terça-feira, novembro 29, 2011

Vestida de princesa

Imaginem uma festa num castelo, tudo preparado com o máximo esmero, observados todos os detalhes: móveis, decoração, aparadores, louças, talheres e cristais; os mais variados coquetéis, comidinhas e o jantar; os garçons, discretos e experientes. No lado de fora, um bosque extenso, diversas plantas e árvores, aqui e acolá veredas onde é possível passear, respirar sem pressa o ar noturno e apreciar o que a noite pode oferecer de melhor.

As mulheres desfilam com jóias, roupas reluzentes, tecidos de cetim, rendas sobre o forro dos vestidos, há quem traje saia ou vestido de veludo, tudo na mais perfeita elegância. Caso a roupa seja curta, não há extravagância, sempre o caimento perfeito; os homens, de smoking ou terno, também adoráveis.

A orquestra toca quase sem parar. Danço duas valsas, depois um bolero, e até mesmo um tango. De repente, os músicos se soltam num rock ‘n rol envolvente, somos todas arrastadas.

Os homens não cansam de estar a nossa procura. Além de a todo o momento nos chamarem para dançar, há convites para ir lá fora, tomar um drinque ao ar livre, fumar um cigarro ou mesmo uma cigarrilha com piteira. Mas permaneço num dos salões, se não no principal pelo menos num onde posso ser observada.

Mary quer me mostrar algo.

“Está tão bom aqui, olhe aquele homem com o copo de uísque numa das mãos, está nos olhando, será que é pra mim ou pra você?” pergunto.

“Lógico que é pra você, Marg, aqui todos não tem olhos para as outras mulheres.”

“Quero acreditar!”

“Vamos lá fora que ele vem atrás.”

“E quem falou que o quero junto a mim.”

“É rico, Marg.”

“Rico ou riquíssimo?”

“Riquíssimo, é verdade, mas vamos, ele não nos deixará escapar.”

“O que você quer me mostrar lá fora, Mary? Com ele perto, não poderei apreciar.”

“Ah, é mesmo, já ia esquecendo, mas a gente disfarça.”

Saímos as duas, mergulhamos numa das aleias do bosque. Logo depois da segunda vereda transversal, ouvimos sussurros, ou mesmo gemidos. Escondemo-nos atrás de um arbusto. Dali podemos ver um casal, a moça abaixada junto às pernas do rapaz.

“Mary, só você não sabia disso, nessas festas é o que acontece de mais comum...”

“Não é apenas isso, Marg, sei que há um casal em cada canto, e não fazem só sexo oral. Quero mostrar a você uma coisa que descobri adiante.”

Rumamos na direção norte do bosque. Vez ou outra a vegetação sibila, o céu claro permite observar toda a beleza do lugar; a luz elétrica é pálida, distante, desnecessária. Ao ultrapassar um lago, encontramos algumas estátuas, todas de mármore. Mas uma está vestida, e com roupa de grife.

“Não é o vestido de Joana?”, Mary tem a dúvida.

“Ou um parecido”, insinuo.

“Mas não é possível haver dois vestidos desse tipo.”

“Mary, não faz uns minutos vi Joana com o filho do príncipe, estavam dançando.”

“Também reparei, principalmente quando saíram.”

“E o que o vestido dela está fazendo aqui?”, pergunto.

“Chamei você para esclarecer essa questão, já que é escritora.”

“Ah, Mary, deixa eu dançar, e havia um homem riquíssimo me apreciando.”

“Não se preocupe, ele deve estar atrás da gente.”

“Mary, tive uma ideia brilhante, veja se a estátua ao lado está limpa.”

“Claro que está, Marg, aqui os empregados deixam tudo brilhando, seja dia ou noite.”

Num movimento rápido, tiro a roupa e visto a estátua que está ao lado da que exibe o vestido da princesa.

“Marg, o que você está fazendo?”, surpresa no rosto de Mary.

“Me divertindo um pouco”, fico só de meias, calcinha e salto alto, “sorte o tempo estar fresco”, digo.

“Marg, você é louca, se aparece alguém?”

“Visto o vestido da princesa e corro.”

“Marg, estou ouvindo passos, não temos tempo, abaixe-se.”

Escondemo-nos num canteiro de roseiras, há uma espécie de palmeira, o esconderijo não nos é muito favorável.

Aparece então o homem. É aquele que Mary chama de riquíssimo. Aproxima-se das estátuas, olha vagaroso o meu vestido; depois, o da princesa; volta-se para frente, esquadrinha o local com cuidado, parece temer um possível espião. De novo, vira-se para as estátuas. Prefere o meu vestido. Toma-o nas mãos, despe a estátua, enrola o vestido e o esconde dentro do paletó.

“Marg, corra até ele, diga que o vestido é seu”, sou a nua, mas a desesperada é Mary.

O homem riquíssimo aproxima-se da outra estátua.

Calma, amiga, primeiro devo fazer algum tipo de encenação”, estou tranquila.

"Bonito, não?", materializo-me ao lado dele. O homem toma ligeiro susto, explora o meu corpo e, envergonhado, estende a mão entregando-me o vestido. Seguro-o e o coloco sobre um dos braços da mesma estátua onde está o da princesa. A mulher, solícita, é uma aia que traz a roupa para sua senhora. Pego meu admirador pela mão e o puxo para dentro do bosque. O perfume das plantas é mais intenso; as árvores, acolhedoras. Mary já não está à vista.

Após muito tempo, ainda entre a cúmplice vegetação e nos braços do furioso amante, lembro-me da princesa e dos vestidos. A essa hora ela e o príncipe já acabaram. Fecho os olhos, sinto dois arrepios: um por causa de novo aconchego no corpo do jovial amante; o outro, quero voltar para festa vestidinha...

quarta-feira, novembro 23, 2011

Noite de verão

Ouça, Marilda, um silêncio... Acho que consigo ouvir a brasa de meu cigarro a queimar.

Roberta, não é essa a questão. O silêncio é muito bom, mas tenho outra preocupação, são três e trinta da madrugada, e nós aqui sentadas, de pernas cruzadas, neste banco de jardim, esperando dois homens...

E o que há de mal nisso?

Não haveria nada de mal se não estivéssemos apenas de calcinha.

Você mesma não falou que toda mulher gosta de andar nua?

Gostamos de andar nuas, de nos exibir, Roberta, quanto a isso não há dúvida, mas vestindo roupa curta, de biquíni numa praia, numa piscina particular, ou mesmo nua dentro de casa, mas não num lugar público, e a esperar dois homens que não sabemos se virão...

Marilda, relaxe, eles sempre vêm; lembra os presentes que pedimos?

Roberta, não somos prostitutas!

Não, claro que não, ganhamos alguma coisa e também gozamos. As prostitutas não gozam.

Roberta, escuta, acho que vem um carro, e agora, o que faremos?

Nada, Marilda, não faremos absolutamente nada. Você sabe como se fica invisível, quietinha, viu.

Ah, passou, não nos viram.

Eles nunca nos veem, não têm sensibilidade para isso, tanto mais algo inesperado como duas mulheres nuas numa noite de verão.

Por que será que esses homens não têm uma ideia mais simples, como a de nos levar a um hotel? Por que desejam a gente nua correndo todo esse risco?

Marilda, há gosto para tudo, um deles falou que sua fantasia principal é a de ver duas mulheres sentadas nuas, de pernas cruzadas, as duas fumando, despreocupadas, como se a nudez fosse a coisa mais normal do mundo.

Sei, Roberta, eles falaram isso, mas podíamos ter ficado com nossas roupas por perto, dá-las nas mãos do garoto e vê-lo ir embora de bicicleta me fez ficar (e ainda estou) toda trêmula.

Marilda, tive uma ideia, na próxima vez, ao dizerem o local, vamos vir antes, trazer roupas reservas e escondê-las por perto.

Próxima vez, Roberta? O problema é agora, nem sei se vai haver uma próxima vez.

Marilda, acenda mais um cigarro, relaxe, tente encontrar prazer nessa situação, estou adorando.

Você está adorando porque tomou duas caipirinhas. Quero ver quando o efeito terminar, vai ficar mais preocupada do que eu. Roberta, ouça, agora parece barulho de moto.

Então, devem ser eles.

Roberta, não são eles, e nos viram, o que vamos fazer?

Quietinha, vamos pagar pra ver.

Pagar?

Ou receber...

Moças, Roberta e Marilda?, perguntou um deles, mantendo-se sobre a moto.

Eu, Roberta; ela, Marilda. Não reparem, ela está tremendo porque está com frio,

Venham com a gente, cada uma suba numa garupa.

Vamos, Marilda, é a nossa vez.

Roberta, aonde esses caras vão nos levar?

Para casa, amiga, eles sempre nos levam para casa.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Ela adora situações imprevisíveis

Estava em casa, já desistira de sair naquela madrugada quando ouvi alguém bater. Atendi. Era o João Paulo.

“Oi, Jussara, como vai?” Beijou-me antes de convidá-lo a entrar.

“Tão tarde assim? Já não esperava mais ninguém.”

“Vim fazer uma horinha, tenho um compromisso.”

Só então reparei que ele trazia num cabide um vestido preto, dava para notar que era um tomara-que-caia justo e curto.

“Compromisso? Você agora entrega roupa em domicílio, e de madrugada?”

“Mais ou menos”, respondeu e me mostrou o vestidinho dentro de um plástico.

“Me conte melhor?”, curiosa, eu.

“É da Margarida.”

“Margarida? Já estou até imaginando o que ela te pediu.”

“Jussara, você conhece as extravagâncias da Margarida, não?”

“Deixa eu adivinhar: foi dar uma voltinha nua por aí e pediu para você guardar o vestido dela.”

“Você quase acertou. Ela me telefonou lá pela meia-noite e pediu para levá-la na casa do namorado. Antes de sair do carro tirou o vestido e deixou em minhas mãos. Pediu que eu voltasse três horas depois para buscá-la, quis fazer uma surpresa: chegar nua na casa dele.”

“A Margarida é fogo, não? Só ela tem coragem de fazer essas coisas.”

“João, em vez de convidar você para ficar aqui queria passear um pouco, o que você acha?”

“Mas e esse vestido?”, parecia preocupado com a tarefa que lhe fora incumbida.

“Dá aqui, dou um jeito”, peguei a roupa, levei para o meu quarto e a coloquei sobre a cama. “Pronto, está guardadinho. Que tal uma volta pela orla?”

“Acho que dá tempo, vamos sim”, aceitou de bom grado.

“Conheço um quiosque 24 horas, servem caipiríssimas ótimas.”

Um quarto de hora depois, já dirigíamos no Leblon. “Pare ali, por favor.”

