quarta-feira, julho 27, 2022

Marcinha, meu amor

Outro dia ele veio com uma daquelas brincadeiras, foi logo dizendo: “você dá pra todo mundo”.  “Dou sim”, respondi “quando gosto do homem, vou com ele e ninguém tem nada com isso. Vivo cheia de tesão, me sinto bem assim. Não sei por que você fala desse jeito comigo, já sabe como sou. Se quer minha companhia, tem de ser assim. Caso contrário, é melhor procurar outra mulher. Você diz que fiz quarenta anos e continuo gostosa como sempre, então aproveite, mas não me queira exclusiva, não posso viver assim.”

Ele partiu, mas não demorou a telefonar de volta. Aceitei a conversa, falamos de amenidades. Não lhe conto minhas aventuras, mas ele acaba descobrindo, gosta de me investigar. Não ligo, não posso ter domínio sobre isso.

Num domingo de outono, saí com ele para o café da manhã. O desjejum numa cafeteria ótima, em Copacabana. Depois, andamos pela praia. Eu havia ido de bermuda de lycra, com o biquíni por baixo. Caminhamos e caminhamos. Ao chegarmos ao Leme, tive vontade de molhar os pés na água do mar. Fui então até a beira, ele ficou me esperando. Tenho certeza de que desejava me ver de biquíni, mas não me despi. O homem já me viu nua mais de uma vez, já trepou comigo, mas adora me ver de biquininho, tem vontade de desfazer os meus lacinhos. Não foi naquele dia que eu lhe proporcionei tal prazer. Houve uma vez, eu estava com um namorado de ocasião, então meu telefone tocou. Fui atender, era esse que gosta de me convidar para o café da manhã. Não disse que estava com outro, não lhe queria tirar a ilusão. Apenas acrescentei que estava ocupada, uns problemas de família, telefonaria depois. Telefonei? Esqueci. 

Mas no domingo do desjejum e da molhada de pé à beira d’água, ainda andamos mais um pouco. Ele quis me fazer uma foto. Não lhe tirei o prazer, apareci com um sorrisinho de deboche e com o bumbum de lateral. Você esquece a calcinha depois que acaba de trepar?, sei que ele me gostaria de perguntar. Já esqueci o vestido, responderia. Como você fez? Não vou contar, ele vai morrer de curiosidade. Foi um caso muito particular, digo apenas. Deixo o homem apenas na vontade.

Andamos mais um pouquinho, a praia tão praia, o sol morninho. Deu onze da manhã. Daqui a pouco alguém te telefona convidando a uma feijoada. Se for mais tarde, aceito. Depois de vinte minutos, nos despedimos, ele foi embora. Eu disse que tinha de voltar para casa, mas não era verdade. Tirei a tal bermuda de lycra e a camiseta, fui de biquininho para dentro d’água. Você toma conta pra mim?, pedi a alguém. Sempre o risco de acabar pelada!

À tarde, não é que aconteceu? A feijoada. Apareceu um homem bonito, um negão. Posso dizer assim, porque também sou negra. “Minha joia, vamos a um almoço”, convidou. Eram duas da tarde, um conhecido de vista, de perto da casa de minha mãe.

Aceitei. Que delícia. Tanta caipirinha, tanto feijão. Me lembro que depois de comer bastante, bastante mesmo, de tanto beber, de ver tanta gente, o negão ainda me levou pra casa. Entrou e ficou um pouquinho.

No dia seguinte, segunda-feira, acordei atrasada. Ainda bem que a patroa é compreensiva. Mas onde meu biquininho de ontem? O tal negão, a sobremesa. Márcia, a sobremesa. Não o biquíni, é claro. “Marcinha, meu amor”.

quarta-feira, julho 20, 2022

Concurso

Meu amigo tem umas fantasias muito engraçadas. Ou seriam extravagantes? Me contou que gosta de três mulheres muito bonitas, que sempre estão a lhe sorrir. Sai com cada uma delas, mas ainda não chegou ao principal. Quando convida uma, vai a uma cafeteria, comem bolos ou pedaços de torta. Diz ele que as mulheres adoram tortas, quanto mais cremosas, tanto mais mergulham de cabeça. Não é mesmo, me perguntou, esperou que eu respondesse. Não dei o braço, o assunto não era meu. Uma de suas namoradas é negra, come tudo que vê. Cuidado para não te comer, cheguei a dizer. Até que não seria mal, respondeu a meio sorriso, tanto que não me tire um pedaço. Ah, as fantasias, já ia me esquecendo. Ele deseja convidá-las à sua casa, as três juntas, e quer que fiquem nuas, uma ao lado da outra, de mãos dadas. Quero lhes apreciar a beleza, chegou a dizer. Gostei do dito: lhes apreciar a beleza. Você acha que elas vão se prestar a isso, as três? Elas nem sabem uma da outra, vão aceitar as concorrentes e ainda vão posar nuas? Olhe que posam, respondeu. Contou uma história comprida, de uma namorada, numa tal cidade do norte do estado. A mulher aceitava sair nua por aí, à noite, ao lado dele. Certa vez aceitou mesmo descer pelada do carro numa rodovia, enquanto ele partia para dar uma voltinha, tanto que voltasse quinze minutos depois para buscá-la. A história me arrepiou. Que perigo a mulher correu!, afirmei. Ela encarava como um desafio. E por isso você acha que as três namoradas vão aceitar tirar a roupa na tua frente e entrelaçarem as mãos, amigavelmente. Depende de como eu encaminhe a situação. Meu amigo foi embora, fiquei um tempo grande sem encontrá-lo. Quando aconteceu, ele contou o final da história. Conseguiu até mesmo fazer uma foto das três, mas não nuas, vestidas com a melhor roupa que cada uma tinha. Me contou que, ao ver que elas não aceitariam, inventou que haveria um concurso, dinheiro alto, chegou mesmo a fazer o arquivo digital com um logotipo e com o valor do prêmio. Contou a elas, tinham que ser três, juntas, de mãos dadas. E fez a foto. Trouxe para me mostrar. Assim é fácil, acho que até eu, que te conheço, caía nessa história. Sério mesmo?, quis saber, claro que sim, um prêmio, duas mulheres bonitas, você poderia ter dado uma festa, convidado muita gente e feito uma foto com elas. Só não contei o concurso da Vogue, porque achei que nenhuma delas tem o corpo para isso, afirmou com ar de resignação. Concurso da Vogue?, eu quis saber. Sim, de uma revista francesa, eles fazem todo ano, em cada país, mas tem de ser de biquíni, duas poses, não achei as tais mulheres com talento para a Vogue. Quando eles pagam? perguntei. Não sei bem, é um valor alto, depois envio por e-mail para você. Neste dia, estávamos numa cafeteria recém-inaugurada, no Leblon. Ele tirou da bolsa um livro, disse que era um presente, achara a história muito interessante, eu iria gostar. Levei o livro depois de nos despedirmos, li-o em dois ou três dias. A história era realmente interessante. Na semana seguinte, ele me enviou o arquivo com a publicidade do concurso. O prêmio era uma viagem à França. O concurso era muito sedutor, fiquei com uma vontade enorme de participar. Hum, mas seria verdade o tal concurso?, vai ver invenção dele. Procurei na internet a tal Vogue, com a publicidade. Encontrei. Verdade. Dias depois, liguei a ele, disse que soubera do concurso por outras vias, era interessante. Mas não é para uma mulher sofisticada como você, ele disse. Sofisticada?, como assim? Você é uma escritora, cheia de ideias, intelectual, não vai posar de biquíni por aí. Não é por aí, é para a Vogue, e o prêmio é uma viagem à França. Ele acabou vindo aqui em casa, trouxe a câmera, vesti três biquínis diferentes, fiz as poses. E agora? Até hoje não sei o resultado. Escrevi para a Vogue. Me responderam, com toda a educação. Concurso?, que concurso?

quarta-feira, julho 13, 2022

Calcinha debaixo da mesa

Posso tirar a blusa?, perguntei depois de me sentar num estofado de dois lugares, no apartamento do novo namorado. Chegáramos havia pouco. Apesar da noite recente, fazia muito calor, acho que era dezembro.

Fique à vontade, ele respondeu.

Não tirei apenas a blusa, mas também o top. Os peitos de fora, nada de acanhamento, o que se espelhava na minha face era muita naturalidade. Veio-me à mente uma amiga que dizia ficar nua, mas tinha que ter pelo menos um top: ao contrário, sentia-se constrangida. Como você pode estar nua se está de top?, perguntei certa vez. Ah, é o modo de dizer, ela retrucou. Eu não agia por malícia, sentia mesmo muito calor, calor de verão. Estávamos ali porque passeáramos durante toda a tarde, quando andamos em busca de árvores e flores. A caminhada fora longa, nosso objetivo alcançado. Podia dormir nua por inteiro, mas caso ele quisesse namorar, teria de esperar pela minha revitalização. Repouso e água gelada faziam parte do meu cardápio.

Eu ainda não trepara com ele, nem me vira nua.

Como você pode ser tão dada?, alguém perguntaria. Não sou dada, aliás, não gosto da expressão. Ser alguém dada, pode ter significado duvidoso, quem sabe uma mulher que dá para todos os homens que conhece. Sou espontânea.

Meu amigo me trouxe um copo com suco de abacaxi. Que delícia, duas pedrinhas de gelo dentro, eu tomando a pequenos goles. Acho que foi o suco que me excitou, jamais ouvi dizer que abacaxi deixa as mulheres mordidas. Enquanto eu bebia, ele me olhava sem mirar meus seios.

