, para agradá-lo, aceitei. Minha boca ficou muito
vermelha. Morango é a tentação. Teve vontade de me beijar, em meio ao morango,
à temperatura fria do sorvete e ao sol que nos enlouquecia o desejo. Passeamos
e passeamos. Delicado, despediu-se no final do dia. Já tive namorados desse tipo,
me comiam com os olhos e queriam me levar ao seu apartamento, ou mesmo a um
hotel. Alberto, porém, nada falou. A gente se encontra por aí, qualquer dia
desses, eu disse. Não mais o vi.
Agora, eu com o namorado e a mensagem de Alberto no celular. O namorado disfarça, tenta respeitar minha independência, mas sinto que o ciúme não lhe abandona. Nenhum homem quer sua mulher recebendo mensagens de outros homens, sejam eles apenas amigos ou mesmo parentes, querem a mulher apenas para si. Como conviver com isso? Vai à cozinha. "Vou pegar uma cerveja", diz. Consulto o celular? Não, não consulto. Ele volta rápido e vai me surpreender. O problema de ter compromisso com um homem implica inconvenientes. Como posso saber o que Alberto tem a me dizer? Deve estar na orla e lembrou-se de mim.
Vem-me à cabeça um domingo de outros tempos, um namoro não
me lembro com quem. Estava eu na praia, final do dia, acabei na casa do homem.
Acho que o lugar era Mangaratiba. Ou será que cheguei a trepar com Alberto
naquele domingo? Não, não era Alberto. A trepada foi boa. O homem me tirou o
biquíni e se pôs a me acariciar longamente. Tão longamente que cheguei a
cochilar. Estava tão bom. Ao passar a língua sobre os meus lábios, despertei. Eu, nua às cinco e meia da tarde, numa casa de praia, com um homem que conhecera horas antes.
Será que há outras pessoas na casa?, cheguei a me preocupar. Quando pensei
nisso, senti o seu pênis a me penetrar. Suave, muito suave, escorregadio,
abria todas as cancelas. Pingos de leite. Por que a lembrança
agora, o que a mensagem de Alberto tem de ver com isso?
O namorado volta com a cerveja. “Você está bebendo refresco,
mas tenho certeza de que vai me acompanhar na cerveja”. “Acompanho, claro”. Ainda
bem, o pensamento, uma fugidinha. Eu, nos braços de outro, a pele lisa, morango com chantili não combina com cerveja. Engulo o morango.
quarta-feira, março 23, 2022
Essas mulheres mentem que só
Uma amiga contou uma história interessante. Há um homem que gosta dela, disposto a convidá-la aos melhores lugares e, até mesmo, a lhe fazer depósitos mensais na conta bancária. Ela, porém, não mais telefonou para ele. Por quê?, eu quis saber. Não diga pra ninguém, não porque eu não seja capaz de aproveitar tal situação, mas o motivo é que conheci outro homem. Continuei admirada. Minha amiga já namorou mais do que um, aliás, mais do que dois ao mesmo tempo. Mas, Valba (vamos lhe dar um nome), você já foi tão mais atirada... Ela voltou a contar sobre a situação, o novo namorado era um homão de quase dois metros, bonitos, de parar o trânsito (achei engraçada a expressão, tão antiga e usada para casos de mulheres bonitas). Não posso me arriscar, Célia, não posso perder o homem. Por que você o perderia?, não entendo, você sempre tão hábil, capaz de endoidecer todos eles. Valba me olhou com seriedade, não ficou calada: há fases da nossa vida em que temos que pisar no freio. A amiga mostrava-se hábil em metáforas automobilísticas. Ele é muito gostoso, jamais tive um homem assim, você sabe que os homens gozam muito rápido, deixam a gente na saudade, ele consegue se controlar, fica trepando durante horas, não imagina o tanto que eu gozo em uma noite ao lado dele, conto isso apenas a você, nada de espalhar por aí, podem me roubar o namorado. Nada disso, rebati, ele deve ser hábil em namorar mais do que uma ao mesmo tempo. Acabei deixando Valba em dúvida, chamei um Uber e fui embora, tinha um compromisso e já eram seis da tarde.
Depois que cheguei em casa, meu compromisso: o vizinho que
vive batendo à minha porta às sete horas, dá boa noite e conta alguma coisa que lhe aconteceu durante o dia, no trabalho. Como surgiu a amizade, como tamanha
intimidade? Não lembro, são essas coisas que acontecem na vida da gente e não
temos explicação. Quando fui morar no prédio, ele já estava lá. Não se
aproximou porque moro sozinha. Há outras mulheres como eu nos outros apartamentos. A
preferência dele é por mim. Por outro lado, nunca tentou nada além de uma boa
conversa. Já saímos diversas vezes, num sábado ou domingo, para um cinema ou um
restaurante. No começo, fiquei desconfiada, achei que ele me levaria para cama. No entanto, nunca criou a oportunidade. Agora, acho que já não há clima para isso. Seria gay? Não. Uma
mulher me parou na rua para me dizer que meu namorado é muito gostoso. Namorado?, repeti. Aquele homem que vive com você pra cima e pra baixo, já
namorei com ele. Sorri, e não lhe disse a verdade, preferi que pensasse em namorados.
Não é um negão de dois metros, como o namorado de Valba, e
não tem o aspecto de que vai trepar com uma mulher a noite inteira provocando-lhe orgasmos múltiplos. A conversa dele é sobre livros, peças
de teatros e um ou outro filme.
Deu sete horas, ele bateu pra me cumprimentar. Hoje
foi um dia especial, trouxe um presente pra você. Pedi que entrasse. Entrou e me deu uma caixa num papel cheio
de flores. Chocolate belga, uma amiga acabou de chegar da Europa e me trouxe alguns
presentes, achei que esse se encaixaria muito bem pra você. Sorri, com a caixa
de bombons belgas nas mãos. Enquanto ele contava alguma história daquele dia,
imaginei Valba na cama com o seu homão, gozando várias vezes. Imaginei Valba a receber várias propostas do homem que lhe levaria a vários lugares chique, que lhe faria depósitos bancários, que ela dispensou. Imaginei-a mastigando bombons belgas. Depois, disse a
mim mesma, em pensamento, enquanto meu amigo arrematava sua história: Célia, essas mulheres mentem que só.
quarta-feira, março 16, 2022
E ela beijava tão bem!
Estava num restaurante, na Barão da Torre esquina com a
Vinicius de Morais. Era domingo de carnaval. Um carnaval em suspenso por causa
do Covid. A quantidade de pessoas tanto do lado de dentro quanto na calçada, onde
conversavam em pequenos grupos e aguardavam uma mesa, era grande. Entardecia. Muitos vinham da praia. Homens, mulheres, alguns trazendo crianças, muitos rapazes
e moças. Nas mesas, todos bebiam seu chope ou algum drink colorido. As mulheres,
principalmente, vestiam roupas curtas, como biquínis ou cangas transparentes,
que não escondiam corpos bem delineados.