João Paulo estacionou. Descemos. O local estava quase lotado, havia apenas uma mesa, esperava por nós.

“Aqui tem caipiríssima de morango, que delícia, todos adoram!”, sugeriu e pediu duas.

Ficamos ali sentados envoltos pela noite, vendo ao longe as águas do mar, ouvindo alguma conversa entrecortada por tantas outras. Vimos também o casal que faz o papel principal na novela das nove.

“Engraçado”, comentei, “aqui ninguém dá bola pra artista.”

“O Rio tem isso de bom, as pessoas famosas podem sair à vontade, principalmente na Zona Sul, ninguém incomoda.”

Apenas um casal se aproximou e pediu para fazer foto ao lado deles. Atenderam, todos os dois eram só sorrisos.

“Está ótima essa bebida”, falei, “acho que vou querer outra.”

“Eu também, mas vou pedir a próxima de lima da pérsia.”

“E as namoradas?”, perguntei.

“Estão em recesso, prefiro sair com amigas e amigos, atualmente.”

“Jura?”

“Juro. Os amigos são fiéis.”

“Você é ótimo, João, gostei. Posso te fazer um pedido?”, olhei para ele com fisionomia de expectativa.

“Claro, meu amor?”

“Você me leva pra passear lá na beiradinha d'água?”

“Agora, Jussara?”

“Não!, depois que terminarmos, quero passear mais adiante, mostro o lugar a você.”

Bebemos e conversamos por mais uma hora e meia, depois pagamos a conta e caminhamos um pouco pela calçada. Descemos para a areia da praia, num ponto estava escurinho.

“Aqui, João, está ótimo.Venha, me abrace.”

“Se eu não te conhecesse, diria que é o efeito da caipirinha”, me beijou em seguida.

“Já namoramos algumas vezes, não? Mesmo sem ter compromisso, apenas beijos, abraços e algum sexo, você adorou, até pensei que ia me pedir pra casamento.”

Ele riu. Como havia um puco de névoa, as pessoas não podiam nos ver, por isso ficamos muito tempo ali, e foram muitas as carícias. Já que eu começara toda aquela provocação, não pude evitar que ele chegasse ao principal. Acabamos fazendo amor, mas não permiti que me tirasse a roupa, precisou se virar por baixo da minha saia.

Lembramos que tínhamos de ir quando demos com o prenúncio do dia, uma luz violeta se anunciava a oriente.

Foi João Paulo quem deu o alarme: “O vestido da Margarida! Ela me pediu para estar lá às quatro, disse que não ia poder passar dessa hora porque o homem não mora sozinho e outras pessoas iam chegar...”

“Vamos ligar pra ela, de repente ainda dá tempo”, levantei e sacudi minha roupa para livrá-la dos grãos de areia.

“Mas ela não levou o telefone”, meu amigo estava assustadíssimo.

“Não levou o telefone? Então a Margarida quer é amanhecer nua mesmo.”

“Será?”

“Com certeza. Ela adora situações imprevisíveis. Não precisa ficar tão assustado.”

“Acho que ela vai me cortar do rol de seus amigos, e gosto tanto dela...”

“João, escute, fique tranquilo, a Margarida vai até te agradecer pelo esquecimento, e depois ainda vai nos contar o que aconteceu morrendo de rir.”

“Posso então confiar em você?”

“Claro que pode, e tem mais, deixa que eu mesma entrego mais tarde o vestido para ela.”

Meu amigo se conformou, mas não sem uma ponta de contrariedade.

Quando telefonei pra Margarida à tarde, não havia ninguém em casa, e o celular estava na caixa postal. Deixei o recado na secretária eletrônica.

Ao terminar de escrever essa história, já vai fazer 24 horas que ela saiu nua do carro de João Paulo. Ainda não temos notícias dela.

segunda-feira, novembro 14, 2011

Agora peça o espumante, por favor

“Meu amor, não seria melhor eu vir totalmente vestida para você tirar minha roupa com calma, com sensualidade?” Estávamos num hotel do Centro, quinta feira, passara a hora do almoço.

“Mas adoro você de roupa curta, morro de tesão.”

“Querido, também gosto de andar nua, já dei bastantes provas a você sobre isso. Num dia de semana, porém, e ainda no centro do Rio, imagine, todos os homens vão me seguir.”

“Deixe que eles te sigam, mas quem te possui sou apenas eu.”

“Eu não teria tanta certeza assim”, lancei-lhe o deboche.

“Não acredito que você me traia.”

“Não se trata de traição, amor, será que aguento tantas cantadas?”

“Cantadas, como assim?

Sentei-me na cama ainda como entrara na suíte; quis acender um cigarro, mas olhei o ambiente fechado e deixei o maço dentro da bolsa. Tomei na mão o controle da TV e apertei um dos botões. A tela se acendeu e surgiu uma imagem urbana: repórteres, bombeiros, entrevistas. Houvera uma explosão num prédio do centro. Deixei o aparelho sem som, as cenas se sucediam, gritos mudos, choro, desespero, apenas lábios em movimento.

“Amor, você não é ingênuo, quando saio nua de casa quase todos os homens se aproximam, querem falar comigo, fazem propostas, muitas delas tentadoras, não sei o que faço com tantos números de telefones; houve um que deixou o próprio telefone, queria me ligar a todo momento; outros me perguntam, com muito jeito e educação, quanto cobro pelo programa. Portanto, amor, se sou apenas sua, é melhor sair vestida de casa, com recato e esmero. Que você me dispa no hotel, ou em qualquer outro lugar fechado, ou mesmo quando estivermos na praia. Caso queira, ponho em suas mãos uma das minhas peças. Já fizemos esse jogo antes, lembra?”

“Fizemos, e quase morro de tesão só em pensar que larguei você pelada dentro d'água, naquela praia, com tanta gente em volta, eles sem saber que você estava nua.”

“Então, amor, mas era uma praia, as mulheres de biquínis mínimos, ninguém iria se certificar se alguma delas estava sem.”

Ele abriu o frigobar e tirou uma cerveja, estalou o lacre e a levou imediatamente à boca.

“Amor, você liga para o bar e pede um espumante para mim?”, lancei-lhe um beijinho.

“Ninguém percebeu, e eu ali na areia, excitadíssimo, teu biquíni escondidinho numa das minhas mãos, lembro que depois ainda o guardei na tua própria bolsa.”

“Isso mesmo, amor, foi ótimo, eu por quase trinta minutos de molho, sem poder sair de dentro d'água, e no Leblon, uma praia urbana, imagine! Você amou, não foi mesmo? Qualquer dia vamos de novo.”

“Jura, fofinha?”

“Claro, querido. Mas agora peça o espumante, por favor? Olha que vim com uma lingerie que vai deixar você morrendo de calor.”

“Mas você jura que fica nua de novo, na praia?”

“Juro. Mas não me peça para vir como uma piranha, aliás, nem é como uma piranha que você me pede para vir, porque elas hoje em dia não andam tão nuas; na verdade, quem anda como você deseja são os travestis, estes sim, outro dia soube de um que estava totalmente nu em Copacabana.”

“Não, não gosto de travestis!”

“Não? Mas do jeito que você me deseja, até parece...

“Gosto de você! Amo você!

“Então, caso me ame mesmo, não me peça para andar nua. Mais uma coisa: conheço tanta gente, não quero passar vergonha. Venho vestidinha, de preferência com as roupas que você me presenteia, depois dou a você de cortesia uma pecinha, para você levar para casa e sonhar comigo. Está bom assim? Agora peça o espumante, por favor.”

quarta-feira, novembro 09, 2011

A gente nunca sabe o que tem lá dentro

O bar onde ele trabalhava era na rua Duvivier. Eu fazia faxina num apartamento do prédio em frente todas as quintas-feiras. A patroa era boa para mim, me pagava para fazer todo o serviço mais dez reais do que costumavam pagar e ainda me dava o dinheiro da passagem. Sempre quando eu chegava, tinha de passar no bar para pegar o sanduíche que ela deixava encomendado todos os dias. Ele me olhava, sorria e parecia querer dizer alguma coisa depois que me entregava a embalagem. Nesta última quinta, acabou falando:

“Você pega o ônibus do metrô, não? Vi na semana passada quando foi embora, quase peguei o mesmo ônibus.”

Nada respondi, apenas sorri gentilmente e segui o meu caminho.

Na hora de eu ir embora, lá estava ele no ponto. Aproximou-se:

“Hoje vou no mesmo ônibus, vamos juntos.”

Não falei nada. Esperamos por uns bons quinze minutos. O ônibus chegou e parou. Entramos. De início ele não conseguiu ficar perto de mim porque o ônibus estava muito cheio. Mas aos poucos acabou se aproximando e começou a puxar conversa.

“Sabe, acho você muito simpática, pena que não temos tempo pra conversar.”

“É, sou muito ocupada, e não posso ficar por aí conversando com qualquer pessoa.”

O ônibus deu um solavanco e arrancou. Nos seguramos, acabei por dar um encontrão nele.

“Desculpe”, disse eu.

“Não tem problema, não há nada demais num esbarrão, foi até gostoso.”

“Como um esbarrão pode ser gostoso?”, eu começava a aceitar a conversa, mesmo aparentando não querer.

“Principalmente se a pessoa que esbarra for simpática, sabia? Dá até pra arranjar namorada assim.”

“Você quer arranjar namorada através de um esbarrão?”, fingi surpresa.

“Já arranjei namorada numa carona de guarda-chuva.”

“Como foi?”, demonstrei interesse.

“Foi em Mesquita. Saltei na estação na hora que caiu uma tremenda chuva. Uma moça desprotegida estava ficando toda molhada. Então, perguntei: 'quer uma carona de guarda-chuva?' Ela aceitou.”

“Como você fez pra namorar com ela?”

Ele pareceu mostrar entusiasmo, enquanto isso o ônibus fazia a curva, outras pessoas se espremiam; falou, afinal:

“Encontrei a moça num sábado, ao acaso, fui ao clube local e ela estava na festa. Como já tinha dado a carona, foi fácil conversar com ela.”

“Estão namorando até hoje?”

“Não, pra falar a verdade foi só naquela noite, e foi bom.”

“O que mais?”

“Não conheço você bem pra dizer o que aconteceu a mais.”

Tive de rir das palavras dele.

“Você tem namorado?”, perguntou.

“Eu? Tenho um marido que às vezes é metido a valentão.”

“Viche, pensei que você fosse solteira, estou metendo a mão em cumbuca.”

“O que é meter a mão em cumbuca?”, perguntei.

“A gente nunca sabe o que tem lá dentro, pode ter bicho venenoso.

“Não tem veneno, não, fica tranquilo, se dei conversa é porque não tem veneno.”