Gosto de andar nua, é verdade, o motivo não é apenas o calor, adoro ver um homem admirar meu corpo, principalmente meus seios, fartos e rijos. Mas ele fazia de conta que eu era a mulher mais vestida do mundo. Agora estou na dúvida, não sei se foi a minha atitude ou o suco de abacaxi. Algo começou a me picar.

Sente aqui, pertinho de mim, pedi e levei aos lábios o suco, mais uma vez. Depois, pousei-o sobre a mesa, voltei-me ao namorado e colei meus lábios aos seus. Um longo beijo. Tomei uma das suas mãos e trouxe-a para sobre um dos meus seios. Ele o apertou. Suspirei, abri os olhos sorrateira e o vi de olhos fechados, perdido no longo beijo.

Me dê licença, pedi quando voltamos à posição inicial. Levantei-me, desabotoei a bermuda e a deixei escorregar. Pronto, de calcinha, peitos à mostra. O restante, naquele momento, era com ele.

Lembrei Gisele, que andava de biquíni pela rua principal de uma das cidades litorâneas, a parte de baixo era uma tirinha a toa bem enfiada no cu. Queria conquistar o gerente de uma loja de presentes para o lar.

Voltando ao namorado. Naquele início de noite, não tive tempo de pensar o que o homem achava de mim, o namoro de uma semana, uma jovem em seus braços, mulher fácil, peladinha, despreocupada da calcinha largada debaixo da mesa.

Ah, o cansaço? Nem sei. Acho que o deixei pro outro dia.

terça-feira, julho 05, 2022

Papel laminado

As idas à casa do namorado são plenas de fantasias. Hoje, é difícil mantê-los, tantas são as pretendentes, por isso, tenho de me empenhar, preciso ser criativa. Há amigas que dizem Sônia, você é louca, deixe esse homem de lado, nada melhor do que uma mulher sozinha. Retruco, rápida, como?, o homem me faz gozar como jamais, não posso abandoná-lo.

Vou à casa dele, com minha bolsa e meus truques.

Numa das noites anteriores, no momento em que estava nua em seus braços, pedi que me falasse algo excitante.

"Algo excitante?, como assim?"

"Uma história apimentada."

Estávamos trepando, eu sobre ele, num movimento de sobe e desce, seu pênis deslizando sem obstáculos; eu, doidinha pra gozar. Olhou-me com os olhos semicerrados e disse:

"Você veio pelada encontrar comigo, onde deixou as roupas?"

"Ah, sim, vim pelada" repeti, os olhos fechados, comprimindo-me, sentindo seu enorme sexo dentro de mim. "Não sei, vim de táxi, acho que já saí nua de casa, vim apenas de sandália e de bolsa, trouxe o celular caso houvesse algum problema."

"E o motorista, ele aceitou te trazer nua?"

"Sim, como aceitou! Na verdade, já me conhece, tem um tesão intenso por mim, mas eu disse você pode me olhar, mas não me tocar, um dia desses te recompenso."

Continuava saltando sobre o namorado, cada vez em movimentos mais rápidos.

"O motorista vai querer te comer", disse o namorado.

"O que é isso?, muito vulgar, me comer?"

"Vamos dizer de outro modo, ele vai querer trepar com você", assegurou o namorado.

"O que há de mal nisso, eu deixar o motorista trepar comigo pelo menos uma vez?, eu estava de olhos fechados.

Passaram-se alguns segundos.

"Você pode deixar o tal te ver nua, te esquentar, mas a trepada precisa ser comigo, compreendeu?

Achei engraçada a opinião do namorado. Já tinha escutado sobre isso, casais que tem amigos e amigas para esquentar antes de se encontrarem. E ele falava como um macho.

"Mas se o homem me agarrar?", perguntei e gemi, quase num começo de gozo.

"Ele não pode te agarrar, se isso acontecer você dê parte dele."

"Como vou dar parte?, estava nua, num táxi, os policiais não vão considerar minhas palavras, não é permitido a uma mulher tomar um táxi nua."

Comecei a revirar os olhos.

"Ai, vou gozar, mais rápido, por favor, mais rápido."

A história do táxi, eu nua, o motorista prestes a me agarrar, querendo me comer, eu a me defender, pode me olhar, mas não trepar; os policiais, eu nua, não era apenas o motorista, eram todos querendo me comer.

"Ai, ai, vou gozar, essa história está muito forte, fale mais, fale mais sobre isso", gritei, "ai, ai, quero gritar."

"Cruze as pernas, coloque a bolsa sobre o colo, assim você vai ficar protegida dos olhares", disse o namorado,

"Protegida? Gozei, gozei, que bom, gozei antes de você."

Daquele dia em diante, concluí que tinha de contar histórias.

"Fale  você agora", ele pediu.

"Sabe o que houve, ainda no táxi?", incentivei.

"O quê?"

"Deixei o banco molhadinho, não aguentei, nunca fiquei tão úmida, acho que era a sensação de estar nua pela primeira vez num táxi, vindo a teu encontro."

"Você molhou o banco? Ele não brigou com você?"

"Não viu, o homem não soube."

"Se fosse eu o motorista, iria verificar; se estivesse molhado, ia pedir pra você enxugar. Você não precisaria abrir as pernas para mim, mas enxugar o banco seria muito importante. E não seria com a minha flanela, teria de fazer aparecer uma. Caso você não conseguisse...  Ah, vou gozar, só de imaginar você nua, agachada, procurando um meio de limpar o banco do táxi... Morro de tesão. Estou gozando, pele com pele, vai ficar toda meladinha..."

quarta-feira, junho 29, 2022

Puteiro

Eu ainda estava na escola, sozinha na sala de aula, corrigia algumas provas quando meu amigo, o professor de filosofia, entrou. Você sabe onde é a rua das Marrecas?, perguntei. Ele explicou. Preciso ir ao tal endereço para acertar um contrato de plano de saúde. Havia tempo procurava atendimento, o plano anterior não dava conta da minha situação e a da minha mãe, pessoa idosa. Ele me ouviu, logo depois se ofereceu para me acompanhar. Fica no centro, completou. Essa rua é um puteiro, eu disse e ri. Isso foi no passado, ele de certa forma confirmou, agora os puteiros acabaram, já não se veem mulheres fazendo ponto na calçada, a característica do local mudou. Senti-me atrasada no tempo, acho que já passara vinte anos desde que os puteiros encerraram suas atividades na rua das Marrecas. Será que eu tinha alguma afinidade com puteiros?, cheguei a me perguntar. Sou pessoa sóbria, dedicada às aulas de inglês. Enquanto caminhávamos até a sala dos professores, reparei que a maioria dos alunos e dos outros funcionários já havia deixado a escola, passava do meio-dia. Guardamos os diários de classe e descemos a escada que dava para o salão de entrada. Pedi licença, que esperasse um ou dois minutos. Não disse aonde iria, mas estava na cara que era ao toalete.

Já na rua, optamos pelo ônibus, na calçada à direita, distante a uma caminhada de cerca de cem metros. Não demoramos a embarcar, sentei-me num banco de corredor, o outro lugar estava ocupado por um homem de seus sessenta anos. Meu amigo ficou em pé, ao meu lado. Ora trocávamos duas palavras sobre o tempo, sobre a paisagem, sobre uma construção local, ora nada dizíamos.

Saltamos no Passeio, atravessamos a rua e caminhamos à rua das Marrecas. Encontramos o prédio, entramos. Subimos três andares, uma recepcionista indicou onde eu deveria entrar. Ele ficou esperando numa espécie de antessala. Não demorei a voltar. Tudo correra bem, me deram um formulário e um contrato, o que mais precisava eu já enviara com antecedência. A partir daquele momento, eu e minha mãe já tínhamos um seguro saúde.

Descemos, voltamos à rua. Eu me perguntava o que faríamos a partir daquele momento. Na verdade, tinha de voltar para casa, mas temia ter de anunciar tal propósito. As oportunidades de sairmos juntos eram poucas e meu amigo demonstrava muito prazer por eu estar ao seu lado. Andamos na direção da Rio Branco, pela Evaristo da Veiga. O ambiente aqui na cidade está agradável,  vamos até a Confeitaria Colombo, sugeriu. Hum, apenas deixei escapar minha admiração. Ele me olhou na esperança de que eu aceitasse o convite. Nada falei, apenas segurei sua mão direita, e passamos a caminhar, como dois recentes namorados.