Não sou do Rio, e sempre achei a cidade aberta a qualquer
experiência no modo de vestir ou de ser, por isso eu trajava um maiô que me
deixava com metade dos seios de fora, o tipo de roupa de banho presa por uma
tira em volta do pescoço que, descendo, apresenta as laterais muito compridas,
o que permite a apreciação da massa tão adorada pelos homens. Quando a garçonete
nos indicou a mesa, recebi muitos olhares; depois, já sentada, não houve disfarce,
tantos os homens acompanhados quanto suas mulheres se voltaram para mim. De
certa forma, eu sorria em retribuição, como uma turista maravilhada à recepção calorosa. Já que não há carnaval, há as fantasias, pensei, não há problema
eu incentivar. Acompanhavam-me duas mulheres jovens, mais ou menos da minha
idade, e um homem, de seus trinta anos, ele estacionara o automóvel nas proximidades
e chegara alguns minutos depois de estarmos sentadas.
Pedi um drink, como o faziam algumas pessoas, um coquetel de
gim, com alguma fruta vermelha, que tinha como cobertura creme de gengibre. O coquetel aparentava ares de milkshake, só que era alcoólico.
Já comera muito durante o dia, naquele momento belisquei
apenas dois pastéis de camarão. Depois de conversarmos sobre o dia, os prazeres
da viagem, o apartamento onde estávamos instaladas, percebi que um certo
pilequinho me avizinhava. Ah, era o gengibre. Tal raiz é afrodisíaca. Lembrei de
uma amiga que fazia chá com ele quando esperava o namorado. É uma
extravagância, ela afirmava, não tome isso sozinha. Eu, no Rio, com outras
mulheres, e sem namorado. Como iria fazer? Dá-se um jeito, tentei me consolar.
Minhas amigas e o amigo comeram torresmo. Sério, de onde se
faz torresmo? Sou urbana, desculpe a má pergunta. Da barriga do porco, alguém respondeu.
Sempre achei porco um animal tão bonitinho, mas nada falei para não estragar a
festa.
Ficamos no restaurante durante uma hora e meia. Eu, atirada,
bebi dois do tal coquetel. Meu amigo tomou dois chopes. Vou ter de deixar o
carro no estacionamento, afirmou. Não faz mal, disse uma das moças, vamos até a
Farme de Amoedo, fica aqui perto e é uma rua muito divertida.
Eram nove da noite quando seguimos pela Vinícius, atravessamos
a Visconde de Pirajá, dobramos à esquerda e caminhamos até a Farme. O ar
noturno, que vinha da orla marítima, me animou. Minhas amigas observavam as
pessoas e faziam comentários. Ao chegarmos à esquina da nossa rua pretendida,
havia muita gente conversando na beira do meio fio. Muitos seguravam
garrafinhas de Heineken, outros fumavam. Homens conversavam com homens, mulheres
com mulheres. Percebi, então, que se tratava de um ponto turístico gay, um dos
mais famosos do Rio de Janeiro. Saiu numa revista americana que este lugar está
entre os cem melhores do mundo, onde os homossexuais podem se sentir à vontade.
Caminhamos até um aglomerado de gente na porta de um dos bares. Muitas mulheres conversavam em inglês; adiante, alguns homens também trocavam palavras na mesma língua. O que vamos fazer aqui?, perguntou uma das amigas. Quem sabe, respondeu outra,
não viemos para arranjar namorado nem namorada, ela mesma continuou; mas,
às vezes, descobre-se alguma coisa nova.
Uma das americanas veio até a mim, olhou meus seios quase de fora e disse Uau, you
are in the right place. Tacou-me, então, um beijo na boca. Nem fiz menção de
escapar. E ela beijava tão bem!
quarta-feira, março 02, 2022
Nem algodão nem cola
O carnaval é uma festa de prazer, inventamos tantas coisas boas, depois sentimos falta. No último, antes do Covid, vivi uma situação muito engraçada. Ao recordá-la, hoje, morro de rir.
Vestida apenas de biquíni (quem me conhece, já sabe o
tamanho; os outros, imaginem) e com dois pequenos pompons de algodão colado nos bicos dos seios, fui desfilar num bloco que saía domingo, na General Osório. O desfile
começava em torno das cinco da tarde e durava mais ou menos duas horas. O bloco costumava contornar a praça, seguir por uma rua lateral e entrar na Vieira Souto; dali, avançava até a
Joana Angélica, quando então dobrava à direita e voltava pela Visconde de Pirajá.
Porém (sempre há um porém na minha vida, ainda bem), aconteceu-me um problema. Logo
no início do desfile, antes de entrarmos na orla, alguém veio me avisar que o pompom que cobria o meu seio esquerdo tinha se soltado e eu estava nua. O que
há de mau nisso?, perguntei, o algodão já não cobria mesmo quase nada. Continuei
dançando. Mas o pessoal da organização veio conversar. Um homem me pediu, com
toda a educação, que vestisse a camiseta do bloco, porque ali havia crianças
desfilando, não ficava bem para a agremiação apresentar cenas de nudismo às
cinco da tarde. Não discuti, vesti a camiseta e continuei a dançar. Muitas
pessoas, que assistiam ao desfile, ficaram aborrecidas, queriam continuar a ver-me
nua, ao menos pela metade. Azar o delas, eu tentava me desculpar, nem tudo na
vida sai como a gente deseja. Desfilei e me diverti muito.
No final, quis devolver a camiseta, mas o homem disse que eu
poderia guardá-la, todos os integrantes tinham direito ao tal brinde. Quem me
quer como brinde? Gracejei.
Continuei com meu biquininho, entre os amigos, bebia cerveja
com eles. Depois de alguns minutos, lembrei-me de que poderia restaurar a minha
fantasia original. Colei novos maços de algodão nos seios e pude ficar,
novamente, nua. Os homens passavam só para me admirar. Eu fingia que a fantasia
era a coisa mais normal do mundo.
Então, aconteceu o inesperado. Um grupo de travestis veio a
mim. Todos estavam muito bem fantasiados, ao contrário do que eu apresentava.
Você vem com a gente, por favor, precisamos de uma mulher, e bem nua!, exclamou
um deles sorrindo. Bem nua?, repeti rindo. Isso mesmo, assegurou. Tomou-me pelo
braço e cochichou-me um segredo. Aceitei o convite, mas fiquei temerosa de ter
problemas. Garantimos, há toda a segurança do mundo. Você vai fazer o maior
sucesso, disseram; não é de graça não, viu, ainda vai ganhar um cachê.
Fui com eles, um baile no Joá, como nos velhos tempos. Você
sabe, mulher tem mais liberdade do que nós, segredou-me outro trans. Olhe o que
vocês vão me aprontar, disse e caí na gargalhada.