O ônibus fez mais uma curva e parou na estação do metrô. Saltamos juntos, seguimos lado a lado a caminho do trem.

Na quinta seguinte, falei a ele assim que me passou o sanduíche:

“Minha patroa vai me deixar sair às quatro hoje, você pode encontrar comigo?”

“Às quatro? Acho que sim”, disse sem pensar.

“Então a gente se vê no ponto”, dei as costas e saí do bar.

Enquanto subia no elevador, pensei que deveria ter deixado o número do meu celular.

Trabalhei naquele dia com muita atenção a todos os detalhes. Como a patroa ia me liberar mais cedo, não queria decepcioná-la.

Ao sair pensei em passar no bar para ver se meu namoradinho ainda estava trabalhando, mas desisti, era dar muito na pinta. Segui para o ponto e esperei por ele.

Mas ele não apareceu.

Na quinta seguinte não fui trabalhar. A patroa ligou dizendo que não precisava de mim naquela semana. 

Apareci somente depois de quinze dias.

Ao passar pelo bar, não foi ele quem me atendeu. Pensei em perguntar pelo rapaz, mas não tive coragem. Quem sabe tinha ido embora?

Trabalhei com um peso no coração. Apesar de até ali só termos conversado uma vez, senti uma grande tristeza, tudo levava a crer que não mais nos encontraríamos.

Às seis horas saí e fui para o ponto. O tempo estava fechado, de repente começou a chover. A chuva foi aumentando até se transformar num terrível temporal. Corri procurando abrigo, mas em poucos minutos eu já estava toda encharcada. E para piorar a situação eu não tinha levado a sombrinha.

“Você precisa de ajuda?”, ouvi alguém perguntar. Quando virei o rosto, vi o rapaz que eu pensava ter perdido para sempre.

“Oi”, não consegui esconder um sorriso.

“Mas você está rindo de quê, toda molhada desse jeito?”

Senti vontade de correr para a chuva e me molhar um pouco mais. Fiz, porém, cara de inocente.

“Vem comigo que eu vou ajudar você a se secar”, falou.

Como ele também não tinha guarda-chuva, acabamos nos molhando ainda mais. Antes, ele ainda tentou comprar um com um homem que vendia na calçada. Mas todo o estoque havia terminado.

“Vamos correr, acho que a chuva vai piorar”, falou.

A chuva era tanta que não me deixava ver o que havia pela frente. Ainda assim atravessamos duas ruas para ir ao prédio onde ele dizia que podíamos nos abrigar. Percorremos mais duzentos metros tentando nos proteger sob as marquises, elas estavam cheias de gente que esperava uma possível estiagem. Mas a chuva era inclemente, castigava cada vez mais.

Entramos num prédio comercial. Ele se virou para mim dizendo que o seguisse. Subimos ao nono andar num elevador antigo mas bastante rápido. O rapaz dobrou à direita no corredor e  parou diante de uma das portas.

Era uma sala comercial, um estúdio fotográfico, desses que fazem fotos para documentos e para aniversários. Não havia ninguém lá dentro.

“Como você conseguiu este lugar?”, perguntei.

“Meu irmão trabalha aqui, hoje como não pode vir a Copacabana deixou a chave comigo para eu lhe fazer um favor.”

Apontou o banheiro.

“Você pode tentar se enxugar ali, veja se encontra uma toalha.”

Entrei e me olhei no espelho, que ficava ao lado da pia. Só então pude ver como estava ridícula molhada daquele jeito. A única toalha era pequena, de rosto. Mesmo assim tirei a roupa toda e comecei a me enxugar. Apareci na fresta da porta e disse:

“Não tenho o que vestir, a toalha daqui é muito pequena.”

“Deixa eu ver se encontro algum pano, ou outra toalha.”

Depois de algum tempo, voltou com uma espécie de manta. Também era estreita, mas servia para eu me cobrir. Enrolei o pano no meu corpo, ficou como um tomara que caia curto. Não me fiz de rogada, saí do banheiro assim mesmo, e com a toalha de rosto cobrindo o cabelo.

“Até que você ficou bem assim”, falou e sorriu.

“E você, não vai se enxugar?”, perguntei enquanto esticava minhas roupas sobre um dos sofás.

“Não sei, não há outro pano.”

“Olha, já que você me ajudou, vamos fazer assim”, me livrei da manta e a entreguei nas mãos dele. “Não quero que você fique doente por minha causa, sei que não vai ficar olhando o meu corpo.”

No começo ele pareceu se surpreender. Mas depois minha nudez passou a ser para ele a coisa mais natural do mundo.

Sentei numa das poltronas, cruzei as pernas e tentei cobrir os seios com um dos braços. Olhei para ele enquanto se enxugava. Falou:

“Acho que aqui tem pó de café, vou fazer um pouco pra gente.”

Antes que ele se dirigisse à minúscula cozinha, eu disse: “senta aqui do meu lado; deixa que depois eu faço o café.”

quinta-feira, novembro 03, 2011

Você não vai me pedir que eu fique nua no seu carro, não é mesmo?

A Tijuca é um bairro grande e complexo, começa após a Praça da Bandeira, confunde-se com o Maracanã de um lado e esbarra nas encostas do outro, uma das ramificações segue até a Usina, outra até o Grajaú, e não deixa de fazer divisa com Vila Isabel.

Era sábado de manhã, eu caminhava em volta da praça Afonso Pena, logo ali no início da Tijuca, primeira estação do metrô depois do Estácio. Bonito o lugar. Com espaço para crianças e para adultos, a praça abriga ainda uma pequena academia ao ar livre para os idosos. Já havia percorrido quatro vezes o perímetro da praça quando avistei um homem que vinha na direção contrária. Olhou-me de relance. Completei mais uma volta. Mais ou menos no mesmo ponto onde o vira na volta anterior, vinha ele de novo. Assim os encontros se repetiram por mais uma, duas, três, quatro, cinco voltas.

Na sexta, não mais cruzei com ele. Quando pensava ir embora, já cansada, tendo cumprido meus exercícios diários, reparei o homem às minhas costas. Continuei por mais uma volta. Ele não me abandonava.

Na esquina da Afonso Pena com a Dr. Satamini, atravessei e segui para casa. Duas quadras depois, entrei no prédio onde moro.

Tenho cinquenta anos mas mantenho a forma. Não estou lá essas coisas, portanto não havia motivo para que ele me seguisse. Uma pessoa contaminada pela propaganda de violência nos dias de hoje logo pensaria estar correndo algum tipo de perigo. Mas desde o começo eu tinha certeza de que não se tratava de nada disso.

Quando entrei no apartamento, estava calor. Fui até a janela e a abri. Olhei a rua.

Não me acho nada sensual, por isso me senti feliz por ter sido admirada. E ele, pela jovialidade que transmitia, devia ser mais jovem que eu.

Pensava tê-lo perdido, mas não me sentia em desvantagem. Eu ainda era capaz de atrair os homens, e isso era o que mais importava.

Assim que saí do chuveiro, tocou o telefone. Era Magda. Ela e suas histórias picantes, histórias de namorados, paixões a trezentos por hora. Nada falei, e jamais falaria, sobre a paquera daquela manhã. Esperei que me contasse as novidades.

Disse-me que na noite anterior, ao abrir a porta do apartamento para levar o lixo, deparou-se com a vizinha nua no corredor do oitavo andar.

“Magda, por favor”, falei, “para saber sobre mulher nua, me olho no espelho.”

“Não é por isso que te conto, Vanda, é porque até agora não entendi o motivo de a vizinha estar nua batendo na própria porta.”

“Magda, há malucos e malucas para tudo, ou mesmo pode ter acontecido o seguinte: estava nua dentro de casa e decidiu ver alguma coisa do lado de fora, não quis se vestir porque achou que não havia ninguém ali.”

“É, você pode ter razão, mas para isso ela não bateria na própria porta.”

“Ela viu que você a espreitava?”

“Acho que não. Caso ela tivesse me visto, acho que falaria alguma coisa comigo.”

“Estava claro o corredor?”

“Não, por isso achei estranho. Há um sensor que acende as lâmpadas quando alguém passa. Ela estava bem rente à porta, e a luz não acendeu.”

A conversa se desviou por outros assuntos, a vizinha continuou nua, sem resposta, batendo à própria porta.

“Vanda, na verdade telefonei para perguntar se você quer sair à noite. Vou eu e a Marilda.”

“Aonde vocês vão?”

“Não sabemos, ainda vamos decidir. Queria chamar você também."

“Vocês vão a algum espetáculo, como música, cinema, ou teatro.”

“Dessa vez, acho que não. Queremos sair para beber alguma coisa e colocar a conversa em dia."

“Ok, acho que vou.”

Às 8:30h estava eu no Odorico. Chegara antes delas. O garçom veio me perguntar o que desejava, entregou-me um enorme cardápio. Desculpei-me, disse que esperava as amigas e que beberia naquele momento apenas água mineral. Ele se retirou e não demorou a voltar com a pequena garrafa.

Havia algumas mesas vazias, mas os clientes já começavam a chegar. A maior parte era composta de rapazes e moças, bebiam chope, mas, principalmente as mulheres, também consumiam água. Pude escutar algumas conversas, geralmente tratavam de relacionamentos, sempre histórias sobre outras pessoas. É incrível a capacidade que o ser humano tem de falar de si próprio ao comentar sobre a vida alheia.

Quinze minutos depois, Magda chegou. Beijou-me e sentou. Viera de calça comprida e uma blusa de algodão fino, dessas que se abotoam de cima a baixo, com algumas flores em detalhes, muito sutis, à altura dos ombros. Mais cinco minutos, chegou Marilda. Veio de vestido curto, bem extravagante. Apesar de seus quarenta anos, é a rainha das academias. O corpo semimusculoso tentava escapar pela barra do vestido, sobretudo suas grossas coxas.

“Nossa, aonde você vai assim?”, Magda arriscou.

“Assim?”, quis saber enquanto sentava.

“Tão à vontade...”

“Nunca se sabe.”

“Ou se sabe a intenção?”, insistiu Magda.

Marilda e eu rimos.

“Vamos tomar chope?”, perguntou Magda.

“Não gosto de chope, você sabe, quero uma caipivodca”, reagiu Marilda.

As duas olharam para mim.

“Fico por enquanto na água mineral.”

A conversa começou a girar em torno de um homem que Marilda conhecera havia duas semanas. Magda perguntou onde ele estava naquele momento.

“E eu sei?”

“Como você pode namorar alguém e não saber onde a pessoa está?”

“Caso eu queira, telefono que ele aparece. Mas agora prefiro não fazer isso. Deve estar bebendo com os amigos.”

“E se ele de repente arranja outra?”, insistiu Magda.

“Não preciso me preocupar com isso; se tiver de acontecer, nada posso fazer.”