Ao atravessarmos o largo da Carioca, olhei ao Mosteiro. Sabe que já fiz promessa a Santo Antônio, cheguei a dizer. Apertei sua mão. E olha que o dia dele está próximo, ele falou. A rua Senador Dantas tinha um hotel, um dia um namorado de ocasião me conduziu para lá sem que eu desse conta para onde íamos. Não sei dizer por que me veio à mente esse acontecimento. Logo adiante, porém, avistamos a confeitaria. Um salão todo espelhado estava repleto de gente alegre; uma mesa lateral nos aguardava; um garçom um pouco gordinho veio nos apresentar os cardápios. A Colombo era um bom lugar para um começo de namoro.

quarta-feira, junho 22, 2022

Entrevendo

Eu vinha do toalete, o namorado me aguardava na porta; o restaurante, mimoso e acolhedor. Um homem saía da porta ao lado – o toalete masculino –, olhou-me, surpreso. O motivo: além do corpo mignon, eu estava nua, ou melhor, trajava uma saída de praia rendada, dessas que descem até abaixo dos joelhos, deixava entrever o que se veste por baixo, vinha abotoada até o umbigo, daí em diante escorregava aberta. Um segredinho: pareço mulher, mas não sou. Por isso, a surpresa maior do tal homem. Ele entreviu, por causa do movimento fugidio do tecido, algo inesperado: meu pênis soltinho. Há quem diga que sou pervertida, que adoro me exibir, que há hora para essas coisas; num lugar público, minha atitude seria indecente. A nudez é a nossa natureza, argumento. Além disso, caso se pense de modo diferente, digo: os tempos estão mudados, existem mulheres que andam nuas e ninguém reclama, as pessoas as apreciam, querem observá-las de perto, por que eu, uma pessoa trans, não posso também andar nua? Preconceito? Outro ponto, caso cada pessoa esteja preocupada com a sua vida, não vai dar por mim nem pelo que visto ou não por baixo da renda. Os proprietários do restaurante já me conhecem, conhecem o namorado, cumprimentam-nos, agradecem nossa presença. Caminhamos até uma das mesas laterais, sentamo-nos. Cruzei as pernas, cobria assim meu sexo, sentia-me protegida caso descobrisse algum outro olhar maldoso. O namorado pediu duas caipirinhas.

A praia, em frente, não permite o nudismo total, uma pena. Quando a frequento, visto um biquininho lindo. Ao ir ao restaurante, corro sempre ao toalete e dispo-me, assim me sinto mais confortável, de bem com a vida; uma ponta de excitação me completa. O namorado adora, já me conheceu com esse costume. No começo, pensou que teríamos problemas, mas depois chegou à conclusão de que o problema é das pessoas que querem nos reparar.

Descobri Célia numa mesa próxima. Você não vai me contar uma história, por escrito?, quero publicar, viu?, ela me segredou, quando seu acompanhante deu uma saidinha para fumar; você tem coisas interessantes para contar, e nos últimos tempos estamos com uma audiência enorme. Quando seu homem voltou, ela correu para a mesa onde estavam. Vestia uma saída de praia curtinha, certa vez me disse que não era tão ousada quanto eu.

Naquele dia ficamos até o final da tarde, bebemos duas caipirinhas cada um, comemos frutos do mar.

Quero namorar, segredei-lhe no ouvido. Aqui?, ele. O que você acha?, devolvi. Ele me beijou na boca, um beijo comprido. Troquei as pernas de posição, a esquerda sobre a direita. Meu pênis não é pequeno, e não ficou rijo, ainda bem. Nesse ponto sou quase uma mulher. Só não posso gozar. Porque, depois, morro de vergonha.

quarta-feira, junho 15, 2022

Nete e Nara

Tenho uma amiga chamada Nete. Ela já é entrada nos cinquenta anos, mas é bonita mesmo. Gosta de se arrumar e sair para passear. Paquera muito os homens, mas é muito dissimulada. Certa vez veio me contar uns gostos estranhos que lhe assediam. O principal deles é descobrir mendigos bonitos.

“Nete, existem mendigos bonitos, nessa nossa cidade tão mal tratada?”, perguntei.

“Claro, é só prestar atenção. Lá pelos lados do Miramar, há um que é louro, os olhos verdes.”

“E como você faz?”, insisti, minha curiosidade é de matar.

“Não faço, só fico olhando. Aliás, houve uma época em que eu conversava com um ou outro, mas é arriscado. As pessoas acabam vendo a gente conversando com mendigos e falam muito por aí, uma fofocada atroz.”

Descobri que ela não apenas fica olhando, sorrateira, como afirmou, mas conversa com eles. Houve um que ela quis levar para casa e dar um banho. Ele a olhou assustado. Nete acabou me contando a verdade.

“Você não quer se arrumar, sair por aí, passear comigo?”, propôs ao tal.

Ele continuou a olhá-la assustado. Segundo ela, ele não foi. Mas Nete às vezes não me fala a verdade inteira.

Houve um final de semana em que a convidei para irmos, nós duas, a Lumiar. Procurei a mulher pela cidade o dia todo, nada de encontrá-la. Dias depois, quando a vi perto da rodoviária, ela se engasgou toda para me dizer o que fizera no tal fim de semana. Antes de se despedir, disse que uma hora dessas me contaria direito o que aconteceu, mas nada, até hoje não sei.

Imagino Nete levando o mendigo louro para casa. Ou para um hotel. O problema seria entrar num hotel com ele. De repente, ela arranjou uma roupa, um vidro de perfume, ajudou o homem a melhorar a aparência e os odores e entrou com ele naquele hotel que fica atrás do antigo parque. Há umas suítes com banheira, ou minipiscina, não sei bem. Nete enfiou o homem dentro e ensaboou-o até brilhar a pele, até seus cabelos ficarem novamente totalmente louros. Depois, ela tirou a roupa e levou o homem para cama. Aqui no hotel não tem cachaça, ela deve ter falado. Pediu, então, um espumante. O homem bem que gostou. Da bebida e da mulher.

Numa outra data, ela foi para Rio das Ostras, hospedou-se sozinha numa pousada em Costa Azul, baixa temporada. Foi à praia durante o dia. À tarde, ela entrou na tal pousada com um rapaz, ele apenas de sunga. Nete, como vou embora de sunga de noite?, perguntou assustado. Nada de ir embora, só amanhã. E ficaram namorando à noite inteira. Ela lhe contou que também já viveu algo parecido. Saiu numa sexta-feira para ir à praia, de biquíni e envolta numa canga de renda transparente; arranjou um namorado, voltou para casa domingo à tarde; que festa. O rapaz adorou a história.

Minha amiga é de um fogo difícil de apagar. Sei que este não vai ser o único mendigo a quem vai dar um trato. Depois virão outros, e mais outros. Caso não consiga convencer um deles a deixá-la lavá-lo, acho que, mesmo assim, arranja um jeito de trepar com ele.

“Você sabe, Nara, já vi uma mulher de pernas abertas sobre um mendigo, passava de uma da madrugada. Ela dizia, mete, mete fundo, mas não toca em mim, e olha que eu limpei bem o teu peru.”

Às vezes penso que a tal, de pernas abertas sobre o mendigo, seria a própria Nete!

quarta-feira, junho 08, 2022

Elas não sabem nada disso

Outro dia conversava com uma amiga:

"Há namorados que se contentam em nos levar para cama e simplesmente trepar, outros não se satisfazem apenas com a conquista e a trepação, gostam de fantasias, pedem a mulher que invente algo novo, que fale alguma coisa excitante ou mesmo desejam ações de nossa parte impossíveis. Um deles chegou a me perguntar se já saí sem calcinha. Respondi que sim, mas que já havia um bom tempo que isso acontecera. Ele quis saber o motivo. Não foi por falta de calcinha, respondi. Passaram-se alguns dias, ele me desejou ao seu lado sem a calcinha. Houve uma vez em que  não me deixou vesti-la, levou-a no bolso da calça depois de termos trepado às mil maravilhas no apartamento dele.

Minha amiga contou uma história parecida. Seu namorado, porém, prefere que ela fale saliências no ouvido dele enquanto trepam, mas ela pede para ele se controlar, que a espere gozar.

"Digo cada coisa, você nem imagina", ela me fala. "Ouve um dia em que fiquei sem saída."

Sussurrou no ouvido do homem depois de dizer uma porção de aberrações:

"você mete no meu cu?"

Ele a virou violentamente e começou a tentar lhe penetrar. Tendo muita dificuldade, reparou que era a primeira vez dela, na posição.

"Estava brincando", tentei me voltar a ele.

"Com essas coisas não se brinca, disse. Tirou uma pomada não sei de onde, passou na ponta do pênis e me penetrou. Ai, está doendo, está doendo, eu repetia. Promessa é dívida, continuou. Não tive saída, a trepada demorou muito, e o namorado gozou lá dentro, gozou tudo que podia. Na semana seguinte, pensei em terminar o namoro, mas não tive coragem, pedi então que me comprasse um anel, na joalheria do shopping. O homem atendeu de primeira. Quando voltamos à cama, eu disse meu amor, espere um instantinho, tirei a roupa e fui virando de costas. Daí em diante, além das histórias maravilhosas que conto, ele ganha de lambuja a minha bunda. Estamos assim há três anos!"

"O meu pediu, numa noite dessas, que eu saísse nua ao lado dele, no automóvel", foi a minha vez de contar. "Se eu for presa?, perguntei. Nesta cidade não existe polícia, afirmou. Adivinhe o que aconteceu!"

"Já sei", disse a amiga, "a polícia resolveu atuar naquele bendito dia..."

Caímos numa intensa gargalhada.