Na festa, eles faziam parte de uma alegoria. Trocaram de
fantasia, vestiram roupas super extravagantes, mínimas, tornaram-se mais nus do
que eu. Como não eram mulheres, não lhes era permitida a nudez total. Aqui, é
que entro em cena. Na primeira apresentação, apareço dançando no meio deles,
com uma camiseta, apenas; na segunda, o biquininho, os chumaços de algodão e
uma fita a me rodear o pescoço, uma espécie de colar comprido, cor de rosa, com
enfeites aqui e acolá. Depois da meia noite, houve o show principal. As trans entravam
dançando quase nuas; a seguir, era a minha vez. Uma delas, depois de duas músicas,
vinha até a mim e descolava os algodões; depois, vinha outra e me roubava o biquininho;
uma outra despia-me da fita cor de rosa e arremessava ao público delirante.
Muitos homens me apontaram a lanterna do celular, tentavam, inutilmente,
descobrir onde eu escondia o meu pênis! E não precisei de algodão nem cola.
quarta-feira, fevereiro 23, 2022
Não há dúvida
Eu tinha me separado e me mudado para a serra. É assim que a gente fala aqui na região. Há uma diferença entre morar na cidade, que é a sede do município, e a serra, na verdade um distrito, lugar rústico, de clima ameno, cortado por um rio de águas cristalinas permeado por várias quedas d’águas.
Logo nos primeiros meses, fiz amizades, em geral com pessoas
bem mais jovens do que eu. Contaram-me sobre as possibilidades de passeios,
como caminhadas e escaladas, recantos de onde se pode apreciar uma paisagem
muito bonita. O mais interessante, porém, é o período de verão. Muita gente vem
tomar banho na cachoeira ou no rio. Há jovens que preferem o banho à noite,
quando, da mesma forma que acontece durante o dia, desejam aliviar o calor
trazido pelas correntes de ar quentes que envolvem a região.
Com o passar do tempo, no entanto, não custei a descobrir que
a frequência ao banho noturno não é desejada apenas para aliviar o calor, mas
porque os rapazes aproveitam para tirar a roupa das moças, que mergulham como
Evas e nadam nas águas frescas locais. Formam-se casais sem se fazer alarde, o prazer então é maior.
Como sou dez ou quinze anos mais velha do que a maior parte
dos jovens, a princípio fiquei com um pé atrás, mas em poucos dias me apareceu
um admirador que foi comigo para o tal banho. Arranjamos um local à margem,
arborizado, onde eu pudesse me despir à vontade. Depois entramos n’água e
aproveitamos. Caso encontrássemos outro casal, tudo permaneceria na maior
discrição, como se fôssemos os únicos no local. Meu namoradinho, que é só para
essas coisas (nada de ficar no meu pé, já avisei de antemão), no escuro da
noite, entre carícias da água morna e de suas mãos, me contou casos muito
engraçados da região, dentre eles o de uma frequentadora gostosona que tem um
marido muito ciumento.
Ela, durante o dia, estende uma toalha sobre a pedra, abre
uma revista e fica tomando sol vestindo o menor biquíni da região. À noite,
quando o marido está de plantão, ela reaparece, e não é apenas para o banho. Há
quem diga que ela tem cinco amantes. Como o lugar é pequeno, poucas coisas para
fazer, é preciso dar um desconto. Ela deve namorar no escurinho da noite com
apenas dois, ou mesmo um. Foi o que pude constatar numa das vezes em que me
misturava às sombras das árvores, à cata de minhas roupas. Ela sorriu para mim,
um sorrisinho cúmplice e levou um dos rapazes pelo braço. Não notou que eu
tinha um acompanhante, fez um sinal que eu esperasse, queria me mostrar algo.
Fiquei pensando o que uma mulher poderia mostrar a outra num lugar escuro,
depois das dez da noite. O que fiz foi namorar, o máximo que pude. Depois disse
ao namoradinho vamos lá pra casa, podemos aproveitar. Após ele ter ido embora, fiquei a refletir o que aquela mulher desejava
conversar comigo.
No dia seguinte, descobri. Ela foi bater à minha porta para
pedir um favor: aqui todos são discretos, conto com você, viu; se meu marido
souber, acho que me mata, não fale nada pra ninguém. Contou em seguida sobre as
alegrias que vivia na região. No final, ainda confessou: aqui é como o paraíso,
namoramos todos, e eles namoram todas, nunca houve um lugar tão feliz: às vezes
a bagunça é tão grande, continuou ela, bagunça no bom sentido, você entende,
que volta e meia uma de nós volta nua pra casa, só no dia seguinte é que
consegue encontrar as peças de roupa, é o maior arrepio!
Não consigo sentir arrepio em ter de voltar pelada pra casa,
mas que os garotos são gostosos, não há dúvida.
quarta-feira, fevereiro 09, 2022
Garota das exclamações
! Sou a garota das exclamações! Tanto mais hoje, porque estou em Búzios. Uma garota de 18 anos, livre, e numa cidade onde todos dizem ser o paraíso, pode não querer nada mais na vida. Mas eu quero! E não é mentira. Ao chegar, logo após o meio-dia, as pessoas hospedadas na pousada me olham com o rabo de olho. Admiram meu corpinho de modelo! Entre elas, há um rapaz. Dizem que ele veio com uns amigos, já me informei.
Cinco da tarde, praia da Ferradurinha, perto do centro, uma
fila de homens de todas as idades vira a cabeça quando passei de biquíni.
Laura, você não deveria vir com um biquíni como esse, diria minha amiga Dina. Por
quê? Porque vão achar que você é bem piranha. Mas em Búzios! Eu exclamaria. Em
Búzios e em todos os lugares, eles sempre pensam que somos piranhas, concluiria. É isso que eu desejo, deixe-os pensar que sou uma mulher que dá pra todo
mundo! Mas, engraçado, na Ferradurinha, ninguém se aproximou. Em M, logo aparece
alguém, quer fogo para acender o cigarro, uma informação, histórias de que
estão há pouco tempo na cidade, dicas de restaurantes e bares badalados. Não
sou guia turística, afirmo sorridente. Uma vez dei informações a um dinamarquês;
quando ele foi ao bar, quem estava lá? Euzinha, aqui! Búzios é uma cidade onde
as pessoas são discretas. Quem é interiorano, não vem para cá. Os rapazes nos
olham de longe, ficam sonhando com uma boa trepada. Muitos ficam apenas no sonho!
Eu não quero sonhar. Há um jovem lindo, de bermuda florida. Levanto,
caminho até a beira d’água, perto dele. Está fria!, exclamo. Ele ri. Gosto do Nordeste,
porque lá a água do mar é sempre quente, falo, quase em segredo. Ele me olha,
sorri, quer dizer alguma coisa, apenas repete: sempre? Isso. Outra coisa, para
arranjar namorada é bom, porque há muitas mulheres!, falo. Sério?, arregala os
olhos. Sério, afirmo, mas há um lugar melhor do que lá para isso, continuo.
Onde?, ele parece interessado. Em Búzios. Em Búzios?, repete em forma de
pergunta, dando bastante entonação. Em Búzios, repito. Aqui, então, ele confirma.