Eu parecia estranha àquela conversa. Na verdade, estava preocupada com meus exercícios físicos. Fazia tempo que não tinha namorado, por isso nem pensava em tais coisas. Mas, de súbito, lembrei o homem que me seguira naquela manhã.

O garçom trouxe a caipivodca da Marilda, um copo bonito, a cor da bebida era linda.

“Tem caipivodca de morango?”, perguntei.

“Sim.”

“Traz uma pra mim”, pedi.

“Salve, a Vanda vai beber, que bom!”, Primeiro fui saudada por Marilda, depois Magda sorriu e levantou o copo de chope.

Marilda, que só falava bobagem, continuava suas histórias. Pensei, será que essas mulheres não entendem de outras coisas que não sejam homens e o que fazem com eles?

“Sabe, outro dia acho que estava com um vestido também curto, pode até ter sido este, não lembro, pedi a esse novo namorado que me levasse à Barra. Na descida do Alto, ele ficou com as mãos sobre as minhas pernas, tive vontade de ficar nua, mas achei que era cedo pra isso.”

“Você já andou nua num carro com o namorado, não?”, Magda, curiosa como sempre.

“Com um, não, com vários, mas ainda não com esse.”

“Nua num carro?”, perguntei ingênua.

“É, ela tirou toda a roupa e ficou nua no banco do carona enquanto o homem dirigia.”

Minha face, involuntária, demonstrou espanto.

“Não se assuste, Vanda, a Marilda adora essas sensações.”

Quis eu dizer: é mesmo?, mas fiquei em silêncio, enquanto a protagonista de tais aventuras sorvia mais um gole de sua bebida.

O garçom trouxe minha caipivodca. As meninas brindaram comigo. Bebi o primeiro gole.

“Que bom que a Vanda decidiu beber com a gente, esse negócio de apenas água mineral não está com nada”, falou Magda.

A conversa continuava sobre homens e namorados. Magda começou a falar sobre sua mais recente conquista, um namorado da zona sul. Mas não podia sair com ela nos finais de semana.

“Você perguntou se ele era casado”, intrometi-me na conversa antes de ela completar.

“Isso não é pergunta que se faça.”

“Como assim, não é pergunta que se faça?”, eu quis saber.

Marilda riu, e foi ela quem falou:

“Minha amiga, na nossa idade, já aprendemos a ser discretas.”

A resposta não me convenceu. Magda continuou a descrever as qualidades do homem, depois os lugares que frequentava com ele, locais muito chiques por sinal.

A bebida fez que eu me soltasse. Passei a rir do que as duas contavam. Após ter bebido mais da metade da caipivodca, comecei a observar com mais detalhes o rosto de Marilda. Era ela que falava mais. Percebi traços que eu não reparara antes, sua testa parecia estar úmida. Abaixei os olhos, ela se posicionara lateralmente, suas pernas estavam cruzadas e o vestido subira bastante, quase dava para ver a calcinha. Passaram alguns minutos, as vozes das pessoas soavam mais altas. Não sabia se isso realmente estava acontecendo ou se os meus sentidos se tornaram mais aguçados por causa da bebida.

“Olhem ali, mas com cautela, há um homem nos olhando”, afirmou Marilda.

“Sempre os homens nos olham”, observou Magda.

“Mas esse está lançando um olhar arrasador, e acho que é para a Vanda.”

Tomei um susto. Parecia que eu estava dormindo e subitamente acordara.

“Para mim?”, falei sem pensar.

“Para você mesma, mas não olhe agora”, alertou-me Marilda.

“Logo eu, que nem vim de roupa curta, me vesti de modo tão discreto, uma roupa vulgar, calça jeans, sandália baixa e essa blusa polo apertada.

“Deve ser por isso, blusa polo apertada, está destacando os seios”, sugeriu Magda.

Olhei na direção do homem. Qual não foi minha surpresa! Era o mesmo que me perseguira pela manhã.

“Viu, Vanda, é pra você, ele até sorriu”, falou Marilda.

“Vou fingir que não está acontecendo nada”, disse eu.

“Não faça isso, querida, não vale a pena desprezar ninguém atualmente, as coisas estão tão difíceis, apenas uma conversa, um passeio amanhã ou depois. Eu, você sabe, às vezes saio com o homem no mesmo dia que o conheço, mas não aconselho isso a você”, continuou Marilda.

“Às vezes me sinto tão bem sozinha”, tive tempo de dizer.

“Não invente, Vanda, ninguém gosta de ficar sozinha”, Marilda ainda.

Magda sorriu, Marilda acompanhou-a no sorriso e passou a falar de si própria.

Eu queria ir ao toalete, mas tinha que passar pela mesa onde ele estava. Decidi que mesmo assim iria. Será que eu já me aventurava na direção dele, após um copo de vodca com limão?

“Com licença”, levantei-me e apontei às duas que ia ao banheiro.

Pus-me a caminho. Ao ultrapassar a mesa onde ele estava, ouvi-o chamar:

“Moça, por favor, por favor...”

Olhei-o, mas não de forma muito agradável.

“Segure isso”, entregou-me um telefone.

“O que eu vou fazer com isso?”, acabei perguntando.

“Vou telefonar a você, já que está tão tímida, assim falamos com mais calma; caso você decida, passamos a conversar pessoalmente.”

Segui meu caminho ao toalete.

Na volta, sentei-me junto às minhas amigas, no mesmo lugar que ocupara.

“E então, Vanda, o que houve?”

“Não houve nada.”

“Nada mesmo?", caçoou Magda.

“Deixemos a Vanda em paz, me deixa acabar de contar...”, disse Marilda, e continuou o assunto sobre o qual vinha falando já fazia uns vinte minutos.

Escutei o telefone tocar.

“Com licença”, pedi às amigas e me levantei. Caminhei até o passeio.

“E então?”, ouvi a voz dele.

“E então o quê?”, rebati.

“Você é tão bonita.”

Sorri. Acho que lá da mesa ele olhava para mim.

“Você é muito simpática”, continuou.

“O que você faz sozinho num sábado à noite?”, lancei o desafio.

“Pois é, né? Preciso de uma moça bonita...”

“Moça?”, brinquei com a palavra.

“Acho que sim, você é tão jovem.”

Comecei a me interessar. Senti vergonha por achar que minhas amigas podiam estar me espionando. Mas elas mantinham-se discretas, estão acostumadas a essas coisas.

Tomei coragem:

“Como vamos fazer?”

“Beba mais uma caipirinha com suas amigas.”

“Caipivodca”, corrigi.

“Isso, caipivodca, desculpe. Quando eu vir que você acabou a bebida, ligo de novo, beba devagar.”

“Minhas amigas nada vão reparar, são pessoas discretas.”

“Você então vem para minha mesa agora?”

“Você tem razão, vou fazer primeiro o que sugeriu.”

Voltei à mesa e pedi mais uma caipivodca. Magda e Marilda não se surpreenderam, sorriram e continuaram a conversar.

Às nove e meia eu estava dentro do carro de Sérgio.

“Você não vai me pedir para ficar nua no seu carro, não é mesmo?”, deixei escapar.

“O quê?", pareceu surpreender-se.

“Nada, vamos em frente.”

“Onde você quer passear?”, perguntou.

“Decida você”, suspirei.

“Ok” engatou a primeira. Antes de o carro partir, olhei para o bar. Magda e Marilda laçaram-me dois adeusinhos.

quarta-feira, outubro 26, 2011

Mas você não acha que estou até mais bonita?

“Carol, você é louca, deixou que o homem te fotografasse nua e nem ligou para o destino das fotos. Se ele faz chantagem contigo?”

A voz de Ana ecoava na minha cabeça. Na verdade, jamais pensara nisso, e ele não foi o primeiro a me fotografar nua. É preciso dizer que não sou modelo fotográfico, posei só de brincadeirinha.

Quando fiz fotos pela primeira vez nua, ainda não havia a internet. Cheguei a dizer tempos depois a um ex-namorado que também me perguntou se teria coragem de ficar sem roupa para algumas fotos: “já fui fotografada nua e nem sei onde andam as fotos, acho que com o rapaz que me clicou.” Ele retrucou: “você não tem medo do que ele possa fazer com essas fotos?” De pronto, respondi: “nem penso nisso.”

Mas Ana me deixou preocupada. Agora existe essa bendita rede. Está certo que é imensa, que nela há de tudo, logo não será fácil alguém me encontrar pelada num site. Mas se procurar com empenho, acabará achando.

Fui para o computador enlouquecida. Coloquei meu nome por inteiro, pela metade, meus apelidos, todos os nomes falsos que costumo dizer aos namorados. Nada, nadinha de eu pelada. Ainda bem. Já pensou se apareço num desses sites visitados milhares de vezes ao dia por pessoas do mundo inteiro? Vou ficar roxa. E no meu trabalho, o que vou dizer? Será que me mandam embora?

Falei a mim mesma: calma, Carol, você sempre teve sorte, nunca pensou nesses problemas, vai começar a viver essa paranoia? Ana é cheia de medo, vai à terapia, anda escondida para não ser assaltada, não usa roupa curta nem tem namorado, você, cheia de homens te seguindo, se quiser escolhe a dedo, vai ficar ruminando isso agora?

Ainda bem, só me preocupei durante um diazinho. Voltei a ser eu mesma. Ando pelada, vou à praia pelada, permito que o namorado desate os lacinhos do meu biquíni no banho de mar. E tem mais, deseja saber? Se ele quiser fico peladinha pra mais algumas fotos. Qualquer problema, eu nego. “Não, essa não sou eu, existe programa de computador pra tudo, foi alguém que criou as fotos. Mas você não acha que estou até mais bonita?"

Vou tirar um sarro.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Tínhamos toda a tarde do mundo

Andava numa rua do Centro. Hora do almoço. Passei por um homem de ar jovial, embora aparentasse meia idade. Lancei-lhe um olhar furtivo. Seus olhos, porém, surpreenderam os meus. Continuei em frente sem apressar os passos. Será que ele me seguiria? Uma mulher não deve manter o olhar frontal, sobretudo dirigido a homens, significa convite. Depois de cruzar uma das transversais, assaltou-me a tentação de olhar para trás, queria saber se estava sendo seguida. Mas resisti, mantive a pose e a direção.

Mais adiante cruzei uma travessa onde há uma cafeteria. Cheguei junto à garçonete e pedi um expresso. Ao me voltar para sentar em uma das mesinhas, dei-me com ele. Não mexi os olhos, ficaram voltados à direita, paralisados, tentativa vã de disfarce.