"Com fantasia, o namoro tem mais tempero, e o namorado não procura as garotas mais jovens", completo, "elas não sabem nada disso."

quarta-feira, maio 25, 2022

Toda a beleza do mundo

Outro dia estava deitada, eram quatro da tarde, um sábado. Senti vontade de me vestir, com a melhor roupa, olhar-me no espelho, desfilar pela casa. Fui ao guarda-roupas e procurei o tal vestido. Era um de festa. Difícil um vestido chique ser confortável, mas o tal me desmentia, que bom. Tirei toda a roupa, toda mesmo, calcinha e sutiã inclusive, fui ao banheiro, tomei uma ducha, me enxuguei com cuidado e voltei ao quarto. Vesti-o, com todo o cuidado do mundo. Fora feito especialmente para uma festa, acho que da minha sobrinha quando comemorou seus quinze anos. Deixava minhas costas nuas, o decote avantajado insinuava que meus seios escapariam a qualquer movimento temerário. Passaram-se alguns anos, mas cabia direitinho. Devo confessar que peguei um ou dois quilos de lá pra cá, mas isso não afetou o vestido sobre o meu corpo. Olhei-me no espelho, depois fechei a porta do armário e fui andar um pouquinho pela casa. Saí do quarto, dei um passo à direita e entrei na sala. As janelas estavam abertas, o céu claro, o verde de uma árvore entrava pela janela, vozes de mulheres, de crianças, de jovens. Vinham da rua, dos outros apartamentos, da vida social que cada um levava. Eu estava sozinha, eu e meu vestido, minha nudez, o prazer de sentir a fazenda roçar sobre a minha pele. Sentei-me numa poltrona, virada para a janela, a perna direita sobre a esquerda, o pano preto brilhoso, os raios do sol a três passos de mim.

Veio-me à cabeça um namorado de outros tempos. Pedia-me fotos e mais fotos. Engraçado, “me dê uma foto de você vestida bem bonita”, ele, reivindicativo. “Pensei que me querias nua”, cheguei a dizer certa vez. Riu, “nua já te possuo todas as noites”. Engraçada a palavra possuir, não dizia no sentido de propriedade, mas no de trepar comigo. “Também te possuo, e mais do que você, porque te guardo dentro de mim”. Continuava a rir, a imagem solar, “esta é boa”. O namoro como durou.

Levantei-me, cheguei à janela, vi um homem jovem do outro lado da rua, na janela de outro apartamento, outro prédio, bebia uma taça de champanha. Levantou-a para mim fazendo-me um brinde. Sorri, levantei também a minha taça imaginária. Brindamos. Sorriu e bebeu um gole. Imitei-o, bebi também o meu. Como estava gostoso o champanhe. Dei um adeusinho. Enviou-me um beijo. Escapei da janela a tempo, queria-me sozinha com meu vestido, o tecido a roçar-me a pele. Quis deitar-me na cama, no quarto, sentir todo o prazer do mundo. Arrepio, frisson, languidez. Após meia-hora, levantei-me e fui à cozinha. Fiz café. Bebi, esbelta, feliz, ainda vestida e nua, toda a beleza do mundo.

quarta-feira, maio 18, 2022

Acabar bem

Esse negócio de andar nua por aí ainda não vai acabar bem. Outro dia um ex-namorado me telefonou. Todos os ex me adoram, não sei bem o motivo, mas não me largam o pé (as pernas, coxas e tudo mais). Convidou-me a visitá-lo, no Rio. Tenho tantos convites, respondi, o dia que for ao Rio vou ter de fazer um tour. Ele riu. Isso mesmo um tour pelos apartamentos de admiradores e de ex-namorados. Pois faça, acrescentou, melhor pra você. Imagino-me saindo cedo da minha cidade, três horas de viagem. Durante o caminho vou pensando quem será o primeiro. O da Tijuca, o do Meyer, o do Engenho de Dentro, o rapaz de Botafogo ou o de meia idade que mora em Copacabana? Melhor talvez ficar dois ou três dias na cidade. Quantas roupas provocantes terei de levar? Um deles adora roubar minhas calcinhas. Tenho de deixar este por último, caso contrário chego nua na casa dos outros! Os homens adoram tirar minha calcinha. Eu, de vestidinho e por baixo... nada! O que o admirador vai pensar de mim? Vamos lá, máxima discrição, vou combinar com eles, e é lógico que nenhum vai saber do outro; aliás, o que vou deixar por último pode saber, ele não se incomoda. Telefono dois dias antes e digo que vou ao Rio, que não tenho muito tempo, tenho de rever uma parenta. Minha desculpa, coitada da minha parenta, ela existe mesmo mas vai ficar a ver navios. Marco dez horas da manhã o primeiro; o segundo, treze horas; dezesseis o terceiro. Terei forças para o quarto? Acho que vale a pena marcá-lo para as 19h00. Volto a minha cidade no último ônibus, ou, quem sabe, durmo com o ele, o tal que adora me deixar em pele por baixo do vestido. Retorno no dia seguinte, pela manhã. Como escrevi lá em cima: “esse negócio de andar nua” por aí lembra este namorado, o tal que gosta de me ver nua o tempo todo. Uma vez, num desses encontros sem compromisso, eu disse minha calcinha custou sessenta reais, pode me pagar. Ele, de pronto, deixou o dinheiro sobre a mesinha de cabeceira. Ainda quando namorava com ele na minha cidade vivi um episódio muito engraçado. Quero dizer, engraçado contando agora. Saímos à noite, lá pelas vinte e duas horas, passeamos, fomos a um restaurante, bebemos e comemos. Na volta, como sempre, pediu para eu tirar toda a roupa, no banco do carona. Aceitei. Sempre aceitava suas loucuras (como gostava!). Me despi e coloquei as peças de roupa no banco de trás. Ele ainda dirigiu pela orla, perguntava como eu me sentia estando nua ao seu lado, ou se eu desejava que ele parasse para eu descer e caminhar um pouquinho sobre o passeio. É lógico que estava sentido intenso arrepio, mas nada falei, apenas sorri e lhe beijei. Quanto a saltar, por favor, estou morrendo de vontade de trepar. Conduziu, então, até a minha casa. Naquele tempo ele ficava comigo nos dias em que trabalhava na cidade. Mas ao chegarmos, ele disse você vai ter uma surpresa!, pegou minhas roupas e correu com elas para dentro da casa. É preciso dizer que o imóvel era dividido em quatro apartamentos, eu morava no mais alto, dois lances de escada. Eram duas da manhã, a rua estava silenciosa e, dentro do prédio, todos pareciam dormir. O que faço agora?, falei sozinha, apavorada, depois que ele entrou e a porta bateu. Não posso ficar nua, dentro do carro, não demora amanhece, vai logo ter alguém me olhando através do vidro, vai juntar gente. De repente tomei coragem, abri a porta, reparei que minha bolsa estava no banco de trás. Engraçado, eu tinha apenas a bolsa e a sandália. Corri, enfiei minha chave e abri o portão, avancei sobre a escada e subi os dois lances. Lá em cima, bati à porta com o nó dos dedos. Abra, por favor, não tenho a chave daqui. Ele demorou dois ou três minutos, que me pareceram uma eternidade. Ao entrar, me abraçou, me carregou pra cama, nem deixou que eu reclamasse. O peru do homem estava duríssimo, nunca vi um igual. Que trepada! Mas voltando ao meu tour pelo Rio, deixo este por último. Caso ele me largue nua, de castigo, já terei dado pra todos os outros! Acho que volto sempre pra ele por causa disso, esse negócio de andar nua por aí ainda não vai acabar bem. Mas como sinto tesão.

quarta-feira, maio 11, 2022

Quem seria a tal Eliete?

Posso me sentar nessa poltrona? Adoro ficar nua, e me acomodar numa poltrona desse tipo deve ser a maior sensação. Que bom, obrigada, mas me deixe vestir a calcinha, porque do jeito que estou, o estofo vai ficar marcado. Você sabe que na minha casa quase não dá para eu estar nua, as janelas dos vizinhos são muito próximas, quando é bem tarde e tudo vai muito escuro, então arrisco. Você não quer que eu vista a calcinha? Pegue então um forro para a poltrona. Ah, está bom, serve o papel toalha. Você gosta de me ouvir, não é mesmo? Então, tiro toda a roupa de madrugada, nenhuma luz nas outras janelas. Aqui é distante, posso desfilar nua o dia inteiro. Tive um namorado que não me deixava entrar na casa dele vestida, acredita? Logo que eu pisava depois da porta, me entregava um cabide onde eu devia pendurar ali toda a roupa, a calcinha eu entregava nas mãos dele. O homem levava tudo lá pra dentro, nem sei onde guardava. Certa vez, cheguei vestindo uma camiseta comprida, sem nada por baixo, deixei o homem louco. Na hora de embora, ele não queria me devolver a tal camiseta. O homem era tarado. Eu sentava nua e ele gostava de contar histórias de sacanagem no meu ouvido. Em todas eu era a protagonista, e ia sempre nua.  Você quer saber por que a gente terminou, um namoro assim tão estimulante? Ah, não sei se conto, tenho vergonha. Você me dá o que de presente, se eu narrar tudo? Jura? Vou pensar, espere um pouco. Não gosto de ficar falando coisas como essas, porque depois, há homens que querem fazer o mesmo com a gente. São situações perigosas. Mas conto sim, você é atencioso e adora me dar presentes. Tenho uma amiga que passou mal pedaço. Ela acabou saindo nua ao lado do namorado, e se deu mal, posso dizer o nome dela porque você não a conhece e dificilmente vai conhecê-la, se chama Eliete. O namorado morava numa casa onde havia a garagem ao lado, ela corria nua do corpo da casa para o carro e eles saíam, até que... Ele deixou a mulher nua, na estrada, acredita, disse que voltava em dez minutos, que ela esperasse abaixadinha. Ele não voltou. Ela afirmava e reafirmava que já tinham praticado a brincadeira várias vezes, ele sempre voltava. Mas há uma vez em que as coisas não dão certo, eu acabei dizendo a ela. Como ela fez pra voltar nua pra casa? Nem conto, foi um problemão. Vamos continuar com nosso jogo aqui, estou adorando a poltrona, agora diz alguma coisa. Ah, você gosta também de contar histórias? Que ótimo, estou ouvindo. Você quer mostrar algo surpreendente, já sei o que é, você deve estar muito excitado, mas antes quer saber sobre as janelas próximas à minha, se um dia alguém me surpreendeu nua! Olhe que conto, você não vai gostar. Quer ouvir mesmo? Sim, e foi alguém muito bonito, um homão que me vinha paquerando, eu já tinha notado. Acabei deixando o espião entrar!, e disse a ele fui eu quem te descobriu, se você conta pra alguém, conto de você. Ele trepou comigo naquela noite, depois foi embora e não mais voltou, achei melhor assim. Agora mostra o que prometeu. Não acredito. Um biquíni! Não vai me pedir para vestir. Sei, você vai narrar a história da minúscula peça, deixe eu segurar enquanto você conta, é pequena, a mulher devia ser mignon.