É lógico que é aqui, idiota, penso mas não chego a dizer. Perco a vontade de abraçá-lo.
Afasto-me. Tenho certeza de que pensou que sou eu quem deseja arranjar namorada.
Quando estou dentro d’água, outro rapaz se aproxima dele. Os dois trocam
algumas palavras sobre mim, tenho certeza.
À noite, em Búzios. Não fale, a noite em Búzios é uma loucura.
Não vá com ninguém antes das duas da madrugada, me aconselhou Dina. Por quê?,
quis eu saber. Porque você vai perder o melhor da noite. Não posso perder e
ganhar?, eu sempre querendo compensar. Como assim?, ela é esperta, mas prefere
me escutar. Conheço um às onze, outro à meia-noite, outro a uma da madrugada, fico
com um, com outro etc.; depois, às 2h30, o principal. E se o
primeiro não te largar?, ela quis saber. Sou eu que vou largá-lo... Às vezes
não é assim que as coisas acontecem!, exclamou.
As moças andam de shorts, ou mesmo de biquínis, não há muita
diferença. Como sempre, o número de mulheres é maior, muitos homens juntos
também. Oi, você está na minha pousada, escuto de um rapaz. Ele é bonito. Mas ainda
são 22h00. Tenho vontade de dizer me procure depois das duas, mas mantenho a linha.
Estou, sim, na sua pousada. Ele me toca as mãos. Vamos beber uma cerveja, diz.
Prefiro Absolut! Ele arregala os olhos. Absolut? Movo a cabeça, faço um
movimento de face que diz é óbvio. Ela bebe e a levo para cama, adivinho seu
pensamento. Mas é ele quem bebe uma Heineken, fica altinho e vai com os amigos.
Moça, você é muito bonita, precisamos de mulheres jovens e bonitas,
para uma festa numa mansão; você vem com a gente? Três garotas no banheiro me
convidam. Uma festa particular, com piscina, open bar... Isso mesmo, diz a mais
espevitada. Mas como vou saber que vocês não vão me dar um golpe, que não se
trata de armadilha? Tais pensamentos me afastam da magia do local. A do meio diz:
ela não conhece a gente, é um pouco difícil decidir, eu ficaria também na
dúvida. O que pode acontecer?, pergunto-me. As moças são tão bonitas. Logo, a
seguir, respondo: vou! Não há perigo em Búzios, é o paraíso, reflito. Quero
fazer duas perguntinhas, tudo bem?, peço. Pergunte, diz a mais alta. Vocês
conhecem os donos da festa? Conhecemos, é um velho amigo. E bota velho nisso,
diz a menor, sempre sorrindo. Agora, a segunda pergunta: O máximo que pode acontecer
é a gente ter de ficar nua, não é mesmo! No lugar da pergunta, exclamo. As três
riem, a mais alta diz: você parece ser uma mulher experiente!
quinta-feira, janeiro 27, 2022
Minha conhecida e seu namorado
Outro dia encontrei um ex-namorado e senti uma ponta de inveja. Ele, agora, namora uma conhecida minha. Foi ela quem veio me dizer. Já estão junto faz um tempo. Vou contar a história do início.
Quando
vim trabalhar aqui em M, ele foi uma das primeiras pessoas que conheci. Tinha
uns quarenta anos, mas a aparência era de alguém mais jovem. Comecei a ficar ao
lado dele, a ir almoçar sempre com ele, até que me convidou para sair à noite.
Naquela época, eu tinha acabado de me separar, por isso tudo se encaixou. Ele
também estava sozinho, contava uma mesma história de separação.
Quando
vi minha conhecida na semana passada, tive vontade de perguntar se ele faz com
ela as coisas que fazia comigo. Mas não me veio a coragem. Pode ser que a mulher
pensasse que sou louca.
À
época, trabalhávamos aqui em M, mas ele tinha um apartamento no Rio. Nos finais
de semana, viajávamos para lá, frequentávamos cinemas e teatros, além de bares
e restaurantes. Uma vida e tanto. Mas havia um problema, ou melhor, um problema
no início, depois deixou de sê-lo, porque passei a gostar da situação. Depois
de dormirmos juntos algumas vezes como pessoas normais, ele pediu se podia me
amarrar. Quando ouvi a palavra, me assustei. Seria o homem um tarado e eu não
havia percebido? No entanto, acabou conseguindo seu intento. Num dia em que eu
estava mais excitada, permiti seus nós e laços, deixando-me atada à cama. Então
subiu sobre mim e trepamos. Eu, imobilizada; ele dizia relaxa, relaxa e goza.
Numa outra vez, além de amarrada, acabei amordaçada, e a trepada foi ainda mais
intensa. Não posso perder esse homem, eu pensava. As ousadias dele foram se multiplicando.
Uma outra noite, além de amarrada e amordaçada, senti a ponta de uma tesoura a
percorrer-me a pele; depois, cortou um pouco dos meus pentelhos; a seguir,
pegou o aparelho de barbear e me depilou por inteira. Que situação! No momento
de vir sobre mim, ele disse espere um pouquinho. Afastou-se, notei que levava
minhas roupas e a maleta onde estava o restante dos meus pertences. Quis
perguntar o que fazia, mas o esparadrapo grudado à minha boca impediu-me. Voltou
após alguns segundos, subiu sobre mim e começamos a transar. Eu não sabia se me
entregava ou se tentava perguntar o que estava acontecendo, dava uns grunhidos,
o significado era que ele me deixasse falar. Mas tudo que consegui foi escutar
sua voz: relaxa e goza, não se preocupe, levei suas roupas e sua bagagem para o
corredor do prédio, vamos ver se alguém acha; caso isso aconteça, você vai
ficar pelada, sem ter o que vestir, mas as mulheres bonitas sempre dão um
jeito. Passei a saltar sobre a cama, levantando as costas e as nádegas, do modo
que podia, queria me soltar das cordas e dos laços que me atavam e ir lá fora
recuperar minhas coisas. Ao me ver tão desesperada, disse não se preocupe, você
é uma professora de literatura, entende de linguagem figurada, vamos aproveitar
a noite. Lembrei-me então de que muitas vezes ele falava algo que significava o
contrário. Comecei a achar que se tratava de mais uma de suas brincadeiras. Fui
me acalmando, transamos muito gostoso e gozei em meio a todas aquelas
metáforas. Dei pela situação real quando
ele me soltou. Corri, abri a porta. Onde minhas roupas e bagagem? Hoje, muitos
anos depois, com tudo resolvido, dá até para rir.
Minha
conhecida que o namora atualmente vive também isso tudo ou será que ele já
amainou o fogo? Desconfio que não, ela tem cara de sapeca. E, nessa cidade, já
ouvi falar de mulheres que saem à noite nuas, ao lado do namorado.
Quando
cheguei a casa, olhei o meu marido vendo TV. Conheci-o quando ainda estava com
o tal das cordas e laços. Senti uma ponta de desgosto. Homem sem imaginação, este
marido.