Pedi um pastel de forno quando a garçonete atravessou o pequeno espaço entre as três mesas que dividem a pequena loja. Abri a bolsa e fiz de conta que ia pegar um livro. Na verdade, segurei o livro nas mãos. Não havia outro remédio. A capa vermelha, lustrosa; comecei a folheá-lo. Mantinha-me absorta, escondida em suas páginas. Voltou a moça com o salgado. Repousei o livro sobre a mesa e comecei a comer. Ainda havia meia xícara de café.

Não mais vi o homem. Seria o mesmo a quem eu olhara na rua, ou me enganava? Que pena, não o queria, mas era bom saber-me desejada, seguida, enfim, valorizada, mesmo em apuros. Comia voltada para a vitrine da loja em frente, loja de roupas masculinas. Bonitas as roupas. Enquanto observava o nome da loja, um homem entrou na cafeteria. Ele. Dessa vez acertei. Abaixei os olhos, rápida, mas ele surpreendeu o meu gesto sutil nos últimos instantes. Flagrada nua no inesperado entreabrir de uma porta. Não consegui evitar um meio sorriso. Não sei dizer se de gosto ou de pudor. A situação prolongou minha face febril. O homem tinha uma bonita pasta marrom, dessas de couro, devia ser cara a pasta.

A garçonete veio atendê-lo.

Como eu escaparia? Fácil, bastaria levantar e sair dali a passos rápidos. Mas meu desejo pesava duzentos quilos. Calma, Lúcia, coma com vagar o pastel, tome os últimos goles do café. Fixei-me mais uma vez numa página do livro. De que se trata mesmo esse livro? Acho que é de filosofia. Será que ele deseja saber o que leio? Será que me quer nua perenemente? Minha mão direita tremeu quando levei a xícara aos lábios pela última vez. Novamente trocamos olhares; o meu, porém, mais uma vez involuntário. Era bonito o homem, cabelo preto, peito estufado, camisa branca, devia ter a pele macia. Será que falará alguma coisa, um palpite sobre o tempo, sobre o sabor do café? Ou sua voz se perderá no anonimato das ruas apinhadas do Centro.

“Moça, moça!”

Para onde olho? Onde enfio a cabeça?

“Moça, no chão!”, apontava, não pôde completar porque levara à boca um pedaço enorme de pastel.

Abaixei os olhos. Ah, o marcador do meu livro. “Obrigada.”

Sorrimos. Estava aberta a porta. E fui eu que provocara. Na verdade, deixei a porta escancarada. Agora, era com ele. Bastaria entrar. Nenhum obstáculo. Tínhamos toda a cidade pela frente, tínhamos toda a tarde do mundo...

terça-feira, outubro 11, 2011

Lancei-lhe um beijinho

Tudo começou quando atravessava a W 3 Norte numa terça de manhã. Trabalhava e resolvera sair para fumar. Lembrei que, do outro lado, há uma banca de jornal. Havia alguns dias desejava olhar uma revista de moda. Assim que pisei no passeio após terminar a travessia, um homem de dentro de um automóvel olhou para mim. Correspondi-lhe sorrateira. Qual não foi minha surpresa encontrá-lo minutos depois, na mesma banca de jornal, bem ao meu lado.

“Oi”, cumprimentou-me e sorriu.

“Oi”, respondi e continuei a olhar minha revista. Dei um trago no cigarro, tentava manter a tranquilidade.

“Lembra de mim?”, perguntou.

“Claro, lembro, sim”, falei sem lhe voltar os olhos.

“Não sei se posso deixar o carro ali, próximo à esquina, não tenho muito tempo”, acrescentou.

“Nem eu, deixei o trabalho para fumar e estou aqui já faz um tempinho.”

“Você trabalha por aqui?”

“Sim.”

“Onde?”

Apontei o TRT, adiante, no outro lado da rua. “E você?”, perguntei

“Não sou daqui, vou ficar mais dois ou três dias”, respondeu e hesitou se iria até o carro ou esperaria. “Na minha cidade, quando uma mulher corresponde ao olhar de um homem, ela oferece o número do telefone.”

“Ah, é isso”, devolvi a revista e fiquei ao seu lado, “você quer o meu número...”

“Na verdade queria conversar um pouco com você.”

“Anota o meu número, me telefone depois das três que a gente marca alguma coisa, ok?”, sorri meiga – minha amiga Ana diria que sorri bem piranha.

“Não quer entrar um pouco para conversarmos”, destravou as portas e esperou minha reação.

“Não posso, tenho de trabalhar, telefone depois das três”, fiz uma expressão provocante e lhe lancei um beijinho.

Acho que foi o meu vestido que o atraiu; apesar do tecido grosso, deixava os braços de fora e os seios salientes.

Às quatro e trinta ele já havia telefonado duas vezes. Eram seis horas quando deixei o prédio para, no ponto seguinte, entrar em seu carro.

"Vamos ao Lago Sul", sugeri, "ensino o caminho, é preciso entrar na terceira ponte."

Seu carro era novo e veloz, mas dirigia com muito cuidado.

"Sua cidade é muito agradável", suspirou quando já percorrêramos mais da metade do caminho.

"Não vou ficar nua pra você com tanta facilidade", falei e insinuei uma gargalhada.

Ele também riu.

"Aqui em Brasília, as mulheres reparam muito os homens", falou e deu uma piscadela enquanto voltava a cabeça para frente, em atenção ao trânsito.

"Você acha isso mesmo?"

"Tenho certeza", falou, "desde ontem mais de cinco mulheres sorriram para mim, e não é porque tenho cara de cômico."

"Quem sabe?", falei e continuei com a fisionomia irônica.

"É sério, as mulheres olham para os homens onde quer que se ande em Brasília."

"Só em Brasília?"

"No Rio não é tão fácil, principalmente na zona sul. Ali as mulheres gostam de se fazer de difícil."

"Ah, sempre o Rio. O Rio não é Brasil", afirmei.

"Como?"

"O Rio é outro país, não se parece com nada do que conhecemos, está mais próximo de Nova York do que de qualquer outra cidade brasileira. Entre aqui, isso, agora mantenha à direita, já estamos quase chegando."

Uma quadra depois entrávamos no centro gastronômico do Lago Sul, um lugar caro, porém bonito.

"Você gosta de que tipo de comida?", perguntou.

"Para falar a verdade, nem estou com fome, mas bebo alguma coisa."

"Ótima ideia, vamos beber,"

Fez a volta e estacionou.

Para uma terça-feira, até que o movimento era bom. Anoitecia e se podiam ver alguns prédios stuados do outro lado do lago. Aquela paisagem sempre me provocou alguma emoção. Brasília não tem o mar, mas dali é possível avistar, vez ou outra, alguns barcos, além disso, há o ancoradouro.

Ficamos em uma mesa externa, um toldo nos cobria, mas era possível ver as árvores que cercavam o restaurante.

"Em que você trabalha?", perguntei.

"Em que se pode trabalhar estando três dias em Brasília?"

"Você é uma espécie de lobista", falei.

"Um lobista num automóvel alugado?"

"De que eles andam?"

"Direto para o aeroporto, carros com motoristas."

"Você é um ilustre deputado desconhecido."

"Nem tanto, sou juiz, se é que você vai acreditar."

"Juiz?, de verdade?"

"Em carne e osso, TRF, de Sampa, vim resolver um problema de gabinete."

"De gabinete?"

"Isso, não posso me estender, é sigiloso."

"Então teremos que andar dentro da lei?", olhei e fiz-me de desentendida.

"Isso, na mais absoluta lei", completou.

"Juízes paqueram?"

"Por que não? Como você veio parar aqui?"

"Trabalho na justiça também, só que na do trabalho, você deve conhecer meu chefe."

"Não o conheço e prefiro falar de outro assunto."

"O que você acha do governo?" Eu quis saber sua opinião.

"Como qualquer outro, não há diferença, até as crises são as mesmas.

"Caso tenhamos que seguir estritamente a lei, você não invadirá a privacidade de uma mulher."

"Lógico que não."

"Então para que me chamou para sair?"

"Gostei de você, é muito bonita e parece inteligente."

"As mulheres que você conhece não são inteligentes?"

"Algumas sim, outras não, meio a meio."

"Aqui em Brasília, não posso falar por todas, mas a maioria é muito inteligente, até a minha secretária, aquela que fica em casa cozinhando, arrumando, lavando e passando, ela é muito inteligente."

"Ela leu Dostoiévski?"

"Ah, você e todos os homens, acaso ler Dostoiévski é sinônimo de inteligência?"

"O que seria então, para você?"

"Alguma coisa sobre física nuclear, ou a química dos corpos em decomposição, não sei..."

"Sua empregada sabe alguma coisa sobre isso?"

"Empregada não, secretária."

"Isso, secretária, ela sabe?"

"Não, mas não sustenta o marido e discute letras de música."

O garçom já nos esperava fazia tempo. Olhamos os cardápios e pedimos as bebidas.

Uma moça levantou-se e saiu seguida do namorado, acabavam de deixar o local, ela o beijou na boca, um beijo rápido, seu rosto demonstrava toda a felicidade do mundo, afastaram-se abraçados um ao outro; ela, sensualíssima, ia dentro de um vestido azul justo e muito curto.

"Tenho um vestido assim", falei ao meu acompanhante.

"Você não se sente mal usando uma roupa desse tipo?"

"Depende para onde se vá, é roupa para noite, então a gente se sente bem. Mas, por exemplo, para andar de dia nem pensar, vou me sentir nua."

"Caso você vá a São Paulo, pode escolher um presente, e, quem sabe, queira um vestido bem caro?"

"Jura?, adoro roupas caras, você vai ter uma despesa muito grande."

O garçom chegou com nossos coquetéis, todos muito bem preparados e coloridos. Sorvi um gole, adorei.
Ele pediu uma bebida que eu não conhecia, mas tinha algum composto que levava vodca russa. Durante alguns minutos ficamos em silêncio. Aproveitei para olhar em volta e observar o movimento. Numa mesa próxima duas mulheres e um homem bebiam chopes e contavam algum caso divertido. Uma das jovens tentava explicar algo que lhe acontecera, mas não consegui prestar atenção.

Outro garçom veio à nossa mesa e deixou um tipo de entrada, havia pães, pastas, frios e berinjela cortada bem fina. Meu recente enamorado pegou uma torrada e comeu com umas tirinhas da berinjela. Aproveitei para experimentar uma pasta.

A bebida me ajudou a pensar melhor sobre o dia e a noite que eu estava vivendo. Em situações normais, não se tem tanta sorte. Caso fosse verdade mesmo o que ele falava não é sempre que se namora um juiz, tanto mais alguém jovem como ele –, eu estaria ganhando um bilhete premiado. Tentava descobrir se deveria aproveitar tudo naquela mesma noite ou se haveria continuidade, mesmo se tivesse de viajar à sua cidade.