Acho que vou fugir do seu apartamento, quem sabe nua mesmo, depois dessa história, você deve ser parente do homem que deixou minha amiga nua na estrada, se não for o mesmo. Coitada da mulher, ela não procurou você depois? Também pudera, que situação. 

Agora venha, vamos parar um pouco as histórias porque, se continuar, saio correndo porta afora. Me abrace, quero ficar de pé primeiro, encostadinha na parede, ela está fria fria, e eu cheia de tesão. No final, você devolve minha roupa, viu, não vou embora nua, não. Agora vem, estou quentinha. O quê? Não contei a história do namoro estimulante que acabou de repente? Você me prometeu dar um presente caso eu conte o final?  Contei, sim, você não entendeu. Quem seria a tal Eliete?

quarta-feira, maio 04, 2022

Esporte

Vinha correndo, em treinamento, pela Vieira Souto, em Ipanema. Era manhãzinha de sábado, algumas pessoas chegavam à praia. O sol ameno me ajudava no treino. Ao cruzar o Posto Nove, lembrei-me de um homem com quem certa vez marquei um encontro naquele lugar. Mas não apareci, e ele era tão bonito. Não lembro onde o conheci, mas o encontro que falhei não me saiu da cabeça. Alguma das amigas da época deve ter me apresentado o homem. Costumávamos sair à noite, frequentar bares e boates, não faltavam namorados. Fazia mais de dez anos, como o tempo passa rápido. Eu, correndo, será que participo pelo menos da meia maratona? Apenas imaginação, não treino para competições. Mas ao passar pelo Posto Nove, um rapaz sorriu para mim, olhou-me dos pés à cabeça, tenho certeza de que me imaginou nua, totalmente livre da roupa de jogging. Eu correndo, suando, querendo me superar, correr melhor do que nos dias anteriores, do que na semana passada. Quando se pratica algum esporte e se percebe melhor desempenho, o prazer substitui o cansaço, o esforço, a gente não tem vontade de parar. O rapaz ficou para trás. Quem sabe corre também e vem a me seguir. Cheguei a dar uma olhada, depois de duzentos ou trezentos metros. Ninguém. Amélia, uma amiga, adora namorar, acaba não vindo para a corrida por causa dos homens, das noites em branco, pendurada no pescoço deles. Diz que o prazer está em ambas as práticas, a corrida e o amor. Amélia, não é possível passar a noite namorando, mesmo que eles sejam muito gostosos, acordar cedo e vir correr, não há quem aguente. Ah, às vezes dá, sim, ela diz. Eu não consigo, tenho de confessar. Faz tempo que adoro fazer ginástica, correr na praia, ter o corpo em forma, acabo deixando os namorados em segundo plano. Por isso, às vezes, desaparecem, vão nos braços de outra. E eu fico na fixação do meu próprio corpo, namorando a mim mesma, suada, exaurida, mas ainda num último esforço para me superar. Já deixei um namorado dormindo e saí escondida para correr. Não voltei ao apartamento dele naquela manhã, preferi seguir depois para casa. Esqueci alguns pertences, mas ele guardou para mim. Por que não me chamou?, eu iria com você. O namorado saberia meu segredo, o prazer que a corrida me proporciona. Não quis que descobrisse. Vamos namorar à tarde, disse eu certa vez a outro. Ele pensou que eu era casada, era a única hora possível. Depois descobriu, eu era casada, sim, mas com o esporte. Quis me ver correndo, suando, a pele brilhosa, me abraçar quando a água escapava pelos meus poros. Só quando eu parar, amor, caso eu te abrace agora, perco o ritmo. Corri tanto que ele ficou para trás. Não foi possível o abraço. Você corre nua, querida?, perguntou certa vez. Engraçadinho, respondi. Corre nua na esteira, por favor, pediu, choroso. Esses homens e suas taras. Você deixa que, pelo menos, eu prenda os seios com um top? Houve um dia em que ele escondeu minha roupa de corredora, a lycra de jogging. Mas eu tinha uma saia curtinha, branca, o biquininho. Não perdi a manhã.

quarta-feira, abril 27, 2022

Entusiasmados

Quando eu era mais jovem, ia com o namorado à noite para a floresta. A gente, de dentro do carro, tentava descobrir se havia alguém por perto; em caso negativo, saltávamos; eu, nua; ele, também nu, namorávamos em meio às árvores e toda aquela natureza.

Certa vez percorremos uma distância enorme. Quando demos pela localização, estávamos muito longe do nosso carro. Em certo momento, paramos para descansar, deitamos sobre um gramado e fizemos amor. Depois, penamos um pouco para encontrar a trilha de volta. Cheguei a pensar que não conseguiríamos. Que susto.

Numa outra noite – eu sempre nua –, avistamos um pequeno veículo, bem para dentro, num atalho secundário. Corremos até ele e tentamos olhar se havia alguém do lado de dentro. Um casal se agarrava. Ainda bem que eles não deram por nós. Depois daquilo, senti mais tesão e trepamos também logo ali, quase ao lado do veículo alheio. Tais ações eram perigosas, mas nós nos divertíamos.

Mais tarde, já morando em M, arranjei um namorado lindo, por quem eu me apaixonei de verdade. Passeávamos muito, tanto na orla da cidade, como em lugarejos menores. Nas férias, viajávamos. Vivi um romance que parecia mais um sonho. Nunca contei a ele sobre outros namorados, muito menos sobre o que fazíamos. Certa vez, indo a um recanto na serra, lembrei do namoradinho e das ações que nos excitavam. Quando voltávamos, pedi que parasse na lagoa. Estava um final de tarde maravilhoso, com o sol avermelhando-se a poente e uma brisa úmida refrescando-nos a pele.

Andamos toda a orla da lagoa, paramos em diversos pontos e fizemos várias fotos. Quando estávamos caminhando de volta para o nosso carro, reparei que a uns cinquenta metros havia outro veículo que não estava lá quando chegamos. E ele estava balançando. Que estranho, um automóvel estacionado mas se movendo. Quis saber o que estava acontecendo. Corri até o local, mas, por precaução, fui pela traseira. Quando faltavam poucos metros, reparei que um homem e uma mulher namoravam sobre o banco do carona. Achei tudo aquilo muito divertido. Meu namorado, que vinha atrás, também se surpreendeu.

Quando íamos voltar, no momento de eu entrar no carro, o namorado pediu você entra nua na lagoa? Agora?, assustei-me. Sim, agora. Mas como volto molhada pra casa? A gente dá um jeito, ele falou. Tirei o vestido e mais o que me restava sobre o corpo, deixei tudo sobre o banco onde eu sentara, corri a uma das margens e entrei nas águas mornas da lagoa. Foi então que reparei. A mulher do outro carro, vinha abraçada ao namorado, ambos caminhavam também para um banho de final de tarde. Só que ela vinha de biquíni. Meu namorado, ao repará-los quase próximos a mim, pensou vir ao meu socorro. Mas ficou apenas no pensamento. O casal não me reparou. Ambos estavam muito entusiasmados para se preocuparem com qualquer outra pessoa.

quarta-feira, abril 20, 2022

Outra história

Em todo lugar, há muitas garotas de dezoito ou vinte anos a fim de arranjar namorados. Por isso, para quem já passou dos trinta, é difícil a competição. Mesmo um homem para sair uma noite ou outra, ir a um bar ou a um restaurante, já é complicado. As mulheres maduras precisam desenvolver vários artifícios para conquistá-los. Um deles é não ser muito fácil. Há mulheres que se oferecem, tem relações com todos que aparecem, acham que agindo assim conseguirão o homem mais bonito do pedaço. No entanto, não é esse o caminho. Quando morei em NY, agia dessa maneira, mas pouco a pouco percebi que era relegada pelas mais jovens. Então, comecei a estudar a situação. Passei a gostar de distrações mais sofisticadas, como ir ao cinema ou ao teatro, conversar com pessoas de maior cultura, mesmo não sendo essa a minha origem. Não consegui namorado, mas aumentei o número de amigos e amigas. Encontrava as mesmas pessoas em todos os lugares e passei a sair com muitas delas. Saídas aqui consistia em ir a um bar depois da sessão, onde quase todos estavam e se podia conversar sobre o espetáculo visto. Às vezes, em meio aos participantes, se encontrava alguém que dava o número do telefone ou marcava um encontro para o dia seguinte.