Ah, minha conhecida e seu namorado, onde estão agora, o que fazem? Que inveja.
terça-feira, dezembro 21, 2021
Paredes
Eu estava subindo pelas paredes. Como tenho um amigo para essas horas, telefonei
para ele. Antes eu entrava num site, e procurava alguém. Mas, um dia, houve um incidente, por isso, por segurança, passei a preferir o amigo.
Você quer aproveitar?, perguntei pelo telefone, aproveite, assim como eu,
mas não vá se apaixonar, viu.
Nada disso, meu amigo é profissional. Veio no mesmo dia. Recebi-o
vestidinha, disfarçando o fogo. Às vezes, eu dava um suspiro.
Lembrei-me, então , de uma amiga. Ela diz ter umas lingeries lindas,
tudo presente do namorado. Visto para ele tirar. Adorável, um namorado que dá calcinhas
de presente. Quando ela quis saber se o meu não era semelhante ao
seu, ao menos em relação aos presentes, eu disse num tremelique de lábios: ah,
o meu leva minhas calcinhas de lembrança, volto pelada pra casa.
Meu amigo conversou um pouco, contou umas histórias, rimos, bebemos cada
um uma taça de vinho. Depois, pediu-me que encostasse a uma das paredes.
Quero ver você subir.
Não!, alertei, pedi que você viesse aqui para evitar que eu as
escalasse.
Tirou minha roupa. Senti o frio da alvenaria sobre os seios, eu de
costas para ele. A seguir, me suspendeu, e me penetrou a boceta, como os cães
fazem com as cadelas. Permaneci alguns segundos suspensa, colada à parede, como
uma aranha, equilibrada na ponta do seu pênis.
A posição me excitava. Gritei forte. E nunca gozei tanto. Ele teve de
abafar o som.
O síndico vai chamar a polícia, vai pensar que alguém está te matando,
sussurrou no meu ouvido.
Me mata, me mata de tesão, quero morrer assim, gritava eu cada vez mais
alto.
Depois me levou para cama, onde o enlevo foi mais suave. Mesmo assim, meus orgasmos se multiplicaram. No final,
fechei os olhos e dormi.
Quando acordei, ele já tinha partido. Ainda bem, eu ainda nua. Nessa hora é bom estar sozinha. Morro de vergonha depois do gozo.
terça-feira, dezembro 14, 2021
Enroladinha
Outro dia li uma história onde havia uma personagem feminina que, ao ver um homem forte, másculo, bonito, molhava a calcinha. Verdade, ficava a mil e não conseguia evitar o gozo. Aliás, gostava mesmo da sensação, sexo a flor da pele. Lembrei algumas vezes em que senti a mesma coisa. Quando vou à praia vestindo um biquíni mínimo, daqueles que deixam meu bumbum todo de fora, não chego a molhá-lo devido a um eventual orgasmo, mas atinjo as bordas. Quando ando, sinto o tecido apertado, todo entrado atrás, a pressão por baixo da minha vagina, os músculos da minha bunda mexendo-se e atraindo olhares. Da primeira vez que usei um biquíni desses, senti-me nua, mas pouco a pouco me fui acostumando, imagino mesmo comprar um menor. Há mulheres que andam de biquíni no calçadão da orla marítima, fazem o maior sucesso. Nós, que vivemos aqui, não chegamos a tanto, caso precisamos ir ao calçadão vestimos a saidinha de praia. Estive conversando com uma amiga que não via fazia tempo. Ela costuma ir à orla apenas de biquíni, pede para quem está próxima para tomar conta de suas coisas. Perguntei se não achava esquisito ir passear praticamente nua na calçada. Que nada, é gostoso, respondeu, os homens ficam olhando, sinto que me comem com os olhos, além disso, a gente arranja namorado com facilidade. Perguntei se ficava excitada. É um gozo, chegou a dizer. Outra que molhava o biquíni.
Certa vez gozei na praia, tenho de confessar. Mas não foi sozinha. Tive um namoradinho que entrava na água comigo. Então, acontecia. Deixei uma ou duas vezes que tirasse o meu biquíni. A gente nadava até um ponto onde havia poucas pessoas e... acontecia! Uma transa e tanto.
Sempre achei que, para gozar, seria preciso alguém a me tocar, a me acariciar, um grande pênis a me penetrar. Mas, através de histórias, e depois de conversa com amigas, descobri que não é bem assim. Uma me contou que já gozou ao mergulhar numa praia. A água estava tão fria, que a fez chegar ao orgasmo. Há outra que me narrou uma aventura arriscada, mas adorável.
Saía à noite com o namorado e realizava algumas fantasias. Na verdade, gozava com as fantasias. Uma das vezes veio à praia depois da meia-noite. Entrou na água e tomou banho de mar nua. Um gozo. Outra vez pediu para ele levá-la a passear nua. Mais um orgasmo. Mas o principal aconteceu numa madrugada de outono. Ele parou o carro numa estrada escura, os dois desceram e ficaram namorando do lado de fora. Ela despiu-se. Ficou vestida apenas com o casaco que lhe descia até a cintura e uma bota de cano curto. Namoraram encostados na lataria do carro, a seguir sobre o mato, próximo à estrada. Antes de irem embora, pediu que ele desse uma volta de carro e voltasse depois para buscá-la, que demorasse uns quinze minutos. Mas você está nua!, ele. Por isso mesmo, ela. O namorado aceitou. Quando ele partiu, ela ficou molhadinha. Gozo jamais sentido. Não perguntei se ele voltou!
Desde então tenho pensado nisso, gozar com minhas fantasias. Uma delas é ir a uma cidade próxima, que dista trinta quilômetros daqui, onde não conheço pessoa; ir vestida como se fosse outra mulher, criar na verdade uma personagem. Conhecer alguém, trepar, não dizer meu nome nem saber o dele. Antes de voltar, deixar-lhe um presente. A calcinha. Enroladinha.
terça-feira, dezembro 07, 2021
Você acha isso normal?
Já que você fica me pedindo pra contar minhas aventuras, escute, então. Veja como os meus mamilos estão durinhos, como estou arrepiada, acho que é a batida de maracujá. A história envolve algo que me aconteceu e que me agradou, o problema é que acho absurdo ter gostado do tal fato. Tive um namorado que me queria nua ao seu lado, sentada no banco do carona, a passear com ele de automóvel. Posso ser presa, eu disse. Não, aqui nesta cidade já não tem polícia de dia, imagine à noite. Acabei fazendo-lhe a vontade. Além de sair pelada, como estou agora nesta poltrona, também saltei do carro num trecho da rodovia estadual. Pedi pra ele dar uma voltinha e depois retornar pra me buscar. Ele deu a partida, e fiquei ali, nua, nua. De repente, me senti molhadinha entre as pernas! Às vezes vinha um carro ao longe, eu me agachava dentro do mato, ao lado do acostamento. Depois de um quarto de hora ele voltou, entrei no carro e fomos pra sua casa. Trepamos durante o que restava da noite. Você sabe, toda vez que passo pelo local, sinto saudade do ex-namorado, daquela madrugada, sinto falta de tudo que aconteceu. Você acha isso normal?