"Você é muito ocupado em São Paulo?", arrisquei.

"Todos nós, juízes, somos, o trabalho não termina e as pessoas ainda reclamam que a justiça é lenta."

"Portanto, é impossível visitar você em São Paulo."

"Impossível, não. Mas temos que marcar encontros à noite, e às vezes tarde."

"E onde posso ficar hospedada em São Paulo?"

"Na minha casa", falou como se fosse a dedução mais lógica do mundo.

"Que bom!", exclamei, "acho que tive muita sorte em conhecer você."

"Ah, não diga isso, sou uma pessoa comum, as pessoas costumam fantasiar muito, você está fazendo isso."

"Não, não é que não existam homens do seu nível para sair comigo", pigarreei proposital, "mas acho que foi ótimo conhecer você, e logo numa época em que não tenho outros compromissos."

"Você quer dizer, outros relacionamentos."

"Isso mesmo, adivinhou!"

"Você parece muito feliz."

"E realmente estou."

Comemos a entrada toda, e ainda pedimos um pequeno prato, filé de truta com molho à moda da casa, acho que tinha um tantinho de caramelo, nunca havia comido aquela refeição, mas estava uma delícia. Acho que o jantar contribuiu para nos relaxar ainda mais.

"O que você vai fazer depois de me deixar em casa?"

"Estou hospedado num daqueles hotéis altos, no setor hoteleiro norte, quer ir até lá ou quer que eu vá à sua casa?"

"Você iria mesmo à minha casa?", surpreendi-me com sua oferta.

"Por que não?"

"Olhe que não é grandes coisa, e nunca imaginei que um magistrado pudesse ir lá."

"Ah, esqueça isso, sou magistrado apenas quando estou no trabalho."

"Tem mais uma coisa", disse envergonhada, "você não vai me levar presa se eu fizer uma transgressãozinha?"

"Depende, caso haja algum atenuante, posso pensar."

"Ah, atenuante é o que não vai faltar!"

Beijei-lhe o rosto pela primeira vez. Horas depois, dias depois e meses depois, beijei-o muito mais. E fizemos outras tantas coisas... Mas conto numa outra hora.

Quer vir buscar sua amiga?

Ai, não sei mais o que faço, sempre peladinha... Temo que isso um dia pode não acabar bem. Mas como sei que você me ama e atende a todos os meus pedidos, vamos a mais um. Vim de uma festa com um namoradinho novo. Insinuei que gosto de ficar nua. Foi o suficiente. Ele parou o carro e tirou toda a minha roupa. Depois me contou que tinha medo que o chamassem de tarado. Segredou-me que adora pedir às mulheres com quem se relaciona para saírem nuas do carro. Primeiro perguntou se eu achava sua atitude normal. Falei que não via nada de mais no seu desejo. Depois perguntou-me, muito gentil, se eu podia concretizá-lo. Prontamente, respondi. Ele destravou as portas e lá fui eu nua para a calçada. E sabe onde? Na Lagoa. Eram três e meia da manhã. Sorte minha? A princípio, sim, porque não passava ninguém. De brincadeira, dei um adeusinho a ele. Não é que o homem arrancou com o carro e me deixou ali, ou melhor, aqui. Ainda o espero... Logo que desapareceu, senti um friozinho na barriga. Mas me controlei, eles sempre voltam, pensei, este também há de retornar. Mas... Mas... (agora o mais importante para você, que sempre foi meu amigo)... ele ainda não deu as caras. Acho que quer procurar logo mais as notícias e saber de uma mulher nua, o que aconteceu a ela etc. etc. Há namorados que completam seu prazer assim. São quatro e trinta e dois neste momento, daqui a pouco o sol, bonitinho, como gosto. Mas eu, sem nenhuma roupinha. Ah, ele me deixou sair com a bolsa, sorte minha, não?, por isso envio a você a mensagem. Quer vir buscar uma amiga em apuros? Você também vai morrer de tesão, sua amiga está tão saradinha. Espero naquela curva de quem vem de Copa, no parque, há uma árvore grande, basta piscar os faróis que corro pra você. Caso você falte, sua peladinha vai a outro. E sei que você é quentinho por mim. Venha logo, tá? Não acredita? Pergunta como posso escrever tão bonitinho em meio a uma situação desfavorável? Sou escritora, você sabe, e perfeccionista. Nua na avenida, prestes a ser surpreendida, mas sem perder a elegância. Não demore!
Beijinhos,
sua M.C.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Você vai adorar!

Estava na calçada, aguardava o táxi. Reparei uma moça com uma túnica frente única, parecia na verdade um microvestido. Mas dava para perceber que ela vestia short por baixo. Respirei aliviada. Já imaginou alguém de roupa tão curta sem o shortinho? Lembrei que eu já saíra com um vestido daquele comprimento. Tive uma vontade louca de estar naquela blusa, todos os homens a me olharem, a procurarem minhas pernas nuas.

O táxi parou. Entrei. O motorista, sempre discreto, já conhece meus trajetos. Jandira me havia ligado fazia trinta minutos e comunicado sobre o cliente que eu deveria atender naquela tarde.

Após rodar por toda a Presidente Vargas, o automóvel contornou a Candelária e parou no sinal com a Primeiro de Março. Alguns minutos a mais atravessamos o trecho da perimetral sobre a Praça 15. Dois ou três minutos depois eu desembarcava na Marechal Câmara, em frente ao hotel onde costumo atender a maioria dos meus clientes.

“Ei, moça”, um homem me surpreendeu quando quase já atingia a porta do hotel. Parei, automática. Mas não era quem estava agendado. Este me esperava na suíte 410.

“Ei, moça, você combina encontros pela Jandi, não?”

“Sim, mas você precisa ligar para ela, não fale comigo agora, por favor”, deixei o homem para trás e atravessei a porta.

Na suíte encontrei o cliente, como de costume.

Duas horas depois, tendo cumprido meu papel com esmero, saí do hotel, sozinha. O cliente descera um quarto de hora antes. Na calçada, porém, o mesmo homem que me abordara na chegada.

“Moça, por favor, qual o seu preço?"

“Já falei, os encontros precisam ser agendados através da Jandi, não falo sobre preços."

“Você tem um expediente, não? Que tal sair comigo por fora, pago o que eles pedem e você fica com as duas partes.”

A proposta era vantajosa, mas perigosa quando se trata de alguém desconhecido.

“Prefiro que você ligue para a Jandira, tenho o número, basta dizer que deseja ser meu cliente, ela marca pra daqui a pouquinho. Não diga que estou a seu lado.”

“Não quero nada com sua agenciadora, mas direto com você.”

Eram quartro da tarde, muitas pessoas transitavam pelo passeio, nós atrapalhávamos o caminho. Ameacei deixar o homem falando sozinho. Ao dar dois passos, ele me seguiu, fez um gesto de que ia me segurar pelo braço. Mas recuou.

“Quanto sua agenciadora pede? Quatrocentos, quinhentos?”

“Seiscentos.”

“Pago setecentos mais cem para o seu transporte de volta.”

Sua oferta me fez pensar. Setecentos não era coisa à toa. Rapidamente, falei – porque sabia que se demorasse desistiria: “temos de ir primeiro a um caixa eletrônico, você deve fazer o depósito na minha conta.”

“Ok, qual é o seu banco?”

Caminhamos até o caixa mais próximo. Havia poucas pessoas na fila, logo se deu a transferência de valores.

“Agora vamos”, me segurou por um dos braços. Entramos num táxi.

O homem fez o taxista atravessar a ponte em direção a Niterói.

“Por que tão longe?”, sussurrei, “não posso ficar com você por mais de duas horas, vão procurar por mim.”

“Ficamos o tempo que seus clientes costumam usar, não há problema.”

Descemos do táxi dentro de um motel, numa das praias de fora.

Estou acostumada a diversos tipos de homem, mas naquele momento tremi um pouco. Como através da agência nunca tive problemas, comecei a achar que agindo sozinha poderia ficar em maus lençóis, literalmente.

Logo que entramos na suíte, falou:

“Tire a roupa.”

“Mas assim, sem fantasia?”, suspirei sem graça.

“Claro que haverá fantasia.”

Tirou da pasta uma túnica exatamente igual à da moça que eu vira enquanto esperava o táxi.

“Vista”, ordenou, “mas sem nada por baixo”, viu?

Vesti a blusa.

“Suba na sua sandália alta e ande como se estivesse desfilando, você tem de fazer de tudo para que eu não note que você está sem calcinha.”

“Acho que vai ser impossível, sou muito alta e a sandália ainda me deixa maior, mas já que é a sua vontade...”

Me coloquei na posição e comecei o desfile. Reparei que ele recolheu minhas roupas, mas fingi nada ter visto. Andei de um lado a outro, passos de modelo, sorria sempre que passava por ele. Acabei gostando da brincadeira.

“Sabe a moça da propaganda, a que fica de calcinha e sutiã ao fazer um pedido ao marido? Sou eu”, sorri e dei mais uma voltinha.

“Acredito, mas acho que você não vai passar no teste”, sentenciou.

“Por quê?”, fiz que ia chorar, enquanto parava e inclinava o corpo para frente, na direção dele.

“Estou vendo cinema de graça.”

“De graça? Pois está saindo tão caro!", sorri e o beijei.

Dali para frente, fizemos amor. Foi tudo de bom. Tanto para mim quanto para ele. Havia muito não gozava com um cliente.

No final, pediu: “volta para casa apenas com a túnica que dei a você?”

“Curtinha, assim? Vou dar cineminha pra todo mundo.”

“Levo você de táxi.”

“Como vou saltar?”

“No seu prédio não há uma entrada de automóvel?”

“Há, sim, entro por ela quando faço compras.”

“Então? Pago mais cinqüenta.”

“Mas você devolve minha roupa? Eu a levo na bolsa.”

“Claro, por que iria querer seu vestidinho?”

“Sei lá, às vezes aparece cada um...”

“Posso fazer uma pergunta indiscreta? É mais uma fantasia”, sua voz soou baixa, humilde.

“Claro, pois faça.”

“Você já foi presa alguma vez?”

“Presa? Pela polícia?”

“Isso.”

“Não”, falei com ar de preocupação. Será que ele era da polícia e iria me prender? Para voltar ao clima anterior, acrescentei: “mas já houve um cliente que me deixou pelada na rua, de madrugada.”

“Como você fez?”

“Aí você já está querendo saber demais”, simpática, aproximei meu rosto ao seu.

“O que custa você contar?”

“Morro de vergonha. Mas vamos fazer o seguinte, você me dá o seu endereço eletrônico que eu mando por escrito.”

“Jura?”