Dentro da minha nova realidade, apareceu um homem morador próximo a mim, mas de características muito diferentes das que eu estava vivendo. Ele frequentava os bares da comunidade, assistia a jogos de futebol, não ia ao cinema nem ao teatro. Não sei por que, em meio a tantas mulheres jovens, ele veio a mim, e pediu-me para conversar. Não neguei a conversa, mas percebeu que o meu universo era muito diferente do seu. Em um momento, falou: “você vai aos seus espetáculos e encontra comigo depois que chegar, se quiser pode passar lá em casa”. Passar lá em casa significava dormir com ele depois de tudo que eu e ele havíamos vivido, separadamente. Não considerei a proposta de imediato, mas depois pensei nela e lembrei de uma amiga que dizia ao namorado para sair com os amigos e depois aparecer na casa dela, mesmo que já passasse da meia-noite.

Acabei aceitando a proposta, só para experimentar. Fazia o que desejava e, já madrugada, nos encontrávamos para passar a noite juntos. Pela manhã, eu partia, ele ainda ficava dormindo. A relação passou a ser duradoura. Não perguntávamos o que cada um fizera durante o dia. Também não demonstrávamos ciúme algum. Um dia, porém, uma mulher chamada Janina, veio falar comigo. Disse que eu estava dormindo na casa do namorado dela. “Seu namorado?”, surpreendi-me, “ele me convida sempre para passar a noite com ele, não sabia que tinha namorada”.

Daquele dia em diante, não mais apareci na casa do homem. Depois de uma semana, ele veio me procurar. Contei-lhe o encontro com a tal mulher. Disse que era mentira, que iria falar com ela. Mesmo depois de sua afirmação, não voltei a casa dele. Descobri, mais tarde, que eles se casaram.

Hoje, depois de ir a tantos espetáculos, me tornei atriz. Foi simples, fiz um curso de um ano, uma prova de seleção para uma peça. Consegui o papel principal. Mais tarde, me procuraram para fazer um filme. Aceitei. Depois do sucesso do filme, fiz uma série para a TV. É lógico que, no meio desse percurso, me mudei da comunidade onde morava. Passei a viver num bairro próximo à zona sul da cidade.

Minha mudança de vida surtira efeito. Eu me tornara outra pessoa. Quanto a arranjar namorados, isso é outra história.

quarta-feira, abril 13, 2022

Última façanha amorosa

“Márcia, você é fogo, viu, não perde tempo, mal conheceu o homem já foi com ele.”

“Tem que ser assim, Sônia, vamos que ele desapareça no dia seguinte.”

“Desapareça?”

“Isso mesmo, tem tanta mulher tarada por aí.”

Sônia riu sem discrição, não fazia parte das mulheres taradas.

“Márcia, eu reparei bem, vocês estavam dentro do táxi, ele era bem mais jovem do que você.”

“E o que há de mal nisso? Quanto mais jovem, melhor; há algo que apenas os jovens têm”, revirei os olhos depois da última palavra. Sônia entendeu o que eu queria dizer.

“Ele era um amigo do meu filho.”

“Por favor, mãe, não conte para ninguém, se meus amigos souberem, passo vergonha.”

Estava preocupado, ele tem 22 anos; o amigo, 24, e a mãe, 45, namorada do amigo.

“Por mim, tudo bem, mas fale isso também para ele”, encerrei o assunto.

No dia seguinte, fui com o namoradinho a um passeio. Ele dirigia, eu olhava a estrada. Subimos uma serra, a vista era bonita lá de cima. Chegamos a um vilarejo onde a maioria das casas era de madeira. Estacionou. Fomos até uma das casas. Um restaurante parecido a um chalé suíço.

“Que lugar lindo, não conhecia”, falei.

“Fico contente que você tenha gostado.”

“Verdade, não sabia que, há duas horas do Rio, existe um lugar desses.”

A dona do restaurante veio falar com a gente, trouxe um cardápio comprido. Havia comidinhas da região, peixes de rio, arroz com açafrão. Não faltou a caipirinha.

Em um determinado momento, saí para fumar. Ele permaneceu à mesa. A dona voltou e comentou com ele algo que não consegui ouvir. Fiquei fumando e olhando a pequena praça que distava uns duzentos metros de onde eu estava. Passou, vagarosa, uma perua, que estacionou um pouquinho antes da praça, trazia uma canoa na capota. Uma moça saltou do carro pela porta do motorista. Vestia uma camiseta super curta e estava de biquíni. Achei estranho uma mulher quase nua num local de montanha, mas depois me lembrei da canoa, logo, o rio, daí o minúsculo traje. Ela veio até onde eu estava.

“Você tem um cigarro para me emprestar?”, pediu.

Ofereci. Acendeu no meu isqueiro, agradeceu dizendo que se eu quisesse ela tinha canabis, e o fumo do lugar era ótimo. A moça morava logo na segunda casa a seguir. Agradeci, disse que iria pensar no caso.

“Não pense, não, pegue logo comigo, depois você pode não me encontrar.”

Aceitei. Ela foi até a casa e voltou com um longo cigarro de maconha.

“Não se preocupe, disse, aqui todos fumam, faz bem para a saúde e para a economia local.”

Sorriu depois da frase, como uma expert em economia.

Voltei para o restaurante, não falei nada ao namorado. Comemos e bebemos durante uma hora e meia. Tomei duas caipirinhas e comi alguns camarões.

“Engraçado ter camarões aqui”, afirmei.

“Tem tudo que a gente quiser.”

“Será?”, fiz uma cara de deboche, tentando deixar no rapaz uma ponta de desconfiança sobre o que eu desejava.

Andamos um pouco, saímos do vilarejo e chegamos a um platô, uma altitude acima do conjunto de casas.

Tirei o baseado da bolsa e acendi. O namorado nada falou. Depois de alguns tragos, passei a ele, que fumou com prazer.

“Vi quando a moça te chamou e foi pegar pra você”, disse e apontou o cigarro.

“Não sabia que as coisas aqui são tão fáceis, ela nada me cobrou.”

“Os moradores são afáveis, e vivem de um modo diferente da gente lá de baixo.”

Descemos por uma trilha, chegamos a uma das margens do rio. O baseado não demorou a acabar. Eu me sentia plena de amor para dar. O namoradinho notou.

Tirei toda a roupa e a coloquei no sopé de uma árvore. Entrei no rio. A água fria me provocou arrepios e um pouco mais de tesão. O namorado veio atrás, mas não teve coragem de ficar nu. Abracei-o de frente. A corrente d’água me impregnava de frisson, uma ou outra ave passava e emitia o seu som, o farfalhar do vento sobre as copas, um ou outro barulho no meio do mato, tudo me provocava. Eram coisas maravilhosas para uma mulher da cidade grande, que não sabe o prazer que há em lugares assim.

Não sei quanto tempo permaneci agarrada a ele. Também não sei descrever a intensidade do prazer que eu sentia. Me lembro que pensei: que bom meu namoradinho de 20 anos. Caso eu arranjasse um de 40, tenho certeza, não estaria nua dentro de um rio, banhada por aquelas águas que vinham ainda selvagens de uma cachoeira que não estava muito longe de nós.

Dormimos numa pousada que ficava sobre o mesmo restaurante onde almoçáramos. Ao acordar, na manhã seguinte, encontrei um bilhete do namorado, que eu o encontrasse no rio, no mesmo lugar da véspera. Não perdi tempo, vesti-me sumariamente e corri até o local. Estavam dentro d’água, ele e a dona do restaurante. Acenaram para que eu mergulhasse e me juntasse a eles. Antes, porém, ele apontou a árvore onde ambos haviam deixado suas roupas.

Não contei a Sônia sobre o passeio nem sobre aquela relação a três, de amor ou de amizade, como ele definiu. Foi tão bom que podia dar azar. Nunca é bom falar demais. Acho também que ela não entenderia. Suas histórias de amor são um tanto atrapalhadas. Ela também gosta de andar nua, contou que certa vez foi como viera ao mundo no banco do carona, no carro do namorado. Quando a encontrei, ela quis que eu contasse tudo, mas eu apenas disse adivinhe!, e sorri, um sorriso dissimulado. Ela, para romper o silêncio, contou a sua última façanha amorosa.

quarta-feira, abril 06, 2022

Mulher em dobro

Você tem um pênis enorme, ele me disse.

Como posso ter um pênis?, sou uma mulher.

Também não sei, acho que surgiu de ontem pra hoje, repare, apalpe você mesma.

Verdade, mas como?


Estávamos os dois deitados, ele nu, eu de camiseta, apenas.

Veja, até que é interessante, uma mulher com um pênis, vou me divertir em dobro, disse ele.

Você fala sério?

Claro, será mais estimulante.


Ele me virou, na cama, tirou minha camiseta, segurou onde dizia estar meu peru.


Repare como ele cresce, e você ainda tem a vagina, bonita como sempre. Só existe um problema, não para ser resolvido agora: como você vai usar aquele minúsculo biquíni que veste para ir à praia?, e a minissaia?, acho que um peru deste tamanho vai escapar, um escândalo.

Dou um jeito, falei animada, há jeito pra tudo nessa vida, tanto mais quando se tem um pênis exagerado, mas confesso, apesar do pênis gosto mesmo dos homens.

Não importa, o que vale é estarmos juntos, o pênis é um dado a mais, você vai gozar em dobro, aliás, vou fazer você gozar em dobro.