Vocês, homens, acham tudo muito
normal. Outra história, aconteceu alguns anos antes da que acabei de contar.
Conheci um homem no cinema. Ele era bonito, fui eu que o abordei. Sabe aquela
velha história, conheço você de algum lugar? Ele caiu direitinho. Ficamos
conversando, vimos o mesmo filme, lado a lado, e deixei pegar a minha mão. Na
saída, me ofereceu carona. Moro no Meyer, vou de ônibus. Ele insistiu, acabei
aceitando. Pra encurtar, marcamos de nos encontrar na semana seguinte, acho que
um sábado no final da tarde. O encontro foi em frente ao cinema Odeon. Ficamos
conversando, fomos a um café, depois me convidou pra ir à casa dele. Morava no
centro. Enquanto caminhávamos, pensei se esse homem for louco? Mas o desejo de
estar com ele era maior. O apartamento era pequeno, havia uma saleta e um
quarto com uma cama de casal. Que bom, tão difícil arrumar namorado nos dias
atuais. Passaram alguns minutos e a gente começou a se agarrar. Naquele tempo
eu era mais tímida do que hoje, pedi que tivesse paciência comigo. Fiquei então
de calcinha e sutiã. Beijei-o com muito ardor. Após uma hora daquele
agarramento, insistiu pra me tirar o sutiã. Acabei permitindo. Ele me abraçava,
a gente rolava na cama, e eu de calcinha. Não fomos além, tenho certeza, só
trepamos uma ou duas semanas depois. É uma história diferente, não? Eu, super
tímida, de calcinha, cobrindo os seios com as mãos!
Me dá um cigarro, vai, acende
pra mim, te conto mais uma. Ah, que gostoso. Só fumo nessas ocasiões. Certa vez
fui a Búzios. Eu e uma amiga. Quando a gente viaja a um lugar onde ninguém nos
conhece, é ótimo, não temos preocupação alguma. Ficamos em uma pousada. Um fim
de semana prolongado. Fomos a várias praias, bebemos demais, ríamos à toa.
Minha amiga se chamava Iracema, veja que engraçado, quase ninguém se chama
Iracema hoje, deve estar agora beirando os cinquenta anos. A gente pintou e
bordou. Conhecemos de cara dois sujeitos. Eu disse não fala onde estamos
hospedadas. Entramos de biquíni no carro deles. Adivinhe o que aconteceu. Isso
mesmo o que você está pensando, logo de primeira, não tinha nem duas horas que
estávamos na cidade. Pedimos, depois, que nos deixassem numa determinada praia.
Eles nos atenderam, mas ainda ficaram com a gente um tempo enorme. Queriam
marcar encontro à noite, a cidade tem uma ótima vida noturna, disse um deles.
Mas desconversamos, não queríamos ficar presas a eles. Eu disse de repente a
gente se encontra ao acaso. Eles concordaram e foram embora. À noite, colocamos
vestidos leves e soltos, fomos à tal rua das Pedras. Não passou muito tempo,
paramos num bar bem movimentado, dois ingleses vieram conversar. Nem conto o
resto, você pode imaginar. Não foi logo de primeira, como à tarde, mas depois
das duas da madrugada, onde eles estavam hospedados. Havia outras pessoas, um
hostel, fiquei achando que chegaria alguém e me surpreenderia nua. Mas acabou
tudo bem. Trepei com dois homens num espaço de doze horas. E Iracema (que
alegria!), também nua, em dia com seus orgasmos, dizia: me ajuda a encontrar o
vestidinho.
Agora, estou com você, que gosta de ouvir minhas aventuras. Isto é normal? Traz mais uma batida pra mim, por favor.
quinta-feira, dezembro 02, 2021
Aproveitando
Na minha cidade, somos muitas e todas queremos arranjar namorados. Não precisa ser nada sério, mas mesmo assim não é fácil. Já faz tempo que perdi as esperanças. O último que frequentou meus lençóis, ouviu de minha voz um segredinho: não demora você vai me trocar por garotas mais jovens, elas são muitas aqui na cidade. Passaram-se algumas semanas, ele se foi. Poxa, por que não ficou comigo e com a moça de 18 anos, que desfila de biquininho na principal praia da cidade? M não é uma vila, mas, mesmo assim, todas nos conhecemos. De um tempo para cá, começaram a aparecer moças muito jovens, não sei se por causa da universidade, ou se vieram acompanhando pai ou mãe que passaram a trabalhar nas empresas de petróleo. O que é certo: uma delas roubou-me o namorado. Mas é a vida, e ele tem o livre arbítrio.
Passei, então, nos dias de folga, a viajar para outra
cidade, passear, aproveitar a vida. Num feriadão, fui a Cabo Frio. Para quem
mora na região, o local não é dos melhores. Mas serve para variar, para
conhecer novas pessoas. Fiquei num pequeno hotel, a praia quase em frente.
Naqueles dias, hospedava-se no mesmo hotel um grupo de rapazes. Acabei amiga
de alguns deles.
Você está sozinha?, o mais atirado perguntou. Não se fica
sozinha na maturidade, cheguei a dizer, sempre há alguém no nosso pé. Ele riu. Fosse mais perspicaz, perguntaria onde estava meu pé.
Não quis, logo de primeira, dar mole para um deles, não
ficaria bem, tenho o dobro da idade. Mas eles me acharam bonita, chegaram a me
chamar de gostosona. Tive de rir. Aquele grupinho devia ir pelos vinte e poucos anos.
Em M, tenho uma amiga que adora trepar com garotos jovens. Diz
que o peru deles é bem duro, e fica assim por muito tempo. Há apenas um problema: eles precisam entender o que ela deseja. Durante o tal feriadão, a imagem
de minha amiga de quase cinquenta anos trepando com um rapaz de vinte três não me saía da
cabeça. Apesar de não jovem, ela tem seus artifícios. Certo dia, quando foi despi-la, o moço descobriu
que ela estava sem a calcinha. Você nunca reparou?, perguntou com cara de
sapeca, já saí tantas vezes com você só com o vestido sobre a pele. Ela consegue,
com suas artimanhas, manter o namoradinho. As garotas jovens não sabem nada
disso, me diz em segredo.
Numa das noites, fui a um restaurante com música ao
vivo. Era a única sozinha em uma das mesas. Os homens estavam acompanhados. Havia também muitas mulheres sós. Bebiam, riam e tentavam se entender entre
a algazarra da noite. Pedi uma caipivodca. Lá pelas tantas, avistei meus amigos,
os jovens que estavam no mesmo hotel. Dois deles vieram sentar à minha mesa. Os
demais tinham outras expectativas. Bebiam cerveja, estavam muito alegres. Vestiam bermudas e camisas coloridas. Quando levantei e fui dançar com um deles,
repararam que eu trajava minissaia. Meu par gostou de dançar coladinho. Como
havia muitas mulheres, eles todos se arranjaram. O que ficou comigo também se
arranjou. Adivinhem com quem? Caso você queira acompanhar seus amigos, não faça
cerimônia, cheguei a sussurrar no seu ouvido. Mas ele não foi, permaneceu ao
meu lado, acabou me abraçando, me beijando e voltamos juntos para o hotel. Seus
amigos perderam-se pela cidade nos braços de moças fresquinhas, recém-saídas
da adolescência.