“Juro, e eu tenho um estilo para escrever... Você vai adorar!”

quinta-feira, setembro 29, 2011

Schopenhauer

“Venha cá, me abrace”, me pegou pelo braço e me beijou na boca.

“Não deixe o meu vestido cair no chão, por favor.”

Meu namorado, num salto ligeiro, conseguiu desligar a lâmpada do corredor.

Tive vontade de correr para casa. Mas a situação começou a me excitar. Afrouxei o corpo. Ele arrancou minha calcinha e me virou de costas, a posição que mais gosto. Fiquei toda molhadinha. Curvei-me num ângulo de mais ou menos 45 graus e abri as pernas. Ele veio por trás, mas sabia que era para meter na frente. Começamos a nos mover lentamente; pouco a pouco, porém, éramos dois alucinados. Todo o ardor não parou quando ele explodiu dentro de mim. Virei de frente, encostei à parede e pedi que me chupasse. Ele agachou e completou o serviço.

“Você é maluco, quero ver se chega alguém.”

“Você deve estar doidinha pra que isso aconteça.”

Difícil escrever sobre tal situação, porque me cheira a vulgaridade. Mas vamos adiante.

Naquela noite eu estava estudando Schopenhauer; se entendi bem, ele diz que o mundo tem vontade própria e essa vontade arrasta todas as coisas consigo; logo, predomina na natureza, incluindo aí a natureza humana, o irracionalismo. A arte seria um meio de espelhar essa característica e de permitir ao ser humano a reflexão sobre isso.

Lia e fazia essas conjecturas em meu quarto quando me bateu à porta meu namorado. Eram nove da noite. Me convidou para sair, dar uma volta, tomar um suco, conversar etc.

Como já estava trancada com os livros havia pelo menos cinco horas, achei que nada seria mais justo. Fazia calor. Tirei a bermuda e a camiseta que costumo usar em casa e coloquei um vestido simples, desses que vão até abaixo dos joelhos, de tecido leve (nunca sei nome dos tecidos, mas não esqueço o título dos livros que leio). Descemos para a rua.

Na lanchonete, pedi um suco de amora e ele, um copo de assai.

“Não vamos ao cinema faz tempo, você com essa mania de estudar...”

“Fomos faz duas semanas”, respondi.

“Só duas?”

“Isso, duas.”

“Pensei que fossem mais”, retrucou.

“Vimos aquela adaptação da obra de Oscar Wilde, por sinal um filme fraco.”

“Você preferiu o Para sempre Lilian.”

“Vimos em DVD, mas isso já faz tempo”, falei.

“Uma produção russa e sueca, acho; a Lilia era irracional, não pensou as consequências.”

“Não vamos discutir sobre racionalismo ou irracionalismo agora...”

“Você sempre diz que o mundo é irracional. Sabia que Freud era Schopenhauriano? O inconsciente é irracional, e coisa e tal. Viu, até rimou.”

“Nada mais óbvio do que Freud seguir Schopenhauer, embora ele não goste de falar sobre isso. Mas vamos conversar sobre outra coisa”, pedi.

“Vamos namorar, o que temos feito pouco.”

Ele, então, atravessando a mesa com a cabeça, me beijou por cima do copo de açaí e do suco de amora. Um beijo longo, boca a boca.

Tomamos nossos sucos em silêncio; ele, mais demorado do que eu. Depois que acabamos, caminhamos um pouco e entramos na locadora.

“Que tal um filme francês?”, perguntou.

“Você diz que os filmes franceses são lentos. Mudou de ideia agora?

“Tem um aqui, acho que esse você já ouviu falar”, apontou.

O filme chamava-se Caché, de Michael Haneke; em francês significa escondido.

Fomos para minha casa e assistimos ao filme no meu quarto.

O enredo focalizava, em primeiro plano, um intelectual apresentador de debates semanais pela TV. Ele sempre entrevistava escritores ou pessoas do mundo cultural. Mas este mesmo homem recebe quase todos os dias, e de forma anônima, uma gravação em VHS da parte externa de sua casa. Por mais que se esforce, não consegue descobrir o autor das filmagens. Ele passa a perseguir tenazmente o misterioso cineasta, mas jamais consegue encontrá-lo. Ao mesmo tempo, nunca descobre onde está a câmara que o está filmando. E quando acha que tem um suspeito, este se mata na sua frente. Mesmo assim as filmagens e as fitas enviadas a ele pelo correio não cessam. O interessante é que, através de seu programa de TV, ele pode entrar na casa dos outros, mas não admite a mesma exposição quando o fato acontece consigo.

Eu e meu namorado discutimos o filme até a uma da manhã. Assim que desligamos o aparelho, fui à sala e peguei uma garrafa de vinho das que meu pai deixa numa espécie de adega climatizada.

Meu namorado achou o filme bom, mas reclamou que o mistério não se resolve.

Falei a ele sobre a questão da imigração. “Você não viu que o homem visto como suspeito era de origem árabe?”

Ele concordou, mas disse que se tratava de um problema difícil de resolver.

“É um problema também escondido, como o nome do filme, os governantes e os nacionais não sabem o que fazer com toda essa população de imigrantes.”

“Você não está estudando uma filosofia irracionalista? Talvez os homens sejam irracionais”, falou.

“Uma coisa é a filosofia; outra, os países e suas políticas.”

“É melhor deixarmos isso de lado, vamos também aos nossos irracionalismos”, abraçou-me e começou a tentar tirar minha roupa.

“Hoje não, vamos deixar para amanhã.”

Ele se mostrou um tanto insatisfeito. Levantou-se para ir embora.

“Você não respeita o desejo das pessoas”, beijou-me mais uma vez.

“Qual o seu desejo?”

“Preciso dizer?”

“Mas assim?”, continuei, “é preciso criar um clima.”

“Então, vou criar, vamos até lá fora.”

Aceitei. Saímos do apartamento e ficamos perto do elevador.

“Vou fazer você viver uma experiência nova e ousada.”

“Estou curiosa”, disse a ele.

“Feche os olhos e levante os braços.”

“Você vai me assaltar?”

“Claro que não.”

“Então, ta”, falei e fiquei na posição que pediu.

Num ímpeto que eu não esperava, ele arrancou o meu vestido. Fiquei de calcinha.

“Você ficou louco, pode aparecer alguém, me dê isso aqui”, saltava tentando reaver minha roupa.

“Calma, você vai gostar, hoje estou irracional, como seu filósofo, como o filme que vimos.”

“Me dê aqui, por favor”, me esforçava para alcançar o vestido enquanto ele o escondia atrás do corpo.

“Venha cá, me abrace”, falou. Me pegou pelo braço e me beijou na boca.

“Não deixe o meu vestido cair no chão, por favor.”

Ele, num salto ligeiro, conseguiu desligar a lâmpada do corredor.

Tive vontade de correr para casa. Mas a situação começou a me excitar. Afrouxei o corpo. Ele arrancou minha calcinha e me virou de costas, a posição que mais gosto. Fiquei toda molhadinha. Curvei-me num ângulo de mais ou menos 45 graus e abri as pernas. Ele veio por trás, mas sabia que era para meter na frente. Começamos a nos mover lentamente; pouco a pouco, porém, éramos dois alucinados. Todo o ardor não parou quando ele explodiu dentro de mim. Virei de frente, encostei à parede e pedi que me chupasse. Ele agachou e completou o serviço.

“Você é maluco, quero ver se chega alguém.”

“Você deve estar doidinha pra que isso aconteça.”

Pela primeira vez transei no corredor de um prédio, e logo no meu, não havia necessidade, pois tínhamos a minha casa e a dele para fazer isso. Mas confesso que gostei. Depois que gozei, permaneci agarrada a ele.

Mas aí aconteceu outra coisa inesperada. A porta do elevador se abriu de repente, um facho de luz foi lançado sobre mim e dali saiu dona Marg. E ela estava nua!

“A senhora foi assaltada?”, perguntei sem pensar.

De pronto, ela falou:

“Me empresta o teu vestido?”

Meu namorado, boquiaberto, entregou-lhe o vestido.

“Veja, ficou um pouquinho curto, mas cabe direitinho”, cobriu-se dos seios até as coxas, apenas na parte da frente do corpo. “Você já chegou pelada em casa alguma vez?”

“Não, nunca”, pronunciei as duas palavras assustadíssima.

“Então vai chegar hoje, e depois disso não vai querer outra vida; esse seu namoradinho será sempre apaixonado por você”, seguiu em frente e abriu a porta. Antes de fechar, completou: “boa noite, amanhã devolvo o vestido.”

sexta-feira, setembro 23, 2011

Óculos

"Basta que você não tire meus óculos. A posição é confortável: sentada neste estofado macio, com as pernas cruzadas. Caso, porém, me faltem as lentes escuras, vou morrer de vergonha, sou capaz de correr à procura de minhas roupas, enrolo-me até à cabeça no primeiro lençol", falava eu no vasto salão aonde havia me levado, seu apartamento, segundo ele.

"Você conversa com a Ana?", ele quis saber.

"A secretária do presidente?"

"Ela."

"Só para cumprimentar, como manda a boa educação. Não me diga que ela já esteve aqui?"

"Não, não", percebi seu embaraço. "Nada disso, apenas queria salientar o tamanho dos saltos que ela usa.

Lembrei a Ana atravessando o salão. Os saltos sempre os maiores, e a saia curtinha, meias finas por baixo. Alguns dizem que sai sem calcinha com os namorados.

"Reparei um dia desses que ela olha demais pra você, acho muito difícil que vocês não tenham um caso. Vou perguntar a ela."

"Por favor, não faça isso, serei demitido."

"Brincadeirinha", acenei a ele para que viesse sentar ao meu lado. "Mas por que a Ana agora? Você não é nada hábil, viu?"

"Como, nada hábil?"

"Quantas mulheres você já teve?"

"Não sei o total, mas não foram tantas."

"Vou contar a você um segredinho básico: quando se está com uma mulher, não se deve falar de outra. Somos muito exclusivistas."

"Ah, sei disso."

"Não parece."

Ele levantou e foi buscar as taças de vinho, que repousavam sobre a mesa da antessala. Ofereceu uma a mim.

"Quer dizer que você não tira os óculos escuros?", tentava deixar as outras mulheres e a falta de habilidade para trás.

"Não, já falei, e nem tente; depois dessa conversa sobre a Ana, se você me despir dos óculos, adeus."

"Sinto muito sobre a Ana, não se fala mais nisso."

"Acho bom", ressaltei e sorri. "Até que você sabe escolher um bom vinho", saboreei a bebida.

"Que bom, pelo menos nisso eu tenho habilidade."

"Tenho que elogiar o que merece ser elogiado."