Então, comece, estou adorando, vou ser uma mulher em dobro, uma mulher com pênis, que goza de duas maneiras diferentes, isso mesmo, estou sentindo, comece assim.

Você vai adorar, disse, mudando de posição, a bunda voltada pro meu rosto.

Continue, amor, estique um pouquinho, segure-o por baixo, estou descobrindo que sou mais sensível aí, isso, devagar, não quero gozar logo.

Que bom, não?, você também pode enfiar, vai ter tal experiência, quero dizer, já está tendo, está gostando, ele dizia enquanto trepávamos.


Entrava uma faixa de sol pela janela.


O que me dá mais tesão é imaginar você vestida de mulher, com esse pênis enorme, duro, embaixo da saia.

Ah, quando sairmos, ele vai ficar pequenino, escondidinho, ninguém vai notar, falei espirituosa.

Mas, se eu roubar tua calcinha?

Não tinha pensado nisso, vixe, de saia e sem calcinha; tenho uma amiga que adora sair sem calcinha, mas não tem pênis; se tem, jamais me falou.

Não deve ter, mas enfia, enfia com gosto, isso, uma mulher com pênis, dá pra gente namorar em dobro, uma mulher que enfia, namoro completo, ele delirava.

Ai, acho que vou gozar, nunca gozei com um pênis, é novidade, como devo fazer?, perguntei sentindo que alguma coisa me escapava.

Não precisa fazer nada, fique quietinha, é natural, funciona como uma planta selvagem, cresce sozinha.

Ai, parece que tenho uma torneira entre as pernas, nunca senti nada igual.

Teu jato é quente, continue, continue, isso, não pare.

Ai, ter pênis é trabalhoso, gozei, não sei mais o que faço, só sei que estou morrendo de vergonha, é assim mesmo, depois do gozo a vergonha?

Não, no teu caso, nada de vergonha, agora abra as pernas, abra bem, vou fazer você gozar pela boceta!


Vânia, prestou atenção na história que acabei de te contar ou está pensando em outra coisa?

Prestei, sim.

O que achou?

Quero ver teu pênis.

Jura?

Juro, vai, mostre.

Primeiro é necessário sentir.

Sem ver?

Isso mesmo, insisti, você precisa sentir.

Minha amiga abaixou a calça.

Isso, fique de costas, primeiro sinta, depois deixo que veja.

Ana, nunca transei com mulher.

Não sou mulher, agora, mas um homem, isso, assim, quietinha.

Ah, estou sentindo, um peru enorme.

Abre bem as pernas, apoie no encosto do sofá, isso, apesar de você de costas estou tentando meter na frente.

Isso, Ana, continue, não pare, não sabia que isso era possível, como você é gostosa, ou gostoso, não sei, não pare, estou toda molhada, não demora gozo, ai, mais fundo, isso, ai ai ai, que gozo, que gozo, não para, mas não goza, não, Ana, deixa eu gozar sozinha, você não, por favor, você não.

Você é muito gostosa, Vânia, isso, assim, mexe também, estou tentando me segurar, estou tentando, ui ui ui, a gente às vezes consegue, outras nem tanto... ui, Vânia, gostosa...


Acabamos as duas lambuzadas, uma caída pra cada lado, Vânia ainda no sofá, eu aos seus pés.


Ana, agora quero ver teu pênis, mostre, ele é muito gostoso.

O bom é sentir, ver não vai fazer efeito, desculpe se não cumpro minha palavra.

Tapei-me com as duas mãos e corri ao banheiro.


Vânia, você viu minha calcinha?, perguntei, ao voltar.

Rá, rá, rá, se não me mostrar, vai com ele dependurado, debaixo da saia!


Cortei um dobrado. Que mulher tarada!

quarta-feira, março 30, 2022

Fugidinha

Domingo de sol com o namorado. Bebemos refrescos com pedras de gelo. Ao longe, a praia. Olho o celular, uma mensagem. De um admirador. Não posso ler à vontade. O namorado aproxima-se, beija-me, acaricia-me, não tem a intenção de olhar o que me vem pelas antenas. Guardo o telefone. É o Alberto, tenho certeza, gosta de me enviar elogios nos dias de domingo.

Certa vez nos encontramos ao acaso e passeamos pela orla marítima a manhã inteira, eu não tinha compromisso naquele dia. Alberto me olhava, com seu jeito sedutor. Eu, calada. Como toda mulher, gosto de ser apreciada pelos homens. Ele sabia que nosso passeio era apenas pelo passeio mesmo, não poderíamos ir além. Em determinado momento, paramos e ele comprou sorvetes. Não sou muito de sorvetes mas, para agradá-lo, aceitei. Minha boca ficou muito vermelha. Morango é a tentação. Teve vontade de me beijar, em meio ao morango, à temperatura fria do sorvete e ao sol que nos enlouquecia o desejo. Passeamos e passeamos. Delicado, despediu-se no final do dia. Já tive namorados desse tipo, me comiam com os olhos e queriam me levar ao seu apartamento, ou mesmo a um hotel. Alberto, porém, nada falou. A gente se encontra por aí, qualquer dia desses, eu disse. Não mais o vi.

Agora, eu com o namorado e a mensagem de Alberto no celular. O namorado disfarça, tenta respeitar minha independência, mas sinto que o ciúme não lhe abandona. Nenhum homem quer sua mulher recebendo mensagens de outros homens, sejam eles apenas amigos ou mesmo parentes, querem a mulher apenas para si. Como conviver com isso? Vai à cozinha. "Vou pegar uma cerveja", diz. Consulto o celular? Não, não consulto. Ele volta rápido e vai me surpreender. O problema de ter compromisso com um homem implica inconvenientes. Como posso saber o que Alberto tem a me dizer? Deve estar na orla e lembrou-se de mim.

Vem-me à cabeça um domingo de outros tempos, um namoro não me lembro com quem. Estava eu na praia, final do dia, acabei na casa do homem. Acho que o lugar era Mangaratiba. Ou será que cheguei a trepar com Alberto naquele domingo? Não, não era Alberto. A trepada foi boa. O homem me tirou o biquíni e se pôs a me acariciar longamente. Tão longamente que cheguei a cochilar. Estava tão bom. Ao passar a língua sobre os meus lábios, despertei. Eu, nua às cinco e meia da tarde, numa casa de praia, com um homem que conhecera horas antes. Será que há outras pessoas na casa?, cheguei a me preocupar. Quando pensei nisso, senti o seu pênis a me penetrar. Suave, muito suave, escorregadio, abria todas as cancelas. Pingos de leite. Por que a lembrança agora, o que a mensagem de Alberto tem de ver com isso?

O namorado volta com a cerveja. “Você está bebendo refresco, mas tenho certeza de que vai me acompanhar na cerveja”. “Acompanho, claro”. Ainda bem, o pensamento, uma fugidinha. Eu, nos braços de outro, a pele lisa, morango com chantili não combina com cerveja. Engulo o morango.

quarta-feira, março 23, 2022

Essas mulheres mentem que só

Uma amiga contou uma história interessante. Há um homem que gosta dela, disposto a convidá-la aos melhores lugares e, até mesmo, a lhe fazer depósitos mensais na conta bancária. Ela, porém, não mais telefonou para ele. Por quê?, eu quis saber. Não diga pra ninguém, não porque eu não seja capaz de aproveitar tal situação, mas o motivo é que conheci outro homem. Continuei admirada. Minha amiga já namorou mais do que um, aliás, mais do que dois ao mesmo tempo. Mas, Valba (vamos lhe dar um nome), você já foi tão mais atirada... Ela voltou a contar sobre a situação, o novo namorado era um homão de quase dois metros, bonitos, de parar o trânsito (achei engraçada a expressão, tão antiga e usada para casos de mulheres bonitas). Não posso me arriscar, Célia, não posso perder o homem. Por que você o perderia?, não entendo, você sempre tão hábil, capaz de endoidecer todos eles. Valba me olhou com seriedade, não ficou calada: há fases da nossa vida em que temos que pisar no freio. A amiga mostrava-se hábil em metáforas automobilísticas. Ele é muito gostoso, jamais tive um homem assim, você sabe que os homens gozam muito rápido, deixam a gente na saudade, ele consegue se controlar, fica trepando durante horas, não imagina o tanto que eu gozo em uma noite ao lado dele, conto isso apenas a você, nada de espalhar por aí, podem me roubar o namorado. Nada disso, rebati, ele deve ser hábil em namorar mais do que uma ao mesmo tempo. Acabei deixando Valba em dúvida, chamei um Uber e fui embora, tinha um compromisso e já eram seis da tarde.

Depois que cheguei em casa, meu compromisso: o vizinho que vive batendo à minha porta às sete horas, dá boa noite e conta alguma coisa que lhe aconteceu durante o dia, no trabalho. Como surgiu a amizade, como tamanha intimidade? Não lembro, são essas coisas que acontecem na vida da gente e não temos explicação. Quando fui morar no prédio, ele já estava lá. Não se aproximou porque moro sozinha. Há outras mulheres como eu nos outros apartamentos. A preferência dele é por mim. Por outro lado, nunca tentou nada além de uma boa conversa. Já saímos diversas vezes, num sábado ou domingo, para um cinema ou um restaurante. No começo, fiquei desconfiada, achei que ele me levaria para cama. No entanto, nunca criou a oportunidade. Agora, acho que já não há clima para isso. Seria gay? Não. Uma mulher me parou na rua para me dizer que meu namorado é muito gostoso. Namorado?, repeti. Aquele homem que vive com você pra cima e pra baixo, já namorei com ele. Sorri, e não lhe disse a verdade, preferi que pensasse em namorados.