Meu namoradinho me acompanhou depois que deixamos o tal restaurante
com música ao vivo. Caminhamos até a beira da praia. Além de nós dois, ninguém no
local. Abracei-o. Continuou agarrado a mim. Você não gosta de mergulhar,
que tal entrarmos n’água? Riu e disse: você é muito doida.
No hotel, passou a última noite no meu quarto.
Não conte pros teus amigos, viu, vão ficar com inveja,
duvido que aproveitaram tanto.
terça-feira, novembro 23, 2021
Ao modo deles
Vocês sabem, a Margarida deixa a gente escrever aqui, é super legal, por isso vou contar uma história divertida e diferente das que vocês costumam ler.
Para uma mulher, as coisas já não são fáceis, imaginem em
relação a mim, que pareço mulher mas não sou. Quem me observa a princípio
engana-se, mas pouco a pouco acaba descobrindo a verdade. Para quem gosta de
travestis, sou um prato cheio. Minha voz é de mulher, e sou discreta,
o que tranquiliza muito os homens.
Aliás, quase tudo em mim é de mulher, menos o pênis. Amigos
e amigas perguntam por que não me submeto à cirurgia. Não quero. Gosto de
ser do jeito que vim ao mundo. Não por uma questão de natureza, mas porque
sinto prazer assim.
Quando arranjo namorado, ele pensa que sou como todas as
outras, que gosto de trepar por trás. Mas não é o meu desejo. Me visto de
mulher, tenho todo o jeito de mulher, gosto de namorar homens muito masculinos, mas no momento do sexo sou diferente. Mesmo trepando com homens, beijando-os,
acariciando-os, peço para segurarem meu pênis. Sinto prazer imenso quando
atendem. Há um modo de tocá-lo e de acariciá-lo que me dá muito prazer, preciso
mesmo me segurar para não gozar no primeiro momento. Geralmente, os namorados
dizem: "os travecos gostam de trepar com o cu, você quer ser diferente, por que
não namora mulher?" Tenho então de explicar mais uma vez. Gosto de homens, não
de mulheres, o local por onde gozo é outra história. Por isso, na maioria das
vezes, estou sozinha.
Arranjar um homem que respeite meu jeito de ser é complicado.
Caso queira, posso fazer sexo anal com ele, mas sou eu que vou enfiar o pinto
no seu cu. A maior parte não quer assim. Há um nome para pessoas de preferência sexual como eu, mas
não gosto das classificações, elas são elaboradas pela
medicina.
"Existem muitas maneiras de namorar, e proporcionam imenso prazer", tento explicar para o recente namorado.
Vamos ver se este vai querer ficar comigo depois da tal conversa.
“Mas você nunca trepou por trás?”, quer ele saber, pensa que sou virgem, talvez, quem sabe, será o primeiro a experimentar, que prazer...
“Já, claro, já trepei por trás e ainda trepo, mas não tenho
gosto, o que me dá prazer mesmo é quando o namorado acaricia o meu pinto, tanto
melhor por baixo.”
Um candidato ao namoro disse-me que os travestis não gostam que
encostem no peru deles, porque a ereção, quando acontece, produz hormônios masculinos e isso lhes
causa problemas. Quanto a mim, tal ação não me afeta. Quando estou nos
braços dos homens, tenho ereção, o que não acontece quando me vejo entre as
mulheres, mesmo que estejam nuas à minha frente.
Às vezes, para arranjar namorado que aceitem meu jeito de
ser, crio algumas fantasias. Os homens adoram fantasias. Sabem a história do travesti de minissaia ou vestido curto mas sem calcinha? Viajo na maionese contando casos no
ouvido deles. Com a voz um tantinho trêmula, descrevo minhas aventuras pela
cidade. Querem saber como faço para meu pinto não escapar pela barra da
minissaia. “Ah, é segredo, um produto ajuda a segurar, mas às vezes vai soltinho...” Ficam
loucos, loucos de tesão.
Tive um namorado que me pediu para sair apena de camisa,
dessas que descem até as coxas. Claro que aceitei. Vesti a tal roupa e
coloquei um cinto estreito; a bolsa vermelha a tiracolo e o sapato combinando,
um show. “Viu, não é só do jeito que você quer trepar que conta”, falei
baixinho.
Quando fui com ele à praia, perguntou:
"Como você faz para usar um biquíni tão pequeno?"
"Ah, não posso contar, segredinho."
Dentro d'água, tentou desfazer os meus
lacinhos!
Assim, vou levando os relacionamentos. Mas é preciso cuidado. Não é bom sair com qualquer um, tanto mais de primeira, precisa-se conversar bastante. Muitos homens ainda vivem à moda antiga, querem tudo ao modo deles!
segunda-feira, novembro 15, 2021
Não dá pra ser tudo como a gente quer
Tenho um namorado que adora me levar à praia e me deixar nua. Sério. No começo, achei aquilo estranho. Quem sabe, estou me relacionando com um tarado. Com o passar do tempo, no entanto, passei a gostar da brincadeira. E, a partir de então, não há vez em que não peço a ele pra tirar a parte inferior do meu biquíni. A gente entra n’água e procura um local pouco frequentado. Ele me tira a pequena peça e guarda dentro da bermuda. Não vai perder, alerto. Às vezes, sai d’água e guarda meu biquíni lá onde estão nossas coisas. Nesses momentos, o frisson é intenso. Esses fatos me fazem lembrar também de outra relação, que terminei não faz muito tempo, acho que há um ano e pouco. Era outro tipo de homem, jamais me sugeriu tais brincadeiras quando íamos à praia. Acho que nunca pensou nisso. Era diferente o homem. O bom era quando chegávamos a casa. Esperava que eu tomasse banho. Quando eu saía, pedia que o esperasse na cama, sem me vestir. Tomava também uma ducha e vinha deitar ao meu lado. Adorava minha pele ainda quente e bronzeada. Me fazia mil carinhos. Quando sentia que eu ia a mil por hora, metia seu enorme pênis dentro de mim. Não era como normalmente são os homens, preocupados com o próprio prazer, sempre prestes a derramar aquela quantidade imensa de porra dentro da gente. Esperava, vinha vagaroso. No sexo, há algo de selvagem, grande parte das pessoas deixa transparecer seu lado animal. Aquele homem, não, dominava todos os seus gestos, gostava de prolongar o gozo. Até então, sempre que eu deitava com alguém, pedia que ficasse o máximo de tempo dentro de mim. Certa vez cheguei a falar fica a noite inteira, por favor. Mas àquele namorado, não era preciso palavra alguma, nenhum alerta, ele me compreendia, acho que conhecia a natureza das mulheres. Talvez por isso não namoramos durante muito tempo. Era assediado por todo o tipo de mulher, eu mesma descobri. Ficava comigo a maior parte do tempo, mas elas não o largavam. Ele, como homem, não negava. Caso eu o quisesse num relacionamento sério e estável, teria de compartilhá-lo com outras mulheres, ao contrário ficaria chupando o dedo. E foi o que aconteceu. Quando tenho alguém, quero só pra mim.