Ele apagou a luz da sala e acendeu um abajur comprido, de cúpula pequena. Nossos reflexos se espalharam com conforto sobre a parede em frente. Sentou-se ao meu lado e começou a tocar-me os seios.

Até quando vou sair com homens que se sentem o máximo mas não medem um centímetro? Pensei em correr dali, nua mesmo, e deixá-lo chupando dedo. Mas já que está, deixa ficar... Vou me divertindo enquanto isso. Quanto ao dia de amanhã, quem sabe, dependendo de quem seja o namorado, até deixo que me roube os óculos escuros...

quarta-feira, setembro 14, 2011

Os homens aqui não estão acostumados a isso

Eu estava deitada na grama, sobre uma imensa toalha. Tomava o sol suave de uma manhã de final de primavera. Ele se aproximou, o jardineiro, e se surpreendeu ao me encontrar nua. Será que jamais vira alguém bronzear-se em pele sobre o gramado de uma casa de campo? Desculpou-se e se foi, com a fisionomia séria, envergonhado. Minha nudez pareceu-lhe um ultraje. Meu amigo, ao longe, sorriu para mim, enquanto trabalhava numa tela, ao ar livre.

Sempre fui modelo para pintores, e não são poucos os que me convidam para ficar após o trabalho. Alguns até me pagam mais por isso, presentes é que não faltam.

Percebi que o jardineiro foi até o meu amigo e se desculpou.

“Não há problema algum”, respondeu, “é costume entre profissionais desse tipo permanecerem nuas.”

Sorri de longe e acenei.

“Se você quiser, pode conversar com ela, não vai ficar aborrecida, Marie gosta de fazer amigos.”

Mas o jardineiro se foi, com seus passos sempre conservadores.

“Essa gente não admite desinibição, nem entende o que é estar à vontade”, falei depois, enquanto ele se certificava se a tela saíra de acordo com o seu desejo.

“São pessoas que nasceram e viveram a vida toda aqui, não pensam como as parisienses.”

“Já imaginou, Michel, se ele me tivesse visto chegar com você, do jeito que chegamos ontem?”

“É, ainda bem que ele não permanece na casa à noite.”

“Na verdade, você não me quis apenas como modelo, não é mesmo?”

“Marie, você sabe o tanto que gosto de você.”

“Vamos fazer uma brincadeira ao anoitecer: fujo nua pelo povoado e você tem que me achar.”

“Prefiro que bebamos vinho numa mesa, junto ao jardim, é mais gostoso, comprei alguns queijos deliciosos.”

“Oh, amor, pensei que o seu queijo fosse eu, sua querida Marie.”

“Você é muito mais que isso, mas não desejo que alguns dos rapazes, desses que andam pelos sítios, surpreendam você nua.”

“Há rapazes por aqui?”

“Não se pode falar em homens que você levanta as antenas.”

“Nunca menti a você, Michel. Quando há quem me agrade, vou atrás imediatamente. E tem mais uma coisa: gosto de você, mas nosso compromisso é apenas comercial, sou uma de suas modelos.”

“Marie, caso você saia nua por esses caminhos, quem terá problemas serei eu.”

“Quem disse que sairei nua? Deixarei aos rapazes o fardo de tirar a minha roupa.”

“Rapazes?”

“Você foi quem falou que há mais de um.”

Virei-me, ainda nua e vi alguém vindo numa bicicleta. Acenei. O ciclista me retribuiu o cumprimento, mas não reparou a minha nudez, passou em alta velocidade. Michel riu.

“Vamos, amor, vista o agasalho, entremos um pouco”, pediu.

Depois de uma garrafa de vinho, namoramos. Michel me tomou nos braços, fez que eu cavalgasse sobre o seu pênis. Voltei-lhe as costas e pedi que me penetrasse a vagina, mas por trás, como os cães. Num outro momento, ele me levantou. Encostei-me à parede e, em vez de colocar os pés no chão, pousei-os sobre a parede em frente, com Michel entre as minhas pernas. Gozei aos gritos e com o maior prazer.

Enquanto descansávamos, comentei sobre minha estada num dos pontos do litoral do Rio de Janeiro, quando viajara no último verão à América do Sul.

Em Ilha Grande, conheci algumas moças que andavam quase nuas, mas quando tirei o top numa das praias elas logo pediram que eu o vestisse. Quis saber o motivo. Uma delas falou:

Os homens aqui não estão acostumados a isso, vão agarrar você.

Veja que engraçado. Naquele lugar, caso uma mulher ande nua é porque deseja ser agarrada.

Eu disse a ela:

Se eu quiser trepar com um dos homens daqui, eu mesma aviso.

Logo replicou:

Você pode avisar, ele vai gostar, mas não pode andar nua por aí, os homens não respeitam a mulher inteiramente nua.

Você não falou que trepou com um deles sobre um lençol, à beira mar, ontem à noite?

Trepei, mas isso é outra coisa ela respondeu.

Acho melhor ficar logo nua, em vez de usar shortinhos tão minúsculos e biquínis que não cobrem nada. Mas lá é diferente. Caso se use um biquininho, já se está vestida, e pronta para ser respeitada.

Lembro de uma festa que fui numa das noites, numa boate perto da praia. No final, arranjei um namorado e fui com ele me deitar na areia. Estava calor, como hoje aqui, deixei que tirasse toda a minha roupa. Depois a pediu de presente.

Uma lembrança, por favor falou.

Você vai se vestir de mulher? perguntei desconfiada.

Não, é que não quero esquecer a francesinha, quero sempre sentir o teu cheirinho.

Devolvi a ele:

Então cheire já, porque depois que gozo sou muito fedorenta.

O homem se pôs a rir. Mas no final da noite acabei atendendo o seu pedido.

Quando cheguei à pousada, outro escândalo:

Você voltou nua!

Ah, essa agora, não se pode satisfazer a vontade de um namorado nesta ilha? Como vocês chamam mesmo esse lugar? Oh, não precisa dizer, já lembrei: Ilha de Santa Cruz.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Corpo e poesia

Foi por um triz, mas consegui. Apesar do susto, não tenho como negar, gostei muito, posso dizer que achei ótimo mesmo. Fazer o que não é permitido acaba proporcionando mais prazer.

Um colega havia falado: “a poesia é o único lugar onde a transgressão é totalmente possível. Rompe-se a sintaxe, muda-se o sentido das palavras e estará estabelecido o caos. Jamais será possível voltar à antiga ordem. O ponto máximo a que ainda se poderá chegar é tentar estabelecer uma nova ordem, que também não demorará a estar condenada ao abismo.” 

Pensei alto: “não vou tão longe, só queria praticar um outro tipo de transgressão.


“Qual?”, ele quis saber.

“Sair pelada por aí.”

Ele riu e continuou falando sobre o seu amor pela literatura. 

Depois que fui embora é que dei conta de minhas palavras. Ele poderia ter dito: “oh, que mente poluída você tem”; ou mesmo: “você é muito reprimida, pensa em se liberar, ato falho, hein?”

Eu teria enrubescido. Mas continuei pensando sobre meu desejo e minha possível transgressão. Ah, quem me dera, andar pelada por aí...

E surgiu a oportunidade. Saímos quatro mulheres, falei o que acontecera, elas riram. Depois de chopes e taças de vinho, alguém citou a Thaís: “ela cansa de sair pelada, e ninguém nunca percebeu.”

“Mas como?”, eu quis saber.

Elas me contaram.

“Ela mesma disse a vocês?”, perguntei.

“A umas, sim; a outras, não. Mas há homens que a ajudam.”

“Ajudam a Thaís, em quê?”.

“Deixando-a em determinado lugar, pegando-a em outro, fazendo a vontade dela.”

“A vontade de andar pelada?”.

“Isso. Há sempre quem ajude.”

“Como?”, eu insistia.

“Só perguntando a ela.”

Dias depois, procurei a Thaís.

“Quem disse isso a você?”, ela quis saber.

“Umas amigas.”

“Amigas tuas, não minhas. Minhas amigas não falam isso de mim.”

“Desculpe-me”, supliquei, “não quis ofender.”

“Mas falaram a verdade”, acabou por contar. “Sabe como é, coisa boa sempre se espalha. Você também vai gostar.”

“Mas não é perigoso?”, perguntei.

“Perigo sempre tem, mas sem ele a gente não ficaria arrepiada. Caso você não queira, bote o pijama e vá pra casa dormir.”

A conversa me ofendeu. Eu? De pijama? Tinha de experimentar o perigo.

“É lógico que você não vai tirar a roupa e sair pelada de primeira, numa rua. É preciso se acostumar, pouco a pouco. Você já preparou calda de pudim? Dá trabalho, não? Mas depois fica uma delícia.”

“Fica sim, adoro pudim”, falei.

“Então, primeiro prepare a calda, treine bastante. Faça assim: vá à praia durante a noite, mas vá de biquíni. Ande pela areia, depois pare num quiosque e beba um suco. Muitas mulheres não saem de biquíni à noite porque morrem de vergonha. Se você passar nesse teste, continue. Vá mais vezes. Mas tem de ser de noite, durante o dia não tem graça, qualquer uma consegue. Conte com alguns amigos. Eu disse amigos. Mulheres, a princípio, não servem. Os homens são discretos. Peça que um deles leve você. Vai gostar da sua ousadia. Vá de canga, mas só de canga, entendeu?, nada mais. Diga que vai dar uma molhadinha nos pés na beirinha d'água e que não quer ele junto de você. Quando lá chegar, solte a canga do corpo, dê uma entradinha. Depois, volte, acenda um cigarro caso você fume, e espere. Daí pra frente, você estará sempre a crescer em ousadia: roupas curtas, braços nus, pernas nuas etc. Em outro passeio, vá pelada ao lado dele. Os homens adoram. No princípio deixe a roupa por perto. Mas se você mora numa casa, vai acabar saindo nua. A sensação é ótima. Ele, sempre apaixonado por você. Mas quem anda muito nua, também gosta de sair nua sozinha.”

“Sozinha?”

“Temes a solidão?”, ela quis saber.

“Nunca pensei nisso, há sempre tanta gente à minha volta.”

“Mas não arrisque demais. Sozinha, mas com alguém de sobreavsiso, a pelo menos quinhentos metros. É bom estar prevenida.”

“Já ouviu falar na Mona?”

“Ah, a Mona, sempre falam nela.”

“E sobre o que ela fez, o que você acha?”

“Já fiquei também nua na praia e deixei meu biquíni nas mãos de um estranho. No começo, tudo dá certo. Não se pode é pegar muita confiança.”

“Ela confiou demais?”

“Não se preocupe, o que aconteceu com a Mona só acontece com veteranas. E ela não deixou de andar nua por causa daquilo”, completou Thaís.

Então, fui eu... Comi todo o pudim. Fiz a lição direitinho!