Não é um negão de dois metros, como o namorado de Valba, e não tem o aspecto de que vai trepar com uma mulher a noite inteira provocando-lhe orgasmos múltiplos. A conversa dele é sobre livros, peças de teatros e um ou outro filme.

Deu sete horas, ele bateu pra me cumprimentar. Hoje foi um dia especial, trouxe um presente pra você. Pedi que entrasse. Entrou e me deu uma caixa num papel cheio de flores. Chocolate belga, uma amiga acabou de chegar da Europa e me trouxe alguns presentes, achei que esse se encaixaria muito bem pra você. Sorri, com a caixa de bombons belgas nas mãos. Enquanto ele contava alguma história daquele dia, imaginei Valba na cama com o seu homão, gozando várias vezes. Imaginei Valba a receber várias propostas do homem que lhe levaria a vários lugares chique, que lhe faria depósitos bancários, que ela dispensou. Imaginei-a mastigando bombons belgas. Depois, disse a mim mesma, em pensamento, enquanto meu amigo arrematava sua história: Célia, essas mulheres mentem que só.

quarta-feira, março 16, 2022

E ela beijava tão bem!

Estava num restaurante, na Barão da Torre esquina com a Vinicius de Morais. Era domingo de carnaval. Um carnaval em suspenso por causa do Covid. A quantidade de pessoas tanto do lado de dentro quanto na calçada, onde conversavam em pequenos grupos e aguardavam uma mesa, era grande. Entardecia. Muitos vinham da praia. Homens, mulheres, alguns trazendo crianças, muitos rapazes e moças. Nas mesas, todos bebiam seu chope ou algum drink colorido. As mulheres, principalmente, vestiam roupas curtas, como biquínis ou cangas transparentes, que não escondiam corpos bem delineados.

Não sou do Rio, e sempre achei a cidade aberta a qualquer experiência no modo de vestir ou de ser, por isso eu trajava um maiô que me deixava com metade dos seios de fora, o tipo de roupa de banho presa por uma tira em volta do pescoço que, descendo, apresenta as laterais muito compridas, o que permite a apreciação da massa tão adorada pelos homens. Quando a garçonete nos indicou a mesa, recebi muitos olhares; depois, já sentada, não houve disfarce, tantos os homens acompanhados quanto suas mulheres se voltaram para mim. De certa forma, eu sorria em retribuição, como uma turista maravilhada à recepção calorosa. Já que não há carnaval, há as fantasias, pensei, não há problema eu incentivar. Acompanhavam-me duas mulheres jovens, mais ou menos da minha idade, e um homem, de seus trinta anos, ele estacionara o automóvel nas proximidades e chegara alguns minutos depois de estarmos sentadas.

Pedi um drink, como o faziam algumas pessoas, um coquetel de gim, com alguma fruta vermelha, que tinha como cobertura creme de gengibre. O coquetel aparentava ares de milkshake, só que era alcoólico.

Já comera muito durante o dia, naquele momento belisquei apenas dois pastéis de camarão. Depois de conversarmos sobre o dia, os prazeres da viagem, o apartamento onde estávamos instaladas, percebi que um certo pilequinho me avizinhava. Ah, era o gengibre. Tal raiz é afrodisíaca. Lembrei de uma amiga que fazia chá com ele quando esperava o namorado. É uma extravagância, ela afirmava, não tome isso sozinha. Eu, no Rio, com outras mulheres, e sem namorado. Como iria fazer? Dá-se um jeito, tentei me consolar.

Minhas amigas e o amigo comeram torresmo. Sério, de onde se faz torresmo? Sou urbana, desculpe a má pergunta. Da barriga do porco, alguém respondeu. Sempre achei porco um animal tão bonitinho, mas nada falei para não estragar a festa.

Ficamos no restaurante durante uma hora e meia. Eu, atirada, bebi dois do tal coquetel. Meu amigo tomou dois chopes. Vou ter de deixar o carro no estacionamento, afirmou. Não faz mal, disse uma das moças, vamos até a Farme de Amoedo, fica aqui perto e é uma rua muito divertida.

Eram nove da noite quando seguimos pela Vinícius, atravessamos a Visconde de Pirajá, dobramos à esquerda e caminhamos até a Farme. O ar noturno, que vinha da orla marítima, me animou. Minhas amigas observavam as pessoas e faziam comentários. Ao chegarmos à esquina da nossa rua pretendida, havia muita gente conversando na beira do meio fio. Muitos seguravam garrafinhas de Heineken, outros fumavam. Homens conversavam com homens, mulheres com mulheres. Percebi, então, que se tratava de um ponto turístico gay, um dos mais famosos do Rio de Janeiro. Saiu numa revista americana que este lugar está entre os cem melhores do mundo, onde os homossexuais podem se sentir à vontade. Caminhamos até um aglomerado de gente na porta de um dos bares. Muitas mulheres conversavam em inglês; adiante, alguns homens também trocavam palavras na mesma língua. O que vamos fazer aqui?, perguntou uma das amigas. Quem sabe, respondeu outra, não viemos para arranjar namorado nem namorada, ela mesma continuou; mas, às  vezes, descobre-se alguma coisa nova. Uma das americanas veio até a mim, olhou meus seios quase de fora e disse Uau, you are in the right place. Tacou-me, então, um beijo na boca. Nem fiz menção de escapar. E ela beijava tão bem!

quarta-feira, março 02, 2022

Nem algodão nem cola

O carnaval é uma festa de prazer, inventamos tantas coisas boas, depois sentimos falta. No último, antes do Covid, vivi uma situação muito engraçada. Ao recordá-la, hoje, morro de rir.

Vestida apenas de biquíni (quem me conhece, já sabe o tamanho; os outros, imaginem) e com dois pequenos pompons de algodão colado nos bicos dos seios, fui desfilar num bloco que saía domingo, na General Osório. O desfile começava em torno das cinco da tarde e durava mais ou menos duas horas. O bloco costumava contornar a praça, seguir por uma rua lateral e entrar na Vieira Souto; dali, avançava até a Joana Angélica, quando então dobrava à direita e voltava pela Visconde de Pirajá. Porém (sempre há um porém na minha vida, ainda bem), aconteceu-me um problema. Logo no início do desfile, antes de entrarmos na orla, alguém veio me avisar que o pompom que cobria o meu seio esquerdo tinha se soltado e eu estava nua. O que há de mau nisso?, perguntei, o algodão já não cobria mesmo quase nada. Continuei dançando. Mas o pessoal da organização veio conversar. Um homem me pediu, com toda a educação, que vestisse a camiseta do bloco, porque ali havia crianças desfilando, não ficava bem para a agremiação apresentar cenas de nudismo às cinco da tarde. Não discuti, vesti a camiseta e continuei a dançar. Muitas pessoas, que assistiam ao desfile, ficaram aborrecidas, queriam continuar a ver-me nua, ao menos pela metade. Azar o delas, eu tentava me desculpar, nem tudo na vida sai como a gente deseja. Desfilei e me diverti muito.

No final, quis devolver a camiseta, mas o homem disse que eu poderia guardá-la, todos os integrantes tinham direito ao tal brinde. Quem me quer como brinde? Gracejei.

Continuei com meu biquininho, entre os amigos, bebia cerveja com eles. Depois de alguns minutos, lembrei-me de que poderia restaurar a minha fantasia original. Colei novos maços de algodão nos seios e pude ficar, novamente, nua. Os homens passavam só para me admirar. Eu fingia que a fantasia era a coisa mais normal do mundo.

Então, aconteceu o inesperado. Um grupo de travestis veio a mim. Todos estavam muito bem fantasiados, ao contrário do que eu apresentava. Você vem com a gente, por favor, precisamos de uma mulher, e bem nua!, exclamou um deles sorrindo. Bem nua?, repeti rindo. Isso mesmo, assegurou. Tomou-me pelo braço e cochichou-me um segredo. Aceitei o convite, mas fiquei temerosa de ter problemas. Garantimos, há toda a segurança do mundo. Você vai fazer o maior sucesso, disseram; não é de graça não, viu, ainda vai ganhar um cachê.

Fui com eles, um baile no Joá, como nos velhos tempos. Você sabe, mulher tem mais liberdade do que nós, segredou-me outro trans. Olhe o que vocês vão me aprontar, disse e caí na gargalhada.

Na festa, eles faziam parte de uma alegoria. Trocaram de fantasia, vestiram roupas super extravagantes, mínimas, tornaram-se mais nus do que eu. Como não eram mulheres, não lhes era permitida a nudez total. Aqui, é que entro em cena. Na primeira apresentação, apareço dançando no meio deles, com uma camiseta, apenas; na segunda, o biquininho, os chumaços de algodão e uma fita a me rodear o pescoço, uma espécie de colar comprido, cor de rosa, com enfeites aqui e acolá. Depois da meia noite, houve o show principal. As trans entravam dançando quase nuas; a seguir, era a minha vez. Uma delas, depois de duas músicas, vinha até a mim e descolava os algodões; depois, vinha outra e me roubava o biquininho; uma outra despia-me da fita cor de rosa e arremessava ao público delirante. Muitos homens me apontaram a lanterna do celular, tentavam, inutilmente, descobrir onde eu escondia o meu pênis! E não precisei de algodão nem cola.