O namorado que gosta de me deixar nua dentro d’água, na praia, não é como ele. Quando me penetra, a transa não vai muito longe, goza logo, não espera, nem tem tal preocupação. Demora a me devolver o biquíni, isso sim, diz que tenho de sair nua de dentro d’água. Um dia desses chegou a subir até o quiosque para comprar uma cerveja, me deixou de molho, só de top. Mas, no final, tudo acabou bem. O único problema é que, como falei, goza muito rápido. Conversamos sobre isso, tento lhe mostrar que é possível prolongar seu prazer. Mas acho que seu prazer mesmo é me deixar nua na praia! Na vida, não dá pra ser tudo como a gente quer.
terça-feira, novembro 09, 2021
Pingar mel em uma fatia de pão
Entrei no apartamento dele, segui o curto corredor, logo
estávamos na sala. Um sofá de dois lugares, a mesa, três cadeiras, um pequeno
aparelho de som e, na parede, um quadro a grafite, um homem numa cidade, talvez
Amsterdã, o casario, um canal e pessoas passando ao fundo. Que tipo de música você
gosta?, perguntou. Alguma de ritmo lendo, instrumentos perfazendo notas longas,
ou coisa parecida, falei. Sentei-me no pequeno estofado, a música não demorou a
inundar o ambiente. Ele desapareceu para voltar após menos de um minuto com a
garrafa de vinho. Duas taças, o tira-rolhas, dois pequenos pratos. Arrumou tudo
sobre a mesa. Havia um livro sobre ela, numa das pontas. Afastou-o para um suporte
lateral, desdobrou a toalha que – só então reparei – ficara enrolada num dos
cantos, como um logo canudo. Não quer conhecer o restante do apartamento?,
perguntou enquanto abria a garrafa. Temos tempo, pronunciei em voz baixa as
duas palavras. Experimente, ele pediu. Provei o vinho, aprovei com breve
sorriso. Completou um pouquinho mais a taça, brindamos e bebemos os primeiros
goles.
O apartamento do namorado trouxe-me à
memória um homem com quem me relacionei fazia alguns anos. Tudo era muito parecido.
Será que não era o mesmo, que voltava e eu, desligada que sou, não reparava?
Nada disso, a cidade era outra, o bairro à beira-mar. E naquele tempo aconteceu
algo engraçado. Sim, uma coisa divertida. Eu, que não sou de muitos sorrisos, principalmente
no começo de um namoro, perguntara ao homem se poderia tirar a blusa. Na época,
mesmo com o mar próximo, fazia um terrível calor, anoitecia, a hora em que
parecem refluir todos os raios do sol irradiados durante o dia. Claro, dissera.
Tirei a blusa e o top, sentei-me na poltrona, apenas de bermuda. Agora, não
fazia calor, e eu, de um tempo para cá, passei a ter crises de vexo. Sério,
depois dos trinta e cinco, uma mulher que sente vergonha é coisa rara. Mas o
que há de se fazer?
A música expandia-se com novos
instrumentos, não se ouvia voz, apenas o som de cordas e metais, talvez um jazz
um tanto mais animado. Ele sentou-se ao meu lado. Você sabe recitar poemas, sugeriu,
bem perto dos meus ouvidos. Têm livros de poesia?, perguntei olhando em volta, encontrei
uma pequena pilha deles sobre a mesinha lateral, onde também havia uma
luminária. Tomou nas mãos alguns deles, Rimbaud, Carlos Drummond, Bandeira,
Florbela Espanca, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos. Ulisses, de Joyce. Nossa,
acho que vou ler este, peguei o grosso volume, é prosa mas cheio de poesia. Riu.
Você tem um charme e tanto ao falar assim, acrescentou. Não, não é charme, ou o
charme não é meu, mas da literatura. Folheei o começo do Joyce. O homem foi acho
que à cozinha, voltou com dois tipos de queijo, uma garrafa de água mineral,
abaixou o volume da música. Você sabe que eu morria de vergonha de ler em voz
alta, na época da escola?, encarei-o depois da minha confidência. As meninas
eram as mais atiradas no meu tempo de escola, disse ele. Ah, sim, atiradas, mas
em outro sentido, intervi. Riu mais uma vez, gostou da insinuação, mas não
tinha maldade no pensamento. Morria de vergonha, verdade, continuei, depois me
tornei atirada, como você diz; mas, agora, depois dos trinta, sinto vergonha de
novo, não para ler umas páginas do Ulisses, é claro.
“Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu
no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual
repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba [arregalei os olhos instintivamente e
olhei para o namorado]. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente
atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:
– Introibo
ad altare Dei.
Parado,
ele perscrutou a escada sombria de caracol e gritou asperamente:
– Suba,
Kinch! Suba, seu temível jesuíta!”
Pronunciei a última frase com entonação teatral.
O namorado arregalou os olhos, como se dissesse continue, continue. Mergulhei
nas páginas seguintes. Durante vários minutos, enveredei pela trilha do autor
dublinense.
“Toda Irlanda é lavada pela corrente do golfo
– disse Stephen enquanto deixava pingar mel em uma fatia de pão.”
Após essas últimas palavras da leitura,
olhei a mesa, como se procurasse o pão com algum mel para derramar sobre. Genial,
genial mesmo, revelou-se entusiasmado, me vi no teatro, a maior viagem, acrescentou, seu vocabulário não correspondia notadamente ao de Joyce.
Está ótimo, continuou, adorei, e olha que as atrizes não se sentem envergonhadas. Levantou-se e foi cortar umas fatias de pão.
Você quer mesmo o mel?, quis saber. Quem sabe, irônica, deixei o livro de lado.
Depois de duas rodelas da baguete, do queijo com mel, e de eu ter bebido uma taça de vinho quase inteira, ele veio sentar-se ao meu lado. Você disse que se tornou envergonhada, não é mesmo? Talvez, respondi, sucinta. As mulheres são assim mesmo, sentenciou. Eu não teria tanta certeza, conheço uma que chega à casa do namorado e, a primeira coisa que faz, é ficar pelada. Ela não lê versos de poemas?, ele, sarcástico. Talvez leia, ou melhor, pode ser que peça para o homem ler, mas a literatura do corpo dela. Literatura do corpo, repetiu, não deve ser tão bela como a de Joyce. Não sei, eu não teria tanta certeza, finalizei. Naquele momento, senti sua mão apertar-me os seios nus, seus lábios procurarem os meus.
